{"id":114095,"date":"2017-03-17T10:34:52","date_gmt":"2017-03-17T12:34:52","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=114095"},"modified":"2017-03-17T10:34:52","modified_gmt":"2017-03-17T12:34:52","slug":"o-novico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-novico","title":{"rendered":"O Novi\u00e7o"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"467\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique<br \/>\n          nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t    <a href=\"#1\" class=\"links\">Ato Primeiro<\/a><br \/>\n            <a href=\"#2\" class=\"links\">Ato Segundo<\/a><br \/>\n            <a href=\"#3\" class=\"links\">Ato Terceiro<\/a> <\/strong> <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h4>Martins Pena<\/h4>\n<p><b>Com&eacute;dia em 3 atos<\/b><\/p>\n<p> <strong>PERSONAGENS<\/strong><\/p>\n<p> AMBR&Oacute;SIO.<br \/>\n    FLOR&Ecirc;NCIA, sua mulher.<br \/>\n    EM&Iacute;LIA, sua filha.<br \/>\n    JUCA, 9 anos, dito.<br \/>\n    CARLOS, novi&ccedil;o da Ordem de S. Bento.<br \/>\n    ROSA, provinciana, primeira mulher de Ambr&oacute;sio.<br \/>\n    PADRE-MESTRE DOS NOVI&Ccedil;OS.<br \/>\n    JORGE.<br \/>\n    JOS&Eacute;, criado.<br \/>\n    1 meirinho, que fala.<br \/>\n    2 ditos, que n&atilde;o falam.<br \/>\n    Soldados de Permanentes, etc, etc.<\/p>\n<p> <b>( A cena passa-se no Rio de Janeiro.)<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"1\">Ato Primeiro<\/a><\/h4>\n<p>(A cena passa-se no Rio de Janeiro)<\/p>\n<p>Sala ricamente adornada: mesa, consolos, mangas de vidro, jarras com flores,<br \/>\n    cortinas, etc., etc. No fundo, porta de sa&iacute;da, uma janela, etc., etc.<\/p>\n<h2>CENA I<\/h2>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, s&oacute; de cal&ccedil;a preta e chambre &#8211; No mundo a fortuna<br \/>\n    &eacute; para quem sabe adquiri-la. Pintam-na cega&#8230; Que simplicidade! Cego<br \/>\n    &eacute; aquele que n&atilde;o tem intelig&ecirc;ncia para v&ecirc;-la e a<br \/>\n    alcan&ccedil;ar. Todo homem pode ser rico, se atinar com o verdadeiro caminho<br \/>\n    da fortuna. Vontade forte, perseveran&ccedil;a e pertin&aacute;cia s&atilde;o<br \/>\n    poderosos auxiliares. Qual o homem que, resolvido a empregar todos os meios,<br \/>\n    n&atilde;o consegue enriquecer-se? Em mim se v&ecirc; o exemplo. H&aacute;<br \/>\n    oito anos, eu era pobre e miser&aacute;vel, e hoje sou rico, e mais ainda<br \/>\n    serei. O como n&atilde;o importa; no bom resultado est&aacute; o m&eacute;rito&#8230;<br \/>\n    Mas um dia pode tudo mudar. Oh, que temo eu? Se em algum tempo tiver que responder<br \/>\n    pelos meus atos, o ouro justificar-me-&aacute; e serei limpo de culpa. As<br \/>\n    leis criminais fizeram-se para os pobres<\/p>\n<h2>CENA II<\/h2>\n<p>Entra Flor&ecirc;ncia vestida de preto, como quem vai &agrave; festa.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Entrando &#8211; Ainda despido, Sr. Ambr&oacute;sio?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; &Eacute; cedo (Vendo o rel&oacute;gio) S&atilde;o nove<br \/>\n    horas e o of&iacute;cio de Ramos principia &agrave;s dez e meia.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; &Eacute; preciso ir mais cedo para tomarmos lugar.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Para tudo h&aacute; tempo. Ora, dize-me, minha bela Flor&ecirc;ncia&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; O que, meu Ambrosinho?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; O que pensa tua filha do nosso projeto?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; O que pensa n&atilde;o sei eu, nem disso se me d&aacute;;<br \/>\n    quero eu &#8211; e basta. E &eacute; seu dever obedecer.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Assim &eacute;; estimo que tenhas car&aacute;ter en&eacute;rgico.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Energia tenho eu.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; E atrativos, feiticeira.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA- Ai, amorzinho! (&agrave; parte: ) Que marido!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Escuta-me, Flor&ecirc;ncia, e d&aacute;-me aten&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Cr&ecirc; que ponho todo o meu pensamento em fazer-te feliz&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Toda eu sou aten&ccedil;&atilde;o<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Dous filhos te ficaram do teu primeiro matrim&ocirc;nio.<br \/>\n    Teu marido foi um digno homem de muito ju&iacute;zo; deixou-te herdeira de<br \/>\n    avultado cabedal. Grande m&eacute;rito &eacute; esse&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Pobre homem!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Quando eu te vi pela primeira vez n&atilde;o sabia que<br \/>\n    era vi&uacute;va rica. ( &agrave; parte: ) Se o sabia! (Alto: ) Amei-te por<br \/>\n    simpatia.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Sei disso, vidinha.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; E n&atilde;o foi o interesse que obrigou-me a casar contigo.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Foi o amor que nos uniu.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Foi, foi, mas agora que me acho casado contigo, &eacute;<br \/>\n    de meu dever zelar essa fortuna que sempre desprezei. <\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA, &agrave; parte &#8211; Que marido!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, &agrave; parte &#8211; Que tola! (Alto:) At&eacute; o presente<br \/>\n    tens gozada desta fortuna em plena liberdade e a teu bel-prazer; mas daqui<br \/>\n    em diante, talvez assim n&atilde;o seja.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; E por qu&ecirc;?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Tua filha est&aacute; mo&ccedil;a e em estado de casar-se.<br \/>\n    Casar-se-&aacute;, e ter&aacute;s um genro que exigir&aacute; a leg&iacute;tima<br \/>\n    de sua mulher, e desse dia, principiar&atilde;o as amofina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    para ti, e intermin&aacute;veis demandas . Bem sabes que ainda n&atilde;o<br \/>\n    fizestes invent&aacute;rio.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; N&atilde;o tenho tido tempo, e custa-me tanto aturar procuradores!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Teu filho tamb&eacute;m vai a crescer todos os dias e ser&aacute;<br \/>\n    preciso por fim dar-lhe a sua leg&iacute;tima&#8230; Novas demandas<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; N&atilde;o, n&atilde;o quero demandas.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; &Eacute; o que eu tamb&eacute;m digo; mas como preven&iacute;-las?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Faze o que entenderes, meu amorzinho.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Eu j&aacute; te disse h&aacute; mais de tr&ecirc;s meses<br \/>\n    o que era preciso fazermos para atalhar esse mal. Amas a tua filha, o que<br \/>\n    &eacute; muito natural, mas amas ainda mais a ti mesma&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; O que tamb&eacute;m &eacute; muito natural&#8230;<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Que d&uacute;vida! E eu julgo que podes conciliar esses<br \/>\n    dous pontos, fazendo Em&iacute;lia professar em um convento. Sim, que seja<br \/>\n    freira. N&atilde;o ter&aacute;s nesse caso de dar leg&iacute;tima alguma,<br \/>\n    apenas um insignificante dote &#8211; e far&aacute;s a&ccedil;&atilde;o merit&oacute;ria.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Coitadinha! Sempre tenho pena dela; o convento &eacute;<br \/>\n    t&atilde;o triste!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; &Eacute; essa compaix&atilde;o mal-entendida! O que &eacute;<br \/>\n    este mundo? Um p&eacute;lago de enganos e trai&ccedil;&otilde;es, um escolho<br \/>\n    em naufragam a felicidade e as doces ilus&otilde;es da vida. E o que &eacute;<br \/>\n    o convento? Porto de salva&ccedil;&atilde;o e ventura, asilo da virtude, &uacute;nico<br \/>\n    abrigo da inoc&ecirc;ncia e verdadeira felicidade&#8230; E deve uma m&atilde;e<br \/>\n    carinhosa hesitar na escolha entre o mundo e o convento?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; N&atilde;o, por certo&#8230;<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; A mocidade &eacute; inexperiente, n&atilde;o sabe o que<br \/>\n    lhe conv&eacute;m. Tua filha lamentar-se-&aacute;, chorar&aacute; desesperada,<br \/>\n    n&atilde;o importa; obriga-a e da&iacute; tempo ao tempo. Depois que estiver<br \/>\n    no convento e acalmar-se esse primeiro fogo, aben&ccedil;oar&aacute; o teu<br \/>\n    nome e, junto ao altar, no &ecirc;xtase de sua tranq&uuml;ilidade e verdadeira<br \/>\n    felicidade, rogar&aacute; a Deus por ti. (&Agrave; parte:) E a leg&iacute;tima<br \/>\n    ficar&aacute; em casa.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Tens raz&atilde;o, meu Ambrosinho, ela ser&aacute; freira.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; A respeito de teu filho direi o mesmo. Tem ele nove anos<br \/>\n    e ser&aacute; prudente criarmo-lo desde j&aacute; para frade.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; J&aacute; ontem comprei-lhe o h&aacute;bito com que andar&aacute;<br \/>\n    vestido daqui em diante. <\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Assim n&atilde;o estranhar&aacute; quando chegar &agrave;<br \/>\n    idade de entrar no convento; ser&aacute; frade feliz. ( &Agrave; parte:) E<br \/>\n    a leg&iacute;tima tamb&eacute;m ficar&aacute; em casa.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Que sacrif&iacute;cios n&atilde;o farei eu para a ventura<br \/>\n    dos meus filhos!<\/p>\n<h2>CENA III<\/h2>\n<p>Entra Juca, vestido de frade, com chap&eacute;u desabado, tocando um assobio.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Anda c&aacute;, filhinho. Como estais galante com esse<br \/>\n    h&aacute;bito!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Juquinha, gostas desta roupa?<\/p>\n<p>JUCA &#8211; N&atilde;o , n&atilde;o me deixa correr, &eacute; preciso levantar<br \/>\n    assim&#8230; (Arrega&ccedil;a o h&aacute;bito)<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Logo te acostumar&aacute;s.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Filhinho, h&aacute;s-de ser um fradinho muito bonito.<\/p>\n<p>JUCA, chorando &#8211; N&atilde;o quero ser frade!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Ent&atilde;o, o que &eacute; isso?<\/p>\n<p>JUCA &#8211; Hi, hi, hi&#8230; N&atilde;o quero ser frade!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Menino!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Pois n&atilde;o te darei o carrinho que te prometi, todo<br \/>\n    bordado de prata, com cvalos de ouro.<\/p>\n<p>JUCA, rindo-se &#8211; Onde est&aacute; o carrinho?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; J&aacute; o encomendei; &eacute; cousa muito bonita: os<br \/>\n    arreios todos enfeitados de fitas e veludo.<\/p>\n<p>JUCA &#8211; Os cavalos s&atilde;o de ouro?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Pois n&atilde;o, de ouro com olhos de brilhantes.<\/p>\n<p>JUCA &#8211; E andam s&oacute;zinhos?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Se andam! De marcha e passo.<\/p>\n<p>JUCA &#8211; Andam, mam&atilde;e?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Correm, filhinho.<\/p>\n<p>JUCA, saltando de contente &#8211; Como &eacute; bonito! E o carrinho tem rodas,<br \/>\n    capim para os cavalos, uma mo&ccedil;a bem enfeitada?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; N&atilde;o lhe falta nada.<\/p>\n<p>JUCA &#8211; E quando vem?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Assim que estiver pronto.<\/p>\n<p>JUCA, saltando e cantando, &#8211; Eu quero ser frade, eu quero ser frade&#8230; (Etc.)<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, para Flor&ecirc;ncia &#8211; Assim o iremos acostumando<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Coitadinho, &eacute; preciso comprar-lhe o carrinho!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, rindo-se &#8211; Com cavalos de ouro?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; N&atilde;o.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Basta que se compre uma caixinha com soldadinhos de chumbo.<\/p>\n<p>JUCA, saltando pela sala &#8211; Eu quero ser frade!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Est&aacute; bom, Juquinha, ser&aacute;s frade, mas n&atilde;o<br \/>\n    grites tanto. Vai l&aacute; para dentro.<\/p>\n<p>JUCA sai cantando &#8211; Eu quero ser frade&#8230; (etc.)<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Estas crian&ccedil;as&#8230;<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Este levaremos com facilidade&#8230; De pequenino se torce<br \/>\n    o pepino&#8230; Cuidado me d&aacute; o teu sobrinho Carlos.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; J&aacute; vai para seis meses que ele entrou como novi&ccedil;o<br \/>\n    no convento.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; E queira Deus que decorra o ano inteiro para professar,<br \/>\n    que s&oacute; assim ficaremos tranq&uuml;ilos.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; E se fugir do convento?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; L&aacute; isso n&atilde;o temo eu&#8230; Est&aacute; bem recomendado.<br \/>\n    &Eacute; preciso empregarmos toda nossa autoridade para obrig&aacute;-lo a<br \/>\n    professar. O motivo, bem o sabes&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Mas olha que Carlos &eacute; da pele, &eacute; endiabrado.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Outros tenho eu domado&#8230; V&atilde;o sendo horas de sairmos,<br \/>\n    vou me vestir (Sai pela esquerda.)<\/p>\n<h2>CENA IV<\/h2>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Se n&atilde;o fosse este homem com quem casei-me segunda<br \/>\n    vez, n&atilde;o teria agora quem zelasse com tanto desinteresse a minha fortuna.<br \/>\n    &Eacute; uma bela pessoa&#8230; Rodeia-me de cuidados e carinhos. Ora, digam l&aacute;<br \/>\n    que uma mulher n&atilde;o deve casar-se segunda vez&#8230; Se eu soubesse que<br \/>\n    havia de ser sempre t&atilde;o feliz, casar-me-ia cinq&uuml;enta.<\/p>\n<h2>CENA V<\/h2>\n<p>Entrou Em&iacute;lia, vestida de preto, como querendo atravessar a sala.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Em&iacute;lia, vem c&aacute;.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Senhora?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Chega aqui. &Oacute; menina, n&atilde;o deixar&aacute;s<br \/>\n    este ar triste e lagrimoso em que andas?<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Minha m&atilde;e, eu n&atilde;o estou triste. (Limpa os olhos<br \/>\n    com o len&ccedil;o.)<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; A&iacute; tem! N&atilde;o digo? A chorar. De que chora?<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; De nada, n&atilde;o senhora.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Ora, isto &eacute; insuport&aacute;vel! Mata-se e amofina-se<br \/>\n    uma m&atilde;e extremosa para fazer a felicidade da sua filha, e como agradece<br \/>\n    esta? Arrepelando-se e chorando. Ora, sejam l&aacute; m&atilde;e e tenham<br \/>\n    filhos desobedientes&#8230;<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; N&atilde;o sou desobediente. Far-lhe-ei a vontade; mas n&atilde;o<br \/>\n    posso deixar de chorar e sentir. (Aqui aparece &agrave; porta por onde saiu,<br \/>\n    Ambr&oacute;sio, em mangas de camisa, para observar)<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; E por que tanto chora a menina, por qu&ecirc;?<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Minha m&atilde;e&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; O que tem de mau a vida de freira?<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Ser&aacute; muito boa, mas &eacute; que n&atilde;o tenho<br \/>\n    inclina&ccedil;&atilde;o nenhuma para ela.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Inclina&ccedil;&atilde;o, inclina&ccedil;&atilde;o! O que<br \/>\n    quer dizer inclina&ccedil;&atilde;o? Ter&aacute;s, sem d&uacute;vida, por<br \/>\n    algum francelho freq&uuml;entador de bailes e passeios, jogador do &eacute;cart&eacute;<br \/>\n    e dan&ccedil;ador de polca? Essas inclina&ccedil;&otilde;es &eacute; que perdem<br \/>\n    muitas meninas. esta cabecinha ainda est&aacute; muito leve; eu &eacute; que<br \/>\n    sei o que me conv&eacute;m: ser&aacute;s freira.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Serei freira, minha m&atilde;e, serei! Assim como estou certa<br \/>\n    que hei-de ser desgra&ccedil;ada.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Hist&oacute;rias! Sabes tu o que &eacute; o mundo? O mundo<br \/>\n    &eacute;&#8230; &eacute;&#8230; (&Agrave; parte:) J&aacute; n&atilde;o me recordo<br \/>\n    o que me disse o Sr. Ambr&oacute;sio o que era o mundo. (Alto:) O mundo &eacute;&#8230;<br \/>\n    um&#8230; &eacute;&#8230; (&Agrave; parte:) E esta? (Vendo Ambr&oacute;sio junto da<br \/>\n    porta:) Ah, Ambr&oacute;sio, dize aqui a esta estonteada o que &eacute; o<br \/>\n    mundo.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, adiantando-se &#8211; O mundo &eacute; um p&eacute;lago de enganos<br \/>\n    e trai&ccedil;&otilde;es, um escolho em que naufragam as felicidades e as<br \/>\n    doces ilus&otilde;es da vida&#8230; E o convento &eacute; porto de salva&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e ventura, &uacute;nico abrigo da inoc&ecirc;ncia e da verdadeira felicidade&#8230;<br \/>\n    Onde est&aacute; minha casaca?