{"id":114082,"date":"2017-03-17T10:23:27","date_gmt":"2017-03-17T12:23:27","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=114082"},"modified":"2017-03-17T12:02:39","modified_gmt":"2017-03-17T14:02:39","slug":"o-judas-em-sabado-de-aleluia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-judas-em-sabado-de-aleluia","title":{"rendered":"O Judas em S\u00e1bado de Aleluia"},"content":{"rendered":"<h4>Martins Pena<\/h4>\n<p><b>Com\u00e9dia em 1 ato<\/b><\/p>\n<p><strong>Personagens<\/strong><\/p>\n<p>Jos\u00e9 Pimenta, cabo-de-esquadra da Guarda Nacional.<br \/>\nSuas filhas Chiquinha e Maricota.<br \/>\nLulu (10 anos).<br \/>\nFaustino, empregado p\u00fablico.<br \/>\nAmbr\u00f3sio, capit\u00e3o da Guarda Nacional.<br \/>\nAnt\u00f4nio Domingos, velho, negociante.<br \/>\nMeninos e moleques.<\/p>\n<p><b>A cena passa-se no Rio de Janeiro, no ano de 1844.<\/b><\/p>\n<h4>ATO \u00daNICO<\/h4>\n<p>A cena passa-se no Rio de Janeiro, no ano de 1844.<\/p>\n<p>Sala em casa de Jos\u00e9 PIMENTA. Porta no fundo, \u00e0 direita, e \u00e0 esquerda uma janela; al\u00e9m da porta da direita uma c\u00f4moda de jacarand\u00e1, sobre a qual estar\u00e1 uma manga de vidro e dous casti\u00e7ais de casquinha. Cadeiras e mesa. Ao levantar do pano, a cena estar\u00e1 distribu\u00edda da seguinte maneira: CHIQUINHA sentada junto \u00e0 mesa, cosendo; Maricota \u00e0 janela; e no fundo da sala, \u00e0 direita da porta, um grupo de quatro meninos e dous moleques acabam de aprontar um judas, o qual estar\u00e1 apoiado \u00e0 parede. Ser\u00e3o os seus trajes casaca de corte, de veludo, colete idem, botas de montar, chap\u00e9u armado com penacho escarlate (tudo muito usado), longos bigodes, etc. Os meninos e moleques saltam de contentes ao redor do judas e fazem grande algazarra.<\/p>\n<h2>CENA I<\/h2>\n<p>CHIQUINHA, MARICOTA e meninos.<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; Meninos, n\u00e3o fa\u00e7am tanta bulha&#8230;<\/p>\n<p>LULU, saindo do grupo &#8211; Mana, veja o judas como est\u00e1 bonito! Logo quando aparecer a Aleluia, havemos de pux\u00e1-lo para a rua.<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; Est\u00e1 bom; v\u00e3o para dentro e logo venham.<\/p>\n<p>LULU, para os meninos e moleques Vamos pra dentro; logo viremos, quando aparecer a Aleluia. (V\u00e3o todos para dentro em confus\u00e3o.)<\/p>\n<p>CHIQUINHA, para Maricota &#8211; Maricota, ainda te n\u00e3o cansou essa janela?<\/p>\n<p>MARICOTA, voltando a cabe\u00e7a &#8211; N\u00e3o \u00e9 de tua conta.<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; Bem o sei. Mas, olha, o meu vestido est\u00e1 quase pronto; e o teu, n\u00e3o sei quando estar\u00e1.<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Hei-de apront\u00e1-lo quando quiser e muito bem me parecer. Basta de seca &#8211; cose, e deixa-me.<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; Fazes bem. (Aqui Maricota faz uma mesura para ai rua, como a pessoa que a cumprimenta, e continua depois a fazer acenos com o len\u00e7o.) L\u00e1 est\u00e1 ela no seu fad\u00e1rio! Que viva esta minha irm\u00e3 s\u00f3 para namorar! \u00c9 forte mania! A todos faz festa, a todos namora&#8230; E o pior \u00e9 que a todos engana&#8230; at\u00e9 o dia em que tamb\u00e9m seja enganada.<\/p>\n<p>MARICOTA, retirando-se da janela &#8211; O que est\u00e1s tu a dizer, Chiquinha?<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; Eu? Nada.<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Sim! Agarra-te bem \u00e0 costura; vive sempre como vives, que h\u00e1s-de morrer solteira.<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; Paci\u00eancia.<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Minha cara, n\u00f3s n\u00e3o temos dote, e n\u00e3o \u00e9 pregada \u00e0 cadeira que acharemos noivo.<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; Tu j\u00e1 o achaste pregada \u00e0 janela?<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; At\u00e9 esperar n\u00e3o \u00e9 tarde. Sabes tu quantos passaram hoje por esta rua, s\u00f3 para me verem?<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; O primeiro que vi, quando cheguei \u00e0 janela, parado no canto, foi aquele tenente dos Permanentes, que tu bem sabes.<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; Casa-te com ele.<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; E por que n\u00e3o, se ele quiser? Os oficiais dos Permanentes t\u00eam bom soldo. Podes te rir.<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; E depois do tenente, quem mais passou?<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; O cavalo rab\u00e3o.<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; Ah!<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; J\u00e1 te n\u00e3o mostrei aquele mo\u00e7o que anda sempre muito \u00e0 moda, montado em um cavalo rab\u00e3o, e que todas as vezes que passa cumprimenta com ar risonho e esporeia o cavalo?<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; Sei quem \u00e9 &#8211; isto \u00e9, conhe\u00e7o-a de vista. Quem \u00e9 ele?<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Sei tanto como tu.<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; E o namoras sem o conheceres?<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Oh, que tola! Pois \u00e9 preciso conhecer-se a pessoa a quem se namora?<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; Penso que sim.<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Est\u00e1s muita atrasada. Queres ver a carta que ele me mandou esta manh\u00e3 pela moleque? (Tira do seio uma cartinha.) Ouve: (lendo:) &#8220;Minha adorada e crepitante estrela!&#8221; (Deixando de ler:) Hem? Ent\u00e3o?&#8230;<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; Continua.<\/p>\n<p>MARICOTA, continuando a ler &#8211; &#8220;Os astros que brilham nas chamejantes esferas de teus sedutores olhos ofuscaram em t\u00e3o subido ponto o meu discernimento, que me enlouqueceram. Sim, meu bem, um general quando vence uma batalha n\u00e3o \u00e9 mais feliz da que eu sou! Se receberes os meus sinceros sofrimentos serei ditoso, e se n\u00e3o me corresponderes, serei infeliz, irei viver com as feras desumanas da Hirc\u00e2nia, do Jap\u00e3o e dos sert\u00f5es de Minas &#8211; feras mais compassivas do que tu. Sim, meu bem, esta ser\u00e1 a minha sorte, e l\u00e1 morrerei&#8230; Adeus. Deste que jura ser teu, apesar da negra e fria morte. &#8211; O mesmo&#8221;. (Acabando de ler:) Ent\u00e3o, tem que dizer a isto? Que estilo! que paix\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>CHIQUINHA, rindo-se &#8211; \u00c9 pena que a menina v\u00e1 viver por essas brenhas com as feras da Hirc\u00e2nia, com os tatus e tamandu\u00e1s. E tu acreditas em todo este palanfr\u00f3rio?<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; E por que n\u00e3o? T\u00eam-se visto muitas paix\u00f5es violentas. Ouve agora esta outra. (Tira outra carta do seio.)<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; Do mesmo?<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; N\u00e3o, \u00e9 daquele mocinho que est\u00e1 estudando latim no Semin\u00e1rio de S. Jos\u00e9.<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; Namoras tamb\u00e9m a um estudante de latim?! O que esperas deste menina?<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; O que espero? N\u00e3o tens ouvida dizer que as primeiras paix\u00f5es s\u00e3o eternas? Pais bem, este menino pode ir para S. Paulo, voltar de l\u00e1 formado e arranjar eu alguma cousa no caso de estar ainda solteira.<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; Que c\u00e1lculo! \u00c9 pena teres de esperar tanto tempo&#8230;<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Os anos passam depressa, quando se namora. Ouve: (lendo:) &#8220;Vi teu mimoso semblante e fiquei enleado e cego, cego a ponto de n\u00e3o poder estudar minha li\u00e7\u00e3o.&#8221; (Deixando de ler:) Isto \u00e9 de crian\u00e7a. (Continua a ler.) &#8220;Bem diz o poeta latino: Mundus a Domino constitutus est.&#8221; (L\u00ea estas palavras com dificuldade e diz:) Isto eu n\u00e3o entendo; h\u00e1-de ser algum elogio&#8230; (Continua a ler.) &#8220;&#8230;constitutus est. Se Deus o criou, foi para fazer o para\u00edso dos amantes, que como eu t\u00eam a fortuna de gozar tanta beleza. A mocidade, meu bem, \u00e9 um tesouro, porque senectus est morbus. Recebe, minha adorada, os meus protestos. Adeus, encanto. Ego vocor &#8211; Tib\u00farcio Jos\u00e9 Maria.&#8221; (Acabando de ler:) O que eu n\u00e3o gosto \u00e9 escrever-me ele em latim. Hei-de mandar-lhe dizer que me fale em portugu\u00eas. L\u00e1 dentro ainda tenho um ma\u00e7o de cartas que te poderei mostrar; estas duas recebi hoje.