{"id":114726,"date":"2017-03-21T19:02:27","date_gmt":"2017-03-21T21:02:27","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=114726"},"modified":"2017-03-21T19:02:27","modified_gmt":"2017-03-21T21:02:27","slug":"casa-nao-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/casa-nao-casa","title":{"rendered":"Casa, n\u00e3o casa"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de assis<\/h2>\n<p>Se alguma das minhas leitoras morasse na Rua de S.Pedro da cidade nova, h\u00e1 cousa de quinze anos, e estivesse \u00e0 janela na noite de 16 de mar\u00e7o, entre uma e duas horas, teria ocasi\u00e3o de presenciar um caso extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Morava ali, entre a Rua Formosa e a Rua das Flores, uma mo\u00e7a de vinte e dous anos, bonita como todas as hero\u00ednas de romances e contos, a qual mo\u00e7a na sobredita noite de 16 de mar\u00e7o, entre uma e duas horas, levantou-se da cama e a passo lento foi at\u00e9 \u00e0 sala com uma luz na m\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o estando as janelas fechadas, a leitora, caso morasse defronte, veria a nossa hero\u00edna pousar a vela sobre um aparador, abrir um \u00e1lbum, tirar um retrato, que n\u00e3o saberia se era de homem ou de mulher, mas que eu lhe afirmo ser de mulher.<\/p>\n<p>Tirado o retrato do \u00e1lbum, pegou a mo\u00e7a na vela, desceu a escada, abriu a porta da rua e saiu. A leitora ficaria naturalmente assombrada com tudo isto; mas que n\u00e3o diria quando a visse seguir pela rua acima, voltar a das Flores, ir at\u00e9 \u00e0 do Conde, e parar \u00e0 porta de uma casa? Justamente \u00e0 janela dessa casa estava um homem, rapaz ainda, vinte e sete anos, olhando para as estrelas e fumando um charuto.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a parou.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o espantou-se do caso, e vendo que ela parecia querer entrar, desceu a escada, com uma vela acesa e abriu a porta.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a entrou.<\/p>\n<p>\u2014 Isabel! exclamou o rapaz deixando cair a vela no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Ficaram \u00e0s escuras no corredor. Felizmente trazia o mo\u00e7o f\u00f3sforos na algibeira, acendeu outra vez a vela e fitou os olhos na rec\u00e9m-chegada.<\/p>\n<p>Isabel (tal era o seu verdadeiro nome) estendeu o retrato ao rapaz, sem dizer palavra, com os olhos fitos no ar.<\/p>\n<p>O rapaz n\u00e3o pegou logo no retrato.<\/p>\n<p>\u2014 Isabel! exclamou ele outra vez mas j\u00e1 com a voz sumida. A mo\u00e7a deixou cair o retrato no ch\u00e3o, voltou as costas e saiu. O dono da casa ainda mais aterrado ficou.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9 isto? dizia ele; estar\u00e1 louca? P\u00f4s a vela sobre um degrau da escada, saiu \u00e0 rua, fechou a porta e seguiu lentamente atr\u00e1s de Isabel, que foi pelo mesmo caminho at\u00e9 entrar em casa.<\/p>\n<p>O mancebo respirou quando viu Isabel entrar na casa; mas ficou ali alguns instantes, a olhar para a porta, sem nada compreender e ansioso por que chegasse o dia. Todavia era for\u00e7oso voltar para a Rua do Conde; lan\u00e7ou um \u00faltimo olhar \u00e0s janelas da casa e retirou-se.<\/p>\n<p>Ao entrar em casa apanhou o retrato.<\/p>\n<p>\u2014 Lu\u00edsa! disse ele.<\/p>\n<p>Esfregou os olhos como se duvidasse do que via, e ficou parado na escada a olhar largos minutos para o retrato.<\/p>\n<p>Era preciso subir.<\/p>\n<p>Subiu.<\/p>\n<p>\u2014 Que querer\u00e1 isto dizer? disse ele j\u00e1 em voz alta como se falasse a algu\u00e9m. Que aud\u00e1cia foi essa de Isabel? Como \u00e9 que uma mo\u00e7a, filha de fam\u00edlia, sai assim de noite para&#8230; Mas estarei eu sonhando? Examinou o retrato, e viu que tinha nas costas as seguintes linhas: \u00c0 minha querida amiga Isabel, como lembran\u00e7a de eterna amizade.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA.<\/p>\n<p>J\u00falio (era o nome do rapaz) n\u00e3o p\u00f4de descobrir nada por mais que parafusasse, e parafusou muito tempo, j\u00e1 deitado no sof\u00e1 da sala, j\u00e1 encostado \u00e0 janela.<\/p>\n<p>E na verdade quem seria capaz de descobrir o mist\u00e9rio daquela visita a semelhante hora? Tudo parecia antes uma cena de drama ou romance t\u00e9trico, do que um ato natural da vida.