{"id":114105,"date":"2017-03-17T10:40:58","date_gmt":"2017-03-17T12:40:58","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=114105"},"modified":"2017-03-17T10:40:58","modified_gmt":"2017-03-17T12:40:58","slug":"quem-casa-quer-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/quem-casa-quer-casa","title":{"rendered":"Quem Casa Quer Casa"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h4>Martins Pena<\/h4>\n<p><strong>Personagens<\/strong><\/p>\n<p>NICOLAU, marido de FABIANA, m\u00e3e de OLAIA e SABINO.<br \/>\nANSELMO, pai de EDUARDO, irm\u00e3o de PAULINA.<br \/>\nDois meninos e um homem.<\/p>\n<p>A cena passa-se no Rio de Janeiro, no ano de 1845.<\/p>\n<p><b>PROV\u00c9RBIO EM UM ATO.<\/b><\/p>\n<h4>ATO \u00daNICO<\/h4>\n<p>Sala com uma porta no fundo, duas \u00e0 direita e duas \u00e0 esquerda; uma mesa com o que \u00e9 necess\u00e1rio para escrever-se, cadeiras, etc.<\/p>\n<h2>CENA I<\/h2>\n<p><b>Paulina e Fabiana. Paulina junto \u00e0 porta da esquerda e Fabiana no meio da sala; mostram-se enfurecidas.<\/b><\/p>\n<p>PAULINA, batendo o p\u00e9 \u2013 Hei de mandar!&#8230;<\/p>\n<p>FABIANA, no mesmo \u2013 N\u00e3o h\u00e1 de mandar!&#8230;<\/p>\n<p>PAULINA, no mesmo \u2013 Hei de e hei de mandar!&#8230;<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 N\u00e3o h\u00e1 de e n\u00e3o h\u00e1 de mandar!&#8230;<\/p>\n<p>PAULINA \u2013 Eu lho mostrarei. (Sai.) FABIANA \u2013 Ai que estalo! Isto assim n\u00e3o vai longe&#8230; Duas senhoras a mandarem em uma casa&#8230; \u00e9 o inferno! Duas senhoras? A senhora aqui sou eu; esta casa \u00e9 de meu marido, e ela deve obedecer-me, porque \u00e9 minha nora. Quer tamb\u00e9m dar ordens; isso veremos&#8230;<\/p>\n<p>PAULINA, aparecendo \u00e0 porta \u2013 Hei de mandar e hei de mandar, tenho dito! (Sai.) FABIANA, arrepelando-se de raiva \u2013 Hum! Ora, eis a\u00ed est\u00e1 para que se casou meu filho, e trouxe a mulher para minha casa. \u00c9 isto constantemente. N\u00e3o sabe o senhor meu filho que quem casa quer casa&#8230; J\u00e1 n\u00e3o posso, n\u00e3o posso, n\u00e3o posso! (Batendo com o p\u00e9:) Um dia arrebento, e ent\u00e3o veremos! (Tocam dentro rabeca.) Ai, que l\u00e1 est\u00e1 o outro com a maldita rabeca&#8230; \u00c9 o que se v\u00ea: casa-se meu filho e traz a mulher para minha casa&#8230; \u00c9 uma desavergonhada, que se n\u00e3o pode aturar. Casa-se minha filha, e vem seu marido da mesma sorte morar comigo&#8230; \u00c9 um pregui\u00e7oso, um indolente, que para nada serve. Depois que ouviu no teatro tocar rabeca, deu-lhe a mania para a\u00ed, e leva todo o santo dia \u2013 vum,vum,vim,vim! J\u00e1 tenho a alma esfalfada. (Gritando para a direita:) \u00d3 homem, n\u00e3o deixar\u00e1s essa maldita sanfona? Nada! (Chamando:) Olaia! (Gritando:) Olaia!<\/p>\n<h2>CENA II<\/h2>\n<p><b>Olaia e Fabiana<\/b><\/p>\n<p>OLAIA, entrando pela direita \u2013 Minha m\u00e3e? FABIANA \u2013 N\u00e3o dir\u00e1s a teu marido que deixe de atormentar-me os ouvidos com essa infernal rabecada? OLAIA \u2013 Deixar ele a rabeca? A mam\u00e3e bem sabe que \u00e9 imposs\u00edvel! FABIANA \u2013 Imposs\u00edvel? Muito bem!&#8230;<\/p>\n<p>OLAIA \u2013 Apenas levantou-se hoje da cama, enfiou as cal\u00e7as e pegou na rabeca \u2013 nem penteou os cabelos. P\u00f4sa uma folha de m\u00fasica diante de si, a que ele chama seu Tr\u00eamolo de B\u00e9riot, e agora ver\u00e1s \u2013 z\u00e1s, z\u00e1s! (Fazendo o movimento com os bra\u00e7os.) Com os olhos esbugalhados sobre a m\u00fasica, os cabelos arripiados, o suor a correr em bagas pela testa e o bra\u00e7o num vaiv\u00e9m que causa vertigens! FABIANA \u2013 Que casa de Orates \u00e9 esta minha, que casa de Gon\u00e7alo! OLAIA \u2013 Ainda n\u00e3o almo\u00e7ou, e creio que tamb\u00e9m n\u00e3o jantar\u00e1. N\u00e3o ouve como toca? FABIANA \u2013 Olaia, minha filha, tua m\u00e3e n\u00e3o resiste muito tempo a este modo de viver&#8230;<\/p>\n<p>OLAIA \u2013 Se estivesse em minhas m\u00e3os remedi\u00e1-lo&#8230;<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Que podes tu? Teu irm\u00e3o casou-se, e como n\u00e3o teve posses para botar uma casa, trouxe a mulher para a minha. (Apontando:) Ali est\u00e1 para meu tormento. O irm\u00e3o dessa desavergonhada vinha visit\u00e1-la frequentemente; tu o viste, namoricaste-o, e por fim de contas casaste-te com ele&#8230; E caiu tudo em minhas costas! Irra, que arreio com a carga! Fa\u00e7o como os camelos&#8230;<\/p>\n<p>OLAIA \u2013 Minha m\u00e3e! FABIANA \u2013 Ela, (apontando) uma atrevida que quer mandar tanto ou mais do que eu; ele, (apontando) um mandri\u00e3o romano, que s\u00f3 cuida em tocar rabeca, e nada de ganhar a vida; tu, uma pateta, incapaz de dares um conselho \u00e0 j\u00f3ia de teu marido.<\/p>\n<p>OLAIA \u2013 Ele gritaria comigo&#8230;<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Pois gritarias tu mais do que ele, que \u00e9 o meio das mulheres se fazerem ouvir. Qual hist\u00f3rias! \u00c9 que tu \u00e9s uma maricas. Teu irm\u00e3o, casado com aquele dem\u00f4nio, n\u00e3o tem for\u00e7as para resistir \u00e0 sua l\u00edngua e g\u00eanio; meu marido, que como dono da casa podia dar cobro nestas coisas, n\u00e3o cuida sen\u00e3o da carolice: serm\u00f5es, ter\u00e7os, prociss\u00f5es, festas e o mais disse, e sua casa que ande ao Deus dar\u00e1&#8230; E eu que pague as favas! Nada, nada, isto assim n\u00e3o vai bem; h\u00e1 de ter um termo&#8230; Ah!<\/p>\n<h2>CENA III<\/h2>\n<p><b>Eduardo e as ditas. Eduardo, na direita baixa, entra em mangas de camisa, cabelos grandes muito embara\u00e7ados, chinelas, tazendo a rabeca.<\/b><\/p>\n<p>EDUARDO, da porta \u2013 Olaia, vem voltar \u00e0 m\u00fasica.<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Psiu, psiu, venha c\u00e1! EDUARDO \u2013 Estou muito ocupado. Vem voltar \u00e0 m\u00fasica.