<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; Se todas s\u00e3o como essas, \u00e9 rica a cole\u00e7\u00e3o. Quem mais passou? Vamos, dize&#8230;<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Passou aquele amanuense da Alf\u00e2ndega, que est\u00e1 \u00e0 espera de ser segundo escritur\u00e1rio para casar-se comigo. Passou o ingl\u00eas que anda montado no cavalo do curro. Passou o Ambr\u00f3sio, capit\u00e3o da Guarda Nacional. Passou aquele mo\u00e7o de bigodes e cabelos grandes, que veio da Europa, aonde esteve empregada na diplomacia. Passou aquele sujeito que tem loja de fazendas. Passou&#8230;<\/p>\n<p>CHIQUINHA, interrompendo &#8211; Meu Deus, quantas!&#8230; E a todos esses namoras?<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Pais ent\u00e3o! E o melhor \u00e9 que cada um de per si pensa ser o \u00fanico da minha afei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; Tens habilidade! Mas dize-me, Maricota, que esperas tu com todas essas loucuras e namoros? Que planos s\u00e3o as teus? (Levanta-se.) N\u00e3o v\u00eas que te podes desacreditar?<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Desacreditar-me por namorar! E n\u00e3o namoram todas as mo\u00e7as? A diferen\u00e7a est\u00e1 em que umas s\u00e3o mais espertas do que outras. As estouvadas, como tu dizes que eu sou, namoram francamente, enquanto as sonsas v\u00e3o pela calada. Tu mesma, com este ar de santinha &#8211; anda, faze-te vermelha! &#8211; talvez namores, e muito; e se eu n\u00e3o passo assegurar, \u00e9 parque tu n\u00e3o \u00e9s sincera como eu sou. Desengana-te, n\u00e3o h\u00e1 mo\u00e7a que n\u00e3o namore. A dissimula\u00e7\u00e3o de muitas \u00e9 que faz duvidar de suas estrepolias. Apontas-me porventura uma s\u00f3, que n\u00e3o tenha hora escolhida para chegar \u00e0 janela, ou que n\u00e3o atormente ao pai ou \u00e0 m\u00e3e para ir a este ou \u00e0quele baile, a esta ou \u00e0quela festa? E pensas tu que \u00e9 isto feito indiferentemente, ou por acaso? Enganas-te, minha cara, tudo \u00e9 namoro, e muito namoro. Os pais, as m\u00e3es e as simpl\u00f3rias como tu \u00e9 que nada v\u00eaem e de nada desconfiam. Quantas conhe\u00e7o eu, que no meio de parentes e amigas, cercadas de olhos vigilantes, namoram t\u00e3o sutilmente, que n\u00e3o se pressente! Para quem sabe namorar tudo \u00e9 instrumento: uma crian\u00e7a que se tem ao cala e se beija, um papagaio com o qual se fala \u00e0 janela, um mico que brinca sabre o ombro, um len\u00e7o que volteia na m\u00e3o, uma fiar que se desfolha &#8211; tudo, enfim! E at\u00e9 quantas vezes o namorada desprezada serve de instrumento para se namorar a outrem! Pobres tolas, que levam a culpa e vivem logrados, em proveito alheia! Se te quisesse eu explicar e patentear as ardis e espertezas de certas meninas que passam par s\u00e9rias e que s\u00e3o refinad\u00edssimas velhacas, n\u00e3o acabaria hoje. Vive na certeza, minha irm\u00e3, que as mo\u00e7as dividem-se em duas classes: sonsas e sinceras&#8230; Mas que todas namoram.<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; N\u00e3o questionarei contigo. Demos que assim seja, quero mesmo que o seja. Que outro futuro esperam as filhas-fam\u00edlias, sen\u00e3o o casamento? \u00c9 a nossa senatoria, como costumam dizer. Os homens n\u00e3o levam a mal que fa\u00e7amos da nossa parte todas as dilig\u00eancias para alcan\u00e7armos este fim; mas o meio que devemos empregar \u00e9 tudo. Pode ele ser prudente e honesto, ou tresloucado como o teu.<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; N\u00e3o dizia eu que havia sonsas e sinceras? Tu \u00e9s das sonsas.<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; Pode ele nos desacreditar, como n\u00e3o duvido que o teu te desacreditar\u00e1.<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; E por qu\u00ea?<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; Namoras a muitos.<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Oh, essa \u00e9 grande! Nisto justamente \u00e9 que eu acho vantagem. Ora dize-me, quem compra muitos bilhetes de loteria n\u00e3o tem mais probabilidade de tirar a sorte grande do que aquele que s\u00f3 compra um? N\u00e3o pode do mesmo modo, nessa loteria do casamento, quem tem muitas amantes ter mais probabilidade de tirar um para marido?<\/p>\n<p>CHIQUINHA N\u00e3o, n\u00e3o! A namoradeira \u00e9 em breve tempo conhecida e ningu\u00e9m a deseja por mulher. Julgas que os homens iludem-se com ela e que n\u00e3o sabem que valor devem dar aos seus protestos? Que mulher pode haver t\u00e3o fina, que namore a muitos e que fa\u00e7a crer a cada um em particular que \u00e9 o \u00fanico amado? Aqui em nassa terra, grande parte dos mo\u00e7os s\u00e3o presun\u00e7osos, linguarudos e indiscretos; quando t\u00eam o mais insignificante namorico, n\u00e3o h\u00e1 amigos e conhecidos que n\u00e3o sejam confidentes. Que cautelas podem resistir a essas indiscri\u00e7\u00f5es? E conhecida uma mo\u00e7a por namoradeira, quem se animar\u00e1 a pedi-la por esposa? Quem se querer\u00e1 arriscar a casar-se com uma mulher que continue depois de casada as cenas de sua vida de solteira? Os homens t\u00eam mais ju\u00edzo do que pensas; com as namoradeiras divertem-se eles, mas n\u00e3o se casam.<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Eu ta mostrarei.<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; Veremos. D\u00e1 gra\u00e7as a Deus se por fim encontrares um velho para marido.<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Um velho! Antes quero morrer, ser freira&#8230; N\u00e3o me fales nisso, que me arrepiam os cabelos! Mas para que me aflija? \u00c9-me mais f\u00e1cil&#8230; A\u00ed vem meu pai. (Corre e assenta-se \u00e1 costura, junto \u00e3 mesa.)<\/p>\n<h2>CENA II<\/h2>\n<p>Jos\u00e9 PIMENTA e MARICOTA. Entra Jos\u00e9 PIMENTA com a farda de cabo-de-esquadra da Guarda Nacional, cal\u00e7as de pano azul e barret\u00e3o &#8211; tudo muito usado.<\/p>\n<p>PIMENTA, entrando &#8211; Chiquinha, vai ver minha roupa, j\u00e1 que est\u00e1s vadia. (Chiquinha sai.) Est\u00e1 bem bom! Est\u00e1 bem bom! (Esfrega as m\u00e3os de contente.)<\/p>\n<p>MARICOTA, cosendo &#8211; Meu pai sai?<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Tenho que dar algumas voltas, a ver se cobro o dinheiro das guardas de ontem. Aben\u00e7oada a hora em que eu deixei o oficio de sapateiro para ser cabo-de-esquadra da Guarda Nacional! O que ganhava eu pela of\u00edcio? Uma tuta-e-meia. Desde pela manh\u00e3 at\u00e9 alta noite sentada \u00e1 tripe\u00e7a, metendo sovela daqui, sovela dacol\u00e1, cerol pra uma banda, cerol pra outra; puxando couro com as dentes, batendo de martela, estirando o tirap\u00e9 &#8211; e na fim das cantas chegava apenas o jornal para se comer, e mal. Torno a dizer, feliz a hora em que deixei o of\u00edcio para ser cabo-de-esquadra da Guarda Nacional! Das guardas, das rondas e das ordens de pris\u00e3o fa\u00e7o a meu patrim\u00f4nio. C\u00e1 as arranjo de modo que rendem, e n\u00e3o rendem pouco&#8230; Assim \u00e9 que \u00e9 o viver; e no mais, sa\u00fade, e viva a Guarda Nacional e o dinheirinho das guardas que vou cobrar, e que muito sinto ter de repartir com ganhadores. Se vier algu\u00e9m procurar-me, dize que espere, que eu j\u00e1 volto. (Sai.)<\/p>\n<h2>CENA III<\/h2>\n<p>MARICOTA, s\u00f3 &#8211; Tem raz\u00e3o; s\u00e3o milagres! Quando meu pai trabalhava pelo oficio e tinha um jornal certo, n\u00e3o podia viver; agora que n\u00e3o tem oficio nem jornal, vive sem necessidades. Bem diz o Capit\u00e3o Ambr\u00f3sio que os of\u00edcios sem nome s\u00e3o os mais lucrativos. Basta de coser. (Levanta-se.) N\u00e3o hei-de namorar a agulheiro, nem casar-ma com a almofada. (Vai para a )anela. Faustino aparece na porta ao fundo, donde espreita para a sala.)<\/p>\n<h2>CENA IV<\/h2>\n<p>FAUSTINO e MARICOTA.<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Posso entrar?<\/p>\n<p>MARICOTA, voltando-se &#8211; Quem \u00e9? Ah, pode entrar.<\/p>\n<p>FAUSTINO, entrando &#8211; Estava ali defronte na loja da barbeiro, esperando que teu pai sa\u00edsse para poder ver-te, falar-te. amar-te, adorar-te, e&#8230;<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Deveras!<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Ainda duvidas? Para quem vivo eu, sen\u00e3o para ti? Quem est\u00e1 sempre presente na minha imagina\u00e7\u00e3o? Par quem fa\u00e7o eu todos as sacrif\u00edcios?<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Fale mais baixo, que a mana pode ouvir.<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; A mana! Oh, quem me dera ser a mana, para estar sempre contigo! Na mesma sala, na mesma mesa, na mesma&#8230;<\/p>\n<p>MARICOTA, rindo-se &#8211; J\u00e1 voc\u00ea come\u00e7a.<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; E como hei-de acabar sem come\u00e7ar? (Pegando-lhe na m\u00e3o:) Decididamente, meu amor, n\u00e3o posso viver sem ti&#8230; E sem o meu ordenado.<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; N\u00e3o lhe creio: muitas vezes est\u00e1 sem me aparecer dous dias, sinal que pode viver sem mim; e julgo que pode tamb\u00e9m viver sem o seu ordenado, porque&#8230;<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Imposs\u00edvel!