{"id":114293,"date":"2017-03-20T09:13:41","date_gmt":"2017-03-20T11:13:41","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=114293"},"modified":"2017-03-20T09:13:41","modified_gmt":"2017-03-20T11:13:41","slug":"anedota-pecuniaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/anedota-pecuniaria","title":{"rendered":"Anedota Pecuni\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Chama-se Falc\u00e3o o meu homem. Naquele dia \u2014 quatorze de abril de 1870 \u2014 quem lhe entrasse em casa, \u00e0s dez horas da noite, v\u00ea-lo-ia passear na sala, em mangas de camisa, cal\u00e7a preta e gravata branca, resmungando, gesticulando, suspirando, evidentemente aflito.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, sentava-se; outras, encostava-se \u00e0 janela, olhando para a praia, que era a da Gamboa. Mas, em qualquer lugar ou atitude, demorava-se pouco tempo.<\/p>\n<p>\u2014 Fiz mal, dizia ele, muito mal. T\u00e3o minha amiga que ela era! t\u00e3o amorosa! Ia chorando, coitadinha! Fiz mal, muito mal&#8230; Ao menos, que seja feliz! Se eu disser que este homem vendeu uma sobrinha, n\u00e3o me h\u00e3o de crer; se descer a definir o pre\u00e7o, dez contos de r\u00e9is, voltar-me-\u00e3o as costas com desprezo e indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto, basta ver este olhar felino, estes dois bei\u00e7os, mestres de c\u00e1lculo, que, ainda fechados, parecem estar contando alguma coisa, para adivinhar logo que a fei\u00e7\u00e3o capital do nosso homem \u00e9 a voracidade do lucro. Entendamo-nos: ele faz arte pela arte, n\u00e3o ama o dinheiro pelo que ele pode dar, mas pelo que \u00e9 em si mesmo! Ningu\u00e9m lhe v\u00e1 falar dos regalos da vida. N\u00e3o tem cama fofa, nem mesa fina, nem carruagem, nem comenda. N\u00e3o se ganha dinheiro para esbanj\u00e1-lo, dizia ele. Vive de migalhas; tudo o que amontoa \u00e9 para a contempla\u00e7\u00e3o. Vai muitas vezes \u00e0 burra, que est\u00e1 na alcova de dormir, com o \u00fanico fim de fartar os olhos nos rolos de ouro e ma\u00e7os de t\u00edtulo. Outras vezes, por um requinte de erotismo pecuni\u00e1rio, contempla-os s\u00f3 de mem\u00f3ria. Neste particular, tudo o que eu pudesse dizer, ficaria abaixo de uma palavra dele mesmo, em 1857.<\/p>\n<p>J\u00e1 ent\u00e3o milion\u00e1rio, ou quase, encontrou na rua dois meninos, seus conhecidos, que lhe perguntaram se uma nota de cinco mil-r\u00e9is, que lhes dera um tio, era verdadeira.<\/p>\n<p>Corriam algumas notas falsas, e os pequenos lembraram-se disso em caminho. Falc\u00e3o ia com um amigo. Pegou tr\u00eamulo na nota, examinou-a bem, virou-a, revirou-a&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 falsa? perguntou com impaci\u00eancia um dos meninos.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o; \u00e9 verdadeira.<\/p>\n<p>\u2014 D\u00ea c\u00e1, disseram ambos.<\/p>\n<p>Falc\u00e3o dobrou a nota vagarosamente, sem tirar-lhe os olhos de cima; depois, restituiu-a aos pequenos, e, voltando-se para o amigo, que esperava por ele, disse-lhe com a maior candura do mundo: \u2014 Dinheiro, mesmo quando n\u00e3o \u00e9 da gente, faz gosto ver.