{"id":114203,"date":"2017-03-17T12:54:39","date_gmt":"2017-03-17T14:54:39","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=114203"},"modified":"2017-03-17T12:54:39","modified_gmt":"2017-03-17T14:54:39","slug":"economia-a-fronteira-da-cultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/economia-a-fronteira-da-cultura","title":{"rendered":"Economia &#8211; A Fronteira da Cultura"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<p>Durante anos, dei aulas em diferentes faculdades da Universidade Eduardo Mondlane. Os meus colegas professores queixavam-se da progressiva falta de prepara\u00e7\u00e3o dos estudantes. Eu notava algo que, para mim, era ainda mais grave: uma cada vez maior distancia\u00e7\u00e3o desses jovens em rela\u00e7\u00e3o ao seu pr\u00f3prio pa\u00eds. Quando eles sa\u00edam de Maputo em trabalhos de campo, esses jovens comportavam-se como se estivessem emigrando para um universo estranho e adverso. Eles n\u00e3o sabiam as l\u00ednguas, desconheciam os c\u00f3digos culturais, sentiam-se deslocados e com saudades de Maputo. Alguns sofriam dos mesmos fantasmas dos exploradores coloniais: as feras, as cobras, os monstros invis\u00edveis.<\/p>\n<p>Aquelas zonas rurais eram, afinal, o espa\u00e7o onde viveram os seus av\u00f3s, e todos os seus antepassados. Mas eles n\u00e3o se reconheciam como herdeiros desse patrim\u00f3nio. O pa\u00eds deles era outro. Pior ainda: eles n\u00e3o gostavam desta outra na\u00e7\u00e3o. E ainda mais grave: sentiam vergonha de a ela estarem ligados. A verdade \u00e9 simples: esses jovens est\u00e3o mais \u00e0 vontade dentro de um video-clip de Michael Jackson do que no quintal de um campon\u00eas mo\u00e7ambicano.<\/p>\n<p>O que se passa, e isso parece inevit\u00e1vel, \u00e9 que estamos criando cidadanias diversas dentro de Mo\u00e7ambique. E existem v\u00e1rias categorias: h\u00e1 os urbanos, moradores da cidade alta, esses que foram mais vezes a Nelspruit que aos arredores da sua pr\u00f3pria cidade. Depois, h\u00e1 uns que moram na periferia, os da chamada cidade baixa. E h\u00e1 ainda os rurais, os que s\u00e3o uma esp\u00e9cie de imagem desfocada do retrato nacional. Essa gente parece condenada a n\u00e3o ter rosto e falar pela voz de outros.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o de cidadanias diferentes (ou o que \u00e9 mais grave de diferentes graus de uma mesma cidadania) pode ou n\u00e3o ser problem\u00e1tica. Tudo isso depende da capacidade de manter em di\u00e1logo esses diferentes segmentos da nossa sociedade. A pergunta \u00e9: ser\u00e1 que esses diferentes Mo\u00e7ambiques falam uns com os outros?<\/p>\n<p>A nossa riqueza prov\u00e9m da nossa disponibilidade em efectuarmos trocas culturais com os outros. O Presidente Chissano perguntava num texto muito recente sobre o que \u00e9 Mo\u00e7ambique tem de especial que atrai a paix\u00e3o de tantos visitantes. Esse n\u00e3o sei qu\u00ea especial existe, de facto. Essa magia est\u00e1 ainda viva. Mas ningu\u00e9m pensa, razoavelmente, que esse poder de sedu\u00e7\u00e3o prov\u00e9m de sermos naturalmente melhores que os outros. Essa magia nasce da habilidade em trocarmos cultura e produzirmos mesti\u00e7agens. Essa magia nasce da capacidade de sermos n\u00f3s, sendo outros.<\/p>\n<p>Eu venho falar aqui de um di\u00e1logo muito particular de que poucas vezes se faz alus\u00e3o. Refiro-me \u00e0 nossa conversa com os nossos pr\u00f3prios fantasmas. O tempo trabalhou a nossa alma colectiva por via de tr\u00eas materiais: o passado, o presente e o futuro. Nenhum desses materiais parece estar feito para uso imediato. O passado foi mal embalado e chega-nos deformado, carregado de mitos e preconceitos. O presente vem vestido de roupa emprestada. E o futuro foi encomendado por interesses que nos s\u00e3o alheios.<\/p>\n<p>N\u00e3o digo nada de novo: o nosso pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 pobre mas foi empobrecido. A minha tese \u00e9 que o empobrecimento de Mo\u00e7ambique n\u00e3o come\u00e7a nas raz\u00f5es econ\u00f3micas. O maior empobrecimento prov\u00e9m da falta de ideias, da eros\u00e3o da criatividade e da ausente interna de debate. Mais do que pobres tornamo-nos inf\u00e9rteis.