{"id":114093,"date":"2017-03-17T10:33:05","date_gmt":"2017-03-17T12:33:05","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=114093"},"modified":"2017-03-17T10:33:05","modified_gmt":"2017-03-17T12:33:05","slug":"o-namorador-ou-a-noite-de-sao-joao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-namorador-ou-a-noite-de-sao-joao","title":{"rendered":"O Namorador ou a Noite de S\u00e3o Jo\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h2>Martins Pena<\/h2>\n<p><b>Com\u00e9dia em 1 ato<\/b><\/p>\n<h2>PERSONAGENS<\/h2>\n<p>VICENTE, velho. CLARA, mulher de Vicente. CLEMENTINA, sua filha. RITINHA, amiga de Clementina. LU\u00cdS, primo de Clementina. J\u00daLIO. MANUEL, ilh\u00e9u, feitor. MARIA, ilhoa, sua mulher. Convidados de ambos os sexos, meninos, negros e moleques.<\/p>\n<p><b>A cena se passa em uma ch\u00e1cara no Engenho Velho, no ano de 1844.<\/b><\/p>\n<h2>ATO \u00daNICO<\/h2>\n<p>O teatro representa uma ch\u00e1cara. No fundo, a casa de vivenda com quatro janelas rasgadas e uma porta para a cena. A casa dentro estar\u00e1 iluminada, deixando ver pelas janelas v\u00e1rias pessoas dan\u00e7ando ao som de m\u00fasica, outras sentadas e alguns meninos atacando rodinhas. \u00c0 esquerda, no primeiro plano, a casinha do feitor, a qual, sendo saliente sobre a cena, ter\u00e1 uma janela larga para frente do tablado e uma porta para o lado; debaixo da janela haver\u00e1 um banco de relva. No canto que faz a casinha, um monte de palha; \u00e0 direita, no mesmo plano a casinha, uma carro\u00e7a. Defronte da porta da casa, uma fogueira ainda n\u00e3o acabada; mais para frente, o mastro de S. Jo\u00e3o, e dos lados deste, um pequeno fogo de artif\u00edcio constando de duas rodas nas extremidades e de fogos de vista e coloridos, que ser\u00e3o atacados a seu tempo. A cena \u00e9 alumiada pela lua, que se v\u00ea sobre a casa por entre \u00e1rvores. (N.B.: Deve-se dar todo o espa\u00e7o necess\u00e1rio para a distribui\u00e7\u00e3o da cena acima marcada, a fim de se evitar a confus\u00e3o e conservar a naturalidade do que se quer representar.)<\/p>\n<h2>CENA I<\/h2>\n<p><b>Ritinha com um copo com \u00e1gua na m\u00e3o, e Clementina com um ovo<\/b><\/p>\n<p>Ritinha com um copo com \u00e1gua na m\u00e3o, e Clementina com um ovo.<\/p>\n<p>RITINHA \u2013 S\u00f3 nos falta esta adivinha\u00e7\u00e3o. J\u00e1 plantamos o dente de alho, para v\u00ea-lo amanh\u00e3 nascido; j\u00e1.<\/p>\n<p>saltamos tr\u00eas vezes por cima de um ti\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 E j\u00e1 nos escondemos detr\u00e1s da porta, para ouvirmos pronunciar o nome daquele que vir\u00e1.<\/p>\n<p>a ser teu noivo.<\/p>\n<p>RITINHA \u2013 Vamos \u00e0 do ovo. (Clementina quebra o ovo na beira do copo e deita a clara e gema dentro da.<\/p>\n<p>\u00e1gua.).<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 Agora d\u00ea c\u00e1, (toma o copo) e ponhamo-lo ao sereno.<\/p>\n<p>RITINHA \u2013 Para qu\u00ea? Explica-me esta, que eu n\u00e3o sei.<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 Este ovo, exposto ao sereno dentro da \u00e1gua, vai tomar uma forma qualquer, por milagre.<\/p>\n<p>de S. Jo\u00e3o. Se aparecer como uma mortalha, \u00e9 sinal que morremos cedo; se tomar a figura de uma cama, \u00e9.<\/p>\n<p>prova nos havemos de casar este ano; e se se mostrar debaixo da forma de v\u00e9u de freira, \u00e9 certo agouro que.<\/p>\n<p>viveremos sempre solteira. (P\u00f5e o copo sobre o banco de relva.).<\/p>\n<p>RITINHA \u2013 O melhor \u00e9 n\u00e3o indagarmos isso.<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 Tens receio?.<\/p>\n<p>RITINHA \u2013 A esperan\u00e7a, quando mais n\u00e3o seja, alimenta. Se eu tivesse a certeza que nunca acharia um.<\/p>\n<p>noivo, n\u00e3o sei o que faria.<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 Pois eu tenho a certeza que o acharei.<\/p>\n<p>RITINHA \u2013 Podes dizer isso, \u00e9s bonita&#8230;<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 Tamb\u00e9m o \u00e9s.<\/p>\n<p>RITINHA \u2013 Mas \u00e9s rica, e eu n\u00e3o; e esta pequena diferen\u00e7a muda muito a quest\u00e3o. \u00c9s filha \u00fanica e teu pai.<\/p>\n<p>possui esta bela ch\u00e1cara e outras muitas propriedades. Ali dentro est\u00e3o alguns mo\u00e7os que porfiam em te.<\/p>\n<p>agradar; est\u00e1 nas tuas m\u00e3os escolheres um para noivo. E eu posso dizer outro tanto?.<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 E por que n\u00e3o?.<\/p>\n<p>RITINHA \u2013 Tenho apenas um namorado.<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 \u00c9 o primo Lu\u00eds?.<\/p>\n<p>RITINHA \u2013 \u00c9 ele mesmo, mas confesso-te ingenuamente que n\u00e3o sei o que ele quer. Ora mostra-se muito.<\/p>\n<p>apaixonado, ora n\u00e3o faz caso de mim e namora a outras mo\u00e7as mesmo \u00e0 minha vista; \u00e0s vezes passam-se dias.<\/p>\n<p>e dias sem me aparecer&#8230;<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 Pois que esperas tu do primo Lu\u00eds, daquele doudo que namora o torto e a direito a bonito.<\/p>\n<p>e a feia, a mo\u00e7a e a velha?.<\/p>\n<p>RITINHA, suspirando \u2013 Ai, ai!.<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 O que admira-me \u00e9 ver como tens conseguido t\u00ea-lo por namorado h\u00e1 quase tr\u00eas meses.<\/p>\n<p>RITINHA \u2013 Bem esfor\u00e7os me tem custado.<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 Eu te creio, porque ele diz que um namoro que dura mais de oito dias \u00e9 ma\u00e7ada.<\/p>\n<p>RITINHA \u2013 Tanto n\u00e3o poder\u00e1s tu dizer dos teus, principalmente do J\u00falio.<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 Queres que te diga uma coisa? O tal Sr. J\u00falio, com todos os seus excessos, j\u00e1 me vai.<\/p>\n<p>aborrecendo sofrivelmente.<\/p>\n<p>RITINHA \u2013 Oh, aborrecem-te os excessos?.<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 Quando est\u00e1 junto de mim tem um ar t\u00e3o sentimental que faz d\u00f3 ou riso.<\/p>\n<p>RITINHA \u2013 \u00c9 amor.<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 Se \u00e9 obrigado a responder-me, \u00e9 titubiando e tr\u00eamulo; atrapalha-se, n\u00e3o sabe o que diz e.<\/p>\n<p>tamb\u00e9m nunca acaba de dizer.<\/p>\n<p>RITINHA \u2013 \u00c9 amor.<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 Os seus olhos n\u00e3o me deixam; acompanham-me por toda a parte. N\u00e3o dou um passo, que.<\/p>\n<p>n\u00e3o seja observada.<\/p>\n<p>RITINHA \u2013 S\u00e3o provas de amor.<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 E se eu falo com algum mo\u00e7o? Isso ent\u00e3o!&#8230; Fica logo muito aflito, a mexer-se na.<\/p>\n<p>cadeira, com o nariz muito comprido e com os olhos cheios de l\u00e1grimas. E se eu n\u00e3o lhe fa\u00e7o logo e logo a.<\/p>\n<p>vontade, deixando de conversar com o mo\u00e7o, ei-lo que levanta-se arrebatadamente, pega no chap\u00e9u e sai.<\/p>\n<p>desesperado pela porta afora como quem leva a firme ten\u00e7\u00e3o de nunca mais voltar. Mas qual! Da\u00ed a dous.<\/p>\n<p>minutos est\u00e1 ele ao p\u00e9 de mim.<\/p>\n<p>RITINHA \u2013 Tudo isso \u00e9 amor.<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 \u00c9 amor! \u00c9 amor, sei, mas aborrece-me tanto amor. (Aqui aparece no fundo J\u00falio.).<\/p>\n<p>RITINHA \u2013 V\u00ea como s\u00e3o as coisas: Eu queixo-me do meu por ser indiferente; tu, do teu, por excessivo.<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 \u00c9 que os extremos se tocam. N\u00e3o tens ouvido cantar aquele lundu: Eu que sigo o meu.<\/p>\n<p>bem? Mas tamb\u00e9m o que \u00e9 verdade \u00e9 que eu \u00e0s vezes muito de prop\u00f3sito o fa\u00e7o desesperar.