{"id":114231,"date":"2017-03-17T13:33:10","date_gmt":"2017-03-17T15:33:10","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=114231"},"modified":"2017-03-17T13:33:10","modified_gmt":"2017-03-17T15:33:10","slug":"oracao-de-sapiencia-na-abertura-do-ano-letivo-no-isctem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/oracao-de-sapiencia-na-abertura-do-ano-letivo-no-isctem","title":{"rendered":"Ora\u00e7\u00e3o de Sapi\u00eancia Na Abertura do Ano Letivo no ISCTEM"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>OS SETE SAPATOS SUJOS<\/h2>\n<p>Come\u00e7o pela confiss\u00e3o de um sentimento conflituoso: \u00e9 um prazer e uma honra ter recebido este convite e estar aqui convosco. Mas, ao mesmo tempo, n\u00e3o sei lidar com este nome pomposo: \u201cora\u00e7\u00e3o de sapi\u00eancia\u201d. De prop\u00f3sito, escolhi um tema sobre o qual tenho apenas algumas, mal contidas, ignor\u00e2ncias. Todos os dias somos confrontados com o apelo exaltante de combater a pobreza. E todos n\u00f3s, de modo generoso e patri\u00f3tico, queremos participar nessa batalha. Existem, no entanto, v\u00e1rias formas de pobreza. E h\u00e1, entre todas, uma que escapa \u00e0s estat\u00edsticas e aos indicadores num\u00e9ricos: \u00e9 a pen\u00faria da nossa reflex\u00e3o sobre n\u00f3s mesmos. Falo da dificuldade de n\u00f3s pensarmos como sujeitos hist\u00f3ricos, como lugar de partida e como destino de um sonho.<\/p>\n<p>Falarei aqui na minha qualidade de escritor tendo escolhido um terreno que \u00e9 a nossa interioridade, um territ\u00f3rio em que somos todos amadores. Neste dom\u00ednio ningu\u00e9m tem licenciatura, nem pode ter a ousadia de proferir ora\u00e7\u00f5es de \u201csapi\u00eancia\u201d. O \u00fanico segredo, a \u00fanica sabedoria \u00e9 sermos verdadeiros, n\u00e3o termos medo de partilhar publicamente as nossas fragilidades. \u00c9 isso que venho fazer, partilhar convosco algumas das minhas d\u00favidas, das minhas solit\u00e1rias cogita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Come\u00e7o por um fait-divers. H\u00e1 agora um an\u00fancio nas nossas esta\u00e7\u00f5es de r\u00e1dio em que algu\u00e9m pergunta \u00e0 vizinha: diga-me minha senhora, o que \u00e9 que se passa em sua casa, o seu filho \u00e9 chefe de turma, as suas filhas casaram muito bem, o seu marido foi nomeado director, diga-me, querida vizinha, qual \u00e9 o segredo? E a senhora responde: \u00e9 que l\u00e1 em casa n\u00f3s comemos arroz marca\u2026(n\u00e3o digo a marca porque n\u00e3o me pagaram este momento publicit\u00e1rio).<\/p>\n<p>Seria bom que assim que fosse, que a nossa vida mudasse s\u00f3 por consumirmos um produto alimentar. J\u00e1 estou a ver o nosso Magnifico Reitor a distribuir o m\u00e1gico arroz e a abrirem-se no ISCTEM as portas para o sucesso e para a felicidade. Mas ser- se feliz \u00e9, infelizmente, muito mais trabalhoso.<\/p>\n<p>No dia em que eu fiz 11 anos de idade, a 5 de Julho de 1966, o Presidente Kenneth Kaunda veio aos microfones da R\u00e1dio de Lusaka para anunciar que um dos grandes pilares da felicidade do seu povo tinha sido constru\u00eddo. N\u00e3o falava de nenhuma marca de arroz. Ele agradecia ao povo da Z\u00e2mbia pelo seu envolvimento na cria\u00e7\u00e3o da primeira universidade no pa\u00eds. Uns meses antes, Kaunda tinha lan\u00e7ado um apelo para que cada zambiano contribu\u00edsse para construir a Universidade. A resposta foi comovente: dezenas de milhares de pessoas corresponderam ao apelo. Camponeses deram milho, pescadores ofertaram pescado, funcion\u00e1rios deram dinheiro. Um pa\u00eds de gente analfabeta juntou-se para criar aquilo que imaginavam ser uma p\u00e1gina nova na sua hist\u00f3ria. A mensagem dos camponeses na inaugura\u00e7\u00e3o da Universidade dizia: n\u00f3s demos porque acreditamos que, fazendo isto, os nossos netos deixar\u00e3o de passar fome.<\/p>\n<p>Quarenta anos depois, os netos dos camponeses zambianos continuam sofrendo de fome. Na realidade, os zambianos vivem hoje pior do que viviam naquela altura. Na d\u00e9cada de 60, a Z\u00e2mbia beneficiava de um Produto Nacional Bruto compar\u00e1vel aos de Singapura e da Mal\u00e1sia. Hoje, nem de perto nem de longe, se pode comparar o nosso vizinho com aqueles dois pa\u00edses da \u00c1sia.<\/p>\n<p>Algumas na\u00e7\u00f5es africanas podem justificar a perman\u00eancia da mis\u00e9ria porque sofreram guerras. Mas a Z\u00e2mbia nunca teve guerra. Alguns pa\u00edses podem argumentar que n\u00e3o possuem recursos. Todavia, a Z\u00e2mbia \u00e9 uma na\u00e7\u00e3o com poderosos recursos minerais. De quem \u00e9 a culpa deste frustrar de expectativas? Quem falhou? Foi a Universidade? Foi a sociedade? Foi o mundo inteiro que falhou? E porque raz\u00e3o Singapura e Mal\u00e1sia progrediram e a Z\u00e2mbia regrediu?