{"id":114694,"date":"2017-03-21T18:03:01","date_gmt":"2017-03-21T20:03:01","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=114694"},"modified":"2017-03-21T18:03:01","modified_gmt":"2017-03-21T20:03:01","slug":"os-que-propoem-um-banho-de-sangue","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/os-que-propoem-um-banho-de-sangue","title":{"rendered":"Os Que Prop\u00f5em um Banho de Sangue"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Nelson Rodrigues<\/h2>\n<p>Preliminarmente, devo confessar o meu horror aos intelectuais ou, melhor dizendo, a quase todos os intelectuais. Claro que alguns escapam. Mas a maioria n\u00e3o justifica maiores ilus\u00f5es. E se me perguntarem se esse horror \u00e9 recente ou antigo, eu diria que \u00e9 antigo, muito antigo. A intelig\u00eancia pode ser acusada de tudo, menos de santa.<\/p>\n<p>Tenho observado, ao longo de minha vida, que o intelectual est\u00e1 sempre a um mil\u00edmetro do cinismo. Do cinismo e, eu acrescentaria, do rid\u00edculo. Deus ou o Diabo deu-lhes uma cota exagerada de rid\u00edculo. Voc\u00eas se lembram da invas\u00e3o da Tcheco-Eslov\u00e1quia. Sa\u00edram dois manifestos de intelectuais brasileiros. (Por que dois, se ambos diziam a mesma coisa? N\u00e3o sei.) Contra ou favor? Contra a invas\u00e3o, condenando a invas\u00e3o. Ao mesmo tempo, por\u00e9m, que atacava o socialismo totalit\u00e1rio, imperialista e assassino, conclu\u00eda a Intelig\u00eancia: \u2014 \u201cO socialismo \u00e9 liberdade!\u201d. E ainda lhe acrescentava um ponto de exclama\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Voc\u00eas entendem? Cinco pa\u00edses socialistas estupravam um sexto pa\u00eds socialista. Este era o fato concreto, o fato s\u00f3lido, o fato inarred\u00e1vel que os dois manifestos reconheciam, proclamavam e abominavam. E, apesar da evid\u00eancia mais espantosa, os intelectuais afirmavam: \u2014 \u201cIsso que voc\u00eas est\u00e3o vendo, e que n\u00f3s estamos condenando, \u00e9 a liberdade!\u201d.<\/p>\n<p>E nenhum socialista deixar\u00e1 de repetir, com obtusa e bovina teimosia: \u2014 \u201cSocialismo \u00e9 liberdade!\u201d. Bem. Se o problema \u00e9 de palavras, tamb\u00e9m se poder\u00e1 dizer que a burguesia \u00e9 mais, ou seja: \u2014 \u201cLiberdade, igualdade e fraternidade\u201d. Mas o que importa, nos dois manifestos, \u00e9 que um e outro se fingem de cegos para o pacto germano-sovi\u00e9tico, para o stalinismo, para os expurgos de L\u00eanin, primeiro, e de Stalin, depois, para os assassinatos f\u00edsicos ou espirituais, para as anexa\u00e7\u00f5es, para a desumaniza\u00e7\u00e3o de povos inteiros.<\/p>\n<p>Se os intelectuais fossem analfabetos, dir\u00edamos: \u2014 \u201cN\u00e3o sabem ler\u201d; se fossem surdos, dir\u00edamos: \u2014 \u201cN\u00e3o sabem ouvir\u201d; se fossem cegos, dir\u00edamos: \u2014 \u201cN\u00e3o sabem ver\u201d. Por exemplo: \u2014 d. H\u00e9lder. Bem sei que na sua casa n\u00e3o h\u00e1 um livro, um \u00fanico e escasso livro. Mas o bom arcebispo sabe ler os jornais; viaja; faz um delirante e promocional turismo. E, al\u00e9m disso, vamos e venhamos: \u2014 n\u00f3s estamos esmagados, obsessivamente, pela INFORMA\u00c7\u00c3O. Outrora uma not\u00edcia levava meia hora para chegar de uma esquina a outra esquina. Hoje n\u00e3o. A INFORMA\u00c7\u00c3O nos persegue. Todos os sigilos s\u00e3o arrombados. Todas as intimidades s\u00e3o escancaradas. D. H\u00e9lder sabe que o socialismo \u00e9 uma bruta falsifica\u00e7\u00e3o. Mas, para todos os efeitos, o socialismo \u00e9 a sua pose, sua m\u00e1scara e seu turismo.