{"id":114098,"date":"2017-03-17T10:36:18","date_gmt":"2017-03-17T12:36:18","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=114098"},"modified":"2017-03-17T10:36:18","modified_gmt":"2017-03-17T12:36:18","slug":"os-ciumes-de-um-pedestre-ou-o-terrivel-capitao-do-mato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/os-ciumes-de-um-pedestre-ou-o-terrivel-capitao-do-mato","title":{"rendered":"Os Ci\u00fames de um Pedestre ou o Terr\u00edvel Capit\u00e3o do Mato"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h4>Martins Pena<\/h4>\n<p>[OU O TERR\u00cdVEL CAPIT\u00c3O DO MATO]<\/p>\n<p><b>Com\u00e9dia em 1 ato<\/b><\/p>\n<h2>PERSONAGENS<\/h2>\n<p>ANDR\u00c9 JO\u00c3O, pedestre<br \/>\nBALBINA, sua filha<br \/>\nANACLETA, sua mulher<br \/>\nALEXANDRE, amante de Balbina<br \/>\nPAULINO, amante de Anacleta<br \/>\nROBERTO, pai de Anacleta<br \/>\nO cabo da patrulha<br \/>\nSoldados permanentes<br \/>\nA cena passa-se no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p><b>[ATO \u00daNICO]<\/b><\/p>\n<p>Sala ordin\u00e1ria. Porta no fundo e laterais. No segundo plano, \u00e0 direita, um<br \/>\narm\u00e1rio, e \u00e0 esquerda, uma escada de m\u00e3o, que se sup\u00f5e conduzir a uma trapeira sobre o<br \/>\ntelhado. No alto de cada uma das portas laterais haver\u00e1 um buraco. Uma mesa, sobre a<br \/>\nqual estar\u00e1 uma vela apagada. \u00c9 noite.<\/p>\n<h2>CENA I<\/h2>\n<p>Ao levantar do pano, estar\u00e1 a cena \u00e0s escuras e s\u00f3. Ouve-se dar meia-noite em um sino<br \/>\nao longe. Logo que tenha expirado a \u00faltima badalada, aparece PAULINO sobre a escada<br \/>\ne principia a descer com precau\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>PAULINO, ainda no alto da escada \u2013 Meia-noite. S\u00e3o horas de descer&#8230;<\/p>\n<p>(Principia a descer.) Ele saiu&#8230; Anda a estas horas em procura de negros fugidos&#8230; Que<br \/>\nsil\u00eancio! O meu bem ainda estar\u00e1 acordado? A quanto me exponho por ela! Escorreguei<br \/>\nno telhado e quase ca\u00ed na rua. Estava arranjado! Mas, enfim, o telhado \u00e9 o caminho dos<br \/>\ngatos e dos amantes \u00e0 polca&#8230; Mas cuidado com o resultado!(Neste tempo est\u00e1 nos<br \/>\n\u00faltimos degraus da escada.) Ou\u00e7o rumor<\/p>\n<h2>CENA II<\/h2>\n<p>BALBINA, da esquerda, metendo a cabe\u00e7a no buraco da porta.<\/p>\n<p>BALBINA, chamando \u2013 Minha madrasta? Minha madrasta?<br \/>\nPAULINO, \u00e0 parte \u2013 Mau! A filha est\u00e1 acordada&#8230;<\/p>\n<p>BALBINA, no mesmo \u2013 Da. Anacleta? Da. Anacleta?<br \/>\nANACLETA, da direita, metendo a cabe\u00e7a no buraco da porta \u2013 O que queres,<br \/>\nBalbina?<br \/>\nPAULINO, \u00e0 parte \u2013 \u00c9 ela&#8230;<\/p>\n<p>BALBINA \u2013 J\u00e1 deu meia-noite&#8230;<\/p>\n<p>ANACLETA \u2013 E foi s\u00f3 para me dizeres isso que me chamaste? Vai dormir, que<br \/>\neu n\u00e3o estou para conversar a estas horas e de poleiro&#8230; Adeus.<\/p>\n<p>BALBINA \u2013 Pelo amor de Deus, espere!<br \/>\nANACLETA \u2013 Para qu\u00ea?<br \/>\nBALBINA \u2013 Estou com medo&#8230;<\/p>\n<p>ANACLETA \u2013 Ora, n\u00e3o sejas crian\u00e7a. Vai dormir.<\/p>\n<p>BALBINA \u2013 N\u00e3o posso&#8230; Eu estava cosendo; fui espevitar a vela e apaguei-a&#8230;<\/p>\n<p>Fiquei \u00e0s escuras. Nisso deu meia-noite&#8230; Arrepiaram-se-me os cabelos&#8230;&#8230;. Levanteime<br \/>\ne ia meter-me na cama assim mesmo vestida, quando ouvi as t\u00e1buas do forro<br \/>\nestalarem como se uma pessoa andasse sobre elas&#8230;<\/p>\n<p>PAULINO, \u00e0 parte \u2013 E n\u00e3o enganou-se&#8230;<\/p>\n<p>ANACLETA \u2013 O medo \u00e9 que te fez crer isso.<\/p>\n<p>BALBINA \u2013 N\u00e3o, n\u00e3o foi o medo, bem ouvi&#8230; E fiquei com tanto susto, que<br \/>\nnem ousava respirar. Afinal, cobrei \u00e2nimo para chegar at\u00e9 aqui e chamar-lhe.