<\/p>\n<p>FABIANA, chegando-se para ele e tomando-o pela m\u00e3o \u2013 Fale primeiro comigo. Tenho muito que lhe dizer.<\/p>\n<p>EDUARDO \u2013 Pois depressa, que n\u00e3o me quero esquecer da passagem que tanto me custou a estudar. Que m\u00fasica, que tr\u00eamolo! Grande B\u00e9riot! FABIANA \u2013 Deixemo-nos agora de Berli\u00f3s e tremidos e ou\u00e7a-me.<\/p>\n<p>EDUARDO \u2013 Espere, espere; quero que aplauda e goze um momento do que \u00e9 bom e sublime; assentm-se (Obriga-as a sentarem-se e toca rabeca, tirando sons extravagantes, imitando o Tr\u00eamolo.) FABIANA, levantando-se enquanto ele toca \u2013 E ent\u00e3o? Pei\u00f3r, peior! N\u00e3o deixar\u00e1 esta infernal rabeca? Deixe, homem! Ai, ai! OLAIA, ao mesmo tempo \u2013 Eduardo, Eduardo, deixa-te agora disso. N\u00e3o v\u00eas que a mam\u00e3e se aflige. Larga o arco. (Pega na m\u00e3o do arco e forceja para o tirar.) FABIANA \u2013 Larga a rabeca! Larga a rabeca! (Pegando na rabeca e forcejando.) EDUARDO, resistindo e tocando entusiasmado \u2013 Deixem-me, deixem-me acabar, mulheres, que a inspira\u00e7\u00e3o me arrebata&#8230; Ah!&#8230;ah (D\u00e1 com o bra\u00e7o do arco nos peitos de Olaia e com o da rabeca nos queixos de Fabiana, isto tocando com furor.) OLAIA \u2013 Ai, meu est\u00f4mago! FABIANA, ao mesmo tempo \u2013 Ai, meus queixos! EDUARDO, tocando sempre co entusiasmo \u2013 Sublime! Sublime! Bravo! Bravo! FABIANA, batendo com o p\u00e9, raivosa \u2013 Irra! EDUARDO, deixando de tocar \u2013 Acabou-se. Agora pode falar.<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Pois agora ouvir\u00e1s, que estou cheia at\u00e9 aqui&#8230; Decididamente j\u00e1 n\u00e3o o possso nem quero aturar.<\/p>\n<p>OLAIA \u2013 Minha m\u00e3e! EDUARDO \u2013 N\u00e3o? FABIANA \u2013 N\u00e3o e n\u00e3o senhor. H\u00e1 um ano que o senhor casou-se com minha filha e ainda est\u00e1 \u00e0s minhas costas. A carga j\u00e1 pesa! Em vez de gastar as horas tocando rabeca, procure um emprego, alugue uma casa e, fora daqui com sua mulher! J\u00e1 n\u00e3o posso com as intrigas e desaven\u00e7as em que vivo, depois que moramos juntos. \u00c9 um inferno! Procure casa, procure casa&#8230; Procure casa! EDUARDO \u2013 Agora, deixe-me tamb\u00e9m falar&#8230; Recorda-se do que lhe dizia eu quando se tratou do meu casamento com sua filha? OLAIA \u2013 Eduardo!&#8230;<\/p>\n<p>EDUARDO \u2013 N\u00e3o se recorda? FABIANA \u2013 N\u00e3o me recordo de nada&#8230; Procure casa. Procure casa! EDUARDO \u2013 Sempre \u00e9 bom que se recorde&#8230; Dizia eu que n\u00e3o podia casar-me por faltarem-me os meios de por casa e sustentar fam\u00edlia. E o que respondeu-me a senhora a esta obje\u00e7\u00e3o? FABIANA \u2013 N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>EDUARDO \u2013 Pois eu lhe digo: respondeu-me que isso n\u00e3o fosse a d\u00edvida, que em quanto \u00e0 casa pod\u00edamos ficar morando aqui juntos, e que aonde comiam duas pessoas, bem podiam comer quatro. Enfim, aplainou todas as dificuldades&#8230; Mas ent\u00e3o queria a senhora pilhar-me para marido de sua filha&#8230; Tudo se facilitou; tratava-me nas palmas das m\u00e3os. Agora que me pilhou feito marido, grita: Procure casa! Procure casa! Mas eu agora \u00e9 que n\u00e3o estou para atur\u00e1-la; n\u00e3o saio daqui. (Assenta-se com resolu\u00e7\u00e3o numa cadeira e toca rabeca com raiva.) FABIANA, indo para ele \u2013 Desavergonhado! Malcriado! OLAIA, no meio deles \u2013 Minha m\u00e3e! FABIANA \u2013 Deixa-me arrancar os olhos a este traste! OLAIA \u2013 Tenha prud\u00eancia! Eduardo, vai-te embora.<\/p>\n<p>EDUARDO, levanta-se enfurecido, bate o p\u00e9 e grita \u2013 Irra! (Fabiana e Olaia recuam espavoridas. Indo para Fabiana:) Bruxa! Vampiro! Sanguechuga da minha paci\u00eancia! Ora, quem diabo havia dizer-me que esta velha se tornaria assim! FABIANA \u2013 Velha, maroto, velha? EDUARDO \u2013 Antes de pilhar-me para marido da filha, eram tudo mimos e carinhos. (Arremedando:) Sr. Eduardinho, o senhor \u00e9 muito bom mo\u00e7o&#8230; H\u00e1 de ser um excelente marido&#8230; Feliz daquela que o gozar&#8230; ditosa m\u00e3e que o tiver por genro&#8230; Agora escoiceia-me, e descomp\u00f5e&#8230; Ah, m\u00e3es, m\u00e3es espertalhonas! Que lam\u00farias para empurrarem as filhas! Estas m\u00e3es s\u00e3o mesmo umas ratoeiras&#8230; Ah, se eu te conhecesse!&#8230;<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Se eu tamb\u00e9m te conhecesse, havia de dar-te um&#8230;<\/p>\n<p>EDUARDO \u2013 Quer dan\u00e7ar a polca? FABIANA, desesperada \u2013 Olhe que me perco&#8230;<\/p>\n<p>OLAIA \u2013 Minha m\u00e3e&#8230;<\/p>\n<p>EDUARDO, vai saindo, cantando e dan\u00e7ando a polca \u2013 Tra la la la, ri la ra ta&#8230;(Etc.,etc.) FABIANA, querendo ir a ele e retida por Olaia \u2013 Espera, maluco de uma figa&#8230;<\/p>\n<p>OLAIA \u2013 Minha m\u00e3e, tranquilize-se, n\u00e3o fa\u00e7a caso.<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Que te hei de fazer o tr\u00eamolo e a polca com os olhos fora da cara! EDUARDO, chegando \u00e0 porta \u2013 Olaia, vem voltar \u00e0 m\u00fasica&#8230;<\/p>\n<p>FABIANA, retendo-a \u2013 N\u00e3o quero que v\u00e1 l\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>EDUARDO, gritando \u2013 Vem voltar \u00e0 m\u00fasica&#8230;<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 N\u00e3o vai! EDUARDO, gritando e acompanhando com a rabeca \u2013 Vem voltar \u00e0 m\u00fasica! FABIANA, empurrando-a \u2013 Vai-te com o diabo! EDUARDO \u2013 Vem comigo. (Vai-se com Olaia.)<\/p>\n<h2>CENA IV<\/h2>\n<p><b>Fabiana, s\u00f3.<\/b><\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Oh, \u00e9 preciso tomar uma resolu\u00e7\u00e3o&#8230; Escreva-se. (Senta-se, escreve ditando:) \u201cIlmo Sr. Anselmo Gomes. Seu filho e sua filha s\u00e3o duas pessoas muito malcriadas. Se o senhor hoje mesmo n\u00e3o procura casa para que eles se mudem da minha, leva tuda a breca. Sua criada, Fabiana da Costa.