<\/p>\n<p>O retrato&#8230; O retrato tinha certa explica\u00e7\u00e3o. J\u00falio andava quinze dias antes a trocar cartas com o original, a formosa Lu\u00edsa, moradora no Rocio Pequeno, hoje Pra\u00e7a Onze de Junho.<\/p>\n<p>Todavia, por mais agrad\u00e1vel que lhe fosse receber o retrato de Lu\u00edsa, como admitir a maneira por que lho levaram, e a pessoa, e a hora, e as circunst\u00e2ncias? \u2014 Sonho ou estou doudo! concluiu J\u00falio depois de longo tempo.<\/p>\n<p>E chegando \u00e0 janela, acendeu outro charuto.<\/p>\n<p>Nova surpresa o esperava.<\/p>\n<p>Vejamos qual foi ela.<\/p>\n<p>CAP\u00cdTULO II N\u00e3o havia fumado ainda uma ter\u00e7a parte do charuto, quando viu dobrar a esquina um vulto de mulher, caminhando lentamente, e parar \u00e0 porta da casa dele.<\/p>\n<p>\u2014 Outra vez! exclamou J\u00falio. Quis descer logo; mas as pernas come\u00e7avam a tremer-lhe. J\u00falio n\u00e3o era tipo de extrema valentia; creio at\u00e9 que se lhe chamarmos medroso n\u00e3o estaremos longe da verdade.<\/p>\n<p>O vulto, entretanto, estava \u00e0 porta; era for\u00e7oso tir\u00e1-lo dali, a fim de evitar um esc\u00e2ndalo.<\/p>\n<p>&#8220;Desta vez, pensou ele pegando na vela, hei de interrog\u00e1-la; n\u00e3o a deixo sair sem me dizer o que h\u00e1. Infeliz. Parece-me que est\u00e1 douda!&#8221; Desceu; abriu a porta.<\/p>\n<p>\u2014 Lu\u00edsa! exclamou.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a estendeu-lhe um retrato; J\u00falio pegou nele com \u00e2nsia e murmurou consigo: &#8220;Isabel!&#8221; Era efetivamente o retrato da primeira mo\u00e7a que a segunda lhe trazia.<\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 preciso dizer ou repetir que J\u00falio namorava tamb\u00e9m a Isabel, e a leitora compreende facilmente que, tendo ambas descoberto o segredo uma da outra, ambas foram mostrar ao namorado que estavam cientes da sua duplicidade.<\/p>\n<p>Mas por que motivo tais cousas se davam assim revestidas de circunst\u00e2ncias singulares e tenebrosas? N\u00e3o era mais natural mandarem-lhe os retratos dentro de uma sobrecarta? Tais eram as reflex\u00f5es que J\u00falio fazia, com o retrato numa das m\u00e3os e a vela na outra, enquanto j\u00e1 de volta entrava em casa.<\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 preciso dizer que o nosso J\u00falio n\u00e3o dormiu o resto da noite.<\/p>\n<p>Chegou a ir \u00e0 cama e a fechar os olhos; tinha o corpo mo\u00eddo e necessidade de sono; mas a imagina\u00e7\u00e3o velava, e a madrugada veio ach\u00e1-lo acordado e aflito.<\/p>\n<p>No dia seguinte foi visitar Isabel; achou-a triste; falou-lhe; mas quando quis dizer-lhe alguma cousa do sucesso, a mo\u00e7a afastou-se dele, talvez porque adivinhasse o que ia ele dizer-lhe, talvez porque j\u00e1 estivesse aborrecida de o ouvir.<\/p>\n<p>J\u00falio foi a casa de Lu\u00edsa, achou-a no mesmo estado, as mesmas circunst\u00e2ncias se deram.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 claro que descobriram o segredo uma da outra, dizia ele consigo. N\u00e3o h\u00e1 rem\u00e9dio sen\u00e3o desfazer a m\u00e1 impress\u00e3o de ambas. Mas como se me n\u00e3o querem ouvir? Ao mesmo tempo desejava explica\u00e7\u00e3o do ato atrevido que ontem praticaram, salvo se foi sonho meu, o que \u00e9 bem poss\u00edvel. Ou ent\u00e3o estarei doudo&#8230;&#8221; Antes de ir adiante, e n\u00e3o ser\u00e1 longe porque a hist\u00f3ria \u00e9 pequena, conv\u00e9m dizer que este J\u00falio n\u00e3o tinha paix\u00e3o real por nenhuma das duas mo\u00e7as. Come\u00e7ou o namoro com Isabel por ocasi\u00e3o de uma ceia de Natal, e travou rela\u00e7\u00f5es com a fam\u00edlia que o recebera muito bem. Isabel correspondeu um pouco ao namoro de J\u00falio, sem todavia lhe dar grandes esperan\u00e7as porque ent\u00e3o andava tamb\u00e9m \u00e0 corda de um oficial do ex\u00e9rcito que teve de embarcar para o Sul. S\u00f3 depois que ele embarcou foi que Isabel de todo se voltou para J\u00falio.<\/p>\n<p>Ora, o nosso J\u00falio j\u00e1 ent\u00e3o lan\u00e7ara as suas baterias contra a outra fortaleza, a formosa Lu\u00edsa, amiga de Isabel, e que desde princ\u00edpio aceitou o namoro com ambas as m\u00e3os.