<\/p>\n<p>RITINHA \u2013 Isso \u00e9 maldade. (Clementina v\u00ea J\u00falio, que a este tempo est\u00e1 atr\u00e1s dela.).<\/p>\n<p>CLEMENTINA, \u00e0 parte, para Ritinha \u2013 Olha! E ele comigo! N\u00e3o te dizia que me acompanha por toda a.<\/p>\n<p>parte?.<\/p>\n<p>RITINHA, rindo-se \u2013 Adeus. (Sai correndo.).<\/p>\n<p>CLEMENTINA, querendo ret\u00ea-la \u2013 Espera! (Quer segui-la.).<\/p>\n<p>J\u00daLIO, seguindo-a \u2013 Um momento! (Clementina volta-se para J\u00falio.).<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 O que quer? (Caminha para frente.).<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Eu&#8230; (Fica enleado. Alguns momentos de sil\u00eancio.).<\/p>\n<p>CLEMENTINA, \u00e0 parte \u2013 E ent\u00e3o?.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Eu&#8230; (O mesmo jogo.).<\/p>\n<p>CLEMENTINA, \u00e0 parte \u2013 E ficamos nisto!.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Se me permitisse&#8230; (Mesmo jogo.).<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 O senhor est\u00e1 t\u00e3o ansiado. Tem alguma dor?.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Tenho sim, ingrata, mas \u00e9 no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 Ah, desembuchou?.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Supunha passar hoje uma noite alegre e devertida, e s\u00f3 encontrei tormentos e desenganos.<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 Ah, encontrou desenganos, coitado! Ent\u00e3o quem foi que teve a barbaridade de o.<\/p>\n<p>desenganar?.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Uma cruel, que zomba de mim e de minha vida, que ainda ser\u00e1 causa de algum desatino.<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 Ora vejam s\u00f3 que crueldade!.<\/p>\n<p>J\u00daLIO, desesperado \u2013 Oh, isto assim n\u00e3o pode durar muito. (Com ternura, pegando-lhe na m\u00e3o:).<\/p>\n<p>Clementina, por que h\u00e1s-de ser t\u00e3o m\u00e1 comigo? Que te fiz eu para ser assim maltratado? Eu, que tanto bem te.<\/p>\n<p>quero!.<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 Ontem despedimo-nos em paz. Quais s\u00e3o hoje as queixas?.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Teu primo Lu\u00eds.<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 Ainda ci\u00fame?.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Ama-o, que ele me vingar\u00e1. N\u00e3o encontrar\u00e1s outro cora\u00e7\u00e3o como o meu.<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 Acabou? Uma sua criada. Vou comer batatas.<\/p>\n<p>J\u00daLIO, retendo-a \u2013 Oh, n\u00e3o, n\u00e3o!.<\/p>\n<p>CLEMENTINA, voltando \u2013 Com que ent\u00e3o queria que eu estivesse toda a noute a olhar para o senhor, com.<\/p>\n<p>a boca aberta, ham? Feito uma pateta! Que n\u00e3o conversasse mais com minhas amigas, que estivesse amuada.<\/p>\n<p>em um canto da sala, eu defronte e v\u00f3s \u00e0 vista, assim em ar de dois toiros que se querem investir? Sabe que.<\/p>\n<p>mais? Isto j\u00e1 me vai aborrecendo.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Perdoa-me.<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 Por mais de uma vez j\u00e1 lhe tenho manifestado os sentimentos que me animam a seu.<\/p>\n<p>respeito e dado prova da prefer\u00eancia em que eu o tenho. Quando um dia perguntou-me se eu queria ser sua.<\/p>\n<p>mulher, respondi-lhe com franqueza que sim, mas que previa obst\u00e1culos da parte de meu pai.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Tudo isto \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 E ajuntei mais: que esse temor, por\u00e9m, n\u00e3o esfriasse o nosso amor, que paci\u00eancia e tempo.<\/p>\n<p>tudo conseguem, e que minha m\u00e3e era por n\u00f3s. E ter-me-ia esquecido a esse ponto de minha posi\u00e7\u00e3o e pejo,.<\/p>\n<p>se n\u00e3o o amasse? (Aqui entra pela esquerda, por detr\u00e1s da casinha do ilh\u00e9u, Lu\u00eds, com uma carta de bichos.<\/p>\n<p>acesa, pendurada de uma varinha. Corre para Clementina, gritando.).<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Viva S. Jo\u00e3o! Viva S. Jo\u00e3o! (Clementina foge.).<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 Primo Lu\u00eds, primo Lu\u00eds! (Lu\u00eds vai atr\u00e1s dela gritando sempre, at\u00e9 que ela sai pelo fundo.)<\/p>\n<h2>CENA II<\/h2>\n<p>Enquanto Lu\u00eds corre ap\u00f3s Clementina, J\u00falio fica a olhar para ela.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 E veio interromper-nos na melhor ocasi\u00e3o! Isto foi muito de prop\u00f3sito! N\u00e3o \u00e9 sem raz\u00e3o que eu.<\/p>\n<p>desconfio dela; ama ao primo. (Neste tempo, Lu\u00eds, que volta para cena, est\u00e1 junto dele.).<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 \u00d3 J\u00falio, que bela patuscada, hem?.<\/p>\n<p>J\u00daLIO, \u00e0 parte \u2013 Vem mangar comigo.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 N\u00e3o h\u00e1 melhor! Foguetes para atacar, m\u00fasica para dan\u00e7ar, e sobretudo mo\u00e7as para namorar. O tio.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o festeja o nome de seu santo com grandeza. Tu n\u00e3o tens foguetes?.<\/p>\n<p>J\u00daLIO, com mau modo \u2013 N\u00e3o.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Nem namorada?.<\/p>\n<p>J\u00daLIO, ao mesmo \u2013 N\u00e3o.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 \u00d3 alma de c\u00e2ntaro, marreco de gesso! N\u00e3o tens namorada, quando aquela sala est\u00e1 cheia de meninas.<\/p>\n<p>t\u00e3o encantadoras? N\u00e3o tens namorada? Ent\u00e3o que viste fazer?.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Obsequiar \u00e0 pessoa que me convidou, portando-me com dec\u00eancia.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Como diabo entendes tu as coisas \u00e0s avessas? Quando se convida para uma soir\u00e9e, ou outra qualquer.<\/p>\n<p>patuscada, rapazes solteiros, \u00e9 para que eles namorem. Todos sabem que sem namoro as mais brilhantes.<\/p>\n<p>reuni\u00f5es esfriam e poucas horas duram. Sem namorar as mo\u00e7as ficam amuadas, as velhas dormem e os.<\/p>\n<p>velhos roncam. Sem namoro, essa vivacidade que se nota nos olhares e gestos das meninas desaparece e.<\/p>\n<p>morre, falta de alimento. Sem esse grande excitativo, o desejo de conquistar adormece no cora\u00e7\u00e3o e leva a.<\/p>\n<p>moleza ao corpo e o aborrecimento \u00e0 alma. Tudo fica triste e sem sabor. Os pai e m\u00e3e de fam\u00edlia cedo.<\/p>\n<p>retiram-se com as filhas, porque n\u00e3o v\u00eaem possibilidade de pescarem noivos para elas onde n\u00e3o h\u00e1 namoro.<\/p>\n<p>prometido. Mais tr\u00eas ou quatro contradan\u00e7as e n\u00e3o se v\u00eaem esses casais solit\u00e1rios no meio de espl\u00eandido.<\/p>\n<p>baile, sentados nos cantinhos da sala, alheios a tudo o que se passa ao redor dela, e que tanto servem para.<\/p>\n<p>divertimento de todos. Cessa a maledic\u00eancia, desaparecem esses segredinhos que se dizem ao ouvido e que.<\/p>\n<p>fazem corar. Numa palavra, tudo esfria, emudece, dorme! O namoro \u00e9 a alma da vida, a exist\u00eancia necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>de todas as reuni\u00f5es. \u00c9 o centro ao redor do qual giram todas as afei\u00e7\u00f5es, intrigas, gentes e despesas. Por ele.<\/p>\n<p>\u00e9 que a menina se enfeita, que os rapazes se desafiam, e se individa o homem. Por ele \u00e9 que o pobre pai de.<\/p>\n<p>fam\u00edlia paga a ladroada conta das francesas. Enfim, \u00e9 o motor universal, \u00e9 o \u201cfogo viste ling\u00fci\u00e7a\u201d das.<\/p>\n<p>sociedades. Por isso \u00e9 que eu todas as vezes que sou convidado para algum baile ou patuscada como esta,.<\/p>\n<p>namoro a torto e a direito, para obsequiar o dono da casa.