\u201d (Falando:) Quero ver o que ele responde-me a isto. (Fecha a carta e chama:) Jo\u00e3o? Tamb\u00e9m este espertalh\u00e3o do Sr. Anselmo, o que quis foi empurrar a filha e o filho de casa; e os mais que carreguem&#8230; Estou cansada; j\u00e1 n\u00e3o posso. Agora aguente ele. (Chamando:) Jo\u00e3o? PAJEM, entrando \u2013 Minha senhora&#8230;<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Vai levar esta carta ao Sr. Anselmo. Sabes? \u00c9 o pai do Sr. Eduardo.<\/p>\n<p>PAJEM \u2013 Sei, minha senhora.<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Pois vai depressa. (Pajem vai-se.) Estou resolvida a desbaratar&#8230;<\/p>\n<h2>CENA V<\/h2>\n<p><b>Entra Nicolau de h\u00e1bito de irm\u00e3o terceiro, seguido de um homem com uma troxa embaixo do bra\u00e7o.<\/b><\/p>\n<p>NICOLAU, para o homem \u2013 Entre, entre&#8230; (Seguindo para a porta da direita.) FABIANA, retendo-o \u2013 Espere, tenho que lhe falar.<\/p>\n<p>NICOLAU \u2013 Guarda isso para logo; agora tenho muita pressa. O senhor \u00e9 o armador que vem vestir os nossos dois pequenos para a prociss\u00e3o de hoje.<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Isso tem tempo.<\/p>\n<p>NICOLAU \u2013 Qual tempo! Eu j\u00e1 volto.<\/p>\n<p>FABIANA, raivosa \u2013 H\u00e1 de ouvir-me! NICOLAU \u2013 O caso n\u00e3o vai de zangar&#8230; Ouvir-te-ei, j\u00e1 que gritas. Sr. Bernardo, tenha a bondade de esperar um momento. Vamos l\u00e1, o que queres? E em duas palavras, se for poss\u00edvel.<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Em duas palavras? A\u00ed vai: j\u00e1 n\u00e3o posso aturar meu genro e minha nora! NICOLAU \u2013 Ora mulher, isso \u00e9 cantiga velha.<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Cantiga velha? Pois olhe: se n\u00e3o procura casa para eles nestes dois dias, ponho-os pela porta fora.<\/p>\n<p>NICOLAU \u2013 Pois eu tenho l\u00e1 tempo de procurar casa? FABIANA \u2013 Oh, tamb\u00e9m o senhor n\u00e3o tem tempo para coisa alguma&#8230; Todos os seus neg\u00f3cios v\u00e3o por \u00e1gua abaixo. H\u00e1 quinze dias perdemos uma demanda por seu desleixo; sua casa \u00e9 uma casa de Orates, filhos para uma banda, mulher para outra, tudo a brigar, tudo em confus\u00e3o&#8230; e tudo em um inferno! E o que faz o senhor no meio de toda essa desordem? S\u00f3 cuida na carolice&#8230;<\/p>\n<p>NICOLAU \u2013 Fa\u00e7o muito bem, porque sirvo a Deus.<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Meu caro, a caroleice, como tu a praticas, \u00e9 um excesso de devo\u00e7\u00e3o, assim como a hipocrisia o \u00e9 da religi\u00e3o. E todo o excesso \u00e9 um v\u00edcio&#8230;<\/p>\n<p>NICOLAU \u2013 Mulher, n\u00e3o blasfemes! FABIANA \u2013 Julgas tu que nos atos exteriores \u00e9 que est\u00e1 a religi\u00e3o? E que um homem, s\u00f3 por andar de h\u00e1bito h\u00e1 de ser remido de seus pecados? NICOLAU \u2013 Cala-te&#8230;<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 E que Deus agradece ao homem que n\u00e3o cura dos interesses de sua fam\u00edlia e da educa\u00e7\u00e3o de seus filhos, s\u00f3 para andar de tocha na m\u00e3o? NICOLAU \u2013 Nem mais uma palavra! Nem mais uma palavra! FABIANA \u2013 \u00c9 nossa obriga\u00e7\u00e3o, \u00e9 nosso mais sagrado dever servir a Deus e contribuirmos para a pompa de seus mist\u00e9rios, mas tamb\u00e9m \u00e9 nosso dever, \u00e9 nossa obriga\u00e7\u00e3o sermos bons pais de fam\u00edlia, bons maridos, doutrinar os filhos no verdadeiro temor de Deus&#8230; \u00c9 isto que tu fazes? Que cuidado tens da paz de tua fam\u00edlia? Nenhum. Que educa\u00e7\u00e3o d\u00e1s a teus filhos? Leva-os \u00e0 prociss\u00e3o feito anjinhos e contentas-te com isso. Sabem eles o que \u00e9 uma prociss\u00e3o e que papel v\u00e3o representar? V\u00e3o como crian\u00e7as; o que querem \u00e9 o cartucho de am\u00eandoas&#8230;<\/p>\n<p>NICOLAU \u2013 Oh, est\u00e1s com o diabo na l\u00edngua! Arreda! FABIANA \u2013 O sentimento religioso est\u00e1 na alma, e esse transpira nas menores a\u00e7\u00f5es da vida. Eu, com este meu vestido, posso ser mais religiosa do que tu com este h\u00e1bito.<\/p>\n<p>NICOLAU, querendo tapar-lhe a boca \u2013 Cala-te, blasfema!&#8230; (Seguindo-a.) FABIANA \u2013 O h\u00e1bito n\u00e3o faz o monge. (Fugindo dele.) Ele \u00e9, muitas vezes, capa de espertalh\u00f5es que querem iludir ao p\u00fablico; de hip\u00f3critas que se servem da religi\u00e3o como de um meio; de mandri\u00f5es que querem fugir a uma ocupa\u00e7\u00e3o e de velhacos que comem das irmandades&#8230;<\/p>\n<p>NICOLAU \u2013 Cala-te, que a\u00ed vem um raio sobre n\u00f3s! Ousas dizer que somos velhacos? FABIANA \u2013 N\u00e3o falo de ti nem de todos; falo de alguns.<\/p>\n<p>NICOLAU \u2013 N\u00e3o quero mais ouvir-te, n\u00e3o quero! Venha, senhor. (Vai-se com o homem.) FABIANA, seguindo-o \u2013 Agora tomei-te eu \u00e0 minha conta; h\u00e1 de ouvir-me at\u00e9 que te emendes!<\/p>\n<h2>CENA VI<\/h2>\n<p><b>Entra Sabino, e a dita que est\u00e1 em cena. (Sabino \u00e9 extremamente gago, o que o obriga a fazer contors\u00f5es quando fala.)<\/b><\/p>\n<p>SABINO, entrando \u2013 O que \u00e9 isto, minha m\u00e3e? FABIANA \u2013 Vem tu tamb\u00e9m c\u00e1, que temos que falar.<\/p>\n<p>SABINO \u2013 O que aconteceu? FABIANA \u2013 O que aconteceu? N\u00e3o \u00e9 novo para ti&#8230; Desaforos dela&#8230;<\/p>\n<p>SABINO \u2013 De Paulina? FABIANA \u2013 Sim. Agora o que acontecer\u00e1 \u00e9 que eu te quero dizer. Tua bela mulher \u00e9 uma desavergonhada! SABINO \u2013 Sim senhora, \u00e9; mas minha m\u00e3e, \u00e0s vezes, \u00e9 que bole com ela.<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Ora, eis a\u00ed est\u00e1! Ainda a defende contra mim! SABINO \u2013 N\u00e3o defendo; digo o que \u00e9.