<\/p>\n<p>ANACLETA \u2013 Quem pode a estas horas andar l\u00e1 pelo forro?<br \/>\nPAULINO, \u00e0 parte \u2013 Eu&#8230;<\/p>\n<p>BALBINA \u2013 N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>ANACLETA \u2013 Foi engano teu. As t\u00e1buas \u00e0 noite estalam com o calor.<\/p>\n<p>BALBINA \u2013 Bem pode ser; mas tenho medo. N\u00e3o posso ficar s\u00f3 \u00e0s escuras,<br \/>\nmorrerei de susto. Se eu pudesse ir para l\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>ANACLETA \u2013 Bem sabes que \u00e9 imposs\u00edvel. Ambas estas portas est\u00e3o fechadas<br \/>\ne teu pai levou as chaves.<\/p>\n<p>BALBINA \u2013 Meu Deus! Mas fique a\u00ed conversando comigo, at\u00e9 que meu pai<br \/>\nentre.<\/p>\n<p>ANACLETA \u2013 Isto \u00e9, queres que fiquemos aqui at\u00e9 de madrugada, que \u00e9 a hora<br \/>\nque ele volta?<br \/>\nPAULINO, \u00e0 parte \u2013 Muito bem, n\u00e3o enganei-me!<br \/>\nBALBINA \u2013 Meu Deus, meu Deus, por que meu pai desconfia tanto de n\u00f3s, que<br \/>\nnos deixa assim fechadas cada uma no seu quarto? Se ao menos nos deixasse juntas!<br \/>\nANACLETA \u2013 Ele diz que uma mulher s\u00f3 \u00e9 capaz de enganar ao diabo, e que<br \/>\nduas juntas enganariam o inferno em peso.<\/p>\n<p>PAULINO, \u00e0 parte \u2013 Que tal o pedestre? E o mais \u00e9 que n\u00e3o deixa de ter sua<br \/>\nraz\u00e3ozinha&#8230;<\/p>\n<p>BALBINA \u2013 E por isso deixa-nos presas e separadas quando sai para suas<br \/>\ndelig\u00eancias. Pois olhe: se meu pai continua a desconfiar assim e aperta comigo, eu<br \/>\nprego-lhe alguma&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p>ANACLETA \u2013 E eu tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>PAULINO, \u00e0 parte \u2013 Bravo, isso mesmo \u00e9 o que eu quero&#8230;<\/p>\n<p>BALBINA \u2013 Nunca lhe dei motivos para assim tratar-me.<\/p>\n<p>ANACLETA \u2013 E eu, que motivos lhe tenho dado? O rem\u00e9dio \u00e9 ter paci\u00eancia.<\/p>\n<p>Adeus.<\/p>\n<p>BALBINA \u2013 N\u00e3o, n\u00e3o, espere!<br \/>\nANACLETA \u2013 Escuta. Vai \u00e0 gavetinha da mesa que est\u00e1 a\u00ed no canto \u00e0 esquerda,<br \/>\ntira uma caixinha de f\u00f3sforo que l\u00e1 guardei esta manh\u00e3, e acende a tua vela.<\/p>\n<p>BALBINA \u2013 Pois sim, mas n\u00e3o saia da\u00ed enquanto eu procuro o f\u00f3sforo.<\/p>\n<p>ANACLETA \u2013 Medrosa! Pois vai, que fico esperando.<\/p>\n<p>BALBINA \u2013 Pelo amor de Deus, n\u00e3o saia da\u00ed! (Desaparece do buraco.)<\/p>\n<h2>CENA III<\/h2>\n<p>[BALBINA,] PAULINO, e ANACLETA no buraco da porta.<\/p>\n<p>PAULINO, \u00e0 parte \u2013 Vamo-nos aproximando&#8230; (Caminha com precau\u00e7\u00e3o para<br \/>\naonde ouve a voz de Anacleta.)<br \/>\nANACLETA \u2013 Pensa meu marido que se guarda uma mulher prendendo-a<br \/>\ndebaixo de sete chaves! Simpl\u00f3rio! N\u00e3o sabe que quando elas n\u00e3o se guardam a si<br \/>\nmesmas, nem quantas fechaduras e portas h\u00e1 s\u00e3o capazes de as reter. O pior \u00e0s vezes \u00e9<br \/>\ndesconfiar.<\/p>\n<p>PAULINO, \u00e0 parte, caminhando \u2013 N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, o pior \u00e9 desconfiar&#8230;<\/p>\n<p>ANACLETA \u2013 Os ci\u00fames despropositados de alguns maridos fazem com que as<br \/>\nmulheres pensem em coisas que nunca lhe passariam pela cabe\u00e7a, se eles tivessem mais<br \/>\nconfian\u00e7a.<\/p>\n<p>PAULINO, \u00e0 parte \u2013 Pobres maridos! Eu arrisco-me a falar-lhe&#8230;<\/p>\n<p>ANACLETA \u2013 Se o meu n\u00e3o me atormentasse com ci\u00fames, eu n\u00e3o teria de certo<br \/>\ndado aten\u00e7\u00e3o ao meu vizinho&#8230;<\/p>\n<p>PAULINO, \u00e0 parte \u2013 Ai que fala da pessoa!<br \/>\nANACLETA \u2013 Pois como desconfia de mim, hei de namorar o vizinho, ainda<br \/>\nque n\u00e3o seja para vingar-me&#8230;<\/p>\n<p>PAULINO, alto \u2013 Sim, sim, meu bem, vinga-te! Aqui estou eu para vingarmonos!