<\/p>\n<p>Nem por isso rejeitou a corda que lhe dava Isabel; manteve-se entre as duas sem saber qual delas devia preferir. O cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha a este respeito opini\u00e3o assentada. J\u00falio n\u00e3o amava, repito; era incapaz de amar&#8230; Seu fim era casar com uma mo\u00e7a bonita; ambas o eram, restavalhe saber qual delas lhe convinha mais.<\/p>\n<p>As duas mo\u00e7as, como vimos pelos retratos, eram amigas, mas falavamse de longe em longe, sem que nessas poucas vezes houvessem comunicado os segredos atuais do seu cora\u00e7\u00e3o. Ocorreria isso agora e seria essa a explica\u00e7\u00e3o da cena dos retratos? J\u00falio pensou efetivamente que elas haviam enfim comunicado o seu namoro com ele; mas custavalhe a crer que t\u00e3o atrevidas fossem ambas, que sa\u00edssem da casa naquela singular noite. \u00c0 propor\u00e7\u00e3o que o tempo se passava, J\u00falio inclinava-se a crer que o fato n\u00e3o passasse de uma ilus\u00e3o sua.<\/p>\n<p>J\u00falio escreveu uma carta a cada uma das duas mo\u00e7as, quase do mesmo teor, pedindo a explica\u00e7\u00e3o da frieza que ambas ultimamente lhe mostravam. Cada uma das cartas terminava perguntando &#8220;se era t\u00e3o cruelmente que se devia pagar um amor \u00fanico e delirante&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o teve resposta imediatamente como esperava, mas dous dias depois, n\u00e3o do mesmo teor, mas no mesmo sentido.<\/p>\n<p>Ambas lhe diziam que pusesse a m\u00e3o na consci\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, pensou ele consigo, estou pilhado. Como sairei eu desta situa\u00e7\u00e3o?&#8221; J\u00falio resolveu atacar verbalmente as duas fortalezas.<\/p>\n<p>\u2014 Isto de cartas n\u00e3o \u00e9 bom recurso para mim, disse ele; encaremos o inimigo; \u00e9 mais seguro.<\/p>\n<p>Escolheu Isabel em primeiro lugar. Haviam j\u00e1 passado seis ou sete dias depois da cena noturna. J\u00falio preparou-se mentalmente com todas as armas necess\u00e1rias ao ataque e \u00e0 defesa e dirigiu-se para casa de Isabel, que era como sabemos na Rua de S. Pedro.<\/p>\n<p>Foi-lhe dif\u00edcil achar-se a s\u00f3s com a mo\u00e7a; porque a mo\u00e7a que das outras vezes era a primeira a buscar ocasi\u00e3o de lhe falar, agora esquivava-se a isso. O rapaz entretanto era teimoso; tanto fez que p\u00f4de pilh\u00e1-la numa janela, e ali ex abrupto disparou-lhe esta pergunta: \u2014 N\u00e3o me dar\u00e1 a explica\u00e7\u00e3o dos seus modos de hoje e da carta com que respondeu \u00e0 minha \u00faltima? Isabel calou-se.<\/p>\n<p>J\u00falio repetiu a pergunta, mas j\u00e1 com um tom que exigia resposta imediata. Isabel fez um gesto de aborrecimento e disse: \u2014 Respondo o que lhe disse na carta; ponha a m\u00e3o na consci\u00eancia.<\/p>\n<p>\u2014 Mas que fiz eu ent\u00e3o? Isabel sorriu-se com um ar de l\u00e1stima.<\/p>\n<p>\u2014 O que fez? perguntou ela.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, o que fiz? \u2014 Deveras, ignora? \u2014 Quer que lhe jure? \u2014 Queria ver isto&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Isabel, essas palavras!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 S\u00e3o dum cora\u00e7\u00e3o ofendido, interrompeu a mo\u00e7a com amargura. O senhor ama a outra.<\/p>\n<p>\u2014 Eu?&#8230;<\/p>\n<p>Aqui desisto de descrever o gesto de espanto de J\u00falio; a pena nunca o poderia fazer, nem talvez o pincel. Era o agente mais natural, mais aparentemente espont\u00e2neo que ainda se viu neste mundo, a tal ponto que a mo\u00e7a vacilou, e atenuou as suas primeiras palavras com estas: \u2014 Pelo menos, parece&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas como? \u2014 Vi-o olhar com certo ar para a Lu\u00edsa, quando outro dia ela aqui esteve&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Nego.<\/p>\n<p>\u2014 Nega? Pois bem; mas negar\u00e1 tamb\u00e9m que, vendo o retrato dela, no meu \u00e1lbum, me disse: \u00c9 t\u00e3o bonita esta mo\u00e7a! \u2014 Pode ser que o dissesse; creio at\u00e9 que o disse&#8230; h\u00e1 cousa de oito dias; mas que prova isso? \u2014 N\u00e3o sei se prova muito, mas em todo o caso foi bastante para fazer doer a um cora\u00e7\u00e3o amante.