<\/p>\n<p>FABIANA, arremedando \u2013 O que \u00e9&#8230; Gago de uma figa! SABINO, furioso \u2013 Ga&#8230; ga&#8230; ga&#8230; ga&#8230; (Fica sufocado, sem poder falar.) FABIANA \u2013 Ai, que arrebenta! Canta, canta, rapaz; fala cantando, que s\u00f3 assim te sair\u00e3o as palavras.<\/p>\n<p>SABINO, cantando no tom de moquir\u00e3o \u2013 Se eu sou gago&#8230; se eu sou gago&#8230; foi foi Deus que assim me fez&#8230; eu n\u00e3o tenho culpa disso&#8230; para assim me descompor.<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Quem te descomp\u00f5e? Estou falando de tua mulher, que traz esta casa em uma desordem&#8230;<\/p>\n<p>SABINO, no mesmo \u2013 Todos, todos, nesta casa&#8230; t\u00eam culpa, t\u00eam culpa nisso&#8230; Minha m\u00e3e quer s\u00f3 mandar&#8230; e Paulina tem mau g\u00eanio&#8230; Se Paulina, se Paulina&#8230; fosse fosse mais poupada&#8230; tantas brigas n\u00e3o haviam&#8230; viveriam mais tranquilas&#8230;<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Mas ela \u00e9 uma desavergonhada, que vem muito de prop\u00f3sito contrariar-me no governo da casa.<\/p>\n<p>SABINO, no mesmo \u2013 Que ela, que ela \u00e9 desaver&#8230; desavergonhada&#8230; eu bem sei, sei muito bem&#8230; e c\u00e1 sinto, e c\u00e1 sinto&#8230; mas em aten&#8230; em aten&#8230; em aten\u00e3o a mim&#8230; minha m\u00e3e&#8230; minha m\u00e3e devia ceder&#8230;<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Ceder, eu? Quando ela n\u00e3o tem a menor aten\u00e7\u00e3o comigo? Hoje nem bons dias me deu.<\/p>\n<p>SABINO, gago somente \u2013 Vou fazer com que ela venha&#8230; com que ela venha pedir perd\u00e3o&#8230; e dizer-lhe que isto assim&#8230; que isto assim n\u00e3o me conv\u00e9m&#8230; e se ela, se ela persistir&#8230; vai tudo raso&#8230; com com pancadaria&#8230;<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Ainda bem que tomaste uma resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>CENA VII<\/h2>\n<p><b>Nicolau e os ditos.<\/b><\/p>\n<p>NICOLAU \u2013 \u00d3 senhora? FABIANA \u2013 O que me quer? NICOLAU \u2013 Oh, j\u00e1 chegaste, Sabino? As flores de cera para os tocheiros? SABINO, gago \u2013 Ficaram prontas e j\u00e1 foram para a igreja.<\/p>\n<p>NICOLAU \u2013 Muito bem; agora vai vestir o h\u00e1bito, que s\u00e3o horas de sairmos. Vai, anda.<\/p>\n<p>SABINO \u2013 Sim senhor. (A Fabiana:) Vou ordenar que lhe venha pedir perd\u00e3o e fazer as pazes. (Vai-se.)<\/p>\n<p>NICOLAU \u2013 Os teus brincos de brilhantes e os teus adere\u00e7os, para nossos filhos levarem? Quero que sejam os anjinhos mais ricos&#8230; Que gl\u00f3ria para mim! Que inveja ter\u00e3o! FABIANA \u2013 Homem, est\u00e3o l\u00e1 na gaveta. Tire tudo quanto quiser, mas deixe-me a paci\u00eancia&#8230;<\/p>\n<p>NICOLAU \u2013 Ver\u00e1s que anjinhos asseados e ricos! (Chamando:) \u00d3 Eduardo? Eduardo? Meu genro? EDUARDO, dentro \u2013 Que \u00e9 l\u00e1? NICOLAU \u2013 Olha que s\u00e3o horas. Veste-te depressa, que a prociss\u00e3o n\u00e3o tarda a sair.<\/p>\n<p>EDUARDO, dentro \u2013 Sim senhor.<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Ainda a mania deste \u00e9 inocente&#8230; Assim tratasse ele da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>NICOLAU \u2013 Ver\u00e1, mulher, ver\u00e1s que guapos ficam nossos filhinhos&#8230; Tu n\u00e3o os ir\u00e1 ver passar? FABIANA \u2013 Sai de casa quem a tem em paz. (Ouve-se dobrar os sinos.) NICOLAU \u2013 \u00c9 o primeiro sinal! Sabino, anda depressa! Eduardo? Eduardo? EDUARDO, dentro \u2013 Sim senhor.<\/p>\n<p>SABINO, dentro \u2013 J\u00e1 vou, senhor.<\/p>\n<p>NICOLAU \u2013 J\u00e1 l\u00e1 vai o primeiro sinal! Depressa, que j\u00e1 saiu&#8230; Sabino? Sabino? Anda, filho&#8230; (Correndo para dentro:) Ah, senhor Bernardo, vista os pequenos&#8230; Ande, ande! Jesus, chegarei tarde! (Vai-se.)<\/p>\n<h2>CENA IX<\/h2>\n<p><b>Fabiana e depois Paulina<\/b><\/p>\n<p>FABIANA \u2013 \u00c9 o que se v\u00ea&#8230; Deus lhe d\u00ea um zelo mais esclarecido&#8230;<\/p>\n<p>PAULINA, entrando e \u00e0 parte \u2013 Bem me custa&#8230;<\/p>\n<p>FABIANA, vendo-a e \u00e0 parte \u2013 Oh, a desavergonhada de minha nora! PAULINA, \u00e0 parte \u2013 Em vez de conciliar-me, tenho vontade de dar-lhe uma descompostura.<\/p>\n<p>FABIANA, \u00e0 parte \u2013 Olhem aquili! N\u00e3o sei por que n\u00e3o a descomponho j\u00e1! PAULINA, \u00e0 parte \u2013 Mas \u00e9 preciso fazer a vontade a meu marido&#8230;<\/p>\n<p>FABIANA, \u00e0 parte \u2013 Se n\u00e3o fosse por amor da paz&#8230; (Alto:) Tem alguma coisa que dizer-me? PAULINA, \u00e0 parte \u2013 Maldita su\u00e7urana! (Alto:) Sim senhora, e a rogos de meu marido \u00e9 que aqui estou.<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Ah, foram a rogos seus? O que lhe rogou ele? PAULINA \u2013 Que era tempo de se acabarem essas desaven\u00e7as em que andamos&#8230;<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Mais que tempo&#8230;<\/p>\n<p>PAULINA \u2013 E eu dei-lhe a minha palavra que faria todo o poss\u00edvel para de hoje em diante vivermos em paz&#8230; e que principiaria por pedir-lhe perd\u00e3o, como fa\u00e7o, dos agravos que de mim tem&#8230;<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Quisera Deus que assim tivesse sido desde princ\u00edpio! E acredite, menina, que prezo muito a paz dom\u00e9stica, e que minha maior satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 viver bem com voc\u00eas todos.<\/p>\n<p>PAULINA \u2013 De hoje em diante espero que assim ser\u00e1. N\u00e3o levantarei a voz nesta casa sem vosso consentimento. N\u00e3o darei uma ordem sem vossa permiss\u00e3o&#8230; Enfim, serei uma filha obediente e submissa.