{"id":114165,"date":"2017-03-17T11:39:05","date_gmt":"2017-03-17T13:39:05","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=114165"},"modified":"2017-03-17T11:39:05","modified_gmt":"2017-03-17T13:39:05","slug":"parlamentarismo-e-presidencialismo-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/parlamentarismo-e-presidencialismo-no-brasil","title":{"rendered":"Parlamentarismo e Presidencialismo no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"594\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t    <a href=\"#1\" class=\"links\">Cap\u00edtulo I<\/a><br \/>\n\t\t\t<a href=\"#2\" class=\"links\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n\t\t\t<a href=\"#3\" class=\"links\">Cap\u00edtulo III<\/a><br \/>\n\t\t\t<a href=\"#4\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IV<\/a><br \/>\n\t\t\t<a href=\"#5\" class=\"links\">Cap\u00edtulo V<\/a><br \/>\n           <\/strong> <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t    <a href=\"#6\" class=\"links\">Cap\u00edtulo  VI<\/a><br \/>\n\t\t\t<a href=\"#7\" class=\"links\">Cap\u00edtulo  VII<\/a><br \/>\n\t\t\t<a href=\"#8\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><br \/>\n\t\t\t<a href=\"#9\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IX<\/a><br \/>\n\t\t\t<a href=\"#10\" class=\"links\">Cap\u00edtulo X<\/a><br \/>\n           <\/strong> <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h4>Medeiros e Albuquerque<\/h4>\n<h4><a name=\"1\">I &#8211; QUE O REGIME PRESIDENCIAL FOI UMA SURPRESA E UM LOGRO<\/a><\/h4>\n<p>O regime presidencial n&atilde;o foi institu&iacute;do no Brasil depois de<br \/>\n    uma propaganda que tivesse mostrado suas vantagens e desvantagens. Ele foi<br \/>\n    uma surpresa e um logro.<\/p>\n<p>&Agrave;s vezes, de entre v&aacute;rias solu&ccedil;&otilde;es ao mesmo problema,<br \/>\n    que est&atilde;o simultaneamente em debate, h&aacute; uma que consegue impor-se<br \/>\n    inesperadamente. Uma maioria ocasional determina escolhas, que assombram a<br \/>\n    maioria real; mas essas escolhas recaem sobre uma das solu&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    em discuss&atilde;o e sabe-se bem do que se trata.<\/p>\n<p>N&atilde;o foi nem mesmo isso o que aconteceu. O regime presidencial n&atilde;o<br \/>\n    suscitou nunca nenhum debate geral. Ele apareceu, um dia, em um projeto de<br \/>\n    constitui&ccedil;&atilde;o decretado pelo Governo Provis&oacute;rio. Ningu&eacute;m<br \/>\n    o discutiu. Foi aceito, por assim dizer, em sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p>A propaganda republicana se tinha feito sobre uma base, que se pode chamar<br \/>\n    &#8220;negativa&#8221;. O que se queria era destruir o regime monarquista.<\/p>\n<p>Essa &eacute; ali&aacute;s a regra em todas as propagandas revolucion&aacute;rias;<br \/>\n    o acordo se faz apenas acerca de um ponto: a necessidade de suprimir o que<br \/>\n    h&aacute;. Quanto ao que conv&eacute;m p&ocirc;r no lugar, as opini&otilde;es<br \/>\n    divergem. O caso &eacute; corrente mesmo em medicina, em que &eacute; muito<br \/>\n    mais f&aacute;cil que todos se entendem sobre a natureza da mol&eacute;stia<br \/>\n    do que sobre os processos de cura.<\/p>\n<p>A mol&eacute;stia que os republicanos queriam eliminar era a institui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do poder pessoal nas m&atilde;os da princesa D. Isabel. Todos sabiam que o<br \/>\n    imperador descurara a educa&ccedil;&atilde;o da filha: ela n&atilde;o tinha<br \/>\n    a compreens&atilde;o das altas quest&otilde;es sociais, que devia resolver.<br \/>\n    Era um esp&iacute;rito estreito, fan&aacute;tico, que s&oacute; se preocupava<br \/>\n    deveras com a religi&atilde;o e a m&uacute;sica.<\/p>\n<p>&Eacute; certo que assinara a lei de 13 de Maio, decretando a Aboli&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Mas todos haviam visto que o Imperador se afastara propositalmente a fim de<br \/>\n    lhe dar ensejo a que fizesse esse ato, para o qual ela n&atilde;o concorrera<br \/>\n    de modo eficaz, embora talvez o aplaudisse sinceramente, porque era uma quest&atilde;o,<br \/>\n    em que o lado sentimental dominava tudo.<\/p>\n<p>O que mostraria o talento de um estadista seria organizar as cousas, de modo<br \/>\n    que a Aboli&ccedil;&atilde;o n&atilde;o causasse nenhum abalo econ&ocirc;mico.<br \/>\n    Disso a Princesa jamais cuidou.<\/p>\n<p>Citavam-se fatos que mostravam a orienta&ccedil;&atilde;o do seu esp&iacute;rito.<br \/>\n    Certo dia, por exemplo, tivera a estranha id&eacute;ia de, como cumprimento<br \/>\n    de uma &#8220;promessa&#8221;, ir varrer uma igreja de Petr&oacute;polis.<br \/>\n    Via-se bem que ela tinha a mentalidade de uma burguesinha de classe m&eacute;dia,<br \/>\n    boa, honesta, virtuosa, mas sem nenhuma eleva&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Por outro lado, havia o Conde d&#8217;Eu. &Eacute; uma figura estranha a<br \/>\n    desse pr&iacute;ncipe, que talvez tenha sido um caso &uacute;nico: o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    que perdeu tr&ecirc;s coroas!<\/p>\n<p>Quando a B&eacute;lgica andou &agrave; procura de um rei, foi no Duque de<br \/>\n    Nemours, pai do Conde d&#8217;Eu, que pensou. A Inglaterra op&ocirc;s a isso<br \/>\n    o seu veto. Luiz Filipe viu que a aceita&ccedil;&atilde;o dessa candidatura<br \/>\n    seria a guerra e n&atilde;o permitiu que o irm&atilde;o a adotasse.<\/p>\n<p>Mais tarde, na Gr&eacute;cia, houve a mesma id&eacute;ia. Tamb&eacute;m essa<br \/>\n    na&ccedil;&atilde;o quis um rei, tamb&eacute;m por l&aacute; n&atilde;o faltou<br \/>\n    quem pensasse no Duque de Nemours. De novo, o veto da Inglaterra impediu que<br \/>\n    o ato se consumasse.<\/p>\n<p>Afinal, o Conde d&#8217;Eu ia ao menos ser pr&iacute;ncipe consorte, imperador<br \/>\n    n&atilde;o-reinante. Mesmo isso, por&eacute;m, o destino n&atilde;o lhe permitiu.<\/p>\n<p>O que o fazia antip&aacute;tico aos brasileiros era o esp&iacute;rito de<br \/>\n    lucro &#8212; esp&iacute;rito bem franc&ecirc;s, de economia, de aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao dinheiro. Esp&iacute;rito absolutamente contr&aacute;rio &agrave; nossa<br \/>\n    &iacute;ndole perdul&aacute;ria. O fato, que foi contestado mas que se tinha<br \/>\n    como certo, de ter ele empregado grandes somas na aquisi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de habita&ccedil;&otilde;es de gente pobre, habita&ccedil;&otilde;es sem conforto<br \/>\n    nem higiene, mas muito rendosas &#8212; os corti&ccedil;os &#8212; prejudicara-o<br \/>\n    muito no esp&iacute;rito popular. Contava-se de pessoas pobres que iam ao<br \/>\n    pa&ccedil;o receber esmolas da imperatriz e com essas esmolas pagavam os quartos<br \/>\n    dos &#8220;corti&ccedil;os&#8221; alugados pelo Conde d&#8217;Eu!<\/p>\n<p>De mais, ele sempre conservara o sotaque estrangeiro.<\/p>\n<p>Este pequeno pormenor, que parece insignificante e que, de fato, nada prova,<br \/>\n    &eacute; um dos que causam sempre detest&aacute;vel impress&atilde;o. Impress&atilde;o<br \/>\n    involunt&aacute;ria, injusta, mas profunda. Para o destino de Maria Antonieta,<br \/>\n    para o modo brutal pelo qual foi tratada a mulher de Paulo I, da R&uacute;ssia,<br \/>\n    quando esse imperador foi assassinado, para muitos outros acontecimentos hist&oacute;ricos,<br \/>\n    contribuiu essa particularidade. Talvez n&atilde;o fosse descabido lembrar<br \/>\n    que isso tamb&eacute;m influiu para a instala&ccedil;&atilde;o da rep&uacute;blica<br \/>\n    portuguesa, por causa de uma certa antipatia contra a rainha D. Am&eacute;lia,<br \/>\n    e mesmo contra D. Manuel, que, educado pela m&atilde;e e por professores franceses,<br \/>\n    tinha o sotaque desses professores.<\/p>\n<p>Um pr&iacute;ncipe que fala a l&iacute;ngua do pa&iacute;s que dirige com<br \/>\n    a pron&uacute;ncia de outro, lembra a cada instante a sua origem estrangeira<br \/>\n    e isso parece uma humilha&ccedil;&atilde;o para os seus s&uacute;ditos.<\/p>\n<p>Dir-se-&aacute; que afinal esse inconveniente n&atilde;o era consider&aacute;vel.<br \/>\n    Mas &eacute; preciso ter sempre em vista o fato das multid&otilde;es n&atilde;o<br \/>\n    raciocinarem com a serenidade e a l&oacute;gica dos indiv&iacute;duos, que<br \/>\n    meditam calma o sensatamente.<\/p>\n<p>O Conde d&#8217;Eu tinha ainda o inconveniente de ser surdo. A surdez, alheando<br \/>\n    os indiv&iacute;duos do meio em que est&atilde;o, lhes d&aacute;, &agrave;s<br \/>\n    vezes, a imputa&ccedil;&atilde;o de orgulhosos, porque n&atilde;o lhes permite<br \/>\n    tomar parte na conversa com a cordialidade, que todos desejariam.<\/p>\n<p>Os h&aacute;bitos da corte, tais como D. Pedro II os institu&iacute;ra, tinham<br \/>\n    sido sempre de uma familiaridade bonacheirona. Nunca ocorreria a nenhum soberano<br \/>\n    dar audi&ecirc;ncias populares, como as de D. Pedro, na Quinta de S. Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    todos os s&aacute;bados: num corredor, de p&eacute;, aceitando indistintamente<br \/>\n    todos os que queriam entrar. O seu ideal parecia ser o do &#8220;bon petit<br \/>\n    roi d&#8217;Yvetot&#8221;:<\/p>\n<p>Joyeux, simple et croyant le bien<\/p>\n<p> Pour toute garde, il riavait rien<\/p>\n<p> Qu&#8217;un chien&#8230;.<\/p>\n<p>Isso provava um bom cora&ccedil;&atilde;o, uma grande amabilidade; mas era<br \/>\n    incontestavelmente destitu&iacute;do de decoro. O Conde d&#8217;Eu educado<br \/>\n    &agrave; francesa, n&atilde;o se ajeitava inteiramente com esse sistema e<br \/>\n    os seus modos de agir, conquanto n&atilde;o fossem grosseiros nem orgulhosos,<br \/>\n    o punham num destaque antip&aacute;tico.<\/p>\n<p>Evidentemente uma revolu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se faz unicamente por<br \/>\n    esses pequenos m&oacute;veis, embora a soma de tais imponder&aacute;veis chegue,<br \/>\n    &agrave;s vezes, a totais espantosos. H&aacute; sempre, no fundo, os grandes<br \/>\n    motivos s&eacute;rios de descontentamento e mal-estar.<\/p>\n<p>J&aacute; se tem dito que nunca se fez revolu&ccedil;&atilde;o alguma sem<br \/>\n    graves raz&otilde;es de ordem econ&ocirc;mica. Talvez isso seja uma f&oacute;rmula<br \/>\n    muito absoluta, sobretudo para na&ccedil;&otilde;es com a constitui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute;tnica da nossa, em que as quest&otilde;es de sentimento primam muitas<br \/>\n    vezes as de interesses reais. Mas nem mesmo esses motivos econ&ocirc;micos<br \/>\n    faltavam em 1889, porque desde que come&ccedil;ara a propaganda abolicionista,<br \/>\n    o trabalho agr&iacute;cola se desorganizara. E o trabalho agr&iacute;cola<br \/>\n    era ent&atilde;o a nossa &uacute;nica fonte de riqueza. Por outro lado, a<br \/>\n    excessiva centraliza&ccedil;&atilde;o contrariava as prov&iacute;ncias, sobretudo<br \/>\n    as que mais produziam.<\/p>\n<p>De tudo isso se fazia culpado o regime imperial, o poder pessoal do Imperador<br \/>\n    e mesmo o parlamento. Acontecia que com a desorganiza&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    trabalho causada pela propaganda republicana ningu&eacute;m se preocupava<br \/>\n    com a do presidencialismo norte-americano, ningu&eacute;m tratava disso, ningu&eacute;m<br \/>\n    sabia o que era.<\/p>\n<p>Seria v&atilde;o procurar se, nalgum livro, nalgum perdido artigo, se encontravam<br \/>\n    alus&otilde;es a ele. A verdade &eacute; que no forte da propaganda, nos artigos<br \/>\n    de sensa&ccedil;&atilde;o, nos com&iacute;cios populares n&atilde;o se falava<br \/>\n    em tal cousa. Praticamente, o que todos queriam era, em vez da Princesa, um<br \/>\n    Presidente de Rep&uacute;blica! E mais nada.<\/p>\n<p>De repente, no projeto de Constitui&ccedil;&atilde;o apresentado pelo Governo<br \/>\n    Provis&oacute;rio surgiu o regime presidencial. O momento n&atilde;o comportava<br \/>\n    muitas discuss&otilde;es te&oacute;ricas. N&atilde;o havia tempo para estudar<br \/>\n    uma quest&atilde;o cuja gravidade ningu&eacute;m aprendia bem.<\/p>\n<p>Os que julgam os fatos daquela &eacute;poca precisam lembrar-se que era um<br \/>\n    per&iacute;odo de legisla&ccedil;&atilde;o a jacto cont&iacute;nuo. O Governo<br \/>\n    Provis&oacute;rio concentrava todos os poderes e desenvolvia uma atividade<br \/>\n    extraordin&aacute;ria em todos os dom&iacute;nios da administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e do direito, sob todas as suas formas. Os decretos se sucediam. Era um frenesi<br \/>\n    legislativo.<\/p>\n<p>N&atilde;o vai nisto censura. Nessas &eacute;pocas n&atilde;o se pode agir<br \/>\n    com a calma e a prud&ecirc;ncia dos tempos normais. Mas &eacute; preciso bem<br \/>\n    evocar esse estado de esp&iacute;rito &#8212; o que n&atilde;o &eacute; muito<br \/>\n    f&aacute;cil &#8212; para compreender porque o projeto de Constitui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o teve discuss&atilde;o na imprensa.<\/p>\n<p>Hoje isso parece estupendo. Na ocasi&atilde;o, era normal. Havia uma infinidade<br \/>\n    de outras preocupa&ccedil;&otilde;es que absorviam a aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    p&uacute;blica &#8212; preocupa&ccedil;&otilde;es urgentes, imediatas &#8212;<br \/>\n    que a desviavam de cogitar em cousas, que pareciam mais te&oacute;ricas, mais<br \/>\n    remotas. Al&eacute;m disso &eacute; bom n&atilde;o esquecer que se estava<br \/>\n    em plena ditadura, havia quase um ano. Um regime legal qualquer, mesmo o presidencial,<br \/>\n    parecia liberal diante da ditadura franca, completa, absoluta.<\/p>\n<p>Seja, por&eacute;m, como for, justificada ou injustificadamente, o fato &eacute;<br \/>\n    incontest&aacute;vel: o projeto da Constitui&ccedil;&atilde;o do Governo Provis&oacute;rio<br \/>\n    n&atilde;o foi discutido. Apareceu; todos os jornais o inseriram; no dia seguinte,<br \/>\n    ningu&eacute;m falava mais nisso.<\/p>\n<p>A Constituinte foi uma assembl&eacute;ia de calouros. A maioria dos seus<br \/>\n    membros entrava por a&iacute; na vida p&uacute;blica. Um grande n&uacute;mero<br \/>\n    deles vinha dos quart&eacute;is: eram oficiais mo&ccedil;os, que quase todos<br \/>\n    se consideravam solid&aacute;rios com Benjamin Constant. S&oacute; havia nessa<br \/>\n    assembl&eacute;ia um grupo realmente ativo, coerente, sabendo mais ou menos<br \/>\n    o que queria: o grupo positivista. Embora pequeno, pesou muito &#8212; e nefastamente<br \/>\n    &#8212; sobre a Constituinte. A ele aderiam em regra todos os militares, que<br \/>\n    se julgavam obrigados a concordar com o positivismo, porque era a doutrina<br \/>\n    de Benjamin Constant. A ignor&acirc;ncia de quase todos sobre as quest&otilde;es<br \/>\n    pol&iacute;ticas mais elementares chegava a limites estupendos!<\/p>\n<p>Ora, o positivismo, tendendo naturalmente para a ditadura, preferia o presidencialismo<br \/>\n    ao regime parlamentar. Quando se l&ecirc;em hoje os debates daquela assembl&eacute;ia,<br \/>\n    v&ecirc;-se bem que os pr&oacute;prios positivistas mais ilustrados, que mais<br \/>\n    influ&ecirc;ncia tiveram, ignoravam o mecanismo real do regime presidencial.<br \/>\n    O que eles sabiam era que estava em antagonismo com o Regime Parlamentar detestado<br \/>\n    por Augusto Comte e que se aproximava mais do sistema ditatorial. Era o que<br \/>\n    os decidia.<\/p>\n<p>Contra isso havia na Constituinte um pequeno n&uacute;mero de pol&iacute;ticos<br \/>\n    do tempo do Imp&eacute;rio, infensos ao modo de governo que se queria implantar.<br \/>\n    Mas para o combaterem faltava-lhes autoridade, por dois motivos. Primeiro,<br \/>\n    porque tamb&eacute;m o n&atilde;o conheciam. Depois, porque n&atilde;o se<br \/>\n    atreviam &agrave; luta, para n&atilde;o parecerem suspeitos. Os positivistas<br \/>\n    faziam crer que o parlamentarismo era quase a mesma cousa que a monarquia<br \/>\n    e os antigos monarquistas n&atilde;o ousavam defend&ecirc;-lo, porque pareceriam<br \/>\n    traidores &agrave; Rep&uacute;blica. Da&iacute; a timidez dos seus protestos<br \/>\n    em uma assembl&eacute;ia, em que a educa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica<br \/>\n    da maioria era inteiramente nula.<\/p>\n<p>Nem ao menos a falta de discuss&atilde;o na Constituinte podia ser suprida<br \/>\n    pela discuss&atilde;o na imprensa, porque, durante o tempo em que aquela assembl&eacute;ia<br \/>\n    esteve reunida, o Governo Provis&oacute;rio continuava a legislar. Quanto<br \/>\n    mais sentia que o seu poder ia acabar, mais usava dele. Instru&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    justi&ccedil;a, organiza&ccedil;&atilde;o militar, tudo se reformava; c&oacute;digos<br \/>\n    variados se sucediam. Ainda depois da Constitui&ccedil;&atilde;o promulgada,<br \/>\n    decretos do Governo Provis&oacute;rio antedatados apareceram!<\/p>\n<p>A essas medidas, que feriam interesses imediatos, era imposs&iacute;vel n&atilde;o<br \/>\n    prestar aten&ccedil;&atilde;o. Elas a monopolizavam quase inteiramente. E<br \/>\n    durante esse tempo a Constituinte ia votando a institui&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    um regime, de cujo funcionamento a quase totalidade dos seus membros n&atilde;o<br \/>\n    tinha a m&iacute;nima not&iacute;cia.<\/p>\n<p>Depois, para muita gente, havia em favor dele uma raz&atilde;o verbal, que<br \/>\n    pode parecer rid&iacute;cula e f&uacute;til, uma raz&atilde;o desarrazoada<br \/>\n    &#8212; se assim pode dizer-se. Era uma simples analogia verbal. N&oacute;s<br \/>\n    t&iacute;nhamos passado a ser os Estados Unidos do Brasil. Logo, dev&iacute;amos<br \/>\n    ter as institui&ccedil;&otilde;es dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Todos os que estudam a psicologia das multid&otilde;es sabem como as analogias<br \/>\n    verbais s&atilde;o poderosas e influentes. N&atilde;o h&aacute; ali&aacute;s<br \/>\n    nisso nenhuma aberra&ccedil;&atilde;o. H&aacute; uma falta de aten&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    uma falta de exame das quest&otilde;es. S&oacute; se deveriam dar nomes iguais<br \/>\n    a cousas iguais. N&atilde;o &eacute;, entretanto, o que sucede; mas uma infinidade<br \/>\n    de pessoas raciocinam como se fosse essa a verdade. Havia, portanto, obscuramente<br \/>\n    na cabe&ccedil;a de muita gente, este silogismo:<\/p>\n<p>&#8220;Na&ccedil;&otilde;es, que se chamam do mesmo modo, devem ter um governo<br \/>\n    igual;<\/p>\n<p>&#8220;Ora, a rep&uacute;blica norte-americana e a brasileira chamam-se agora<br \/>\n    igualmente Estados Unidos;<\/p>\n<p>&#8220;Logo, a rep&uacute;blica brasileira deve ter um governo igual ao da<br \/>\n    norte-americana&#8221;.<\/p>\n<p>Escrito, exposto em termos claros, analisado &agrave; luz da raz&atilde;o,<br \/>\n    este pretenso silogismo &eacute; uma tolice monstruosa, porque ele parte da<br \/>\n    identidade real inexistente das cousas de nome igual; mas ele pesou muito<br \/>\n    na escolha do regime presidencial. Pesou, como tudo o que concorreu para o<br \/>\n    seu estabelecimento, sem que ningu&eacute;m o ousasse enunciar. Porque a verdade<br \/>\n    &eacute; esta: a propaganda republicana se fez sem que a maioria pensasse<br \/>\n    no regime presidencial; n&atilde;o se sabia o que era, n&atilde;o se falava<br \/>\n    nele. O projeto de Constitui&ccedil;&atilde;o do Governo Provis&oacute;rio<br \/>\n    n&atilde;o teve discuss&atilde;o na imprensa. Na Constituinte n&atilde;o a<br \/>\n    teve tamb&eacute;m com a amplitude que merecia, porque os que podiam defender<br \/>\n    o regime parlamentar n&atilde;o ousavam, para n&atilde;o parecerem suspeitos.<\/p>\n<p>Assim, a institui&ccedil;&atilde;o do presidencialismo entre n&oacute;s se<br \/>\n    fez por surpresa. Por surpresa &#8212; e gra&ccedil;as &agrave; ignor&acirc;ncia<br \/>\n    geral em que todos estavam a seu respeito. N&atilde;o foi uma escolha consciente<br \/>\n    da Na&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<h4><a name=\"2\">II &#8211; QUE O PROGRESSO DO BRASIL A PARTIR DE 1889 N&Atilde;O SE FEZ POR CAUSA<br \/>\n    DO REGIME PRESIDENCIAL, MAS APESAR DELE&#8230;<\/a><\/h4>\n<p>A favor do regime presidencial ouvia-se, &agrave;s vezes, em 1890, depois<br \/>\n    que o Governo Provis&oacute;rio o prop&ocirc;s, uma alega&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Ningu&eacute;m a aprofundava. Aparecia, &agrave;s vezes, aqui e ali, em artigos,<br \/>\n    em discursos, em conversas. Dizia-se que o regime que tinha dado aos Estados<br \/>\n    Unidos a sua magn&iacute;fica prosperidade n&atilde;o podia deixar de fazer<br \/>\n    o mesmo ao Brasil.<\/p>\n<p>Quando se examina essa afirma&ccedil;&atilde;o, verifica-se que ela &eacute;<br \/>\n    o mais trivial dos sofismas: o que consiste em atribuir &agrave;s seq&uuml;&ecirc;ncias<br \/>\n    ou concomit&acirc;ncias de fen&ocirc;menos o valor de causas e efeitos. &#8220;Post<br \/>\n    hoc. ergo propter hoc&#8230;&#8221;. Faltava demonstrar que a prosperidade dos<br \/>\n    Estados Unidos era devida ao seu sistema de governo. Faltava, depois, demonstrar<br \/>\n    que o mesmo efeito produzido l&aacute; se reproduziria no Brasil.