{"id":114101,"date":"2017-03-17T10:38:08","date_gmt":"2017-03-17T12:38:08","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=114101"},"modified":"2017-03-17T10:38:08","modified_gmt":"2017-03-17T12:38:08","slug":"os-dois-ou-o-ingles-maquinista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/os-dois-ou-o-ingles-maquinista","title":{"rendered":"Os Dois ou o Ingl\u00eas Maquinista"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h4>Martins Pena<\/h4>\n<p><b>[Com\u00e9dia em 1 ato]<\/b><\/p>\n<h4>PERSONAGENS<\/h4>\n<p>CLEM\u00caNCIA<br \/>\nMARIQUINHA, sua filha<br \/>\nJ\u00daLIA, irm\u00e3 de Mariquinha (10 anos)<br \/>\nFEL\u00cdCIO, sobrinho de Clem\u00eancia<br \/>\nGAINER, ingl\u00eas<br \/>\nNEGREIRO, negociante de negros novos<br \/>\n[EUFR\u00c1SIA]<br \/>\n[CEC\u00cdLIA, sua filha]<br \/>\n[JUCA, irm\u00e3o de Cec\u00edlia]<br \/>\n[JO\u00c3O DO AMARAL, marido de Eufr\u00e1sia]<br \/>\nALBERTO, marido de Clem\u00eancia<br \/>\nMo\u00e7os e mo\u00e7as<\/p>\n<p><b>A cena passa-se no Rio de Janeiro, no ano de 1842<\/b><\/p>\n<h2>TRAJOS PARA AS PERSONAGENS<\/h2>\n<p>CLEM\u00caNCIA \u2013 Vestido de chita rosa, len\u00e7o de seda preto, sapatos pretos e<br \/>\npenteado de tran\u00e7as.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Vestido branco de esc\u00f3cia, de mangas justas, sapatos pretos,<br \/>\npenteado de band\u00f3 e uma rosa natural no cabelo.<br \/>\nJ\u00daLIA \u2013 Vestido branco de mangas compridas e afogado, avental verde e os<br \/>\ncabelos ca\u00eddos em cachos pelas costas.<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Cal\u00e7as brancas sem presilhas, um pouco curtas, colete preto,<br \/>\ncasaca azul com bot\u00f5es amarelos lisos, chap\u00e9u de castor branco, guarda-sol encarnado,<br \/>\ncabelos arrepiados e su\u00ed\u00e7as pelas faces at\u00e9 junto dos olhos.<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Cal\u00e7as de casimira cor de flor de alecrim, colete branco,<br \/>\nsobrecasaca, botins envernizados, chap\u00e9u preto, luvas brancas, gravata de seda de cor,<br \/>\nalfinete de peito, cabelos compridos e su\u00ed\u00e7as inteiras.<br \/>\nGAINER \u2013 Cal\u00e7as de casimira de cor, casaca, colete, gravata preta, chap\u00e9u<br \/>\nbranco de copa baixa e abas largas, luvas brancas, cabelos louros e su\u00ed\u00e7as at\u00e9 o meio das<br \/>\nfaces.<\/p>\n<h2>ATO \u00daNICO<\/h2>\n<p>O teatro representa uma sala. No fundo, porta de entrada; \u00e0 esquerda, duas janelas de<br \/>\nsacadas, e \u00e0 direita, duas portas que d\u00e3o para o interior. Todas as portas e janelas ter\u00e3o<br \/>\ncortinas de cassa branca. \u00c0 direita, entre as duas portas, um sof\u00e1, cadeiras, uma mesa<br \/>\nredonda com um candeeiro franc\u00eas aceso, duas jarras com flores naturais, alguns<br \/>\nbonecos de porcelana; \u00e0 esquerda, entre as janelas, mesas pequenas com casti\u00e7ais de<br \/>\nmangas de vidro e jarras com flores. Cadeiras pelos vazios das paredes. Todos estes<br \/>\nm\u00f3veis devem ser ricos.<br \/>\nCENA I<br \/>\nCLEM\u00caNCIA, NEGREIRO, MARIQUINHA, FEL\u00cdCIO. Ao levantar o pano, ver-se-\u00e1<br \/>\nCLEM\u00caNCIA e MARIQUINHA sentadas no sof\u00e1; em uma cadeira junto destas<br \/>\nNEGREIRO, e recostado sobre a mesa FEL\u00cdCIO que l\u00ea o Jornal do Com\u00e9rcio e levanta<br \/>\n\u00e0s vezes os olhos, como observando a NEGREIRO.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Muito custa viver-se no Rio de Janeiro! \u00c9 tudo t\u00e3o caro!<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Mas o que quer a senhora em suma? Os direitos s\u00e3o t\u00e3o<br \/>\nsobrecarregados! Veja s\u00f3 os g\u00eaneros de primeira necessidade. Quanto pagam? O vinho,<br \/>\npor exemplo, cinq\u00fcenta por cento!<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Boto as m\u00e3os na cabe\u00e7a todas as]1 vezes que recebo as contas<br \/>\ndo armaz\u00e9m e da loja de fazendas.<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Por\u00e9m as mais puxadinhas s\u00e3o as das modistas, n\u00e3o \u00e9 assim?<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2014Nisto n\u00e3o se fala! Na \u00faltima que recebi vieram dois vestidos<br \/>\nque j\u00e1 tinha pago, um que n\u00e3o tinha mandado fazer, e uma quantidade tal de linhas,<br \/>\ncolchetes, cadar\u00e7os e retroses, que fazia horror.<br \/>\nFEL\u00cdCIO, largando o Jornal sobre a mesa com impaci\u00eancia \u2013 Irra,<br \/>\nj\u00e1 aborrece!<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 [O que \u00e9?]<br \/>\n[FEL\u00cdCIO \u2013 Todas as vezes] que pego neste jornal, a primeira coisa que vejo \u00e9:<br \/>\n\u201cChapas medicinais e Ung\u00fcento Durand\u201d. Que embirra\u00e7\u00e3o!<br \/>\nNEGREIRO, rindo-se \u2013 Oh, oh, oh!<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Tens raz\u00e3o, eu mesmo j\u00e1 fiz este reparo.<br \/>\nNEGREIRO \u2013 As p\u00edlulas vegetais n\u00e3o ficam atr\u00e1s, oh, oh, oh!<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Por mim, se n\u00e3o fossem os folhetins, n\u00e3o lia o Jornal. O \u00faltimo<br \/>\nera bem bonito; o senhor n\u00e3o leu?<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Eu? Nada. N\u00e3o gasto o meu tempo com essas ninharias, que s\u00e3o<br \/>\ns\u00f3 boas para as mo\u00e7as.<br \/>\nVOZ na rua \u2013 Manu\u00ea quentinho! (Entra J\u00falia pela direita, correndo.)<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Aonde vai, aonde vai?<br \/>\nJ\u00daLIA, parando no meio da sala \u2013 Vou chamar o preto dos manu\u00eas.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 E pra isso precisa correr? V\u00e1, mas n\u00e3o caia. (J\u00falia vai para<br \/>\njanela e chama para rua dando psius.)<br \/>\nNEGREIRO \u2013 A pecurrucha gosta dos doces.2<br \/>\nJ\u00daLIA, da janela \u2013 Sim, a\u00ed mesmo. (Sai da janela e vai para a porta, aonde<br \/>\nmomentos depois chega um preto com um tabuleiro com manu\u00eas, e descansando-o no<br \/>\nch\u00e3o, vende-os a J\u00falia. Os demais continuam a conversar.)<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Sr. Negreiro, a quem pertence o brigue Veloz Espadarte, aprisionado<br \/>\nontem junto quase da Fortaleza de Santa Cruz pelo cruzeiro ingl\u00eas, por ter a seu bordo<br \/>\ntrezentos africanos?<br \/>\nNEGREIRO \u2013 A um pobre diabo que est\u00e1 quase maluco&#8230; Mas \u00e9 bem feito, para<br \/>\nn\u00e3o ser tolo. Quem \u00e9 que neste tempo manda entrar pela barra um navio com<br \/>\nO manuscrito conhecido \u00e9 truncado. Faltam-lhe as p\u00e1ginas de t\u00edtulo, personagens, trajes, indica\u00e7\u00e3o<br \/>\ncenogr\u00e1fica e come\u00e7o da cena I. Seu texto abre-se no meio da terceira fala: [todas as] vezes que recebo&#8230;<br \/>\nAssim no manuscrito, por pequerrucha.<\/p>\n<p>semelhante carrega\u00e7\u00e3o? S\u00f3 um peda\u00e7o de asno. H\u00e1 por a\u00ed al\u00e9m uma costa t\u00e3o longa e<br \/>\nalgumas autoridades t\u00e3o condescendentes!&#8230;<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Condescendentes porque se esquecem de seu dever!<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Dever? Perdoe que lhe diga: ainda est\u00e1 muito mo\u00e7o&#8230; Ora,<br \/>\nsuponha que chega um navio carregado de africanos e deriva em uma dessas praias, e<br \/>\nque o capit\u00e3o vai dar disso parte ao juiz do lugar. O que h\u00e1 de este fazer, se for homem<br \/>\ncordato e de ju\u00edzo? Responder do modo seguinte: Sim senhor, sr. capit\u00e3o, pode contar<br \/>\ncom a minha prote\u00e7\u00e3o, contanto que V. S.\u00aa&#8230; N\u00e3o sei se me entende? Suponha agora que<br \/>\neste juiz \u00e9 um homem esturrado, destes que n\u00e3o sabem aonde t\u00eam a cara e que vivem no<br \/>\nmundo por ver os outros viverem, e que ouvindo o capit\u00e3o, responda-lhe com quatro<br \/>\npedras na m\u00e3o: N\u00e3o senhor, n\u00e3o consinto! Isto \u00e9 uma infame infra\u00e7\u00e3o da lei e o senhor<br \/>\ninsulta-me fazendo semelhante proposta! \u2013 E que depois deste aranzel de asneiras pega<br \/>\nna pena e oficie ao Governo. O que lhe acontece? Responda.<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Acontece o ficar na conta de \u00edntegro juiz e homem de bem.<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Engana-se; fica na conta de pobre, que \u00e9 menos que pouca coisa.<br \/>\nE no entanto v\u00e3o os negrinhos para um dep\u00f3sito, a fim de serem ao depois distribu\u00eddos<br \/>\npor aqueles de quem mais se depende, ou que t\u00eam maiores empenhos. Calemo-nos,<br \/>\nporem, que isto vai longe.<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Tem raz\u00e3o! (Passeia pela sala.)<br \/>\nNEGREIRO, para Clem\u00eancia \u2013 Daqui a alguns anos mais falar\u00e1 de<br \/>\noutro modo.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Deixe-o falar. A prop\u00f3sito, j\u00e1 lhe mostrei o meu meia-cara3,<br \/>\nque recebi ontem na Casa da Corre\u00e7\u00e3o?<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Pois recebeu um?<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Recebi, sim. Empenhei-me com minha comadre, minha<br \/>\ncomadre empenhou-se com a mulher do desembargador, a mulher do desembargador<br \/>\npediu ao marido, este pediu a um deputado, o deputado ao ministro e fui servida.<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Oh, oh, chama-se isto transa\u00e7\u00e3o! Oh, oh!<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Seja l\u00e1 o que for; agora que tenho em casa, ningu\u00e9m mo<br \/>\narrancar\u00e1. Morrendo-me algum outro escravo, digo que foi ele.<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 E minha tia precisava deste escravo, tendo j\u00e1 tantos?<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Tantos? Quanto mais, melhor. Ainda eu tomei um s\u00f3. E os que<br \/>\ntomam aos vinte e aos trinta? Deixa-te disso, rapaz. Venha v\u00ea-lo, sr. Negreiro. [(Saem.)]<\/p>\n<h2>CENA II<\/h2>\n<p>[FEL\u00cdCIO e MARIQUINHA.]<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Ouviste, prima, como pensa este homem com quem tua m\u00e3e<br \/>\npretende casar-te?<br \/>\nMARIQUNHA \u2013 Casar-me com ele? Oh, n\u00e3o, morrerei antes!