{"id":114103,"date":"2017-03-17T10:39:31","date_gmt":"2017-03-17T12:39:31","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=114103"},"modified":"2017-03-17T10:39:31","modified_gmt":"2017-03-17T12:39:31","slug":"os-irmaos-das-almas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/os-irmaos-das-almas","title":{"rendered":"Os Irm\u00e3os das Almas"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h4>Martins Pena<\/h4>\n<p><strong>Com\u00e9dia em 1 ato<\/strong><\/p>\n<p><strong>Personagens<\/strong><\/p>\n<p>MARIANA, m\u00e3e de<br \/>\nEUFR\u00c1SIA.<br \/>\nLU\u00cdSA, irm\u00e3 de<br \/>\nJORGE, marido de Eufr\u00e1sia.<br \/>\nTIB\u00daRCIO, amante de Lu\u00edsa.<br \/>\nSOUSA, irm\u00e3o das almas.<br \/>\nFELISBERTO.<br \/>\nUm irm\u00e3o das almas.<br \/>\nUm cabo de Permanentes.<br \/>\nQuatro soldados.<\/p>\n<p>(A cena passa-se na cidade do Rio de Janeiro, no ano de 1844, no dia de Finados)<\/p>\n<p>Sala com cadeiras e mesa. Porta no fundo e \u00e0 direita; \u00e0 esquerda um arm\u00e1rio grande. Durante todo o tempo da representa\u00e7\u00e3o, ouvem-se ao longe dobres f\u00fanebres.<\/p>\n<h4>ATO \u00daNICO<\/h4>\n<h2>CENA I<\/h2>\n<p>LU\u00cdSA, sentada em uma cadeira junto \u00e1 mesa &#8211; N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel viver assim muito tempo! Sofrer e calar \u00e9 minha vida. J\u00e1 n\u00e3o posso! (Levanta-se.) Sei que sou pesada a D. Mariana e que minha cunhada n\u00e3o me v\u00ea com bons olhas, mas quem tem culpa de tudo isto \u00e9 o mano Jorge. Quem o mandou casar-se, e vir para a companhia de sua sogra? Pobre irm\u00e3o; como tem pago essa loucura! Eu j\u00e1 podia estar livre de tudo isto, se n\u00e3o fosse o maldito segredo que descobri. Antes n\u00e3o soubesse de nada!<\/p>\n<h2>CENA II<\/h2>\n<p>EUFR\u00c1SIA e LU\u00cdSA.<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA, entrando vestida de preto como quem vai visitar igrejas em dia de Finados &#8211; Lu\u00edsa, tu n\u00e3o queres ir ver os finados?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; N\u00e3o posso, estou incomodada. Quero ficar em casa.<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Fazes mal. Dizem que este ano h\u00e1 muitas caixinhas e urnas em S. Francisco e no Carmo, e al\u00e9m disso, o dia est\u00e1 bonito e haver\u00e1 muita gente.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Sei o que perco. Bem quisera ouvir uma missa por alma de minha m\u00e3e e de meu pai, mas n\u00e3o posso.<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Missas n\u00e3o hei-de eu ouvir hoje; missas em dia de Finados \u00e9 ma\u00e7ada. Logo tr\u00eas! O que eu gosto \u00e9 de ver as caixinhas dos ossos. H\u00e1 agora muito luxo.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Mal empregado.<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Por qu\u00ea? Cada um trata os seus defuntos como pode.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Mas nem todos os choram.<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Chorar? E para que serve chorar? N\u00e3o lhes d\u00e1 vida.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; E que lhes d\u00e3o as ricas urnas?<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; O que lhes d\u00e3o? Nada; mas ao menos fala-se nos parentes que as mandam fazer.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; E isso \u00e9 uma grande consola\u00e7\u00e3o para os defuntos&#8230;<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; N\u00e3o sei se \u00e9 ou n\u00e3o consola\u00e7\u00e3o para os defuntos, mas posso-te afirmar que \u00e9 divertimento para os vivos. Vai-te vestir e vamos.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; J\u00e1 te disse que n\u00e3o posso.<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Lu\u00edsa, tu \u00e9s muito velhaca!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; E por qu\u00ea?<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Queres ficar em casa para veres o teu namorado passar. Mas n\u00e3o sejas tola; vai \u00e0 igreja, que l\u00e1 \u00e9 que se namora bem no aperto.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA, com tristeza &#8211; J\u00e1 l\u00e1 se foi esse bom tempo de namoro!<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Grande novidade! Brigaste com o teu apaixonado?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; N\u00e3o; mas depois do que soube, n\u00e3o devo mais v\u00ea-lo.<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; E o que soubeste ent\u00e3o?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Que ele era&#8230; At\u00e9 n\u00e3o me atrevo a diz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Assustas-me!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Considera a coisa mais horrorosa que pode ser um homem.<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA Ladr\u00e3o?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA Pior.<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Assassino?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Ainda pior.<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Ainda pior que assassino? Rebelde?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Muito pior!<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Muito pior que rebelde? N\u00e3o sei o que seja.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; N\u00e3o sabes? (Com mist\u00e9rio) Pedreiro-livre!<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Pedreiro-livre? Santo breve da marca! Homem que fala com o diabo \u00e0 meia-noite! (Benze-se.)<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Se fosse s\u00f3 falar com o diabo! Tua m\u00e3e diz que todos os que para eles se chegam ficam excomungados, e que antes quisera ver a peste em casa do que um pedreiro-livre. (Benze-se; o mesmo faz Eufr\u00e1sia.) N\u00e3o, n\u00e3o! Antes quero viver toda a minha vida de favores e acabrunhada, do que casar-me com um pedreiro-livre. (Benze-se.)<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Tens raz\u00e3o. Eu tenho-lhes um medo de monte; e minha m\u00e3e quando os v\u00ea, fica t\u00e3o fora de si que faz desatinos. Ora, quem havia dizer que o Sr. Tib\u00farcio era tamb\u00e9m da panelinha!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Eu seria t\u00e3o feliz com ele, se n\u00e3o fosse isso!&#8230;<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Tamb\u00e9m&#8230; Perdes um marido; pouco perdes&#8230; Para que serve um marido?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Para que serve um marido? Boa pergunta! Para muitas coisas.<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Sim, para muitas coisas m\u00e1s.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Dizes isso porque j\u00e1 est\u00e1s casada.<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Essa \u00e9 que \u00e9 a desgra\u00e7a: n\u00e3o termos medo ao burro, sen\u00e3o depois do couce. Um marido! Sabes tu o que \u00e9 um marido? \u00c9 um animal exigente, impertinente e insuport\u00e1vel&#8230; A mulher que quiser viver bem com o seu, fa\u00e7a o que eu fa\u00e7o: bata o p\u00e9, grite mais do que ele, caia em desmaio, ralhe e quebre os trastes. Humilhar-se? Coitada da que se humilha! Ent\u00e3o s\u00e3o eles le\u00f5es. O meu homem ser\u00e1 sendeiro toda sua vida&#8230; E se h\u00e1s-de ter o trabalho de ensinares a esses animais, \u00e9 melhor que te n\u00e3o cases.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Isso \u00e9 bom de se dizer&#8230;<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; E de se fazer. Vou acabar de me vestir. (Sai.)<\/p>\n<h2>CENA III<\/h2>\n<p>LU\u00cdSA e depois JORGE.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA, s\u00f3 &#8211; Pobre Jorge; com quem te foste casar! Como esta mulher te faz infeliz! Pedreiro-livre!&#8230; Quem o dissera! (Entra Jorge vestido com opa verde de irm\u00e3o das almas; traz na m\u00e3o uma bacia de prata com dinheiro, ovos e bananas. Logo que entra, p\u00f5e a bacia sobre a mesa.)<\/p>\n<p>JORGE, entrando &#8211; Adeus, mana Lu\u00edsa.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; J\u00e1 de volta?<\/p>\n<p>JORGE &#8211; A colheita hoje \u00e9 boa. \u00c9 preciso esvaziar a salva. (Faz o que diz.) Guarda metade deste dinheiro antes que minha mulher o veja. que tudo \u00e9 pouco para ela; e faze-me destes ovos uma fritada e d\u00e1 estas bananas ao macaco.