{"id":114068,"date":"2017-03-17T10:07:29","date_gmt":"2017-03-17T12:07:29","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=114068"},"modified":"2017-03-17T12:02:38","modified_gmt":"2017-03-17T14:02:38","slug":"as-casadas-solteiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/as-casadas-solteiras","title":{"rendered":"As Casadas Solteiras"},"content":{"rendered":"<table width=\"467\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"top\" width=\"220\">\n<div align=\"center\"><strong> <a class=\"links\" href=\"#1\">Ato<br \/>\nPrimeiro<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#2\">Ato Segundo<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#3\">Ato Terceiro<\/a> <\/strong><\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Martins Pena<\/h4>\n<h4><a name=\"1\"><\/a>Ato Primeiro<\/h4>\n<p>A cena se passa, o primeiro ato, em Paquet\u00e1; o segundo, na Bahia,<br \/>\ne o terceiro, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>O teatro representa o Campo de S\u00e3o Roque, em Paquet\u00e1. Quatro<br \/>\nbarracas, iluminadas e decoradas, como costumam ser nos dias de festa, ornam<br \/>\na cena de um e outro lado; a do primeiro plano, \u00e0 direita, ter\u00e1<br \/>\ntransparentes fant\u00e1sticos, diabos, corujas, feiticeiras, etc. No fundo,<br \/>\nv\u00ea-se o mar. Diferentes grupos, diversamente vestidos, passeiam de um<br \/>\npara outro lado, parando, ora no meio da cena, ora diante das barracas, de<br \/>\ndentro das quais se ouve tocar m\u00fasica. Um homem com um realejo passeia<br \/>\npor entre os grupos, tocando. A disposi\u00e7\u00e3o da cena deve ser<br \/>\nviva.<\/p>\n<h2>CENA I<\/h2>\n<p>Jeremias e o povo.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Bem fiz eu em vir \u00e0 festa de S\u00e3o Roque. Excelente<br \/>\ndia passei e melhor noite passarei &#8211; e vivam as festas! Perca-as quem quiser,<br \/>\nque eu n\u00e3o. Para elas nasci, e nelas viverei. Em S\u00e3o Roque,<br \/>\nna Penha, na Praia Grande, na Arma\u00e7\u00e3o&#8230; Enfim, em todos os<br \/>\nlugares aonde houver festa, se estiverem duas pessoas, uma delas serei eu.<br \/>\nQue belo que isto est\u00e1! Barracas, teatrinho de bonecas, on\u00e7as<br \/>\nvivas, fogo de artif\u00edcio, m\u00e1quinas, realejo e m\u00e1gicos<br \/>\nque adivinham o futuro&#8230; Logo teremos um nesta barraca&#8230; Ora, esses estrangeiros<br \/>\ns\u00e3o capazes das maiores extravag\u00e2ncias para nos chuparem os cobres!<br \/>\nSe h\u00e1 tanta gente que acredita neles&#8230; Estou que n\u00e3o caibo<br \/>\nna pele!<\/p>\n<p>VOZES &#8211; A\u00ed vem a barca! A\u00ed vem a barca!<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; A barca! (Correm todos para a borda do mar, exceto Jeremias.)<br \/>\nVejamos, primeiro, quem vem da cidade, para depois aparecer. Tenho c\u00e1<br \/>\nminhas raz\u00f5es&#8230; (Sai pela direita. Nesse momento aparece a barca de<br \/>\nvapor, que atraca \u00e0 praia e toca a sineta. Principiam a saltar os passageiros,<br \/>\ne entre eles, John e Bolingbrok, que se encaminham para a frente.)<\/p>\n<h2>CENA II<\/h2>\n<p>John, Bolingbrok e o povo.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Enfim, chegamos.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Oh, yes, enfim! \u00c9 uma vergonhe estes barques de vapor<br \/>\ndo Bresil. T\u00e3o porque, t\u00e3o, t\u00e3o, t\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Ronceira.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Ronceire? Que quer dize ronceire?<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Vagarosa.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Yes, vagarosa. John, tu sabe mais portuguesa que mim.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Bem sabes, Bolingbrok, que ainda que sou filho de ingleses, nasci<br \/>\nno Brasil e nele fui criado; assim, n\u00e3o admira que fale bem a l\u00edngua&#8230;<br \/>\nMas vamos ao que serve.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Yes, vamos a que serve.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Primeiro, correremos tudo para ver se encontramos nossas belas.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Oh, God! Encontre nosses beles&#8230; Mim fica contente se encontre<br \/>\nnosses beles. Oh, God!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; J\u00e1 vejo, meu caro Bolingbrok, que est\u00e1s completamente<br \/>\nsubjugado. Admira-me! Um homem como sois, t\u00e3o frio e compassado&#8230;<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Oh, non, my dear! Este \u00e9 um error muito&#8230; fundo&#8230; muito<br \/>\noco&#8230; non, non! Muito profundo&#8230; yes&#8230; muito profundo. Minha peito \u00e9<br \/>\numa volc\u00e3o, uma barril de p\u00f3lvora&#8230; Faltava s\u00f3 a fa\u00edsca.