<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 No entanto \u00e9 um casamento vantajoso. Ele \u00e9 imensamente rico&#8230;<br \/>\nAtropelando as leis, \u00e9 verdade; mas que importa? Quando fores sua mulher&#8230;<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 E \u00e9 voc\u00ea quem me diz isto? Quem me faz essa injusti\u00e7a?<br \/>\nAssim s\u00e3o os homens, sempre ingratos!<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Meu amor, perdoa. O temor de perder-te faz-me injusto.<br \/>\nBem sabes quanto eu te adoro; mas tu \u00e9s rica, e eu um pobre empregado p\u00fablico; e tua<br \/>\nm\u00e3e jamais consentir\u00e1 em nosso casamento, pois sup\u00f5e fazer-te feliz dando-te um<br \/>\nmarido rico.<br \/>\nMeia-cara \u2013 O escravo que, depois de proibido o tr\u00e1fico, era importado por contrabando, sem se<br \/>\npagarem os direitos aduaneiros, de meia-cara.<\/p>\n<p>MARIQUINHA \u2013 Meu Deus!<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 T\u00e3o bela e t\u00e3o sens\u00edvel como \u00e9s, seres a esposa de um homem para<br \/>\nquem o dinheiro \u00e9 tudo! Ah, n\u00e3o, ele ter\u00e1 ainda que lutar comigo! Se sup\u00f5e que a<br \/>\nfortuna que tem adquirido com o contrabando de africanos h\u00e1 de tudo vencer, enganase!<br \/>\nA intelig\u00eancia e o ardil \u00e0s vezes podem mais que a riqueza.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 O que pode voc\u00ea fazer? Seremos sempre infelizes.<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Talvez que n\u00e3o. Sei que a empresa \u00e9 dif\u00edcil. Se ele te amasse, serme-<br \/>\nia mais f\u00e1cil afast\u00e1-lo de ti; por\u00e9m ele ama o teu dote, e desta qualidade de gente<br \/>\narrancar um vint\u00e9m \u00e9 o mesmo que arrancar a alma do corpo&#8230; Mas n\u00e3o importa.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 N\u00e3o v\u00e1 voc\u00ea fazer alguma coisa com que mam\u00e3 se zangue e<br \/>\nfique mal com voc\u00ea&#8230;<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 N\u00e3o, descansa. A luta h\u00e1 de ser longa, pois que n\u00e3o \u00e9 este o \u00fanico<br \/>\ninimigo. As assiduidades daquele maldito Gainer j\u00e1 tamb\u00e9m inquietam-me. Veremos&#8230;<br \/>\nE se for preciso&#8230; Mas n\u00e3o; eles se entredestruir\u00e3o4; o meu plano n\u00e3o pode falhar.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Veja o que faz. Eu lhe amo, n\u00e3o me envergonho de o dizer;<br \/>\npor\u00e9m se for preciso para nossa uni\u00e3o que voc\u00ea fa\u00e7a alguma a\u00e7\u00e3o que&#8230; (Hesita.)<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Compreendo o que queres dizer&#8230; Tranq\u00fciliza-te.<br \/>\nJ\u00daLIA, entrando \u2013 Mana, mam\u00e3 chama.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 J\u00e1 vou. Tuas palavras animaram-me.<br \/>\nJ\u00daLIA \u2013 Ande, mana.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Que impertin\u00eancia! (Para Fel\u00edcio, \u00e0 parte:) Logo<br \/>\nconversaremos&#8230;<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Sim, e n\u00e3o te aflijas mais, que tudo se arranjar\u00e1. (Saem Mariquinha e<br \/>\nJ\u00falia.)<\/p>\n<h2>CENA III<\/h2>\n<p>FEL\u00cdCIO, s\u00f3 \u2013 Quanto eu a amo! Dois rivais! Um negociante de meia-cara e um<br \/>\nespeculador&#8230; Belo par, na verdade! \u00c2nimo! Comecem-se hoje as hostilidades.<br \/>\nVeremos, meus senhores, veremos! Um de v\u00f3s sair\u00e1 corrido desta casa pelo outro, e um<br \/>\ns\u00f3 ficar\u00e1 para mim &#8211; se ficar&#8230; (Entra mister Gainer.)<br \/>\nCENA IV<br \/>\n[FEL\u00cdCIO e GAINER.]<br \/>\nGAINER \u2013 Viva, senhor.<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Oh, um seu venerador&#8230;<br \/>\nGAINER \u2013 Passa bem? Estima muito. Senhora dona Clem\u00eancia foi passear?<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 N\u00e3o senhor, est\u00e1 l\u00e1 dentro. Queria alguma coisa?<br \/>\nGAINER \u2013 Coisa n\u00e3o; vem fazer minhas cumprimentos.<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 N\u00e3o pode tardar. (\u00c0 parte:) Principie-se. (Para Gainer:) Sinto muito<br \/>\ndizer-lhe que&#8230; Mas chega minha tia. (\u00c0 parte:) Em outra ocasi\u00e3o&#8230;<br \/>\nGAINER \u2013 Senhor, que sente?<\/p>\n<h2>CENA V<\/h2>\n<p>Entra D\u00aa. CLEM\u00caNCIA, MARIQUINHA, J\u00daLIA [e] NEGREIRO.<br \/>\nAssim no manuscrito.<br \/>\nD. CLEM\u00caNCIA, entrando &#8212; Estou contente com ele. Oh, o sr. Gainer por c\u00e1!<br \/>\n(Cumprimentam-se.)<br \/>\nGAINER \u2013 Vem fazer meu visita.<br \/>\nD\u00aa. CLEM\u00caNCIA \u2013 Muito obrigada. H\u00e1 dias que o n\u00e3o vejo.<br \/>\nGAINER \u2013 Tenha estado muita ocupado.<br \/>\nNEGREIRO, com ironia \u2013 Sem d\u00favida com algum projeto?<br \/>\nGAINER \u2013 Sim. Estou redigindo uma requerimento para as deputados.<br \/>\nNEGREIRO e CLEM\u00caNCIA \u2013 Oh!<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Sem indiscri\u00e7\u00e3o: N\u00e3o poderemos saber&#8230;<br \/>\nGAINER \u2013 Pois n\u00e3o! Eu pe\u00e7a na requerimento uma privil\u00e9gio por trinta anos<br \/>\npara fazer a\u00e7\u00facar de osso.<br \/>\nTODOS \u2013 A\u00e7\u00facar de osso!<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Isto deve ser bom! Oh, oh, oh!<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Mas como \u00e9 isto?<br \/>\nFEL\u00cdCIO, \u00e0 parte \u2013 Velhaco!<br \/>\nGAINER \u2013 Eu explica e mostra&#8230; At\u00e9 nesta tempo n\u00e3o se tem feito caso das<br \/>\nosso, estruindo-se grande quantidade delas, e eu agora faz desses osso a\u00e7\u00facar<br \/>\nsuperfina&#8230;<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Desta vez desacreditam-se as canas.<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Continue, continue.<br \/>\nGAINER \u2013 Nenhuma pessoa mais planta cana quando souberem minha m\u00e9todo.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Mas os ossos plantam-se?<br \/>\nGAINER, meio desconfiado \u2013 N\u00e3o senhor.<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Ah, percebo! Espremem-se. (Gainer fica indignado.)<br \/>\nJ\u00daLIA \u2013 Quem \u00e9 que pode espremer osso? Oh! (Fel\u00edcio e Mariquinha riem-se.)<\/p>\n<h2>CENA VI<\/h2>\n<p>EUFR\u00c1SIA, na porta do fundo \u2013 D\u00e1 licen\u00e7a, comadre?<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Oh, comadre, pode entrar! (Clem\u00eancia e Mariquinha<br \/>\nencaminham-se para a porta, assim como Fel\u00edcio; Gainer fica no meio da sala. Entram<br \/>\nEufr\u00e1sia, Cec\u00edlia, Jo\u00e3o do Amaral, um menino de dez anos, uma negra com uma<br \/>\ncrian\u00e7a no colo e um moleque vestido de cal\u00e7a e jaqueta e chap\u00e9u de oleado.<br \/>\nClem\u00eancia, abra\u00e7ando Eufr\u00e1sia:) Como tem passado?<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 Assim, assim.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Ora esta, comadre!<br \/>\nJO\u00c3O DO AMARAL \u2013 Senhora d\u00aa. Clem\u00eancia?<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Sr. Jo\u00e3o, viva! Como est\u00e1?<br \/>\nMARIQUINHA, para Cec\u00edlia, abra\u00e7ando e dando beijo \u2013 H\u00e1 quanto tempo!<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 Voc\u00ea passa bem? (Todos cumprimentam-se. Fel\u00edcio aperta a m\u00e3o<br \/>\nde Jo\u00e3o do Amaral, corteja as senhoras. Jo\u00e3o do Amaral corteja a Mariquinha.)<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Venham-se assentar.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 N\u00f3s nos demo[ra]remos pouco.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 \u00c9 que faltava.<br \/>\nMARIQUINHA, pegando na crian\u00e7a \u2013 O Lulu como est\u00e1 bonito! (Cobre-o de<br \/>\nbeijo.)<br \/>\nCLEM\u00caNCIA, chegando-se para ver \u2013 Coitadinho, coitadinho! (Fazendo-lhe<br \/>\nfestas:) Psiu, psiu, negrinho! Como \u00e9 galante!<br \/>\n5 Esta cena inexiste na Ed. Garnier.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 Tem andado muito rabugento com a disenteria dos dentes.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Pobrezinho! Psiu, psiu, bonito! (Mariquinha toma a crian\u00e7a<br \/>\nda negra.)<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 Olhe que n\u00e3o lhe fa\u00e7a alguma desfeita!<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 N\u00e3o faz mal. (Mariquinha leva a crian\u00e7a para junto do<br \/>\ncandeeiro e, mostrando-lhe a luz, brinca com ele ad libitum.)<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Descanse um pouco, comadre. (Puxa-lhe pela [saia] para junto<br \/>\ndo sof\u00e1.)<br \/>\nJO\u00c3O \u2013 N\u00e3o podemos ficar muito tempo.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 J\u00e1 o senhor principia com suas impertin\u00eancias. Assentem-se.<br \/>\n(Clem\u00eancia e Eufr\u00e1sia assentam-se no sof\u00e1; Jo\u00e3o do Amaral, Fel\u00edcio, Gainer e o<br \/>\nmenino, nas cadeiras; Cec\u00edlia e J\u00falia ficam em p\u00e9 junto de Mariquinha, que brinca com<br \/>\na crian\u00e7a.)<br \/>\nEUFR\u00c1SIA, assentando-se \u2013 Ai, estou cansada de subir suas escadas!<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Pois passe a noite comigo e fa\u00e7a a outra visita amanh\u00e3.<br \/>\nJO\u00c3O DO AMARAL \u2013 N\u00e3o pode ser.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Deixe-se disso. (Batendo palmas:) \u00d3 l\u00e1 de dentro?<br \/>\nJO\u00c3O \u2013 Desculpe-me, tenha paci\u00eancia.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA\u2014 N\u00e3o, comadre. (Chega um pajem pardo \u00e0 porta.)<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Aprontem o ch\u00e1 depressa. (Sai o pajem.)<br \/>\n[JO\u00c3O] \u2013 N\u00e3o pode ser, muito obrigado.<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Aonde vai com tanta pressa, minha senhora?<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 N\u00f3s?<br \/>\nJO\u00c3O, para Fel\u00edcio \u2013 Um pequeno neg\u00f3cio.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 Vamos \u00e0 casa de d\u00aa. Rita.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Deixe-se de d\u00aa. Rita. Que vai l\u00e1 fazer?<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 Vamos pedir a ela para falar \u00e0 mulher do ministro.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Pra qu\u00ea?<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 N\u00f3s ontem ouvimos dizer que se ia criar uma reparti\u00e7\u00e3o nova e<br \/>\nqueria ver se arranj\u00e1vamos um lugar pra Jo\u00e3o.