<br \/>\nANACLETA \u2013 Ai, ai, ladr\u00f5es! (Sai do buraco e continua a gritar dentro.)<br \/>\nPAULINO, assustado, batendo na porta \u2013 Fi-la bonita! Espantei-a! Sou eu, sou<br \/>\neu! \u00c9 o vizinho&#8230; N\u00e3o sou ladr\u00e3o, n\u00e3o grite&#8230; Olhe que sou eu&#8230; (Anacleta continua a<br \/>\ngritar dentro.) Pior! Isto n\u00e3o vai bem&#8230; (Batendo na porta:) Sou eu, sou o vizinho<br \/>\namado&#8230; Tome esta cartinha&#8230; por baixo da porta&#8230; (Assim dizendo, mete uma carta<br \/>\ndebaixo da porta. Balbina aparece no buraco da porta \u00e0 direita.)<br \/>\nBALBINA \u2013 O que \u00e9? Que gritos s\u00e3o estes?<br \/>\nPAULINO, \u00e0 parte \u2013 Mal vai ela&#8230; Safemo-nos, h\u00e1 j\u00e1 uma de mais&#8230;<\/p>\n<p>(Encaminha-se para sair.)<br \/>\nBALBINA \u2013 Minha madrasta? (Paulino cai sobre uma cadeira.) Quem est\u00e1 a\u00ed?<br \/>\nPAULINO, perdendo a cabe\u00e7a \u2013 N\u00e3o \u00e9 ningu\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>BALBINA sai do buraco e principia a gritar \u2013 Ladr\u00f5es, ladr\u00f5es!<br \/>\nPAULINO, s\u00f3 e assustado \u2013 Mais esta! O melhor \u00e9 safar-me&#8230; Como grita! Que<br \/>\ngoelas! Se chega o pedestre, estou arranjado! Namoro de telhado d\u00e1 sempre nisto&#8230;<\/p>\n<p>Aonde diabo est\u00e1 a escada? (Esbarrando-se no arm\u00e1rio:) Isto \u00e9 um arm\u00e1rio&#8230; Estou<br \/>\ndesorientado&#8230; Calaram-se. A escada deve estar deste lado&#8230; Ou\u00e7o passos! Meu Deus,<br \/>\nser\u00e1 ele?<br \/>\nPEDESTRE, dentro \u2013 Anda para diante&#8230;<\/p>\n<p>PAULINO \u2013 Oh, diabo, \u00e9 ele! Se aqui me pilha, mata-me&#8230; Ou ao menos levame<br \/>\npara a Corre\u00e7\u00e3o. (Procura a escada com ansiedade.) Ah, enfim! (Vai a subir<br \/>\napressado e a escada rebenta pelo meio, e ele rola pela cena.) Ai, ai! (Levantando-se<br \/>\napressado:) Maldito namoro! Que hei de fazer? A escada quebrou-se! Abrem a porta!<br \/>\nJesus! (Procura o arm\u00e1rio.) Ah! (Esconde-se no arm\u00e1rio.)<\/p>\n<h2>CENA IV<\/h2>\n<p>Abre-se a porta do fundo e por ela entra o PEDESTRE com uma lanterna de furta-fogo<br \/>\nna m\u00e3o esquerda e trazendo preso, na m\u00e3o direita, pela gola da camisa, ALEXANDRE,<br \/>\ndisfar\u00e7ado em negro.<\/p>\n<p>PEDESTRE \u2013 Entra, paizinho&#8230;<\/p>\n<p>ALEXANDRE \u2013 Sim sinh\u00f4&#8230; (O Pedestre, depois de entrar, fecha a porta por<br \/>\ndentro.)<br \/>\nPEDESTRE \u2013 Agora foge&#8230;<\/p>\n<p>ALEXANDRE \u2013 N\u00e3o sinh\u00f4&#8230; (O Pedestre acende uma vela que est\u00e1 sobre a<br \/>\nmesa e apaga a lanterna.)<br \/>\nPEDESTRE, enquanto acende a vela \u2013 Quem \u00e9 teu senhor?<br \/>\nALEXANDRE \u2013 Meu sinh\u00f4 \u00e9 sinh\u00f4 Maj\u00f3, que mora na Tijuca.<\/p>\n<p>PEDESTRE \u2013 Ah! e que fazias tu \u00e0 meia-noite na rua, c\u00e1 na cidade?<br \/>\nALEXANDRE \u2013 Estava tomando fresco, sim sinh\u00f4.<\/p>\n<p>PEDESTRE \u2013 Tomando fresco! Olha que patife&#8230; Estavas fugido.<\/p>\n<p>ALEXANDRE \u2013 N\u00e3o sinh\u00f4.<\/p>\n<p>PEDESTRE \u2013 Est\u00e1 bom, eu te mostrarei. Hei de te levar amarrado a teu senhor.<\/p>\n<p>(\u00c0 parte:) Mas h\u00e1 de ser daqui a quatro dias, para a paga ser melhor. (Para Alexandre:)<br \/>\nVem para c\u00e1. (Encaminha-se com Alexandre para a segunda porta \u00e0 esquerda e quer<br \/>\nabri-la.) \u00c9 verdade, est\u00e1 fechada&#8230; E a chave est\u00e1 l\u00e1 dentro do quarto de Balbina. (Para<br \/>\nAlexandre:) Espera a\u00ed. Se d\u00e1s um passo, dou-te um tiro.<\/p>\n<p>ALEXANDRE \u2013 He!<br \/>\nPEDESTRE \u2013 He, hem? V\u00ea l\u00e1! (Encaminha-se para a porta do quarto de<br \/>\nBalbina, tira da algibeira uma chave e abre a porta. Balbina, ouvindo da parte de<br \/>\ndentro abrirem a porta, principia a gritar.)