<\/p>\n<p>\u2014 Acredito, observou J\u00falio; seria por\u00e9m bastante para o audacioso passo que deu? \u2014 Que passo? perguntou Isabel abrindo muito os olhos.<\/p>\n<p>J\u00falio ia explicar as suas palavras, quando um primo de Isabel se aproximou do grupo e a conversa ficou interrompida.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi por\u00e9m sem algum resultado o pouco tempo em que falaram, porque, ao despedir-se J\u00falio no fim da noite, Isabel apertou-lhe a m\u00e3o com certa for\u00e7a, ind\u00edcio certo de que as pazes estavam feitas.<\/p>\n<p>\u2014 Agora a outra, disse ele saindo da casa de Isabel.<\/p>\n<p>CAP\u00cdTULO III Lu\u00edsa estava ainda como Isabel, fria e reservada para com ele. Parece, entretanto, que suspirava por lhe falar, foi ela a primeira que procurou uma ocasi\u00e3o de ficar a s\u00f3s com ele.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 estar\u00e1 menos cruel comigo? perguntou J\u00falio.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Mas que lhe fiz eu? \u2014 Pensa ent\u00e3o que eu sou cega? perguntou-lhe Lu\u00edsa com olhos indignados; pensa que eu n\u00e3o vejo as cousas? \u2014 Mas que cousas? \u2014 O senhor anda de namoro com a Isabel.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! que id\u00e9ia! \u2014 Original, n\u00e3o \u00e9? \u2014 Original\u00edssima! Como descobriu semelhante cousa? Conhe\u00e7o aquela mo\u00e7a h\u00e1 muito tempo, temos intimidade, mas n\u00e3o a namoro nem tal id\u00e9ia tive, nunca na minha vida.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 por isso que lhe deita uns olhos t\u00e3o ternos?&#8230;<\/p>\n<p>J\u00falio levantou os ombros com um ar t\u00e3o desdenhoso que a mo\u00e7a acreditou logo nele. N\u00e3o deixou de lhe dizer, como a outra lhe dissera: \u2014 Mas para que olhou outro dia com tanta admira\u00e7\u00e3o para o retrato dela, dizendo at\u00e9 com um suspiro: Que mo\u00e7a gentil! \u2014 \u00c9 verdade isso, menos o suspiro, respondeu J\u00falio; mas onde est\u00e1 o mal em achar uma mo\u00e7a bonita, se nenhuma me parece mais bonita que voc\u00ea, e sobretudo nenhuma \u00e9 capaz de me prender como voc\u00ea? J\u00falio disse ainda muito mais por este teor velho e gasto, mas de efeito certo; a mo\u00e7a estendeu-lhe a m\u00e3o dizendo: \u2014 Ent\u00e3o era engano meu? \u2014 Oh! meu anjo! engano profundo! \u2014 Est\u00e1 perdoado&#8230; com uma condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Qual? \u2014 \u00c9 que n\u00e3o h\u00e1 de cair em outra.<\/p>\n<p>\u2014 Mas se eu n\u00e3o ca\u00ed nesta! \u2014 Jure sempre.<\/p>\n<p>\u2014 Pois juro&#8230; com uma condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Diga.<\/p>\n<p>\u2014 Por que raz\u00e3o n\u00e3o tendo plena certeza de que eu amava a outra (e se a tivesse n\u00e3o me falava mais decerto), por que raz\u00e3o, pergunto eu, foi voc\u00ea naquela noite&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O ch\u00e1 est\u00e1 na mesa; vamos tomar ch\u00e1! disse a m\u00e3e de Lu\u00edsa aproximando-se do grupo.<\/p>\n<p>Era for\u00e7oso obedecer; e nessa noite n\u00e3o houve mais ocasi\u00e3o de explicar o caso.<\/p>\n<p>Nem por isso J\u00falio saiu menos contente da casa de Lu\u00edsa.<\/p>\n<p>&#8220;Est\u00e3o ambas vencidas e convencidas, disse ele consigo; agora \u00e9 preciso escolher e acabar com isto.&#8221; Aqui \u00e9 que estava a dificuldade. J\u00e1 sabemos que ambas eram igualmente belas, e J\u00falio n\u00e3o procurava outra condi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o era f\u00e1cil escolher entre duas criaturas igualmente dispostas para ele.<\/p>\n<p>Nenhuma delas tinha dinheiro, condi\u00e7\u00e3o que podia fazer pender a balan\u00e7a posto que J\u00falio fosse indiferente nesse ponto. Tanto Lu\u00edsa como Isabel eram filhas de funcion\u00e1rios p\u00fablicos que apenas lhes deixavam um escasso montepio. Sem uma forte raz\u00e3o que fizesse pender a balan\u00e7a, era dif\u00edcil a escolha naquela situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Alguma leitora dir\u00e1 que por isso mesmo que eram de igual condi\u00e7\u00e3o e que ele as n\u00e3o amava de cora\u00e7\u00e3o, era f\u00e1cil a escolha. Bastava-lhe fechar os olhos e agarrar a primeira que lhe ficasse \u00e0 m\u00e3o.