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Ah, j\u00e1 n\u00e3o ateimo.<br \/>\nFEL\u00cdCIO, para Jo\u00e3o \u2013 Estimarei muito que seja atendido; \u00e9 justi\u00e7a que lhe<br \/>\nfazem.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 O senhor diz bem.<br \/>\nJO\u00c3O \u2013 Sou empregado de reparti\u00e7\u00e3o extinta; assim, \u00e9 justo que me<br \/>\nempreguem. At\u00e9 mesmo \u00e9 economia.<br \/>\nGAINER \u2013 Economia sim!<br \/>\nJO\u00c3O, para Gainer \u2013 H\u00e1 muito tempo que me deviam ter empregado, mas<br \/>\nenfim&#8230;<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 N\u00e3o se v\u00ea sen\u00e3o injusti\u00e7as.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 Comadre, passando de uma coisa pra outra: a costureira esteve c\u00e1<br \/>\nhoje?<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Esteve e me trouxe os vestidos novos.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 Mande buscar.<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 Sim, sim, mande-os buscar, madrinha.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA, batendo palmas \u2013 Pulqu\u00e9ria? (Dentro, uma voz: Senhora?) Vem<br \/>\nc\u00e1.<br \/>\nCEC\u00cdLIA, para Mariquinha \u2013 Quantos vestidos novos voc\u00ea mandou [fazer?]<br \/>\nMARIQUINHA E CLEM\u00caNCIA \u2013 Dois. (Entra uma rapariga.)<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Vai l\u00e1 dentro no meu quarto de vestir, dentro do guarda-fato \u00e0<br \/>\ndireita, tira os vestidos novos que vieram hoje. Olha, n\u00e3o machuque os outros. Vai,<br \/>\nanda. (Sai a rapariga.)<br \/>\nCEC\u00cdLIA, para Mariquinha \u2013 De que moda mandou fazer os vestidos?<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Diferentes e&#8230; Ora, ora, Lulu, que logro!<br \/>\nEUFR\u00c1SIA e CEC\u00cdLIA \u2013 O que foi?<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Mijou-me toda!<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 N\u00e3o lhe disse? (Os mais riem-se.)<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Marotinho!<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 Rosa, pega no menino.<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 Eu j\u00e1 n\u00e3o gosto de pegar nele por isso. (A preta toma o menino e<br \/>\nMariquinha fica sacudindo o vestido.)<br \/>\nJO\u00c3O \u2013 Foi boa pe\u00e7a!<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 N\u00e3o faz mal. (Entra a rapariga com quatro vestidos e entrega<br \/>\na Clem\u00eancia.)<br \/>\nJO\u00c3O, para Fel\u00edcio \u2013 Temos ma\u00e7ada!<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Est\u00e3o as senhoras no seu geral.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA, mostrando os vestidos \u2013 Olhe. (As quatro senhoras ajuntam-se \u00e0<br \/>\nroda dos vestidos e examinam ora um, ora outro; a rapariga fica em p\u00e9 na porta; o<br \/>\nmenino bole em tudo quanto acha e trepa nas cadeiras para bulir com os vidros;<br \/>\nFel\u00edcio e Gainer levantam-se e passeiam de bra\u00e7o dado pela sala, conversando. As<br \/>\nquatro senhoras quase que falam ao mesmo tempo.)<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 Esta chita \u00e9 bonita.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 Olhe este riscadinho, menina!<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Pois custou bem barato; comprei \u00e0 porta.<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 Que feitio t\u00e3o elegante! Este \u00e9 seu, n\u00e3o \u00e9?<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 \u00c9, eu mesmo \u00e9 que dei o molde.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 S\u00e3o todos diferentes. Este \u00e9 de costa lisa, e este n\u00e3o.<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 Este h\u00e1 de ficar bem.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Muito bem. \u00c9 uma luva.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 J\u00e1 viu o feitio desta manga?<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 \u00c9 verdade, como \u00e9 bonita! Olhe, minha m\u00e3e.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 S\u00e3o de pregas enviesadas. (Para o menino:) Menino, fique quieto.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Este cabe\u00e7\u00e3o fica muito bem.<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 Tenho um assim.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 Que roda!<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Assim \u00e9 que eu gosto.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 E n\u00e3o levou muito caro.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 Quanto? (Para o menino:) Juca, desce da\u00ed.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 A tr\u00eas mil-r\u00e9is.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 N\u00e3o \u00e9 caro.<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 Parece seda esta chita. (Para o menino:) Juquinha, mam\u00e3 j\u00e1 disse<br \/>\nque fique quieto.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 A Merenciana est\u00e1 cortando muito bem.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 \u00c9 assim.<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 J\u00e1 n\u00e3o mandam fazer mais na casa das francesas?<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Mandamos s\u00f3 os de seda.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 N\u00e3o vale a pena mandar fazer vestidos de chita pelas francesas;<br \/>\npedem sempre tanto dinheiro! (Esta cena deve ser toda muito viva. Ouve-se dentro<br \/>\nbulha como de lou\u00e7a que se quebra:) O que \u00e9 isto l\u00e1 dentro? (Voz, dentro: N\u00e3o \u00e9 nada,<br \/>\nn\u00e3o senhora.) Nada? O que \u00e9 que se quebrou l\u00e1 dentro? Negras! (A voz, dentro: Foi o<br \/>\ncachorro.) Estas minhas negras!&#8230; Com licen\u00e7a. (Clem\u00eancia sai.)<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 \u00c9 t\u00e3o descuidada esta nossa gente!<br \/>\nJO\u00c3O DO AMARAL \u2013 \u00c9 preciso ter paci\u00eancia. (Ouve-se dentro bulha como de<br \/>\nbofetadas e chicotadas.) Aquela pagou caro&#8230;<br \/>\nEUFR\u00c1SIA, gritando \u2013 Comadre, n\u00e3o se aflija.<br \/>\nJO\u00c3O \u2013 Se assim n\u00e3o fizer, nada tem.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 Basta, comadre, perdoe por esta. (Cessam as chicotadas.) Estes<br \/>\nnossos escravos fazem-nos criar cabelos brancos. (Entra Clem\u00eancia arranjando o len\u00e7o<br \/>\ndo pesco\u00e7o e muito esfogueada.)<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Os senhores desculpem, mas n\u00e3o se pode&#8230; (Assenta-se e toma<br \/>\nrespira\u00e7\u00e3o.) Ora veja s\u00f3! Foram aquelas desavergonhadas deixar mesmo na beira da<br \/>\nmesa a salva com os copos pra o cachorro dar com tudo no ch\u00e3o! Mas pagou-me!<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 L\u00e1 por casa \u00e9 a mesma coisa. Ainda ontem a pamonha da minha<br \/>\nJoana quebrou duas x\u00edcaras.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Fazem-me perder a paci\u00eancia. Ao menos as suas n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o<br \/>\nmandrionas.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 N\u00e3o s\u00e3o? Xi! Se eu lhe contar n\u00e3o h\u00e1 de crer. Ontem, todo o santo<br \/>\ndia a M\u00f4nica levou a ensaboar quatro camisas do Jo\u00e3o.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 \u00c9 porque n\u00e3o as esfrega.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 \u00c9 o que a comadre pensa.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Eu n\u00e3o gosto de dar pancadas. Por\u00e9m, deixemo-nos disso<br \/>\nagora. A comadre ainda n\u00e3o viu o meu africano?<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 N\u00e3o. Pois teve um?<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Tive; venham ver. (Levantam-se.) Deixe os vestidos a\u00ed que a<br \/>\nrapariga vem buscar. Fel\u00edcio, dize ao senhor mister que se quiser entrar n\u00e3o fa\u00e7a<br \/>\ncerim\u00f4nia.<br \/>\nGAINER \u2014Muito obrigada.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Ent\u00e3o, com sua licen\u00e7a.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA, para a preta \u2013 Traz o menino. (Saem Clem\u00eancia, Eufr\u00e1sia,<br \/>\nMariquinha, Cec\u00edlia, Jo\u00e3o do Amaral, J\u00falia, o menino, a preta e o moleque.)<br \/>\nCENA VII<br \/>\nFEL\u00cdCIO E GAINER<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Estou admirado! Excelente id\u00e9ia! Bela e admir\u00e1vel m\u00e1quina!<br \/>\nGAINER, contente \u2013 Admir\u00e1vel, sim.<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Deve dar muito interesse.<br \/>\nGAINER \u2013 Muita interesse o fabricante. Quando este m\u00e1quina tiver acabada,<br \/>\nn\u00e3o precisa mais de cozinheiro, de sapateira e de outras muitas of\u00edcias.<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Ent\u00e3o a m\u00e1quina supre todos estes of\u00edcios?<br \/>\nGAINER \u2013 Oh, sim! Eu bota a m\u00e1quina aqui no meio da sala, manda vir um boi,<br \/>\nbota a boi na buraco da maquine e depois de meia hora sai por outra banda da maquine<br \/>\ntudo j\u00e1 feita.<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Mas explique-me bem isto.<br \/>\nGAINER \u2013 Olha. A carne do boi sai feita em beef, em roast-beef, em fricand\u00f3 e<br \/>\noutras muitas; do couro sai sapatas, botas&#8230;<br \/>\nFEL\u00cdCIO, com muita seriedade \u2013 Envernizadas?<br \/>\nGAINER \u2013 Sim, tamb\u00e9m pode ser. Das chifres sai bocetas, pentes e cabo de<br \/>\nfaca; das ossas sai marcas&#8230;<br \/>\nFEL\u00cdCIO, no mesmo \u2013 Boa ocasi\u00e3o para aproveitar os ossos para o seu a\u00e7\u00facar.<br \/>\nGAINER \u2013 Sim, sim, tamb\u00e9m sai a\u00e7\u00facar, balas da Porto e am\u00eandoas.<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Que prod\u00edgio! Estou maravilhado! Quando pretende fazer trabalhar a<br \/>\nm\u00e1quina?<br \/>\nGAINER \u2013 Conforme; falta ainda alguma dinheira. Eu queria fazer uma<br \/>\nempr\u00e9stima. Se o senhor quer fazer seu capital render cinq\u00fcenta por cento d\u00e1 a mim<br \/>\npara acabar a maquina, que trabalha depois por nossa conta.