{"id":114456,"date":"2017-03-20T18:33:30","date_gmt":"2017-03-20T20:33:30","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=114456"},"modified":"2017-03-20T18:33:30","modified_gmt":"2017-03-20T20:33:30","slug":"ayres-e-vergueiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/ayres-e-vergueiro","title":{"rendered":"Ayres e Vergueiro"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Era muito alva, cheia de corpo, assaz bonita e elegante, a esposa de Lu\u00eds Vergueiro.<\/p>\n<p>Chamava-se Carlota. Contava 22 anos e parecia destinada a envelhecer muito tarde. N\u00e3o sendo franzina, n\u00e3o tinha nenhuma ambi\u00e7\u00e3o de parecer vaporosa, pelo que era dada \u00e0 boa mesa, e detestava o princ\u00edpio de que uma mo\u00e7a para parecer bonita deve comer pouco. Carlota comia sofrivelmente, mas em compensa\u00e7\u00e3o s\u00f3 bebia \u00e1gua, uso que, na opini\u00e3o do marido, era causa de se lhe n\u00e3o afoguearem as faces como convinha a uma beleza robusta.<\/p>\n<p>Req\u00fcestada por muitos rapazes no ano da Maioridade, deu ela a prefer\u00eancia ao sr. Lu\u00eds Vergueiro que, posto n\u00e3o fosse mais bonito que os outros, tinha qualidades que o punham muito acima de todos os rivais. Destes se podia dizer que os movia a ambi\u00e7\u00e3o; tinham geralmente pouco mais que nada; Vergueiro n\u00e3o era assim. Iniciava um negociozinho de fazendas que lhe ia dando esperan\u00e7as de enriquecer, ao passo que a am\u00e1vel Carlota apenas tinha a\u00ed uns dez contos, dote feito pelo padrinho.<\/p>\n<p>Caiu a escolha em Vergueiro, e o casamento foi celebrado com alguma pompa, sendo padrinhos um deputado maiorista e um coronel do tempo da revolu\u00e7\u00e3o de Campos.<\/p>\n<p>Nunca houve casamento mais falado que aquele; a beleza da noiva, a multiplicidade dos rivais, a pompa da cerim\u00f4nia, tudo deu que falar durante uns oito dias antes e depois, at\u00e9 que a vadia\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito p\u00fablico achou novo alimento.<\/p>\n<p>Vergueiro alugou a casa que ficava por cima da sua loja, e para l\u00e1 levou a mulher, satisfazendo assim as obriga\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas, consorciando facilmente a bolsa e o cora\u00e7\u00e3o. A casa era na Rua de S. Jos\u00e9. Da\u00ed a pouco tempo comprou a casa, e isto fez dizer que o casamento, longe de lhe p\u00f4r um cravo na roda da fortuna, veio antes ajud\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Tinha Vergueiro uma irm\u00e3 casada no interior. Morre-lhe o marido, e a irm\u00e3 veio para o Rio de Janeiro onde foi recebida pelo irm\u00e3o com todas as demonstra\u00e7\u00f5es de afeto. As duas cunhadas simpatizaram logo uma a outra, e esta presen\u00e7a de uma estranha (para rec\u00e9mcasados todos s\u00e3o estranhos) n\u00e3o alterou a felicidade dom\u00e9stica do casal Vergueiro.<\/p>\n<p>Lu\u00edsa Vergueiro n\u00e3o era bonita, mas tinha uma gra\u00e7a especial, uns modos todos seus, uma coisa que se n\u00e3o explica, e esse misterioso dom, essa qualidade indefin\u00edvel encadeou para sempre o cora\u00e7\u00e3o de Pedro Ayres, rapaz de trinta anos perfeitos, morador na vizinhan\u00e7a.<\/p>\n<p>Digam-lhe l\u00e1 o que pode fazer uma pobre vi\u00fava ainda mo\u00e7a, que apenas esteve casada dois anos. Lu\u00edsa n\u00e3o era da massa das Artemisas. Tinha chorado o esposo, e se tivesse talento, podia escrever uma excelente biografia dele, honrosa para ambos. Mas isso era tudo que se podia exigir dela; n\u00e3o possu\u00eda um t\u00famulo no cora\u00e7\u00e3o, possu\u00eda um ninho; e um ninho deserto \u00e9 a coisa mais triste deste mundo.