<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Parque o tenho visto passar muitas vezes por aqui de manh\u00e3 \u00e0s onze horas e ao meio-dia, o que prova que gazela sofrivelmente, que leva ponto e lhe descontam o ordenado.<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Gazear a reparti\u00e7\u00e3o o modelo dos empregados? Enganaram-te. Quando l\u00e1 n\u00e3o vou, \u00e9 ou por doente, ou por ter mandado parte de doente&#8230;<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; E hoje que \u00e9 dia de trabalho, mandou parte?<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Hoje? Ah, n\u00e3o me fales nisso, que me desespera e alucina! Par tua causa sou a v\u00edtima a mais infeliz da Guarda Nacional!<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Por minha causa?!<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Sim, sim, por tua causa! O capit\u00e3o da minha companhia, o mais feroz capit\u00e3o que tem aparecido na mundo, depois que se inventou a Guarda Nacional, persegue-me, acabrunha-me e assassina-me! Como sabe que eu te amo e que tu me correspondes, n\u00e3o h\u00e1 pirra\u00e7as e afrontas que me n\u00e3o fa\u00e7a. Todas os meses s\u00e3o dous e tr\u00eas avisos para montar guarda; outros tantos para rondas, manejos, paradas&#8230; E desgra\u00e7ado se l\u00e1 n\u00e3o vou, ou n\u00e3o pago! J\u00e1 o meu ordenado n\u00e3o chega. Roubam-me, roubam-me com as armas na m\u00e3o! Eu te detesto, capit\u00e3o infernal, \u00e9s um tirano, um Gengis-Kan, um Tamerlan! Agora mesmo est\u00e1 um guarda \u00e0 porta da reparti\u00e7\u00e3o \u00e0 minha espera para prender-me. Mas eu n\u00e3o vou l\u00e1, n\u00e3o quero. Tenho dito. Um cidad\u00e3o \u00e9 livre&#8230; enquanto n\u00e3o o prendem.<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Sr. Faustino, n\u00e3o grite, tranq\u00fcilize-se!<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Tranq\u00fcilizar-me! Quando vejo um homem que abusa da autoridade que lhe confiaram para afastar-me de ti! Sim, sim, \u00e9 para afastar-me de ti que ele manda-me sempre prender. Patife! Por\u00e9m o que mais me mortifica e at\u00e9 faz-me chorar, \u00e9 ver teu pai, o mais honrado cabo-de-esquadra, prestar o seu apoio a essas tiranias constitucionais.<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Est\u00e1 bom, deixe-se disso, j\u00e1 \u00e9 ma\u00e7ada. N\u00e3o tem que se queixar de meu pai: ele \u00e9 cabo e faz a sua obriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Sua obriga\u00e7\u00e3o? E julgas que um homem faz a sua obriga\u00e7\u00e3o quando anda atr\u00e1s de um cidad\u00e3o brasileiro com uma ordem de pris\u00e3o metida na patrona, na patrona? A liberdade, a honra, a vida de um homem, feita \u00e0 imagem de Deus, metida na patrona! Sacril\u00e9gio!<\/p>\n<p>MARICOTA, rindo-se &#8211; Com efeito, \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o digna&#8230;<\/p>\n<p>FAUSTINO, interrompendo-a -&#8230; somente de um capit\u00e3o da Guarda Nacional! Felizes dos turcos, dos chinas e dos negros de Guin\u00e9, parque n\u00e3o s\u00e3o guardas nacionais! Oh!<\/p>\n<p>Porque l\u00e1 nos desertos africanos<br \/>\nFaustino n\u00e3o nasceu desconhecido!<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Gentes!<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Mas apesar de todas essas persegui\u00e7\u00f5es, eu lhe hei-de mostrar para que presto. T\u00e3o depressa se reforme a minha reparti\u00e7\u00e3o, casar-me-ei contigo, ainda que eu veja adiante de mim todas os chefes de legi\u00e3o, coron\u00e9is, majores, capit\u00e3es, cornetas, sim, cornetas, e etc.<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Meu Deus, endoudeceu!<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Ent\u00e3o podem chover sobre mim os avisos, como chovia o man\u00e1 no deserto! N\u00e3o te deixarei um s\u00f3 instante. Quando for \u00e1s paradas, ir\u00e1s comigo para me veres manobrar.<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Oh!<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Quando montar guarda, acompanhar-me-\u00e1s&#8230;<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Qu\u00ea! Eu tamb\u00e9m hei-de montar guarda?<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; E o que tem isso? Mas n\u00e3o, n\u00e3o, correria seu risco&#8230;<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Que extravag\u00e2ncias!<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Quando rondar, rondarei a nossa parta, e quando houver rusgas, fechar-me-ei em casa contigo, e d\u00ea no que der, que&#8230; estou deitado. Mas ah, infeliz!&#8230;<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Acabou-se-lhe a furor?<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; De que me servem todas esses tormentos, se me n\u00e3o amas?<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; N\u00e3o o amo?!<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Desgra\u00e7adamente, n\u00e3o! Eu tenho c\u00e1 para mim que a tanto se n\u00e3o atreveria a capit\u00e3o, se lhe desses esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Ingrato!<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Maricota, minha vida, ouve a confiss\u00e3o das tormentas que por ti sofro. (Declamando:) Uma id\u00e9ia esmagadora, id\u00e9ia abortada do negro abismo, como o riso da desespera\u00e7\u00e3o, segue-me por toda a parte! Na rua, na cama, na reparti\u00e7\u00e3o, nos bailes e mesmo no teatro n\u00e3o me deixa um s\u00f3 instante! Agarrada \u00e0s minhas orelhas, como o n\u00e1ufrago \u00e0 t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o, ou\u00e7o-a sempre dizer: &#8211; Maricota n\u00e3o te ama! Sacudo a cabe\u00e7a, arranco as cabelos (faz o que diz) e s\u00f3 consigo desarranjar os cabelos e amarrotar a gravata. (Isto dizendo, tira da bolso um pente, com o qual penteia-se enquanto fala.) Isto \u00e9 o tormento da minha vida, companheiro da minha morte! Cosido na mortalha, pregado no caix\u00e3o, enterrado na catacumba, fechado na caixinha dos ossos no dia de finados ouvirei ainda essa voz, mas ent\u00e3o ser\u00e1 furibunda, pavorosa e cadav\u00e9rica, repetir: &#8211; Maricota n\u00e3o te ama! (Engrossa a voz para dizer estas palavras.) E serei o defunto o mais desgra\u00e7ado! N\u00e3o te comovem estas pinturas? N\u00e3o se te arrepiam as carnes?<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Escute&#8230;<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Oh, que n\u00e3o tenha eu eloq\u00fc\u00eancia e poder para te arrepiar as carnes!&#8230;<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; J\u00e1 lhe disse que escute. Ora diga-me: n\u00e3o lhe tenho eu dado todas as provas que lhe poderia dar para convenc\u00ea-lo do meu amor? N\u00e3o tenho respondido a todas suas cartas? N\u00e3o estou \u00e0 janela sempre que passa de manh\u00e3 para a reparti\u00e7\u00e3o, e \u00e0s duas horas quando volta, apesar do sol? Quando tenho alguma flor ao peito, que ma pede, n\u00e3o lha dou? Que mais quer? S\u00e3o poucas essas provas de verdadeiro amor? Assim \u00e9 que paga-me tantas finezas? Eu \u00e9 que me deveria queixar&#8230;<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Tu?<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Eu, sim! Responda-me, por onde andou, que n\u00e3o passou por aqui ontem, e fez-me esperar toda tarde \u00e0 janela? Que fez do cravo que lhe dei o m\u00eas passado? Por que n\u00e3o foi ao teatro quando eu l\u00e1 estive com D. Mariana? Desculpe-se, se pode. Assim \u00e9 que corresponde a tanto amor? J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 paix\u00f5es verdadeiras. Estou desenganada. (Finge que chora.)<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Maricota&#8230;<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Fui bem desgra\u00e7ada em dar meu cora\u00e7\u00e3o a um ingrato!<\/p>\n<p>FAUSTINO, enternecido &#8211; Maricota!<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Se eu pudesse arrancar do peito esta paix\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Maricota, eis-me a teus p\u00e9s! (Ajoelha-se, e enquanto fala, Maricota ri-se, sem que ele veja.) Necessito de toda a tua bondade para ser perdoado!<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Deixe-me.<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Queres que morra a teus p\u00e9s? (Batem palmas na escada.)<\/p>\n<p>MARICOTA, assustada &#8211; Quem ser\u00e1? (Faustino conserva-se de joelhos.)<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O, na escada, dentro &#8211; D\u00e1 licen\u00e7a?<\/p>\n<p>MARICOTA, assustada &#8211; \u00c9 o Capit\u00e3o Ambr\u00f3sio! (Para Faustino:) V\u00e1-se embora, v\u00e1-se embora! (Vai para dentro, correndo.)<\/p>\n<p>FAUSTINO levanta-se e vai atr\u00e1s dela &#8211; Ent\u00e3o, o que \u00e9 isso?&#8230; Deixou-me!&#8230; Foi-se!&#8230; E esta!&#8230; Que farei!