<\/p>\n<p>O socialista que se diz anti-stalinista \u00e9, na melhor das hip\u00f3teses, um c\u00ednico. Os habitantes do mundo socialista, por maior que seja o seu malabarismo, acabar\u00e3o sempre nos bra\u00e7os de Stalin. Admito que, por um prod\u00edgio de boa-f\u00e9 obtusa, algu\u00e9m se iluda. N\u00e3o importa. Ainda esse \u00e9 stalinista, sem o saber.<\/p>\n<p>Bem. Estou falando, porque estive outro dia numa reuni\u00e3o de intelectuais. Entro e, confesso, estava disposto a n\u00e3o falar de pol\u00edtica, nem a tiro. Eu queria mesmo era falar do escrete, o aben\u00e7oado escrete que em terras do M\u00e9xico conquistou a flor das vit\u00f3rias. Logo percebi, por\u00e9m, que a maioria ali era antiescrete. J\u00e1 que tratavam mal a vit\u00f3ria e a renegavam, esperei que tratassem de simp\u00e1ticas amenidades.<\/p>\n<p>E s\u00fabito um dos presentes (socialista, como os demais) vira-se para mim. H\u00e1 dez minutos que me olhava de esguelha e, fingindo um pigarro, interpela-me: \u2014 \u201cVoc\u00ea \u00e9 contra ou a favor da censura?\u201d. Eu s\u00f3 tinha motivos para achar uma gra\u00e7a imensa na pergunta. Comecei: \u2014 \u201cVoc\u00ea pergunta se a v\u00edtima \u00e9 contra ou a favor? Sou uma v\u00edtima da censura. Portanto, sou contra a censura\u201d.<\/p>\n<p>Nem todos se lembram de que n\u00e3o h\u00e1 um autor, em toda a hist\u00f3ria dram\u00e1tica brasileira, que tenha sido t\u00e3o censurado quanto eu. Sofri sete interdi\u00e7\u00f5es. H\u00e1 meses, proibiram no Norte minha pe\u00e7a Toda nudez ser\u00e1 castigada. E n\u00e3o foi s\u00f3 o meu teatro. Tamb\u00e9m escrevi um romance, O casamento, que o ent\u00e3o ministro da justi\u00e7a interditou em todo o territ\u00f3rio nacional. E quando me interditavam, que fazia, digamos, o dr. Alceu? Perguntar\u00e3o voc\u00eas: \u2014 \u201cNada?\u201d. Se n\u00e3o tivesse feito nada, eu diria: \u2014 \u201cObrigado, irm\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Mas fez, e fez o seguinte: \u2014 colocou-se, com toda a sua ira e toda a sua veem\u00eancia, ao lado da pol\u00edcia e contra meu texto. Em entrevista a O Globo declarou que a pol\u00edcia tinha todo o direito, toda a raz\u00e3o etc. etc. Anos antes o mestre tamb\u00e9m fora a favor da guerra da It\u00e1lia contra a Abiss\u00ednia, a favor de Mussolini e contra a Abiss\u00ednia, a favor do fascismo, sim, a favor do fascismo.<\/p>\n<p>N\u00e3o tive ningu\u00e9m por mim. Os intelectuais ou n\u00e3o se manifestavam ou me achavam tamb\u00e9m um \u201ccaso de pol\u00edcia\u201d. As esquerdas n\u00e3o exalaram um suspiro. Nem o centro, nem a direita. S\u00f3 um Bandeira, um Gilberto Freyre, uma Raquel, um Prudente, um Pompeu, um Santa Rosa e pouqu\u00edssimos mais \u2014 ousaram protestar. O Schmidt lamentava a minha \u201cinsist\u00eancia na torpeza\u201d. As senhoras me diziam: \u2014 \u201cEu queria que seus personagens fossem como todo mundo\u201d. E n\u00e3o ocorria a ningu\u00e9m que, justamente, meus personagens s\u00e3o \u201ccomo todo mundo\u201d: \u2014 e da\u00ed a repulsa que provocavam. \u201cTodo mundo\u201d n\u00e3o gosta de ver no palco suas \u00edntimas chagas, suas inconfessas abje\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Portanto, fui durante vinte anos o \u00fanico autor obsceno do teatro brasileiro. Um dia, doeu-me a solid\u00e3o; e fui procurar um grande jornalista. Levava a minha mais recente pe\u00e7a interditada, o Anjo negro. Eu queria que o seu jornal defendesse o meu teatro. Eram dez da manh\u00e3 e j\u00e1 o encontrei b\u00eabado. Era um homem extraordin\u00e1rio. Um b\u00eabado que nem precisava beber. Passava dias, meses sem tocar em \u00e1lcool e, ainda assim e mais do que nunca, b\u00eabado. Recebeu-me com a maior simpatia (e babando na gravata). Ficou com o texto e mandou-me voltar dois dias depois. Quando o procurei, no dia certo, continuava embriagado. Devolveu-me a c\u00f3pia; disse: \u2014 \u201cOlha aqui, rapaz. At\u00e9 na Inglaterra, que \u00e9 a Inglaterra, h\u00e1 censura. O Brasil tem que ter censura, ora que gra\u00e7a! Leva a pe\u00e7a. Essa n\u00e3o. Faz outra e veremos\u201d.