<br \/>\nFEL\u00cdCIO, \u00e0 parte \u2013 Assim era eu tolo&#8230; (Para [Gainer:]) N\u00e3o sabe quanto sinto<br \/>\nn\u00e3o ter dinheiro dispon\u00edvel. Que bela ocasi\u00e3o de triplicar, quadruplicar, quintuplicar,<br \/>\nque digo, centuplicar o meu capital em pouco! Ah!<br \/>\nGAINER, \u00e0 parte \u2013 Destes tolas eu quero muito.<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Mas veja como os homens s\u00e3o maus. Chamarem ao senhor, que \u00e9 o<br \/>\nhomem o mais filantr\u00f3pico e desinteressado e amic\u00edssimo do Brasil, especulador de<br \/>\ndinheiros alheios e outros nomes mais.<br \/>\nGAINER \u2014A mim chama especuladora? A mim? By God! Quem \u00e9 a atrevido<br \/>\nque me d\u00e1 esta nome?<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 \u00c9 preciso, na verdade, muita paci\u00eancia. Dizerem que o senhor est\u00e1<br \/>\nrico com espertezas!<br \/>\nGAINER \u2013 Eu rica! Que cal\u00fania! Eu rica? Eu est\u00e1 pobre com minhas projetos<br \/>\npra bem do Brasil.<br \/>\nFEL\u00cdCIO, \u00e0 parte \u2013 O bem do brasileiro \u00e9 o estribilho destes malandros&#8230; (Para<br \/>\nGainer:) Pois n\u00e3o \u00e9 isto que dizem. Muitos cr\u00eaem que o senhor tem um grosso capital<br \/>\nno Banco de Londres; e al\u00e9m disto, chamam-lhe de velhaco.<br \/>\nGAINER, desesperado \u2013 Velhaca, velhaca! Eu quero mete uma bala nos miolos<br \/>\ndeste patifa. Quem \u00e9 estes que me chama velhaca?<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Quem? Eu lho digo: ainda n\u00e3o h\u00e1 muito que o Negreiro assim disse.<br \/>\nGAINER \u2013 Negreira disse? Oh, que patifa de meia-cara&#8230; Vai ensina ele&#8230; Ele<br \/>\nme paga. Goddam!<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Se lhe dissesse tudo quanto ele tem dito&#8230;<br \/>\nGAINER \u2013 N\u00e3o precisa dize; basta chama velhaca a mim pra eu mata ele. Oh,<br \/>\nque patifa de meia-cara! Eu vai dize a commander do brigue Wizart que este patifa \u00e9<br \/>\nmeia-cara; pra segura nos navios dele. Velhaca! Velhaca! Goddam! Eu vai mata ele!<br \/>\nOh! (Sai desesperado.)<br \/>\nCENA VIII<br \/>\nFEL\u00cdCIO, s\u00f3 \u2013 L\u00e1 vai ele como um raio! Se encontra o Negreiro, temos salsada.<br \/>\nQue furor mostrou por lhe dizer eu que o chamavam velhaco! Dei-lhe na balda!<br \/>\nVejamos no que d\u00e1 tudo isto. Segui-lo-ei de longe at\u00e9 que se encontre com Negreiro;<br \/>\ndeve ser famoso o encontro. Ah, ah, ah! (Toma o chap\u00e9u e sai.)<br \/>\nCENA IX6<br \/>\nEntra CEC\u00cdLIA e MARIQUINHA.<br \/>\nMARIQUINHA, entrando \u2013 \u00c9 como eu te digo.<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 Tu n\u00e3o gostas nada dele?<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Aborre\u00e7o-o.<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 Ora, deixa-te disso. Ele n\u00e3o \u00e9 rico?<br \/>\n6 Esta cena e as tr\u00eas seguintes inexistem na Ed. Garnier. Relacionam-se com a cena VI e devem ter sofrido<br \/>\no mesmo tratamento que essa.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Dizem que muito.<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 Pois ent\u00e3o? Casa-te com ele, tola.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Mas, Cec\u00edlia, tu sabes que eu amo o meu primo.<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 E o que tem isso? Estou eu que amo a mais de um, e n\u00e3o perderia<br \/>\num t\u00e3o bom casamento como o que agora tens. \u00c9 t\u00e3o belo ter um marido que nos d\u00ea<br \/>\ncarruagens, ch\u00e1cara, vestidos novos pra todos os bailes&#8230; Oh, que fortuna! J\u00e1 ia sendo<br \/>\nfeliz uma ocasi\u00e3o. Um negociante, destes p\u00e9-de-boi, quis casar comigo, a ponto de<br \/>\nescrever-me uma carta, fazendo a promessa; por\u00e9m logo que soube que eu n\u00e3o tinha<br \/>\ndote como ele pensava, sumiu-se e nunca mais o vi.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 E nesse tempo amavas a algu\u00e9m?<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 Oh, se amava! N\u00e3o fa\u00e7o outra coisa todos os dias. Olha, amava ao<br \/>\nfilho de d\u00aa. Joana, aquele tenente, amava aquele que passava sempre por l\u00e1, de casaca<br \/>\nverde; amava&#8230;<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Com efeito! E amavas a todos?<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 Pois ent\u00e3o?<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Tens belo cora\u00e7\u00e3o de estalagem!<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 Ora, isto n\u00e3o \u00e9 nada!<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 N\u00e3o \u00e9 nada?<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 N\u00e3o. Agora tenho mais namorados que nunca; tenho dois militares,<br \/>\num empregado do Tesouro, o cavalo rab\u00e3o&#8230;<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Cavalo rab\u00e3o?<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 Sim, um que anda num cavalo rab\u00e3o.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Ah!<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 Tenho mais outros dois que eu n\u00e3o conhe\u00e7o.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Pois tamb\u00e9m namoras a quem n\u00e3o conheces?<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 Pra namorar n\u00e3o \u00e9 preciso conhecer. Voc\u00ea quer ver a carta que um<br \/>\ndestes dois mandou-me mesmo quando estava me vestindo para sair?<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Sim, quero.<br \/>\nCEC\u00cdLIA, procurando no seio a carta \u2013 N\u00e3o tive tempo de deix\u00e1-la na gaveta;<br \/>\nminha m\u00e3e estava no meu quarto. (Abrindo a carta, que estava muito dobrada:) Foi o<br \/>\nmoleque que me entregou. Escute. (Lendo:) \u201cMinha adorada e crepitante estrela. . .\u201c<br \/>\n(Deixando de ler:) Hem?<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Continua.<br \/>\nCEC\u00cdLIA, lendo \u2013 \u201cOs astros, que brilham nas chamejantes esferas de teus<br \/>\nsedutores e atrativos olhos, ofuscaram em t\u00e3o subido e sublimado ponto o meu amat\u00f3rio<br \/>\ndiscernimento, que por ti me enlouqueceu. Sim, meu bem, um general quando vence<br \/>\numa batalha n\u00e3o \u00e9 mais feliz do que eu! Se receberes os meus sinceros sofrimentos,<br \/>\nserei ditoso; se n\u00e3o, ficarei louco e irei viver na Hirc\u00e2nia, no Jap\u00e3o, nos sert\u00f5es de<br \/>\nMinas, enfim, em toda parte aonde possa encontrar desuma[na]s feras, e l\u00e1 morrerei.<br \/>\nAdeu[s] deste que jura ser teu, apesar da negra e fria morte. O mesmo\u201d. (Deixando de<br \/>\nler:) N\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o bem escrita? Que estilo! Que paix\u00e3o, bem? Como estas, ou melhores<br \/>\nainda, tenho l\u00e1 em casa muitas!<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Que te fa\u00e7a muito bom proveito, pois eu n\u00e3o tenho nem uma.<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 Ora veja s\u00f3! Qual \u00e9 a mo\u00e7a que n\u00e3o recebe sua cartinha? Sim,<br \/>\ntamb\u00e9m n\u00e3o admira; voc\u00eas dois moram em casa.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Mas dize-me, Cec\u00edlia, para que tem voc\u00ea tantos namorados?<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 Para qu\u00ea? Eu te digo; para duas coisas: primeira, para divertir-me;<br \/>\nsegunda, para ver se de tantos, algum cai.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Mau c\u00e1lculo. Quando se sabe que uma mo\u00e7a d\u00e1 corda a todos,<br \/>\ntodos brincam, e todos&#8230;<\/p>\n<p>CEC\u00cdLIA \u2013 Acaba.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 E todos a desprezam.<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 Desprezam! Pois n\u00e3o. S\u00f3 se se \u00e9 alguma tola e d\u00e1 logo a perceber<br \/>\nque tem muitos namorados. Cada um dos meus sup\u00f5e-se \u00fanico na minha afei\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Tens habilidade.<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 \u00c9 t\u00e3o bom estar-se \u00e0 janela, vendo-os passar um atr\u00e1s do outro como<br \/>\nos soldados que passam em contin\u00eancia. Um aceno para um, uma t[os]sezinha para<br \/>\noutro, um sorriso, um esc\u00e1rnio, e v\u00e3o eles t\u00e3o contentezinhos&#8230;<\/p>\n<h2>CENA X<\/h2>\n<p>Entra FEL\u00cdCIO.<br \/>\nFEL\u00cdCIO, entrando \u2013 Perdi-o de vista.<br \/>\nCEC\u00cdLIA, assustando-se \u2013 Ai, que susto me meteu o sr. Fel\u00edcio!<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Muito sinto que&#8230;<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 N\u00e3o faz mal. (Com ternura:) Se todos os meus sustos fossem como<br \/>\neste, n\u00e3o se me dava de estar sempre assustada.<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 E eu n\u00e3o me daria de causar, n\u00e3o digo susto, mas surpresa a pessoas<br \/>\nt\u00e3o am\u00e1veis e bela[s] como a senhora d\u00aaona Cec\u00edlia.<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 N\u00e3o mangue comigo; ora veja!<br \/>\nMARIQUINHA., \u00e0 parte \u2013 J\u00e1 ela est\u00e1 a namorar o primo. \u00c9 insuport\u00e1vel.<br \/>\nPrimo?<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Priminha?<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Aquilo?<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Vai bem.<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 O que \u00e9?<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Uma coisa.<\/p>\n<h2>CENA XI<\/h2>\n<p>Entram CLEM\u00caNCIA, EUFR\u00c1SIA, JO\u00c3O, J\u00daLIA, o menino, a preta com a crian\u00e7a e o<br \/>\nmoleque.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Mostra que tem habilidade.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 Assim \u00e9 bom, pois o meu nem por isso. Quem tamb\u00e9m j\u00e1 vai<br \/>\nadiantado \u00e9 o Juca; ainda [ontem (?)] o Jo\u00e3o comprou-lhe um livro de f\u00e1bula.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 As mestras da J\u00falia est\u00e3o muito contentes com ela. Est\u00e1 muito<br \/>\nadiantada. Fala franc\u00eas e daqui a dois dias n\u00e3o sabe mais falar portugu\u00eas.<br \/>\nFEL\u00cdCIO, \u00e0 parte \u2013 Belo adiantamento!