<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 S\u00f3 assim poderemos viver juntos. D\u00e1 c\u00e1 um abra\u00e7o. (Abra\u00e7a-a.) \u00c9s uma boa rapariga&#8230; Tens um bocadinho de g\u00eanio; mas quem n\u00e3o o tem? PAULINA \u2013 Hei de moder\u00e1-lo&#8230;<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Olha, minha filha, e n\u00e3o tornes a culpa a mim. \u00c9 imposs\u00edvel haver em uma casa mais de uma senhora. Havendo, \u00e9 tudo confus\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>PAULINA \u2013 Tem raz\u00e3o. E quando acontece haver duas, toca \u00e0 mais velha o governar.<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Assim \u00e9.<\/p>\n<p>PAULINA \u2013 A mais velha tem sempre mais experi\u00eancia&#8230;<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Que d\u00favida! PAULINA \u2013 A mais velha sabe o que conv\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Decerto.<\/p>\n<p>PAULINA \u2013 A mais velha conhece as necessidades&#8230;<\/p>\n<p>FABIANA, \u00e0 parte \u2013 A mais velha! PAULINA, com inten\u00e7\u00e3o \u2013 A mais velha deve ter mais ju\u00edzo&#8230;<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 A mais velha, a mais velha&#8230; Que modo de falar \u00e9 esse? PAULINA, no mesmo \u2013 Digo que a mais velha&#8230;<\/p>\n<p>FABIANA, desbaratando \u2013 Desavergonhada! A mim, velha!&#8230;<\/p>\n<p>PAULINA, com esc\u00e1rnio \u2013 Pois ent\u00e3o? FABIANA, desesperada \u2013 Salta daqui! Salta! PAULINA \u2013 N\u00e3o quero, n\u00e3o recebo ordens de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Ai, ai, que estalo! Assim insultar-me, este belisco! PAULINA \u2013 Esta coruja! FABIANA, no maior desespero \u2013 Sai, sai de o p\u00e9 de mim, que minhas m\u00e3os j\u00e1 comem! PAULINA \u2013 N\u00e3o fa\u00e7o caso&#8230;<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Atrevida, malcriada! Desarranjada! Peste! Mirrada! Estupor! Linguaruda! Insolente! Desavergonhada! PAULINA, ao mesmo tempo \u2013 Velha, tartaruga, coruja, arca de No\u00e9! Antigualha! M\u00famia! Centop\u00e9ia! Pergaminho! Velhusca, velha velha! (Fabiana e Paulina acabam gritando ao mesmo tempo, chegando-se uma para a outra; finalmente agarram-se. Nisto acode Sabino, em mangas de camisa, e com o h\u00e1bito na m\u00e3o.)<\/p>\n<h2>CENA X<\/h2>\n<p><b>As ditas, Sabino, Olaia e Eduardo. Sabino entra, Eduardo e Olaia o seguem.<\/b><\/p>\n<p>SABINO, vendo-as agarradas \u2013 Que diabo \u00e9 isto? (Puxa pela mulher.) OLAIA, ao mesmo tempo \u2013 Minha m\u00e3e! (Puxando-a.) FABIANA, ao mesmo tempo \u2013 Deixa-me! Desavergonhada! PAULINA, ao mesmo tempo \u2013 Larga-me! Velha! Velha! (Sabino, n\u00e3o podendo tirar a mulher, lan\u00e7a-lhe o h\u00e1bito pela cabe\u00e7a e a vai puxando \u00e0 for\u00e7a at\u00e9 a porta do quarto; e depois de a empurrar para dentro, fecha a porta a chave. Fabiana quer seguir Paulina.) OLAIA, retendo a m\u00e3e \u2013 Minha m\u00e3e! Minha m\u00e3e! EDUARDO, puxando Olaia pelo bra\u00e7o \u2013 Deixa-as l\u00e1 brigar. Vem dar-me o h\u00e1bito.<\/p>\n<p>OLAIA \u2013 Minha m\u00e3e! EDUARDO \u2013 Vem dar-me o h\u00e1bito! (Arranca Olaia com viol\u00eancia de junto de Fabiana e a vai levando para dentro, e sai.) FABIANA, vendo Sabino fechar Paulina e sair \u2013 \u00c9 um inferno! \u00c9 um inferno! SABINO, seguindo-a \u2013 Minha m\u00e3e! (Fabiana segue para dentro.) NICOLAU, entrando \u2013 O que \u00e9 isto? FABIANA, sem atender, seguindo \u2013 \u00c9 um inferno! \u00c9 um inferno! NICOLAU, seguindo-a \u2013 Senhora! (V\u00e3o-se.)<\/p>\n<h2>CENA XI<\/h2>\n<p><b>Sabino e depois Paulina.<\/b><\/p>\n<p>SABINO \u2013 isto assim n\u00e3o pode ser! N\u00e3o me serve; j\u00e1 n\u00e3o posso com minha mulher! PAULINA, entrando pela segunda porta, esquerda \u2013 Onde est\u00e1 a velha? (Sabino, vendo a mulher, corre para o quarto e fecha a porta. Paulina:) Ah, corres? (Segue-o e esbarra na porta que ele fecha.) Deixa estar, que temos tamb\u00e9m que conversar&#8230; Pensam que h\u00e3o de me levar assim? Enganam-se. Por bons modos, tudo&#8230; Mas \u00e0 for\u00e7a&#8230; Ah, ser\u00e1 bonito quem o conseguir! OLAIA, entra chorando \u2013 Vou contar a minha m\u00e3e! PAULINA \u2013 Psiu! Venha c\u00e1; tamb\u00e9m temos contas que ajustar. (Olaia vai seguindo para a segunda porta da direita. Paulina:) Fale quando se lhe fala, n\u00e3o seja malcriada! OLAIA, na porta, voltando-se \u2013 Malcrida ser\u00e1 ela&#8230; (Vai-se.) PAULINA \u2013 Hem?<\/p>\n<h2>CENA XII<\/h2>\n<p><b>Eduardo, de h\u00e1bito, trazendo a rabeca, e a dita.<\/b><\/p>\n<p>EDUARDO \u2013 Paulina, que \u00e9 de Olaia? PAULINA \u2013 L\u00e1 vai para dentro choramingando, contar n\u00e3o sei o que \u00e0 m\u00e3e.<\/p>\n<p>EDUARDO \u2013 Paulina, minha irm\u00e3, este modo de viver que levamos j\u00e1 n\u00e3o me agrada.<\/p>\n<p>PAULINA \u2013 Nem a mim.<\/p>\n<p>EDUARDO \u2013 Nossa sogra \u00e9 uma velha de todos os mil diabos. Leva desde pela manh\u00e3 at\u00e9 noite a gritar&#8230; O que me admira \u00e9 que ainda n\u00e3o estourasse pelas goelas&#8230; Nosso sogro \u00e9 um pac\u00f3vio, um banana que n\u00e3o cuida sen\u00e3o em acompanhar prociss\u00f5es. N\u00e3o lhe tirem a tocha da m\u00e3o, que est\u00e1 satisfeit\u00edssimo&#8230; Teu marido \u00e9 um ga&#8230; ga&#8230; ga&#8230; ga&#8230; que quando fala faz-me arrelia, sangue pisado. E o diabo que ature, agora que deu-lhe em falar cantando&#8230; Minha mulher tem aqueles olhos que parecem fonte perene&#8230; Por d\u00e1 c\u00e1 aquela palha, a\u00ed v\u00eam as l\u00e1grimas aos punhos. E logo atr\u00e1s: Vou contar \u00e0 minha m\u00e3e&#8230; E no meio de toda esta matinada n\u00e3o tenho tempo de estudar um s\u00f3 instante que seja, tranquilamente, a minha rabeca. E tu tamb\u00e9m fazes sofrivelmente teu p\u00e9 de cantiga na algazarra desta casa.