<\/p>\n<p>Falei da Z\u00e2mbia como um pa\u00eds africano ao acaso. Infelizmente, n\u00e3o faltariam outros exemplos. O nosso continente est\u00e1 repleto de casos id\u00eanticos, de marchas falhadas, esperan\u00e7as frustradas. Generalizou-se entre n\u00f3s a descren\u00e7a na possibilidade de mudarmos os destinos do nosso continente. Vale a pena perguntarmo-nos: o que est\u00e1 acontecer? O que \u00e9 preciso mudar dentro e fora de \u00c1frica?<\/p>\n<p>Estas perguntas s\u00e3o s\u00e9rias. N\u00e3o podemos iludir as respostas, nem continuar a atirar poeira para ocultar responsabilidades. N\u00e3o podemos aceitar que elas sejam apenas preocupa\u00e7\u00e3o dos governos.<\/p>\n<p>Felizmente, estamos vivendo em Mo\u00e7ambique uma situa\u00e7\u00e3o particular, com diferen\u00e7as bem sens\u00edveis. Temos que reconhecer e ter orgulho que o nosso percurso foi bem distinto. Acabamos recentemente de presenciar uma dessas diferen\u00e7as. Desde 1957, apenas seis entre 153 chefes de estado africanos renunciaram voluntariamente ao poder. Joaquim Chissano \u00e9 o s\u00e9timo desses presidentes. Parece um detalhe mas \u00e9 bem indicativo que o processo mo\u00e7ambicano se guiou por outras l\u00f3gicas bem diversas.<\/p>\n<p>Contudo, as conquistas da liberdade e da democracia que hoje usufru\u00edmos s\u00f3 ser\u00e3o definitivas quando se converterem em cultura de cada um de n\u00f3s. E esse \u00e9 ainda um caminho de gera\u00e7\u00f5es. Entretanto, pesam sobre Mo\u00e7ambique amea\u00e7as que s\u00e3o comuns a todo o continente. A fome, a mis\u00e9ria, as doen\u00e7as, tudo isso n\u00f3s partilhamos com o resto de \u00c1frica. Os n\u00fameros s\u00e3o aterradores: 90 milh\u00f5es de africanos morrer\u00e3o com SIDA nos pr\u00f3ximos 20 anos. Para esse tr\u00e1gico n\u00famero, Mo\u00e7ambique ter\u00e1 contribu\u00eddo com cerca de 3 milh\u00f5es de mortos. A maior parte destes condenados s\u00e3o jovens e representam exactamente a alavanca com que poder\u00edamos remover o peso da mis\u00e9ria. Quer dizer, \u00c1frica n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 perdendo o seu pr\u00f3prio presente: est\u00e1 perdendo o ch\u00e3o onde nasceria um outro amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Ter futuro custa muito dinheiro. Mas \u00e9 muito mais caro s\u00f3 ter passado. Antes da Independ\u00eancia, para os camponeses zambianos n\u00e3o havia futuro. Hoje o \u00fanico tempo que para eles existe \u00e9 o futuro dos outros.<\/p>\n<p>Os desafios s\u00e3o maiores que esperan\u00e7a? Mas n\u00f3s n\u00e3o podemos sen\u00e3o ser optimistas e fazer aquilo que os brasileiros chamam de levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. O pessimismo \u00e9 um luxo para os ricos.<\/p>\n<p>A pergunta crucial \u00e9 esta: o que \u00e9 que nos separa desse futuro que todos queremos? Alguns acreditam que o que falta s\u00e3o mais quadros, mais escolas, mais hospitais. Outros acreditam que precisamos de mais investidores, mais projectos econ\u00f3micos. Tudo isso \u00e9 necess\u00e1rio, tudo isso \u00e9 imprescind\u00edvel. Mas para mim, h\u00e1 uma outra coisa que \u00e9 ainda mais importante. Essa coisa tem um nome: \u00e9 uma nova atitude. Se n\u00e3o mudarmos de atitude n\u00e3o conquistaremos uma condi\u00e7\u00e3o melhor. Poderemos ter mais t\u00e9cnicos, mais hospitais, mais escolas, mas n\u00e3o seremos construtores de futuro.<\/p>\n<p>Falo de uma nova atitude mas a palavra deve ser pronunciada no plural, pois ela comp\u00f5e um conjunto vasto de posturas, cren\u00e7as, conceitos e preconceitos. H\u00e1 muito que venho defendendo que o maior factor de atraso em Mo\u00e7ambique n\u00e3o se localiza na economia mas na incapacidade de gerarmos um pensamento produtivo, ousado e inovador. Um pensamento que n\u00e3o resulte da repeti\u00e7\u00e3o de lugares comuns, de f\u00f3rmulas e de receitas j\u00e1 pensadas pelos outros.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes me pergunto: de onde vem a dificuldade em n\u00f3s pensarmos como sujeitos da Hist\u00f3ria? Vem sobretudo de termos legado sempre aos outros o desenho da nossa pr\u00f3pria identidade. Primeiro, os africanos foram negados. O seu territ\u00f3rio era a aus\u00eancia, o seu tempo estava fora da Hist\u00f3ria. Depois, os africanos foram estudados como um caso cl\u00ednico. Agora, s\u00e3o ajudados a sobreviver no quintal da Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Estamos todos n\u00f3s estreando um combate interno para domesticar os nosso antigos fantasmas. N\u00e3o podemos entrar na modernidade com o actual fardo de preconceitos. \u00c0 porta da modernidade precisamos de nos descal\u00e7ar. Eu contei sete sapatos sujos que necessitamos deixar na soleira da porta dos tempos novos. Haver\u00e1 muitos. Mas eu tinah que escolher e sete \u00e9 um n\u00famero m\u00e1gico.