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; L&aacute; em cima no s&oacute;t&atilde;o. (Ambr&oacute;sio<br \/>\n    sai pela direita. Flor&ecirc;ncia para Em&iacute;lia:) Ouviste o que &eacute;<br \/>\n    o mundo, e o convento? N&atilde;o sejas pateta, vem acabar de vestir-te, que<br \/>\n    s&atilde;o mais que horas. (Sai pela direita)<\/p>\n<h2>CENA VI<\/h2>\n<p>Em&iacute;lia e depois Carlos<\/p>\n<p>EM&Igrave;LIA &#8211; &Eacute; minha m&atilde;e, devo-lhe obedi&ecirc;ncia, mas<br \/>\n    este homem, meu padrasto, como o detesto! Estou certa que foi ele quem persuadiu<br \/>\n    a minha m&atilde;e que me metesse no convento. Ser freira? Oh, n&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o! E Carlos, que tanto amo? Pobre Carlos, tamb&eacute;m te perseguem!<br \/>\n    E por que nos perseguem assim? N&atilde;o sei. Como tudo mudou nesta casa,<br \/>\n    depois que minha m&atilde;e casou-se com este homem! Ent&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    pensou ela na felicidade de seus filhos. Ai, ai!<\/p>\n<h2>CENA VII<\/h2>\n<p>Carlos, com h&aacute;bito de novi&ccedil;o, entra assustado e fecha a porta.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA, assustando-se &#8211; Ah, quem &eacute;? Carlos!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Cala-te<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Meu Deus, o que tens, por que est&aacute;s t&atilde;o assustado?<br \/>\n    O que foi?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Aonde est&aacute; minha tia, e o teu padrasto?<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; L&aacute; em cima. Mas o que tens?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Fugi do convento, e a&iacute; v&ecirc;m eles atr&aacute;s de mim.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Fugiste? E por que motivo?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Por que motivo? pois faltam motivos para se fugir de um convento?<br \/>\n    O &uacute;ltimo foi o jejum em que vivo h&aacute; sete dias&#8230; V&ecirc; como<br \/>\n    tenho esta barriga, vai a sumir-se. Desde sexta feira passada que n&atilde;o<br \/>\n    mastigo peda&ccedil;o que valha a pena.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Coitado!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Hoje, j&aacute; n&atilde;o podendo, questionei com o D. Abade. Palavras<br \/>\n    puxam palavras; dize tu, direi eu, e por fim de contas arrumei-lhe uma cabe&ccedil;ada,<br \/>\n    que o atirei por esses ares.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; O que fizestes, louco?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; E que culpa tenho eu, se tenho a cabe&ccedil;a esquentada? Para<br \/>\n    que querem violentar minhas inclina&ccedil;&otilde;es? N&atilde;o nasci para<br \/>\n    frade, n&atilde;o tenho jeito nenhum para estar horas inteiras no coro a rezar<br \/>\n    com os bra&ccedil;os encruzados. N&atilde;o me vai o gosto para a&iacute;&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o posso jejuar; tenho, pelo mesno tr&ecirc;s vezes ao dia, uma fome<br \/>\n    de todos os diabos. Militar &eacute; que eu quisera ser; para a&iacute; chama-me<br \/>\n    a inclina&ccedil;&atilde;o. Bordoadas, espadeiradas, rusgas &eacute; que me<br \/>\n    regalam; esse &eacute; o meu g&ecirc;nio. Gosto de teatro, e de l&aacute;<br \/>\n    ningu&eacute;m vai ao teatro, &agrave; exce&ccedil;&atilde;o de Frei Maur&iacute;cio,<br \/>\n    que freq&uuml;enta a plat&eacute;ia de casaca e cabelereira para esconder<br \/>\n    a coroa.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Pobre Carlos, como ter&aacute;s passado estes seis meses<br \/>\n    de noviciado!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Seis meses de mart&iacute;rio! N&atilde;o que a vida de frade seja<br \/>\n    m&aacute;; boa &eacute; ela para quem a sabe gozar e que para ela nasceu;<br \/>\n    mas eu, priminha, eu que tenho para tal vidinha nega&ccedil;&atilde;o completa,<br \/>\n    n&atilde;o posso!<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; E os nossos parentes quando nos obrigam a seguir uma carreira<br \/>\n    para a qual n&atilde;o temos inclina&ccedil;&atilde;o alguma, dizem que o<br \/>\n    tempo acostumar-nos-&aacute;.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; O tempo acostumar! Eis a&iacute; porque vemos entre n&oacute;s tantos<br \/>\n    absurdos e disparates. Este tem jeito para sapateiro: pois v&aacute; estudar<br \/>\n    medicina&#8230; Excelente m&eacute;dico! Aquele tem inclina&ccedil;&atilde;o para<br \/>\n    c&ocirc;mico: pois n&atilde;o senhor, ser&aacute; pol&iacute;tico&#8230; Ora,<br \/>\n    ainda isso v&aacute;. Estoutro s&oacute; tem jeito para caiador ou borrador:<br \/>\n    nada, &eacute; of&iacute;cio que n&atilde;o presta&#8230; Seja diplomata, que<br \/>\n    borra tudo quanto faz. Aqueloutro chama-lhe toda a propens&atilde;o para a<br \/>\n    ladroeira; manda o bom senso que se corrija o sujeitinho, mas isso n&atilde;o<br \/>\n    se faz; seja tesoureiro de reparti&ccedil;&atilde;o fiscal, e l&aacute; se<br \/>\n    v&atilde;o os cofres da na&ccedil;&atilde;o &agrave; garra&#8230; Essoutro tem<br \/>\n    uma grande carga de pregui&ccedil;a e indol&ecirc;ncia e s&oacute; serviria<br \/>\n    para leigo de convento, no entanto vemos o bom do mandri&atilde;o empregado<br \/>\n    p&uacute;blico, comendo com as m&atilde;os encruzadas sobre a pan&ccedil;a<br \/>\n    o pingue ordenado da na&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Tens muita raz&atilde;o; assim &eacute;.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Este nasceu para poeta ou escritor, com uma imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    fogosa e independente, capaz de grandes cousas, mas n&atilde;o pode seguir<br \/>\n    a sua inclina&ccedil;&atilde;o, porque poetas e escritores morrem de mis&eacute;ria,<br \/>\n    no Brasil&#8230; E assim o obriga a necessidade a ser o mais somenos amanuense<br \/>\n    em uma reparti&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica e a copiar cinco horas por<br \/>\n    dia os mais son&iacute;feros pap&eacute;is. O que acontece? Em breve matam-lhe<br \/>\n    a intelig&ecirc;ncia e fazem do homem pensante m&aacute;quina est&uacute;pida,<br \/>\n    e assim se gasta uma vida? &Eacute; preciso, &eacute; j&aacute; tempo que<br \/>\n    algu&eacute;m olhe para isso, e algu&eacute;m que possa.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Quem pode nem sempre sabe o que se passa entre n&oacute;s,<br \/>\n    para poder remediar; &eacute; preciso falar.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; O respeito e a mod&eacute;stia prendem muitas l&iacute;nguas, mas<br \/>\n    l&aacute; vem um dia que a voz da raz&atilde;o se faz ouvir, e tanto mais<br \/>\n    forte quanto mais comprimida.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Mas Carlos, hoje te estou desconhecendo&#8230;<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; A contradi&ccedil;&atilde;o em que vivo tem-me exasperado! E como<br \/>\n    queres tu que eu n&atilde;o fale quando vejo, aqui, um p&eacute;ssimo cirurgi&atilde;o<br \/>\n    que poderia ser bom alveitar; ali um ignorante general que poderia ser excelente<br \/>\n    enfermeiro; acol&aacute;, um periodiqueiro que s&oacute; serviria para arrieiro,<br \/>\n    t&atilde;o desbocado e insolente &eacute;, etc., etc. Tudo est&aacute; fora<br \/>\n    de seus eixos.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Mas que queres tu que se fa&ccedil;a?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Que n&atilde;o se constranja ningu&eacute;m, que se estudem os homens<br \/>\n    e que haja uma bem entendida e esclarecida prote&ccedil;&atilde;o, e que,<br \/>\n    sobretudo, se despreze o patronato, que assenta o jumento nas bancas das academias<br \/>\n    e amarra o homem de talento &agrave; manjedoura. Eu, que quisera viver com<br \/>\n    uma espada &agrave; cinta e &agrave; frente do meu batalh&atilde;o, conduzi-lo<br \/>\n    ao inimigo atrav&eacute;s da metralha, bradando: &quot;Marcha&#8230; (Manobrando<br \/>\n    pela sala, entusiasmado:) Camaradas, coragem, calar baionetas! Marche, marche!<br \/>\n    Firmeza, avan&ccedil;a! O inimigo fraqueia&#8230; (Seguindo Em&iacute;lia, que<br \/>\n    recua, espantada:) Avan&ccedil;a!&quot;<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Primo, primo, que &eacute; isso? Fique quieto!<\/p>\n<p>CARLOS, entusiasmado &#8211; &quot;Avan&ccedil;a, bravos companheiros, viva a P&aacute;tria<br \/>\n    Viva!&quot; &#8211; e voltar vitorioso, coberto de sangue e poeira&#8230; Em vez desta<br \/>\n    vida de agita&ccedil;&atilde;o e gl&oacute;ria, hei-de ser frade, revestir-me<br \/>\n    de paci&ecirc;ncia e humildade, encomendar defuntos&#8230; (Cantando:) Requiescat<br \/>\n    in pace&#8230; a porta inferi! amen&#8230; O que seguir&aacute; disto? O ser eu p&eacute;ssimo<br \/>\n    frade, descr&eacute;dito do convento e vergonha do h&aacute;bito que visto.<br \/>\n    Falta-me a paci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Paci&ecirc;ncia, Carlos, preciso eu tamb&eacute;m ter, e<br \/>\n    muita. Minha m&atilde;e declarou-me positivamente que eu hei-de ser freira.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Tu, freira? Tamb&eacute;m te perseguem?<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; E meu padrasto amea&ccedil;a-me.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Em&iacute;lia, aos cinco anos estava eu &oacute;rf&atilde;o, e tua<br \/>\n    m&atilde;e, minha tia, foi nomeada por meu pai sua testamenteira e minha tutora.<br \/>\n    Contigo cresci nesta casa e &agrave; amizade de crian&ccedil;a seguiu-se inclina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mais forte&#8230; Eu te amei, Em&iacute;lia, e tu tamb&eacute;m me amaste.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Carlos!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Viv&iacute;amos felizes esperando que um dia nos unir&iacute;amos.<br \/>\n    Nesses planos est&aacute;vamos quando apareceu este homem, n&atilde;o sei<br \/>\n    donde, e que soube a tal ponto iludir tua m&atilde;e, que a fez esquecer-se<br \/>\n    de seus filhos que tanto amava, de seus interesses e contrair segundas n&uacute;pcias.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Desde ent&atilde;o nossa vida tem sido tormentosa&#8230;<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Obrigaram-me a ser novi&ccedil;o, e n&atilde;o contentes com isso,<br \/>\n    querem-te fazer freira. Em&iacute;lia, h&aacute; muito tempo que eu observo<br \/>\n    este teu padrasto. E sabes qual tem sido o resultado das minhas observa&ccedil;&otilde;es?<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; N&atilde;o.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Que ele &eacute; um rematad&iacute;ssimo velhaco.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Oh, est&aacute;s bem certo disso?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Cert&iacute;ssimo! Esta resolu&ccedil;&atilde;o que tomaram, de<br \/>\n    fazerem-te freira, confirma a minha opini&atilde;o.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Explica-te<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Teu padrasto persuadia a minha tia que me obrigasse a ser frade<br \/>\n    para assim roubar-me, impunemente , a heran&ccedil;a que meu pai deixou-me.<br \/>\n    Um frade n&atilde;o p&otilde;e demandas&#8230;<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; &Eacute; poss&iacute;vel?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Ainda mais; querem que tu sejas freira para n&atilde;o te darem<br \/>\n    dote, se te casares.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Carlos, quem te disso isso? Minha m&atilde;e n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    capaz!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Tua m&atilde;e vive iludida. Oh, que n&atilde;o possa eu desmascarar<br \/>\n    este tratante!&#8230;<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Fala baixo!<\/p>\n<h2>CENA VIII<\/h2>\n<p>Entra Juca<\/p>\n<p>JUCA &#8211; Mana, mam&atilde;e pergunta por voc&ecirc;.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; De h&aacute;bito? Tamb&eacute;m ele? Ah!&#8230;<\/p>\n<p>JUCA, correndo para Carlos &#8211; Primo Carlos.<\/p>\n<p>CARLOS, tomando-o no colo &#8211; Juquinha! Ent&atilde;o, prima, tenho ou n&atilde;o<br \/>\n    raz&atilde;o? H&aacute; ou n&atilde;o plano?<\/p>\n<p>JUCA &#8211; Primo, voc&ecirc; tamb&eacute;m &eacute; frade? J&aacute; lhe deram<br \/>\n    tamb&eacute;m um carrinho de prata com cavalos de ouro?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; O que dizes?<\/p>\n<p>JUCA &#8211; Mam&atilde;e disse que havia de me dar um muito dourado quando eu<br \/>\n    fosse frade (Cantando:) Eu quero ser frade&#8230; (etc., etc.)<\/p>\n<p>CARLOS, para Em&iacute;lia &#8211; Ainda duvidas? V&ecirc; como enganam esta inocente<br \/>\n    crian&ccedil;a!<\/p>\n<p>JUCA &#8211; N&atilde;o enganam n&atilde;o, primo; os cavalos andam sozinhos.<\/p>\n<p>CARLOS, para Em&iacute;lia &#8211; Ent&atilde;o?<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Meu Deus!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Deixa o caso por minha conta. Hei-de fazer uma estralada de todos<br \/>\n    os diabos, ver&atilde;o&#8230; <\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Prud&ecirc;ncia!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Deixa-os comigo. Adeus, Juquinha, vai para dentro com tua irm&atilde;<br \/>\n    (Bota-o no ch&atilde;o.)<\/p>\n<p>JUCA &#8211; Vamos, mana. (Sai cantando:) Eu quero ser frade&#8230; (Em&iacute;lia<br \/>\n    o segue.)<\/p>\n<p>CENA IX<\/p>\n<p>CARLOS, s&oacute; &#8211; Hei-de descobrir algum meio&#8230; Oh, se hei-de! Hei-de<br \/>\n    ensinar a este patife, que casou-se com minha tia para comer n&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    a sua fortuna, como a de seus filhos. Que belo padrasto!.. Mas por ora tratemos<br \/>\n    de mim; sem d&uacute;vida no convento anda tudo em polvorosa&#8230; Foi boa cabe&ccedil;ada!<br \/>\n    O D. Abade deu um salto de trampolim&#8230; (Batem &agrave; porta.) Batem? Mau!<br \/>\n    Ser&atilde;o eles? (Batem.) Espreitemos pelo buraco da fechadura. (Vai espreitar)<br \/>\n    &Eacute; uma mulher&#8230; (Abre aporta.)<\/p>\n<h2>CENA X<\/h2>\n<p>Rosa e Carlos.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; D&aacute; licen&ccedil;a?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Entre.<\/p>\n<p>ROSA, entrando &#8211; Uma serva de Vossa Reverend&iacute;ssima.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Com quem tenho o prazer de falar? <\/p>\n<p>ROSA &#8211; Eu, Reverend&iacute;ssimo Senhor, sou uma pobre mulher. Ai, estou<br \/>\n    muito cansada&#8230;<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Pois sente-se, senhora. (&Agrave; parte:) Quem ser&aacute;?<\/p>\n<p>ROSA, sentando-se &#8211; Eu chamo-me Rosa. H&aacute; uma hora que cheguei do Cear&aacute;<br \/>\n    no vapor Paquete do Norte.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Deixou aquilo por l&aacute; tranq&uuml;ilo?<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Muito tranq&uuml;ilo, Reverend&iacute;ssimo. Houve apenas no m&ecirc;s<br \/>\n    passado vinte e cinco mortes.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; S. Br&aacute;s! Vinte e cinco mortes! E chama a isso tranq&uuml;ilidade?<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Se Vossa Reverend&iacute;ssima soubesse o que por l&aacute; vai, n&atilde;o<br \/>\n    se admiraria. Mas, meu senhor, isto s&atilde;o cousas que nos n&atilde;o pertencem;<br \/>\n    deixe l&aacute; morrer quem morre, que ningu&eacute;m se importa com isso.<br \/>\n    Vossa Reverend&iacute;ssima &eacute; c&aacute; da casa?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Sim senhora.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Ent&atilde;o &eacute; parente de meu homem?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; De seu homem?<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Sim senhor. <\/p>\n<p>CARLOS &#8211; E quem &eacute; seu homem?<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Sr. Ambr&oacute;sio Nunes. <\/p>\n<p>CARLOS &#8211; O Sr. Ambr&oacute;sio Nunes!&#8230; <\/p>\n<p>ROSA &#8211; Somos casados h&aacute; oito anos. <\/p>\n<p>CARLOS &#8211; A senhora &eacute; casada com o Sr. Ambr&oacute;sio Nunes, e isto<br \/>\n    h&aacute; oito anos? <\/p>\n<p>ROSA- Sim senhor. <\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Sabe o que est&aacute; dizendo?<\/p>\n<p>ROSA- Essa &eacute; boa <\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Est&aacute; em seu perfeito ju&iacute;zo? <\/p>\n<p>ROSA &#8211; O Reverend&iacute;ssimo ofende-me&#8230;<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Com a fortuna! Conte-me isso, conte-me como se casou, quando, como,<br \/>\n    em que lugar? <\/p>\n<p>ROSA &#8211; O lugar foi na igreja. Est&aacute; visto. Quando, j&aacute; disse;<br \/>\n    h&aacute; oito anos.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Mas onde?<\/p>\n<p>ROSA, levanta-se &#8211; Eu digo a Vossa Reverend&iacute;ssima. Sou filha do Cear&aacute;.<br \/>\n    Tinha eu meus quinze anos quando l&aacute; apareceu, vindo do Maranh&atilde;o,<br \/>\n    o Sr. Ambr&oacute;sio. Foi morar na nossa vizinhan&ccedil;a. Vossa Reverend&iacute;ssima<br \/>\n    bem sabe o que s&atilde;o vizinhan&ccedil;as&#8230; Eu o via todos os dias, ele<br \/>\n    tamb&eacute;m via-me; eu gostei, ele gostou e nos casamos.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Isso foi anda m&atilde;o, fia dedo&#8230; E tem documentos que provem<br \/>\n    o que diz?<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Sim senhor, trago comigo a certid&atilde;o do vig&aacute;rio que nos<br \/>\n    casou, assinada pelas testemunhas, e pedi logo duas, por causa das d&uacute;vidas.<br \/>\n    Podia perder uma&#8230;<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Continue.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Vivi dois anos com meu marido muito bem. Passado esse tempo, morreu<br \/>\n    minha m&atilde;e. O Sr. Ambr&oacute;sio tomou conta de nossos bens, vendeu-os<br \/>\n    e partiu para Montevid&eacute;u a fim de empregar o dinheiro em um neg&oacute;cio,<br \/>\n    no qual, segundo dizia, hav&iacute;amos de ganhar muito. Vai isto para seis<br \/>\n    anos, mas desde ent&atilde;o, Reverend&iacute;ssimo Senhor, n&atilde;o soube<br \/>\n    mais not&iacute;cias dele. <\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Oh!