<\/p>\n<p>Erro manifesto.<\/p>\n<p>J\u00falio podia e era capaz de fazer isso. Mas no mesmo instante que escolhesse Isabel ficava com pena de n\u00e3o ter escolhido Lu\u00edsa, e viceversa, donde se v\u00ea que a situa\u00e7\u00e3o era para ele intricada.<\/p>\n<p>Mais de uma vez levantou-se ele da cama com a resolu\u00e7\u00e3o assentada: \u2014 Vou pedir a m\u00e3o da Lu\u00edsa.<\/p>\n<p>A resolu\u00e7\u00e3o durava-lhe s\u00f3 at\u00e9 o almo\u00e7o. Acabado o almo\u00e7o, ia ver (pela \u00faltima vez) Isabel e logo afrouxava com pena de a perder.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 de ser esta!&#8221; pensava ele.<\/p>\n<p>E logo lembrava-se de Lu\u00edsa e n\u00e3o escolhia nem uma nem outra.<\/p>\n<p>Tal era a situa\u00e7\u00e3o do nosso J\u00falio, quando se deu a cena que passo a referir no cap\u00edtulo seguinte.<\/p>\n<p>CAP\u00cdTULO IV Tr\u00eas dias depois da conversa de J\u00falio com Lu\u00edsa, foi esta passar o dia em casa de Isabel, acompanhada de sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>A m\u00e3e de Lu\u00edsa era de opini\u00e3o que a filha era o seu retrato vivo, cousa que ningu\u00e9m acreditava por mais que ela o repetisse. A m\u00e3e de Isabel n\u00e3o ousava ir t\u00e3o longe mas afirmava que, no tempo de sua mocidade, fora ela muito parecida com Isabel. Esta opini\u00e3o era recebida com incredulidade pelos rapazes e com resist\u00eancia pelos velhos. At\u00e9 o major Soares, que fora o primeiro namorado da m\u00e3e de Isabel, insinuava que essa opini\u00e3o devia ser recebida com extrema reserva.<\/p>\n<p>Oxal\u00e1 por\u00e9m fossem as duas mo\u00e7as como suas m\u00e3es eram, dous cora\u00e7\u00f5es de pomba, que amavam estremecidamente as filhas, e que eram com justi\u00e7a dous tipos de austeridade conjugal.<\/p>\n<p>As duas velhas entregaram-se \u00e0s suas conversas e considera\u00e7\u00f5es sobre arranjos de casa ou assuntos de pessoas conhecidas, enquanto as duas mo\u00e7as tratavam de modas, m\u00fasicas, e um pouco de amores.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o o teu tenente n\u00e3o volta do Sul? disse Lu\u00edsa.<\/p>\n<p>\u2014 Eu sei! Parece que n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Tens saudades dele? \u2014 E ter\u00e1 ele saudades de mim? \u2014 Isso \u00e9 verdade. Todos esses homens s\u00e3o assim, disse Lu\u00edsa com convic\u00e7\u00e3o; muita festa quando se acham presentes, mas ausentes s\u00e3o tem\u00edveis&#8230; valem tanto como o nome que se escreve na areia: vem a \u00e1gua e lambe tudo.<\/p>\n<p>\u2014 Bravo, Lu\u00edsa! Est\u00e1s poeta! exclamou Isabel. J\u00e1 falas em areias do mar! \u2014 Pois olha, n\u00e3o namoro nenhum poeta nem homem do mar.<\/p>\n<p>\u2014 Quem sabe? \u2014 Sei eu.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 ent\u00e3o?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Um rapaz que tu conheces! \u2014 J\u00e1 sei, \u00e9 o Avelar.<\/p>\n<p>\u2014 Deus nos acuda! exclamou Lu\u00edsa. Um homem vesgo.<\/p>\n<p>\u2014 O Rocha? \u2014 O Rocha anda todo ca\u00eddo pela Josefina.<\/p>\n<p>\u2014 Sim? \u2014 \u00c9 uma l\u00e1stima.<\/p>\n<p>\u2014 Nasceram um para o outro.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, ela \u00e9 uma moleirona como ele.<\/p>\n<p>As duas mo\u00e7as gastaram assim algum tempo a tasquinhar na pele de pessoas que n\u00f3s n\u00e3o conhecemos nem precisamos disso, at\u00e9 que voltaram ao assunto capital da conversa.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 vejo que n\u00e3o pode adivinhar quem \u00e9 o meu namorado, disse Lu\u00edsa.<\/p>\n<p>\u2014 Nem voc\u00ea o meu, observou Isabel.<\/p>\n<p>\u2014 Bravo! ent\u00e3o o tenente&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O tenente est\u00e1 pagando. \u00c9 muito natural que as rio-grandenses o tenham encantado. Pois ag\u00fcente-se&#8230;<\/p>\n<p>Enquanto Isabel dizia estas palavras, Lu\u00edsa ia folheando o \u00e1lbum de retratos que estava sobre a mesa. Chegando \u00e0 folha onde sempre vira o seu retrato, a mo\u00e7a estremeceu. Isabel notou-lhe o movimento.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9? disse ela.