<\/p>\n<p>Era assim que ele amava o dinheiro, at\u00e9 \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o desinteressada. Que outro motivo podia lev\u00e1-lo a parar, diante das vitrinas dos cambistas, cinco, dez, quinze minutos, lambendo com os olhos os montes de libras e francos, t\u00e3o arrumadinhos e amarelos? O mesmo sobressalto com que pegou na nota de cinco mil-r\u00e9is, era um rasgo sutil, era o terror da nota falsa. Nada aborrecia tanto, como os moedeiros falsos, n\u00e3o por serem criminosos, mas prejudiciais, por desmoralizarem o dinheiro bom.<\/p>\n<p>A linguagem do Falc\u00e3o valia um estudo. Assim \u00e9 que, um dia, em 1864, voltando do enterro de um amigo, referiu o esplendor do pr\u00e9stito, exclamando com entusiasmo: \u2014 &#8220;Pegavam no caix\u00e3o tr\u00eas mil contos!&#8221; E, como um dos ouvintes n\u00e3o o entendesse logo, concluiu do espanto, que duvidava dele, e discriminou a afirma\u00e7\u00e3o: \u2014 &#8220;Fulano quatrocentos, Sicrano seiscentos&#8230; Sim, senhor, seiscentos; h\u00e1 dois anos, quando desfez a sociedade com o sogro, ia em mais de quinhentos; mas suponhamos quinhentos&#8230;&#8221; E foi por diante, demonstrando, somando e concluindo: \u2014 &#8220;Justamente, tr\u00eas mil contos!&#8221; N\u00e3o era casado. Casar era botar dinheiro fora. Mas os anos passaram, e aos quarenta e cinco entrou a sentir uma certa necessidade moral, que n\u00e3o compreendeu logo, e era a saudade paterna. N\u00e3o mulher, n\u00e3o parentes, mas um filho ou uma filha, se ele o tivesse, era como receber um patac\u00e3o de ouro. Infelizmente, esse outro capital devia ter sido acumulado em tempo; n\u00e3o podia come\u00e7\u00e1-lo a ganhar t\u00e3o tarde. Restava a loteria; a loteria deu-lhe o pr\u00eamio grande.<\/p>\n<p>Morreu-lhe o irm\u00e3o, e tr\u00eas meses depois a cunhada, deixando uma filha de onze anos. Ele gostava muito desta e de outra sobrinha, filha de uma irm\u00e3 vi\u00fava; dava-lhes beijos, quando as visitava; chegava mesmo ao del\u00edrio de levar-lhes, uma ou outra vez, biscoitos. Hesitou um pouco, mas, enfim, recolheu a \u00f3rf\u00e3; era a filha cobi\u00e7ada. N\u00e3o cabia em si de contente; durante as primeiras semanas, quase n\u00e3o sa\u00eda de casa, ao p\u00e9 dela, ouvindo-lhe hist\u00f3rias e tolices.<\/p>\n<p>Chamava-se Jacinta, e n\u00e3o era bonita; mas tinha a voz melodiosa e os modos fagueiros. Sabia ler e escrever; come\u00e7ava a aprender m\u00fasica. Trouxe o piano consigo, o m\u00e9todo e alguns exerc\u00edcios; n\u00e3o p\u00f4de trazer o professor, porque o tio entendeu que era melhor ir praticando o que aprendera, e um dia&#8230; mais tarde&#8230; Onze anos, doze anos, treze anos, cada ano que passava era mais um v\u00ednculo que atava o velho solteir\u00e3o \u00e0 filha adotiva, e vice-versa. Aos treze, Jacinta mandava na casa; aos dezessete era verdadeira dona. N\u00e3o abusou do dom\u00ednio; era naturalmente modesta, frugal, poupada.<\/p>\n<p>\u2014 Um anjo! dizia o Falc\u00e3o ao Chico Borges.