<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Escrevi-lhe sempre, mas nada de receber resposta. Muito chorei, porque<br \/>\n    pensei que ele havia morrido.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; A hist&oacute;ria vai interessando-me, continue.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Eu j&aacute; estava desenganada, quando um sujeito que foi aqui do<br \/>\n    Rio disse-me que meu marido ainda vivia e que habitava na Corte.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; E nada mais lhe disse?<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Vossa Reverend&iacute;ssima vai espantar-se do que eu disser&#8230; <\/p>\n<p>CARLOS &#8211; N&atilde;o me espanto, diga <\/p>\n<p>ROSA &#8211; O sujeito acrescentou que meu marido tinha-se casado com outra mulher.\n  <\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Ah, disse-lhe isso?<\/p>\n<p>ROSA &#8211; E muito chorei eu, Reverend&iacute;ssimo; mas depois pensei que era<br \/>\n    imposs&iacute;vel, pois um homem pode l&aacute; casar-se tendo a mulher viva?<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; verdade, Reverend&iacute;ssimo?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; A bigamia &eacute; um grande crime; o C&oacute;digo &eacute; muito<br \/>\n    claro.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Mas na d&uacute;vida, tirei as certid&otilde;es do meu casamento,<br \/>\n    parti para o Rio, e assim que desembarquei, indaguei onde ele morava. Ensinaram-me<br \/>\n    e venho eu mesma perguntar-lhe que hist&oacute;rias s&atilde;o essas de casamentos.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Pobre mulher, Deus se compade&ccedil;a de ti!<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Ent&atilde;o &eacute; verdade?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Filha, a resigna&ccedil;&atilde;o &eacute; uma grande virtude. Quer<br \/>\n    fiar-se em mim, seguir meus conselhos?<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Sim senhor, mas que tenho eu a temer? Meu marido est&aacute; com efeito<br \/>\n    casado?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; D&ecirc;-me c&aacute; uma das certid&otilde;es.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Mas&#8230;<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Fia-se ou n&atilde;o em mim?<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Aqui est&aacute;. (D&aacute;-lhe uma das certid&otilde;es.)<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, dentro &#8211; Des&ccedil;am, des&ccedil;am, que passam as horas.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; A&iacute; vem ele.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Meu Deus!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Tomo-a debaixo da minha prote&ccedil;&atilde;o. Venha c&aacute;;<br \/>\n    entre neste quarto. <\/p>\n<p>ROSA &#8211; Mas Reverend&iacute;ssimo&#8230;<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Entre, entre, sen&atilde;o abandono-a. (Rosa entra no quarto &agrave;<br \/>\n    esquerda e Carlos cerra aporta.)<\/p>\n<h2>CENA XI<\/h2>\n<p>CARLOS, s&oacute; &#8211; Que ventura, ou antes, que patifaria! Que tal? Casado<br \/>\n    com duas mulheres! Oh, mas o C&oacute;digo &eacute; muito claro&#8230; Agora ver&aacute;s<br \/>\n    como se rouba e se obriga a ser frade&#8230;<\/p>\n<h2>CENA XII<\/h2>\n<p>Entra Ambr&oacute;sio de casaca seguido de Flor&ecirc;ncia e Em&iacute;lia,<br \/>\n    ambas de v&eacute;u de renda preta sobre a cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, entrando &#8211; Andem, andem! Irra, essas mulheres a vestirem-se<br \/>\n    fazem perder a paci&ecirc;ncia! <\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA, &#8211; Estamos prontas.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO ,vendo Carlos &#8211; Oh, que fazes aqui? <\/p>\n<p>CARLOS principia a passear pela sala de um para outro lado &#8211; N&atilde;o v&ecirc;?<br \/>\n    Estou passeando; divirto-me. <\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Como &eacute; l&aacute; isso?<\/p>\n<p>CARLOS, do mesmo modo &#8211; N&atilde;o &eacute; da sua conta.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Carlos, que modos s&atilde;o esses?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Que modos s&atilde;o? S&atilde;o os meus.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA, &agrave; parte &#8211; Ele se perde!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Est&aacute;s doudo?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Doudo estava algu&eacute;m quando&#8230; N&atilde;o me fa&ccedil;a falar&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Hem?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Deixe-o comigo. (Para Carlos:) Por que sa&iacute;ste do<br \/>\n    convento? <\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Porque quis. Ent&atilde;o n&atilde;o tenho vontade?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Isso veremos. J&aacute; para o convento! <\/p>\n<p>CARLOS &#8211; rindo-se com for&ccedil;a &#8211; Ah, ah, ah !<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Ri-se? <\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA, ao mesmo tempo &#8211; Carlos!<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Primo!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Ah, ah, ah!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, enfurecido &#8211; Ainda uma vez, obedece-me, ou&#8230;<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Que cara! Ah, ah! (Ambr&oacute;sio corre para cima de Carlos.) <\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA, metendo-se no meio &#8211; Ambrosinho! <\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Deixe-me ensinar a este malcriado. <\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Largue-o, tia, n&atilde;o tenha medo.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Carlos!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Sobrinho, o que &eacute; isso? <\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Est&aacute; bom, n&atilde;o se amofinem tanto, voltarei para o convento.\n  <\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Ah, j&aacute;?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; J&aacute;, sim senhor, quero mostrar a minha obedi&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; E que n&atilde;o fosse. <\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Incorreria no seu desagrado? Forte desgra&ccedil;a!&#8230; <\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Principias?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; N&atilde;o senhora, quero dar uma prova de submiss&atilde;o ao senhor<br \/>\n    meu tio&#8230; &Eacute;, meu tio, &eacute;&#8230; Casado com minha tia segunda vez&#8230;<br \/>\n    Quero dizer, minha tia &eacute; que se casou segunda vez. <\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, assustando-se, &agrave; parte &#8211; O que diz ele?<\/p>\n<p>CARLOS, que o observa &#8211; N&atilde;o h&aacute; duvida&#8230; <\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA , para Em&iacute;lia &#8211; O que tem hoje este rapaz?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; N&atilde;o &eacute; assim, senhor meu tio? Venha c&aacute;, fa&ccedil;a-me<br \/>\n    o favor, senhor meu rio. (Travando-lhe do bra&ccedil;o.)<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Tira as m&atilde;os.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Ora, fa&ccedil;a-me o favor, senhor meu tio, quero-lhe mostrar uma<br \/>\n    coisa; depois farei o que quiser. (Levando-o para a porta do quarto.)<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; O que &eacute; isto? <\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Deixa-me!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Um instante. (Retendo Ambr&oacute;sio com uma m&atilde;o, com a<br \/>\n    outra empurra a porta e aponta para dentro, dizendo:) V&ecirc;!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, afirmando a vista &#8211; Oh! (Volta para junto de Flor&ecirc;ncia<br \/>\n    e de Em&iacute;lia, e as toma convulsivo pelo bra&ccedil;o.) &#8211; Vamos, vamos,<br \/>\n    s&atilde;o horas!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; O que &eacute;?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, forcejando por sair e lev&aacute;-las consigo &#8211; Vamos, vamos!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Sem chap&eacute;u?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Vamos, vamos! (Sai, levando-as.)<\/p>\n<p>C A R L O S &#8211; Ent&atilde;o, senhor meu tio? J&aacute; n&atilde;o quer que<br \/>\n    eu v&aacute; para o convento? (Depois que ele sai.) Senhor meu tio, senhor<br \/>\n    meu tio? (Vai a porta, gritando.)<\/p>\n<h2>CENA XIII<\/h2>\n<p>Carlos, s&oacute; e depois Rosa<\/p>\n<p>CARLOS, rindo-se &#8211; Ah, ah, ah, agora veremos, e me pagar&aacute;s&#8230; E minha<br \/>\n    tia tamb&eacute;m h&aacute;-de pag&aacute;-lo, para n&atilde;o se casar na<br \/>\n    sua idade e ser t&atilde;o assanhada. E o menino, que n&atilde;o se contentava<br \/>\n    com uma!&#8230;<\/p>\n<p>ROSA, entrando &#8211; Ent&atilde;o, Reverend&iacute;ssimo?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Ent&atilde;o?<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Eu vi meu marido um instante e fugiu. Ouvi vozes de mulheres&#8230;<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Ah, ouviu? Muito estimo. E sabe de quem eram essas vozes?<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Eu tremo de adivinhar&#8230;<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Pois adivinhe logo de uma assentada&#8230; Eram da mulher de seu marido.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; E ent&atilde;o verdade? P&eacute;rfido, traidor! Ah, desgra&ccedil;ada!<br \/>\n    (Vai a cair desmaiada e Carlos a sust&eacute;m nos bra&ccedil;os.)<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Desmaiada! Sr.a D. Rosa? Fi-la bonita! Esta &eacute; mesmo de frade&#8230;<br \/>\n    Senhora, torne a si, deixe desses faniquitos Olhe que aqui n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    quem a socorra. Nada! E esta? &Oacute; Juquinha? Juquinha? (Juca entra, trazendo<br \/>\n    em uma m&atilde;o um assobio de palha e tocando em outro.) Deixa esses assobios<br \/>\n    sobre a mesa e vai l&aacute; dentro buscar alguma cousa para esta mo&ccedil;a<br \/>\n    cheirar.<\/p>\n<p>JUCA &#8211; Mas o qu&ecirc;, primo?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; A primeira cousa que encontrares. (Juca larga os assobios na mesa<br \/>\n    e sai correndo.) Isto est&aacute; muito bonito! Um frade com uma mo&ccedil;a<br \/>\n    desmaiada nos bra&ccedil;os. Valha-me Santo Ant&ocirc;nio! O que diriam, se<br \/>\n    assim me vissem? (Gritando-lhe ao ouvido:) Ol&aacute;! &#8211; Nada.<\/p>\n<p>JUCA ,entra montado a cavalo em um arco de pipa, trazendo um galheteiro &#8211;<br \/>\n    Vim a cavalo para chegar mais depressa. Est&aacute; o que achei.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Um galheteiro, menino?<\/p>\n<p>JUCA &#8211; N&atilde;o achei mais nada.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Est&aacute; bom, d&aacute; c&aacute; o vinagre. (Toma o vinagre<br \/>\n    e o chega ao nariz de Rosa.) N&atilde;o serve; est&aacute; na mesma. Toma&#8230;Vejamos<br \/>\n    se o azeite faz mais efeito. Isto parece-me salada&#8230; Azeite e vinagre. Ainda<br \/>\n    est&aacute; mal temperada; venha a pimenta da &Iacute;ndia. Agora creio que<br \/>\n    n&atilde;o falta nada. Peior &eacute; essa; a salada ainda n&atilde;o est&aacute;<br \/>\n    boa! Ai, que n&atilde;o tem sal. Bravo, est&aacute; temperada! Venha mais<br \/>\n    sal&#8230; Agora sim.<\/p>\n<p>ROSA, tomando a si- Onde estou eu?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Nos meus bra&ccedil;os.<\/p>\n<p>ROSA, afastando-se &#8211; Ah, Reverend&iacute;ssimo!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; &#8211; N&atilde;o se assuste. (Para Juca:) Vai para dentro (Juca sai)<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Agora me recordo&#8230; P&eacute;rfido, ingrato!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; N&atilde;o torne a desmaiar, que j&aacute; n&atilde;o posso.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Assim enganar-me! N&atilde;o h&aacute; leis, n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    justi&ccedil;a?&#8230;<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; H&aacute; tudo isso, e de sobra. O que n&atilde;o h&aacute; &eacute;<br \/>\n    quem as execute. (Rumor na rua)<\/p>\n<p>ROSA, assustando-se &#8211; Ah! <\/p>\n<p>CARLOS &#8211; O que ser&aacute; isto? (Vai &agrave; janela.) Ah, com S. Pedro!<br \/>\n    (&Agrave; parte:) O mestre de novi&ccedil;os seguido de meirinhos que me procuram&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o escapo&#8230;<\/p>\n<p>ROSA &#8211; O que &eacute;, Reverend&iacute;ssimo? De que se assusta?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; N&atilde;o &eacute; nada. (&Agrave; parte:) Estou arranjado! (Chega<br \/>\n    &agrave; janela.) Est&atilde;o indagando na vizinhan&ccedil;a&#8230; O que farei?<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Mas o que &eacute;? O qu&ecirc;?<\/p>\n<p>CARLOS, batendo na testa &#8211; Oh, s&oacute; assim&#8230; (Para Rosa:) Sabe o que<br \/>\n    &eacute; isto?<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Diga.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; E um poder de soldados e meirinhos que vem prend&ecirc;-la por ordem<br \/>\n    de seu marido. <\/p>\n<p>ROSA &#8211; Jesus! Salve-me, salve-me!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Hei-de salv&aacute;-la; mas fa&ccedil;a o que eu lhe disser.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Estou pronta<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Os meirinhos entrar&atilde;o aqui e h&atilde;o-de levar por for&ccedil;a<br \/>\n    alguma cousa &#8211; esse &eacute; o seu costume. O que &eacute; preciso &eacute;<br \/>\n    engan&aacute;-los.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; E como?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Vestindo a senhora o meu h&aacute;bito, e eu o seu vestido.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Oh!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Levar-me-&atilde;o preso; ter&aacute; a senhora tempo de fugir.\n  <\/p>\n<p>ROSA &#8211; Mas&#8230;<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Ta, ta, ta&#8230; Ande, deixe-me fazer uma obra de caridade; para isso<br \/>\n    &eacute; que somos frades. Entre para este quarto, dispa l&aacute; o seu vestido<br \/>\n    e mande-me, assim como a toca e xale. &Oacute; Juca? Juca? (Empurrando Rosa:)<br \/>\n    N&atilde;o se demore. (Entra Juca.)Juca, acompanha esta senhora e faze o que<br \/>\n    ela te mandar. Ande, senhora, com mil diabos! (Rosa entra no quarto a esquerda,<br \/>\n    empurrada por Carlos.)<\/p>\n<h2>CENA XIV<\/h2>\n<p>CARLOS, s&oacute; &#8211; Bravo, esta &eacute; de mestre! (Chegando &agrave; janela:)<br \/>\n    L&aacute; est&atilde;o eles conversando com o vizinho do armarinho. N&atilde;o<br \/>\n    tardar&atilde;o a dar com o rato na ratoeira, mas o rato &eacute; esperto<br \/>\n    e os lograr&aacute;. Ent&atilde;o, vem o vestido?<\/p>\n<p>ROSA, dentro &#8211; J&aacute; vai.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Depressa! O que me vale &eacute; ser o mestre de novi&ccedil;os<br \/>\n    catacego e trazer &oacute;culos. Cair&aacute; na esparrela(Gritando:) Vem<br \/>\n    ou n&atilde;o?<\/p>\n<p>JUCA, traz o vestido, toca e o xale &#8211; Esta.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Bom. (Despe o h&aacute;bito.) Ora v&aacute;, senhor h&aacute;bito.<br \/>\n    Bem se diz que o h&aacute;bito n&atilde;o faz o monge. (D&aacute; o h&aacute;bito<br \/>\n    e o chap&eacute;u a Juca.) Toma, leva &agrave; mo&ccedil;a. (Juca sai.) Agora<br \/>\n    &eacute; que s&atilde;o elas&#8230; Isto &eacute; mangas? Diabo, por onde se enfia<br \/>\n    esta geringon&ccedil;a? Creio que &eacute; por aqui&#8230; Bravo acertei. Bel&iacute;ssimo!<br \/>\n    Agora a toca. (P&otilde;e a toca.) Vamos ao xale&#8230; Estou guapo; creio que<br \/>\n    farei a minha parte de mulher excelentemente. (Batem na porta.) S&atilde;o<br \/>\n    eles. (Com voz de mulher.) Quem bate?<\/p>\n<p>MESTRE, dentro &#8211; Um servo de Deus.<\/p>\n<p>CARLOS, com a mesma voz &#8211; Pode entrar quem &eacute;.<\/p>\n<h2>CENA XV<\/h2>\n<p>Carlos, Mestre de Novi&ccedil;os e tr&ecirc;s meirinhos<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Deus esteja nesta casa<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Humilde serva de Vossa Reverend&iacute;ssima&#8230;<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Minha senhora, ter&aacute; a bondade de perdoar-me pelo inc&ocirc;modo<br \/>\n    que lhe damos, mas nosso dever&#8230;<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Inc&ocirc;modos, Reverend&iacute;ssimo Senhor?<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Vossa Senhoria h&aacute;-de permitir que lhe pergunte se o novi&ccedil;o<br \/>\n    Carlos, que fugiu do convento&#8230;<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Psiu, caluda!<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Hem?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Est&aacute; ali&#8230;<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Quem?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; O novi&ccedil;o&#8230;<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Ah!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; E preciso surpreend&ecirc;-lo &#8230;<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Estes senhores oficiais de justi&ccedil;a nos ajudar&atilde;o.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Muito cuidado. Este meu sobrinho d&aacute;-me um trabalho&#8230;<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Ah, a senhora &eacute; sua tia?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Uma sua criada.