<br \/>\nMiss Clarisse \u00e9 fa\u00edsca, e minha peito fez, fez, fez bum!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Explos\u00e3o.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Yes, yes! Explos\u00e3o! Mim est\u00e1 inc\u00eandio.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Podias ter-te atirado ao mar.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Oh, non, non! Mar non! Primeiro quero casa com my Clarisse,<br \/>\nsen\u00e3o eu mata a mim.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Devagar com isso, homem, e entendamo-nos.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Oh, God!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; H\u00e1 dois anos que chegaste de Inglaterra e estabeleceste, na<br \/>\nBahia, uma casa de consigna\u00e7\u00e3o, de sociedade comigo. Temos sido<br \/>\nfelizes.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Yes!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Neg\u00f3cios de nossa casa obrigaram-nos a fazer uma viagem ao<br \/>\nRio de Janeiro. H\u00e1 quinze dias que chegamos&#8230;<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Yes!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; E h\u00e1 oito que nossos neg\u00f3cios est\u00e3o conclu\u00eddos,<br \/>\ne estar\u00edamos j\u00e1 de volta, se n\u00e3o fosse o amor que nos<br \/>\nprende.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Oh, my Clarisse, my Clarisse!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Por um feliz acaso, que servir\u00e1 para mais estreitar nossa sociedade,<br \/>\namamos a duas irm\u00e3s.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Oh, duas anjos, john! Duas anjos irm\u00e3os&#8230;<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Antes de ontem fomos, pessoalmente, pedi-las ao pia, que teve o desaforo<br \/>\nde negar o seu consentimento, dizendo que n\u00e3o criou suas folhas para<br \/>\ncas\u00e1-las com ingleses.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Oh, goddam! Atrevida!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Mas deixa-o. Estamos de intelig\u00eancia com elas, e hoje nos h\u00e1<br \/>\nde ele pagar.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Oh, yes! Paga, atrevida, paga!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Elas aqui est\u00e3o desde manh\u00e3 para assistirem \u00e0<br \/>\nfesta. Logo haver\u00e1 fogo de artif\u00edcio&#8230; Sempre h\u00e1 confus\u00e3o&#8230;<br \/>\na falua estar\u00e1 na praia \u00e0s nossas ordens, e mostraremos ao velho<br \/>\no que valem dois ingleses&#8230;<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Yes! Vale muito, muito! Goddam!<\/p>\n<h2>CENA III<\/h2>\n<p>Jeremias e os ditos<\/p>\n<p>JEREMIAS, entrando cauteloso &#8211; Nesta n\u00e3o veio ningu\u00e9m que me<br \/>\ninquiete.<\/p>\n<p>JOHN, para Bolingbrok &#8211; Sil\u00eancio! (Passeiam pela frente do tablado.)<\/p>\n<p>JEREMIAS, \u00e0 parte &#8211; Quem ser\u00e3o estes dois? (Aproximando-se<br \/>\ndeles.) Perecem-me ingleses&#8230; H\u00e1 de ser, h\u00e1 de ser&#8230; \u00c9<br \/>\nfazenda que n\u00e3o falta por c\u00e1. N\u00e3o gostam do Brasil, Br\u00e9sil<br \/>\nnon preste! Mais sempre v\u00e3o chegando para lhe ganharem o dinheiro&#8230;<\/p>\n<p>BOLINGBROK, para John &#8211; Yes.<\/p>\n<p>JEREMIAS, \u00e0 parte &#8211; N\u00e3o disse? S\u00e3o ingleses. Conhe\u00e7o<br \/>\num ingl\u00eas a cem l\u00e9guas; basta que diga: yes! Fa\u00e7amos conhecimento&#8230;<br \/>\n(Chegando-se para os dois:) Good night.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Good night. (Continua a passear.)<\/p>\n<p>JEREMIAS, seguindo-o &#8211; Os senhores, pelo que vejo, s\u00e3o ingleses.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Yes. (Continua a passear.)<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Eu os conheci logo por causa do yes; e o senhor&#8230; Mas que vejo?<br \/>\nJohn? N\u00e3o me engano&#8230;<\/p>\n<p>JOHN, reparando nele &#8211; Jeremias!<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Tu, no Rio de Janeiro, e em Paquet\u00e1, John? Quando chegaste?<\/p>\n<p>JOHN &#8211; H\u00e1 quinze dias, e j\u00e1 te procurei em tua antiga casa,<br \/>\ne disseram-me que tinhas casado e mudado de domic\u00edlio.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Disseram-te a verdade.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Quem \u00e9 este?