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Ah, \u00e9 para obsequiar os donos das casas? Devem-te ficar muito agradecidos.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 E que n\u00e3o fiquem pouco se me d\u00e1. Fa\u00e7o o meu dever. Tenho feito as mo\u00e7as l\u00e1 dentro andarem numa.<\/p>\n<p>dobradura, inclusive a minha bela priminha.<\/p>\n<p>J\u00daLIO, travando-lhe do bra\u00e7o \u2013 Isto \u00e9 uma trai\u00e7\u00e3o!.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Hem?.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 \u00c9 uma trai\u00e7\u00e3o que cometes para comigo de quem te dizes amigo. Sabes muito bem, porque j\u00e1 te.<\/p>\n<p>tenho dito, que eu amo a tua prima.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 E o que tem isso? Tu namoras e eu tamb\u00e9m namoro; o caso n\u00e3o \u00e9 novo \u2013 v\u00ea-se todos os dias isso.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 \u00c9 preciso acabarmos com este gracejo. N\u00e3o zombo.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Nem eu.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Falo muito s\u00e9rio.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Que diabo de tom \u00e9 esse?.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Faze por toda a parte este papel de namorador e de tolo, acompanha-te sempre dessa leviandade e.<\/p>\n<p>ar gracejador por desprezo pelo homem sensato, que pouco se me d\u00e1 disso; nenhum interesse tenho eu em.<\/p>\n<p>corrigir-te&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 O caso vai de prega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Mas n\u00e3o lances um s\u00f3 olhar para Clementina, n\u00e3o lhe digas uma s\u00f3 palavra de galanteio ou.<\/p>\n<p>sedu\u00e7\u00e3o, porque ent\u00e3o te haver\u00e1s comigo e tarde te arrepender\u00e1s.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Quem, eu?.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Sim, tu.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Isto \u00e9 uma amea\u00e7a?.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 \u00c9, sim.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Ah, a coisa chegou a esse ponto? Pois meu amigo, andou muito mal; os seus ci\u00fames o deitaram a.<\/p>\n<p>perder.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Isso veremos.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 At\u00e9 agora eu namorava a prima inocentemente e sem inten\u00e7\u00e3o, como fa\u00e7o com todas as mo\u00e7as que.<\/p>\n<p>encontro; isto \u00e9 um h\u00e1bito em mim. Mas agora, j\u00e1 que se formaliza e amea\u00e7a-me, hei-de lhe mostrar que n\u00e3o.<\/p>\n<p>s\u00f3 namorarei a priminha de noute e de dia, como tamb\u00e9m casar-me-ei com ela.<\/p>\n<p>J\u00daLIO, raivoso \u2013 Oh!.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 O que n\u00e3o tem podido fazer de mim o amor, far\u00e1 o amor-pr\u00f3prio. Estou resolvido a casar-me.<\/p>\n<p>J\u00daLIO, segurando-lhe na gola da casaca \u2013 N\u00e3o me leves ao desespero! Desiste? (Aqui aparece no fundo.<\/p>\n<p>Clara, que se encaminha para eles.).<\/p>\n<p>LU\u00cdS, segurando na gola da casaca de J\u00falio \u2013 N\u00e3o quero! (J\u00falio agarra com a outra m\u00e3o na gola da casaca.<\/p>\n<p>de Lu\u00eds, que faz o mesmo, empurrando-se mutuamente.).<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 N\u00e3o me fa\u00e7a praticar uma a\u00e7\u00e3o que nos perderia a ambos.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Perdido j\u00e1 eu estou, porque me vou casar.<\/p>\n<p>J\u00daLIO, forcejando \u2013 Insolente!<\/p>\n<h2>CENA III<\/h2>\n<p><b>Clara junto deles<\/b><\/p>\n<p>CLARA \u2013 Ent\u00e3o, o que \u00e9 isto? (Os dois surpreendem-se e apartam-se.) LU\u00cdS \u2013 N\u00e3o \u00e9 nada, minha tia, est\u00e1vamos experimentando for\u00e7as. CLARA \u2013 Ora, deixemos agora disso. Venham dan\u00e7ar, que faltam pares. Venham. LU\u00cdS \u2013 Vamos, tiazinha. (Para J\u00falio:) Vou apertar o namoro. Viva S. Jo\u00e3o! (Sai dando vi\u00e7as.) CLARA, rindo-se \u2013 \u00c9 um doudo este meu sobrinho. Venha, Sr. J\u00falio. J\u00daLIO \u2013 J\u00e1 vou, minha senhora. (Clara sai.)<\/p>\n<h2>CENA IV<\/h2>\n<p><b>J\u00falio, s\u00f3<\/b><\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 O que hei-de eu fazer? Talvez fiz mal em levar as coisas a este extremo. Lu\u00eds principia os namoros e os deixa com a mesma facilidade. N\u00e3o me devia inquietar. Maldito ci\u00fame! Estou em uma cruel perplexidade. Devo hoje mesmo declarar-me com o Sr. Jo\u00e3o F\u00e9lix e pedir-lhe a filha. V\u00e3 esperan\u00e7a! Estou certo que ele n\u00e3o consentir\u00e1; n\u00e3o tenho fortuna. Meu Deus! (Sai vagaroso.)<\/p>\n<h2>CENA V<\/h2>\n<p><b>Enquanto J\u00falio dirige-se para o fundo, entra pela direita baixa o ilh\u00e9u, seguido de quatro pretos, trazendo os dois primeiros lenha, o terceiro um cesto \u00e0 cabe\u00e7a, e o quarto um feixe de cana.<\/b><\/p>\n<p>MANUEL \u2013 Paizinhos, v\u00e3o acabar de fazer a fogueira. Levem primeiro voc\u00eas a cana e os car\u00e1s \u00e0 Senhora. (Manuel fala como os ilh\u00e9us, isto \u00e9, cantando. Os negros da lenha v\u00e3o acabar de fazer a fogueira; os outros dois saem pelo fundo. Manuel, s\u00f3:) C\u00e1 no Brasil \u00e9 como na minha terra; tamb\u00e9m se festeja a noite de S. Jo\u00e3o. Quem me dera no Tojal! H\u00e1 dois anos que aqui estou trabalhando para ganhar dinheiro e para l\u00e1 voltar. Oh, quem pudera viver sem trabalhar! Cresce-me \u00e1gua \u00e0 boca, quando vejo um rico. S\u00e3o os felizes, que c\u00e1 o homem anda de canga ao pesco\u00e7o.<\/p>\n<h2>CENA VI<\/h2>\n<p><b>Entra Maria com uma cesta \u00e0 cabe\u00e7a<\/b><\/p>\n<p>MANUEL \u2013 O que levas a\u00ed, Maria?.<\/p>\n<p>MARIA \u2013 A roupa que estava no campo a secar.<\/p>\n<p>MANUEL \u2013 Pois ainda agora? Vem c\u00e1. (Maria deixa a cesta \u00e0 porta da casinha e caminha para Manuel.).<\/p>\n<p>MARIA \u2013 A senhora tomou-me o tempo e n\u00e3o deixou-me recolh\u00ea-la com dia. Andamos a arranjar a casa.<\/p>\n<p>para a companhia.<\/p>\n<p>MANUEL \u2013 E ela \u00e9 que diverte com os seus, e n\u00f3s trabalhamos.<\/p>\n<p>MARIA \u2013 O que queres, Manuel? Somos pobres, que Deus assim nos fez.<\/p>\n<p>MANUEL \u2013 E \u00e9 do que me queixo. Todo o dia com a enxada na m\u00e3o, e ainda em cima ter olhos nos.<\/p>\n<p>paizinhos, que s\u00e3o peores que o diabo.<\/p>\n<p>MARIA \u2013 Anda l\u00e1, n\u00e3o te queixes tanto, que l\u00e1 no Tojal \u00e9ramos mais desgra\u00e7ados. N\u00e3o sei como n\u00e3o.<\/p>\n<p>morr\u00edamos de fome. Ganhavas seis vint\u00e9ns por dia ao rabo da enxada, e c\u00e1 o senhor te estima; pagou a nossa.<\/p>\n<p>passagem.<\/p>\n<p>MANUEL \u2013 Quisesse Deus que eu tivesse algum dinheirinho junto! Pagaria ao senhor o resto que lhe devo e.<\/p>\n<p>ia comprar um burro e uma carro\u00e7a para vender a i\u00e1gua. O Z\u00e9 voltou para S. Miguel com cinco mil cruzados.<\/p>\n<p>que assim ganhou.<\/p>\n<p>MARIA \u2013 Se puderas fazer isso, eu ficava com a senhora. Este vestido deu-me ela, e este xale tamb\u00e9m, e.<\/p>\n<p>outros me dar\u00e1 ainda.<\/p>\n<p>MANUEL \u2013 Pois se eu sair, sair\u00e1s tamb\u00e9m, sen\u00e3o te desanco.<\/p>\n<p>MARIA \u2013 Ai!.<\/p>\n<p>MANUEL \u2013 Pensas que eu n\u00e3o sei porque queres ficar?.<\/p>\n<p>MARIA \u2013 Ai, que me impacientas!.<\/p>\n<p>MANUEL \u2013 Bem vejo o senhor a te fazer roda como um peru.<\/p>\n<p>MARIA \u2013 Esta besta! O senhor a fazer-me roda, t\u00e3o velho como \u00e9? Ai, que me rio desta!.<\/p>\n<p>MANUEL \u2013 Vai-te rindo, bestinha, at\u00e9 que chores.