<\/p>\n<h2>O primeiro sapato: a ideia que os culpados s\u00e3o sempre os outros e n\u00f3s somos sempre v\u00edtimas<\/h2>\n<p>N\u00f3s j\u00e1 conhecemos este discurso. A culpa j\u00e1 foi da guerra, do colonialismo, do imperialismo, do apartheid, enfim, de tudo e de todos. Menos nossa. \u00c9 verdade que os outros tiveram a sua dose de culpa no nosso sofrimento. Mas parte da responsabilidade sempre morou dentro de casa.<\/p>\n<p>Estamos sendo v\u00edtimas de um longo processo de desresponsabiliza\u00e7\u00e3o. Esta lavagem de m\u00e3os tem sido estimulada por algumas elites africanas que querem permanecer na impunidade. Os culpados est\u00e3o \u00e0 partida encontrados: s\u00e3o os outros, os da outra etnia, os da outra ra\u00e7a, os da outra geografia.<\/p>\n<p>H\u00e1 um tempo atr\u00e1s fui sacudido por um livro intitulado Capitalist Nigger: The Road to Success de um nigeriano chamado Chika A. Onyeani. Reproduzi num jornal nosso um texto desse economista que \u00e9 um apelo veemente para que os africanos renovem o olhar que mant\u00e9m sobre si mesmos. Permitam-me que leia aqui um excerto dessa carta.<\/p>\n<p>Caros irm\u00e3os: Estou completamente cansado de pessoas que s\u00f3 pensam numa coisa: queixar-se e lamentar-se num ritual em que nos fabricamos mentalmente como v\u00edtimas. Choramos e lamentamos, lamentamos e choramos. Queixamo-nos at\u00e9 \u00e0 n\u00e1usea sobre o que os outros nos fizeram e continuam a fazer. E pensamos que o mundo nos deve qualquer coisa. Lamento dizer-vos que isto n\u00e3o passa de uma ilus\u00e3o. Ningu\u00e9m nos deve nada. Ningu\u00e9m est\u00e1 disposto a abdicar daquilo que tem, com a justifica\u00e7\u00e3o que n\u00f3s tamb\u00e9m queremos o mesmo. Se quisermos algo temos que o saber conquistar. N\u00e3o podemos continuar a mendigar, meus irm\u00e3os e minhas irm\u00e3s.<\/p>\n<p>40 anos depois da Independ\u00eancia continuamos a culpar os patr\u00f5es coloniais por tudo o que acontece na \u00c1frica dos nossos dias. Os nossos dirigentes nem sempre s\u00e3o suficientemente honestos para aceitar a sua responsabilidade na pobreza dos nossos povos. Acusamos os europeus de roubar e pilhar os recursos naturais de \u00c1frica. Mas eu pergunto-vos: digam-me, quem est\u00e1 a convidar os europeus para assim procederem, n\u00e3o somos n\u00f3s? (fim da cita\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p>Queremos que outros nos olhem com dignidade e sem paternalismo. Mas ao mesmo tempo continuamos olhando para n\u00f3s mesmos com benevol\u00eancia complacente: Somos peritos na cria\u00e7\u00e3o do discurso desculpabilizante. E dizemos:<\/p>\n<p>Que algu\u00e9m rouba porque, coitado, \u00e9 pobre (esquecendo que h\u00e1 milhares de outros pobres que n\u00e3o roubam)<\/p>\n<p>Que o funcion\u00e1rio ou o pol\u00edcia s\u00e3o corruptos porque, coitados, tem um sal\u00e1rio insuficiente (esquecendo que ningu\u00e9m, neste mundo, tem sal\u00e1rio suficiente)<\/p>\n<p>Que o pol\u00edtico abusou do poder porque, coitado, na tal \u00c1frica profunda, essas praticas s\u00e3o antropologicamente legitimas<\/p>\n<p>A desresponsabiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos estigmas mais graves que pesa sobre n\u00f3s, africanos de Norte a Sul. H\u00e1 os que dizem que se trata de uma heran\u00e7a da escravatura, desse tempo em que n\u00e3o se era dono de si mesmo. O patr\u00e3o, muitas vezes long\u00ednquo e invis\u00edvel, era respons\u00e1vel pelo nosso destino. Ou pela aus\u00eancia de destino.<\/p>\n<p>Hoje, nem sequer simbolicamente, matamos o antigo patr\u00e3o. Uma das formas de tratamento que mais rapidamente emergiu de h\u00e1 uns dez anos para c\u00e1 foi a palavra \u201cpatr\u00e3o\u201d. Foi como se nunca tivesse realmente morrido, como se espreitasse uma oportunidade hist\u00f3rica para se relan\u00e7ar no nosso quotidiano. Pode-se culpar algu\u00e9m desse ressurgimento? N\u00e3o. Mas n\u00f3s estamos criando uma sociedade que produz desigualdades e que reproduz rela\u00e7\u00f5es de poder que acredit\u00e1vamos estarem j\u00e1 enterradas.<\/p>\n<h2>Segundo sapato: a ideia de que o sucesso n\u00e3o nasce do trabalho<\/h2>\n<p>Ainda hoje despertei com a not\u00edcia que refere que um presidente africano vai mandar exorcizar o seu pal\u00e1cio de 300 quartos porque ele escuta ru\u00eddos \u201cestranhos\u201d durante a noite. O pal\u00e1cio \u00e9 t\u00e3o desproporcionado para a riqueza do pa\u00eds que demorou 20 anos a ser terminado. As ins\u00f3nias do presidente poder\u00e3o nascer n\u00e3o de maus esp\u00edritos mas de uma certa m\u00e1 consci\u00eancia.