<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Bolingbrok, apresento-te meu amigo Jeremias. Andamos no mesmo col\u00e9gio<br \/>\naqui no Rio de Janeiro; fomos sempre amigos.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Muita honra, senhor. (D\u00e1-lhe a m\u00e3o e aperta com<br \/>\nfor\u00e7a e sacode.)<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Jeremias, meu s\u00f3cio, Mister Bolingbrok.<\/p>\n<p>JEREMIAS, sacudindo a m\u00e3o de Bolingbrok com viol\u00eancia &#8211; Muita<br \/>\nhonra.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Oh, basta, basta!<\/p>\n<p>JEREMIAS, para John &#8211; Teu s\u00f3cio fala portugu\u00eas?<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Muito mal.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Nesse caso, falarei eu ingl\u00eas.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Sabes ingl\u00eas.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; De curiosidade&#8230; Tu vais ver. (Para Bolingbrok:) Good morning.<br \/>\nHow do you do? Very well! Give me some bread. I thank you. Gato come frango.<br \/>\nI say&#8230;<\/p>\n<p>BOLINGBROK, com frieza &#8211; Viva, senhor! (D\u00e1-lhe as costas e passeia.)<\/p>\n<p>JOHN, rindo-se &#8211; Est\u00e1s muito adiantado&#8230;<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; N\u00e3o falo tal qual um ingl\u00eas, mas arranjo meu bocado.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Est\u00e1 o mesmo Jeremias; sempre alegre e folgaz\u00e3o.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Alegre, John? N\u00e3o. J\u00e1 te n\u00e3o lembras que<br \/>\nestou casado?<\/p>\n<p>JOHN &#8211; E isto te entristece?<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Como n\u00e3o imaginas.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Onde est\u00e1 tua mulher?<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Eu sei l\u00e1?<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Oh, excelente marido!<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Soube ontem que hoje era festa de S\u00e3o Roque. De manh\u00e3<br \/>\nmuito cedo meti-me na barca e safei-me sem dizer nada. Que queres? N\u00e3o<br \/>\nposso resistir a uma festa.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; E deixaste tua mulher s\u00f3?<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Tomara eu tamb\u00e9m que ela me deixasse s\u00f3. O que eu<br \/>\nestou a temer \u00e9 que ela arrebente por aqui mais minutos, menos minutos&#8230;<br \/>\n\u00c9 muito capaz disso! John, Deus te livre de uma mulher como a minha.<\/p>\n<p>BOLINGBROK, correndo para John &#8211; John, John,! Vem ela, vem ela!<\/p>\n<p>JEREMIAS, assustando-se &#8211; Minha mulher?<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Olha, John, olha! God! Mim contente!<\/p>\n<h2>CENA IV<\/h2>\n<p>Entram pela direita Virg\u00ednia e Clarisse.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; S\u00e3o elas!<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Que susto tive eu! Pensei que era minha mulher.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Virg\u00ednia!<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; My Clarisse!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; John!<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Bolimbroque!<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; By God!<\/p>\n<p>JEREMIAS, \u00e0 parte &#8211; U\u00e9! As filhas do Narciso&#8230; Bravo!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; O senhor Jeremias!<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Ah!<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Minhas senhoras, brav\u00edssimo!<\/p>\n<p>JOHN, para Jeremias &#8211; Conheces estas senhoras?<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Se as conhe\u00e7o! S\u00e3o minhas vizinhas.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Jeremias, espero que tu n\u00e3o nos trair\u00e1s. Estas meninas<br \/>\ndevem ser nossas esposas&#8230; E como o pai n\u00e3o consente em nosso casamento,<br \/>\naqui estamos para roub\u00e1-las, e as roubaremos.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Ol\u00e1! Isto vai \u00e0 inglesa&#8230; Dito e feito&#8230;<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Podemos contar com a tua coopera\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Voc\u00eas casar-se-\u00e3o com elas?<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Juramos!<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Yes! Jura!<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Conta comigo. Tenho c\u00e1 minhas quiz\u00edlias particulares<br \/>\ncom o pai, e boa \u00e9 a ocasi\u00e3o para vingar-me. Que queres de mim?