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi Lu\u00edsa insens\u00edvel aos olhares requebrados de Pedro Ayres, e serei justo dizendo que ocultou quanto p\u00f4de a impress\u00e3o que o mo\u00e7o fazia nela. Ayres pertencia \u00e0quela ra\u00e7a de namoradores que n\u00e3o abatem armas logo \u00e0 primeira resist\u00eancia. Insistiu nos olhares entremeados com alguns sorrisos; chegou a interrogar miudamente um moleque da casa, cuja discri\u00e7\u00e3o n\u00e3o p\u00f4de resistir a uma moeda de prata. O moleque foi al\u00e9m; aceitou uma carta para a viuvinha.<\/p>\n<p>A viuvinha respondeu.<\/p>\n<p>Daqui em diante correram as coisas com aquela celeridade natural entre dois cora\u00e7\u00f5es que se querem, que s\u00e3o livres, que n\u00e3o podem viver um sem o outro.<\/p>\n<p>Carlota percebeu o namoro, mas respeitou a discri\u00e7\u00e3o da cunhada, que nenhuma confiss\u00e3o lhe fez. Vergueiro estava no extremo oposto da perspic\u00e1cia humana; e al\u00e9m disso as suas ocupa\u00e7\u00f5es n\u00e3o lhe davam tempo para perceber os namoros da irm\u00e3.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, sorriu complacentemente quando Carlota lhe disse o que sabia.<\/p>\n<p>\u2014 Pensas que eu ignoro isso? perguntou o marido brincando com a corrente do rel\u00f3gio.<\/p>\n<p>\u2014 Algu\u00e9m to contou? perguntou a mulher.<\/p>\n<p>\u2014 Ningu\u00e9m me contou nada, mas para que tenho eu olhos sen\u00e3o para ver o que se passa \u00e0 roda de mim? Sei que esse rapaz anda c\u00e1 a namorar a Lu\u00edsa, estou a ver em que param as coisas.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 f\u00e1cil de ver.<\/p>\n<p>\u2014 Casamento, n\u00e3o? \u2014 Que d\u00favida! Vergueiro co\u00e7ou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Nesse caso, disse ele, acho bom indagar alguma coisa da vida do pretendente; pode ser algum tratante&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu j\u00e1 indaguei tudo.<\/p>\n<p>\u2014 Tu? Carlota passou-lhe os bra\u00e7os \u00e0 roda do pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Eu, sim! As mulheres s\u00e3o curiosas; vi o Tobias entregar uma cartinha \u00e0 Lu\u00edsa; interroguei o Tobias, e ele disse-me que o rapaz \u00e9 um mo\u00e7o s\u00e9rio e tem alguma coisa de seu.<\/p>\n<p>\u2014 Tem, tem, disse Vergueiro. Que achas? \u2014 Que os devemos casar.<\/p>\n<p>\u2014 Entende-te tu com ela, e conta-me o que souberes.<\/p>\n<p>\u2014 Bem.<\/p>\n<p>Carlota cumpriu fielmente a ordem do marido, e Lu\u00edsa nada lhe ocultou do que se passava em seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Queres ent\u00e3o casar com ele? \u2014 Ele deseja isso mesmo.<\/p>\n<p>\u2014 E est\u00e3o calados! Parecem-me aprendizes.<\/p>\n<p>Carlota era sincera no prazer que tinha em ver casada a irm\u00e3 do marido, sem se preocupar com o resultado disso, que era tirar-lhe a companhia a que j\u00e1 se acostumara.<\/p>\n<p>Vergueiro refletiu na inconveni\u00eancia de confiar nas informa\u00e7\u00f5es de um moleque ignorante, que devia ter a respeito da probidade e da distin\u00e7\u00e3o id\u00e9ias sumamente vagas. Para suprir esta inconveni\u00eancia, lembrou-se de ir em pessoa falar com Pedro Ayres, e assentou que o faria no domingo pr\u00f3ximo. A mulher aprovou a resolu\u00e7\u00e3o, mas o pretendente cortou-lhe as vazas, indo ele mesmo no s\u00e1bado \u00e0 casa de Vergueiro, expor os seus desejos e t\u00edtulos.