<\/p>\n<p>PAULINA \u2013 E tu, n\u00e3o? Pois olha esta tua infernal rabeca! EDUARDO \u2013 Infernal rabeca! Paulina, n\u00e3o fales mal da minha rabeca; sen\u00e3o perco-te o amor de irm\u00e3o. Infernal! Sabes tu o que dizes? O rei dos instrumentos, infernal! PAULINA, rindo \u2013 A rabeca deve ser rainha&#8230;<\/p>\n<p>EDUARDO \u2013 Rei e rainha, tudo. Ah, desde a noite em que pela primeira vez ouvi no Teatro de S\u00e3o Pedro de Alc\u00e2ntara os seus harmoniosos, fant\u00e1sticos, salpicados e repinicados sons, senti-me outro. Conheci que tinha vindo ao mundo para artista rabequista. Comprei uma rabeca \u2013 esta que aqui v\u00eas. Disse-me o belchior que a vendeu, que foi de Paganini. Estudei, estudei&#8230; Estudo, estudo&#8230;<\/p>\n<p>PAULINA \u2013 E n\u00f3s o pagamos.<\/p>\n<p>EDUARDO \u2013 Oh, mas tenho feito progressos estupend\u00edssimos! J\u00e1 toco o Tr\u00eamolo de B\u00e9riot&#8230; Estou agora compondo um tremul\u2019rio e tenho em vista compor um tremend\u00edssimo tr\u00eamolo.<\/p>\n<p>PAULINA \u2013 O que a\u00ed vai!&#8230;<\/p>\n<p>EDUARDO \u2013 Ver\u00e1s, hei de ser insigne! Viajarei por toda a Europa, \u00c1frica e \u00c1sia; tocarei diante de todos os soberanos e figur\u00f5es da \u00e9poca, e quando de l\u00e1 voltar trarei este peito coberto de gr\u00e3-cruzes, comendas, h\u00e1bitos, etc., etc. Oh, por l\u00e1 \u00e9 que se recompensa o verdeiro m\u00e9rito&#8230; Aqui, julgam que fazem tudo pagando com dinheiro. Dinheiro! Quem faz caso de dinheiro? PAULINA \u2013 Todos. E para ganh\u00e1-lo \u00e9 que os artistas c\u00e1 v\u00eam.<\/p>\n<p>EDUARDO \u2013 Paulina, o artista quando vem ao Brasil, digo, quando se digna vir ao Brasil, \u00e9 por compaix\u00e3o que tem do embrutecimento em que vivemos, e n\u00e3o por um c\u00e1lculo vil e interesseiro. Se lhe pagam, recebe, e faa muito bem; s\u00e3o princ\u00edpios da arte&#8230;<\/p>\n<p>PAILINA \u2013 E depois das algibeiras cheias, safa-se para as suas terras, e comendo o dinheiro que ganhara no Brasil, fala mal dele e de seus filhos.<\/p>\n<p>EDUARDO \u2013 Tamb\u00e9m isso s\u00e3o princ\u00edpios de arte&#8230;<\/p>\n<p>PAULINA \u2013 Qual arte? EDUARDO \u2013 A do Padre antonio Vieira&#8230; Sabes quem foi esse? PAULINA \u2013 N\u00e3o.<\/p>\n<p>EDUARDO \u2013 Foi um grande mestre da rabeca&#8230; Mas a\u00ed, que estou a parolar contigo, deixando a trovoada engrossar. Minha mulher est\u00e1 l\u00e1 dentro com a m\u00e3e, e os mexericos fervem&#8230; N\u00e3o tarda muito que as veja em cima de mim. S\u00f3 tu podes desviar a tempestade e dar-me tempo para acabar de compor o meu tremul\u00f3rio.<\/p>\n<p>PAULINA \u2013 E como? EDUARDO \u2013 Vai l\u00e1 dentro e v\u00ea se persuade a minha mulher que n\u00e3o se quixe a m\u00e3e.<\/p>\n<p>PAULINA \u2013 Minha cunhada n\u00e3o me ouve, e&#8230;<\/p>\n<p>EDUARDO, empurrando-a \u2013 Ouvir-te-\u00e1, ouvir-te-\u00e1, ouvir-te-\u00e1. Anda, minha irm\u00e3zinha, faz-me este favor.<\/p>\n<p>PAULINA \u2013 Vou fazer um sacrif\u00edcio, e n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>EDUARDO, o mesmo \u2013 E eu te agradecerei. Vai, vai&#8230;<\/p>\n<h2>CENA XIII<\/h2>\n<p><b>EDUARDO, s\u00f3<\/b><\/p>\n<p>\u2013 Muito bem! Agora que o meu parlament\u00e1rio vai assinar o tratado de paz, assentemo-nos e estudemos um pouco. (Assenta-se.) O homem de verdadeiro talento n\u00e3o deve ser imitador; a imita\u00e7\u00e3o mata a originalidade e nessa \u00e9 que est\u00e1 a transcend\u00eancia e especialidade do indiv\u00edduo. B\u00e9riot, Paganini, Bassini e Charlatinini muito inventaram, foram homens especiais e \u00fanicos na sua individualidade. Eu tamb\u00e9m quis inventar, quis ser \u00fanico, quis ser apontado a dedo&#8230; Uns tocam com o arco&#8230; (N.B.: Deve fazer os movimentos, segundo os vai mencionando.) Isto veio dos primeiros inventores; outros tocam com as costas do arco&#8230; ou com uma varinha&#8230; Este imita o canto dos passarinhos&#8230; zurra como burro&#8230; e repinica cordas&#8230; Aquele toca abaixo do cavalete, toca em cima no bra\u00e7o&#8230; e saca-lhe sons t\u00e3o tristes e lamentosos capazes de fazer chorar um bacalhau&#8230; Estoutro arrebenta tr\u00eas cordas e toca s\u00f3 com uma, e creio mesmo que ser\u00e1 capas de arrebentar as quatro e tocar em seco&#8230; Inimit\u00e1vel instrumentinho, por quantas modifica\u00e7\u00f5es e gl\u00f3rias n\u00e3o tens passado? Tudo se tem feito de ti, tudo. Tudo? (Levantando-se estusiasmado:) Tudo n\u00e3o; a arte n\u00e3o tem limites para o homem de talento criador&#8230; Ou eu havia de inventar um meio novo, nov\u00edssimo de tocar rabeca, ou havia de morrer&#8230; Que dias passei sem comer e beber; que noites sem dormir! Depois de muito pensar e cismar, lembrei-me de tocar nas costas da rabeca&#8230; Tempo perdido, n\u00e3o se ouvia nada. Quase enlouqueci. Pus-me de novo a pensar&#8230; Pensei&#8230; cismei&#8230; parafusei&#8230; parafusei&#8230; pensei&#8230; pensei&#8230; Dias, semanas e meses&#8230; Mas enfim, Ah, id\u00e9ia luminosa penetrou este cansado c\u00e9rebro e ent\u00e3o reputei-me inventor original, como o mais pintado! Que digo? Mais do que qualquer deles&#8230; At\u00e9 agora esses aprendizes de rabeca desde Saens at\u00e9 Paganini, coitados, t\u00eam inventado somente modifica\u00e7\u00f5es de modo primitivo: arco para aqui ou para ali&#8230; Eu, n\u00e3o, inventei um modo novo, estupendo e desusado: eles tocam rabeca com o arco, e eu toco a rabeca no arco \u2013 eis a minha descoberta! (Toma o arco na m\u00e3o esquerda, pondo-o na posi\u00e7\u00e3o da rabeca; pega nesta com a direita e a corre sobre o arco.) \u00c9 esta inven\u00e7\u00e3o que h\u00e1 de cobrir-me de gl\u00f3ria e nomeada e levar meu nome \u00e0 imortalidade&#8230; Ditoso Eduardo! Grande homem! Insigne artista!<\/p>\n<h2>CENA XIV<\/h2>\n<p><b>Fabiana e os ditos.