<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Vai-te p\u00f4r de vigia para que ele n\u00e3o nos surpreenda.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Pronto! Dona Virg\u00ednia, Dona Clarisse, adeusinho. ( parte.)<br \/>\nAh, meu velhinho, tu agora me pagar\u00e1s o nome de extravagante que sempre<br \/>\nme d\u00e1s&#8230; (Sai pela direita.)<\/p>\n<h2>CENA V<\/h2>\n<p>CLARISSE &#8211; N\u00f3s os procur\u00e1vamos.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Yes! N\u00f3s est\u00e1 aqui.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; H\u00e1 meia hora que desembarcamos, e n\u00e3o sab\u00edamos<br \/>\npara onde dirigirmo-nos a fim de encontrar-vos.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Est\u00e1vamos passeando bem perto daqui e os vimos passar<br \/>\npor diante desta barraca. Metemo-nos por entre o povo, fizemo-nos de perdidas<br \/>\ne corremos ao vosso encontro. O velho, a estas horas, estar\u00e1 a nossa<br \/>\nprocura.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Est\u00e1 muito contente, Miss, de fala a v\u00f3s. Muito<br \/>\ncontente, Miss, muito satisfeita.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Creia que tamb\u00e9m de minha parte.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Yes! Minha parte muito satisfeita! Goddam!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Minha querida Virg\u00ednia, quanto sofro longe de ti.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; My dear Clarisse, eu fica doente longe de ti.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; N\u00e3o h\u00e1 para mim satisfa\u00e7\u00e3o sem a tua companhia.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Sei quanto me ama.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Eu est\u00e1 triste como uma burro sem tua companhia.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Conhe\u00e7o o quanto me estima.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; O sono foge de meus olhos, e se alguns instantes durmo, contigo sonho.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Mim n\u00e3o dorme mais&#8230; Leva toda a noite espirrando.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Espirrando?<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; No, no, suspirando. Yes, suspirando.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Quando me lembro que talvez viva sem ti, quase enlouque\u00e7o&#8230;<br \/>\ndesespero.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Quando mim lembra vive sem ti&#8230; Oh goddam, mim fica danada.<br \/>\nBy God! Yes, fica muito&#8230; muito&#8230; Yes.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Meu caro John, n\u00e3o duvido um instante de vosso amor.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Querida Virg\u00ednia!<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Certa de vosso amor, com amor vos pago.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; My Clarisse, my Clarisse!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Mas isto assim n\u00e3o pode durar.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; No, no, non pode dura.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Teu pai ainda se op\u00f5e \u00e0 nossa uni\u00e3o?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Ainda. Ele diz que odeia aos ingleses pelos males que nos<br \/>\nt\u00eam causado, e principalmente agora, que nos querem tratar como piratas.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Piratas, yes. Piratas. As brasileiras \u00e9 piratas&#8230; Enforca<br \/>\neles&#8230;<\/p>\n<p>CLARISSE, afastando-se &#8211; Ah, somos piratas?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Muito obrigada&#8230;<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; No, no, Miss&#8230; Eu fala s\u00f3 das brasileiras machos&#8230;<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; S\u00e3o meus patr\u00edcios.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; As machos&#8230; mim n\u00e3o gosta deles. As brasileiras, mulheres,<br \/>\nyes&#8230; Esta \u00e9 bela&#8230; \u00e9 doce como sugar&#8230;<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Cala-te, Bolingbrok, que n\u00e3o dizes sen\u00e3o asneiras.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Yes, mim diz asneiras&#8230; Mim \u00e9 cavalo, quando est\u00e1<br \/>\njunto de v\u00f3s. (Aqui entra pela direita Narciso.)<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; \u00c9 preciso termos prud\u00eancia.