{"id":114276,"date":"2017-03-17T18:48:09","date_gmt":"2017-03-17T20:48:09","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=114276"},"modified":"2017-03-17T18:48:09","modified_gmt":"2017-03-17T20:48:09","slug":"cantiga-velha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/cantiga-velha","title":{"rendered":"Cantiga velha"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Convers\u00e1vamos de cantigas populares. Entre o jantar e o ch\u00e1, quatro pessoas t\u00e3osomente, longe do voltarete e da polca, confessem que era uma boa e rara fortuna. Polca e voltarete s\u00e3o dous organismos vivos que est\u00e3o destruindo a nossa alma; \u00e9 indispens\u00e1vel que nos vacinem com a espadilha e duas ou tr\u00eas oitavas do Caia no beco ou qualquer outro t\u00edtulo da mesma farinha. \u00c9ramos quatro e t\u00ednhamos a mesma idade. Eu e mais dous pouco sab\u00edamos da mat\u00e9ria; t\u00e3o-somente algumas reminisc\u00eancias da inf\u00e2ncia ou da adolesc\u00eancia. O quarto era grande ledor de tais estudos, e n\u00e3o s\u00f3 possu\u00eda alguma cousa do nosso cancioneiro, como do de outras partes. Confessem que era um regalo de pr\u00edncipes.<\/p>\n<p>Esquecia-me dizer que o jantar fora copioso; not\u00edcia indispens\u00e1vel \u00e0 narra\u00e7\u00e3o, porque um homem antes de jantar n\u00e3o \u00e9 o mesmo que depois do jantar, e pode-se dizer que a discri\u00e7\u00e3o \u00e9 muitas vezes um momento gastron\u00f4mico. Homem haver\u00e1 reservado durante a sopa, que \u00e0 sobremesa p\u00f5e o cora\u00e7\u00e3o no prato, e d\u00e1-o em fatias aos convivas. Toda a quest\u00e3o \u00e9 que o jantar seja abundante, esquisito e fino, os vinhos frios e quentes, de mistura, e uma boa x\u00edcara de caf\u00e9 por cima, e para os que fumam um havana de cruzado.<\/p>\n<p>Reconhecido que isto \u00e9 uma lei universal, admiremos os diplomatas que, na vida cont\u00ednua de jantares, sabem guardar consigo os segredos dos governos. Evidentemente s\u00e3o organiza\u00e7\u00f5es superiores.<\/p>\n<p>O dono da casa dera-nos um bom jantar. Fomos os quatro, no fim para junto de uma janela, que abria para um dos lados da ch\u00e1cara. Posto estiv\u00e9ssemos no ver\u00e3o, corria um ventozinho fresco, e a temperatura parecia impregnada das \u00faltimas \u00e1guas. Na sala de frente, dan\u00e7ava-se a polca; noutra sala jogava-se o voltarete. N\u00f3s, como digo, fal\u00e1vamos de cantigas populares.<\/p>\n<p>\u2014 Vou dar-lhes uma das mais galantes estrofes que tenho ouvido, disse um de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Morava na Rua da Carioca, e um dia de manh\u00e3 ouvi do lado dos fundos esta quadrinha: Coitadinho, como \u00e9 tolo Em cuidar que eu o adoro Por me ver andar chorando&#8230;<\/p>\n<p>Sabe Deus por quem eu choro! O ledor de cancioneiros pegou da quadra para esmerilh\u00e1-la com certa pontinha de pedantismo, mas outro ouvinte, o dr. Ver\u00edssimo, pareceu inquieto; perguntou ao primeiro o n\u00famero da casa em que morara; ele respondeu rindo que uma tal pergunta s\u00f3 se podia explicar da parte de um governo tir\u00e2nico; os n\u00fameros das casas deixam-se nas casas.<\/p>\n<p>Como record\u00e1-los alguns anos depois? Podia dizer-lhe em que ponto da rua ficava a casa; era perto do Largo da Carioca, \u00e0 esquerda de quem desce, e foi nos anos de 1864 e 1865.