<br \/>\nBALBINA, dentro \u2013 Ai, ai! Quem me socorre? Quem me socorre?<br \/>\nPEDESTRE \u2013 Que \u00e9 l\u00e1 isso? Balbina, por que gritas? Sou eu. (Abre a porta e<br \/>\nentra no quarto.) Que diabo!<\/p>\n<h2>CENA V<\/h2>\n<p>ALEXANDRE, PAULINO espiando da porta do arm\u00e1rio e ANACLETA espiando pelo<br \/>\nburaco da porta.<\/p>\n<p>ALEXANDRE, com o seu falar natural \u2013 Estou s\u00f3&#8230; Tomei este disfarce, o<br \/>\n\u00fanico de que me podia servir para introduzir-me nesta casa, a fim de falar \u00e0 minha<br \/>\nquerida Balbina&#8230; Com que vigil\u00e2ncia a guarda o pai! Quem sabe como me sairei desta<br \/>\nempresa&#8230; Quem sabe&#8230; Talvez muito mal; o pedestre \u00e9 endiabrado&#8230; Coragem, agora<br \/>\nnada de fraqueza&#8230;<\/p>\n<p>PAULINO, \u00e0 parte, do arm\u00e1rio \u2013 Estou arranjado! Como sair daqui?<br \/>\nANACLETA, chegando ao buraco da porta \u2013 Um negro! Meu marido j\u00e1<br \/>\nentrou&#8230; E o vizinho? A carta era dele&#8230; Sairia?<br \/>\nPAULINO, vendo Anacleta no buraco \u2013 \u00c9 ela! Psiu&#8230;<\/p>\n<p>ALEXANDRE, voltando-se \u2013 Quem chama? (Paulino e Anacleta, vendo o<br \/>\nnegro voltar-se, desaparecem.) Aqui h\u00e1 gente&#8230; Mau, j\u00e1 n\u00e3o vou gostando&#8230; (Olhando<br \/>\nespantado ao redor de si.)<\/p>\n<h2>CENA VI<\/h2>\n<p>Entra o PEDESTRE e BALBINA.<\/p>\n<p>PEDESTRE \u2013 Por que gritavas?<br \/>\nBALBINA \u2013 Pensei que eram ladr\u00f5es. Ouvi bulha aqui na sala&#8230;<\/p>\n<p>ALEXANDRE, \u00e0 parte \u2013 Como o meu cora\u00e7\u00e3o bate! Prud\u00eancia&#8230; (Principia a<br \/>\nfazer sinais para Balbina.)<br \/>\nPEDESTRE \u2013 Fui eu que entrei, e mais cedo do que costumo. Encontrei este<br \/>\ntratante dormindo na cal\u00e7ada, aqui mesmo defronte da porta. Estava tomando fresco&#8230;<\/p>\n<p>Ladr\u00f5es, dizes tu? Ladr\u00f5es em casa de pedestre? T\u00e3o tolos n\u00e3o s\u00e3o eles. Aqui n\u00e3o h\u00e1<br \/>\nque roubar, e vinham entregar-se com a boca na botija, pois n\u00e3o?<br \/>\nBALBINA, reconhecendo Alexandre &#8211; \u2013 Meu Deus!<br \/>\nPEDESTRE \u2013 Hem?<br \/>\nBALBINA, disfar\u00e7ando \u2013 Nada, n\u00e3o senhor. (\u00c0 parte:) Que loucura! (Neste<br \/>\ntempo Alexandre tem na m\u00e3o uma cartinha, que mostra a Balbina.)<br \/>\nPEDESTRE \u2013 Anda, vai-te deitar, que est\u00e1s sonhando. E tu&#8230; (Volta-se para<br \/>\nAlexandre e o surpreende mostrando a carta a Balbina.) Ah! (Salta sobre ele e arrancalhe<br \/>\na carta.)<br \/>\nBALBINA, \u00e0 parte \u2013 Meu Deus!<br \/>\nPEDESTRE \u2013 Ah, patife, tu trazes cartinhas! (Voltando-se para a filha:) E tu as<br \/>\nrecebes&#8230; Velhaca!<br \/>\nBALBINA, recuando \u2013 Meu pai!<br \/>\nPEDESTRE \u2013 Vejamos quem te escreve, para depois castigar-te. (Abre a carta e<br \/>\nl\u00ea:) \u201cMeu amor&#8230; (Falando:) Ah, j\u00e1 \u00e9s seu amor? (Continuando a ler:) Apesar das<br \/>\ncautelas de teu pai, um estratagema me conduzir\u00e1 junto de ti&#8230; (Falando:) Ah, um<br \/>\nestratagema! (Olha receoso ao redor de si)&#8230; e arrancando-te \u00e0 sua crueldade, ser\u00e1s<br \/>\nminha esposa.\u201d (Falando:) N\u00e3o tem assinatura&#8230; (Fica pensativo.)<br \/>\nBALBINA, \u00e0 parte \u2013 Eu tremo!<br \/>\nALEXANDRE, \u00e0 parte \u2013 O que far\u00e1? Em boas meti-me!<br \/>\nPEDESTRE caminha para Alexandre sem dizer palavra e d\u00e1-lhe uma bofetada<br \/>\n\u2013 Principio por ti &#8230; (Alexandre, esquecendo-se do car\u00e1ter que representa, quer ir sobre<br \/>\no Pedestre, mas vendo Balbina, que com as m\u00e3os postas pede-lhe que se modere,<br \/>\ncont\u00e9m-se. Pedestre, agarrando Alexandre pela gola da camisa:) Quem mandou esta<br \/>\ncarta?