<\/p>\n<p>\u2014 Nada, respondeu Lu\u00edsa fechando o \u00e1lbum. Tiraste o meu retrato daqui? \u2014 Ah! exclamou Isabel, isso \u00e9 uma hist\u00f3ria singular. O retrato foi passar \u00e0s m\u00e3os de terceira pessoa, a qual afirma que fui eu que lho levei alta noite&#8230; Ainda n\u00e3o pude descobrir esse mist\u00e9rio&#8230; Lu\u00edsa j\u00e1 ouviu de p\u00e9 estas palavras. Seus olhos, muito abertos, fitaram-se no rosto da amiga.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9? disse esta.<\/p>\n<p>\u2014 Sabes bem o que est\u00e1s dizendo? \u2014 Eu? \u2014 Mas isso foi o que me aconteceu tamb\u00e9m com o teu retrato&#8230;<\/p>\n<p>Naturalmente era zombaria comigo e contigo&#8230; Essa pessoa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Foi o J\u00falio Sim\u00f5es, o meu namorado&#8230;<\/p>\n<p>Aqui devia eu p\u00f4r uma linha de pontos para significar o que se n\u00e3o pode pintar, o espanto das duas amigas, as diferentes express\u00f5es que tomou a fisionomia de cada uma delas. N\u00e3o tardaram as explica\u00e7\u00f5es; as duas rivais reconheceram que o seu namorado comum era pouco mais ou menos um patife, e que o dever de honra e de cora\u00e7\u00e3o era tomar dele uma vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 A prova de que ele nos enganava uma \u00e0 outra, observava Isabel, \u00e9 que os nossos retratos apareceram l\u00e1 e foi ele naturalmente quem os tirou.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, respondeu Lu\u00edsa, mas \u00e9 certo que eu sonhei alguma cousa que combina com a cena que ele alega.<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m eu&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim? Eu sonhei que me haviam falado do namoro dele com voc\u00ea, e que, tirando o retrato do \u00e1lbum, fora lev\u00e1-lo \u00e0 casa dele.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel! exclamou Isabel. O meu sonho foi quase assim, ao menos no final. N\u00e3o me disseram que ele tinha namoro com voc\u00ea; mas eu mesma vi e ent\u00e3o fui levar o retrato&#8230;<\/p>\n<p>O espanto aqui foi ainda maior que da primeira vez. Nem estavam s\u00f3 espantadas as duas amigas; estavam aterradas. Embalde procuravam explicar a identidade do sonho, e mais que tudo a coincid\u00eancia dele com a presen\u00e7a dos retratos em casa de J\u00falio e a narra\u00e7\u00e3o que este fizera da noturna aventura.<\/p>\n<p>Estavam assim nesta duvidosa e assustadora situa\u00e7\u00e3o, quando as m\u00e3es vieram em aux\u00edlio delas. As duas mo\u00e7as, estando \u00e0 janela, ouviram-lhes dizer: \u2014 Pois \u00e9 verdade, minha rica sr\u00aa Anast\u00e1cia, estou no mesmo caso da senhora. Creio que a minha filha \u00e9 son\u00e2mbula, como a sua.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho uma pena com isto! \u2014 E eu ent\u00e3o! \u2014 Talvez casando-as&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, pode ser que banhos de igreja&#8230;<\/p>\n<p>Informadas assim as duas mo\u00e7as da explica\u00e7\u00e3o do caso, ficaram um tanto abaladas; mas a id\u00e9ia de J\u00falio e suas travessuras tomou logo o lugar que lhe competia na conversa das duas rivais.<\/p>\n<p>\u2014 Que pelintra! exclamavam as duas mo\u00e7as. Que velhaco! que p\u00e9rfido! O coro de maldi\u00e7\u00f5es foi ainda mais longe. Mas tudo acaba neste mundo, principalmente um coro de maldi\u00e7\u00f5es; o jantar interrompeu aquele; as duas mo\u00e7as foram de bra\u00e7o dado para a mesa e afogaram as suas m\u00e1goas num prato de sopa.<\/p>\n<p>CAP\u00cdTULO V J\u00falio, sabendo da visita, n\u00e3o se atreveu a ir encontrar as duas mo\u00e7as juntas. No p\u00e9 em que as cousas se achavam era imposs\u00edvel evitar que descobrissem tudo, pensava ele.<\/p>\n<p>No dia seguinte por\u00e9m foi de tarde \u00e0 casa de Isabel, que o recebeu com muita alegria e ternura.<\/p>\n<p>&#8220;Bom! pensou o namorado, nada contaram uma \u00e0 outra.&#8221; \u2014 Engana-se, disse Isabel adivinhando pela alegria do rosto dele qual era a reflex\u00e3o que fazia. Pensa naturalmente que Lu\u00edsa nada me disse? Disse-me tudo, e eu nada lhe ocultei&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me queixo do senhor, continuou Isabel com indigna\u00e7\u00e3o; queixome dela que devia ter percebido e percebeu o que entre n\u00f3s havia, e apesar disso aceitou a sua corte.