{"id":114459,"date":"2017-03-20T18:51:16","date_gmt":"2017-03-20T20:51:16","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=114459"},"modified":"2017-03-20T18:51:16","modified_gmt":"2017-03-20T20:51:16","slug":"balas-de-estalo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/balas-de-estalo","title":{"rendered":"Balas de Estalo"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>1883<\/p>\n<p>[20]<\/p>\n<p>[2 julho]<\/p>\n<p>SABE-SE que a Sociedade Portuguesa de Benefic\u00eancia acaba de abrir uma enfermaria \u00e0 medicina dosim\u00e9trica. Este \u00e9 o nome, creio eu; e n\u00e3o h\u00e1 por onde trocar os nomes \u00e0s coisas, que j\u00e1 os trazem de nascen\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o basta abrir enfermarias; \u00e9 \u00fatil explic\u00e1-las. Se a dosimetria quer dizer que os rem\u00e9dios dados em doses exatas e puras curam melhor ou mais radicalmente, ou mais depressa, \u00e9, na verdade, grande crueza privar os restantes enfermos de t\u00e3o excelso benef\u00edcio. Uns ficar\u00e3o meio curados, ou mal curados, outros sair\u00e3o dali lestos e pimp\u00f5es; e isto n\u00e3o parece justo.<\/p>\n<p>Note-se bem que eu n\u00e3o ignoro que os doentes, por estarem doentes, n\u00e3o perdem o direito \u00e0 liberdade; mas, entendamo-nos: \u00e9 a liberdade do voto, a liberdade de consci\u00eancia, a liberdade de testar, a liberdade do ventre (teoria Lulu S\u00eanior); por um sentimento de compaix\u00e3o, a liberdade de descompor. Mas, no que toca aos medicamentos, n\u00e3o! Concedo que o doente possa escolher entre a alopatia e a homeopatia, porque s\u00e3o dois sistemas, &#8211; ou duas escolas, &#8211; a escola cadav\u00e9rica (vers\u00e3o Maximiano) e a escola aqu\u00e1tica. Mas n\u00e3o tratando a dosimetria sen\u00e3o da perfeita composi\u00e7\u00e3o dos rem\u00e9dios, n\u00e3o h\u00e1, para o doente, a liberdade de medicar-se mal. Ao contr\u00e1rio, este era o caso de aplicar o velho grito mu\u00e7ulmano: &#8211; cr\u00ea ou morre.<\/p>\n<p>Se, ao menos, a pr\u00f3pria dosimetria permitisse o uso de ambos os modos, as doses bem medidas, e as doses mal medidas, tinha a enfermaria uma explica\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o seria absurdo. Conheci um m\u00e9dico, que dava alopatia aos adultos, e homeopatia \u00e0s crian\u00e7as, e explicava esta aparente contradi\u00e7\u00e3o com uma resposta \u00e9pica de ingenuidade: &#8211; para que hei de martirizar uma pobre crian\u00e7a? A pr\u00f3pria homeopatia, quando estreou no Brasil, teve seus ecl\u00e9ticos; entre eles, o Dr. R. Torres e o Dr. Tloesquelec, segundo afirmou em tempo (h\u00e1 quarenta anos) o Dr. Jo\u00e3o V. Martins, que era dos puros. Os ecl\u00e9ticos tratavam os doentes, &#8220;como a eles aprouvesse&#8221;. \u00c9 o que imprimia ent\u00e3o o chefe dos propagandistas.<\/p>\n<p>Mas a dosimetria \u00e9 contr\u00e1ria a esses tristes recursos. Parece mesmo que esta nova religi\u00e3o ainda n\u00e3o passou do vers. 18, cap. IV, de S\u00e3o Mateus, que \u00e9 o lugar em que Jesus chama os primeiros ap\u00f3stolos, Pedro e Andr\u00e9: &#8220;Vinde ap\u00f3s mim, e farei que sejais pescadores de homens&#8221;. N\u00e3o h\u00e1 ainda tempo de ter hereges nem cism\u00e1ticos: est\u00e1 nas primeiras pescas de doentes.<\/p>\n<p>O \u00fanico ponto em que a escola dosim\u00e9trica se parece com a homeop\u00e1tica \u00e9 na facilidade que d\u00e1 ao doente de tratar-se a si mesmo; mas isto n\u00e3o quer dizer que tenha de cair no mesmo abuso do ecletismo. Quer dizer que a ci\u00eancia, como todas as moedas, tem seus trocos mi\u00fados. Dois amigos meus andam munidos de caixas dosim\u00e9tricas; ingerem isto ou aquilo, conforme um papelinho impresso, que trazem consigo. Levam a sa\u00fade nas algibeiras, chegam mesmo a distribu\u00ed-la aos amigos.<\/p>\n<p>L\u00e1 que isto seja novo, \u00e9 o que nego redondamente. O autor destas vulgariza\u00e7\u00f5es parece ser um certo Asclep\u00edades, contempor\u00e2neo de Pompeu. Esse cavalheiro era mestre de eloq\u00fc\u00eancia, mas sentindo em si outros talentos, estudou a medicina, criou uma arte nova, e anunciou cinco modos de cura aplic\u00e1veis a todas as enfermidades. Est\u00e3o ouvindo? Cinco, nem mais uma p\u00edlula para rem\u00e9dio. Essas drogas eram: dieta, abstin\u00eancia de vinho, fric\u00e7\u00f5es, exerc\u00edcio a p\u00e9 e passeios de liteira. Cada um sentia que podia medicar-se a si pr\u00f3prio, escreve Pl\u00ednio, &#8211; e o entusiasmo foi geral. Tal qual a homeopatia e a dosimetria. Nem uma nem outra tocou ao sublime daquele Asclep\u00edades, que, segundo o mesmo autor, encontrando o saimento de um desconhecido, fez com que o inculcado morto n\u00e3o fosse deitado \u00e0 fogueira levou-o consigo e curou-o; mas, em suma, aguardemos o primeiro fregu\u00eas que a escola cadav\u00e9rica remeter para a Jurujuba.<\/p>\n<p>Voltando ao ponto, espero que a dire\u00e7\u00e3o da Benefic\u00eancia atenda aos meus conselhos. N\u00e3o negue a cem doentes o que t\u00e3o liberalmente distribui a sete ou quinze. Que o semelhante cure ao semelhante, ou o contr\u00e1rio ao contr\u00e1rio, s\u00e3o afirma\u00e7\u00f5es que se excluem; mas, contr\u00e1rio ou semelhante, \u00e9 de rigor que as doses sejam as mesmas.<\/p>\n<p>[21]<\/p>\n<p>[4 julho]<\/p>\n<p>OCORREU-ME compor umas certas regras para uso dos que freq\u00fcentam bonds. O desenvolvimento que tem sido entre n\u00f3s esse meio de locomo\u00e7\u00e3o, essencialmente democr\u00e1tico, exige que ele n\u00e3o seja deixado ao puro capricho dos passageiros. N\u00e3o posso dar aqui mais do que alguns extratos do meu trabalho; basta saber que tem nada menos de setenta artigos. V\u00e3o apenas dez.<\/p>\n<p>ART. I &#8211; Dos encatarroados<\/p>\n<p>Os encatarroados podem entrar nos bonds com a condi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o tossirem mais de tr\u00eas vezes dentro de uma hora, e no caso de pigarro, quatro.<\/p>\n<p>Quando a tosse for t\u00e3o teimosa, que n\u00e3o permita esta limita\u00e7\u00e3o, os encatarroados t\u00eam dois alvitres: &#8211; ou irem a p\u00e9, que \u00e9 bom exerc\u00edcio, ou meterem-se na cama. Tamb\u00e9m podem ir tossir para o diabo que os carregue.<\/p>\n<p>Os encatarroados que estiverem nas extremidades dos bancos, devem escarrar para o lado da rua, em vez de o fazerem no pr\u00f3prio bond, salvo caso de aposta, preceito religioso ou ma\u00e7\u00f4nico, voca\u00e7\u00e3o, etc., etc.<\/p>\n<p>ART .II &#8211; Da posi\u00e7\u00e3o das pernas<\/p>\n<p>As pernas devem trazer-se de modo que n\u00e3o constranjam os passageiros do mesmo banco. N\u00e3o se pro\u00edbem formalmente as pernas abertas, mas com a condi\u00e7\u00e3o de pagar os outros lugares, e faz\u00ea-los ocupar por meninas pobres ou vi\u00favas desvalidas, mediante uma pequena gratifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>ART. III &#8211; Da leitura dos jornais<\/p>\n<p>Cada vez que um passageiro abrir a folha que estiver lendo, ter\u00e1 o cuidado de n\u00e3o ro\u00e7ar as ventas dos vizinhos, nem levar-lhes os chap\u00e9us. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 bonito encost\u00e1-los no passageiro da frente.<\/p>\n<p>ART. IV &#8211; Dos quebra-queixos<\/p>\n<p>\u00c9 permitido o uso dos quebra-queixos em duas circunst\u00e2ncias: &#8211; a primeira quando n\u00e3o for ningu\u00e9m no bond, e a segunda ao descer.<\/p>\n<p>ART. V &#8211; Dos amoladores<\/p>\n<p>Toda a pessoa que sentir necessidade de contar os seus neg\u00f3cios \u00edntimos, sem interesse para ningu\u00e9m, deve primeiro indagar do passageiro escolhido para uma tal confid\u00eancia, se ele \u00e9 assaz crist\u00e3o e resignado. No caso afirmativo, perguntar-se-lhe-\u00e1 se prefere a narra\u00e7\u00e3o ou uma descarga de pontap\u00e9s. Sendo prov\u00e1vel que ele prefira os pontap\u00e9s, a pessoa deve imediatamente pespeg\u00e1-los. No caso ali\u00e1s extraordin\u00e1rio e quase absurdo, de que o passageiro prefira a narra\u00e7\u00e3o, o proponente deve faz\u00ea-lo minuciosamente, carregando muito nas circunstancias mais triviais, repetindo os ditos, pisando e repisando as coisas, de modo que o paciente jure aos seus deuses n\u00e3o cair em outra.<\/p>\n<p>ART. VI &#8211; Dos perdigotos<\/p>\n<p>Reserva-se o banco da frente para a emiss\u00e3o dos perdigotos, salvo nas ocasi\u00f5es em que a chuva obriga a mudar a posi\u00e7\u00e3o do banco. Tamb\u00e9m podem emitir-se na plataforma de tr\u00e1s, indo o passageiro ao p\u00e9 do condutor, e a cara para a rua.<\/p>\n<p>ART. VII &#8211; Das conversas<\/p>\n<p>Quando duas pessoas, sentadas a dist\u00e2ncia, quiserem dizer alguma coisa em voz alta, ter\u00e3o cuidado de n\u00e3o gastar mais de quinze ou vinte palavras, e, em todo caso, sem alus\u00f5es maliciosas, principalmente se houver senhoras.<\/p>\n<p>ART. VIII &#8211; Das pessoas com morrinha<\/p>\n<p>As pessoas que tiverem morrinha, podem participar dos bonds indiretamente: ficando na cal\u00e7ada, e vendo-os passar de um lado para outro. Ser\u00e1 melhor que morem em rua por onde eles passem, porque ent\u00e3o podem v\u00ea-los mesmo da janela.<\/p>\n<p>ART. IX &#8211; Da passagem \u00e0s senhoras<\/p>\n<p>Quando alguma senhora entrar o passageiro da ponta deve levantar-se e dar passagem, n\u00e3o s\u00f3 porque \u00e9 inc\u00f4modo para ele ficar sentado, apertando as pernas, como porque \u00e9 uma grande m\u00e1-cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>ART.X &#8211; Do pagamento<\/p>\n<p>Quando o passageiro estiver ao p\u00e9 de um conhecido, e, ao vir o condutor receber as passagens, notar que o conhecido procura o dinheiro com certa vagareza ou dificuldade, deve imediatamemc pagar por ele: \u00e9 evidente que, se ele quisesse pagar, teria tirado o dinheiro mais depressa.<\/p>\n<p>[21a]<\/p>\n<p>[2julho]<\/p>\n<p>O SR. DEPUTADO Penido censurou a C\u00e2mara por lhe ter rejeitado duas emendas: &#8211; uma que mandava fazer desconto aos deputados que n\u00e3o comparecessem \u00e0s sess\u00f5es; outra que reduzia a import\u00e2ncia do subs\u00eddio.<\/p>\n<p>Respeito as c\u00e3s do distinto mineiro, mas permita-me que lhe diga: a censura recai sobre S. Ex.\u00aa n\u00e3o s\u00f3 uma, como duas censuras.<\/p>\n<p>A primeira emenda \u00e9 descabida.S. Ex.\u00aa naturalmente ouviu dizer que aos deputados franceses s\u00e3o descontados os dias em que n\u00e3o comparecem; e, precipitadamente, pelo vezo de tudo copiarmos do estrangeiro, quis logo introduzir no regimento da nossa C\u00e2mara esta cl\u00e1usula ex\u00f3tica. N\u00e3o advertiu S. Ex.\u00aa, que esse desconto \u00e9 l\u00f3gico e poss\u00edvel num pa\u00eds, onde os jantares para cinco pessoas contam cinco croquetes, cinco figos e cinco fatias de queijo. A Fran\u00e7a com todas as suas magnific\u00eancias, \u00e9 um pa\u00eds s\u00f3rdido. A economia ali \u00e9 mais do que sentimento ou um costume, mais que um v\u00edcio, \u00e9 uma esp\u00e9cie de p\u00e9 torto, que as crian\u00e7as trazem do \u00fatero de suas m\u00e3es.<\/p>\n<p>A livre, jovem e rica Am\u00e9rica n\u00e3o deve empregar tais processos, que estariam em desacordo com um certo sentimento est\u00e9tico e pol\u00edtico C\u00e1, quando h\u00e1 algu\u00e9m para jantar, mata-se um porco; e se h\u00e1 intimidade, as pessoas da vizinhan\u00e7a, que n\u00e3o comparecerem, recebem no dia seguinte um peda\u00e7o de lombo, uma costeleta, etc. Ora, isso que se faz no dia seguinte, nas casas particulares, sem censura nem emenda, porque \u00e9 que merecer\u00e1 emenda e censura na C\u00e2mara onde ali\u00e1s o lombo e as costeletas s\u00e3o remetidos s\u00f3 no fim do m\u00eas? Nem remetidos s\u00e3o: os pr\u00f3prios obsequiados \u00e9 que h\u00e3o de ir busc\u00e1-los.<\/p>\n<p>Demais, subs\u00eddio n\u00e3o \u00e9 vencimento no sentido ordin\u00e1rio: pro labore. \u00c9 um modo de suprir \u00e0s necessidades do representante, para que ele, durante o tempo em que trata dos neg\u00f3cios p\u00fablicos, tenha a subsist\u00eancia afian\u00e7ada. O fato de n\u00e3o ir \u00e0 C\u00e2mara n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o trata dos neg\u00f3cios p\u00fablicos; em casa pode fazer longos trabalhos e investiga\u00e7\u00f5es. Ser\u00e1 por andar algumas vezes na Rua do Ouvidor, ou algures? Mas quem ignora que o pensamento, obra secreta do c\u00e9rebro, pode estar em a\u00e7\u00e3o em qualquer que seja o lugar do homem? A mais bela freguesa dos nossos armarinhos n\u00e3o pode impedir que eu, olhando para ela, resolva um problema de matem\u00e1ticas. Arquimedes fez uma descoberta estando no banho.<\/p>\n<p>Mas, concedamos tudo; concedamos que a mais bela freguesa dos nossos armarinhos me leva os olhos, as pernas e o cora\u00e7\u00e3o. Ainda assim estou cumprindo os deveres do cargo. Em primeiro lugar, jurei manter as institui\u00e7\u00f5es do pa\u00eds, e o armarinho, por ser a mais recente, n\u00e3o \u00e9 a menos s\u00f3lida das nossas institui\u00e7\u00f5es. Em segundo lugar, defendo a bolsa do contribuinte, pois, enquanto a acompanho com os olhos, as pernas e o cora\u00e7\u00e3o, impe\u00e7o que o contribuinte o fa\u00e7a,\u00e9 claro que este n\u00e3o o pode fazer, sem emprego de ve\u00edculo, luvas, gravatas, molhaduras, cheiros, etc.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 menos curiosa a segunda emenda do Sr. Penido: a redu\u00e7\u00e3o do subs\u00eddio.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m ignora que a C\u00e2mara s\u00f3 pode tratar dessa mat\u00e9ria no \u00faltimo ano de legislatura. Da\u00ed a rejei\u00e7\u00e3o da emenda. O Sr. Penido n\u00e3o nega a inconstitucionalidade desta, mas argumenta de um modo singular\u00edssimo. O aumento de subs\u00eddio fez-se inconstitucionalmente; logo, a redu\u00e7\u00e3o pode ser feita pela mesma forma inconstitucional.<\/p>\n<p>Perdoe-me S. Ex.\u00aa, este seu racioc\u00ednio n\u00e3o \u00e9 s\u00e9rio; lembra o aforismo popular &#8211; mordedura de c\u00e3o cura-se com o p\u00ealo do mesmo c\u00e3o.<\/p>\n<p>O ato da C\u00e2mara, aumentando o subs\u00eddio, foi inconstitucional? Suponhamos que sim. Por isso mesmo que o foi, a C\u00e2mara obrigou-se a n\u00e3o repeti-lo, imitando assim de um modo moderno a palavra daquele general romano, que bradava aos soldados ao iniciar uma empresa dif\u00edcil: &#8211; \u00e9 preciso ir at\u00e9 ali, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio voltar!<\/p>\n<p>[22]<\/p>\n<p>[15 agosto]<\/p>\n<p>NOTA-SE h\u00e1 algum tempo certa tristeza nos generais da armada. H\u00e1 em todos uma invenc\u00edvel melancolia, um abatimento misterioso. A express\u00e3o jovial do Sr. Silveira da Mota acabou. O Sr. De Lamare, conquanto tivesse sempre os mesmos modos pacatos, mostra na fisionomia alguma coisa nova e diferente, uma esp\u00e9cie de afli\u00e7\u00e3o concentrada. N\u00e3o falo do Sr. Bar\u00e3o da Passagem, nem do Sr. Lomba; todos sabem que esses jazem no leito da dor com a mais impenetr\u00e1vel das mol\u00e9stias humanas.<\/p>\n<p>N\u00e3o atinando com a causa do fen\u00f4meno, os m\u00e9dicos resolveram fazer uma confer\u00eancia, e todos foram de opini\u00e3o que a mol\u00e9stia tinha uma origem puramente moral. Os generais sentem necessidade de alguma coisa. N\u00e3o pode ser aumento dos vencimentos; eles contentam-se com o soldo. Nem honras, eles as t\u00eam bastantes, e n\u00e3o querem mais. Nisto interveio o Sr. Meira de Vasconcelos. S. Ex.\u00aa conversou com os enfermos, e descobriu que eles padeciam de uma necessidade de denomina\u00e7\u00e3o nova. F\u00e1cil era o rem\u00e9dio; eis a receita que S. Ex.\u00aa lavrou ontem, no Senado, em forma de aditivo ao or\u00e7amento da Marinha:<\/p>\n<p>Os postos de generais do corpo da Armada passar\u00e3o a ter as seguintes denomina\u00e7\u00f5es, sem altera\u00e7\u00e3o dos vencimentos nem das honras militares: &#8211; Almirante (passa a ser) almirante da armada; vice-almirante (idem) almirante; chefe da esquadra (idem) vice-almirante; chefe de divis\u00e3o (idem) contra-almirante.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de supor que o Senado rejeite uma coisa t\u00e3o simples; podemos felicitar desde j\u00e1 os ilustres enfermos.<\/p>\n<p>N\u00e3o ter\u00e1 escapado ao leitor, que, por este artigo passamos a ter quatro categorias de almirantes, em vez de duas; e ningu\u00e9m imagina corno isto faz crescer os pepinos. Outra coisa tamb\u00e9m n\u00e3o ter\u00e1 escapado ao leitor, \u00e9 o dom prol\u00edfico deste aditivo, porquanto ele ainda pode dar de si ,quando a mol\u00e9stia atacar os outros oficiais, uma boa d\u00fazia de almirantes: &#8211; um quase-almirante, um almirante-adjunto, um almirante suplente, etc., at\u00e9 chegar ao atual aspirante de marinha, que ser\u00e1 aspirante a almirante.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 que dizer nada contra a medica\u00e7\u00e3o. A C\u00e2mara Municipal aplica-a todos os dias \u00e0s ruas. Quando alguma destas padece de falta de ilumina\u00e7\u00e3o ou sobra de atoleiros, a C\u00e2mara muda-lhe o nome. Rua de D. Zeferina, Rua de D. Am\u00e1lia, Rua do Comendador Alves, Rua do Brigadeiro Jos\u00e9 Anast\u00e1cio da Cunha Souto; c&#8217;est pas plus malin que \u00e7\u00e0. Foi assim que duas velhas ruas, a da Carioca e a do Rio Comprido, cansadas de trazer um nome que as prendia demasiadamente \u00e0 hist\u00f3ria da cidade, pelo que padeciam de enxaquecas, foram crismadas pela ilustre corpora\u00e7\u00e3o: &#8211; uma passou a chamar-se S\u00e3o Francisco de Assis, outra Malvino Reis.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Creio que o leitor sabe de um banquete que as sumidades inglesas deram agora ao c\u00e9lebre ator Irving. O presidente da festa foi o lord chief justice. Levantando o brinde \u00e0 rainha, disse, entre outras, estas palavras:<\/p>\n<p>Usarei de uma met\u00e1fora apropriada \u00e0 ocasi\u00e3o; direi que Sua Majestade, durante muitos anos, tem desempenhado um grande papel no tablado dos neg\u00f3cios humanos, representando com gra\u00e7a, com dignidade, com honra e com uma nobre simpleza (Apoiados). Os seus s\u00fabditos sabem como ela amava o drama na mocidade&#8230; Agora, nos \u00faltimos tempos, sob a influ\u00eancia de uma grande tristeza, tem se retirado do teatro p\u00fablico.<\/p>\n<p>Ah! Se o Sr. Lafayette ca\u00edsse em usar c\u00e1 uma tal met\u00e1fora! Se Sganarello lhe deu tantas amarguras, que dir\u00edamos desta compara\u00e7\u00e3o da rainha com uma atriz, e do governo com um tablado? N\u00e3o sei se j\u00e1 disse que o discurso foi do lord chief justice.<\/p>\n<p>J\u00e1 o fato de ir este homem jantar com um ator \u00e9 extraordin\u00e1rio; mas o que dir\u00e1 o leitor de um bilhete com que Gladstone, que atualmente governa a Inglaterra, pede desculpa a Irving de n\u00e3o poder comparecer, acrescentando que h\u00e1 dois anos para c\u00e1, s\u00f3 tem ido aos jantares de lord mayor, que s\u00e3o jantares de rigor? E a \u00eanfase com que o bispo de York escreve, dizendo que os que se interessam pela moralidade p\u00fablica, devem simpatizar com as honras feitas a Irving, que t\u00e3o nobremente tem levantado a arte dram\u00e1tica na Inglaterra?<\/p>\n<p>N\u00e3o quero citar mais nada; bastam-se estas palavras do lindo brinde do lord chief justice ao artista festejado:<\/p>\n<p>Em conclus\u00e3o: assim como a Am\u00e9rica nos mandou Booth, assim mandamos Irving \u00e0 Am\u00e9rica, e assim como Irving e a Inglaterra receberam Booth de bra\u00e7os abertos, assim tamb\u00e9m, estou certo, aquele grande e generoso pa\u00eds receber\u00e1 o nosso primeiro e admir\u00e1vel ator.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>\u00c0 vista destes deplor\u00e1veis exemplos quer-me parecer que Sganarello e Moli\u00e8re n\u00e3o fariam t\u00e3o m\u00e1 figura na C\u00e2mara dos Comuns&#8230;<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>N\u00e3o vamos agora dar um banquete ao Sr. Pedrosa s\u00f3 para imitar os ingleses.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Um articulista an\u00f4nimo, tratando h\u00e1 dias do uso da folga acad\u00eamica nas quintas-feiras, escreveu que Mois\u00e9s e Cristo s\u00f3 recomendaram um dia de descanso na semana, e acrescenta que nem Spencer nem Comte indicaram dois.<\/p>\n<p>Nada direi de Spencer; mas pelo que respeita a Comte, nosso imortal mestre, declaro que a afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 falsa. Comte permite (excepcionalmente, \u00e9 verdade) a observ\u00e2ncia de dois dias de repouso. Eis o que se l\u00ea no Catecismo do grande fil\u00f3sofo.<\/p>\n<p>O dia de descanso deve ser um e o mesmo para todas as classes de homens. Segundo o juda\u00edsmo, esse dia \u00e9 o s\u00e1bado; &#8211; e segundo o cristianismo, \u00e9 o domingo. 0 positivismo pode admitir, em certos casos, a guarda do s\u00e1bado e do domingo, ao mesmo tempo. Tal \u00e9, por exemplo, o daquelas institui\u00e7\u00f5es criadas para a contempla\u00e7\u00e3o dos filhos da Gr\u00e3-Bretanha, como sejam, entre outras, os parlamentos de alguns pa\u00edses, etc. E a raz\u00e3o \u00e9 esta. Sendo os ingleses, em geral, muito ocupados, pouco tempo lhes resta para ver as coisas alheias. Da\u00ed a necessidade de limitar os dias de trabalho parlamentar dos ditos pa\u00edses, a fim de que aqueles insulares possam gozar da vista recreativa das mencionadas institui\u00e7\u00f5es. (Cat. Posit., p. 302).<\/p>\n<p>Rio de Janeiro, 3 do Brigadeiro Jos\u00e9 Anast\u00e1cio da Cunha Souto de 94 (14 de agosto de 1883) .<\/p>\n<p>[23]<\/p>\n<p>[16 outubro]<\/p>\n<p>No MOMENTO em que me sentava a escrever, recebi uma carta de um nosso h\u00f3spede ilustre. As-tu vu le mandarin ? * Pois foi ele mesmo, o mandarim, que me escreveu, pedindo a fineza de inserir nas &#8220;Balas de Estalo&#8221; uma exposi\u00e7\u00e3o modesta das impress\u00f5es que at\u00e9 agora tem recebido do nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>N\u00e3o traduzi a carta, para lhe n\u00e3o tirar o valor. Al\u00e9m disso, h\u00e1 dela alguns ju\u00edzos demasiado crus, que melhor \u00e9 fiquem conhecidos t\u00e3o-somente dos que sabem a l\u00edngua chinesa. Em alguns lugares, o meu ilustre correspondente inseriu express\u00f5es nossas; ou por n\u00e3o achar equivalente na l\u00edngua dele ou (como me parece) para mostrar que j\u00e1 est\u00e1 um pouco familiar com o idioma do pa\u00eds. Eis a carta:<\/p>\n<p>Vu pan L\u00e9lio,<\/p>\n<p>Lamakatu ap\u00e1 ling-ling &#8220;Balas de Estalo&#8221;, mapapi tung? Ker\u00e9 siri mamma,ulama&#8217;i tik&#8217;\u00e1.<\/p>\n<p>*Esta pergunta,reminiscente de um verso de Musset,se refere \u00e0 passagem,pelo Rio,do famoso mandarim,que aqui veio tratar da vinda de colonos chineses.<\/p>\n<p>Foi isto motivo para artigos e discursos de protesto, como para a revista O Mandarim, de Artur Azevedo e Moreira Sampaio, estreada em janeiro de 1884.<br \/>\nTon-ton pacamar\u00e9 Rua do Ouvidor nappi Botafogo, nappi Laranjeiras mappi Petr\u00f3polis gog\u00f4. China cava miraka Rua do Ouvidor! Naka ling! tica milung! Ita marica armarinho, gavamacu mo\u00e7a bonita, vala ravala balv\u00e3o; caixeiro sika maripu derretido. Mo\u00e7anigu vaia pe\u00e7a fita, agulha, veludo, colchete, iva curva trapalhada. Mo\u00e7o lingu istu passa na rua, che-beru pitigaia entra, namora, rini mamma.<\/p>\n<p>Viliki xaxi xali xaliman. Acalag ting-ting valixu. Upa Costa Braga rel\u00e1 minag katu Integridade abaxung kapi a ver navios. Lamarika ana bapa bung? Gog\u00f4 xupit\u00f4? Nepa in pav\u00e9. Brasil desfalques latecatu. Inglese poeta, Shakespeare, kar\u00e1: make money, upa lamar\u00e9 in l\u00edngua Brasil: &#8211; mete dinheiro no bolso. Vaia, Vaia, gapaling capita passa a unha sim\u00e1 teka laparika. Eting p\u00f5e-se a panos, etang mer\u00fa xilindr\u00f3.<\/p>\n<p>lt\u00e1 poxta, China kiva Li-vai-p\u00e9, ab\u00e1 nan\u00e1 Otaviano Hudson, naka panaka, neka paneca, mingu. Musa vira kassete.<\/p>\n<p>&#8211; Mira lung Minas Gerais longu senado. Vet\u00e1 min\u00e1 Lima Duarte passi Ces\u00e1rio Alvim; mar\u00e1 kari Evaristo da Veiga seba In\u00e1cio Martins. Rebag\u00fa sara Coromandel? Teca laia Coromandel?<\/p>\n<p>Aba lili tramway Copacabana. Vasi lang? Tacatu, pacatu, pacatu. Hu-huchi edital Wagner, limaraia Duvivier. Toca xuxu Figueiredo de Magalh\u00e3es, upa, upa upa. Baba China p\u00e1ri\u00fa. H\u00e9h&#8230;<\/p>\n<p>Siba-\u00fa lami assembl\u00e9ia provincial nanakat\u00e9. Mir\u00f4 bob\u00f3 xalu Galv\u00e3o Peixoto: ridin teca maneca cabelinho na venta. Pantutu? Hermann limpatuba Arang chikang Companhia Telef\u00f4nica ruru mamma, ipi, xuchi paripangatu, Caminha Magalh\u00e3es Castro, xela kopa, xela kipa, xela kopa. Neka siri lipa C\u00e2mara dos Deputados abaling. China seca pareka amolador empala. Laka pitak? Nana pari\u00fa.<\/p>\n<p>Faro e Lino papyros, biblos, mak\u00f3 gog\u00f3. Lino abatukamu, Faro abatiki. Eba \u00fa lat\u00e9! Castel\u00f5es zuru! Club Beethoven paka xali! Tarinanga ax\u00e1 acaritunga. Harritoff dansa mari xali!<\/p>\n<p>Xulica Brasil par\u00e1; aba lingu ret\u00f3rica, palra\u00e7\u00e3o, tempo perdido, pari mamma; xulica Kurimantu. Iva nen\u00ea, iva tat\u00e1. Brasil gamela tika moka, ingl\u00eas ver. Veriman? Calunga, mussanga, monau dengu\u00ea. Valavala. Dara dara bastonara. Malan drice paku. Ocuoco; momer\u00e9o-diar\u00ea. Ite, issa est.<\/p>\n<p>Mandarim de 1\u00aa classe<\/p>\n<p>TONG KONG S ING<\/p>\n<p>Como se ter\u00e1 visto, no meio de alguns reparos crus, h\u00e1 muita simpatia e viva observa\u00e7\u00e3o. Quanto ao estilo, \u00e9 do mais puro, \u00e9 da escola de Macau, \u00e0s doutrinas do s\u00e9culo XII antes da Cria\u00e7\u00e3o. A nossa cr\u00edtica ter\u00e1 notado a linda imagem com que o ilustre escritor define o progresso, chegando \u00e0 praia da Copacabana: pacatu, pacatu, pacatu. Em suma, \u00e9 um documento honroso para o autor e para n\u00f3s.<\/p>\n<p>[24]<\/p>\n<p>[23 outubro]<\/p>\n<p>A Gazeta de Londres publicou, em seu n\u00famero de 8 do m\u00eas passado, um of\u00edcio do vice-rei da \u00cdndia ao Conde Granville, contendo informa\u00e7\u00f5es interessant\u00edssimas para a quest\u00e3o dos trabalhadores asi\u00e1ticos. Visto que h\u00e1 tanto horror aos chins, pareceu-me interessante transcrever esse documento:<br \/>\n\u00c0 S. Ex\u00aa. o Sr. Conde Granville, Secret\u00e1rio de Estado dos Neg\u00f3cios Estrangeiros.<\/p>\n<p>Calcut\u00e1, 13 de agosto de 1883.<\/p>\n<p>Senhor Conde<\/p>\n<p>Noutro of\u00edcio que ora dirijo ao Honrado Secret\u00e1rio de Estado das Col\u00f4nias dou conta de alguns fatos relativos ao trabalho agr\u00edcola na \u00cdndia. Pe\u00e7o licen\u00e7a a V. Ex.\u00aa para resumi-los aqui, no caso de que o governo de Sua Majestade tenha de intervir naqueles pa\u00edses da Am\u00e9rica, onde o trabalho chim \u00e9 usado, ou vai s\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, devo lembrar a V. Ex.\u00aa que \u00e9 preciso distinguir o chim do chim. O chim comum est\u00e1 de muito abandonado em toda a \u00c1sia, onde foi suplantado por uma variedade de chim muito superior \u00e0 outra. Essa variedade, como j\u00e1 tive ocasi\u00e3o de dizer ao governo de Sua Majestade, \u00e9 o chimpanz\u00e9.<\/p>\n<p>O deplor\u00e1vel equ\u00edvoco que, durante dilatados anos, classificou o chimpanz\u00e9 entre os macacos, estava h\u00e1 muito abandonado. Mas persistia a convic\u00e7\u00e3o de que, embora pertencente \u00e0 fam\u00edlia humana, o chimpanz\u00e9 fosse refrat\u00e1rio ao trabalho. Esta mesma convic\u00e7\u00e3o vai desaparecer, depois das brilhantes experi\u00eancias feitas nos dom\u00ednios de Sua Majestade, e at\u00e9 na China e no Jap\u00e3o.<\/p>\n<p>O primeiro s\u00fabdito de Sua Majestade que empregou o chimpanz\u00e9, foi Sir John Sterling, que reside na \u00cdndia h\u00e1 trinta anos. Desde 1864 o seu trabalhador era o chim comum .Ultimamente, por\u00e9m, deu-se uma desordem, verdadeira rebeli\u00e3o, e a maior parte dos trabalhadores retiraram-se. Sir John Sterling resolveu liquidar e voltar pare a Europa; mas tendo not\u00edcia de que o chimpanz\u00e9 era moralmente superior ao chim comum, mandou contratar uns trinta para ensaio, e deu-se muito bem com eles. Da\u00ed a seis meses a planta\u00e7\u00e3o tinha cerca de cem indiv\u00edduos: hoje conta setecentos e trinta. Dois parentes seus lan\u00e7aram m\u00e3o do mesmo instrumento de trabalho; hoje h\u00e1 muit\u00edssimas planta\u00e7\u00f5es que n\u00e3o t\u00eam outro.<\/p>\n<p>Foram os parentes de Sir John Sterling, que me deram as not\u00edcias que nesta data transmito a V. Ex.\u00aa o Sr. Secret\u00e1rio das Col\u00f4nias, e que vou resumir pare uso de V. Ex.