<br \/>\nALEXANDRE, \u00e0 parte \u2013 Felizmente n\u00e3o me conhece&#8230;<\/p>\n<p>PEDESTRE \u2013 Quem mandou esta carta? Fala, ou eu&#8230;<\/p>\n<p>ALEXANDRE \u2013 N\u00e3o sei, n\u00e3o sinh\u00f4; foi um branco que me deu.<\/p>\n<p>PEDESTRE \u2013 Que branco?<br \/>\nALEXANDRE \u2013 N\u00e3o sei, n\u00e3o sinh\u00f4.<\/p>\n<p>PEDESTRE \u2013 Ah, n\u00e3o sabes? (Querendo puxar da espada.)<br \/>\nBALBINA \u2013 Meu pai!<br \/>\nPEDESTRE \u2013 Espera tu, que temos tamb\u00e9m que falar. (Para Alexandre:) Ent\u00e3o?<br \/>\nQuem \u00e9 o branco?<br \/>\nALEXANDRE \u2013 Eu vou cont\u00e1 tudo. Um branco me disse: Jos\u00e9, toma dez<br \/>\ntost\u00f5es; quando d\u00e9 meia-noite vai para o Beco dos Aflitos faz\u00ea negro fugido&#8230; E quando<br \/>\no pedestre que mora l\u00e1 mesmo no Beco dos Aflitos sair, deixa ele prend\u00ea voc\u00ea e lev\u00e1<br \/>\npara casa&#8230; E entrega esta cartinha \u00e0 sinh\u00e1 Balbina&#8230; Est\u00e1&#8230; Mas n\u00e3o sei quem \u00e9 o<br \/>\nbranco&#8230; Foi para ganhar dez tost\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>PEDESTRE \u2013 Hum, \u00e9 assim? Que trama! Vem c\u00e1, negrinho da minha alma,<br \/>\ntratante&#8230; Amanh\u00e3, hem? Corre\u00e7\u00e3o, cabe\u00e7a rapada e&#8230; (Faz sinal de dar pancada.) Mas<br \/>\nantes, hem? meu negrinho, hei de te dar uma reverend\u00edssima ma\u00e7ada de pau bem<br \/>\nrepinicadinha. Vem c\u00e1, meu negrinho&#8230;<\/p>\n<p>ALEXANDRE, querendo resistir \u2013 Mas sinh\u00f4&#8230;<\/p>\n<p>PEDESTRE \u2013 Vem c\u00e1, vem c\u00e1&#8230; (Vai levando-o para o segundo quarto \u00e0<br \/>\nesquerda e mete a chave na fechadura, para abrir a porta.)<br \/>\nBALBINA, \u00e0 parte, enquanto o Pedestre abre a porta \u2013 Pobre Alexandre, a<br \/>\nquanto se exp\u00f5e ele por mim! Mas que loucura a sua, assim disfar\u00e7ar-se!<br \/>\nPAULINO, \u00e0 parte, espiando do arm\u00e1rio. Isto principia muito mal&#8230; E acabar\u00e1<br \/>\nainda pior!<br \/>\nPEDESTRE, empurrando Alexandre para dentro do quarto \u2013 Entra! (Fecha a<br \/>\nporta e tira a chave.)<br \/>\nBALBINA, \u00e0 parte, a tremer de susto \u2013 Ai de mim! Matai-me, meu Deus!<br \/>\n(Pedestre encaminha-se para Balbina e, chegando junto dela, observa-a por alguns<br \/>\ninstantes, calado. Balbina treme de susto, enquanto o pai a observa. Pedestre, sem dizer<br \/>\npalavra, volta-se, e abrindo a gaveta da mesa, dela tira uma palmat\u00f3ria. Balbina,<br \/>\nvendo-o tirar a palmat\u00f3ria.) Ah!<br \/>\nPEDESTRE, indo para ela \u2013 D\u00e1 c\u00e1 a m\u00e3o!<br \/>\nBALBINA \u2013 Meu pai!<br \/>\nPEDESTRE \u2013 D\u00e1 c\u00e1 a m\u00e3o!<br \/>\nBALBINA \u2013 Oh! (Recuando.)<br \/>\nPEDESTRE, seguindo-a \u2013 D\u00e1 c\u00e1 a m\u00e3o!<br \/>\nBALBINA, escondendo as m\u00e3os atr\u00e1s das costas \u2013 N\u00e3o sou crian\u00e7a para levar<br \/>\nde palmat\u00f3ria!<br \/>\nPEDESTRE \u2013 N\u00e3o \u00e9s crian\u00e7a&#8230; Mas \u00e9s namoradeira, e eu c\u00e1 ensino as<br \/>\nnamoradeiras a palmat\u00f3ria. Santo rem\u00e9dio! Venha!<br \/>\nBALBINA \u2013 Meu pai, meu pai, pelo amor de Deus!<br \/>\nPEDESTRE \u2013 Ah, a menina tem namorados, recebe cartinhas e quer casar-se<br \/>\ncontra minha vontade! Veremos&#8230; Venha, enquanto est\u00e1 quente&#8230; Venha!<br \/>\nBALBINA, caindo de joelhos \u2013 Por piedade!<br \/>\nPEDESTRE \u2013 S\u00f3 quatro d\u00fazias, s\u00f3 quatro d\u00fazias&#8230;<\/p>\n<p>BALBINA \u2013 Oh, n\u00e3o, n\u00e3o, meu pai! (Abra\u00e7ando-lhe as pernas) Meu pai, que<br \/>\nlhe fiz eu? Que culpa tenho eu, se me escrevem? Posso eu impedir que me escrevam?<br \/>\nPEDESTRE \u2013 Pode, pode! N\u00e3o d\u00ea corda! Venha!