<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Tenho muita satisfa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>C AR L O S &#8211; N&atilde;o percamos tempo. Fiquem os senhores aqui do lado da<br \/>\n    porta, Muito calados; eu chamarei o sobrinho. Assim que ele sair, n&atilde;o<br \/>\n    lhe d&ecirc;em tempo de fugir; lancem-se de improviso sobre ele e levem-no<br \/>\n    &agrave; for&ccedil;a.<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Muito bem<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Diga ele o que disser, grite como gritar, n&atilde;o fa&ccedil;am<br \/>\n    caso, arrastem-no.<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Vamos a isso.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Fiquem aqui. (Coloca-os junto &agrave; porta da esquerda.) Aten&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    (Chamando para dentro:) Psiu! Psiu! Saia c&aacute; para fora, devagarinho!<br \/>\n    (Preven&ccedil;&atilde;o.) <\/p>\n<h2>CENA XVI<\/h2>\n<p>Os mesmos e Rosa vestida de frade e chap&eacute;u na cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p>ROSA, entrando &#8211; J&aacute; se foram? (Assim que ela aparece, o Mestre e os<br \/>\n    meirinhos se lan&ccedil;am sobre ela e procuram carregar at&eacute; fora.)<\/p>\n<p>MESTRE- Est&aacute; preso. H&aacute;-de ir. E in&uacute;til resistir. Assim<br \/>\n    n&atilde;o se foge&#8230; (Etc., etc.)<\/p>\n<p>ROSA, lutando sempre &#8211; Ai, ai, acudam-me! Deixem-me! Quem me socorre? (Etc.)<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Levem-no, levem-no. (Algazarra de vozes; todos falam ao mesmo tempo,<br \/>\n    etc. Carlos, para aumentar o ru&iacute;do, toma um assobio que est&aacute;<br \/>\n    sobre a mesa e toca. Juca tamb&eacute;m entra nessa ocasi&atilde;o, etc. Execu&ccedil;&atilde;o.)<\/p>\n<p> <strong>FIM DO PRIMEIRO ATO<\/strong><\/p>\n<h4><a name=\"2\">Ato Segundo<\/a><\/h4>\n<p>A mesma sala do primeiro ato<\/p>\n<h3>CENA I<\/h3>\n<p>Carlos, ainda vestido de mulher, est&aacute; sentado e Juca &agrave; janela.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Juca, toma sentido; assim que avistares teu padrasto l&aacute; no<br \/>\n    fim da rua, avisa-me.<\/p>\n<p>JUCA &#8211; Sim, primo.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; No que dar&aacute; tudo isto? Qual ser&aacute; a sorte de minha<br \/>\n    tia? Que li&ccedil;&atilde;o! Desanda tudo em muita pancadaria. E a outra,<br \/>\n    que foi para o convento?&#8230; Ah, ah, ah, agora &eacute; que me lembro dessa!<br \/>\n    Que confus&atilde;o entre os frades quando ela se der a conhecer! (Levantando-se:)<br \/>\n    Ah, ah, ah, parece-me que estou vendo o D. Abade horrorizado, o mestre de<br \/>\n    novi&ccedil;os limpando os &oacute;culos de boca aberta, Frei Maur&iacute;cio,<br \/>\n    o folgaz&atilde;o, a rir-se &agrave;s gargalhadas, Frei Sinfr&ocirc;nio, o<br \/>\n    austero, levantando os olhos para o c&eacute;u abismado, e os novi&ccedil;os<br \/>\n    todos fazendo roda, co&ccedil;ando o cacha&ccedil;o. Ah, que festa perco eu!<br \/>\n    Enquanto eu l&aacute; estive ningu&eacute;m lembrou-se de dar-me semelhante<br \/>\n    divertimento. Est&uacute;pidos! Mas, o fim de tudo isto? O fim?&#8230;<\/p>\n<p>JUCA, da janela &#8211; A&iacute; vem ele!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; J&aacute;? (Chega &agrave; janela.) &Eacute; verdade. E com que<br \/>\n    pressa! (Para Juca:) Vai tu para dentro. ( Juca sai.) E eu ainda deste modo,<br \/>\n    com este vestido&#8230; Se eu sei o que hei-de fazer?&#8230; Sobe a escada&#8230;D&ecirc;<br \/>\n    no que der&#8230; (Entra no quarto onde esteve Rosa)<\/p>\n<h3>CENA II<\/h3>\n<p>Entra Ambr&oacute;sio; mostra no semblante alguma agita&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; L&aacute; as deixei no Carmo. Entretidas com o of&iacute;cio,<br \/>\n    n&atilde;o dar&atilde;o falta de mim. &Eacute; preciso, e quanto antes, que<br \/>\n    eu fale com esta mulher! &Eacute; ela, n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida&#8230;<br \/>\n    Mas como soube que eu aqui estava? Quem lhe disse? Quem a trouxe? Foi o diabo,<br \/>\n    para a minha perdi&ccedil;&atilde;o. Em um momento pode tudo mudar; n&atilde;o<br \/>\n    se perca tempo. (Chega &agrave; porta do quarto) Senhora, queira ter a bondade<br \/>\n    de sair c&aacute; para fora.<\/p>\n<h3>CENA III<\/h3>\n<p>Entra Carlos cobrindo o rosto com um len&ccedil;o. Ambr&oacute;sio encaminha-se<br \/>\n    para o meio da sala, sem olhar para ele, e assim lhe fala.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Senhora, muito bem conhe&ccedil;o as vossas inten&ccedil;&otilde;es;<br \/>\n    por&eacute;m previno-vos que muito vos engan&aacute;steis.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Ai, ai!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; H&aacute; seis anos que vos deixei; tive para isso motivos<br \/>\n    muito poderosos&#8230;<\/p>\n<p>CARLOS, &agrave; parte &#8211; Que tratante!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; E o meu sil&ecirc;ncio depois deste tempo, devia ter-vos<br \/>\n    feito conhecer que nada mais existe de comum entre n&oacute;s.<\/p>\n<p>CARLOS, fingindo que chora &#8211; Hi, hi, hi &#8230;<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; O pranto n&atilde;o me comove. Jamais podemos viver juntos&#8230;<br \/>\n    Fomos casados, &eacute; verdade, mas que importa?<\/p>\n<p>CARLOS, no mesmo &#8211; Hi, hi, hi&#8230;<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Estou resolvido a viver separado de v&oacute;s.<\/p>\n<p>CARLOS , &agrave; parte &#8211; E eu tamb&eacute;m&#8230;<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO- E para esse fim empreguei todos os meios, todos, entendeis-me?<br \/>\n    (Carlos cai de joelhos aos p&eacute;s de Ambr&oacute;sio, e agarra-se &agrave;s<br \/>\n    pernas dele, chorando.) N&atilde;o valem s&uacute;plicas. Hoje mesmo deixareis<br \/>\n    esta cidade; sen&atilde;o, serei capaz de um grande crime. O sangue n&atilde;o<br \/>\n    me aterra, e ai de quem me resiste! Levantai-vos e parti. ( Carlos puxa as<br \/>\n    pernas de Ambr&oacute;sio, d&aacute; com ele no ch&atilde;o e levanta-se,<br \/>\n    rindo-se.) Ai!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Ah, ah, ah!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, levanta-se muito devagar, olhando muito admirado para Carlos,<br \/>\n    que se ri &#8211; Carlos! Carlos!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Senhor meu tio! Ah, ah, ah!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Mas ent&atilde;o o que &eacute; isto?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Ah, ah, ah!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Como te achas aqui assim vestido?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Este vestido, senhor meu tio&#8230; Ah, ah!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Maroto!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Tenha-se l&aacute;! Olhe que eu chamo por ela.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Ela quem, brejeiro?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Sua primeira mulher.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Minha primeira mulher. &Eacute; falso&#8230;<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; &Eacute; falso?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; &Eacute;.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; E ser&aacute; tamb&eacute;m falsa esta certid&atilde;o do vig&aacute;rio<br \/>\n    da freguesia de&#8230; (olhando para a certid&atilde;o:) Maranguape, no Cear&aacute;,<br \/>\n    em que se prova que o senhor meu tio recebeu-se&#8230; (lendo:) em santo matrim&ocirc;nio,<br \/>\n    &agrave; face da Igreja, com D. Rosa Escol&aacute;stica, filha de Ant&ocirc;nio<br \/>\n    Lemos, etc., etc.? Sendo testemunhas, etc.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; D&aacute;-me esse papel!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Devagar&#8230;<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; D&aacute;-me esse papel!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Ah, o senhor meu tio encrespa-se. Olhe que a tia n&atilde;o est&aacute;<br \/>\n    em casa, e eu sou capaz de lhe fazer o mesmo que fiz ao D. Abade.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Onde est&aacute; ela?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Em lugar que aparecer&aacute; quando eu ordenar.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Ainda est&aacute; naquele quarto; n&atilde;o teve tempo<br \/>\n    de sair.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Pois v&aacute; ver. (Ambr&oacute;sio sai apressado)<\/p>\n<h3>CENA IV<\/h3>\n<p>CARLOS, s&oacute; &#8211; Procure bem. Deixa estar, meu espertalh&atilde;o, que<br \/>\n    agora te hei-de eu apertar a corda na garganta. Estais em meu poder; querer<br \/>\n    roubar-nos&#8230; (Gritando:) Procure bem; talvez esteja dentro das gavetinhas<br \/>\n    do espelho. Ent&atilde;o? N&atilde;o acha?<\/p>\n<h3>CENA VI<\/h3>\n<p>O mesmo e Ambr&oacute;sio<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, entrando &#8211; Estou perdido!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; N&atilde;o achou?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; O que ser&aacute; de mim?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Talvez se escondesse em algum buraquinho de rato.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, caindo sentado &#8211; Estou perdido, perdido! Em um momento tudo<br \/>\n    se transtornou. Perdido para sempre!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Ainda n&atilde;o, porque eu posso salv&aacute;-lo.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Tu?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Eu, sim<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Carlinho!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; J&aacute;?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Carlinho!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Ora vejam como est&aacute; terno!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Por tua vida, salvai-me!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Eu salvarei, mas debaixo de certas condi&ccedil;&otilde;es&#8230;<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; E quais s&atilde;o elas?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Nem eu nem o primo Juca queremos ser frades&#8230;<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO- N&atilde;o ser&atilde;o.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Quero casar-me com minha prima&#8230;<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Casar&aacute;s.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Quero a minha leg&iacute;tima&#8230;<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Ter&aacute;s a tua legitima.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Muito bem.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; E tu me prometes que nada dir&aacute;s a tua tia do que<br \/>\n    sabes?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Quanto a isso pode estar certo. (&Agrave; parte:) Veremos&#8230;<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Agora dize-me, onde ela est&aacute;?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; N&atilde;o posso, o segredo n&atilde;o &eacute; meu.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Mas d&aacute;-me sua palavra de honra que ela saiu desta<br \/>\n    casa?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; J&aacute; saiu, palavra de mulher honrada.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; E que nunca mais voltar&aacute;?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Nunca mais. (&Agrave; parte:) Isto &eacute;, se quiserem ficar com<br \/>\n    ela l&aacute; no convento, em meu lugar.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Agora d&aacute;-me esse papel.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Espera l&aacute;, o neg&oacute;cio n&atilde;o vai assim. Primeiro<br \/>\n    h&atilde;o de cumprir-se as condi&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Carlinho, d&aacute;-me esse papel!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; N&atilde;o pode ser.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; D&aacute;-mo, por quem &eacute;s!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Peior &eacute; a seca.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Eis-me a teus p&eacute;s. (Ajoelha-se; neste mesmo tempo<br \/>\n    aparece &agrave; porta Flor&ecirc;ncia e Em&iacute;lia, as quais caminham<br \/>\n    para ele p&eacute; ante p&eacute;.) <\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Isso &eacute; teima; levante-se!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; N&atilde;o me levantarei enquanto n&atilde;o mo deres.<br \/>\n    Para que o queres tu? Farei tudo quanto quiseres, nada me custar&aacute; para<br \/>\n    servir-te. Minha mulher far&aacute; tudo quanto ordenares; disp&otilde;e dela.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; A senhora pode dispor de mim, pois n&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Ah! (Levanta-se espavorido.)<\/p>\n<p>CARLOS, &agrave; parte &#8211; Temo-la!&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA, para Ambr&oacute;sio &#8211; Que patifaria &eacute; essa? Em minha<br \/>\n    casa e &agrave;s minhas barbas, aos p&eacute;s de uma mulher! Muito bem!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Flor&ecirc;ncia!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Um dardo que te parta! (Voltando-se para Carlos:) E quem<br \/>\n    &eacute; a senhora?<\/p>\n<p>CARLOS , com a cara baixa &#8211; Sou uma desgra&ccedil;ada!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Ah, &eacute; uma desgra&ccedil;ada&#8230; Seduzindo um homem<br \/>\n    casado! N&atilde;o sabe que&#8230; (Carlos que encara com ela, que rapidamente<br \/>\n    tem suspendido a palavra e, como assombrada, principia a olhar para ele, que<br \/>\n    ri-se.) Carlos! Meu sobrinho!<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; O primo.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Sim, tiazinha, sim, priminha.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Que mascarada &eacute; essa?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; &Eacute; uma com&eacute;dia que ensai&aacute;vamos para s&aacute;bado<br \/>\n    de Aleluia.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Uma com&eacute;dia?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Sim, era uma com&eacute;dia, um divertimento, uma surpresa.<br \/>\n    Eu e o sobrinho arranj&aacute;vamos isso&#8230; Bagatela, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    assim, Carlinho? Mas ent&atilde;o voc&ecirc;s n&atilde;o ouviram o of&iacute;cio<br \/>\n    at&eacute; o fim? Quem pregou?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA, &agrave; parte &#8211; Isto n&atilde;o &eacute; natural&#8230; Aqui<br \/>\n    h&aacute; coisa.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; A nossa com&eacute;dia era mesmo sobre isso.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; O que est&aacute; o senhor a dizer?<\/p>\n<p>CARLOS, &agrave; parte &#8211; Perdeu a cabe&ccedil;a ( Para Flor&ecirc;ncia:)<br \/>\n    Tia, basta que saiba que era uma com&eacute;dia. E antes de principiar o ensaio<br \/>\n    o tio deu-me a sua palavra que eu n&atilde;o seria frade. N&atilde;o &eacute;<br \/>\n    verdade, tio?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; &Eacute; verdade. O rapaz n&atilde;o tem inclina&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e para que obrig&aacute;-lo? Seria crueldade.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Ah!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; E que a prima n&atilde;o seria tamb&eacute;m freira, e que se casaria<br \/>\n    comigo.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; &Eacute; verdade, Sr. Ambr&oacute;sio?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Sim, para que constranger estas duas almas? Nasceram um<br \/>\n    para o outro; amam-se. &Eacute; t&atilde;o bonito ver um t&atilde;o lindo<br \/>\n    par!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Mas, Sr. Ambr&oacute;sio, e o mundo que o senhor dizia<br \/>\n    que era um p&eacute;lago, um sorvedouro e n&atilde;o sei o que mais?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Oh, ent&atilde;o eu n&atilde;o sabia que estes dous pombinhos<br \/>\n    se amavam, mas agora que o sei, seria horr&iacute;vel barbaridade. Quando<br \/>\n    se fecham as portas de um convento sobre um homem, ou sobre uma mulher que<br \/>\n    leva dentro do peito uma paix&atilde;o como ressentem estes dous inocentes,<br \/>\n    torna-se o convento abismo incomensur&aacute;vel de acerbos males, fonte perene<br \/>\n    de horr&iacute;ssonas desgra&ccedil;as, perdi&ccedil;&atilde;o do corpo e<br \/>\n    da alma; e o mundo, se nele ficassem, jardim ameno, suave encanto da vida,<br \/>\n    tranq&uuml;ila paz da inoc&ecirc;ncia, para&iacute;so terrestre. E assim sendo,<br \/>\n    mulher, queria tu que sacrificasse tua filha e teu sobrinho?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Oh, n&atilde;o, n&atilde;o.<\/p>\n<p>CARLOS, &agrave; parte &#8211; Que grande patife!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Tua filha, que faz parte de ti?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; N&atilde;o falemos mais nisso. O que fizeste est&aacute;<br \/>\n    muito bem feito.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; E em reconhecimento de tanta bondade, fa&ccedil;o cess&atilde;o<br \/>\n    de metade dos meus bens em favor do meu tio e aqui lhe dou a escritura . (D&aacute;-lhe<br \/>\n    a certid&atilde;o de Rosa).<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, saltando para tomar a certid&atilde;o &#8211; Caro sobrinho! (Abra&ccedil;a-o.)<br \/>\n    E eu, para mostrar o meu desinteresse, rasgo esta escritura. (Rasga, e, &agrave;<br \/>\n    parte:) Respiro!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Homem generoso! (Abra&ccedil;a-o)<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; , (abra&ccedil;ando-a e &agrave; parte:) &#8211; Mulher toleirona!