<\/b><\/p>\n<p>FABIANA, falando para dentro \u2013 Ver\u00e1s como o ensino! (Vendo Eduardo:) Oh, muito estimo encontr\u00e1-lo.<\/p>\n<p>EDUARDO \u2013 Ai, que n\u00e3o me deixam estudar! FABIANA \u2013 Pois voc\u00ea, s\u00f4 mandri\u00e3o, rabequista das d\u00fazias, tem o atrevimento de insultar e espancar a minha&#8230;<\/p>\n<p>EDUARDO &#8211; Ent\u00e3o acha a senhora que uma arcada nos dedos \u00e9 espancar? FABIANA &#8211; E por que deu-lhe o senhor com o arco nos dedos? EDUARDO \u2013 Porque n\u00e3o voltou \u00e0 m\u00fasica a tempo, fazendo-me assim perder dois compassos&#8230; Dois compassos de B\u00e9riot! FABIANA \u2013 Pois se perdeu, anunciasse pelos jornais e prometesse alv\u00edssaras, que eu havia d\u00e1-las, mas havia de ser a quem te achasse o ju\u00edzo, cabe\u00e7a de avel\u00e3! Ora, que estafermo este! N\u00e3o me dir\u00e3o para que serve semelhante figura? Ah, se eu fosse homem havia de tocar com esse arco, mas havia ser no espinha\u00e7o; e essa rabeca havia de a fazer em estilhas nessa cabe\u00e7a desmiolada&#8230; N\u00e3o arregale os olhos que n\u00e3o me mete medo.<\/p>\n<p>EDUARDO, enquanto Fabiana fala, vai-se chegando para junto dela e lhe diz na cara, com for\u00e7a \u2013 Velha! (Volta, quer entrar no seu quarto.) FABIANA \u2013 Mariola! (Segura-lhe no h\u00e1bito. Eduardo d\u00e1 com o arco nos dedos de Fabiana. Vai-se. Fabiana, largando o h\u00e1bito:) Ai, que me quebrou os dedos!<\/p>\n<h2>CENA XV<\/h2>\n<p><b>Entra Olaia e ap\u00f3s ela Paulina.<\/b><\/p>\n<p>OLAIA \u2013 Falta de educa\u00e7\u00e3o ser\u00e1 ela! (Encaminhando-se para o quarto.) PAULINA \u2013 Cala-me o bico! OLAIA \u2013 Bico ter\u00e1 ela, malcriada! FABIANA \u2013 O que \u00e9 isto? (Olaia entra no quarto sem dar aten\u00e7\u00e3o.) PAULINA \u2013 Deixa estar, minha santinha de pau oco, que te hei de dar educa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que tua m\u00e3e n\u00e3o te deu&#8230; (Entra no seu quarto.) FABIANA \u2013 Psiu, como \u00e9 isso?&#8230; (Vendo Paulina entrar no quarto:) Ah! (Chama:) Sabino! Sabino! Sabino! CENA XVI Sabino, de h\u00e1bito, e Fabiana.<\/p>\n<p>SABINO, entrando \u2013 O que temos, minha m\u00e3e? FABIANA \u2013 Tu \u00e9s homem? SABINO \u2013 Sim senhora, e prezo-me disso.<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Que farias tu a quem insultasse tua m\u00e3e e espancasse uma irm\u00e3? SABINO \u2013 Eu? Dava-lhe quatro canel\u00f5es.<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 S\u00f3 quatro? SABINO \u2013 Darei mais, se for preciso.<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Est\u00e1 bem, em tua mulher basta que s\u00f3 d\u00eas quatro.<\/p>\n<p>SABINO \u2013 Em minha mulher? Eu n\u00e3o dou em mulheres&#8230;<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Pois ent\u00e3o vai dar em teu cunhado, que espancou a tua m\u00e3e e a tua irm\u00e3.<\/p>\n<p>SABINO \u2013 Espancou-as? FABIANA \u2013 V\u00ea como tenho os dedos roxos, e ela tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>SABINO \u2013 Oh, h\u00e1 muito tempo que tenho vontade de lhe ir ao p\u00ealo, c\u00e1 por muitas raz\u00f5es&#8230; Chegou o dia&#8230;<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Assim, meu filhinho da minha alma; d\u00e1-lhe uma boa sova! Ensina-lhe a ser bem-criado.<\/p>\n<p>SABINO \u2013 Deixe-o comigo.<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Quebra-lhe a rabeca no queixos.<\/p>\n<p>SABINO \u2013 Ver\u00e1.<\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Anda, chama-o c\u00e1 para esta sala, l\u00e1 dentro o quarto \u00e9 pequeno e quebraria os trastes, que n\u00e3o s\u00e3o dele&#8230; Rijo, que eu vou para dentro ati\u00e7ar tamb\u00e9m teu pai&#8230; (Encaminha-se para o fundo, apressada.) SABINO, principia a despir o h\u00e1bito \u2013 Eu o ensinarei&#8230;<\/p>\n<p>FABIANA, da porta \u2013 N\u00e3o te esque\u00e7as de lhe quebrar a rabeca nos queixos.<\/p>\n<h2>CENA XVII<\/h2>\n<p><b>SABINO, s\u00f3, continunando a tirar o h\u00e1bito<\/b><\/p>\n<p>\u2013 J\u00e1 \u00e9 tempo; n\u00e3o posso aturar este meu cunhado! D\u00e1 conselhos \u00e0 minha mulher; ri-se quando eu falo; maltrata minha m\u00e3e&#8230; Pagar\u00e1 tudo por junto&#8230; (Arrega\u00e7ando as mangas da camisa:) Tratante! (Chega \u00e0 porta do quarto de Eduardo.) Senhor meu cunhado? EDUARDO, dentro \u2013 Que \u00e9 l\u00e1? SABINO \u2013 Fa\u00e7a o favor de vir c\u00e1 fora.<\/p>\n<h2>CENA XVIII<\/h2>\n<p><b>Eduardo e Sabino.<\/b><\/p>\n<p>EDUARDO, da porta \u2013 O que temos? SABINO \u2013 Temos que conversar.<\/p>\n<p>EDUARDO, gaguejando \u2013 N\u00e3o sabe quanto estimo&#8230;<\/p>\n<p>SABINO, muito gago e zangado \u2013 O senhor arremeda-me! EDUARDO, no mesmo \u2013 N\u00e3o sou capaz&#8230;<\/p>\n<p>SABINO, t\u00e3o raivoso, que sufoca-se \u2013 Eu&#8230; eu&#8230; eu&#8230; eu&#8230;<\/p>\n<p>EDUARDO, falando direito \u2013 N\u00e3o se engasgue, d\u00ea c\u00e1 o caro\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>SABINO, fica t\u00e3o sufocado, que para exprimir-se rompe a fala no tom da polca \u2013 Eu j\u00e1&#8230; eu j\u00e1 n\u00e3o posso&#8230; por mais tempo me conter&#8230; hoje mesmo&#8230; hoje mesmo&#8230; leva tudo o diabo&#8230;<\/p>\n<p>EDUARDO, desata a rir \u2013 Ah, ah, ah! SABINO \u2013 Pode rir-se, pode rir-se&#8230; s\u00f4 patife, hei de ensin\u00e1-lo&#8230;<\/p>\n<p>EDUARDO, cantando como Sabino \u2013 H\u00e1 de ensinar-me&#8230; mas h\u00e1 de ser&#8230; mas h\u00e1 de ser&#8230; mas h\u00e1 de ser a polca&#8230; (Dan\u00e7a.) SABINO \u2013 Maroto! (Lan\u00e7a-se sobre Eduardo e atracam-se, gritando ambos: Maroto! Patife! Diabo! Gago! Eu te ensinarei! \u2013 Etc., etc.)<\/p>\n<h2>CENA XIX<\/h2>\n<p><b>Olaia e Paulina.