<\/p>\n<p>Nenhuma dessas demonstra&ccedil;&otilde;es &eacute; poss&iacute;vel.<\/p>\n<p>Todos os governos e todas as oposi&ccedil;&otilde;es argumentam com esse<br \/>\n    sofisma. Quando se acusa um partido reacion&aacute;rio de ser nefasto a qualquer<br \/>\n    pa&iacute;s, em cuja dire&ccedil;&atilde;o ele est&aacute; h&aacute; muito<br \/>\n    tempo, a resposta que sempre aparece &eacute; a de compara&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do estado do pa&iacute;s, no momento em que o partido assumiu o poder e no<br \/>\n    momento em que &eacute; feita a acusa&ccedil;&atilde;o. A compensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a isso &eacute; dada pelas oposi&ccedil;&otilde;es, que n&atilde;o deixam<br \/>\n    de tornar os governos respons&aacute;veis por tudo o que de mau ocorre durante<br \/>\n    as suas gest&otilde;es.<\/p>\n<p>&Eacute; exatamente a mesma falta de l&oacute;gica nos dois casos.<\/p>\n<p>Pelo fato de uma na&ccedil;&atilde;o estar mais adiantada dez anos depois<br \/>\n    de ter subido ao poder um certo governo, n&atilde;o quer dizer que o progresso<br \/>\n    tenha sido promovido por esse governo. O mundo n&atilde;o p&aacute;ra. Mesmo<br \/>\n    os governos mais retr&oacute;grados e nefastos n&atilde;o t&ecirc;m impedido<br \/>\n    o progresso de certas na&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Se fosse poss&iacute;vel preceder experimentalmente e lidar com uma grande<br \/>\n    na&ccedil;&atilde;o como se lida com um animal de laborat&oacute;rio, seria<br \/>\n    necess&aacute;rio submet&ecirc;-la a um certo regime, notar os resultados<br \/>\n    obtidos, rep&ocirc;-la no estado anterior e recome&ccedil;ar a experi&ecirc;ncia<br \/>\n    com outro regime, para ent&atilde;o comparar o que se tivesse obtido com um<br \/>\n    e com outro. Mas isso n&atilde;o se pode fazer. N&atilde;o h&aacute; rem&eacute;dio<br \/>\n    sen&atilde;o recorrer a indu&ccedil;&otilde;es e dedu&ccedil;&otilde;es diversas:<br \/>\n    imaginar o que se poderia passar nesta e naquela hip&oacute;tese.<\/p>\n<p>Em todo caso, ainda uma vez se repita: o mundo n&atilde;o p&aacute;ra. Submetido<br \/>\n    ao pior dos governos, um pa&iacute;s qualquer pode prosperar.<\/p>\n<p>H&aacute; quem ache o absolutismo um governo detest&aacute;vel? No entanto,<br \/>\n    a R&uacute;ssia, mesmo sob esse odioso regime prosperou. At&eacute; 1911,<br \/>\n    M&ocirc;naco n&atilde;o tinha nem ao menos, como hoje, o menor simulacro de<br \/>\n    limita&ccedil;&atilde;o aos poderes do Pr&iacute;ncipe que a dirige. Dir&aacute;<br \/>\n    algu&eacute;m que a prosperidade desse principado prova as excel&ecirc;ncias<br \/>\n    do absolutismo?<\/p>\n<p>Dir&aacute; algu&eacute;m que o mal &eacute; o clericalismo? Mas a B&eacute;lgica<br \/>\n    fez, durante 40 anos de governo clerical, um admir&aacute;vel progresso.<\/p>\n<p>H&aacute; detratores para os governos democr&aacute;ticos? Pode-se mostrar-lhes<br \/>\n    que a Fran&ccedil;a, a Su&iacute;&ccedil;a, a Nova Zel&acirc;ndia, n&atilde;o<br \/>\n    t&ecirc;m cessado de progredir.<\/p>\n<p>Como se v&ecirc;, esse argumento serve para defender todas as causas poss&iacute;veis<br \/>\n    e imagin&aacute;veis. Desde que uma na&ccedil;&atilde;o tem um longo per&iacute;odo<br \/>\n    de paz, tudo se organiza, e, apesar da a&ccedil;&atilde;o nefasta dos governos<br \/>\n    mais detest&aacute;veis, ela vai progredindo.<\/p>\n<p>Em cada caso particular, os que s&atilde;o partid&aacute;rios de um sistema<br \/>\n    de governo diverso do que est&aacute; em vigor, asseguram que, se se adotasse<br \/>\n    a f&oacute;rmula preconizada por eles. a situa&ccedil;&atilde;o teria mais<br \/>\n    vantagens e muito menos inconvenientes &#8212; &Eacute; uma quest&atilde;o<br \/>\n    a discutir.<\/p>\n<p>Pode-se mostrar &#8212; e mais para diante o faremos &#8212; como o regime<br \/>\n    presidencial causou certos preju&iacute;zos aos Estados Unidos. Mas sem, por<br \/>\n    ora, tratar disso, seria uma in&eacute;pcia atribuir-lhe a riqueza e a prosperidade<br \/>\n    econ&ocirc;mica da grande rep&uacute;blica. Nenhum escritor norte-americano<br \/>\n    se lembrou dessa bobagem.<\/p>\n<p>O progresso dos Estados Unidos veio principalmente da riqueza de suas minas<br \/>\n    &#8212; a come&ccedil;ar pelas que mais interessavam: as de ferro e carv&atilde;o<br \/>\n    de pedra.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; preciso fazer um esfor&ccedil;o muito grande de imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para calcular como teria sido outro o destino daquela na&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    caso o carv&atilde;o de pedra lhe houvesse faltado. Se, em compensa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    n&oacute;s o tiv&eacute;ssemos, tamb&eacute;m a nossa situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    seria bem diversa &#8212; e bem melhor, embora o nosso governo fosse at&eacute;<br \/>\n    francamente absolutista.<\/p>\n<p>O nervo da ind&uacute;stria moderna &eacute; o carv&atilde;o de pedra. S&oacute;<br \/>\n    s&atilde;o verdadeiramente ricas as na&ccedil;&otilde;es que os possuem. Tudo<br \/>\n    mais pode considerar-se relativamente secund&aacute;rio.<\/p>\n<p>&Agrave;s vezes, a prosperidade de uma na&ccedil;&atilde;o resulta de um<br \/>\n    fato long&iacute;nquo para o qual ela em nada contribuiu. As guerras do Transwaal<br \/>\n    e Russo-Japonesa serviram extraordinariamente &agrave; prosperidade da Rep&uacute;blica<br \/>\n    Argentina. De repente, foi necess&aacute;rio aumentar a exporta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de carnes conservadas, para os ex&eacute;rcitos em campanha. E desde logo<br \/>\n    a ind&uacute;stria pastoril na Argentina tomou um incremento formid&aacute;vel.<br \/>\n    O pa&iacute;s passou de um regime de morat&oacute;ria a um regime de incr&iacute;vel<br \/>\n    abund&acirc;ncia.<\/p>\n<p>Se, na v&eacute;spera das declara&ccedil;&otilde;es daquelas guerras, a Rep&uacute;blica<br \/>\n    Argentina tivesse come&ccedil;ado a ser uma monarquia ou at&eacute; uma teocracia,<br \/>\n    nem por isso os ex&eacute;rcitos que se batiam na &Aacute;frica e na Manch&uacute;ria<br \/>\n    comeriam um s&oacute; carneiro a menos; e, feita a prosperidade da na&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    por causa daquele motivo, os turifer&aacute;rios do novo governo n&atilde;o<br \/>\n    deixariam de alegar essa prosperidade como uma prova da excel&ecirc;ncia das<br \/>\n    novas institui&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Como e por que ganhou o Brasil o maior cliente da sua principal cultura:<br \/>\n    do caf&eacute;? Porque foi precisamente, a prop&oacute;sito do imposto sobre<br \/>\n    o ch&aacute;, que a revolu&ccedil;&atilde;o para a independ&ecirc;ncia norte-americana<br \/>\n    come&ccedil;ou. O caf&eacute;, suced&acirc;neo do ch&aacute;, achou o campo<br \/>\n    desembara&ccedil;ado do seu concorrente.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; preciso insistir em arrombar esta porta aberta.<\/p>\n<p>A s&eacute;rio, de boa f&eacute;, ningu&eacute;m d&aacute; argumentos dessa<br \/>\n    ordem.<\/p>\n<p>Em um discurso justamente c&eacute;lebre, Lauro M&uuml;ller, querendo achar<br \/>\n    m&eacute;ritos especiais para o regime presidencial, descobriu que foi ele<br \/>\n    quem tornou poss&iacute;vel a extin&ccedil;&atilde;o da febre amarela no Rio<br \/>\n    de Janeiro.<\/p>\n<p>Todos sabem como Lauro M&uuml;ller era um esp&iacute;rito culto e l&uacute;cido.<br \/>\n    A Rep&uacute;blica n&atilde;o teve muitos homens a quem se pudesse, como a<br \/>\n    ele, dar, sem hesita&ccedil;&atilde;o, o t&iacute;tulo de &#8220;estadista&#8221;.<br \/>\n    Nenhum, portanto, compreendia mais facilmente a absoluta falta de valor da<br \/>\n    alega&ccedil;&atilde;o que fazia. Mas, se ele a fez, foi porque, como se poderia<br \/>\n    dizer parodiando a frase de Pascal, a ret&oacute;rica tem raz&otilde;es que<br \/>\n    a Raz&atilde;o n&atilde;o conhece.<\/p>\n<p>Essa alega&ccedil;&atilde;o &eacute; um exemplo caracter&iacute;stico, de<br \/>\n    uma argumenta&ccedil;&atilde;o sof&iacute;stica que se encontra a cada passo,<br \/>\n    sem que ningu&eacute;m se d&ecirc; ao trabalho de examin&aacute;-la. A todo<br \/>\n    instante, se v&ecirc;em algumas administra&ccedil;&otilde;es louvadas porque<br \/>\n    instalaram certos aperfei&ccedil;oamentos. E isso as p&otilde;e em contraste<br \/>\n    com as anteriores, que n&atilde;o o haviam feito.<\/p>\n<p>Esquecem-se, por&eacute;m, de dizer se as anteriores poderiam ter institu&iacute;do<br \/>\n    os tais aperfei&ccedil;oamentos.<\/p>\n<p>Figurem um diretor dos tel&eacute;grafos que, desejando apregoar os seus<br \/>\n    m&eacute;ritos, apresentasse como seu principal t&iacute;tulo de gl&oacute;ria<br \/>\n    ter institu&iacute;do no pa&iacute;s a telegrafia sem fios.<\/p>\n<p>Excelente id&eacute;ia! Faltava, entretanto, acrescentar que ele tomara conta<br \/>\n    do seu cargo em 1896. Ora, como antes dessa &eacute;poca a telegrafia sem<br \/>\n    fios ainda n&atilde;o estava inventada, claro &eacute; que, se os seus antecessores<br \/>\n    n&atilde;o a instalaram, isso n&atilde;o prova nada contra eles.<\/p>\n<p>Um caso inteiramente an&aacute;logo ocorreu com a febre amarela.<\/p>\n<p>Todos sabem que a extin&ccedil;&atilde;o da febre amarela no Rio de Janeiro<br \/>\n    &eacute; um dos mais belos exemplos de aplica&ccedil;&atilde;o legal sistem&aacute;tica<br \/>\n    de uma doutrina cient&iacute;fica. O que fez o grande m&eacute;rito de Oswaldo<br \/>\n    Cruz foi ter reconhecido a import&acirc;ncia cient&iacute;fica da doutrina<br \/>\n    da transmiss&atilde;o da febre amarela pelos mosquitos e de ter sabido achar<br \/>\n    as medidas administrativas necess&aacute;rias para tirar desse conhecimento<br \/>\n    todas as aplica&ccedil;&otilde;es que comporta. Mas a teoria cient&iacute;fica,<br \/>\n    em que ele se baseou, s&oacute; ficou fora de d&uacute;vida depois das memor&aacute;veis<br \/>\n    experi&ecirc;ncias de Cuba &#8212; isto &eacute;, depois de 1898. Antes disso,<br \/>\n    portanto, fosse o Brasil imp&eacute;rio, reino, teocracia, rep&uacute;blica<br \/>\n    parlamentar ou presidencial, nenhum governo podia extinguir a febre amarela<br \/>\n    no Rio de Janeiro. S&oacute; por acaso se tomariam as provid&ecirc;ncias higi&ecirc;nicas<br \/>\n    especial&iacute;ssimas, que eram necess&aacute;rias, porque ningu&eacute;m<br \/>\n    antes disso sabia o que era preciso fazer.<\/p>\n<p>Evidentemente esse fato n&atilde;o tira em nada o m&eacute;rito ao Presidente<br \/>\n    da Rep&uacute;blica do quatri&ecirc;nio de 1902 a 1906. Todos sabem que foi<br \/>\n    ele &#8212; ele pessoalmente &#8212; quem por iniciativa pr&oacute;pria sustentou<br \/>\n    mansa, mas firmemente, com sua energia inquebrant&aacute;vel, o ilustre diretor<br \/>\n    de sa&uacute;de p&uacute;blica, que ousou as medidas necess&aacute;rias para<br \/>\n    a extin&ccedil;&atilde;o da febre amarela. A execu&ccedil;&atilde;o das principais<br \/>\n    levou apenas dois anos. Ao fim do primeiro, j&aacute; a situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mudara de tal modo, que ningu&eacute;m se atreveria a voltar atr&aacute;s.<br \/>\n    Ora, n&atilde;o h&aacute; quem possa dizer porque, se o Dr. Rodrigues Alves,<br \/>\n    em vez de ser Presidente da Rep&uacute;blica, tivesse sido Presidente do Conselho<br \/>\n    ou Ministro do Interior de um regime parlamentar, n&atilde;o teria feito isso<br \/>\n    mesmo. O m&eacute;rito foi dele pessoalmente e n&atilde;o de regime. Nem do<br \/>\n    regime presidencial, nem do regime republicano.<\/p>\n<p>Pode-se at&eacute; notar que ele foi um dos homens pol&iacute;ticos que nos<br \/>\n    veio j&aacute; sagrado da monarquia. Se ela houvesse continuado, ele a teria<br \/>\n    servido com a mesma alta dedica&ccedil;&atilde;o patri&oacute;tica com que<br \/>\n    sempre serviu seu pa&iacute;s.<\/p>\n<p>&Eacute; preciso, portanto, quando se elogia um sistema de governo pelos<br \/>\n    progressos que realizou, procurando assim demonstrar a sua superioridade sobre<br \/>\n    outro, fazer a prova de que esses progressos dependem de virtudes intr&iacute;nsecas<br \/>\n    do sistema e que, portanto, outro qualquer n&atilde;o os realizaria.<\/p>\n<p>Assim, se os Estados Unidos se t&ecirc;m desenvolvido de um modo vertiginoso,<br \/>\n    sob o regime presidencial, nada prova que n&atilde;o tivessem tido o mesmo<br \/>\n    desenvolvimento sob o regime parlamentar. A Austr&aacute;lia, federa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    parlamentar de Estados parlamentares, fundada em 1901, n&atilde;o tem tido<br \/>\n    desenvolvimento menos vertiginoso que os Estados Unidos.<\/p>\n<p>Era, entretanto, a vis&atilde;o da prosperidade norte-americana que, em 1890,<br \/>\n    levava muita gente a preconizar para o Brasil o regime presidencial.<\/p>\n<h4><a name=\"3\">III &#8211; QUE HISTORICAMENTE O REGIME PRESIDENCIAL &Eacute; UM ABORTO, POR PARADA<br \/>\n    DE DESENVOLVIMENTO, DO REGIME PARLAMENTAR&#8230;<\/a><\/h4>\n<p>Se se pudesse falar sem muito pedantismo em uma defini&ccedil;&atilde;o &#8220;biol&oacute;gica&#8221;<br \/>\n    do regime presidencial, dir-se-ia que ele era um aborto do regime parlamentar.<br \/>\n    Um aborto por parada de desenvolvimento.<\/p>\n<p>Figurem um ser vivo que, ainda em pleno per&iacute;odo de crescimento, fosse<br \/>\n    metido em um recept&aacute;culo f&eacute;rreo, apertado, que lhe tolhesse<br \/>\n    a possibilidade de expandir-se e evoluir. &Eacute; o caso do regime presidencial.<\/p>\n<p>Ele n&atilde;o nasceu de uma concep&ccedil;&atilde;o especial, visando criar<br \/>\n    qualquer outra cousa nova e boa.<\/p>\n<p>N&atilde;o passou da utiliza&ccedil;&atilde;o ocasional de um mau estado<br \/>\n    de cousas, que, se se perpetuou, foi pelo poder paralisante que sempre exercem<br \/>\n    os c&oacute;digos e as leis escritas.<\/p>\n<p>Quando se fez a independ&ecirc;ncia dos Estados Unidos, ningu&eacute;m pensou<br \/>\n    em achar uma forma nova de governo. Summer Maine mostrou admiravelmente que<br \/>\n    se tratou apenas de substituir o governador nomeado pelo rei, por um governador<br \/>\n    eleito pelo povo. Ningu&eacute;m tinha preocupa&ccedil;&atilde;o de inovar.<br \/>\n    Ningu&eacute;m pretendeu estabelecer uma divis&atilde;o rigorosa de poderes<br \/>\n    independentes. A prova disso &eacute; que o Senado norte-americano ficou tendo<br \/>\n    o direito de aprovar ou reprovar todas as nomea&ccedil;&otilde;es de funcion&aacute;rios<br \/>\n    p&uacute;blicos, atribui&ccedil;&atilde;o que ainda hoje conserva.<\/p>\n<p>As col&ocirc;nias inglesas eram regidas por um governo id&ecirc;ntico ao<br \/>\n    da metr&oacute;pole: um representante do rei e um conselho com atribui&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    em parte legislativas, em parte executivas. Esse representante do rei tinha<br \/>\n    poderes muito extensos: t&atilde;o extensos na col&ocirc;nia, como os do pr&oacute;prio<br \/>\n    rei na metr&oacute;pole. Ora, nesse tempo, o rei era, de fato, absoluto. As<br \/>\n    &uacute;nicas restri&ccedil;&otilde;es s&eacute;rias ao seu poder diziam em<br \/>\n    parte respeito ao levantamento de novos impostos. O mais, na pr&aacute;tica,<br \/>\n    n&atilde;o tinha import&acirc;ncia.<\/p>\n<p>Consumada a revolu&ccedil;&atilde;o nos Estados Unidos, era necess&aacute;rio<br \/>\n    substituir o mandat&aacute;rio do rei por um mandat&aacute;rio do povo. Foi<br \/>\n    o que se fez. Havia o Conselho, que assistia o governador. Converteu-se em<br \/>\n    Senado com as atribui&ccedil;&otilde;es que j&aacute; tinha. Era necess&aacute;rio<br \/>\n    criar um &oacute;rg&atilde;o equivalente &agrave; C&acirc;mara dos Comuns.<br \/>\n    Criou-se. Summer Maine mostrou, fazendo o confronto da Constitui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos Estados Unidos, com o regime colonial, que o precedeu e com o regime que<br \/>\n    imperava na Inglaterra na mesma &eacute;poca, a absoluta analogia dos tr&ecirc;s.<\/p>\n<p>Tomou-se o que havia, fazendo o m&iacute;nimo de altera&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    necessitadas imperiosamente pelo fato da independ&ecirc;ncia, e reduziu-se<br \/>\n    tudo a escrito, principalmente porque os Estados queriam garantir-se contra<br \/>\n    as invas&otilde;es do poder central.<\/p>\n<p>No meio de tudo, sem que, ali&aacute;s, se tivesse procurado expressamente,<br \/>\n    apareceu uma cousa maravilhosa: a constitui&ccedil;&atilde;o do Poder Judici&aacute;rio.<br \/>\n    Ainda a&iacute;, seguiu-se a tradi&ccedil;&atilde;o inglesa, dando-se-lhe<br \/>\n    apenas a forma expressa da lei escrita.<\/p>\n<p>A modifica&ccedil;&atilde;o, que ocorreu, dependeu mais dos primeiros homens<br \/>\n    que exerceram os altos cargos judiciais que de qualquer outra cousa. Em parte<br \/>\n    alguma, se encontra um s&oacute; texto declarando que o Supremo Tribunal ter&aacute;<br \/>\n    qualquer supremacia sobre os outros poderes. A supremacia que ele veio a conseguir<br \/>\n    decorreu do m&eacute;rito pessoal dos primeiros ministros daquela alta corpora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que firmaram praxes, de ent&atilde;o em diante respeitadas.<\/p>\n<p>Em resumo, ainda uma vez: o regime presidencial &eacute; a adapta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a uma na&ccedil;&atilde;o republicana, com o m&iacute;nimo de modifica&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    de um regime colonial, em que o chefe da col&ocirc;nia era um representante<br \/>\n    do poder absoluto do rei.<\/p>\n<p>Na metr&oacute;pole esse regime foi-se modificando pouco a pouco &#8212;<br \/>\n    ou antes &#8212; foi-se modificando muito rapidamente: em um s&eacute;culo<br \/>\n    depois chegava enfim ao regime parlamentar.<\/p>\n<p>Na col&ocirc;nia emancipada e tornada uma na&ccedil;&atilde;o independente,<br \/>\n    n&atilde;o p&ocirc;de seguir a mesma evolu&ccedil;&atilde;o por causa da dificuldade<br \/>\n    que lhe op&ocirc;s o texto da Constitui&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Todos sabem, de fato, como a simples circunst&acirc;ncia de se formular por<br \/>\n    escrito uma lei, um preceito qualquer, torna a sua revoga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mais dif&iacute;cil. As rela&ccedil;&otilde;es, que t&ecirc;m livros santos,<br \/>\n    levantam logo numerosos dogmas. Esses dogmas, no momento em que s&atilde;o<br \/>\n    formulados, n&atilde;o suscitam dificuldades. Est&atilde;o de acordo com as<br \/>\n    cren&ccedil;as, com as opini&otilde;es da maioria. S&oacute; algum tempo depois,<br \/>\n    &eacute; que o antagonismo aparece e &eacute; dific&iacute;limo de resolver,<br \/>\n    porque a letra escrita &eacute; de uma tenacidade terr&iacute;vel. Scripta<br \/>\n    manent&#8230;<\/p>\n<p>Com os c&oacute;digos sucede o mesmo.<\/p>\n<p>A Inglaterra n&atilde;o tinha esse embara&ccedil;o. P&ocirc;de fazer a transi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    suave do poder absoluto para o poder parlamentar. Os Estados Unidos ficaram<br \/>\n    no molde que a revolu&ccedil;&atilde;o os for&ccedil;ara a adotar.<\/p>\n<p>&Eacute; neste sentido que se pode dizer que o sistema presidencial n&atilde;o<br \/>\n    passa de um aborto por parada de desenvolvimento.<\/p>\n<p>Em cada ocasi&atilde;o, um determinado pa&iacute;s e suas col&ocirc;nias<br \/>\n    tinham uma certa forma de governo. Uma dessas col&ocirc;nias, tornada independente,<br \/>\n    reduziu a escrito esse sistema e parou nele. A metr&oacute;pole e todas as<br \/>\n    outras, na Europa, na Am&eacute;rica, na &Aacute;frica e na Oceania evolu&iacute;ram<br \/>\n    para o regime parlamentar. S&oacute; os Estados Unidos ficaram im&oacute;veis.<br \/>\n    Igualdade de ra&ccedil;a, igualdade de tradi&ccedil;&otilde;es. &Eacute; evidente<br \/>\n    que, se os Estados Unidos n&atilde;o tivessem sido contrariados na sua marcha<br \/>\n    progressiva pela rigidez de sua Constitui&ccedil;&atilde;o, teriam tamb&eacute;m<br \/>\n    chegado ao regime parlamentar.<\/p>\n<p>Nem ao menos se pode alegar que houve a influ&ecirc;ncia do sistema federativo,<br \/>\n    ou que foi uma quest&atilde;o de meio, especial &agrave; Am&eacute;rica. O<br \/>\n    Canad&aacute; &eacute; federa&ccedil;&atilde;o. O Canad&aacute; &eacute; na<br \/>\n    Am&eacute;rica. O Canad&aacute; &eacute; regido pelo sistema parlamentar.<\/p>\n<p>H&aacute; exemplos de povos, outros, diversos, terem passado por uma evolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    normal, do regime presidencial para o parlamentar. A marcha contr&aacute;ria<br \/>\n    s&oacute; se deu no Brasil e ningu&eacute;m dir&aacute; que tenha sido por<br \/>\n    uma evolu&ccedil;&atilde;o normal; foi por uma revolu&ccedil;&atilde;o que<br \/>\n    n&atilde;o visava de modo algum esse fim e s&oacute; chegou a ele por surpresa.