<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; Est\u00e1 muito bonito! Muito bonito! (Espanto dos quatro.)<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Diabo!<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Goddam!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA e CLARISSE &#8211; Meu pai! (Ao mesmo tempo.)<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; Para isso \u00e9 que se perderam de mim? Que pouca vergonha!<br \/>\nA conversarem com dois homens&#8230;<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Senhor, isto n\u00e3o teria acontecido se nos tiv\u00e9sseis dado<br \/>\na m\u00e3o de vossas filhas.<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; Ah, s\u00e3o os senhores? \u00c9 o que me faltava: cas\u00e1-las<br \/>\ncom ingleses! Antes com o diabo!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Senhor!<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Senhor!<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; O que \u00e9 l\u00e1? (Para as duas:) Salta! Adiante de mim!<br \/>\nSalta!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Virg\u00ednia, conta comigo. A despeito deste velho insensato, ser\u00e1s<br \/>\nminha.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; My Clarisse, h\u00e1 de ser mulher a mim, quando mesmo este<br \/>\nvelho macaco.<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; Macaco? Ingl\u00eas de um dardo!<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Macaco fica zangado? Mim est\u00e1 contente de chama macaco.<\/p>\n<p>NARCISO, tomando as mo\u00e7as pelos bra\u00e7os &#8211; Vamos, sen\u00e3o<br \/>\nfa\u00e7o algum desatino. (Sai levando as duas.)<\/p>\n<h2>CENA VI<\/h2>\n<p>BOLINGBROK, seguindo a Narciso &#8211; Mim est\u00e1 contente chama macaco. (Gritando:)<br \/>\nMacaco!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Deixa-o, Bolingbrok.<\/p>\n<p>BOLINGBROK, voltando &#8211; Mim est\u00e1 satisfeita. Macaco!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Vejamos o modo de ensinarmos a este velho, e vingarmo-nos.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Yes.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; N\u00e3o tive tempo de dizer a Virg\u00ednia que t\u00ednhamos<br \/>\numa falua \u00e0s ordens. Agora ser\u00e1 dif\u00edcil fazermo-la saber<br \/>\nesta circunst\u00e2ncia. Maldito Jeremias, que n\u00e3o soube vigiar o<br \/>\nvelho!<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Mim d\u00e1 uma roda de soco nele quando aparece.<\/p>\n<h2>CENA VII<\/h2>\n<p>Jeremias entrando.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; John? John?<\/p>\n<p>JOHN &#8211; N\u00f3s te estamos muito agradecidos.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Mim quer joga soco.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Hem? O que \u00e9 isso?<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Deixaste que o velho nos surpreendesse.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Mim quer jogar soco, senhor.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; N\u00e3o tive culpa. Estava alerta, com todo o cuidado no velho,<br \/>\nquando passou por junto de mim, e sem me ver, uma mulher&#8230; E assim que a<br \/>\npilhei a tr\u00eas passos longe de mim, deitei a fugir&#8230;<\/p>\n<p>BOLINGBROK, gritando &#8211; Mim quer joga soco, senhor!<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Pois tome! (D\u00e1-lhe um soco.)<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Goddam! (Atira um soco a Jeremias, que lhe responde.)<\/p>\n<p>JOHN, metendo-se de permeio &#8211; Ent\u00e3o, o que \u00e9 isso? Jeremias?<br \/>\nBolingbrok?<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Deixa, John!<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Maluco! I say&#8230; drink the rum&#8230; Chega, que arrumo-te um tabefe!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; N\u00e3o sejam crian\u00e7as! (Para Jeremias:) N\u00e3o fa\u00e7as<br \/>\ncaso. (Para Bolingbrok:) Aquieta-te&#8230;<\/p>\n<p>BOLONGBROK &#8211; Mim n\u00e3o quer mais joga soco.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Mim tamb\u00e9m n\u00e3o quer jogo mais&#8230; (Bolingbrok passeia<br \/>\nde um lado para outro.)<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Teu descuido muito nos prejudicou.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; J\u00e1 te disse que estava alerta, mas a mulher&#8230;<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Mas quem \u00e9 a mulher?<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; A minha! A minha! Pensei ver o diabo, e isto fez-me perder a cabe\u00e7a&#8230;<br \/>\nAbandonei o posto, e foste surpreendido.