<br \/>\nBALBINA \u2013 Mas isso \u00e9 uma injusti\u00e7a! Eu n\u00e3o conhe\u00e7o ningu\u00e9m, n\u00e3o vejo<br \/>\nningu\u00e9m, vivo aqui fechada&#8230;<\/p>\n<p>PEDESTRE \u2013 Quanto mais se n\u00e3o vivesse&#8230;<\/p>\n<p>BALBINA \u2013 Que culpa tenho, se algu\u00e9m se lembra de escrever-me? N\u00e3o posso<br \/>\nprevenir isso&#8230; Escrevem-me, mandam a carta por um negro&#8230; e sou eu quem pago, eu,<br \/>\nque n\u00e3o tenho culpa nenhuma! Meu pai, perdoe-me! Indague quem foi a pessoa que<br \/>\nescreveu-me e castiga-o&#8230; Mas eu? Oh, perd\u00e3o, meu bom paizinho!<br \/>\nPEDESTRE \u2013 Levanta-te. Olha, tu n\u00e3o levar\u00e1s os bolos por esta, mas tamb\u00e9m<br \/>\nn\u00e3o me h\u00e1s de emba\u00e7ar mais. Por\u00e9m quero saber quem \u00e9 o sujeitinho que quer armar o<br \/>\nestratagema para lograr-me. Lograr-me! A mim, que sou macaco velho no of\u00edcio&#8230;<\/p>\n<p>Quero ver se \u00e9 capaz de p\u00f4r o p\u00e9 nesta casa ou se te far\u00e1 dar um s\u00f3 passo daqui para<br \/>\nfora. Ent\u00e3o, n\u00e3o sabes ele quem \u00e9?<br \/>\nBALBINA \u2013 J\u00e1 lhe disse que n\u00e3o, meu pai.<\/p>\n<p>PEDESTRE \u2013 Est\u00e1 bem, chama tua madrasta. Toma a chave. Ela mo dir\u00e1.<\/p>\n<p>(Balbina vai abrir a porta e sai por ela.)<br \/>\nCENA VII<br \/>\nPEDESTRE, e PAULINO no arm\u00e1rio. PEDESTRE passeia, pensativo, de um para outro<br \/>\nlado da sala.<\/p>\n<p>PAULINO, \u00e0 parte, no arm\u00e1rio \u2013 No que diabo estar\u00e1 ele pensando!<br \/>\nPEDESTRE \u2013 Estratagema! Qual ser\u00e1 o estratagema? \u00c9 preciso toda a cautela&#8230;<\/p>\n<p>Ora, eis ai est\u00e1! Fecham-se, aferrolham-se estas mulheres e elas sempre acham uma<br \/>\nabertazinha para nos pregarem mesmo na menina do olho&#8230; Ah, mas deixem-nas<br \/>\ncomigo&#8230; S\u00f3 fica logrado aquele que as n\u00e3o conhece. Porta sempre fechada \u2013 e os<br \/>\nmelros que andem por fora da gaiola&#8230;<\/p>\n<p>PAULINO, \u00e0 parte, no arm\u00e1rio \u2013 Dentro j\u00e1 estou eu&#8230;<\/p>\n<p>ALEXANDRE, \u00e0 parte, no buraco da porta \u2013 Eu c\u00e1 estou de dentro&#8230;<\/p>\n<p>PEDESTRE \u2013 Veremos quem \u00e9 capaz de lograr-me .. Lograr Andr\u00e9 Camar\u00e3o!<br \/>\nC\u00e1 a menina, levarei a palmat\u00f3ria. Santa panac\u00e9ia para namoros! E minha mulher&#8230; Oh,<br \/>\nse lhe passar somente pela ponta dos cabelos a id\u00e9ia de enganar-me, de se deixar<br \/>\nseduzir&#8230; Ah, nem falar nisso, nem pensar! Eu seria um tigre, um le\u00e3o, um elefante! A<br \/>\nmataria, a enterraria, a esfolaria viva. Oh, j\u00e1 tremo de furor! Vi muitas vezes Otelo no<br \/>\nteatro, quando ia para plat\u00e9ia por ordem superior. O crime de Otelo \u00e9 uma migalha, uma<br \/>\nninharia, uma nonada, comparado com o meu&#8230; Enganar-me! Enganar, ela! Ah, nem sei<br \/>\ndo que seria capaz! Amarrados ela e o seu amante, os mandaria de presente ao diabo,<br \/>\nacabariam na ponta desta espada, nas unhas destas m\u00e3os, no tal\u00e3o destas botas! Nem<br \/>\nquero dizer do que seria capaz.<\/p>\n<p>PAULINO, \u00e0 parte, no arm\u00e1rio \u2013 Deus se compade\u00e7a de mim!<br \/>\nPEDESTRE \u2013 Oh, mataria o g\u00eanero humano, se o g\u00eanero humano seduzisse<br \/>\nminha mulher!<br \/>\nPAULINO, \u00e0 parte \u2013 Quem me reza por alma?<br \/>\nPEDESTRE \u2013 Ela que chega&#8230; E eu n\u00e3o me fio nela&#8230;<\/p>\n<p>CENA VIII<br \/>\nOs mesmos, ANACLETA e BALBINA.<\/p>\n<p>ANACLETA \u2013 Mandou-me chamar?<br \/>\nPEDESTRE \u2013 Sim, espere. E tu, (para Balbina) vai aquentar uma x\u00edcara de caf\u00e9,<br \/>\nque tenho a cabe\u00e7a muito esquentada. (Balbina sai.)<br \/>\nPAULINO, \u00e0 parte \u2013 Aten\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>PEDESTRE, para Anacleta \u2013 Chegue-se para c\u00e1. (Assenta-se.)<br \/>\nANACLETA, aproximando-se \u2013 Aqui me tem.<\/p>\n<p>PEDESTRE \u2013 Quem vem a esta casa quando eu estou fora?