<br \/>\n    N&atilde;o foi marcha; foi salto. Salto e queda.<\/p>\n<p>A Constitui&ccedil;&atilde;o do imp&eacute;rio era &#8220;presidencial&#8221;.<br \/>\n    Pode-se bem dizer isto, sem gracejo nem paradoxo. A escolha dos ministros<br \/>\n    devia depender unicamente do imperador. Em parte alguma se falava na confian&ccedil;a<br \/>\n    do parlamento. Era assim que Pedro I, int&eacute;rprete aut&ecirc;ntico de<br \/>\n    um texto que ele promulgara, entendia as cousas.<\/p>\n<p>A despeito do texto, a evolu&ccedil;&atilde;o se fez para o regime parlamentar.<\/p>\n<p>As leis constitucionais da Fran&ccedil;a n&atilde;o dizem que os ministros<br \/>\n    devem depender do parlamento. Dizem que eles dependem do presidente. Lida,<br \/>\n    a Constitui&ccedil;&atilde;o &eacute; presidencial. Presidencialmente a queria<br \/>\n    executar Mac-Mahon. A evolu&ccedil;&atilde;o se fez no sentido parlamentar.<\/p>\n<p>Mesmo caso na B&eacute;lgica.<\/p>\n<p>Os acontecimentos do Jap&atilde;o provam que os fatos est&atilde;o seguindo<br \/>\n    a&iacute; a mesma marcha. Tamb&eacute;m l&aacute;, a despeito do imperador<br \/>\n    ser um deus &#8212; nada menos que um deus! &#8212; o parlamento vai ganhando<br \/>\n    em autoridade e prest&iacute;gio e impondo a sua vontade.<\/p>\n<p>Assim, em toda parte, dado um regime presidencial &#8212; isto &eacute;,<br \/>\n    um regime em que o Poder Executivo n&atilde;o dependa do legislativo &#8212;<br \/>\n    o progresso consiste em faz&ecirc;-lo depender.<\/p>\n<p>O regime presidencial foi a parada de desenvolvimento de parte de um povo,<br \/>\n    que passaria a outro sistema, se tivesse continuado a evolu&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que todas as outras partes desse mesmo povo fizeram.<\/p>\n<h4><a name=\"4\">IV &#8211; QUE A ACUSA&Ccedil;&Atilde;O DE INSTABILIDADE FEITA AO REGIME PARLAMENTAR<br \/>\n    &Eacute; INJUSTA: O REGIME PRESIDENCIAL &Eacute; EST&Aacute;VEL PARA O MAL<br \/>\n    E INST&Aacute;VEL PARA O BEM<\/a><\/h4>\n<p>A grande obje&ccedil;&atilde;o contra o regime parlamentar &eacute; a da<br \/>\n    instabilidade dos minist&eacute;rios. A isso se alude em todos os tons. E<br \/>\n    isso &eacute; absolutamente falso.<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; dificuldade alguma em mostrar que o governo inst&aacute;vel<br \/>\n    &eacute; o presidencial. Est&aacute;vel para o mal, inst&aacute;vel para o<br \/>\n    bem. Nele quando se elege um mau presidente, h&aacute; que suport&aacute;-lo<br \/>\n    por todo o per&iacute;odo; em compensa&ccedil;&atilde;o, quando se tem um<br \/>\n    presidente bom, h&aacute; que p&ocirc;-lo fora ao cabo desse per&iacute;odo,<br \/>\n    interrompendo o que estiver fazendo.<\/p>\n<p>Dir-se-&aacute; que a reelei&ccedil;&atilde;o daria rem&eacute;dio a este<br \/>\n    mal? N&atilde;o daria, porque ela seria tamb&eacute;m por prazo fixo. Nem<br \/>\n    poderia ser de outro modo Ora, durante esse segundo prazo, a quest&atilde;o<br \/>\n    se formularia do mesmo modo, e, se o presidente procedesse mal, haveria que<br \/>\n    suport&aacute;-lo at&eacute; o fim.<\/p>\n<p>O regime parlamentar tem exatamente a vantagem de permitir, por um lado,<br \/>\n    a perman&ecirc;ncia no poder &#8220;enquanto bem servirem&#8221;, por tempo<br \/>\n    indefinido, e &#8220;sem perigo algum&#8221; dos bons governos; por outro<br \/>\n    lado, a elimina&ccedil;&atilde;o imediata dos maus.<\/p>\n<p>O est&uacute;pido, o absurdo &eacute; dar tempos iguais de a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    aos que se mostram bons ou maus. A cada um, preste ou n&atilde;o preste, quatro<br \/>\n    anos!<\/p>\n<p>Mas ainda admitindo que os erros sejam s&oacute; em n&uacute;mero igual ao<br \/>\n    dos acertos, todos sabem que para a destrui&ccedil;&atilde;o se pede muito<br \/>\n    menos tempo que para a constru&ccedil;&atilde;o. O que uma s&eacute;rie de<br \/>\n    governos pacientemente ajuntou, elevando a fortuna p&uacute;blica, consolidando<br \/>\n    o cr&eacute;dito, firmando o prest&iacute;gio da Lei, outro destr&oacute;i<br \/>\n    em alguns meses. O mais bo&ccedil;al mestre de obras &eacute; capaz de destruir<br \/>\n    em um segundo as pir&acirc;mides do Egito, que duram h&aacute; tantos mil<br \/>\n    anos. Basta que lhe d&ecirc;em a carga precisa de dinamite e um gesto lhe<br \/>\n    ser suficiente para faz&ecirc;-las saltar!<\/p>\n<p>Nada, portanto, mais irracional do que atribuir, de um modo fixo, o mesmo<br \/>\n    prazo aos bons e aos maus governos, sem o m&iacute;nimo discernimento. &Eacute;<br \/>\n    o que faz o regime presidencial: est&aacute;vel demais para os governos nefastos,<br \/>\n    inst&aacute;vel para os bons!<\/p>\n<p>Sem, entretanto, fazer compara&ccedil;&atilde;o alguma, julgando em si mesmo<br \/>\n    o regime parlamentar, logo se ver&aacute; que a alega&ccedil;&atilde;o da<br \/>\n    sua instabilidade, embora universal, &eacute; inteiramente falsa. A sua universalidade<br \/>\n    se explica t&atilde;o bem como a sua falsidade.<\/p>\n<p>Quando se acompanha a pol&iacute;tica de um pa&iacute;s qualquer, atrav&eacute;s<br \/>\n    de todos os minist&eacute;rios que nele se sucedem, o que se v&ecirc; &eacute;<br \/>\n    que ela se desenvolve sem sobressaltos. De um minist&eacute;rio para o que<br \/>\n    se lhe segue a diferen&ccedil;a &eacute; sempre em um ou outro ponto. De um<br \/>\n    programa inteiro, varia um pormenor, um detalhe, o modo de encarar uma quest&atilde;o.<br \/>\n    &Eacute; o que se v&ecirc; na Fran&ccedil;a, &eacute; o que se v&ecirc; na<br \/>\n    B&eacute;lgica, era o que se via no Brasil.<\/p>\n<p>Nem podia ser de outro modo. Pois se os minist&eacute;rios dependem da maioria<br \/>\n    das assembl&eacute;ias, n&atilde;o se compreende como essas maiorias estariam<br \/>\n    constantemente mudando a todo tempo sobre numerosas quest&otilde;es.<\/p>\n<p>O regime parlamentar traz sempre consigo uma importante organiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    administrativa. Importante pela estabilidade e pela compet&ecirc;ncia. Exatamente<br \/>\n    porque muitos ministros se v&atilde;o sucedendo em pouco tempo, eles precisam<br \/>\n    achar os servi&ccedil;os administrativos aparelhados para lhes fornecerem<br \/>\n    imediatamente todos os elementos de informa&ccedil;&atilde;o sobre os assuntos<br \/>\n    mais variados. Um ministro, no regime parlamentar, est&aacute; sujeito &agrave;s<br \/>\n    interpela&ccedil;&otilde;es mais diversas. &Eacute; preciso que as secretarias<br \/>\n    competentes lhe permitam responder a elas. Demais, como cada um chega com<br \/>\n    a sua orienta&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria e se interessa, ora por uns,<br \/>\n    ora por outros pormenores, as secretarias v&ecirc;em-se for&ccedil;adas a<br \/>\n    estar bem ao par de todas as quest&otilde;es. Da&iacute; a for&ccedil;a, o<br \/>\n    prest&iacute;gio, a estabilidade que adquirem os servi&ccedil;os administrativos<br \/>\n    no regime parlamentar.<\/p>\n<p>Na Fran&ccedil;a, por exemplo, onde se v&ecirc; freq&uuml;entemente falar<br \/>\n    em instabilidade administrativa, a administra&ccedil;&atilde;o chega a ser<br \/>\n    rotineira. Silveira Martins disse uma vez no Senado do imp&eacute;rio que<br \/>\n    um amanuense podia mais que um ministro. Era, sob uma forma exagerada e paradoxal,<br \/>\n    um meio de mostrar como a organiza&ccedil;&atilde;o administrativa se mostrava<br \/>\n    forte, disciplinada e poderosa.<\/p>\n<p>Os que se impressionam com o grande n&uacute;mero de ministros, que passam<br \/>\n    pelas diversas pastas, perdem de vista que cada um desses ministros procura<br \/>\n    apenas inovar um ponto. Nenhum p&otilde;e em discuss&atilde;o todas as quest&otilde;es<br \/>\n    do seu minist&eacute;rio. Alguns mesmo n&atilde;o buscam alterar nada &#8212;<br \/>\n    o que, ali&aacute;s, n&atilde;o parece que seja um ideal.<\/p>\n<p>Os advers&aacute;rios do sistema parlamentar usam sempre na sua argumenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um meio simplista e grosseiro: fazem a estat&iacute;stica dos ministros<br \/>\n    que ocuparam tal ou qual minist&eacute;rio. Isto n&atilde;o prova nada. O<br \/>\n    essencial &eacute; examinar qual era o programa desses ministros. Se era o<br \/>\n    mesmo, pouco importa que os atos fossem assinados por X, Y ou Z.<\/p>\n<p>H&aacute;, por&eacute;m, momentos de real instabilidade. Instabilidade de<br \/>\n    pessoas e de programas. Ainda nesses casos, tudo concerne um ponto apenas<br \/>\n    e &eacute; uma grande, uma imensa, uma formid&aacute;vel superioridade do<br \/>\n    sistema parlamentar.<\/p>\n<p>O exame de dois exemplo c&eacute;lebres bastar&aacute; para prov&aacute;-lo:<br \/>\n    a quest&atilde;o abolicionista, no Brasil, e a quest&atilde;o Dreyfus, na<br \/>\n    Fran&ccedil;a.<\/p>\n<p>Trata-se sempre nesses casos de um ponto muito discutido, muito combatido.<br \/>\n    O pa&iacute;s est&aacute; dividido. H&aacute; uma forte agita&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Cada um prop&otilde;e uma solu&ccedil;&atilde;o diversa.<\/p>\n<p>O resultado &eacute; que, n&atilde;o havendo ainda na maioria da na&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    uma opini&atilde;o nitidamente formada em nenhum sentido, cada minist&eacute;rio<br \/>\n    que vem traz uma solu&ccedil;&atilde;o e procura faz&ecirc;-la triunfar. Se<br \/>\n    ela n&atilde;o serve, o minist&eacute;rio cai. Sobe outro, que sugere um alvitre<br \/>\n    diverso. Sucede-lhe o mesmo. Durante esse tempo a quest&atilde;o vai progredindo,<br \/>\n    a opini&atilde;o vai tomando um rumo definido. Afinal, acha-se um governo<br \/>\n    que consegue fazer votar a medida conveniente. Imediatamente tudo se acalma.<\/p>\n<p>Foi o que sucedeu com a Aboli&ccedil;&atilde;o; foi o que sucedeu com o caso<br \/>\n    Dreyfus.<\/p>\n<p>Em uma como na outra hip&oacute;tese, quando as quest&otilde;es come&ccedil;aram,<br \/>\n    a solu&ccedil;&atilde;o que acabou por triunfar ainda n&atilde;o era aceita<br \/>\n    pela opini&atilde;o. Foi a propaganda intensa e a experi&ecirc;ncia malograda<br \/>\n    de v&aacute;rias solu&ccedil;&otilde;es inconvenientes ou insuficientes que<br \/>\n    levou &agrave; descoberta da boa.<\/p>\n<p>Para ach&aacute;-la foram precisos dez ou vinte minist&eacute;rios? &#8212;<br \/>\n    Que importa isso?! Se se examina o conjunto da administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    durante um desses per&iacute;odos de crise, logo se v&ecirc; como ela se mostra<br \/>\n    de uma estabilidade formid&aacute;vel. Tudo est&aacute; quieto. H&aacute;<br \/>\n    apenas discuss&atilde;o sobre o ponto que preocupa os esp&iacute;ritos. Os<br \/>\n    ministros sobem, instalam-se, caem, s&atilde;o substitu&iacute;dos, mas a<br \/>\n    administra&ccedil;&atilde;o geral continua tranq&uuml;ilamente &#8212; mais<br \/>\n    tranq&uuml;ilamente at&eacute; que nos outros per&iacute;odos.<\/p>\n<p>Gra&ccedil;as a essa facilidade de substituir minist&eacute;rios e deixar<br \/>\n    que cada um proponha a solu&ccedil;&atilde;o que parece melhor, n&atilde;o<br \/>\n    se for&ccedil;a nem se contraria a evolu&ccedil;&atilde;o nas crises mais<br \/>\n    graves Por isso mesmo, o regime parlamentar no Brasil fez a Aboli&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pacificamente, ao passo que o regime presidencial nos Estados Unidos desencadeou<br \/>\n    uma revolu&ccedil;&atilde;o tremenda.<\/p>\n<p>De fato, o que acontece no regime presidencial quando, em uma dessas crises,<br \/>\n    se tem de eleger o presidente, &eacute; que ele representa a opini&atilde;o<br \/>\n    dominante nesse momento. Quanto mais ele &eacute; um homem de honra, mais<br \/>\n    se acha obrigado a manter essa opini&atilde;o, em nome da qual foi elevado<br \/>\n    ao poder. Mas o esp&iacute;rito p&uacute;blico, trabalhado pela propaganda,<br \/>\n    muda rapidamente, toma outro rumo. O presidente acha-se, por&eacute;m, for&ccedil;ado,<br \/>\n    por teima ou por coer&ecirc;ncia, a ficar no seu ponto de vista, que representa<br \/>\n    uma fase j&aacute; ultrapassada do sentimento nacional. Da&iacute; o conflito.<\/p>\n<p>Com um regime presidencial, se, quando rebentou a quest&atilde;o Dreyfus<br \/>\n    em Fran&ccedil;a, houvesse uma elei&ccedil;&atilde;o para chefe de Estado,<br \/>\n    o eleito seria contr&aacute;rio &agrave; revis&atilde;o do processo. E a propaganda<br \/>\n    continuando, chegar-se-ia fatalmente &agrave; revolu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Se, em 1887, o Brasil fosse rep&uacute;blica presidencial e tivesse de eleger<br \/>\n    o seu presidente, n&atilde;o elegeria um abolicionista incondicional e sem<br \/>\n    indeniza&ccedil;&atilde;o. No entanto, um ano depois, esta solu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    se impunha e se realizava suavemente; mas s&oacute; se impunha e s&oacute;<br \/>\n    se realizava suavemente, porque foi poss&iacute;vel sacrificar v&aacute;rios<br \/>\n    minist&eacute;rios. Todos viram assim que, esgotadas as outras solu&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    restava apenas a da aboli&ccedil;&atilde;o imediata e incondicional.<\/p>\n<p>Poder-se-ia, se se quisesse levar a quest&atilde;o para outro terreno, mostrar<br \/>\n    que o povo raciocina sempre an&shy;tro&shy;po&shy;mor&shy;fi&shy;ca&shy;mente:<br \/>\n    ele n&atilde;o compreende os assuntos de um modo inteiramente abstrato. &Eacute;<br \/>\n    preciso para que ele siga bem um debate que cada solu&ccedil;&atilde;o seja<br \/>\n    representada por um nome pr&oacute;prio, por algu&eacute;m que ele possa aplaudir<br \/>\n    ou combater. Os minist&eacute;rios, que se sucedem, s&atilde;o id&eacute;ias<br \/>\n    que v&atilde;o passando diante do seu esp&iacute;rito: id&eacute;ias encarnadas<br \/>\n    em indiv&iacute;duos. E ele n&atilde;o as pode acompanhar de outro modo.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; s&oacute;, por&eacute;m, nas graves quest&otilde;es nacionais<br \/>\n    que a facilidade de mudan&ccedil;a dos minist&eacute;rios oferece grandes<br \/>\n    vantagens: &eacute; tamb&eacute;m nas quest&otilde;es internacionais. Um governo<br \/>\n    que oferece uma solu&ccedil;&atilde;o est&aacute; obrigado a sustent&aacute;-la.<br \/>\n    Abandonando-a, desmoraliza-se. Se, por&eacute;m, um minist&eacute;rio sucede<br \/>\n    a outro, ele vem com a possibilidade de encarar a quest&atilde;o de um modo<br \/>\n    novo e sem desar. De um dia para o outro, o pa&iacute;s pode apresentar propostas<br \/>\n    novas, que na v&eacute;spera, seriam inadmiss&iacute;veis.<\/p>\n<p>Por toda parte, se acha sempre esta mesma oposi&ccedil;&atilde;o entre os<br \/>\n    dois regimes: o presidencial emperrado, dif&iacute;cil de manejar, sem solu&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    f&aacute;ceis &#8212; e r&aacute;pidas; &#8212; o parlamentar suave, acomodat&iacute;cio,<br \/>\n    pl&aacute;stico, sempre apto a encontrar a boa resolu&ccedil;&atilde;o, no<br \/>\n    bom momento, com a simples substitui&ccedil;&atilde;o de meia d&uacute;zia<br \/>\n    de pessoas.<\/p>\n<p>Por que, entretanto, a famosa instabilidade ministerial &eacute; t&atilde;o<br \/>\n    apontada?<\/p>\n<p>&Eacute; que h&aacute; sempre milhares de cidad&atilde;os a quem a queda<br \/>\n    de um minist&eacute;rio n&atilde;o pode deixar de incomodar; a legi&atilde;o<br \/>\n    infinita dos candidatos a cargos p&uacute;blicos.<\/p>\n<p>N&atilde;o se acredite que &eacute; amesquinhar a quest&atilde;o apresent&aacute;-la<br \/>\n    deste ponto de vista. Basta que algu&eacute;m pense que em cada pa&iacute;s<br \/>\n    h&aacute; sempre algumas centenas de empregos, que est&atilde;o vagos ou que<br \/>\n    podem vagar de um momento para outro. E h&aacute; milhares e milhares de indiv&iacute;duos,<br \/>\n    que os cobi&ccedil;am e acreditam poder contar com a nomea&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    quanto tais ou quais ministros est&atilde;o empossados Os ministros caem:<br \/>\n    &eacute; todo o trabalho a recome&ccedil;ar!<\/p>\n<p>Para esses candidatos, a instabilidade ministerial &eacute; realmente uma<br \/>\n    calamidade.<\/p>\n<p>Mas que preju&iacute;zo sofre a na&ccedil;&atilde;o com isso? Nenhum!<\/p>\n<p>O servi&ccedil;o pode sofrer com o regime das derrubadas de funcion&aacute;rios;<br \/>\n    mas essa &eacute; exatamente mais rara no regime parlamentar que no presidencial,<br \/>\n    porque o regime parlamentar precisa de uma organiza&ccedil;&atilde;o administrativa<br \/>\n    forte. Nem na Inglaterra, nem na B&eacute;lgica, nem na Fran&ccedil;a h&aacute;<br \/>\n    derrubadas. H&aacute;, por&eacute;m, nos Estados Unidos. L&aacute; o sistema<br \/>\n    das grandes substitui&ccedil;&otilde;es de funcion&aacute;rios, a cada novo<br \/>\n    presidente, foi mesmo elevada &agrave; altura de um princ&iacute;pio: o princ&iacute;pio<br \/>\n    da &#8220;rota&ccedil;&atilde;o dos empregos&#8221;.<\/p>\n<p>Quando a Rep&uacute;blica foi proclamada, em 1889, ela achou &agrave; frente<br \/>\n    de todos os minist&eacute;rios antigos funcion&aacute;rios, que tinham atravessado<br \/>\n    gabinetes liberais e conservadores: Cupertino do Amaral, Gusm&atilde;o Lobo,<br \/>\n    o Visconde de Cabo-Frio, o Bar&atilde;o de Itaip&uacute;&#8230;<\/p>\n<p>Por isso mesmo que o poder dos ministros &eacute; prec&aacute;rio e transit&oacute;rio<br \/>\n    e nenhum sabe quanto tempo durar&aacute; &#8212; eles n&atilde;o t&ecirc;m<br \/>\n    tend&ecirc;ncia a atos de viol&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Assim, a verdade &eacute; que h&aacute; sempre milhares de pretendentes,<br \/>\n    cujas esperan&ccedil;as est&atilde;o continuamente oscilando, com as quedas<br \/>\n    e subidas de minist&eacute;rios. Isso explica a for&ccedil;a com que a queixa<br \/>\n    da instabilidade no regime parlamentar volta t&atilde;o freq&uuml;entemente.<br \/>\n    Mas isso n&atilde;o tem a m&iacute;nima import&acirc;ncia para a marcha dos<br \/>\n    neg&oacute;cios p&uacute;blicos.<\/p>\n<p>H&aacute;, por&eacute;m, uma alega&ccedil;&atilde;o grave: &eacute; que se<br \/>\n    diz que o regime parlamentar n&atilde;o permite certas obras de longo f&ocirc;lego.<br \/>\n    Em uma apologia do sistema presidencial, Lauro M&uuml;ller citou esse argumento<br \/>\n    e mostrou o trabalho do Bar&atilde;o do Rio Branco, delimitando as fronteiras<br \/>\n    do pa&iacute;s.<\/p>\n<p>Mas isso n&atilde;o prova nada.<\/p>\n<p>Se o imp&eacute;rio n&atilde;o fez esse trabalho, n&atilde;o foi por causa<br \/>\n    do regime parlamentar e sim por causa do regime imperial. Todos sabem como<br \/>\n    eram grandes as preven&ccedil;&otilde;es de D. Pedro II com as rep&uacute;blicas<br \/>\n    vizinhas do Brasil. Mesmo assim, resta saber se o que foi poss&iacute;vel,<br \/>\n    nos &uacute;ltimos vinte anos, o teria sido h&aacute; quarenta, h&aacute;<br \/>\n    cinq&uuml;enta, h&aacute; sessenta.<\/p>\n<p>A obra essencial do Bar&atilde;o do Rio Branco foi feita em cerca de sete<br \/>\n    anos. Ora, minist&eacute;rios de sete anos n&atilde;o s&atilde;o raros nos<br \/>\n    governos parlamentares: o Brasil tamb&eacute;m os teve. A Fran&ccedil;a, a<br \/>\n    Inglaterra e a B&eacute;lgica j&aacute; t&ecirc;m conservado o mesmo ministro<br \/>\n    do exterior em v&aacute;rios gabinetes sucessivos.<\/p>\n<p>Briand, o famoso ministro do Exterior, da Fran&ccedil;a, ocupou o seu cargo<br \/>\n    por mais de dez anos. Foram a doen&ccedil;a e a idade que o desalojaram.<\/p>\n<p>Na mais parlamentar das rep&uacute;blicas, o Bar&atilde;o do Rio Branco poderia,<br \/>\n    portanto, ter feito o que fez.<\/p>\n<p>Quando se alega que o Brasil p&ocirc;de limitar as suas fronteiras, por ser<br \/>\n    rep&uacute;blica presidencial, h&aacute; que responder que a Fran&ccedil;a,<br \/>\n    rep&uacute;blica parlamentar, fez mais do que isso: atrav&eacute;s de todos<br \/>\n    os seus minist&eacute;rios, subindo e caindo, ela conseguiu, n&atilde;o apenas<br \/>\n    limitar, mas criar um imp&eacute;rio colonial mais vasto que o Brasil!<\/p>\n<p>A guerra de 1914 deu ainda uma prova do que valem governos parlamentares.<br \/>\n    Foram estes que venceram. Em pleno furor da luta, a Inglaterra, a Fran&ccedil;a<br \/>\n    e a B&eacute;lgica mudaram minist&eacute;rios.<\/p>\n<p>E foi um bem. Os ministros tinham de estar atentos &agrave; opini&atilde;o<br \/>\n    p&uacute;blica. Eles sabiam que os advers&aacute;rios, ou por patriotismo<br \/>\n    ou por ambi&ccedil;&atilde;o pessoal, os espreitavam e &agrave; primeira desca&iacute;da<br \/>\n    os fariam apear do poder. Foi o que fizeram v&aacute;rias vezes e, por isso<br \/>\n    mesmo, a luta, por parte dessas na&ccedil;&otilde;es, se manteve sempre no<br \/>\n    m&aacute;ximo de efici&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Nos pa&iacute;ses de governos muito est&aacute;veis, como a Alemanha e a<br \/>\n    &Aacute;ustria, ministros e generais, todos sabiam depender apenas da vontade<br \/>\n    do imperador.