<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 \u00c9 muito bom col\u00e9gio. J\u00falia, cumprimenta aqui o senhor em<br \/>\nfranc\u00eas.<br \/>\nJ\u00daLIA \u2013 Ora, mam\u00e3.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Fa\u00e7a-se de tola!<br \/>\nJ\u00daLIA \u2013 Bon jour, Monsieur, comment vous portez-vous? Je suis votre<br \/>\nserviteur.<br \/>\nJO\u00c3O \u2013 Oui. Est\u00e1 muito adiantada.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 \u00c9 verdade.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA, para J\u00falia \u2013 Como \u00e9 mesa em franc\u00eas?<br \/>\nJ\u00daLIA \u2013 Table.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Bra\u00e7o?<br \/>\nJ\u00daLIA \u2013 Bras.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Pesco\u00e7o?<br \/>\nJ\u00daLIA \u2013 Cou.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Menina!<br \/>\nJ\u00daLIA \u2013 \u00c9 cou mesmo, mam\u00e3; n\u00e3o \u00e9 primo? N\u00e3o \u00e9 cou que significa?<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Est\u00e1 bom, basta.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 Estes franceses s\u00e3o muito porcos. Ora veja, chamar o pesco\u00e7o,<br \/>\nque est\u00e1 ao p\u00e9 da cara, com este nome t\u00e3o feio.<br \/>\nJO\u00c3O, para Eufr\u00e1sia \u2013 Senhora, s\u00e3o horas de nos irmos.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 J\u00e1?<br \/>\nJO\u00c3O \u2013 \u00c9 tarde.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 Adeus, comadre, qualquer destes dias c\u00e1 virei. d\u00aa. Mariquinha,<br \/>\nadeus. (D\u00e1 um abra\u00e7o e um beijo.)<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Passe bem. Cec\u00edlia, at\u00e9 quando?<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 At\u00e9 nos encontrarmos. Adeus. (D\u00e1 abra\u00e7o e muitos beijos.)<br \/>\nEUFR\u00c1SIA, para Clem\u00eancia \u2013 N\u00e3o se esque\u00e7a daquilo.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 N\u00e3o.<br \/>\nJO\u00c3O, para Clem\u00eancia \u2013 Comadre, boas noites.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Boas noites, compadre.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA e CEC\u00cdLIA \u2013 Adeus, adeus! At\u00e9 sempre. (Os de casa acompanhamnos.)<br \/>\nEUFR\u00c1SIA, parando no meio da casa \u2013 Mande o vestido pela Joana.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Sim. Mas quer um s\u00f3, ou todos os dois?<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 Basta um.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Pois sim.<br \/>\nCEC\u00cdLIA, para Mariquinha \u2013 Voc\u00ea tamb\u00e9m mande-me o molde das mangas.<br \/>\nMam\u00e3, n\u00e3o era melhor fazer o vestido de mangas justas?<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 Faze como quiseres.<br \/>\nJO\u00c3O \u2013 Deixem isto para outra ocasi\u00e3o e vamos, que \u00e9 tarde.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 J\u00e1 vamos, j\u00e1 vamos. Adeus, minha gente, adeus. (Beijos e<br \/>\nabra\u00e7os.)<br \/>\nCEC\u00cdLIA, para Mariquinha \u2013 O livro que te prometi mando amanh\u00e3.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Sim.<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 Adeus. Boas noites, senhor Fel\u00edcio.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA., parando quase junto da porta \u2013 Voc\u00ea sabe? Nenhuma das<br \/>\nsementes pegou.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 \u00c9 que n\u00e3o soube plantar.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2014. Qual!<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Adeus, Lulu.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 N\u00e3o eram boas.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Eu mesmo as colhi.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Marotinho!<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 Se voc\u00ea ver7 d\u00aa. Lu\u00edsa, d\u00ea lembran\u00e7as.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 Mande outras.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Mam\u00e3, olhe Lulu que est\u00e1 lhe estendendo os bra\u00e7os.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Um beijinho.<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 Talvez possa vir amanh\u00e3.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Eu mando outras, comadre.<br \/>\nAssim no manuscrito, por vir.<br \/>\nJO\u00c3O \u2013 Ent\u00e3o, vamos ou n\u00e3o vamos? (Desde que Eufr\u00e1sia diz \u2014Voc\u00ea sabe?<br \/>\nNenhuma das sementes pegou \u2013 falam todos ao mesmo tempo, com algazarra.)<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 J\u00e1 v\u00e3o, j\u00e1 v\u00e3o.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 Espere um bocadinho.<br \/>\nJO\u00c3O, para Fel\u00edcio \u2013 N\u00e3o se pode aturar senhoras.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 Adeus, comadre, o Jo\u00e3o quer-se ir embora. Talvez venham c\u00e1 os<br \/>\nReis.<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 \u00c9 verdade, e&#8230;<br \/>\nJO\u00c3O \u2013 Ainda n\u00e3o basta?<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2014. Que impertin\u00eancia! Adeus, adeus!<br \/>\nCLEM\u00caNCIA [e] MARIQUINHA \u2013 Adeus, adeus!<br \/>\nEUFR\u00c1SIA. chega \u00e0 porta e p\u00e1ra \u2013 Quando quiser, mande a ab\u00f3bora para fazer<br \/>\no doce.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Pois sim, quando estiver madura l\u00e1 mando, e &#8230;<br \/>\nJO\u00c3O, \u00e0 parte \u2013 Ainda n\u00e3o vai desta, irra!<br \/>\nCEC\u00cdLIA, para Mariquinha \u2013 Esqueci-me de te mostrar o meu chap\u00e9u.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 N\u00e3o bota cravo.<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 Manda buscar?<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 Pois sim, tenho um receita.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 N\u00e3o, teu pai est\u00e1 zangado.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Com flor de laranja.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 Sim.<br \/>\nJO\u00c3O, \u00e0 parte, batendo com o p\u00e9 \u2013 \u00c9 de mais!<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 Mande para eu ver.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Sim.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 Que o a\u00e7\u00facar seja bom.<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 E outras coisas novas.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 \u00c9 muito bom.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 Est\u00e1 bem, adeus. N\u00e3o se esque\u00e7a.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 N\u00e3o.<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 Enquanto a Vitorina est\u00e1 l\u00e1 em casa.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Conta bem.<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 Adeus, J\u00falia.<br \/>\nJ\u00daLIA \u2013 Mande a boneca.<br \/>\nCEC\u00cdLIA \u2013 Sim.<br \/>\nJ\u00daLIA \u2013 Lulu, adeus, bem, adeus!<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 N\u00e3o fa\u00e7a ele cair!<br \/>\nJ\u00daLIA \u2013 N\u00e3o.<br \/>\nJO\u00c3O \u2013 Eu vou saindo. Boas noites. (\u00c0 parte:) Irra, irra!<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Boas noites, s\u00f4 Jo\u00e3o.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA \u2013 Anda, menina. Juca, vem.<br \/>\nTODOS \u2013 Adeus, adeus, adeus! (Toda esta cena deve ser como a outra, falada<br \/>\nao mesmo tempo.)<br \/>\nJO\u00c3O \u2013 Enfim! (Saem Eufr\u00e1sia, Cec\u00edlia, Jo\u00e3o, o menino e a preta;<br \/>\nClem\u00eancia, Mariquinha ficam \u00e0 porta; Fel\u00edcio acompanha as visitas.)<br \/>\nCLEM\u00caNCIA, da porta \u2013 Adeus!<br \/>\nEUFR\u00c1SIA, dentro \u2013 Toma sentido nos Reis pra me contar.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA, da porta \u2013 Hei de tomar bem sentido.<br \/>\nCEC\u00cdLIA, de dentro \u2013 Adeus, bem! Mariquinha?<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Adeus!<br \/>\nCLEM\u00caNCIA, da porta \u2013 \u00d3 comadre, manda o Juca amanh\u00e3, que \u00e9 domingo.<br \/>\nEUFR\u00c1SIA, dentro \u2013 Pode ser. Adeus.<\/p>\n<h2>CENA XII<\/h2>\n<p>CLEM\u00caNCIA, MARIQUINHA e FEL\u00cdCIO.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Menina, s\u00e3o horas de mandar arranjar a mesa pra ceia dos Reis.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Sim, mam\u00e3.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Viste a Cec\u00edlia como vinha? N\u00e3o sei aquela comadre aonde<br \/>\nquer ir parar. Tanto luxo e o marido ganha t\u00e3o pouco! S\u00e3o milagres que estas gentes<br \/>\nsabem fazer.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Mas elas cosem pra fora.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Ora, o que d\u00e1 a costura? N\u00e3o sei, n\u00e3o sei! H\u00e1 coisas que se n\u00e3o<br \/>\npodem explicar&#8230; Donde lhes vem o dinheiro n\u00e3o posso dizer. Elas que o digam. (Entra<br \/>\nFel\u00edcio.) Fel\u00edcio, voc\u00ea tamb\u00e9m n\u00e3o acompanha os Reis?<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Hei de acompanhar, minha tia.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 E ainda \u00e9 cedo?<br \/>\nFEL\u00cdCIO, tirando o rel\u00f3gio \u2013 Ainda; apenas s\u00e3o nove horas.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Ah, meu tempo!<\/p>\n<h2>CENA XIII<\/h2>\n<p>Entra NEGREIRO acompanhado de um preto de ganho com um cesto \u00e0 cabe\u00e7a coberto<br \/>\ncom um cobertor de baeta encarnada.<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Boas noites.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2014Oh, pois voltou? O que traz com este preto?<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Um presente que lhe ofere\u00e7o.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Vejamos o que \u00e9.<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Uma insignific\u00e2ncia&#8230; Arreia, pai! (Negreiro ajuda ao preto a<br \/>\nbotar o cesto no ch\u00e3o. Clem\u00eancia, Mariquinha chegam-se para junto do cesto, de modo<br \/>\npor\u00e9m que este fica \u00e0 vista dos espectadores. )<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Descubra. ( Negreiro descobre o cesto e dele levanta-se um<br \/>\nmoleque de tanga e carapu\u00e7a encarnada, o qual fica em p\u00e9 dentro do cesto.) \u00d3 gentes!