\u00aa<\/p>\n<p>A primeira vantagem do chimpanz\u00e9 \u00e9 que \u00e9 muito mais s\u00f3brio que o Chim comum. As aves dom\u00e9sticas, geralmente apreciadas por este (galinhas, patos, gansos, etc.), n\u00e3o o s\u00e3o pelo outro, que se sustenta de cocos e nozes.O chimpanz\u00e9 n\u00e3o usa roupa, cal\u00e7ado ou chap\u00e9u. N\u00e3o vive com os olhos na p\u00e1tria; ao contr\u00e1rio, Sir John Sterling e seus parentes afirmaram que t\u00eam conseguido fazer com que os chimpanz\u00e9s mortos sejam comidos pelos sobreviventes, e a economia resultante deste meio de sepultura pode subir, numa planta\u00e7\u00e3o de dois mil trabalhadores, a duzentas libras por ano.<\/p>\n<p>N\u00e3o tendo os chimpanz\u00e9s nenhuma esp\u00e9cie de sociedade, nem institui\u00e7\u00f5es, n\u00e3o h\u00e1 em parte alguma embaixadas nem consulados;o que quer dizer que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma esp\u00e9cie de reclama\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica, e pode V. Ex.\u00aa calcular o sossego que este fato traz ao trabalho e aos trabalhadores. Est\u00e1 provado que toda a rebeli\u00e3o do chim comum prov\u00e9m da imagem, que eles t\u00eam presente, de um governo nacional, um imperador e in\u00fameros mandarins. Por outro lado, a imprensa n\u00e3o poder\u00e1 tomar as dores por ele, para n\u00e3o confessar uma solidariedade da esp\u00e9cie, que ainda repugna a alguns.<\/p>\n<p>Quanto aos lucros, dizem-me que s\u00e3o de vinte e cinco a vinte e oito por cento, Sir John Sterling fez no ano de 1881, com o chim comum, vinte mil libras; em 1882, tendo introduzido em mar\u00e7o os primeiros chimpanz\u00e9s, apurou quinze mil libras; e nos primeiros seis meses deste ano vai em onze mil e quinhentas. A perfei\u00e7\u00e3o do trabalho \u00e9, ou a mesma, ou maior. A celeridade \u00e9 dobrada, e a limpeza \u00e9 t\u00e3o superior, que Sir John n\u00e3o viu nada melhor na Inglaterra.<\/p>\n<p>No of\u00edcio ao Secret\u00e1rio das Col\u00f4nias, mando alguns dados estat\u00edsticos, desenvolvidos, que n\u00e3o reproduzo para n\u00e3o alongar este.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio houve relut\u00e2ncia em admitir o chimpanz\u00e9 pelo fato de andar muita vez a quatro p\u00e9s; mas Sir John Sterling, que \u00e9 naturalista e antropologista em\u00e9rito, fez observar aos parentes e amigos, que a atitude do chimpanz\u00e9 \u00e9 uma quest\u00e3o de costumes. Na Europa e outras partes, h\u00e1 muitos b\u00edpedes por simples h\u00e1bito, educa\u00e7\u00e3o, uso de fam\u00edlia, imita\u00e7\u00e3o e outras causas, que n\u00e3o implicam com as faculdades intelectuais. Mas tal \u00e9 a for\u00e7a do preconceito que, assim como no caso daqueles b\u00edpedes se conclui da posi\u00e7\u00e3o das pernas para a qualidade da pessoa, assim tamb\u00e9m se faz com o chimpanz\u00e9; sendo ambos o mesm\u00edssimo caso: &#8211; uma quest\u00e3o de apar\u00eancia e preconceito. Felizmente, a propaganda vai fazendo desaparecer esse erro funesto, e o chimpanz\u00e9 come\u00e7a a ser julgado de um modo eq\u00fcitativo, cient\u00edfico e pr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Rogo a V. Ex. se digne submeter estes fatos ao conhecimento do Sr. Gladstone.<\/p>\n<p>Sou, etc.<\/p>\n<p>WEBSTER.<\/p>\n<p>Esta carta \u00e9 realmente importante, e espero sejam devidamente apreciadas e n\u00e3o fiquem perdidas as li\u00e7\u00f5es que cont\u00e9m. O nosso defeito \u00e9 n\u00e3o dar aten\u00e7\u00e3o a coisas s\u00e9rias! Esta \u00e9 das mais s\u00e9rias.<\/p>\n<p>As pessoas que preferem os chins, n\u00e3o podem deixar de aceitar este substituto. Segundo a carta transcrita, o chimpanz\u00e9 tendo as mesmas aptid\u00f5es do outro chim, \u00e9 muito mais econ\u00f4mico. Por outro lado, os advers\u00e1rios, os que receiam o abastardamento da ra\u00e7a, n\u00e3o ter\u00e3o esse argumento, porque o chimpanz\u00e9 n\u00e3o se cruzar\u00e1 com as ra\u00e7as do pa\u00eds.<\/p>\n<p>[25]<\/p>\n<p>[7 novembro]<\/p>\n<p>NASCER RICO \u00e9 uma grande vantagem que nem todos sabem apreciar. Qual n\u00e3o ser\u00e1 a de nascer rei? Essa \u00e9 ainda mais preciosa, n\u00e3o s\u00f3 por ser mais rara, como porque n\u00e3o se pode l\u00e1 chegar por esfor\u00e7o pr\u00f3prio, salvo alguns desses lances t\u00e3o extraordin\u00e1rios, que a hist\u00f3ria toda se desloca. Sobe-se de carteiro a milion\u00e1rio ; n\u00e3o se sobe de milion\u00e1rio a pr\u00edncipe.<\/p>\n<p>Entretanto, dado o caso de voca\u00e7\u00e3o (porque a natureza diverte-se \u00e0s vezes em andar ao inv\u00e9s da sociedade), como h\u00e1 de um homem que sente \u00edmpetos r\u00e9gios, combinar o sentimento pessoal com a paz p\u00fablica? A\u00ed est\u00e1 o caso em que nem o mais fino Escobar era capaz de resolver; a\u00ed est\u00e1 o que resolveram alguns cidad\u00e3os de Guaratinguet\u00e1.<\/p>\n<p>Reuniram-se e organizaram uma irmandade de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio, que \u00e9 irmandade s\u00f3 no nome; na realidade, \u00e9 um reino; e tudo indica que \u00e9 o reino dos c\u00e9us. Os referidos cidad\u00e3os acharam o meio de cingir a coroa sem vir busc\u00e1-la a S. Cristov\u00e3o: elegem anualmente um rei, e a coroa passa de uma testa a outra, pacificamente, alegremente, como no jogo do papel\u00e3o. Aqui vai o papel\u00e3o. O que traz o papel\u00e3o?<\/p>\n<p>No presente ano (1883 &#8211; 1884), o Rei da irmandade \u00e9 o Sr. Martins de Abreu, nome pouco sonoro, mas n\u00e3o \u00e9 de sonoridade que vivem as boas institui\u00e7\u00f5es. A Rainha \u00e9 a Sra. D. Clara Maria de Jesus. H\u00e1 um Juiz do Ramalhete, que \u00e9 o Sr. Francisco Ferreira, e uma ju\u00edza do mesmo Ramalhete que \u00e9 a Sra. D. Zelina Rosa do Amor Divino. N\u00e3o h\u00e1 a menor explica\u00e7\u00e3o do que seja este ramalhete. \u00c9 realmente um ramalhete ou \u00e9 nome simb\u00f3lico do principado ministerial?<\/p>\n<p>Segue-se o Capit\u00e3o do Mastro. Este cargo coube ao Sr. Ant\u00f4nio Gon\u00e7alvez Bruno, e n\u00e3o tem fun\u00e7\u00f5es definidas. Capit\u00e3o do Mastro faz cismar. Que mastro, e por que capit\u00e3o? Compreendo o Juiz da Vara, compreendo mesmo o Alferes da Bandeira. Este \u00e9 provavelmente o que leva a bandeira, e, para supor que o capit\u00e3o tem a seu cargo carregar um mastro, \u00e9 preciso demonstrar primeiramente a necessidade do mastro. J\u00e1 n\u00e3o digo a mesma coisa do Tenente da Coroa, cargo desempenhado pelo Sr. Jo\u00e3o Marcelino Gon\u00e7alves. Pode-se notar somente a singularidade de ser a coroa levada por um tenente; mas, dadas as propor\u00e7\u00f5es limitadas do novo reino, n\u00e3o h\u00e1 que recusar. H\u00e1 tamb\u00e9m um sacrist\u00e3o, que \u00e9 alferes, o Sr. alferes Bueno, e. .. N\u00e3o, isto pede um par\u00e1grafo especial.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m um (digo?) h\u00e1 tamb\u00e9m um Meirinho. O Sr. Neves da Cruz \u00e9 o encarregado dessas fun\u00e7\u00f5es citat\u00f3rias e compulsivas, e provavelmente n\u00e3o \u00e9 cargo honor\u00edfico, se o fosse, teria outro nome. N\u00e3o; ele cita, ele penhora, ele captura os irm\u00e3os do Ros\u00e1rio. Assim, pois, esta irmandade tem um tesoureiro para recolher o dinheiro, um procurador para ir cobr\u00e1-lo e um meirinho para compelir os remissos. Un capo d&#8217;opera.<\/p>\n<p>Agora, como \u00e9 que se tratam uns aos outros esses dignit\u00e1rios? N\u00e3o sei; mas presumo, pelo pouco que conhe\u00e7o da natureza humana, que eles n\u00e3o ficam a meio caminho da fic\u00e7\u00e3o. O Rei pode ter Majestade, e assim tamb\u00e9m a Rainha. E quando receberem os cumprimentos, adivinho que os receber\u00e3o com certa complac\u00eancia fina, certo ar digno e grande. H\u00e3o de chover os t\u00edtulos &#8211; Vossa Majestade, Vossa Perfumaria Vossa Mastrea\u00e7\u00e3o. . . Em roda o povo de Guaratinguet\u00e1, e por cima a lua cochilando de fastio e sono..<\/p>\n<p>[26]<\/p>\n<p>[24 novembro]<\/p>\n<p>A Folha Nova afirma em seu n\u00famero de ontem, na parte editorial, que os membros da pol\u00edcia secreta; agora dissolvida, tinham o costume de gritar para se darem import\u00e2ncia: Sou pol\u00edcia secreta!<\/p>\n<p>Pour un comble, viol\u00e1 un comble. H\u00e1 de haver alguma raz\u00e3o,igualmente secreta, para um caso t\u00e3o fora das previs\u00f5es normais.Por mais que a parafuse, n\u00e3o acho nada, mas vou trabalhar e um dia destes, se Deus quiser, atinando com a coisa, dou com ela no prelo.<\/p>\n<p>Porquanto (e esta \u00e9 a parte sublime do meu racioc\u00ednio), porquanto eu n\u00e3o creio que fosse a id\u00e9ia de darem-se import\u00e2ncia que levasse os secretas a descobrirem-se.<\/p>\n<p>Conheci esses modestos funcion\u00e1rios. N\u00e3o eram s\u00f3 modestos, eram tamb\u00e9m l\u00f3gicos.<\/p>\n<p>Nenhum deles bradaria que era secreta, com a inten\u00e7\u00e3o vaidosa de aparecer; mas, dado mesmo que quisessem faz\u00ea-lo, era in\u00fatil porque os petr\u00f3polis que traziam na m\u00e3o definiam melhor do que os mais grossos livros do universo. Eu pergunto aos homens de boa vontade raz\u00e3o clara e cora\u00e7\u00e3o sincero: -Quando a gente via, na esquina, tr\u00eas ou quatro sujeitos encostadinhos da Silva, com fuzis nos olhos, e petr\u00f3polis na m\u00e3o, n\u00e3o sabia logo, n\u00e3o jurava que eram tr\u00eas ou quatro secretas?<\/p>\n<p>Afinal achei a raz\u00e3o do fato que assombrou ao nosso colega e a n\u00f3s. Pe\u00e7o ao leitor que espane primeiro as orelhas e fa\u00e7a convergir toda a aten\u00e7\u00e3o para o que vou dizer, que n\u00e3o \u00e9 de compreens\u00e3o f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Os secretas compreenderam que a primeira condi\u00e7\u00e3o de uma po1\u00edcia secreta era ser secreta. Para isso era indispens\u00e1vel, n\u00e3o s\u00f3 que ningu\u00e9m soubesse que eles eram secretas, como at\u00e9 que nem mesmo chegasse remotamente a suspeit\u00e1-lo. Como impedir a descoberta ou a desconfian\u00e7a? De um modo simples: &#8211; gritando: Sou secreta! os secretas deixavam de ser secretas, e, sabendo o p\u00fablico que eles J\u00e1 n\u00e3o eram secretas, agora \u00e9 que eles ficavam verdadeiramente secretas. N\u00e3o sei se me entendem. Eu n\u00e3o entendi nada.<\/p>\n<p>Mas, neste assunto, tudo o que se possa dizer n\u00e3o vale a cena, que se deu h\u00e1 cinco ou seis anos, na Rua da Uruguaiana. Est\u00e1 nos jornais do tempo. Um grupo de homens do povo perseguia a um indiv\u00edduo, que acusavam de ter praticado um furto. Os perseguidores corriam gritando: \u00c9secreta! \u00e9 secreta! Perto da Rua do Ouvidor, conseguem apanhar o fugitivo, e aparece um urbano. Este chega, olha para o perseguido, e, com um tom de repreens\u00e3o amiga: &#8211; Deixa disso, Gaud\u00eancio!<\/p>\n<p>Pol\u00edcia secreta, que se divulga, ministros de uma rep\u00fablica, que matam o presidente, eis a\u00ed dois fen\u00f4menos que comprovam aquele dito do Cardeal Antonelli: il mondo casca. Que diria o bom cardeal, se visse, como vi h\u00e1 dias, um frade dentro de um t\u00edlburi? \u00c9 verdade que chovia, e que a chuva, quando cai, n\u00e3o poupa ningu\u00e9m ;pode ser mesmo que a coisa n\u00e3o encontre oposi\u00e7\u00e3o nos c\u00e2nones. Mas para mim a quest\u00e3o \u00e9 de est\u00e9tica. H\u00e1 em mim um resto de costela rom\u00e2ntica, que n\u00e3o permite frade fora do mosteiro. Concedo-lhe que ande a p\u00e9, concedo-lhe um cavalo, uma cama, um refeit\u00f3rio; mas homem, t\u00edlburi!<\/p>\n<p>[27]<\/p>\n<p>[16 dezembro]<\/p>\n<p>VALENTIM MAGALH\u00c3ES perdeu uma bela ocasi\u00e3o de n\u00e3o ficar zangado. As suas &#8220;Notas \u00e0 Margem&#8221;, de ontem, s\u00e3o uma das mais odiosas injusti\u00e7as deste tempo, ali\u00e1s t\u00e3o farto delas.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho nada com os quatro bachar\u00e9is em direito que foram ao enterro de Teixeira de Freitas, nem com os que l\u00e1 n\u00e3o foram. Entretanto, podia lembrar ao meu amigo Valentim Magalh\u00e3es, que algum motivo poderoso, embora insignificante, pode ter causado a escassez de colegas no enterro; por exemplo, a falta de cal\u00e7as pretas.<\/p>\n<p>Por mais poeta que seja, Valentim Magalh\u00e3es tem obriga\u00e7\u00e3o (visto que est\u00e1 na imprensa) de compulsar os documentos oficiais e comerciais, os livros dos economistas, as tabelas de importa\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o. Se o fizesse, saberia que todos os anos, desde fins de novembro at\u00e9 princ\u00edpios de mar\u00e7o, os pa\u00edses quentes exportam para a Groenl\u00e2ndia grande n\u00famero de cal\u00e7as pretas. Nos pa\u00edses frios, a exporta\u00e7\u00e3o verifica-se entre abril e agosto. Este fen\u00f4meno tem sido objeto de profundas cogita\u00e7\u00f5es. Laveleye (Da V\u00eatement Humain, p. 79) afirma que o consumo imoderado de cal\u00e7as pretas entre os groenlandeses h\u00e1 de produzir imensa altera\u00e7\u00e3o nos h\u00e1bitos europeus. Eis as pr\u00f3prias palavras do economista belga:<\/p>\n<p>Je crois m\u00eame, avec de bons auteurs, que dans un si\u00e8cle l&#8217;Europe ne portera plus que de pantalons gris, jaunes ou m\u00eame bleus, car il est aver\u00e9 qu&#8217;avec nos moyens chimiques c&#8217;est impossible de teindre une telle quantit\u00e9 de pantalons noirs. I1 faudra bien, ou changer nos habitudes, ou supprimer les groelandais.<\/p>\n<p>Leia Valentim Magalh\u00e3es o ornal dos Alfaiates (tomo XVII, p. 14) e achar\u00e1 que, nos \u00faltimos dez anos, a exporta\u00e7\u00e3o de cal\u00e7as pretas da Europa e dos Estados Unidos para a Groenl\u00e2ndia atingiu a dez milh\u00f5es de exemplares.<\/p>\n<p>Essa pode ser a causa da escassez dos amigos e colegas. Essa foi tamb\u00e9m a causa da pouca gente que acompanhou Alencar ao \u00faltimo jazigo. Alencar morreu em dezembro.Tamb\u00e9m ele era jurisconsulto, e era romancista, orador e pol\u00edtico. N\u00e3o era s\u00f3 isto: era o chefe da nossa literatura. Poderemos crer que a pouca gente no enterro dele era uma express\u00e3o de indiferen\u00e7a? De nenhum modo.<\/p>\n<p>Mas, em suma, nada tenho com os mortos. Vivam os vivos!<\/p>\n<p>Os vivos s\u00e3o os que meu amigo Valentim designa pelo nome de medalh\u00f5es. Em primeiro lugar, h\u00e1 ainda um certo n\u00famero de esp\u00edritos bons, fortes e esclarecidos que n\u00e3o merecem tal designa\u00e7\u00e3o. Em segundo lugar, se os medalh\u00f5es s\u00e3o numerosos, pergunto eu ao meu amigo: &#8211; Tamb\u00e9m eles n\u00e3o s\u00e3o filhos de Deus? Ent\u00e3o, porque um homem \u00e9 med\u00edocre, n\u00e3o pode ter ambi\u00e7\u00f5es e deve ser condenado a passar os seus dias na obscuridade?<\/p>\n<p>Quer me parecer que a id\u00e9ia do meu amigo \u00e9 da mesma fam\u00edlia da de Plat\u00e3o, Renan e Shopenhauer, uma forma aristocr\u00e1tica de governo, composto de homens superiores, esp\u00edritos cultos e elevados, e n\u00f3s que f\u00f4ssemos cavar a terra. N\u00e3o! mil vezes n\u00e3o! A democracia n\u00e3o gastou o seu sangue na destrui\u00e7\u00e3o de outras aristocracias, para acabar nas m\u00e3os de uma oligarquia ferrenha, mais insuport\u00e1vel que todas, porque os fidalgos de nascimento n\u00e3o sabiam fazer epigramas, e n\u00f3s os med\u00edocres e medalh\u00f5es padecer\u00edamos nas m\u00e3os dos Freitas e Alencares, pare n\u00e3o falar dos vivos<\/p>\n<p>E, depois, onde \u00e9 que o meu Valentim compra as suas balan\u00e7as? Ignora ele que a felicidade humana e social depende da reparti\u00e7\u00e3o eq\u00fcitativa dos \u00f4nus e das vantagens? Perante qual princ\u00edpio e aceit\u00e1vel essa teoria, de dar tudo a uns e nada aos outros? L\u00e1stima que Teixeira de Freitas n\u00e3o tivesse uma cadeira de legislador. Mas, com todos os diabos! n\u00e3o se pode ao mesmo tempo votar as leis e consolid\u00e1-las. Que um as consolide, e tanto melhor, se a obra sair perfeita mas que outros as fa\u00e7am; que o Sr. Jos\u00e9 Z\u00f3zimo, que n\u00e3o consolidou nada, levante a voz no are\u00f3pago da na\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o paga imposto? N\u00e3o est\u00e1 no gozo dos direitos civis e pol\u00edticos? Que lhe falta, pois? N\u00e3o inventa, \u00e9 verdade; mas o meu amigo esquece que tudo ou quase tudo est\u00e1 inventado:-a p\u00f3lvora, a imprensa, o telesc\u00f3pio.<\/p>\n<p>Portanto, emende a sua filosofia social, e venha tomar ch\u00e1 comigo.<\/p>\n<p>1884<\/p>\n<p>[28]<\/p>\n<p>[10 janeiro]<\/p>\n<p>H\u00e3o de ter paci\u00eancia; mas, se cuidam que a bala hoje \u00e9 de quem a assina, enganam-se. A bala \u00e9 de um finado, e um velho finado, que \u00e9 pior; \u00e9 de Drummond, o diplomata. Se o leitor pode desviar os olhos das graves preocupa\u00e7\u00f5es de momento, para algumas coisas do passado, venha ler dois ou tr\u00eas peda\u00e7os da mem\u00f3ria in\u00e9dita que a Gazeta Liter\u00e1ria est\u00e1 publicando. A mem\u00f3ria, realmente, trata de coisas antediluvianas, coisas de 1822, mas, em suma, 1822 existiu como este ano de 1884 h\u00e1 de um dia ter existido; e se qualquer de n\u00f3s fala de seu av\u00f3, que os outros n\u00e3o conheceram, falemos um pouco de Drummond, Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, D. Jo\u00e3o VI e D. Pedro.<\/p>\n<p>Diabo! Mas, pelos modos, n\u00e3o \u00e9 uma bala de estalo, \u00e9 uma bala de artilharia! N\u00e3o, n\u00e3o; tudo o que h\u00e1 mais bala de estalo. Eu s\u00f3 extraio de Mem\u00f3ria aquilo que o velho Drurmmond escreveu prevendo a Gazeta de Not\u00edcias e os autores desta nossa confeitaria di\u00e1ria. N\u00e3o \u00e9 que a Mem\u00f3ria n\u00e3o seja toda curt\u00edssima de anedotas do tempo; mas os que se interessam por essas coisas, s\u00e3o naturalmente em pequeno n\u00famero, e eu s\u00f3 amolarei a maioria dos meus semelhantes, quando n\u00e3o der por isso; de prop\u00f3sito, nunca.<\/p>\n<p>Assim, por exemplo, credo que ao leitor de hoje importa pouco saber, se em 1817, dadas as den\u00fancias contra os ma\u00e7ons, houve grandes patrulhas e tropas nos quart\u00e9is, s\u00f3 pare prender o ma\u00e7on Lu\u00eds Prates, que morava na Rua da Alf\u00e2ndega. Creio mesmo que n\u00e3o lhe interessa este ju\u00edzo de Drummond acerca do oficial encarregado de prender aquele indiv\u00edduo: &#8220;era o Coronel Gordilho(diz o velho diplomata) que depois foi pelo merecimento da sua ignor\u00e2ncia Marqu\u00eas de Jacarepagu\u00e1 e senador pelo imp\u00e9rio.&#8221; Entretanto, esta express\u00e3o-merecimento da sua ignor\u00e2ncia-\u00e9 de bala de estalo. Vamos, por\u00e9m, a uma anedota desse mesmo ano de 1817, galant\u00edssima, uma verdadeira bala de estalo, feita pelo rei D. Jo\u00e3o VI, que tamb\u00e9m tinha momentos de bom humor:<\/p>\n<p>Entre os ma\u00e7ons que se denunciaram a si mesmos, refiro os nomes de dois pelas cenas bufas que essas den\u00fancias causaram. Foram o Marqu\u00eas de Angeja e o Conde de Parati. O rei caiu estupefacto das nuvens, e ainda lhe parecia imposs\u00edvel que dois camaristas seus, ambos estimados e um valido, fossem ma\u00e7ons! O Marqu\u00eas de Angeja ajuntou aos protestos do seu arrependimento a oferta, que foi aceita, de toda a sua prata pare as urg\u00eancias do Estado. Foi logo expedido em comiss\u00e3o para Portugal, a fim de tomar o comando e conduzir ao Rio de Janeiro a divis\u00e3o auxiliadora, que se mandava vir extra\u00edda do ex\u00e9rcito de Portugal. Quanto ao Conde de Parati, o neg\u00f3cio era mais s\u00e9rio. O rei era muito afei\u00e7oado a este conde, que foi no Rio de Janeiro o seu primeiro valido e morava no pa\u00e7o. Nem os protestos de arrependimento, nem a oferta de sua prata, que a n\u00e3o tinha, porque se servia da que era da casa real, podiam inspirar inteira confian\u00e7a a respeito de quem, em raz\u00e3o do seu of\u00edcio e das rela\u00e7\u00f5es de amizade, devia continuar no servi\u00e7o e no valimento de Sua Majestade. Em t\u00e3o apuradas circunst\u00e2ncias, o rei saiu pela tangente de um expediente assaz curioso. Disse ao conde, que, pare lhe n\u00e3o ficar nada do passado, de que se arrependia, era necess\u00e1rio que tomasse o h\u00e1bito de irm\u00e3o da Ordem Terceira de S. Francisco da Penit\u00eancia. Foi um dia de festa no pa\u00e7o aquele em que o conde prestou juramento e foi recebido irm\u00e3o da Ordem Terceira. O contentamento do rei n\u00e3o podia ser maior. O Conde de Parati, para fazer a vontade \u00e0 Sua Majestade, andou no pa\u00e7o todo aquele dia com o h\u00e1bito da Ordem; destinado a lav\u00e1-lo dos seus erros.<\/p>\n<p>Na verdade, a cena \u00e9 engra\u00e7ada, e for\u00e7a \u00e9 dizer que o absolutismo tinha coisas boas. O marqu\u00eas, dando a prata para salvar a pele, est\u00e1 indicando ao nosso governo constitucional um recurso \u00fatil nas urg\u00eancias do Estado. Mas o caso do conde \u00e9 melhor. Esse ma\u00e7on, obrigado a passear vestido de h\u00e1bito de S\u00e3o Francisco, foi um belo achado do rei. De certo modo, foi uma antecipa\u00e7\u00e3o do conflito que mais tarde levou dois bispos aos tribunais, com a diferen\u00e7a que aquilo que o Conde de Parati s\u00f3 p\u00f4de fazer obrigado, foi justamente o que a ma\u00e7onaria queria fazer por vontade pr\u00f3pria: -andar de h\u00e1bito. N\u00e3o penso nisto que me n\u00e3o lembre do nome que em geral teve esse famoso conflito, um nome inventado para castigo dos meus pecados. Lembra-se o leitor? Quest\u00e3o ep\u00edscopo-ma\u00e7\u00f4nica. Recite isto com certa \u00eanfase: -quest\u00e3o ep\u00edscopo-ma\u00e7\u00f4nica. N\u00e3o lhe parece que vai andando aos solavancos numa cale\u00e7a de molas velhas? Ep\u00edscopo-ma\u00e7\u00f4nica.<\/p>\n<p>J\u00e1 transcrevi outros trechos, mas recuei. S\u00e3o interessantes, muito interessantes. mas n\u00e3o s\u00e3o alegres. S\u00e3o anedotas relativas todas \u00e0 independ\u00eancia, e nelas \u00e9 que entram D. Pedro e Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio. Por conseq\u00fc\u00eancia; o dito por n\u00e3o dito; n\u00e3o dou mais nada.<\/p>\n<p>Contudo, sempre lhes direi, aqui, que ningu\u00e9m nos ouve: o conselho de ministros no pa\u00e7o, as palavras de Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio ao Bregaro; a volta de D. Pedro depois de declarar a independ\u00eancia; a gente que correu a S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o; a imperatriz, que, n\u00e3o tendo mais fitas verdes para fazer la\u00e7os, f\u00ea-los com as do pr\u00f3prio travesseiro; D. Pedro, um rapaz de 24 anos, impetuoso e ardente; Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio grave e forte, e, quando preciso, alegre; a gente que encheu \u00e0 noite o teatro; as senhoras de la\u00e7o verde ao peito; toda essa nossa aurora d\u00e1-me uma certa sensa\u00e7\u00e3o profunda e saudosa, que n\u00e3o encontro&#8230; Onde? no nariz do leitor, por exemplo.<\/p>\n<p>[29]<\/p>\n<p>[26 abril]<\/p>\n<p>ENFIM! Os lobos dormem com os cordeiros, e as ling\u00fci\u00e7as andam atr\u00e1s dos c\u00e3es. S\u00e3o as not\u00edcias mais frescas do dia.<\/p>\n<p>Que os lobos dormem com os cordeiros, basta ver o an\u00fancio que anda nas folhas, um an\u00fancio extraordin\u00e1rio, pasmoso, um an\u00fancio da Rua do Hosp\u00edcio. Vende-se ali, est\u00e1 ali \u00e0 espera de algum amador que o queira comprar, n\u00e3o um chap\u00e9u ou um gato, n\u00e3o um jogo de cortinas, um arm\u00e1rio, um livro, uma comenda que seja, mas um (custa diz\u00ea-lo!) mais um (\u00e2nimo!) mas um (palavra, s\u00f3 escrever o nome d\u00e1 um arrepio pela espinha abaixo), mas um (vamos!) mas um tigre.<\/p>\n<p>Sim, senhores, vende-se ali um tigre. O tigre, essa fera que os poetas arc\u00e1dicos nunca deixaram de dizer que era da Hirc\u00e2nia, e ao qual comparavam os namorados, quando elas olhavam para outros; o tigre j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um simples desenho dos livros infantis ou uma criatura empalhada do museu; o tigre vende-se na Rua do Hosp\u00edcio como o ch\u00e1 preto e as cadeiras americanas.<\/p>\n<p>Um pouco mais, e vamos ouvir discursar um camelo ou um jumento, ou damos a cal\u00e7ada a verdadeiros cavalos. Se isto n\u00e3o \u00e9 a terra da promiss\u00e3o, fa\u00e7am-me o favor de dizer o que \u00e9.<\/p>\n<p>Quanto aos c\u00e3es perseguidos por ling\u00fci\u00e7as, v\u00e3o ver se minto.<\/p>\n<p>Morreu um homem, deixando em testamento alguns legados. Noutro tempo, os legat\u00e1rios nunca mais perdiam de olho o invent\u00e1rio tinham procurador para lhes cuidar do neg\u00f3cio, farejavam o cart\u00f3rio, e passavam algumas noites em claro. Tudo mudou depois que os tigres se vendem na Rua do Hosp\u00edcio. Agora s\u00e3o os testamenteiros que andam atr\u00e1s dos legat\u00e1rios. Um daqueles, desesperado de esperar por estes, fez um an\u00fancio repleto de leg\u00edtima impaci\u00eancia, em que declara, decorrido algum tempo da publica\u00e7\u00e3o do testamento do Comendador Pacheco, que, estando o invent\u00e1rio a encerrar-se, pede aos interessados v\u00e3o requerer o que for a bem do seu direito &#8220;sob pena de, julgadas as partilhas, irem haver do herdeiro da ter\u00e7a os seus legados.&#8221;<\/p>\n<p>Ubinam gentium sumus? Os legados atr\u00e1s dos legat\u00e1rios as ling\u00fci\u00e7as farejando os c\u00e3es! Deus meu, bateu finalmente a hora da harmonia e do desinteresse? Vamos ver as comendas atr\u00e1s das casacas, e elas a fugirem-lhes vexadas e desdenhosas? Os vencimentos em vez de os irmos n\u00f3s buscar, ir\u00e3o ter com a gente? Os bens passar\u00e3o a correr atr\u00e1s dos frades?<\/p>\n<p>30]<\/p>\n<p>[15 maio]<\/p>\n<p>CHEGANDO anteontem, \u00e0 noite, de Macacu, onde fui estudar as febres de 1845, fiquei surpreendido com a not\u00edcia de ter o meu nome figurado em uma comiss\u00e3o que foi pedir a Lulu S\u00eanior a reentrada do colega D\u00e9cio. Jurei a todas as pessoas que era falso; mas mostraram-me o n\u00famero da Gazeta em que Lulu S\u00eanior narrava tudo, e com efeito vi o meu nome, e at\u00e9 palavras que me s\u00e3o atribu\u00eddas.<\/p>\n<p>Parecendo-me a gra\u00e7a um tanto pesada, entendi que era caso de um desfor\u00e7o pelas armas, e incumbi dois amigos, o Dr. F. C., distinto m\u00e9dico, e um membro do parlamento, lhe irem pedir satisfa\u00e7\u00e3o ou testemunhas.<\/p>\n<p>Eram oito horas da manh\u00e3, quando os meus dois amigos treparam ao morro, e onze quando voltaram ambos com a alma aos p\u00e9s. Imaginei a princ\u00edpio que ele recusara o duelo; mas o Dr. F. C. tirou-me logo esta id\u00e9ia, dizendo:<\/p>\n<p>&#8211; Coisa pior, coisa pior.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 ent\u00e3o?<\/p>\n<p>-Tenha \u00e2nimo; seja homem. O seu amigo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que tem?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se irrite contra ele. Tudo aquilo \u00e9 um puro caso patol\u00f3gico. Estivemos seguramente duas horas juntos, e reconheci que ele est\u00e1 louco.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me diga isto!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o digo louco varrido, formalmente louco; mas padece de alucina\u00e7\u00f5es, id\u00e9ias delirantes; n\u00e3o est\u00e1 bom, n\u00e3o; e se n\u00e3o tiverem cuidado, pode acabar mal, muito mal. A hist\u00f3ria da comiss\u00e3o foi verdadeira, quero dizer, ele imaginou que tinha a comiss\u00e3o diante de si, conversou com as pessoas, ouviu as palavras e escreveu-as. Quando chegamos, ele sup\u00f4s logo que \u00e9ramos outra comiss\u00e3o, e que \u00e9ramos cinco. Dirigiu-se a uma cadeira vazia pare lhe dizer: &#8211; &#8220;Mas, V. S.a como relator da comiss\u00e3o. . . &#8221; Em suma, padece do que chamamos em medicina comissiomania ou mania das comiss\u00f5es. A prova \u00e9 que o sondei logo, segundo nos ensinam os patologistas, e perguntei-lhe se iria hoje \u00e0 igreja de S. Francisco, \u00e0 Rua Municipal, e ao paquete Amazone. Respondeu-me alegre que sim, que tenha que falar em S\u00e3o Francisco com o comiss\u00e1rio da Ordem Terceira, na Rua Municipal com dois comiss\u00e1rios de caf\u00e9, e no paquete com o respectivo comiss\u00e1rio. &#8211; V\u00ea Sempre a mesma mania.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, ent\u00e3o, perdido?&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o, ainda pode salvar. Essas alucina\u00e7\u00f5es e del\u00edrios, quando n\u00e3o tratados, podem chegar \u00e0 dem\u00eancia total, e mesmo \u00e0 idiotice e \u00e0 imbecilidade, para a qual noto-lhe uma certa tend\u00eancia. Urge n\u00e3o perder tempo.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, doutor, \u00e9 imposs\u00edvel, ele raciocina perfeitamente.