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Tenho tanta repugn\u00e2ncia de servir-me deste dinheiro&#8230;<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Dinheiro de esmolas que pedes para as almas&#8230;<\/p>\n<p>JORGE &#8211; E ent\u00e3o o que tem isso? \u00c9 verdade que pe\u00e7o para as almas, mas n\u00f3s tamb\u00e9m n\u00e3o temos alma? Negar que a temos \u00e9 ir contra a religi\u00e3o, e al\u00e9m disso, j\u00e1 l\u00e1 deixei dous cruzados para se dizer missas para as outras almas. \u00c9 bem que todas se salvem.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Duvido que assim a tua se salve.<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Deixa-te de asneiras! Pois pensas que por alguns miser\u00e1veis dous vint\u00e9ns, que j\u00e1 foram quatro, (pega em uma moeda de dous vint\u00e9ns:) &#8211; olha, aqui est\u00e1 o carimbo&#8230; &#8211; um pai de fam\u00edlia v\u00e1 para o inferno? Ora! Sup\u00f5e que amanh\u00e3 afincam outro carimbo deste lado. N\u00e3o desaparecem os dous vint\u00e9ns e eu tamb\u00e9m n\u00e3o fico logrado? Nada, antes que me logrem, logro eu. E demais, tirar esmolas para almas e para os santos \u00e9 um dos melhores e mais c\u00f4modos of\u00edcios que eu conhe\u00e7o. Os santos sempre s\u00e3o credores que n\u00e3o falam&#8230; Tenho seis opas para os seis dias da semana; aqui as tenho. (Vai ao arm\u00e1rio e tira seis opas.) No domingo descanso. Preferi t\u00ea-las minhas &#8211; \u00e9 mais seguro; n\u00e3o dou satisfa\u00e7\u00e3o a tesoureiro nenhum. As segundas-feiras visto esta verde que tenho no corpo; \u00e0s ter\u00e7as, esta roxa; \u00e0s quartas, esta branca; \u00e0s quintas, esta encarnada; \u00e0s sextas, esta roxa e branca e aos s\u00e1bados esta azul.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; E n\u00e3o entregas dinheiro nenhum para os santos?<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Nada, o santo destas opas sou eu. N\u00e3o tenho descanso, mas tamb\u00e9m o lucro n\u00e3o \u00e9 mau.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; O lucro&#8230; Aquele pobre velho que morava defronte do pared\u00e3o da Gl\u00f3ria tamb\u00e9m pedia esmolas para os santos, e morreu \u00e0 mingua.<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Minha rica, o fazer as coisas n\u00e3o \u00e9 nada; o sab\u00ea-las fazer \u00e9 que \u00e9 tudo. O carola experiente deve conhecer as ruas por que anda, as casas em que entra e as portas a que bate. Ruas h\u00e1 em que se n\u00e3o pilha um real &#8211; essas s\u00e3o as da gente rica, civilizada e de bom-tom, que, ou nos conhecem, ou pouco se lhe d\u00e1 que os santos se alumiem com velas de cera ou de sebo, ou mesmo que estejam \u00e0s escuras. Enfim, pessoas que pensam que quando se tem dinheiro n\u00e3o se precisa de religi\u00e3o. Por essas ruas n\u00e3o passo eu. Falem-me dos becos aonde vive a gente pobre, das casas de r\u00f3tulas, das quitandeiras; a\u00ed sim, \u00e9 que a pipineira \u00e9 grossa! (Vai guardar as opas.) Tenho aprendido \u00e0 minha custa!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA, sorrindo-se &#8211; \u00c0 custa dos tolos, deves dizer.<\/p>\n<p>JORGE &#8211; E quem os manda serem tolos? Mas, ah, neste mundo nem tudo s\u00e3o rosas. Eu vivia t\u00e3o bem e t\u00e3o feliz, e por desconto dos meus pecados dei a mais reverente das cabe\u00e7adas!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Qual cabe\u00e7ada?<\/p>\n<p>JORGE &#8211; O casar-me. Ah, minha filha, o casamento \u00e9 uma cabe\u00e7ada que deixa o homem atordoado por toda a vida, se o n\u00e3o mata. Se eu soubesse&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Agora \u00e9 tarde o arrependimento; queixa-te de ti.<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Que queres? Um dia mete-se o diabo nas tripas de um homem e ei-lo casado. Ainda alguns s\u00e3o felizes, mas eu fui mesmo desgra\u00e7ad\u00edssimo! Esbarrei-me de focinhos! Encontrei com uma mulher linguaruda, pregui\u00e7osa, desavergonhada e atrevida&#8230; E para maior infelicidade, vim viver com minha sogra, que \u00e9 um dem\u00f4nio; leva todo o dia a ati\u00e7ar a filha contra mim. Vivo num tormento.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Eu bem o vejo.<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Quando a roda principia a desandar, \u00e9 assim. Dous meses depois de eu estar casado, morreu nossa m\u00e3e e tu te viste obrigada a vires para minha companhia, para aturares estas duas v\u00edboras. Ah, suportar uma mulher \u00e9 um castigo, mas aturar tamb\u00e9m uma sogra \u00e9&#8230; nem eu sei o que seja!&#8230; E uma injusti\u00e7a que Deus nos faz. E quando elas t\u00eam um conselheiro e compadre da laia do nosso vizinho Sousa&#8230; Isso&#8230; (D\u00e1 estalos com os dedos.)<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Dizes bem, Jorge, esse nosso vizinho \u00e9 uma das causas do estado desgra\u00e7ado em que vives com tua mulher, pelos conselhos que lhe d\u00e1.<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Velho infernal, mexeriqueiro baboso! N\u00e3o te poder eu correr com um pau pela porta fora! Mas ainda isto n\u00e3o \u00e9 o maior infort\u00fanio&#8230; Olha, Lu\u00edsa, h\u00e1 coisas que um marido, por mais prudente que seja, n\u00e3o pode tragar. Tens visto aqui nesta casa o Felisberto?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Tenho sim.<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Pois esse patife, que ningu\u00e9m sabe do que vive, que n\u00e3o tem of\u00edcio nem benef\u00edcio, que est\u00e1 todo o santo dia no Largo do Rocio, metido na s\u00facia dos meirinhos, com o pretexto de ser primo de minha mulher entra por esta casa a dentro com toda a sem-cerim\u00f4nia, sem dizer tir-te, nem guar-te; anda de um quarto para outro com toda a frescura, conversa-se em segredo com minha mulher e cala-se quando eu chego.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; E por que o sofre, mano? N\u00e3o \u00e9 voc\u00ea o homem desta casa? At\u00e9 quando h\u00e1-de ter medo de sua mulher?<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Medo? Pois eu tenho medo dela? (Com riso for\u00e7ado:) \u00c9 o que me faltava! O que eu tenho \u00e9 prud\u00eancia; n\u00e3o quero desbaratar&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA, \u00e0 parte &#8211; Coitado!<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Ele j\u00e1 veio hoje?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Ainda n\u00e3o.<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Admira-me!<\/p>\n<h2>CENA IV<\/h2>\n<p>FELISBERTO e os mesmos.<\/p>\n<p>FELISBERTO, entrando &#8211; Viv\u00f3rio!<\/p>\n<p>JORGE, \u00e0 parte &#8211; J\u00e1 tardava!<\/p>\n<p>FELISBERTO, para Lu\u00edsa, sem dar aten\u00e7\u00e3o a Jorge &#8211; Adeus, minha bela Luisinha. A prima Eufr\u00e1sia est\u00e1 l\u00e1 dentro?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA, secamente &#8211; Est\u00e1. (Felisberto encaminha-se para sair pela direita, sem dar aten\u00e7\u00e3o alguma a Jorge.)<\/p>\n<p>JORGE, seguindo-o &#8211; Ent\u00e3o assim se pergunta por minha mulher e vai-se entrando? (Felisberto sai.) E ent\u00e3o? Querem-na mais clara? Que figura fa\u00e7o eu aqui? Que papel represento? (Passeia agitado de um para outro lado.)<\/p>\n<p>LU\u00cdSA, seguindo-o &#8211; Meu irm\u00e3o, por que n\u00e3o fazes um esfor\u00e7o para sa\u00edres deste vexame em que vives? Cobre energia! Mostre que \u00e9 homem! Isto \u00e9 uma vergonha! N\u00e3o se acredita! Que fraqueza!<\/p>\n<p>JORGE, parando &#8211; \u00c9 fraqueza?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; \u00c9, sim.<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Pois quero mostrar-te para que sirvo. Quero mostrar-te que sou homem e que nesta casa governo eu.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Felizmente.<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Vou ensin\u00e1-las, botar este biltre pela porta a fora! Basta de humilha\u00e7\u00e3o! Vai tudo com os diabos! (Caminha intrepidamente e a passas largos para a porta da direita, mas a\u00ed chegando, p\u00e1ra.)<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Ent\u00e3o, paras?