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio apenas ilustra o modo como, de uma forma dominante, ainda explicamos os fen\u00f3menos positivos e negativos. O que explica a desgra\u00e7a mora junto do que justifica a bem-aventuran\u00e7a. A equipe desportiva ganha, a obra de arte \u00e9 premiada, a empresa tem lucros, o funcion\u00e1rio foi promovido? Tudo isso se deve a qu\u00ea? A primeira resposta, meus amigos, todos a conhecemos. O sucesso deve-se \u00e0 boa sorte. E a palavra \u201cboa sorte\u201d quer dizer duas coisas: a protec\u00e7\u00e3o dos antepassados mortos e protec\u00e7\u00e3o dos padrinhos vivos.<\/p>\n<p>Nunca ou quase nunca se v\u00ea o \u00eaxito como resultado do esfor\u00e7o, do trabalho como um investimento a longo prazo. As causas do que nos sucede (de bom ou mau) s\u00e3o atribu\u00eddas a for\u00e7as invis\u00edveis que comandam o destino. Para alguns esta vis\u00e3o causal \u00e9 tida como t\u00e3o intrinsecamente \u201cafricana\u201d que perder\u00edamos \u201cidentidade\u201d se dela abdic\u00e1ssemos. Os debates sobre as \u201cautenticas\u201d identidades s\u00e3o sempre escorregadios. Vale a pena debatermos, sim, se n\u00e3o poderemos refor\u00e7ar uma vis\u00e3o mais produtiva e que aponte para uma atitude mais activa e interventiva sobre o curso da Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Infelizmente olhamo-nos mais como consumidores do que produtores. A ideia de que \u00c1frica pode produzir arte, ci\u00eancia e pensamento \u00e9 estranha mesmo para muitos africanos. Ate aqui o continente produziu recursos naturais e for\u00e7a laboral.<\/p>\n<p>Produziu futebolistas, dan\u00e7arinos, escultores. Tudo isso se aceita, tudo isso reside no dom\u00ednio daquilo eu se entende como natureza\u201d. Mas j\u00e1 poucos aceitar\u00e3o que os africanos possam ser produtores de ideias, de \u00e9tica e de modernidade. N\u00e3o \u00e9 preciso que os outros desacreditem. N\u00f3s pr\u00f3prios nos encarregamos dessa descren\u00e7a.<\/p>\n<p>O ditado diz. \u201co cabrito come onde est\u00e1 amarrado\u201d. Todos conhecemos o lament\u00e1vel uso deste aforismo e como ele fundamenta a ac\u00e7\u00e3o de gente que tira partido das situa\u00e7\u00f5es e dos lugares. J\u00e1 \u00e9 triste que nos equiparemos a um cabrito. Mas tamb\u00e9m \u00e9 sintom\u00e1tico que, nestes prov\u00e9rbios de conveni\u00eancia nunca nos identificamos como os animais produtores, como \u00e9 por exemplo a formiga. Imaginemos que o ditado muda e passar a ser assim: \u201cCabrito produz onde est\u00e1 amarrado.\u201d Eu aposto que, nesse caso, ningu\u00e9m mais queria ser cabrito.<\/p>\n<h2>Terceiro sapato- O preconceito de quem critica \u00e9 um inimigo<\/h2>\n<p>Muitas acreditam que, com o fim do monopartidarismo, terminaria a intoler\u00e2ncia para com os que pensavam diferente. Mas a intoler\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 apenas fruto de regimes. \u00c9 fruto de culturas, \u00e9 o resultado da Hist\u00f3ria. Herdamos da sociedade rural uma no\u00e7\u00e3o de lealdade que \u00e9 demasiado paroquial. Esse desencorajar do esp\u00edrito cr\u00edtico \u00e9 ainda mais grave quando se trata da juventude. O universo rural \u00e9 fundado na autoridade da idade. Aquele que \u00e9 jovem, aquele que n\u00e3o casou nem teve filhos, esse n\u00e3o tem direitos, n\u00e3o tem voz nem visibilidade. A mesma marginaliza\u00e7\u00e3o pesa sobre a mulher.<\/p>\n<p>Toda essa heran\u00e7a n\u00e3o ajuda a que se crie uma cultura de discuss\u00e3o frontal e aberta. Muito do debate de ideias \u00e9, assim, substitu\u00eddo pela agress\u00e3o pessoal. Basta diabolizar quem pensa de modo diverso. Existe uma variedade de dem\u00f3nios \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o: uma cor pol\u00edtica, uma cor de alma, uma cor de pele, uma origem social ou religiosa diversa.<\/p>\n<p>H\u00e1 neste dom\u00ednio um componente hist\u00f3rico recente que devemos considerar: Mo\u00e7ambique nasceu da luta de guerrilha. Essa heran\u00e7a deu-nos um sentido \u00e9pico da hist\u00f3ria e um profundo orgulho no modo como a independ\u00eancia foi conquistada. Mas a luta armada de liberta\u00e7\u00e3o nacional tamb\u00e9m cedeu, por in\u00e9rcia, a ideia de que o povo era uma esp\u00e9cie de ex\u00e9rcito e podia ser comandado por via de disciplina militar. Nos anos p\u00f3s-independ\u00eancia, todos \u00e9ramos militantes, todos t\u00ednhamos uma s\u00f3 causa, a nossa alma inteira vergava-se em contin\u00eancia na presen\u00e7a dos chefes. E havia tantos chefes. Essa heran\u00e7a n\u00e3o ajudou a que nascesse uma capacidade de insubordina\u00e7\u00e3o positiva.