<\/p>\n<p>CLARA, da porta da casa \u2013 Maria?.<\/p>\n<p>MARIA \u2013 Adeus, que a senhora chama-me. Esta besta!.<\/p>\n<p>MANUEL \u2013 Anda com cuidado, que te tenho o olho em riba.<\/p>\n<p>MARIA \u2013 Olha que cansar\u00e1s a vista, animal.<\/p>\n<h2>CENA VII<\/h2>\n<p>MANUEL, s\u00f3 \u2013 Assim vive um homem de Deus a lavrar a terra e a vigiar a mulher. Forte ocupa\u00e7\u00e3o, que o.<\/p>\n<p>diabo leve! (Para os negros:) Anda paizinhos, acabem essa fogueira e v\u00e3o arrumar o capim na carro\u00e7a para ir.<\/p>\n<p>para cidade. (Os dois negros saem.) Se o senhor continua a fazer festas a Maria, hei-de dizer \u00e0 senhora, que.<\/p>\n<p>n\u00e3o \u00e9 para brincos. (Sai. Logo que Manuel sai, chega do fundo Jo\u00e3o.)<\/p>\n<h2>CENA VIII<\/h2>\n<p>JO\u00c3O, s\u00f3 \u2013 Agora que l\u00e1 dentro est\u00e3o todos entretidos, \u00e9 boa ocasi\u00e3o de cercar minha bela ilhoazinha para.<\/p>\n<p>dar-lhe um abra\u00e7ozinho. Aonde estar\u00e1 ela? (Chamando com cautela:) Maria, Maria? Tenho medo que minha.<\/p>\n<p>mulher veja-me aqui. \u00c9 velha, mais tem ci\u00fames como um mouro. Quem manda ser velha? Estar\u00e1 no quarto?.<\/p>\n<p>(Vai espiar na casinha.) Maria? Nada. L\u00e1 dentro ainda dan\u00e7am; est\u00e3o devertidos e n\u00e3o dar\u00e3o por minha falta.<\/p>\n<p>Vou esconder-me no seu quarto e l\u00e1 esperarei para surpreend\u00ea-la. Oh, que surpresa! S\u00f3 assim, porque ela \u00e9.<\/p>\n<p>arisca como o diabo. Dou-lhe um abra\u00e7ozinho e depois safo-me na pontinha dos p\u00e9s. Oh, que surpresa! Que.<\/p>\n<p>contentamento! (Esfrega as m\u00e3os. J\u00falio, que a este tempo entra vindo do fundo, chama por ele; Jo\u00e3o, que.<\/p>\n<p>est\u00e1 quase junto \u00e0 porta, volta-se zangado.)<\/p>\n<h2>CENA IX<\/h2>\n<p><b>J\u00falio e Jo\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Sr. Jo\u00e3o F\u00e9lix?.<\/p>\n<p>JO\u00c3O, voltando-se \u2013 Quem \u00e9?.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Se quisesse ter a bondade de ouvir-me por alguns instantes com aten\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>JO\u00c3O, impaciente \u2013 O que tens agora a dizer-me, homem? V\u00e1 dan\u00e7ar.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Pensamentos muito s\u00e9rios ocupam-se neste momento para eu poder dan\u00e7ar.<\/p>\n<p>JO\u00c3O \u2013 Ent\u00e3o o que \u00e9?.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Desculpe a minha franqueza&#8230;<\/p>\n<p>JO\u00c3O \u2013 Avie-se, que tenho pressa.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Eu amo sua filha.<\/p>\n<p>JO\u00c3O \u2013 E que tenho eu com isso?.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Mas \u00e9 que eu a amo com adora\u00e7\u00e3o, como nunca se amou, e pretendia&#8230;<\/p>\n<p>JO\u00c3O \u2013 V\u00e1 dizer a ela que eu lhe ordeno que dance com o senhor uma contradan\u00e7a; ande, v\u00e1, v\u00e1!.<\/p>\n<p>(Empurrando-o).<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 N\u00e3o \u00e9 por t\u00e3o pequeno favor que eu ouso encomod\u00e1-lo.<\/p>\n<p>JO\u00c3O , \u00e0 parte \u2013 Que impertin\u00eancia! E eu a perder tempo e ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Terei \u00e2nimo em falar, visto que o senhor n\u00e3o reprovou o meu amor.<\/p>\n<p>JO\u00c3O \u2013 Bem vejo que tens \u00e2nimo, mas pressa decerto que n\u00e3o tens. Pois \u00e9 o que eu tenho.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Serei breve. Concede-me a m\u00e3o de sua filha?.<\/p>\n<p>JO\u00c3O \u2013 Se \u00e9 para dan\u00e7ar, j\u00e1 lhe dei.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 N\u00e3o senhor, \u00e9 para casar.<\/p>\n<p>JO\u00c3O \u2013 Para casar? Sempre pensei que o senhor tivesse mais ju\u00edzo. Pois de noute, no meio do campo e a.<\/p>\n<p>estas horas \u00e9 que o senhor vem pedir minha filha, obrigando-me a estar aqui a cabe\u00e7a ao sereno? J\u00e1 eu estou.<\/p>\n<p>constipado. (Amarra um len\u00e7o na cabe\u00e7a.).<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 S\u00f3 motivos imperiosos me obrigariam a dar este passo t\u00e3o precipitado.<\/p>\n<p>JO\u00c3O \u2013 Precipitado ou n\u00e3o precipitado, n\u00e3o lhe dou minha filha! (Durante a continua\u00e7\u00e3o desta cena Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>passeia pela cena, dando voltas de um para outro lado; passa por tr\u00e1s da carro\u00e7a, vai at\u00e9 o fundo, volta,.<\/p>\n<p>etc., e J\u00falio o segue sempre falando.).<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Mas senhor, Vossa Senhoria n\u00e3o tem raz\u00e3o em responder-me deste modo. Eu decerto teria.<\/p>\n<p>escolhido melhor ocasi\u00e3o; h\u00e1 por\u00e9m acontecimentos que nos levam, mau grado nosso, a dar um passo que \u00e0.<\/p>\n<p>primeira vista parece loucura. A causa deve ser indagada. E isto \u00e9 o que Vossa Senhoria deveria fazer. N\u00e3o se.<\/p>\n<p>trata de um neg\u00f3cio de pouca monta. A minha proposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve ser assim recebida. Sei que a sua filha \u00e9.<\/p>\n<p>um partido vantajoso ainda mesmo para um homem ambicioso, mas em mim n\u00e3o se d\u00e1 essa id\u00e9ia. Procuro os.<\/p>\n<p>dotes morais de que \u00e9 ornada, as virtudes que a fazem t\u00e3o am\u00e1vel e encantadora. Conhe\u00e7o-a de perto, tenho.<\/p>\n<p>tido a honra de freq\u00fcentar sua casa. Rogo a Vossa Senhoria que me d\u00ea um momento de aten\u00e7\u00e3o. Esse.<\/p>\n<p>exerc\u00edcio violento pode-lhe fazer mal&#8230; Minha fam\u00edlia \u00e9 muito conhecida nesta cidade; n\u00e3o \u00e9 rica, \u00e9 verdade,.<\/p>\n<p>mas nem sempre a riqueza constitui felicidade. Meu pai foi desembargador, e minha alian\u00e7a com a filha de.<\/p>\n<p>Vossa Senhoria n\u00e3o pode envergonhar. Sou negociante, ainda que principiante; posso ainda fazer grande.<\/p>\n<p>fortuna e ouso dizer que a Sra. D. Clementina n\u00e3o me v\u00ea com indiferen\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>JO\u00c3O, voltando-se muito zangado para J\u00falio \u2013 N\u00e3o lhe dou minha filha, n\u00e3o lhe dou, n\u00e3o lhe dou! E tenho.<\/p>\n<p>dito.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Atenda-me!.<\/p>\n<p>JO\u00c3O \u2013 Aonde viu o senhor dar-se ca\u00e7a a um pai de semelhante maneira?.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Desculpe-me, \u00e9 o meu amor a causa de&#8230;<\/p>\n<p>JO\u00c3O \u2013 Homem, n\u00e3o me quebre mais a cabe\u00e7a! N\u00e3o quero, n\u00e3o quero e n\u00e3o quero, e v\u00e1-se com os diabos!.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00f3 de minha presen\u00e7a, como de minha casa. V\u00e1-se, v\u00e1-se! (Empurrando.).<\/p>\n<p>J\u00daLIO, com altivez \u2013 Basta, senhor! At\u00e9 agora recebia uma denega\u00e7\u00e3o e com paci\u00eancia a sofri; mas agora \u00e9.<\/p>\n<p>um insulto!.<\/p>\n<p>JO\u00c3O \u2013 Seja l\u00e1 o que quiser.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 E eu n\u00e3o me demorarei um s\u00f3 instante em sua casa.<\/p>\n<p>JO\u00c3O \u2013 Faz-me muito favor. (J\u00falio sai arrebatado.)<\/p>\n<h2>CENA X<\/h2>\n<p><b>Jo\u00e3o, s\u00f3, (e depois Lu\u00eds.)<\/b><\/p>\n<p>JO\u00c3O \u2013 E que tal lhe parece a impertin\u00eancia? Irra! Casar-se com minha filha! Um pobre diabo que s\u00f3 vive do seu insignificante ordenado. Agora, ainda que fosse rico, e muito rico, n\u00e3o lha dava. (Jo\u00e3o vai a entrar no quarto e aparece Lu\u00eds no fundo, gritando.) LU\u00cdS \u2013 Tio Jo\u00e3o? Tio Jo\u00e3o? JO\u00c3O \u2013 Outro! LU\u00cdS, junto dele \u2013 Quero pedir-lhe um grande favor. Trata-se de minha prima.