<\/p>\n<p>Este Chico Borges tinha quarenta anos, e era dono de um trapiche. Ia jogar com o Falc\u00e3o \u00e0 noite. Jacinta assistia \u00e0s partidas. Tinha ent\u00e3o dezoito anos; n\u00e3o era mais bonita, mas diziam todos &#8220;que estava enfeitando muito&#8221;. Era pequenina, e o trapicheiro adorava as mulheres pequeninas. Corresponderam-se, o namoro fez-se paix\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos a elas, dizia o Chico Borges ao entrar, pouco depois de ave-marias.<\/p>\n<p>As cartas eram o chap\u00e9u de sol dos dois namorados. N\u00e3o jogavam a dinheiro; mas o Falc\u00e3o tinha tal sede ao lucro, que contemplava os pr\u00f3prios tentos, sem valor, e contava-os de dez em dez minutos, para ver se ganhava ou perdia. Quando perdia, ca\u00eda-lhe o rosto num desalento incur\u00e1vel, e ele recolhia-se pouco a pouco ao sil\u00eancio. Se a sorte teimava em persegui-lo, acabava o jogo, e levantava-se t\u00e3o melanc\u00f3lico e cego, que a sobrinha e o parceiro podiam apertar a m\u00e3o, uma, duas, tr\u00eas vezes, sem que ele visse coisa nenhuma.<\/p>\n<p>Era isto em 1869. No princ\u00edpio de 1870 Falc\u00e3o prop\u00f4s ao outro uma venda de a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o as tinha; mas farejou uma grande baixa, e contava ganhar de um s\u00f3 lance trinta a quarenta contos ao Chico Borges. Este respondeu-lhe finamente que andava pensando em oferecer-lhe a mesma coisa. Uma vez que ambos queriam vender e nenhum comprar, podiam juntar-se e propor a venda a um terceiro. Acharam o terceiro, e fecharam o contrato a sessenta dias. Falc\u00e3o estava t\u00e3o contente, ao voltar do neg\u00f3cio, que o s\u00f3cio abriu-lhe o cora\u00e7\u00e3o e pediu-lhe a m\u00e3o de Jacinta. Foi o mesmo que, se de repente, come\u00e7asse a falar turco. Falc\u00e3o parou, embasbacado, sem entender. Que lhe desse a sobrinha? Mas ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim; confesso a voc\u00ea que estimaria muito casar com ela, e ela&#8230; penso que tamb\u00e9m estimaria casar comigo.<\/p>\n<p>\u2014 Qual, nada! interrompeu o Falc\u00e3o. N\u00e3o, senhor; est\u00e1 muito crian\u00e7a, n\u00e3o consinto.<\/p>\n<p>\u2014 Mas reflita&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o reflito, n\u00e3o quero.<\/p>\n<p>Chegou a casa irritado e aterrado. A sobrinha afagou-o tanto para saber o que era, que ele acabou contando tudo, e chamando-lhe esquecida e ingrata. Jacinta empalideceu; amava os dois, e via-os t\u00e3o dados, que n\u00e3o imaginou nunca esse contraste de afei\u00e7\u00f5es. No quarto chorou \u00e0 larga; depois escreveu uma carta ao Chico Borges, pedindo-lhe pelas cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo, que n\u00e3o fizesse barulho nem brigasse com o tio; dizia-lhe que esperasse, e jurava-lhe um amor eterno.<\/p>\n<p>N\u00e3o brigaram os dois parceiros; mas as visitas foram naturalmente mais escassas e frias. Jacinta n\u00e3o vinha \u00e0 sala, ou retirava-se logo. O terror do Falc\u00e3o era enorme. Ele amava a sobrinha com um amor de c\u00e3o, que persegue e morde aos estranhos. Queria-a para si, n\u00e3o como homem, mas como pai. A paternidade natural d\u00e1 for\u00e7as para o sacrif\u00edcio da separa\u00e7\u00e3o; a paternidade dele era de empr\u00e9stimo, e, talvez, por isso mesmo, mais ego\u00edsta.