<\/p>\n<p>Que tem isso? H\u00e1 mil, h\u00e1 cem mil pessoas no universo, que raciocinam perfeitamente. e. entretanto, padecem de uma dessas alucina\u00e7\u00f5es ou del\u00edrios. Conhe\u00e7o um alferes que est\u00e1 persuadido de ser major. Um deputado da legislatura de 1864 imaginava que o imperador lhe oferecia todas as manh\u00e3s a pasta dos neg\u00f3cios estrangeiros. Contou-me mais de uma vez como se passavam as coisas. O imperador entrava (era na casa de D. Maria, Rua da Ajuda), ia ao quarto dele, com a pasta na m\u00e3o, e dizia-lhe: &#8220;Romualdo, tu por que \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1s de ser ministro?&#8221; Pois bem; este deputado proferiu muitos dos melhores discursos parlamentares de 1864 e 1865. Voc\u00ea n\u00e3o tem lido nos jornais not\u00edcias de comiss\u00f5es que v\u00e3o oferecer isto ou aquilo, um retrato, uma venera, etc., a pessoas completamente obscuras ou insignificantes?<\/p>\n<p>-Tenho; leio muitas vezes.<\/p>\n<p>&#8211; Pois saiba que n\u00e3o h\u00e1 tal. S\u00e3o casos de comissiomania. Essas pessoas v\u00eaem, sinceramente, por alucina\u00e7\u00e3o, uma comiss\u00e3o diante de si, oferecendo-lhes alguma coisa &#8211; venera ou retrato, ouvem os discursos, agradecem, convidam para um copo d&#8217;\u00e1gua, e cr\u00eaem que dan\u00e7am, e que as dan\u00e7as se prolongam at\u00e9 \u00e0 madrugada. S\u00e3o casos puramente patol\u00f3gicos. N\u00e3o h\u00e1 neles a menor sombra de comiss\u00e3o ao menos no estado agudo da mol\u00e9stia, porque \u00e9 observa\u00e7\u00e3o feita que, quando a cura come\u00e7a a operar-se, o doente ilude-se a si mesmo arranjando uma comiss\u00e3o de verdade, que vai deveras \u00e0 casa dele com a venera, que ele mesmo comprou, e lhe fazem discursos, comem realmente, e as dan\u00e7as prolongam-se at\u00e9 de manh\u00e3&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pobre Lulu S\u00eanior! Que faremos ent\u00e3o?<\/p>\n<p>-Sujeit\u00e1-lo a um regime rigoroso. Eu creio que os excessos da mesa, os comes e bebes, \u00e9 que o t\u00eam perdido. O ilustre Maudsley vem em apelo da minha opini\u00e3o, no seu magn\u00edfico livro: &#8220;Se os homens (diz ele) quisessem viver com sobriedade e castidade, diminuiria logo o n\u00famero dos loucos, e mais ainda na gera\u00e7\u00e3o seguinte&#8221;. E ele aconselha aos homens uma coisa a que chama self-restraint restringir-se, abster-se. Entende-me?<\/p>\n<p>-Perfeitamente.<\/p>\n<p>-Ora bem; \u00e9 o que conv\u00e9m aplicar ao seu amigo. Nada de finos pratos, nem borgonha, nem champanha, d\u00eaem-lhe durante seis meses bacalhau de porta de venda e vinho de Lisboa fabricado no Rio de Janeiro; podem mesmo aumentar no vinho a dose t\u00f3xica, com um ou dois decigramas de pau-campeche por litro, ou meio decigrama de estricnina: \u00e9 a mesma coisa.<\/p>\n<p>[31]<\/p>\n<p>[4 agosto]<\/p>\n<p>AGORA que vamos ter elei\u00e7\u00e3o nova, lembraram-se alguns amigos que eu bem podia ser deputado. Tanto me quebraram a cabe\u00e7a, que afinal consenti em correr \u00e0s urnas. Resta s\u00f3 a profiss\u00e3o de f\u00e9, que \u00e9 o ponto melindroso.<\/p>\n<p>Eu podia, \u00e0 semelhan\u00e7a de um candidato ingl\u00eas, em 1869, fazer este pequenino speech: &#8220;Quero a liberdade pol\u00edtica, e por isso sou liberal; mas para ter a liberdade pol\u00edtica \u00e9 preciso conservar a constitui\u00e7\u00e3o, e por isso sou conservador&#8221;. Mas, al\u00e9m de copi\u00e1-lo se apresentasse um tal programas (o que n\u00e3o fica bem), n\u00e3o sei se essas poucas linhas, que parecem um paradoxo, n\u00e3o s\u00e3o antes (comparadas com as nossas coisas) um truismo.<\/p>\n<p>Porquanto:<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos anos, em 1868, quando Lulu S\u00eanior andava ainda no col\u00e9gio, e, se fazia gazetas, n\u00e3o as vendia<br \/>\ne menos ainda as publicava, nesse ano, e no m\u00eas de dezembro, fui uma vez \u00e0 assembl\u00e9ia provincial do Rio de Janeiro, vulgarmente salinha. Orava ent\u00e3o o deputado Magalh\u00e3es Castro. Nesse discurso, essencialmente pol\u00edtico e te\u00f3rico, o digno representante ia dizendo o que era e o que n\u00e3o era, o que queria e o que n\u00e3o queria.<\/p>\n<p>Ao p\u00e9 dele, ou defronte, n\u00e3o me lembro bem, ficava o deputado Monteiro da Luz, conservador, e o deputado Her\u00e9dia, liberal, que ouviam e comentavam as palavras do orador. Eles o aprovavam em tudo, e, no fim, quando o Sr. Magalh\u00e3es Castro, recapitulando o que dissera, perguntou com o ar pr\u00f3prio de um homem que sabe e define o que quer, eis o di\u00e1logo final (consta dos jornais do tempo ):<\/p>\n<p>O SR. MAGALH\u00c3ES CASTRO: &#8211; Agora pergunto: quem tem estes desejos o que \u00e9? o que pode ser?<\/p>\n<p>O SR. MONTEIRO DA LUZ: &#8211; \u00c9 conservador.<\/p>\n<p>O SR. HER\u00c9DIA: &#8211; \u00c9 liberal.<\/p>\n<p>O SR. MONTEIRO DA LUZ: &#8211; Estou satisfeito.<\/p>\n<p>O SR. HER\u00c9DIA: &#8211; Estou tamb\u00e9m satisfeito.<\/p>\n<p>Portanto, basta que eu exponha as teorias para que ambos os partidos votem em mim, uma vez que evite dizer se sou conservador ou liberal. O nome \u00e9 que divide.<\/p>\n<p>Resta, por\u00e9m, a quest\u00e3o do momento, o projeto do governo, a liberdade dos 60 anos, com ou sem indeniza\u00e7\u00e3o, ou o projeto do Sr. Fel\u00edcio dos Santos, que tamb\u00e9m \u00e9 um sistema, ou o do Sr. Figueira, que n\u00e3o \u00e9 um nem outro. Sobre este ponto confesso que estive sem saber como explicar-me, at\u00e9 que li a circular de um distinto deputado, candidato a um lugar de senador. Nesse documento que corre impresso, exprimia-se assim o autor: &#8220;Quanto a quest\u00e3o, servil j\u00e1 expendi o meu modo de pensar em dois folhetos que publiquei, um sobre a baixa do a\u00e7\u00facar, outro sobre coloniza\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Desde que li isto vi que tinha achado a solu\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria ao esclarecimento dos leitores. Com efeito, \u00e9 imposs\u00edvel que eu n\u00e3o tenha publicado algum dia, em alguma parte, um outro folheto sobre qualquer mat\u00e9ria mais ou menos correlata com os atuais projetos. Na pior das hip\u00f3teses, isto \u00e9, se n\u00e3o tiver publicado nada, ent\u00e3o \u00e9 que estou com a vota\u00e7\u00e3o un\u00e2nime. A raz\u00e3o \u00e9 que devemos contar em tudo com a presun\u00e7\u00e3o dos homens. Cada leitor querer\u00e1 fazer crer ao vizinho que conhece todos os meus folhetos, e da\u00ed um piscar de olhos inteligente e os votos.<\/p>\n<p>Eu, pelo menos, \u00e9 o que vou fazer. De tanta gente que andou pelas ruas, no centen\u00e1rio de Cam\u00f5es, podemos crer que uns dois quintos n\u00e3o leram Os Lus\u00edadas, e n\u00e3o eram dos menos fervorosos. O mesmo me vai acontecer com o Sr. Peixoto. Vou dizer a toda a gente que li e reli os dois folhetos do Sr. Peixoto, tanto o do a\u00e7\u00facar como o da coloniza\u00e7\u00e3o, acreditarei que s\u00e3o in 8.\u00b0, com 80 ou 100 p\u00e1ginas, talvez 120, bom papel, estat\u00edsticas e notas. Interrogado sobre o valor comparativo de ambos, responderei que prefiro o do a\u00e7\u00facar por um motivo patri\u00f3tico, visto que o a\u00e7\u00facar \u00e9 um produto do pa\u00eds e a coloniza\u00e7\u00e3o vem de fora; mas direi tamb\u00e9m que o da coloniza\u00e7\u00e3o tem id\u00e9ias muito pr\u00e1ticas e aceit\u00e1veis.<\/p>\n<p>Podia tamb\u00e9m citar a C\u00e2mara anterior, que com infinita serenidade votou pela reforma eleitoral constitucional, e depois pela mesma reforma eleitoral constitucional; mas n\u00e3o adoto esse alvitre, um dos mais singulares que conhe\u00e7o, para n\u00e3o ser acusado injustamente de mudar a opini\u00e3o ao sabor dos ministros. Prefiro entrar sem programa, e eis aqui o meu piano consubstanciado nesta anedota de 1840:<\/p>\n<p>Era uma vez um sujeito que aparecia em todos os casamentos. Em sabendo de algum vestia-se de ponto em branco e ia para a igreja. Depois acompanhava os noivos \u00e0 casa, assistia ao jantar ou ao baile. Os parentes e amigos da noiva cuidavam que ele era um convidado da noiva, e, vice-versa, cuidavam que era pessoa do noivo. \u00c0 sombra do equ\u00edvoco ia ele a todas as festas matrimoniais.<\/p>\n<p>Um dia, ao jantar, disse-lhe um vizinho:<\/p>\n<p>-V. S a \u00e9 parente do lado do noivo ou do lado da noiva?<\/p>\n<p>&#8211; Sou do lado da porta, respondeu ele, indo buscar o chap\u00e9u.<\/p>\n<p>Levava o jantar no bucho.<\/p>\n<p>[32]<\/p>\n<p>[23 agosto]<\/p>\n<p>ANDA NOS JORNAIS, e j\u00e1 subiu \u00e0s m\u00e3os do Sr. Ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros, uma representa\u00e7\u00e3o do Clube ou Centro dos Molhadistas contra os falsificadores de vinhos. Trata-se de alguns membros da classe que, a pretexto de dep\u00f3sito de vinhos, t\u00eam nos fundos da casa nada menos que uma f\u00e1brica de falsifica\u00e7\u00f5es. Segundo a representa\u00e7\u00e3o, os progressos da qu\u00edmica permitem obter as composi\u00e7\u00f5es mais ilus\u00f3rias, com dano da sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>Ou me engano, ou isto quer dizer que se trata de impedir a divulga\u00e7\u00e3o de certa ordem de produtos, a pretexto de que eles fazem mal \u00e0 gente. N\u00e3o digo que fa\u00e7am bem; mas n\u00e3o vamos cair de um excesso em outro.<\/p>\n<p>Os homens reunidos em sociedade (relevem-me este tom meio pedante) est\u00e3o virtual e tacitamente obrigados a obedecer \u00e0s leis formuladas por eles mesmos pare a conveni\u00eancia comum. H\u00e1, por\u00e9m, leis que eles n\u00e3o impuseram, que acharam feitas, que precederam as sociedades, e que se h\u00e3o de cumprir, n\u00e3o por uma determina\u00e7\u00e3o de jurisprud\u00eancia humana, mas por uma necessidade divina e eterna. Entre essas, e antes de todas figure a da luta pela vida, que um amigo meu nunca diz sen\u00e3o em ingl\u00eas: struggle for life.<\/p>\n<p>Se a luta pela vida \u00e9 uma lei verdadeira e s\u00f3 um louco poder\u00e1 neg\u00e1-lo, como h\u00e1 de lutar um molhadista em terra de Molhadistas? Sim, se este nosso Rio de Janeiro tivesse apenas uns vinte molhadistas, \u00e9 claro que venderiam os mais puros vinhos do mundo,-e por bom pre\u00e7o,-o que faria enriquecer depressa, pois n\u00e3o os havendo mais baratos, iriam todos compr\u00e1-los a eles mesmos.<\/p>\n<p>Eles, por\u00e9m, s\u00e3o numerosos, s\u00e3o quase inumer\u00e1veis, e t\u00eam grandes encargos sobre si; pagam alugu\u00e9is de casa, caixeiros, impostos, pagam muita vez o pato, e h\u00e3o de pagar no outro mundo os pecados que cometerem neste, e tudo isso lutando, n\u00e3o contra cem, mas contra milhares de rivais. Pergunto: o que \u00e9 que lhes fica a um canto da gaveta? N\u00e3o iremos ao ponto de exigir que eles abram um armaz\u00e9m s\u00f3 para o fim de perder. O mais que poder\u00edamos querer \u00e9 que n\u00e3o o abrissem; mas uma vez aberto, entram na pura fisiologia universal; e tanto melhor se a qu\u00edmica os ajuda.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m matar \u00e9 um crime. Mas as leis sociais admitem casos em que \u00e9 il\u00edcito matar, defendendo-se um homem a si pr\u00f3prio. Bem, o molhadista do n \u00b0 40, que falsifica hoje umas vinte pipas de vinho, que outra coisa fez sen\u00e3o defender-se a si mesmo, contra o molhadista do n.\u00b0 34 que falsificou ontem dezessete? Struggle for life, como diz o meu amigo.<\/p>\n<p>Depois, fa\u00e7amos um pouco de filosofia Pangloss, penetremos nas inten\u00e7\u00f5es da Provid\u00eancia. Se com drogas qu\u00edmicas se pode chegar a uma apar\u00eancia de vinho, n\u00e3o parece que este resultado \u00e9 leg\u00edtimo, l\u00f3gico e natural? Acaso a natureza \u00e9 uma escola de crimes? E dado mesmo que um tal vinho seja danoso \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica, n\u00e3o pode acontecer que seja \u00fatil \u00e0 virtude p\u00fablica, levando os homens a abater-se? E, porventura, a virtude merece menos que a sa\u00fade? N\u00e3o s\u00e3o ambas a mesma coisa, com a diferen\u00e7a que a virtude \u00e9 ainda superior? N\u00e3o entrar\u00e1 tudo isso nos c\u00e1lculos do c\u00e9u?<\/p>\n<p>Eu bem sei que era melhor n\u00e3o vender nada, nem vinho puro, nem vinho falsificado, e viver somente daquele produto a que se refere o meu amigo Bar\u00e3o de. Capanema, no Di\u00e1rio do Brasil de hoje: &#8220;Alguns milh\u00f5es de homens livres no Brasil (escreve ele) vivem do produto da pinda\u00edba. ..&#8221; Realmente eu conhe\u00e7o um certo n\u00famero que n\u00e3o vive de outra coisa. E quando o escritor acrescenta: &#8220;&#8230;pinda\u00edba do tatu que arrancam do buraco. . .&#8221; penso que elude a alguns n\u00edqueis de mil-r\u00e9is que t\u00eam sa\u00eddo da algibeira de todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Era melhor; mas isto mesmo pode dar lugar a falsifica\u00e7\u00f5es. Nem todas as pinda\u00edbas s\u00e3o leg\u00edtimas. E a pr\u00f3pria qu\u00edmica finge algumas, por meio das l\u00e1grimas que s\u00e3o, em tais casos, qu\u00edmica verdadeira.<\/p>\n<p>Talvez por isso tudo, \u00e9 que um cavalheiro, que n\u00e3o sei quem seja mas que more na Travessa do Maia, lembrou-se de fazer este an\u00fancio: &#8220;Bras\u00e3o de armas, composi\u00e7\u00e3o de cartas da nobreza, \u00e1rvore geneal\u00f3gica, todo e qualquer trabalho her\u00e1ldico, em pergaminho, pintura em aquarela e dourados, letras g\u00f3ticas, trata-se na travessa etc.&#8221;<\/p>\n<p>Esse cidad\u00e3o n\u00e3o viver\u00e1 na pinda\u00edba, nem lhe dir\u00e3o que fez vinho nos fundos da f\u00e1brica. N\u00e3o fez vinho, fez historia, fez gera\u00e7\u00f5es, \u00e0 escolha, latinas ou g\u00f3ticas. E n\u00e3o se pense que \u00e9 oficio de pouca renda Na mesma case convidam-se as senhoras que se dedicam \u00e0 arte de pintura e quiseram trabalhar. Se ainda acharem que h\u00e1 a\u00ed muita qu\u00edmica, cito-lhes f\u00edsica, cito-lhes um &#8220;grande cartomante&#8221; (sic) da Rua da Imperatriz, que d\u00e1 consultas das 7 \u00e0s 9 da manh\u00e3. F\u00edsica, e boa f\u00edsica.<\/p>\n<p>Que querem? \u00e9 preciso comer. Cartomancia, her\u00e1ldica, pinda\u00edba de tatu, ou vinhos confeccionados no fundo do armaz\u00e9m, tudo isso vem a dar na lei de Darwin.<\/p>\n<p>[33]<\/p>\n<p>[29 outubro]<\/p>\n<p>J\u00c1 t\u00ednhamos Lafaiete, ministro de Estado e presidente do Conselho, citando Moli\u00e8re na C\u00e2mara. N\u00e3o \u00e9 tudo. Para cit\u00e1-lo bastam floril\u00e9gios e o incomensur\u00e1vel Larousse, nelas o nosso ex-ministro leva o desplante ao ponto de o ler e reler. Felizmente, a indigna\u00e7\u00e3o parlamentar e p\u00fablica lavou a C\u00e2mara e o pa\u00eds de t\u00e3o grande mancha, e podemos esperar com tranq\u00fcilidade o ju\u00edzo da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Agora temos Taunay, em v\u00e9speras de elei\u00e7\u00e3o, cuidando das m\u00fasicas do Padre Jos\u00e9 Maur\u00edcio, e citando (custa-me diz\u00ea-lo), citando Haydn e Mozart.<\/p>\n<p>N\u00e3o ignoro que tudo isto de Taunay e Lafaiete, afinal de contas, s\u00e3o francesias de nomes e de cabe\u00e7as. Ouviram dizer que em Fran\u00e7a alguns deputados l\u00eaem os cl\u00e1ssicos, e imaginaram transportar o uso para aqui.<\/p>\n<p>N\u00e3o advertiram que nem todas as coisas de um pa\u00eds podem aclimar-se em outro. N\u00e3o concluamos da pomada Lubin para o Misantropo. S\u00e3o coisas diferentes. Paul-Louis-Courrier, t\u00e3o conhecido dos nossos homens, compondo na cadeia um op\u00fasculo pol\u00edtico, interrompia o trabalho para escrever \u00e0 mulher que lhe mandasse uma certa frase de Beaumarchais. Segue-se da\u00ed que devemos todos ler Beaumarchais? Pelo amor de Deus!<\/p>\n<p>O caso de Taunay \u00e9 mais grave. Lafaiete conspurcou. \u00e9 verdade, a tribuna parlamentar com um pobre-diabo que, posto viva h\u00e1 dois s\u00e9culos na mem\u00f3ria dos homens, era, todavia, um saltimbanco ou pouco mais. Taunay levanta os bra\u00e7os no c\u00e9u, consternado, porque as obras musicais do Padre Jos\u00e9 Maur\u00edcio andam truncadas, perdidas ou quase perdidas.<\/p>\n<p>A melhor explica\u00e7\u00e3o que se pode dar de um tal destempero, \u00e9 que o estado mental de Taunay n\u00e3o \u00e9 bom; mas, se n\u00e3o \u00e9 assim, n\u00e3o sei como qualifique esta preocupa\u00e7\u00e3o do meu amigo.<\/p>\n<p>Reparem bem que Taunay embarca para a prov\u00edncia de Santa Catarina, onde vai pedir que Lhe d\u00eaem votos para deputado. Nesse momento solene, em que o mais med\u00edocre esp\u00edrito gemeria pela queda de alguns delegados ou majores, Taunay lastima a perda de alguns respons\u00f3rios de Jos\u00e9 Maur\u00edcio.<\/p>\n<p>Respons\u00f3rios! Mas \u00e9 de suspens\u00f3rios que tu precisas, Taunay, tu precisas de suspens\u00f3rios eleitorais que te levantem e segurem os cal\u00e7as legislativas. Deixa l\u00e1 os respons\u00f3rios do padre. Est\u00e3o perdidos? paci\u00eancia; perde-se muita coisa por esse mundo. Eu hoje, ao ler-te perdia tramontana, e tu, se vais nesse andar, perdes a elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 tinhas a enxaqueca liter\u00e1ria e as belas p\u00e1ginas de Inoc\u00eancia, e como se isso n\u00e3o bastasse, p\u00f5es c\u00e1 para fora ~ tua saben\u00e7a musical. Taunay, Taunay, amigo Taunay, deixa as coisas de arte onde elas est\u00e3o, achadas ou perdidas, muda de fraseologia, atira-te aos cachorros, paulas, le\u00f5es, todo esse vocabul\u00e1rio, que s\u00f3 aparentemente d\u00e1 ares de aldeia, mas encerra grandes e profundas id\u00e9ias. J\u00e1 estudaste o coronel? Estuda o coronel, Taunay. Estuda tamb\u00e9m o major, e n\u00e3o os estuda s\u00f3, ama-os, cultiva-os. Que \u00e9s tu mesmo, sen\u00e3o um major forrado de um artista? Descose o forro, et ambula.<\/p>\n<p>Sim, Taunay, fica pr\u00e1tico e local. Nada de respons\u00f3rios, nem romances e est\u00e1s no trinque, voltas eleito e podes ent\u00e3o, \u00e0 vontade, dan\u00e7ar cinco ou seis polcas por m\u00eas. Tamb\u00e9m \u00e9 m\u00fasica, e n\u00e3o \u00e9 de padre.<\/p>\n<p>[34]<\/p>\n<p>[3 novembro]<\/p>\n<p>O SR. DR. CASTRO LOPES deseja juntar aos seus louros de latinista eminente os de legislador. Apresenta-se candidato pelo 1.\u00b0 distrito com uma circular em que promete aplicar todos os esfor\u00e7os em prover de rem\u00e9dio as finan\u00e7as do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Tendo-as estudado desde longos anos, o recente candidato formulou alguns projetos, que apresentar\u00e1 na C\u00e2mara, tendentes principalmente &#8220;a aliviar a na\u00e7\u00e3o da sua d\u00edvida interna e externa, sem o m\u00ednimo gravame nem do povo nem do tesouro`&#8217;. Povo e tesouro para os efeitos puramente pecuni\u00e1rios pode dizer-se que s\u00e3o a mesma coisa; mas o importante \u00e9 que a medida, qualquer que seja, \u00e9 nada menos que a salva\u00e7\u00e3o do Estado.<\/p>\n<p>V\u00eade, por\u00e9m, como uma id\u00e9ia se liga a outra. A circular recordou-me um drama, que escrevi h\u00e1 muitos anos (vinte e tr\u00eas, n\u00e3o digam nada), obra incorreta e fraca, mas que ainda assim conservei comigo at\u00e9 1878, ano em que mudei de casa e queimei v\u00e1rios manuscritos.<\/p>\n<p>Chamava-se Triptolemo XVII ou O Talism\u00e3. Tratava tamb\u00e9m de um Estado oberado de grandes d\u00edvidas. Triptolemo quer casar a filha, a princesa Mios\u00f3tis, com o pr\u00edncipe Falc\u00e3o, e n\u00e3o acha quem lhe empreste dinheiro para as bodas. Oferece altos juros, hipotecas, comiss\u00f5es gordas, e nada, ningu\u00e9n1 acode. Ao contr\u00e1rio, os credores re\u00fanem-se, amotinam-se e correm ao pa\u00e7o, que fica cercado por eles. pedindo com altos brados que lhes mandem dar tudo, capital e juros<\/p>\n<p>Os ministros sucedem-se com uma rapidez vertiginosa. Duram sete a oito minutos: n\u00e3o achando meio de pagar a d\u00edvida p\u00fablica, s\u00e3o enforcados logo. O \u00faltimo nomeado est\u00e1 com a pasta desde as nove e cinco; Triptolemo vem dizer-lhe que s\u00f3 faltam oito para salvar o Estado ou morrer e retira-se.<\/p>\n<p>Nisto aparece um respeit\u00e1vel anci\u00e3o que declara possuir um segredo para salvar tudo, o Estado e a vida do ministro. Este manda-o embora, abre a janela e contempla a forca.<\/p>\n<p>&#8211; Daqui a dez minutos serei cad\u00e1ver, murmura ele.<\/p>\n<p>-N\u00e3o! brada uma voz.<\/p>\n<p>Era uma fada, a fada Argentina,-que, enamorada da beleza do ministro. vem oferecer-lhe um talism\u00e3, ensinando-lhe que, sempre que bater com ele no ombro de Triptolemo, as algibeiras deste regurgitar\u00e3o de ouro. O ministro recusa crer; mas a fada pede-lhe que v\u00e1 verific\u00e1-lo e desaparece.<\/p>\n<p>Nove horas e onze minutos. Entra Triptolemo: fora ouvem-se os berros dos credores, o pa\u00e7o est\u00e1 prestes a ser assaltado. Ent\u00e3o o ministro pede licen\u00e7a a Triptolemo. bate-lhe no ombro, e as algibeiras r\u00e9gias come\u00e7am a entornar moedas de ouro. Estupefa\u00e7\u00e3o do rei e do ministro. Outro toque, outra emiss\u00e3o, e as moedas correm, descem, amontoam-se. S\u00e3o ducados, libras, florins, liras, duros, rublos, thalers \u00e9 tudo, s\u00e3o milh\u00f5es, vinte milh\u00f5es, duzentos milh\u00f5es, quinhentos milh\u00f5es. Triptolemo paga aos credores juros e capital, casa a filha e o talism\u00e3 \u00e9 guardado nas arcas do Estado como um recurso para os lances dif\u00edceis.<\/p>\n<p>No fim, aparece outra vez o anci\u00e3o respeit\u00e1vel e confessa em p\u00fablico e raso que o seu meio, posto que eficaz, era muito mais lento.<\/p>\n<p>&#8211; Consistia, concluiu ele, na aplica\u00e7\u00e3o desta regra de Franklin: &#8220;Se te disserem que podes enriquecer por outro modo, que n\u00e3o seja o trabalho e a economia, n\u00e3o acredites&#8221;. Eu aplicava a regra ao pagamento das d\u00edvidas, que \u00e9 um modo de enriquecer. Paga o que deves, v\u00ea o que te fica. Mas, reconhe\u00e7o que era levar muito tempo, e&#8230;<\/p>\n<p>J\u00e1 se compreende que a circular me lembrasse o drama. O \u00fanico ponto obscuro para mim \u00e9 se o rem\u00e9dio da circular \u00e9 o talism\u00e3 ou a regra de Franklin.<\/p>\n<p>1885<\/p>\n<p>[35]<\/p>\n<p>[26 janeiro]<\/p>\n<p>H\u00c1 PESSOAS que n\u00e3o sabem, ou n\u00e3o se lembram de raspar a casca do riso para ver o que h\u00e1 dentro. Da\u00ed a acusa\u00e7\u00e3o que me fazia ultimamente um amigo, a prop\u00f3sito de alguns destes artigos, em que a frase sai assim um pouco mais alegre. Voc\u00ea ri de tudo, dizia-me ele. E eu respondi que sim, que ria de tudo, como o famoso barbeiro da com\u00e9dia, de peur d&#8217;\u00eatre oblig\u00e9 d&#8217;en pleurer. Mas t\u00e3o depressa lhe dei essa resposta como recebi das m\u00e3os do destino um acontecimento deplor\u00e1vel, que me obriga a ser s\u00e9rio? na casca e no miolo.<\/p>\n<p>Nem h\u00e1 outro modo de apreciar o ato praticado pela pol\u00edcia, ontem? pouco antes das dez horas da manh\u00e3, nas duas casas em que est\u00e3o expostos alguns ossos de defunto.<\/p>\n<p>Apareceu em ambas um agente policial, acompanhado de dois urbanos, e polidamente pediu aos donos que retirassem os ossos da vitrina Responderam-lhe naturalmente que n\u00e3o podiam faz\u00ea-lo, desde que ali foram levados por outras pessoas, mas que iam entender-se com elas. O agente, por\u00e9m, que levava o plano feito, declarou que n\u00e3o trazia ordem de esperar e insistiu em que os ossos fossem retirados imediatamente.<\/p>\n<p>Antes de obedecer? perguntaram-lhe. em ambas as casas, se havia lei que proibisse a exposi\u00e7\u00e3o dos ossos de gente morta. Na primeira, apanhado de supet\u00e3o, deu uma resposta que Lhe servia tamb\u00e9m para a outra, disse que, efetivamente, n\u00e3o havia lei especial, mas que a lei era feita para as hip\u00f3teses poss\u00edveis, n\u00e3o para absurdos. Reconhecia as inten\u00e7\u00f5es puras de todos e n\u00e3o entrava nem podia entrar na controv\u00e9rsia dos n\u00fameros; mas, como agente da autoridade, n\u00e3o podia consentir em tal profana\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em uma das casas, um rapazinho, fregu\u00eas advent\u00edcio, como tinha algumas lambujens da qu\u00edmica dos ossos, lembrou-se de dizer que n\u00e3o havia tal profana\u00e7\u00e3o: tratava-se de um punhado disto e daquilo. Mas para a pol\u00edcia n\u00e3o h\u00e1 qu\u00edmica? n\u00e3o h\u00e1 nada. Resolvida a ir adiante, pediu segunda vez a retirada dos ossos. Em ambas as casas, ainda lhe disseram que, aparentando respeitar os mortos, a pol\u00edcia diminu\u00eda-os, desde que punha os respectivos ossos abaixo de um estandarte de carnaval: pode expor-se um emblema de folia, uma vitela de duas cabe\u00e7as, um anan\u00e1s monstro, e n\u00e3o se h\u00e1 de expor dois ou tr\u00eas \u00fameros, quatro que sejam?<\/p>\n<p>Mas estava escrito. A pol\u00edcia trazia o plano de, sem lei nem nada exceto uma raz\u00e3o de conveni\u00eancia e decoro, fazer retirar dali os ossos, e conseguiu-o. Meteu-os em duas urnas, trazidas pelos urbanos e remeteu-os para a Faculdade de Medicina. Em tudo isso, n\u00e3o h\u00e1 duvida que se portou com muito tacto e polidez; mas nem por isso os homens s\u00e9rios deixaram de ficar acabrunhados, ao ver essa limita\u00e7\u00e3o da liberdade.<\/p>\n<p>Eu, al\u00e9m desta raz\u00e3o \u00faltima, fiquei aborrecido, porque tinha mandado dizer a umas primas de Itabora\u00ed que viessem ver os ossos do Malta e os do outro que pelo nome n\u00e3o perca: elas chegam amanh\u00e3 e n\u00e3o acham nada; e, pobres como s\u00e3o, ter\u00e3o de fazer maior despesa o que contavam. Costumam, efetivamente, todos os anos, vir \u00e0 corte pelo carnaval, mas desta vez adiantaram a viagem para ver as duas coisas-os \u00fameros e os m\u00e1scaras-e s\u00f3 lhe ficaram os m\u00e1scaras. N\u00e3o \u00e9 pouco, mas n\u00e3o \u00e9 tudo<\/p>\n<p>Enfim, est\u00e1 acabado. Concluo dizendo \u00e0 autoridade que \u00e9 um erro abusar do poder; as liberdades vingam-se, e a liberdade de expor n\u00e3o e a menos vivaz e rancorosa. Hoje tiram-nos o direito de expor um par de canelas; amanh\u00e3 arrancam-nos o de expor as nossas queixas.<\/p>\n<p>N\u00e3o vejam nisso um trocadilho: premissa traz conseq\u00fc\u00eancia. Liberdade morta, liberdade moribunda.<\/p>\n<p>[36]<\/p>\n<p>[30 janeiro]<\/p>\n<p>SABE O LEITOR o que Lhe trago aqui? Uma p\u00e9rola. N\u00e3o acredita J\u00e1 esperava por isso; mas a minha vingan\u00e7a \u00e9 que voc\u00ea t\u00e3o depressa lhe puser o olho, p\u00f5e-lhe a m\u00e3o, e manda engast\u00e1-la em um bot\u00e3o de camisa, se n\u00e3o for casado, porque ela e tamanha, que est\u00e1 pedindo um colo de senhora.<\/p>\n<p>Pesquei-a agora mesmo na costa da C\u00e2mara Municipal. Gosto daqueles mares, \u00e0s vezes tempestuosos, \u00e0s vezes banzeiros, mas sempre fecundos. Dizem que h\u00e1 um plano de fazer desaguar ali os rios Maranh\u00e3o e Caiap\u00f3, contra todas as indu\u00e7\u00f5es de geografia, e a despeito das leis da hidr\u00e1ulica. Contanto que me n\u00e3o tirem as p\u00e9rolas.<\/p>\n<p>Vamos a que acabo de colher. Todos os anos, em se aproximando o entrudo, a C\u00e2mara manda correr um edital que o pro\u00edbe, citando a postura e apontando as penas. At\u00e9 aqui a ostra; agora a p\u00e9rola. Este ano a C\u00e2mara fez saber duas coisas: primeiro, que a postura est\u00e1 em seu inteiro vigor; segundo, que deve ser cumprida literalmente. Sim meu senhor, literalmente: deve ser cumprida literalmente.<\/p>\n<p>Je suis d\u00e9j\u00e0 charm\u00e9 de ce petit morceau<\/p>\n<p>Isto em trocos mi\u00fados, quer dizer: Meus filhos, olhem que agora \u00e9 serio. Estou cansada de publicar editais que nem mesmo os ingleses v\u00eaem. ao, n\u00e3o pode ser. Canso-me em dizer que atirar \u00e1gua \u00e9 um delito, encrespo as sobrancelhas, pego na vara de marmeleiro, e \u00e9 o mesmo que se ca\u00edsse um carro. Nada, agora \u00e9 s\u00e9rio. H\u00e3o de cumprir I literalmente a postura, ou vai tudo raso.<\/p>\n<p>Entretanto, a coisa \u00e9 menos f\u00e1cil do que parece. A postura imp\u00f5e multa aos que jogam entrudo, e, n\u00e3o podendo o infrator pagar a &#8216; multa, sofrer\u00e1 &#8220;dois a oito dias de pris\u00e3o&#8221;; sendo escravo, porem, i sofrer\u00e1 &#8220;dois a oito dias de cadeia&#8221;. Como encaminhar literalmente esses dois infratores, um para a pris\u00e3o, outro para a cadeia. Se n\u00e3o fosse a condi\u00e7\u00e3o da literalidade, eu, no caso dos urbanos, mandava-os &#8216; ambos para o xilindr\u00f3, que \u00e9 um meio-termo; mas devendo ser literal, n\u00e3o saberia que fazer.<\/p>\n<p>Um grande romano recomendava, para os casos de d\u00favida, absten\u00e7\u00e3o H\u00e1 de ser provavelmente a pr\u00e1tica dos urbanos. N\u00e3o sabendo distinguir entre as duas penas, mandar\u00e3o os infratores para suas casas.