<\/p>\n<p>CARLOS, abra&ccedil;ando Em&iacute;lia &#8211; Isto vai de roda&#8230;<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Primo!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Priminha, seremos felizes!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Aben&ccedil;oada seja a hora em que eu te escolhi para<br \/>\n    meu esposo! Meus caros filhos, aprendei comigo a guiar-vos com prud&ecirc;ncia<br \/>\n    na vida. Dous anos estive vi&uacute;va e n&atilde;o me faltaram pretendentes.<br \/>\n    Vi&uacute;va rica&#8230; Ah, s&atilde;o vinte c&atilde;es a um osso. Mas eu tive<br \/>\n    ju&iacute;zo e crit&eacute;rio; soube distinguir o amante interesseiro do<br \/>\n    amante sincero. Meu cora&ccedil;&atilde;o falou por este homem honrado e probo.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Acertad&iacute;ssima escolha!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Chega-te para c&aacute;, Ambrosinho, n&atilde;o te envergonhes;<br \/>\n    mereces os elogios que te fa&ccedil;o.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, &agrave; parte &#8211; Estou em brasas&#8230;<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; N&atilde;o se envergonhe, tio. Os elogios s&atilde;o merecidos.<br \/>\n    (&Agrave; parte:) Est&aacute; em talas&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Ouves o que diz o sobrinho? Tens mod&eacute;stia? &Eacute;<br \/>\n    mais uma qualidade. Como sou feliz!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Acabemos com isso. Os elogios assim &agrave; queima roupa<br \/>\n    perturbam-me.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Se os merece&#8230;<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Embora.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Oh, o tio os merece, pois n&atilde;o. Olhe, tia, aposto eu que o<br \/>\n    tio Ambrosinho em toda a sua via s&oacute; tem amado a tia&#8230;<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Decerto! (&Agrave; parte:) Quer fazer-me alguma.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Ai, vida da minha alma!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, &agrave; parte &#8211; O patife &eacute; muito capaz&#8230;<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Mas n&oacute;s, os homens, somos t&atilde;o falsos &#8211; assim dizem<br \/>\n    as mulheres &#8211; , que n&atilde;o admira que o tio&#8230;<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, interrompendo-o &#8211; Carlos, tratemos da promessa que te fiz.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; &Eacute; verdade; tratemos da promessa. (&Agrave; parte:) Tem medo,<br \/>\n    que se pela!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Irei hoje mesmo ao convento falar ao D. Abade, e dir-lhe-ei<br \/>\n    que temos mudado de resolu&ccedil;&atilde;o a teu respeito. E de hoje em quinze<br \/>\n    dias, senhora, espero ver esta sala brilhantemente iluminada e cheia de alegres<br \/>\n    convidados para celebrarem o casamento de nosso sobrinho Carlos com minha<br \/>\n    cara enteada. ( Aqui entra pelo fundo o mestre dos novi&ccedil;os, seguidos<br \/>\n    dos meirinhos e permanentes, encaminhando-se para a frente do teatro.)<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Enquanto assim praticardes, tereis em mim um amigo.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Senhor, ainda que n&atilde;o possa explicar a raz&atilde;o<br \/>\n    de t&atilde;o s&uacute;bita mudan&ccedil;a, aceito a felicidade que me propondes,<br \/>\n    sem raciocinar. Darei a minha m&atilde;o a Carlos, n&atilde;o s&oacute; para<br \/>\n    obedecer a minha m&atilde;e, como porque muito o amo.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Cara priminha, quem ser&aacute; capaz agora de arrancar-me de teus<br \/>\n    bra&ccedil;os?<\/p>\n<p>MESTRE, batendo-lhe no ombro &#8211; Estais preso. (Espanto dos que est&atilde;o<br \/>\n    em cena)<\/p>\n<p>CENA VI<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; O que &eacute; l&aacute; isso? (Debatendo-se logo que o agarram.)<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Levai-o.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Reverend&iacute;ssimo, meu sobrinho&#8230;<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Paci&ecirc;ncia, senhora. Levem-no.<\/p>\n<p>CARLOS, debatendo-se &#8211; Larguem-me, com todos os diabos! <\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Primo!<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Arrastem-no.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Mas, senhor&#8230;<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Um instante&#8230; Para o convento, para o convento.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Minha tia, tio Ambr&oacute;sio! (Sai arrastado. Em&iacute;lia cai<br \/>\n    sentada em uma cadeira; o Padre-Mestre fica em cena.)<\/p>\n<h3>CENA VII<\/h3>\n<p>Ambr&oacute;sio, Mestre de Novi&ccedil;os, Flor&ecirc;ncia e Em&iacute;lia.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Mas senhor, isto &eacute; uma viol&ecirc;ncia!<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Paci&ecirc;ncia&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Paci&ecirc;ncia, paci&ecirc;ncia? Creio que tenho tido<br \/>\n    bastante. Ver assim arrastar meu sobrinho, como se fosse um criminoso?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO- Espera, Flor&ecirc;ncia, ou&ccedil;amos o Reverend&iacute;ssimo.<br \/>\n    Foi, sem d&uacute;vida, por ordem do Sr. D. Abade que Vossa Reverend&iacute;ssima<br \/>\n    veio prender nosso sobrinho?<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; N&atilde;o tomara sobre mim tal trabalho, se n&atilde;o fora por<br \/>\n    expressa ordem do D. Abade, a quem devemos todos obedi&ecirc;ncia. V&aacute;<br \/>\n    ouvindo como esse mo&ccedil;o zombou de seu mestre. Disse-me a tal senhora,<br \/>\n    pois tal a supunha eu&#8230; Ora f&aacute;cil foi enganar-me&#8230; Al&eacute;m de<br \/>\n    ter m&aacute; vista, tenho muito pouca pr&aacute;tica de senhoras&#8230;<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Sabemos disso.<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Disse-me a tal senhora que o novi&ccedil;o Carlos estava naquele<br \/>\n    quarto.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Naquele quarto?<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Sim senhor, e ali mandou-nos esperar em sil&ecirc;ncio. Chamou pelo<br \/>\n    novi&ccedil;o, e assim que ele saiu lan&ccedil;amo-nos sobre ele e &agrave;<br \/>\n    for&ccedil;a o arrastamos para o convento.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, assustado &#8211; Mas a quem, a quem?<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; A quem?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Que trapalhada &eacute; essa?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Depressa!<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Cheguei ao convento, apresentei-me diante do D. Abade, com o novi&ccedil;o<br \/>\n    prisioneiro, e ent&atilde;o&#8230; Ah!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Por Deus, mais depressa!<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Ainda me coro de vergonha. Ent&atilde;o conheci que tinha sido vilmente<br \/>\n    enganado.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Mas quem era o novi&ccedil;o preso?<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Uma mulher vestida de frade.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Uma mulher?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, &agrave; parte &#8211; &Eacute; ela!<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Que vergonha, que esc&acirc;ndalo!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Mas onde est&aacute; essa mulher? Para onde foi? O que<br \/>\n    disse? Onde est&aacute;? Responda!<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Tende paci&ecirc;ncia. Pintar-vos a confus&atilde;o que por alguns<br \/>\n    instantes esteve o convento, &eacute; quase imposs&iacute;vel. O D. Abade,<br \/>\n    ao conhecer que o novi&ccedil;o preso era uma mulher, pelos longos cabelos<br \/>\n    que ao tirar o chap&eacute;u lhe ca&iacute;ram sobre os ombros, deu um grito<br \/>\n    de horror. Toda a comunidade acorreu e grande foi ent&atilde;o a confus&atilde;o.<br \/>\n    Um gritava: Sacril&eacute;gio! Profana&ccedil;&atilde;o! Outro ria-se; este<br \/>\n    interrogava; aquele respondia ao acaso&#8230; Em menos de dois segundos a not&iacute;cia<br \/>\n    percorreu todo o convento, mas alterada e aumentada. No refeit&oacute;rio<br \/>\n    dizia-se que o diabo estava no coro, dentro dos canudos do &oacute;rg&atilde;o;<br \/>\n    na cozinha julgava-se que o fogo lavrava nos quatro &acirc;ngulos do edif&iacute;cio;<br \/>\n    qual, pensava que D. Abade tinha ca&iacute;do da torre abaixo; qual, que fora<br \/>\n    arrebatado para o c&eacute;u. Os sineiros, correndo para as torres, puxavam<br \/>\n    como energ&uacute;menos pelas cordas dos sinos; os porteiros fecharam as portas<br \/>\n    com horr&iacute;vel estrondo: os responsos soaram de todos os lados, e a algazarra<br \/>\n    dos novi&ccedil;os dominava esse ru&iacute;do infernal, causado por uma &uacute;nica<br \/>\n    mulher. Oh, mulheres!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Vossa Reverend&iacute;ssima faz o seu dever; estou disso<br \/>\n    bem certo.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Mas julgamos necess&aacute;rio declarar a Vossa Reverend&iacute;ssima<br \/>\n    que estamos resolvidos a tirar nosso sobrinho do convento.<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Nada tenho eu com essa resolu&ccedil;&atilde;o. Vossa Senhoria entender-se-&aacute;<br \/>\n    a esse respeito com D. Abade.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; O rapaz n&atilde;o tem inclina&ccedil;&atilde;o nenhuma<br \/>\n    para frade.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; E seria uma crueldade violentar-lhe o g&ecirc;nio .<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; O dia em que o Sr. Carlos sair do convento ser&aacute; para mim<br \/>\n    dia de descanso. H&aacute; doze anos que sou mestre de novi&ccedil;os e ainda<br \/>\n    n&atilde;o tive para doutrinar rapaz mais endiabrado. N&atilde;o se passa<br \/>\n    um s&oacute; dia em que se n&atilde;o tenha de lamentar alguma travessura<br \/>\n    desse mo&ccedil;o. Os novi&ccedil;os, seus companheiros, os irm&atilde;os<br \/>\n    leigos e os dom&eacute;sticos do convento temem-no como se teme a um touro<br \/>\n    bravo. Com todos moteja e a todos espanca.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Foi sempre assim, desde pequeno.<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; E se o conheciam, senhores, para que o obrigaram a entrar no convento,<br \/>\n    a seguir uma vida em que se requer tranq&uuml;ilidade de g&ecirc;nio?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Oh, n&atilde;o foi por meu gosto; meu marido &eacute; que<br \/>\n    persuadiu-me.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, com hipocrisia &#8211; Julguei assim fazer um servi&ccedil;o agrad&aacute;vel<br \/>\n    a Deus.<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Deus, senhores, n&atilde;o se compraz com sacrif&iacute;cios alheios.<br \/>\n    Sirva-o cada um com seu corpo e a alma, porque cada um responder&aacute; pelas<br \/>\n    suas obras.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, com hipocrisia &#8211; Pequei, Reverend&iacute;ssimo, pequei;<br \/>\n    humilde pe&ccedil;o perd&atilde;o.<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Esse mo&ccedil;o foi violentamente constrangido e o resultado &eacute;<br \/>\n    a confus&atilde;o em que est&aacute; a casa de Deus.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Mil perd&otilde;es, Reverend&iacute;ssimo, pelo inc&ocirc;modo<br \/>\n    que lhe temos dado.<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Inc&ocirc;modos? Para ele nascemos n&oacute;s&#8230; passam desapercebidos,<br \/>\n    e demais, ficam de muros para dentro. Mas hoje houve esc&acirc;ndalo, e esc&acirc;ndalo<br \/>\n    p&uacute;blico.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Esc&acirc;ndalo p&uacute;blico?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Como assim?<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; O novi&ccedil;o Carlos, depois de uma contenda com o D. Abade, deu-lhe<br \/>\n    uma cabe&ccedil;ada e o lan&ccedil;ou por terra.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Jesus, Maria Jos&eacute;!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Que sacril&eacute;gio!<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; E fugiu ao seu merecido castigo. Fui mandado em seu alcance&#8230; Requisitei<br \/>\n    for&ccedil;a p&uacute;blica, e aqui chegando, encontrei uma senhora .<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Aqui, uma senhora?<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; E que se dizia sua tia.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Ai!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Era ele mesmo.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Que confus&atilde;o, meu Deus!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Mas essa mulher, essa mulher? O que &eacute; feito dela?<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Uma hora depois, que tanto foi preciso para acalmar a agita&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    o D. Abade perguntou-lhe como ela ali se achava vestida com o h&aacute;bito<br \/>\n    da Ordem.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; E ela que disse?<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Que tinha sido tra&iacute;da por um frade, que debaixo do pretexto<br \/>\n    de a salvar, trocara seu vestido pelo h&aacute;bito que trazia.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; E nada mais?<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Nada mais, e fui encarregado de prender a todo o custo o novi&ccedil;o<br \/>\n    Carlos. E tenho cumprido a minha miss&atilde;o. O que ordenam a este servo<br \/>\n    de Deus?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Espere, Reverend&iacute;ssimo, essa mulher j&aacute; saiu<br \/>\n    do convento?<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; No convento n&atilde;o se demoram as mulheres.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Que caminho tomou? Para onde foi? O que disse ao sair?<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Nada sei.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, &agrave; parte &#8211; O que me espera?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA, &agrave; parte &#8211; Aqui h&aacute; segredo&#8230;<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; &Agrave;s vossas determina&ccedil;&otilde;es&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Uma serva de Vossa Reverend&iacute;ssima.<\/p>\n<p>MESTRE, para Flor&ecirc;ncia &#8211; Quanto &agrave; sa&iacute;da de seu sobrinho<br \/>\n    do convento, com D. Abade se entender&aacute;. <\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; N&oacute;s o procuraremos. (Mestre sai e Flor&ecirc;ncia<br \/>\n    acompanha-o at&eacute; a porta; Ambr&oacute;sio est&aacute; como abismado)<\/p>\n<h3>CENA VIII<\/h3>\n<p>Em&iacute;lia, Ambr&oacute;sio e Flor&ecirc;ncia<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA, &agrave; parte &#8211; Carlos, Carlos, o que ser&aacute; de ti e<br \/>\n    de mim?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, &agrave; parte &#8211; Se ela agora me aparece? Se Flor&ecirc;ncia<br \/>\n    desconfia&#8230; Estou metido em boas! Como evitar, como? Oh, decididamente estou<br \/>\n    perdido. Se a pudesse encontrar&#8230; Talvez s&uacute;plicas, amea&ccedil;as,<br \/>\n    quem sabe? J&aacute; n&atilde;o tenho cabe&ccedil;a? Que farei? De uma hora<br \/>\n    para outra aparece-me ela&#8230;(Flor&ecirc;ncia bate-lhe no ombro.) Ei-la! (Assustando-se.)<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Agora n&oacute;s. (Para Em&iacute;lia:) Menina, vai para<br \/>\n    dentro. (Vai-se Em&iacute;lia.)<\/p>\n<h3>CENA IX<\/h3>\n<p>Ambr&oacute;sio e Flor&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, &agrave; parte &#8211; Temos trovoada grossa&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Quem era a mulher que estava naquele quarto?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; N&atilde;o sei.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Sr. Ambr&oacute;sio, quem era a mulher que estava naquele<br \/>\n    quarto?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Flor&ecirc;ncia, j&aacute; te disse, n&atilde;o sei. S&atilde;o<br \/>\n    cousas de Carlos.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Sr. Ambr&oacute;sio, quem era a mulher que estava naquele<br \/>\n    quarto?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Como queres que eu to diga, Florencinha?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Ah, n&atilde;o sabe? Pois bem, ent&atilde;o explique-me:<br \/>\n    por que raz&atilde;o mostrou-se t&atilde;o espantado, quando Carlos o levou<br \/>\n    &agrave; porta daquele quarto e mostrou-lhe quem estava dentro?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Pois eu espantei-me?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; A ponto de levar-me quase de rastos para a igreja, sem<br \/>\n    chap&eacute;u, l&aacute; deixar-me e voltar para casa apressado.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Qual! Foi por&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; N&atilde;o estude uma mentira, diga depressa.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Pois bem: direi. Eu conhe&ccedil;o essa mulher.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Ah! E ent&atilde;o quem &eacute; ela?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Queres saber quem &eacute; ela? &Eacute; muito justo, mas<br \/>\n    a&iacute; que est&aacute; o segredo.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Segredos comigo?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Oh, contigo n&atilde;o pode haver segredo, &eacute; a minha<br \/>\n    mulherzinha. (Quer abra&ccedil;&aacute;-la)<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Tenha-se l&aacute;; quem era a mulher?