<\/p>\n<p>Pedro Ayres era homem bem apessoado; tinha grandes su\u00ed\u00e7as e um pequeno bigode.<\/p>\n<p>Vestia com certa eleg\u00e2ncia, e tinha os gestos desembara\u00e7ados. Algum severo juiz podia achar-lhe um inexplic\u00e1vel horror \u00e0 gram\u00e1tica; mas nem Vergueiro, nem Carlota, nem Lu\u00edsa, estavam em melhores rela\u00e7\u00f5es com a mesma senhora, de maneira que este pequeno sen\u00e3o passou completamente despercebido.<\/p>\n<p>Ayres deixou a melhor impress\u00e3o em toda a fam\u00edlia. Desde logo ficou assentado que se esperasse algum tempo, a fim de completar o prazo do luto. Isso, por\u00e9m, n\u00e3o embara\u00e7ou as vindas de Ayres \u00e0 casa da noiva; come\u00e7ou indo l\u00e1 tr\u00eas vezes por semana, e acabou indo todos os dias.<\/p>\n<p>Ao cabo de poucas semanas, j\u00e1 Vergueiro dizia: \u2014 \u00d3 Ayres, queres mais a\u00e7\u00facar? E Ayres respondia: \u2014 D\u00e1 c\u00e1 mais um pouco, Vergueiro.<\/p>\n<p>Estreitou-se a amizade entre ambos. Eram necess\u00e1rios um para o outro.<\/p>\n<p>Quando Ayres n\u00e3o ia \u00e0 casa de Vergueiro, este passava a noite mal. Ayres detestava o jogo; mas a amizade que tinha a Vergueiro bastou para que depressa aprendesse e jogasse o gam\u00e3o, a ponto que chegou a vencer o mestre. Nos domingos, Ayres jantava com Vergueiro; e dividia a tarde e a noite entre o gam\u00e3o e Lu\u00edsa.<\/p>\n<p>As duas mo\u00e7as, longe de se zangarem com este namoro dos dois, pareciam contentes e felizes. Viam nisso uma fian\u00e7a de futura conc\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Um dia entrou Ayres na loja de Vergueiro e pediu-lhe uma confer\u00eancia particular.<\/p>\n<p>\u2014 Que temos? disse Vergueiro.<\/p>\n<p>\u2014 Daqui a dois meses, respondeu Ayres, \u00e9 o meu casamento; vou ficar indissoluvelmente ligado \u00e0 tua fam\u00edlia. Tive uma id\u00e9ia&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Uma id\u00e9ia tua deve ser excelente, observou Vergueiro abaixando o colete que havia fugido insolentemente do seu lugar.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho uns contos de r\u00e9is. Queres-me para s\u00f3cio? Ligaremos deste modo o sangue e a bolsa.<\/p>\n<p>A resposta de Vergueiro foi menos circunspecta do que convinha em casos tais.<\/p>\n<p>Levantou-se e caiu nos bra\u00e7os do amigo, exatamente como faria um sujeito falido a quem lhe oferecessem uma t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o. Mas nem Ayres teve semelhante suspeita, nem acertaria se a tivesse. Vergueiro nutria pelo futuro cunhado um sentimento de entusi\u00e1stica amizade, e achou naquela id\u00e9ia um documento da afei\u00e7\u00e3o do outro.<\/p>\n<p>No dia seguinte deram os passos necess\u00e1rios para organizar a sociedade, e dentro de pouco tempo foi chamado um pintor para tra\u00e7ar nos portais da loja estes dois nomes, j\u00e1 agora indissoluvelmente ligados: Ayres &amp; Vergueiro.<\/p>\n<p>Vergueiro insistiu em que o nome do amigo estivesse antes do seu.<\/p>\n<p>No dia desta pintura, houve jantar em casa, e a ele assistiram algumas pessoas \u00edntimas, todas as quais ficaram morrendo de amores pelo s\u00f3cio de Vergueiro.<\/p>\n<p>Estou a ver o meu leitor aborrecido com esta singela narra\u00e7\u00e3o de ocorr\u00eancias prosaicas e vulgares, sem nenhum interesse romanesco, sem que apare\u00e7a nem de longe a orelha de uma perip\u00e9cia dram\u00e1tica.