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; E assim foi nosso plano completamente desarranjado.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>JOHN &#8211; N\u00e3o tivemos tempo de comunicar \u00e0s meninas o nosso plano.Agora<br \/>\nser-nos-\u00e1 dif\u00edcil falar-lhes. O velho est\u00e1 desesperado!<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Lembro-me um expediente&#8230;<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Qual \u00e9?<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Nesta barraca h\u00e1 um franc\u00eas que, para lograr ao p\u00fablico<br \/>\ne ganhar dinheiro, vestir-se-\u00e1 de m\u00e1gico a fim de predizer o<br \/>\nfuturo, fazer adivinha\u00e7\u00f5es e sortes, etc. Entra tu l\u00e1,<br \/>\nd\u00e1-lhe dinheiro &#8211; esta gente faz tudo por dinheiro &#8211; , veste-te com<br \/>\nas suas roupas, e assim disfar\u00e7ado, talvez consigas poder falar com<br \/>\na mo\u00e7a.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Excelente amigo! (Abra\u00e7a-o)<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Que te parece? N\u00e3o \u00e9 bem lembrado? \u00d3 diabo!<br \/>\n(Olhando para a esquerda, fundo.)<\/p>\n<p>JOHN &#8211; O que \u00e9?<\/p>\n<p>JEREMIAS, escondendo-se por detr\u00e1s de John &#8211; Minha mulher que ali<br \/>\nvem! N\u00e3o lhe digas nada, nada&#8230; (Vai levando a John para o lado direito,<br \/>\nencobrindo-se com seu corpo.)<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Espera, homem; onde me levas?<\/p>\n<p>JEREMIAS, junto dos bastidores &#8211; Adeus. (Sai.)<\/p>\n<h2>CENA VIII<\/h2>\n<p>John, Bolingbrok e depois Henriqueta.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Ah, ah! Que medo tem o Jeremias da mulher! Bolingbrok, vem c\u00e1.<br \/>\nEstamos salvos!<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Salva? (Aqui aparece no fundo Henriqueta, e encaminha-se para<br \/>\na frente.)<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Jeremias ensinou-me o meio de comunicar-nos com nossas amantes.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Agora mim tem pena de ter dado o soco&#8230; (Henriqueta vem-se<br \/>\naproximando.)<\/p>\n<p>JOHN &#8211; O plano n\u00e3o pode falhar. Jermias teve uma lembran\u00e7a<br \/>\nmagn\u00edfica.<\/p>\n<p>HENRIQUETA, \u00e0 parte &#8211; Falam em Jeremias&#8230;<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Quando encontra ele d\u00e1 um abra\u00e7o.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Uma sua criada&#8230;<\/p>\n<p>BOLIGBROK &#8211; Viva!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Minha senhora&#8230;<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Desculpem-me, meus senhores, se os interrompo, mas como ouvi<br \/>\nque falavam no Sr. Jeremias&#8230;<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Conhece-o?<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Sim senhor. \u00c9 meu marido.<\/p>\n<p>JOHN, \u00e0 parte &#8211; \u00c9 ela! (Alto:) Muita honra tenho em a conhecer&#8230;<br \/>\nSeu marido \u00e9 um belo mo\u00e7o.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; \u00c9 verdade. ( parte:) Patife, se o encontro&#8230;<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Ah, a good boy.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; O que diz o senhor?<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Eu fala de sua marido&#8230; A good boy.<\/p>\n<p>HENRIQUETA, \u00e0 parte &#8211; Ora! (Para John:) Se quisesse ter a bondade<br \/>\nde dizer-me onde o poderei encontrar&#8230;<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Pois n\u00e3o, minha senhora; ainda h\u00e1 pouco aqui esteve<br \/>\ne dirigiu-se para este lado. (Aponta para a esquerda.)<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; No, no, John!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Sim sim, foi para este lado. (Para Bolingbrok:) Take your tongue.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Yes, foi esta lado&#8230; (Henriqueta sai.)<\/p>\n<h2>CENA IX<\/h2>\n<p>JOHN &#8211; Agora tratemos de n\u00f3s; ponhamos em execu\u00e7\u00e3o o<br \/>\nplano de Jeremias. Toma sentido no que se passar, enquanto eu entro na barraca.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Para qu\u00ea, John?<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Saber\u00e1s (Entra na barraca.)