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m pode ser que eles prefiram as m\u00e1ximas cristas aos preceitos pag\u00e3os, e, em tal caso, lembrados de que a letra mata e o esp\u00edrito vivifica, traduzir\u00e3o o literalmente do edital por esta frase: trabalho o refle. Se a letra mata, n\u00e3o h\u00e1 nada mais literal que o refle.<\/p>\n<p>Mas o que o leitor n\u00e3o suspeita \u00e9 que n\u00e3o Lhe dou esta p\u00e9rola, e assim castigo a incredulidade com que me recebeu. Vou restitui-la a matrona municipal. Ela a por\u00e1 ao colo, nos tr\u00eas dias de entrudo, pare assistir ao baile dos lim\u00f5es-de-cheiro, que promete ser espl\u00eandido, t\u00e3o espl\u00eandido que ela acabar\u00e1 por dan\u00e7ar com os outros.<\/p>\n<p>Se assim acontecer, que far\u00e1 a C\u00e2mara nos anos seguintes. Ter\u00e1 de recorrer a outros adv\u00e9rbios, ferrenhamente, implacavelmente! terrivelmente, e sempre inutilmente, porque nestas coisas, amiga minha, -ou se trata de um recreio popular, e \u00e9 preciso fazer como aquele chefe de pol\u00edcia, que o trocou por outro;-ou se trata de elei\u00e7\u00f5es, e ent\u00e3o, antes de dar um adv\u00e9rbio \u00e0 execu\u00e7\u00e3o das leis, \u00e9 melhor dar-nos o sentimento da legalidade, que est\u00e1 muito por baixo.<\/p>\n<p>E depois, pode ser que o povo imagine que o direito de fazer entrudo, como o de expor ossos de defunto nas vitrinas. e constitucional. Se assim for, creia a C\u00e2mara que ele h\u00e1 de defend\u00ea-lo, a todo custo, considerando que, se hoje lhe tirasse o de jogar \u00e1gua, amanh\u00e3 pode tirar-lhe o de profanar ossos nas vitrinas da Rua do Ouvidor. Premissa traz conseq\u00fc\u00eancia; liberdade morta, liberdade moribunda. Ou mais derramadamente: as liberdades dependem tanto umas as outras, que o dia da morte de uma \u00e9 a v\u00e9spera da morte de outra. a l\u00e1 em vinte palavras o que estava em duas.<\/p>\n<p>[37]<\/p>\n<p>[17 fevereiro]<\/p>\n<p>N\u00c3O ACABO de entender por que motivo as folhas de hoje, unanimemente noticiam que o entrudo este ano foi menor que nos anteriores, quando a verdade \u00e9 que n\u00e3o houve entrudo nenhum, nem muito, nem pouco. N\u00e3o se chamar\u00e1 entrudo ao \u00fanico lim\u00e3o que se atirou na cidade, e foi obra de um homem que chegou na v\u00e9spera e n\u00e3o tinha lido as ordens proibitivas da pol\u00edcia e da C\u00e2mara Municipal. Assim o disse ele ao subdelegado, pagando a multa em dobro, e declarando (por um nobre sentimento de filantropia) que o excesso da multa legal fosse aplicado ao fundo de emancipa\u00e7\u00e3o O subdelegado apertou-lhe as m\u00e3os com efus\u00e3o e dignidade. Eu teria feito a mesma coisa.<\/p>\n<p>E essa foi a contraven\u00e7\u00e3o \u00fanica, aqui vai agora um admir\u00e1vel exemplo da estrita obedi\u00eancia \u00e0s ordens policiais .<\/p>\n<p>Sabe-se que nestes tr\u00eas dias, das quatro horas da tarde em diante, n\u00e3o passa carro sem pessoa mascarada, nas ruas da Quitanda, Ourives, Gon\u00e7alves Dias e Uruguaiana, na parte compreendida entre as do Ros\u00e1rio e Sete de Setembro. Mora na primeira daquelas ruas um compadre meu, negociante de massames e aparelhos n\u00e1uticos (Ship-Chandler), com armaz\u00e9m na Rua da Sa\u00fade. Em outubro \u00faltimo, foi acometido de uma frouxid\u00e3o de nervos, que o n\u00e3o permite andar a p\u00e9. Comprou um carro, em que sai de casa para o armaz\u00e9m, \u00e0s oito horas da manh\u00e3, e que o traz do armaz\u00e9m para casa _ \u00e0s 5 da tarde.<\/p>\n<p>Diante da ordem policial, achou-se o meu compadre um tanto perplexo, por lhe parecer que as qualidades e disposi\u00e7\u00f5es do carro n\u00e3o ficavam alteradas pelo fato de trazer a pessoa que vai dentro um peda\u00e7o de papel\u00e3o na cara ou no bolso. Releu a ordem a ver se ficavam executados os moradores daquelas ruas, mas n\u00e3o achou nada. Nesse conflito entre o dever e as circunst\u00e2ncias, n\u00e3o quis recorrer \u00e0 minha casa, onde ele sabe que ter\u00e1 sempre cama e um lugar \u00e0 mesa. N\u00e3o senhor; mandou comprar uma m\u00e1scara. \u00c0s cinco horas sai da Rua da Sa\u00fade sem m\u00e1scara; chega \u00e0 esquina da Rua do Ros\u00e1rio, manda parar o carro, p\u00f5e a m\u00e1scara, o carro continua a andar, e chega \u00e0 porta da casa sem inconveniente.<\/p>\n<p>Chamem-me o que quiserem; declaro que acho isto bonito procedimento. Com pequena despesa (pois n\u00e3o h\u00e1 necessidade de m\u00e1scara rica para andar algumas bra\u00e7as de rua), submete-se um homem \u00e0 regra comum, sem grave altera\u00e7\u00e3o dos h\u00e1bitos. Note-se que a m\u00e1scara, apesar de barata, n\u00e3o \u00e9 feia. Quem quiser v\u00ea-la ainda hoje v\u00e1 postar-se na Rua da Quitanda, esquina da do Ros\u00e1rio. \u00c0s cinco horas e dez ou cinco minutos, ver\u00e1 parar um carro, e observar\u00e1 o resto. Nestes dois dias tem sido o recreio da vizinhan\u00e7a.<\/p>\n<p>[38]<\/p>\n<p>[8 mar\u00e7o]<\/p>\n<p>H\u00e1 UM FALAR e dois entenderes, costume dizer o povo, e n\u00e3o diz tudo, porque a verdade \u00e9 que h\u00e1 um fa1ar e dois, cinco ou mais entenderes, segundo os casos. Contemplamos, por exemplo, a companhia de Carris Urbanos.<\/p>\n<p>A \u00faltima assembl\u00e9ia geral dos acionistas desta companhia adotou duas propostas: uma para construir o capital por meio de medidas que se v\u00e3o descobrir e estudar, e outra para distribuir provisoriamente os dividendos de trimestre em trimestre. Na vida comum, estas duas propostas pareceriam excluir-se. Eu, quando tenho que reconstruir a algibeira, n\u00e3o dou aos amigos mais que um aperto de m\u00e3o. Nenhum me pilha charuto. Nas associa\u00e7\u00f5es o caso \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar o dividendo trimestral \u00e9 o mesmo que o semestral ou anual; d\u00e1-se em quatro partes em vez de se dar em duas. S\u00f3 aumenta a escritura\u00e7\u00e3o e o trabalho.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, o sistema que consistisse em pegar dos dividendos e reconstruir com ele o capital, suspendendo a entrega aos acionistas por algum tempo, seria ridiculamente emp\u00edrico e singularmente odioso, al\u00e9m de valer tanto como uma pinga d&#8217;\u00e1gua. Emp\u00edrico, porque \u00e9 assim que fazem os autores de quadrinhas, modinhas e outras obrinhas miudinhas: estando cansados de compor, v\u00e3o primeiro refazer o intelecto, por qu\u00ea? Eis que eles n\u00e3o sabem. Odioso, porque quando o acionista estava em casa, rumindo a morte da bezerra, as pessoas que o foram buscar, n\u00e3o lhe disseram que os capitais s\u00e3o sujeitos a emagrecer no ver\u00e3o; ao contr\u00e1rio, em geral os capitais, mormente os capitais em preparo, s\u00e3o de uma gordura que faz pena. 0 mesmo digo \u00e0 companhia de S. Crist\u00f3v\u00e3o, que anda discutindo na imprensa que h\u00e3o de ser os seus diretores: e discutindo a soco, a pontap\u00e9, a bolacha, quando a coisa para mim est\u00e1 resolvida por si mesma: \u00e9 a do personagem de Moliere.<\/p>\n<p>Le v\u00e9ritable Amphytrion<br \/>\nc&#8217;est l Amphytrion o\u00f9 l&#8217;on d\u00eene<\/p>\n<p>Tudo isto \u00e9 claro e clar\u00edssimo, para quem se dar o trabalho de ver se as coisas correspondem todas ao nome que tem. As quest\u00f5esdevem ser examinadas. As id\u00e9ias devem come\u00e7ar por ser entendidas. N\u00e3o sou eu que o digo: di-lo um dos ornamentos do nosso clero, Monsenhor Calino, que ainda ontem me fazia esta reflex\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea repare que cada coisa tem o seu nome; mas o mesmo nome pode n\u00e3o, corresponder a coisas ou pessoas semelhantes. Quiosque, por exemplo. L\u00e1 fora o quiosque \u00e9 ocupado por uma mulher que vende jornais. C\u00e1 dentro \u00e9 o lugar onde um cavalheiro vende coisas diversas, lei de aclima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>[39]<\/p>\n<p>[8 mar\u00e7o]<\/p>\n<p>A ARTE DE DIZER as coisas sem parecer diz\u00ea-las \u00e9 t\u00e3o preciosa e rara, que n\u00e3o resisto ao desejo de recomendar dois modelos recentes.<\/p>\n<p>Um deles \u00e9 at\u00e9 um decreto. Com o especioso pretexto de reformar o regulamento de 12 de maio de 1883, o Sr. Conselheiro De Lamare expediu uma verdadeira advert\u00eancia \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o da C\u00e2mara, para o caso de que esta queira dar batalha ao minist\u00e9rio. N\u00e3o recusa a batalha (abalroa\u00e7\u00e3o, na terminologia do documento), mas n\u00e3o quer ser apanhado de surpresa. Da\u00ed as multiplicadas recomenda\u00e7\u00f5es aos barcos de boca aberta, ou embarca\u00e7\u00f5es de pescaria, tanto os que pescam de rede, como os de linha ou de arrast\u00e3o, para que tragam luzes de duas ou mais cores, a fim de serem vistos de todos os pontos do horizonte. Horizonte \u00e9 um sin\u00f4nimo.<\/p>\n<p>O segundo modelo desta arte de escrever \u00e9 o programa da Associa\u00e7\u00e3o Instrutiva e Beneficente.<\/p>\n<p>Esta associa\u00e7\u00e3o, que vai inaugurar os seus trabalhos no dia 25 do corrente, d\u00e1 m\u00e9dico e botica aos s\u00f3cios, cem mil-r\u00e9is para o enterro e quinhentos mil-r\u00e9is como legado aos substitutos institu\u00eddos pelo s\u00f3cio morto. Conta seis m\u00e9dicos, quatro alopatas e dois homeopatas, e duas farm\u00e1cias. Um dos farmac\u00eauticos \u00e9 membro do conselho. Quanto \u00e0s obriga\u00e7\u00f5es, s\u00e3o, por enquanto, a entrada mensal de 4$180; em breve, por\u00e9m, s\u00f3 se admitir\u00e3o s\u00f3cios que entrem com 100$000 de j\u00f3ia.<\/p>\n<p>On ne parle ici que de ma mort-exclama certo personagem de com\u00e9dia. N\u00e3o se pode dizer outra coisa deste prospecto, em que a gente sai do m\u00e9dico para a botica, e da botica para o m\u00e9dico. E a parte instrutiva? A parte instrutiva c\u00e1 est\u00e1:<\/p>\n<p>A associa\u00e7\u00e3o, por sua administra\u00e7\u00e3o, tendo tido imensos pedidos para que quanto antes d\u00ea come\u00e7o aos seus trabalhos, mas sendo o seu intuito nunca prejudicar os associados, resolveu, por ora, suspender o benef\u00edcio da instru\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, contido em estatutos, para p\u00f4-lo em vigor em \u00e9poca mais favor\u00e1vel; bem como que ir\u00e1 contratando outros farmac\u00eauticos&#8230;<\/p>\n<p>Bem; adiemos a instru\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria para tempos melhores. N\u00e3o nos falta tudo, temos as farm\u00e1cias, que \u00e9 parte beneficente.<\/p>\n<p>O pior \u00e9 que a associa\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o come\u00e7ou os seus trabalhos, e j\u00e1 pesa sobre ela a m\u00e3o da fatalidade, trazendo uma lacuna, ainda que passageira, \u00e0 diretoria. Adoeceu uma pessoa da fam\u00edlia do tesoureiro, e este teve de retirar-se para o interior, donde oxal\u00e1 que volte, antes mesmo que a instru\u00e7\u00e3o principie. Tudo, por\u00e9m, se recomp\u00f4s ficando a tesouraria interinamente confiada a um dos farmac\u00eauticos, que j\u00e1 era membro do conselho. Creio haver dito que v\u00e3o ser contratados outros farmac\u00eauticos, e consequentemente outras farm\u00e1cias tanto alop\u00e1ticas como homeop\u00e1ticas&#8230; Mas, com os diabos! On ne parle ici que de ma mort!<\/p>\n<p>[40]<\/p>\n<p>[14 mar\u00e7o]<\/p>\n<p>TRAGO AQU! no bolso um rem\u00e9dio contra os capoeiras. Nem tenho d\u00favida em dizer que \u00e9 muito superior ao c\u00e9lebre Xarope do Bosque que fez curas admir\u00e1veis e at\u00e9 milagrosas, at\u00e9 princ\u00edpios de 1856, decaindo em seguida, como todas as coisas deste mundo. A minha droga pode dizer-se que tem em si o sinal da imortalidade.<\/p>\n<p>Agora, principalmente, que a guarda urbana foi dissolvida, entregando ontem os refles, receiam alguns que haja uma explos\u00e3o de capoeiragem (s\u00f3 para os moer), enquanto que outros cr\u00eaem que a substitui\u00e7\u00e3o da guarda \u00e9 bastante para fazer recuar os maus e tranq\u00fcilizar os bons. H\u00e3o de perdoar-me: eu estou antes com o receio do que com a esperan\u00e7a, n\u00e3o tanto porque acredite na explos\u00e3o referida, como porque desejo vender a minha droga. Pode ser que haja nesta confiss\u00e3o uma ou duas gramas de cinismo; mas o cinismo, que . a sinceridade dos patifes, pode contaminar uma consci\u00eancia reta. pura e elevada, do mesmo modo que o bicho pode roer os Mais sublimes livros do mundo.<\/p>\n<p>Vamos, por\u00e9m, \u00e0 droga, e comecemos por dizer que estou em desacordo com todos os meus contempor\u00e2neos, relativamente ao motivo que leva o capoeira a plantar facadas nas nossas barrigas. Diz-se que \u00e9 o gosto de fazer mal, de mostrar agilidade e valor, opini\u00e3o unanime e respeitada como um dogma. Ningu\u00e9m v\u00ea que \u00e9 simplesmente absurda.<\/p>\n<p>Com efeito, n\u00e3o duvido que um ou outro, excepcionalmente, nutra essa pervers\u00e3o de entranhas, mas a natureza humana n\u00e3o comporta a extens\u00e3o de tais sentimentos. N\u00e3o \u00e9 incr\u00edvel que tamanho n\u00famero de pessoas se divirtam em rasgar o ventre alheio, s\u00f3 para fazer alguma coisa. N\u00e3o se trata de vivissec\u00e7\u00e3o, em que um certo abuso, por maior que seja, \u00e9 sempre cient\u00edfico, e com o qual, s\u00f3 padece cachorro, que n\u00e3o \u00e9 gente, como se sabe. Mas como admitir tal coisa com homem e fora cio gabinete?<\/p>\n<p>Bastou-me fazer esta reflex\u00e3o, para descobrir a causa das facadas an\u00f4nimas e advent\u00edcias, e logo o medicamento apropriado. veja o leitor se n\u00e3o concorda comigo?<\/p>\n<p>Capoeira \u00e9 homem. Um dos caracter\u00edsticos do homem \u00e9 viver com o seu tempo. Ora, o nosso tempo (nosso e do capoeira) padece de uma coisa que poderemos chamar-erotismo de publicidade. Uns poder\u00e3o crer que \u00bf achaque, outros que \u00e9 uma recrudesc\u00eancia de energia, porque o sentimento \u00e9 natural. Seja o que for, o fato existe, e basta andar na aldeia sem ver as casas, para reconhecer que nunca esta esp\u00e9cie de afei\u00e7\u00e3o chegou ao grau em que a vemos.<\/p>\n<p>Sou justo. H\u00e1 casos em que acho a coisa natural. Na verdade, se eu, completando hoje cinq\u00fcenta anos, janto com a fam\u00edlia e dois ou tr\u00eas amigos. por que n\u00e3o farei participante do meu contentamento este respeit\u00e1vel p\u00fablico? Embarco, desembarco, dou ou recebo um mimo, nasce-me um porco com duas cabe\u00e7as. qualquer caso desses pode muito bem figurar em letra redonda, que d\u00e1 vida a coisas muito menos interessantes. E. depois. o nome da gente, em letra redonda. tem outra gra\u00e7a, que n\u00e3o em itera manuscrita; sai mais bonito, mais n\u00edtido mete-se pelos olhos dentro sem contar que as pessoas que o h\u00e3o de comemorar as folhas, e a gente fica not\u00f3ria sem despender nada N\u00e3o nos envergonhemos de viver na rua; \u00e9 muito mais fresco.<\/p>\n<p>Aqui tocamos o ponto essencial. O capoeira est\u00e1 nesta mat\u00e9ria como Cr\u00e9billon em mat\u00e9ria de teatro. Perguntou-se a este, por que compunha pe\u00e7as de fazer arrepiar os cabelos; ele respondeu que, tendo Racine tomado o c\u00e9u para si e Corneille a terra, n\u00e3o lhe restava mais que o inferno em que se meteu. O mesmo acontece ao capoeira. N\u00e3o pode distribuir mimos espirituais, ou drogas infal\u00edveis, todos os porcos nascem-lhe com uma s\u00f3 cabe\u00e7a, nenhum meio de ocupar os outros com a sua preciosa pessoa. Recorre \u00e0 navalha, espalha facadas certo de que os jornais dar\u00e3o not\u00edcias das suas fa\u00e7anhas e divulgar\u00e3o os nomes de alguns.<\/p>\n<p>J\u00e1 o leitor adivinhou o meu medicamento. N\u00e3o se pode falar com gente esperta; mal se acaba de dizer uma coisa, conclui logo a coisa restante. Sim, senhor, adivinhou, \u00e9 isso mesmo: n\u00e3o publicar mais nada, trancar a imprensa \u00e0s valentias da capoeiragem. Uma vez que se n\u00e3o d\u00ea mais not\u00edcia, eles recolhem-se \u00e0s tendas, aborrecidos de ver que a cr\u00edtica n\u00e3o anima os operosos.<\/p>\n<p>Logo depois a autoridade, tendo \u00e0 m\u00e3o algumas associa\u00e7\u00f5es, becos e suspens\u00f3rios ainda sem t\u00edtulo, entra pelas tendas e oferece aos nossos Aquiles uma compensa\u00e7\u00e3o de publicidade. Vit\u00f3ria completa: eles aceitam o derivativo, que os traz ao c\u00e9u de Racine e \u00e0 terra de Corneille, enquanto as navalhas, restitu\u00eddas aos barbeiros, passar\u00e3o a escanhoar os queixos da gente pac\u00edfica. Ex fumo dare lucem.<\/p>\n<p>[41]<\/p>\n<p>[19 mar\u00e7o]<\/p>\n<p>TODA A Gente sabe que eu, sempre que \u00e9 preciso elogiar-me, n\u00e3o recorro aos vizinhos; sirvo-me da prata de casa, que \u00e9 prata velha e de lei Agora mesmo, podia dizer prata ordin\u00e1ria ou casquinha, mas n\u00e3o digo. Digo prata de lei.<\/p>\n<p>O sistema da mutualidade, inventada por Trissotin e Vadius, tem o defeito da depend\u00eancia em que nos p\u00f5e uns dos outros Diz Trissotin a Vadius: Aux ballades surtout, vous \u00eates admirable. Se Vadius, em vez de responder, como na com\u00e9dia: Et dans le bouts-rim\u00e9s je vous trouve adorable, disser simplesmente: A prop\u00f3sito, que \u00e9 que h\u00e1 do minist\u00e9rio?-l\u00e1 se vai todo o plano de Trissotin, que gastou o seu versinho bonito, sem receber nada.<\/p>\n<p>Em vez disso, inaugurei o meu sistema, fundado no princ\u00edpio de que o homem deve dizer tudo o que pensa. Se o meu vizinho pensa que \u00e9 um pasc\u00e1cio, por que n\u00e3o h\u00e1 de escrev\u00ea-lo? Se eu cuido que sou um cidad\u00e3o consp\u00edcuo e ilustrado, por que hei de cal\u00e1-lo&#8217; A verdade, quer ofenda o meu vizinho, quer me lisonjeie, deve ser p\u00fablica.<\/p>\n<p>Nua saiu ela do po\u00e7o, nua deve ir \u00e0s casas particulares. Quando muito, p\u00f5em-se-lhe umas pulseiras de ouro; em vez de dizer ilustrado darei-profundamente ilustrado.<\/p>\n<p>Agora vejam. Isto que \u00e9 justo, claro, transparente e racional, n\u00e3o o tinha podido at\u00e9 aqui meter no bestunto dos meus contempor\u00e2neos. Vivia como uma esp\u00e9cie de Maom\u00e9 sem Ali, pregava no v\u00e1cuo falava a surdos. Nas c\u00e2maras, continuava a dobrar-se o colo humilde de Trissotin: &#8220;Perante esta c\u00e2mara t\u00e3o rica de talentos, eu, o \u00faltimo dos seus membros . . . &#8221; Logo Vadius retificando: &#8220;N\u00e3o apoiado! V. Ex.a \u00e9 um dos ornamentos do pa\u00eds!&#8221; Concordo que \u00e9 bonito, mas esta trocado.<\/p>\n<p>Desanimado, cheio de desgostos, que s\u00f3 pode sentir quem j\u00e1 foi profeta sem aderentes, ia abandonar a empresa, quando a Provid\u00eancia fez reunir os acionistas do Banco Auxiliar; foi a primeira manifesta\u00e7\u00e3o desse poder misterioso e oportuno. A segunda foi 0 parecer da comiss\u00e3o do exame de contas, papel excelente, em que leio que o Sr. Del Vecchio, &#8220;no louv\u00e1vel intuito de concorrer para desenvolver o banco&#8221;, tinha proposto em tempo certa reforma. E o Sr Del Vecchio \u00e9 justamente um dos signat\u00e1rios do parecer; circunstancia que ele acentua bem para mostrar a sua ades\u00e3o a id\u00e9ia nova.<\/p>\n<p>Del Vecchio, amado Del Vecchio, tu que acreditaste em mim, fica sendo o meu califa. N\u00e3o h\u00e1 mais que um Deus, e Maom\u00e9 e o seu profeta. Agora posso fugir para Medina, a verdade vencer\u00e1, a despeito da fraqueza de uns, da maldade de outros e do erro de todos.<\/p>\n<p>Cora\u00e7\u00f5es que sufocais em g\u00e9rmen os mais belos adjetivos do mundo, deixai que eles brotem francamente, que cres\u00e7am e apare\u00e7am, que flores\u00e7am, que frutifiquem! S\u00e3o os frutos da sinceridade. Eia, cora\u00e7\u00f5es medrosos, sacudi o medo, bradai que sois grandes e divinos. As primeiras pessoas que ouvirem a confiss\u00e3o de um desses cora\u00e7\u00f5es retos, dir\u00e3o sorrindo umas para as outras:<\/p>\n<p>&#8211; Ele diz que \u00e9 nobre e divino. As segundas:<\/p>\n<p>-Parece que ele \u00e9 nobre e divino.<\/p>\n<p>As terceiras:<\/p>\n<p>-Com certeza ele \u00e9 nobre e divino.<\/p>\n<p>As quartas:<\/p>\n<p>-N\u00e3o h\u00e1 nada mais nobre e divino.<\/p>\n<p>As quintas:<\/p>\n<p>-Ele \u00e9 o que \u00e9 mais nobre e divino.<\/p>\n<p>As sextas:<\/p>\n<p>-Ele \u00e9 o \u00fanico que \u00e9 nobre e divino.<\/p>\n<p>E tu descansar\u00e1s nas s\u00e9timas, que amaciar\u00e3o para ti o rega\u00e7o absoluto. Tudo porque eu, um dos caracteres mais elevados do nosso tempo, esp\u00edrito esclarecido e abalizado, iniciei a pr\u00e1tica do verdadeiro princ\u00edpio. E o que \u00e9 que se d\u00e1 comigo mesmo? Lulu S\u00eanior, que e hoje (com raz\u00e3o) um dos meus mais estr\u00eanuos admiradores, j\u00e1 n\u00e3o me chama outra coisa: -esp\u00edrito abalizado para ca, espirito abalizado para l\u00e1. Ainda ontem:<\/p>\n<p>-L\u00e9lio, tu que \u00e9s um dos esp\u00edritos mais abalizados que conhe\u00e7o, podes dizer-me por que \u00e9 que no jantar pol\u00edtico ao Silva Tavares n\u00e3o houve discursos pol\u00edticos?<\/p>\n<p>-Culpa do cozinheiro, respondi eu. Como se n\u00e3o bastasse um poisson fin \u00e0 la diplomate, incluiu ele no menu, publicado no Pa\u00eds, uma certa Dinde farcie \u00e0 la P\u00e9rigord&#8230; P\u00e9rigord, como sabes, \u00e9 puro Talleyrand<br \/>\n&#8211; Talleyrand-P\u00e9rigord, o gr\u00e3o-mestre dos diplomatas.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se pode contestar que \u00e9s dos esp\u00edritos mais abalizados deste pa\u00eds.<\/p>\n<p>-Apoiado! um dos meus ornamentos!<\/p>\n<p>[42]<\/p>\n<p>[24 mar\u00e7o]<\/p>\n<p>AQUI H\u00c1 DIAS O Clube de Engenharia deu parecer sobre uma m\u00e1quina denominada Fluminense. Para saber o que era, parece que bastava pergunt\u00e1-lo ao Clube, ou ao inventor; mas, como as imagina\u00e7\u00f5es vadias dias contraem maus costumes, preferi ocupar a minha a ver se acertava por si mesma com a aplica\u00e7\u00e3o da coisa.<\/p>\n<p>N\u00e3o posso, n\u00e3o devo, n\u00e3o quero contar ao leitor qual foi o processo da minha imagina\u00e7\u00e3o, nem por que voltas e revoltas, depois de crer que era uma m\u00e1quina para via f\u00e9rrea, acabei supondo que se tratava de um aparelho destinado a despolpar caf\u00e9! Parece pulha que, sem mais recurso que o da simples conjetura e um pouco de indu\u00e7\u00e3o, pudesse alcan\u00e7ar t\u00e3o prodigioso resultado; mas \u00e9 a pura verdade.<\/p>\n<p>Pois, senhores, posso limpar a m\u00e3o \u00e0 parede com o meu trabalho de imagina\u00e7\u00e3o: a m\u00e1quina era simplesmente de loteria. Se \u00e9 boa ou m\u00e1, n\u00e3o vi; limito-me a publicar o caso, para escarmento dos esp\u00edritos temer\u00e1rios, ou rotineiros, n\u00e3o sei como diga; mas qualquer palavra serve, contanto que fique escarmento, que \u00e9 o principal.<\/p>\n<p>A primeira coisa que revela a m\u00e1quina de que eu trato, \u00e9 a f\u00e9 no futuro. Os sapateiros n\u00e3o fariam mais sapatos; se acreditassem que todos iam nascer com pernas de pau. Inventar uma m\u00e1quina para a loteria, disposto a aperfei\u00e7o\u00e1-la com o tempo, \u00e9 implicitamente declarar que n\u00e3o esta perdida a f\u00e9 na perman\u00eancia da institui\u00e7\u00e3o. O contr\u00e1rio seria absurdo.<\/p>\n<p>Ora, n\u00e3o como ve\u00edculo da postura, mas como \u00f3rg\u00e3o de uma institui\u00e7\u00e3o, \u00e9 que a m\u00e1quina foi ter ao Clube de Engenharia para ser examinada. Como obra pr\u00e1tica, admito que se preferisse ver a aten\u00e7\u00e3o do Clube ocupada com algum aparelho de despolpar caf\u00e9, mas em teoria \u00e9 a mesma coisa. H\u00e1 at\u00e9 autores que afirmam que, ainda pelo lado pr\u00e1tico, n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a nenhuma, porque ambas as m\u00e1quinas despolpam, uma caf\u00e9, outra algibeiras; mas isto n\u00e3o passa de um execr\u00e1vel calembour indigno da ci\u00eancia.<\/p>\n<p>O que fica aventado \u00e9 que a institui\u00e7\u00e3o da loteria tem ainda algumas boas d\u00e9cadas de exist\u00eancia. Deus a conserve! Ela \u00e9 o aux\u00edlio da piedade econ\u00f4mica, organizada em irmandade, que alumiam o Alt\u00edssimo com a porcentagem da basbacaria humana, que \u00e9 (perdoe a sua aus\u00eancia) a melhor ap\u00f3lice que eu conhe\u00e7o, sem desfazer nas do Estado. Ela distribui o p\u00e3o, o len\u00e7ol, levanta pontes, conserta estradas, cuida do homem todo, corpo e alma, por fora e por dentro, na vida e na morte.<\/p>\n<p>Quando por\u00e9m n\u00e3o fosse assim, a ci\u00eancia nada tem que ver com a utilidade ou perversidade das institui\u00e7\u00f5es. O lado social n\u00e3o Lhe pertence, mas s\u00f3 o mec\u00e2nico. Demais, h\u00e1 um princ\u00edpio de solidariedade que liga todas as institui\u00e7\u00f5es de um pa\u00eds, a loteria e a engenharia. Foi o primeiro aparelho nacional que o Clube examinou? N\u00e3o quer dizer nada; por algum se h\u00e1 de come\u00e7ar, e, m\u00e1quina por m\u00e1quina, antes a Fluminense que a do Fieschi, a infernal, que levava a gente desta para melhor. O que n\u00e3o mata engorda, dizem os velhos mas supondo mesmo que emagre\u00e7a&#8230; Opportet rnagricellas esse, com perd\u00e3o de quem me ouve.<\/p>\n<p>[43]<\/p>\n<p>[29 mar\u00e7o]<\/p>\n<p>O SR. ALVES DOS SANTOS exerce os cargos de vig\u00e1rio e de deputado provincial no Rio de Janeiro. Isto permite-lhe cumprir \u00e0 risca o preceito evang\u00e9lico, dar a C\u00e9sar o que \u00e9 de C\u00e9sar, os or\u00e7amentos, e a Deus o que \u00e9 de Deus, a ora\u00e7\u00e3o. J\u00e1 \u00e9 dar muito: mas o Sr. Alves dos Santos quis dar mais alguma coisa, e mandou-me duas fortes sacudidelas por interm\u00e9dio de um discurso.<\/p>\n<p>Um colega (temporal) de Sua Reverend\u00edssima tinha proposto que se representasse ao governo geral sobre a necessidade de mandar p\u00e1rocos para as duas freguesias que os n\u00e3o t\u00eam h\u00e1 cinco meses. Levantou-se o Sr. Alves dos Santos e prop\u00f4s que, em vez disso, se oficiasse ao Sr. bispo para que informe quantas freguesias est\u00e3o sem p\u00e1roco (declarou que eram muitas), e deu como raz\u00e3o do requerimento substitutivo a plausibilidade de parecer que o primeiro era uma censura ao diocesano, que nenhuma culpa tem na falta de p\u00e1rocos nas freguesias.<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui vai tudo bem. Se o bispo n\u00e3o tem culpa, \u00e9 injusto censur\u00e1-lo. Mas por que \u00e9 que o bispo n\u00e3o tem culpa? Por dois motivos: o primeiro \u00e9 a falta de sacerdotes, e aqui vai a primeira sacudidela, que n\u00e3o foi a maior. T\u00eam morrido durante o episcopado atual mais de duzentos padres, e apenas se ordenaram vinte; os semin\u00e1rios est\u00e3o [desertos, e h\u00e1 anos que n\u00e3o se d\u00e1 uma s\u00f3 ordena\u00e7\u00e3o nesta diocese, p\u00f4r n\u00e3o haver mais voca\u00e7\u00f5es para o estudo sacerdotal.<\/p>\n<p>Ao voltar do abalo, perguntei a mim mesmo se h\u00e1 raz\u00e3o para censurar o bispo, quando ele escolhe para as freguesias padres estrangeiros. Onde n\u00e3o h\u00e1, el-rei o perde. Entretanto, admirado da falta [absoluta de voca\u00e7\u00f5es eclesi\u00e1sticas, e cogitando nas conseq\u00fc\u00eancias que E daqui vos podem vir, tratei de ver se achava no discurso alguma [raz\u00e3o explicativa de um tal fen\u00f4meno, al\u00e9m do que, por mim mesmo, t e fora dele, pareceu-me haver achado.<\/p>\n<p>E dei com outra no discurso. O Sr. Alves dos Santos disse, de passagem, que o Sr. bispo reformou os estudos, e dificultou um pouco mais a ordena\u00e7\u00e3o, &#8220;por querer um clero, n\u00e3o ignorante, mas com a ilustra\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para combater as perigosas id\u00e9ias do s\u00e9culo.&#8221; Deus me defenda de debater nesta coluna brincalhona, e com t\u00e3o graves personagens, a quest\u00e3o de saber se o perigo \u00e9 das id\u00e9ias ou dos sentimentos do s\u00e9culo, limito-me a concluir da reforma dos estudos, que em pouco tempo estar\u00e1 o Sr. bispo sem ter quem mande para as freguesias, a n\u00e3o querer por l\u00e1 os jornalistas que o censurarem. A\u00ed est\u00e1 um resultado com que se n\u00e3o contava h\u00e1 vinte anos, e, por menos que se espalhe a todo 0 Brasil, teremos este singular contraste: um povo cat\u00f3lico, em que ningu\u00e9m quer ser padre. . . Mas eu tenho pressa de chegar \u00e0 segunda sacudidela.<\/p>\n<p>A segunda foi esta: &#8220;O padre, em geral, (disse o Sr. vig\u00e1rio Santos) procura as melhores freguesias, nas quais possa subsistir sem o grande \u00f4nus de cura d&#8217;almas.