{"id":114274,"date":"2017-03-17T18:45:16","date_gmt":"2017-03-17T20:45:16","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=114274"},"modified":"2017-03-17T18:45:16","modified_gmt":"2017-03-17T20:45:16","slug":"cantiga-de-esponsais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/cantiga-de-esponsais","title":{"rendered":"Cantiga de Esponsais"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Imagine a leitora que est\u00e1 em 1813, na igreja do Carmo, ouvindo uma daquelas boas festas antigas, que eram todo o recreio p\u00fablico e toda a arte musical. Sabem o que \u00e9 uma missa cantada; podem imaginar o que seria uma missa cantada daqueles anos remotos.<\/p>\n<p>N\u00e3o lhe chamo a aten\u00e7\u00e3o para os padres e os sacrist\u00e3es, nem para o serm\u00e3o, nem para os olhos das mo\u00e7as cariocas, que j\u00e1 eram bonitos nesse tempo, nem para as mantilhas das senhoras graves, os cal\u00e7\u00f5es, as cabeleiras, as sanefas, as luzes, os incensos, nada. N\u00e3o falo sequer da orquestra, que \u00e9 excelente; limito-me a mostrar-lhes uma cabe\u00e7a branca, a cabe\u00e7a desse velho que rege a orquestra, com alma e devo\u00e7\u00e3o Chama-se Rom\u00e3o Pires; ter\u00e1 sessenta anos, n\u00e3o menos, nasceu no Valongo, ou por esses lados.<\/p>\n<p>\u00c9 bom m\u00fasico e bom homem; todos os m\u00fasicos gostam dele. Mestre Rom\u00e3o \u00e9 o nome familiar; e dizer familiar e p\u00fablico era a mesma coisa em tal mat\u00e9ria e naquele tempo. &#8220;Quem rege a missa \u00e9 mestre Rom\u00e3o&#8221; \u2014 equivalia a esta outra forma de an\u00fancio, anos depois: &#8220;Entra em cena o ator Jo\u00e3o Caetano&#8221;; \u2014 ou ent\u00e3o: &#8220;O ator Martinho cantar\u00e1 uma de suas melhores \u00e1rias.&#8221;<\/p>\n<p>Era o tempero certo, o chamariz delicado e popular. Mestre Rom\u00e3o rege a festa! Quem n\u00e3o conhecia mestre Rom\u00e3o, com o seu ar circunspecto, olhos no ch\u00e3o, riso triste, e passo demorado? Tudo isso desaparecia \u00e0 frente da orquestra; ent\u00e3o a vida derramava-se por todo o corpo e todos os gestos do mestre; o olhar acendia-se, o riso iluminava-se: era outro. N\u00e3o que a missa fosse dele; esta, por exemplo, que ele rege agora no Carmo \u00e9 de Jos\u00e9 Maur\u00edcio; mas ele rege-a com o mesmo amor que empregaria, se a missa fosse sua Acabou a festa; \u00e9 como se acabasse um clar\u00e3o intenso, e deixasse o rosto apenas alumiado da luz ordin\u00e1ria.<\/p>\n<p>Ei-lo que desce do coro, apoiado na bengala; vai \u00e0 sacristia beijar a m\u00e3o aos padres e aceita um lugar \u00e0 mesa do jantar. Tudo isso indiferente e calado Jantou, saiu, caminhou para a rua da M\u00e3e dos Homens, onde reside, com um preto velho, pai Jos\u00e9, que \u00e9 a sua verdadeira m\u00e3e, e que neste momento conversa com uma vizinha \u2014 Mestre Rom\u00e3o l\u00e1 vem, pai Jos\u00e9, disse a vizinha \u2014 Eh! eh! adeus, sinh\u00e1, at\u00e9 logo Pai Jos\u00e9 deu um salto, entrou em casa, e esperou o senhor, que da\u00ed a pouco entrava com o mesmo ar do costume. A casa n\u00e3o era rica naturalmente; nem alegre. N\u00e3o tinha o menor vest\u00edgio de mulher, velha ou mo\u00e7a, nem passarinhos que cantassem, nem flores, nem cores vivas ou jocundas. Casa sombria e nua. O mais alegre era um cravo, onde o mestre Rom\u00e3o tocava algumas vezes, estudando. Sobre uma cadeira, ao p\u00e9, alguns pap\u00e9is de m\u00fasica; nenhuma dele.. Ah! se mestre Rom\u00e3o pudesse seria um grande compositor. Parece que h\u00e1 duas sortes de voca\u00e7\u00e3o, as que t\u00eam l\u00edngua e as que a n\u00e3o t\u00eam. As primeiras realizam-se; as \u00faltimas representam uma luta constante e est\u00e9ril entre o impulso interior e a aus\u00eancia de um modo de comunica\u00e7\u00e3o com os homens. Rom\u00e3o era destas.