<br \/>\nMARIQUINHA, ao mesmo tempo \u2013 Oh!<br \/>\nFEL\u00cdCIO, ao mesmo tempo \u2013 Um meia-cara!<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Ent\u00e3o, hem? (Para o moleque:) Quenda, quenda! (Puxa o<br \/>\nmoleque para fora.)<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Como \u00e9 bonitinho!<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Ah, ah!<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Pra que o trouxe no cesto?<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Por causa dos malsins&#8230;<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Boa lembran\u00e7a. (Examinando o moleque:) Est\u00e1 gordinho&#8230;<br \/>\nbons dentes&#8230;<br \/>\nNEGREIRO, \u00e0 parte, para Clem\u00eancia \u2013 \u00c9 dos desembarcados ontem no<br \/>\nBotafogo&#8230;<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Ah! Fico-lhe muito obrigada.<br \/>\nNEGREIRO, para Mariquinha \u2013 H\u00e1 de ser seu pajem.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 N\u00e3o preciso de pajem.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Ent\u00e3o, Mariquinha?<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Est\u00e1 bom, trar-lhe-ei uma mucamba.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Tantos obs\u00e9quios&#8230; D\u00e1 licen\u00e7a que o leve para dentro?<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Pois n\u00e3o, \u00e9 seu.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Mariquinha, vem c\u00e1. J\u00e1 volto. (Sa\u00ed Clem\u00eancia, levando pela<br \/>\nm\u00e3o o moleque, e Mariquinha.)<\/p>\n<h2>CENA XIV<\/h2>\n<p>NEGREIRO, para o preto de ganho \u2013 Toma l\u00e1. (D\u00e1-lhe dinheiro; o preto toma o<br \/>\ndinheiro e fica algum tempo olhando para ele.) Ent\u00e3o, acha pouco?<br \/>\nO NEGRO \u2013 Eh, eh, pouco&#8230; carga pesado&#8230;<br \/>\nNEGREIRO, amea\u00e7ando \u2013 Salta j\u00e1 daqui, tratante! (Empurra-o.) Pouco, pouco!<br \/>\nSalta! (Empurra-o pela porta afora.)<br \/>\nFEL\u00cdCIO, \u00e0 parte \u2013 Sim, empurra o pobre preto, que eu tamb\u00e9m te<br \/>\nempurrarei sobre algu\u00e9m&#8230;<br \/>\nNEGREIRO, voltando \u2013 Acha um vint\u00e9m pouco!<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Sr. Negreiro&#8230;<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Meu caro senhor?<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Tenho uma coisa que lhe comunicar, com a condi\u00e7\u00e3o por\u00e9m que o<br \/>\nsenhor se n\u00e3o h\u00e1 de alterar.<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Vejamos.<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 A simpatia que pelo senhor sinto \u00e9 que me faz falar&#8230;<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Adiante, adiante&#8230;<br \/>\nFEL\u00cdCIO, \u00e0 parte \u2013 Espera, que eu te ensino, grosseir\u00e3o. (Para Negreiro:) O sr.<br \/>\nGainer, que h\u00e1 pouco saiu, disse-me que ia ao juiz de paz denunciar os meias-caras que<br \/>\no senhor tem em casa e ao comandante do brigue ingl\u00eas Wizart os seus navios que<br \/>\nespera todos os dias.<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Qu\u00ea? Denunciar-me, aquele patife? Velhaco-mor! Denunciar-me?<br \/>\nOh, n\u00e3o que eu me importe com a den\u00fancia ao juiz de paz; com este eu c\u00e1 me entendo;<br \/>\nmas \u00e9 patifaria, desaforo!<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 N\u00e3o sei por que tem ele tanta raiva do senhor.<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Por qu\u00ea? Porque eu digo em toda a parte que ele \u00e9 um<br \/>\nespeculador velhaco e velhac\u00e3o! Oh, ingl\u00eas do diabo, se eu te pilho! Ingl\u00eas de um dardo!<\/p>\n<h2>CENA XV<\/h2>\n<p>Entra GAINER apressado.<br \/>\nGAINER, entrando \u2013 Darda tu, patifa!<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Oh!<br \/>\nGAINER, tirando apressado a casaca \u2013 Agora me paga!<br \/>\nFEL\u00cdCIO, \u00e0 parte, rindo-se \u2013 Temos touros!<br \/>\nNEGREIRO, indo sobre Gainer \u2013 Espera, goddam dos quinhentos!<br \/>\nGAINER, indo sobre Negreiro \u2013 Meia-cara! (Gainer e Negreiro brigam aos<br \/>\nsocos. Gainer gritando continuadamente: Meia-cara! Patifa! Goddam! \u2013 e Negreiro:<br \/>\nVelhaco! Tratante! Fel\u00edcio ri-se, de modo por\u00e9m que os dois n\u00e3o pressintam. Os dois<br \/>\ncaem no ch\u00e3o e rolam brigando sempre.)<br \/>\nFEL\u00cdCIO, \u00e0 parte, vendo a briga \u2013 Bravo os campe\u00f5es! Belo soco! Assim,<br \/>\ninglesinho! Bravo o Negreiro! L\u00e1 caem&#8230; Como est\u00e3o zangados!<br \/>\nCENA XVI<br \/>\nEntra CLEM\u00caNCIA e MARIQUINHA.<br \/>\n16<br \/>\nFEL\u00cdCIO, vendo-as entrar \u2013 Senhores, acomodem-se! (Procura apart\u00e1-los.)<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Ent\u00e3o, o que \u00e9 isto, senhores? Contendas em minha casa?<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Sr. Negreiro, acomode-se! (Os dois levantam-se e falam ao mesmo<br \/>\ntempo.)<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Este yes do diabo&#8230;<br \/>\nGAINER \u2013 Negreira atrevida&#8230;<br \/>\nNEGREIRO \u2013 &#8230; teve a pouca-vergonha&#8230;<br \/>\nGAINER \u2013 &#8230; chama a mim&#8230;<br \/>\nNEGREIRO \u2013 &#8230; de denunciar-me&#8230;<br \/>\nGAINER \u2013 &#8230; velhaca&#8230;<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Senhores!<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Pelo amor de Deus, sosseguem!<br \/>\nNEGREIRO, animando-se \u2013 Ainda n\u00e3o estou em mim&#8230;<br \/>\nGAINER, animando-se \u2013 Ingl\u00eas n\u00e3o sofre&#8230;<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Quase que o mato!<br \/>\nGAINER \u2013 Goddam! (Quer ir contra Negreiro, Clem\u00eancia e Fel\u00edcio apartam.)<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Sr. mister! Sr. Negreiro!<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Se n\u00e3o fosse a senhora, havia de ensinar-te, yes do diabo!<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Basta, basta!<br \/>\nGAINER \u2013 Eu vai-se embora, n\u00e3o quer ver mais nas minhas olhos este homem.<br \/>\n(Sai arrebatadamente vestindo a casaca.)<br \/>\nNEGREIRO, para Clem\u00eancia \u2013 Faz-me o favor. (Leva-a para um lado.) A<br \/>\nsenhora sabe quais s\u00e3o minhas inten\u00e7\u00f5es nesta casa a respeito de sua filha, mas como<br \/>\ncreio que este maldito ingl\u00eas tem as mesmas inten\u00e7\u00f5es&#8230;<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 As mesmas inten\u00e7\u00f5es?<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Sim senhora, pois julgo que pretende tamb\u00e9m casar com sua<br \/>\nfilha.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Pois \u00e9 da Mariquinha que ele gosta?<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Pois n\u00e3o nota a sua assiduidade?<br \/>\nCLEM\u00caNCIA, \u00e0 parte \u2013 E eu que pensava que era por mim!<br \/>\nNEGREIRO \u2013 \u00c9 tempo de decidir: ou eu ou ele.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Ele casar-se com Mariquinha? \u00c9 o que faltava!<br \/>\nNEGREIRO \u2013 \u00c9 quanto pretendia saber. Conceda que v\u00e1 mudar de roupa, e j\u00e1<br \/>\nvolto para assentarmos o neg\u00f3cio. Eu volto. (Sai.)<br \/>\nCLEM\u00caNCIA, \u00e0 parte \u2013 Era dela que ele gostava! E eu, ent\u00e3o? (Para<br \/>\nMariquinha:) O que est\u00e3o voc\u00eas a\u00ed bisbilhotando? As filhas neste tempo n\u00e3o fazem caso<br \/>\ndas m\u00e3es! Pra dentro, pra dentro!<br \/>\nMARIQUINHA, espantada \u2013 Mas, mam\u00e3&#8230;<br \/>\nCLEM\u00caNCIA mais zangada \u2013 Ainda em cima respondona! Pra dentro!<br \/>\n(Clem\u00eancia empurra Mariquinha pra dentro, que vai chorando.)<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Que diabo quer isto dizer? O que diria ele a minha tia para indisp\u00f4-la<br \/>\ndeste modo contra a prima? O que ser\u00e1? Ela me dir\u00e1. (Sai atr\u00e1s de Clem\u00eancia.)<\/p>\n<h2>CENA XVII<\/h2>\n<p>Entra NEGREIRO na ocasi\u00e3o que FEL\u00cdCIO sai.<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Psiu! N\u00e3o ouviu-me&#8230; Esperarei. Quero que me d\u00ea informa\u00e7\u00f5es<br \/>\nmais mi\u00fadas a respeito da den\u00fancia que o tal patife deu ao cruzeiro ingl\u00eas dos navios<br \/>\nque espero. Isto&#8230; [N\u00e3o, que os tais meninos andam com o olho vivo pelo que bem o sei<br \/>\neu, e todos, em suma. Seria bem bom que eu pudesse arranjar este casamento o mais<br \/>\n17<br \/>\nbreve poss\u00edvel. L\u00e1 com a mo\u00e7a, em suma, n\u00e3o me importa; o que eu quero \u00e9 o dote. Fazme<br \/>\ncerto arranjo&#8230; E o ingl\u00eas tamb\u00e9m queria, como tolo! J\u00e1 ando meio desconfiado&#8230;<br \/>\nAlgu\u00e9m vem! Se eu me escondesse, talvez pudesse ouvir&#8230; Dizem que \u00e9 feio&#8230; Que<br \/>\nimporta? Primeiro o meu dinheiro, em suma. (Esconde-se por tr\u00e1s da cortina da<br \/>\nprimeira janela.)<\/p>\n<h2>CENA XVIII<\/h2>\n<p>Entra CLEM\u00caNCIA.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 \u00c9 preciso que isto se decida. \u00d3 l\u00e1 de dentro! Jos\u00e9?<br \/>\nUMA VOZ, dentro \u2013 Senhora!<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Vem c\u00e1. A quanto est\u00e3o as mulheres sujeitas! (Entra um pajem.<br \/>\nClem\u00eancia, dando-lhe uma carta:) Vai \u00e0 casa do sr. Gainer, aquele ingl\u00eas, e entrega-lhe<br \/>\nesta carta. (Sai o pajem. Negreiro, durante toda esta cena e a seguinte, observa,<br \/>\nespiando.)<br \/>\nNEGREIRO, \u00e0 parte \u2013 Uma carta para o ingl\u00eas!<br \/>\nCLEM\u00caNCIA, passeando \u2013 Ou com ele, ou com nenhum mais.<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Ah, o caso \u00e9 este!<br \/>\nCLEM\u00caNCIA, no mesmo \u2013 Estou bem certa que ele far\u00e1 a felicidade de uma<br \/>\nmulher.<br \/>\nNEGREIRO, \u00e0 parte \u2013 Muito bom, muito bom!<br \/>\nCLEM\u00caNCIA, no mesmo \u2013 O mau foi ele brigar com o Negreiro.<br \/>\nNEGREIRO, \u00e0 parte \u2013 E o pior \u00e9 n\u00e3o lhe quebrar eu a cara&#8230;<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Mas n\u00e3o devo hesitar: se for necess\u00e1rio, fecharei minha porta ao<br \/>\nNegreiro.<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Muito obrigado.