<\/p>\n<p>JO\u00c3O, \u00e0 parte \u2013 Mas tu tamb\u00e9m? (Procura no ch\u00e3o uma pedra. ) LU\u00cdS \u2013 Tenho hoje reparado com mais aten\u00e7\u00e3o na sua beleza e sabidas qualidades.<\/p>\n<p>JO\u00c3O \u2013 N\u00e3o acho eu uma pedra? LU\u00cdS \u2013 Que procura, tio Jo\u00e3o? N\u00e3o sei por que fatalidade tenho eu estado cego a tantas perfei\u00e7\u00f5es. (Jo\u00e3o pega no copo que v\u00ea sobre o banco de relva.) JO\u00c3O \u2013 Se me d\u00e1s mais uma palavra, arrumo-te com este copo pelas ventas.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Olhe que tem um ovo dentro! JO\u00c3O \u2013 Tenha o diabo! Salta, n\u00e3o me esquentes as orelhas! LU\u00cdS \u2013 N\u00e3o o contrariemos, que ele tem veneta e me perderei. Est\u00e1 bem, tio. At\u00e9 logo. (Sai.)<\/p>\n<h2>CENA XI<\/h2>\n<p><b>Jo\u00e3o e depois Manuel<\/b><\/p>\n<p>JO\u00c3O, s\u00f3 \u2013 Ainda vir\u00e1 mais algum? (Jo\u00e3o vai a entrar no quarto do ilh\u00e9u e este aparece do outro lado da cena. Jo\u00e3o, \u00e0 parte:) Oh, diabo! (Disfar\u00e7a o seu intento, fingindo perseguir na parede da casinha um inseto que lhe escapa.) MANUEL, \u00e0 parte \u2013 Ai, o que est\u00e1 o senhor a fazer? (Jo\u00e3o continua no mesmo jogo.) A saltar? (Aproximase dele, que faz que o n\u00e3o v\u00ea.) Ah, senhor? (Jo\u00e3o no mesmo jogo.) Senhor? (Pegando-lhe pelo bra\u00e7o:) O que apanha o senhor? JO\u00c3O, voltando \u2013 Quem \u00e9? Ah, \u00e9 voc\u00ea, Sr. Manuel? Homem, estava atr\u00e1s de uma lagartixa que subiu pela parede.<\/p>\n<p>MANUEL \u2013 Ai, senhor, deixe viver o bichinho de Deus.<\/p>\n<p>JO\u00c3O \u2013 O que quer comigo? MANUEL \u2013 Tinha um favor que pedir ao senhor, mas envergonho-me.<\/p>\n<p>JO\u00c3O \u2013 Pois um homem deste tamanho tem vergonha? Anda, diga o que quer, e depressa, que aqui est\u00e1 muito sereno.<\/p>\n<p>MANUEL \u2013 Queria que o senhor me perdoasse os dois meses que faltam para acabar meu trato.<\/p>\n<p>JO\u00c3O \u2013 Nada, nada, n\u00e3o pode ser. Dei duzentos mil-r\u00e9is pela sua passagem e pela de sua mulher, para que me pagassem com os seus trabalhos. Calculo-os a vinte mil-r\u00e9is por m\u00eas. J\u00e1 l\u00e1 se v\u00e3o oito; falta ainda dois para ficarmos justos de conta. N\u00e3o dispenso.<\/p>\n<p>MANUEL \u2013 Mas senhor&#8230;<\/p>\n<p>JO\u00c3O \u2013 Quando acabar-se o tempo do seu trato, faremos novo ajuste. N\u00e3o terei d\u00favida de dar-lhe mais alguma coisa. (\u00c0 parte:) A minha ilhoazinha n\u00e3o sai daqui.<\/p>\n<p>MANUEL \u2013 Tenho trabalhado muito, e j\u00e1 o senhor devia estar contente comigo, e n\u00e3o olhar a t\u00e3o pouca coisa.<\/p>\n<p>JO\u00c3O \u2013 Fale-me amanh\u00e3; agora n\u00e3o s\u00e3o horas. V\u00e1 arrumar capim na carro\u00e7a que vai de madrugada para a cidade.<\/p>\n<p>MANUEL \u2013 E se o meu trabalho&#8230;<\/p>\n<p>JO\u00c3O, empurrando-o \u2013 J\u00e1 lhe disse que amanh\u00e3&#8230; (Manuel sai. Jo\u00e3o, s\u00f3:) Daqui n\u00e3o me sai ele. Vir\u00e1 ainda algu\u00e9m? (Vai para entrar no quarto e chegam do fundo, correndo, quatro meninos com pistola e bicha na m\u00e3o e chegam at\u00e9 \u00e0 frente do tablado.) MENINO \u2013 Vamos fazer uma fortaleza aqui. (Assenta-se no ch\u00e3o.) Juquinha, voc\u00ea faz outra l\u00e1. (Assentamse todos.) Enterra as pistolas e as bichas. Eu sou o navio. Hei-de fazer fogo, e voc\u00ea tamb\u00e9m ajunta a areia&#8230;<\/p>\n<p>Anda, vem-me ajudar. (Jo\u00e3o, ao ver os meninos que chegam, quebra uma varinha de arbusto pr\u00f3ximo, sai de tr\u00e1s da casinha e caminha para eles. Ao chegar junto, a\u00e7oita-os com a vara. Os pequenos levantam-se, assustados e correm para dentro, gritando e chorando.) JO\u00c3O, gritando \u2013 Salta para dentro! (Voltando:) At\u00e9 estes demoninhos vieram atrapalhar-me! N\u00e3o me fio em crian\u00e7as. \u00c9 isto! Convida-se a certas senhoras para passarem a noite em uma casa e levam quantos filhos t\u00eam, desde o mais pequeno at\u00e9 o maior, para estratagema, quebrarem e pedincharem tudo quanto v\u00eaem e tocam. E importunar a todos os convidados! Deixar-me-\u00e3o desta vez entrar? (Vai para a casinha, entra e fecha a porta. Manuel, que nesse mesmo tempo aparece, o v\u00ea entrar no seu quarto.) MANUEL \u2013 Entra no nosso quarto? Ai, o que me vale \u00e9 estar a Maria l\u00e1 dentro. Ele vai espera-la&#8230; Ai! Pois s\u00e3o estas as lagartixas? Lagartixas! (Pega no cesto que est\u00e1 \u00e0 porta do quarto e com ele atravessa de novo a cena, sempre correndo e sai pela direita. Assim que o ilh\u00e9u sai de cena, Jo\u00e3o abre a janela do quarto que d\u00e1 para a cena e espreita por ela.) JO\u00c3O, \u00e0 janela \u2013 Queria Deus que a minha ilhoazinha n\u00e3o tarde. O meu cora\u00e7\u00e3ozinho est\u00e1 pulando de contente! Mas aonde estar\u00e1 ela? CLARA, do fundo \u2013 Ah, Sr. Jo\u00e3o? Sr. Jo\u00e3o? (Chamando.) JO\u00c3O \u2013 Oh diabo, l\u00e1 est\u00e1 a carocha da minha mulher chamando-me. Se ela souber que estou aqui, mata-me.<\/p>\n<p>Ora, que culpa tenho? Calou-se. (Debru\u00e7a-se na janela, espreitando.) Como tarda!&#8230;<\/p>\n<h2>CENA XII<\/h2>\n<p><b>J\u00falio de capote e bon\u00e9, Jo\u00e3o e depois Clara.<\/b><\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Devo ausentar-me desta casa onde fui insultado e para nunca mais voltar&#8230; Mas deix\u00e1-la? E o posso eu? N\u00e3o, \u00e9 preciso; nem mais um instante! E n\u00e3o posso desprender-me daqui! Fatal amor! Ela fica no meio dos prazeres, e eu&#8230; (Jo\u00e3o chega \u00e0 janela, observa J\u00falio, fazendo esfor\u00e7os para reconhec\u00ea-lo.) JO\u00c3O \u2013 Vejo um vulto. N\u00e3o posso conhecer quem \u00e9. Deixei os meus \u00f3culos l\u00e1 dentro. Parece-me que est\u00e1 de saia e len\u00e7o \u00e0 cabe\u00e7a&#8230; Saia escura! \u00c9 ela, n\u00e3o tem d\u00favida; \u00e9 a minha ilhoazinha. Psiu, psiu! (Chamando com precau\u00e7\u00e3o.) J\u00daLIO, surpreendido \u2013 Quem me chama? JO\u00c3O \u2013 Psiu, psiu, vem c\u00e1! J\u00daLIO \u2013 \u00c9 dali da janela. (Vai-se chegando para a janela. Nesse momento acende-se defronte da porta da casa, no fundo, uma composi\u00e7\u00e3o m\u00edtica de fogo colorido que alumie fortemente a cena. Ao clar\u00e3o do fogo os dois se reconhecem.) JO\u00c3O, recuando para dentro \u2013 Ai! J\u00daLIO \u2013 O Sr. Jo\u00e3o! (Chegando-se para a janela:) Que faz Vossa Senhoria no quarto da ilhoa? JO\u00c3O, um pouco de dentro \u2013 Nada, nada. Vim ver uns pintinhos que estavam no choco? J\u00daLIO \u2013 Pintos no choco? JO\u00c3O \u2013 Sim, sim, pois nunca viu? J\u00daLIO \u2013 Mas Vossa Senhoria&#8230; (Desata a rir e caminha um pouco para a frente da cena, rindo-se sempre.) JO\u00c3O, chegando \u00e0 janela \u2013 Psiu, psiu! Venha c\u00e1; n\u00e3o ria-se t\u00e3o alto! J\u00daLIO, rindo-se \u2013 Qual pintos! \u00c9 pela ilhoa.<\/p>\n<p>JO\u00c3O \u2013 Cale-se, pelo amor de Deus! Venha c\u00e1, venha c\u00e1.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Enganou-se com o meu capote! (Ri-se.) JO\u00c3O \u2013 \u00d3 homem, venha c\u00e1! Olhe que minha mulher pode vir.<\/p>\n<p>J\u00daLIO, chegando \u2013 Pois Vossa Senhoria tem medo que a Sra. D. Clara o ache tirando pinto do choco? JO\u00c3O \u2013 Deixemos de gra\u00e7a e fale baixo.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Ent\u00e3o \u00e9 certo, a ilhoa? Ah, ah, ah! Vou contar isto l\u00e1 dentro. (\u00c0 parte:) Tu me pagar\u00e1s.<\/p>\n<p>JO\u00c3O \u2013 Oh, n\u00e3o, meu amiguinho; minha mulher, se sabe que eu estou aqui, \u00e9 capaz de arrancar-me os olhos.