<\/p>\n<p>JORGE, voltando &#8211; Melhor \u00e9 ter prud\u00eancia. Tenho medo de fazer uma morte.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Meu Deus, que fraqueza!<\/p>\n<p>JORGE &#8211; E retiro-me, que n\u00e3o respondo por mim&#8230; e mesmo porque vou \u00e0 botica buscar o sinapismo que minha sogra pediu. (Sai.)<\/p>\n<h2>CENA V<\/h2>\n<p>LU\u00cdSA, s\u00f3, e depois MARIANA.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Isto contado n\u00e3o \u00e9 cr\u00edvel! Ter um homem medo de sua mulher e de sua sogra a esse ponto! Ah, se eu fosse homem e tivesse uma mulher como esta!&#8230;<\/p>\n<p>MARIANA, entrando &#8211; Vai coser a renda da minha mantilha! (Lu\u00edsa sai. Mariana estar\u00e1 de vestido de riscado e saia de lila preta.) Pague o que come! \u00c9 um trambolho que eu tenho em casa. A boa j\u00f3ia do meu genro julga que eu tamb\u00e9m devo carregar com a irm\u00e3. Est\u00e1 enganado; hei-de atrapalh\u00e1-la at\u00e9 que a desgoste para sair daqui. Arre!<\/p>\n<h2>CENA VI<\/h2>\n<p>MARIANA e SOUSA.<\/p>\n<p>SOUSA, entrando vestido de opa &#8211; Bons dias, comadre.<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Oh, compadre Sousa, por c\u00e1?<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; Ando no meu fad\u00e1rio, comadre. \u00c9 preciso ganhar a vida. (P\u00f5e a salva sobre a mesa.)<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Isso \u00e9 assim, compadre.<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; E como j\u00e1 estou velho, escolho o of\u00edcio que mais me serve&#8230; Tiro esmolas.<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; E as faz render, hem?<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; Nada, comadre. Ganho s\u00f3 duas patacas por dia, que me paga o tesoureiro da irmandade para quem tiro esmola.<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; S\u00f3 duas patacas? T\u00e3o pouco, compadre?<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; Eu podia fazer como grande parte dos meus companheiros, que tiram as esmolas para si, mas isso n\u00e3o fa\u00e7o eu; quisera antes morrer de fome. Dinheiro sagrado! Talvez a comadre zombe do que eu digo&#8230;<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Eu n\u00e3o, compadre.<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; Porque consta-me que seu genro&#8230;<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Meu genro \u00e9 um tratante.<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; H\u00e1 em todas as profiss\u00f5es velhacos que as desacreditam.<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; N\u00e3o se importe com isso, compadre.<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; Oh, eu vivo tranq\u00fcilo com a minha consci\u00eancia.<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Faz muito bem.<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; Como vai a comadrinha? (Aqui aparece \u00e0 porta do fundo Jorge, que trar\u00e1 uma tigela na m\u00e3o. Vendo MARIANA e Sousa, p\u00e1ra e escuta.)<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Vai bem, compadre. S\u00f3 o diabo do marido \u00e9 que lhe d\u00e1 desgostos; \u00e9 uma besta que meti em casa&#8230;<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; Comadre, as bestas tamb\u00e9m se ensinam&#8230;<\/p>\n<p>JORGE, \u00e0 parte &#8211; Patife!<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Deixe-o comigo, compadre.<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; A comadre \u00e9 m\u00e3e e deve vigiar na felicidade de sua filha. Os maridos s\u00e3o o que as mulheres querem que eles sejam. Sou velho e tenho experi\u00eancia do mundo. A comadrinha que n\u00e3o fraqueie, sen\u00e3o ele bota-lhe o p\u00e9 no pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>JORGE, \u00e0 parte &#8211; Tratante!<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Isso lhe digo eu sempre, e ela o faz. Olhe, compadre, quanto a isso puxou c\u00e1 \u00e0 pessoa&#8230; O meu defunto n\u00e3o via b\u00f3ia comigo&#8230;<\/p>\n<h2>CENA VII<\/h2>\n<p>Os mesmos e FELISBERTO.<\/p>\n<p>FELISBERTO &#8211; Adeus, tia; vou-me embora.<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Vem c\u00e1, rapaz.<\/p>\n<p>FELISBERTO &#8211; O que quer?<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; \u00d3 compadre, voc\u00ea n\u00e3o achar\u00e1 um arranjo para este rapaz?<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; Fraco empenho sou eu, comadre.<\/p>\n<p>FELISBERTO &#8211; N\u00e3o preciso de arranjo.<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; \u00c9 melhor trocar as pernas por essas ruas como um valdevinos, em risco de ser preso para soldado? Andar sempre pingando e sem vint\u00e9m para comprar uma casaca nova? V\u00ea como os cotovelos desta est\u00e3o rotos, e esta cal\u00e7a, como est\u00e1 safada.<\/p>\n<p>FELISBERTO &#8211; Assim mesmo \u00e9 que eu gosto&#8230; \u00c9 liberdade! Cada um faz o que quer e anda como lhe parece. N\u00e3o nasci para me assujeitar a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Ai, que modo de pensar \u00e9 esse? Ent\u00e3o, compadre, n\u00e3o descobre nada?<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; Eu? S\u00f3 se ele quer tamb\u00e9m pedir esmolas; posso arranjar-lhe uma opa.<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Lembra muito bem. \u00d3 sobrinhozinho, queres pedir esmolas?<\/p>\n<p>FELISBERTO, insultado &#8211; Pois tia Mariana, acha que eu nasci para pedir esmolas? Isto \u00e9 insultar-me! E o Sr. Sousa&#8230;<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; Eu digo: no caso de querer&#8230;<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Estou vendo que nasceste para pr\u00edncipe&#8230; J\u00e1 te n\u00e3o lembras que teu pai era malsim?<\/p>\n<p>FELISBERTO &#8211; Isto foi meu pai; eu n\u00e3o tenho nada com isso.<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; Pedir para os santos \u00e9 uma profiss\u00e3o honesta.<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Que n\u00e3o desonra a ningu\u00e9m. Veste-se uma opa, entra-se pelas casas&#8230;<\/p>\n<p>FELISBERTO, \u00e1 parte &#8211; Entra-se pelas casas&#8230;<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; &#8230; bate-se \u00e0 escada, e se se demoram a vir saber quem \u00e9, assenta-se o homem um momento, descansa&#8230;<\/p>\n<p>FELISBERTO, embebido numa id\u00e9ia, sem ouvir a tia &#8211; Entra-se pelas casas&#8230;<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; &#8230; vem o moleque ou a rapariga trazer o vintenzinho&#8230;<\/p>\n<p>FELISBERTO &#8211; Pois bem, tia, quero-lhe fazer o gosto; pedirei hoje esmola; at\u00e9 para ver se o of\u00edcio me agrada.<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Sempre te conheci muito ju\u00edzo, sobrinhozinho. O compadre arranja-lhe a opa?<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; Fica a meu cuidado.<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Muito bem. E d\u00ea-me licen\u00e7a, que vou acabar de me vestir. (Sai.)<\/p>\n<h2>CENA VIII<\/h2>\n<p>SOUSA e FELISBERTO; (e depois JORGE.)<\/p>\n<p>FELISBERTO, \u00e0 parte &#8211; N\u00e3o me lembrava que opa, \u00e0s vezes, d\u00e1 entrada at\u00e9 o interior das casas&#8230;<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; Vamos?<\/p>\n<p>FELISBERTO &#8211; Quando quiser. (Encaminham para a porta do fundo; Jorge entra e passa por entre eles.)<\/p>\n<p>SOUSA, para Jorge, quando passa &#8211; Um seu criado, Sr. Jorge. (Jorge n\u00e3o corresponde o cumprimento e dirige-se para a porta da direita.)<\/p>\n<p>FELISBERTO, voltando-se &#8211; Malcriado! (Jorge, que est\u00e1 junto \u00e0 porta para sair, volta-se.)<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Hem?<\/p>\n<p>FELISBERTO, chegando-se para ele &#8211; Digo-lhe que \u00e9 um malcriado!<\/p>\n<p>JORGE, com energia &#8211; Isso \u00e9 comigo?<\/p>\n<p>FELISBERTO &#8211; \u00c9 sim.<\/p>\n<p>JORGE, vindo para a frente da cena &#8211; H\u00e1 muito tempo que eu procuro esta ocasi\u00e3o para nos entendermos.<\/p>\n<p>FELISBERTO &#8211; Muito estimo. (Arrega\u00e7a as mangas da casaca.)<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; Acomodem-se&#8230;<\/p>\n<p>JORGE &#8211; O senhor tem tomado muitas liberdades em minha casa.