<\/p>\n<p>Eu vou questionar essas tr\u00eas dimens\u00f5es do tempo apenas para sacudir alguma poeira. Comecemos pelo passado. Para constatarmos que esse passado, afinal, ainda n\u00e3o passou.<\/p>\n<h4>O QUE FOMOS \u2013 UM RETRATO FEITO POR EMPR\u00c9STIMO<\/h4>\n<p>O colonialismo n\u00e3o morreu com as independ\u00eancias. Mudou de turno e de executores. O actual colonialismo dispensa colonos e tornou-se ind\u00edgena nos nossos territ\u00f3rios. N\u00e3o s\u00f3 se naturalizou como passou a ser co-gerido numa parceira entre ex-colonizadores e ex-colonizados.<\/p>\n<p>Uma grande parte da vis\u00e3o que temos do passado do nosso pa\u00eds e do nosso continente \u00e9 ditada pelos mesmos pressupostos que ergueram a hist\u00f3ria colonial. Ou melhor, a hist\u00f3ria colonizada. O que se fez foi colocar um sinal positivo onde o sinal era negativo. Persiste a ideia que Africa pr\u00e9-colonial era um universo intemporal, sem conflitos nem disputas, um para\u00edso feito s\u00f3 de harmonias.<\/p>\n<p>Essa imagem rom\u00e2ntica do passado alimenta a ideia redutora e simplista de uma condi\u00e7\u00e3o presente em que tudo seria bom e decorreria \u00e0s mil maravilhas se n\u00e3o fosse a interfer\u00eancia exterior. Os \u00fanicos culpados dos nossos problemas devem ser procurados fora. E nunca dentro. Os poucos de dentro que s\u00e3o maus \u00e9 porque s\u00e3o agentes dos de fora.<\/p>\n<p>Esta vis\u00e3o j\u00e1 estava presente no discurso da luta armada quando se retratava os inimigos como \u201cinfiltrados\u201d. Isto acontecia, apesar do aviso do poeta que dizia que \u201cn\u00e3o basta que seja pura e justa a nossa causa \u00e9 preciso que a justi\u00e7a e a pureza existam dentro de n\u00f3s\u201d. As nossas fileiras, nesse tempo, eram vistas como sendo compostas apenas de gente pura. Se havia mancha ela vinha de fora, que era o lugar onde morava o inimigo.<\/p>\n<p>O modo manique\u00edsta e simplificador com que se redigiu o chamado \u201ctempo que passou\u201d teve, por\u00e9m, outra consequ\u00eancia: fez persistir a ideia de que a responsabilidade \u00fanica e exclusiva da cria\u00e7\u00e3o da escravatura e do colonialismo cabe aos europeus.<\/p>\n<p>Quando os navegadores europeus come\u00e7aram a encher de escravos os seus navios, eles n\u00e3o estavam estreando o com\u00e9rcio de criaturas humanas. A escravatura j\u00e1 tinha sido inventada em todos os continentes. Praticavam a escravatura os americanos, os europeus, os asi\u00e1ticos e os pr\u00f3prios africanos. A escravatura foi uma inven\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie humana. O que sucedeu foi que o tr\u00e1fico de escravos se converteu num sistema global e esse sistema passou a ser desenvolvido de forma a enriquecer o seu centro: a Europa e a Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>Vou contar-vos um epis\u00f3dio curioso que envolve uma senhora africana chamada Hon\u00f3ria Bailor Caulker num momento em que ela visitava os Estados Unidos da Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>Dona Hon\u00f3ria Bailor-Caulker \u00e9 presidente da c\u00e2mara da vila costeira de Shenge, em Serra Leoa. A vila \u00e9 pequena mas carregada de Hist\u00f3ria. Dali partiam escravos, aos milhares, que atravessavam o Atl\u00e2ntico e trabalhavam nas planta\u00e7\u00f5es americanas de cana-de-a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>Dona Hon\u00f3ria foi convidada para discursar nos Estados Unidos da Am\u00e9rica. Perante uma distinta assembleia a senhora subiu ao p\u00f3dium e fez quest\u00e3o em exibir os seus dotes vocais. Cantou, para espanto dos presentes, o hino religioso \u201cAmazing Grace\u201d. No final, Hon\u00f3ria Bailor-Caulker deixou pesar um sil\u00eancio. Aos olhos dos americanos parecia que a senhora tinha perdido o fio \u00e0 meada. Mas ela retomou o discurso e disse: quem comp\u00f4s este hino foi um filho de escravos, um descendente de uma fam\u00edlia que saiu da minha pequena vila de Shenge.