&#8230; (Anda ao redor da sala como procurando aonde esconder-se.) N\u00e3o sei onde esconder-me&#8230; (Vai espiar \u00e0 porta, e da\u00ed corre para a janela.) Voltou, e est\u00e1 conversando \u00e0 porta com um sujeito; mas decerto n\u00e3o deixa de entrar. Em boas estou metido, e daqui n\u00e3o&#8230; (Corre para o judas, despe-lhe a casaca e o colete, tira-lhe as botas e o chap\u00e9u e arranca-lhe os bigodes.) O que me pilhar tem talento, porque mais tenho eu. (Veste o colete e casaca sabre a sua pr\u00f3pria roupa, cal\u00e7a as batas, p\u00f5e o chap\u00e9u armado e arranja os bigodes. Feito isto, esconde o corpo do judas em uma das gavetas da c\u00f4moda, onde tamb\u00e9m esconde o pr\u00f3prio chap\u00e9u, e toma o lugar do judas.) Agora pode vir&#8230; (Batem.) Ei-lo! (Batem.) A\u00ed vem!<\/p>\n<h2>CENA V<\/h2>\n<p>CAPIT\u00c3O e FAUSTINO, no lugar do judas.<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O, entrando &#8211; N\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m em casa? Ou est\u00e3o todos surdos? J\u00e1 bati palmas duas vezes, e nada de novo! (Tira a barretina e a p\u00f5e sobre a mesa, e assenta-se na cadeira.) Esperarei. (Olha ao redor de si, d\u00e1 com os olhos no judas; sup\u00f5e \u00e1 primeira vista ser um homem, e levanta-se rapidamente.) Quem \u00e9? (Reconhecendo que \u00e9 um judas:) Ora, ora, ora! E n\u00e3o me enganei com o judas, pensando que era um homem? Oh, ah, est\u00e1 um figur\u00e3o! E o mais \u00e9 que est\u00e1 t\u00e3o bem feito que parece vivo. (Assenta-se.) Aonde est\u00e1 esta gente? Preciso falar com o cabo Jos\u00e9 Pimenta e&#8230; ver a filha. N\u00e3o seria mau que ele estivesse em casa; desejo ter certas explica\u00e7\u00f5es com a Maricota. (Aqui aparece na porta da direita Maricota, que espreita, receosa. O Capit\u00e3o a v\u00ea e levanta-se.) Ah!<\/p>\n<h2>CENA VI<\/h2>\n<p>MARICOTA e os mesmos.<\/p>\n<p>MARICOTA, entrando, sempre receosa e olhando para todos os lados &#8211; Sr. Capit\u00e3o!<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O, chegando-se para ela &#8211; Desejei ver-te, e a fortuna ajudou-me. (Pegando-lhe na m\u00e3o:) Mas que tens? Est\u00e1s receosa! Teu pai?<\/p>\n<p>MARICOTA, receosa &#8211; Saiu.<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; Que temes ent\u00e3o?<\/p>\n<p>MARICOTA adianta-se e como que procura um objeto com os olhos pelos cantos da sala &#8211; Eu? Nada. Estou procurando o gato&#8230;<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O, largando-lhe a m\u00e3o &#8211; O gato? E por causa do gato recebe-me com esta indiferen\u00e7a?<\/p>\n<p>MARICOTA, \u00e0 parte &#8211; Saiu. (Para o Capit\u00e3o:) Ainda em cima zanga-se comigo! Por sua causa \u00e9 que eu estou nestes sustos.<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; Por minha causa?<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Sim.<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; E \u00e9 tamb\u00e9m por minha causa que procura o gato?<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; \u00c9, sim!<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; Essa agora \u00e9 melhor! Explique-se&#8230;<\/p>\n<p>MARICOTA, \u00e1 parte &#8211; Em que me fui eu meter! O que lhe hei-de dizer?<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; Ent\u00e3o?<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Lembra-se&#8230;<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; De qu\u00ea?<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Da&#8230; da&#8230; daquela carta que escreveu-me anteontem em que me aconselhava que fugisse da casa de meu pai para a sua?<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; E o que tem?<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Guardei-a na gavetinha do meu espelho, e como a deixasse aberta, o gato, brincando, sacou-me a carta; porque ele tem esse costume&#8230;<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; Oh, mas isso n\u00e3o \u00e9 gra\u00e7a! Procuremos o gato. A carta estava assinada e pode comprometer-me. \u00c9 a \u00faltima vez que tal me acontece! (Puxa a espada e principia a procurar o gato.)<\/p>\n<p>MARICOTA, \u00e0 parte, enquanto o Capit\u00e3o procura &#8211; Puxa a espada! Estou arrependida de ter dado a corda a este tolo. (O Capit\u00e3o procura o gato atr\u00e1s de Faustino, que est\u00e1 im\u00f3vel; passa por diante e continua a procur\u00e1-lo. Logo que volta as costas a Faustino, este mia. O Capit\u00e3o volta para tr\u00e1s repentinamente. Maricota surpreende-se.)<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; Miou!<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Miou?!<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; Est\u00e1 por aqui mesmo. (Procura.)<\/p>\n<p>MARICOTA, \u00e0 parte &#8211; \u00c9 singular! Em casa n\u00e3o temos gato!<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; Aqui n\u00e3o est\u00e1. Onde, diabo, se meteu?<\/p>\n<p>MARICOTA, \u00e0 parte &#8211; Sem d\u00favida \u00e9 algum da vizinhan\u00e7a. (Para o Capit\u00e3o:) Est\u00e1 bom, deixe; ele aparecer\u00e1.<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; Que o leve o demo! (Para Maricota!) Mas procure-o bem at\u00e9 que o ache, para arrancar-lhe a carta. Podem-na achar, e isso n\u00e3o me conv\u00e9m. (Esquece-se de embainhar a espada.) Sobre esta mesma carta desejava eu falar-te.<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Recebeu minha resposta?<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; Recebi, e a tenho aqui comigo. Mandaste-me dizer que estavas pronta a fugir para minha casa; mas que esperavas primeiro poder arranjar parte do dinheiro que teu pai est\u00e1 ajuntando, para te safares com ele. Isto n\u00e3o me conv\u00e9m. N\u00e3o est\u00e1 nos meus princ\u00edpios. Um mo\u00e7o pode roubar uma mo\u00e7a &#8211; \u00e9 uma rapaziada; mas dinheiro&#8230; \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o infame!<\/p>\n<p>MARICOTA, \u00e0 parte &#8211; Tolo!<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; Espero que n\u00e3o penses mais nisso, e que far\u00e1s somente o que te eu pe\u00e7o. Sim?<\/p>\n<p>MARICOTA, \u00e0 parte &#8211; Pateta, que n\u00e3o percebe que era um pretexto para lhe n\u00e3o dizer que n\u00e3o, e t\u00ea-lo sempre preso.<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; N\u00e3o respondes?<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Pois sim. (A parte:) Era preciso que eu fosse tola. Se eu fugir, ele n\u00e3o se casa.<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; Agora quero sempre dizer-te uma cousa. Eu supus que esta hist\u00f3ria de dinheiro era um pretexto para n\u00e3o fazeres o que te pedia.<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Ah, sup\u00f4s? Tem penetra\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; E se te valias desses pretextos \u00e9 porque amavas a&#8230;<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; A quem? Diga!<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; A Faustino.<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; A Faustino? (Ri \u00e0s gargalhadas.) Eu? Amar aquele toleir\u00e3o? Com olhos de enchova morta, e pernas de arco de pipa? Est\u00e1 mangando comigo. Tenho melhor gosto. (Olha com ternura para o Capit\u00e3o.)<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O, suspirando com prazer &#8211; Ah, que olhos matadores! (Durante este di\u00e1logo Faustino est\u00e1 inquieto no seu lugar.)<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; O Faustino serve-me de divertimento, e se algumas vezes lhe dou aten\u00e7\u00e3o, \u00e9 para melhor ocultar o amor que sinto por outro. (Olha com ternura para o Capit\u00e3o. Aqui aparece na porta do fundo Jos\u00e9 Pimenta. Vendo o Capit\u00e3o com a filha, p\u00e1ra a escuta.)<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; Eu te creio, porque teus olhos confirmam tuas palavras. (Gesticula com entusiasmo, brandindo a espada.) Ter\u00e1s sempre em mim um arrimo, e um defensor! Enquanto eu for capit\u00e3o da Guarda Nacional e o Governo tiver confian\u00e7a em mim, hei-de sustentar-te como uma princesa. (Pimenta desata a rir \u00e0s gargalhadas. Os dous voltam-se surpreendidos. Pimenta caminha para a frente, rindo-se sempre. O Capit\u00e3o fica enfiado e com a espada levantada. Maricota, turbada, n\u00e3o sabe como tomar a hilaridade do pai.)<\/p>\n<h3>CENA VII<\/h3>\n<p>PIMENTA e os mesmos.<\/p>\n<p>PIMENTA, rindo-se O que \u00e9 isto, Sr. Capit\u00e3o? Ataca a rapariga&#8230; ou ensina-lhe a jogar \u00e0 espada?<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O, turbado &#8211; N\u00e3o \u00e9 nada, Sr. Pimenta, n\u00e3o \u00e9 nada&#8230; (Embainha a espada.) Foi um gato.<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Um gato? Pois o Sr. Capit\u00e3o tira a espada para um gato? S\u00f3 se foi algum gato danado, que por aqui entrou.<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O, querendo mostrar tranq\u00fcilidade &#8211; Nada; foi o gato da casa que andou aqui pela sala fazendo estripulias.<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; O gato da casa? \u00c9 bichinho que nunca tive, nem quero ter.