<\/p>\n<p>\u2014 Isso mesmo, disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Isso mesmo, qu\u00ea? \u2014 Nunca viu a pessoa que cantava? \u2014 Nunca. Ouvi dizer que era uma costureira, mas n\u00e3o indaguei mais nada. Depois, ainda ouvi cantar pela mesma voz a mesma quadrinha. Creio que n\u00e3o sabia outra. A repeti\u00e7\u00e3o f\u00ea-la mon\u00f3tona, e&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Se soubessem que essa quadrinha era comigo! disse ele sacudindo a cinza do charuto.<\/p>\n<p>E como lhe pergunt\u00e1ssemos se ele era o aludido do \u00faltimo verso \u2014 Sabe Deus por quem eu choro, respondeu-nos que n\u00e3o. Eu sou o tolo do princ\u00edpio da quadra. A diferen\u00e7a \u00e9 que n\u00e3o cuidava, como na trova, que ela me adorasse; sabia bem que n\u00e3o. Menos essa circunst\u00e2ncia, a quadra \u00e9 comigo. Pode ser que fosse outra pessoa que cantasse; mas o tempo, o lugar da rua, a qualidade de costureira, tudo combina.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos ver se combina, disse o ex-morador da Rua da Carioca piscando-me o olho.<\/p>\n<p>Chamava-se Lu\u00edsa? \u2014 N\u00e3o; chamava-se Henriqueta.<\/p>\n<p>\u2014 Alta? \u2014 Alta. Conheceu-a? \u2014 N\u00e3o; mas ent\u00e3o essa Henriqueta era alguma princesa inc\u00f3gnita, que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Era uma costureira, retorquiu o Ver\u00edssimo. Nesse tempo era eu estudante. Tinha chegado do Sul poucos meses antes. Pouco depois de chegado&#8230; Olhem, vou contar-lhes uma cousa muito particular. Minha mulher sabe do caso, contei-lhe tudo, menos que a tal Henriqueta foi a maior paix\u00e3o da minha vida&#8230; Mas foi; digo-lhe que foi uma grande paix\u00e3o. A cousa passou-se assim&#8230;<\/p>\n<p>CAP\u00cdTULO II \u2014 A cousa passou-se assim. Vim do Sul, e fui alojar-me em casa de uma vi\u00fava Beltr\u00e3o. O marido desta senhora perecera na guerra contra o Rosas; ela vivia do meio soldo e de algumas costuras. Estando no Sul, em 1850, deu-se muito com a minha fam\u00edlia; foi por isso, que minha m\u00e3e n\u00e3o quis que eu viesse para outra casa. Tinha medo do Rio de Janeiro; entendia que a vi\u00fava Beltr\u00e3o desempenharia o seu papel de m\u00e3e, e recomendoume a ela.<\/p>\n<p>D. Cora recebeu-me um pouco acanhada. Creio que era por causa das duas filhas que tinha, mo\u00e7as de dezesseis e dezoito anos, e pela margem que isto podia dar \u00e0 maledic\u00eancia. Talvez fosse tamb\u00e9m a pobreza da casa. Eu supus que a raz\u00e3o era t\u00e3osomente a segunda, e tratei de lhe tirar escr\u00fapulos mostrando-me alegre e satisfeito.<\/p>\n<p>Ajustamos a mesada. Deu-me um quarto, separado, no quintal. A casa era em Mataporcos.<\/p>\n<p>Eu palmilhava, desde casa at\u00e9 \u00e0 Escola de Medicina, sem fadiga, voltando \u00e0 tarde, t\u00e3o fresco como de manh\u00e3.<\/p>\n<p>As duas filhas eram bonitinhas; mas a mais velha, Henriqueta, era ainda mais bonita que a outra. Nos primeiros tempos mostraram-se muito reservadas comigo. Eu, que s\u00f3 fui alegre, no primeiro dia, por c\u00e1lculo, tornei ao que costumava ser; e, depois do almo\u00e7o ou do jantar, metia-me comigo mesmo e os livros, deixando \u00e0 vi\u00fava e \u00e0s filhas toda a liberdade. A m\u00e3e, que queria o meu respeito, mas n\u00e3o exigia a total absten\u00e7\u00e3o, chamoume um dia bicho-do-mato.