<\/p>\n<p>Foi como que um golpe m\u00e1gico e o audit\u00f3rio se repartiu entre l\u00e1grimas e aplausos. De p\u00e9, talvez movidos por uma mistura de sentimento solid\u00e1rio e alguma m\u00e1-consci\u00eancia, os presentes ergueram-se para aclamar Hon\u00f3ria.<\/p>\n<p>Aplaudem-me como descendente de escravos ?, perguntou ela aos que a escutavam.<\/p>\n<p>A resposta foi um eloquente \u201csim\u201d. Aquela mulher negra representava, afinal, o sofrimento de milh\u00f5es de escravos a quem a Am\u00e9rica devia tanto.<\/p>\n<p>Pois eu, disse Honoria, n\u00e3o sou uma descendente de escravos. Sou, sim, descendente de vendedores de escravos. Meus bisav\u00f3s enriquecerem vendendo escravos.<\/p>\n<p>Hon\u00f3ria Bailor Caulker teve a coragem de assumir-se com verdade com a ant\u00edtese do lugar comum. Mas o seu caso \u00e9 t\u00e3o raro que arrisca ficar perdido e apagado.<\/p>\n<p>O colonialismo foi outro desastre cuja dimens\u00e3o humana n\u00e3o pode ser aligeirada. Mas tal como a escravatura, tamb\u00e9m na domina\u00e7\u00e3o colonial houve m\u00e3o de dentro. Diversas elites africanas foram coniventes e benefici\u00e1rias desse fen\u00f3meno hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Porque \u00e9 que estou a falar disto ? Porque eu creio que a Hist\u00f3ria oficial do nosso continente foi sujeita a v\u00e1rias falsifica\u00e7\u00f5es. A primeira e mais grosseira destinou-se a justificar a explora\u00e7\u00e3o que fez enriquecer a Europa. Mas outras falsifica\u00e7\u00f5es se seguiram e parte delas destinaram-se a ocultar responsabilidades internas, a lavar a m\u00e1 consci\u00eancia de grupos sociais africanos que participaram desde sempre na opress\u00e3o dos povos e na\u00e7\u00f5es de \u00c1frica. Esta leitura deturpada do passado n\u00e3o \u00e9 apenas um desvio te\u00f3rico. Ela acaba por fomentar uma atitude de eterna vitima, sugere falsos inimigos e alian\u00e7as sem princ\u00edpios.<\/p>\n<p>\u00c9 importante fazermos nova luz sobre o passado porque o que se passa hoje nos nossos pa\u00edses n\u00e3o \u00e9 mais do que a actualiza\u00e7\u00e3o de coniv\u00eancias antigas entre a m\u00e3o de dentro e a m\u00e3o de fora. Estamos revivendo um passado que nos chega t\u00e3o distorcido que n\u00e3o somos capazes de o reconhecer. N\u00e3o estamos muito longe dos estudantes universit\u00e1rios que ao sa\u00edrem de Maputo j\u00e1 n\u00e3o se reconhecem como sucessores dos mais velhos.<\/p>\n<h4>O QUE SOMOS \u2013 UM ESPELHO \u00c0 PROCURA DA SUA IMAGEM<\/h4>\n<p>Se o passado nos chega deformado, o presente desagua em nossas vidas de forma incompleta. Alguns vivem isso como um drama. E partem em corrida nervosa \u00e0 procura daquilo que chamam a nossa identidade. Grande parte das vezes essa identidade \u00e9 uma casa mobilada por n\u00f3s mas a mob\u00edlia e a pr\u00f3pria casa foram constru\u00eddas por outros. Outros acreditam que a afirma\u00e7\u00e3o da sua identidade nasce da nega\u00e7\u00e3o da identidade dos outros. O certo \u00e9 que a afirma\u00e7\u00e3o do que somos est\u00e1 baseada em in\u00fameros equ\u00edvocos.<\/p>\n<p>Temos que afirmar o que \u00e9 nosso, dizem uns. E t\u00eam raz\u00e3o. Num momento em que o convite \u00e9 sermos todos americanos esse apelo tem toda a raz\u00e3o de ser.<\/p>\n<p>Faz todo o sentido, portanto, afirmarmos aquilo que \u00e9 nosso. Mas a pergunta \u00e9: o que \u00e9 verdadeiramente nosso ? H\u00e1 aqui alguns mal-entendidos. Por exemplo: uns acreditam que a capulana \u00e9 um vestu\u00e1rio origin\u00e1rio, tipicamente mo\u00e7ambicano. Fiz por diversas vezes esta pergunta a estudantes universit\u00e1rios: que frutos s\u00e3o os nossos por oposi\u00e7\u00e3o ao morango, ao p\u00eassego, \u00e0 ma\u00e7\u00e3? As respostas, uma outra vez, s\u00e3o curiosas. As pessoas acreditam que s\u00e3o originariamente africanos: o caju, a manga, a goiaba, a papaia. E por a\u00ed fora. Ora nenhum desses frutos \u00e9 nosso, no sentido de ser natural do continente. Outras vezes, sugere-se que a nossa