<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; Pois o senhor n\u00e3o tem um gato?<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; N\u00e3o senhor.<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O, alterando-se &#8211; E nunca os teve?<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Nunca!&#8230; Mas&#8230;<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; Nem suas filhas, nem seus escravos?<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; J\u00e1 disse que n\u00e3o&#8230;. Mas&#8230;<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O, voltando-se para Maricota &#8211; Com que nem seu pai, nem a sua irm\u00e3 e nem seus escravos t\u00eam gato?<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Mas que diabo \u00e9 isso?<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; E no entanto&#8230; Est\u00e1 bom, est\u00e1 bom! (\u00c3 parte:) Aqui h\u00e1 maroteira!<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Mas que hist\u00f3ria \u00e9 essa?<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; N\u00e3o \u00e9 nada, n\u00e3o fa\u00e7a caso; ao depois lhe direi. (Para Maricota:) Muito obrigado! (Voltando-se para PIMENTA:) Temos que falar em objeto de servi\u00e7o.<\/p>\n<p>PIMENTA, para Maricota &#8211; Vai para dentro.<\/p>\n<p>MARICOTA, \u00e0 parte &#8211; Que capit\u00e3o t\u00e3o peda\u00e7o de asno! (Sai.)<\/p>\n<h3>CENA VIII<\/h3>\n<p>CAPIT\u00c3O e JOS\u00c9 Pimenta. Pimenta vai p\u00f4r sobre a mesa a barretina. O Capit\u00e3o fica pensativo.<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O, \u00c0 parte &#8211; Aqui anda o Faustino, mas ele me pagar\u00e1!<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; As suas ordens, Sr. Capit\u00e3o.<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; O guarda Faustino foi preso?<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; N\u00e3o, senhor. Desde quinta-feira que andam dous guardas atr\u00e1s dele, e ainda n\u00e3o foi poss\u00edvel encontr\u00e1-lo. Mandei-os que fossem escorar \u00e0 porta da reparti\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m l\u00e1 n\u00e3o apareceu hoje. Creio que teve aviso.<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; \u00c9 preciso fazer dilig\u00eancia para se prender esse guarda, que est\u00e1 ficando muito remisso. Tenho ordens muito apertadas do comandante superior. Diga aos guardas encarregados de o prender que o levem para os Provis\u00f3rios. H\u00e1-de l\u00e1 estar um m\u00eas. Isto assim n\u00e3o pode continuar. N\u00e3o h\u00e1 gente para o servi\u00e7o com estes maus exemplos. A impunidade desorganiza a Guarda Nacional. Assim que ele sair dos Provis\u00f3rios, avisem-no logo para o servi\u00e7o, e se faltar, Provis\u00f3rio no caso, at\u00e9 que se desengane. Eu lhe hei-de mostrar. (A parte:) Mariola!&#8230; Quer ser meu rival!<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Sim senhor, Sr. Capit\u00e3o.<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; Guardas sobre guardas, rondas, manejos, paradas dilig\u00eancias &#8211; atrapalhe-o. Entenda-se a esse respeito com o sargento.<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Deixe estar, Sr. Capit\u00e3o.<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; Precisamos de gente pronta.<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Assim \u00e9, Sr. Capit\u00e3o. Os que n\u00e3o pagam para a m\u00fasica, devem sempre estar prontos. Alguns s\u00e3o muito remissos.<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; Ameace-os com o servi\u00e7o.<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; J\u00e1 o tenho feito. Digo-lhes que se n\u00e3o pagarem prontamente, o senhor Capit\u00e3o os chamar\u00e1 para o servi\u00e7o. Faltam ainda oito que n\u00e3o pagaram este m\u00eas, e dous ou tr\u00eas que n\u00e3o pagam desde o princ\u00edpio do ano.<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; Avise a esses, que recebeu ordem para os chamar de novo para o servi\u00e7o impreterivelmente. H\u00e1 falta de gente. Ou paguem ou trabalhem.<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Assim \u00e9, Sr. Capit\u00e3o, e mesmo \u00e9 preciso. J\u00e1 andam dizendo que se a nossa companhia n\u00e3o tem gente, \u00e9 porque mais de metade paga para a m\u00fasica.<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O, assustado &#8211; Dizem isso? Pois j\u00e1 sabem?<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Que saibam, n\u00e3o creio; mas desconfiam.<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; \u00c9 o diabo! \u00c9 preciso cautela. Vamos \u00e1 casa do sargento. que l\u00e1 temos que conversar. Uma demiss\u00e3o me faria desarranjo. Vamos.<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Sim senhor, Sr. Capit\u00e3o. (Saem.)<\/p>\n<h3>CENA IX<\/h3>\n<p>Faustino. s\u00f3. Logo que os dous saem, Faustino os vai espreitar \u00e0 porta por onde sa\u00edram, e adianta-se um pouco.<\/p>\n<p>Faustino &#8211; Ah, com que o senhor Capit\u00e3o assusta-se, porque podem saber que mais de metade dos guardas da companhia pagam para a m\u00fasica!&#8230; E quer mandar-me para os Provis\u00f3rios! Com que escreve cartas, desinquietando a uma filha-fam\u00edlia, e quer atrapalhar-me com servi\u00e7o? Muito bem! C\u00e1 tomarei nota. E o que direi da menina? \u00c9 de se tirar o barrete! Est\u00e1 doutorada! Anda a dous carrinhos! Obrigado! Acha que eu tenho pernas de enchova morta, e olhos de arco de pipa? Ah, quem soubera! Mas ainda \u00e9 tempo; tu me pagar\u00e1s, e&#8230; Ou\u00e7o pisadas&#8230; A postos! (Toma o seu lugar.)<\/p>\n<h3>CENA X<\/h3>\n<p>CHIQUINHA e FAUSTINO.<\/p>\n<p>CHIQUINHA entra e senta-se \u00e9 costura &#8211; Deixe-me ver se posso acabar este vestido para vesti-lo amanh\u00e3, que \u00e9 Domingo de P\u00e1scoa. (Cose.) Eu \u00e9 que sou a vadia, como meu pai disse. Tudo anda assim. Ai, ai! (Suspirando.) H\u00e1 gente bem feliz; alcan\u00e7am tudo quanto desejam e dizem tudo quanto pensam: s\u00f3 eu nada alcan\u00e7o e nada digo. Em quem estar\u00e1 ele pensando! Na mana, sem d\u00favida. Ah, Faustino, Faustino, se tu soubesses!&#8230;<\/p>\n<p>FAUSTINO, \u00e0 parte &#8211; Fala em mim! (Aproxima-se de Chiquinha p\u00e9 ante p\u00e9.)<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; A mana, que n\u00e3o sente por ti o que eu sinto, tem coragem para te falar e enganar, enquanto eu, que tanto te amo, n\u00e3o ouso levantar os olhos para ti. Assim vai o mundo! Nunca terei valor para fazer-lhe a confiss\u00e3o deste amor, que me faz t\u00e3o desgra\u00e7ada; nunca, que morreria de vergonha! Ele nem em mim pensa. Casar-me com ele seria a maior das felicidades. (Faustino, que durante o tempo que Chiquinha fala vem aproximando-se e ouvindo com prazer quanto ela diz, cai a seus p\u00e9s.)<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Anjo do c\u00e9u! (Chiquinha d\u00e1 um grito, assustada, levanta-se rapidamente para fugir e Faustino a ret\u00e9m pelo vestido.) Espera!<\/p>\n<p>CHIQUINHA, gritando &#8211; Ai, quem me acode?<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; N\u00e3o te assustes, \u00e9 o teu amante, o teu noivo&#8230; o ditoso Faustino!<\/p>\n<p>CHIQUINHA, force)ando para fugir &#8211; Deixe-me!<\/p>\n<p>FAUSTINO, tirando o chap\u00e9u &#8211; N\u00e3o me conheces? \u00c9 o teu Faustino!<\/p>\n<p>CHIQUINHA, reconhecendo-o &#8211; Sr. Faustino!<\/p>\n<p>FAUSTINO. sempre de joelhos &#8211; Ele mesmo, encantadora criatura! Ele mesmo, que tudo ouviu.<\/p>\n<p>CHIQUINHA. escondendo o rosto nas m\u00e3os &#8211; Meu Deus!<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; N\u00e3o te envergonhes. (Levanta-se.) E n\u00e3o te admires de ver-me t\u00e3o ridiculamente vestido para um amante adorado.<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; Deixe-me ir para dentro.<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Oh. n\u00e3o! Ouvir-me-\u00e1s primeiro. Por causa de tua irm\u00e3 eu estava escondido nestes trajas: mas prouve a Deus que eles me servissem para descobrir a sua perf\u00eddia e ouvir a tua ing\u00eanua confiss\u00e3o, tanto mais preciosa, quanto inesperada. Eu te amo, eu te amo!<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; A mana pode ouvi-lo!<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; A mana! Que venha ouvir-me! Quero dizer-lhe nas bochechas o que penso. Se eu tivesse adivinhado em ti tanta candura e amor, n\u00e3o teria passado por tantos dissabores e desgostos, e n\u00e3o teria visto com meus pr\u00f3prios olhos a maior das patifarias! Tua mana e&#8230; Enfim, eu c\u00e1 sei o que ela \u00e9, e basta. Deixemo-la, falemos s\u00f3 no nosso amor! N\u00e3o olhes para minhas botas&#8230; Tuas palavras acenderam em meu peito uma paix\u00e3o vulc\u00e2nico-piramidal e delirante. H\u00e1 um momento que nasceu, mas j\u00e1 est\u00e1 grande como o universo. Conquistaste-me! Ter\u00e1s o pago de tanto amor! N\u00e3o duvides; amanh\u00e3 virei pedir-te a teu pai.<\/p>\n<p>CHIQUINHA, involuntariamente &#8211; Ser\u00e1 poss\u00edvel?!