<\/p>\n<p>\u2014 Olhe que estudar \u00e9 bom, e sua m\u00e3e quer isso mesmo, disse-me ela; mas parece que o senhor estuda demais. Venha conversar com a gente.<\/p>\n<p>Fui conversar com elas algumas vezes. D. Cora era alegre, as filhas n\u00e3o tanto, mas em todo caso muito soci\u00e1veis. Duas ou tr\u00eas pessoas da vizinhan\u00e7a iam ali passar algumas horas, de quando em quando. As reuni\u00f5es e palestras repetiram-se naturalmente, sem nenhum sucesso extraordin\u00e1rio, ou mesmo curioso, e assim se foram dous meses.<\/p>\n<p>No fim de dous meses, Henriqueta adoeceu, e eu prestei \u00e0 fam\u00edlia muito bons servi\u00e7os, que a m\u00e3e agradeceu-me de todos os modos, at\u00e9 ao enfado. D. Cora estimava-me, realmente, e desde ent\u00e3o foi como uma segunda m\u00e3e. Quanto a Henriqueta, n\u00e3o me agradeceu menos; tinha, por\u00e9m, as reservas da idade, e naturalmente n\u00e3o foi t\u00e3o expansiva. Eu confesso que, ao v\u00ea-la depois, convalescente, muito p\u00e1lida, senti crescer a simpatia que me ligava a ela, sem perguntar a mim mesmo se uma tal simpatia n\u00e3o come\u00e7ava a ser outra cousa. Henriqueta tinha uma figura e um rosto que se prestavam \u00e0s atitudes moles da convalescen\u00e7a, e a palidez desta n\u00e3o fazia mais do que acentuar a nota de distin\u00e7\u00e3o da sua fisionomia. Ningu\u00e9m diria ao v\u00ea-la, fora, que era uma mulher de trabalho.<\/p>\n<p>Apareceu por esse tempo um candidato \u00e0 m\u00e3o de Henriqueta. Era um oficial de secretaria, rapaz de vinte e oito anos, sossegado e avaro. Esta era a fama que ele tinha no bairro; diziam que n\u00e3o gastava mais de uma quarta parte dos vencimentos, emprestava a juros outra quarta parte, e aferrolhava o resto. A m\u00e3e possu\u00eda uma casa: era um bom casamento para Henriqueta. Ela, por\u00e9m, recusou; deu como raz\u00e3o que n\u00e3o simpatizava com o pretendente, e era isso mesmo. A m\u00e3e disse-lhe que a simpatia viria depois; e, uma vez que ele n\u00e3o lhe repugnava, podia casar. Conselhos v\u00e3os; Henriqueta declarou que s\u00f3 casaria com quem lhe merecesse. O candidato ficou triste, e foi verter a melancolia no seio da irm\u00e3 de Henriqueta, que n\u00e3o s\u00f3 acolheu a melancolia, como principalmente o melanc\u00f3lico, e os dous casaram-se no fim de tr\u00eas meses.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o? dizia Henriqueta rindo. O casamento e a mortalha&#8230; Eu, pela minha parte, fiquei contente com a recusa da mo\u00e7a; mas, ainda assim, n\u00e3o atinei se era isto uma sensa\u00e7\u00e3o de amor. Vieram as f\u00e9rias, e fui para o Sul.<\/p>\n<p>No ano seguinte, tornei \u00e0 casa de D. Cora. J\u00e1 ent\u00e3o a outra filha estava casada, e ela morava s\u00f3 com Henriqueta. A aus\u00eancia tinha feito adormecer em mim o sentimento mal expresso do ano anterior, mas a vista da mo\u00e7a acendeu-o outra vez, e ent\u00e3o n\u00e3o tive d\u00favida, conheci o meu estado, e deixei-me ir.<\/p>\n<p>Henriqueta, por\u00e9m, estava mudada. Ela era alegre, muito alegre, t\u00e3o alegre como a m\u00e3e.