<\/p>\n<p>\u2014 Aceitou, n\u00e3o; posso dizer que fui compelido.<\/p>\n<p>\u2014 Sim? \u2014 Agora posso falar-lhe com franqueza; a sua amiga Lu\u00edsa \u00e9 uma namoradeira desenfreada. Eu sou rapaz; a vaidade, a id\u00e9ia de passatempo, tudo isso me arrastou, n\u00e3o a namor\u00e1-la, porque eu era incapaz de esquecer a minha formosa Isabel; mas a perder algum tempo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ingrato! \u2014 Oh! n\u00e3o! nunca, a boa Isabel! Aqui come\u00e7ou uma renova\u00e7\u00e3o de protestos da parte do namorado, que declarou amar mais que nunca a filha de D. Anast\u00e1cia.<\/p>\n<p>Para ele a cousa estava resolvida. Depois da explica\u00e7\u00e3o dada e dos termos em que falara da outra, a escolha natural era Isabel.<\/p>\n<p>Sua id\u00e9ia foi n\u00e3o procurar mais a outra. N\u00e3o o p\u00f4de fazer \u00e0 vista de um bilhete que no fim de tr\u00eas dias recebeu da mo\u00e7a. Pedia-lhe ela que fosse l\u00e1 instantemente. J\u00falio foi. Lu\u00edsa recebeu-o com um sorriso triste.<\/p>\n<p>Quando puderam falar a s\u00f3s: \u2014 Quero saber da sua boca o meu destino, disse ela. Estarei definitivamente condenada? \u2014 Condenada! \u2014 Sejamos francos, continuou a mo\u00e7a. Eu e a Isabel falamos no senhor; vim a saber que tamb\u00e9m a namorava. A sua consci\u00eancia lhe dir\u00e1 que praticou um ato indigno. Mas enfim, pode resgat\u00e1-lo com um ato de franqueza. A qual de n\u00f3s escolhe, a mim ou a ela? A pergunta era de atrapalhar o pobre J\u00falio, nada menos que por duas grandes raz\u00f5es: a primeira era ter de responder em face; a segunda era ter de responder em face de uma mo\u00e7a bonita. Hesitou alguns largos minutos. Lu\u00edsa insistiu; mas ele n\u00e3o se atrevia a romper o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, disse ela, j\u00e1 sei que me despreza.<\/p>\n<p>\u2014 Eu! \u2014 N\u00e3o importa; adeus.<\/p>\n<p>Ia a voltar as costas; J\u00falio segurou-lhe na m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! n\u00e3o! Pois n\u00e3o v\u00ea que este meu sil\u00eancio \u00e9 de como\u00e7\u00e3o e de confus\u00e3o. Confunde-me realmente que descobrisse uma cousa em que eu pouca culpa tive. Namorei-a por passatempo; n\u00e3o foi Isabel nunca uma rival sua no meu cora\u00e7\u00e3o. Demais, ela n\u00e3o lhe contou tudo; naturalmente escondeu a parte em que a culpa lhe cabia. E a culpa \u00e9 tamb\u00e9m sua&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Minha? \u2014 Sem d\u00favida. Pois n\u00e3o v\u00ea que ela tem interesse em separar-nos?&#8230; Se lhe referir, por exemplo, o que se est\u00e1 passando agora entre n\u00f3s fique certa de que ela h\u00e1 de inventar alguma cousa para de todo separar-nos, contando depois com a sua beleza para cativar o meu cora\u00e7\u00e3o, como se a beleza de uma Isabel pudesse fazer esquecer a beleza de uma Lu\u00edsa.<\/p>\n<p>J\u00falio ficou satisfeito com este pequeno discurso, assaz astuto para enganar a mo\u00e7a. Esta, depois de algum tempo de sil\u00eancio, estendeu-lhe a m\u00e3o: \u2014 Jura-me o que est\u00e1 dizendo? \u2014 Juro.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o ser\u00e1 meu? \u2014 Unicamente seu.<\/p>\n<p>Assim celebrou J\u00falio os dous tratados de paz, ficando na mesma situa\u00e7\u00e3o em que se achava anteriormente. J\u00e1 sabemos que a sua fatal indecis\u00e3o era a causa \u00fanica da crise em que os acontecimentos o puseram. Era for\u00e7oso decidir alguma cousa; e a ocasi\u00e3o ofereceu-se-lhe prop\u00edcia.<\/p>\n<p>Perdeu-a, entretanto; e dado que quisesse casar, e queria, nunca estivera mais longe do casamento.<\/p>\n<p>CAP\u00cdTULO VI Cerca de seis semanas foram assim correndo sem resultado algum pr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Um dia, achando-se em conversa com um primo de Isabel, perguntou-lhe se teria gosto em v\u00ea-lo na fam\u00edlia.<\/p>\n<p>\u2014 Muito, respondeu Fernando (era assim o nome do primo).<\/p>\n<p>J\u00falio n\u00e3o deu explica\u00e7\u00e3o da pergunta. Instado respondeu: \u2014 Fiz-lhe a pergunta por uma raz\u00e3o que saber\u00e1 mais tarde.