afirma\u00e7\u00e3o se fa\u00e7a na base de vegetais usados na nossa culin\u00e1ria. O emblema do tipicamente nacional passa agora para o coco, a mandioca, a batata doce, o amendoim. Tudo produtos que foram introduzidos em Mo\u00e7ambique e em \u00c1frica. Mas aqui se coloca a quest\u00e3o: essas coisas acabam sendo nossas porque, para al\u00e9m da sua origem, lhes demos a volta e as refabricamos \u00e0 nossa maneira. A capulana pode ter origem exterior mas \u00e9 mo\u00e7ambicana pelo modo como a amarramos. E pelo modo como esse pano passou a falar connosco. O coco \u00e9 indon\u00e9sio, a mandioca \u00e9 mais latino-americana que a Jennifer Lopez mas o prato que preparamos \u00e9 nosso porque o fomos caldeando \u00e0 nossa maneira.<\/p>\n<p>Os conceitos devem ser ferramentas vitais na procura desse nosso retrato. Contudo, muito do quadro conceptual com que olhamos Mo\u00e7ambique assenta em chav\u00f5es que, \u00e0 for\u00e7a de serem repetidos, acabaram n\u00e3o produzir sentido. Dou exemplos.<\/p>\n<p><b>Falamos muito de:<\/b><\/p>\n<blockquote>\n<ul>\n<li>Poder tradicional<\/li>\n<li>Sociedade civil<\/li>\n<li>Comunidades rurais, como se diz campon\u00eas<\/li>\n<li>Agricultura de subsist\u00eancia<\/li>\n<\/ul>\n<\/blockquote>\n<p>Perdoem-me a minha incurs\u00e3o abusiva nestes dom\u00ednios. Mas eu tenho sinceras d\u00favidas sobre a operacionalidade de qualquer destes conceitos. Tenho d\u00favidas sobre o modo como essas categorias cabem na nossa m\u00e3o e produzem mudan\u00e7as reais.<\/p>\n<h4>UMA L\u00cdNGUA CHAMADA \u201cDESENVOLVIMENT\u00caS\u201d<\/h4>\n<p>E \u00e9 isso que me preocupa \u2013 \u00e9 que mais do que incentivar um pensamento inovador e criativo estamos a trabalhar ao n\u00edvel do que \u00e9 superficial. T\u00e9cnicos e especialistas mo\u00e7ambicanos est\u00e3o reproduzindo a linguagem dos outros, preocupado com o poder agradar e fazer boa figura nos workshops. Trata-se de um logro, um jogo de apar\u00eancias, alguns de n\u00f3s parecemos bem preparados porque sabemos falar essa l\u00edngua, o desenvolviment\u00eas. Postos perante a procura de solu\u00e7\u00f5es profundas para as quest\u00f5es nacionais estamos est\u00e3o t\u00e3o perdidos como qualquer outro cidad\u00e3o comum. Palavras chaves \u201cboa-governa\u00e7\u00e3o\u201d, accountability, parcerias, desenvolvimento sustent\u00e1vel, capacita\u00e7\u00e3o institucional, auditoria e monitoramento, equidade, advocacia, todas estas palavras da moda acrescentam uma grande mais-valia (eis outra palavra da moda) \u00e0s chamadas \u201ccomunica\u00e7\u00f5es\u201d (deve-se, de prefer\u00eancia, dizer \u201cpapers\u201d) Mas deve-se evitar tradu\u00e7\u00f5es feitas \u00e0 letra se n\u00e3o acontece-nos como o palestrante \u2013 j\u00e1 ouvi chamarem de painelista, o que al\u00e9m de pouco simp\u00e1tica \u00e9 uma palavra perigosa &#8211; pois esse palestrante, para evitar dizer que ia fazer uma apresenta\u00e7\u00e3o em power-point, acabou dizendo que ia fazer uma apresenta\u00e7\u00e3o em \u201cponta-poderosa\u201d. O que pode sugerir maliciosas interpreta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O problema do desenvolviment\u00eas \u00e9 que s\u00f3 convida a pensar o que j\u00e1 est\u00e1 pensado por outros. Somos consumidores e n\u00e3o produtores de pensamento. Mas n\u00e3o foi apenas uma l\u00edngua que inventamos: criou-se um ex\u00e9rcito de especialistas alguns com nomes curiosos, tenho-os visto em reuni\u00f5es diversas: j\u00e1 vi especialistas em resolu\u00e7\u00e3o de conflitos, facilitadores de confer\u00eancias, workshopistas, experts em advocacia, engenheiros pol\u00edticos. Estamos empenhando o nosso melhor manancial humano em algo cuja utilidade deve ser interrogada.