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, &agrave; parte &#8211; N&atilde;o sei o que lhe diga&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Vamos!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Essa mulher&#8230; Sim, essa mulher que h&aacute; pouco estava<br \/>\n    naquele quarto, foi amada por mim.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Por ti?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Mas nota que digo: foi amada, e o que foi, j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    &eacute;.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Seu nome?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Seu nome? Que importa o nome? O nome &eacute; uma voz com<br \/>\n    que se d&atilde;o a conhecer as cousas&#8230; Nada vale; o indiv&iacute;duo &eacute;<br \/>\n    tudo&#8230; Tratemos do indiv&iacute;duo. (&Agrave; parte:) N&atilde;o sei como<br \/>\n    continuar.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Ent&atilde;o, e que mais?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Amei a essa mulher. Amei, sim, amei. Essa mulher foi por<br \/>\n    mim amada, mas ent&atilde;o n&atilde;o te conhecia. Oh, e quem ousar&aacute;<br \/>\n    criminar a um homem por embelezar-se de uma estrela antes de ver a lua, quem?<br \/>\n    Ela era a estrela, e tu &eacute;s a lua. Sim, minha Florencinha, tu &eacute;s<br \/>\n    a minha lua cheia e eu sou teu sat&eacute;lite.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Oh, n&atilde;o me convence assim..<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, &agrave; parte &#8211; O diabo conven&ccedil;a a uma mulher! (Alto:)<br \/>\n    Florencinha, encanto da minha vida, estou diante de ti como diante do confession&aacute;rio,<br \/>\n    com uma m&atilde;o sobre o cora&ccedil;&atilde;o e com a outra&#8230; Onde queres<br \/>\n    que eu ponha a outra?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Ponha l&aacute; onde quiser&#8230;<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Pois bem, com ambas sobre o cora&ccedil;&atilde;o, dir-te-ei:<br \/>\n    s&oacute; tu &eacute;s o meu &uacute;nico amor, minhas del&iacute;cias, minha<br \/>\n    vida &#8230; (&Agrave; parte:) e minha burra!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Se eu pudesse acreditar!&#8230;<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; N&atilde;o podes porque n&atilde;o queres. Basta um bocado<br \/>\n    de boa vontade. Se fiquei aterrorizado ao ver essa mulher, foi por prever<br \/>\n    os desgostos que terias, se a&iacute; a visses.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Se temes que eu a veja, &eacute; porque ainda a ama.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Am&aacute;-la eu? Ah, desejava que ela estivesse mais longe<br \/>\n    de mim do que o cometa que apareceu no ano passado.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Oh, meu Deus, se eu pudesse crer!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, &agrave; parte &#8211; Est&aacute; meia convencida&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Se eu o pudesse crer! (Rosa entra vestida de frade, pelo<br \/>\n    fundo, p&aacute;ra e observa.)<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, com anima&ccedil;&atilde;o &#8211; Estes raios brilhantes e aveludados<br \/>\n    de teus olhos ofuscam o seu olhar acanhado e esgateado. Esses negros e finos<br \/>\n    cabelos varrem da minha id&eacute;ia as suas emaranhadas melenas cor de fogo.<br \/>\n    esta m&atilde;ozinha torneada (pega-lhe na m&atilde;o), este colo gentil,<br \/>\n    esta cintura flex&iacute;vel e delicada fazem-me esquecer os grosseiros encantos<br \/>\n    desta mulher que &#8230;( Nesse momento d&aacute; com os olhos em Rosa; vai recuando<br \/>\n    pouco a pouco.)<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; O que tens? De que te espantas?<\/p>\n<p>ROSA, adiantando-se &#8211; Senhora, este homem pertence-me.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; E quem &eacute; vossa Reverend&iacute;ssima?<\/p>\n<p>ROSA, tirando o chap&eacute;u, que faz cair os cabelos &#8211; Sua primeira mulher.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Sua primeira mulher?<\/p>\n<p>ROSA, dando-lhe a certid&atilde;o &#8211; Leia (Para Ambr&oacute;sio:) Conheceis-me,<br \/>\n    senhor? H&aacute; seis anos que nos n&atilde;o vemos, e quem diria que assim<br \/>\n    nos encontrar&iacute;amos? Nobre foi o vosso proceder!&#8230; Oh, para que n&atilde;o<br \/>\n    enviaste um assassino para esgotar o sangue destas veias e arrancar a alma<br \/>\n    deste corpo? Assim dev&iacute;eis ter feito, porque ent&atilde;o eu n&atilde;o<br \/>\n    estaria aqui para vingar-me, traidor!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, &agrave; parte &#8211; O melhor &eacute; deitar a fugir. (Corre<br \/>\n    para o fundo. Preven&ccedil;&atilde;o.)<\/p>\n<p>ROSA &#8211; N&atilde;o o deixem fugir! (Aparecem &agrave; porta meirinhos, os<br \/>\n    quais prendem Ambr&oacute;sio)<\/p>\n<p>MEIRINHO &#8211; Est&aacute; preso!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Ai! (Corre por toda a casa, etc. Enquanto isto se passa,<br \/>\n    Flor&ecirc;ncia tem lido a certid&atilde;o.)<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Desgra&ccedil;ada de mim, estou tra&iacute;da! Quem me<br \/>\n    socorre? (Vai para sair, encontra-se com Rosa.) Ah, para longe, para longe<br \/>\n    de mim! (Recuando.)<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Senhora, a quem pertencer&aacute; ele? (Execu&ccedil;&atilde;o.)<\/p>\n<p><strong>FIM DO SEGUNDO ATO<\/strong><\/p>\n<h4><a name=\"3\">Ato Terceiro<\/a><\/h4>\n<p>Quarto em casa de Flor&ecirc;ncia: mesa, cadeiras, etc., etc., arm&aacute;rio,<br \/>\n    uma cama grande com cortinados, uma mesa pequena com um casti&ccedil;al com<br \/>\n    vela acesa. &Eacute; noite.<\/p>\n<h3>CENA I<\/h3>\n<p>Flor&ecirc;ncia deitada, Em&iacute;lia sentada junto dela, Juca vestido de<br \/>\n    cal&ccedil;a, brincando com um carrinho pela sala.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Meu Deus, meu Deus, que bulha faz esse menino!<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Maninho, estais fazendo muita bulha a mam&atilde;e&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Minha cabe&ccedil;a! Vai correr l&aacute; para dentro&#8230;<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Anda, vai para dentro, vai para o quintal. (Juca sai com<br \/>\n    o carrinho.)<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Parece que me estala a cabe&ccedil;a&#8230; S&atilde;o umas<br \/>\n    marteladas aqui nas fontes. Ai, que n&atilde;o posso! Morro desta!&#8230;<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Minha m&atilde;e, n&atilde;o diga isso, seu inc&ocirc;modo<br \/>\n    passar&aacute;.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Passar&aacute;? Morro, morro&#8230;(Chorando:) Hi&#8230;. (Etc.)<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Minha m&atilde;e!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA, chorando &#8211; Ser assim tra&iacute;da, enganada! Meu Deus,<br \/>\n    quem pode resistir? Hi, hi!<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Para que tanto se aflige? Que rem&eacute;dio? Ter paci&ecirc;ncia<br \/>\n    e resigna&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Um homem em quem havia posto toda a minha confian&ccedil;a,<br \/>\n    que eu tanto amava&#8230; Em&iacute;lia, eu o amava muito!<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Coitada!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Enganar-me deste modo! T&atilde;o indignamente, casado<br \/>\n    com outra mulher. Ah, n&atilde;o sei como n&atilde;o arrebento&#8230;<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Tranq&uuml;ilize-se, minha m&atilde;e.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Que eu supunha desinteressado&#8230; Entregar-lhe todos os<br \/>\n    meus bens, assim iludir-me&#8230; Que malvado, que malvado!.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; S&atilde;o horas de tomar o rem&eacute;dio. (Toma uma garrafa<br \/>\n    de rem&eacute;dio, deita-o em uma x&iacute;cara e d&aacute; a Flor&ecirc;ncia.)<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Como os homens s&atilde;o falsos! Uma mulher n&atilde;o<br \/>\n    era capaz de cometer a&ccedil;&atilde;o t&atilde;o indigna. O que &eacute;<br \/>\n    isso?<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; O cozimento que o doutor receitou.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; D&aacute; c&aacute;. (Bebe.) Ora, de que servem estes rem&eacute;dios?<br \/>\n    N&atilde;o fico boa; a ferida &eacute; no cora&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; H&aacute; de curar-se.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Ora, filha, quando eu vi diante de mim essa mulher, senti<br \/>\n    uma revolu&ccedil;&atilde;o que te n&atilde;o sei explicar&#8230; um atordoamento,<br \/>\n    uma zoada, que h&aacute; de oito dias me tem pregado nesta cama.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Eu estava no meu quarto quando ouvi gritos na sala. Sa&iacute;<br \/>\n    apressada e no corredor encontrei-me com meu padrasto&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Teu padrasto?<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; &#8230; que passando como uma flecha por diante de mim, dirigiu-se<br \/>\n    para o quintal e saltando o muro, desapareceu. Corri para a sala&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; E a&iacute; encontraste-me banhada em l&aacute;grimas.<br \/>\n    Ela j&aacute; tinha sa&iacute;do, depois de amea&ccedil;ar-me. Ah, mas eu<br \/>\n    hei-de ficar boa para vingar-me!<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Sim, &eacute; preciso ficar boa, para vingar-se.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Hei-de ficar. N&atilde;o vale a pena morrer por um traste<br \/>\n    daquele!<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Que d&uacute;vida!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; O meu procurador disse-me que o tratante est&aacute; escondido,<br \/>\n    mas que j&aacute; h&aacute; mandato de pris&atilde;o contra ele. Deixa estar.<br \/>\n    Enganar-me, obrigar-me a que te fizesse freira, constranger a inclina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Carlos&#8230;<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Oh, minha m&atilde;e, tenha pena do primo. O que n&atilde;o<br \/>\n    ter&aacute; ele sofrido, coitado!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; J&aacute; esta manh&atilde; mandei falar ao D. Abade por<br \/>\n    pessoa de considera&ccedil;&atilde;o, e al&eacute;m disso, tenho uma carta<br \/>\n    que lhe quero remeter, pedindo-lhe que me fa&ccedil;a o obs&eacute;quio de<br \/>\n    aqui mandar um frade respeit&aacute;vel para de viva voz tratar comigo este<br \/>\n    neg&oacute;cio.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Sim, minha boa m&atilde;ezinha.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Chama o Jos&eacute;.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Jos&eacute;? Jos&eacute;? E a mam&atilde;e julga que o primo<br \/>\n    poder&aacute; estar em casa hoje?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; &Eacute;s muito impaciente&#8230; Chama o Jos&eacute;.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Jos&eacute;?<\/p>\n<h3>CENA II<\/h3>\n<p>Ambas e Jos&eacute;<\/p>\n<p>JOS&Eacute; &#8211; Minha senhora&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Jos&eacute;, leva esta carta ao convento. Onde est&aacute;<br \/>\n    o Sr. Carlos, sabes?<\/p>\n<p>JOS&Eacute; &#8211; Sei, minha senhora.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Procura pelo Sr. D. Abade, e lha entrega de minha parte.<\/p>\n<p>JOS&Eacute; &#8211; Sim, minha senhora<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Depressa. (Sai Jos&eacute;)<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Ai, ai!<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Tomara v&ecirc;-lo j&aacute;!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Em&iacute;lia, amanh&atilde; lembra-me para pagar as soldadas<br \/>\n    que devemos ao Jos&eacute; e despedi-lo do nosso servi&ccedil;o. Foi metido<br \/>\n    aqui em casa pelo tratante, e s&oacute; por esse fato j&aacute; desconfio<br \/>\n    dele&#8230; L&eacute; com l&eacute;, cr&eacute; com cr&eacute;&#8230; Nada; pode ser<br \/>\n    algum espi&atilde;o que tenhamos em casa&#8230;<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Ele parece-me bom mo&ccedil;o.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Tamb&eacute;m o outro parecia-me bom homem. J&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    me fio em apar&ecirc;ncias.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Tudo pode ser.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Vai ver aquilo l&aacute; por dentro como anda, que minhas<br \/>\n    escravas pilhando-me de cama fazem mil diabruras.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; E fica s&oacute;.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Agora estou melhor, e se precisar de alguma cousa, tocarei<br \/>\n    a campainha. (Sai Em&iacute;lia)<\/p>\n<h3>CENA III<\/h3>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA, s&oacute; &#8211; Depois que mudei a cama para este quarto que<br \/>\n    foi do sobrinho Carlos, passo melhor&#8230; No meu, todos os objetos faziam-me<br \/>\n    recordar aquele p&eacute;rfido. Ora, os homens s&atilde;o capazes de tudo,<br \/>\n    at&eacute; de terem duas mulheres&#8230; E tr&ecirc;s, e quatro, e duas d&uacute;zias&#8230;<br \/>\n    Que dem&ocirc;nios! H&aacute; oito dias que estou nesta cama; antes tivesse<br \/>\n    morrido. E ela, essa mulher infame, onde estar&aacute;. E outra que tal&#8230;<br \/>\n    Oh, mas que culpa tem ela? Mais tenho eu, j&aacute; que fui t&atilde;o tola,<br \/>\n    t&atilde;o tola, que casei-me sem indagar quem ele era. Queira Deus que este<br \/>\n    exemplo aproveite a muitas incautas! Patife, agora anda escondido&#8230; Ai, estou<br \/>\n    cansada&#8230; (Deita-se) Mas n&atilde;o escapar&aacute; da cadeia&#8230; seis anos<br \/>\n    de cadeia&#8230; assim me disse o procurador. Ai, minha cabe&ccedil;a! Se eu pudesse<br \/>\n    dormir um pouco. Ai, ai, as mulheres neste mundo&#8230; est&atilde;o sujeitas&#8230;<br \/>\n    a&#8230; muito&#8230; ah! (Dorme.)<\/p>\n<h3>\n    CENA IV<\/h3>\n<p>Carlos entra pelo fundo, apressado; traz o h&aacute;bito roto e sujo.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; N&atilde;o h&aacute; grades que me prendam, nem muros que me retenham.<br \/>\n    Arrombei grades, saltei muros e eis-me aqui de novo. E l&aacute; deixei parte<br \/>\n    do h&aacute;bito, esfolei os joelhos e as m&atilde;os. Estou em belo estado!<br \/>\n    Ora, para que ateimam comigo? Por fim lan&ccedil;o fogo ao convento e morrem<br \/>\n    todos os frades assados, e depois queixem-se. Estou no meu antigo quarto,<br \/>\n    ningu&eacute;m me viu entrar. Ah, que cama &eacute; esta? &Eacute; da tia&#8230;<br \/>\n    Estar&aacute;&#8230; Ah, &eacute; ela&#8230; e dorme&#8230; Mudou de quarto? O que se<br \/>\n    ter&aacute; passado nesta casa h&aacute; oito dias. Estive preso, incomunic&aacute;vel,<br \/>\n    a p&atilde;o e &aacute;gua. Ah, frades! Nada sei. O que ser&aacute; feito<br \/>\n    da primeira mulher do senhor meu tio, desse grande patife? Onde estar&aacute;<br \/>\n    a prima? Como dorme! Ronca que &eacute; um regalo! (Batem palmas.) Batem!<br \/>\n    Ser&atilde;o eles, n&atilde;o tem d&uacute;vida. Eu acabo por matar um frade&#8230;<\/p>\n<p>MESTRE, dentro &#8211; Deus esteja nesta casa.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; &Eacute; o padre mestre! J&aacute; deram pela minha fugida&#8230;<\/p>\n<p>MESTRE, dentro &#8211; D&aacute; licen&ccedil;a?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; N&atilde;o sou eu que ta hei-de dar. Escondamo-nos, mas de modo<br \/>\n    que ou&ccedil;a o que ele diz&#8230; Debaixo da cama&#8230; (Esconde-se.)<\/p>\n<p>MESTRE, dentro, batendo com for&ccedil;a &#8211; D&aacute; licen&ccedil;a?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA, acordando &#8211; Quem &eacute;? Quem &eacute;?<\/p>\n<p>MESTRE, dentro &#8211; Um servo de Deus.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Em&iacute;lia? Em&iacute;lia? (Toca a campainha)<\/p>\n<h3>CENA V<\/h3>\n<p>Entra Em&iacute;lia<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Minha m&atilde;e&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; L&aacute; dentro est&atilde;o todos surdos? Vai ver quem<br \/>\n    est&aacute; na escada batendo. (Em&iacute;lia sai pelo fundo.) Acordei sobressaltada&#8230;<br \/>\n    Estava sonhando que o meu primeiro marido enforcava o segundo, e era muito<br \/>\n    bem enforcado&#8230;<\/p>\n<h3>CENA VI<\/h3>\n<p>Entra Em&iacute;lia com o Padre-Mestre<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Minha m&atilde;e, &eacute; o Sr. Padre-Mestre. (&Agrave;<br \/>\n    parte:) Ave de agouro.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Ah!<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Desculpe-me, minha senhora.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; O Padre-Mestre &eacute; que me h&aacute;-de desculpar se<br \/>\n    assim o recebo (Senta-se na cama.)<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Oh, esteja a seu gosto. J&aacute; por l&aacute; sabe-se dos seus<br \/>\n    inc&ocirc;modos. Toda cidade o sabe. Tribula&ccedil;&otilde;es deste mundo&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Em&iacute;lia, oferece uma cadeira ao Reverend&iacute;ssimo.<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Sem inc&ocirc;modo. (Senta-se.)<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; O Padre-Mestre veio falar comigo por mandado do Sr. D.<br \/>\n    Abade?<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; N&atilde;o, minha senhora.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; N&atilde;o? Pois eu lhe escrevi.