<\/p>\n<p>Nunca pensara em perd\u00ea-la; agora, por\u00e9m, eram trinta mil cuidados, janelas fechadas, advert\u00eancias \u00e0 preta, uma vigil\u00e2ncia perp\u00e9tua, um espiar os gestos e os ditos, uma campanha de D. Bartolo.<\/p>\n<p>Entretanto, o sol, modelo de funcion\u00e1rios, continuou a servir pontualmente os dias, um a um, at\u00e9 chegar dos dois meses do prazo marcado para a entrega das a\u00e7\u00f5es. Estas deviam baixar, segundo a previs\u00e3o dos dois; mas as a\u00e7\u00f5es, como as loterias e as batalhas, zombam dos c\u00e1lculos humanos. Naquele caso, al\u00e9m de zombaria, houve crueldade, porque nem baixaram, nem ficaram ao par; subiram at\u00e9 converter o esperado lucro de quarenta contos numa perda de vinte.<\/p>\n<p>Foi aqui que o Chico Borges teve uma inspira\u00e7\u00e3o de g\u00eanio. Na v\u00e9spera, quando o Falc\u00e3o, abatido e mudo, passeava na sala o seu desapontamento, prop\u00f4s ele custear todo o deficit, se lhe desse a sobrinha, Falc\u00e3o teve um deslumbramento.<\/p>\n<p>\u2014 Que eu&#8230;? \u2014 Isso mesmo, interrompeu o outro, rindo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o quis; recusou tr\u00eas e quatro vezes. A primeira impress\u00e3o fora de alegria, eram os dez contos na algibeira. Mas a id\u00e9ia de separar-se de Jacinta era insuport\u00e1vel, e recusou.<\/p>\n<p>Dormiu mal. De manh\u00e3, encarou a situa\u00e7\u00e3o, pesou as coisas, considerou que, entregando Jacinta ao outro, n\u00e3o a perdia inteiramente, ao passo que os dez contos iam-se embora. E, depois, se ela gostava dele e ele dela, por que raz\u00e3o separ\u00e1-los? Todas as filhas casam-se, e os pais contentam-se de as ver felizes. Correu \u00e0 casa do Chico Borges, e chegaram a acordo.<\/p>\n<p>\u2014 Fiz mal, muito mal, bradava ele na noite do casamento. T\u00e3o minha amiga que ela era! T\u00e3o amorosa! Ia chorando, coitadinha&#8230; Fiz mal, muito mal.<\/p>\n<p>Cessara o terror dos dez contos; come\u00e7ara o fastio da solid\u00e3o. Na manh\u00e3 seguinte, foi visitar os noivos. Jacinta n\u00e3o se limitou a regal\u00e1-lo com um bom almo\u00e7o, encheu-o de mimos e afagos; mas nem estes, nem o almo\u00e7o lhe restitu\u00edram a alegria. Ao contr\u00e1rio, a felicidade dos noivos entristeceu-o mais. Ao voltar para casa n\u00e3o achou a carinha meiga de Jacinta. Nunca mais lhe ouviria as cantigas de menina e mo\u00e7a; n\u00e3o seria ela quem lhe faria o ch\u00e1, quem lhe traria, \u00e0 noite, quando ele quisesse ler, o velho tomo ensebado do Saint- Clair das Ilhas, d\u00e1diva de 1850.<\/p>\n<p>\u2014 Fiz mal, muito mal&#8230;<\/p>\n<p>Para remediar o mal feito, transferiu as cartas para a casa da sobrinha, e ia l\u00e1 jogar, \u00e0 noite, com o Chico Borges. Mas a fortuna, quando flagela um homem, corta-lhe todas as vazas. Quatro meses depois, os rec\u00e9m-casados foram para a Europa; a solid\u00e3o alargou-se de toda a extens\u00e3o do mar. Falc\u00e3o contava ent\u00e3o cinq\u00fcenta e quatro anos. J\u00e1 estava mais consolado do casamento de Jacinta; tinha mesmo o plano de ir morar com eles, ou de gra\u00e7a, ou mediante uma pequena retribui\u00e7\u00e3o, que calculou ser muito mais econ\u00f4mica do que a despesa de viver s\u00f3. Tudo se esboroou; ei-lo outra vez na situa\u00e7\u00e3o de oito anos antes, com a diferen\u00e7a que a sorte arrancara-lhe a ta\u00e7a entre dois goles.