<\/p>\n<p>A obje&ccedil;&atilde;o n&atilde;o vale, portanto, cousa alguma.<\/p>\n<p>O argumento da instabilidade, feito do clamor dos candidatos a empregos p&uacute;blicos,<br \/>\n    cujas esperan&ccedil;as s&atilde;o for&ccedil;adas a oscilar a cada nova mudan&ccedil;a<br \/>\n    de minist&eacute;rio, &eacute; um argumento falso.<\/p>\n<p>A instabilidade das pessoas, que ocupam os cargos de ministros, n&atilde;o<br \/>\n    acarreta a instabilidade dos programas, nem a da orienta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos neg&oacute;cios p&uacute;blicos. De cada gabinete para o seguinte, a diferen&ccedil;a<br \/>\n    &eacute; sempre m&iacute;nima e diz respeito a um ou outro ponto. &Agrave;s<br \/>\n    vezes, &eacute; apenas de uma nuance, de uma f&oacute;rmula secund&aacute;ria.<\/p>\n<p>Muitos teoristas do direito constitucional t&ecirc;m querido considerar a<br \/>\n    parte do &#8220;poder executivo&#8221; e o &#8220;poder administrativo&#8221;.<br \/>\n    O que interessa &agrave; boa marcha dos neg&oacute;cios &eacute; uma organiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    administrativa s&oacute;lida, competente, est&aacute;vel. &Eacute; isso o<br \/>\n    que se d&aacute; sempre nos governos parlamentares. Os ministros, exatamente<br \/>\n    porque passam depressa, precisam achar uma organiza&ccedil;&atilde;o burocr&aacute;tica<br \/>\n    que n&atilde;o varie facilmente e esteja pronta a fornecer-lhes imediatamente<br \/>\n    todos os elementos de trabalho. N&atilde;o h&aacute; pa&iacute;s de regime<br \/>\n    parlamentar em que isso n&atilde;o aconte&ccedil;a.<\/p>\n<p>A instabilidade ministerial, nas ocasi&otilde;es das grandes crises, &eacute;,<br \/>\n    j&aacute; o vimos, o &uacute;nico meio de experimentar e arredar rapidamente<br \/>\n    as solu&ccedil;&otilde;es m&aacute;s, para deixar que a boa possa realizar-se.<\/p>\n<p>O regime de administra&ccedil;&atilde;o inst&aacute;vel portanto, o presidencial:<br \/>\n    nele o que &eacute; bom n&atilde;o pode durar, o que &eacute; mau dura demais.<br \/>\n    Tanto tempo fica no poder o governo, que n&atilde;o presta, como o que presta.<br \/>\n    E isso &eacute; absurdo. E isso &eacute; perfeitamente irracional.<\/p>\n<h4><a name=\"5\">V &#8211; QUE N&Atilde;O H&Aacute; NENHUMA INCOMPATIBILIDADE ENTRE O REGIME FEDERATIVO<br \/>\n    E O REGIME PARLAMENTAR: A MAIOR NA&Ccedil;&Atilde;O DO MUNDO &Eacute; UMA<br \/>\n    FEDERA&Ccedil;&Atilde;O PARLAMENTAR QUE ABRANGE V&Aacute;RIAS OUTRAS FEDERA&#038;CcedilCcedil;&Otilde;ES<br \/>\n    PARLAMENTARES<\/a><\/h4>\n<p>Uma das obje&ccedil;&otilde;es que em 1891 se faziam correntemente ao regime<br \/>\n    parlamentar era da sua incompatibilidade com o sistema federativo. Isso se<br \/>\n    dizia a todos os instantes, em tom dogm&aacute;tico &#8212; em tom positivista.<\/p>\n<p>Ningu&eacute;m procurava discutir o valor de tal asser&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Os que o podiam fazer, ou estavam interessados em deixar que ela corresse,<br \/>\n    ou n&atilde;o ousavam levantar a voz, com receio de se tornarem suspeitos.<\/p>\n<p>O interessante &eacute; que, &agrave; for&ccedil;a de ser repetida, essa<br \/>\n    afirma&ccedil;&atilde;o ainda hoje aparece freq&uuml;entemente mesmo na imprensa.<br \/>\n    E fica-se a pensar; os que a formulam n&atilde;o ter&atilde;o conhecimento<br \/>\n    algum de geografia? &#8212; Porque n&atilde;o &eacute; preciso nenhum outro<br \/>\n    para combat&ecirc;-la.<\/p>\n<p>A simples circunst&acirc;ncia de que um fato nunca ocorreu n&atilde;o prova<br \/>\n    a sua impossibilidade. Todos os trabalhos de l&oacute;gica demonstram de um<br \/>\n    modo formal que as provas negativas s&atilde;o imposs&iacute;veis, salvo em<br \/>\n    quest&otilde;es matem&aacute;ticas. Quando um milh&atilde;o de experi&ecirc;ncias<br \/>\n    tenha mostrado que um certo fen&ocirc;meno n&atilde;o se produz, isso n&atilde;o<br \/>\n    torna imposs&iacute;vel que da milion&eacute;sima primeira vez ele n&atilde;o<br \/>\n    ocorra.<\/p>\n<p>Por mais forte raz&atilde;o, quando de um certo fen&ocirc;meno h&aacute;<br \/>\n    um, h&aacute; dois, h&aacute; muitos exemplos, n&atilde;o se compreende que<br \/>\n    se fale na sua impossibilidade.<\/p>\n<p>Teoricamente, examinando o conceito de governo parlamentar e o conceito de<br \/>\n    federa&ccedil;&atilde;o, seria imposs&iacute;vel mostrar em que &eacute; que<br \/>\n    esses conceitos se op&otilde;em. O que distingue o governo parlamentar &eacute;<br \/>\n    que nele o poder executivo &eacute; uma delega&ccedil;&atilde;o do parlamento.<br \/>\n    Em que essa id&eacute;ia est&aacute; em contraposi&ccedil;&atilde;o com a<br \/>\n    de um regime federal? Em cousa alguma.<\/p>\n<p>Mas n&atilde;o &eacute; preciso fazer esfor&ccedil;o nenhum de racioc&iacute;nio.<br \/>\n    Basta abrir um comp&ecirc;ndio de geografia e ver que a maior na&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do mundo &eacute; uma federa&ccedil;&atilde;o parlamentar, que engloba v&aacute;rias<br \/>\n    outras federa&ccedil;&otilde;es tamb&eacute;m parlamentares.<\/p>\n<p>&Eacute; uma quest&atilde;o de fato.<\/p>\n<p>A Inglaterra n&atilde;o passa de uma vasta federa&ccedil;&atilde;o. Ningu&eacute;m,<br \/>\n    por isso, descobriu que ela devesse abandonar o regime parlamentar.<\/p>\n<p>Dentro da Inglaterra as federa&ccedil;&otilde;es n&atilde;o faltam. H&aacute;<br \/>\n    o Canad&aacute;, h&aacute; a Austr&aacute;lia, h&aacute; a recente federa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da &Aacute;frica do Sul. Em cada uma dessas, o que se v&ecirc; &eacute; um<br \/>\n    grupo de governos &#8220;parlamentares&#8221;, reunidos por um governo central<br \/>\n    tamb&eacute;m &#8220;parlamentar&#8221;.<\/p>\n<p>Praticamente trata-se de verdadeiras rep&uacute;blicas, porque os governadores<br \/>\n    dessas col&ocirc;nias n&atilde;o t&ecirc;m a m&iacute;nima interfer&ecirc;ncia<br \/>\n    nos neg&oacute;cios. S&atilde;o apenas figuras simb&oacute;licas. Em qualquer<br \/>\n    desses dom&iacute;nios ingleses se tem votado diversas leis, em oposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    aos interesses da metr&oacute;pole, sem que o governador se tenha podido opor.<\/p>\n<p>Afora isso, regem-se com a mais perfeita independ&ecirc;ncia criando at&eacute;<br \/>\n    medidas protecionistas contra os produtos ingleses, sem que nada restrinja<br \/>\n    a sua capacidade pol&iacute;tica.<\/p>\n<p>A independ&ecirc;ncia dos antigos dom&iacute;nios ingleses que passaram a<br \/>\n    ter mesmo representa&ccedil;&atilde;o internacional, foi consagrada pelo Estatuto<br \/>\n    de Westminster.<\/p>\n<p>&Eacute; curioso notar que dessas federa&ccedil;&otilde;es uma est&aacute;<br \/>\n    na Am&eacute;rica, outra na &Aacute;frica, outra na Oceania e, se se pensa<br \/>\n    que a Inglaterra est&aacute; na Europa, v&ecirc;-se bem que s&oacute; falta<br \/>\n    uma na &Aacute;sia, pra que haja ao menos um exemplo em cada parte do mundo.<\/p>\n<p>N&atilde;o se pode, portanto, querer fen&ocirc;meno mais dif&iacute;cil de<br \/>\n    negar que o da possibilidade de uma federa&ccedil;&atilde;o parlamentar.<\/p>\n<p>Os exemplos s&atilde;o tanto mais probantes quanto eles se estendem a quatro<br \/>\n    continentes e a v&aacute;rias ra&ccedil;as.<\/p>\n<p>No Canad&aacute;, antiga col&ocirc;nia francesa, os colonos de origem francesa<br \/>\n    dominaram por muito tempo, praticando o regime sem a menor dificuldade.<\/p>\n<p>Na &Aacute;frica do Sul, s&atilde;o agora holandeses e ingleses &#8212; at&eacute;<br \/>\n    h&aacute; pouco tempo inimigos &#8212; que se re&uacute;nem a elementos abor&iacute;gines.<\/p>\n<p>H&aacute;, por conseguinte, a m&aacute;xima variedade e &eacute; t&atilde;o<br \/>\n    absurdo quanto rid&iacute;culo falar na impossibilidade de um fato, que se<br \/>\n    verifica na realidade, de um modo t&atilde;o geral e t&atilde;o brilhante.<\/p>\n<p>O grande mal das monarquias &eacute; a const&acirc;ncia dos chefes de Estado<br \/>\n    que, mesmo quando constitucionalmente n&atilde;o devam ter nenhum poder efetivo,<br \/>\n    acabam por adquiri-lo, pelo fato mesmo da const&acirc;ncia. A um mau monarca,<br \/>\n    que queira influir sobre os neg&oacute;cios p&uacute;blicos, ningu&eacute;m<br \/>\n    poder&aacute; impedir, ainda que a constitui&ccedil;&atilde;o lho vede, de<br \/>\n    acabar influindo.<\/p>\n<p>Depois dos incessantes testemunhos de todos os chefes de partidos da monarquia<br \/>\n    brasileira, &eacute; imposs&iacute;vel negar que D. Pedro II tivesse tido<br \/>\n    uma influ&ecirc;ncia permanente. E, se a que ele exerceu n&atilde;o foi muito<br \/>\n    m&aacute;, ningu&eacute;m sabe o que seria a da princesa Izabel.<\/p>\n<p>J&aacute;, entretanto, para contrabalan&ccedil;ar o erro do sistema mon&aacute;rquico<br \/>\n    o sr. Ruy Barbosa lembrara, no tempo do Imp&eacute;rio, a institui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do sistema federativo. Se ele tivesse sido adotado, a monarquia teria escapado.<br \/>\n    Em todo caso, ningu&eacute;m naquela &eacute;poca objetou que o regime parlamentar<br \/>\n    fosse incompat&iacute;vel com a federa&ccedil;&atilde;o. Foi por outros motivos<br \/>\n    que a id&eacute;ia do sr. Ruy Barbosa deixou de ser aceita.<\/p>\n<p>Para ver como se exerceria na pr&aacute;tica a sua a&ccedil;&atilde;o salutar,<br \/>\n    basta pensar em um caso.<\/p>\n<p>No imp&eacute;rio, havia em cada prov&iacute;ncia um presidente nomeado livremente<br \/>\n    pelo governo central. Quando, portanto, a C&acirc;mara era dissolvida, os<br \/>\n    vinte presidentes, delegados do poder central e dele dependentes, trabalhavam<br \/>\n    todos em proveito desse poder. Eram, se assim se pode dizer, vinte fraudes<br \/>\n    convergentes.<\/p>\n<p>A federa&ccedil;&atilde;o, aplicada a um regime parlamentar, teria o m&eacute;rito<br \/>\n    de corrigir esse estado de cousas.<\/p>\n<p>Admitindo que n&atilde;o se desse o m&iacute;nimo melhoramento de costumes<br \/>\n    e s&oacute; a fraude continuasse a imperar, ainda assim as elei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    federais lucrariam em independ&ecirc;ncia. O governo central n&atilde;o poderia<br \/>\n    mais ajeitar toda a na&ccedil;&atilde;o em um sentido &uacute;nico. Os detentores<br \/>\n    do poder em cada um dos Estados ou prov&iacute;ncias procurariam eleger os<br \/>\n    seus adeptos. Em vez, portanto, de vinte fraudes convergentes, manipuladas<br \/>\n    pelos presidentes nomeados pelo centro, haveria vinte fraudes divergentes,<br \/>\n    cada uma inspirada em conveni&ecirc;ncias locais, particulares. E a resultante<br \/>\n    disso seria qualquer cousa muito pr&oacute;xima da verdade.<\/p>\n<p>O que se v&ecirc;, portanto, &eacute; que a federa&ccedil;&atilde;o, longe<br \/>\n    de ser um embara&ccedil;o ao regime parlamentar, viria trazer rem&eacute;dio<br \/>\n    ao mal que havia no tempo do Imp&eacute;rio. Quando se estabelecesse um antagonismo<br \/>\n    s&eacute;rio entre o governo e a C&acirc;mara e fosse preciso dissolver esta,<br \/>\n    a consulta &agrave; na&ccedil;&atilde;o teria realmente valor. Representaria<br \/>\n    pelo menos a opini&atilde;o real dos vinte partidos dominantes nos vinte Estados.<\/p>\n<p>&Eacute; bom notar, entretanto, que hoje, quando se discute esta quest&atilde;o,<br \/>\n    h&aacute; muito quem pense no que poderia ser um regime federal &#8220;parlamentar&#8221;<br \/>\n    de Estados &#8220;presidenciais&#8221;. Evidentemente &eacute; uma quest&atilde;o<br \/>\n    mal formulada, porque o regime deveria ser o mesmo na Uni&atilde;o e nos Estados,<br \/>\n    e n&atilde;o se v&ecirc; porque o regime parlamentar n&atilde;o seria aplic&aacute;vel<br \/>\n    mesmo ao mais pequeno dos Estados do Brasil. A maioria dos Estados teria apenas<br \/>\n    dois ou tr&ecirc;s ministros. Bastar-lhes-ia. Ningu&eacute;m pede para Sergipe<br \/>\n    um ministro do Exterior, um ministro da Guerra, um ministro da Marinha&#8230;<br \/>\n    Seria demais&#8230;<\/p>\n<p>Mas, se at&eacute; na min&uacute;scula Rep&uacute;blica de San Marino &eacute;<br \/>\n    a assembl&eacute;ia dos representantes do pa&iacute;s que decide em &uacute;ltima<br \/>\n    an&aacute;lise de todas as quest&otilde;es, por que n&atilde;o poderia ser<br \/>\n    assim em qualquer das unidades de que se comp&otilde;e a federa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    brasileira?<\/p>\n<p>Em vez do poder achar-se concentrado nas m&atilde;os de um presidente, estaria<br \/>\n    nas de uma assembl&eacute;ia, maior ou menor, conforme a import&acirc;ncia<br \/>\n    do referido Estado. A plasticidade do regime parlamentar se adapta a todos<br \/>\n    os povos, a todas as ra&ccedil;as; serve para os pa&iacute;ses min&uacute;sculos,<br \/>\n    como a B&eacute;lgica, e para os pa&iacute;ses colossais, como a Inglaterra.<\/p>\n<p>Assim, a obje&ccedil;&atilde;o feita ao regime parlamentar da sua suposta<br \/>\n    incompatibilidade com o regime federativo &eacute; um disparate, diante do<br \/>\n    fato de que a maior na&ccedil;&atilde;o do mundo &eacute; uma federa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    parlamentar de federa&ccedil;&otilde;es parlamentares, por sua vez compostas<br \/>\n    de Estados tamb&eacute;m parlamentares! &Eacute; ainda um disparate, porque<br \/>\n    ningu&eacute;m &eacute; capaz de mostrar onde esteja o antagonismo entre os<br \/>\n    dois termos: federa&ccedil;&atilde;o e parlamentarismo. A federa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    traria ao regime parlamentar o grande corretivo de impedir que jamais o poder<br \/>\n    central pudesse, em um caso de dissolu&ccedil;&atilde;o da C&acirc;mara, fazer<br \/>\n    uma fraude uniforme em todo o pa&iacute;s, como acontecia no tempo do Imp&eacute;rio.<\/p>\n<h4><a name=\"6\">VI &#8211; QUE O PRESIDENTE NO REGIME PRESIDENCIAL &Eacute;, DE FATO, IRRESPONS&Aacute;VEL<\/a><\/h4>\n<p>O regime presidencial &eacute; o da absoluta irresponsabilidade dos deposit&aacute;rios<br \/>\n    de poder.<\/p>\n<p>&Eacute; certo que a Constitui&ccedil;&atilde;o estabelece essa responsabilidade.<br \/>\n    &Eacute; certo ainda que uma lei se fez, regulamentando minuciosamente o dispositivo<br \/>\n    constitucional. Todos sentem, entretanto, que isso &eacute; no fim de contas,<br \/>\n    uma com&eacute;dia.<\/p>\n<p>H&aacute; uma quest&atilde;o de fato: nunca em nenhuma rep&uacute;blica presidencial<br \/>\n    nenhum presidente foi processado e condenado. Ora, ningu&eacute;m dir&aacute;<br \/>\n    que nunca, em nenhuma rep&uacute;blica presidencial, nenhum presidente cometeu<br \/>\n    ilegalidades e viol&ecirc;ncias.<\/p>\n<p>Sempre que um castigo &eacute; excessivo, ou porque fere demais o castigado,<br \/>\n    ou porque tem conseq&uuml;&ecirc;ncias muito graves, o resultado &eacute;<br \/>\n    esse.<\/p>\n<p>O que se passa no poder judici&aacute;rio &eacute; caracter&iacute;st&iacute;co.<br \/>\n    Tamb&eacute;m a&iacute; n&atilde;o faltam leis para punir os ju&iacute;zes,<br \/>\n    que n&atilde;o d&atilde;o os seus despachos em tempo &uacute;til. No entanto,<br \/>\n    nenhum advogado requer essas penas, certo de que perderia seu tempo e criaria<br \/>\n    para si uma animosidade terr&iacute;vel.<\/p>\n<p>Ora, a puni&ccedil;&atilde;o de um juiz &eacute; cousa que n&atilde;o tem<br \/>\n    compara&ccedil;&atilde;o com a puni&ccedil;&atilde;o de um chefe de Estado,<br \/>\n    que concentra nas suas m&atilde;os todo o poder executivo. Diante da gravidade<br \/>\n    excepcional desse ato, quase todos recuam&#8230; Recuam mesmo os advers&aacute;rios<br \/>\n    decididos do presidente, receosos de desencadearem complica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    terr&iacute;veis.<\/p>\n<p>Praticamente, portanto, a responsabilidade presidencial n&atilde;o existe.<\/p>\n<p>Mesmo quando n&atilde;o fosse a considera&ccedil;&atilde;o do receio de perturba&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    graves em todo o governo do pa&iacute;s, haveria a pensar que, se um presidente<br \/>\n    fosse bastante criminoso para merecer um processo, n&atilde;o seria bastante<br \/>\n    tolo para n&atilde;o ir um pouquinho mais longe e corromper os seus ju&iacute;zes.<\/p>\n<p>Dir-se-&aacute; que seria preciso comprar duas assembl&eacute;ias inteiras!?<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; exato. O presidente s&oacute; pode ser condenado por<br \/>\n    dois ter&ccedil;os dos senadores presentes &agrave; sess&atilde;o do julgamento.<br \/>\n    Ora, tendo nas suas m&atilde;os o poder supremo, haveria presidente, que hesitasse<br \/>\n    em corromper o n&uacute;mero de senadores preciso para obter a seu favor 22<br \/>\n    votos?<\/p>\n<p>O Senado tem 63 membros. Em regra, eles nunca est&atilde;o presentes. Alguns,<br \/>\n    sem nenhum constrangimento, lisa e honestamente, seriam contr&aacute;rios<br \/>\n    &agrave; condena&ccedil;&atilde;o. Obter por corrup&ccedil;&atilde;o o n&uacute;mero<br \/>\n    necess&aacute;rio para completar o ter&ccedil;o seria um brinquedo para qualquer<br \/>\n    presidente.<\/p>\n<p>A regra &eacute; que o Senado funcione com uma m&eacute;dia de 40 senadores.<br \/>\n    O n&uacute;mero a alcan&ccedil;ar seria, portanto, de 14.<\/p>\n<p>Note-se que, quando se fala aqui em corrup&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o se<br \/>\n    quer dizer a compra direta, a dinheiro. O presidente poderia fazer tamb&eacute;m<br \/>\n    essa, porque, se ele tirasse o dinheiro do Tesouro para comprar os ju&iacute;zes,<br \/>\n    que o absolveriam, estaria garantido da impunidade. Mas h&aacute; outros meios<br \/>\n    menos c&iacute;nicos: a d&aacute;diva de posi&ccedil;&otilde;es a parentes<br \/>\n    e aderentes, o medo.<\/p>\n<p>Depois, &eacute; bom sempre notar que, para o Congresso chegar a ousar o<br \/>\n    processo de um presidente e decidir-se a afrontar todos os inconvenientes<br \/>\n    decorrentes desse ato, seria preciso que ele fosse um grande criminoso. E,<br \/>\n    sendo um grande criminoso, n&atilde;o recuaria de certo diante da corrup&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de meia d&uacute;zia de homens pol&iacute;ticos.<\/p>\n<p>A compara&ccedil;&atilde;o disso com o que ocorre ao sistema parlamentar<br \/>\n    &eacute; caracter&iacute;stica.<\/p>\n<p>Neste, a responsabilidade &eacute; efetiva. O castigo se d&aacute; de um<br \/>\n    modo simples. Exatamente porque ele n&atilde;o tem nada de desonroso, nem<br \/>\n    de excepcionalmente grave, pode ser aplicado facilmente. Um ministro, que<br \/>\n    procede mal em tal ou qual quest&atilde;o, &eacute; alijado por um voto de<br \/>\n    desconfian&ccedil;a da C&acirc;mara.<\/p>\n<p>H&aacute; quem diga que isso n&atilde;o &eacute; a responsabilidade como<br \/>\n    ela se deveria entender: um castigo proporcional ao crime. Mas, no regime<br \/>\n    presidencial, se algum presidente chegasse &agrave; aberra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    contradit&oacute;ria e paradoxal de ser bastante criminoso, para que o Congresso<br \/>\n    o processasse, e bastante inepto para n&atilde;o arranjar uma senten&ccedil;a<br \/>\n    de absolvi&ccedil;&atilde;o, a que seria condenado? &Agrave; perda do cargo.<\/p>\n<p>O Congresso n&atilde;o lhe poderia infligir nenhuma, sen&atilde;o essa e,<br \/>\n    em alguns casos, a impossibilidade de exercer qualquer outro cargo. &Eacute;<br \/>\n    o que diz a lei. O mais competiria &agrave; justi&ccedil;a ordin&aacute;ria<br \/>\n    &#8212; segundo o que tamb&eacute;m ocorre no regime parlamentar.<\/p>\n<p>Assim, depois de um longo e laborioso processo, que teria perturbado a marcha<br \/>\n    dos neg&oacute;cios p&uacute;blicos e suspendido toda a vida administrativa,<br \/>\n    chegar-se-ia apenas ao que chega o regime parlamentar com um voto da C&acirc;mara:<br \/>\n    a eliminar do poder o que nele d&aacute; provas de incapacidade.<\/p>\n<p>&Eacute; de observar que no regime presidencial, para que se chegasse a processar<br \/>\n    um chefe de Estado, seria necess&aacute;rio que ele j&aacute; tivesse cometido<br \/>\n    uma s&eacute;rie de crimes extremamente graves. A experi&ecirc;ncia demonstrou<br \/>\n    que, no Brasil, mesmo o bombardeio de uma cidade, em pleno per&iacute;odo<br \/>\n    de paz e o desrespeito &agrave;s senten&ccedil;as do Supremo Tribunal ainda<br \/>\n    n&atilde;o constituem atos bastante graves para o Congresso se comover. Assim,<br \/>\n    s&oacute; a consuma&ccedil;&atilde;o de um n&uacute;mero espantoso de crimes<br \/>\n    levaria o Congresso &agrave;quele ato de desespero.<\/p>\n<p>No regime parlamentar, exatamente porque n&atilde;o se espera tanto, n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; motivo para dar puni&ccedil;&otilde;es excepcionais. Desde que a<br \/>\n    incapacidade dos deposit&aacute;rios do poder se revela, eles s&atilde;o alijados<br \/>\n    por um voto de desconfian&ccedil;a.