<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Aqui venho pelo mesmo motivo que j&aacute; vim duas vezes.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Como assim?<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Em procura do novi&ccedil;o Carlos. Ah, que rapaz!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Pois tornou a fugir?<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Se tornou! &Eacute; indom&aacute;vel! Foi metido no c&aacute;rcere<br \/>\n    a p&atilde;o e &aacute;gua.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Desgra&ccedil;ado!<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Ah, a menina lastima-o? J&aacute; me n&atilde;o admira que ele fa&ccedil;a<br \/>\n    o que faz.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; O Padre-Mestre dizia&#8230;<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Que estava no c&aacute;rcere a p&atilde;o e &aacute;gua, mas o endemoninhado<br \/>\n    arrombou as grades, saltou na horta, vingou o muro da cerca que deita para<br \/>\n    a rua e p&ocirc;s-se a panos.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Que doudo! E para onde foi?<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; N&atilde;o sabemos, mas julgamos que para aqui se dirigiu.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Posso afian&ccedil;ar a Vossa Reverend&iacute;ssima que<br \/>\n    por c&aacute; ainda n&atilde;o apareceu. (Carlos bota a cabe&ccedil;a de fora<br \/>\n    e puxa pelo vestido de Em&iacute;lia.)<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA, assustando-se &#8211; Ai!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; O que &eacute;, menina?<\/p>\n<p>MESTRE, levantando-se &#8211; O que foi?<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA, vendo Carlos &#8211; N&atilde;o foi nada, n&atilde;o senhora&#8230;<br \/>\n    Um jeito que dei no p&eacute;.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Tem cuidado. Assente-se, Reverend&iacute;ssimo. Mas como<br \/>\n    lhe dizia, o meu sobrinho c&aacute; n&atilde;o apareceu; desde o dia em que<br \/>\n    o Padre-Mestre o levou preso ainda n&atilde;o o vi. N&atilde;o sou capaz de<br \/>\n    faltar a verdade.<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Oh, nem tal suponho. E demais, Vossa Senhoria, como boa parenta<br \/>\n    que &eacute;, deve contribuir para sua corre&ccedil;&atilde;o. Esse mo&ccedil;o<br \/>\n    tem revolucionado todo o convento, e &eacute; preciso um castigo exemplar.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Tem muita raz&atilde;o; mas eu j&aacute; mandei falar ao<br \/>\n    Sr. D. Abade para que meu sobrinho sa&iacute;sse do convento.<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; E o D. Abade est&aacute; a isso resolvido. N&oacute;s todos nos<br \/>\n    temos empenhado. O Sr. Carlos faz-nos loucos&#8230; Sair&aacute; do convento;<br \/>\n    por&eacute;m antes ser&aacute; castigado.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Veremos&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA, para Em&iacute;lia &#8211; O que &eacute;?<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Nada, n&atilde;o senhora.<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; N&atilde;o por ele, que estou certo que n&atilde;o se emendar&aacute;,<br \/>\n    mas para exemplo dos que l&aacute; ficam. Do contr&aacute;rio, todo o convento<br \/>\n    abalava.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Como est&atilde;o resolvidos a despedir meu sobrinho do<br \/>\n    convento, e o castigo que lhe querem impor &eacute; t&atilde;o somente exemplar,<br \/>\n    e ele precisa um pouco, dou minha palavra a Vossa Reverend&iacute;ssima que<br \/>\n    assim que ele aqui aparecer, mandarei agarr&aacute;-lo e levar para o convento.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Isso tem mais que se lhe diga&#8230;<\/p>\n<p>MESTRE, levantando-se &#8211; Mil gra&ccedil;as, minha senhora.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Isto mesmo ter&aacute; a bondade de dizer ao Sr. D. Abade,<br \/>\n    a cujas ora&ccedil;&otilde;es me recomendo.<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; Serei fiel cumpridor . D&ecirc;-me as suas determina&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Em&iacute;lia, conduz o Padre-Mestre.<\/p>\n<p>MESTRE, para Em&iacute;lia &#8211; Minha menina, muito cuidado com o senhor seu<br \/>\n    primo. N&atilde;o se fie nele; julgo capaz de tudo. (Sai)<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA, voltando &#8211; V&aacute; encomendar defuntos!<\/p>\n<h3>CENA VII<\/h3>\n<p>Em&iacute;lia, Flor&ecirc;ncia e Carlos, debaixo da cama.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Ent&atilde;o, que te parece teu primo Carlos? &Eacute;<br \/>\n    a terceira fugida que faz. Isto assim n&atilde;o &eacute; bonito.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; E para que o prendem?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Prendem-no porque ele foge.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; E ele foge porque o prendem.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Belo argumento! &Eacute; mesmo desta cabe&ccedil;a. (Carlos<br \/>\n    puxa pelo vestido de Em&iacute;lia.) Mas o que tens tu?<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Nada, n&atilde;o senhora.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Se ele aqui aparecer hoje h&aacute;-de ter paci&ecirc;ncia,<br \/>\n    ir&aacute; para o convento, ainda que seja amarrado. &Eacute; preciso quebrar-lhe<br \/>\n    o g&ecirc;nio. Estais a mexer-te?<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; N&atilde;o, senhora.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Queira Deus que ele se emende&#8230; Mas que tens tu Em&iacute;lia,<br \/>\n    t&atilde;o inquieta?<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; S&atilde;o c&oacute;cegas na sola dos p&eacute;s.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Ah, isso s&atilde;o c&atilde;ibras. Bate com o p&eacute;,<br \/>\n    assim estais melhor.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Vai passando.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; O sobrinho &eacute; estouvado, mas nunca te dar&aacute;<br \/>\n    os desgostos que me deu o Ambr&oacute;&#8230; &#8211; nem quero pronunciar o nome. E<br \/>\n    tu n&atilde;o te aquietas? Bate com o p&eacute;.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA, afastando-se da cama &#8211; N&atilde;o posso estar quieta no mesmo<br \/>\n    lugar; (&Agrave; parte:) Que louco!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Estou arrependida de ter escrito. (Entra Jos&eacute;.)<br \/>\n    Quem vem a&iacute;?<\/p>\n<h3>CENA VIII<\/h3>\n<p>Os mesmos e Jos&eacute;.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; &Eacute; o Jos&eacute;.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Entregaste a carta?<\/p>\n<p>JOS&Eacute; &#8211; Sim, minha senhora, e o Sr. D. Abade mandou comigo um reverend&iacute;ssimo,<br \/>\n    que ficou na sala &agrave; espera.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; F&aacute;-lo entrar.(Sai o criado.) Em&iacute;lia, vai<br \/>\n    para dentro. J&aacute; que um reverend&iacute;ssimo teve o inc&ocirc;modo<br \/>\n    de vir c&aacute;, quero aproveitar a ocasi&atilde;o e confessar-me. Posso<br \/>\n    morrer&#8230;<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Ah!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Anda, vai para dentro, n&atilde;o te assustes. (Sai Em&iacute;lia)<\/p>\n<h3>CENA IX<\/h3>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA, s&oacute; &#8211; A ingratid&atilde;o daquele monstro assassinou-me.<br \/>\n    Bom &eacute; ficar tranq&uuml;ila com a minha consci&ecirc;ncia.<\/p>\n<h3>CENA X<\/h3>\n<p>Ambr&oacute;sio, com h&aacute;bito de frade, entra seguindo Jos&eacute;.<\/p>\n<p>JOS&Eacute; &#8211; Aqui est&aacute; a senhora.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, &agrave; parte &#8211; Retira-te e fecha a porta. (D&aacute;-lhe<br \/>\n    dinheiro.)<\/p>\n<p>JOS&Eacute;, &agrave; parte &#8211; Que l&aacute; se avenham&#8230; A paga c&aacute;<br \/>\n    est&aacute;.<\/p>\n<h3>CENA XI<\/h3>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Vossa Reverend&iacute;ssima pode aproximar-se. Queira assentar-se.<br \/>\n    (Senta-se.)<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, fingindo que tosse &#8211; Hum, hum, hum&#8230; (Carlos espreita embaixo<br \/>\n    da cama.)<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Escrevi para que viesse uma pessoa falar-me e Vossa Reverend&iacute;ssima<br \/>\n    quis ter a bondade de vir.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Hum, hum, hum&#8230;<\/p>\n<p>CARLOS, &agrave; parte &#8211; O diabo do frade est&aacute; endefluxado.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; E era para tratarmos do meu sobrinho Carlos, mas j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; preciso. Aqui esteve o padre-mestre; sobre isso falamos;<br \/>\n    est&aacute; tudo justo e sem d&uacute;vida Vossa reverend&iacute;ssima j&aacute;<br \/>\n    est&aacute; informado.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, o mesmo &#8211; Hum, hum, hum&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Vossa Reverend&iacute;ssima est&aacute; constipado; talvez<br \/>\n    o frio da noite&#8230;<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, disfar&ccedil;ando a voz &#8211; Sim, sim&#8230;.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Muito bem.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; N&atilde;o conheci esta voz no convento&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Mas para que Vossa Reverend&iacute;ssima n&atilde;o perdesse<br \/>\n    de todo o seu tempo, se quisesse ter a bondade de ouvir-me em confiss&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Ah! (Vai fechar as portas.)<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Que faz, senhor? Fecha a porta? Ningu&eacute;m nos ouve.<\/p>\n<p>CARLOS, &agrave; parte &#8211; O frade tem m&aacute;s ten&ccedil;&otilde;es&#8230;<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, disfar&ccedil;ando a voz &#8211; Por cautela.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Assente-se (&Agrave; parte:) N&atilde;o gosto muito disso&#8230;<br \/>\n    (Alto:) Reverend&iacute;ssimo, antes de principiarmos a confiss&atilde;o,<br \/>\n    julgo necess&aacute;rio informar-lhe que fui casada duas vezes; a primeira,<br \/>\n    com um santo homem, e a segunda, com um dem&ocirc;nio.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Hum, hum, hum&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Um homem sem honra e sem f&eacute; em Deus, um malvado.<br \/>\n    Casou-se comigo quando ainda tinha mulher viva! N&atilde;o &eacute; verdade,<br \/>\n    reverend&iacute;ssimo, que este homem vai direitinho para o inferno?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Hum, hum, hum&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Oh, mas enquanto n&atilde;o vai para o inferno, h&aacute;-de<br \/>\n    pagar nesta vida. H&aacute; uma ordem de pris&atilde;o contra ele e o malvado<br \/>\n    n&atilde;o ousa aparecer.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, levantando-se e tirando o capuz &#8211; E quem vos disse que ele<br \/>\n    n&atilde;o ouso aparecer?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA, fugindo da cama &#8211; Ah!<\/p>\n<p>CARLOS, &agrave; parte &#8211; O senhor meu tio!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Podeis gritar, as portas est&atilde;o fechadas. Preciso<br \/>\n    de dinheiro e muito dinheiro para fugir desta cidade, e dar-mo-eis, sen&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Deixai-me! Eu chamo por socorro!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Que me importa? Sou criminoso; serei punido. Pois bem,<br \/>\n    cometerei outro crime, que me pode salvar. Dar-me-eis tudo quanto possu&iacute;s:<br \/>\n    dinheiro, j&oacute;ias, tudo! E desgra&ccedil;ada de v&oacute;s, se n&atilde;o<br \/>\n    me obedeceis! A morte!&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA, corre por toda a casa, gritando &#8211; Socorro, socorro! Ladr&atilde;o,<br \/>\n    ladr&atilde;o! Socorro! (Escuro.)<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, seguindo-a &#8211; Sil&ecirc;ncio, sil&ecirc;ncio, mulher!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; O caso est&aacute; s&eacute;rio! ( Vai saindo debaixo da cama no<br \/>\n    momento que Flor&ecirc;ncia atira com a mesa no ch&atilde;o. Ouve-se gritos<br \/>\n    fora: Abra, abra! Flor&ecirc;ncia, achando-se s&oacute; e no escuro, senta-se<br \/>\n    no ch&atilde;o, encolhe-se e cobre-se com uma colcha.)<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, procurando &#8211; Para onde foi? Nada vejo. Batem nas portas!<br \/>\n    O que farei?<\/p>\n<p>CARLOS, &agrave; parte &#8211; A tia calou-se e ele aqui est&aacute;.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, encontra-se com Carlos e agarra-lhe o h&aacute;bito &#8211; Ah,<br \/>\n    mulher, estais em meu poder. Estas portas n&atilde;o tardar&atilde;o a ceder;<br \/>\n    salvai-me, ou mato-te!<\/p>\n<p>CARLOS, dando-lhe uma bofetada &#8211; Tome l&aacute;, senhor meu tio!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Ah! (Cai no ch&atilde;o.)<\/p>\n<p>CARLOS, a parte &#8211; Outra vez para a concha (Mete-se debaixo da cama.)<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, levantando-se &#8211; Que m&atilde;o! Continuam a bater. Onde<br \/>\n    esconder-me? Que escuro! Deste lado vi um arm&aacute;rio&#8230; Ei-lo! (Mete-se<br \/>\n    dentro.)<\/p>\n<h3>CENA XII<\/h3>\n<p>Entram pelo fundo quatro homens armados, Jorge trazendo uma vela acesa. Claro.<\/p>\n<p>JORGE, entrando &#8211; Vizinha, vizinha, o que &eacute;? O que foi? N&atilde;o<br \/>\n    vejo ningu&eacute;m&#8230; (D&aacute; com Flor&ecirc;ncia no canto.) Quem est&aacute;<br \/>\n    aqui?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Ai, ai!<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Vizinha, somos n&oacute;s&#8230;<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA, dentro &#8211; Minha m&atilde;e, minha m&atilde;e! (Entra.)<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Ah, &eacute; o vizinho Jorge! E estes senhores? (Levantando-se<br \/>\n    ajudada por Jorge.)<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Minha m&atilde;e, o que foi?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Filha!<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Estava na porta de minha loja, quando ouvi gritar: Socorro, socorro!<br \/>\n    Conheci a voz da vizinha e acudi com estes quatro amigos.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Muito obrigado, vizinho, ele j&aacute; se foi.<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Ele quem?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; O ladr&atilde;o.<\/p>\n<p>TODOS &#8211; O ladr&atilde;o!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Sim, um ladr&atilde;o vestido de frade, que me queria roubar<br \/>\n    e assassinar.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA, para Flor&ecirc;ncia &#8211; Minha m&atilde;e!<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Mas ele n&atilde;o teve tempo de sair. Procuremos.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Espere, vizinho, deixe-me sair primeiro. Se o encontrarem,<br \/>\n    d&ecirc;em-lhe uma boa arrochada e levem-no preso. (&Agrave; parte:) H&aacute;-de<br \/>\n    me pagar! Vamos menina.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA, para Flor&ecirc;ncia &#8211; &Eacute; Carlos, minha m&atilde;e,<br \/>\n    &eacute; o primo!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA, para Em&iacute;lia &#8211; Qual primo! &Eacute; ele, teu padrasto.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; &Eacute; o primo!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; &Eacute; ele, &eacute; ele. Vem. procurem-no bem, vizinhos,<br \/>\n    e pau nele. Anda, anda. (Sai com Em&iacute;lia.)<\/p>\n<h3>CENA XIII<\/h3>\n<p>JORGE &#8211; Amigos, cuidado! Procuremos tudo; o ladr&atilde;o ainda n&atilde;o<br \/>\n    saiu daqui. Venham atr&aacute;s de mim. Assim que ele aparecer, uma boa massada<br \/>\n    de pau, e depois os p&eacute;s e m&atilde;os amarradas, e guarda do Tesouro<br \/>\n    com ele&#8230; Sigam-me. Aqui n&atilde;o est&aacute;; vejamos atr&aacute;s do<br \/>\n    arm&aacute;rio. (V&ecirc;.) Nada. Onde se esconderia? Talvez debaixo da cama.<br \/>\n    (Levantando o rodap&eacute;:) Oh, c&aacute; est&aacute; ele! (D&atilde;o bordoadas.)<\/p>\n<p>CARLOS, gritando &#8211; Ai, ai, n&atilde;o sou eu. n&atilde;o sou ladr&atilde;o,<br \/>\n    ai, ai!<\/p>\n<p>JORGE, dando &#8211; Salta para fora, ladr&atilde;o, salta! (Carlos sai para fora,<br \/>\n    gritando:) N&atilde;o sou ladr&atilde;o, sou de casa!<\/p>\n<p>JORGE &#8211; A ele amigos! (Perseguem Carlos de bordoadas por toda a cena. Por<br \/>\n    fim, mete-se atr&aacute;s do arm&aacute;rio e atira com ele no ch&atilde;o.<br \/>\n    Gritos: Ladr&atilde;o!)<\/p>\n<h3>CENA XIV<\/h3>\n<p>Jorge s&oacute;, depois Flor&ecirc;ncia e Em&iacute;lia.<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Eles que o sigam; eu j&aacute; n&atilde;o posso. O diabo esfolou-me<br \/>\n    a canela com o arm&aacute;rio. (Batendo na porta.) &Oacute; Vizinha, vizinha?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA, entrando &#8211; Ent&atilde;o, vizinho?<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Estava escondido debaixo da cama.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; N&atilde;o te disse?<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Demos-lhe uma boa massada de pau e fugiu por aquela porta, mas os<br \/>\n    amigos foram-lhe no alcance.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Muito obrigada, vizinho. Deus lhe pague.<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Estimo que a vizinha n&atilde;o tivesse maior inc&ocirc;modo.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Obrigada. Deus lhe pague. <\/p>\n<p>JORGE &#8211; Boa noite, vizinha; mande levantar o arm&aacute;rio que caiu.