<\/p>\n<p>Tenha paci\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que, feita a sociedade, e casado o novo s\u00f3cio, a vida de toda esta gente n\u00e3o poder\u00e1 oferecer interesse nenhum que valha dois carac\u00f3is. Mas aqui interv\u00e9m uma personagem nova, a qual vem destruir tudo o que o leitor pode imaginar. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma personagem; s\u00e3o duas, irm\u00e3s ambas poderosas: a Doen\u00e7a e a Morte.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a entrou por casa de nosso amigo Vergueiro e prostrou na cama durante dois longos meses a vi\u00fava-noiva. N\u00e3o se descreve o desespero de Ayres vendo o estado grave daquela a quem ele amava mais que tudo. Esta circunst\u00e2ncia de ver o amigo desesperado, aumentou a dor de Vergueiro, que j\u00e1 devia sentir bastante com os padecimentos da irm\u00e3.<\/p>\n<p>Do que era a mol\u00e9stia, divergiram os m\u00e9dicos; e todos eles com s\u00f3lidas raz\u00f5es. O que n\u00e3o provocou nenhuma diverg\u00eancia da parte dos m\u00e9dicos, nem das pessoas da casa, foi o passamento da mo\u00e7a que se verificou \u00e0s 4 horas da madrugada de um dia de setembro.<\/p>\n<p>A dor de Ayres foi tremenda; atirou-se ao caix\u00e3o quando os convidados o vieram buscar para o coche, e n\u00e3o comeu um peda\u00e7o de p\u00e3o durante tr\u00eas dias.<\/p>\n<p>Vergueiro e Carlota recearam pela sa\u00fade e at\u00e9 pela vida do malfadado noivo, pelo que foi assentado que ele se mudaria para a casa de Vergueiro, onde seria vigiado de mais perto.<\/p>\n<p>Seguiu-se \u00e0 expans\u00e3o daquele imenso infort\u00fanio um abatimento prolongado; mas a alma readquiriu as for\u00e7as perdidas, e o corpo com ela se foi restabelecendo. No fim de um m\u00eas j\u00e1 o s\u00f3cio de Vergueiro assistia ao neg\u00f3cio e dirigia a escritura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com verdade se diz que \u00e9 nos grandes infort\u00fanios que se conhecem as verdadeiras amizades. Ayres encontrou da parte do s\u00f3cio e da mulher a mais sublime dedica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Carlota foi para ele uma verdadeira irm\u00e3; ningu\u00e9m levou mais longe e mais alto a solicitude. Ayres comia pouco; arranjou-lhe ela comidas pr\u00f3prias para lhe vencer o fastio.<\/p>\n<p>Conversava com ele longas horas, ensinava-lhe alguns jogos, lia-lhe o Saint Clair das Ilhas, aquela velha hist\u00f3ria de uns desterrados da ilha da Barra. Pode-se afian\u00e7ar que a dedica\u00e7\u00e3o de Carlota foi o principal medicamento que restituiu \u00e0 vida o nosso Pedro Ayres.<\/p>\n<p>Vergueiro aplaudia in petto o procedimento de sua mulher. Quem meu filho beija, minha boca ado\u00e7a, diz um ad\u00e1gio; Vergueiro tinha para com o s\u00f3cio extremos de pai; tudo o que se fizesse ao Ayres, era agradecido por ele do fundo da sua grande alma.<\/p>\n<p>Nascida da simpatia, criada no infort\u00fanio comum, a amizade de Ayres e Vergueiro assumiu as propor\u00e7\u00f5es do ideal. Na vizinhan\u00e7a, j\u00e1 ningu\u00e9m recorria \u00e0s express\u00f5es proverbiais para significar uma amizade \u00edntima; n\u00e3o se dizia de dois amigos: s\u00e3o unha e carne; dizia-se: Ayres com Vergueiro. Di\u00f3genes teria achado ali um homem, e realmente ambos formavam uma s\u00f3 criatura.<\/p>\n<p>Nunca mais sucedeu andarem com roupa de cor, fazenda ou feitio diferentes; vestiam-se igualmente, como se at\u00e9 nisso quisessem mostrar a perp\u00e9tua alian\u00e7a de suas nobres almas. Faziam mais: compravam chap\u00e9us e sapatos no mesmo dia, ainda que um deles os houvesse estragado menos que o outro.