<\/p>\n<p>A grande tenta\u00e7\u00e3o de hoje \u00e9 reduzimos os assuntos \u00e0 sua dimens\u00e3o linguistica. Falamos, e tendo falado, pensamos ter agido. Muitas vezes a mesma palavra j\u00e1 dan\u00e7ou com variadissimos parceiros. Tantos que j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 festa sem que certas express\u00f5es abram o baile. Uma dessas palavras \u00e9 a \u201cpobreza\u201d. A pobreza j\u00e1 dan\u00e7ou com um par que se chamava \u201ca d\u00e9cada contra o sub-desenvolvimento\u201d.. Outro dan\u00e7arino tinha por nome \u201cluta absoluta contra a pobreza\u201d. Agora, dan\u00e7a com algu\u00e9m que se intitula \u201cluta contra a pobreza absoluta\u201d. Outro caso \u00e9 o do povo. O povo especializou-se sobretudo em dan\u00e7as de m\u00e1scaras. E ele j\u00e1 se mascarou de \u201cmassas populares\u201d. J\u00e1 foi \u201cmassas trabalhadores\u201d. Depois, foi \u201cpopula\u00e7\u00e3o\u201d. Agora, dan\u00e7a com o rosto de \u201ccomunidades locais\u201d.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que ainda mantemos um grande desconhecimento das din\u00e2micas actuais, dos mecanismos vivos e funcionais que esse tal povo inventa para sobreviver. Sabemos pouco sobre assuntos de urgente e primordial import\u00e2ncia.<\/p>\n<p><b>Listo apenas alguns que agora me ocorrem:<\/b><\/p>\n<blockquote>\n<ul>\n<li>a vitalidade do com\u00e9rcio informal (mais do que com\u00e9rcial \u00e9 toda uma economia informal)<\/li>\n<li>os mecanismos de troca entre a fam\u00edlia rural e a sua sucursal urbana<\/li>\n<li>o papel das mulheres nessa rede de trocas invis\u00edveis, do transito transfronteiri\u00e7o de mercadorias (o chamado mukero).<\/li>\n<\/ul>\n<\/blockquote>\n<p>Como podemos ver, n\u00e3o s\u00e3o apenas os jovens estudantes que olham para o universo rural como se fosse um abismo. Tamb\u00e9m para n\u00f3s h\u00e1 um Mo\u00e7ambique que permanece invis\u00edvel.<\/p>\n<p>Mais grave que estas omiss\u00f5es \u00e9 a imagem que se foi criando para substituir a realidade. Tornou-se comum a ideia que o desenvolvimento \u00e9 o resultado acumulado de confer\u00eancias, workshops e projectos. Eu n\u00e3o conhe\u00e7o pa\u00eds nenhum que se tivesse desenvolvido \u00e0 custa de projectos. Voc\u00eas, melhor que ningu\u00e9m, sabem disto. Mas quem l\u00ea os jornais verifica como est\u00e1 enraizada esta cren\u00e7a. Isto apenas ilustra a atitude apelativa que prevalece entre n\u00f3s de que os outros (na nossa linguagem moderna, os stakeholders) \u00e9 que tem a obriga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de nos retirar da mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que a quest\u00e3o se coloca \u2013 qual a cultura da nossa economia? Qual \u00e9 a economia da nossa cultura ? Ou dito de modo mais rigoroso: como \u00e9 que as nossas culturas dialogam com as nossas economias ?<\/p>\n<h4>O SERMOS MUNDO \u2013 \u00c0 PROCURA DE UMA FAM\u00cdLIA<\/h4>\n<p>Numa Conferencia em que este ano participei na Europa, algu\u00e9m me perguntou: o que \u00e9, para si, ser africano ?<\/p>\n<p><strong>E eu lhe perguntei, de volta: E para si, o que \u00e9 ser europeu?<\/strong><\/p>\n<p>Ele n\u00e3o sabia responder. Tamb\u00e9m ningu\u00e9m sabe exactamente o que \u00e9 africanidade. Neste dom\u00ednio h\u00e1 pouco muita bugiganga, muito folclore. H\u00e1 alguns que dizem que o \u201ctipicamente africano\u201d \u00e9 aquele ou aquilo que tem um peso espiritual maior. Ouvi algu\u00e9m dizer que n\u00f3s, africanos, somos diferentes dos outros porque damos muito valor \u00e0 nossa cultura. Um africanista numa confer\u00eancia em Praga disse que o que media a africanidade era um conceito chamado \u201cubuntu\u201d. E que esse conceito diz que \u201ceu sou os outros\u201d.<\/p>\n<p>Ora todas estes pressupostos me parecem vago e difusos, tudo isto surge porque se toma como subst\u00e2ncia aquilo que \u00e9 hist\u00f3rico. As defini\u00e7\u00f5es apressadas da africanidade assentam numa base ex\u00f3tica, como se os africanos fossem particularmente diferentes dos outros, ou como se as suas diferen\u00e7as fossem o resultado de um dado de ess\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c1frica n\u00e3o pode reduzida a uma entidade simples, f\u00e1cil de entender. O nosso continente \u00e9 feito de profunda diversidade e de complexas mesti\u00e7agens. Longas e irrevers\u00edveis misturas de culturas moldaram um mosaico de diferen\u00e7as que s\u00e3o um dos mais valiosos patrim\u00f3nios do nosso continente. Quando mencionamos essas mesti\u00e7agens falamos com algum receio como se o produto h\u00edbrido fosse qualquer coisa menos pura. Mas n\u00e3o existe pureza quando se fala da esp\u00e9cie humana. Os senhores dizem que n\u00e3o h\u00e1 economia actual que n\u00e3o se alicerce em trocas. Pois n\u00e3o h\u00e1 cultura humana que n\u00e3o se fundamente em profundas trocas de alma.