<\/p>\n<p>Vivia cantando; quando n\u00e3o cantava, espalhava tanta vida em volta de si, que era como se a casa estivesse cheia de gente. Achei-a outra; n\u00e3o triste, n\u00e3o silenciosa, mas com intervalos de preocupa\u00e7\u00e3o e cisma. Achei-a, digo mal; no momento da chegada apenas tive uma impress\u00e3o leve e r\u00e1pida de mudan\u00e7a; o meu pr\u00f3prio sentimento encheu o ar ambiente, e n\u00e3o me permitiu fazer logo a compara\u00e7\u00e3o e a an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Continuamos a vida de outro tempo. Eu ia conversar com elas, \u00e0 noite, \u00e0s vezes os tr\u00eas s\u00f3s, outras vezes com alguma pessoa conhecida da vizinhan\u00e7a. No quarto ou quinto dia, vi ali um personagem novo. Era um homem de trinta anos, mais ou menos, bem-parecido.<\/p>\n<p>Era dono de uma farm\u00e1cia do Engenho Velho, e chamava-se Fausto. \u00c9ramos os \u00fanicos homens, e n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o nos vimos com prazer, mas at\u00e9 estou que nos repugnamos intimamente um ao outro.<\/p>\n<p>Henriqueta n\u00e3o me pareceu que o tratasse de um modo especial. Ouvia-o com prazer, acho eu; mas n\u00e3o me ouvia com desgosto ou aborrecimento, e a igualdade das maneiras tranq\u00fcilizou-me nos primeiros dias. No fim de uma semana, notei alguma cousa mais. Os olhos de ambos procuravam-se, demoravam-se ou fugiam, tudo de um modo suspeito.<\/p>\n<p>Era claro que, ou j\u00e1 se queriam, ou caminhavam para l\u00e1.<\/p>\n<p>Fiquei desesperado. Chamei-me todos os nomes feios: tolo, parvo, maricas, tudo.<\/p>\n<p>Gostava de Henriqueta, desde o ano anterior, vivia perto dela, n\u00e3o lhe disse nada; \u00e9ramos como estranhos. Vem um homem estranho, que nunca a vira provavelmente, e fez-se ousado. Compreendi que a resolu\u00e7\u00e3o era tudo, ou quase tudo. Entretanto, refleti que ainda podia ser tempo de resgatar o perdido, e tratei, como se diz vulgarmente, de deitar barro \u00e0 parede. Fiz-me ass\u00edduo, busquei-a, cortejei-a. Henriqueta pareceu n\u00e3o entender, e n\u00e3o me tratou mal; quando, por\u00e9m, a insist\u00eancia da minha parte foi mais forte, retraiu-se um pouco, outro pouco, at\u00e9 chegar ao estritamente necess\u00e1rio nas nossas rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Um dia, pude alcan\u00e7\u00e1-la no quintal da casa, e perguntei-lhe se queria que me fosse embora.<\/p>\n<p>\u2014 Embora? repetiu ela.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, diga se quer que eu v\u00e1 embora.<\/p>\n<p>\u2014 Mas como \u00e9 que hei de querer que o senhor se v\u00e1 embora? \u2014 Sabe como, disse-lhe eu dando \u00e0 voz um tom particular. Henriqueta quis retirar-se; eu peguei-lhe na m\u00e3o; ela olhou espantada para as casas vizinhas.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos, decida? \u2014 Deixe-me, deixe-me, respondeu ela. Puxou a m\u00e3o e foi para dentro. Eu fiquei sozinho.<\/p>\n<p>Compreendi que ela pertencia ao outro, ou pelo menos, n\u00e3o me pertencia absolutamente nada. Resolvi mudar-me; \u00e0 noite fui diz\u00ea-lo \u00e0 m\u00e3e, que olhou espantada para mim e perguntou-me se me tinham feito algum mal.<\/p>\n<p>\u2014 Nenhum mal.<\/p>\n<p>\u2014 Mas ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Preciso mudar-me, disse eu.