<\/p>\n<p>FELISBERTO &#8211; Primeiramente, a casa n\u00e3o \u00e9 sua; e segundo, hei-de tomar as liberdades que bem me parecerem.<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; Sr. Felisberto!&#8230;<\/p>\n<p>JORGE &#8211; O senhor entra por aqui e n\u00e3o faz caso de mim?<\/p>\n<p>FELISBERTO &#8211; E que figura \u00e9 o senhor para eu fazer caso?<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; Sr. Jorge!&#8230; (Metendo-se no meio.)<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Chegue-se para l\u00e1; deixe-me, que estou zangado. O senhor fala com minha mulher em segredo, na minha presen\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>FELISBERTO &#8211; Fa\u00e7o muito bem, porque \u00e9 minha prima.<\/p>\n<p>JORGE, gritando e batendo com os p\u00e9s &#8211; Mas \u00e9 minha mulher! E sabe que mais? \u00c9 por considera\u00e7\u00e3o a ela que agora mesmo n\u00e3o lhe esmurro estas ventas. (Sai com passos largos.)<\/p>\n<p>FELISBERTO &#8211; Anda c\u00e1! (Quer segui-lo; Sousa o ret\u00e9m.)<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; Aonde vai?<\/p>\n<p>FELISBERTO, rindo-se &#8211; Ah, ah, ah! N\u00e3o sei aonde foi a prima achar este c\u00f4dea para marido. Tenho-lhe dito muitas vezes que \u00e9 a vergonha da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; \u00c9 um homem sem princ\u00edpios!<\/p>\n<p>FELISBERTO &#8211; Eu regalo-me de n\u00e3o fazer caso nenhum dele&#8230; (Ouvem-se gritos dentro.) Ou\u00e7a, ou\u00e7a! N\u00e3o ouve esses gritos? E a tia e a prima que andam com ele \u00e0s voltas. Ah, ah!<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; Deixa-lo, e vamos, que se vai fazendo tarde. (Saem ambos, rindo-se.)<\/p>\n<h2>CENA IX<\/h2>\n<p>Entra JORGE desesperado.<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Os diabos que as carreguem, corujas do diabo! Assim n\u00e3o vai longe; desanda tudo em muita pancadaria. Ora cebol\u00f3rio! Que culpa tenho eu que o botic\u00e1rio se demorasse em fazer o sinapismo? \u00c9 bem feito, Sr. Jorge, \u00e9 bem feito! Quem o mandou ser tolo? Agora ag\u00fcente&#8230; (Gritos dentro.) Grita, grita, canalha, at\u00e9 que arrebentem pelas ilhargas! Triste sorte&#8230; Que sogra, que mulher! Ah, diabos! Maldita seja a hora em que eu te dei a minha m\u00e3o; antes te tivesse dado o p\u00e9, e um couce que arrebentasse a ti, a tua m\u00e3e e a toda a tua gera\u00e7\u00e3o passada e por passar. \u00c9 preciso eu tomar uma resolu\u00e7\u00e3o. A mana Lu\u00edsa tem raz\u00e3o; isto \u00e9 fraqueza. Vou ensinar \u00e0quelas v\u00edboras! (Diz as \u00faltimas palavras caminhando com resolu\u00e7\u00e3o para a porta; a\u00ed aparece Eufr\u00e1sia e ele recua.)<\/p>\n<h2>CENA X<\/h2>\n<p>JORGE e EUFR\u00c1SIA.<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Quem \u00e9 v\u00edbora? (Eufr\u00e1sia caminha para ele, que vai recuando.)<\/p>\n<p>JORGE &#8211; N\u00e3o falo contigo&#8230; (Recua.)<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA, seguindo-o &#8211; Quem \u00e9 v\u00edbora?<\/p>\n<p>JORGE, recuando sempre, e encosta-se no bastidor da esquerda &#8211;J\u00e1 disse que n\u00e3o falo contigo!<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA, junto dele &#8211; Ent\u00e3o quem \u00e9? Sou eu? Fala!<\/p>\n<p>JORGE, querendo mostrar-se forte &#8211; Eufr\u00e1sia!&#8230;<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Qual Eufr\u00e1sia! Sou um raio que te parta!&#8230;<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Retira-te! Olha que te perco o respeito!<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA, com desprezo &#8211; Peda\u00e7o de asno!<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Peda\u00e7o de asno? Olha que te&#8230; (Faz men\u00e7\u00e3o de dar uma bofetada.)<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA volta para tr\u00e1s, gritando &#8211; Minha m\u00e3e, minha m\u00e3e!<\/p>\n<p>JORGE, seguindo-a &#8211; Cala-te, dem\u00f4nio!<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA, junto \u00e0 porta &#8211; Venha c\u00e1!<\/p>\n<h3>CENA XI<\/h3>\n<p>MARIANA e os mesmos.<\/p>\n<p>MARIANA, entrando com um pano de sinapismo na m\u00e3o &#8211; O que \u00e9? O que \u00e9?<\/p>\n<p>JORGE, recuando &#8211; Agora sim!<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; S\u00f3 Jorge est\u00e1-me maltratando!<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Grandiss\u00edssimo sacripante!<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Sacripante?<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Deu-me uma bofetada!<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Uma bofetada na minha filha?<\/p>\n<p>JORGE atravessa por diante de Mariana e chega-se, rancoroso, para Eufr\u00e1sia &#8211; Dei-te uma bofetada, hem?<\/p>\n<p>MARIANA, puxando-o pelo bra\u00e7o &#8211; Que atrevimento \u00e9 esse, grandiss\u00edssimo patife?<\/p>\n<p>JORGE, desesperado &#8211; Hoje aqui h\u00e1 morte!<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Morte! Queres-me matar?<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Amea\u00e7as, grandiss\u00edssimo traste?<\/p>\n<p>JORGE, para Mariana &#8211; Grandississima tartaruga!<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Tartaruga! A mim?<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA, puxando-lhe pelo bra\u00e7o &#8211; Insultas a minha m\u00e3e?<\/p>\n<p>JORGE, para Eufr\u00e1sia &#8211; Grandiss\u00edssima lampreia!<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Que afronta! Ai, ai, que morro&#8230; (Vai cair sentada em uma cadeira e finge-se desmaiada.)<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Morre, arrebenta, que te leve a breca! (Quer sair; Mariana o ret\u00e9m pela opa.)<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Tu matas minha filha, patif\u00e3o, mas eu hei-de arrancar-te os olhos da cara&#8230;<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Largue a opa!<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; &#8230; encher essa cara de bofet\u00f5es!<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Largue a opa!<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Pensas que minha filha n\u00e3o tem m\u00e3e?<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Largue a opa!<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Pensas que eu hei-de aturar a ti, e a lambisg\u00f3ia da lua irm\u00e3?<\/p>\n<p>JORGE, com raiva &#8211; Senhora!&#8230;<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Queres-me matar tamb\u00e9m, mariola?<\/p>\n<p>JORGE, cerrando os dentes de raiva e metendo a cara diante da de Mariana &#8211; Senhora!&#8230; Diabo!&#8230;<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Ah! (D\u00e1-lhe com o pano de sinapismo na cara. JORGE d\u00e1 um grito de dor, leva as m\u00e3os a cara e sai gritando.)<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Estou cego! \u00c1gua, \u00e1gua!&#8230; (Sai pelo fundo. Mariana desfecha a rir \u00e0s gargalhadas, e o mesmo faz Eufr\u00e1sia, que se levanta da cadeira. Conservam-se a rir por alguns instantes, sem poderem falar. Lu\u00edsa aparece \u00e0 porta.)<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Que boa lembran\u00e7a! Ah, ah!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA, \u00e0 parte &#8211; O que ser\u00e1?<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Que bela receita para maridos desavergonhados! Ah. ah!<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; J\u00e1 n\u00e3o posso rir-me&#8230; Ah, ah!<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Que cara fez ele (Vendo Lu\u00edsa:) O que queres?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA, t\u00edmida &#8211; Eu&#8230;<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Bisbilhoteira! Vai buscar minha mantilha e o leque de tua cunhada! (Lu\u00edsa sai.)<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; J\u00e1 sei o rem\u00e9dio daqui por diante.<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Sinapismo nele.<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Mas n\u00e3o v\u00e1 ele ficar cego.