<\/p>\n<p>Tinha a voca\u00e7\u00e3o \u00edntima da m\u00fasica; trazia dentro de si muitas \u00f3peras e missas, um mundo de harmonias novas e originais, que n\u00e3o alcan\u00e7ava exprimir e p\u00f4r no papel. Esta era a causa \u00fanica da tristeza de mestre Rom\u00e3o. Naturalmente o vulgo n\u00e3o atinava com ela; uns diziam isto, outros aquilo: doen\u00e7a, falta de dinheiro, algum desgosto antigo; mas a verdade \u00e9 esta: \u2014 a causa da melancolia de mestre Rom\u00e3o era n\u00e3o poder compor, n\u00e3o possuir o meio de traduzir o que sentia. N\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o rabiscasse muito papel e n\u00e3o interrogasse o cravo, durante horas; mas tudo lhe sa\u00eda informe, sem id\u00e9ia nem harmonia. Nos \u00faltimos tempos tinha at\u00e9 vergonha da vizinhan\u00e7a, e n\u00e3o tentava mais nada E, entretanto, se pudesse, acabaria ao menos uma certa pe\u00e7a, um canto esponsal\u00edcio, come\u00e7ado tr\u00eas dias depois de casado, em 1779. A mulher, que tinha ent\u00e3o vinte e um anos, e morreu com vinte e tr\u00eas, n\u00e3o era muito bonita, nem pouco, mas extremamente simp\u00e1tica, e amava-o tanto como ele a ela. Tr\u00eas dias depois de casado, mestre Rom\u00e3o sentiu em si alguma coisa parecida com inspira\u00e7\u00e3o. Ideou ent\u00e3o o canto esponsal\u00edcio, e quis comp\u00f4-lo; mas a inspira\u00e7\u00e3o n\u00e3o p\u00f4de sair. Como um p\u00e1ssaro que acaba de ser preso, e forceja por transpor as paredes da gaiola, abaixo, acima, impaciente, aterrado, assim batia a inspira\u00e7\u00e3o do nosso m\u00fasico, encerrada nele sem poder sair, sem achar uma porta, nada. Algumas notas chegaram a ligar-se; ele escreveu-as; obra de uma folha de papel, n\u00e3o mais.<\/p>\n<p>Teimou no dia seguinte, dez dias depois, vinte vezes durante o tempo de casado. Quando a mulher morreu, ele releu essas primeiras notas conjugais, e ficou ainda mais triste, por n\u00e3o ter podido fixar no papel a sensa\u00e7\u00e3o de felicidade extinta \u2014 Pai Jos\u00e9, disse ele ao entrar, sinto-me hoje adoentado \u2014 Sinh\u00f4 comeu alguma coisa que fez mal.. \u2014 N\u00e3o; j\u00e1 de manh\u00e3 n\u00e3o estava bom. Vai \u00e0 botica.. O botic\u00e1rio mandou alguma coisa, que ele tomou \u00e0 noite; no dia seguinte mestre Rom\u00e3o n\u00e3o se sentia melhor. \u00c9 preciso dizer que ele padecia do cora\u00e7\u00e3o: \u2014 mol\u00e9stia grave e cr\u00f4nica. Pai Jos\u00e9 ficou aterrado, quando viu que o inc\u00f4modo n\u00e3o cedera ao rem\u00e9dio, nem ao repouso, e quis chamar o m\u00e9dico \u2014 Para qu\u00ea? disse o mestre. Isto passa O dia n\u00e3o acabou pior; e a noite suportou-a ele bem, n\u00e3o assim o preto, que mal p\u00f4de dormir duas horas. A vizinhan\u00e7a, apenas soube do inc\u00f4modo, n\u00e3o quis outro motivo de palestra; os que entretinham rela\u00e7\u00f5es com o mestre foram visit\u00e1-lo. E diziam-lhe que n\u00e3o era nada, que eram macacoas do tempo; um acrescentava graciosamente que era manha, para fugir aos capotes que o botic\u00e1rio lhe dava no gam\u00e3o, \u2014 outro que eram