<\/p>\n<p>D. Cora ficou abatida e triste. N\u00e3o podia atinar com a causa; e pediu-me que esperasse at\u00e9 o fim do m\u00eas; disse-lhe que sim. Henriqueta n\u00e3o estava presente, e eu pouco depois sa\u00ed. N\u00e3o as vi durante tr\u00eas dias. No quarto dia, achei Henriqueta sozinha na sala; ela veio para mim, e perguntou-me por que motivo ia sair da casa. Calei-me.<\/p>\n<p>\u2014 Sei que \u00e9 por mim, disse ela.<\/p>\n<p>N\u00e3o lhe disse nada.<\/p>\n<p>\u2014 Mas que culpa tenho eu se&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o diga o resto! Que culpa tem de n\u00e3o gostar de mim? Na verdade, nenhuma culpa; mas, se eu gosto da senhora, tamb\u00e9m n\u00e3o tenho culpa, e, nesse caso, para que castigarme com a sua presen\u00e7a for\u00e7ada? Henriqueta ficou alguns minutos calada, olhando para o ch\u00e3o. Tive a ingenuidade de supor que ela ia aceitar-me, s\u00f3 para n\u00e3o ver-me ir; acreditei ter vencido o outro, e iludiame.<\/p>\n<p>Henriqueta pensava no melhor modo de me dizer uma cousa dif\u00edcil; e afinal, achou-o, e foi o modo natural, sem retic\u00eancias nem alegorias. Pediu-me que ficasse, porque era um modo de ajudar as despesas da m\u00e3e; prometia-me, entretanto, que apareceria o menos que pudesse. Confesso-lhes que fiquei profundamente comovido. N\u00e3o achei nada que responder; n\u00e3o podia teimar, n\u00e3o queria aceitar, e, sem olhar para ela, sentia que faltava pouco para que as l\u00e1grimas lhe saltassem dos olhos. A m\u00e3e entrou; e foi uma fortuna.<\/p>\n<p>CAP\u00cdTULO III Ver\u00edssimo interrompeu a narra\u00e7\u00e3o, porque algumas mo\u00e7as entraram a busc\u00e1-la. Faltavam pares; n\u00e3o admitiam demora.<\/p>\n<p>\u2014 Dez minutos, ao menos? \u2014 Nem dez.<\/p>\n<p>\u2014 Cinco? \u2014 Cinco apenas.<\/p>\n<p>Elas sa\u00edram; ele concluiu a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u2014 Retirado ao meu quarto, meditei cerca de uma hora no que me cumpria fazer. Era duro ficar, e eu chegava a achar at\u00e9 humilhante; mas custava-me desamparar a m\u00e3e, desprezando o pedido da filha. Achei um meio-termo; ficava pensionista como era; mas passaria fora a maior parte do tempo. Evitaria a combust\u00e3o.<\/p>\n<p>D. Cora sentiu naturalmente a mudan\u00e7a, ao cabo de quinze dias; imaginou que eu tinha algumas queixas, rodeou-me de grandes cuidados, at\u00e9 que me interrogou diretamente.<\/p>\n<p>Respondi-lhe o que me veio \u00e0 cabe\u00e7a, dando \u00e0 palavra um tom livre e alegre, mas calculadamente alegre, quero dizer com a inten\u00e7\u00e3o vis\u00edvel de fingir. Era um modo de p\u00f4-la no caminho da verdade, e ver se ela intercedia em meu favor.<\/p>\n<p>D. Cora, por\u00e9m, n\u00e3o entendeu nada.<\/p>\n<p>Quanto ao Fausto, continuou a freq\u00fcentar a casa, e o namoro de Henriqueta acentuou-se mais. Candinha, a irm\u00e3 dela, \u00e9 que me contava tudo \u2014 o que sabia, ao menos, \u2014 porque eu na minha raiva de preterido, indagava muito, tanto a respeito de Henriqueta como a respeito do botic\u00e1rio. Assim \u00e9 que soube que Henriqueta gostava cada vez mais dele, e ele parece que dela, mas n\u00e3o se comunicavam claramente. Candinha ignorava os meus sentimentos, ou fingia ignor\u00e1-los; pode ser mesmo que tivesse o plano de substituir a irm\u00e3. N\u00e3o afian\u00e7o nada, porque n\u00e3o me sobrava muita penetra\u00e7\u00e3o e frieza de esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Sabia o principal, e o principal era bastante para eliminar o resto.