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 H\u00e1 pouco era eu que rogava e Vossa Senhoria dizia n\u00e3o. Agora \u00e9 Vossa Senhoria que roga, e eu tamb\u00e9m digo n\u00e3o. (Jo\u00e3o debru\u00e7a pela janela e consegue agarrar em J\u00falio.) JO\u00c3O \u2013 Escute. N\u00e3o tome a coisa t\u00e3o em grosso; n\u00e3o o quis ofender.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Correr-me de sua casa! JO\u00c3O \u2013 N\u00e3o h\u00e1 tal.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Negar-me com insultos a m\u00e3o de sua filha! JO\u00c3O \u2013 N\u00e3o neguei.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 N\u00e3o negou? JO\u00c3O, \u00e0 parte \u2013 Diabo! J\u00daLIO \u2013 N\u00e3o negou, diz o senhor. Ent\u00e3o concede-me? JO\u00c3O \u2013 N\u00e3o digo isso. Mas se&#8230;<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Ah! Sr.a D. Clara, Sra. D. Clara? JO\u00c3O, querendo tapar-lhe a boca \u2013 Pelo amor de Deus! J\u00daLIO \u2013 Vossa Senhoria n\u00e3o negou-me a m\u00e3o de sua filha? JO\u00c3O \u2013 Seja razo\u00e1vel.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Sra. D. Clara? JO\u00c3O \u2013 Cale-se, homem. Cale-se com todos os milh\u00f5es de diabos! J\u00daLIO \u2013 Nada. Quero que ela aqui venha para ver se pode explicar-me a raz\u00e3o por que Vossa Senhoria nega-me a m\u00e3o de sua filha. Sra. D. Clara? JO\u00c3O \u2013 E eu j\u00e1 lhe disse que lhe negava? J\u00daLIO \u2013 N\u00e3o? Ent\u00e3o concede-ma? JO\u00c3O \u2013 Amanh\u00e3 falaremos.<\/p>\n<p>CLARA, no fundo \u2013 Ah, s\u00f4 Jo\u00e3o, s\u00f4 Jo\u00e3o? J\u00daLIO \u2013 Sua senhora a\u00ed vem.<\/p>\n<p>JO\u00c3O \u2013 V\u00e1-se embora. (Abaixa e esconde-se.) J\u00daLIO, para dentro do quarto \u2013 Concede-ma? JO\u00c3O, dentro \u2013 Concedo.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Palavra de honra? JO\u00c3O, dentro \u2013 Palavra de honra. (Neste tempo Clara est\u00e1 no meio da cena.) CLARA \u2013 S\u00f4 Jo\u00e3o? (J\u00falio quer caminhar para sair pelo fundo.) Quem \u00e9? J\u00daLIO \u2013 Sou eu, minha senhora.<\/p>\n<p>CLARA \u2013 Ah, \u00e9 o Sr. J\u00falio. Sabe-me dizer onde est\u00e1 o meu homem? J\u00daLIO \u2013 N\u00e3o, minha senhora.<\/p>\n<p>CLARA \u2013 E esta? H\u00e1 uma hora que sumiu-se l\u00e1 de dentro e n\u00e3o aparece. (Durante este di\u00e1logo, v\u00ea-se, pela janela da casinha, Jo\u00e3o muito aflito.) J\u00daLIO \u2013 Sem d\u00favida est\u00e1 dando algumas ordens l\u00e1 por fora.<\/p>\n<p>CLARA \u2013 Ordens a estas horas? Deixar as visitas na sala, e desaparecer! J\u00daLIO \u2013 N\u00e3o se inquiete, minha senhora.<\/p>\n<p>CLARA \u2013 Tenho muita raz\u00e3o de me inquietar. Velho como \u00e9, n\u00e3o p\u00e1ra. Ah, Sr. Jo\u00e3o? S\u00f4 Jo\u00e3o? J\u00daLIO, \u00e0 parte \u2013 Em que talas n\u00e3o se v\u00ea ele! Est\u00e1 em meu poder. (J\u00falio diz estas palavras enquanto Clara chama pelo marido; volta para sair pelo fundo, e em meio da cena encontra-se com Lu\u00eds. J\u00falio, para Lu\u00eds:) Ainda teima? LU\u00cdS \u2013 Ainda.<\/p>\n<p>J\u00daLIO \u2013 Veremos.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Veremos. (J\u00falio sai pelo fundo.)<\/p>\n<h2>CENA XIII<\/h2>\n<p><b>Lu\u00eds e Clara<\/b><\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 \u00d3 tiazinha! CLARA \u2013 Quem \u00e9? LU\u00cdS \u2013 Tiazinha, tenho um favor que pedir-lhe&#8230;<\/p>\n<p>CLARA \u2013 Viste teu tio? LU\u00cdS \u2013 N\u00e3o senhora. \u00c9 um favor pelo qual lhe ficarei eternamente agradecido. Sei que a ocasi\u00e3o n\u00e3o \u00e9 das mais oportunas. Este passo parece imprudente&#8230;<\/p>\n<p>CLARA \u2013 Que parece n\u00e3o; que \u00e9.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Por qu\u00ea, tia? CLARA \u2013 \u00c9 falta de aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Oh, a tia decerto est\u00e1 zombando. Se ainda n\u00e3o sabe&#8230;<\/p>\n<p>CLARA \u2013 Sei, sei que ele est\u00e1 metido por a\u00ed, em algum lugar suspeito.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Como suspeito? De quem fala? CLARA \u2013 De teu tio.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Ora, n\u00e3o \u00e9 dele que eu falo.<\/p>\n<p>CLARA \u2013 Pois ent\u00e3o vai-te embora.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Escute, tia. A minha bela priminha&#8230;<\/p>\n<p>CLARA \u2013 Aonde estar\u00e1? LU\u00cdS \u2013 L\u00e1 dentro na alcova.<\/p>\n<p>CLARA \u2013 L\u00e1 dentro na alcova? E o que est\u00e1 fazendo? LU\u00cdS \u2013 Conversando com suas amigas.<\/p>\n<p>CLARA \u2013 Com suas amigas? Pois tamb\u00e9m tem amigas? Bravo! LU\u00cdS \u2013 Oh, que linguagem \u00e9 esta! Pois n\u00e3o foi a tia quem as convidou? CLARA \u2013 Fui sim, mas n\u00e3o sabia que as convidava para desinquietarem um homem casado.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Um homem casado? CLARA \u2013 Um pai de fam\u00edlia que se devia fazer respeitar pela sua idade.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Ai, que eu continuo a falar da prima, e ela do tio.<\/p>\n<p>CLARA \u2013 Vou bot\u00e1-los pela porta a fora.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Espere, tia, h\u00e1 engano entre n\u00f3s. A tia fala do tio, e eu&#8230;<\/p>\n<p>CLARA \u2013 E tenho muita raz\u00e3o de falar.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 N\u00e3o digo menos disso. O que eu pretendia dizer-lhe era&#8230;<\/p>\n<p>CLARA \u2013 J\u00e1 sei o que \u00e9. Quer desculp\u00e1-lo! N\u00e3o v\u00ea que tamb\u00e9m \u00e9 homem? L\u00e1 se entendem.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Continuamos no mesmo. Tia, atenda-me somente por alguns instantes, e depois eu lhe ajudarei a procurar o tio.<\/p>\n<p>CLARA \u2013 Pois fala depressa.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Todos conhecem-me por namorador. Uns dizem que isto em mim \u00e9 sistema, outros, que \u00e9 devido ao meu g\u00eanio folgaz\u00e3o e alegre. Seja o que for, estou resolvido a acabar com todos esses namoros e casar-me. A resolu\u00e7\u00e3o \u00e9 extrema e de botar a perder um homem, mas a sorte est\u00e1 lan\u00e7ada.<\/p>\n<p>CLARA, preocupada \u2013 Eu hei-de indagar isto.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Pode indagar. Falo de boa f\u00e9. E em quem poderia recair a minha escolha, sen\u00e3o na minha bela priminha? CLARA \u2013 N\u00e3o posso consentir.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 N\u00e3o? E por que motivo? CLARA \u2013 Na sua idade? LU\u00cdS \u2013 Perdoe-me a tia; est\u00e1 em muito boa idade.<\/p>\n<p>CLARA \u2013 Boa idade! Sessenta e cinco anos! LU\u00cdS \u2013 Adeus, tia, que n\u00e3o estou mais para jogar os disparates. (Vai para esquerda da cena e Clara vai para sair pelo fundo.) CLARA, caminhando \u2013 Ah, Sr. Jo\u00e3o? Sr. Jo\u00e3o? Eu hei-de dar com ele! (Vai-se pelo fundo.)<\/p>\n<h2>CENA XIV<\/h2>\n<p><b>Lu\u00eds s\u00f3<\/b><\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Quando os ci\u00fames metem-se na cabe\u00e7a de uma mulher \u00e9 isto. E se \u00e9 velha como esta&#8230; Mau agouro para mim. Ora. Sr. Lu\u00eds, \u00e9 ent\u00e3o verdade que o senhor est\u00e1 resolvido a casar-se? J\u00e1 se n\u00e3o lembra do que dizia do casamento e dos grandes inconvenientes que lhe achava? Quer deixar a sua bela vida de namorador? O que \u00e9 isto? Que resolu\u00e7\u00e3o foi a sua? Que dir\u00e1 a Ritinha, a Joaninha, a viuvinha, a Joaquinhinha, a Em\u00edlia, a Henriqueta, a Cocota, a Quitinha, a Lulu, a Leopoldina, a Deolinda e as outras namoradas? Responde, Sr.