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Sim senhor. Boa noite. (Sai Jorge.)<\/p>\n<h3>CENA XV<\/h3>\n<p>Flor&ecirc;ncia e Em&iacute;lia<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Pagou-me!<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA, chorando &#8211; Ent&atilde;o minha m&atilde;e, n&atilde;o lhe disse<br \/>\n    que era o primo Carlos?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; E continua a teimar?<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Se o vi atr&aacute;s da cama!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Ai, peior, era teu padrasto.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Se eu o vi!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Se eu lhe falei!&#8230; &Eacute; boa teima!<\/p>\n<h3>CENA XVI<\/h3>\n<p>JUCA, entrando &#8211; Mam&atilde;e, aquela mulher do pap&aacute; quer lhe falar.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; O que quer essa mulher comigo, o que quer? (Resoluta:)<br \/>\n    Diga que entre (Sai Juca.)<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; A mam&atilde;e vai afligir-se no estado em que est&aacute;?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Bota aqui duas cadeiras. Ela n&atilde;o tem culpa. (Em&iacute;lia<br \/>\n    chega uma cadeira. Flor&ecirc;ncia sentando-se;) Vejamos o que quer. Chega<br \/>\n    mais esta cadeira para aqui. Bem, vai para dentro.<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Mas, se&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Anda; uma menina n&atilde;o deve ouvir a conversa que vamos<br \/>\n    ter. Farei tudo para persegu&iacute;-lo. (Em&iacute;lia sai.)<\/p>\n<h3>CENA XVII<\/h3>\n<p>Entra Rosa. J&aacute; vem de vestido.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; D&aacute; licen&ccedil;a?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Pode entrar. Queira ter a bondade de sentar-se. (Senta-se.)<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Minha senhora, a nossa posi&ccedil;&atilde;o &eacute; bem extraordin&aacute;ria&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; E desagrad&aacute;vel no ultimo ponto.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Ambas casadas com o mesmo homem&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; E ambas com igual direito.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Perdoe-me, minha senhora, nossos direitos n&atilde;o s&atilde;o iguais,<br \/>\n    sendo eu a primeira mulher&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Oh, n&atilde;o falo desse direito, n&atilde;o o contesto.<br \/>\n    Direito de persegui-lo quero eu dizer.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Nisso estou de acordo.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Fui vilmente atrai&ccedil;oada&#8230;<\/p>\n<p>ROSA &#8211; E eu indignamente insultada&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Atormentei meus filhos&#8230;<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Contribui para a morte de minha m&atilde;e&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Estragou grande parte da minha fortuna.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Roubou-me todos os meus bens&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Oh, mas hei-de vingar-me!<\/p>\n<p>ROSA, levantando-se &#8211; Havemos de vingarmo-nos, senhora, e para isso aqui<br \/>\n    me acho.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA, levantando-se &#8211; Explique-se.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Ambas fomos tra&iacute;das pelo mesmo homem, ambas servimos de degrau<br \/>\n    &agrave; sua ambi&ccedil;&atilde;o. E porventura somos disso culpadas?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; N&atilde;o.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Quando lhe dei eu a minha m&atilde;o, poderia prever que ele seria<br \/>\n    um traidor? E v&oacute;s, senhora, quando lhe d&eacute;steis a vossa, que<br \/>\n    vos un&iacute;eis a um infame?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Oh, n&atilde;o!<\/p>\n<p>ROSA &#8211; E n&oacute;s, suas desgra&ccedil;adas v&iacute;timas, nos odiaremos<br \/>\n    mutuamente, em vez de ligarmo-nos, para de comum acordo perseguimos o traidor?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Senhora, nem eu, nem v&oacute;s temos culpa do que se tem<br \/>\n    passado. Quisera viver longe de v&oacute;s; vossa presen&ccedil;a aviva meus<br \/>\n    desgostos, por&eacute;m farei um esfor&ccedil;o &#8211; aceito o vosso oferecimento<br \/>\n    &#8211; unamo-nos e mostraremos ao monstro o que podem duas fracas mulheres quando<br \/>\n    se querem vingar.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Eu contava convosco.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Agrade&ccedil;o a vossa confian&ccedil;a.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Sou provinciana, n&atilde;o possuo talvez a polidez da Corte, mas<br \/>\n    tenho paix&otilde;es violentas e resolu&ccedil;&otilde;es prontas. Aqui trago<br \/>\n    uma ordem de pris&atilde;o contra o p&eacute;rfido, mas ele se esconde. Os<br \/>\n    oficiais de justi&ccedil;a andam em sua procura.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Aqui esteve h&aacute; pouco.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Quem?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; O traidor.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Aqui? Em vossa casa? E n&atilde;o vos assegurastes dele?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; E como?<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Ah, se eu aqui estivesse&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Fugiu, mas levou uma ma&ccedil;ada de pau.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; E onde estar&aacute; ele agora, onde?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, arrebenta uma t&aacute;bua do arm&aacute;rio, p&otilde;e<br \/>\n    a cabe&ccedil;a para fora &#8211; Ai, que abafo.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA e ROSA, assustadas &#8211; &Eacute; ele!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, com a cabe&ccedil;a de fora &#8211; Oh, diabos, c&aacute; est&atilde;o<br \/>\n    elas!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; &Eacute; ele! Como te achas a&iacute;?<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Estava espreitando-nos!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Qual espreitando! Tenham a bondade de levantar este arm&aacute;rio.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Para qu&ecirc;?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Quero sair&#8230; J&aacute; n&atilde;o posso&#8230; Abafo, morro!<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Ah, n&atilde;o podes sair? Melhor.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Melhor?<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Sim, melhor, porque est&aacute;s em nosso poder.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Sabes que est&aacute;vamos ajustando o meio de nos vingarmos<br \/>\n    de ti, maroto?<\/p>\n<p>ROSA &#8211; E tu mesmo te entregaste&#8230; Mas como?&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Agora j&aacute; te advinho. Bem dizia Em&iacute;lia; foi<br \/>\n    Carlos quem levou as bordoadas. Ah, patife. mais essa!.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Pagar&aacute; por tudo junto.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Mulheres, vejam l&aacute; o que fazem!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; N&atilde;o me metes medo, grand&iacute;ssimo mariola!<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Sabes que papel &eacute; este? &Eacute; uma ordem de pris&atilde;o<br \/>\n    contra ti que vai ser executada. Foge agora!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Minha Rosinha, tira-me daqui!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; O que &eacute; l&aacute;?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Florencinha, tem compaix&atilde;o de mim!<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Ainda falas, patife?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Ai, que grito! Ai, ai!!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Podes gritar. Espera um bocado. (Sai.)<\/p>\n<p>ROSA &#8211; A justi&ccedil;a de Deus te castiga.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Escuta-me, Rosinha, enquanto aquele diabo est&aacute; l&aacute;<br \/>\n    dentro: tu &eacute;s a minha cara mulher; tira-me daqui que eu te prometo&#8230;<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Promessas tuas? Queres que eu acredite nelas? (Entra Flor&ecirc;ncia<br \/>\n    trazendo um pau de vassoura.)<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Mas eu juro que desta vez&#8230;<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Juras? E tu tens f&eacute; em Deus para jurares?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Rosinha de minha vida, olha que&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA, levanta o pau e d&aacute;-lhe na cabe&ccedil;a &#8211; Toma maroto!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, escondendo a cabe&ccedil;a &#8211; Ai!<\/p>\n<p>ROSA, rindo-se &#8211; Ah, ah, ah!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Ah, pensavas que o caso havia de ficar assim? Anda, bota<br \/>\n    a cabe&ccedil;a de fora!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, principia a gritar &#8211; Ai! (Etc.)<\/p>\n<p>ROSA, procura pela casa um pau &#8211; N&atilde;o acho tamb&eacute;m um pau&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Grita, grita, que eu j&aacute; chorei muito. Mas agora<br \/>\n    hei-de arrebentar-te esta cabe&ccedil;a. Bota essa cara sem vergonha.<\/p>\n<p>ROSA, tira o travesseiro da cama &#8211; Isto serve?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Patife! Homem desalmado!<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Zombaste, agora pagar&aacute;s.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, botando a cabe&ccedil;a de fora &#8211; Ai, que morro! (D&atilde;o-lhe.)<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Toma l&aacute;!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, escondendo a cabe&ccedil;a &#8211; Diabos!<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Chegou a nossa vez.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Ver&aacute;s como se vingam duas mulheres&#8230;<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Tra&iacute;das &#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Enganadas&#8230;<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Por um tratante&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Digno de forca.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Anda, bota a cabe&ccedil;a de fora!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Pensavas que hav&iacute;amos de chorar sempre?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, bota a cabe&ccedil;a de fora &#8211; J&aacute; n&atilde;o posso<br \/>\n    (D&atilde;o-lhe.) Ai, que me matam! (Esconde-se.)<\/p>\n<p>ROSA &#8211; &Eacute; para teu ensino,<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA, fazendo sinais para Rosa &#8211; Est&aacute; bem, basta, deix&aacute;-lo.<br \/>\n    Vamos chamar os oficiais de justi&ccedil;a.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Nada! Primeiro hei-de lhe arrebentar a cabe&ccedil;a. Bota a cabe&ccedil;a<br \/>\n    de fora. N&atilde;o queres?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA, fazendo sinais &#8211; N&atilde;o, minha amiga, por nossas m&atilde;os<br \/>\n    j&aacute; nos vingamos. Agora, a justi&ccedil;a.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Pois vamos. Um instantinho, meu olho, j&aacute; voltamos.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Se quiser, pode sair e passear. Podemos sair, que ele n&atilde;o<br \/>\n    foge. (Colocam-se juntas do arm&aacute;rio, silenciosas.)<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, botando a cabe&ccedil;a de fora &#8211; As f&uacute;rias j&aacute;<br \/>\n    se foram. Escangalharam-me a cabe&ccedil;a! Se eu pudesse fugir&#8230; (Flor&ecirc;ncia<br \/>\n    e Rosa d&atilde;o-lhe.)<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Por que n&atilde;o foges?<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Pode muito bem.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Dem&ocirc;nios (Esconde-se.)<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; S&oacute; assim teria vontade de rir. Ah, ah!<\/p>\n<p>ROSA &#8211; H&aacute; seis anos que n&atilde;o me rio de t&atilde;o boa vontade!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Ent&atilde;o, maridinho!<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Vidinha, n&atilde;o queres ver tua mulher?<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO, dentro &#8211; Dem&ocirc;nios, f&uacute;rias, centop&eacute;ias!<br \/>\n    Diabos! Corujas! Ai, ai! (Gritando sempre.)<\/p>\n<h3>CENA XVIII<\/h3>\n<p>Os mesmos e Em&iacute;lia<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA, entrando &#8211; O que &eacute;? Riem-se?<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Vem c&aacute;, menina, vem ser como se devem ensinar aos<br \/>\n    homens.<\/p>\n<h3>CENA XIX<\/h3>\n<p>Entra Carlos preso por soldados, etc., seguido de Jorge.<\/p>\n<p>JORGE, entrando adiante &#8211; Vizinha, o ladr&atilde;o foi apanhado.<\/p>\n<p>CARLOS, entre os soldados &#8211; Tia!<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Carlos!<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; O primo! (Ambr&oacute;sio bota a cabe&ccedil;a de fora e<br \/>\n    espia.)<\/p>\n<p>JORGE &#8211; &Eacute; o ladr&atilde;o.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Vizinho, este &eacute; o meu sobrinho Carlos.<\/p>\n<p>JORGE &#8211; Seu sobrinho? Pois foi quem levou a co&ccedil;a.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Ainda c&aacute; sinto&#8230;<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Coitado! Foi um engano, vizinho.<\/p>\n<p>JORGE, para os meirinhos &#8211; Podem larg&aacute;-lo.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Obrigado. Priminha! (Indo para ela.)<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Pobre primo.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA, para Jorge &#8211; N&oacute;s j&aacute; sabemos como foi o engano,<br \/>\n    neste arm&aacute;rio; depois lhe explicarei. (Ambr&oacute;sio esconde-se.)<\/p>\n<p>JORGE, para os soldados &#8211; Sinto o trabalho que tiveram&#8230; E como n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; mais preciso, podem-se retirar.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Queiram ter a bondade de esperar. Senhores oficiais de justi&ccedil;a,<br \/>\n    aqui lhes apresento este mandado de pris&atilde;o, lavrado contra um homem<br \/>\n    que se oculta dentro daquele arm&aacute;rio.<\/p>\n<p>TODOS &#8211; Naquele arm&aacute;rio!<\/p>\n<p>MEIRINHO, que tem lido o mandado &#8211; O mandado est&aacute; em forma.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Tenham a bondade de levantar o arm&aacute;rio. (Os oficiais de justi&ccedil;a<br \/>\n    e os quatro homens levantam o arm&aacute;rio.)<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Abram (Ambr&oacute;sio sai muito p&aacute;lido, depois<br \/>\n    de abrirem o arm&aacute;rio.)<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; O senhor meu tio!<\/p>\n<p>EM&Iacute;LIA &#8211; Meu padrasto!<\/p>\n<p>JORGE &#8211; O Sr. Ambr&oacute;sio.<\/p>\n<p>MEIRINHO &#8211; Estais preso.<\/p>\n<p>ROSA &#8211; Levai-o.<\/p>\n<p>FLOR&Ecirc;NCIA &#8211; Para a cadeia.<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Um momento. Estou preso, vou passar seis meses na cadeia&#8230;<br \/>\n    Exultai, senhoras. Eu me deveria lembrar antes de me casar com duas mulheres,<br \/>\n    que basta s&oacute; uma para fazer o homem desgra&ccedil;ado. O que diremos<br \/>\n    de duas? Reduzem-no ao estado em que me vejo. Mas n&atilde;o sairei daqui<br \/>\n    sem ao menos vingar-me em algu&eacute;m. (Para os meirinhos:) Senhores, aquele<br \/>\n    mo&ccedil;o fugiu do convento depois de assassinar um frade.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; O que &eacute; l&aacute; isso? (Mestre de Novi&ccedil;os entra pelo<br \/>\n    fundo.)<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Senhores, denuncio-vos um criminoso.<\/p>\n<p>MEIRINHO &#8211; &Eacute; verdade que tenho aqui uma ordem contra um novi&ccedil;o&#8230;<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; &#8230;Que j&aacute; de nada vale. (Preven&ccedil;&atilde;o.)<\/p>\n<p>TODOS &#8211; O Padre-Mestre!<\/p>\n<p>MESTRE, para Carlos &#8211; Carlos, o D. Abade julgou mais prudente que l&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o volt&aacute;sseis. Aqui tens a permiss&atilde;o por ele assinada<br \/>\n    para sa&iacute;res do convento.<\/p>\n<p>CARLOS, abra&ccedil;ando-o &#8211; Meu bom Padre-Mestre, este ato reconcilia-me<br \/>\n    com os frades.<\/p>\n<p>MESTRE &#8211; E v&oacute;s, senhoras, esperai da justi&ccedil;a dos homens o castigo<br \/>\n    deste malvado. (Para Carlos e Em&iacute;lia:) E v&oacute;s, meus filhos, sede<br \/>\n    felizes, que eu pedirei para todos (ao p&uacute;blico:) indulg&ecirc;ncia!<\/p>\n<p>AMBR&Oacute;SIO &#8211; Oh, mulheres, mulheres! (Execu&ccedil;&atilde;o.)<\/p>\n<p><strong>FIM<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Ato Primeiro Ato Segundo Ato Terceiro Martins Pena Com&eacute;dia em 3 atos PERSONAGENS AMBR&Oacute;SIO. FLOR&Ecirc;NCIA, sua mulher. EM&Iacute;LIA, sua filha. JUCA, 9 anos, dito. CARLOS, novi&ccedil;o da Ordem de S. Bento. ROSA, provinciana, primeira mulher de Ambr&oacute;sio. PADRE-MESTRE DOS NOVI&Ccedil;OS. JORGE. JOS&Eacute;, criado. 1 meirinho, que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-114095","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O Novi\u00e7o, Obra, Martins Pena O Novi\u00e7o<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"O Novi\u00e7o, Obra, Martins Pena, Personagens, Ambr\u00f3sio, Flor\u00eancia, Em\u00edlia, Juca, Literatura, O Novi\u00e7o\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta 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