<\/p>\n<p>Vai sen\u00e3o quando cai-lhe outra sobrinha em casa. Era a filha da irm\u00e3 vi\u00fava, que morreu e lhe pediu a esmola de tomar conta dela. Falc\u00e3o n\u00e3o prometeu nada, porque um certo instinto o levava a n\u00e3o prometer coisa nenhuma a ningu\u00e9m, mas a verdade \u00e9 que recolheu a sobrinha, t\u00e3o depressa a irm\u00e3 fechou os olhos. N\u00e3o teve constrangimento; ao contr\u00e1rio, abriu-lhe as portas de casa, com um alvoro\u00e7o de namorado, e quase aben\u00e7oou a morte da irm\u00e3. Era outra vez a filha perdida.<\/p>\n<p>\u2014 Esta h\u00e1 de fechar-me os olhos, dizia ele consigo.<\/p>\n<p>N\u00e3o era f\u00e1cil. Virg\u00ednia tinha dezoito anos, fei\u00e7\u00f5es lindas e originais; era grande e vistosa. Para evitar que lha levassem, Falc\u00e3o come\u00e7ou por onde acabara da primeira vez: \u2014 janelas cerradas, advert\u00eancias \u00e0 preta, raros passeios, s\u00f3 com ele e de olhos baixos. Virg\u00ednia n\u00e3o se mostrou enfadada. \u2014 Nunca fui janeleira, dizia ela, e acho muito feio que uma mo\u00e7a viva com o sentido na rua. Outra cautela do Falc\u00e3o foi n\u00e3o trazer para casa sen\u00e3o parceiros de cinq\u00fcenta anos para cima ou casados. Enfim, n\u00e3o cuidou mais da baixa das a\u00e7\u00f5es. E tudo isso era desnecess\u00e1rio, porque a sobrinha n\u00e3o cuidava realmente sen\u00e3o dele e da casa. \u00c0s vezes, como a vista do tio come\u00e7ava a diminuir muito, lia-lhe ela mesma alguma p\u00e1gina do Saint-Clair das Ilhas. Para suprir os parceiros, quando eles faltavam, aprendeu a jogar cartas, e, entendendo que o tio gostava de ganhar, deixava-se sempre perder. Ia mais longe: quando perdia muito, fingia-se zangada ou triste, com o \u00fanico fim de dar ao tio um acr\u00e9scimo de prazer. Ele ria ent\u00e3o \u00e0 larga, mofava dela, achava-lhe o nariz comprido, pedia um len\u00e7o para enxugar-lhe as l\u00e1grimas; mas n\u00e3o deixava de contar os seus tentos de dez em dez minutos, e se algum ca\u00eda no ch\u00e3o (eram gr\u00e3os de milho) descia a vela para apanh\u00e1-lo.<\/p>\n<p>No fim de tr\u00eas meses, Falc\u00e3o adoeceu. A mol\u00e9stia n\u00e3o foi grave nem longa; mas o terror da morte apoderou-se-lhe do esp\u00edrito, e foi ent\u00e3o que se p\u00f4de ver toda a afei\u00e7\u00e3o que ele tinha \u00e0 mo\u00e7a. Cada visita que se lhe chegava, era recebida com rispidez, ou pelo menos com sequid\u00e3o. Os mais \u00edntimos padeciam mais, porque ele dizia-lhes brutalmente que ainda n\u00e3o era cad\u00e1ver, que a carni\u00e7a ainda estava viva, que os urubus enganavam-se de cheiro, etc. Mas nunca Virg\u00ednia achou nele um s\u00f3 instante de mau humor. Falc\u00e3o obedecia-lhe em tudo, com uma passividade de crian\u00e7a, e, quando ria, \u00e9 porque ela o fazia rir.