amores Mestre Rom\u00e3o sorria, mas consigo mesmo dizia que era o final \u2014 Est\u00e1 acabado, pensava ele Um dia de manh\u00e3, cinco depois da festa, o m\u00e9dico achou-o realmente mal; e foi isso o que ele lhe viu na fisionomia por tr\u00e1s das palavras enganadoras: \u2014 Isto n\u00e3o \u00e9 nada; \u00e9 preciso n\u00e3o pensar em m\u00fasicas.. Em m\u00fasicas! justamente esta palavra do m\u00e9dico deu ao mestre um pensamento Logo que ficou s\u00f3, com o escravo, abriu a gaveta onde guardava desde 1779 o canto esponsal\u00edcio come\u00e7ado. Releu essas notas arrancadas a custo e n\u00e3o conclu\u00eddas. E ent\u00e3o teve uma id\u00e9ia singular: \u2014 rematar a obra agora, fosse como fosse; qualquer coisa servia, uma vez que deixasse um pouco de alma na terra \u2014 Quem sabe? Em 1880, talvez se toque isto, e se conte que um mestre Rom\u00e3o.. O princ\u00edpio do canto rematava em um certo l\u00e1; este l\u00e1, que lhe ca\u00eda bem no lugar, era a nota derradeiramente escrita. Mestre Rom\u00e3o ordenou que lhe levassem o cravo para a sala do fundo, que dava para o quintal: era-lhe preciso ar. Pela janela viu na janela dos fundos de outra casa dois casadinhos de oito dias, debru\u00e7ados, com os bra\u00e7os por cima dos ombros, e duas m\u00e3os presas.<\/p>\n<p>Mestre Rom\u00e3o sorriu com tristeza \u2014 Aqueles chegam, disse ele, eu saio. Comporei ao menos este canto que eles poder\u00e3o tocar.. Sentou-se ao cravo; reproduziu as notas e chegou ao l\u00e1&#8230; \u2014 L\u00e1, l\u00e1, l\u00e1.. Nada, n\u00e3o passava adiante. E contudo, ele sabia m\u00fasica como gente \u2014 L\u00e1, d\u00f3&#8230; l\u00e1, mi&#8230; l\u00e1, si, d\u00f3, r\u00e9&#8230; r\u00e9&#8230; r\u00e9.. Imposs\u00edvel! nenhuma inspira\u00e7\u00e3o. N\u00e3o exigia uma pe\u00e7a profundamente original, mas enfim alguma coisa, que n\u00e3o fosse de outro e se ligasse ao pensamento come\u00e7ado. Voltava ao princ\u00edpio, repetia as notas, buscava reaver um retalho da sensa\u00e7\u00e3o extinta, lembrava-se da mulher, dos primeiros tempos. Para completar a ilus\u00e3o, deitava os olhos pela janela para o lado dos casadinhos. Estes continuavam ali, com as m\u00e3os presas e os bra\u00e7os passados nos ombros um do outro; a diferen\u00e7a \u00e9 que se miravam agora, em vez de olhar para baixo Mestre Rom\u00e3o, ofegante da mol\u00e9stia e de impaci\u00eancia, tornava ao cravo; mas a vista do casal n\u00e3o lhe suprira a inspira\u00e7\u00e3o, e as notas seguintes n\u00e3o soavam \u2014 L\u00e1&#8230; l\u00e1&#8230; l\u00e1.. Desesperado, deixou o cravo, pegou do papel escrito e rasgou-o. Nesse momento, a mo\u00e7a embebida no olhar do marido, come\u00e7ou a cantarolar \u00e0 toa, inconscientemente, uma coisa nunca antes cantada nem sabida, na qual coisa um certo l\u00e1 trazia ap\u00f3s si uma linda frase musical, justamente a que mestre Rom\u00e3o procurara durante anos sem achar nunca. O mestre ouviu-a com tristeza, abanou a cabe\u00e7a, e \u00e0 noite expirou.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.dominiopublico.gov.br<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Imagine a leitora que est\u00e1 em 1813, na igreja do Carmo, ouvindo uma daquelas boas festas antigas, que eram todo o recreio p\u00fablico e toda a arte musical. Sabem o que \u00e9 uma missa cantada; podem imaginar o que seria uma missa cantada daqueles anos remotos. 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