<\/p>\n<p>Sem d&uacute;vida, esse voto n&atilde;o os impede, tempos depois, &agrave;s<br \/>\n    vezes dentro de um prazo curt&iacute;ssimo de voltar ao poder. Mas o voto<br \/>\n    que da&iacute; os tirara queria apenas dizer que, na quest&atilde;o que se<br \/>\n    discutia, eles estavam agindo mal. Agindo mal, ou por ser m&aacute; a solu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que preconizavam, ou por ser inoportuna. Quando ela venha a ter oportunidade<br \/>\n    ou quando se trate de outro assunto, nada mais explic&aacute;vel do que a<br \/>\n    volta ao poder de homens que nele, em outros casos, mostraram aptid&atilde;o.<\/p>\n<p>Diz-se que as quedas de minist&eacute;rios no regime parlamentar resultam<br \/>\n    freq&uuml;entemente de ambi&ccedil;&otilde;es pessoais.<\/p>\n<p>&Eacute; perfeitamente verdade; mas &eacute; uma verdade explic&aacute;vel<br \/>\n    &#8212; e louv&aacute;vel.<\/p>\n<p>N&atilde;o se descobriu at&eacute; hoje nenhuma for&ccedil;a maior para levar<br \/>\n    os homens &agrave; a&ccedil;&atilde;o. Desde a ambi&ccedil;&atilde;o do assassino,<br \/>\n    que, para roubar, mata uma mulher e uma crian&ccedil;a, at&eacute; a ambi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do eremita, que passa algumas dezenas de anos no deserto, em penit&ecirc;ncia,<br \/>\n    para conquistar bilh&otilde;es de bilh&otilde;es de s&eacute;culos de uma<br \/>\n    ventura infinita, no c&eacute;u, &#8212; tudo &eacute; ambi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    tudo &eacute;, no fim de contas, ego&iacute;smo. Ego&iacute;smo imediato ou<br \/>\n    ego&iacute;smo a prazo.<\/p>\n<p>&Eacute; necess&aacute;rio lidar com os homens como eles s&atilde;o e n&atilde;o<br \/>\n    como poderiam ser. &Eacute; necess&aacute;rio tirar das paix&otilde;es humanas<br \/>\n    normais o m&aacute;ximo de vantagem para a comunidade. Ningu&eacute;m viu<br \/>\n    ainda uma assembl&eacute;ia inteira e exclusivamente composta de puros, desinteressados<br \/>\n    e altru&iacute;stas patriotas, querendo apenas o bem te&oacute;rico da P&aacute;tria.<br \/>\n    No m&iacute;nimo, os mais desinteressados gostariam de ter a gl&oacute;ria<br \/>\n    de contribuir para esse bem.<\/p>\n<p>Nas assembl&eacute;ias parlamentares h&aacute;, sem d&uacute;vida, a ambi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos deputados, que desejam ser ministros. Ambi&ccedil;&atilde;o legitima.<br \/>\n    Tanto melhor se, por isso mesmo, eles fiscalizam os atos dos que est&atilde;o<br \/>\n    no poder. Por causa de um intuito pessoal, talvez mesquinho, a comunidade<br \/>\n    lucra. &Eacute; o essencial.<\/p>\n<p>No regime presidencial, de que serviria a um deputado, conhecendo embora<br \/>\n    fatos bem delituosos, acusar o presidente? De nada. Seria, no fim de contas,<br \/>\n    um ato sem san&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica alguma, de que s&oacute; resultariam<br \/>\n    ao acusador contratempos e desgostos. Ocultando-os, defendendo o criminoso,<br \/>\n    ele alcan&ccedil;a numerosas vantagens.<\/p>\n<p>Porque h&aacute; este outro lado da quest&atilde;o: se no regime parlamentar<br \/>\n    &eacute; por ambi&ccedil;&atilde;o que se atacam os ministros, &#8212; no<br \/>\n    regime presidencial &eacute; por covardia que eles s&atilde;o poupados, mesmo<br \/>\n    quando cometem os maiores abusos. Os acusadores poss&iacute;veis, sentindo<br \/>\n    a inutilidade ou o preju&iacute;zo que lhes adviria de qualquer acusa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    nem a tentam. Encolhem-se com medo.<\/p>\n<p><strong>Perguntas a fazer:<\/strong><\/p>\n<p>&#8212; Qual &eacute; o sentimento mais nobre: a ambi&ccedil;&atilde;o, mesmo<br \/>\n    pessoal, ou a covardia?<\/p>\n<p>&#8212; Com qual dos dois sistemas a sociedade lucra mais: com a fiscaliza&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    mesmo interesseira dos atos dos deposit&aacute;rios do poder ou com a oculta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das suas faltas, tamb&eacute;m por interesse, por medo ou, na melhor das hip&oacute;teses,<br \/>\n    pela certeza pr&eacute;via da inutilidade de tentar corrigi-las?<\/p>\n<p>Parece que, mesmo aceitando as cousas com o m&aacute;ximo de desvantagem<br \/>\n    para o regime parlamentar, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel deixar de proclamar<br \/>\n    a sua superioridade.<\/p>\n<p>&Eacute; nele &#8212; e s&oacute; nele &#8212; que existe realmente a responsabilidade<br \/>\n    dos maus deposit&aacute;rios do poder. Ainda quando se ache que o castigo<br \/>\n    que eles recebem &eacute; m&iacute;nimo, em todo caso n&atilde;o se pode negar<br \/>\n    que, ao contr&aacute;rio do que sucede no regime presidenc&iacute;al, sempre<br \/>\n    h&aacute; um castigo: eles s&atilde;o for&ccedil;ados a deixar o poder.<\/p>\n<p>Mas os que desejam puni&ccedil;&otilde;es mais severas n&atilde;o devem esquecer<br \/>\n    este confronto: nunca, cm nenhum regime presidencial, nenhum presidente foi<br \/>\n    punido, ao passo que v&aacute;rios ministros de governos parlamentares t&ecirc;m<br \/>\n    sido, al&eacute;m de alijados do governo, processados e condenados. H&aacute;<br \/>\n    exemplos disso na Fran&ccedil;a, na Su&eacute;cia, na It&aacute;lia.<\/p>\n<p>&Eacute; a quest&atilde;o de fato.<\/p>\n<p>Assim, tanto na teoria, como na pr&aacute;tica, tanto pelo que a priori se<br \/>\n    podia supor, como pelo que realmente se tem visto, o regime parlamentar &eacute;<br \/>\n    o &uacute;nico em que existe a responsabilidade dos deposit&aacute;rios do<br \/>\n    poder. O regime presidencial &eacute; o da completa irresponsabilidade.<\/p>\n<h4><a name=\"7\">VII &#8211; QUE O PRESIDENTE, NO REGIME PARLAMENTAR, PODE SER ESCOLHIDO CONSCIENTEMENTE;<br \/>\n    NO PRESIDENCIAL, REPRESENTA SEMPRE UMA AVENTURA&#8230;<\/a><\/h4>\n<p>Quando se tenha de examinar o modo pelo qual se faz a escolha do chefe do<br \/>\n    Estado no regime presidencial, n&atilde;o vale a pena lembrar o que sucede<br \/>\n    entre n&oacute;s.<\/p>\n<p>Por um lado, todos est&atilde;o de acordo que entre n&oacute;s o que sucede<br \/>\n    &eacute; uma vergonha, &eacute; uma desnatura&ccedil;&atilde;o completa do<br \/>\n    regime.<\/p>\n<p>Por outro lado, o regime presidencial &eacute; t&atilde;o ruim que, para<br \/>\n    melhor mostrar-lhe os insan&aacute;veis defeitos, o que conv&eacute;m &eacute;<br \/>\n    exatamente critic&aacute;-lo, mesmo na hip&oacute;tese de v&ecirc;-lo executado<br \/>\n    em toda a sua perfei&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Durante uma parte do s&eacute;culo XIX pareceu a muitos teoristas da pol&iacute;tica<br \/>\n    que o ideal em mat&eacute;ria de governo era a exist&ecirc;ncia de dois partidos.<br \/>\n    De dois &#8212; e n&atilde;o mais. Devia haver um grupo conservador; devia<br \/>\n    haver um grupo liberal. Isso correspondia de fato a duas tend&ecirc;ncias<br \/>\n    universais: a tend&ecirc;ncia dos que optam, de prefer&ecirc;ncia, pelas for&ccedil;as<br \/>\n    de progresso e a daqueles que optam pelas de conserva&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Todos os que t&ecirc;m estudado filosoficamente a id&eacute;ia de progresso<br \/>\n    mostraram que ela &eacute; recente. Sem d&uacute;vida, nunca deixou de haver<br \/>\n    quem desejasse inova&ccedil;&otilde;es. Mas a convic&ccedil;&atilde;o de que<br \/>\n    o normal, o regular e o desej&aacute;vel &eacute; que os povos mudem, adotem<br \/>\n    novas institui&ccedil;&otilde;es, vivam em um estado incessante de transforma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &#8212; n&atilde;o entrava no esp&iacute;rito popular. O ideal era, ao contr&aacute;rio,<br \/>\n    a conserva&ccedil;&atilde;o do que existia. Sente-se disso um vest&iacute;gio<br \/>\n    no fato de quase todas as religi&otilde;es terem feito alus&atilde;o a uma<br \/>\n    idade de ouro inicial. O para&iacute;so estava para elas no princ&iacute;pio<br \/>\n    do mundo. A mudan&ccedil;a fora o mal.<\/p>\n<p>Desse estado de esp&iacute;rito s&oacute; agora, e ainda assim incompletamente,<br \/>\n    alguns povos asi&aacute;ticos est&atilde;o despertando. Na Europa, pode-se<br \/>\n    dizer que a cren&ccedil;a no progresso come&ccedil;ou a desenvolver-se no<br \/>\n    fim do s&eacute;culo XVIII.<\/p>\n<p>Nessa &eacute;poca e durante algum tempo a divis&atilde;o social em dois<br \/>\n    grupos era mais ou menos, em grosso, aceit&aacute;vel: o grupo dos que desejavam<br \/>\n    que se mudasse e o grupo dos que desejavam que n&atilde;o se alterasse a ordem<br \/>\n    de cousas existente. Eram dois blocos que se opunham. Os primeiros sentiam<br \/>\n    que desde que come&ccedil;assem as reformas, ningu&eacute;m lhes poderia p&ocirc;r<br \/>\n    termo. Os segundos queriam exatamente que esse movimento come&ccedil;asse.<\/p>\n<p>Poder-se-ia, se se quisesse levar mais longe a quest&atilde;o, mostrar que<br \/>\n    isso representa duas tend&ecirc;ncias fundamentais de todos os organismos.<br \/>\n    Mas n&atilde;o vale a pena parecer que se quer desviar o debate para uma vaga<br \/>\n    ideologia. O mais recomend&aacute;vel &eacute; tomar os fatos t&atilde;o simplesmente<br \/>\n    quanto for poss&iacute;vel e s&oacute; fazer asser&ccedil;&otilde;es imediatamente<br \/>\n    verific&aacute;veis. E assim pode afirmar-se, sem receio de contesta&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    durante muitas dezenas de anos a pol&iacute;tica de todos os grandes povos<br \/>\n    livres dividiu-se em duas tend&ecirc;ncias fundamentais: a do progresso e<br \/>\n    a da rea&ccedil;&atilde;o, a dos conservadores e a dos liberais. Hoje, essa<br \/>\n    fase est&aacute; passada; n&atilde;o h&aacute; pa&iacute;s algum, em que bastem<br \/>\n    apenas dois partidos. N&atilde;o h&aacute; mesmo nenhum partido, do qual os<br \/>\n    partid&aacute;rios n&atilde;o adotem, aqui e ali, id&eacute;ias que pertencem<br \/>\n    mais especialmente aos partid&aacute;rios opostos.<\/p>\n<p>Entre n&oacute;s, h&aacute; ainda muito quem suspire pela constitui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de dois partidos. Essa dicotomia pol&iacute;tica se lhes afigura um ideal.<\/p>\n<p>Isso d&aacute; apenas, ao mesmo tempo, a certid&atilde;o de idade e a certid&atilde;o<br \/>\n    do estado de ignor&acirc;ncia dos que promovem tais cria&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    V&ecirc;-se que eles est&atilde;o hoje no que aprenderam h&aacute; trinta<br \/>\n    ou quarenta anos atr&aacute;s. Acham que a pol&iacute;tica deve ser uma gangorra<br \/>\n    com duas pontas, da qual, ora uma, ora outra precisa estar no alto.<\/p>\n<p>Quem v&ecirc; o que sucede, n&atilde;o j&aacute; em uma na&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    mais em uma fam&iacute;lia um pouco numerosa, logo percebe que em parte alguma<br \/>\n    se encontra essa divis&atilde;o bin&aacute;ria das intelig&ecirc;ncias. Reunidos<br \/>\n    pelos la&ccedil;os de parentesco o mais &iacute;ntimo, pais e filhos revelam<br \/>\n    sentimentos e id&eacute;ias bem diversos. Uns s&atilde;o favor&aacute;veis<br \/>\n    ao casamento, outros lhe s&atilde;o contr&aacute;rios. Os contr&aacute;rios<br \/>\n    ao casamento podem tamb&eacute;m ser contr&aacute;rios ao div&oacute;rcio,<br \/>\n    ao passo que os outros o aceitam. Haver&aacute; entre eles protecionistas<br \/>\n    e livre-cambistas; nacionalistas e internacionalistas; partid&aacute;rios<br \/>\n    da concess&atilde;o do voto pol&iacute;tico &agrave;s mulheres e oposicionistas<br \/>\n    a essa medida; religiosos e ateus; defensores do sufr&aacute;gio universal<br \/>\n    para todos os homens, defensores do sufr&aacute;gio censit&aacute;rio.<\/p>\n<p>H&aacute; milhares de quest&otilde;es sobre as quais as diverg&ecirc;ncias<br \/>\n    s&atilde;o poss&iacute;veis e cada vez que se trata de uma delas, os grupos,<br \/>\n    mesmo em uma fam&iacute;lia, se formam de modo diverso. Sabida a opini&atilde;o<br \/>\n    de qualquer pessoa sobre uma dessas quest&otilde;es, n&atilde;o se pode inferir<br \/>\n    de modo algum como ela pensar&aacute; sobre as outras. Quem, por exemplo,<br \/>\n    conhece um cidad&atilde;o notoriamente livre-cambista, pode inferir da&iacute;<br \/>\n    o que ele pensa sobre o div&oacute;rcio ou sobre a concess&atilde;o do voto<br \/>\n    pol&iacute;tico &agrave;s mulheres, ou sobre a conveni&ecirc;ncia de haver<br \/>\n    uma religi&atilde;o de Estado? &Eacute; imposs&iacute;vel.<\/p>\n<p>H&aacute; tempos, a C&acirc;mara inglesa assistiu a um debate sobre a concess&atilde;o<br \/>\n    do direito de voto &agrave;s mulheres.<\/p>\n<p>S&oacute; os socialistas foram un&acirc;nimes a favor da medida. Em todos<br \/>\n    os outros partidos os votos se dividiram. Houve conservadores a favor e conservadores<br \/>\n    contra, liberais a favor e liberais contra; houve enfim &#8212; o que foi<br \/>\n    o caso mais interessante do debate &#8212; parte do minist&eacute;rio num<br \/>\n    sentido e parte no outro. O presidente do Conselho votou contra e defendeu<br \/>\n    tamb&eacute;m a sua opini&atilde;o.<\/p>\n<p>O Governo de Uni&atilde;o Nacional, em 1932, embora estivesse de acordo sobre<br \/>\n    o maior n&uacute;mero de cousas, n&atilde;o o estava sobre certas quest&otilde;es<br \/>\n    de tarifas. Resolveu diante disso que os ministros dissidentes poderiam proclamar<br \/>\n    a sua dissid&ecirc;ncia e pleite&aacute;-la mesmo perante o Parlamento. Este<br \/>\n    decidiria.<\/p>\n<p>Ningu&eacute;m compreenderia esse modo de agir no tempo em que se formou<br \/>\n    &#8212; e em que, segundo parece, se petrificou &#8212; a intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    de certos diretores da pol&iacute;tica brasileira. Hoje, por&eacute;m, todos<br \/>\n    reconhecem que n&atilde;o h&aacute; apenas em pol&iacute;tica dois grupos<br \/>\n    de id&eacute;ias, &#8212; id&eacute;ias solid&aacute;rias entre si e opostas<br \/>\n    em bloco &agrave;s id&eacute;ias contr&aacute;rias. Todas as combina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    s&atilde;o poss&iacute;veis, de boa f&eacute;, lealmente. Nosso c&eacute;rebro<br \/>\n    &eacute; um mosaico, uma obra de marchetaria.<\/p>\n<p>Por isso, nos parlamentos, ao trabalho dos grandes partidos pol&iacute;ticos<br \/>\n    tende a substituir-se o trabalho dos &#8220;grupos&#8221;. Para cada quest&atilde;o<br \/>\n    especial, de certa import&acirc;ncia, forma-se o grupo dos que defendem esta<br \/>\n    ou aquela solu&ccedil;&atilde;o e os deputados se repartem livremente pelos<br \/>\n    grupos que lhes interessam.<\/p>\n<p>&Eacute; o razo&aacute;vel.<\/p>\n<p>E em resumo, o essencial &eacute; que se veja bem, que ningu&eacute;m pensa<br \/>\n    por grupos de id&eacute;ias solid&aacute;rias entre si e que as diferentes<br \/>\n    id&eacute;ias de cada pessoa n&atilde;o formam um todo. t&atilde;o coeso e<br \/>\n    forte, que, dada uma, por ela se possam concluir as outras. Todos conhecem<br \/>\n    o gracejo c&eacute;lebre, que consiste em formular o problema seguinte: &#8220;Dada<br \/>\n    a tonelagem de um navio e a altura de seus mastros, determinar a idade do<br \/>\n    comandante&#8221;.<\/p>\n<p>Um disparate n&atilde;o menor e absolutamente do mesmo g&ecirc;nero &eacute;<br \/>\n    o do problema que procura resolver as elei&ccedil;&otilde;es do presidente<br \/>\n    nas rep&uacute;blicas presidenciais. Esse problema se pode sempre formular<br \/>\n    da mesma maneira: &#8220;Dado o modo de pensar de um certo indiv&iacute;duo<br \/>\n    sobre a quest&atilde;o, que se debate no momento que ele &eacute; eleito,<br \/>\n    adivinhar como ele pensar&aacute; acerca de todas as outras, que podem surgir<br \/>\n    durante o seu governo&#8221;.<\/p>\n<p>Sem d&uacute;vida, h&aacute; certas indica&ccedil;&otilde;es que permitem<br \/>\n    &#8212; sobretudo no dom&iacute;nio moral &#8212; prever como um indiv&iacute;duo<br \/>\n    agir&aacute;. Pode-se ter como certo que, se ele deu numerosas provas de austeridade,<br \/>\n    corre&ccedil;&atilde;o e desinteresse, continuar&aacute; a agir honestamente.<\/p>\n<p>Mas agir honestamente n&atilde;o basta. &Eacute; indispens&aacute;vel, sem<br \/>\n    que seja suficiente. Honestamente se podem adotar solu&ccedil;&otilde;es muito<br \/>\n    diversas, muito antag&ocirc;nicas, sobre todas as quest&otilde;es pol&iacute;ticas.<br \/>\n    Honestamente, os homens de maior talento podem errar.<\/p>\n<p>Ora, hoje ningu&eacute;m consegue prever que quest&otilde;es se v&atilde;o<br \/>\n    formular dentro de um per&iacute;odo de quatro anos. Nem de quatro anos, nem<br \/>\n    de quatro meses. Os casos mais graves da pol&iacute;tica aparecem sem que<br \/>\n    ningu&eacute;m os tenha suscitado propositadamente. S&atilde;o, &agrave;s<br \/>\n    vezes, as circunst&acirc;ncias exteriores que os imp&otilde;em. Um homem pol&iacute;tico,<br \/>\n    de extraordin&aacute;rio descortino, que desejasse calcular os problemas que<br \/>\n    v&atilde;o surgir durante um per&iacute;odo presidencial, para sobre todos<br \/>\n    dar a sua opini&atilde;o, nunca o conseguiria fazer. Essa adivinha&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    seria imposs&iacute;vel.<\/p>\n<p>Por isso mesmo, o que sucederia de melhor em uma rep&uacute;blica presidencial,<br \/>\n    cujos presidentes fossem honestamente eleitos, seria o seguinte: escolher-se-ia<br \/>\n    o chefe do Estado, de acordo com a sua opini&atilde;o sobre a quest&atilde;o<br \/>\n    mais importante, que estivesse pendente.<\/p>\n<p>H&aacute; por exemplo, um debate aceso sobre o livre-cambismo e o protecionismo.<br \/>\n    A corrente popular &eacute; a favor do primeiro. Elege-se o presidente que<br \/>\n    o favorece. Mas, &agrave; parte esse problema, que pode ficar resolvido nos<br \/>\n    primeiros meses de governo, h&aacute; outros, que v&atilde;o surgir inesperadamente;<br \/>\n    outros, que &#8212; ningu&eacute;m, meses antes, dias antes, seria capaz de<br \/>\n    imaginar.<\/p>\n<p>Como da sua opini&atilde;o sobre as pautas aduaneiras deduzir o que ele pensar&aacute;<br \/>\n    sobre tudo mais? Imposs&iacute;vel. &Eacute; o problema de determinar pela<br \/>\n    tonelagem de um navio qual a idade do comandante! N&atilde;o h&aacute; rela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    alguma entre o que se sabe e o que se pergunta.<\/p>\n<p>O que ocorreu entre n&oacute;s com a elei&ccedil;&atilde;o do Sr. Wenceslau<br \/>\n    Braz &eacute; caracter&iacute;stico.<\/p>\n<p>Ele foi indicado como candidato &agrave; Presid&ecirc;ncia em outubro de<br \/>\n    1913, eleito em mar&ccedil;o de 1914, reconhecido em maio desse mesmo ano.<\/p>\n<p>Tratava-se de um homem honesto, respeit&aacute;vel por todos os motivos.<br \/>\n    Tinha, por&eacute;m, um defeito: a indecis&atilde;o. Revelara-a muitas vezes<br \/>\n    na C&acirc;mara, como leader de maioria. Comodista e pachorrento, passara<br \/>\n    os quatro anos, em que fora vice-presidente, sem presidir uma s&oacute; das<br \/>\n    sess&otilde;es do Senado. Divertia-se em Itajub&aacute; no seu esporte favorito:<br \/>\n    a pesca.<\/p>\n<p>Eleito, quando tudo estava em paz e, portanto, esses defeitos do seu temperamento<br \/>\n    podiam n&atilde;o ser muito nocivos, eis que sobre ele desaba a guerra europ&eacute;ia.<\/p>\n<p>N&atilde;o se podia imaginar pessoa alguma menos pr&oacute;pria como presidente<br \/>\n    de uma na&ccedil;&atilde;o em tempo de guerra do que o pac&iacute;fico pescador<br \/>\n    de Itajub&aacute;. Ningu&eacute;m, quando o elegeu, pensava nessa hip&oacute;tese.<\/p>\n<p>Mas o regime presidencial &eacute; esse absurdo: uma vez eleito, um governo<br \/>\n    tem de servir por quatro anos, haja o que houver.<\/p>\n<p>Wenceslau Braz passou perto de tr&ecirc;s anos hesitando, oscilando, n&atilde;o<br \/>\n    sabendo bem o que fazer. Afinal decidiu-se pela declara&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    guerra, mas uma declara&ccedil;&atilde;o vergonhosa, em que n&oacute;s dissemos<br \/>\n    s&oacute; tomar parte na guerra porque os Estados Unidos o haviam feito. N&atilde;o<br \/>\n    entramos na luta, como uma na&ccedil;&atilde;o soberana, mas os escudeiros<br \/>\n    dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Mesmo depois da declara&ccedil;&atilde;o de nossa beliger&acirc;ncia, o Brasil<br \/>\n    continuou hesitando, hesitando, hesitando. Por c&uacute;mulo, no fim, como<br \/>\n    n&oacute;s t&iacute;nhamos estado a favor dos Aliados, mand&aacute;mos para<br \/>\n    a Confer&ecirc;ncia da Paz um german&oacute;filo!<\/p>\n<p>Mas n&atilde;o vale a pena entrar em pormenores. &Eacute; preciso pensar<br \/>\n    apenas no que o caso tem de geral.<\/p>\n<p>V&ecirc;-se por ele que se pode eleger um presidente, admiravelmente apto<br \/>\n    para os labores calmos do tempo de paz. De repente, sobrev&eacute;m uma guerra.