<\/p>\n<p>Lu\u00eds. Os diabos me levem se eu sei responder. (Assenta-se no banco de relva. Ouve-se dentro de casa a voz de J\u00falio, que canta uma modinha, acompanhado por piano. [N.B.:] A modinha fica a escolha do autor. Logo que a tiver acabado de cantar, d\u00e3o palmas. Tudo isto, por\u00e9m, n\u00e3o interromper\u00e1 a continua\u00e7\u00e3o das cenas.) L\u00e1 est\u00e1 cantando modinhas! Se estivesse como eu, n\u00e3o havia de ter vontade de cantar. Ent\u00e3o? O caso n\u00e3o me tem feito impress\u00e3o. (Aqui aparece no fundo, caminhando para a frente da cena, Clementina.) Ainda n\u00e3o sei o que farei. Creio que mesmo depois dos preg\u00f5es corridos sou capaz de mandar tudo \u00e0 tabua. Mas o meu capricho? Estou arranjado!<\/p>\n<h2>CENA XV<\/h2>\n<p><b>Clementina e Lu\u00eds<\/b><\/p>\n<p>CLEMENTINA, sem ver Lu\u00eds \u2013 Estou com curiosidade de ver como estar\u00e1 o ovo&#8230; (Vai para ver o copo e Lu\u00eds levanta-se.) LU\u00cdS \u2013 Priminha? CLEMENTINA \u2013 Ai! LU\u00cdS \u2013 N\u00e3o se assuste.<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 N\u00e3o gosto destes brinquedos. Que susto! Eu vinha ver o ovo.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Encontraste com um amante; \u00e9 o mesmo. O amante \u00e9 como o ovo, que muitas vezes gora.<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 Fala de si? (Rindo-se.) LU\u00cdS \u2013 Antigamente assim fui, mas agora, priminha da minha alma, estou mudado. A noite de S. Jo\u00e3o fez um milagre. Ai, ai! (Suspira ruidosamente.) CLEMENTINA \u2013 Bravo! Por quem \u00e9 esse suspiro t\u00e3o puxado? LU\u00cdS, caindo de joelhos \u2013 Por ti, minha priminha.<\/p>\n<p>CLEMENTINA, desata a rir \u2013 Ah, ah! Por mim? \u00d3 Ritinha? LU\u00cdS \u2013 Cala-te! CLEMENTINA \u2013 Quero que ela venha ver isto e que caminho leva o seu amor.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Ms h\u00e1 j\u00e1 tr\u00eas meses que ela me ama! CLEMENTINA \u2013 Boa raz\u00e3o! N\u00e3o a ama porque ela ainda o ama. \u00c9 isto? LU\u00cdS \u2013 Pois priminha, h\u00e1 tr\u00eas meses que ela me ama, e isto j\u00e1 \u00e9 teima, e eu n\u00e3o me caso com mulher teimosa, isso nem pelo diabo.<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 \u00c9 teima? Quem te ensinar\u00e1! LU\u00cdS \u2013 Amei-a como amei a Quitinha, etc.<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 O que a\u00ed vai! E todas essas foram teimosas? LU\u00cdS \u2013 Umas mais, outras menos, mas tu, minha querida priminha&#8230;<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 Oh, n\u00e3o se canse, que n\u00e3o sou teimosa; cedo desde j\u00e1.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Contigo o caso \u00e9 outro; hoje mesmo te principiei a amar, hoje mesmo nos casaremos e hoje mesmo&#8230;<\/p>\n<p>CLEMENTINA, interrompendo-o \u2013 Ah, ah, ah! \u00d3 Ritinha? Ritinha? (Ritinha aparece e encaminha-se para eles. Traz na m\u00e3o uma vara com uma rodinha acesa. Os negros acendem a fogueira.) LU\u00cdS \u2013 Tamb\u00e9m isto agora \u00e9 teima! CLEMENTINA \u2013 Vem c\u00e1.<\/p>\n<p>RITINHA \u2013 O que \u00e9? CLEMENTINA \u2013 N\u00e3o te dizia que me admirava dos tr\u00eas meses? RITINHA \u2013 Ah! CLEMENTINA \u2013 J\u00e1 te n\u00e3o ama, e chama-te de teimosa.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Priminha! RITINHA \u2013 J\u00e1 me n\u00e3o ama? (Ritinha diz estas palavras dirigindo-se para Lu\u00eds, que salta para evitar o fogo da rodinha que Ritinha dirige contra ele.) LU\u00cdS, saltando \u2013 Cuidado com o fogo! CLEMENTINA \u2013 Fazia-me protestos de amor.<\/p>\n<p>RITINHA, mesmo jogo \u2013 Ah, fazia protestos de amor? LU\u00cdS \u2013 N\u00e3o me queime! ( O velho fecha a janela com receio, que o vejam.) CLEMENTINA \u2013 Disse que ardia por mim.<\/p>\n<p>LU\u00cdS, fugindo de Ritinha, que o persegue com a rodinha \u2013 Agora \u00e9 que eu arderei, se me deitam fogo.<\/p>\n<p>RITINHA, mesmo jogo \u2013 Assim \u00e9 que me pagas! LU\u00cdS \u2013 Assim \u00e9 que me pagas! (Fugindo sempre.) CLEMENTINA \u2013 Fogo nele, para n\u00e3o ser bandoleiro! (Ritinha segue mais de perto Lu\u00eds, que foge e refugiase em cima da carro\u00e7a.) Assim, assim, Ritinha, ensina-o.<\/p>\n<p>RITINHA \u2013 Desce c\u00e1 para baixo! LU\u00cdS \u2013 Assim era eu asno! CLEMENTINA \u2013 Ritinha, v\u00e1 buscar l\u00e1 dentro duas pistolas de l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Nem pistola, nem espingarda, nem pe\u00e7as n\u00e3o me far\u00e3o gostar de voc\u00eas. Agora n\u00e3o me caso nem \u00e0 bala.<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 E tamb\u00e9m, quem \u00e9 que quer casar com voc\u00ea? RITINHA \u2013 Eu n\u00e3o! CLEMENTINA \u2013 Quem \u00e9 que acredita nas palavras de um namora-paredes? LU\u00cdS \u2013 Muita gente! CLEMENTINA \u2013 Est\u00e1s desacreditado! LU\u00cdS \u2013 Na pra\u00e7a? CLEMENTINA \u2013 N\u00e3o, com todas as mo\u00e7as.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Melhor, mais gostar\u00e3o de mim.<\/p>\n<p>RITINHA \u2013 Isto n\u00e3o se pode aturar! Vamo-nos embora.<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 Presun\u00e7oso! (Vai a sair pelo fundo.) LU\u00cdS \u2013 Adeus! Viva S. Jo\u00e3o! (Dentro respondem a gritos.)<\/p>\n<h2>CENA XVI<\/h2>\n<p><b>Lu\u00eds, s\u00f3, de cima da carro\u00e7a<\/b><\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 Fi-la bonita! Agora nem uma nem outra. Ainda bem! Mas o diabo \u00e9 ficar o maroto do J\u00falio muito ufano com eu ter cedido. Hist\u00f3rias! N\u00e3o cedo em outras coisas, que namorada pouco se me d\u00e1; acho cem por uma que deixo. Contudo estou zangado. Maldita noite de S. Jo\u00e3o!<\/p>\n<h2>CENA XVII<\/h2>\n<p><b>Maria vem do fundo da cena e vai a entrar na casinha<\/b><\/p>\n<p>LU\u00cdS, saltando da carro\u00e7a \u2013 Psiu, psiu! MARIA, parando \u2013 Quem \u00e9? LU\u00cdS, chegando-se para ela \u2013 Escuta uma coisa.<\/p>\n<p>MARIA \u2013 Ai! O senhor que quer comigo? LU\u00cdS \u2013 Desde o dia que principiaram a chegar a esta terra carregamentos de colonos, como antigamente chegavam carregamentos de cebolas, ainda c\u00e1 n\u00e3o apareceu uma ilhoazinha com esses olhos matadores, com esses beicinhos rosados.<\/p>\n<p>MARIA \u2013 Ai, o senhor est\u00e1 a mangar comigo.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 As mais que eu por a\u00ed vejo s\u00e3o feias como uma lacraia e vermelhas como a crista do galo; mas tu \u00e9s a nata das ilhoas. (Quer abra\u00e7\u00e1-la.) MARIA \u2013 Chegue-se para l\u00e1, que vou contar a meu marido. (Quer sair, Lu\u00eds a ret\u00e9m.) LU\u00cdS \u2013 Espera. \u00c9 pena que estejas casada com teu marido.<\/p>\n<p>MARIA \u2013 Ai, pois eu podia estar casada com um homem que n\u00e3o fosse meu marido? LU\u00cdS \u2013 Pois n\u00e3o.<\/p>\n<p>MARIA \u2013 Est\u00e1 zombando? (Neste tempo a fogueira est\u00e1 de todo acesa e todas as pessoas que est\u00e3o na casa saem e ficam ao redor da fogueira, ad libitum.) LU\u00cdS \u2013 Sentemo-nos neste banco, que te explicarei como pode isto ser. Aqui nos podem ver l\u00e1 de cima com o clar\u00e3o da fogueira.<\/p>\n<p>MARIA \u2013 Estou com curiosidade.<\/p>\n<p>LU\u00cdS, \u00e0 parte \u2013 Isto sei eu. (Assentam-se no banco.) Sup\u00f5e que nunca tenhas visto teu marido&#8230; Que m\u00e3ozinhas! (Pega-lhes nas m\u00e3os.) MARIA \u2013 Largue minha m\u00e3o! LU\u00cdS \u2013 Nem encontrado com ele&#8230; Que olhinhos! MARIA \u2013 Deixe meus olhos! LU\u00cdS \u2013 Ora, se nunca o tivesse visto nem encontrado, est\u00e1 claro que agora n\u00e3o estarias casada com o teu marido.