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 classe teatral, n\u00e3o tomou conhecimento de meus dramas. No caso de Toda nudez ser\u00e1 castigada, seis atrizes recusaram-se a fazer o papel, por alt\u00edssimos motivos \u00e9ticos. Claro que tanta virtude me deslumbrara.<\/p>\n<p>Volto \u00e0 reuni\u00e3o de intelectuais. Estava l\u00e1 um comunista que merecia dos presentes uma escandalosa e diria mesmo abjeta admira\u00e7\u00e3o. Era talvez a maior figura das esquerdas. Comunista de partido, tinha sobre os outros uma ascend\u00eancia profunda. Em torno dele, os demais assanhavam-se como cadelinhas amestradas. Um ou outro \u00e9 que preservara uma sofr\u00edvel compostura. E ent\u00e3o o mesmo que me interpelara quis saber o que o grande homem achava da censura. Ele repetiu: \u2014 \u201cO que \u00e9 que eu acho da censura?\u201d. Apanhou um salgadinho e disse: \u2014 \u201cTenho que ser contra uma censura que escraviza a intelig\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>As pessoas se entreolhavam, maravilhadas. Quase o aplaudiram, e de p\u00e9, como na \u00f3pera. Um arriscou: \u2014 \u201cQuer dizer que\u201d. O velho comunista apanhou outro salgadinho: \u2014 \u201cUm homem como eu jamais poderia admitir a censura\u201d. Foi a\u00ed que dei o meu palpite. Disse eu. Que foi mesmo que eu disse?<\/p>\n<p>Disse-lhe que um comunista como ele, membro do partido ainda em vida de Stalin, n\u00e3o podia sussurrar contra nenhuma censura. Devia querer que o nosso governo fizesse aqui o Terror stalinista. Devia querer o assassinato de milh\u00f5es de brasileiros. N\u00e3o era assim que L\u00eanin e Stalin faziam com os russos? E ele, ali presente, devia querer a interdi\u00e7\u00e3o de intelectuais nos hosp\u00edcios, como se doidos fossem. A Intelig\u00eancia que pedisse liberaliza\u00e7\u00e3o tinha que ser tratada como uma cachorra hidr\u00f3foba. Mao Tse-tung vive de Terror. Vive o Terror. Mao Tse-tung \u00e9 Stalin. L\u00eanin era Stalin. Stalin era Stalin. Quem \u00e9 a favor do mundo socialista, da R\u00fassia, ou da China, ou de Cuba, \u00e9 tamb\u00e9m a favor do Estado assassino.<\/p>\n<p>Fiz-lhes a pergunta final: \u2014 \u201cVoc\u00eas s\u00e3o a favor da matan\u00e7a do embaixador alem\u00e3o?\u201d. H\u00e1 um sil\u00eancio. Por fim, falou o comunista: \u2014 \u201cEra inevit\u00e1vel\u201d. E eu: \u2014 \u201cSe voc\u00ea acha inevit\u00e1vel o assassinato de um inocente, tamb\u00e9m \u00e9 um assassino\u201d. E era. Assassino sem a coragem f\u00edsica de puxar o gatilho. Parei, porque a conversa j\u00e1 exalava a febre amarela, a peste bub\u00f4nica, o tifo e a mal\u00e1ria. Aquelas pessoas estavam apodrecendo e n\u00e3o sabiam.<\/p>\n<p><b>[3\/7\/1970]<\/b><\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nelson Rodrigues Preliminarmente, devo confessar o meu horror aos intelectuais ou, melhor dizendo, a quase todos os intelectuais. Claro que alguns escapam. Mas a maioria n\u00e3o justifica maiores ilus\u00f5es. E se me perguntarem se esse horror \u00e9 recente ou antigo, eu diria que \u00e9 antigo, muito antigo. 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