<\/p>\n<p>Jantar, baile ou passeio a que um fosse havia de ir o outro por for\u00e7a, e ningu\u00e9m se animava a convid\u00e1-los separadamente.<\/p>\n<p>N\u00e3o eram, pois, dois s\u00f3cios simples que procuravam dos seus esfor\u00e7os juntos obter cada qual a sua riqueza.<\/p>\n<p>N\u00e3o.<\/p>\n<p>Eram dois amigos \u00edntimos, dois cora\u00e7\u00f5es iguais, dois irm\u00e3os siameses, eternamente vinculados na terra, labutando para alcan\u00e7ar os bens da sorte, mas sem nenhuma id\u00e9ia de os separarem jamais.<\/p>\n<p>E a fortuna os ajudou, por maneira que dentro de dois anos j\u00e1 havia id\u00e9ia de liquidar o neg\u00f3cio, e irem os dois e mais Carlota viver tranq\u00fcilamente em uma fazenda, comendo o ganhado na gra\u00e7a de Deus e pleno esquecimento dos homens.<\/p>\n<p>Que mau dem\u00f4nio, que ruim esp\u00edrito veio meter-se entre eles para lhes impedir esta excelente id\u00e9ia? A fortuna varia como a mulher; depois de os haver favorecido, come\u00e7ou a desandar.<\/p>\n<p>Meteram-se eles em neg\u00f3cios arriscados e perderam alguma coisa. Todavia ainda tinham um bom pec\u00falio.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos liquidar? perguntou um dia Ayres a Vergueiro.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos.<\/p>\n<p>Inventariaram as fazendas, cotejaram o seu valor com a soma das d\u00edvidas, e repararam que, se pagassem integralmente aos credores, ficariam com uma soma mesquinha para ambos.<\/p>\n<p>\u2014 Continuemos o neg\u00f3cio, disse Ayres; trabalharemos at\u00e9 resgatarmos a antiga posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Justo&#8230; mas eu tenho uma id\u00e9ia, disse Vergueiro.<\/p>\n<p>\u2014 E eu tenho outra, respondeu o s\u00f3cio. Qual \u00e9 a tua? \u2014 Dir-ta-ei domingo.<\/p>\n<p>\u2014 E eu comunicarei nesse mesmo dia a minha id\u00e9ia, e veremos qual delas serve, ou se se combinam ambas.<\/p>\n<p>Seria coisa extremamente nova, e at\u00e9 certo ponto digna de pasmo, que aqueles modelos da verdadeira amizade tivessem id\u00e9ias divergentes. A id\u00e9ia anunciada para o domingo seguinte era a mesm\u00edssima id\u00e9ia, tanto no c\u00e9rebro de Ayres, como no de Vergueiro.<\/p>\n<p>Consistia em liquidar \u00e0 sorrelfa: iriam vendendo pouco a pouco as fazendas, e sairiam da corte sem dizer adeus aos credores.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia n\u00e3o era original; bonita parece que tamb\u00e9m n\u00e3o; mas era \u00fatil e pratic\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ficou assentado que esta resolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o seria comunicada \u00e0 mulher de Vergueiro.<\/p>\n<p>\u2014 Reconhe\u00e7o, dizia Ayres, que \u00e9 uma senhora de alta prud\u00eancia e rara discri\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tem d\u00favida.<\/p>\n<p>\u2014 Mas o esp\u00edrito das senhoras \u00e9 cheio de alguns escr\u00fapulos, e se ela nos fosse \u00e0 m\u00e3o, tudo ficaria perdido.<\/p>\n<p>\u2014 Estava pensando a mesma coisa, observou Vergueiro.<\/p>\n<p>Concordes na promessa, n\u00e3o menos o foram na infidelidade. No dia seguinte, Ayres ia comunicar confidencialmente o plano \u00e0 esposa de Vergueiro, e come\u00e7ou a dizer: \u2014 N\u00f3s vamos liquidar aos poucos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 sei, respondeu Carlota, ele j\u00e1 me disse tudo.