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos, tome o rem\u00e9dio, deixe-se disso, vosmec\u00ea agora \u00e9 meu filho&#8230;<\/p>\n<p>Falc\u00e3o sorria e bebia a droga. Ela sentava-se ao p\u00e9 da cama, contando-lhe hist\u00f3rias; espiava o rel\u00f3gio para dar-lhe os caldos ou a galinha, lia-lhe o sempiterno Saint-Clair. Veio a convalescen\u00e7a. Falc\u00e3o saiu a alguns passeios, acompanhado de Virg\u00ednia. A prud\u00eancia com que esta, dando-lhe o bra\u00e7o, ia mirando as pedras da rua, com medo de encarar os olhos de algum homem, encantava o Falc\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Esta h\u00e1 de fechar-me os olhos, repetia ele consigo mesmo. Um dia, chegou a pens\u00e1-lo em voz alta: \u2014 N\u00e3o \u00e9 verdade que voc\u00ea me h\u00e1 de fechar os olhos? \u2014 N\u00e3o diga tolices! Conquanto estivesse na rua, ele parou, apertou-lhe muito as m\u00e3os, agradecido, n\u00e3o achando que dizer. Se tivesse a faculdade de chorar, ficaria provavelmente com os olhos \u00famidos. Chegando \u00e0 casa, Virg\u00ednia correu ao quarto para reler uma carta que lhe entregara na v\u00e9spera uma D. Bernarda, amiga de sua m\u00e3e. Era datada de New York, e trazia por \u00fanica assinatura este nome: Reginaldo. Um dos trechos dizia assim: &#8220;Vou daqui no paquete de 25. Espera-me sem falta. N\u00e3o sei ainda se irei ver-te logo ou n\u00e3o. Teu tio deve lembrar-se de mim; viu-me em casa de meu tio Chico Borges, no dia do casamento de tua prima&#8230;&#8221; Quarenta dias depois, desembarcava este Reginaldo, vindo de New York, com trinta anos feitos e trezentos mil d\u00f3lares ganhos. Vinte e quatro horas depois visitou o Falc\u00e3o, que o recebeu apenas com polidez. Mas o Reginaldo era fino e pr\u00e1tico; atinou com a principal corda do homem, e vibrou-a. Contou-lhe os prod\u00edgios de neg\u00f3cio nos Estados Unidos, as hordas de moedas que corriam de um a outro dos dois oceanos. Falc\u00e3o ouvia deslumbrado, e pedia mais. Ent\u00e3o o outro fez-lhe uma extensa computa\u00e7\u00e3o das companhias e bancos, a\u00e7\u00f5es, saldos de or\u00e7amento p\u00fablico, riquezas particulares, receita municipal de New York; descreveu-lhe os grandes pal\u00e1cios do com\u00e9rcio&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Realmente, \u00e9 um grande pa\u00eds, dizia o Falc\u00e3o, de quando em quando. E depois de tr\u00eas minutos de reflex\u00e3o: \u2014 Mas, pelo que o senhor conta, s\u00f3 h\u00e1 ouro? \u2014 Ouro s\u00f3, n\u00e3o; h\u00e1 muita prata e papel; mas ali papel e ouro s\u00e3o a mesma coisa. E moedas de outras na\u00e7\u00f5es? Hei de mostrar-lhe uma cole\u00e7\u00e3o que trago. Olhe; para ver o que \u00e9 aquilo basta p\u00f4r os olhos em mim. Fui para l\u00e1 pobre, com vinte e tr\u00eas anos; no fim de sete anos, trago seiscentos contos.<\/p>\n<p>Falc\u00e3o estremeceu: \u2014 Eu, com a sua idade, confessou ele, mal chegaria a cem.<\/p>\n<p>Estava encantado. Reginaldo disse-lhe que precisava de duas ou tr\u00eas semanas, para lhe contar os milagres do d\u00f3lar.<\/p>\n<p>\u2014 Como \u00e9 que o senhor lhe chama? \u2014 D\u00f3lar.<\/p>\n<p>\u2014 Talvez n\u00e3o acredite que nunca vi essa moeda.<\/p>\n<p>Reginaldo tirou do bolso do colete um d\u00f3lar e mostrou-lho. Falc\u00e3o, antes de lhe p\u00f4r a m\u00e3o, agarrou-o com os olhos. Como estava um pouco escuro, levantou-se e foi at\u00e9 \u00e0 janela, para examin\u00e1-lo bem \u2014 de ambos os lados; depois restituiu-o, gabando muito o desenho e a cunhagem, e acrescentando que os nossos antigos patac\u00f5es eram bem bonitos.