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Ele se h\u00e1 de zangar.<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Pudera n\u00e3o! E depois de dar um moleque que podia vender por<br \/>\nduzentos mil-r\u00e9is&#8230;<br \/>\nCLEM\u00caNCIA, no mesmo \u2013 Mas que importa? \u00c9 preciso p\u00f4r meus neg\u00f3cios em<br \/>\nordem, e s\u00f3 ele \u00e9 capaz de os arranjar depois de se casar comigo.<br \/>\nNEGREIRO, \u00e0 parte \u2013 Hem? Como \u00e9 l\u00e1 isso? Ah!<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 H\u00e1 dois anos que meu marido foi morto no Rio Grande pelos<br \/>\nrebeldes, indo l\u00e1 liquidar umas contas. Deus tenha sua alma em gl\u00f3ria; tem-me feito<br \/>\numa falta que s\u00f3 eu sei. \u00c9 preciso casar-me; ainda estou mo\u00e7a. Todas as vezes que me<br \/>\nlembro do defunto v\u00eam-me as l\u00e1grimas aos olhos&#8230; Mas se ele n\u00e3o quiser?<br \/>\nNEGREIRO, \u00e0 parte \u2013 Se o defunto n\u00e3o quiser?<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Mas n\u00e3o, a fortuna que tenho e mesmo alguns atrativos que<br \/>\npossuo, seja dito sem vaidade, podem vencer maiores imposs\u00edveis. Meu pobre defunto<br \/>\nmarido! (Chora.) Vou fazer a minha toilette. (Sai.)<\/p>\n<h2>CENA XIX<\/h2>\n<p>NEGREIRO sai da janela.<br \/>\nNEGREIRO \u2013 E ent\u00e3o? Que tal a vi\u00fava? (Arremedando a voz de Clem\u00eancia:)<br \/>\nMeu pobre defunto marido&#8230; Vou fazer minha toilette. N\u00e3o \u00e9 m\u00e1! Chora por um e<br \/>\nenfeita-se para outro. Estas vi\u00favas! Bem diz o ditado que vi\u00fava rica por um olho chora,<br \/>\ne por outro repica. Vem gente&#8230; Ser\u00e1 o ingl\u00eas? (Esconde-se.)<\/p>\n<h2>CENA XX<\/h2>\n<p>Entra ALBERTO vagaroso e pensativo; olha ao redor de si, examinando tudo com<br \/>\naten\u00e7\u00e3o. Vir\u00e1 vestido pobremente, mas com dec\u00eancia. NEGREIRO, que da janela<br \/>\nespiando o observa, mostra-se aterrado durante toda a seguinte cena.<br \/>\nALBERTO \u2013 Eis-me depois de dois anos de priva\u00e7\u00f5es e mis\u00e9ria restitu\u00eddo ao<br \/>\nseio de minha fam\u00edlia!<br \/>\nNEGREIRO, \u00e0 parte \u2013 O defunto!<br \/>\nALBERTO \u2013 Minha mulher e minha filha ainda se lembrar\u00e3o de mim? Ser\u00e3o<br \/>\nelas felizes, ou como eu experimentar\u00e3o os rigores do infort\u00fanio? H\u00e1 apenas duas horas<br \/>\nque desembarquei, chegando dessa malfadada prov\u00edncia aonde dois anos estive<br \/>\nprisioneiro. L\u00e1 os rebeldes me detiveram, porque julgavam que eu era um espi\u00e3o;<br \/>\nminhas cartas para minha fam\u00edlia foram interceptadas e minha mulher talvez me julgue<br \/>\nmorto&#8230; Dois anos, que mudan\u00e7as ter\u00e3o trazido consigo? Cruel ansiedade! Nada<br \/>\nindaguei, quis tudo ver com meus pr\u00f3prios olhos&#8230; \u00c9 esta a minha casa, mas estes<br \/>\nm\u00f3veis n\u00e3o conhe\u00e7o&#8230; Mais ricos e suntuosos s\u00e3o do que aqueles que deixei. Oh, ter\u00e1<br \/>\ntamb\u00e9m minha mulher mudado? Sinto passos&#8230; Ocultemo-nos&#8230; Sinto-me ansioso de<br \/>\ntemor e alegria&#8230; meu Deus! (Encaminha-se para a janela aonde est\u00e1 escondido<br \/>\nNegreiro.) NEGREIRO, \u00e0 parte \u2013 Oh, diabo! Ei-lo comigo! (Alberto querendo<br \/>\nesconder-sena janela, d\u00e1 com Negreiro e recua espantado.)<br \/>\nALBERTO \u2013 Um homem! Um homem escondido em minha casa!<br \/>\nNEGREIRO, saindo da janela \u2013 Senhor!<br \/>\nALBERTO \u2013 Quem \u00e9s tu? Responde! (Agarra-o.)<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Eu? Pois n\u00e3o me conhece, sr. Alberto? Sou Negreiro, seu amigo&#8230;<br \/>\nN\u00e3o me conhece?<br \/>\nALBERTO \u2013 Negreiro&#8230; sim&#8230; Mas meu amigo, e escondido em casa de minha<br \/>\nmulher!<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Sim senhor, sim senhor, por ser seu amigo \u00e9 que estava escondido<br \/>\nem casa de sua mulher.<br \/>\nALBERTO, agarrando Negreiro pelo pesco\u00e7o \u2013 Infame!<br \/>\nNEGREIRO \u2013 N\u00e3o me afogue! Olhe que eu grito!<br \/>\nALBERTO \u2013 Dize, por que te escondias?<br \/>\nNEGREIRO \u2013 J\u00e1 lhe disse que por ser seu verdadeiro amigo&#8230; N\u00e3o aperte que<br \/>\nn\u00e3o posso, e ent\u00e3o tamb\u00e9m dou como um cego, em suma.<br \/>\nALBERTO, deixando-o \u2013 Desculpa-te se podes, ou treme&#8230;<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Agora sim&#8230; V\u00e1 ouvindo. (\u00c0 parte:) Assim safo-me da arriosca e<br \/>\nvingo-me, em suma, do inglesinho. (Para Alberto:) Sua mulher \u00e9 uma traidora!<br \/>\nALBERTO \u2013 Traidora?<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Traidora, sim, pois n\u00e3o tendo certeza de sua morte, tratava j\u00e1 de<br \/>\ncasar-se.<br \/>\nALBERTO \u2013 Ela casar-se? Tu mentes! (Agarra-o com for\u00e7a.)<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Olhe que perco a paci\u00eancia&#8230; Que diabo! Por ser seu amigo e<br \/>\nvigiar sua mulher agarra-me deste modo? Tenha prop\u00f3sito, ou eu&#8230; Cuida que \u00e9<br \/>\nmentira? Pois esconda-se um instante comigo e ver\u00e1. (Alberto esconde o rosto nas m\u00e3os<br \/>\ne fica pensativo. Negreiro, \u00e0 parte:) N\u00e3o est\u00e1 m\u00e1 a ressurrei\u00e7\u00e3o! Que surpresa para a<br \/>\nmulher! Ah, inglesinho, agora me pagar\u00e1s!<br \/>\nALBERTO, tomando-o pelo bra\u00e7o \u2013 Vinde&#8230; Tremei por\u00e9m, se sois um<br \/>\ncaluniador. Vinde! (Escondem-se ambos na janela e observam durante toda a seguinte<br \/>\ncena.)<br \/>\nNEGREIRO, da janela \u2013 A tempo nos escondemos, que algu\u00e9m se aproxima!<\/p>\n<h2>CENA XXI<\/h2>\n<p>Entra FEL\u00cdCIO e MARIQUINHA.<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 \u00c9 preciso que te resolvas o quanto antes.<br \/>\nALBERTO, da janela \u2013 Minha filha!<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Mas&#8230;<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Que irresolu\u00e7\u00e3o \u00e9 a tua? A desaven\u00e7a entre os dois far\u00e1 que a tia<br \/>\napresse o teu casamento \u2013 com qual deles n\u00e3o sei. O certo \u00e9 que de um estamos livres;<br \/>\nresta-nos outro. S\u00f3 com coragem e resolu\u00e7\u00e3o nos podemos tirar deste passo. O que disse<br \/>\no Negreiro \u00e0 tua m\u00e3e n\u00e3o sei, por\u00e9m, o que quer que seja, a tem perturbado muito, e<br \/>\nmeu plano vai-se desarranjando.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Oh, \u00e9 verdade, a mam\u00e3e tem ralhado tanto comigo depois<br \/>\ndesse momento, e me tem dito mil vezes que eu serei a causa da sua morte&#8230;<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Se tivesses coragem de dizer a tua m\u00e3e que nunca te casar\u00e1s com o<br \/>\nGainer ou com o Negreiro&#8230;<br \/>\nNEGREIRO, da janela \u2013 Obrigado!<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Jamais o ousarei!<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Pois bem, se o n\u00e3o ousas dizer, fujamos.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Oh, n\u00e3o, n\u00e3o!<br \/>\nCLEM\u00caNCIA, dentro \u2013 Mariquinha?<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Adeus! Nunca pensei que voc\u00ea me fizesse semelhante<br \/>\nproposi\u00e7\u00e3o!<br \/>\nFEL\u00cdCIO, segurando-a pela m\u00e3o \u2013 Perdoa, perdoa ao meu amor! Est\u00e1s mal<br \/>\ncomigo? Pois bem, j\u00e1 n\u00e3o falarei em fugida, em planos, em entregas; apare\u00e7a s\u00f3 a for\u00e7a<br \/>\ne coragem. Aquele que sobre ti lan\u00e7ar vistas de amor ou de cobi\u00e7a comigo se haver\u00e1.<br \/>\nQue me importa a vida sem ti? E um homem que despreza a vida&#8230;<br \/>\nMARIQUINHA, suplicante \u2013 Fel\u00edcio!<br \/>\nCLEM\u00caNCIA, dentro \u2013 Mariquinha?<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Senhora? Eu te rogo, n\u00e3o me fa\u00e7as mais desgra\u00e7ada!<br \/>\nCLEM\u00caNCIA, dentro \u2013 Mariquinha, n\u00e3o ouves?<br \/>\nMARIQUINHA, \u2013 J\u00e1 vou, minha m\u00e3e. N\u00e3o \u00e9 verdade que estavas brincando?<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Sim, sim, estava; vai descansada.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Eu creio em tua palavra. (Sai apressada.)<br \/>\nCENA XXII<br \/>\nFEL\u00cdCIO, s\u00f3 \u2013 Cr\u00ea na minha palavra, porque eu disse que ser\u00e1s minha. Com<br \/>\naquele dos dois que te ficar pertencendo irei ter, e ser\u00e1 teu esposo aquele que a morte<br \/>\npoupar. S\u00e3o dez horas, os amigos me esperam. Amanh\u00e3 se decidir\u00e1 minha sorte. (Toma<br \/>\no chap\u00e9u que est\u00e1 sobre a mesa e sai.)<br \/>\nCENA XXIII<br \/>\nALBERTO e NEGREIRO, sempre na janela.<br \/>\nALBERTO \u2013 Oh, minha aus\u00eancia, minha aus\u00eancia!<br \/>\nNEGREIRO \u2013 A mim n\u00e3o me matar\u00e1s! Safa, em suma.<br \/>\nALBERTO \u2013 A que cenas vim eu assistir em minha casa!<br \/>\nNEGREIRO \u2013 E que direi eu? Que tal o menino?<br \/>\nALBERTO \u2013 Clem\u00eancia, Clem\u00eancia, assim conservavas tu a honra da nossa<br \/>\nfam\u00edlia? Mas o senhor pretendia casar-se com minha filha?<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Sim senhor, e creio que n\u00e3o sou um mau partido; por\u00e9m j\u00e1<br \/>\ndesisto, em suma, e&#8230; Caluda, caluda!<\/p>\n<h2>CENA XXIV<\/h2>\n<p>Entra CLEM\u00caNCIA muito bem vestida.<br \/>\nALBERTO, na janela \u2013 Minha mulher Clem\u00eancia!<br \/>\nNEGREIRO, na janela \u2013 Fique quieto.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA, assentando-se \u2013 Ai, j\u00e1 tarda&#8230; Este vestido me vai bem&#8230; Estou<br \/>\ncom meus receios&#8230; Tenho a cabe\u00e7a ardendo de alguns cabelos brancos que arranquei&#8230;<br \/>\nN\u00e3o sei o que sinto; tenho assim umas lembran\u00e7as de meu defunto&#8230; \u00c9 verdade que j\u00e1<br \/>\nestava velho.<br \/>\nNEGREIRO, na janela \u2013 Olhe, chama-o de defunto e velho!<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Sobem as escadas! (Levanta-se.)<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Que petisco para o marido! E casai-vos!<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 \u00c9 ele!<\/p>\n<h2>CENA XXV<\/h2>\n<p>Entra GAINER.<br \/>\nGAINER, entrando \u2013 D\u00e1 licen\u00e7a? Sua criado&#8230; Muito obrigada.