<\/p>\n<p>Fa\u00e7amos justi\u00e7a a esta distinta mo\u00e7a; depois de tentar dissuadir o marido do projeto, tentou dissuadir o s\u00f3cio, mas tanto um como o outro ostentaram uma tenacidade de ferro em suas opini\u00f5es. Divergiam no modo de encarar a quest\u00e3o. Vergueiro n\u00e3o contestava a imoralidade do ato, mas achava que o benef\u00edcio compensava a imoralidade; reduziu a disserta\u00e7\u00e3o a esta express\u00e3o popular: ande eu quente e ria-se a gente.<\/p>\n<p>Ayres n\u00e3o admitia que o projeto ofendesse as leis da moral. Ele come\u00e7ava separando a moral e o dinheiro. O dinheiro \u00e9 coisa de si t\u00e3o mesquinha, que n\u00e3o podia penetrar na regi\u00e3o sublime da moral.<\/p>\n<p>\u2014 Deus, observava ele, n\u00e3o quer saber quanto pesam as algibeiras, quer saber quanto pesam as almas. Que importa que as nossas algibeiras estejam pejadas de dinheiro, contanto que as nossas almas estejam leves de pecados? Deus olha para as almas, n\u00e3o olha para as algibeiras.<\/p>\n<p>Carlota alegou triunfalmente um dos dez mandamentos da lei de Deus; mas o s\u00f3cio de Vergueiro fez uma t\u00e3o complicada interpreta\u00e7\u00e3o do texto b\u00edblico, e falou com tanta convic\u00e7\u00e3o, que o esp\u00edrito de Carlota n\u00e3o achou resposta suficiente, e aqui parou a discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>A que se n\u00e3o acostuma o cora\u00e7\u00e3o humano? Lan\u00e7ada a m\u00e1 semente no cora\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a, depressa germinou, e o plano secreto passou a ser assunto de conversa entre os tr\u00eas conjurados.<\/p>\n<p>A execu\u00e7\u00e3o do plano come\u00e7ou e prosseguiu com espantosa felicidade. A firma Ayres &amp; Vergueiro era t\u00e3o honrada, que os portadores de letras e outros t\u00edtulos, e at\u00e9 os que n\u00e3o tinham t\u00edtulos, foram aceitando todas as delongas que os dois s\u00f3cios lhes pediam.<\/p>\n<p>As fazendas come\u00e7aram a ser vendidas a resto de barato, n\u00e3o por an\u00fancio, o que seria dar na vista, mas por informa\u00e7\u00e3o particular que passava de boca em boca.<\/p>\n<p>Nestas e noutras ocupa\u00e7\u00f5es se abismava o saudoso esp\u00edrito de Pedro Ayres, j\u00e1 agora deslembrado da desditosa Lu\u00edsa. Que querem? Nada \u00e9 eterno neste mundo.<\/p>\n<p>Nada liga mais fortemente os homens que o interesse; a cumplicidade dos dois s\u00f3cios apertou os v\u00ednculos da sua proverbial amizade. Era ver como eles delineavam entre si o plano da vida que os esperava quando estivessem fora do Imp\u00e9rio. Protestavam gozar do dinheiro sem recorrer \u00e0s alternativas do com\u00e9rcio. Al\u00e9m dos prazeres comuns, Vergueiro possu\u00eda os do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho Carlota, dizia ele, que \u00e9 um anjo. E tu, meu Ayres? Por que te n\u00e3o casar\u00e1s tamb\u00e9m? Ayres desatou do peito um suspiro e disse com voz tr\u00eamula: \u2014 Casar? Que mulher h\u00e1 mais neste mundo que possa fazer a minha felicidade? Ditas estas palavras com outra sintaxe que eu n\u00e3o reproduzo por vergonha, o desditoso Ayres sufocou dois ou tr\u00eas solu\u00e7os e fitou os olhos no ar; depois co\u00e7ou o nariz e olhou para Vergueiro: \u2014 Olha, eu n\u00e3o me considero solteiro; n\u00e3o importa que tua irm\u00e3 morresse; estou casado com ela; separa-nos apenas o t\u00famulo.<\/p>\n<p>Vergueiro apertou com entusiasmo as m\u00e3os do s\u00f3cio e aprovou a nobreza daqueles sentimentos.<\/p>\n<p>Quinze dias depois desta conversa, Vergueiro chamou Ayres e disse que era necess\u00e1rio p\u00f4r termo ao plano.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, disse Ayres, as fazendas est\u00e3o quase todas vendidas.