<\/p>\n<p>Fa\u00e7o-vos agora uma confid\u00eancia. No in\u00edcio da d\u00e9cada de 80 fiz parte de um grupo de escritores e m\u00fasicos a quem foi dada a incumb\u00eancia de produzir um novo Hino Nacional e um novo Hino para o Partido Frelimo. A forma como recebemos a tarefa era indicadora dessa disciplina: recebemos a miss\u00e3o, fomos requisitados aos nossos servi\u00e7os, e a mando do Presidente Samora Machel fomos fechados numa resid\u00eancia na Matola, tendo-nos sido dito: s\u00f3 saem da\u00ed quando tiverem feito os hinos. Esta rela\u00e7\u00e3o entre o poder e os artistas s\u00f3 \u00e9 pens\u00e1vel num dado quadro hist\u00f3rico. O que \u00e9 certo \u00e9 que n\u00f3s aceit\u00e1mos com dignidade essa incumb\u00eancia, essa tarefa surgia como uma honra e um dever patri\u00f3tico. E realmente l\u00e1 nos comportamos mais ou menos bem. Era um momento de grandes dificuldades \u2026e as tenta\u00e7\u00f5es eram muitas. Nessa resid\u00eancia na Matola havia comida, empregados, piscina\u2026 num momento em que tudo isso faltava na cidade. Nos primeiros dias, confesso n\u00f3s est\u00e1vamos fascinados com tanta mordomia e fic\u00e1vamos pregui\u00e7ando e s\u00f3 corr\u00edamos para o piano quando ouv\u00edamos as sirenes dos chefes que chegavam. Esse sentimento de desobedi\u00eancia adolescente era o nosso modo de exercermos uma pequena vingan\u00e7a contra essa disciplina de regimento.<\/p>\n<p>Na letra de um dos hinos l\u00e1 estava reflectida essa tend\u00eancia militarizada, essa aproxima\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica a que j\u00e1 fiz refer\u00eancia:<\/p>\n<h2>Somos soldados do povo<\/h2>\n<p><b>Marchando em frente<\/b><\/p>\n<p>Tudo isto tem que ser olhado no seu contexto sem ressentimento. Afinal, foi assim, que nasceu a P\u00e1tria Amada, este hino que nos canta como um s\u00f3 povo, unido por um sonho comum.<\/p>\n<h2>Quarto sapato: a ideia que mudar as palavras muda a realidade<\/h2>\n<p>Uma vez em Nova Iorque um compatriota nosso fazia uma exposi\u00e7\u00e3o sobre a situa\u00e7\u00e3o da nossa economia e, a certo momento, falou de mercado negro. Foi o fim do mundo. Vozes indignadas de protesto se ergueram e o meu pobre amigo teve que interromper sem entender bem o que se estava a passar. No dia seguinte receb\u00edamos uma esp\u00e9cie de pequeno dicion\u00e1rio dos termos politicamente incorrectos. Estavam banidos da l\u00edngua termos como cego, surdo, gordo, magro, etc\u2026<\/p>\n<p>N\u00f3s fomos a reboque destas preocupa\u00e7\u00f5es de ordem cosm\u00e9tica. Estamos reproduzindo um discurso que privilegia o superficial e que sugere que, mudando a cobertura, o bolo passa a ser comest\u00edvel. Hoje assistimos, por exemplo, a hesita\u00e7\u00f5es sobre se devemos dizer \u201cnegro\u201d ou \u201cpreto\u201d. Como se o problema estivesse nas palavras, em si mesmas. O curioso \u00e9 que, enquanto nos entretemos com essa escolha, vamos mantendo designa\u00e7\u00f5es que s\u00e3o realmente pejorativas como as de mulato e de monh\u00e9.<\/p>\n<p>H\u00e1 toda uma gera\u00e7\u00e3o que est\u00e1 aprendendo uma l\u00edngua \u2013 a l\u00edngua dos workshops. \u00c9 uma l\u00edngua simples uma esp\u00e9cie de crioulo a meio caminho entre o ingl\u00eas e o portugu\u00eas. Na realidade, n\u00e3o \u00e9 uma l\u00edngua mas um vocabul\u00e1rio de pacotilha. Basta saber agitar umas tantas palavras da moda para falarmos como os outros isto \u00e9, para n\u00e3o dizermos nada.<\/p>\n<p><b>Recomendo-vos fortemente uns tantos termos como, por exemplo:<\/b><\/p>\n<blockquote>\n<ul>\n<li>desenvolvimento sustent\u00e1vel<\/li>\n<li>awarenesses ou accountability<\/li>\n<li>boa governa\u00e7\u00e3o<\/li>\n<li>parcerias sejam elas inteligentes ou n\u00e3o<\/li>\n<li>comunidades locais<\/li>\n<\/ul>\n<\/blockquote>\n<p>Estes ingredientes devem ser usados de prefer\u00eancia num formato \u201cpowerpoint. Outro segredo para fazer boa figura nos workshops \u00e9 fazer uso de umas tantas siglas. Porque um workshopista de categoria domina esses c\u00f3digos. Cito aqui uma poss\u00edvel frase de um poss\u00edvel relat\u00f3rio: Os ODMS do PNUD equiparam-se ao NEPAD da UA e ao PARPA do GOM. Para bom entendedor meia sigla basta.<\/p>\n<p>Sou de um tempo em que o que \u00e9ramos era medido pelo que faz\u00edamos. Hoje o que somos \u00e9 medido pelo espect\u00e1culo que fazemos de n\u00f3s mesmos, pelo modo como nos colocamos na montra. O CV, o cart\u00e3o de visitas cheio de requintes e t\u00edtulos, a bibliografia de publica\u00e7\u00f5es que quase ningu\u00e9m leu, tudo isso parece sugerir uma coisa: a apar\u00eancia passou a valer mais do que a capacidade para fazermos coisas.