&#8221;<\/p>\n<p>Desta vez ca\u00ed no ch\u00e3o. Ao levantar-me, reli o trecho, era aquilo mesmo, sem per\u00edfrase. A per\u00edfrase \u00e9 um grande tempero para essas drogas amargas. Se eu chamar tratante a um homem, ele investe para mim, mas se eu Lhe disser que o seu procedimento n\u00e3o \u00e9 adequado aos princ\u00edpios corretos e s\u00e3os que Deus p\u00f4s na consci\u00eancia humana para o seguro caminho de uma vida rigorosamente moral-quando o meu ouvinte houver desembrulhado o pacote, j\u00e1 eu voltei \u00e0 esquina. Foi o que o Sr. vig\u00e1rio Santos n\u00e3o fez, e podia faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Que o padre, em geral, procure as melhores freguesias, em que possa subsistir, v\u00e1; nem todos h\u00e3o de ser uns S. Paulos, nem os tempos comportam a mesma vida. Mas o que me fez cismar, foi este acr\u00e9scimo: &#8220;sem o grande \u00f4nus de cura d&#8217;almas&#8221;. Isto, se bem entendo, quer dizer ganhar muito sem nenhum trabalho. Mas, vig\u00e1rio meu \u00e9 justamente o emprego que eu procuro, e n\u00e3o acho, h\u00e1 uns vinte e cinco anos, pelo menos. N\u00e3o cheguei a p\u00f4r an\u00fancios, porque acho feio; mas falo a todos os amigos e conhecidos, obtenho cartas de recomenda\u00e7\u00e3o, palavras doces, e mais nada. Se tiver not\u00edcia de algum escreva-me pelo correio, caixa n. 1712.<\/p>\n<p>[44]<\/p>\n<p>[3 abril]<\/p>\n<p>&#8220;H\u00c1 ALGU\u00c9M, disse o Sr. Senador Jo\u00e3o Alfredo, citando um velho dito conhecido, h\u00e1 algu\u00e9m que tem mais esp\u00edrito que Voltaire, \u00e9 todo o mundo.&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se j\u00e1 alguma vez disse ao leitor que as id\u00e9ias, para mim s\u00e3o como as nozes, e que at\u00e9 hoje n\u00e3o descobri melhor processo para saber o que est\u00e1 dentro de umas e de outras,-sen\u00e3o quebr\u00e1-las.<\/p>\n<p>Aos vinte anos, come\u00e7ando a minha jornada por esta vida p\u00fablica que Deus me deu, recebi uma por\u00e7\u00e3o de id\u00e9ias feitas para o caminho. Se o leitor tem algum filho prestes a sair, fa\u00e7a-lhe a mesma coisa. Encha uma pequena mala com id\u00e9ias e frases feitas, se puder, aben\u00e7oe o rapaz e deixe-o ir.<\/p>\n<p>N\u00e3o conhe\u00e7o nada mais c\u00f4modo. Chega-se a uma hospedaria abre-se a mala, tira-se uma daquelas coisas, e os olhos dos viajantes fa\u00edscam logo, porque todos eles as conhecem desde muito, e cr\u00eaem nelas, \u00e0s vezes mais do que em si mesmos. \u00c9 um modo breve e econ\u00f4mico de fazer amizade.<\/p>\n<p>Foi o que me aconteceu. Trazia comigo na mala e nas algibeiras uma por\u00e7\u00e3o dessas id\u00e9ias definitivas, e vivi assim, at\u00e9 o dia em que ou por irrever\u00eancia do esp\u00edrito, ou por n\u00e3o ter mais nada que fazer peguei de um quebra-nozes e comecei a ver o que havia dentro delas Em algumas, quando n\u00e3o achei nada, achei um bicho feio e visguento.<\/p>\n<p>N\u00e3o escapou a este processo a id\u00e9ia de que todo o mundo tem mais esp\u00edrito do que Voltaire, inventada por um homem ilustre, o que foi bastante para Lhe dar circula\u00e7\u00e3o. E, palavra, no caso desta senti profundamente o que me aconteceu.<\/p>\n<p>Com efeito, a id\u00e9ia de que todo o mundo tem mais esp\u00edrito do que Voltaire, \u00e9 consoladora, compensadora e remuneradora. Em primeiro lugar, consola a cada um de n\u00f3s de n\u00e3o ser Voltaire. Em segundo lugar, permite-nos ser mais que Voltaire, um Voltaire coletivo, superior ao Voltaire pessoal. As vezes \u00e9ramos vinte ou trinta amigos, n\u00e3o era ainda todo o mundo, mas pod\u00edamos fazer um oitavo de Voltaire, ou um d\u00e9cimo. Vamos ser um d\u00e9cimo de Voltaire? Junt\u00e1vamo-nos; cada um punha na panela comum o esp\u00edrito que Deus Lhe deu, e divert\u00edamo-nos muito. Sa\u00edamos dali para a cama, e o sono era um regalo,<\/p>\n<p>Perdi tudo isto. Peguei desta compensa\u00e7\u00e3o t\u00e3o c\u00f4moda e barata, e deitei-a fora. Funesta curiosidade! O que achei dentro, foi que todo O mundo n\u00e3o tem mais esp\u00edrito que Voltaire, nem mais g\u00eanio que Napole\u00e3o. Cito estes dois grandes homens, porque o segundo l\u00e1 esta citado na frase do eminente senador.<\/p>\n<p>Sim. meus amigos. Choro l\u00e1grimas de sangue com a minha descoberta: mas que lhes hei de fazer? Consolemo-nos com o ser simplesmente Mac\u00e1rio ou Pantale\u00e3o.<\/p>\n<p>Multipliquemo-nos para v\u00e1rios efeitos, para fazer um banco, uma c\u00e2mara legislativa. uma sociedade de dan\u00e7a, de m\u00fasica, de benefic\u00eancia. de carnaval, e outras muitas em que o \u00f3bulo de cada um perfaz o milh\u00e3o de todos; mas contentemo-nos com isto.<\/p>\n<p>Nem me retruque o leitor com o fato de ter de um lado a opini\u00e3o do autor da id\u00e9ia c as gera\u00e7\u00f5es que a t\u00eam repetido e acreditado, enquanto do outro estou apenas eu. Fa\u00e7a de conta que sou aquele menino que. quando toda a gente admirava o manto invis\u00edvel do rei, quebrou o encanto geral, exclamando:-El-rei vai nu! N\u00e3o se dir\u00e1, que, ao menos nesse caso, toda a gente tinha mais esp\u00edrito que Voltaire. Est\u00e1-me parecendo que fiz agora um elogio a mim mesmo. Tanto melhor; \u00e9 minha doutrina.<\/p>\n<p>[45]<\/p>\n<p>[9 abril]<\/p>\n<p>FUI ONTEM visitar um amigo velho, Fulano P\u00fablico, e achei-o acabando de almo\u00e7ar; chupava os \u00faltimos ossinhos do processo do colar de brilhantes. A casa em que mora, \u00e9 um resumo de todas as habita\u00e7\u00f5es. desde o pal\u00e1cio at\u00e9 o corti\u00e7o, para exprimir-creio eu-que ele \u00e9 o complexo de todas as classes sociais. &#8216; Minha genealogia, bradava-me ele h\u00e1 anos, remonta \u00e0 origem dos tempos. No dia em que houve duas r\u00e3s para ouvirem o coaxar de uma terceira, nesse dia nasceu o meu primeiro pai.&#8221;<\/p>\n<p>Entrei. mandou-me sentar, e ofereceu-me almo\u00e7o, que recusei. No fim, entre uma x\u00edcara de caf\u00e9 e um charuto, perguntou-me o que queria.<\/p>\n<p>-Meu caro P\u00fablico. . . ia eu dizendo.<\/p>\n<p>Chama-me ilustrado. Chama-me respeit\u00e1vel ou digno, se queres. Nada de adjetivos familiares. Vens pedir-me ainda para as v\u00edtimas da Andaluzia?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>Respirou; depois ouviu-me com muita aten\u00e7\u00e3o. Se eu me ria, ele ria tamb\u00e9m; se levantava os bra\u00e7os, fazia a mesma coisa: e a sua teoria de hospitalidade. Confessou-me que receia ficar com a sela na barriga. Acabou o colar de brilhantes, acabou a menina da fortaleza, acabou a menina espancada; acabou tudo. O pr\u00f3prio roubo do consulado, que prometia render, sabe ele que foi tudo mentira; n\u00e3o s\u00f3 estavam l\u00e1 os trezentos contos, mas ainda se achou um acr\u00e9scimo de quatro patacas; foi o pr\u00f3prio gatuno que, no ato da tentativa, sentiu um aperto, no cora\u00e7\u00e3o. e l\u00e1 deixou, al\u00e9m do que estava, tudo o que trazia consigo. A C\u00e2mara dos Deputados-tamb\u00e9m acabou.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, senhor: est\u00e1 verificando os poderes. N\u00e3o se reuniu na semana passada porque era penit\u00eancia. Na segunda-feira, se n\u00e3o fez sess\u00e3o, foi por causa da morte de dois membros.<\/p>\n<p>-Quer-me parecer que era melhor, nos casos de morte de um representante, fazerem as nossas c\u00e2maras o que fazem todas as c\u00e2maras do mundo: not\u00edcia do fato, alocu\u00e7\u00e3o do presidente adequada aos m\u00e9ritos do finado, e continuam os trabalhos, que s\u00e3o de interesse p\u00fablico.<\/p>\n<p>-Velhaco! Tu o que queres, \u00e9 que n\u00e3o te tirem o manjar dos debates.<\/p>\n<p>-N\u00e3o h\u00e1 tal; aceito quaisquer coisa. Ao almo\u00e7o, tendo uma fretenida de cacha\u00e7\u00f5es, navalhadas de escabeche, algum desfalque, e caf\u00e9 por cima, estou pronto. Ao Jantar, contento-me com uma boa arara mas n\u00e3o rejeito segunda. O mais \u00e9 o que me der o cozinheiro.<\/p>\n<p>-Sim; mas a bela cozinha parlamentar \u00e0 outra coisa. Confessa que est\u00e1s aborrecido com a C\u00e2mara.<\/p>\n<p>-N\u00e3o digo que n\u00e3o.<\/p>\n<p>-Tens o Senado.<\/p>\n<p>-Fica um pouco longe. E depois, eu apesar de tudo, tenho umas esquisitices. Acho que este neg\u00f3cio de discutir no Senado o projeto do Governo, antes que os convocados especialmente digam alguma coisa, \u00e9 contra a etiqueta.<\/p>\n<p>-N\u00e3o sei por qu\u00ea.<\/p>\n<p>-Cada C\u00e2mara tem o seu papel a dos deputados derruba os minist\u00e9rios, o Senado organiza-os.<\/p>\n<p>-Sendo assim, \u00e9 bom que se saiba j\u00e1 a opini\u00e3o de quem tem de organizar o novo gabinete, se o houver.<\/p>\n<p>-Cr\u00eas que haja?<\/p>\n<p>-Francamente&#8217; eu, nisto como em outras coisas, opino com o outro que dizia: creio que dois e dois s\u00e3o quatro, e quatro e quatro s\u00e3o oito; mais je n&#8217;en suis pas s\u00fbr.<\/p>\n<p>[46]<\/p>\n<p>[20 abril]<\/p>\n<p>COMO \u00c9 POSSIVEL que hoje, amanh\u00e3 ou depois tornem a falar em crise ministerial, venho sugerir aos meus amigos um pequeno obs\u00e9quio. Refiro-me \u00e0 inclus\u00e3o de meu nome nas listas de minist\u00e9rios, que \u00e9 de costume publicar anonimamente, com endere\u00e7o ao imperador.<\/p>\n<p>H\u00e1 de parecer esquisito que eu, at\u00e9 aqui pacato, solicite uma fineza destas que trescala a pura ambi\u00e7\u00e3o. Explico-me com duas palavras e deixo de lado outras duas que tamb\u00e9m podiam ter muito valor, mas que n\u00e3o s\u00e3o a causa do meu pedido.<\/p>\n<p>Na verdade, eu podia comparar a ambi\u00e7\u00e3o \u00e0s flores, que primeiro abotoam e depois desabrocham; podia dizer que, at\u00e9 aqui, andava abotoado. Por outro lado, se a ambi\u00e7\u00e3o \u00e9 como as flores, por que n\u00e3o ser\u00e1 como as batatas, que s\u00e3o comida de toda a gente? E tamb\u00e9m eu n\u00e3o sou gente? n\u00e3o sou filho de Deus? Nos tempos de carestia, a ambi\u00e7\u00e3o chega a poucos, C\u00e9sar ou Sila? mas nos per\u00edodos de abund\u00e2ncia estende-se a todos, a Balbino e a Maximino. Fa\u00e7am de conta que sou Balbino.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o quero dar nenhuma dessas raz\u00f5es, que n\u00e3o s\u00e3o as verda deiras causas do meu pedido. Vou ser franco, vou abrir a minha alma ao sol da nossa bela Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>A primeira coisa \u00e9 toda subjetiva; \u00e9 para ter o gosto de reter o meu nome impresso, entre outros seis, para ministro de Estado. Ministro de qu\u00ea? De qualquer coisa: contanto que o meu nome figure, importa pouco a designa\u00e7\u00e3o. Ainda que fosse de verdade, eu n\u00e3o faria quest\u00e3o de pastas, quanto mais n\u00e3o sendo. Quero s\u00f3 o gosto; \u00e9 s\u00f3 para ler de manh\u00e3, sete ou oito vezes, e andar com a folha no bolso, tir\u00e1-la de quando em quando, e ler para mim. e saborear comigo o prazer de ver o meu nome designado para governar.<\/p>\n<p>Agora a segunda coisa, que \u00e9 menos rec\u00f4ndita. Tenho alguns parentes, vizinhos e amigos, uns na corte e outros no interior, e desejava que eles lessem o meu nome nas listas ministeriais, pela import\u00e2ncia que isto me daria. Creia o leitor que s\u00f3 a presen\u00e7a do nome na lista me faria muito bem. Faz-se sempre bom ju\u00edzo de um homem lembrado, em pap\u00e9is p\u00fablicos, para ocupar um lugar nos conselhos da coroa, e a influ\u00eancia da gente cresce. Eu, por exemplo, que nunca alcancei dar certa express\u00e3o ao meu estilo, pode ser que a tivesse da\u00ed em diante; express\u00e3o no estilo e olhos azuis na casa. Tudo isso por uma lista an\u00f4nima, assinada &#8211; Um brasileiro ou A P\u00e1tria.<\/p>\n<p>N\u00e3o me digam que posso fazer eu mesmo a coisa e mand\u00e1-la imprimir, como se fosse de outra pessoa. Pensam que n\u00e3o me lembrei disso? Lembrei-me; mas recuei diante de uma dificuldade grave.<\/p>\n<p>Compreende-se que uma coisa destas s\u00f3 pode ser arranjada em segredo, para n\u00e3o perder o merecimento da lembran\u00e7a. Realmente, sendo a lembran\u00e7a do pr\u00f3prio lembrado, l\u00e1 se vai todo o efeito, para ficar em segredo, era preciso antes de tudo disfar\u00e7ar a letra, coisa que nunca pude alcan\u00e7ar; e, se uma s\u00f3 pessoa descobrisse a hist\u00f3ria e divulgasse a not\u00edcia, estava eu perdido. Perdido \u00e9 um modo de falar. Ningu\u00e9m se perde neste mundo, nem Bambino, nem Maximino.<\/p>\n<p>Eia. venha de l\u00e1 esse obs\u00e9quio! Que diabo, custa pouco e rende muito? porque a gratid\u00e3o de um cora\u00e7\u00e3o honesto \u00e9 moeda precios\u00edssima. Mas pode render ainda mais. Sim, suponhamos, n\u00e3o digo que aconte\u00e7a assim mesmo; mas suponhamos que o imperador, ao ler o meu nome, diga consigo que bem podia experimentar os meus talentos pol\u00edticos e administrativos e inclua o meu nome no novo gabinete. Pelo amor de Deus, n\u00e3o me atribuam a afirma\u00e7\u00e3o de um tal caso; digo s\u00f3 que pode acontecer. E pergunto, dado que assim seja, se n\u00e3o \u00e9 melhor ter no minist\u00e9rio um amigo. antes do que um inimigo eu um indiferente?<\/p>\n<p>N\u00e3o cobi\u00e7o tanto, contento-me com ser lembrado. Terei sido ministro relativamente. H\u00e1 muitos anos, ouvi uma com\u00e9dia, em que um furriel convidava a outro furriel para beber champagne.<\/p>\n<p>&#8211; Champagne! exclamou o convidado. Pois tu j\u00e1 bebeste alguma vez champagne?<\/p>\n<p>&#8211; Tenho bebido&#8230; relativamente. Ou\u00e7o dizer ao capit\u00e3o que O major costuma beb\u00ea-lo em casa do coronel.<\/p>\n<p>N\u00e3o seco outra coisa: um c\u00e1lice de poder relativo.<\/p>\n<p>[47]<\/p>\n<p>[25 abril]<\/p>\n<p>NINGUEM DIR\u00c1, a primeira vista, que entre a nascente institui\u00e7\u00e3o dos guardas-noturnos e a assembl\u00e9ia provincial de Sergipe, haja o menor ponto de contato. Mas, fitando bem os olhos, v\u00ea-se logo que h\u00e1 um, e n\u00e3o pequeno.<\/p>\n<p>Relativamente aos guardas, confesso que a princ\u00edpio achei a coisa esquisita, por me parecer que se tratava de um Estado no Estado, mas as explica\u00e7\u00f5es vieram, e vimos todos, que se trata de uma simples medida de vigil\u00e2ncia particular, limitada ao quarteir\u00e3o, sem nenhuma a\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Pelo amor de Deus, n\u00e3o v\u00e3o acreditar que \u00e9 este o ponto de contato com a assembl\u00e9ia provincial de Sergipe, ou qualquer outra. Se o fosse, n\u00e3o teria d\u00favida em diz\u00ea-lo; mas \u00e9 que n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>A assembl\u00e9ia sergipana, segundo as not\u00edcias de hoje, abriu-se solenemente h\u00e1 mais de um m\u00eas, e n\u00e3o tornou a reunir-se por falta de n\u00famero, &#8211; de quorum, \u00e9 o termo t\u00e9cnico, &#8211; que ali\u00e1s ainda n\u00e3o tinha no pr\u00f3prio dia da abertura. Vejam bem: ainda n\u00e3o havia quorum no dia da abertura da assembl\u00e9ia. N\u00e3o sou eu que o digo, \u00e9 a Gazeta de Sergipe.<\/p>\n<p>Estou a crer que o leitor j\u00e1 come\u00e7a a descobrir o ponto de contato entre os guardas e a assembl\u00e9ia sergipana; mas, ainda que o n\u00e3o descubra, pe\u00e7o-lhe que me acene com os olhos que sim, e ent\u00e3o seremos dois, e daremos maior for\u00e7a \u00e0 reclama\u00e7\u00e3o que proponho, reclama\u00e7\u00e3o pecuni\u00e1ria, ou, nos pr\u00f3prios termos da coisa, uma restitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Porquanto, os sergipanos pagam o subs\u00eddio \u00e0 assembl\u00e9ia, para que esta lhes fa\u00e7a as leis, assim como n\u00f3s pagamos imposto ao Estado, para que ele, entre outros servi\u00e7os de que se incumbe, nos guarde as casas e as pessoas. Ora, se a assembl\u00e9ia sergipana, em vez de fazer as leis necess\u00e1rias aos sergipanos, limita-se a beber os ares da bela Aracaju; e se n\u00f3s, por seguran\u00e7a, pagamos a quem nos vigie a porta; parece (salvo erro) que h\u00e1 aqui lugar para clamar como o Chicaneau de Racine: H\u00e9! rendez donc l&#8217;argent!<\/p>\n<p>Escrevi Chicaneau? Mas a nossa posi\u00e7\u00e3o e a dos sergipanos \u00e9 muito mais s\u00f3lida que a de Chicaneau. Este queria t\u00e3o-somente peitar o porteiro do juiz, ao passo que n\u00f3s n\u00e3o queremos peitar ningu\u00e9m neste mundo. Os sergipanos dizem: &#8220;N\u00e3o podendo n\u00f3s mesmos fazer as leis, incumbimos estes cavalheiros de as fazerem; e para que n\u00e3o percam o seu tempo, os indenizamos do que deixam de ganhar&#8230;&#8221; E n\u00f3s: &#8211; &#8220;como temos de ganhar a nossa vida, vendendo, fabricando, medicando ou advogando, fica este cavalheiro, em nome do Estado, incumbido de fazer uma por\u00e7\u00e3o de coisas, entre outras guardar a integridade da nossa fazenda, dos nossos narizes e do nosso sono pelo que receber\u00e1, com diversos t\u00edtulos, um tanto por ano&#8221;.<\/p>\n<p>Se isto \u00e9 peitar, n\u00e3o sei o que seja contratar. Em vez da exclama\u00e7\u00e3o s\u00f3rdida de Chicaneau, prefiro uma f\u00f3rmula singela e grave, que se ajusta a ambos os casos presentes: quibus exige quorum. Entretanto, como \u00e9 meu vezo antigo n\u00e3o apontar um mal que lhe n\u00e3o d\u00ea logo o rem\u00e9dio, vou dizer aqui o que se pode fazer sem reclama\u00e7\u00e3o nem barulho. Nada de barulhos. N\u00e3o \u00e9 rem\u00e9dio para ambos os casos, note-se bem, mas para um s\u00f3, ou mais exatamente para um daqueles e outro que me est\u00e1 pingando dos bicos da mem\u00f3ria. Fica o da corte para melhor ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>O rem\u00e9dio \u00e9 este:<\/p>\n<p>Li h\u00e1 dias, anteontem, que a assembl\u00e9ia provincial da Bahia foi adiada por falta de subs\u00eddio. Assim temos que na Bahia h\u00e1 deputados sem subs\u00eddio, e em Sergipe subs\u00eddio sem deputados. O rem\u00e9dio \u00e9 transferir o subs\u00eddio de Sergipe para os deputados da Bahia, e os deputados do referido Sergipe para quando se anunciar. No atual estado, nem Sergipe nem Bahia t\u00eam leis, por falta de uma ou de outra coisa; mas, com o meio que lembro, uma das duas prov\u00edncias ganha a legislatura. Dir-me-\u00e3o que Sergipe n\u00e3o ganha nada. Perd\u00e3o, e a experi\u00eancia?<\/p>\n<p>[48]<\/p>\n<p>[l0 maio]<\/p>\n<p>AMANH\u00c3 \u00e9 um grande dia! exclamou o meu amigo, faiscando-lhe os olhos de contentamento.<\/p>\n<p>N\u00e3o posso dizer o nome dele; suponhamo-lo Calisto. Amanh\u00e3 \u00e9 um grande dia para ele, porque \u00e9 o da apresenta\u00e7\u00e3o do minist\u00e9rio \u00e0s c\u00e2maras, fato que na vida do meu amigo eq\u00fcivale a um batizado de crian\u00e7a na vida de todos os pais. V\u00e3o entend\u00ea-lo em poucas linhas.<\/p>\n<p>Calisto s\u00f3 adora uma coisa, mais do que as crises ministeriais, \u00e9 a apresenta\u00e7\u00e3o dos minist\u00e9rios novos \u00e0s c\u00e2maras. Mo\u00e7\u00e3o anunciada pode contar com ele. E gosta das crises compridas, atrapalhadas, arrastadas, cheias de esperan\u00e7as longas e boatos infinitos. Mas t\u00e3o depressa se organiza o minist\u00e9rio, como lhe cai a alma aos p\u00e9s. O que o consola ent\u00e3o, e muito, \u00e9 a id\u00e9ia da apresenta\u00e7\u00e3o; nem mais nem menos o que lhe acontece desde o dia 4.<\/p>\n<p>Amanh\u00e3 vai ele muito cedo para a porta da C\u00e2mara dos Deputados, com biscoitos no bolso e paci\u00eancia no cora\u00e7\u00e3o. A paci\u00eancia, com perd\u00e3o da palavra, \u00e9 um biscoito moral, dado pelo c\u00e9u a muito poucos. Calisto \u00e9 dos poucos. \u00c9 capaz de ag\u00fcentar um temporal, uma soalheira, uma carga de cavalaria, sem arredar p\u00e9 da porta da C\u00e2mara, at\u00e9 que lha abram. Abrem-lha, ele entra, sobe, arranja um bom lugar.<\/p>\n<p>N\u00e3o atribuam ao Calisto nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, pequena ou grande, nenhum amor ao Dantas ou ao Saraiva, ao projeto de um ou de outro, nem \u00e0 grande quest\u00e3o que se debate agoira mesmo em todos os esp\u00edritos. N\u00e3o, senhor; este Calisto \u00e9 um distint\u00edssimo curioso, na pol\u00edtica e no piano. Importa-lhe pouco saber de um problema ou da sua solu\u00e7\u00e3o. Contanto que haja barulho, d\u00e1 o resto de gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Justamente o dia de amanh\u00e3 cheira a chamusco, debate grosso, veem\u00eancia, chuva de apartes, improp\u00e9rios, t\u00edmpanos, confus\u00e3o. Pode ser que n\u00e3o haja nada; mas ele cuida que h\u00e1, e lambe-se todo de contente s\u00f3 com a id\u00e9ia de um pandem\u00f4nio.<\/p>\n<p>Na imagina\u00e7\u00e3o dele, a coisa h\u00e1 de se passar assim. Os primeiro minutos de \u00e2nsia e curiosidade, &#8211; vota\u00e7\u00f5es distra\u00eddas, arengas curtas Pela uma hora da tarde, anuncia-se o minist\u00e9rio, que aparece rompendo a custo a multid\u00e3o de curiosos. Grande burburinho, crescente une. Sentam-se os ministros, explica-se a crise, e o Saraiva tem a palavra para expor o programa. O profundo sil\u00eancio com que ele h\u00e1 de ser ouvido \u00e9 um dos regalos do Calisto, que ouve atrav\u00e9s do sil\u00eancio o tumulto das almas.<\/p>\n<p>Depois rompe um deputado. (Qual deputado?) N\u00e3o sabe qual seja, mas h\u00e1 de ser um, provavelmente o Jos\u00e9 Mariano, ou algum com quem se n\u00e3o conte, e est\u00e1 acesa a guerra &#8211; brotam os apartes, agitam-se os \u00e2nimos; vem outro orador, mais outro &#8211; cruzam-se os retoques, surgem os punhos cerrados, bufam as c\u00f3leras, retinem os entusiasmos. E o meu Calisto, de cima, olhar\u00e1 para baixo, e gozar\u00e1 um bom dia, um dia raro, igual \u00e0quele 18 de julho de 1868, quando o Itabora\u00ed penetrou na C\u00e2mara liberal, com os conservadores. O Calisto ainda se lembra que n\u00e3o jantou nesse dia.<\/p>\n<p>Agora, que a quest\u00e3o ainda \u00e9 mais grave, a sess\u00e3o h\u00e1 de render mais, &#8211; ou dar sorte, que \u00e9 a locu\u00e7\u00e3o do meu amigo. Calisto espera sair amanh\u00e3 dali, abarrotado de como\u00e7\u00e3o para seis meses. Jura a quem quer ouvir, que n\u00e3o tem prefer\u00eancias nem antipatias. Tamb\u00e9m n\u00e3o quer saber se do debate lhe sair\u00e1 alguma restri\u00e7\u00e3o pessoal ou pecuni\u00e1ria. Contanto que haja tumulto, est\u00e1 ganho o dia, e o dia seguinte pertence a Deus.<\/p>\n<p>Ide v\u00ea-lo, \u00e0 sa\u00edda da C\u00e2mara, olhando embasbacado; estar\u00e1 ainda alegre. Mas no dia seguinte, que o diabo diz que tamb\u00e9m \u00e9 dele, vereis o meu pobre Calisto arrimado a alguma porta ou esquina, \u00e0 espreita de algum sucesso que passe, desconsolado como na \u00f3pera do nosso Ant\u00f4nio Jos\u00e9:<\/p>\n<p>T\u00e3o alegres que fomos, T\u00e3o tristes que viemos.<\/p>\n<p>[49]<\/p>\n<p>[16 maio]<\/p>\n<p>ONTEM, ao voltar uma esquina, dei cem os impostos inconstitucionais de Pernambuco. Conheceram-me logo; eu \u00e9 que, ou por falta de vista, ou porque realmente eles estejam mais gordos, n\u00e3o os conheci imediatamente. Conheci-os pela voz, vox clamantis in deserto. Disseram-me que tinham chegado no \u00faltimo paquete. O mais velho acrescentou at\u00e9 que, j\u00e1 agora, h\u00e3o de repetir com regularidade estas viagens \u00e0 corte.<\/p>\n<p>&#8211; A gente. por mais inconstitucional que seja, concluiu ele, n\u00e3o h\u00e1 de morrer de aborrecimento na cela das probabilidades. Uma chegadinha \u00e0 corte, de quando em quando, n\u00e3o faz mal a ningu\u00e9m, exceto . . .<\/p>\n<p>&#8211; Exceto . . . ?<\/p>\n<p>&#8211; Isso agoira \u00e9 querer perscrutar os nossos pensamentos \u00edntimos. Exceto o diabo que o carregue, est\u00e1 satisfeito? N\u00e3o h\u00e1 coisa nenhuma que n\u00e3o possa fazer mal a algu\u00e9m, seja quem for. Falei de um modo geral e abstrato. 5.;oc\u00ea costuma dizer tudo o que pensa?<\/p>\n<p>&#8211; Tudo, tudo. n\u00e3o; nem eu, nem o meu vizinho botic\u00e1rio, e mais \u00e9 um falador das d\u00fazias.<\/p>\n<p>&#8211; Pois ent\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; Em todo caso, demoram-se?<\/p>\n<p>&#8211; Temos essa inten\u00e7\u00e3o. O pior \u00e9 o calor, mas felizmente come\u00e7a a chover, e se a chuva pega, junho a\u00ed vem com o inverno, e ficamos perfeitamente. Est\u00e1 admirado? \u00c9 para ver que j\u00e1 conhecemos o Rio de Janeiro. Contamos estar aqui uns tr\u00eas meses, n\u00e3o pode ser que vamos a quatro ou cinco. J\u00e1 fomos \u00e0 C\u00e2mara dos Deputados.<\/p>\n<p>&#8211; Assistiram \u00e0 recep\u00e7\u00e3o do Saraiva, naturalmente?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, fomos depois, no dia 13, uma sess\u00e3o dos diabos. Ainda assim, o pior para n\u00f3s n\u00e3o foi propriamente a sess\u00e3o, mas o dem\u00f4nio do Jos\u00e9 Mariano, que, apenas nos viu na tribuna dos diplomatas, logo nos denunciou \u00e0 C\u00e2mara e ao Governo. N\u00e3o pode calcular o medo com que ficamos. Eu, felizmente, estava ao p\u00e9 de duas senhoras que falavam de chap\u00e9us, voltei-me para elas, como quem dizia alguma t coisa, e dissimulei sem afeta\u00e7\u00e3o; mas os meus pobres irm\u00e3os \u00e9 que n\u00e3o sabiam onde p\u00f4r a cara. Hoje de manh\u00e3, queriam voltar para :0 Pernambuco; mas eu disse-lhes que era tolice.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o todos inconstitucionais?<\/p>\n<p>&#8211; Todos.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos aqui para a cal\u00e7ada. E agora, que tencionam fazer?<\/p>\n<p>&#8211; Agora temos de ir ao imperador, mas confesso-lhe, meu amigo receamos perder o tempo. Voc\u00ea conhece a velha m\u00e1xima que diz que a hist\u00f3ria n\u00e3o se repete?<\/p>\n<p>&#8211; Creio que sim.<\/p>\n<p>&#8211; Ora bem, \u00e9 o nosso caso. Receamos que o imperador, n\u00e3o dar conosco, fique aborrecido de ver as mesmas caras, e, por outro lado, como a hist\u00f3ria n\u00e3o se repete. . . Voc\u00ea, se fosse imperador, o que \u00e9 que faria?<\/p>\n<p>&#8211; Eu, se fosse imperador? Isso agoira \u00e9 mais complicado. Eu, se fosse imperador, a primeira coisa que faria era ser o primeiro c\u00e9ptico do meu tempo. Quanto ao caso de que se trata, faria uma coisa singular, mas \u00fatil: suprimiria os adjetivos.<\/p>\n<p>&#8211; Os adjetivos?<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00eas n\u00e3o calculam como os adjetivos corrompem tudo, ou quase tudo; e quando n\u00e3o corrompem, aborrecem a gente, pela repeti\u00e7\u00e3o que fazemos da mais \u00ednfima galanteria. Adjetivo que nos agrada est\u00e1 na boca do mundo.<\/p>\n<p>&#8211; Mas que temos n\u00f3s outros com isso?<\/p>\n<p>&#8211; Tudo. Voc\u00eas como simples impostos s\u00e3o excelentes, gorduchos e corados, cheios de vida e futuro. O que os corrompe e faz definhar \u00e9 o ep\u00edteto de inconstitucionais. Eu, abolindo por um decreto todos; GS adjetivos do Estado, resolvia de golpe essa velha quest\u00e3o, e cum- pria esta m\u00e1xima, que \u00e9 tudo o que tenho colhido da hist\u00f3ria e da pol\u00edtica, e que a\u00ed dou por dois vint\u00e9ns a todos os que governam este mundo: Os adjetivos passam, e os substantivos ficam.<\/p>\n<p>[50]<\/p>\n<p>[21 maio]<\/p>\n<p>DEUSA ETERNA das ilus\u00f5es, Maia, divina Maia, entorna sobre mim a tua \u00e2nfora e conta-me o que se n\u00e3o passar\u00e1 hoje, nem amanh\u00e3, nem depois, nem segunda-feira.<\/p>\n<p>Hoje, reunida a C\u00e2mara dos Deputados, elege logo a mesa e a comiss\u00e3o de resposta \u00e0 fala do trono. A comiss\u00e3o re\u00fane-se imediatamente, e, considerando que j\u00e1 no ano passado encerrou-se o parlamento sem responder nada \u00e0 coroa; que este ano, durante a sess\u00e3o; extraordin\u00e1ria, nem se p\u00f4de nomear a comiss\u00e3o; e finalmente que esta lacuna, posto se trate de uma formalidade e n\u00e3o de um princ\u00edpio, pode ser interpretada por alguns, n\u00e3o como um descuido, mas como um sintoma da podrid\u00e3o da pr\u00f3pria C\u00e2mara, resolve formular o projeto para ser apresentado amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Amanh\u00e3, sexta-feira, \u00e9 lido o projeto perante a C\u00e2mara, que aplaude a solicitude da comiss\u00e3o, e pede urg\u00eancia para o debate. O presidente d\u00e1 o projeto para a ordem do dia de s\u00e1bado.<\/p>\n<p>No s\u00e1bado, a cidade, estupefata, v\u00ea reunir-se a C\u00e2mara, que at\u00e9 aqui cumpria fielmente aquela regra do Pentateuco que todo o israelita traz de cor, a saber: &#8220;no s\u00e1bado, entrar\u00e1s na tua tenda, e n\u00e3o sair\u00e1s dela&#8221;. Re\u00fane-se a C\u00e2mara para o fim de resgatar pela brevidade a omiss\u00e3o das duas \u00faltimas sess\u00f5es.<\/p>\n<p>Logo no princ\u00edpio do debate pede a palavra um deputado cujo nome me n\u00e3o ocorre, e come\u00e7a uma disserta\u00e7\u00e3o acerca das origens do sistema representativo e do uso do voto de gra\u00e7as; mas a C\u00e2mara brada-lhe energicamente que passe ao dil\u00favio.