<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Mais que poss\u00edvel, possibil\u00edssimo!<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; Oh! est\u00e1 me enganando&#8230; E o seu amor por Maricota?<\/p>\n<p>FAUSTINO, declamando &#8211; Maricota trouxe o inferno para minha alma, se \u00e9 que n\u00e3o levou minha alma para o inferno! O meu amor por ela foi-se, voou, extinguiu-se como um foguete de l\u00e1grimas!<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; Seria crueldade se zombasse de mim! De mim, que ocultava a todos o meu segredo.<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Zombar de ti! Seria mais f\u00e1cil zombar do meu ministro! Mas, sil\u00eancio, que parece-me que sobem as escadas.<\/p>\n<p>CHIQUINHA, assustada &#8211; Ser\u00e1 meu pai?<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Nada digas do que ouviste: \u00e9 preciso que ningu\u00e9m saiba que eu estou aqui inc\u00f3gnito. Do segredo depende a nossa dita.<\/p>\n<p>PIMENTA, dentro &#8211; Diga-lhe que n\u00e3o pode ser.<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; \u00c9 teu pai!<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; \u00c9 meu pai!<\/p>\n<p>Ambos &#8211; Adeus (Chiquinha entra correndo e Faustino p\u00f5e o chap\u00e9u na cabe\u00e7a, e toma o seu lugar.)<\/p>\n<h3>CENA XI<\/h3>\n<p>PIMENTA e depois ANT\u00d4NIO DOMINGOS.<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; \u00e9 boa! Querem todos ser dispensados das paradas! Agora \u00e9 que o sargento anda passeando. L\u00e1 ficou o capit\u00e3o \u00e0 espera. Ficou espantado com o que eu lhe disse a respeito da m\u00fasica. Tem raz\u00e3o, que se souberem, podem-lhe dar com a demiss\u00e3o pelas ventas. (Aqui batem palmas dentro.) Quem \u00e9?<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO, dentro &#8211; Um seu criado. D\u00e1 licen\u00e7a?<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Entre quem \u00e9. (Entra Ant\u00f4nio Domingos.) Ah, \u00e9 o Sr. Ant\u00f4nio Domingos! Seja bem aparecido; como vai isso?<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO &#8211; A seu dispor.<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; D\u00ea c\u00e1 o seu chap\u00e9u. (Toma o chap\u00e9u e o p\u00f5e sobre o mesa.) Ent\u00e3o, o que ordena?<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO, com mist\u00e9rio &#8211; Trata-se do neg\u00f3cio&#8230;<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Ah, espere! (Vai fechar a porta do fundo, espiando primeiro se algu\u00e9m os poder\u00e1 ouvir.) \u00c9 preciso cautela. (Cerra a porta que d\u00e1 para o interior.)<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO &#8211; Toda \u00e9 pouca. (Vendo o judas:) Aquilo \u00e9 um judas?<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; \u00c9 dos pequenos. Ent\u00e3o?<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO &#8211; Chegou nova remessa do Porto. Os s\u00f3cios continuam a trabalhar com ardor. Aqui est\u00e3o dous contos (tira da algibeira dous ma\u00e7os de pap\u00e9is), um em cada ma\u00e7o; \u00e9 dos azuis. Desta vez vieram mais bem feitos. (Mostra uma nota de cinco mil-r\u00e9is que tira do bolso do colete.) Veja; est\u00e1 perfeit\u00edssima.<\/p>\n<p>PIMENTA, examinando-a &#8211; Assim \u00e9.<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO &#8211; Mandei aos s\u00f3cios fabricantes o relat\u00f3rio do exame que fizeram na Caixa da Amortiza\u00e7\u00e3o, sobre as da pen\u00faltima remessa, e eles emendaram a m\u00e3o. Aposto que ningu\u00e9m as diferen\u00e7ar\u00e1 das verdadeiras.<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Quando chegaram?<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio &#8211; Ontem, no navio que chegou do Porto.<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; E como vieram?<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO &#8211; Dentro de um barril de paios.<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; O lucro que deixa n\u00e3o \u00e9 mau; mas arrisca-se a pele&#8230;<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO &#8211; O que receia?<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; O que receio? Se nos d\u00e3o na malhada, adeus minhas encomendas! Tenho filhos&#8230;<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio &#8211; Deixe-se de sustos. J\u00e1 tivemos duas remessas, e o senhor s\u00f3 por sua parte passou dous contos e quinhentos mil-r\u00e9is, e nada lhe aconteceu.<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Bem perto estivemos de ser descobertos &#8211; houve den\u00fancia, e o Tesouro substituiu os azuis pelos brancos.<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO &#8211; Dos bilhetes aos falsificadores vai longe; aqueles andam pelas m\u00e3os de todos, e estes fecham-se quando falam, e acautelam-se. Demais, quem nada arrisca, nada tem. Deus h\u00e1-de ser conosco.<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Se n\u00e3o for o Chefe de Policia&#8230;<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO &#8211; Esse \u00e9 que pode botar tudo a perder; mas pior \u00e9 o medo. V\u00e1 guard\u00e1-los. (Pimenta vai guardar os ma\u00e7os dos bilhetes em uma das gavetas da c\u00f4moda e a fecha \u00e0 chave. Ant\u00f4nio, enquanto Pimenta guarda os bilhetes:) Cinq\u00fcenta contos da primeira remessa, cem da segunda e cinq\u00fcenta desta fazem duzentos contos; quando muito, vinte de despesa, e a\u00ed temos cento e oitenta de lucro. N\u00e3o conhe\u00e7o neg\u00f3cio melhor. (Para Pimenta:) N\u00e3o os v\u00e1 trocar sempre \u00e0 mesma casa: ora aqui. ora ali&#8230; Tem cinco por cento dos que passar.<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; J\u00e1 estou arrependido de ter-me metido neste neg\u00f3cio&#8230;<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO &#8211; E por qu\u00ea?<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Al\u00e9m de perigos\u00edssimo, tem conseq\u00fc\u00eancias que eu n\u00e3o previa quando meti-me nele. O senhor dizia que o povo n\u00e3o sofria com Isso.<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO &#8211; E ainda digo. H\u00e1 na circula\u00e7\u00e3o um horror de milhares de contos em papel; mais duzentos, n\u00e3o querem dizer nada.<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Assim pensei eu, ou me fizeram pensar; mas j\u00e1 abriram-me os olhos, e&#8230; Enfim, passarei ainda esta vez, e ser\u00e1 a \u00faltima. Tenho filhos. Meti-me nisto sem saber bem o que fazia. E do senhor queixo-me, porque da primeira vez abusou da minha posi\u00e7\u00e3o; eu estava sem vint\u00e9m. E a \u00faltima!<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO Como quiser; o senhor \u00e9 quem perde. (Batem na porta.)<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Batem!<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO &#8211; Ser\u00e1 o Chefe de Pol\u00edcia?<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; O Chefe de Pol\u00edcia! Eis, a\u00ed est\u00e1 no que o senhor me meteu!<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO &#8211; Prud\u00eancia! Se for a policia, queimam-se os bilhetes.<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Qual queimam-se, nem meio queimam-se; j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 tempo sen\u00e3o de sermos enforcados!<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO &#8211; N\u00e3o desanime. (Batem de novo.)<\/p>\n<p>FAUSTINO, disfar\u00e7ando a voz &#8211; Da parte da pol\u00edcia!<\/p>\n<p>PIMENTA, caindo de joelhos &#8211; Miseric\u00f3rdia!<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO &#8211; Fujamos pelo quintal!<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; A casa n\u00e3o tem quintal. Minhas filhas!&#8230;<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO &#8211; Estamos perdidos! (Corre para a porta, a fim de espiar pela fechadura. Pimenta fica de joelhos e treme convulsivamente.) S\u00f3 vejo um oficial da Guarda Nacional. (Batem; espia de novo.) N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida. (Para Pimenta:) Psiu&#8230; psiu&#8230; venha c\u00e1.<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O, dentro &#8211; Ah, Sr. Pimenta, Sr. Pimenta? (Pimenta, ao ouvir o seu nome, levanta a cabe\u00e7a e escuta. Ant\u00f4nio caminha para ele.)<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio &#8211; H\u00e1 s\u00f3 um oficial que o chama.<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Os mais est\u00e3o escondidos.<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O, dentro &#8211; H\u00e1 ou n\u00e3o gente em casa?<\/p>\n<p>PIMENTA levanta-se &#8211; Aquela voz&#8230; (Vai para a porta e espia.) N\u00e3o me enganei! \u00c9 o Capit\u00e3o! (Espia.) Ah, Sr. Capit\u00e3o?<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O, dentro &#8211; Abra!<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Vossa Senhoria est\u00e1 s\u00f3?<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O, dentro &#8211; Estou, sim; abra.