<\/p>\n<p>Muitas das institui\u00e7\u00f5es que deviam produzir ideias est\u00e3o hoje produzindo pap\u00e9is, atafulhando prateleiras de relat\u00f3rios condenados a serem arquivo morto. Em lugar de solu\u00e7\u00f5es encontram-se problemas. Em lugar de ac\u00e7\u00f5es sugerem-se novos estudos.<\/p>\n<h2>Quinto sapato A vergonha de ser pobre e o culto das apar\u00eancias<\/h2>\n<p>A pressa em mostrar que n\u00e3o se \u00e9 pobre \u00e9, em si mesma, um atestado de pobreza. A nossa pobreza n\u00e3o pode ser motivo de oculta\u00e7\u00e3o. Quem deve sentir vergonha n\u00e3o \u00e9 o pobre mas quem cria pobreza.<\/p>\n<p>Vivemos hoje uma atabalhoada preocupa\u00e7\u00e3o em exibirmos falsos sinais de riqueza. Criou-se a ideia que o estatuto do cidad\u00e3o nasce dos sinais que o diferenciam dos mais pobres.<\/p>\n<p>Recordo-me que certa vez entendi comprar uma viatura em Maputo. Quando o vendedor reparou no carro que eu tinha escolhido quase lhe deu um ataque. \u201cMas esse, senhor Mia, o senhor necessita de uma viatura compat\u00edvel\u201d. O termo \u00e9 curioso: \u201ccompat\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p>Estamos vivendo num palco de teatro e de representa\u00e7\u00f5es: uma viatura j\u00e1 \u00e9 n\u00e3o um objecto funcional. \u00c9 um passaporte para um estatuto de import\u00e2ncia, uma fonte de vaidades. O carro converteu-se num motivo de idolatria, numa esp\u00e9cie de santu\u00e1rio, numa verdadeira obsess\u00e3o promocional.<\/p>\n<p>Esta doen\u00e7a, esta religi\u00e3o que se podia chamar viaturolatria atacou desde o dirigente do Estado ao menino da rua. Um mi\u00fado que n\u00e3o sabe ler \u00e9 capaz de conhecer a marca e os detalhes todos dos modelos de viaturas. \u00c9 triste que o horizonte de ambi\u00e7\u00f5es seja t\u00e3o vazio e se reduza ao brilho de uma marca de autom\u00f3vel.<\/p>\n<p>\u00c9 urgente que as nossas escolas exaltem a humildade e a simplicidade como valores positivos.<\/p>\n<p>A arrog\u00e2ncia e o exibicionismo n\u00e3o s\u00e3o, como se pretende, emana\u00e7\u00f5es de alguma ess\u00eancia da cultura africana do poder. S\u00e3o emana\u00e7\u00f5es de quem toma a embalagem pelo conte\u00fado.<\/p>\n<h2>Sexto Sapato A passividade perante a injusti\u00e7a<\/h2>\n<p>Estarmos dispostos a denunciar injusti\u00e7as quando s\u00e3o cometidas contra a nossa pessoa, o nosso grupo, a nossa etnia, a nossa religi\u00e3o. Estamos menos dispostos quando a injusti\u00e7a \u00e9 praticada contra os outros. Persistem em Mo\u00e7ambique zonas silenciosas de injusti\u00e7a, \u00e1reas onde o crime permanece invis\u00edvel.<\/p>\n<p><b>Refiro-me em particular \u00e0:<\/b><\/p>\n<blockquote>\n<ul>\n<li>viol\u00eancia domestica (40 por cento dos crimes resultam de agress\u00e3o domestica contra mulheres, esse \u00e9 um crime invis\u00edvel)<\/li>\n<li>viol\u00eancia contra as vi\u00favas<\/li>\n<li>\u00e0 forma aviltante como s\u00e3o tratados muitos dos trabalhadores<\/li>\n<li>aos maus tratos infligidos \u00e0s crian\u00e7as<\/li>\n<\/ul>\n<\/blockquote>\n<p>Ainda h\u00e1 dias ficamos escandalizados com o recente an\u00fancio que privilegiava candidatos de ra\u00e7a branca. Tomaram-se medidas imediatas e isso foi absolutamente correcto. Contudo, existem convites \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o que s\u00e3o t\u00e3o ou mais graves e que aceitamos como sendo naturais e inquestion\u00e1veis.<\/p>\n<p>Tomemos esse an\u00fancio do jornal e imaginemos que ele tinha sido redigido de forma correcta e n\u00e3o racial. Ser\u00e1 que tudo estava bem? Eu n\u00e3o sei se todos est\u00e3o a par de qual \u00e9 a tiragem do jornal Not\u00edcias. S\u00e3o 13 mil exemplares. Mesmo se aceitarmos que cada jornal \u00e9 lido por 5 pessoas, temos que o numero de leitores \u00e9 menor que a popula\u00e7\u00e3o de um bairro de Maputo. \u00c9 dentro deste universo que circulam convites e os acessos a oportunidades. Falei na tiragem mas deixei de lado o problema da circula\u00e7\u00e3o. Por que geografia restrita circulam as mensagens dos nossos jornais? Quanto de Mo\u00e7ambique \u00e9 deixado de fora ?<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que esta discrimina\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 compar\u00e1vel \u00e0 do an\u00fancio racista porque n\u00e3o \u00e9 n\u00e3o resultado de ac\u00e7\u00e3o expl\u00edcita e consciente. Mas os efeitos de discrimina\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o destas pr\u00e1ticas sociais devem ser pensados e n\u00e3o podem cair no saco da normalidade. Esse \u201cbairro\u201d das 60 000 pessoas \u00e9 hoje uma na\u00e7\u00e3o dentro da na\u00e7\u00e3o, uma na\u00e7\u00e3o que chega primeiro, que troca entre si favores, que vive em portugu\u00eas e dorme na almofada na escrita.