<br \/>\n    Apesar disso, n&atilde;o se tem o direito de mudar. Tem-se de ficar durante<br \/>\n    quatro anos com o homem inapto para a guerra, incapaz de resolu&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    en&eacute;rgicas e prontas.<\/p>\n<p>Ele pode n&atilde;o fazer nada de ilegal. N&atilde;o h&aacute; direito algum<br \/>\n    de process&aacute;-lo. Mas ser&aacute; bambo, mole, indeciso. Far&aacute;,<br \/>\n    enfim, embora com as melhores inten&ccedil;&otilde;es, que percamos a guerra.<br \/>\n    A de 1914 s&oacute; nos atingiu indiretamente. Se, por&eacute;m, tivesse havido<br \/>\n    um motivo, que nos impelisse s&uacute;bita e diretamente &agrave; luta, a<br \/>\n    uma luta no nosso continente, contra n&oacute;s? Perder&iacute;amos tudo,<br \/>\n    mas a inomin&aacute;vel estupidez do regime presidencial nos condenaria a<br \/>\n    n&atilde;o mudar de governo durante quatro anos.<\/p>\n<p>O contrario pode tamb&eacute;m ocorrer. Em um momento de guerra, elege-se<br \/>\n    um presidente que conviria muito bem para dirigi-la. Ser&aacute; por exemplo,<br \/>\n    um general intr&eacute;pido. Mas, de repente, como isso acontece nas guerras,<br \/>\n    a luta cessa. Vencidos ou vencedores, passamos a precisar de algu&eacute;m<br \/>\n    pr&oacute;prio para os labores pac&iacute;ficos da reconstru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    financeira do pa&iacute;s. Em vez disso, o regime presidencial pede que fiquemos<br \/>\n    quatro anos com o chefe de Estado, que seria &oacute;timo em tempo de guerra,<br \/>\n    mas pouco entende de economia e finan&ccedil;as.<\/p>\n<p>Dar o mesmo tempo de poder a um governo, quer ele seja bom, quer ele seja<br \/>\n    mau, &eacute; um absurdo incr&iacute;vel.<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; mesmo possibilidade de constituir o programa real do<br \/>\n    que, nos nossos agitados tempos, em que a vida pol&iacute;tica de cada na&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    depende mais ou menos da de todas as outras, um governo far&aacute; ou n&atilde;o<br \/>\n    far&aacute; no per&iacute;odo de quatro anos. Frases vagas, assegurando que<br \/>\n    o eleito agir&aacute; &#8220;patrioticamente&#8221; procurar&aacute; fazer<br \/>\n    &#8220;o bem do povo&#8221;, conciliar&aacute; &agrave;s &#8220;necessidades<br \/>\n    do progresso com as necessidades da conserva&ccedil;&atilde;o social&#8221;,<br \/>\n    n&atilde;o valem nada, n&atilde;o dizem nada de preciso sobre as solu&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    pr&aacute;ticas, imediatas, concretas, que ele trar&aacute; para os casos<br \/>\n    novos, imprevistos, que reclamarem a sua decis&atilde;o patri&oacute;tica.<\/p>\n<p>Tolstoi dizia a algu&eacute;m: &#8220;A verdade &eacute; uma s&oacute;&#8221;.<br \/>\n    O interlocutor lhe respondeu: &#8220;Mas, as maneiras de entend&ecirc;-la<br \/>\n    s&atilde;o diversas&#8221;. Dois indiv&iacute;duos igualmente honestos, igualmente<br \/>\n    dispostos a obedecer &agrave; vontade do povo, decidir&atilde;o de modos opostos<br \/>\n    a mesma quest&atilde;o.<\/p>\n<p>Por isso, mesmo admitindo um regime presidencial idealmente praticado, a<br \/>\n    elei&ccedil;&atilde;o do chefe de Estado ser&aacute; sempre uma aventura,<br \/>\n    um risco a correr, um salto no desconhecido. A na&ccedil;&atilde;o fica arrendada<br \/>\n    &agrave; vontade de um homem por um prazo fixo, quer ele pense bem quer ele<br \/>\n    pense mal.<\/p>\n<p>N&atilde;o se trata, quando aqui se fala em pensar mal, de pensar ou agir<br \/>\n    criminosamente. De boa f&eacute;, os melhores podem errar. E como o presidente,<br \/>\n    cujos vetos s&oacute; s&atilde;o revog&aacute;veis por dois ter&ccedil;os<br \/>\n    do Congresso, basta para se opor &agrave; vontade da maioria da na&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    &#8212; a na&ccedil;&atilde;o fica sujeita a ele por um prazo, que nenhum<br \/>\n    recurso legal pode diminuir.<\/p>\n<p>No regime parlamentar n&atilde;o h&aacute; isso. O Presidente pode ser eleito<br \/>\n    com conhecimento de causa por quatro ou por sete anos, porque o que se lhe<br \/>\n    pede s&atilde;o apenas qualidades morais. Desde que o saibam honesto, digno,<br \/>\n    tolerante, &eacute; o necess&aacute;rio. N&atilde;o &eacute; ele quem governa.<br \/>\n    Ele constitui apenas um centro neutro de agrupamento, uma representa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    te&oacute;rica da na&ccedil;&atilde;o. Se aparecem problemas imprevistos,<br \/>\n    a solu&ccedil;&atilde;o incumbe aos ministros, que est&atilde;o em contacto<br \/>\n    direto com o parlamento e s&atilde;o facilmente substitu&iacute;veis. Surgindo<br \/>\n    a quest&atilde;o nova, procuram-se logo os homens novos, aptos para a resolverem.<\/p>\n<p>Nenhum perigo, nenhuma surpresa. O presidente tem apenas uma import&acirc;ncia<br \/>\n    decorativa, para uso externo. N&atilde;o entra nas lutas interiores, n&atilde;o<br \/>\n    se amesquinha.<\/p>\n<p>E, se, por acaso, o chefe real do governo &#8212; isto &eacute;, o presidente<br \/>\n    do Conselho &#8212; faz um ato qualquer incorreto, nada mais f&aacute;cil<br \/>\n    do que p&ocirc;-lo &agrave; margem. Sua desmoraliza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    acarreta a desmoraliza&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s. De um dia para outro,<br \/>\n    sem a m&iacute;nima perturba&ccedil;&atilde;o da vida nacional, surge um minist&eacute;rio<br \/>\n    novo.<\/p>\n<p>N&atilde;o acontece o mesmo no regime presidencial em que o chefe de Estado<br \/>\n    &eacute; sempre e deve ser o mais discutido. Se a cr&iacute;tica revela a<br \/>\n    sua incapacidade, o homem que &eacute; a mais alta representa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do pa&iacute;s, deslustra e desmoraliza a na&ccedil;&atilde;o inteira.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel pedir aos pol&iacute;ticos nacionais,<br \/>\n    em nome do decoro do pa&iacute;s, que se abstenham disso, porque o presidente<br \/>\n    &eacute; que tem toda a for&ccedil;a; &eacute; ele que age. Em vez de estar,<br \/>\n    como no regime parlamentar, fora e acima de todo debate, deve sempre achar-se<br \/>\n    no foco de todas as discuss&otilde;es. &Eacute; do seu of&iacute;cio. &Eacute;<br \/>\n    da natureza do sistema.<\/p>\n<p>O resultado &eacute; o que se v&ecirc; nos Estados Unidos, onde certas lutas<br \/>\n    presidenciais t&ecirc;m sido de tal ordem, que tanto o vencido como o vencedor<br \/>\n    saem delas desmoralizados.<\/p>\n<p>Na melhor das hip&oacute;teses, admitindo um presidente bem escolhido, ele<br \/>\n    chega sempre ao fim de seu per&iacute;odo diminu&iacute;do de prest&iacute;gio.<br \/>\n    At&eacute; hoje, entre n&oacute;s s&oacute; houve a exce&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do Sr. Rodrigues Alves. Mas com exce&ccedil;&otilde;es n&atilde;o se argumenta.<br \/>\n    A regra &eacute; que os erros fa&ccedil;am um mal maior e os acertos sejam<br \/>\n    facilmente esquecidos. Ao terminar o per&iacute;odo, &eacute;, portanto, natural<br \/>\n    que o presidente veja contra si tudo aquilo em que possa ter-se enganado.<\/p>\n<p>A rep&uacute;blica presidencial n&atilde;o prepara estadistas. N&atilde;o<br \/>\n    os pode preparar. Durante cada per&iacute;odo s&oacute; h&aacute; &#8220;um<br \/>\n    homem&#8221; &#8212; um s&oacute; &#8212; que dirige a na&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Erre ou acerte, ele tem de ficar todo o prazo constitucional. Haja embora<br \/>\n    muitos, que tenham talento e compet&ecirc;ncia para resolver melhor do que<br \/>\n    ele diversos problemas, esses talentos n&atilde;o se podem revelar. S&oacute;<br \/>\n    h&aacute; uma autoridade: a do presidente. O regime parlamentar, com o que<br \/>\n    se chama a sua &#8220;instabilidade&#8221;, tem o m&eacute;rito de tatear<br \/>\n    e procurar at&eacute; achar o homem pr&oacute;prio para cada situa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Forma estadistas. Experimenta-os. P&otilde;e-nos &agrave; prova. Conserva<br \/>\n    os que prestam e elimina os outros.<\/p>\n<p>O regime presidencial, desde que, pelo acaso de uma quest&atilde;o de momento,<br \/>\n    p&ocirc;s um homem no poder, junge a na&ccedil;&atilde;o ao destino desse<br \/>\n    homem, embora ele multiplique os desacertos.<\/p>\n<p>Cada vez que se trata de escolher um presidente com o nosso atual sistema,<br \/>\n    n&oacute;s verificamos a pen&uacute;ria de candidatos dignos dessa candidatura.<\/p>\n<p>Na teoria ou na pr&aacute;tica, bem ou mal aplicado, o presidencialismo revela<br \/>\n    sempre a sua inferioridade. Na melhor das hip&oacute;teses, o que se poderia<br \/>\n    ter seria sempre uma aventura: escolher-se-ia um homem pelos seus antecedentes<br \/>\n    morais e pela sua orienta&ccedil;&atilde;o acerca do problema que mais apaixonasse<br \/>\n    os esp&iacute;ritos no momento da elei&ccedil;&atilde;o. Quando se tivesse<br \/>\n    acertado em tudo isso, nada garantiria o m&eacute;rito da escolha, no dia<br \/>\n    seguinte ao da sua realiza&ccedil;&atilde;o, diante de problemas novos e imprevistos,<br \/>\n    que a cada instante est&atilde;o aparecendo.<\/p>\n<p>O regime presidencial pede ao chefe do Estado a onisci&ecirc;ncia. Ele deve<br \/>\n    entender de tudo, decidir de tudo. O regime parlamentar d&aacute; a chefia<br \/>\n    do governo, em cada momento, ao homem que nesse momento melhor pode defender<br \/>\n    a solu&ccedil;&atilde;o conveniente do problema que est&aacute; em debate.<\/p>\n<p>Nos diversos dom&iacute;nios da atividade humana sente-se a necessidade da<br \/>\n    especializa&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o h&aacute; um homem de ci&ecirc;ncia<br \/>\n    que possa, como no tempo de Arist&oacute;teles, abranger todas as ci&ecirc;ncias.<br \/>\n    Dentro de cada ci&ecirc;ncia, as especializa&ccedil;&otilde;es s&atilde;o<br \/>\n    indispens&aacute;veis. Nenhum m&eacute;dico pode ter a pretens&atilde;o de<br \/>\n    verdadeira compet&ecirc;ncia em todos os dom&iacute;nios da medicina e da<br \/>\n    cirurgia. Nenhum industrial entende de todas as ind&uacute;strias.<\/p>\n<p>No dom&iacute;nio pol&iacute;tico, que envolve uma infinita variedade de<br \/>\n    quest&otilde;es sobre direito, sobre higiene, sobre com&eacute;rcio e ind&uacute;stria,<br \/>\n    sobre guerra, sobre marinha, sobre tudo, enfim, pode-se achar um homem que<br \/>\n    de tudo isso entenda? &#8212; &Eacute; claro que n&atilde;o!<\/p>\n<p>No entanto, &eacute; esse absurdo que se pede ao presidente da rep&uacute;blica<br \/>\n    presidencial. Ele &eacute; o signat&aacute;rio respons&aacute;vel de todos<br \/>\n    os atos acerca de todas essas quest&otilde;es.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; l&iacute;cito dizer que basta que ele tenha um conhecimento<br \/>\n    vago das quest&otilde;es. N&atilde;o se pode querer responsabilidade sem compet&ecirc;ncia,<br \/>\n    sem consci&ecirc;ncia exata dos atos praticados.<\/p>\n<p>Na rep&uacute;blica parlamentar, o presidente n&atilde;o &eacute; respons&aacute;vel.<br \/>\n    A responsabilidade &eacute; dos ministros. Basta, portanto, que o presidente<br \/>\n    tenha disso uma no&ccedil;&atilde;o superficial. A sua assinatura &eacute;<br \/>\n    uma formalidade. Ele tem que assinar, mesmo quando n&atilde;o concorde.<\/p>\n<p>&Eacute; bom notar um fato universal. Em todos os grandes pa&iacute;ses civilizados,<br \/>\n    a especializa&ccedil;&atilde;o crescente dos servi&ccedil;os p&uacute;blicos<br \/>\n    vai exigindo a cria&ccedil;&atilde;o de novos minist&eacute;rios: do trabalho,<br \/>\n    da assist&ecirc;ncia p&uacute;blica, da terra, etc. &Eacute; a confiss&atilde;o<br \/>\n    de que se precisam de compet&ecirc;ncias especiais para cada ramo dos servi&ccedil;os<br \/>\n    p&uacute;blicos.<\/p>\n<p>S&oacute; o regime presidencial firma como princ&iacute;pio, que o presidente<br \/>\n    deve ser onisciente!<\/p>\n<p>Poder-se-ia aqui discutir o m&eacute;todo eleitoral: se conv&eacute;m mais<br \/>\n    a elei&ccedil;&atilde;o do presidente pelo voto direto ou pelo Congresso;<br \/>\n    mas isso n&atilde;o &eacute; essencial a nenhum regime. No regime presidencial,<br \/>\n    nada impediria a elei&ccedil;&atilde;o de ser feita pelo Congresso e no parlamentar<br \/>\n    pelo sufr&aacute;gio direto.<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute;, entretanto, quem n&atilde;o veja como a situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    atual &#8212; a com&eacute;dia da escolha pelo sufr&aacute;gio direto &#8212;<br \/>\n    &eacute; perturbadora da vida nacional. Todos sentem que, no dia em que se<br \/>\n    achasse no Congresso uma maioria favor&aacute;vel a qualquer candidato, n&atilde;o<br \/>\n    eleito de fato, nenhuma dificuldade haveria em, apesar disso, ajeitar as atas<br \/>\n    e proclam&aacute;-lo eleito&#8230; Essa hipocrisia de dois graus, primeiro nas<br \/>\n    urnas e depois na apura&ccedil;&atilde;o final, s&oacute; serve para perturbar<br \/>\n    a vida nacional. H&aacute; pelo menos, um per&iacute;odo de oito meses e meio,<br \/>\n    em que o presidente efetivo j&aacute; n&atilde;o tem todo o prest&iacute;gio<br \/>\n    preciso e o presidente eleito, ainda n&atilde;o tem todo o que seria desej&aacute;vel.<br \/>\n    O primeiro sente-se com o direito de querer governar com toda a for&ccedil;a<br \/>\n    at&eacute; o fim &#8212; e luta por isso. O segundo sente-se com o direito<br \/>\n    de n&atilde;o querer achar uma situa&ccedil;&atilde;o muito perturbada, e<br \/>\n    come&ccedil;a logo a intervir, mais ou menos veladamente.<\/p>\n<p>Tudo, portanto, na escolha dos presidentes do regime presidencial &eacute;<br \/>\n    nefasto.<\/p>\n<h4><a name=\"8\">VIII &#8211; QUE OS DEFENSORES DO PRESIDENCIALISMO ENTRE N&Oacute;S OBEDECEM A<br \/>\n    M&Oacute;VEIS F&Aacute;CEIS DE DETERMINAR&#8230;<\/a><\/h4>\n<p>N&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil adivinhar os verdadeiros motivos que guiam<br \/>\n    a maioria dos defensores do presidencialismo entre n&oacute;s.<\/p>\n<p>H&aacute; em primeiro lugar os que sentem como lhes seria imposs&iacute;vel<br \/>\n    manter o prest&iacute;gio em um regime parlamentar.<\/p>\n<p>Pode-se falar de Pinheiro Machado como de uma figura hist&oacute;rica. &Eacute;<br \/>\n    mesmo imposs&iacute;vel escrever a hist&oacute;ria da Rep&uacute;blica do<br \/>\n    Brasil, sem mencionar o nome do homem, que acabou por concentrar em suas m&atilde;os<br \/>\n    todo o poder.<\/p>\n<p>E &eacute; um fato caracter&iacute;stico para o julgamento de um regime.<\/p>\n<p>Era um homem inteligente, ativo, audacioso. Faltava-lhe, por&eacute;m, o<br \/>\n    largo descortino. Faltava-lhe instru&ccedil;&atilde;o. O que sabia, sabia<br \/>\n    de oitiva, por viver, em rodas de pessoas cultas.<\/p>\n<p>Tendo tido um t&atilde;o longo e t&atilde;o absoluto dom&iacute;nio na pol&iacute;tica<br \/>\n    nacional, nunca defendeu na tribuna uma medida de ordem geral, nunca teve<br \/>\n    qualquer iniciativa. Quando entrava em campo era para fazer votar a lei que<br \/>\n    melhorava a reforma do general X, a lei que chamava &agrave; atividade o tenente<br \/>\n    reformado Y, a lei que concedia pens&atilde;o a Fulano ou Sicrano&#8230;<\/p>\n<p>Todos sabiam, sentiam, viam que ele seria incapaz de expor uma grande quest&atilde;o<br \/>\n    social, de qualquer natureza: reforma financeira, reforma judici&aacute;ria,<br \/>\n    reforma de instru&ccedil;&atilde;o. Suas decis&otilde;es eram sempre tomadas<br \/>\n    por considera&ccedil;&otilde;es pessoais. Quando apoiava ou quando combatia<br \/>\n    um projeto, era para dar prest&iacute;gio ou enfraquecer o respectivo autor.<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; nisto azedume ou oposi&ccedil;&atilde;o apaixonada.<br \/>\n    Ningu&eacute;m &eacute; capaz de encontrar em nenhum pa&iacute;s civilizado<br \/>\n    um homem que tenha exercido tanto prest&iacute;gio efetivo, como o que o Sr.<br \/>\n    Pinheiro Machado exerceu no Brasil. Chegou a ser o dono da terra. Ningu&eacute;m,<br \/>\n    em compensa&ccedil;&atilde;o, &eacute; capaz de citar uma reforma pol&iacute;tica,<br \/>\n    social, industrial ou financeira, que tenha partido de sua iniciativa ou que<br \/>\n    por ele tenha sido exposta e defendida.<\/p>\n<p>Isso basta &#8212; ainda uma vez se pode dizer &#8212; para julgar um regime.<\/p>\n<p>A monarquia entre n&oacute;s teve muitos ministros e presidentes de Conselho,<br \/>\n    que eram personagens sem valor. &Eacute; poss&iacute;vel &#8212; &eacute;<br \/>\n    mesmo certo que alguns foram menos inteligentes que o Sr. Pinheiro Machado.<br \/>\n    Mas qualquer deles, mesmo o mais nulo, sabia expor as quest&otilde;es, sabia<br \/>\n    mostrar as v&aacute;rias solu&ccedil;&otilde;es poss&iacute;veis. Era for&ccedil;oso.<br \/>\n    Era do of&iacute;cio. O menos que se pede a um ministro no regime parlamentar,<br \/>\n    &eacute; que ele saiba como os problemas se formulam, em que termos podem<br \/>\n    ser apresentados. Os homens de valor escolhem as melhores solu&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ou acham solu&ccedil;&otilde;es novas. Os nulos aceitam as solu&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    batidas. Mas uns e outros, no m&iacute;nimo, sabem o que h&aacute; sobre cada<br \/>\n    problema. Sem isso, &eacute; poss&iacute;vel ser um cabo eleitoral, uma influ&ecirc;ncia<br \/>\n    de corredor, mas n&atilde;o se chega a ministro, a presidente do Conselho,<br \/>\n    a grande chefe pol&iacute;tico.<\/p>\n<p>Compreende-se, portanto, muito bem que os que est&atilde;o no caso de Pinheiro<br \/>\n    Machado sejam defensores intransigentes do regime presidencial. &Eacute; o<br \/>\n    &uacute;nico que lhes serve. &Eacute; o &uacute;nico em que n&atilde;o se<br \/>\n    precisa dar prova de capacidade para tomar conta da pol&iacute;tica nacional.<\/p>\n<p>Corra algu&eacute;m, que conhe&ccedil;a a pol&iacute;tica brasileira, o nome<br \/>\n    dos que est&atilde;o &agrave; frente dos v&aacute;rios Estados da Uni&atilde;o.<br \/>\n    Imediatamente ver&aacute; que, se tais Estados fossem regidos pelo sistema<br \/>\n    parlamentar, apenas dois ou tr&ecirc;s desses cavalheiros poderiam estar nos<br \/>\n    postos que ocupam.<\/p>\n<p>O regime parlamentar n&atilde;o tem o dom de fazer cogumelar estadistas geniais.<br \/>\n    H&aacute; nulidades em todos os dom&iacute;nios da atividade humana. Mas o<br \/>\n    incontest&aacute;vel &eacute; que esse regime n&atilde;o admite que um tenentinho<br \/>\n    ignorante pule da tarimba para a chefia do poder, sem preparo, sem conhecimentos<br \/>\n    de qualquer esp&eacute;cie.<\/p>\n<p>Assim, o primeiro grupo dos defensores do presidencialismo se faz dos incapazes.<\/p>\n<p>Mas h&aacute; homens de grande valor, que o defendem. Seria injusti&ccedil;a<br \/>\n    neg&aacute;-lo.<\/p>\n<p>F&aacute;-lo-&atilde;o sinceramente? Talvez&#8230; &Eacute;, entretanto, bem<br \/>\n    dif&iacute;cil acreditar nisso. O que se v&ecirc; &eacute; que, tendo a esperan&ccedil;a<br \/>\n    de chegar ao poder supremo, eles desejam, quando isso aconte&ccedil;a, ter<br \/>\n    esse poder inteiro, absoluto, incontestado. O regime presidencial &eacute;<br \/>\n    o da onipot&ecirc;ncia do chefe do Estado. A isso eles aspiram.<\/p>\n<p>Passam-se anos. A cada renova&ccedil;&atilde;o presidencial recome&ccedil;am<br \/>\n    a ter esperan&ccedil;as, que facilmente se transformam em decep&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    N&atilde;o importa! De todos os sentimentos o mais tenaz &eacute; a esperan&ccedil;a.<br \/>\n    Guardam-no ainda.<\/p>\n<p>Afinal esses pol&iacute;ticos, entre os quais h&aacute; alguns esp&iacute;ritos<br \/>\n    de primeira ordem, realizam a f&aacute;bula do cachorro, que perdeu a carne<br \/>\n    pela sombra. Pela sombra de um poder quase absoluto, eles deixam a realidade<br \/>\n    de um poder, que lhes seria f&aacute;cil alcan&ccedil;ar, se o Brasil estivesse<br \/>\n    sob o regime parlamentar.<\/p>\n<p>Sob o regime parlamentar alguns deles teriam sido v&aacute;rias vezes ministros<br \/>\n    e presidentes do Conselho. Sonhando o poder supremo da Rep&uacute;blica presidencial,<br \/>\n    eles acabam por n&atilde;o ser nem isso, nem nada. Vegetam no Congresso, obrigados<br \/>\n    a apoiar atos abusivos, ilegais e violentos, sempre acreditando que no pr&oacute;ximo<br \/>\n    per&iacute;odo poder&atilde;o, por sua vez, fazer o que quiserem. E o logro<br \/>\n    recome&ccedil;a de quatro em quatro anos&#8230;<\/p>\n<p>Resta um terceiro grupo de apoiadores do regime presidencial: os que o fazem<br \/>\n    por simples coer&ecirc;ncia. Esse grupo n&atilde;o &eacute; grande. A coer&ecirc;ncia<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; atualmente uma virtude muito prezada. Em todo caso, alguns<br \/>\n    h&aacute; entre os republicanos, que tendo aceitado com um entusiasmo irrefletido<br \/>\n    o sistema pol&iacute;tico da Constitui&ccedil;&atilde;o de 1891, n&atilde;o<br \/>\n    querem parecer vol&uacute;veis e declaram-se dispostos a sustent&aacute;-lo.