<br \/>\nPAULINO, \u00e0 parte \u2013 Ningu\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>ANACLETA \u2013 Zombas comigo? (Olhando ao redor de si:) Ele saiu&#8230;<\/p>\n<p>PEDESTRE \u2013 Responda ao que lhe pergunto. Quem vem a esta casa?<br \/>\nANACLETA \u2013 Quando sais n\u00e3o fechas todas as portas e n\u00e3o nos deixas presas<br \/>\ncada uma de seu lado? Como queres que aqui venha algu\u00e9m?<br \/>\nPEDESTRE, levantando-se \u2013 Portas fechadas! Que valem portas fechadas? As<br \/>\nfechaduras n\u00e3o t\u00eam buraco?<br \/>\nANACLETA, \u00e0 parte \u2013 Com que homem casei-me eu!<br \/>\nPEDESTRE, \u00e0 parte \u2013 Hei de ver se descubro umas fechaduras sem buraco&#8230;<\/p>\n<p>(Alto:) Anacleta, ouve bem o que te vou dizer. Tu me conheces, e sabes se sou capaz de<br \/>\nfazer o que digo \u2013 e ainda mais. Sempre que saio deixo esta casa fechada, portas e<br \/>\njanelas, e sempre que aqui estou tenho os olhos alerta. E apesar de todas estas cautelas,<br \/>\nBalbina enganou-me.<\/p>\n<p>ANACLETA \u2013 Enganou-te?<br \/>\nPEDESTRE \u2013 Tem um amante, recebe cartinhas e est\u00e1 fiada em um estratagema<br \/>\npara lograr-me. (Olha ao redor de si.) Mas isso veremos&#8230; Mas onde diabo viu ela esse<br \/>\nsujeito? Quando, como? Aqui est\u00e1 o que me amofina, o que derrota a minha fin\u00faria de<br \/>\npedestre e faz-me andar a cabe\u00e7a \u00e0 roda. Tantas cautelas, e por fim logrado! Ah,<br \/>\nmulheres! Diabos! Vamos, tu deves saber quem \u00e9 ele? Como se chama? Onde foi que<br \/>\nBalbina o viu? Em que lugar? Por que buraco? Por que greta?<br \/>\nANACLETA \u2013 Nada sei.<\/p>\n<p>PEDESTRE, pegando-lhe no bra\u00e7o, furioso \u2013 Nada sabes?<br \/>\nANACLETA \u2013 N\u00e3o!<br \/>\nPEDESTRE \u2013 Mulher!<br \/>\nANACLETA \u2013 Matai-me, porque deixarei de sofrer!<br \/>\nPEDESTRE \u2013 Matar-te! Isso fica para quando o mereceres&#8230; Por ora, basta que<br \/>\neu seja mais cauteloso. Todas as portas, todas as janelas desta casa v\u00e3o ser pregadas a<br \/>\nprego&#8230; Um pequeno postigo naquela porta \u2013 quanto caiba meu corpo \u2013 ser\u00e1 bastante<br \/>\npara eu sair&#8230; E o postigo fechar\u00e1 como uma tampa de caxeta e aldraba \u2013 nada de<br \/>\nfechaduras com buraco! A luz vir\u00e1 pelo telhado&#8230; N\u00e3o, n\u00e3o, os telhados andam tamb\u00e9m<br \/>\nmuito perigosos&#8230; Uma candeia de dia e de noite estar\u00e1 acesa aqui. Quero ver se assim<br \/>\nme logram.<\/p>\n<p>ANACLETA, com muita tranq\u00fcilidade \u2013 Agora que te ouvi, ouve-me tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Fecha todas estas portas, prega-as, calafeta-as, rodeia-me de vigias e cautelas, que eu hei<br \/>\nde achar uma ocasi\u00e3o para fugir!<br \/>\nPEDESTRE \u2013 Tu? Oh!<br \/>\nANACLETA \u2013 Eu, sim! E irei direitinha daqui para o Recolhimento, donde sa\u00ed,<br \/>\ndepois de queixar-me \u00e0s autoridades.<\/p>\n<p>PEDESTRE \u2013 Tu \u00e9s capaz de fugir daqui?<br \/>\nANACLETA \u2013 Sou sim!<br \/>\nPEDESTRE \u2013 Meu Deus, como hei de eu fechar estes dem\u00f4nios, estas<br \/>\nendiabradas?<br \/>\nANACLETA \u2013 Minha m\u00e3e \u2013 Deus a perdoe! \u2013 lan\u00e7ou-me na roda dos<br \/>\nenjeitados. Na Santa Casa fui criada e educada&#8230;<\/p>\n<p>PEDESTRE \u2013 Boa educa\u00e7\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>ANACLETA \u2013 Privada dos carinhos maternais, pobre e abandonada como eu<br \/>\nera, encontrei nessa casa de miseric\u00f3rdia crist\u00e3 amparo e prote\u00e7\u00e3o; nela cresci e nela<br \/>\naprendi a orar a Deus pelos meus benfeitores e por minha m\u00e3e, que me havia<br \/>\nabandonado, minha m\u00e3e, de quem s\u00f3 possuo no mundo esta cruz que desde o ber\u00e7o me<br \/>\nacompanha&#8230; (Assim dizendo, beija uma cruzinha que traz pendente ao pesco\u00e7o.)