<\/p>\n<p>Um outro exemplo. Estamos administrando anti-retro-virais a cerca de 30 mil doentes com SIDA. Esse n\u00famero poder\u00e1, nos pr\u00f3ximos anos, chegar aos 50 000. Isso significa que cerca de um milh\u00e3o quatrocentos e cinquenta mil doentes ficam exclu\u00eddos de tratamento. Trata-se de uma decis\u00e3o com implica\u00e7\u00f5es \u00e9ticas terr\u00edveis. Como e quem decide quem fica de fora? \u00c9 aceit\u00e1vel, pergunto, que a vida de um milh\u00e3o e meio de cidad\u00e3os esteja nas m\u00e3os de um pequeno grupo t\u00e9cnico?<\/p>\n<h2>S\u00e9timo sapato &#8211; A ideia de que para sermos modernos temos que imitar os outros<\/h2>\n<p>Todos os dias recebemos estranhas visitas em nossa casa. Entram por uma caixa m\u00e1gica chamada televis\u00e3o. Criam uma rela\u00e7\u00e3o de virtual familiaridade. Aos poucos passamos a ser n\u00f3s quem acredita estar vivendo fora, dan\u00e7ando nos bra\u00e7os de Janet Jackson. O que os v\u00eddeos e toda a sub-ind\u00fastria televisiva nos vem dizer n\u00e3o \u00e9 apenas \u201ccomprem\u201d. H\u00e1 todo um outro convite que \u00e9 este: \u201csejam como n\u00f3s\u201d. Este apelo \u00e0 imita\u00e7\u00e3o cai como ouro sobre azul: a vergonha em sermos quem somos \u00e9 um trampolim para vestirmos esta outra m\u00e1scara.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 que a produ\u00e7\u00e3o cultural nossa se est\u00e1 convertendo na reprodu\u00e7\u00e3o macaqueada da cultura dos outros. O futuro da nossa m\u00fasica poder\u00e1 ser uma esp\u00e9cie de hip-hop tropical, o destino da nossa culin\u00e1ria poder\u00e1 ser o Mac Donald\u2019s.<\/p>\n<p>Falamos da eros\u00e3o dos solos, da defloresta\u00e7\u00e3o, mas a eros\u00e3o das nossas culturas \u00e9 ainda mais preocupante. A secundariza\u00e7\u00e3o das l\u00ednguas mo\u00e7ambicanas (incluindo da l\u00edngua portuguesa) e a ideia que s\u00f3 temos identidade naquilo que \u00e9 folcl\u00f3rico s\u00e3o modos de nos soprarem ao ouvido a seguinte mensagem: s\u00f3 somos modernos se formos americanos.<\/p>\n<p>O nosso corpo social tem a uma hist\u00f3ria similar a de um indiv\u00edduo. Somos marcados por rituais de transi\u00e7\u00e3o: o nascimento, o casamento, o fim da adolesc\u00eancia, o fim da vida.<\/p>\n<p>Eu olho a nossa sociedade urbana e pergunto-me: ser\u00e1 que queremos realmente ser diferentes ? Porque eu vejo que esses rituais de passagem se reproduzem como fotoc\u00f3pia fiel daquilo que eu sempre conheci na sociedade colonial. Estamos dan\u00e7ando a valsa, com vestidos compridos, num baile de finalistas que \u00e9 decalcado daquele do meu tempo. Estamos copiando as cerim\u00f3nias de final do curso a partir de modelos europeus de Inglaterra medieval. Casamo-nos de v\u00e9us e grinaldas e atiramos para longe da Julius Nyerere tudo aquilo que possa sugerir uma cerim\u00f3nia mais enraizada na terra e na tradi\u00e7\u00e3o mo\u00e7ambicanas.<\/p>\n<p>Falei da carga de que nos devemos desembara\u00e7ar para entrarmos a corpo inteiro na modernidade. Mas a modernidade n\u00e3o \u00e9 uma porta apenas feita pelos outros. N\u00f3s somos tamb\u00e9m carpinteiros dessa constru\u00e7\u00e3o e s\u00f3 nos interessa entrar numa modernidade de que sejamos tamb\u00e9m construtores.<\/p>\n<p>A minha mensagem \u00e9 simples: mais do que uma gera\u00e7\u00e3o tecnicamente capaz, n\u00f3s necessitamos de uma gera\u00e7\u00e3o capaz de questionar a t\u00e9cnica. Uma juventude capaz de repensar o pa\u00eds e o mundo. Mais do que gente preparada para dar respostas, necessitamos de capacidade para fazer perguntas. Mo\u00e7ambique n\u00e3o precisa apenas de caminhar. Necessita de descobrir o seu pr\u00f3prio caminho num tempo enevoado e num mundo sem rumo. A b\u00fassola dos outros n\u00e3o serve, o mapa dos outros n\u00e3o ajuda. Necessitamos de inventar os nossos pr\u00f3prios pontos cardeais. Interessa-nos um passado que n\u00e3o esteja carregado de preconceitos, interessa-nos um futuro que n\u00e3o nos venha desenhado como um receita financeira.<\/p>\n<p>A Universidade deve ser um centro de debate, uma f\u00e1brica de cidadania activa, uma forja de inquieta\u00e7\u00f5es solid\u00e1rias e de rebeldia construtiva. N\u00e3o podemos treinar jovens profissionais de sucesso num oceano de mis\u00e9ria. A Universidade n\u00e3o pode aceitar ser reprodutor da injusti\u00e7a e da desigualdade. Estamos lidando com jovens e com aquilo que deve ser um pensamento jovem, f\u00e9rtil e produtivo. Esse pensamento n\u00e3o se encomenda, n\u00e3o nasce sozinho. Nasce do debate, da pesquisa inovadora, da informa\u00e7\u00e3o aberta e atenta ao que de melhor est\u00e1 surgindo em \u00c1frica e no mundo.