<\/p>\n<p>\u2014 Querer\u00e1 talvez casar com alguma das manas?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso dizer nada por ora.<\/p>\n<p>\u2014 Olha aqui, Teixeira, disse Fernando, a um terceiro rapaz, primo de Lu\u00edsa, e que nessa ocasi\u00e3o se achava em casa de D. Anast\u00e1cia.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9? perguntou J\u00falio assustado.<\/p>\n<p>\u2014 Nada, respondeu Fernando, vou comunicar ao Teixeira a not\u00edcia que o senhor me deu.<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 nosso amigo, posso ser franco. Teixeira, sabe o que me disse o J\u00falio? \u2014 Que foi? \u2014 Disse-me que vai ser meu parente.<\/p>\n<p>\u2014 Casando com alguma irm\u00e3 tua.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei; mas disse isso. N\u00e3o te parece motivo de congratula\u00e7\u00e3o? \u2014 Sem d\u00favida, concordou Teixeira, \u00e9 um perfeito cavalheiro.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00e3o obs\u00e9quios, interveio J\u00falio; e se eu alguma vez alcan\u00e7asse a fortuna de entrar&#8230;<\/p>\n<p>J\u00falio interrompeu-se; lembrou-se que Teixeira podia ir contar tudo \u00e0 prima Lu\u00edsa, e fosse inibido de escolher entre ela e Isabel. Os dous quiseram saber o resto; mas J\u00falio preferiu convid\u00e1-los a jogar o solo, e n\u00e3o houve meio de arrancar-lhe palavra.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o por\u00e9m devia acabar.<\/p>\n<p>Era imposs\u00edvel continuar a vacilar entre as duas mo\u00e7as, que ambas lhe queriam muito, e a quem ele queria com perfeita igualdade n\u00e3o sabendo qual delas escolhesse.<\/p>\n<p>&#8220;Sejamos homem, disse J\u00falio consigo. Vejamos: qual delas devo ir pedir? A Isabel. Mas a Lu\u00edsa \u00e9 t\u00e3o bonita! Ser\u00e1 a Lu\u00edsa. Mas \u00e9 t\u00e3o formosa a Isabel! Que diabo! Por que raz\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 de uma delas ter um olho furado? ou uma perna torta!&#8221; E depois de algum tempo: &#8220;Vamos, sr. J\u00falio, dou-lhe tr\u00eas dias para escolher. N\u00e3o seja tolo. Decida com isto por uma vez.&#8221; E enfim: &#8220;Verdade \u00e9 que uma delas h\u00e1 de odiar-me. Mas paci\u00eancia! fui eu mesmo que me meti nesta embrulhada; e o \u00f3dio de uma mo\u00e7a n\u00e3o pode doer muito. Avante!&#8221; No fim de dous dias ainda ele n\u00e3o tinha escolhido; recebeu por\u00e9m uma carta de Fernando concebida nestes termos: Meu caro J\u00falio.<\/p>\n<p>Participo-lhe que brevemente casarei com a prima Isabel; desde j\u00e1 o convido para a festa; se soubesse como estou contente! Venha c\u00e1 para conversarmos.<\/p>\n<p>Fernando.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso dizer que J\u00falio foi \u00e0s nuvens. O passo de Isabel simplificava muito a situa\u00e7\u00e3o dele; todavia, n\u00e3o queria ser assim despedido como um tolo. Exprimiu a sua c\u00f3lera por meio de alguns murros na mesa; Isabel, por isso mesmo que j\u00e1 n\u00e3o a podia possuir, parecia-lhe agora mais bonita que Lu\u00edsa.<\/p>\n<p>\u2014 Lu\u00edsa! Pois ser\u00e1 Lu\u00edsa! exclamou ele. Essa sempre me pareceu muito mais sincera que a outra. At\u00e9 chorou, creio eu, no dia da reconcilia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Saiu nessa mesma tarde para ir visitar Lu\u00edsa; no dia seguinte iria pedi-la.<\/p>\n<p>Em casa dela foi recebido como sempre. Teixeira foi o primeiro a dar-lhe um abra\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Sabe, disse o primo de Lu\u00edsa apontando para a mo\u00e7a, sabe que vai ser a minha noiva? N\u00e3o me atrevo a dizer o que se passou na alma de J\u00falio; basta dizer que jurou n\u00e3o casar, e que morreu h\u00e1 pouco casado e com cinco filhos.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.dominiopublico.gov.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de assis Se alguma das minhas leitoras morasse na Rua de S.Pedro da cidade nova, h\u00e1 cousa de quinze anos, e estivesse \u00e0 janela na noite de 16 de mar\u00e7o, entre uma e duas horas, teria ocasi\u00e3o de presenciar um caso extraordin\u00e1rio. 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