<\/p>\n<p>N\u00e3o tem diversa sorte outro orador, que deseja saber por que motivo est\u00e3o vagas algumas comarcas do Norte e se o carcereiro Reginaldo foi ou n\u00e3o metido cm processo. Reginaldo? A C\u00e2mara levanta os ombros, diz-lhe que n\u00e3o se trata de questi\u00fanculas locais e o deputado senta-se.<\/p>\n<p>Varridos assim esses \u00faltimos elementos de um passado igualmente ma\u00e7ador e pueril, come\u00e7a o debate, que n\u00e3o dura mais de tr\u00eas horas, falando em primeiro lugar o Sr. Andrade Figueira, em nome do Partido Conservador, e seguindo-se-lhe os Srs. Louren\u00e7o de Albuquerque, Jos\u00e9 Mariano e o presidente do Conselho. Este faz algumas declara\u00e7\u00f5es importantes, diz redondamente \u00e0 C\u00e2mara que, na quest\u00e3o de saber se o or\u00e7amento deve preceder \u00e0 reforma servil, ou esta \u00e0quele, a opini\u00e3o do governo \u00e9 que devem ser tratados ambos ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Antes das cinco horas estar\u00e1 votado o projeto; o Senado, para n\u00e3o ficar atr\u00e1s da C\u00e2mara, ter\u00e1 discutido e votado o seu, e as respectivas mesas oficiar\u00e3o ao Governo comunicando que as respostas est\u00e3o prontas. O imperador marca o dia de segunda-feira, \u00e0 uma hora da tarde, no pa\u00e7o da cidade. Cerimonial do costume.<\/p>\n<p>Assim, ap\u00f3s longos anos de desvio nesta mat\u00e9ria, e de omiss\u00e3o nos \u00faltimos tempos o parlamento far\u00e1 da discuss\u00e3o da resposta \u00e0 fala do trono o que ela deve ser: uma express\u00e3o sum\u00e1ria e substancial dos sentimentos dos partidos, em vez de um concerto sinf\u00f4nico, em que todos os tenores e todos os trombones desejam aparecer.<\/p>\n<p>Maia, divina Maia, deusa eterna das ilus\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>[51]<\/p>\n<p>[28 maio]<\/p>\n<p>Rien n&#8217;est sacr\u00e9 pour un sapeur! Leio nas folhas p\u00fablicas, que a morte de V\u00edtor Hugo tem produzido tanta sensa\u00e7\u00e3o como os pre\u00e7os baixos da grande alfaiataria Estrela do Brasil. Rien n&#8217;est sacr\u00e9 pour un tailleur!<\/p>\n<p>Eu, em crian\u00e7a, ouvi contar a anedota de uma casa que ardia na estradas Passa um homem, v\u00ea perto da casa uma pobre velhinha chorando, e pergunta-lhe se a casa era dela. Responde-lhe a velha que sim &#8211; Ent\u00e3o permita-me que acenda ali o meu charuto.<\/p>\n<p>Imitemos este homem polido e econ\u00f4mico. Vamos acender os charutos no castelo de Hugo, enquanto ele arde. Vamos todos, havanas e quebra-queixos, finos ou grossos, e os mesmos cigarros, e at\u00e9 as pontas de cigarro. Nune est fumandum. Inc\u00eandios duram pouco, e os f\u00f3sforos s\u00e3o vulgares.<\/p>\n<p>Completemos as estrofes com coletes, fa\u00e7amos de uma ode uma sobrecasaca. Est\u00e1 chorando, meu amigo? Enxugue os olhos no c\u00f3s destas cal\u00e7as. Vinte e dois mil-r\u00e9is, serve-lhe? V\u00e1 l\u00e1, vinte e um. E olhe que \u00e9 por ser para si. A gram\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 boa, mas o sentimento \u00e9 sincero. Ce si\u00e8cle avaSt deux ans&#8230; Pano fino, veja aqui que est\u00e1 mais claro. Gastibelza, I&#8217;homme \u00e0 la carabine. . . Vai pelos vinte e um? \u00e9 de gra\u00e7a. Vinte? Vinte \u00e9 pouco, d\u00ea vinte e quinhentos. N\u00e3o? Est\u00e1 bom; v\u00e1 l\u00e1&#8230; Po\u00e8te, ta fen\u00eatre \u00e9tait ouverte au vent&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 claro que isto pode aplicar-se a outras coisas, n\u00e3o s\u00f3 aos coletes. Em geral inventamos pouco, e a id\u00e9ia que um emprega fica logo rafada. Haja vista o Caf\u00e9 Papagaio, que l\u00e1 deu de si o Caf\u00e9 Arara e o Caf\u00e9 Piriquito, e dar\u00e1 muitos outros, se Deus quiser, porque primeiro acabar\u00e1 o uso do caf\u00e9 no mundo, do que as nossas belas aves no mato.<\/p>\n<p>Que n\u00e3o venha o bando precat\u00f3rio, \u00e9 s\u00f3 o que pe\u00e7o, e n\u00e3o pe\u00e7o pouco, porque, em vindo um, v\u00eam duzentos. Se fosse um s\u00f3, com outras festas diferentes, sim, senhor, era comigo; mas n\u00e3o pode ser um s\u00f3? h\u00e1 de ser como o Caf\u00e9 Papagaio e os carneiros de Pan\u00fargio. Tudo Ir\u00e1 pelo mesmo caminho. Os carros das id\u00e9ias, a vara e a bolsa a guarda de honra, tudo como no ritual. Eu, quando eles aqui andaram, estive quase a organizar um bando, n\u00e3o precat\u00f3rio, mas precat\u00f3rio. Cometa um trocadilho detest\u00e1vel (vai em grifo para que n\u00e3o escape a ningu\u00e9m) mas ao menos salvava a minh&#8217;alma, que n\u00e3o sei onde anda desde esse tempo.<\/p>\n<p>Sei que resta a polca, que n\u00e3o h\u00e1 de querer perder um petisco t\u00e3o raro, como a morte de um grande poeta. H\u00e1 a dificuldade dos t\u00edtulos, que, segundo a est\u00e9tica deste g\u00eanero de dan\u00e7a, devem ser como os da \u00faltima ou pen\u00faltima publicada: Seu Filipe, n\u00e3o me embrulhe! N\u00e3o se pode dizer: &#8211; Seu V\u00edtor, n\u00e3o me embrulhe! A morte, ainda que seja de um grande esp\u00edrito, n\u00e3o se compadece com este g\u00eanero de capado\u00e7agem .<\/p>\n<p>O modo de combinar as coisas seria dar \u00e0s polcas comemorativas um t\u00edtulo que, com o pretexto de aludir a escritos do poeta, trouxesse o pico do esc\u00e2ndalo. Freira no serralho, por exemplo \u00e9 excelente com esta ep\u00edgrafe do poeta: De nonne, elle devient sultane. E pontinhos. Ou ent\u00e3o este outro: A filha do papa! Eia, polquistas, n\u00e3o desesperemos da basbacaria humana.<\/p>\n<p>[52]<\/p>\n<p>[3 junho]<\/p>\n<p>ANDO T\u00c3O atordoado, que n\u00e3o sei se chegarei ao fim do papel. S\u00f3 escorregar, segure-me.<\/p>\n<p>A primeira causa do atordoamento s\u00e3o muitas) \u00e9 a revela\u00e7\u00e3o que nos fez o Sr. Dr. Prado Pimentel no artigo que escreveu contra o vice-presidente de Sergipe, por intervir na elei\u00e7\u00e3o. S. Ex.a recorda ao Sr. Faro (\u00e9 o nome dele) alguns servi\u00e7os que lhe prestou. Entre estes figura a nomea\u00e7\u00e3o de tenente-coronel da guarda nacional, feita a instancias de S. Ex.a; cita mais o pedido que o governo n\u00e3o p\u00f4de satisfazer, de um t\u00edtulo de bar\u00e3o, &#8211; Bar\u00e3o de Japaratuba.<\/p>\n<p>Perdoe-me S. Ex.a. Cuido que esta revela\u00e7\u00e3o, desvendando o segredo profissional, vai lan\u00e7ar a mais cruel desilus\u00e3o no animo de todos os agraciados deste pa\u00eds. Eu mesmo, que n\u00e3o tenho nada na casaca, nem no nome, estou que n\u00e3o posso comigo, pela raz\u00e3o natural de que posso vir a ter alguma coisa. Em verdade, pelo que se passou na consci\u00eancia e na imagina\u00e7\u00e3o do Sr. Faro, pode-se calcular o que acontece nas de todos que recebem uma gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Na consci\u00eancia:<\/p>\n<p>&#8211; Faro, est\u00e1s tenente-coronel. Podes crer que n\u00e3o h\u00e1 gra\u00e7a mais bem merecida. Se h\u00e1 alguma coisa que notar no ato do governo, n\u00e3o demora.<\/p>\n<p>Est\u00e1s vendo, Faro? \u00e9 o pr\u00eamio da mod\u00e9stia, do zelo, do humor aos princ\u00edpios, e principalmente, \u00e9 o reconhecimento de que possuis o ar marcial. N\u00e3o negues, Faro; tu tens o ar marcial. Vai ali ao espelho. N\u00e3o \u00e9s Napole\u00e3o, mas ningu\u00e9m que te veja pode deixar de exclamar: Ou eu me engano, ou este homem acaba tenente-coronel. E estas tenente-coronel, Faro. N\u00e3o duvides; rel\u00ea a carta imperial. Olha o chap\u00e9u que o Graciliano te mandou da corte. N\u00e3o me digas que n\u00e3o tens batalh\u00e3o que comandar; o teu ar marcial far\u00e1 crer que tens um ex\u00e9rcito. Incessu patuit Dea. Dea ou Faro s\u00e3o sin\u00f4nimos.<\/p>\n<p>Na imagina\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Foi o Imperador que disse ao Ministro da Justi\u00e7a, em despacho: &#8220;Sr. Lafayette, n\u00e3o esque\u00e7a o Faro&#8221;.<br \/>\n&#8211; Que Faro? &#8211; O Faro de Sergipe. &#8211; C\u00e1 est\u00e1 o decreto; digne-se Vossa Majestade de assin\u00e1-lo. E o Imperador, assinando o decreto, ia dizendo ao ministro: &#8211; Posso afirmar-lhe, Sr. Lafayette, que tenho as melhores not\u00edcias deste Faro. Tamb\u00e9m eu, acudiu o Ministro da Justi\u00e7a. &#8211; Todos n\u00f3s, disseram os outros. E foi um coro de elogios: cada qual notava o teu zelo, retid\u00e3o e clareza de esp\u00edrito, temperan\u00e7a dos costumes, afabilidade das maneiras, sintaxe, penteado, filosofia, etc., etc.<\/p>\n<p>Tudo isso desaparece com a revela\u00e7\u00e3o do Sr. Prado Pimentel. N\u00e3o desaparece para esse somente, mas para todos os agraciados, que v\u00e3o perder os aplausos da consci\u00eancia e as vis\u00f5es da imagina\u00e7\u00e3o; passaram a ser agraciados de um amigo, de um compadre, de um colega, que vem \u00e0 corte e escreve no rol de lembran\u00e7as: &#8220;arranjar para o Chico Botic\u00e1rio uma comenda&#8221;. L\u00e1 se vai toda a teoria das gra\u00e7as do Estado. N\u00e3o, o Dr. Prado Pimentel n\u00e3o podia desvendar o segredo profissional .<\/p>\n<p>A segunda causa do meu atormento foi a not\u00edcia que li, nuns versos publicados em honra de V\u00edtor Hugo, versos cheios de sentimento e vigor, entre os quais estes dois que me estromparam:<\/p>\n<p>Com suas filhas e netos,<\/p>\n<p>Levou a cruz ao Calv\u00e1rio<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, foi um supl\u00edcio de fan1\u00edlia; mas, ainda sendo de fam\u00edlia, todos os supl\u00edcios s\u00e3o lament\u00e1veis. E aqui a consterna\u00e7\u00e3o foi imensa. Ver aquele grande homem, ladeado de duas mo\u00e7as e dua50 crian\u00e7as, Calv\u00e1rio acima, para l\u00e1 p\u00f4r uma cruz, \u00e9 ainda mais doloroso; que estupendo. E para que levaria l\u00e1 aquela cruz, se n\u00e3o tinha de; morrer nela9 eis a\u00ed o que me pareceu requinte da malvadez A compensa\u00e7\u00e3o \u00fanica de levar uma cruz ao Calv\u00e1rio \u00e9 morrer nela. Deram ao pobre velho um supl\u00edcio, al\u00e9m de coletivo, gratuito.<\/p>\n<p>J\u00e1 me lembrou se o novo poeta apenas quis fazer uma figura Em tal caso, desaparece esta segunda causa de atordoamento, para s\u00f3 ficar um desejo \u00edntimo, que n\u00e3o hesito em tornar p\u00fablico. O desejo e que deixemos repousar o Calv\u00e1rio por algum tempo H\u00e1 j\u00e1 muito o Calv\u00e1rio em verso e em prosa. Para que trocar este dobr\u00e3o de ouro em moedinhas de n\u00edquel? \u00e9 reduzi-lo a comprar cigarros<\/p>\n<p>Do Calv\u00e1rio \u00e0 torre de S. Jos\u00e9 \u00e9 um passo. Ou\u00e7am agora a terceira causa do meu atordoamento.<\/p>\n<p>Ontem, ao passar pela igreja, ouvi tocar um belo tango ou fadinho, o n\u00e3o sei bem o que era; mas realmente era coisa patusca. Os sons vinham da torre; eram os sinos que falavam aos fi\u00e9is da par\u00f3quia J\u00e1 os tenho ouvido muitas vezes, e mais os da Lapa dos Mercadores, que tamb\u00e9m nos d\u00e3o da mesma m\u00fasica. Em qualquer outra ocasi\u00e3o, iria andando o meu caminho; mas J\u00e1 estava atordoado, e ent\u00e3o quase ca\u00ed.<\/p>\n<p>Confesso-lhes que, a princ\u00edpio, fui injusto; atribu\u00ed essa mistura de piedade e tro\u00e7a a uma certa soma de pulhice e trivialidade que suponho existir nos nossos miolos; mas adverti que a culpa, se h\u00e1 culpa deve ser toda do sineiro, que aproveita a ocasi\u00e3o de anunciar aos fregueses a missa da manh\u00e3 para anunciar tamb\u00e9m o fandango da noite.<\/p>\n<p>E realiza ao mesmo tempo o que o personagem de Boileau s\u00f3 podia fazer em horas separadas:<\/p>\n<p>Le matin catholique et le soir idol\u00e2tre,<br \/>\nil d\u00eene de l&#8217;Eglise et soupe du th\u00e9\u00e2tre.<\/p>\n<p>Tu, meu sineiro, tu ceias e jantas de uma e de outra cozinha, sem descer da torre. Os fregueses gostam, e a irmandade gosta ainda mais. Artificioso muezim crist\u00e3o. Ulisses do badalo! Unes assim o salmo ao couplet, em nome do Padre, do Filho e do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>[53]<\/p>\n<p>[8 junho]<\/p>\n<p>POR LlBELO acusat\u00f3rio, dizem cinq\u00fcenta cidad\u00e3os an\u00f4nimos contra a policia, e especialmente o Sr. Ciro de Azevedo, delegado, e, sendo necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>P.P. que os autores estavam pacificamente reunidos na casa n.\u00b0 130 da Pra\u00e7a Onze de Junho, assistindo a uma briga de galos, quando o r\u00e9u apareceu acompanhado de alguns esbirros, e dissolveu a reuni\u00e3o, com o pretexto de que era um espet\u00e1culo b\u00e1rbaro, lan\u00e7ando assim um lab\u00e9u a cinq\u00fcenta cidad\u00e3os contribuintes e cat\u00f3licos; pelo que<\/p>\n<p>P.P. que o dito r\u00e9u praticou um duplo atentado, perturbando o uso do direito de reuni\u00e3o e deslustrando a fama dos que o exerciam; e mais,<\/p>\n<p>P.P. que, sendo o pensamento secreto dos autores profundamente pol\u00edtico e patri\u00f3tico, ainda mais grave se tornou o ato da autoridade, que daquele modo, al\u00e9m de ferir a lei e afrontar os autores, atrasou a marcha do Estado; tr\u00edplice viol\u00eancia que a justi\u00e7a n\u00e3o deve nem pode deixar impune, sob pena de abalar todos os alicerces da nossa vida nacional, porquanto,<\/p>\n<p>P.P. que, residindo na Inglaterra a origem do sistema parlamentar e representativo, \u00e9 a ela que devem recorrer todos os Estados cong\u00eaneres, quando quiserem fortificar a pr\u00f3pria vida pol\u00edtica; sendo ali\u00e1s certo e universal, e nem pode neg\u00e1-lo o r\u00e9u, que a imita\u00e7\u00e3o dos bons \u00e9 um preceito de costumes, tanto na vida do indiv\u00edduo como na dos povos, pelo que,<\/p>\n<p>P.P. que, lendo os autores, um dia destes, os debates das c\u00e2maras, acharam que, a prop\u00f3sito da lei de for\u00e7as de terra e da resolu\u00e7\u00e3o prerrogativa do or\u00e7amento, foram discutidos alguns neg\u00f3cios de Sergipe, a reforma do estado servil, a dissolu\u00e7\u00e3o da C\u00e2mara em 1884, a organiza\u00e7\u00e3o do conselho de estado, o poder pessoal e uma professora de primeiras letras, e parecendo que esta pr\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 inglesa assentaram de prover de rem\u00e9dio um mal t\u00e3o grave; e assim,<\/p>\n<p>P.P. que, n\u00e3o tendo assento na C\u00e2mara, e n\u00e3o dispondo de um jornal sequer, trataram de escolher algum rem\u00e9dio externo e indireto; e foi ent\u00e3o que um deles declarou possuir um galo, e fazendo outro igual declara\u00e7\u00e3o, todos os demais autores, em n\u00famero de quarenta e oito, bateram na testa e exclamaram que o rem\u00e9dio estava achado, pois que a briga de galos \u00e9 pr\u00e1tica essencialmente brit\u00e2nica; e ainda mais,<\/p>\n<p>P.P. que, escolhendo a briga de galos, n\u00e3o tiveram os autores a mais remota inten\u00e7\u00e3o de aludir \u00e0 atual briga entre o Sr. Coelho e Campos, da C\u00e2mara, e o Sr. Bar\u00e3o da Estancia, do Senado, &#8211; alus\u00e3o sem m\u00e9rito, porque cada um dos combatentes est\u00e1 no seu poleiro; e se a alguma coisa quisessem os autores aludir, seria antes ao melhoramento trazido pelo Di\u00e1rio de Noticias, onde um altru\u00edsta conservador fala ao p\u00e9 de uma articulista republicano, \u00e0 mesma mesa, como se estivessem em casa pr\u00f3pria; e, sendo certo,<\/p>\n<p>P.P. que, se n\u00e3o tiraram nenhuma compara\u00e7\u00e3o do conflito entre os ditos senador e deputado, n\u00e3o lhes caiu no ch\u00e3o uma palavra do discurso do primeiro destes, o citado Bar\u00e3o da Estancia, a qual palavra \u00e9 que o presidente de Sergipe, apenas ali chegou, demitiu todas as autoridades da localidade de S. Ex.a, &#8220;parecendo assim que ia hostilizar o Partido Liberal e n\u00e3o o Conservador&#8221;, palavra que, atenta a probidade e singeleza de quem a proferiu, vale por um cap\u00edtulo de psicologia pol\u00edtica; mas, sendo certo,<\/p>\n<p>P.P. que citam isto de passagem, e para se defenderem de qual4uer alus\u00e3o menos cabida, n\u00e3o se demorando nisso, nem no trecho em que outro digno senador, o Sr. Correia, se admira de que devam ao tesouro 17.250:902$917 de impostos, e aconselha o meio executivo para cobr\u00e1-los, como querendo S. Ex.a acabar violentamente com um dos of\u00edcios mais rendosos deste pa\u00eds, que \u00e9 n\u00e3o pagar impostos ao Estado; e, pois,<\/p>\n<p>P.P. que, come\u00e7ando a perder o fio das id\u00e9ias, voltam aos galos e \u00e0 casa n.\u00b0 130 da Pra\u00e7a Onze de Junho, onde os ditos galos brigavam e onde o r\u00e9u os foi dissolver, como se galo fosse gente para merecer tanto barulho, e como se n\u00e3o fosse muito melhor fazer brigar os galos do que brigarem as pr\u00f3prias pessoas umas com as outras, escorrendo sangue das ventas humanas, sem divertimento para ningu\u00e9m, e principalmente para os sangrados; e finalmente,<\/p>\n<p>P.P. que param neste ponto, a fim de n\u00e3o os aborrecer mais, aconselhando que, enquanto n\u00e3o chegam outros usos da Inglaterra, vamos fazendo uso do galo e suas campanhas. Antes o galo que nada.<\/p>\n<p>[54]<\/p>\n<p>[14 junho]<\/p>\n<p>A RAZ\u00c3O que me faz amar, sobre todas as coisas deste mundo, a nossa alma. C\u00e2mara Municipal, \u00e9 que ali a gente pode dizer o que tem no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>C\u00e1 fora tudo s\u00e3o restri\u00e7\u00f5es e cortesias. Um homem cr\u00ea que outro \u00e9 tratante e d\u00e1-lhe um abra\u00e7o, e raramente um pateta morre com a persuas\u00e3o de que o \u00e9. Obra das conveni\u00eancias, costumes da civiliza\u00e7\u00e3o, que corrompe tudo.<\/p>\n<p>Na ilustr\u00edssima \u00e9 o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Tudo ali parece respirar o estado social de Rousseau, \u00e9 a pura delicia da natureza em primeira m\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 sedas rasgadas, nem outras bugigangas e conven\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Se nem todos observam a regra da casa, que \u00e9, logo \u00e0 porta, desabotoar o colete e tirar os sapatos, n\u00e3o s\u00f3 para estar \u00e0 fresca como para meter os p\u00e9s nas algibeiras dos outros, \u00e9 porque n\u00e3o se perdem facilmente os h\u00e1bitos corruptos, mas basta que a regra exista, para crer que a reforma total se far\u00e1.<\/p>\n<p>A \u00faltima sess\u00e3o (para n\u00e3o ir mais longe) deu-nos um desses espet\u00e1culos em que a natureza rude e ing\u00eanua vinga os seus foros. Tratava-se da limpeza do matadouro.<\/p>\n<p>Ao que parece, este servi\u00e7o estava a cargo de Fu\u00e3o Silva, que o fazia de gra\u00e7a, e foi dado a outro por 400$000 mensais. Um dos vereadores pegou do ato, e come\u00e7ou por dizer que o presidente n\u00e3o tinha culpa do que fizera, visto que foi mal informado por outro vereador, e caiu em cima deste. N\u00e3o esteve com uma nem duas disse-lhe claramente que estava perseguindo o Silva, e protegendo a algu\u00e9m \u00e0 custa dos cofres municipais; que era um esc\u00e2ndalo e j\u00e1 n\u00e3o era o primeiro; que o dito vereador \u00e9 uma pot\u00eancia do matadouro, onde prefere a quem quer; que prorroga contratos sem conhecimento da causa; que protege tamb\u00e9m um certo Marinho, e muitas outras coisas, concluindo por dizer ironicamente que esperava que o outro, com a eloq\u00fc\u00eancia que todos lhe reconhecem, viria explicar tudo isso foi dito sem barulho, e respondido sem barulho A resposta do outro foi que o novo empres\u00e1rio Fu\u00e3o Dumas, que faz a limpeza por 400$000, d\u00e1 200$000 mensais ao primeiro, que a fazia de gra\u00e7a. Juro por Deus Nosso Senhor que n\u00e3o estou inventando.<\/p>\n<p>A \u00fanica coisa que fa\u00e7o \u00e9 n\u00e3o entender nada. Nem isso, nem a proposta com que o orador terminou, para que se fa\u00e7a o contrato definitivo com o dito Fu\u00e3o Dumas, pagando este \u00e0 C\u00e2mara 100$000 mensais, em vez de receber os 400$000. Mas, repito, tudo isto sem barulho .<\/p>\n<p>Pode-se dizer, \u00e9 verdade, que os pontos mais escabrosos deviam ser exclu\u00eddos da ata, onde se relacionavam os servi\u00e7os da C\u00e2mara, que n\u00e3o s\u00e3o poucos nem f\u00e1ceis. Com efeito, a natureza \u00e9 rude e franca; mas os ventos, que s\u00e3o os seus jornais, n\u00e3o transmitem tudo o que ela arranca do cora\u00e7\u00e3o; alguma coisa morre para todo o sempre. N\u00e3o! o exemplo n\u00e3o presta; vejamos outro.<\/p>\n<p>A civiliza\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o inventou o defluxo, inventou o len\u00e7o, que dissimula o defluxo, guardando no bolso os seus efeitos. Mas a pura natureza ainda est\u00e1 com o chamado len\u00e7o de cinco pontas, que s\u00e3o, Deus me perdoe, os pr\u00f3prios dedos que ele nos deu, e a sua regra \u00e9 ir deixando os defluxos pelo caminho. Pois bem; deixe a Ilustr\u00edssima<\/p>\n<p>C\u00e2mara o uso piegas do len\u00e7o, n\u00e3o guarde na algibeira os seus defluxos, mas t\u00e3o-somente o suor do seu trabalho. Deite o resto ao ch\u00e3o.<\/p>\n<h3>[55]<\/h3>\n<h3>[20 de junho]<\/h3>\n<h3>DI\u00c1LOGO DOS ASTROS<\/h3>\n<p>DOM SOL &#8211; Merc\u00fario, d\u00e1 c\u00e1 os jornais do dia.<\/p>\n<p>MERC\u00daRIO &#8211; Sim, meu senhor. (Procurando os jornais.) Sempre lhe admira muito como \u00e9 que Vossa Claridade pode ler tantos jornais. S\u00e3o todos interessantes? Olhe, aqui tem o Escorpi\u00e3o.<\/p>\n<p>DOM SOL &#8211; Uns mais que outros; mas ainda que n\u00e3o tivessem interesse nenhum, era preciso l\u00ea-los, para saber do que vai pelo Um verso. J\u00e1 chegou a Via-L\u00e1ctea?<\/p>\n<p>MERC\u00daRIO &#8211; Aqui est\u00e1.<\/p>\n<p>DOM SOL &#8211; Esta folha \u00e9 das menores; tem uma circula\u00e7\u00e3o de trazer, os bili\u00f5es de exemplares.<\/p>\n<p>MERC\u00daRIO &#8211; J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mau! Aqui est\u00e1 o Eclipse e a Fase.<\/p>\n<p>DOM SOL &#8211; N\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o bons.<\/p>\n<p>MERC\u00daRIO &#8211; O Crescente, a Bela Estrela Canopo e a Revista das Constela\u00e7\u00f5es, Creio que \u00e9 tudo. Falta s\u00f3 o Cometa, mas, como sabe,s\u00f3 aparece de longe em longe; dizem at\u00e9 que vai fechar a porta.<\/p>\n<p>DOM SOL (distra\u00eddo) &#8211; 11 faut qu&#8217;une porte soit ouverte ou ferm\u00e9e.<\/p>\n<p>MERC\u00daRIO &#8211; Gracioso! mui gracioso!<\/p>\n<p>DOM SOL &#8211; (\u00e0 parte) &#8211; O que eu disse n\u00e3o tem gra\u00e7a nenhuma; foi uma coisa como qualquer outra, mas ele h\u00e1 de rir por for\u00e7a. (Alto) Bem, agora deixe-me ir.<\/p>\n<p>MERC\u00daRIO &#8211; Perd\u00e3o, mas . . . acho aqui uma folha que nunca vi&#8230; Di\u00e1rio do Brasil, Vossa Claridade conhece-a?<\/p>\n<p>DOM SOI. &#8211; Di\u00e1rio do Brasil? N\u00e3o.<\/p>\n<p>MERC\u00daRIO &#8211; Estava aqui com as outras; s\u00e3o tr\u00eas n\u00fameros. Creio que \u00e9 da Terra&#8230;<\/p>\n<p>DOM SOL &#8211; Merc\u00fario, tu sabes que eu da Terra s\u00f3 leio o que diz respeito ao aspecto do c\u00e9u, e isso mesmo s\u00f3 para saber que figura fazemos l\u00e1 embaixo. Di\u00e1rio do Brasil? Tu v\u00eas que at\u00e9 o t\u00edtulo \u00e9 b\u00e1rbaro. Leva, leva&#8230;<\/p>\n<p>MERC\u00daRIO (percorrendo um n\u00famero) &#8211; Contudo, h\u00e1 coisas ir restantes&#8230; Oh! c\u00e1 est\u00e1 o nome de Vossa Claridade, \u00e9 uma ca que lhe mandam. H\u00e1 de haver outras nos outros n\u00fameros. C\u00e1 e mais uma, mais duas.<\/p>\n<p>DOM SOL &#8211; Cartas a mim? Eles que me escrevem, \u00e9 que t alguma coisa nova ou interessante na cabe\u00e7a. Se assim n\u00e3o fosse, me escreveriam.<\/p>\n<p>MERC\u00daRIO &#8211; Exato! perfeitamente exato!<\/p>\n<p>DOM SOL (\u00e0 parte) &#8211; Isto que acabo de dizer \u00e9 inteiramente falso mas a manha dele \u00e9 achar exato tudo o que n\u00e3o acha gracioso. (Alto) Merc\u00fario, preciso de estar s\u00f3; vi ali \u00e0 constela\u00e7\u00e3o da Grande Ursa fazer-lhe uma visita.<\/p>\n<p>MERC\u00daRIO &#8211; Obede\u00e7o! (\u00c0 parte) Os tais n\u00fameros do Di\u00e1rio do Brasil foram recebidos por mim mesmo \u00e0 porta do Firmamento, para faz\u00ea-los chegar \u00e0s m\u00e3os de Sua Claridade. Esperemos agora o efeito da leitura. (Sai.)<\/p>\n<p>DOM SOL &#8211; Vejamos as tais cartas. S\u00e3o tr\u00eas. . . Tratam-me com muito azedume e ainda pior. Elemento qu\u00ea?&#8230; Servil. N\u00e3o sei que \u00e9. Elemento servil? Eu s\u00f3 conhe\u00e7o os antigos elementos, que eram quatro, e hoje andam \u00e0s d\u00fazias. Diz aqui que eu, se mergulho numa polpa de azeite n\u00e3o saio inc\u00f3lume; mas \u00e9 que eu n\u00e3o mergulhei para que diabo havia de mergulhar numa pipa de azeite? Confesso que n\u00e3o entendo. (Depois de algum tempo.) Aqui parece que se exorta a n\u00e3o esquecer um inolvid\u00e1vel dever, e n\u00e3o acho isto bom: porque o dever \u00e9 coisa t\u00e3o \u00e1rdua, que, ainda sendo inolvid\u00e1vel, por ser olvid\u00e1vel. Provavelmente a palavra est\u00e1 na moda, l\u00e1 que \u00e9 bonita, \u00e9. Inolvid\u00e1vel! J\u00e1 me disseram que naquele pa\u00eds certas palavras s\u00e3o como o feitio do fraque aparece um com um feitio novo, todos pegam do feitio, at\u00e9 abandon\u00e1-lo; depois vem outro. Houve o feitio imaculado, depois veio o feitio incompar\u00e1vel, depois o feitio n\u00edtido agora \u00e9 o inolvid\u00e1vel. (Pausa.) Come\u00e7o a ficar aborrecido. Merc\u00fario<\/p>\n<p>MERC\u00daRIO &#8211; Pronto!<\/p>\n<p>DOM SOL &#8211; J\u00e1 tinhas sa\u00eddo?<\/p>\n<p>MERC\u00daRIO &#8211; J\u00e1, sim, Senhor; estava ali a cinco mil quil\u00f4metro quando Vossa Claridade se dignou chamar-me.<\/p>\n<p>DOM SOL &#8211; Merc\u00fario, eu n\u00e3o entendo estas cartas. Dizem-me coisas de que n\u00e3o sei absolutamente nada. Eu n\u00e3o mandei ningu\u00e9m soprar coisa nenhuma no seio da Representa\u00e7\u00e3o Nacional. N\u00e3o s mesmo onde \u00e9 que ela fica. E alguma constela\u00e7\u00e3o nova?<\/p>\n<p>MERC\u00daRIO &#8211; Saber\u00e1 Vossa Claridade que, metaforicamente, por chamar-se uma constela\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o<br \/>\no \u00e9, no natural sentido.<\/p>\n<p>DOM SOL &#8211; Ent\u00e3o o que \u00e9?<\/p>\n<p>MERC\u00daRIO &#8211; Com sua licen\u00e7a, \u00e9 a assembl\u00e9ia das pessoas que povo escolhe para tratar dos seus neg\u00f3cios, fazer as leis, votar os impostos. Comp\u00f5e-se de uma maioria e uma minoria.<\/p>\n<p>DOM SOL &#8211; Mas ent\u00e3o este peda\u00e7o de carta alude \u00e0 Lua, que tamb\u00e9m se divide em minguante e crescente&#8230;<\/p>\n<p>MERC\u00daRIO &#8211; Gracioso! Mui gracioso!<\/p>\n<p>DOM SOL (\u00e0 parte) &#8211; E insuport\u00e1vel! Os senhores s\u00e3o testemunhas de que eu disse aquilo somente para matar o tempo, mas o diabo acha gracioso tudo o que n\u00e3o acha exato. (Alto) Merc\u00fario, estas cartas provavelmente s\u00e3o para o imperador daquele pa\u00eds. Chamam-lhe so\u00ed, como a Lu\u00eds XIV, mas \u00e9 pura sinon\u00edmia, n\u00e3o tem nada comigo.<\/p>\n<p>MERC\u00daRIO &#8211; E o mais \u00e9, que bem pode ser assim. Pois agoira direi a \\\/osso Claridade, que eu mesmo \u00e9 que as recebi \u00e0 porta, com recomenda\u00e7\u00e3o de as entregar em m\u00e3o. E o que foi; enganaram-se com o nome.<\/p>\n<p>DOM SOL &#8211; Manda-as ao imperador, que naturalmente ter\u00e1 recebido multas outras. Sabes se ele<br \/>\nguarda-as todas?<\/p>\n<p>MERC\u00daRIO &#8211; N\u00e3o, meu senhor, n\u00e3o sei.<\/p>\n<p>DOM SOL &#8211; Eu, no caso dele, s\u00f3 guardava as que tivessem estilo. Olha, Merc\u00fario, os arrufos passam, mas o estilo fica. (\u00c0parte) Entendam l\u00e1 este paspalh\u00e3o: agoira que eu disse uma coisa melhorzinha, \u00e9 que ele se deixa estar calado.<\/p>\n<h3>[56]<\/h3>\n<h3>[26 junho]<\/h3>\n<p>CUST\u00d3DIO e Cristo J\u00fanior! Tais s\u00e3o os nomes de duas interessantes criaturas, cujos feitos andam nas folhas p\u00fablicas e nos anais judici\u00e1rios. Podia dizer isso em palavras menos graves, mas ent\u00e3o descairia do assunto, que \u00e9 grav\u00edssimo, e das pessoas e dos nomes.<\/p>\n<p>Vejamos o que fez Cust\u00f3dio: depois vejamos o que fez Cristo J\u00fanior.<\/p>\n<p>Cust\u00f3dio (subentende-se anjo Cust\u00f3dio) n\u00e3o fez absolutamente nada. Foi Deus que matou as reses, ou ent\u00e3o foi algum perverso que as envenenou. O certo \u00e9 que elas apareceram erradas e mortas, na ch\u00e1cara Castanheiro, que o leitor da corte n\u00e3o conhece, nem eu porque fica em Sorocaba. Cust\u00f3dio o que fez, foi pegar das reses, cort\u00e1-las, salg\u00e1-las e vend\u00ea-las.<\/p>\n<p>Da\u00ed alvoro\u00e7o, pesquisa e interrogat\u00f3rio. Cust\u00f3dio confessa nobremente o que fez e o que n\u00e3o fez. O que fez, foi como digo, cortar e salgar as reses; mas nem foi ele que as matou, nem (aten\u00e7\u00e3o!) as vendeu para Sorocaba, mas para fora, para longe, para onde nenhum sorocabano lhes metesse o dente.