<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Palavra de honra?<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O, dentro &#8211; Abra, ou vou-me embora!<\/p>\n<p>PIMENTA, para Ant\u00f4nio &#8211; N\u00e3o h\u00e1 que temer. (Abre a porta; entra o Capit\u00e3o. Ant\u00f4nio sai fora da porta e observa se h\u00e1 algu\u00e9m oculto no corredor.)<\/p>\n<h3>CENA XII<\/h3>\n<p>CAPIT\u00c3O [e] os mesmos.<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O, entrando &#8211; Com o demo! O senhor a estas horas com a porta fechada!<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Queira perdoar, Sr. Capit\u00e3o.<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO, entrando &#8211; Ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; Faz-me esperar tanto! Hoje \u00e9 a segunda vez.<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Por quem \u00e9, Sr. Capit\u00e3o!<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; T\u00e3o calados!&#8230; Parece que estavam fazendo moeda falsa! (Ant\u00f4nio estremece; Pimenta assusta-se.)<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Que diz, Sr. Capit\u00e3o? Vossa Senhoria tem gra\u00e7as que ofendem! Isto n\u00e3o S\u00e3o brinquedos. Assim escandaliza-me. Estava com o meu amigo Ant\u00f4nio Domingos falando nos seus neg\u00f3cios, que eu c\u00e1, por mim n\u00e3o os tenho.<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; Oh, o senhor escandaliza-se e assusta-se por uma gra\u00e7a dita sem inten\u00e7\u00e3o de ofender!<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Mas h\u00e1 gra\u00e7as que n\u00e3o t\u00eam gra\u00e7a!<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; O senhor tem alguma cousa? Eu o estou desconhecendo!<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO, \u00e0 parte &#8211; Este diabo bota tudo a perder! (Para o Capit\u00e3o:) \u00c9 a b\u00edlis que ainda o trabalha. Estava enfurecido comigo por certos neg\u00f3cios. Isto passa-lhe. (Para Pimenta:) Tudo se h\u00e1-de arranjar. (Para o Capit\u00e3o:) Vossa Senhoria est\u00e1 hoje de servi\u00e7o?<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; Estou de dia. (Para Pimenta:) J\u00e1 lhe posso falar?<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Tenha a bondade de desculpar-me. Este maldito homem ia-me fazendo perder a cabe\u00e7a. (Passa a m\u00e3o pelo pesco\u00e7o, como quem quer dar mais intelig\u00eancia ao que diz.) E Vossa Senhoria tamb\u00e9m n\u00e3o contribuiu pouco para eu assustar-me!<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO, forcejando para rir &#8211; Foi uma boa ca\u00e7oada!<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O, admirado &#8211; Ca\u00e7oada! Eu?<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Por mais honrado que seja um homem, quando se lhe bate \u00e0 porta e se diz: &#8220;Da parte da pol\u00edcia&#8221;, sempre se assusta.<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; E quem lhe disse isto?<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Vossa Senhoria mesmo.<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; Ora, o senhor, ou est\u00e1 sonhando, ou quer se divertir comigo.<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; N\u00e3o foi Vossa Senhoria?<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO &#8211; N\u00e3o foi Vossa Senhoria?<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; Pior \u00e9 essa! Sua casa hoje anda misteriosa. H\u00e1 pouco era sua filha com o gato; agora \u00e9 o senhor com a pol\u00edcia&#8230; (\u00c0 parte:) Aqui anda tram\u00f3ia!<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO, \u00e0 parte &#8211; Quem seria?<\/p>\n<p>PIMENTA, assustado &#8211; Isto n\u00e3o vai bem. (Para Ant\u00f4nio:) N\u00e3o sai daqui antes de eu lhe entregar uns pap\u00e9is. Espere! (Faz semblante de querer ir buscar os bilhetes; Ant\u00f4nio o ret\u00e9m.)<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO, para Pimenta &#8211; Olhe que se perde!<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; E ent\u00e3o? Ainda n\u00e3o me deixaram dizer ao que vinha. (Ouve-se repique de sinos, foguetes, algazarra, ru\u00eddos diversos como acontece quando aparece a Aleluia.) O que \u00e9 isto?<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Estamos descobertos!<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO, gritando &#8211; \u00c9 a Aleluia que apareceu. (Entram na sala, de tropel, Maricota, Chiquinha, os quatro meninos e os dous moleques.)<\/p>\n<p>Meninos &#8211; Apareceu a Aleluia! Vamos ao judas!&#8230; (Faustino, vendo os meninos junto de si, deita a correr pela sala. Espanto geral. Os meninos gritam e fogem de Faustino, o qual d\u00e1 duas voltas ao redor da sala, levando adiante de si todos os que est\u00e3o em cena, os quais atropelam-se correndo e gritam aterrorizados. Chiquinha fica em p\u00e9 junto \u00e0 porta por onde entrou. Faustino, na segunda volta, sai para a rua, e os mais, desembara\u00e7ados dele, ficam como assombrados. Os meninos e moleques, chorando, escondem-se debaixo da mesa e cadeiras; o Capit\u00e3o, na primeira volta que d\u00e1 fugindo de Faustino, sobe para cima da c\u00f4moda; Ant\u00f4nio Domingos agarra-se a Pimenta, e rolam )untos pelo ch\u00e3o, quando Faustino sai: e Maricota cai desmaiada na cadeira onde cosia.)<\/p>\n<p>PIMENTA, rolando pelo ch\u00e3o, agarrado com Ant\u00f4nio &#8211; \u00c9 o dem\u00f4nio!&#8230;<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO &#8211; Vade-retro, Satan\u00e1s! (Estreitam-se nos bra\u00e7os um do outro e escondem a cara.)<\/p>\n<p>CHIQUINHA chega-se para Maricota &#8211; Mana, que tens? N\u00e3o fala; est\u00e1 desmaiada! Mana? Meu Deus! Sr. Capit\u00e3o, fa\u00e7a o favor de dar-me um copo com \u00e1gua.<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O, de cima da c\u00f4moda &#8211; N\u00e3o posso l\u00e1 ir!<\/p>\n<p>CHIQUINHA, \u00e0 parte &#8211; Poltr\u00e3o! (Para Pimenta:) Meu pai, acuda-me! (Chega-se para ele e o chama, tocando-lhe no ombro.)<\/p>\n<p>PIMENTA, gritando &#8211; Ai, ai, ai! (Ant\u00f4nio, ouvindo Pimenta gritar, grita tamb\u00e9m.)<\/p>\n<p>CHIQUINHA &#8211; E esta! N\u00e3o est\u00e1 galante? O pior \u00e9 estar a mana desmaiada! Sou eu, meu pai, sou Chiquinha; n\u00e3o se assuste. (Pimenta e Ant\u00f4nio levantam-se cautelosos.)<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO &#8211; N\u00e3o o vejo!<\/p>\n<p>CHIQUINHA, para o Capit\u00e3o &#8211; Des\u00e7a; que vergonha! N\u00e3o tenha medo. (O Capit\u00e3o principia a descer.) Ande, meu pai, acudamos a mana. (Ouve-se dentro o grito de Leva! leva! como costumam os moleques, quando arrastam os judas pelas ruas.)<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; A\u00ed vem ele!&#8230; (Ficam todos im\u00f3veis na posi\u00e7\u00e3o em que os surpreendeu o grito, isto \u00e9, Pimenta e Ant\u00f4nio ainda n\u00e3o de todo levantados; o Capit\u00e3o com uma perna no ch\u00e3o e a outra na borda de uma das gavetas da c\u00f4moda, que est\u00e1 meio aberta; Chiquinha esfregando as m\u00e3os de Maricota para reanim\u00e1-la, e os meninos nos lugares que ocupavam. Conservam-se todos silenciosos, at\u00e9 que se ouve o grito exterior &#8211; Morra! &#8211; em dist\u00e2ncia.)<\/p>\n<p>CHIQUINHA, enquanto os mais est\u00e3o silenciosos &#8211; Meu Deus, que gente t\u00e3o medrosa! E ela neste estado! O que hei-de fazer? Meu pai? Sr. Capit\u00e3o? N\u00e3o se movem! J\u00e1 tem as m\u00e3os frias&#8230; (Aparece repentinamente \u00e1 porta Faustino, ainda com os mesmos trajos; salta no meio da sala e vai cair sentado na cadeira que est\u00e1 junto \u00e0 mesa. Uma turba de garotos e moleques armados de paus entram ap\u00f3s ele, gritando: Pega no judas, pega no judas! &#8211; Pimenta e Ant\u00f4nio erguem-se rapidamente e atiram-se para a extremidade esquerda do teatro, )unto aos candeeiros da rampa; o Capit\u00e3o sobe de novo para cima da c\u00f4moda: Maricota, vendo Faustino na cadeira, separado dela somente pela mesa, d\u00e1 um grito e foge para a extremidade direita do teatro; e os meninos saem aos gritos de debaixo da mesa, e espalham-se pela sala. Os garotos param no fundo )unto \u00e0 porta e, vendo-se em uma casa particular, cessam de gritar.)<\/p>\n<p>FAUSTINO, caindo sentado &#8211; Ai, que corrida! J\u00e1 n\u00e3o posso! Oh, parece-me que por c\u00e1 ainda dura o medo. O meu n\u00e3o foi menor vendo esta canalha. Safa, canalha! (Os garotos riem-se e fazem assuada.) Ah, o caso \u00e9 esse? (Levanta-se.) Sr. Pimenta? (Pimenta, ouvindo Faustino cham\u00e1-lo, encolhe-se e treme.) Treme? Ponha-me esta corja no olho da rua&#8230; N\u00e3o ouve?<\/p>\n<p>PIMENTA, titubeando &#8211; Eu, senhor?<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Ah, n\u00e3o obedece? Vamos, que lhe mando &#8211; da parte da pol\u00edcia&#8230; (Disfar\u00e7ando a voz como da vez primeira.)<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO &#8211; Da parte da pol\u00edcia!&#8230; (Para Pimenta:) V\u00e1, v\u00e1!