<\/p>\n<h4>O QUE QUEREMOS E PODEMOS SER<\/h4>\n<p>Vou falar-vos de um epis\u00f3dio real, decorrido aqui perto, na \u00c1frica do Sul, em 1856. Um c\u00e9lebre sangoma de nome Mhalakaza reclamou que esp\u00edritos dos antepassados lhe tinham transmitido uma profecia. E que uma grande ressurrei\u00e7\u00e3o haveria de acontecer e que os brit\u00e2nicos iriam ser expulsos. Para isso o povo Xhosa deveria destruir todo o seu gado e todas as suas machambas. Esse seria o sinal de f\u00e9 para que, das profundezas do ch\u00e3o, brotassem riqueza e abund\u00e2ncia para todos. Mhalakaza convenceu os soberanos do reino da veracidade desta vis\u00e3o. O chefe Sarili, da casa real do Tshawe, proclamou a profecia como doutrina oficial. Para al\u00e9m da vis\u00e3o do adivinho, Sarili tinha uma estranha convic\u00e7\u00e3o: era de que os russos seriam os antepassados dos Xhosas e seriam eles, os russos, que iriam brotar do ch\u00e3o de acordo com a prometida ressurrei\u00e7\u00e3o. Esta ideia surgia porque os monarcas Xhosa tinham ouvido falar da guerra da Crimeia e do facto dos russos estarem a bater-se contra os ingleses. Espalhou-se rapidamente a ideia de que os russos, depois de vencerem os brit\u00e2nicos na Europa, viriam expuls\u00e1-los da \u00c1frica do Sul. E o que \u00e9 ainda mais curioso: estava assente que os russos seriam pretos, no pressuposto de que todos os que se opunham ao dom\u00ednio brit\u00e2nico seriam de ra\u00e7a negra.<\/p>\n<p>N\u00e3o me demoro no epis\u00f3dio hist\u00f3rico. A realidade \u00e9 que depois de desaparecerem o gado e a agricultura, a fome dizimou mais de dois ter\u00e7os do povo Xhosa. Estava consumada uma das maiores trag\u00e9dias da toda a hist\u00f3ria de \u00c1frica. Este drama foi aproveitado pela ideologia colonial como prova da dimens\u00e3o da crendice entre os africanos. Mas a realidade \u00e9 que esta hist\u00f3ria \u00e9 bem mais complexa que uma simples cren\u00e7a. Por detr\u00e1s deste cen\u00e1rio, ocultavam-se graves disputas pol\u00edticas. Dentro a monarquia Xhosa criou-se uma forte dissid\u00eancia contra este suic\u00eddio colectivo. Mas este grupo foi rapidamente intitulado de \u201cinfi\u00e9is\u201d e uma for\u00e7a de mil\u00edcias denominada de \u201cos crentes\u201d foi criada para reprimir os que estavam em desacordo.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que esta hist\u00f3ria, infelizmente real, n\u00e3o pode ser repetida hoje com este mesmo formato. Mas eu deixo \u00e0 vossa considera\u00e7\u00e3o o encontrarem paralelos com ocorr\u00eancias actuais na nossa regi\u00e3o austral, em \u00c1frica, no Mundo. Aprendizes de feiticeiros, seguem construindo profecias messi\u00e2nicas e arrastam, de forma triste, povos inteiros para o sofrimento e o desespero.<\/p>\n<p>Aflige-me a facilidade com que vamos a reboque de ideias e conceitos que desconhecemos. Em lugar de as interrogarmos cientificamente e de ajuizarmos a sua adequa\u00e7\u00e3o cultural transformamo-nos em funcion\u00e1rios de servi\u00e7o, caixas de resson\u00e2ncia de batuques produzidos nas inst\u00e2ncias dos poderes pol\u00edticos. Na nossa hist\u00f3ria j\u00e1 se acumularam lemas e bandeiras.