<\/p>\n<p>Trago isto \u00e0 cola\u00e7\u00e3o, como dizia o outro, para perguntar ao leitor como \u00e9 que procederia, se tivesse de julgar este homem. Ele \u00e9 verdade que ia vender as reses envenenadas, que receberia por elas um cobrindo, compraria um burro, talvez dois, talvez tr\u00eas burros, viria \u00e0 corte, ao teatro, para rir um pouco, mas \u00e9 certo que n\u00e3o as ia vender em Sorocaba. Une nuance, quoi! Ia vend\u00ea-las alhures, na Limeira, em S. Jos\u00e9 dos Campos, longe dos olhos, longe do cora\u00e7\u00e3o. Se h\u00e1 uma virtude universal e outra nacional, por que n\u00e3o h\u00e1 de haver uma virtude municipal? Verdade em Sorocaba, erro na Limeira. Para os ventres da Limeira, Cust\u00f3dio \u00e9 execrando; para os de Sorocaba, \u00e9 ang\u00e9lico, verdadeiro Cust\u00f3dio, Cust\u00f3dio sem mais nada.<\/p>\n<p>Cristo J\u00fanior n\u00e3o fez a mesma coisa, mas n\u00e3o \u00e9 menos sutil o problema que oferece, nem menos nobre o seu impulso. N\u00e3o se trata de um mart\u00edrio, como se pode crer pelo nome; n\u00e3o morreu nem morrer\u00e1 na cruz. Entretanto, o nome de Cristo J\u00fanior parece estar aqui para distingu\u00ed-lo do outro Cristo, que \u00e9 o X\u00eanio. Chamamos-lhe simplesmente J\u00fanior.<\/p>\n<p>J\u00fanior parece que falsificava uns bilhetes de loteria, e entrou a vend\u00ea-los. Aparentemente, \u00e9 um crime; mas se atentarmos bem, veremos que \u00e9, pelo menos, meia virtude.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m notar que J\u00fanior pode ter cedido a uma tal ou qual comich\u00e3o interior. Santo Ant\u00f4nio teve igual prurido, e resistiu, donde lhe veio a canoniza\u00e7\u00e3o; J\u00fanior n\u00e3o resistiu. Comendo-lhe o car\u00e1ter, n\u00e3o p\u00f4de deixar de meter-lhe as unhas e co\u00e7\u00e1-lo at\u00e9 fartar a epiderme. Em termos lisos, J\u00fanior teve c\u00f3cegas de falsificar alguma coisa neste mundo, fosse o que fosse, \u00e0 escolha, virtude ou v\u00edcio; e escolheu o v\u00edcio.<\/p>\n<p>Podia imitar uma nota de duzentos mil-r\u00e9is (bela e rara virtude!) mas preferiu os dez tost\u00f5es da loteria, e fez uma imita\u00e7\u00e3o t\u00e3o perfeita, que ia dando com os burros (do vizinho) n&#8217;\u00e1gua. O pior que podia acontecer \u00e0 gente, era ficar com os bilhetes brancos na m\u00e3o mas nem seria a primeira vez nem a \u00faltima.<\/p>\n<p>&#8211; Compre este n\u00famero! Olhe esta loteria, que tem um bonito plano! clamam os rapazes na Rua do Ouvidor, esquina do Beco das Cancelas, quando metem \u00e0 cara da gente os seus bilhetes.<\/p>\n<p>J\u00fanior tinha um plano muito superior, que era ficar do mesmo modo com os cobres, e deixar nas m\u00e3os da gente a sombra de uma sombra. Mas como era o v\u00edcio de um v\u00edcio, podemos cont\u00e1-lo por meia virtude.<\/p>\n<p>Meia virtude ou virtude municipal, \u00e9 a virtude posta ao alcance de todas as bolsas. Cust\u00f3dio ou J\u00fanior, ou qualquer outro nome, que eu de nomes n\u00e3o curo, como dizia o Garrett, que Deus tenha por l\u00e1 muitos anos sem mm.<\/p>\n<h3>[57]<\/h3>\n<h3>[1 julho]<\/h3>\n<p>N\u00c3O CONCORDO absolutamente com a censura feita ontem pelo Jornal do Com\u00e9rcio aos nossos costumes parlamentares, e n\u00e3o concordo por tr\u00eas raz\u00f5es t\u00e3o grandes, que n\u00e3o sei qual delas \u00e9 maior. A censura como todos leram, teve por objeto a demora na discuss\u00e3o da proposta da emiss\u00e3o de vinte e cinco mil contos, que foi apresentada a 25 de maio, e s\u00f3 agoira chegou ao Senado.<\/p>\n<p>A primeira raz\u00e3o, por mais que a achem m\u00e1, \u00e9 s\u00f3lida e leg\u00edtima. H\u00e1 folgas extraordin\u00e1rias na C\u00e2mara, dias de repouso, dias de chuva, e todo o s\u00e1bado vale domingo. \u00c9 isto novo? Abra o Jornal do Com\u00e9rcio, o livro dos Anais; veja a sess\u00e3o de 25 de agosto de 1841, e leia um discurso que l\u00e1 vem do finado Ot\u00f4ni (Te\u00f3filo).<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso lembrar que 1841 valia para n\u00f3s uma segunda virgindade pol\u00edtica. Acabava-se de declarar a Maioridade, parecia que o parlamento ia ser o beijinho da gente. Entretanto, Ot\u00f4ni declarou a 25 de agosto de 1841 que muitos deputados da maioria gostavam de ficar nas suas ch\u00e1caras, divertindo-se. &#8220;Outros (exclama ele) querem ir patuscar \u00e0 Praia Grande!&#8221; E mais adiante afirma que \u00e9 comum suceder n\u00e3o haver casa s\u00f3 porque chove um pouco. O melhor \u00e9 transcrever este trecho Dor inteiro:<\/p>\n<p>V. Ex.a sabe que eu n\u00e3o tenho medo do mau tempo (concluiu Ot\u00f4ni), que qualquer que ele seja, apresento-me na casa, e \u00e0s vezes deixo de entrar, porque me revolta ver que, tendo eu vindo com o meu guarda-chuva debaixo d&#8217;\u00e1gua muitos senhores se deixam ficar em casa; de modo que \u00e0s vezes deixa de haver casa porque chuvisca um pouco.<\/p>\n<p>Lealmente, que culpa pode ter a gera\u00e7\u00e3o de hoje de um costume t\u00e3o velho? Ou querem negar as leis do atavismo? Note-se at\u00e9 uma circunstancia, que, por ser grave, deve pesar no nosso ju\u00edzo acerca dos contempor\u00e2neos. O discurso de Ot\u00f4ni era a prop\u00f3sito da ata de 24, dia santo ent\u00e3o, no qual a C\u00e2mara resolveu trabalhar. Resolveu na v\u00e9spera, e n\u00e3o se reuniu; e, segundo o C\u00f4nego Marinho, que falou depois de Ant\u00f4nio Carlos, os que n\u00e3o compareceram foram justamente os que votaram que se trabalhasse. N\u00e3o posso dizer se isto foi assim mesmo, porque, a despeito das cal\u00fanias de um tal Lulu S\u00eanior, ainda n\u00e3o era nascido, mas o meu amigo Jo\u00e3o Velhinho, cuja mem\u00f3ria conserva a mesma frescura de outros tempos, jura que estava l\u00e1, e que o C\u00f4nego Marinho tinha raz\u00e3o; lembra-se como se fosse hoje.<\/p>\n<p>A segunda raz\u00e3o que me faz recusar a censura \u00e9 que, em geral, as discuss\u00f5es de tais propostas s\u00e3o a ocasi\u00e3o mais apropriada para tratar de tudo, e que n\u00e3o se pode tratar de tudo como um gato passa por brasas. Ou seja um assunto qualquer, pequeno, local, indiferente, &#8211; ou seja uma dessas belas teorias, amplas, vagas, assopradas, tudo leva tempo e, se al\u00e9m de tudo, ainda se h\u00e1 de falar da pr\u00f3pria mat\u00e9ria da proposta, \u00e9 claro que n\u00e3o se pode gastar menos de um m\u00eas ou mais.<\/p>\n<p>A terceira raz\u00e3o (e isto responde a qualquer obje\u00e7\u00e3o que me fa\u00e7am com a C\u00e2mara dos Comuns ou outras), a terceira raz\u00e3o \u00e9 que se d\u00e1 com os governos o que se d\u00e1 com outros produtos naturais: o meio os modifica e altera. L\u00e1 nas outras c\u00e2maras pode ser que as coisas marchem de diverso modo. Mas segue-se que, por termos a mesma forma externa, devamos ter o mesmo esp\u00edrito interior? Seria cruel exigi-lo. Seria admitir que o cabeleireiro faz o d\u00e2ndi. Maria Cristina dizia uma vez ao famoso Espartano: &#8211; Fiz-te duque; nunca te pude fazer fidalgo.<\/p>\n<p>E agora reparo que essa \u00faltima raz\u00e3o ainda me d\u00e1 outra, uma quarta raz\u00e3o, n\u00e3o menos esticada dos colarinhos. Assim como um governo sem eq\u00fcidade s\u00f3 se pode manter em um povo igualmente sem eq\u00fcidade (segundo um mestre), assim tamb\u00e9m um parlamento remisso s\u00f3 pode medrar em sociedade remissa. N\u00e3o vamos crer que todos n\u00f3s, exceto os legisladores, fazemos tudo a tempo. Que diria o sol, que nos deu a rede e o fatalismo?<\/p>\n<h3>[58]<\/h3>\n<h3>[8 julho]<\/h3>\n<p>O QUE \u00c9 POL\u00cdTICA? Aqui h\u00e1 anos, creio que por 1849, lembrou-se algu\u00e9m de propor uma quest\u00e3o em um jornal. A quest\u00e3o era saber o que \u00e9 honra. Em vez, por\u00e9m, de escrever deveras aos outros, coligir as respostas e public\u00e1-las, engendrou as respostas no escrit\u00f3rio, e deu-as a lume.<\/p>\n<p>Compreende se que isso se fizesse em 1849. Naquele tempo fazia-se a elei\u00e7\u00e3o a bico de pena. Mas, depois da lei de 1880, n\u00e3o h\u00e1 meio de recorrer a outra cousa que n\u00e3o seja o sufr\u00e1gio direto.<\/p>\n<p>Foi o que fiz em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica. Peguei de tudo o que sabia nesta mat\u00e9ria (e n\u00e3o valia dois carac\u00f3is), arranjei um embrulho e mandei deit\u00e1-lo \u00e0 praia. Depois escrevi uma carta aos meus concidad\u00e3os, pedindo-lhes que me dissessem francamente o que consideravam que fosse pol\u00edtica, e dispensando-os de citar Arist\u00f3teles nem Maquiavelli, Spencer nem Comte, n\u00e3o s\u00f3 porque apenas se devem citar os devedores remissos (e Deus sabe se aqueles quatro s\u00e3o credores de meio mundo!), como porque os referidos autores s\u00e3o estranhos completamente ao<\/p>\n<p>Tirolito que bate, bate,<br \/>\nTirolito que j\u00e1 bateu.<\/p>\n<p>Relativamente a este Tirolito, disse-lhes que era uma cantiga, e que as cantigas, ao contr\u00e1rio do que queria o nosso \u00c1lvares de Azevedo, fazem adiantar o mundo. Ils chantent, ils payront, dizia n\u00e3o sei que profundo pol\u00edtico franc\u00eas; e o nosso maestro Ferrari, original como um bom italiano, emendou a m\u00e1xima, e aplicou-a aos nossos dias: Nous chanterons, ils payeront. Um e outro s\u00e3o muito superiores aos mestres apontados.<\/p>\n<p>N\u00e3o tardou que o correio come\u00e7asse a entregar-me as respostas; e, como eu n\u00e3o pagava o porte, reconheci que h\u00e1 neste mundo uma infinidade de filhos de Deus ou do diabo que os carregue, que est\u00e3o \u00e0 espreita de um simples pretexto para comunicar as suas id\u00e9ias, ainda \u00e0 custa dos vint\u00e9ns magros.<\/p>\n<p>N\u00e3o publico tocaias as defini\u00e7\u00f5es recebidas, porque a vida \u00e9 curta vita brevis. Fa\u00e7o. por\u00e9m, uma escolha rigorosa, e dou algumas das principais, antes de contar o que me aconteceu neste inqu\u00e9rito, e foi o que se h\u00e1 de ver adiante, se Deus n\u00e3o mandar o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Uma das cartas dizia simplesmente que a pol\u00edtica \u00e9 tirar o chap\u00e9u \u00e0s pessoas mais velhas. Outra afirmava que a pol\u00edtica \u00e9 a obriga\u00e7\u00e3o de n\u00e3o meter o dedo no nariz. Outra, que \u00e9, estando \u00e0 mesa, n\u00e3o enxugar os bei\u00e7os no guardanapo da vizinha, nem na ponta da toalha. Um secret\u00e1rio de Comte dan\u00e7ante jura que a pol\u00edtica \u00e9 dar excel\u00eancia \u00e0s mo\u00e7as, e n\u00e3o lhes p\u00f4r alcunhas quando elas j\u00e1 t\u00eam para esta. Segundo um morador da Tijuca, a pol\u00edtica \u00e9 agradecer com um sorriso animador ao amigo que nos paga a passagem.<\/p>\n<p>Muitas cartas s\u00e3o t\u00e3o longas e difusas, que quase se n\u00e3o pode extratar nada. Citarei dessas a de um barbeiro, que define a pol\u00edtica como a arte de lhe pagarem as barbas, e a de um botic\u00e1rio para quem a verdadeira pol\u00edtica \u00e9 n\u00e3o comprar nada na botica da esquina.<\/p>\n<p>Um sect\u00e1rio de Comte (viver \u00e0s claras) afirma que a pol\u00edtica \u00e9 berrar nos bonds, quer se trate dos neg\u00f3cios da gente, quer dos estranhos.<\/p>\n<p>N\u00e3o entendi algumas cartas. A letra de outras \u00e9 ileg\u00edvel. Outras repetem-se. Cinco ou seis d\u00e3o como suas, opini\u00f5es achadas nos livros. Uma dama gamenha escreve-me, dizendo que a pol\u00edtica \u00e9 praticar com os olhos o que est\u00e1 no Evangelho de S. Mateus, capVII. verso 7: &#8220;batei e abrir-se-vos-\u00e1&#8221;.<\/p>\n<p>Note-se que, em todo esse mont\u00e3o de cartas, n\u00e3o h\u00e1 uma s\u00f3 deputado ou senador, e contudo escrevi a todos eles pedindo uma defini\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Minto; o Sr. Zama deu-me anteontem uma resposta, embora indiretamente. S. Ex.a disse na C\u00e2mara que quer a aboli\u00e7\u00e3o imediata mas aceitou o projeto passado e aceita este, pela regra de Ter\u00eancio. quando n\u00e3o se pode obter o que se quer, \u00e9 necess\u00e1rio que se queira aquilo que se pode. Regra que me faz lembrar textualmente aquela outra de Thomas Corneille:<\/p>\n<p>Quand on n&#8217;a pas ce que l&#8217;on aime.<br \/>\nI1 faut aimer ce que l&#8217;on a.<\/p>\n<p>Ter\u00eancio ou Corneille, tudo vem dar neste velho ad\u00e1gio, que diz que quem n\u00e3o tem c\u00e3o, ca\u00e7a com gato. \u00c9 oportunismo, confesso; mas pretiro-lhe o aparte de um deputado, no discurso do Sr. Rodrigues Alves, quando este tachava um presidente de interventor, n\u00e3o porque recomendasse candidatos, mas porque fez favores a amigos destes. &#8220;Queria que os fizesse aos amigos de V. Ex.a?&#8221; perguntou um colega. Tal qual a pol\u00edtica do botic\u00e1rio: n\u00e3o comprar na botica da esquina.<\/p>\n<h3>[59]<\/h3>\n<h3>[19 julho]<\/h3>\n<p>CONHE\u00c7O um homem que, al\u00e9m de acudir ao doce nome de Guedes, acaba de receber um profundo golpe moral, desfechado pelo Sr. Visconde de Santa Cruz.<\/p>\n<p>Ponha o leitor o caso em si. H\u00e1 trinta anos, ou quase, que o Guedes espreita um trimestre de popularidade, um bimestre, um mestre que fosse, para falar a pr\u00f3pria linguagem dele. Ultimamente, 1a se contentava com uma semana, um dia, e at\u00e9 uma hora, uma s\u00f3 hora de popularidade, de andar falado por salas e esquinas.<\/p>\n<p>N\u00e3o se imagina o que este diabo tem feito para ser popular. Deixo de lado 1863, por ocasi\u00e3o da Quest\u00e3o Christie, em que ele prop\u00f4s-se a Ir arrancar as armas da lega\u00e7\u00e3o inglesa. S\u00f3 achou cinco imprudentes que o acompanharam; e, ainda assim, saiu com eles da Rua do Ouvidor, a p\u00e9. No Largo da Lapa achou-se com quatro; na Gl\u00f3ria, com tr\u00eas, no Largo do Valdetaro. com dois. e no do Machado com um, que o convidou a voltar para a Rua do Ouvidor.<\/p>\n<p>Mais tarde, vendo passar o coche triunfal do Rio Branco, por ocasi\u00e3o da lei de 28 de setembro, compreendeu que era um bom ve\u00edculo de molas, vistoso, e atirou-se \u00e0 traseira, mas j\u00e1 l\u00e1 achou outros que o puseram foram a pontap\u00e9s, e o meu pobre Guedes teve de voltar \u00e0 obscuridade.<\/p>\n<p>Tentou outras coisas. Tentou uma orchata higi\u00eanica, uma loteria de crian\u00e7as, uma polca, uma rua e uma casa de fazendas baratas. Falhou tudo. A polca dan\u00e7ou-se muito, mas ningu\u00e9m lhe decorou o nome. A rua, Rua Jo\u00e3o Guedes, trouxe-lhe um singular destempero. Um dia, sendo apresentado a uma fam\u00edlia, disseram-lhe todos com Ingenuidade &#8211; &#8220;Ah! o senhor tomou o nome daquela rua em que mortal um primo nosso!&#8221;<\/p>\n<p>Afinal, deitou os olhos para o fechamento das portas; e o leitor t\u00e3o \u00e9 capaz de adivinhar quando foi que a aten\u00e7\u00e3o se lhe volveu para ali. Foi por ocasi\u00e3o da morte de Ester de Carvalho. Entre os artigos f\u00fanebres que ent\u00e3o apareceram, um houve em que se convidava os esteristas a lan\u00e7arem m\u00e3o do movimento produzido pela morte da distinta atriz para alcan\u00e7ar o fechamento das portas. O Guedes refletem: estava achada a popularidade.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o era pertencer \u00e0 C\u00e2mara Municipal; e o meu amigo fez tudo o que p\u00f4de para isso. Sempre derrotado e sempre resoluto, esperava ali meter o p\u00e9, um dia, quando o Sr. Visconde de Santa Cruz prop\u00f4s, e os seus colegas aprovaram, que as portas se fechem aos domingos e dias santos. Foi o mesmo que arrancarem-lhe o bocado da boca.<\/p>\n<p>Agora, se realmente quer popularidade, abra m\u00e3o de planos complicados; limite-se a fazer anunciar, por meio de alus\u00f5es engenhosas, que \u00e9 o Guedes, o c\u00e9lebre Guedes, que \u00e9 esclarecido, e varie os termos, passe de esclarecido a ilustrado, e de ilustrado a eminente, e acrescente que \u00e9 bonito, ce qui ne g\u00e2te rien. O leitor n\u00e3o acredita, nos primeiros quinze dias; no fim de vinte fica um tanto perplexo; passados trinta, pergunta se realmente n\u00e3o se enganou; ao cabo de cinq\u00fcenta, jura que se enganou, que \u00e9 o Guedes, o verdadeiro Guedes. Tr\u00eas meses depois, mata a quem lhe disser o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Fa\u00e7a isto, meu amigo; \u00e9 o segredo do mulungu composto e da salsaparrilha, tanto da de Bristol como da de Sands. Esperar cadeira de um vereador \u00e9 muito demorado. E depois, as id\u00e9ias s\u00e3o t\u00e3o poucas &#8211; digo os motivos de popularidade, &#8211; que quando a gente est\u00e1 pensando em plantar uma, j\u00e1 outro est\u00e1 colhendo os frutos da que plantou tamb\u00e9m; e a gente n\u00e3o tem rem\u00e9dio sen\u00e3o recorrer \u00e0 \u00fanica cultura em que n\u00e3o h\u00e1 concorr\u00eancia de boa vontade, que \u00e9 plantar batatas. \u00c9 a ocupa\u00e7\u00e3o atual de todos os Guedes.<\/p>\n<h3>[60]<\/h3>\n<h3>[26 julho]<\/h3>\n<p>VENHA DE L\u00c1 esse abra\u00e7o; trago-lhes um divertimento para passarem as noites.<\/p>\n<p>Nem todos ter\u00e3o treze mil-r\u00e9is para dar por uma cadeira do Teatro L\u00edrico. Eu tenho cinco; faltam-me oito. Podia ir ao Teatro de S. Pedro. onde a cadoira custa menos; mas eu s\u00f3 entendo italiano cantado, e a Duse-Checchi n\u00e3o canta. Fui l\u00e1 algumas vezes levado pelo que ouvia dizer dela e da companhia; fui, gostei muito do diabo da mulher, fingi que rasgava as luvas de entusiasmo, para dar a entender que sabia daquilo; nos lugares engra\u00e7ados ria que me escangalhava, muito mais do que se fosse em portugu\u00eas; mas, repito. italiano por m\u00fasica.<\/p>\n<p>Nos outros teatros dizem-me que s\u00f3 h\u00e1 pe\u00e7as, ou muito tristes ou demasiado alegres. Ora, eu n\u00e3o sou alegre. mas tamb\u00e9m n\u00e3o sou triste. Meu av\u00f4, que era carneiro de Pan\u00fargio, n\u00e3o passava de sorumb\u00e1tico. Ir ao teatro para cair num daqueles dois extremos, e adoecer, n\u00e3o posso.<\/p>\n<p>Pode-se, \u00e9 verdade, ler os jornais \u00e0 noite, e assim matar o tempo. Mas como deixar resfriar noticias importantes? V\u00e1 que o fa\u00e7amos nos dias em que eles, para acudir aos cochilos da ag\u00eancia Havas, transcrevem da Naci\u00f3n, de Buenos Aires, not\u00edcias telegr\u00e1ficas da vida pol\u00edtica e internacional do mundo; mas como faz\u00ea-lo, quando, ainda h\u00e1 dias, a mesma ag\u00eancia nos comunicou este caso grave: &#8220;Adelina Patti ganhou o processo de div\u00f3rcio contra o seu marido, o Marqu\u00eas de Caux&#8221;.<\/p>\n<p>Fa\u00e7am-me o favor de dizer com que cara ficaria um homem que se respeita, andando pela rua, e ouvindo perguntar a todos se sabiam do grande sucesso, do sucesso indescrit\u00edvel e incomensur\u00e1vel, o sucesso dos sucessos: Adelina e Caux est\u00e3o judicialmente separados. &#8211; N\u00e3o me diga isto!- \u00c9 o que lhe digo: est\u00e3o separados.<\/p>\n<p>Tudo isto me levou a propor um divertimento barato para as fam\u00edlias honestas e econ\u00f4micas, um jogo de prendas. N\u00e3o se riam: o jogo de prendas j\u00e1 foi o nosso teatro l\u00edrico.<\/p>\n<p>Joga-se com qualquer n\u00famero de pessoas, mas nunca menos de dez. Podem ser vinte, trinta, quarenta, e quanto mais melhor. Cada pessoa escolhe um personagem. Um \u00e9 o vig\u00e1rio, outro o sacrist\u00e3o, outro o sineiro, outro o moleque do vig\u00e1rio, outro o coadjutor, outro o barbeiro, e etc. Chama-se o roubo do consulado. Joga-se completamente \u00e0s escuras.<\/p>\n<p>O diretor do jogo coloca-se no meio da sala e conta que, tendo desaparecido as sobrepelizes da igreja, \u00e9 prov\u00e1vel que estejam na casa da costureira do vig\u00e1rio. Acode a costureira:<\/p>\n<p>&#8211; Mentes tu!<\/p>\n<p>-Onde estavas tu?<\/p>\n<p>&#8211; Estava em casa do sineiro.<\/p>\n<p>Acode o sineiro:<\/p>\n<p>&#8211; Mentes tu!<\/p>\n<p>&#8211; Onde estavas tu?<\/p>\n<p>&#8211; Em casa do sacrist\u00e3o.<\/p>\n<p>Contesta o sacrist\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Mentes tu!<\/p>\n<p>&#8211; Onde estavas tu?<\/p>\n<p>&#8211; Estava em casa do coadjutor.<\/p>\n<p>E assim por diante at\u00e9 correr a roda toda. Acabada a roda, volta-se ao princ\u00edpio, e repete-se a mesma cousa com os mesmos personagens, at\u00e9 dez e meia ou onze horas, que \u00e9 boa hora de cear e dormir.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma particularidade neste jogo: \u00e9 que ningu\u00e9m paga prenda. Dei-lhe o nome de jogo de prendas t\u00e3o-somente para definir um divertimento de fam\u00edlia. Ningu\u00e9m paga nada. Quando acontece que algum dos personagens n\u00e3o responde \u00e0 cita\u00e7\u00e3o, a obriga\u00e7\u00e3o do outro \u00e9 repetir o nome, at\u00e9 que ele responda. Uma vez respondido, passa-se adiante.<\/p>\n<p>Escusado \u00e9 dizer que as sobrepelizes n\u00e3o aparecem nunca: s\u00e3o apenas uma conven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por ser que lhe mude o nome, dizem-me que inqu\u00e9rito \u00e9 melhor que roubo do consulado, justamente por n\u00e3o se falar em consulado; mas confesso que pus este disparate do nome para Lhe dar alguma gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Qualquer que seja o nome, cuido que ficar\u00e1 popular nestas noites \u00famidas e aborrecidas. Tem a vantagem de n\u00e3o cansar. Faz-se uma noite, repete-se na noite seguinte, sem fatigar absolutamente nada: \u00e9 muito superior ao da berlinda e n\u00e3o obriga ningu\u00e9m a ir para ela.<\/p>\n<h3>[61]<\/h3>\n<h3>[8 setembro]<\/h3>\n<p>As FESTAS da independ\u00eancia, este ano, s\u00e3o devidas especialmente C\u00e2mara Municipal, e devem ser-lhe levadas em conta, quando se houver de julg\u00e1-la. Valha por isso, que valer\u00e1 bastante.<\/p>\n<p>O que se lhe dispensava era envolver nas festas um epigrama. N\u00e3o digo que um epigramazinho bem afiado n\u00e3o tenha seu lugar; .mas a ocasi\u00e3o \u00e9 que era inoportuna.<\/p>\n<p>A C\u00e2mara tinha de mandar pintar um quadro e abriu concorr\u00eancia. V\u00e1rios foram os pintores que acudiram ao chamado do edital, declarando na forma dele os pre\u00e7os. A C\u00e2mara examinou n\u00e3o os quadros, que os n\u00e3o h\u00e1 ainda, nem esbo\u00e7os, examinou os pre\u00e7os e escolheu o mais barato.<\/p>\n<p>Com franqueza, a C\u00e2mara n\u00e3o tinha o direito de ser cruel, mormente agora que nos convida a celebrar a nossa data nacional.<\/p>\n<p>Para que vir dizer-nos que somos Cartago e n\u00e3o Atenas? que o pre\u00e7o m\u00f3dico \u00e9 o nosso princ\u00edpio est\u00e9tico? etc., etc. Sup\u00f5e a C\u00e2mara que o sabe melhor do que n\u00f3s mesmos? N\u00e3o; n\u00f3s o sabemos e confessamos. A diferen\u00e7a \u00e9 que o confessamos com humildade e franqueza, e isto mesmo indica que temos aptid\u00e3o para a emenda, e que (com o favor de Deus) havemos de emendar-nos um dia.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode ser tudo ao mesmo tempo, C\u00e9sar e Jo\u00e3o Fernandes. Vamos sendo Jo\u00e3o Fernandes, por ora-o comendador Jo\u00e3o Fernandes; dia vir\u00e1 em que sejamos C\u00e9sar.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o gostei que a C\u00e2mara agravasse o epigrama com uma raz\u00e3o administrativa e um conselho de ca\u00e7oada. A raz\u00e3o \u00e9 que lhe cabe zelar os dinheiros municipais e o conselho \u00e9 o que deu um dos vereadores para que o concurso fosse decidido por uma comiss\u00e3o de artistas. Nem um nem outro valeu muito; a raz\u00e3o, porque a C\u00e2mara n\u00e3o tratava de calcar a minha rua, necessidade urgente e da natureza daquela em que toda a economia \u00e9 beneficio;-o conselho, porque, se os artistas \u00e9 que haviam de decidir, ent\u00e3o eles \u00e9 que deveria:<\/p>\n<p>estar na C\u00e2mara.<\/p>\n<p>Digo isto, sem o menor esp\u00edrito de zanga, por mais que me sinta mortificado. Digo s\u00f3 porque n\u00e3o quisera que, quando a C\u00e2mara celebra o grande dia nacional por um modo elevado como a emancipa\u00e7\u00e3o de escravos, nos desfechasse um golpe destes.<\/p>\n<p>Eu, pelo que me toca, se n\u00e3o dou, nem dei nunca mais de quinze mil-r\u00e9is por um quadro, seja ele do diabo, \u00e9 fora de d\u00favida que sei honrar os que tenho com molduras riqu\u00edssimas, largas, todas douradas e j\u00e1 me lembrou p\u00f4r duas grandes esmeraldas em um deles, mas o De-Wilde, com quem me entendo nestas coisas, disse-me que n\u00e3o se usa. E por isso que trago as esmeraldas na corrente do rel\u00f3gio.<\/p>\n<p>E fa\u00e7o isso sem diferen\u00e7ar m\u00e9ritos, em que n\u00e3o entro, fa\u00e7o a todos os quadros que possuo, ainda os que um sobrinho meu costuma dizer que s\u00e3o pratos de erva. Pratos de ervas, v\u00e1 ele! Se o fossem, j\u00e1 c\u00e1 estariam no bucho, h\u00e1 muito tempo, e as molduras passariam a outros, que andam bem precisados delas.<\/p>\n<p>Outra prova de que n\u00e3o desadoro as artes \u00e9 o dinheiro surdo que o Teatro L\u00edrico me tem comido; t\u00e3o surdo que, por mais que o chamasse depois, nunca me ouviu nem voltou c\u00e1. E as minhas pequenas ainda gostam mais do que eu, porque eu e alguns amigos, um dia irritados com o Ferrari, pateamos o Dom Jo\u00e3o de Mozart, e elas em casa disseram-me que andei mal, e fiquei com a cara \u00e0 banda mas. repito. n\u00e3o foi nada com o Ferrari, foi com o Mozart. Ou o contr\u00e1rio. n\u00e3o me lembra bem.<\/p>\n<p>Portanto, a C\u00e2mara, j\u00e1 pelo que toca a outros, j\u00e1 pelo que me toca especialmente, foi injusta e cruel. Que seja econ\u00f4mica e zele os nossos dinheiros, n\u00e3o serei eu que lho tire da cabe\u00e7a; mas tudo se pode fazer sem ofensa a ningu\u00e9m, mesmo ainda de quem vendeu os seus votos e est\u00e1 disposto a dar-lhos. contanto que, como hoje, resgate brilhantemente alguns dos seus erros.<\/p>\n<h3>[62]<\/h3>\n<h3>[5 outubro]<\/h3>\n<p>MAL ADIVINHAM os leitores onde estive sexta-feira. L\u00e1 vai, estive na sala da Federa\u00e7\u00e3o Esp\u00edrita Brasileira, onde ouvi a confer\u00eancia que fez o Sr. M. F. Figueira sobre o espiritismo.<\/p>\n<p>Sei que isto, que \u00e9 uma novidade para os leitores, n\u00e3o o \u00e9 menos para pr\u00f3pria Federa\u00e7\u00e3o, que me n\u00e3o viu, nem me convidou; mas foi isto mesmo que me converteu \u00e0 doutrina, foi este caso inesperado de l\u00e1 entrar. ficar, ouvir e sair, sem que ningu\u00e9m desse pela coisa.<\/p>\n<p>Confesso a minha verdade. Desde que li em um artigo de um ilustre amigo meu, distinto m\u00e9dico a lista das pessoas eminentes que na Europa acreditam no espiritismo, comecei a duvidar da minha d\u00favida. Eu, em geral, creio em tudo aquilo que na Europa \u00e9 acreditado. Ser\u00e1 obceca\u00e7\u00e3o, preconceito, mania, mas \u00e9 assim mesmo, e j\u00e1 agora n\u00e3o mudo, nem que me rachem. Portanto, duvidei, e ainda bem que duvidei de mim.<\/p>\n<p>Estava \u00e0 porta do espiritismo: a confer\u00eancia de sexta-feira abriu-me a sala de verdade.<\/p>\n<p>Achava-me em casa, e disse comigo, dentro d&#8217;alma, que, se me fosse dado ir em esp\u00edrito \u00e0 sala da Federa\u00e7\u00e3o, assistir \u00e0 confer\u00eancia, jurava converter-me \u00e0 doutrina nova.<\/p>\n<p>De repente, senti uma coisa subir-me pelas pernas acima, enquanto outra coisa descia pela espinha abaixo; dei um estalo e achei-me em esp\u00edrito, no ar. No ch\u00e3o jazia o meu triste corpo, feito cad\u00e1ver. Olhei para um espelho. a ver se me via. e n\u00e3o vi nada; estava totalmente espiritual. Corri \u00e0 janela, sa\u00ed, atravessei a cidade, por cima das casas, at\u00e9 entrara na sala da Federa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>L\u00e1 n\u00e3o vi ningu\u00e9m, mas \u00e9 certo que a sala estava cheia de esp\u00edritos, repimpados em cadeiras abstratas. O presidente, por meio de uma campainha te\u00f3rica, chamou a aten\u00e7\u00e3o de todos e declarou abertos os trabalhos. O conferente subiu \u00e0 tribuna, traste puramente racional, levantaram-lhe um copo d&#8217;\u00e1gua hipot\u00e9tico, e come\u00e7ou o discurso.<\/p>\n<p>N\u00e3o ponho aqui o discurso, mas um s\u00f3 argumento. O orador combateu as religi\u00f5es do passado, que t\u00eam de ser substitu\u00eddas todas pelo espiritismo, e mostrou que as concep\u00e7\u00f5es delas n\u00e3o podem mais ser admitidas, por n\u00e3o permiti-lo a instru\u00e7\u00e3o do homem; tal \u00e9, por exemplo, a exist\u00eancia do diabo. Quando ouvi isto, acreditei deveras. Mandei o diabo ao diabo, e aceitei a doutrina nova, como a \u00faltima e definitiva.