<br \/>\nNEGREIRO, na janela \u2013 N\u00e3o h\u00e1 de qu\u00ea.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA, confusa \u2013 O senhor&#8230; eu supunha&#8230; por\u00e9m&#8230; eu&#8230; N\u00e3o quer se<br \/>\nassentar? (Assentam-se.)<br \/>\nGAINER \u2013 Eu recebe uma carta para vir trata de uma neg\u00f3cia.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Fiada em sua bondade&#8230;<br \/>\nGAINER \u2013 Oh, meu bondade&#8230; obrigada.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 O sr. Mister bem sabe que&#8230; (\u00c0 parte:) N\u00e3o sei o que lhe diga.<br \/>\nGAINER \u2013 O que \u00e9 que eu sabe?<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Talvez que n\u00e3o ignore que pela sentida morte de meu defunto&#8230;<br \/>\n(Finge que chora) fiquei senhora de uma boa fortuna.<br \/>\nGAINER \u2013 Boa fortuna \u00e9 bom.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Logo que estive certa de sua morte, fiz invent\u00e1rio, porque me<br \/>\nficavam duas filhas menores; assim me aconselhou um doutor de S. Paulo. Continuei<br \/>\npor minha conta com o neg\u00f3cio do defunto; por\u00e9m o sr. mister bem sabe que numa casa<br \/>\nsem homem tudo vai para tr\u00e1s. Os caixeiros mangam, os corretores roubam; enfim, se<br \/>\nisto durar mais tempo, dou-me por quebrada.<br \/>\nGAINER \u2013 Este \u00e9 mau, quebrada \u00e9 mau.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Se eu tivesse por\u00e9m uma pessoa h\u00e1bil e diligente que se pusesse<br \/>\n\u00e0 testa de minha casa, estou bem certa que ela tomaria outro rumo.<br \/>\nGAINER \u2013 It is true.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Eu podia, como muitas pessoas me t\u00eam aconselhado, tomar um<br \/>\nadministrador, mas temo muito dar esse passo; o mundo havia ter logo que dizer, e<br \/>\nminha reputa\u00e7\u00e3o antes de tudo.<br \/>\nGAINER \u2013 Reputation, yes.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 E al\u00e9m disso tenho uma filha j\u00e1 mulher. Assim, o \u00fanico<br \/>\nrem\u00e9dio que me resta \u00e9 casar.<br \/>\nGAINER \u2013 Oh, yes! Casar miss Mariquinha, depois tem uma genra para toma<br \/>\nconta na casa.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 N\u00e3o \u00e9 isto o que eu lhe digo!<br \/>\nGAINER \u2013 Ent\u00e3o mi n\u00e3o entende portugu\u00eas.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Assim me parece. Digo que \u00e9 preciso que eu, eu me case.<br \/>\nGAINER, levantando-se \u2013 Oh, by God! By God!<br \/>\nCLEM\u00caNCIA, levantando-se \u2013 De que se espanta? Estou eu t\u00e3o velha, que n\u00e3o<br \/>\npossa casar?<br \/>\nGAINER \u2013 Mi n\u00e3o diz isto&#8230; Eu pensa na home que ser\u00e1 sua marido.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA, \u00e0 parte \u2013 Bom&#8230; (Para Gainer:) A \u00fanica coisa que me embara\u00e7a<br \/>\n\u00e9 a escolha. Eu&#8230; (\u00c0 parte:) N\u00e3o sei como dizer-lhe&#8230; (Para Gainer:) As boas<br \/>\nqualidades&#8230; (Gainer, que j\u00e1 entendeu a inten\u00e7\u00e3o de Clem\u00eancia, esfrega, \u00e0 parte, as<br \/>\nm\u00e3os de contente. Clem\u00eancia, continuando:) H\u00e1 muito que o conhe\u00e7o, e eu&#8230; sim&#8230; n\u00e3o<br \/>\nse pode&#8230; o estado deve ser considerado, e&#8230; ora&#8230; Por que hei de eu ter vergonha de o<br \/>\ndizer?&#8230; Sr. Gainer, eu o tenho escolhido para meu marido; se o h\u00e1 de ser de minha<br \/>\nfilha, seja meu&#8230;<br \/>\nGAINER \u2013 Mim aceita, mim aceita!<\/p>\n<h2>CENA XXVI<\/h2>\n<p>ALBERTO sai da janela com NEGREIRO e agarra GAINER pela garganta.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 O defunto, o defunto! (Vai cair desmaiada no sof\u00e1, afastando<br \/>\nas cadeiras que acha no caminho.)<br \/>\nGAINER \u2014Goddam! Assassina!<br \/>\nALBERTO, lutando \u2013 Tu \u00e9 que me assassinas!<br \/>\nGAINER \u2013 Ladr\u00e3o!<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Toma l\u00e1, inglesinho! (D\u00e1-lhe por tr\u00e1s.)<br \/>\nALBERTO, lutando \u2013 Tu e aquele infame&#8230;<\/p>\n<h2>CENA XXVII<\/h2>\n<p>Entra MARIQUINHA e J\u00daLIA.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 O que \u00e9 isto? Meu pai! Minha m\u00e3e! (Corre para junto de<br \/>\nClem\u00eancia.) Minha m\u00e3e! (Alberto [\u00e9] ajudado por Negreiro, que tran\u00e7a a perna em<br \/>\nGainer e lan\u00e7a-o no ch\u00e3o. Negreiro fica a cavalo em Gainer, dando e descompondo.<br \/>\nAlberto vai para Clem\u00eancia.)<br \/>\nALBERTO \u2013 Mulher infiel! Em dois anos de tudo te esqueceste! Ainda n\u00e3o<br \/>\ntinhas certeza de minha morte e j\u00e1 te entregavas a outrem? Adeus, e nunca mais te verei.<br \/>\n(Quer sair, Mariquinha lan\u00e7a-se a seus p\u00e9s.)<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Meu pai, meu pai!<br \/>\nALBERTO \u2013 Deixa-me, deixa-me! Adeus! (Vai sair arrebatadamente;<br \/>\nClem\u00eancia levanta a cabe\u00e7a e [implora a] Alberto, que ao chegar \u00e0 porta encontra-se<br \/>\ncom Fel\u00edcio. Negreiro e Gainer neste tempo levantam-se.)<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Que vejo? Meu tio! Sois v\u00f3s? (Travando-o pelo bra\u00e7o, o conduz<br \/>\npara a frente do teatro.)<br \/>\nALBERTO \u2013 Sim, \u00e9 teu tio, que veio encontrar sua casa perdida e sua mulher<br \/>\ninfiel!<br \/>\nGAINER \u2013 Seu mulher! Tudo est\u00e1 perdida!<br \/>\nALBERTO \u2013 Fujamos desta casa! (Vai a sair apressado.)<br \/>\nFEL\u00cdCIO, indo atr\u00e1s \u2013 Senhor! Meu tio! (Quando Aberto chega \u00e0 porta, ouve-se<br \/>\ncantar dentro.)<br \/>\nUMA VOZ, dentro, cantando \u2013 O de casa, nobre gente,<br \/>\nEscutai e ouvireis,<br \/>\nQue da parte do Oriente<br \/>\nS\u00e3o chegados os tr\u00eas Reis.<br \/>\nALBERTO, p\u00e1ra \u00e0 porta \u2013 Oh! (N.B.: Continuam a representar enquanto<br \/>\ndentro cantam.)<br \/>\nFEL\u00cdCIO, segurando-o \u2013 Assim quereis abandonar-nos, meu tio?<br \/>\nMARIQUINHA, indo para Alberto \u2013 Meu pai!&#8230;<br \/>\nFEL\u00cdCIO, conduzindo-o para a frente \u2013 Que ser\u00e1 de vossa mulher e de vossas<br \/>\nfilhas? Abandonadas por v\u00f3s, todos as desprezar\u00e3o&#8230; Que horr\u00edvel futuro para vossas<br \/>\ninocentes filhas! Esta gente que n\u00e3o tarda a entrar espalhar\u00e1 por toda a cidade a not\u00edcia<br \/>\ndo seu desamparo.<br \/>\nMARIQUINHA \u2013 Assim nos desprezais?<br \/>\nJ\u00daLIA, abrindo os bra\u00e7os como para abra\u00e7\u00e1-lo \u2013 Pap\u00e1, pap\u00e1!<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Vede-as, vede-as!<br \/>\nALBERTO, comovido \u2013 Minhas filhas! (Abra\u00e7a-as com transporte.)<br \/>\nGAINER \u2013 Mim perde muito com este&#8230; E vai embora!<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Aonde vai? (Quer segur\u00e1-lo; Gainer d\u00e1-lhe um soco que o lan\u00e7a<br \/>\nno ch\u00e3o, deixando a aba da casaca na m\u00e3o de Negreiro. Clem\u00eancia, vendo Alberto<br \/>\nabra\u00e7ar as filhas, levanta-se e caminha para ele.)<br \/>\nCLEM\u00caNCIA , humilde \u2013 Alberto!<br \/>\nALBERTO \u2013 Mulher, agradece \u00e0s tuas filhas&#8230; est\u00e1s perdoada&#8230; Longe de minha<br \/>\nvista este infame. Onde est\u00e1 ele?<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Foi-se, mas, em suma, deixou penhor.<br \/>\nALBERTO \u2013 Que nunca mais me apare\u00e7a! (Para Mariquinha e Fel\u00edcio:) Tudo<br \/>\nouvi junto com aquele senhor, (aponta para Negreiro) e vossa honra exige que de hoje<br \/>\na oito dias estejais casados.<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Feliz de mim!<br \/>\nNEGREIRO \u2013 Em suma, fiquei mamado e sem o dote&#8230;<\/p>\n<h2>CENA XXVIII<\/h2>\n<p>Entram dois mo\u00e7os vestidos de jaqueta e cal\u00e7as brancas.<br \/>\nUM DOS MO\u00c7OS \u2013 Em nome de meus companheiros pedimos \u00e0 senhora dona<br \/>\nClem\u00eancia a permiss\u00e3o de cantarmos os Reis em sua casa.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Pois n\u00e3o, com muito gosto.<br \/>\nO MO\u00c7O \u2013 A comiss\u00e3o agradece. (Saem os dois.)<br \/>\nFEL\u00cdCIO, para Alberto \u2013 Morro de impaci\u00eancia por saber como p\u00f4de meu tio<br \/>\nescapar das m\u00e3os dos rebeldes para nos fazer t\u00e3o felizes.<br \/>\nALBERTO \u2013 Satisfarei com vagar a tua impaci\u00eancia.<\/p>\n<h2>CENA XXIX<\/h2>\n<p>Entram os mo\u00e7os e mo\u00e7as que v\u00eam cantar os Reis; alguns deles, tocando diferentes<br \/>\ninstrumentos, precedem o rancho. Cumprimentam quando entram.<br \/>\nO MO\u00c7O \u2013 Vamos a esta, rapaziada!<br \/>\nUM MO\u00c7O e UMA MO\u00c7A, cantando:<br \/>\n(Solo)<br \/>\nNo c\u00e9u brilhava uma estrela,<br \/>\nQue a tr\u00eas Magos conduzia<br \/>\nPara o ber\u00e7o onde nascera<br \/>\nNosso Conforto e Alegria.<br \/>\n(Coro)<br \/>\n\u00d3 de casa, nobre gente,<br \/>\nAcordai e ouvireis,<br \/>\nQue da parte do Oriente<br \/>\nS\u00e3o chegados os tr\u00eas Reis.<br \/>\n(RITORNELO)<br \/>\n(Solo)<br \/>\nPuros votos de amizade,<br \/>\nBoas-festas e bons Reis<br \/>\nEm nome do Rei nascido<br \/>\nVos pedimos que aceiteis.<br \/>\n(Coro)<br \/>\n\u00d3 de casa, nobre gente,<br \/>\nAcordai e ouvireis,<br \/>\nQue da parte do Oriente<br \/>\nS\u00e3o chegados os tr\u00eas Reis.<br \/>\nTODOS DA CASA \u2013 Muito bem!<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Fel\u00edcio, convida \u00e0s senhoras e senhores para tomarem algum<br \/>\nrefresco.<br \/>\nFEL\u00cdCIO \u2013 Queiram .ter a bondade de entrar, que muito nos obsequiar\u00e3o.<br \/>\nOS DO RANCHO \u2013 Pois n\u00e3o, pois n\u00e3o! Com muito gosto.<br \/>\nCLEM\u00caNCIA \u2013 Queiram entrar. (Clem\u00eancia e os da casa caminham para<br \/>\ndentro e o rancho os segue tocando uma alegre marcha, e desce o pano.)<\/p>\n<h2>FIM<\/h2>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Martins Pena [Com\u00e9dia em 1 ato] PERSONAGENS CLEM\u00caNCIA MARIQUINHA, sua filha J\u00daLIA, irm\u00e3 de Mariquinha (10 anos) FEL\u00cdCIO, sobrinho de Clem\u00eancia GAINER, ingl\u00eas NEGREIRO, negociante de negros novos [EUFR\u00c1SIA] [CEC\u00cdLIA, sua filha] [JUCA, irm\u00e3o de Cec\u00edlia] [JO\u00c3O DO AMARAL, marido de Eufr\u00e1sia] ALBERTO, marido de Clem\u00eancia Mo\u00e7os e mo\u00e7as A cena passa-se no Rio de 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