<\/b><\/p>\n<p>PAULINA, entrando \u2013 Que bulha \u00e9 essa? Ah! OLAIA, entrando \u2013 O que \u00e9&#8230; Ah! (Paulina e Olaia v\u00e3o apartar os dois que brigam. Olaia:) Eduardo! Eduardo! Meu irm\u00e3o! Sabino! (Etc.) PAULINA \u2013 Sabino! Sabino! Meu irm\u00e3o! Eduardo! (Eduardo e Sabino continuam a brigar e a descomporem-se. Paulina, para Olaia:) Tu \u00e9 que tens a culpa! OLAIA, para Paulina \u2013 Tu \u00e9 que tens! PAULINA, o mesmo \u2013 Cala esse bico! OLAIA, o mesmo \u2013 N\u00e3o seja tola! PAULINA, o mesmo \u2013 Mirrada! OLAIA, o mesmo \u2013 T\u00edsica! (Paulina e Olaia atiram-se uma \u00e0 outra e brigam \u00e0 direita. Eduardo e Sabino, sempre brigando \u00e0 esquerda.)<\/p>\n<h2>CENA XX<\/h2>\n<p><b>Fabiana e os ditos.<\/b><\/p>\n<p>FABIANA \u2013 Que bulha \u00e9 esta? Ah! (Corre para as mo\u00e7as.) Ent\u00e3o, o que \u00e9 isto? Meninas! Meninas! (Procura apart\u00e1-las.)<\/p>\n<h2>CENA XXI<\/h2>\n<p>Entra Nicolau apressado, trazendo pela m\u00e3o dois meninos vestidos de anjinhos.<\/p>\n<p>NICOLAU \u2013 O que \u00e9 isto? Ah, a brigarem! (Larga os meninos e vai para os dois.) Sabino! Eduardo! Ent\u00e3o?&#8230; Ent\u00e3o, rapazes?&#8230;<\/p>\n<p>FABIANA, indo a Nicolau \u2013 Isto s\u00e3o obras tuas! (Puxando-o pelo h\u00e1bito:) Volta-te para c\u00e1; tu \u00e9 que tens culpa&#8230;<\/p>\n<p>NICOLAU \u2013 Deixe-me! Sabino! FABIANA \u2013 Volta-te para c\u00e1&#8230; (Nicolau d\u00e1 com o p\u00e9 atr\u00e1s, alcan\u00e7ando-a. Fabiana:) Burro!&#8230; (Agarra-lhe nas goelas, o que o obriga a voltar-se e atracarem-se.) OS DOIS ANJINHOS \u2013 Mam\u00e3e! Mam\u00e3e! (Agarram-se ambos a Fabiana; um deles empurra o outro, que deve cair; levanta-se e atraca-se com o que o empurra, e deste modo Fabiana, Nicolau, Sabino, Eduardo, Olaia, Paulina, 1\u00ba e 2\u00ba Anjinhos, todos brigam e fazem grande algazarra.)<\/p>\n<h2>CENA XXII<\/h2>\n<p><b>Anselmo, e os ditos, brigando.<\/b><\/p>\n<p>ANSELMO \u2013 O que \u00e9 isto? O que \u00e9 isto? (Todos, vendo Anselmo, apartam-se.) FABIANA \u2013 Oh, \u00e9 o senhor? Muito estimo&#8230;<\/p>\n<p>PAULINA e EDUARDO \u2013 Meu pai! ANSELMO \u2013 Todos a brigarem!&#8230; (Todos se dirigem a Anselmo, querendo tomar a dianteira para falar; cada um puxa para seu lado a reclamarem serem atendidos; falam todos ao mesmo tempo. Grande confus\u00e3o, etc.) FABIANA, ao mesmo tempo \u2013 Muito estimo que viesse, devia ver com seus pr\u00f3prios olhos&#8230; o desaforo de seus filhos&#8230; Fazem desta casa um inferno! Eu j\u00e1 n\u00e3o posso; leve-os, leve-os, s\u00e3o dois dem\u00f4mios. J\u00e1 n\u00e3o posso! NICOLAU, ao mesmo tempo \u2013 Sabe o que mais? Carregue seus filhos daqui para fora; n\u00e3o me deixam servir a Deus&#8230; Isto \u00e9 uma casa de Orates&#8230; Carregue-os, carregue-os, sen\u00e3o fazem-me perder a alma&#8230; Nem mais um instante&#8230;<\/p>\n<p>SABINO, falando ao mesmo tempo no tom do miudinho \u2013 Se continuo a viver assim junto, fa\u00e7o uma morte. Ou o senhor, que \u00e9 meu sogro, ou meu pai, d\u00eaem-me dinheiro&#8230; dinheiro ou casa, ou leva tudo o diabo&#8230; o diabo&#8230;<\/p>\n<p>PAULINA, ao mesmo tempo \u2013 Meu pai, j\u00e1 n\u00e3o posso; tire-me deste inferno, sen\u00e3o morro! Isto n\u00e3o \u00e9 viver&#8230; Minha sogra, meu marido, minha cunhada maltratam-me&#8230; Meu pai, leve-me, leve-me daqui&#8230;<\/p>\n<p>EDUARDO \u2013 Meu pai, n\u00e3o fico aqui nem mais um momento. N\u00e3o me deixam estudar a minha rabeca&#8230; \u00c9 uma bulha infernal, uma rixa desde pela manh\u00e3 at\u00e9 a noite; nem um instante eu tenho para tocar&#8230;<\/p>\n<p>OLAIA \u2013 Senhor, se isto continua, fujo de casa&#8230; Abandono meu marido, tudo, tudo&#8230; Antes quero viver s\u00f3 do meu trabalho, do que assim. N\u00e3o posso, n\u00e3o posso, n\u00e3o quero&#8230; Nem mais um instante&#8230; \u00c9 um tormento&#8230; (Os dois Anjinhos, enquanto estas falas se recitam, devem chorar muito.) ANSELMO \u2013 Com mil diabos, assim n\u00e3o entendo nada! FABIANA \u2013 Digo-lhe que&#8230;<\/p>\n<p>NICOLAU \u2013 Perderei a alma&#8230;<\/p>\n<p>SABINO \u2013 Se eu n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>EDUARDO \u2013 Nada estudo&#8230;<\/p>\n<p>PAULINA \u2013 Meu pai, se&#8230;<\/p>\n<p>OLAIA \u2013 Nesta casa&#8230; (Todos gritam ao mesmo tempo.) ANSELMO, batendo o p\u00e9 \u2013 Irra, deixem-me falar! FABIANA \u2013 Pois fale&#8230;<\/p>\n<p>ANSELMO \u2013 Senhora, recebi a vossa carta e sei qual a causa das contendas e brigas em que todos viveis. Andamos muito mal, a experi\u00eancia o tem mostrado, em casarmos nossos filhos e n\u00e3o lhes darmos casa para morarem. Mas ainda estamos em tempo de remediar o mal&#8230; Meu filho, aqui est\u00e1 a chave de uma casa que para ti aluguei. (D\u00e1-lhe.) EDUARDO \u2013 Obrigado. S\u00f3 assim poderei estudar tranquilo e compor o meu tremend\u00edssimo&#8230;<\/p>\n<p>ANSELMO \u2013 Filha, d\u00e1 esta outra chave a teu marido. \u00c9 a da tua nova casa&#8230;<\/p>\n<p>PAULINA, tomando-a \u2013 Mil gra\u00e7as, meu pai. (D\u00e1 a chave a Sabino.) FABIANA \u2013 Agora, sim&#8230;<\/p>\n<p>ANSELMO \u2013 Estou certo que em bem pouco tempo verei reinar entre v\u00f3s todos a maior harmonia e que visitando-vos mutuamente e&#8230;<\/p>\n<p>TODOS, uns para os outros \u2013 A minha casa est\u00e1 \u00e0s vossas ordens. Quando quiser&#8230;<\/p>\n<p>ANSELMO \u2013 Muito bem. (Ao p\u00fablico:) E v\u00f3s, senhores, que presenciastes todas estas desaven\u00e7as dom\u00e9sticas, recordai-vos sempre que&#8230;<\/p>\n<p>TODOS \u2013 Quem casa, quer casa. (Cai o pano.)<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Martins Pena Personagens NICOLAU, marido de FABIANA, m\u00e3e de OLAIA e SABINO. ANSELMO, pai de EDUARDO, irm\u00e3o de PAULINA. Dois meninos e um homem. A cena passa-se no Rio de Janeiro, no ano de 1845. PROV\u00c9RBIO EM UM ATO. 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