<\/p>\n<p>MARIA \u2013 Ora vejam! E \u00e9 verdade! LU\u00cdS \u2013 N\u00e3o terias dado essa m\u00e3o, (pega-lhe na m\u00e3o) que tanto estimo&#8230; (Aqui atravessa a cena Manuel, vestido de mulher, e entra no seu quarto.) MANUEL, atravessando a cena \u2013 Custou-me o arranjar-me&#8230;<\/p>\n<p>MARIA \u2013 O senhor tem um modo de explicar as coisas que entram pelos olhos&#8230; De sorte que se eu n\u00e3o tivesse encontrado a Manuel, n\u00e3o estava hoje casada? LU\u00cdS \u2013 Decerto.<\/p>\n<p>MARIA \u2013 Sabe o senhor quando eu o vi? Foi numa festa que se deu no Funchal. (Manuel, depois de entrar no quarto, fecha a porta e fica dentro do quarto, defronte da janela. Chega-se para ele, como vindo do interior, Jo\u00e3o, que supondo ser a Maria, o abra\u00e7a.) JO\u00c3O \u2013 Minha ilhoazinha, minha Mariquinha! (D\u00e1 abra\u00e7os e beijos, que Manuel corresponde.) MARIA \u2013 Hem? LU\u00cdS \u2013 N\u00e3o disse nada. Continua. (Continua a ter a m\u00e3o dela na sua.) MARIA \u2013 Eu ia para a festa. Ai, agora \u00e9 que me lembro que se n\u00e3o fosse a festa tamb\u00e9m n\u00e3o estava casada! LU\u00cdS, dando-lhe um abra\u00e7o \u2013 Maldita festa! MARIA \u2013 Fique quieto! Veja o diabo as arma.<\/p>\n<p>LU\u00cdS \u2013 \u00c9 verdade! (Manuel e Jo\u00e3o, que ouvem as vozes dos dois, chegam-se para a janela, e dando com os dois no banco abaixo, ficam observando, dando sinais de grande surpresa.) MARIA \u2013 Estive quase n\u00e3o indo \u00e0 festa, e se n\u00e3o fosse o meu vestido novo&#8230; Ai, senhor, e se n\u00e3o fosse o vestido novo, eu tamb\u00e9m n\u00e3o estava casada.<\/p>\n<p>LU\u00cdS, abra\u00e7ando \u2013 Maldito vestido! MARIA \u2013 Foi minha tia que mo deu. Ai, que se eu tamb\u00e9m n\u00e3o tivesse tia, n\u00e3o era agora mulher de meu marido. (Manuel debru\u00e7a-se pela janela e a agarra no pesco\u00e7o.) MANUEL \u2013 Maldita mulher! (Maria d\u00e1 um grito e levanta-se; o mesmo faz Lu\u00eds. Maria, conhecendo o marido, deita a correr, atravessando a cena. Manuel salta pela janela e a persegue, gritando. Saem ambos da cena.) LU\u00cdS, vendo Manuel saltar \u2013 Que diabo \u00e9 isto? (Reconhecendo Jo\u00e3o, que fica \u00e0 janela:) O tio Jo\u00e3o! JO\u00c3O \u2013 Cala-te! (Esconde-se.) LU\u00cdS, rindo-se \u2013 No quarto da ilhoa! (Acodem todos, isto \u00e9, Clara, Clementina, Ritinha, J\u00falio e os convidados.)<\/p>\n<h2>CENA XVIII<\/h2>\n<p>CLARA \u2013 O que \u00e9? Que gritos s\u00e3o estes? CLEMENTINA, ao mesmo tempo \u2013 O que aconteceu? RITINHA, ao mesmo tempo \u2013 O que foi? (Lu\u00eds ri-se.) CLARA \u2013 O que \u00e9 isto, Lu\u00eds? Fala. (Lu\u00eds continua a rir-se.) CLEMENTINA \u2013 De que se ri tanto o primo? CLARA \u2013 N\u00e3o falar\u00e1s? LU\u00cdS \u2013 Quer que eu fale? Ah, ah, ah! CLARA \u2013 E esta? CLEMENTINA \u2013 Eu ouvi a voz da Maria.<\/p>\n<h2>CENA XIX<\/h2>\n<p><b>Entra Maria adiante de Manuel, gemendo. Manuel conserva-se vestido de mulher<\/b><\/p>\n<p>RITINHA \u2013 A\u00ed vem ela.<\/p>\n<p>CLARA \u2013 A gemer. Que foi? MANUEL, que traz um pau na m\u00e3o \u2013 Anda! (Maria vem gemendo, assenta-se no banco debaixo da janela.) CLARA \u2013 Ai, o Manuel vestido de mulher! Que mascarada \u00e9 esta? CLEMENTINA \u2013 Como est\u00e1 feio! CLARA \u2013 Mas que \u00e9 isto? Por que gemes? MARIA \u2013 Ai, ai, ai! Minhas costas&#8230;<\/p>\n<p>MANUEL \u2013 \u00c9 uma vergonha! CLARA, para Manuel \u2013 O que fez ela? MARIA, gemendo \u2013 Minha costela&#8230; minha cabe\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>MANUEL \u2013 O que fez? Um desaforo! Mas eu lhe ensinei com este pau.<\/p>\n<p>CLARA \u2013 Deste-lhe com o pau? CLEMENTINA \u2013 Pobre Maria! MARIA \u2013 Ai, ai, ai! Minhas pernas&#8230;<\/p>\n<p>CLARA, para Manuel \u2013 Mas por qu\u00ea? MANUEL \u2013 Estava a desencaminhar-se com o Sr. Lu\u00eds.<\/p>\n<p>CLARA \u2013 Com meu sobrinho? CLEMENTINA, ao mesmo tempo \u2013 Com o primo? RITINHA, ao mesmo tempo \u2013 Com ele? J\u00daLIO, ao mesmo tempo \u2013 \u00c9 bom saber! LU\u00cdS \u2013 N\u00e3o h\u00e1 tal, tia. Este diabo est\u00e1 b\u00eabado! N\u00e3o v\u00ea como est\u00e1 vestido? MANUEL \u2013 Olhe, senhora, que n\u00e3o estou b\u00eabado. Eu bem vi, com estes olhos que a terra h\u00e1-de comer, o senhor dar abra\u00e7os na Maria.<\/p>\n<p>CLARA \u2013 Ai, que indec\u00eancia! CLEMENTINA \u2013 Que vergonha! Namorando uma ilhoa! RITINHA \u2013 Que humilha\u00e7\u00e3o! J\u00daLIO \u2013 De que se admiram, minhas senhoras? \u00c9 esse o costume do Sr. Lu\u00eds. Tudo lhe faz conta \u2013 a velha, a mo\u00e7a, a bonita, a feia, a branca, a cabocla&#8230;<\/p>\n<p>CLEMENTINA \u2013 Que horror! RITINHA, ao mesmo tempo \u2013 Que horror! (Alguns convidados riem-se.) LU\u00cdS \u2013 Psiu! Alto l\u00e1, Sr. J\u00falio, c\u00e1 ningu\u00e9m o chamou! J\u00daLIO \u2013 E o melhor \u00e9, minhas senhoras, que ele nutre grandes esperan\u00e7as de casar-se com uma das senhoras desta roda.<\/p>\n<p>TODAS AS SENHORAS \u2013 Comigo n\u00e3o! LU\u00cdS, chegando-se para J\u00falio \u2013 J\u00e1 est\u00e1s cantando vit\u00f3ria? J\u00daLIO, para as senhoras \u2013 Vejam o que faz a presun\u00e7\u00e3o! LU\u00cdS \u2013 Ainda \u00e9 cedo, meu menino! Pensa que eu cedo com essa facilidade? (Aqui Jo\u00e3o sai do quarto do ilh\u00e9u, p\u00e9 ante p\u00e9, para n\u00e3o ser visto, e encaminha-se para o fundo.) J\u00daLIO \u2013 Ceder\u00e1s, que te digo eu! LU\u00cdS \u2013 Dever\u00e1s? (Zombando. Volta para tr\u00e1s e v\u00ea Jo\u00e3o, que se retira para o fundo.) \u00d3 tio Jo\u00e3o? Tio Jo\u00e3o? Venha c\u00e1! (Vai busc\u00e1-lo e tr\u00e1-lo para frente.) CLARA \u2013 Ai, onde estava este homem metido? CLEMENTINA \u2013 O que querer\u00e1 ele fazer? J\u00daLIO \u2013 O que pretender\u00e1? LU\u00cdS \u2013 Tio? CLARA, interrompendo e puxando Jo\u00e3o pelo bra\u00e7o \u2013 Aonde estavas? LU\u00cdS, puxando-o pelo bra\u00e7o \u2013 Espere, tio, deixe que eu&#8230;<\/p>\n<p>CLARA, mesmo jogo \u2013 Quero que me diga o que fez estas duas horas.<\/p>\n<p>LU\u00cdS, mesmo jogo \u2013 Logo perguntar\u00e1 por isso, que agora tenho eu que lhe falar.<\/p>\n<p>CLARA, mesmo jogo \u2013 Nada; primeiro h\u00e1-de me dizer onde esteve escondido. Isto se faz? Eu a procur\u00e1-lo&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdS, mesmo jogo \u2013 D\u00ea-me aten\u00e7\u00e3o! CLARA, mesmo jogo \u2013 Responda! LU\u00cdS, mesmo jogo \u2013 Deixe-o! CLARA, mesmo jogo \u2013 Deixa-o tu tamb\u00e9m! LU\u00cdS, metendo-se entre Clara e Jo\u00e3o \u2013 Ora tia, que impertin\u00eancia \u00e9 essa? Tem tempo de fazer-lhe perguntas e ralhar como quiser. (Enquanto Lu\u00eds fala com Clara, J\u00falio segura Jo\u00e3o pelo bra\u00e7o.) J\u00daLIO \u2013 Lembre-se da sua promessa! LU\u00cdS, puxando Jo\u00e3o pelo bra\u00e7o e falando-lhe \u00e0 parte \u2013 Eu bem vi aonde estava&#8230; No quarto da ilhoa.<\/p>\n<p>J\u00daLIO, mesmo jogo \u2013 Espero que n\u00e3o falte; quando n\u00e3o, digo tudo \u00e0 Senhora D. Clara.<\/p>\n<p>LU\u00cdS, mesmo jogo \u2013 Se n\u00e3o consentir no que eu lhe quero pedir, descubro tudo \u00e0 tia.<\/p>\n<p>CLARA \u2013 O que quer isto dizer? J\u00daLIO, mesmo jogo, mas falando alto \u2013 D\u00e1-me a sua filha por esposa? LU\u00cdS, mesmo jogo \u2013 Concede-me a m\u00e3o da prima? J\u00daLIO, mesmo jogo, \u00e0 parte \u2013 Olhe que eu falo&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdS, mesmo jogo \u2013 Se ma n\u00e3o der, conto tudo&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Martins Pena Com\u00e9dia em 1 ato PERSONAGENS VICENTE, velho. CLARA, mulher de Vicente. CLEMENTINA, sua filha. RITINHA, amiga de Clementina. LU\u00cdS, primo de Clementina. J\u00daLIO. MANUEL, ilh\u00e9u, feitor. MARIA, ilhoa, sua mulher. 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