<\/p>\n<p>O que soube dele \u00e9 que era vi\u00favo, mas tinha uma amante e dous filhos desta, um de peito, outro tr\u00eas anos. Contaram-me mesmo alguns pormenores acerca dessa fam\u00edlia improvisada, que n\u00e3o repito por n\u00e3o serem precisos, e porque as mo\u00e7as est\u00e3o esperando na sala. O importante \u00e9 que a tal fam\u00edlia existia.<\/p>\n<p>Assim se passaram dous longos meses. No fim desse tempo, ou mais, quase tr\u00eas meses \u2014 D. Cora veio ter comigo muito alegre; tinha uma not\u00edcia para dar-me, muito importante, e queria que eu adivinhasse o que era \u2014 um casamento.<\/p>\n<p>Creio que empalideci. D. Cora, em todo caso, olhou para mim admirada, e, durante alguns segundos, fez-se entre n\u00f3s o mais profundo sil\u00eancio. Perguntei-lhe afinal o nome dos noivos; ela disse-me a custo que a filha Candinha ia casar com um amanuense de secretaria. Creio que respirei; ela olhou para mim ainda mais espantada.<\/p>\n<p>A boa vi\u00fava desconfiou a verdade. Nunca pude saber se ela interrogou a filha; mas \u00e9 prov\u00e1vel que sim, que a sondasse, antes de fazer o que fez da\u00ed a.tr\u00eas semanas. Um dia, vem ter comigo, quando eu: estudava no meu quarto; e, depois de algumas perguntas indiferentes, variadas e remotas, pediu-me que lhe dissesse o que tinha. Respondi-lhe naturalmente que n\u00e3o tinha nada.<\/p>\n<p>\u2014 Deixe-se de hist\u00f3rias, atalhou ela. Diga-me o que tem.<\/p>\n<p>\u2014 Mas o que \u00e9 que tenho? \u2014 Voc\u00ea \u00e9 meu filho; sua m\u00e3e autorizou-me a trat\u00e1-lo como tal. Diga-me tudo; voc\u00ea tem alguma paix\u00e3o, algum&#8230;<\/p>\n<p>Fiz um gesto de ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>\u2014 Tem, tem, continuou ela, e h\u00e1 de me dizer o que tem. Talvez tudo se esclare\u00e7a se algu\u00e9m falar, mas n\u00e3o falando, ningu\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>Houve e n\u00e3o houve c\u00e1lculo nestas palavras de D. Cora; ou, para ser mais claro, ela estava mais convencida do que dizia. Eu supunha-lhe, por\u00e9m, a convic\u00e7\u00e3o inteira, e ca\u00ed no la\u00e7o. A esperan\u00e7a de poder arranjar tudo, mediante uma confiss\u00e3o \u00e0 m\u00e3e, que me n\u00e3o custava muito, porque a idade era pr\u00f3pria das revela\u00e7\u00f5es, deu asas \u00e0s minhas palavras, e dentro de poucos minutos, contava eu a natureza dos meus sentimentos, sua data, suas tristezas e des\u00e2nimos. Cheguei mesmo a contar a conversa\u00e7\u00e3o que tivera com Henriqueta, e o pedido desta. D. Cora n\u00e3o p\u00f4de reter as l\u00e1grimas. Ela ria e chorava com igual facilidade; mas naquele caso a id\u00e9ia de que a filha pensara nela, e pedira um sacrif\u00edcio por ela, comoveu-a naturalmente. Henriqueta era a sua principal querida.