<\/p>\n<p>A verdade &eacute; que, em 1891, eles n&atilde;o sabiam o que era o presidencialismo,<br \/>\n    n&atilde;o lhe conheciam na pr&aacute;tica o mecanismo. Agora o v&ecirc;em,<br \/>\n    o conhecem, o reprovam, mas n&atilde;o desejam mostrar-se incoerentes.<\/p>\n<p>E surge ent&atilde;o o mais corrente dos sofismas, com que se defende o presidencialismo:<br \/>\n    que ele n&atilde;o &eacute; bem compreendido, nem bem aplicado.<\/p>\n<p>Isso, entretanto, n&atilde;o &eacute; defesa: &eacute; acusa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &Eacute; mesmo a mais forte das acusa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Se n&oacute;s somos uma democracia, uma rep&uacute;blica, e se, por defini&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a rep&uacute;blica &eacute; o governo do povo pelo povo, &#8212; um sistema,<br \/>\n    que, embora votado h&aacute; mais de 20 anos, ainda n&atilde;o conseguiu ser<br \/>\n    compreendido, n&atilde;o pode ser um sistema republicano e democr&aacute;tico<br \/>\n    H&aacute; nisso a confiss&atilde;o de que n&atilde;o foi o povo que o quis.<br \/>\n    O povo n&atilde;o poderia querer uma cousa que ele n&atilde;o sabia e continua<br \/>\n    a n&atilde;o saber o que &eacute;.<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute;, ali&aacute;s, nenhum sistema pol&iacute;tico que seja<br \/>\n    idealmente bem aplicado. Todos sofrem deforma&ccedil;&otilde;es, com as quais<br \/>\n    &eacute; necess&aacute;rio contar. Se se pudesse esperar a execu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    perfeita de um sistema qualquer de governo, o melhor seria o que Renan chamou<br \/>\n    o do &#8220;bom tirano&#8221;.<\/p>\n<p>Caso se encontrasse um homem, com a capacidade precisa para bem compreender<br \/>\n    todos os altos problemas sociais e para os resolver com justi&ccedil;a e desinteresse,<br \/>\n    o ideal seria confiar-lhe a dire&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s. Governo<br \/>\n    r&aacute;pido. Governo perfeito.<\/p>\n<p>Mas at&eacute; hoje ainda n&atilde;o se encontrou o &#8220;bom tirano&#8221;,<br \/>\n    que fosse bom por muito tempo. A perfei&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    um atributo humano.<\/p>\n<p>Isso n&atilde;o basta para se dizer que, nesse caso, a quest&atilde;o de<br \/>\n    forma de governo, n&atilde;o tem import&acirc;ncia e todos os sistemas se<br \/>\n    equivalem. Ao contr&aacute;rio! Pois que se verifica que h&aacute; sempre<br \/>\n    a certeza de erros, melhor ser&aacute; aquele sistema, em que estes puderem<br \/>\n    ser corrigidos mais facilmente.<\/p>\n<p>No regime absoluto, em que a vontade de um s&oacute; predomina sem contraste<br \/>\n    durante toda a vida de um indiv&iacute;duo, a dificuldade est&aacute; no seu<br \/>\n    m&aacute;ximo.<\/p>\n<p>No regime presidencial, que &eacute; o do quase absolutismo, por per&iacute;odos<br \/>\n    certos, taxativos, limitados, j&aacute; h&aacute; a esperan&ccedil;a de que<br \/>\n    cada presidente novo desfa&ccedil;a os erros do anterior. Dentro, por&eacute;m,<br \/>\n    do per&iacute;odo todas as fiscaliza&ccedil;&otilde;es s&atilde;o ilus&oacute;rias.<br \/>\n    Nenhum erro se corrige.<\/p>\n<p>No regime parlamentar, assim que o erro se produz, &eacute; poss&iacute;vel<br \/>\n    repar&aacute;-lo, simples, sum&aacute;ria, suave e imediatamente.<\/p>\n<p>&Eacute; isso o que lhe d&aacute; a sua manifesta superioridade.<\/p>\n<p>Cada vez, portanto, que se acha quem julgue defender o regime presidencial<br \/>\n    com a alega&ccedil;&atilde;o de que ele n&atilde;o &eacute; &#8220;bem aplicado&#8221;,<br \/>\n    o que se acha, de fato, &eacute; um acusador inconsciente desse sistema nefasto.<\/p>\n<p>De resto, qual &eacute; o pior inconveniente do presidencialismo? A m&aacute;<br \/>\n    escolha do presidente Dele decorre tudo mais. Tudo mais &eacute; relativamente<br \/>\n    secund&aacute;rio, diante disso. Ora, para se julgar entre n&oacute;s a aplica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que tem tido o regime atual, basta perguntar: &#8220;Com o regime parlamentar,<br \/>\n    seria poss&iacute;vel a eleva&ccedil;&atilde;o ao poder do marechal Hermes?&#8221;<br \/>\n    Evidentemente, n&atilde;o. Mas os defensores do presidencialismo, reconhecendo<br \/>\n    embora que, com essa escolha, o governo do Brasil desceu a abismos em que<br \/>\n    ningu&eacute;m ousaria crer, desculpam-se com a eterna alega&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    &#8220;Mas com o sistema presidencial bem aplicado, tamb&eacute;m n&atilde;o<br \/>\n    se faria tal escolha&#8221;. A superioridade do regime parlamentar ainda uma<br \/>\n    vez aparece nitidamente, porque, com o sistema parlamentar, mesmo mal aplicado,<br \/>\n    nunca se poderia imaginar essa hip&oacute;tese!<\/p>\n<p>&Eacute; que &#8212; ainda uma vez se deve dizer &#8212; o regime parlamentar,<br \/>\n    por mais que o falsifiquem e desnaturem, exige um m&iacute;nimo de compet&ecirc;ncia<br \/>\n    dos homens que aspiram ao poder supremo. O regime presidencial n&atilde;o<br \/>\n    tem, para baixo, nenhum limite&#8230; A experi&ecirc;ncia est&aacute; feita!<\/p>\n<p>Assim, os defensores do regime presidencial entre n&oacute;s se grupam em<br \/>\n    tr&ecirc;s categorias principais:<\/p>\n<p>&#8212; os que est&atilde;o atualmente com o poder e sentem que, com outro<br \/>\n    regime, n&atilde;o o conseguiriam alcan&ccedil;ar;<\/p>\n<p>&#8212; os que, esperando um dia chegar &agrave; presid&ecirc;ncia, n&atilde;o<br \/>\n    querem ver-lhe diminu&iacute;das as prerrogativas. Muitos deles, que teriam<br \/>\n    m&eacute;rito bastante para alcan&ccedil;ar e exercer de fato o poder freq&uuml;entes<br \/>\n    vezes, no regime parlamentar, passam o tempo a aspirar por uma quimera que<br \/>\n    nunca se realiza;<\/p>\n<p>&#8212; os coerentes, que, ou por terem aceitado com entusiasmo sincero em<br \/>\n    1891 o novo sistema, ou, por terem feito parte do grupo de pretendentes falhados<br \/>\n    a que acima se aludiu, defenderam em outros tempos o presidencialismo e sentem<br \/>\n    agora acanhamento de mudar de opini&atilde;o.<\/p>\n<p>H&aacute; enfim &#8212; mas esses n&atilde;o t&ecirc;m import&acirc;ncia<br \/>\n    &#8212; a massa que se acarneira em torno dos que pertencem &agrave;quelas<br \/>\n    tr&ecirc;s categorias. V&atilde;o com os outros mecanicamente. S&atilde;o<br \/>\n    sat&eacute;lites. N&atilde;o manifestam opini&atilde;o pessoal.<\/p>\n<p>Um argumento de ordem pr&aacute;tica domina toda a quest&atilde;o para n&oacute;s.<br \/>\n    Com o regime parlamentar, nenhum dos homens de valor da Rep&uacute;blica teria<br \/>\n    sido impedido de exercer o poder. Pensem nos presidentes que se assinalaram<br \/>\n    pelo seu m&eacute;rito e ver&atilde;o, que, na rep&uacute;blica parlamentar,<br \/>\n    mais de uma vez lhes teria sido poss&iacute;vel chegar &agrave; presid&ecirc;ncia<br \/>\n    do Conselho. Em compensa&ccedil;&atilde;o, com o regime parlamentar, mesmo<br \/>\n    desnaturado, mesmo aplicado do pior modo, o Brasil nunca chegaria a um minist&eacute;rio<br \/>\n    Hermes, nunca teria certos chefes pol&iacute;ticos que o desgra&ccedil;am<br \/>\n    e infelicitam.<\/p>\n<p>Isso basta para, no nosso caso, julgar os dois sistemas.<\/p>\n<h4><a name=\"9\">IX &#8211; QUE O REGIME PRESIDENCIAL TROUXE, COMO CONSEQ&Uuml;&Ecirc;NCIA FATAL<br \/>\n    DO SEU MECANISMO, UMA CORRUP&Ccedil;&Atilde;O MORAL INOMIN&Aacute;VEL: ELE<br \/>\n    &Eacute; O REGIME DAS ADES&Otilde;ES E TRAI&Ccedil;&Otilde;ES<\/a><\/h4>\n<p>Se h&aacute; um dom&iacute;nio, em que o regime presidencial se tenha mostrado<br \/>\n    absolutamente nefasto, &eacute; o dom&iacute;nio moral. J&aacute; houve quem<br \/>\n    definisse a rep&uacute;blica atual uma ditadura heredit&aacute;ria, corrigida<br \/>\n    pelas trai&ccedil;&otilde;es dos sucessores aos antecessores.<\/p>\n<p>Em regra, os presidentes fazem os seus sucessores. Em regra, tamb&eacute;m<br \/>\n    esses sucessores acabam por tomar uma orienta&ccedil;&atilde;o inteiramente<br \/>\n    oposta. Ningu&eacute;m mais estranha esse estado de cousas.<\/p>\n<p>&Eacute; for&ccedil;oso convir que isso n&atilde;o ocorria outrora. Tempo<br \/>\n    houve no Brasil, em que havia fam&iacute;lias tradicionalmente ligadas a um<br \/>\n    partido, com o qual subiam, com o qual passavam ao ostracismo durante longos<br \/>\n    anos.<\/p>\n<p>Tudo isso saiu da moda.<\/p>\n<p>No tempo do Imp&eacute;rio, por ocasi&atilde;o de discutir-se a Aboli&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    houve o caso de um deputado mudar de partido. Um s&oacute;! Em torno disso<br \/>\n    se fez um esc&acirc;ndalo enorme. Ainda hoje, os velhos pol&iacute;ticos da<br \/>\n    monarquia n&atilde;o hesitam, assim que se lhes fala nisso: o nome do deputado<br \/>\n    a que se alude e que ainda &eacute; vivo lhes acode imediatamente.<\/p>\n<p>Hoje quem quisesse lembrar-se dessas bruscas convers&otilde;es precisaria<br \/>\n    ter na mem&oacute;ria um formid&aacute;vel reposit&oacute;rio de nomes! Nos<br \/>\n    Estados, a cada momento, se v&ecirc;em assembl&eacute;ias, que eram un&acirc;nimes<br \/>\n    a favor de um governador, ser, no dia seguinte ao da sua deposi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    igualmente un&acirc;nimes contra ele! Ningu&eacute;m se peja, ningu&eacute;m<br \/>\n    se envergonha disso! &Eacute; do regime.<\/p>\n<p>N&atilde;o se trata, realmente de desfalecimentos individuais inexplic&aacute;veis.<br \/>\n    Afinal, n&atilde;o h&aacute; raz&atilde;o nenhuma para que a psicologia geral<br \/>\n    dos brasileiros tivesse mudado, por motivos &#8212; se assim se pode dizer<br \/>\n    &#8212; org&acirc;nicos. O clima, a ra&ccedil;a, o meio n&atilde;o alteraram<br \/>\n    a composi&ccedil;&atilde;o e a conforma&ccedil;&atilde;o dos c&eacute;rebros.<br \/>\n    Os homens s&atilde;o os mesmos. S&oacute; o que mudou foi o regime pol&iacute;tico.<\/p>\n<p>No regime parlamentar, o partid&aacute;rio que cai, sabe que pelo seu esfor&ccedil;o,<br \/>\n    mantendo-se firme nas suas convic&ccedil;&otilde;es, pode voltar ao poder.<br \/>\n    &Eacute; uma quest&atilde;o de propaganda de id&eacute;ias. O partido que<br \/>\n    est&aacute; na dire&ccedil;&atilde;o dos neg&oacute;cios gasta-se, enfraquece-se.<\/p>\n<p>No regime presidencial, mesmo quando ele &eacute; bem aplicado, o partid&aacute;rio<br \/>\n    que cai sabe que tem de ficar fora do poder pelo menos por quatro anos. Ainda<br \/>\n    que ele transforme completamente a opini&atilde;o p&uacute;blica antes disso,<br \/>\n    n&atilde;o adianta nada. O pa&iacute;s est&aacute; arrendado a um cavalheiro,<br \/>\n    que o pode governar como quiser durante um prazo fixo, erre ou acerte.<\/p>\n<p>E desde logo os fracos, que s&atilde;o sempre a maioria, s&oacute; v&ecirc;em<br \/>\n    uma solu&ccedil;&atilde;o diante do fato consumado: aderir.<\/p>\n<p>Os homens de hoje n&atilde;o s&atilde;o nem mais nem menos canalhas que os<br \/>\n    da monarquia. O que h&aacute; &eacute; que a &#8220;fun&ccedil;&atilde;o cria<br \/>\n    o &oacute;rg&atilde;o&#8221;. A fun&ccedil;&atilde;o &#8212; o regime presidencial<br \/>\n    &#8212; &eacute; nefasta. Da&iacute; vem essa corrup&ccedil;&atilde;o geral<br \/>\n    de caracteres.<\/p>\n<p>S&oacute; h&aacute; um meio de um oposicionista coerente voltar ao poder:<br \/>\n    esperar que o chefe do governo traia os seus amigos. De fato, a cousa acontece<br \/>\n    freq&uuml;entemente e por um mecanismo muito curioso. Curioso e miser&aacute;vel.<\/p>\n<p>&Agrave;s vezes, um indiv&iacute;duo qualquer sobe, embora n&atilde;o tenha<br \/>\n    por si a maioria da opini&atilde;o. Os que est&atilde;o de acordo com essa<br \/>\n    maioria deviam hostiliz&aacute;-lo. Ao contr&aacute;rio: aderem. Aderem em<br \/>\n    massas t&atilde;o compactas, que muito freq&uuml;entemente o presidente ou<br \/>\n    governador come&ccedil;a a governar de acordo com eles, quase inconscientemente,<br \/>\n    sem dar por isso, porque os aderentes, apresentando id&eacute;ias contr&aacute;rias<br \/>\n    aos seus primitivos amigos, o cercam t&atilde;o de perto, que ele os acompanha,<br \/>\n    traindo ent&atilde;o aqueles!<\/p>\n<p>A trai&ccedil;&atilde;o &eacute; a regra, &eacute; a norma e tende at&eacute;<br \/>\n    a tornar-se a plataforma natural das elei&ccedil;&otilde;es presidenciais.<\/p>\n<p>Viram-se, por exemplo, quando se pleiteou a elei&ccedil;&atilde;o do Marechal<br \/>\n    Hermes, partidos pol&iacute;ticos opostos &#8212; mais do que opostos: violentamente<br \/>\n    inimigos &#8212; apoi&aacute;-lo calorosamente Era manifesto que cada um esperava<br \/>\n    que ele tra&iacute;sse o outro. O fato n&atilde;o podia ter outra explica&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Foi a base, foi a raz&atilde;o de ser da elei&ccedil;&atilde;o do Marechal<br \/>\n    Hermes.<\/p>\n<p>Diz-se, &eacute; certo, que podem achar-se candidatos &#8220;de concilia&ccedil;&atilde;o&#8221;.<br \/>\n    Mas, em um regime presidencial um candidato de &#8220;concilia&ccedil;&atilde;o&#8221;<br \/>\n    &eacute; fatalmente, for&ccedil;osamente, necessariamente um candidato &#8220;de<br \/>\n    trai&ccedil;&atilde;o&#8221;.<\/p>\n<p>No regime parlamentar, &eacute; l&iacute;cito fazer-se um presidente de rep&uacute;blica<br \/>\n    de concilia&ccedil;&atilde;o, porque o presidente n&atilde;o governa. Dois<br \/>\n    partidos em presen&ccedil;a podem reconhecer em um indiv&iacute;duo as necess&aacute;rias<br \/>\n    qualidades de imparcialidade para assumir a presid&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Ainda no regime parlamentar, pode-se admitir um minist&eacute;rio de concilia&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    H&aacute;, de fato, momentos em que duas tend&ecirc;ncias est&atilde;o frente<br \/>\n    a frente, sem que nenhuma tenha bastante for&ccedil;a para vencer. Faz-se<br \/>\n    ent&atilde;o um minist&eacute;rio de transa&ccedil;&atilde;o, at&eacute; que<br \/>\n    uma das duas correntes se torne bastante forte para tomar a si a dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    exclusiva dos neg&oacute;cios.<\/p>\n<p>Mas um minist&eacute;rio &eacute; um grupo de homens. A transa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    resulta de que uns pensam de um modo e outros de modo diverso. Como eles t&ecirc;m<br \/>\n    de resolver as quest&otilde;es em comum, &eacute; sempre necess&aacute;rio<br \/>\n    achar f&oacute;rmulas transacionais, f&oacute;rmulas de meio-termo, que n&atilde;o<br \/>\n    firam nem uns nem outros. As decis&otilde;es s&atilde;o, nesses casos, resultantes<br \/>\n    de tend&ecirc;ncias opostas reunidas no minist&eacute;rio.<\/p>\n<p>No regime presidencial a situa&ccedil;&atilde;o &eacute; diversa. Quem governa<br \/>\n    &eacute; um homem s&oacute;. Ou ele pensa de um modo ou do modo oposto. N&atilde;o<br \/>\n    lhe &eacute; poss&iacute;vel partir o c&eacute;rebro em varias fra&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    estabelecer dentro do cr&acirc;nio um pequeno conselho e achar para as diversas<br \/>\n    quest&otilde;es f&oacute;rmulas transacionais. N&atilde;o lhe &eacute; poss&iacute;vel<br \/>\n    decidir &agrave;s segundas, quartas e sextas de um modo e &agrave;s ter&ccedil;as,<br \/>\n    quintas e s&aacute;bados, do modo contr&aacute;rio. &Eacute; preciso que o<br \/>\n    governo de um pa&iacute;s tenha uma orienta&ccedil;&atilde;o definida.<\/p>\n<p>Todos sabem, todos v&ecirc;em isto, que &eacute; da mais irrecus&aacute;vel<br \/>\n    evid&ecirc;ncia. O que, pois, se chama um candidato de &#8220;concilia&ccedil;&atilde;o&#8221;<br \/>\n    no regime presidencial s&oacute; pode ser um candidato feito por v&aacute;rios<br \/>\n    partidos, dos quais cada um sup&otilde;e que esse candidato trair&aacute;<br \/>\n    o partido oposto.<\/p>\n<p>A gangrena moral vai crescendo, vai ganhando&#8230;<\/p>\n<p>Dantes, o presidente fazia o seu sucessor, esperando que ele continuasse<br \/>\n    a sua pol&iacute;tica. Quando ele n&atilde;o a continuava, era uma surpresa.<\/p>\n<p>Agora, j&aacute; se perdeu a cerim&ocirc;nia: os candidatos desde o princ&iacute;pio<br \/>\n    come&ccedil;am por ser lan&ccedil;ados em nome de uma dupla esperan&ccedil;a<br \/>\n    de trai&ccedil;&atilde;o, cada partido esperando que ele traia o outro.<\/p>\n<p>&Eacute; a simples, a l&oacute;gica, a natural conseq&uuml;&ecirc;ncia do<br \/>\n    regime. Cada um pergunta a si mesmo: &#8220;Para que lutar? N&atilde;o serve<br \/>\n    de nada&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>E aderem.<\/p>\n<p>No regime parlamentar, se um governo sobe hoje, &eacute; bem capaz de cair<br \/>\n    amanh&atilde;. Cair sem revolu&ccedil;&atilde;o, sem viol&ecirc;ncia, normalmente.<br \/>\n    A opini&atilde;o pode for&ccedil;&aacute;-lo a isso. Os seus advers&aacute;rios<br \/>\n    devem, portanto, procurar conquist&aacute;-la, mostrando-se intransigentes.<br \/>\n    Mas, no regime presidencial, quem subiu, subiu, haja o que houver, por quatro<br \/>\n    anos. Por quatro anos, pelo menos, porque, com a for&ccedil;a de que disp&otilde;e,<br \/>\n    nada lhe &eacute; mais f&aacute;cil do que fazer o seu sucessor. N&atilde;o<br \/>\n    serve de nada que os advers&aacute;rios modifiquem a opini&atilde;o p&uacute;blica,<br \/>\n    a menos que n&atilde;o cheguem at&eacute; a revolu&ccedil;&atilde;o. Os &uacute;nicos<br \/>\n    meios legais de um oposicionista voltar ao poder s&atilde;o: ou trair as suas<br \/>\n    convic&ccedil;&otilde;es e seus amigos, aderindo, ou obter a trai&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do presidente.<\/p>\n<p>Dir-se-&aacute; que um homem digno pode resignar-se a ficar perpetuamente<br \/>\n    na oposi&ccedil;&atilde;o, se tanto for preciso.<\/p>\n<p>&Eacute; belo, &eacute; nobre, &eacute; her&oacute;ico&#8230; Mas n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; poss&iacute;vel pedir &agrave; maioria essas cousas her&oacute;icas.<br \/>\n    Deve-se lidar com os homens, como os homens s&atilde;o: com todas as suas<br \/>\n    fraquezas habituais. As formas de governo devem ser adaptadas ao car&aacute;ter<br \/>\n    do povo como ele &eacute; e n&atilde;o como deveria ser. Um regime que, para<br \/>\n    ser bem executado, come&ccedil;asse por exigir uma transforma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    completa do car&aacute;ter nacional, &eacute; um regime que, por isso mesmo,<br \/>\n    prova a sua imprestabilidade.<\/p>\n<p>Quando se citam as ades&otilde;es de deputados e senadores passando a cada<br \/>\n    instante de um partido para outro, as convers&otilde;es em bloco de assembl&eacute;ias<br \/>\n    inteiras, h&aacute; muito quem objete que, com o regime parlamentar, nada<br \/>\n    se adiantaria, porque os representantes seriam mais ou menos os que hoje comp&otilde;em<br \/>\n    as assembl&eacute;ias federais e estaduais.<\/p>\n<p>Os que dizem isso esquecem o velho princ&iacute;pio tantas vezes aqui citado:<br \/>\n    &#8220;a fun&ccedil;&atilde;o cria o &oacute;rg&atilde;o&#8221;. Se muitos<br \/>\n    desses representantes nada tentam atualmente, &eacute; porque nada h&aacute;<br \/>\n    a tentar. Todo esfor&ccedil;o &eacute; in&uacute;til. Eles se sentem vencidos<br \/>\n    de antem&atilde;o. Ainda uma vez se deve repetir: s&oacute; h&aacute; atualmente<br \/>\n    um meio para um oposicionista vencer: trai&ccedil;&atilde;o. Ou ele trair&aacute;<br \/>\n    ou esperar&aacute; a trai&ccedil;&atilde;o do presidente.<\/p>\n<p>Afinal, seria de um pessimismo injustific&aacute;vel achar que estamos t&atilde;o<br \/>\n    podres que nada nos pode salvar. Esses mesmos, que hoje agem de t&atilde;o<br \/>\n    estranho e vergonhoso modo, n&atilde;o multiplicam as trai&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    por prazer: multiplicam-nas, porque n&atilde;o h&aacute; outra cousa a fazer.<\/p>\n<p>Para ver a influ&ecirc;ncia delet&eacute;ria do regime sobre os homens basta<br \/>\n    comparar o que foram os primeiros congressos republicanos com o que s&atilde;o<br \/>\n    os atuais.<\/p>\n<p>A Constituinte durou somente tr&ecirc;s meses. Era uma assembl&eacute;ia,<br \/>\n    na sua maioria, de ne&oacute;fitos. Quando ela acabou o seu trabalho, estava<br \/>\n    apenas come&ccedil;ando a tomar consci&ecirc;ncia de si mesma.<\/p>\n<p>Veio o per&iacute;odo presidencial do Marechal Deodoro. O Congresso fez frente<br \/>\n    ao chefe de Estado. Evidentemente, os senadores e deputados daquele tempo,<br \/>\n    n&atilde;o tendo a m&iacute;nima pr&aacute;tica do novo regime, tomavam-se<br \/>\n    ao s&eacute;rio, acreditavam que valiam alguma cousa. Foram por isso muito<br \/>\n    acusados &#8212; o pr&oacute;prio presidente os acusou no manifesto com que<br \/>\n    deu o golpe de Estado de 1891 &#8212; de estar fazendo &#8220;parlamentarismo&#8221;.