<br \/>\nPEDESTRE \u2013 Esta hist\u00f3ria eu j\u00e1 ouvi muitas vezes, e faz-me sono&#8230;<\/p>\n<p>ANACLETA \u2013 Pois dorme.<\/p>\n<p>PEDESTRE \u2013 Assim era eu tolo. .. Quem se casa n\u00e3o dorme, ou&#8230; Bem sei o que<br \/>\ndigo.<\/p>\n<p>ANACLETA \u2013 Ent\u00e3o vai ouvindo. Como recolhida, tive quatrocentos mil-r\u00e9is<br \/>\nde dote&#8230; E tu te casaste comigo por causa desses quatrocentos mil-r\u00e9is, e s\u00f3 por eles.<\/p>\n<p>PEDESTRE \u2013 Eu os daria agora a quem me livrasse da pens\u00e3o de te guardar.<\/p>\n<p>ANACLETA \u2013 E deixei assim uma habita\u00e7\u00e3o de paz por este inferno em que<br \/>\nvivo. Oh, mas estou resolvida, tomarei uma resolu\u00e7\u00e3o. Fugirei desta casa, onde vivo<br \/>\ncomo miser\u00e1vel escrava; irei ter com meus benfeitores, contar-lhes-ei o que tenho<br \/>\nsofrido desde que os deixei. Pedirei justi\u00e7a, para mim e para tua primeira v\u00edtima&#8230; Oh,<br \/>\nrecorda-te bem, Andr\u00e9, que tua primeira mulher, a infeliz m\u00e3e de Balbina, morreu<br \/>\narrebentada de desgostos, e que teus loucos ci\u00fames abriram-lhe a sepultura&#8230;<\/p>\n<p>PEDESTRE \u2013 Morreu para minha tranq\u00fcilidade; j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 preciso vigi\u00e1-la&#8230;<\/p>\n<p>ANACLETA \u2013 Oh, que monstro!<br \/>\nPEDESTRE \u2013 Anacleta! Anacleta! Tu queres pregar-me alguma! Nunca te ouvi<br \/>\nfalar assim, e se agora o fazes, \u00e9 que te sentes culpada&#8230;<\/p>\n<p>ANACLETA \u2013 N\u00e3o, \u00e9 que me sinto cansada; j\u00e1 n\u00e3o posso com esta vida; n\u00e3o<br \/>\nquero morrer como ela.<\/p>\n<p>PEDESTRE \u2013 At\u00e9 agora tenho-te tratado como um fidalgo, nada te tem faltado,<br \/>\na n\u00e3o ser a liberdade&#8230;<\/p>\n<p>ANACLETA, \u00e0 parte \u2013 \u00c9 o necess\u00e1rio&#8230;<\/p>\n<p>PEDESTRE \u2013 Confiava em ti&#8230; porque tinha sempre a minha porta fechada. Mas<br \/>\nminha filha enganou-me, apesar das portas fechadas, e tu tamb\u00e9m me enganar\u00e1s&#8230;<\/p>\n<p>ANACLETA \u2013 Oh!<br \/>\nPEDESTRE, com voz concentrada \u2013 Se \u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o me enganaste!<br \/>\nANACLETA \u2013 Isto \u00e9 muito!<br \/>\nPEDESTRE, pegando-lhe pelo bra\u00e7o \u2013 Mulher, se eu tivesse a mais pequena<br \/>\ndesconfian\u00e7a, o menor ind\u00edcio que&#8230; bem me entendes&#8230; eu&#8230; eu&#8230; te mataria!<br \/>\nANACLETA, recuando, horrorizada \u2013 Ah!<br \/>\nPEDESTRE, caminhando para ela \u2013 Sim, a minha afronta eu lavaria no teu<br \/>\nsangue, e a minha&#8230; (Aqui v\u00ea ele no seio da mulher a ponta da carta que Paulino meteu<br \/>\npor baixo da porta e que ela apanhou, e com rapidez a arrebata.)<br \/>\nANACLETA \u2013 Ah! (\u00c0 parte:) Estou perdida!<br \/>\nPEDESTRE, com a carta na m\u00e3o \u2013 Uma carta! Hoje j\u00e1 s\u00e3o duas! Chovem cartas<br \/>\nem minha casa, apesar das portas fechadas! Ela tamb\u00e9m! (Indo para Anacleta:) De<br \/>\nquem \u00e9 esta carta? Eu tremo de a ler!<br \/>\nANACLETA \u2013 Esta carta?<br \/>\nPEDESTRE \u2013 Sim!<br \/>\nANACLETA \u2013 N\u00e3o sei&#8230;<\/p>\n<p>PEDESTRE \u2013 Oh! (Abrindo a carta com furor e amarrotando-a nas m\u00e3os:) Eila!<br \/>\n(Arredando-a dos olhos, todo tr\u00eamulo.)<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"avancar\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Martins Pena [OU O TERR\u00cdVEL CAPIT\u00c3O DO MATO] Com\u00e9dia em 1 ato PERSONAGENS ANDR\u00c9 JO\u00c3O, pedestre BALBINA, sua filha ANACLETA, sua mulher ALEXANDRE, amante de Balbina PAULINO, amante de Anacleta ROBERTO, pai de Anacleta O cabo da patrulha Soldados permanentes A cena passa-se no Rio de Janeiro. [ATO \u00daNICO] Sala ordin\u00e1ria. 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