<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Melhor para ti! (Entra Lu\u00edsa com uma mantilha na m\u00e3o e um leque, que entrega a Eufr\u00e1sia.) D\u00e1 c\u00e1; n\u00e3o podias traz\u00ea-la sem machucar? Desazada! (P\u00f5e a mantilha sobre a cabe\u00e7a.) Vamos que vai ficando tarde. Iremos primeiro a S. Francisco, que est\u00e1 aqui pertinho. (Para Lu\u00edsa:) E tu, fica tomando conta na casa, j\u00e1 que n\u00e3o tens pr\u00e9stimo para nada&#8230; Pague o que come; n\u00e3o sou burra de ningu\u00e9m. Vamos, menina.<\/p>\n<h3>CENA XII<\/h3>\n<p>LU\u00cdSA e depois TIB\u00daRCIO.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA, s\u00f3 &#8211; N\u00e3o tenho pr\u00e9stimo&#8230; Sempre insultos! Sou a criada de todos nesta casa. Vou pedir ao mano que me meta no Convento da Ajuda.<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO, dentro &#8211; Esmola para missas das almas.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Quem \u00e9? (Tib\u00farcio aparece \u00e0 porta, vestido de irm\u00e3o das almas.)<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Esmola para missas das almas.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA, sem o reconhecer &#8211; Deus o favore\u00e7a!<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Am\u00e9m. (Adianta-se.)<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; O senhor o que quer?<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Deus me favorece&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; O senhor Tib\u00farcio!<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Ele mesmo, que morria longe de ti.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; V\u00e1-se embora!<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Cruel, que te fiz eu?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; N\u00e3o fez nada, mas v\u00e1-se embora.<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; H\u00e1 oito dias que te n\u00e3o vejo. Tenho tanto que te dizer&#8230; Oito dias e oito noutes levei a passar pela tua porta, e tu n\u00e3o me aparecias; at\u00e9 que tomei a resolu\u00e7\u00e3o de vestir esta opa para poder entrar aqui sem causar desconfian\u00e7a. Seremos felizes; nossa sorte mudou. (P\u00f5e a bacia sobre a mesa.)<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Mudou?<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Bem sabes que h\u00e1 muito tempo que ando atr\u00e1s de um lugar de guarda da Alf\u00e2ndega, e que n\u00e3o tenho podido alcan\u00e7ar; mas agora j\u00e1 n\u00e3o preciso.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; N\u00e3o precisa?<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Comprei uma cautela de vig\u00e9simo, na &#8220;Casa da Fama&#8221;, do Largo de Santa Rita, e saiu-me um conto de r\u00e9is.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Ah!<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Vou abrir um armarinho. Agora posso pedir-te a teu irm\u00e3o.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; N\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o pode ser!<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; N\u00e3o queres ser minha mulher? Ter\u00e1s mudado? Ingrata!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; N\u00e3o posso, n\u00e3o posso! Meu Deus!<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Ah, j\u00e1 sei, amas a outro. Pois bem; casa-te com ele. Quem o diria?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA, chorando &#8211; Escuta-me&#8230;<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; N\u00e3o tenho que escutar. Vou-me embora, vou-me meter em uma das barcas de vapor da Praia Grande, at\u00e9 que ela arrebente. (Falsa sa\u00edda.)<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Quanto sou infeliz!<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO, voltando &#8211; Ainda me amas?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Ainda.<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Ent\u00e3o por que n\u00e3o queres casar comigo?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Oh, acredita-me, \u00e9 que eu n\u00e3o devo&#8230;<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; N\u00e3o deves? Pois adeus, vou para o Rio Grande. (Falsa sa\u00edda.)<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Isto \u00e9 um tormento que eu sofro!<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO, voltando &#8211; Ent\u00e3o, queres que eu v\u00e1 para o Rio Grande?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Bem sabes quanto eu te amava, Tib\u00farcio; tenho disto te dado provas bastantes, e se&#8230;<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Pois d\u00e1-me a \u00fanica que te pe\u00e7o: casa-te comigo. Ah, n\u00e3o respondes? Adeus, vou para Montevid\u00e9u. (Sai pelo fundo.)<\/p>\n<p>LU\u00cdSA, s\u00f3 &#8211; Nasci para ser desgra\u00e7ada! Eu seria t\u00e3o feliz com ele: mas \u00e9 pedreiro-livre&#8230; Foi bom que ele se fosse embora. Eu n\u00e3o poderia resistir&#8230;<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO, aparecendo \u00e0 porta &#8211; Ent\u00e3o, queres que eu v\u00e1 para Montevid\u00e9u?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Meu Deus!<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO, caminhando para frente &#8211; Antes que eu parta desta terra ingrata; antes que eu v\u00e1 afrontar esses mares, um s\u00f3 favor te pe\u00e7o, em nome de nosso antigo amor. Dize-me, por que n\u00e3o queres casar comigo? Disseram-te que eu era aleijado, que tinha algum defeito oculto? Se foi isso, \u00e9 mentira.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Nada disso me disseram.<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Ent\u00e3o por que \u00e9?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; \u00c9 porque&#8230; (Hesita.)<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Acaba, dize&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Porque \u00e9s&#8230; pedreiro-livre. (Benze-se.)<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Ah, ah, ah! (Rindo-se \u00e0s gargalhadas.)<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; E ri-se?<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Pois n\u00e3o me hei-de rir? Meu amor, isto s\u00e3o caraminholas que te meteram na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Eu bem sei o que \u00e9. Falas com o diabo \u00e0 meia-noite: matas as crian\u00e7as para lhes beber o sangue; entregaste tua alma ao diabo; freq\u00fcentas as&#8230;<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO, interrompendo-a &#8211; Ta, ta, ta! O que ai vai de asneiras! N\u00e3o sejas pateta; n\u00e3o acredites nestas baboseiras.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Baboseiras, sim!<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Um pedreiro-livre, minha Lu\u00edsa, \u00e9 um homem como outro qualquer; nunca comeu crian\u00e7as nem falou com o diabo \u00e0 meia-noite.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Visto isso, n\u00e3o \u00e9 verdade o que te digo?<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Qual! S\u00e3o carapet\u00f5es que te meteram nos miolos para talvez te indisporem comigo. A ma\u00e7onaria \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; D\u00e1-me a sua palavra de honra que nunca falou com o diabo?<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Juro-te que \u00e9 sujeitinho com quem nunca me encontrei.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Hoje ouviu missa?<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Nem menos de tr\u00eas.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Ah, que peso me tiraste do cora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Consentes que eu fale a teu mano?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA, vergonhosa &#8211; N\u00e3o sei&#8230;<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO, beijando-lhe a m\u00e3o &#8211; Malditos tagarelas, que iam-me fazendo perder este torr\u00e3o de a\u00e7\u00facar! Minha Lu\u00edsa, n\u00f3s seremos muito felizes, e eu te&#8230;<\/p>\n<p>MARIANA, dentro &#8211; Devagar, devagar, que n\u00e3o posso.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA, assustada &#8211; \u00c9 D. Mariana!<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Vou-me embora!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; N\u00e3o, n\u00e3o, que o podem encontrar no corredor! Minha cunhada o conhece&#8230; Esconda-se at\u00e9 que elas entrem, e depois saia!