<\/p>\n<h2>CENA X<\/h2>\n<p>BOLINGBROK, s\u00f3 &#8211; John vai fazer asneira&#8230; Mim n\u00e3o sabe o que<br \/>\nele quer&#8230; N\u00e3o importa; rouba my Clarisse e fica contente. Velho macaco<br \/>\nest\u00e1 zangado. By God! Ingl\u00eas faz tudo, pode tudo; est\u00e1<br \/>\nmuito satisfeita. (Esfregando as m\u00e3os:) Ingl\u00eas n\u00e3o deixa<br \/>\nbrinca com ele, no! Ah, Clarisse, my dear, mim ser\u00e1 tua marida. Yes!<\/p>\n<p>VOZES, dentro &#8211; L\u00e1 vai a m\u00e1quina, l\u00e1 vai a m\u00e1quina!<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; M\u00e1quina? Oh, este \u00e9 belo, l\u00e1 vai a m\u00e1quina!<\/p>\n<h2>CENA XI<\/h2>\n<p>Entra Narciso, Clarisse, Virg\u00ednia e povo, olhjando para uma m\u00e1quina<br \/>\nque atravessa no fundo do teatro.<\/p>\n<p>TODOS &#8211; L\u00e1 vai a m\u00e1quina, l\u00e1 vai a m\u00e1quina!<\/p>\n<p>BOLINGBROK, correndo para o fundo &#8211; M\u00e1quina, m\u00e1quina! (A m\u00e1quina<br \/>\ndesaparece e todos ficam em cena como olhando para ela.)<\/p>\n<h2>CENA XII<\/h2>\n<p>Entra pela barraca John, vestido de m\u00e1gico, trazendo na m\u00e3o<br \/>\numa buzina. John toca a buzina.<\/p>\n<p>TODOS &#8211; O m\u00e1gico! O m\u00e1gico!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Aproximai-vos! Aproximai-vos! (Todos se aproximam.) O futuro \u00e9<br \/>\nde Deus! O c\u00e9u \u00e9 a p\u00e1gina de seu imenso livro, e os astros<br \/>\nos caracteres de sua ci\u00eancia; e quem l\u00ea nos astros conhece o futuro&#8230;<br \/>\no futuro! Homens e mulheres, mo\u00e7os e velhos, n\u00e3o quereis conhecer<br \/>\no vosso futuro?<\/p>\n<p>TODOS &#8211; Eu quero! Eu quero!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Sil\u00eancio! A inspira\u00e7\u00e3o se apodera de mim, a verdade<br \/>\nbrilha a meus olhos, e o porvir se desdobra diante de mim!<\/p>\n<p>NARCISO, \u00e0 parte &#8211; Tenho vontade de o confundir. (Alto:) Senhor m\u00e1gico,<br \/>\ndesejava saber se pela minha fisionomia podeis saber quem eu sou.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Aproxima-te. Este olhar de porco&#8230; estas orelhas de burro pertencem<br \/>\na Narciso das Neves.<\/p>\n<p>TODOS &#8211; Oh!<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; Sabe meu nome e sobrenome!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Nenhuma qualidade boa descubro em ti; s\u00f3 v\u00edcios vejo&#8230;<br \/>\n\u00c9s avarento, grosseiro, cabe\u00e7udo, ego\u00edsta&#8230;<\/p>\n<p>TODOS, riem-se &#8211; Ah, ah, ah!<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; Basta, basta, diabo!<\/p>\n<p>JOHN, para Clarisse &#8211; E v\u00f3s, minha menina, nada quereis saber?<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Eu, senhor?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Vai, n\u00e3o tenhas medo.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Mostrai-me vossa m\u00e3o. (Examinando sua m\u00e3o e falando-lhe<br \/>\nmais baixo:) Esta linha me diz que teu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1<br \/>\nlivre. Aquele que amas n\u00e3o \u00e9 da tua na\u00e7\u00e3o, mas<br \/>\n\u00e9 um homem honrado e leal; dele te podes fiar.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; E v\u00eade tudo isto em minha m\u00e3o?<\/p>\n<p>JOHN &#8211; C\u00e9us!<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Senhor!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Esta outra linha faz-me conhecer que existe um grande obst\u00e1culo<br \/>\n\u00e0 vossa uni\u00e3o; \u00e9 preciso super\u00e1-lo, seguir aquele<br \/>\nque amas; do contr\u00e1rio, acabar\u00e1s em um convento.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Em um convento? Morrer solteira?<\/p>\n<p>JOHN &#8211; O destino fala por meus l\u00e1bio; pensa e decide.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Meu Deus!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Clarisse, que tens, que te disse ele?<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; A mim? Nada, nada. ( parte:) Meu Deus!<\/p>\n<p>JOHN, para Henriqueta &#8211; E tu, pobre abandonada, queres que te diga o futuro?<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Abandonada? A primeira palavra \u00e9 uma verdade&#8230; Dize-me<br \/>\no que devo esperar no mundo.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; N\u00e3o querei primeiro que te diga aonde est\u00e1 o infiel?<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Oh, dizei-me!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Dentro de uma hora o encontrar\u00e1s aqui.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Aqui?<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Sim.