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 esta: fala-se muito dos jovens. Fala-se pouco com os jovens. Ou melhor, fala-se com eles quando se convertem num problema. A juventude vive essa condi\u00e7\u00e3o amb\u00edgua, dan\u00e7ando entre a vis\u00e3o romantizada (ela \u00e9 a seiva da Na\u00e7\u00e3o) e uma condi\u00e7\u00e3o maligna, um ninho de riscos e preocupa\u00e7\u00f5es (a SIDA, a droga, o desemprego).<\/p>\n<p>N\u00e3o foi apenas a Z\u00e2mbia a ver na educa\u00e7\u00e3o aquilo que o naufrago v\u00ea num barco salva-vidas. N\u00f3s tamb\u00e9m depositamos os nossos sonhos nessa conta.<\/p>\n<p>Numa sess\u00e3o p\u00fablica decorrida no ano passado em Maputo um j\u00e1 idoso nacionalista disse, com verdade e com coragem, o que j\u00e1 muitos sab\u00edamos. Ele confessou que ele mesmo e muitos dos que, nos anos 60, fugiam para a FRELIMO n\u00e3o eram apenas motivados por dedica\u00e7\u00e3o a uma causa independentista. Eles arriscaram-se e saltaram a fronteira do medo para terem possibilidade de estudar. O fasc\u00ednio pela educa\u00e7\u00e3o como um passaporte para uma vida melhor estava presente um universo em que quase ningu\u00e9m podia estudar. Essa restri\u00e7\u00e3o era comum a toda a \u00c1frica. At\u00e9 1940 o n\u00famero de africanos que frequentavam escolas secund\u00e1rias n\u00e3o chegava a 11 000. Hoje, a situa\u00e7\u00e3o melhorou e esse n\u00famero foi multiplicado milhares e milhares de vezes. O continente investiu na cria\u00e7\u00e3o de novas capacidades. E esse investimento produziu, sem d\u00favida, resultados importantes.<\/p>\n<p>Aos poucos se torna claro, por\u00e9m, que mais quadros t\u00e9cnicos n\u00e3o resolvem, s\u00f3 por si, a mis\u00e9ria de uma na\u00e7\u00e3o. Se um pa\u00eds n\u00e3o possuir estrat\u00e9gias viradas para a produ\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es profundas ent\u00e3o todo esse investimento n\u00e3o produzir\u00e1 a desejada diferen\u00e7a. Se as capacidades de uma na\u00e7\u00e3o estiverem viradas para o enriquecimento r\u00e1pido de uma pequena elite ent\u00e3o de pouco valer\u00e1 termos mais quadros t\u00e9cnicos.<\/p>\n<p>A escola \u00e9 um meio para querermos o que n\u00e3o temos. A vida, depois, nos ensina a termos aquilo que n\u00e3o queremos. Entre a escola e a vida resta-nos ser verdadeiros e confessar aos mais jovens que n\u00f3s tamb\u00e9m n\u00e3o sabemos e que, n\u00f3s, professores e pais, tamb\u00e9m estamos \u00e0 procura de respostas.<\/p>\n<p>Com o novo governo ressurgiu o combate pela auto-estima. Isso \u00e9 correcto e \u00e9 oportuno. Temos que gostar de n\u00f3s mesmos, temos que acreditar nas nossas capacidades. Mas esse apelo ao amor-pr\u00f3prio n\u00e3o pode ser fundado numa vaidade vazia, numa esp\u00e9cie de narcisismo f\u00fatil e sem fundamento. Alguns acreditam que vamos resgatar esse orgulho na visita\u00e7\u00e3o do passado. \u00c9 verdade que \u00e9 preciso sentir que temos ra\u00edzes e que essas ra\u00edzes nos honram. Mas a auto-estima n\u00e3o pode ser constru\u00edda apenas de materiais do passado.<\/p>\n<p>Na realidade, s\u00f3 existe um modo de nos valorizar: \u00e9 pelo trabalho, pela obra que formos capazes de fazer. \u00c9 preciso que saibamos aceitar esta condi\u00e7\u00e3o sem complexos e sem vergonha: somos pobres. Ou melhor, fomos empobrecidos pela Hist\u00f3ria. Mas n\u00f3s fizemos parte dessa Hist\u00f3ria, fomos tamb\u00e9m empobrecidos por n\u00f3s pr\u00f3prios. A raz\u00e3o dos nossos actuais e futuros fracassos mora tamb\u00e9m dentro de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Mas a for\u00e7a de superarmos a nossa condi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica tamb\u00e9m reside dentro de n\u00f3s. Saberemos como j\u00e1 soubemos antes conquistar certezas que somos produtores do nosso destino. Teremos mais e mais orgulho em sermos quem somos: mo\u00e7ambicanos construtores de um tempo e de um lugar onde nascemos todos os dias. \u00c9 por isso que vale a pena aceitarmos descal\u00e7ar n\u00e3o s\u00f3 os setes mas todos os sapatos que atrasam a nossa marcha colectiva. Porque a verdade \u00e9 uma: antes vale andar descal\u00e7o do que trope\u00e7ar com os sapatos dos outros.<\/p>\n<p><span class=\"fonte\">Fonte: <\/span>www.macua.org<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>OS SETE SAPATOS SUJOS Come\u00e7o pela confiss\u00e3o de um sentimento conflituoso: \u00e9 um prazer e uma honra ter recebido este convite e estar aqui convosco. Mas, ao mesmo tempo, n\u00e3o sei lidar com este nome pomposo: \u201cora\u00e7\u00e3o de sapi\u00eancia\u201d. De prop\u00f3sito, escolhi um tema sobre o qual tenho apenas algumas, mal contidas, ignor\u00e2ncias. 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