<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Avie-se! (Pimenta caminha receoso para o grupo que est\u00e1 no fundo, e com bons modos o faz sair. Faustino, enquanto Pimenta faz evacuar a sala, continua a falar. Para Maricota:) N\u00e3o olhe assim para mim com os olhos t\u00e3o arregalados, que lhe podem saltar fora da cara. De que ser\u00e3o esses olhos? (Para o Capit\u00e3o:) Ol\u00e1, valente capit\u00e3o! Est\u00e1 de poleiro? Des\u00e7a. Est\u00e1 com medo do pap\u00e3o? Hu! hu! Bote fora a espada, que lhe est\u00e1 atrapalhando as pernas. \u00c9 um belo boneco de lou\u00e7a! (Tira o chap\u00e9u e os bigodes, e os atira no ch\u00e3o.) Agora ainda ter\u00e3o medo? N\u00e3o me conhecem?<\/p>\n<p>Todos, exceto Chiquinha &#8211; Faustino!<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Ah, j\u00e1! Cobraram a fala! Temos que conversar. (P\u00f5e uma das cadeiras no meio da sala e senta-se. O Capit\u00e3o, Pimenta e Ant\u00f4nio dirigem-se para ele enfurecidos; o primeiro coloca-se \u00e0 sua direita, o segundo \u00e0 esquerda e o terceiro atr\u00e1s, falando todos tr\u00eas ao mesmo tempo. Faustino tapa os ouvidos com as m\u00e3os.)<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Ocultar-se em casa de um homem de bem, de um pai de fam\u00edlia, \u00e9 a\u00e7\u00e3o criminosa: n\u00e3o se deve praticar! As leis S\u00e3o bem claras; a casa do cidad\u00e3o \u00e9 inviol\u00e1vel! As autoridades h\u00e3o-de ouvir-me: serei desafrontado!<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO &#8211; Surpreender um segredo \u00e9 inf\u00e2mia! E s\u00f3 a vida paga certas inf\u00e2mias, entende? O senhor \u00e9 um mariola! Tudo quanto fiz e disse foi para experiment\u00e1-lo. Eu sabia que estava ali oculto. Se diz uma palavra, mando-lhe dar uma arrochada.<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; Aos insultos respondem-se com as armas na m\u00e3o! Tenho uma patente de capit\u00e3o que deu-me o governo, hei-de fazer honra a ela! O senhor \u00e9 um cobarde! Digo-lhe isto na cara; n\u00e3o me mete medo! H\u00e1-de ir preso! Ningu\u00e9m me insulta impunemente! (Os tr\u00eas, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que falam, v\u00e3o refor\u00e7ando a voz e acabam bramando.)<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Ai! ai! ai! ai! que fico sem ouvidos.<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; Petul\u00e2ncia inqualific\u00e1vel&#8230; Petul\u00e2ncia!<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Desaforo sem nome&#8230; Desaforo!<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio &#8211; Patifaria, patifaria, patifaria! (Faustino levanta-se rapidamente, batendo com os p\u00e9s.)<\/p>\n<p>FAUSTINO, gritando &#8211; Sil\u00eancio! (Os tr\u00eas emudecem e recuam) que o deus da linha quer falar! (Assenta-se.) Puxe-me aqui estas botas. (Para Pimenta:) N\u00e3o quer? Olhe que o mando da parte da&#8230; (Pimenta chega-se para ele.)<\/p>\n<p>PIMENTA, col\u00e9rico &#8211; D\u00ea c\u00e1!<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; J\u00e1! (D\u00e1-lhe as botas a puxar.) Devagar! Assim&#8230; E digam l\u00e1 que a pol\u00edcia n\u00e3o faz milagres&#8230; (Para Ant\u00f4nio:) Ah, senhor meu, tire-me esta casaca. Creio que n\u00e3o ser\u00e1 preciso dizer da parte de quem&#8230; (Ant\u00f4nio tira-lhe a casaca com muito mau modo.) Cuidado; n\u00e3o rasgue o traste, que \u00e9 de valor. Agora o colete. (Tira-lho.) Bom.<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; At\u00e9 quando abusar\u00e1 da nossa paci\u00eancia?<\/p>\n<p>FAUSTINO, voltando-se para ele &#8211; Ainda que mal lhe pergunte, o senhor aprendeu latim?<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O, \u00e0 parte &#8211; Hei-de fazer cumprir a ordem de pris\u00e3o. (Para Pimenta:) Chame dous guardas.<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Que \u00e9 l\u00e1 isso? Espere l\u00e1! J\u00e1 n\u00e3o tem medo de mim? Ent\u00e3o h\u00e1 pouco quando se empoleirou era com medo das botas? Ora, n\u00e3o seja crian\u00e7a, e escute&#8230; (Para Maricota:) Chegue-se para c\u00e1. (Para Pimenta:) Ao Sr. Jos\u00e9 Pimenta do Amaral, cabo-de-esquadra da Guarda Nacional, tenho a distinta de pedir-lhe a m\u00e3o de sua filha a Sr.a D. Maricota&#8230; ali para o Sr. Ant\u00f4nio Domingos.<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Ah!<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Senhor!<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO &#8211; E esta!<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Ah, n\u00e3o querem? Torcem o focinho? Ent\u00e3o escutem a hist\u00f3ria de um barril de paios, em que&#8230;<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO, turbado &#8211; Senhor!<\/p>\n<p>FAUSTINO, continuando &#8211; &#8230; em que vinham escondidos&#8230;<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO aproxima-se de Faustino e diz-lhe \u00e0 parte N\u00e3o me perca! Que exige de mim?<\/p>\n<p>FAUSTINO, \u00e0 parte &#8211; Que se case, e quanto antes, com a noiva que lhe dou. S\u00f3 por este pre\u00e7o guardarei sil\u00eancio.<\/p>\n<p>ANT\u00d4NIO, para Pimenta -~ Sr. Pimenta, o senhor ouviu o pedido que lhe foi feito; agora o fa\u00e7o eu tamb\u00e9m. Concede-me a m\u00e3o de sua filha?<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; Certamente&#8230; \u00e9 uma fortuna&#8230; n\u00e3o esperava&#8230; e&#8230;<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Bravo!<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; Isto n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel! Eu n\u00e3o amo ao senhor!<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Amar\u00e1.<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; N\u00e3o se disp\u00f5e assim de uma mo\u00e7a! Isto \u00e9 zombaria do senhor Faustino!<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; N\u00e3o sou capaz!<\/p>\n<p>MARICOTA &#8211; N\u00e3o quero! N\u00e3o me caso com um velho!<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Pois ent\u00e3o n\u00e3o se casar\u00e1 nunca; porque vou j\u00e1 daqui gritando (gritando:) que a filha do cabo Pimenta namora como uma danada; que quis roubar&#8230; (Para Maricota:) Ent\u00e3o, quer que continue, ou quer casar-se?<\/p>\n<p>MARICOTA, \u00e0 parte &#8211; Estou conhecida! Posso morrer solteira&#8230; Um marido \u00e9 sempre um marido&#8230; (Para Pimenta:) Meu pai, farei a sua vontade.<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; Brav\u00edssimo! Ditoso par! Amorosos pombinhos! (Levanta-se, toma Maricota pela m\u00e3o e a conduz para junto de Ant\u00f4nio, e fala com os dous \u00e0 parte:) Menina, aqui tem o noivo que eu lhe destino: \u00e9 velho, baboso, rabugento e usur\u00e1rio &#8211; nada lhe falta para sua felicidade. \u00c9 este o fim de todas as namoradeiras: ou casam com um gebas como este, ou morrem solteiras! (Para o p\u00fablico:) Queira Deus que aproveite o exemplo! (Para Ant\u00f4nio:) Os fals\u00e1rios j\u00e1 n\u00e3o morrem enforcados; l\u00e1 se foi esse bom tempo! Se eu o denunciasse, ia o senhor para a cadeia e de l\u00e1 fugiria, como acontece a muitos da sua laia. Este castigo seria muito suave&#8230; Eis aqui o que lhe destino (Apresentando-lhe Maricota:) \u00c9 mo\u00e7a, bonita, ardilosa, e namoradeira: nada lhe falta para seu tormento. Esta pena n\u00e3o vem no C\u00f3digo; mas n\u00e3o admira, porque l\u00e1 faltam outras muitas cousas. Abracem-se, em sinal de guerra! (Impele um para o outro.) Agora n\u00f3s, Sr. Capit\u00e3o! Venha c\u00e1. Hoje mesmo quero uma dispensa de todo o servi\u00e7o da Guarda Nacional! Arranje isso como puder; quando n\u00e3o, mando tocar a m\u00fasica&#8230; N\u00e3o sei se me entende?&#8230;<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O &#8211; Ser\u00e1 servido. (\u00c0 parte:) Que rem\u00e9dio; pode perder-me!<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; E se de novo bulir comigo, cuidado! Quem me avisa&#8230; Sabe o resto! Ora, meus senhores e senhoras, j\u00e1 que castiguei, quero tamb\u00e9m recompensar. (Toma Chiquinha pela m\u00e3o e coloca-se com ela em frente de Pimenta, dando as m\u00e3os como em ato de se casarem.) Sua b\u00ean\u00e7\u00e3o, querido pai Pimenta, e seu consentimento!<\/p>\n<p>PIMENTA &#8211; O que lhe hei-de eu fazer, sen\u00e3o consentir!<\/p>\n<p>FAUSTINO &#8211; \u00d3timo! (Abra\u00e7a a Pimenta e d\u00e1-lhe um beijo. Volta-se para Chiquinha:) Se n\u00e3o houvesse aqui tanta gente a olhar para n\u00f3s, fazia-te o mesmo&#8230; (Dirigindo-se ao p\u00fablico:) Mas n\u00e3o o perde, que fica guardado para melhor ocasi\u00e3o.<\/p>\n<h3>FIM<\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Martins Pena Com\u00e9dia em 1 ato Personagens Jos\u00e9 Pimenta, cabo-de-esquadra da Guarda Nacional. Suas filhas Chiquinha e Maricota. Lulu (10 anos). Faustino, empregado p\u00fablico. Ambr\u00f3sio, capit\u00e3o da Guarda Nacional. Ant\u00f4nio Domingos, velho, negociante. Meninos e moleques. A cena passa-se no Rio de Janeiro, no ano de 1844. 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