<\/p>\n<p>Depois, para que n\u00e3o dessem por mim (porque desejo urna inicia\u00e7\u00e3o em regra), esgueirei-me por uma fechadura, atravessei o espa\u00e7o e cheguei a casa, onde&#8230; Ah! que n\u00e3o sei de nojo como o conte! Juro por Allan-Kardec, que tudo o que vou dizer e verdade pura, e ao mesmo tempo a prova de que as conversa\u00e7\u00f5es recentes n\u00e3o limpam logo o esp\u00edrito, de certas ilus\u00f5es antigas.<\/p>\n<p>Vi o meu corpo sentado e rindo. Parei, recuei, avancei e disse-lhe que era meu, que, se estava ocupado por algu\u00e9m, esse algu\u00e9m que sa\u00edsse e mo restitu\u00edsse. E vi que a minha cara ria. que as minhas pernas cruzavam-se, ora a esquerda sobre a direita, ora esta sobre aquela, e que as minhas m\u00e3os abriam uma caixa de rap\u00e9, que os meus dedos tiravam uma pitada, que a inseriam nas minhas ventas. Feitas todas essas coisas, disse a minha voz.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 Lhe restituo o corpo. Nem entrei nele sen\u00e3o para descansar um bocadinho, coisa rara, agora que ando a s\u00f3s&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas quem \u00e9 voc\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Sou o diabo, para o servir.<\/p>\n<p>&#8211; Imposs\u00edvel! Voc\u00ea \u00e9 uma concep\u00e7\u00e3o do passado, que o homem. . .<\/p>\n<p>&#8211; Do passado, \u00e9 certo. Concep\u00e7\u00e3o v\u00e1 ele! L\u00e1 porque est\u00e3o outros no poder, e tiram-me o emprego, que n\u00e3o era de confian\u00e7a, n\u00e3o \u00e9 motivo para dizer-me nomes.<\/p>\n<p>Mas Allan-Kardec&#8230;<\/p>\n<p>Aqui, o diabo sorriu tristemente com a minha boca, levantou-se e foi \u00e0 mesa, onde estavam as folhas do dia. Tirou uma e mostrou-me o an\u00fancio de um medicamento novo. O r\u00e1bano iodado, com esta declara\u00e7\u00e3o no alto, em letras grandes: &#8220;N\u00e3o mais \u00f3leo de f\u00edgado de bacalhau. E leu-me que o r\u00e1bano curava todas as doen\u00e7as que o \u00f3leo de f\u00edgado j\u00e1 n\u00e3o podia curar-pretens\u00e3o de todo medicamento novo. Talvez quisesse fazer nisto alguma alus\u00e3o ao espiritismo. O que sei \u00e9 que, antes de restituir-me o corpo, estendeu-me cordialmente a m\u00e3o, e despedimo-nos como amigos velhos:<\/p>\n<p>-Adeus, r\u00e1bano!<\/p>\n<p>-Adeus, f\u00edgado!<\/p>\n<h3>[63]<\/h3>\n<h3>[11 outubro]<\/h3>\n<p>H\u00c3O DE LEMBRAR-SE da minha aventura esp\u00edrita, e da promessa que fiz, de iniciar-me na nova igreja. V\u00e3o ver agora o que me aconteceu.<\/p>\n<p>Fui iniciado quinta-feira, \u00e0s nove horas da noite, e n\u00e3o conto nada do que se passou, porque jurei cal\u00e1-lo, por todos os s\u00e9culos dos s\u00e9culos. Uma vez admitido no gr\u00eamio, preparei as malas para ir estabelecer-me em Santo Ant\u00f4nio de P\u00e1dua.<\/p>\n<p>Claro era o meu plano. Metia-me na vila, deixava-me inspirar por pot\u00eancias invis\u00edveis, predizia as coisas mais joviais ou mais melanc\u00f3licas deste e do outro mundo, reunia gente, e fundava uma igreja filial. Antes de seis meses pod\u00edamos ter ali um bom contingente.<\/p>\n<p>Vejam, por\u00e9m, o que me sucedeu. Era hoje que devia abalar daqui. Tudo estava pronto, malas, alma e algibeiras, quando li o c\u00f3digo de posturas da C\u00e2mara Municipal de Santo Ant\u00f4nio de P\u00e1dua, que est\u00e1 sujeito \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o da assembl\u00e9ia provincial do Rio de Janeiro. Nesse c\u00f3digo leio este ominoso artigo, o art. 113:<\/p>\n<p>&#8220;Fica proibido fingir-se inspirado por pot\u00eancias invis\u00edveis, ou predizer cousas tristes ou alegres&#8221;.<\/p>\n<p>Caiu-me a alma aos p\u00e9s. Da\u00ed a alguns minutos reli o artigo, para ver se me n\u00e3o enganara. Dei a ler ao meu criado e a dois vizinhos; todos eles leram a mesma coisa, como este acr\u00e9scimo, que .me escapou, que o infrator pagar\u00e1 de multa 50$ e ter\u00e1 oito dias de pris\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o me digam que o artigo apenas veda a simula\u00e7\u00e3o. Os fiscais de Santo Ant\u00f4nio de P\u00e1dua n\u00e3o podem saber quando \u00e9 que a gente finge. ou e deveras inspirado. Jeremias, que l\u00e1 fosse, e o seu secret\u00e1rio Baruch podiam dizer p\u00e9rolas, iriam ambos parar \u00e0 cadela porque o art 113 n\u00e3o explica por onde \u00e9 que se manifesta a simula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desfiz tudo, as malas, a alma e as algibeiras. Peguei em mim e atirei-me \u00e0 rede com o famoso c\u00f3digo na m\u00e3o, resolvido a achar-lhe algum ponto em que lhe pegasse. N\u00e3o achei nada. Ao contr\u00e1rio, todas as suas disposi\u00e7\u00f5es mostram esp\u00edrito precavido, delicado e justo; ao menos. \u00e9 o que imagino, porque ao cabo de cinco minutos dormia a sono solto.<\/p>\n<p>Acordei agora mesmo para ir jantar. Podia dizer-lhes ainda alguma coisa, mas n\u00e3o tenho alma para nada. L\u00e1 se foi todo o meu plano! B\u00e1rbaro c\u00f3digo! Torturas do diabo! Aqui na corte, a gente pode dizer, por meio de cartas de jogar, uma por\u00e7\u00e3o de coisas alegres ou tristes, e ainda em cima recebe dois mil-r\u00e9is, ou cinco, se a not\u00edcia \u00e9 excelente e a pessoa e gra\u00fada, e ningu\u00e9m vai para a cadeia; ao passo que ali em uma simples vila do interior&#8230;<\/p>\n<h3>[64]<\/h3>\n<h3>[26 outubro]<\/h3>\n<p>AL\u00c9M DE OUTRAS diferen\u00e7as que se podem notar entre o sol e a chuva, h\u00e1 esta-que o sol, quando nasce, \u00e9 para todos, como diziam as tabuletas de charutaria de outro tempo, e a chuva e s\u00f3 para alguns.<\/p>\n<p>Hoje, por exemplo, levanto-me com chuva, e fico logo aborrecido, desejando n\u00e3o sair de casa, n\u00e3o ler, n\u00e3o escrever, n\u00e3o pensar-n\u00e3o fazer nada. A mesma coisa acontece ao leitor, com a diferen\u00e7a que ele faz ou n\u00e3o faz nada se quer, e eu hei de pegar do papel e da tinta, e escrever para a\u00ed alguma coisa, tenha ou n\u00e3o vontade e assunto.<\/p>\n<p>Vontade j\u00e1 se v\u00ea que n\u00e3o. Assunto ainda menos; n\u00e3o posso dar tal nome ao caso do matadouro que \u00e9 antigo, e est\u00e1 ficando (perdoe a sua aus\u00eancia) um tanto amolador. J\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o sete ou oito dias; creio que \u00e9 uma boa idade para qualquer neg\u00f3cio que se respeite, recolher-se a bastidores, e dar lugar a outros.<\/p>\n<p>Foi o que fizeram as barraquinhas. As barraquinhas eram umas meninas bonitas, gorduchas, que apareceram aqui roendo biscoitos, e nos divertiram muito h\u00e1 menos de um m\u00eas. N\u00e3o se demoraram mais; t\u00e3o depressa viran1 aparecer o matadouro, esquivaram-se com a mesma discri\u00e7\u00e3o com que a gente deixa um sal\u00e3o de baile.<\/p>\n<p>Assim fez o montepio. Uma noite, recebemos convite para assistir ao belo fogo de artif\u00edcio com que o montepio entendera fazer-nos lembrar os tempos antigos da Lapa e de Mato-porcos. Fomos, e n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que, no g\u00eanero, foi coisa galante, muito animada, principalmente a luta final da fragata com as fortalezas. Acabado o fogo deu-nos uma cela; mas l\u00e1 porque nos deu fogo e ceia, n\u00e3o nos obrigou a ficar em casa dele, e antes das duas horas da manh\u00e3 est\u00e1vamos todos no vale de len\u00e7\u00f3is, esquecidos do anfitri\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o procedeu diferente o caso do consulado. Um dia de manh\u00e3, \u00edamos acordados ao som de albardadas fortes, que troavam a casa toda; mandamos ver quem era; era um distinto cavalheiro, que pedia licen\u00e7a para vir cumprimentar-nos. Recebemo-lo como merecia. Homem discreto e manso, n\u00e3o sabia nada, n\u00e3o sabia sequer da morte de Ses\u00f3stris. E bem vestido, note-se, corretamente vestido e engomado. Convidamo-lo para almo\u00e7ar; almo\u00e7ou, fez-nos o favor de elogiar as batatas, mas n\u00e3o disse o nome delas, por mais que lho ped\u00edssemos. N\u00e3o sabia o nome, n\u00e3o sabia nada. Acabado o almo\u00e7o, n\u00e3o esperou que Lhe d\u00e9ssemos o menor sinal de desagrado ou de impaci\u00eancia: pegou no chap\u00e9u, disse que ia ali e j\u00e1 voltava e safou-se.<\/p>\n<p>E assim os outros. Chegam, aturdem nos primeiros minutos, depois d\u00e3o algumas horas de palestra, bebem dois goles de ch\u00e1, e adeus.<\/p>\n<p>Portanto, n\u00e3o tenho assunto. N\u00e3o hei de, \u00e0 falta dele, meter-me a encarecer alguma a\u00e7\u00e3o bonita. As boas a\u00e7\u00f5es t\u00eam o pre\u00e7o na consci\u00eancia dos que as praticam; elogi\u00e1-las muito \u00e9 ofender a mod\u00e9stia dos autores. L\u00e1 uma ou outra palavrinha doce, -n\u00e3o muito doce. &#8211; um aperto de m\u00e3o, e, se houver copo d&#8217;\u00e1gua, um bom par de queixos, sim, senhor, \u00e9 comigo. Querer, por\u00e9m, que eu. al\u00e9m do trabalho de digerir o jantar de um homem, venha c\u00e1 para fora dizer que ele e virtuoso, n\u00e3o \u00e9 comigo, \u00e9 aqui com o meu vizinho. Nesse caso preferia roer num duro esc\u00e2ndalo, a papar o melhor guisado deste mundo.<\/p>\n<p>S\u00e3o gostos. \u00c9 como o Cristo de Bernardelli. Com franqueza. acho que est\u00e3o fazendo barulho demais. J\u00e1 se fala em dar a m\u00e3o ao rapaz, j\u00e1 ele \u00e9 um bom talento, j\u00e1 tem grande futuro. e outras coisas desse jaez, como se todos n\u00e3o f\u00f4ssemos filhos de Deus, e se Deus para fazer escultor a um homem, precisasse saber primeiro se ele se chama Bernardelli.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m eu gosto de m\u00e1rmore. Tenho c\u00e1 em casa uma pia de lavar as m\u00e3os, que \u00e9 de m\u00e1rmore: n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o bonito como o do Cristo. mas n\u00e3o \u00e9 feio. O que h\u00e1, \u00e9 que o uso j\u00e1 o tem estragado bastante. Custou-me oitenta mil-r\u00e9is, tudo; oitenta ou cem, tenho as contas guardadas.<\/p>\n<p>Afinal, v\u00e3o ver que tudo isso s\u00e3o balelas de estudantes. Eu, que l\u00e1 fui \u00e0 academia duas vezes (a segunda foi para falar a um empregado que me deve quinze-mil-r\u00e9is) vi sempre estudantes que entravam. com os seus livros debaixo do bra\u00e7o, e ficavam pasmados diante do grupo. N\u00e3o os censuro, por isso; s\u00e3o rapazes. Tamb\u00e9m eu fui rapaz: tamb\u00e9m gostei de bonecos.<\/p>\n<h3>[65]<\/h3>\n<h3>[6 novembro]<\/h3>\n<p>O SR. MINISTRO da Justi\u00e7a entende que os tabeli\u00e3es devem (com perd\u00e3o da palavra) tabelionar. Entende que arrendar o of\u00edcio n\u00e3o \u00e9 exerc\u00ea-lo, segundo a inten\u00e7\u00e3o da lei.<\/p>\n<p>Perdoe-me S. Ex.a. Essa doutrina \u00e9 subversiva, n\u00e3o da ordem legal, mas da ordem natural, o que \u00e9 pior. As leis reformam-se sem risco; mas torcer a natureza n\u00e3o \u00e9 reform\u00e1-la, \u00e9 deform\u00e1-la.<\/p>\n<p>Ponhamos de parte o caso de verdadeira doen\u00e7a do serventu\u00e1rio, que o obrigue a pedir licen\u00e7a. Vamos ao principio geral. S. Ex.a confunde nomea\u00e7\u00e3o e voca\u00e7\u00e3o. Ponhamos o caso em mim. Eu, se amanh\u00e3 me nomearem bispo, poderia receber com regularidade a c\u00f4ngrua e os emolumentos, mas. por falta de voca\u00e7\u00e3o, preferia uma boa rede a todas as c\u00e2maras eclesi\u00e1sticas. S. Ex.a dir\u00e1, por\u00e9m, que esta hip\u00f3tese \u00e9 absurda; aqui vai outra.<\/p>\n<p>Suponhamos que no dia 15 de janeiro, por uma dessas inspira\u00e7\u00f5es geniais que o c\u00e9u concede aos povos nos momentos supremos da hist\u00f3ria, elegem-me deputado. Voca\u00e7\u00e3o, aquilo que se chama voca\u00e7\u00e3o ou aptid\u00e3o parlamentar. n\u00e3o a tenho; mas tenho respeito \u00e0 vontade do eleitor, \u00e0 indica\u00e7\u00e3o das urnas, e, para conciliar a ordem soberana com a minha in\u00f3pia, dividiria o tempo de maneira que fosse algumas vezes \u00e0 C\u00e2mara. Poderia o eleitor, em tal caso, obrigar-me a conhecer as mat\u00e9rias, estud\u00e1-las, exp\u00f4-las. redigir pareceres, fazer discursos? N\u00e3o; era cair no mesmo erro de deformar a natureza com o intuito de reform\u00e1-la. O mais que o eleitor podia e devia fazer, era afirmar o seu direito soberano, elegendo-me outra vez.<\/p>\n<p>O caso dos tabeli\u00e3es \u00e9 mais grave. N\u00e3o se trata de um cargo tempor\u00e1rio, como o de deputado, nem se Lhe pode dar, como a este. um tal ou qual exerc\u00edcio m\u00ednimo e aparente, por meio de alguns pap\u00e9is \u00e0 C\u00e2mara. O oficio \u00e9 vital\u00edcio, e exerce-se ou n\u00e3o. Exerc\u00ea-lo sem vocac\u00e3o \u00e9 produzir dois grandes males, em que S. Ex.a n\u00e3o advertiu. Constrange-se um esp\u00edrito apto para outra coisa a definhar nos recessos de um cart\u00f3rio, e arrisca-se a fazenda particular aos descuidos poss\u00edveis de quem faz as coisas sem amor.<\/p>\n<p>Veia agora o contr\u00e1rio. D\u00ea-me Sua Ex.a um desses of\u00edcios. Eu, que n\u00e3o nasci para ele, vou ter com outro, que nasceu, que sabe, que ama a escritura e o traslado, e digo-lhe:-Velho \u00e9 o ad\u00e1gio que diz que onde come um portugu\u00eas, comem dois e tr\u00eas, e n\u00f3s n\u00e3o podemos desmentir a origem nacional. Voc\u00ea fica aqui. que eu j\u00e1 volto.<\/p>\n<p>N\u00e3o voltava. \u00e9 claro. E ganh\u00e1vamos todos, come\u00e7ando pela ci\u00eancia, porque eu, mineralogia de algum valor, iria viver o resto dos meus dias examinando as pedras de Petr\u00f3polis e da Tijuca, e at\u00e9 as da Rua do Ouvidor, que, por estarem \u00e0 m\u00e3o,-ningu\u00e9m sabe o que valem. N\u00e3o conto a vantagem do Governo. que acomodaria assim duas pessoas na mesma casa. S. E,. a tem uma escapat\u00f3ria que \u00e9 esta: &#8211; recusar o of\u00edcio. Mas eu pergunto se era decente faz\u00ea-lo; pergunto se, vindo o Estado a mim, e dizendo-me: Cidad\u00e3o, part\u00edcula de mim mesmo, aqui tens este of\u00edcio, exerce-o, segundo as leis e os costumes, escuta a vi\u00fava. atende ao herdeiro, ouve o vendedor, e o comprador, lavra, traslada, registra&#8221;, &#8211; pergunto se, em tal caso, tinha eu o direito de recusar. Evidentemente, n\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho a menor esperan\u00e7a de fazer revogar o ato de S. Ex.a. Mas estou certo de que estas id\u00e9ias h\u00e3o de frutificar. A quest\u00e3o e mais alta do que pode parecer aos f&#8217;r\u00edvolos. Trata-se de p\u00f4r nos atos do governo certas considera\u00e7\u00f5es de ordem cientifica: trata-se de mostrar que o Estado pode dar-me um of\u00edcio, e at\u00e9 dois, se lhe parecer; mas n\u00e3o pode, sem abuso e perigo, constranger-me a ocup\u00e1-lo ou ocup\u00e1-los.<\/p>\n<p>E quando falo em Estado, refiro-me a todos os seus \u00f3rg\u00e3os, cujo exerc\u00edcio anticient\u00edfico entre n\u00f3s \u00e9 realmente deplor\u00e1vel. Leu S. Ex.a o \u00faltimo edital do juiz municipal de Barra Mansa? Chamam-se ali compradores para os bens penhorados a um major; e entre outras vacas, inscreve-se esta: &#8220;Uma vaca magra, muito ruim, avaliada em 10$000&#8221; N\u00e3o h\u00e1 procedimento menos cientifico. Por que \u00e9 que a lei do particular n\u00e3o ser\u00e1 a lei do Estado?<\/p>\n<p>Nenhum particular diria tal coisa. Querendo vender a vaca, o particular poria no an\u00fancio qualquer eufemismo delicado; diria que era , uma vaca menos que regular, uma vaca com defeito, uma vaca para servi\u00e7os leves. Jamais confessaria que a vaca era muito ruim. E vend\u00ea-la-ia. Creiam, n\u00e3o digo pelos dez- mil-r\u00e9is, mas por que quinze ou dezoito mil-r\u00e9is. Se isto n\u00e3o \u00e9 cientifico, ent\u00e3o n\u00e3o sei o que \u00e9 cientifico neste mundo e no outro<\/p>\n<h3>[66]<\/h3>\n<h3>[23 de novembro]<\/h3>\n<p>PARTICIPO aos meus amigos que vou abrir (ou erigir) um quiosque. Resta-me s\u00f3 escolher o lugar e pedir licen\u00e7a \u00e0 C\u00e2mara.<\/p>\n<p>Toda a gente sabe que o quiosque \u00e9 um dos exemplos mais exprcssivos da lei de adapta\u00e7\u00e3o. Creio que na capital donde ele nos veio, \u00e9 o lugar onde se mete uma mulher a vender jornais.<\/p>\n<p>Aqui serve de abrigo a um ativo cidad\u00e3o, que vende cigarros e bilhetes de loteria. Parece, \u00e0 primeira vista, que um neg\u00f3cio desses n\u00e3o h\u00e1 de deixar grandes fundos. Pois deixa; e a prova \u00e9 que ainda agora, a C\u00e2mara, concedendo um, para o Largo de S. Francisco de Paula, imp\u00f4s ao pretendente uma entrada de quinhentos mil-r\u00e9is para O livro de ouro.<\/p>\n<p>Nunca as m\u00e3os lhe doam \u00e0 C\u00e2mara. V\u00e1 fazendo as suas concess\u00f5es, uma vez que sejam justas, com a cl\u00e1usula, por\u00e9m, de que os pretendentes h\u00e3o de entrar para O livro de ouro, por onde se v\u00e3o libertar escravos no dia 2 de dezembro. A \u00faltima sess\u00e3o rendeu-lhe uns seis contos. S\u00f3 um dos concession\u00e1rios tem de dar cinco contos de r\u00e9is; os outros quinhentos mil-r\u00e9is s\u00e3o do dono de um est\u00e1bulo.<\/p>\n<p>O \u00fanico sen\u00e3o que se poder\u00e1 notar nesse m\u00e9todo, \u00e9 que, ao lado da filantropia real, estamos vendo florescer uma filantropia artificial em grande escala; mas, depois do sol artificial do Sr. D,. Costa Lopes e dos vinhos artificiais de outras pessoas, creio que podemos ir aposentando a natureza. A natureza est\u00e1 ficando velha; e o artif\u00edcio \u00e9 um rapag\u00e3o ambicioso.<\/p>\n<p>No livro de ouro h\u00e1 vinho puro, e sol verdadeiro. H\u00e1 uma parte, que \u00e9 do melhor vinho crist\u00e3o, daquele que a m\u00e3o esquerda ignora: os dez contos an\u00f4nimos que o Sr. Conde de Mesquita para l\u00e1 mandou. Mas como o vinho puro n\u00e3o chega para o festim da C\u00e2mara lembrou-se ela-e em boa hora-de aceitar do outro, considerando que no fim d\u00e1 certo, e os escravos ficam livres.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 dias um an\u00f4nimo teve a id\u00e9ia de aconselhar ao governo um modo de acabar com a escravid\u00e3o. Era estabelecer uma escala de pre\u00e7os para os t\u00edtulos nobili\u00e1rios, e convidar as pessoas que quisessem admiss\u00e3o ou promo\u00e7\u00e3o na classe. O autor chegou a citar nomes de titulares conhecidos e at\u00e9 de senhoras. Marcou ele mesmo os pre\u00e7os: um marquesado custaria cinq\u00fcenta contos, etc. . .<\/p>\n<p>A id\u00e9ia em si n\u00e3o \u00e9 m\u00e1. Dever um t\u00edtulo \u00e0 alforria de uns tantos escravos, pode ser menos her\u00f3ico, mas n\u00e3o \u00e9 menos crist\u00e3o que dev\u00ea-lo \u00e0 tomada de Jerusal\u00e9m. Acho a coisa perfeitamente justa? nem \u00e9 por a\u00ed que a critico. Tamb\u00e9m Jos\u00e9 Clemente levantou o Hosp\u00edcio de Pedro 11, por igual m\u00e9todo; lucraram os infelizes, doidos, e lucramos todos n\u00f3s, que podemos jantar \u00e0 mesma mesa sem deitar os pratos \u00e0 cara um dos outros; a presun\u00e7\u00e3o e que temos ju\u00edzo; digo a presun\u00e7\u00e3o legal&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o o mal da id\u00e9ia \u00e9 que, por mais que acudissem aos t\u00edtulos, o dinheiro que se recolhesse n\u00e3o chegaria para um buraco do dente da escravid\u00e3o. O livro de ouro, da C\u00e2mara, e mais f\u00e1cil de encher, porque \u00e9 mais limitado.<\/p>\n<p>L\u00e1 vou p\u00f4r os meus quinhentos mil-r\u00e9is, ou mais, se mo pedirem, a troco do quiosque. Agora, principalmente, depois que li uma folha de S. Paulo, estou pronto a abrir os cord\u00f5es da bolsa. A citada folha declara que se deve votar no Sr. Comendador Malvino Reis para deputado, por ser daqueles que ag\u00fcentam com as despesas p\u00fablicas. Eu at\u00e9 aqui, quando as lojas de fazendas me pediam alguma coisa mais pela roupa e me diziam que era por causa dos impostos, imaginava que elas e eu divid\u00edamos a carga ao meio, e que l\u00e1 entrava o triste de mim, indiretamente, com alguma coisa nos ordenados dos funcion\u00e1rios; mas uma vez que \u00e9 o Sr. Malvino que me paga a casa e a comida, sinto-me aliviado, e posso dar mais um tanto para a festa da C\u00e2mara.<\/p>\n<h3>[67]<\/h3>\n<h3>[30 novembro]<\/h3>\n<p>ACHEI AGORA mesmo na rua um pedacinho de jornal, coisa de tr\u00eas dedos de altura e pouco mais de largura. A minha regra, em tais casos \u00e9 deixar o papel onde est\u00e1: \u00e9 a do meu vizinho, e provavelmente a do g\u00eanero humano. Mas, n\u00e3o sei por que, deu-me c\u00f3cegas de apanhar este; lembrei-me de certa m\u00e1xima que ouvi proferir em um drama, que aqui se representou h\u00e1 muitos anos, quando as galinhas ainda tinham dentes: &#8220;n\u00e3o se deve deixar rolar papel nenhum&#8221;. E vai ent\u00e3o inclinei-me, apanhei-o e li este an\u00fancio:<\/p>\n<p>Contratam-se coristas de ambos os sexos no Teatro Politeama; preferem-se mo\u00e7os que saibam m\u00fasica&#8221;.<\/p>\n<p>Antes de mais nada, agradeci \u00e0 Provid\u00eancia Divina este imenso favor de haver-me deparado alguma coisa que, exprimindo um resto e supersti\u00e7\u00e3o antiga, d\u00e1-me ocasi\u00e3o de pedir a meus contempor\u00e2neo que hasteemos audazmente a bandeira da liberdade.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o da supersti\u00e7\u00e3o \u00e9 clara. Sociedades pol\u00edticas que ainda tresandam \u00e0 Idade M\u00e9dia, em que tudo se dividia em classes, n\u00e3o podem conceber que a liberdade das fun\u00e7\u00f5es seja um corol\u00e1rio da liberdade das opini\u00f5es. Da\u00ed a exig\u00eancia, ainda vulgar, de que os melhores sapatos s\u00e3o os dos sapateiros: erro funesto e odioso, direi at\u00e9 rid\u00edculo que \u00e9 preciso acabar de uma vez para sempre.<\/p>\n<p>Quando por exemplo, certa folha dizia h\u00e1 alguns dias que convinha p\u00f4r de lado os pol\u00edticos de profiss\u00e3o, e votar nos que o n\u00e3o eram, essa folha escrevia uma grande verdade, daquelas que devemos trazer gravadas na alma em letras perp\u00e9tuas. E n\u00e3o digo isto, nem o disse ela, porque os pol\u00edticos de profiss\u00e3o n\u00e3o possam exerc\u00ea-la algumas vezes com vantagem, como Bismark. Pitt, Richelieu e alguns outros: mas porque o monop\u00f3lio sendo ir inimigo nato da liberdade (segundo elegantemente afirma o brigadeiro Calino), faz perdurar o v\u00edcio medieval que apontei, e impede que outros cidad\u00e3os levem ao governo do Estado uma parte das qualidades que lhes s\u00e3o pr\u00f3prias. Al\u00e9m disso restringindo Bismark \u00e0 pol\u00edtica, impede talvez que haja neste mundo mais um bom escriv\u00e3o de \u00f3rf\u00e3os e ausentes. O mesmo direi do Sr. Maja.<\/p>\n<p>Nada de \u00f3dios \u00e0s preferencias. Por causa delas, vimos o que aconteceu no matadouro. Mandemos governar o Estado pessoas que n\u00e3o entendam de pol\u00edtica: encomendemos as cal\u00e7as aos ourives. e os rel\u00f3gios aos botic\u00e1rios. S\u00f3 assim chegaremos \u00e0 perfeita liberdade universal. Tudo que n\u00e3o for isto, \u00e9 voltar ao reg\u00edmen das corpora\u00e7\u00f5es de of\u00edcios; \u00e9 fazer da sociedade um vasto tabuleiro de xadrez, ou ainda pior: pois neste jogo, se o tabuleiro se divide em quadrados, \u00e9 certo que as pe\u00e7as v\u00e3o de um a outro. Na sociedade, como a criaram as pe\u00e7as tem de ficar onde est\u00e3o, bispo \u00e9 bispo. cavalo \u00e9 cavalo.<\/p>\n<p>N\u00e3o, ilustres contempor\u00e2neos meus; \u00e9 evidente que este reg\u00edmen j\u00e1 deu o seu cocho. A sociedade n\u00e3o pode ser isto. A pr\u00f3pria hist\u00f3ria oferece exemplos salutares. Cam\u00f5es, que se gaba de ter tido em uma das m\u00e3os a pena e na outra a espada, esqueceu dizer se era ele pr\u00f3prio que consertava os seus cal\u00e7\u00f5es rotos, mas provavelmente era, e ningu\u00e9m lhe levou a mal. De S. Paulo. sabe-se que ora apostolava. ora trabalhava de correeiro, e n\u00e3o lhe sa\u00edam mal feitas? nem as correias, nem as ep\u00edstolas. Reduzamos esses casos raros a um princ\u00edpio fixo e eterno; tudo para todos; n\u00e3o se preferem mo\u00e7os que saiba m\u00fasica.<\/p>\n<h3>1886<\/h3>\n<h3>[68]<\/h3>\n<h3>[4 janeiro]<\/h3>\n<p>LULU S\u00caNIOR ouviu cantar o galo? mas n\u00e3o soube onde .\u00c9 certo que houve uma visita, mas n\u00e3o fui eu que a fiz; eu \u00e9 que a recebi; tamb\u00e9m n\u00e3o foi o Jo\u00e3o Velhinho que a fez. mas outra pessoa mais decr\u00e9pita. Trazia \u00e9 certo, um peda\u00e7o de jornal, mas era a folhinha do ano novo.<\/p>\n<p>A coisa passou-se assim; e n\u00e3o foi no dia 1.\u00b0, mas no dia 2. Estava eu almo\u00e7ando quando me vieram dizer que algu\u00e9m queria falar comigo.<\/p>\n<p>&#8211; Mas quem \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei, n\u00e3o senhor: parece mascarado.<\/p>\n<p>Se isto fosse h\u00e1 quarenta anos, ou pouco menos, j\u00e1 eu sabia que era um bando de festas com m\u00fasica \u00e0 frente, pedindo alguma coisa. Mas os bandos acabaram: n\u00e3o sei quem diabo se lembraria de ir mascarado falar comigo. Mandei abrir a sala e fui receber a visita.<\/p>\n<p>Realmente, era um mascarado, ou mais propriamente um fantasiado, pois trazia a cara descoberta: mas daqui a pouco veremos que vestia as suas pr\u00f3prias roupas. Estas eram gregas e antigas.<br \/>\n&#8211; Com quem tenho a honra de falar? disse eu.<\/p>\n<p>&#8211; Com um infeliz, disse ele suspirando: e venho pedir-te que me fa\u00e7as a esmola de ver se alcan\u00e7as a minha liberdade&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 escravo? perguntei admirado.<\/p>\n<p>&#8211; Antes fosse!<\/p>\n<p>&#8211; Pior que escravo?<\/p>\n<p>&#8211; O escravo pode libertar-se: eu n\u00e3o posso nada mais que gemer e pedir. V\u00eas estas roupas? S\u00e3o dois belos s\u00e9culos de Atenas.<\/p>\n<p>&#8211; Vossa Senhoria \u00e9 ateniense?<\/p>\n<p>-N\u00e3o me d\u00eas senhoria. L\u00e1 em Atenas todos me tratavam por tu: o pr\u00f3prio Alcib\u00edades, o pr\u00f3prio Aristides&#8230; Ai, Aristides! N\u00e3o posso falar deste homem sem cobrir-me de vergonha. Fui eu que o exilei.<\/p>\n<p>&#8211; Ora espero! \u00c9s ent\u00e3o aquele votante an\u00f4nimo, que, cansado de ouvir cham\u00e1-lo justo. condenou-o por ocasi\u00e3o do ostracismo&#8230;- N\u00e3o; eu sou o pr\u00f3prio Ostracismo.Tu&#8230; Ostracismo. . .<\/p>\n<p>&#8211; Eu mesmo. Desde que me aposentaram, nunca mais servi, at\u00e9 que, em 1850 da era crist\u00e3, alguns patr\u00edcios teus foram pedir-me, como grande obs\u00e9quio que viesse ajud\u00e1-los na pol\u00edtica. Recusei a p\u00e9s juntos dizendo que, depois de tantos remorsos que me pungiam, nunca mais me viriam p\u00f4r a ponta p\u00e9s da p\u00e1tria para fora os melhores servidores dela. Ent\u00e3o eles explicaram-se; n\u00e3o queriam ostracismo de verdade. mas s\u00f3 de fraseologia, um ostracismo puramente caligr\u00e1fico, e tipogr\u00e1fico. Tanto que a mesma ostra, se chegassem a empreg\u00e1-la seria ao almo\u00e7o, crua, com Sauterne. \u00c0 vista disso, aceitei, sem saber que aceitava a minha pris\u00e3o. Sim, meu caro, v\u00eas aqui um triste prisioneiro dos teus patr\u00edcios.<\/p>\n<p>&#8211; Mas&#8230; como&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ainda hoje. Aqui tens uma folha, \u00e9 o Di\u00e1rio do Brasil, recomenda (ainda que imerecidamente) um candidato \u00e0s elei\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas; mas que acrescenta ele sofreu com os seus amigos o ostracismo, e que os acompanhou. Juro-te que nunca fiz sofrer ningu\u00e9m, desde que me aposentei; \u00e9 uma cal\u00fania, meu caro. Tenho-me calado, ouvindo dessas e de outras, mas tamb\u00e9m assim cansa, n\u00e3o posso mais.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, enfim, que quer que Lhe fa\u00e7a?- Quero que bote na Gazeta alguma coisa em meu favor, que me libertem, ou pelo menos que me deixem descansar at\u00e9 o fim do s\u00e9culo; sempre \u00e9 um al\u00edvio. Mais tarde, pode ser que assim como se p\u00f5e meias solas aos sapatos, assim se possa fazer \u00e0s imagens, figuras e outras partes do estilo. Por ora estou muito acalcanhado.. Ostracismo para c\u00e1, ostracismo para l\u00e1; \u00e9 ostracismo demais. Se os teus patr\u00edcios recusarem libertar-me diretamente, ent\u00e3o lan\u00e7a m\u00e3o de um meio indireto e infal\u00edvel: recomenda-lhe que empreguem sempre os nomes apropriados \u00e0s coisas&#8230; Ver\u00e1s, ver\u00e1s se vou daqui dormir por a1guns anos. Sim?<\/p>\n<p>Disse-lhe que sim; ele saiu. Escusado \u00e9 dizer que era um doido; da\u00ed a meia hora foi preso e recolhido \u00e0 5 a esta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>FIM<\/h2>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis 1883 [20] [2 julho] SABE-SE que a Sociedade Portuguesa de Benefic\u00eancia acaba de abrir uma enfermaria \u00e0 medicina dosim\u00e9trica. Este \u00e9 o nome, creio eu; e n\u00e3o h\u00e1 por onde trocar os nomes \u00e0s coisas, que j\u00e1 os trazem de nascen\u00e7a. Mas n\u00e3o basta abrir enfermarias; \u00e9 \u00fatil explic\u00e1-las. 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