<\/p>\n<h2>J\u00e1 tivemos:<\/h2>\n<blockquote>\n<ul>\n<li>A d\u00e9cada contra o sub-desenvolvimento<\/li>\n<li>O Plano Prospectivo Indicativo (o famoso PPI)<\/li>\n<li>O PRE ( com o seu \u201cajustamento estrutural\u201d<\/li>\n<li>Parceria inteligente e outras<\/li>\n<\/ul>\n<\/blockquote>\n<p>Estas bandeiras tiveram as suas vantagens e desvantagens. Mas raramente foram sujeitas ao necess\u00e1rio questionamento por parte dos nossos economistas, dos nossos intelectuais. As novas bandeiras e lemas est\u00e3o sendo hasteadas nos mastros sem que esse esp\u00edrito cr\u00edtico assegure da sua viabilidade hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>H\u00e1 por vezes um certo cinismo. Poucos s\u00e3o os que realmente acreditam naquilo que propalam. Mas estas novas teologias tem os seus mission\u00e1rios fervorosos. Assim que essas teses desabam, esses sacerdotes s\u00e3o os primeiros a despir as batinas. Foi o que sucedeu com o fim da nossa chamada Primeira Republica. Samora morreu e ningu\u00e9m mais foi co-respons\u00e1vel da primeira governa\u00e7\u00e3o. Samora existiu sozinho, \u00e9 essa a conclus\u00e3o a que somos obrigados a chegar.<\/p>\n<h4>A CULTURA E A ECONOMIA &#8211; O QUE PODEMOS FAZER ?<\/h4>\n<p>O que podemos fazer \u00e9 interrogar sem medo e dialogar com espirito critico. Infelizmente, o nosso ambiente de debate se revela pobre. Mais grave ainda, ele tornou-se perverso: em lugar de confrontar ideias, agridem-se pessoas. O que podemos fazer com os conceitos s\u00f3cio-econ\u00f3micos \u00e9 reproduzir aquilo que fizemos com a capulana e com a mandioca. E j\u00e1 agora com a l\u00edngua portuguesa. Torn\u00e1mo-los nossos, porque os experimentamos e vivemos \u00e0 nossa maneira.<\/p>\n<p>Como um par\u00eantesis queria fazer aqui refer\u00eancia a algo que assume o estatuto de pouca-vergonha. Eu j\u00e1 vi pessoas credenciadas a defender a tese da acumula\u00e7\u00e3o primitiva do capital justificando o comportamento criminoso de alguns dos nossos novos-ricos. Isto j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas ignor\u00e2ncia: \u00e9 m\u00e1-f\u00e9, aus\u00eancia completa de escr\u00fapulos morais e intelectuais.<\/p>\n<p>Estamos hoje construir a nossa pr\u00f3pria modernidade. E quero congratular esta ocasi\u00e3o em que um homem das letras (que se confessa ignorante em mat\u00e9rias de economia) tenha a possibilidade de partilhar algumas reflex\u00f5es. A economia necessita de falar, de namorar com as outras esferas da vida nacional. O discurso econ\u00f3mico n\u00e3o pode ser a religi\u00e3o dessa nossa modernidade nem a economia pode ser um altar ante o qual nos ajoelhamos. N\u00e3o podemos entregar a especialistas o direito de conduzir as nossas vidas pessoais e os nossos destinos nacionais.<\/p>\n<p>O que mais nos falta em Mo\u00e7ambique n\u00e3o \u00e9 forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, n\u00e3o \u00e9 a acumula\u00e7\u00e3o de saber acad\u00e9mico. O que mais falta em Mo\u00e7ambique \u00e9 capacidade de gerar um pensamento original, um pensamento soberano que n\u00e3o ande a reboque daquilo que outros j\u00e1 pensaram. Libertarmo-nos daquilo que uns j\u00e1 chamaram a ditadura do desenvolvimento. N\u00f3s queremos ter um uma for\u00e7a patri\u00f3tica que nos avise dos perigos de uma nova evangeliza\u00e7\u00e3o, e de uma entrega cega a essa nova mensagem messi\u00e2nica: o desenvolvimento. (Que no quadro desse idioma, o desenvolviment\u00eas, se deve chamar sempre de desenvolvimento sustent\u00e1vel)<\/p>\n<p>O economista n\u00e3o \u00e9 apenas aquele que sabe de economia. \u00c9 aquele que pode sair do pensamento econ\u00f3mico, aquele que se liberta da sua pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o para a ela melhor regressar. Esta possibilidade de emigra\u00e7\u00e3o da sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para que tenhamos economistas nossos que se distanciem da economia o suficiente para a poder interrogar.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o do nosso pa\u00eds e do nosso continente \u00e9 t\u00e3o s\u00e9ria que j\u00e1 podemos continuar fazendo de conta que fazemos. Temos que fazer. Temos que criar, construir alternativas e desenhar caminhos verdadeiros e cred\u00edveis.