<\/p>\n<p>As visitas repetiram-se. Reginaldo assentou de pedir a mo\u00e7a. Esta, por\u00e9m, disse-lhe que era preciso ganhar primeiro as boas gra\u00e7as do tio; n\u00e3o casaria contra a vontade dele.<\/p>\n<p>Reginaldo n\u00e3o desanimou. Tratou de redobrar as finezas; abarrotou o tio de dividendos fabulosos.<\/p>\n<p>\u2014 A prop\u00f3sito, o senhor nunca me mostrou a sua cole\u00e7\u00e3o de moedas, disse-lhe um dia o Falc\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1 amanh\u00e3 \u00e0 minha casa.<\/p>\n<p>Falc\u00e3o foi. Reginaldo mostrou-lhe a cole\u00e7\u00e3o metida num m\u00f3vel envidra\u00e7ado por todos os lados. A surpresa de Falc\u00e3o foi extraordin\u00e1ria; esperava uma caixinha com um exemplar de cada moeda, e achou montes de ouro, de prata, de bronze e de cobre. Falc\u00e3o mirou-as primeiro de um olhar universal e coletivo; depois, come\u00e7ou a fix\u00e1-las especificadamente. S\u00f3 conheceu as libras, os d\u00f3lares e os francos; mas o Reginaldo nomeou-as todas: florins, coroas, rublos, dracmas, piastras, pesos, r\u00fapias, toda a numism\u00e1tica do trabalho, concluiu ele poeticamente.<\/p>\n<p>\u2014 Mas que paci\u00eancia a sua para ajuntar tudo isto! disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o fui eu que ajuntei, replicou o Reginaldo; a cole\u00e7\u00e3o pertencia ao esp\u00f3lio de um sujeito de Filad\u00e9lfia. Custou-me uma bagatela:\u2014 cinco mil d\u00f3lares.<\/p>\n<p>Na verdade, valia mais. Falc\u00e3o saiu dali com a cole\u00e7\u00e3o na alma; falou dela \u00e0 sobrinha, e, imaginariamente, desarrumou e tornou a arrumar as moedas, como um amante desgrenha a amante para touc\u00e1-la outra vez. De noite sonhou que era um florim, que um jogador o deitava \u00e0 mesa do lansquenet, e que ele trazia consigo para a algibeira do jogador mais de duzentos florins. De manh\u00e3, para consolar-se, foi contemplar as pr\u00f3prias moedas que tinha na burra; mas n\u00e3o se consolou nada. O melhor dos bens \u00e9 o que se n\u00e3o possui.<\/p>\n<p>Dali a dias, estando em casa, na sala, pareceu-lhe ver uma moeda no ch\u00e3o. Inclinouse a apanh\u00e1-la; n\u00e3o era moeda, era uma simples carta. Abriu a carta distraidamente e leu-a espantado: era de Reginaldo a Virg\u00ednia&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Basta! interrompe-me o leitor; adivinho o resto. Virg\u00ednia casou com o Reginaldo, as moedas passaram \u00e0s m\u00e3os do Falc\u00e3o, e eram falsas&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o, senhor, eram verdadeiras. Era mais moral que, para castigo do nosso homem, fossem falsas; mas, ai de mim! eu n\u00e3o sou S\u00eaneca, n\u00e3o passo de um Suet\u00f4nio que contaria dez vezes a morte de C\u00e9sar, se ele ressuscitasse dez vezes, pois n\u00e3o tornaria \u00e0 vida, sen\u00e3o para tornar ao imp\u00e9rio.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Chama-se Falc\u00e3o o meu homem. 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