<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Mas aonde?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Neste arm\u00e1rio. (T\u00edb\u00farcio esconde-se no arm\u00e1rio, deixando bacia sobre a mesa.)<\/p>\n<h3>CENA XIII<\/h3>\n<p>Entra MARIANA, apoiada nos bra\u00e7os de EUFR\u00c1SIA e de SOUSA.<\/p>\n<p>Mariana &#8211; Ai, quase morri&#8230; Tira-me esta mantilha. (Lu\u00edsa tira-lhe a mantilha.) Ai! (Senta-se.) Muito obrigada, compadre.<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; N\u00e3o h\u00e1 de qu\u00ea, comadre.<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Acha-se melhor, minha m\u00e3e?<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Um pouco. Se o compadre n\u00e3o estivesse l\u00e1 \u00e0 porta da igreja para tirar-me do aperto, eu morria, certamente.<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; Aquilo \u00e9 um desaforo!<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; \u00e9 assim, \u00e9. Ajuntam-se esses brejeiros nos corredores das catacumbas para apertarem as velhas e darem belisc\u00f5es nas mo\u00e7as.<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; E nos rasgarem as opas e darem ca\u00e7oletas.<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; \u00c9 uma indec\u00eancia!<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Espremeram-me de tal modo, que ia botando a alma pela boca a fora.<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; E a mim deram um belisc\u00e3o, que quase arrancaram carne.<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; \u00c9 insuport\u00e1vel!<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; Principalmente, comadre, em S. Francisco de Paula.<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Est\u00e3o horas inteiras num vaiv\u00e9m, s\u00f3 para fazerem patifarias.<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; A policia n\u00e3o v\u00ea isso?<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Ai, estou que n\u00e3o posso. Compadre, d\u00ea-me licen\u00e7a, que vou-me deitar um pouco.<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; Essa \u00e9 boa, comadre!<\/p>\n<p>MARIANA levanta-se &#8211; J\u00e1 arranjou a opa para meu sobrinho?<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; A esta hora j\u00e1 est\u00e1 tirando esmolas.<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Muito obrigada, compadre. N\u00e3o se v\u00e1 embora, jante hoje conosco.<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; A comadre manda, n\u00e3o pede.<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; At\u00e9 j\u00e1; descanse. (Saem Mariana, Eufr\u00e1sia e Lu\u00edsa.)<\/p>\n<h3>CENA XIV<\/h3>\n<p>SOUSA e depois FELISBERTO.<\/p>\n<p>SOUSA, s\u00f3 &#8211; Estou estafado! (Senta-se.) A pobre da comadre, se n\u00e3o sou eu, morre; j\u00e1 estava vermelha como um camar\u00e3o. (Ouvem-se dentro gritos de pega ladr\u00e3o!) O que ser\u00e1? (Levanta-se; os gritos continuam.) E pega ladr\u00e3o! (Vai para a porta do fundo; nesse instante entra Felisberto, que vir\u00e1 de opa e bacia, precipitadamente. Esbarra-se com Sousa e salta-lhe o dinheiro da bacia no ch\u00e3o.)<\/p>\n<p>FELISBERTO &#8211; Salve-me, salve-me, colega! (Trazendo-o para frente da cena.)<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; O que \u00e9 isto, homem? Explique-se!<\/p>\n<p>FELISBERTO, tirando um rel\u00f3gio da algibeira &#8211; Tome este rel\u00f3gio. guarde-o. (Sousa toma o rel\u00f3gio maquinalmente.)<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; Que rel\u00f3gio \u00e9 esse?<\/p>\n<p>FELISBERTO &#8211; O povo a\u00ed vem atr\u00e1s de mim, gritando: Pega ladr\u00e3o! &#8211; mas creio que o logrei.<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; E o senhor roubou este rel\u00f3gio?<\/p>\n<p>FELISBERTO &#8211; N\u00e3o senhor! Entrei em uma casa para pedir esmola, e quando sa\u00ed, achei-me com este rel\u00f3gio na m\u00e3o, sem saber como&#8230; (Vozearia dentro.) A\u00ed v\u00eam eles! (Corre e esconde-se no arm\u00e1rio.)<\/p>\n<p>SOUSA, com o rel\u00f3gio na m\u00e3o &#8211; E me meteu em boas, deixando-me com o rel\u00f3gio na m\u00e3o! Se assim me pilham estou perdido. (P\u00f5e o rel\u00f3gio sobre a mesa.) Antes que aqui me encontrem, safo-me. (Vai a sair; ao chegar\u00e1 porta, p\u00e1ra para ouvir a voz de Jorge.)<\/p>\n<p>JORGE, dentro &#8211; Isto \u00e9 um insulto! N\u00e3o sou ladr\u00e3o! Em minha casa n\u00e3o entrou ladr\u00e3o nenhum!<\/p>\n<p>SOUSA, voltando &#8211; A\u00ed v\u00eam!&#8230; E este rel\u00f3gio que me acusa&#8230; Pelo menos prendem-me como c\u00famplice. (Corre e esconde-se no arm\u00e1rio.)<\/p>\n<h3>CENA XV<\/h3>\n<p>Entra JORGE.<\/p>\n<p>JORGE &#8211; N\u00e3o se d\u00e1 maior pouca vergonha&#8230; Julgarem que eu era ladr\u00e3o! Creio que algum tratante aproveita-se da opa para entrar com liberdade nas casas e surripiar alguma cousa, e os mais que andam de opa, que paguem!&#8230; Eu, roubar rel\u00f3gio!&#8230; Pois olhem, precisava bem de um. (V\u00ea o rel\u00f3gio sobre a mesa.) Um rel\u00f3gio! Que diabo! (Pegando no rel\u00f3gio:) De quem ser\u00e1? Ser\u00e1 roubado? Quatro bacias com esmolas! E ent\u00e3o! E ent\u00e3o tenho tr\u00eas homens dentro de casa? Oh, com os diabos! E todos tr\u00eas irm\u00e3os das almas&#8230; E ladr\u00f5es ainda em cima! Vou saber como \u00e9 isto. Mas, n\u00e3o; se eu perguntar, n\u00e3o me dizem nada. (Aqui aparece \u00e0 porta da direita Eufr\u00e1sia, sem que ele a veja.) \u00c9 melhor que eu veja com meus pr\u00f3prios olhos. Vou esconder-me no arm\u00e1rio e de l\u00e1 espreitarei. (Vai para o arm\u00e1rio; Eufr\u00e1sia o segue p\u00e9 ante p\u00e9. Logo que entra no arm\u00e1rio, ela d\u00e1 um pulo e fecha o arm\u00e1rio com a chave.)<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Est\u00e1 preso! Minha m\u00e3e, venha ver o can\u00e1rio! (Sai.)<\/p>\n<h3>CENA XVI<\/h3>\n<p>Ouve-se dentro do arm\u00e1rio uma quest\u00e3o de palavras, gritos e pancadas nas portas; isto dura por alguns instantes. Entram Mariana e Eufr\u00e1sia.<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Est\u00e1 ali, minha m\u00e3e, eu o prendi!<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Fizeste muito bem. (Chega-se para o arm\u00e1rio.)<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Como grita! Que bulha faz!<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Aqui h\u00e1 mais de uma pessoa&#8230;<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; N\u00e3o senhora. (Os gritos dentro redobram e ouve-se muitas vezes a palavra &#8211; ladr\u00e3o! &#8211; pronunciada por Jorge.)<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; S\u00e3o ladr\u00f5es! (Ambas gritam pela sala de um lado para outro.) Ladr\u00f5es, ladr\u00f5es, ladr\u00f5es! (Lu\u00edsa aparece \u00e0 porta.)<\/p>\n<p>LU\u00cdSA, entrando &#8211; O que \u00e9 isto?<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Ladr\u00f5es em casa! As tr\u00eas, correndo pela sala &#8211; Ladr\u00f5es, ladr\u00f5es! Quem nos acode? Ladr\u00f5es!<\/p>\n<h3>CENA XVII<\/h3>\n<p>Entra uma patrulha de quatro permanentes e um cabo. Vir\u00e3o de fardeta branca, cintur\u00e3o e pistolas.<\/p>\n<p>CABO, entrando &#8211; Que gritos s\u00e3o esses?<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Temos ladr\u00f5es em casa!<\/p>\n<p>CABO &#8211; Aonde est\u00e3o?<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Ali no arm\u00e1rio!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA, \u00e0 parte &#8211; No arm\u00e1rio! Que fiz eu? Est\u00e1 perdido&#8230; (O cabo dirige-se para o arm\u00e1rio com os soldados. MARIANA, Eufr\u00e1sia e Lu\u00edsa encostam-se para a esquerda, junto \u00e0 porta.)<\/p>\n<p>CABO, junto ao arm\u00e1rio &#8211; Quem est\u00e1 ai?<\/p>\n<p>JORGE, dentro &#8211; Abra, com todos os diabos!<\/p>\n<p>CABO &#8211; Sentido, camaradas! (O cabo abre a parta do arm\u00e1rio; por ela sai Jorge, e torna a fechar a porta com presteza. O cabo agarra-lhe na gola da casaca.) Est\u00e1 preso.<\/p>\n<p>JORGE, depois de ter fechado o arm\u00e1rio &#8211; Que diabo \u00e9 isto?<\/p>\n<p>CABO &#8211; Nada de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>JORGE &#8211; O ladr\u00e3o n\u00e3o sou eu.