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se precipite, disse-me ela no fim: eu n\u00e3o creio no casamento com o Fausto; tenho ouvido umas cousas&#8230; bom mo\u00e7o, muito respeitado, trabalhador e honesto. Digo-lhe que me honraria com um genro assim; e a n\u00e3o ser voc\u00ea, preferia a ele. Mas parece que o homem tem umas pris\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>Calou-se, \u00e0 espera que eu confirmasse a not\u00edcia; mas n\u00e3o respondi nada. Cheguei mesmo a dizer-lhe que n\u00e3o achava prudente indagar mais nada, nem exigir. Eu no fim do ano tinha de retirar-me; e l\u00e1 passaria o tempo. Provavelmente disse ainda outras cousas, mas n\u00e3o me lembro.<\/p>\n<p>A paix\u00e3o dos dous continuou, creio que mais forte, mas singular da parte dele. N\u00e3o lhe dizia nada, n\u00e3o lhe pedia nada; parece mesmo que n\u00e3o lhe escrevia nada. Gostava dela; ia l\u00e1 com freq\u00fc\u00eancia, quase todos os dias.<\/p>\n<p>D. Cora interveio um dia francamente, em meu favor. A filha n\u00e3o lhe disse cousa diferente do que me dissera, nem com outra hesita\u00e7\u00e3o. Respondeu que n\u00e3o se pertencia, e, quando a m\u00e3e exigiu mais, disse que amava ao Fausto, e casaria com ele, se ele a pedisse, e nenhum outro, ao menos por enquanto. Ele n\u00e3o a pedia, n\u00e3o a soltava; toda a gente supunha que a raz\u00e3o verdadeira do sil\u00eancio e da reserva era a fam\u00edlia de empr\u00e9stimo. Vieram as f\u00e9rias; fui para o Rio Grande, voltei no ano seguinte, e n\u00e3o tornei a morar com D. Cora.<\/p>\n<p>Esta adoeceu gravemente e morreu. C\u00e2ndida, j\u00e1 casada, foi quem a enterrou; Henriqueta foi morar com ela. A paix\u00e3o era a mesma, o sil\u00eancio o mesmo, e a raz\u00e3o provavelmente n\u00e3o era outra, sen\u00e3o a mesma. D. Cora pediu a Henriqueta, na v\u00e9spera de expirar, que casasse comigo. Foi Henriqueta mesma quem me contou o pedido, acrescentando que lhe respondeu negativamente.<\/p>\n<p>\u2014 Mas que espera a senhora? disse-lhe eu.<\/p>\n<p>\u2014 Espero em Deus.<\/p>\n<p>O tempo foi passando, e os dous amavam-se do mesmo modo. Candinha brigou com a irm\u00e3. Esta fez-se costureira na tal casa da Rua da Carioca, honesta, s\u00e9ria, laboriosa, amando sempre, sem adiantar nada, desprezando o amor e a abastan\u00e7a que eu lhe dava, por uma ventura fugitiva que n\u00e3o tinha&#8230; Tal qual como na trova popular&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Qual trova! nem meia trova! interromperam as mo\u00e7as invadindo o gabinete. Vamos dan\u00e7ar.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.dominiopublico.gov.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Convers\u00e1vamos de cantigas populares. Entre o jantar e o ch\u00e1, quatro pessoas t\u00e3osomente, longe do voltarete e da polca, confessem que era uma boa e rara fortuna. Polca e voltarete s\u00e3o dous organismos vivos que est\u00e3o destruindo a nossa alma; \u00e9 indispens\u00e1vel que nos vacinem com a espadilha e duas ou tr\u00eas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-114276","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Cantiga Velha, Machado de Assis, Obra Completa Cantiga Velha<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Cantiga Velha, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema Cantiga Velha\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta 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