<br \/>\n    E a verdade &eacute; que estavam&#8230;<\/p>\n<p>No governo do Marechal Floriano a oposi&ccedil;&atilde;o ainda foi tremenda.<br \/>\n    Raramente, entretanto, conseguiu as maiorias de dois ter&ccedil;os necess&aacute;rias<br \/>\n    para vencer a resist&ecirc;ncia do presidente.<\/p>\n<p>Com o Dr. Prudente de Moraes, ainda houve oposi&ccedil;&atilde;o, mas j&aacute;<br \/>\n    menor, muito menor. Pouco a pouco, o Congresso ia verificando que n&atilde;o<br \/>\n    podia nada, que todo o seu esfor&ccedil;o era in&uacute;til. Ca&iacute;a&#8230;<br \/>\n    Baixava&#8230; Humilhava-se&#8230;<\/p>\n<p>Chega o governo do Dr. Campos Salles: a queda &eacute; completa, o presidente<br \/>\n    inaugura o que se chamou &#8220;a pol&iacute;tica dos governadores&#8221;.<br \/>\n    Cada vez se discute menos no Congresso. Para que? Se o governo n&atilde;o<br \/>\n    quer, &eacute; in&uacute;til discutir. Se o governo quer, mais in&uacute;til<br \/>\n    ainda. A datar da&iacute;, n&atilde;o h&aacute; Congresso.<\/p>\n<p>Os mais fortes, mais ativos, mais en&eacute;rgicos abdicam, sentindo a absoluta<br \/>\n    inutilidade do seu esfor&ccedil;o.<\/p>\n<p>Se algu&eacute;m tivesse de fazer um &#8220;gr&aacute;fico&#8221; do valor<br \/>\n    decrescente do Congresso de 1891 at&eacute; hoje, verificaria que n&atilde;o<br \/>\n    era nem uma curva nem uma linha obl&iacute;qua: era uma vertical, caindo sempre&#8230;<\/p>\n<p>A fun&ccedil;&atilde;o fez o &oacute;rg&atilde;o&#8230; O Congresso &eacute;<br \/>\n    a mis&eacute;ria que a&iacute; se v&ecirc;, porque as suas fun&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e a sua import&acirc;ncia s&atilde;o pura e simplesmente miser&aacute;veis.<br \/>\n    N&atilde;o valem nada. Dessem ao Congresso, como sucede no regime parlamentar,<br \/>\n    atribui&ccedil;&otilde;es eficazes, os mesmos homens que a&iacute; est&atilde;o<br \/>\n    portar-se-iam de modo bem diferente.<\/p>\n<p>O interessante &eacute; ver a atitude da imprensa diante destes fatos.<\/p>\n<p>Ningu&eacute;m ignora que raros s&atilde;o os jornais que dispensam aux&iacute;lio<br \/>\n    do governo. Os grandes, aqueles que t&ecirc;m instala&ccedil;&otilde;es mais<br \/>\n    caras, s&atilde;o freq&uuml;entemente os que menos podem dispensar tal apoio.<br \/>\n    &Agrave;s vezes, ousam insurgir-se contra um ministro; mas continuam a apoiar<br \/>\n    os outros. &Agrave;s vezes, levam a aud&aacute;cia a combater o governo federal;<br \/>\n    mas, nesse caso, algum governo estadual os subvenciona&#8230;<\/p>\n<p>H&aacute;, &eacute; certo, alguns jornais realmente populares. Que influ&ecirc;ncia<br \/>\n    t&ecirc;m eles sobre a marcha dos neg&oacute;cios p&uacute;blicos? Nenhuma!<br \/>\n    Atacam, agridem, insultam, &agrave;s vezes sem raz&atilde;o, &agrave;s vezes<br \/>\n    com raz&atilde;o; mas tudo &eacute; in&uacute;til, quer num, quer noutro caso.<\/p>\n<p>Dantes, no regime parlamentar, at&eacute; os apedidos an&ocirc;nimos do Jornal<br \/>\n    do Com&eacute;rcio eram freq&uuml;entemente suficientes para fazer cair um<br \/>\n    minist&eacute;rio: bastava que exprimissem uma opini&atilde;o justa e que<br \/>\n    um deputado dela se fizesse eco na C&acirc;mara. Hoje, apedidos e artigos<br \/>\n    de fundo perdem tempo, vagar e paci&ecirc;ncia. A opini&atilde;o pode modificar-se;<br \/>\n    mas o governo n&atilde;o faz caso dela. &Eacute; do regime. O regime presidencial<br \/>\n    &eacute; aquele em que um tipo qualquer, uma vez eleito, tem o direito de<br \/>\n    governar ou desgovernar, como lhe pare&ccedil;a bem, durante o prazo pelo<br \/>\n    qual a na&ccedil;&atilde;o lhe ficou arrendada. &Eacute; a isso que se chama<br \/>\n    a admir&aacute;vel &#8220;estabilidade&#8221; do regime presidencial, &#8212;<br \/>\n    estabilidade, que se contrap&otilde;e &agrave; &#8220;instabilidade&#8221;<br \/>\n    do regime parlamentar, na qual os governos devem obedecer &agrave; opini&atilde;o<br \/>\n    p&uacute;blica.<\/p>\n<p>A imprensa, &oacute;rg&atilde;o desta &uacute;ltima, devia sentir que o seu<br \/>\n    interesse estava em defender o regime, em que a sua palavra tem import&acirc;ncia.<br \/>\n    Prefere, por&eacute;m, em regra, vender-se aos governos. E como o Congresso<br \/>\n    n&atilde;o paga nada, como o Congresso n&atilde;o d&aacute; subven&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    como o Congresso n&atilde;o lhe manda editais, an&uacute;ncios, publica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    diversas, &eacute; contra o Congresso que ela se volta!<\/p>\n<p>Negue quem quiser a evid&ecirc;ncia da rela&ccedil;&atilde;o de causa a efeito<br \/>\n    que h&aacute; entre o regime presidencial no Brasil e a mis&eacute;ria dos<br \/>\n    nossos costumes pol&iacute;ticos. Em todo caso, o que n&atilde;o se pode negar<br \/>\n    &eacute; essa mis&eacute;ria. O que tamb&eacute;m n&atilde;o se pode negar<br \/>\n    &eacute; que, pelo menos, ela coincidiu com o estabelecimento desse regime.<\/p>\n<p>Quanto &agrave; imprensa, tamb&eacute;m n&atilde;o se pode contestar que<br \/>\n    o jornal o mais bem feito, exprimindo o mais nobremente poss&iacute;vel a<br \/>\n    opini&atilde;o, &eacute; absolutamente incapaz de faz&ecirc;-la triunfar,<br \/>\n    contra a vontade do governo. S&oacute; o regime parlamentar faria cessar o<br \/>\n    abaixamento moral dos nossos costumes. S&oacute; ele restituiria &agrave;<br \/>\n    imprensa a sua dignidade perdida.<\/p>\n<h4><a name=\"10\">X &#8211; QUE O REGIME PARLAMENTAR J&Aacute; PROVOU DE UM MODO DECISIVO SER O<br \/>\n    &Uacute;NICO QUE SE ADAPTA &Agrave; &Iacute;NDOLE DO POVO BRASILEIRO&#8230;<\/a><\/h4>\n<p>O caracter&iacute;stico das boas leis &eacute; serem reclamadas pelos costumes<br \/>\n    p&uacute;blicos e, portanto, se adaptarem facilmente a eles. Em alguns casos,<br \/>\n    elas se limitam a sancion&aacute;-los. Por isso mesmo, certas leis inconvenientes,<br \/>\n    incompat&iacute;veis com o car&aacute;ter dos povos, nunca s&atilde;o bem<br \/>\n    entendidas, nem bem praticadas. Em compensa&ccedil;&atilde;o, h&aacute; h&aacute;bitos,<br \/>\n    h&aacute; costumes, h&aacute; aspira&ccedil;&otilde;es t&atilde;o de acordo<br \/>\n    com a &iacute;ndole nacional, que n&atilde;o precisam ser formulados em textos<br \/>\n    legais. E, quando h&aacute; textos legais, que os contrariam, esses h&aacute;bitos,<br \/>\n    esses costumes, essas aspira&ccedil;&otilde;es continuam a predominar, apesar<br \/>\n    das leis, por mais categ&oacute;ricas que elas sejam.<\/p>\n<p>A prova de que o regime presidencial n&atilde;o foi decretado de acordo com<br \/>\n    o sentimento nacional &eacute; que, ainda hoje, mais de vinte anos ap&oacute;s<br \/>\n    a sua promulga&ccedil;&atilde;o em termos claros e expressos, os seus melhores<br \/>\n    defensores confessam que ele n&atilde;o &eacute; bem aplicado nem bem entendido!<\/p>\n<p>A par dessa observa&ccedil;&atilde;o, j&aacute; anteriormente feita, h&aacute;<br \/>\n    uma compara&ccedil;&atilde;o que se imp&otilde;e. O regime presidencial s&oacute;<br \/>\n    existe em quatro pa&iacute;ses no mundo: os Estados Unidos, o M&eacute;xico,<br \/>\n    a Argentina e o Brasil.<\/p>\n<p>Ele nasceu no primeiro, como uma adapta&ccedil;&atilde;o do regime mon&aacute;rquico<br \/>\n    a uma na&ccedil;&atilde;o que, tornando-se de s&uacute;bito independente,<br \/>\n    limitou-se a trocar o representante do rei absoluto por um presidente, quase<br \/>\n    igualmente absoluto, eleito por per&iacute;odos determinados. Nas outras tr&ecirc;s<br \/>\n    na&ccedil;&otilde;es, esse regime foi uma c&oacute;pia dos Estados Unidos.<br \/>\n    C&oacute;pia confessada, c&oacute;pia expressa. N&atilde;o veio, em nenhuma<br \/>\n    delas, por uma evolu&ccedil;&atilde;o natural. Houve, em cada uma, certa ocasi&atilde;o<br \/>\n    na qual pareceu &uacute;til tomar a Constitui&ccedil;&atilde;o dos Estados<br \/>\n    Unidos e copiar-lhe os artigos, com ligeiras altera&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Os resultados t&ecirc;m sido o que todos podem ver. A situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    atual do M&eacute;xico e do Brasil, as in&uacute;meras revolu&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e &#8220;pronunciamentos&#8221; da Argentina, que s&oacute; agora descansa<br \/>\n    um pouco, porque subitamente lhe adveio uma excepcional prosperidade econ&ocirc;mica,<br \/>\n    tudo isso prova como a f&oacute;rmula norte-americana &eacute; inadapt&aacute;vel.<br \/>\n    Em todo caso, mesmo para ser mal executada, ela s&oacute; existe onde foi<br \/>\n    promulgada, decretada, escrita cap&iacute;tulo a cap&iacute;tulo, artigo por<br \/>\n    artigo, letra por letra. A cada passo, os povos tentam libertar-se de seu<br \/>\n    jugo, e &eacute; preciso traz&ecirc;-los para o que est&aacute; redigido,<br \/>\n    escrito, formulado em termos imperativos&#8230;<\/p>\n<p>Compara&ccedil;&atilde;o curiosa com o que sucede no regime parlamentar:<br \/>\n    ele n&atilde;o est&aacute; formulado em parte alguma!<\/p>\n<p>Nenhuma das na&ccedil;&otilde;es, que se governam por ele o precisou escrever<br \/>\n    para observar. Algumas at&eacute; escreveram o contr&aacute;rio &#8212; exatamente<br \/>\n    o contr&aacute;rio.<\/p>\n<p>Apesar disso, a despeito de tudo, ele apareceu, ele se imp&ocirc;s!<\/p>\n<p>Todos sabem que a Inglaterra n&atilde;o tem Constitui&ccedil;&atilde;o escrita.<br \/>\n    Ela j&aacute; foi, se assim se pode dizer, presidencial. Evoluiu, sem precisar<br \/>\n    a decreta&ccedil;&atilde;o de texto algum, para o parlamentarismo.<\/p>\n<p>As leis constitucionais francesas s&atilde;o presidencialistas. Em nenhum<br \/>\n    dos seus artigos se diz que os ministros dependem da confian&ccedil;a do parlamento.<br \/>\n    Ao contr&aacute;rio: o que elas declaram &eacute; que eles dependem da do<br \/>\n    presidente.<\/p>\n<p>O mesmo sucede, j&aacute; anteriormente o lembramos, na B&eacute;lgica, no<br \/>\n    Chile, por toda parte&#8230;<\/p>\n<p>Mas o que d&aacute; lugar a um paralelo interessante &eacute; o caso do Brasil.<br \/>\n    O regime parlamentar se coaduna t&atilde;o naturalmente com a nossa &iacute;ndole<br \/>\n    que, apesar da Constitui&ccedil;&atilde;o do Imp&eacute;rio ser absolutamente<br \/>\n    antiparlamentarista, ele se imp&ocirc;s. Imp&ocirc;s-se t&atilde;o bem, que,<br \/>\n    sete anos depois da decreta&ccedil;&atilde;o da Constitui&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    for&ccedil;ava o Imperador a abdicar. E a abdicar, por que? Porque n&atilde;o<br \/>\n    queria reconhecer a supremacia do parlamento.<\/p>\n<p>O presidencialismo foi decretado solenemente, miudamente, taxativamente,<br \/>\n    em um texto bem expresso. Vinte e dois anos ap&oacute;s, todos confessam que<br \/>\n    ele n&atilde;o &eacute; aplicado!<\/p>\n<p>Que prova se pode pedir melhor do que essa de que o regime parlamentar &eacute;<br \/>\n    o que se coaduna com a nossa &iacute;ndole?<\/p>\n<p>Embora sem lei e mesmo contra a lei, ele se imp&ocirc;s de tal modo, que<br \/>\n    sete anos depois da decreta&ccedil;&atilde;o de uma Constitui&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que n&atilde;o o admitia, ele era executado &#8212; enquanto o presidencialismo,<br \/>\n    vinte e dois anos ap&oacute;s ter sido escrito, decretado, promulgado formalmente,<br \/>\n    n&atilde;o conseguiu que o compreendam e executem; apenas alguns dos seus<br \/>\n    fi&eacute;is t&ecirc;m uma vaga, indefinida e inexplic&aacute;vel esperan&ccedil;a<br \/>\n    de que isso venha a ocorrer no futuro&#8230;<\/p>\n<p>O regime parlamentar passa por ser de inven&ccedil;&atilde;o inglesa. Talvez<br \/>\n    se pudesse mostrar que ele &eacute; de feitura universal. Para ele tenderam<br \/>\n    todas as organiza&ccedil;&otilde;es dos povos livres. As assembl&eacute;ias,<br \/>\n    que se reuniam para colaborar com os reis no que dizia respeito ao levantamento<br \/>\n    de tropas e &agrave; cobran&ccedil;a de impostos, foram tendendo a aumentar<br \/>\n    as suas atribui&ccedil;&otilde;es e chegaram naturalmente ao regime parlamentar.<\/p>\n<p>Os positivistas entre n&oacute;s descobriram que o progresso seria reduzir<br \/>\n    o parlamento &agrave; simples fun&ccedil;&atilde;o de decretador do or&ccedil;amento,<br \/>\n    o que, segundo eles, constitui a sua fun&ccedil;&atilde;o essencial.<\/p>\n<p>Nisso, como em tantas outras cousas, o nosso positivismo ortodoxo mostra<br \/>\n    como &eacute; absurdo e retr&oacute;grado.<\/p>\n<p>A fun&ccedil;&atilde;o or&ccedil;ament&aacute;ria &eacute; a mais velha dos<br \/>\n    parlamentos. Os estados gerais da Fran&ccedil;a j&aacute; a tinham sob o dom&iacute;nio<br \/>\n    dos reis absolutos. O mesmo acontecia na Espanha e Portugal, o mesmo na Inglaterra,<br \/>\n    o mesmo em v&aacute;rios outros pa&iacute;ses. Por a&iacute; se come&ccedil;ou.<br \/>\n    Voltar a essa limita&ccedil;&atilde;o seria retroceder e n&atilde;o progredir.<\/p>\n<p>Mas, enfim, o certo &eacute; que todas as inven&ccedil;&otilde;es, quer no<br \/>\n    dom&iacute;nio intelectual, quer no moral, quer no industrial, quer no pol&iacute;tico,<br \/>\n    precisam ter um autor. O dizer-se, portanto, que o parlamentarismo &eacute;<br \/>\n    uma inven&ccedil;&atilde;o inglesa n&atilde;o basta para significar que seja<br \/>\n    incompat&iacute;vel com os outros povos. A m&aacute;quina a vapor tamb&eacute;m<br \/>\n    &eacute; uma inven&ccedil;&atilde;o inglesa; mas a ind&uacute;stria do mundo<br \/>\n    inteiro a emprega.<\/p>\n<p>Ningu&eacute;m censuraria o presidencialismo s&oacute; pelo fato de ter tido<br \/>\n    origem nos Estados Unidos. O mal &eacute; que ele tenha nascido de um conjunto<br \/>\n    excepcional de circunst&acirc;ncias ocasionais. O mal &eacute; que ele seja<br \/>\n    a perpetua&ccedil;&atilde;o do poder de um governador colonial, representante<br \/>\n    de um rei absoluto, em uma democracia. O mal &eacute; que ele se tenha revelado<br \/>\n    inadapt&aacute;vel.<\/p>\n<p>Com o regime parlamentar, sucede justamente o inverso. Ele se tem revelado<br \/>\n    de uma plasticidade e adaptabilidade imensas, em todos os continentes, todas<br \/>\n    as ra&ccedil;as, todas as formas do governo: as mon&aacute;rquicas como as<br \/>\n    republicanas, as unit&aacute;rias como as federativas.<\/p>\n<p>Sem mesmo sair da Inglaterra e suas col&ocirc;nias, essa verdade fica provada.<\/p>\n<p>&Eacute; uma tolice, que ningu&eacute;m de certo dir&aacute;, afirmar que<br \/>\n    o sucesso do regime parlamentar se explica no parlamento ingl&ecirc;s, e,<br \/>\n    por exemplo, no parlamento australiano ou da Nova Zel&acirc;ndia, porque em<br \/>\n    todos eles reina o &#8220;mesmo esp&iacute;rito&#8221;. Nada mais fundamentalmente<br \/>\n    oposto que o sentimento nacional na Gr&atilde;-Bretanha, sentimento conservador<br \/>\n    e tradicionalista, e o sentimento desabusadamente reformista da Austr&aacute;lia<br \/>\n    ou da Nova Zel&acirc;ndia, onde os legisladores n&atilde;o recuam diante de<br \/>\n    nada! Bastaria, portanto, ver o regime parlamentar funcionar perfeitamente<br \/>\n    na Europa, em Londres, na Am&eacute;rica, em Ottawa, na &Aacute;frica, em<br \/>\n    Capetown e at&eacute; na Oceania, para ver que ele se presta ao governo dos<br \/>\n    povos os mais diversos, com &iacute;ndoles e aspira&ccedil;&otilde;es tamb&eacute;m<br \/>\n    as mais diferentes!<\/p>\n<p>Ali&aacute;s h&aacute; a Fran&ccedil;a, h&aacute; a B&eacute;lgica, h&aacute;<br \/>\n    a It&aacute;lia, h&aacute; o Chile, h&aacute; at&eacute; o Jap&atilde;o que<br \/>\n    evolui a passos largos para o regime parlamentar.<\/p>\n<p>Com o Chile sucede em geral entre n&oacute;s um caso curioso. H&aacute; muito<br \/>\n    quem o aponte precisamente como uma prova de que o regime parlamentar &eacute;<br \/>\n    mau. Mas ningu&eacute;m &eacute; capaz de justificar o seu modo de pensar,<br \/>\n    ningu&eacute;m poder&aacute; provar que o regime parlamentar constituiu para<br \/>\n    o Chile um motivo de regresso.<\/p>\n<p>O que houve foi o seguinte. Exatamente em 1891, quando n&oacute;s vot&aacute;mos<br \/>\n    desastradamente o regime presidencial, os chilenos desembara&ccedil;avam-se<br \/>\n    de Balmaceda e firmavam o regime parlamentar.<\/p>\n<p>Esse fato fez com que n&oacute;s segu&iacute;ssemos com aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    as perip&eacute;cias da luta e, como acab&aacute;vamos de fazer triunfar a<br \/>\n    f&oacute;rmula oposta, ficamos convencidos de que o Chile ia afundar-se na<br \/>\n    anarquia. Os positivistas foram os mais ardentes a espalhar essa id&eacute;ia,<br \/>\n    que se arraigou em muita gente.<\/p>\n<p>&Eacute; bom notar que em face da Constitui&ccedil;&atilde;o chilena quem<br \/>\n    tinha raz&atilde;o era Balmaceda. Essa Constitui&ccedil;&atilde;o opunha um<br \/>\n    obst&aacute;culo ainda mais forte que a francesa, ou a brasileira, do tempo<br \/>\n    do Imp&eacute;rio, &agrave; institui&ccedil;&atilde;o do regime parlamentar,<br \/>\n    porque ela admite a responsabilidade presidencial. Mais uma vez, por conseguinte,<br \/>\n    o regime parlamentar provou a sua for&ccedil;a de adapta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    sobrepondo-se pelos costumes a um texto, que lhe &eacute;, por assim dizer,<br \/>\n    violentamente hostil. Mas apesar disso o parlamentarismo tem dado ao Chile<br \/>\n    vinte anos de paz e progresso.<\/p>\n<p>De 1891 datam &#8212; no Chile, a institui&ccedil;&atilde;o franca do regime<br \/>\n    parlamentar; &#8212; no Brasil, a do presidencial.<\/p>\n<p>Quando, por&eacute;m, se ouvem brasileiros falar mal do parlamentarismo chileno,<br \/>\n    basta fazer-lhes as seguintes perguntas:<\/p>\n<p>&#8212; Quantas revolu&ccedil;&otilde;es houve no Brasil de 1891 at&eacute;<br \/>\n    hoje? &#8212; Diversas!<\/p>\n<p>&#8212; Quantas, durante esse mesmo per&iacute;odo, no Chile? &#8212; Nenhuma!<\/p>\n<p>&#8212; Qual das duas na&ccedil;&otilde;es abriu fal&ecirc;ncia? &#8212;<br \/>\n    O Brasil, que precisou votar uma morat&oacute;ria.<\/p>\n<p>Aumento de popula&ccedil;&atilde;o, de com&eacute;rcio, de instru&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    tudo tem ido seguindo no Chile uma progress&atilde;o ascendente constante.<\/p>\n<p>&Eacute; bom notar que o Chile, faixa estreit&iacute;ssima de terreno acidentado<br \/>\n    entre o mar e os Andes, n&atilde;o pode ter os recursos do Brasil, nem da<br \/>\n    Argentina; mas ningu&eacute;m &eacute; capaz de mostrar uma parada ou um regresso<br \/>\n    em nenhuma esfera do seu desenvolvimento.<\/p>\n<p>Tendo duas quest&otilde;es internacionais grav&iacute;ssimas uma com a Argentina<br \/>\n    e outra com o Peru, j&aacute; resolveu a primeira e tudo faz crer que resolver&aacute;<br \/>\n    a segunda.<\/p>\n<p>E isto prova mais uma vez que &eacute; um disparate ligar o sucesso do Bar&atilde;o<br \/>\n    do Rio Branco na solu&ccedil;&atilde;o dos nossos lit&iacute;gios internacionais<br \/>\n    ao regime que n&oacute;s temos.<\/p>\n<p>O Chile soube criar um ex&eacute;rcito e uma marinha tem&iacute;veis. T&atilde;o<br \/>\n    tem&iacute;veis que impuseram o respeito &agrave; Rep&uacute;blica Argentina.<\/p>\n<p>E tudo se tem feito com o regime parlamentar.<\/p>\n<p>De tempos a tempos, caem minist&eacute;rios, sobem minist&eacute;rios. Os<br \/>\n    nossos jornais enchem-se de telegramas anunciando essas altera&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Que mal h&aacute; nisso? Nenhum. &Eacute; o funcionamento pac&iacute;fico<br \/>\n    do regime.<\/p>\n<p>Como a escolha de ministros deve ser feita de acordo com a maioria do parlamento,<br \/>\n    isso &eacute; um pouco mais lento do que seria entre n&oacute;s. N&atilde;o<br \/>\n    acarreta, por&eacute;m, nenhuma perturba&ccedil;&atilde;o da ordem. Nada p&aacute;ra.<\/p>\n<p>Assim, o que se v&ecirc; &eacute; que no confronto entre os dois regimes,<br \/>\n    nos dois pa&iacute;ses, durante o mesmo lapso de tempo, o regime parlamentar<br \/>\n    no Chile &eacute; que se mostra superior: ele tem dado &agrave; nobre na&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do Pac&iacute;fico vinte anos de paz.<\/p>\n<p>O regime parlamentar n&atilde;o desmentiu a&iacute; os seus cr&eacute;ditos.<br \/>\n    Adapt&aacute;vel aos povos de &iacute;ndoles, de ra&ccedil;as, de continentes<br \/>\n    mais diversos, ele n&atilde;o precisa de leis para ser executado. Basta que<br \/>\n    n&atilde;o lhe impe&ccedil;am o advento. O regime presidencial s&oacute; tem<br \/>\n    aparecido, onde as constitui&ccedil;&otilde;es o t&ecirc;m imposto e, assim<br \/>\n    mesmo, n&atilde;o consegue ser nem entendido, nem aplicado<\/p>\n<p> <strong>FIM <\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X Medeiros e Albuquerque I &#8211; QUE O REGIME PRESIDENCIAL FOI UMA SURPRESA E UM LOGRO O regime presidencial n&atilde;o foi institu&iacute;do no Brasil depois de uma 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