<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA, do lugar onde est\u00e1 &#8211; Senhor permanente, este \u00e9 meu marido.<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Sim senhor. Eu tenho a honra de ser o marido da senhora.<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Fui eu que o fechei no arm\u00e1rio, e por isso \u00e9 que se deu com os ladr\u00f5es que ainda est\u00e3o l\u00e1 dentro.<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Sim senhor, a senhora fez-me o favor de me fechar aqui dentro, e por isso \u00e9 que se deu com os ladr\u00f5es&#8230; que aqui est\u00e3o ainda&#8230;<\/p>\n<p>CABO &#8211; Pois abra. (O cabo diz estas palavras a Jorge porque ele conserva-se, enquanto fala, com as costas apoiado no arm\u00e1rio. Jorge abre a porta, sai Sousa; o cabo segura em Sousa. Jorge torna fechar o arm\u00e1rio e encosta-se. Sousa e o cabo que o segura caminham um pouco para a frente.)<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Este que \u00e9 o ladr\u00e3o.<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; N\u00e3o sou ladr\u00e3o. Deixe-me!<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; O compadre!<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; Comadre&#8230; (Mariana chega-se para ele.)<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Segure-o bem, sen\u00e3o foge.<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; Fale por mim, comadre. Diga ao senhor que eu n\u00e3o sou ladr\u00e3o.<\/p>\n<p>JORGE &#8211; \u00e9 ele mesmo, e outro que aqui est\u00e1 dentro.<\/p>\n<p>CABO &#8211; Vamos.<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; Espere.<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Como \u00e9 que voc\u00ea, compadre, estava ali dentro?<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; Por causa de um maldito rel\u00f3gio que&#8230;<\/p>\n<p>JORGE &#8211; V\u00ea? Esta confessando que roubou o rel\u00f3gio. Ali est\u00e1 sobre a mesa.<\/p>\n<p>CABO &#8211; Siga-me.<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; Espere!<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Um momento.<\/p>\n<p>CABO &#8211; Sen\u00e3o vai \u00e0 for\u00e7a. Camaradas!<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Duro com ele! (Chegam-se dous soldados e agarram em Sousa.)<\/p>\n<p>CABO &#8211; Levem este homem para o quartel.<\/p>\n<p>SOUSA, debatendo-se &#8211; Deixem-me falar&#8230;<\/p>\n<p>CABO &#8211; L\u00e3 falar\u00e1. (Os soldados levam Sousa \u00e0 for\u00e7a.)<\/p>\n<p>SOUSA &#8211; Comadre! Comadre!<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Sim, sim; l\u00e1 falar\u00e1! Patife, ladr\u00e3o!<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Estou confusa!<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Vamos aos outros que c\u00e1 est\u00e3o.<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; N\u00e3o explico isto! (Jorge abre a porta do arm\u00e1rio; sai por ela, com impetuosidade, Felisberto. Atira com Jorge no ch\u00e3o e foge pela porta do fundo. O cabo e os dois soldados correm em seu alcance.)<\/p>\n<p>CABO &#8211; Pega, pega! (Sai, assim como os soldados. Jorge levanta-se) Jorge &#8211; Pega ladr\u00e3o! Pega ladr\u00e3o! (Sai atr\u00e1s, correndo.)<\/p>\n<h3>CENA XVIII<\/h3>\n<p>MARIANA, EUFR\u00c1SIA e LU\u00cdSA.<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; \u00c9 meu sobrinho!<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; \u00c9 o primo!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA, \u00e0 parte &#8211; Ter\u00e1 ele sa\u00eddo?<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; N\u00e3o sei como foi isto.<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Nem eu.<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Deixei o compadre aqui sentado.<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; O primo estava pedindo esmolas.<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Isto foi trai\u00e7\u00e3o do patife do meu genro.<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; N\u00e3o pode ser outra coisa.<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Mas deixe-o voltar&#8230;<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Eu lhe ensinarei&#8230; (Durante este pequeno di\u00e1logo, Lu\u00edsa, que est\u00e1 um pouco mais para o fundo, v\u00ea Tib\u00farcio, que da porta do arm\u00e1rio lhe faz acenos.)<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; O que est\u00e1s tu a fazer acenos? Vem c\u00e1. (Pega-lhe pelo bra\u00e7o.) Viste o que fez o belo do teu irm\u00e3o? Como ele n\u00e3o est\u00e1 aqui, tu \u00e9 que me h\u00e1s-de pagar.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Eu? E por qu\u00ea?<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Ainda pergunta por qu\u00ea? N\u00e3o viste como ele fez prender a meu compadre e a meu sobrinho? Isto s\u00e3o cousas arranjadas por ele e por ti.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Por mim?<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Sim, por ti mesma.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Oh!<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Faze-te de nova! N\u00e3o bastava aturar eu o desavergonhado do irm\u00e3o; hei-de tamb\u00e9m sofrer as poucas vergonhas desta deslambida. (Lu\u00edsa chora. Aqui aparece \u00e0 porta do fundo Jorge; vendo o que se passa, p\u00e1ra em observa\u00e7\u00e3o.) Hoje mesmo n\u00e3o me dorme em casa. N\u00e3o quero. Vai ajuntar a tua roupa, e rua! (Tib\u00farcio sai do arm\u00e1rio e encaminha-se para elas.)<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; N\u00e3o ficar\u00e1 desamparada. (Mariana e Eufr\u00e1sia assustam-se.)<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Que fazes?<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Vem, Lu\u00edsa.<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Quem \u00e9 o senhor?<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO, para Lu\u00edsa &#8211; Vamos procurar teu irm\u00e3o.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Espera. (Eufr\u00e1sia observa com aten\u00e7\u00e3o a Tib\u00farcio.)<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Isto est\u00e1 galante. Muito bem! Com que a menina tem os amant\u00e9ticos escondidos. Est\u00e1 adiantada&#8230;<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Senhora, mais respeito!<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Ol\u00e1!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Tib\u00farcio!&#8230;<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Tib\u00farcio! \u00c9 ele mesmo! Fuja, minha m\u00e3e!&#8230; (Recua.)<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; O que \u00e9?<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Fuja, que \u00e9 um pedreiro-livre! (Deita a correr para dentro.)<\/p>\n<p>MARIANA, aterrorizada &#8211; Santa Barbara, S\u00e3o Jer\u00f4nimo, acudam-me! (Sai correndo.)<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO, admirado &#8211; E esta!&#8230;<\/p>\n<h3>CENA XIX<\/h3>\n<p>JORGE, que da porta tem observado tudo, logo que MARIANA sai, corre e abra\u00e7a-se com TIB\u00daRCIO.<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Meu Salvador! Meu libertador!<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; O que \u00e9 l\u00e1 isso? Temos outra?<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Homem incompar\u00e1vel!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Mano!<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; O senhor est\u00e1 doudo?<\/p>\n<p>JORGE, abra\u00e7ando-se com os p\u00e9s de Tib\u00farcio &#8211; Deixe-me beijar seus p\u00e9s, vig\u00e9sima maravilha do mundo!<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Levante-se, homem!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; O que \u00e9 isto, Jorge?<\/p>\n<p>JORGE, de joelhos &#8211; E adorar-te como o maior descobridor dos tempos modernos.<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, est\u00e1 doudo!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Doudo? Faltava-me esta desgra\u00e7a!<\/p>\n<p>JORGE levanta-se &#8211; Pedro Alves Cabral quando descobriu a \u00cdndia, Cam\u00f5es quando descobriu o Brasil, n\u00e3o foram mais felizes do que eu sou por ter descoberto o meio de meter medo a minha sogra e a minha mulher. E a quem devo eu esta felicidade? A ti, homem sublime.