<\/p>\n<p>\u2014 Subamos.<\/p>\n<p>Subiram e foram ter com Carlota.<\/p>\n<p>\u2014 Vou para Buenos Aires, come\u00e7ou Vergueiro.<\/p>\n<p>Carlota empalideceu.<\/p>\n<p>\u2014 Para Buenos Aires? perguntou Ayres.<\/p>\n<p>\u2014 Crian\u00e7as! exclamou Vergueiro, deixem-me acabar. Vou para Buenos Aires com o pretexto de neg\u00f3cios comerciais; voc\u00eas demoram-se aqui um a dois meses; vendem o resto, p\u00f5em o dinheiro a bom recado, e partem para l\u00e1. Que lhes parece? \u2014 A id\u00e9ia n\u00e3o \u00e9 m\u00e1, observou Ayres, mas est\u00e1 incompleta.<\/p>\n<p>\u2014 Como? \u2014 A nossa ida deve ser p\u00fablica, explicou Ayres; eu declararei a todos que tu est\u00e1s doente em Buenos Aires e que mandas buscar tua mulher. Como algu\u00e9m h\u00e1 de acompanh\u00e1-la, irei eu, prometendo voltar da\u00ed a um m\u00eas; a casa fica a\u00ed com o caixeiro, e&#8230; o resto&#8230; creio que n\u00e3o preciso dizer o resto.<\/p>\n<p>\u2014 Sublime! exclamou Vergueiro; isto \u00e9 que se chama estar adiante do s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Assentado isto, anunciou aos amigos e credores que uma opera\u00e7\u00e3o comercial o levava ao Rio da Prata; e tomando passagem no brigue Condor deixou para sempre as plagas da Guanabara.<\/p>\n<p>N\u00e3o direi aqui as saudades que sentiram aqueles dois \u00edntimos amigos, quando se separaram, nem as l\u00e1grimas que verteram, l\u00e1grimas dignas de inspirar mais adestradas penas do que a minha. A amizade n\u00e3o \u00e9 um nome v\u00e3o.<\/p>\n<p>Carlota n\u00e3o menos sentiu aquela separa\u00e7\u00e3o, posto fosse de pequeno prazo. Os amigos da firma Ayres &amp; Vergueiro viram bem o que era um quadro de verdadeira afei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ayres n\u00e3o era p\u00eaco, apressou a venda das fazendas, realizou em boa prata o dinheiro da caixa, e antes de seis semanas recebeu de Buenos Aires uma carta em que Vergueiro dizia que estava de cama, e pedia a presen\u00e7a de sua querida mulher.<\/p>\n<p>A carta terminava assim: \u201c O plano era excelente, e Vergueiro, l\u00e1 em Buenos Aires, esfregava as m\u00e3os de prazer saboreando os aplausos que receberia do amigo e s\u00f3cio pela id\u00e9ia de disfar\u00e7ar a letra.<\/p>\n<p>Ayres aplaudiu efetivamente a id\u00e9ia, e n\u00e3o menos a aplaudiu a am\u00e1vel Carlota.<\/p>\n<p>Determinaram, entretanto, n\u00e3o sair com a publicidade assentada no primeiro plano, em vista da qual o sagaz Vergueiro escrevera a referida carta. Talvez mesmo j\u00e1 esse projeto fosse anterior.<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que da\u00ed a dez dias, Ayres, Carlota e o dinheiro sa\u00edram furtivamente&#8230; para a Europa.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Era muito alva, cheia de corpo, assaz bonita e elegante, a esposa de Lu\u00eds Vergueiro. Chamava-se Carlota. Contava 22 anos e parecia destinada a envelhecer muito tarde. N\u00e3o sendo franzina, n\u00e3o tinha nenhuma ambi\u00e7\u00e3o de parecer vaporosa, pelo que era dada \u00e0 boa mesa, e detestava o princ\u00edpio de que uma mo\u00e7a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-114456","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Ayres e Vergueiro, Conto Ayres e Vergueiro<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Ayres e Vergueiro, Conto, Machado de Assis, Obra Liter\u00e1ria, Literatura, Ayres e Vergueiro\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta 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