<\/p>\n<p>Precisamos de exercer os direitos humanos como o direito \u00e0 toler\u00e2ncia (eis outra palavra do vocabul\u00e1rio workshopista) mas temos que manter acesso a um direito fundamental que \u00e9 o direito \u00e0 indigna\u00e7\u00e3o. Quando nos deixarmos de nos indignar, ent\u00e3o estaremos a aceitar que os poderes pol\u00edticos nos tratem como seres que n\u00e3o pensam. Eu falo do direito \u00e0 indigna\u00e7\u00e3o perante o mega-cabritismo, perante crimes como os que mataram Siba-Siba e Carlos Cardoso. Perante a ideia de que a desorganiza\u00e7\u00e3o, o roubo e o caos s\u00e3o parte integrante da nossa natureza \u201ctropical\u201d.<\/p>\n<p>O nosso continente corre o risco de ser um territ\u00f3rio esquecido, secundarizado pelas estrat\u00e9gias de integra\u00e7\u00e3o global. Quando digo \u201cesquecido\u201d pensar\u00e3o que me refiro \u00e0 atitude das grandes pot\u00eancias. Mas eu refiro-me \u00e0s nossas pr\u00f3prias elites que viraram costas \u00e0s responsabilidades para os seus povos, \u00e0 forma como o seu comportamento predador ajuda a denegrir a nossa imagem e fere a dignidade de todos os africanos. O discurso de grande parte dos pol\u00edticos \u00e9 feito de lugares-comuns, incapazes de entender a complexidade da condi\u00e7\u00e3o dos nossos pa\u00edses e dos nossos povos. A demagogia f\u00e1cil continua a substituir a procura de solu\u00e7\u00f5es. A facilidade com que ditadores se apropriam dos destinos de na\u00e7\u00f5es inteiras \u00e9 algo que nos deve assustar. A facilidade com que se continua a explicar erros do presente atrav\u00e9s da culpabiliza\u00e7\u00e3o do passado deve ser uma preocupa\u00e7\u00e3o nossa. \u00c9 verdade que a corrup\u00e7\u00e3o e o abuso do poder n\u00e3o s\u00e3o, como pretendem alguns, exclusivas do nosso continente. Mas a margem de manobra que concedemos a tiranos \u00e9 espantosa. \u00c9 urgente reduzir os territ\u00f3rios de vaidade, arrog\u00e2ncia e impunidade dos que enriquecem \u00e0 custa do roubo. \u00c9 urgente redefinir as premissas da constru\u00e7\u00e3o de modelos de gest\u00e3o que excluem aqueles que vivem na oralidade e na periferia da l\u00f3gica e da racionalidade europeias.<\/p>\n<p>N\u00f3s todos, escritores e economistas, estamos vivendo com perplexidade um momento muito particular da nossa Hist\u00f3ria. At\u00e9 aqui Mo\u00e7ambique acreditou dispensar uma reflex\u00e3o radical sobre os seus pr\u00f3prios fundamentos. A na\u00e7\u00e3o mo\u00e7ambicana conquistou um sentido \u00e9pico na luta contra monstros exteriores. O inferno era sempre fora, o inimigo estava para al\u00e9m das fronteiras. Era Ian Smith, o apartheid, o imperialismo. O nosso pa\u00eds fazia, afinal, o que fazemos na nossa vida quotidiana: inventamos monstros para nos desassossegar. Mas os monstros tamb\u00e9m servem para nos tranquilizar. D\u00e1-nos sossego saber que eles moram fora de n\u00f3s. De repente, o mundo mudou e somos for\u00e7ados a procurar os nossos dem\u00f3nios dentro de casa. O inimigo, o pior dos inimigos, sempre esteve dentro de n\u00f3s. Descobrimos essa verdade t\u00e3o simples e ficamos a s\u00f3s com os nossos pr\u00f3prios fantasmas. E isso nunca nos aconteceu antes. Este \u00e9 um momento de abismo e desesperan\u00e7as. Mas pode ser, ao mesmo tempo, um momento de crescimento. Confrontados com as nossas mais fundas fragilidades, cabe-nos criar um novo olhar, inventar outras falas, ensaiar outras escritas. Vamos ficando, cada vez mais, a s\u00f3s com a nossa pr\u00f3pria responsabilidade hist\u00f3rica de criar uma outra Hist\u00f3ria. N\u00f3s n\u00e3o podemos mendigar ao mundo uma outra imagem. N\u00e3o podemos insistir numa atitude apelativa. A nossa \u00fanica sa\u00edda \u00e9 continuar o dif\u00edcil e longo caminho de conquistar um lugar digno para n\u00f3s e para a nossa p\u00e1tria. E esse lugar s\u00f3 pode resultar da nossa pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><span class=\"fonte\">Fonte: <\/span>www.macua.org<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante anos, dei aulas em diferentes faculdades da Universidade Eduardo Mondlane. Os meus colegas professores queixavam-se da progressiva falta de prepara\u00e7\u00e3o dos estudantes. 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