<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; E \u00e9 s\u00f3 por isso?<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Acha pouco? Sabe o que \u00e9 uma sogra e uma mulher? O senhor gosta da mana?<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Fazia ten\u00e7\u00e3o de o procurar hoje mesmo, para falar-lhe a este respeito.<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Quer casar-se com ela?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Jorge!<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Seria minha maior ventura.<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Pois bem, pratique com minha sogra o que eu praticar com minha mulher.<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Como \u00e9 l\u00e1 isso?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Que loucura!<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Quer-se casar? \u00c9 decidir, e depressa.<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Homem, se a cousa n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel&#8230;<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Qual imposs\u00edvel! Minha sogra \u00e9 uma velha.<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Por isso mesmo.<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Lu\u00edsa, vai cham\u00e1-las. Dize-lhes que estou s\u00f3 e que preciso muito falar-lhes. E tu n\u00e3o apare\u00e7as enquanto elas c\u00e1 estiverem. Anda! (Lu\u00edsa sai.)<\/p>\n<h3>CENA XX<\/h3>\n<p>JORGE e TIB\u00daRCIO.<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; O que quer fazer?<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Saber\u00e1. Esconda-se outra vez no arm\u00e1rio, e quando eu bater com o p\u00e9 e gritar: Satan\u00e1s!, salte para fora, agarre-se a minha sogra e fa\u00e7a quanto eu fizer.<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; Aqui mesmo nesta sa\u00eda?<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Sim, sim. E avie-se, que elas n\u00e3o tardam.<\/p>\n<p>TIB\u00daRCIO &#8211; V\u00e1 feito! Como \u00e9 para ao depois casar-me&#8230; (Esconde-se no arm\u00e1rio.)<\/p>\n<p>JORGE, \u00e1 parte &#8211; Toleir\u00e3o! Casa-te e depois d\u00e1-me novas. (Senta-se.) Hoje \u00e9 dia de felicidades para mim. Achei um marido para a mana; dei com os dous tratantes no xilindr\u00f3, e para coroar a obra vim a descobrir o meio de me fazer respeitar nesta casa. Ainda bem que eu tinha meus receios de encontrar-me com elas&#8230; H\u00e3o-de estar danadas.<\/p>\n<h3>CENA XXI<\/h3>\n<p>MARIANA e EUFR\u00c1SIA aparecem \u00e0 porta e, receosas, espreitam para a cena.<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Podem entrar.<\/p>\n<p>MARIANA, adiantando-se &#8211; Podem entrar? A casa \u00e9 tua?<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; De hoje em diante h\u00e1s-de tu e a desavergonhada da tua irm\u00e3 porem os quartos na rua.<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Veremos&#8230;<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Que desaforo \u00e9 esse? Ai, que arrebento!<\/p>\n<p>JORGE levanta-se e coloca-se entre as duas &#8211; At\u00e9 aqui tenho vivido nesta casa como um c\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Assim o merecias.<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; E ainda mais.<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Mas como tudo neste mundo tem fim, o meu tratamento de c\u00e3o tamb\u00e9m o ter\u00e1.<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Agora tamb\u00e9m digo eu &#8211; veremos!<\/p>\n<p>JORGE &#8211; At\u00e9 agora n\u00e3o tenho sido homem, mas era preciso s\u00ea-lo. E o que havia eu de fazer para ser homem. (Com exalta\u00e7\u00e3o:) Entrar nessa sociedade portentosa, universal e sesquipedal, aonde se aprendem os verdadeiros direitos do homem. (Faz momices e sinais extravagantes com as m\u00e3os.)<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; O que quer isto dizer?<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Ai, o que est\u00e1 ele a fazer?<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Estes s\u00e3o os sinais da ordem. (Faz os sinais.)<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Est\u00e1 doudo!<\/p>\n<p>JORGE, segurando-as pelos punhos &#8211; A senhora tem feito de mim seu gato-sapato; e a senhora, seu moleque; mas isto acabou-se! (Levanta os bra\u00e7os das duas, que d\u00e3o um grito.) Acabou-se! Sou pedreiro-livre! Satan\u00e1s!<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Miseric\u00f3rdia!<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Jesus! (Tib\u00farcio salta do arm\u00e1rio. Jorge deixa o bra\u00e7o de Mariana e, segurando em ambos os de Eufr\u00e1sia, gira com ela pela sala, gritando: Sou pedreiro-livre! O diabo \u00e9 meu compadre! Tib\u00farcio faz com Mariana tudo quanto v\u00ea Jorge fazer. As duas gritam aterrorizadas. Jorge larga a Eufr\u00e1sia, que corre para dentro. Tib\u00farcio, que nessa ocasi\u00e3o est\u00e1 do lado esquerdo da cena, larga tamb\u00e9m a Mariana, que atravessa a cena para acompanhar Eufr\u00e1sia; encontra-se no caminho com Jorge, que faz-lhe uma careta e a obriga a fazer um rodeio para sair. Os dous desatam a rir.)<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Bem diz o ditado, que ri-se com gosto quem se ri por \u00faltimo. Lu\u00edsa? Lu\u00edsa? (Para Tib\u00farcio:) Um abra\u00e7o. Que achado!<\/p>\n<h3>CENA XXII<\/h3>\n<p>Entra LU\u00cdSA.<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Vem c\u00e1. (Conduzindo-a para Tib\u00farcio:) Eis aqui a paga do servi\u00e7o que acaba de fazer-me. Sejam felizes se o puderem, que eu de hoje em diante, se n\u00e3o for feliz, hei-de ao menos ser senhor em minha casa. (Aqui entram correndo Mariana e Eufr\u00e1sia, como querendo fugirem de casa. Mariana trar\u00e1 a mantilha na cabe\u00e7a e uma trouxa de roupa debaixo do bra\u00e7o; o mesmo trar\u00e1 Eufr\u00e1sia. JORGE, vendo-as:) Pega nelas! (Jorge diz estas palavras logo que as v\u00ea. Corre de encontro a elas e fica por conseguinte junto \u00e0 porta que d\u00e1 para o interior, quando elas )\u00e1 est\u00e3o quase junto \u00e0 porta da rua. Aparece da porta um irm\u00e3o das almas.)<\/p>\n<p>IRM\u00c3O &#8211; Esmola para missas das almas! (As duas quase que se esbarram, na carreira que levam, contra o irm\u00e3o. D\u00e3o um grito e voltam correndo para sa\u00edrem por onde entraram, mas a\u00ed encontrando Jorge, que lhes fecha a sa\u00edda, atravessam a cena e, esbarrando-se do outro lado com Tib\u00farcio, largam as trouxas no ch\u00e3o e caem de joelhos a tremer.)<\/p>\n<p>EUFR\u00c1SIA &#8211; Estamos cercadas!<\/p>\n<p>MARIANA &#8211; Meus senhorezinhos, n\u00e3o nos levem para o inferno!<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Descansem, que para l\u00e1 ir\u00e3o sem que ningu\u00e9m as leve&#8230;<\/p>\n<p>AMBAS &#8211; Piedade! Piedade!<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Bravo! Sou senhor em minha casa! E eu que pensava que era mais dif\u00edcil governar mulheres! (Mariana e Eufr\u00e1sia conservam-se de joelhos, no meio de Jorge, Tib\u00farcio e Lu\u00edsa, que riem-se \u00e0s gargalhadas at\u00e9 abaixar o pano.)<\/p>\n<p>IRM\u00c3O, enquanto eles riem e desce o pano &#8211; Esmola para missas das almas! (Cai o pano.)<\/p>\n<p class=\"fonte\">FIM<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Martins Pena Com\u00e9dia em 1 ato Personagens MARIANA, m\u00e3e de EUFR\u00c1SIA. LU\u00cdSA, irm\u00e3 de JORGE, marido de Eufr\u00e1sia. TIB\u00daRCIO, amante de Lu\u00edsa. SOUSA, irm\u00e3o das almas. FELISBERTO. Um irm\u00e3o das almas. Um cabo de Permanentes. Quatro soldados. (A cena passa-se na cidade do Rio de Janeiro, no ano de 1844, no dia de Finados) Sala [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-114103","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Os Irm\u00e3os das Almas, Obra Os Irm\u00e3os das Almas<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Os Irm\u00e3os das Almas, Obra, Pe\u00e7a, Martins Pena, Ato \u00danico, Cena, Personagens, Mariana, Eufr\u00e1sia, Literatura, Os Irm\u00e3os das Almas\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta 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