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Mil gra\u00e7as, senhor m\u00e1gico. ( parte:) Ah, Jeremias<br \/>\nda minha alma, se te pilho&#8230;<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Agora eu.<\/p>\n<p>JOHN, tomando pela m\u00e3o e conduzindo-a \u00e0 parte &#8211; Sim, agora<br \/>\ntu, minha Virg\u00ednia, minha Virg\u00ednia a quem amo&#8230;<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Ah, que ou\u00e7o?<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; E l\u00e1! Que \u00e9 l\u00e1 isso?<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Sil\u00eancio!<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; Isso \u00e9 demais, \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Sil\u00eancio!<\/p>\n<p>TODOS &#8211; Sil\u00eancio!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Cala-te, velho insensato! V\u00eas aquela estrela? (Olham todos.)<br \/>\nPreside ao destino desta jovem. Olhai todos se empalidece, olhai! (Narciso<br \/>\nfica olhando para a estrela.)<\/p>\n<p>JOHN, \u00e0 parte &#8211; Minha Virg\u00ednia!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; \u00c9s tu, John?<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Enquanto estiverem entretidos com o fogo, vem ter comigo, que aqui<br \/>\nestarei \u00e0 tua espera.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Sim.<\/p>\n<p>NARCISO, olhando para a estrela &#8211; Qual empalidece! Ol\u00e1, nada! Isto<br \/>\nn\u00e3o est\u00e1 bom&#8230; Virg\u00ednia salta para c\u00e1; parece-me<br \/>\nmaroteira.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Quem mais quer saber do futuro?<\/p>\n<p>VOZES &#8211; Eu! Eu! Eu!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Aproxime-se cada um por sua vez. (Aqui ouve-se dentro o estrondo de<br \/>\nbomba.)<\/p>\n<p>VOZES &#8211; O fogo principiou! Vamos ver o fogo! (Saem todos correndo pela direita,<br \/>\nem confus\u00e3o.)<\/p>\n<p>NARCISO, levando as filhas pela m\u00e3o &#8211; Vamos, vamos ver o fogo! (Saem.)<\/p>\n<h2>CENA XIII<\/h2>\n<p>John e Bolingbrok.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Bravo, tudo est\u00e1 arranjado!<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; John, mim n\u00e3o entende nada. Que quer isto dize?<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Espera um instante, que tudo saber\u00e1s. (Entra na barraca.)<\/p>\n<h2>CENA XVI<\/h2>\n<p>BOLINGBROK, s\u00f3 &#8211; John \u00e9 diabo. Eu est\u00e1 vendida. John?<br \/>\nJohn? Goddam! Oh, minha cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 muito fraco, muito<br \/>\nqueimado por minha Clarisse&#8230; Eu vai ataca foguetes para ela ver. John? John?<\/p>\n<p>JOHN, entrando, j\u00e1 sem a roupa de m\u00e1gico &#8211; Sil\u00eancio,<br \/>\nBolingbrok, elas n\u00e3o tardam.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Elas?<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Sim, nossas amantes; para fugirem conosco.<\/p>\n<p>BOLINGBROK Oh, Oh! By God! Mim est\u00e1 muito satisfeita.<\/p>\n<h2>CENA XV<\/h2>\n<p>Entram pela direita Virg\u00ednia e Clarisse.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; John!<\/p>\n<p>CLARISSE, ao mesmo tempo &#8211; Bolingbrok!<\/p>\n<p>JOHN, indo ao encontro de Virg\u00ednia &#8211; Minha Virg\u00ednia!<\/p>\n<p>BOLINGBROK, indo ao encontro de Clarisse &#8211; My Clarisse!<\/p>\n<p>VIRG&amp;IacutIacute;NIA &#8211; L\u00e1 ficou entretido com o fogo!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; A falua est\u00e1 perto daqui; vamos&#8230;<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; A ti me entrego.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; My dear, let us go&#8230; (Saem pelo fundo \u00e0 esquerda.)<\/p>\n<h2>CENA XVI<\/h2>\n<p>Entra pela esquerda baixa Jeremias.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; J\u00e1 n\u00e3o estou muito bem aqui; temo encontrar a f\u00faria<br \/>\nde minha mulher por toda parte. Quero ver se me safo com John para a cidade.<br \/>\nJohn? John?<\/p>\n<p>HENRIQUETA, entra pela direita alta &#8211; Aqui o devo encontrar, que me disse<br \/>\no m\u00e1gico&#8230;<\/p>\n<p>JEREMIAS, sem ver Henriqueta &#8211; Onde estar\u00e1 o maldito?<\/p>\n<p>HENRIQUETA, vendo-o &#8211; Ei-lo! Oh, patife! (Vem-se aproximando de Jeremias<br \/>\nsem ser vista.)<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Se encontra-me, leva-me o diabo; que ela anda em minha procura,<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 d\u00favida. Ah, centop\u00e9ia do diabo! (Aqui atacam<br \/>\nbombas dentro e o teatro fica iluminado pelo clar\u00e3o do fogo. Henriqueta,<br \/>\nque nesse tempo est\u00e1 junto de Jeremias, d\u00e1-lhe uma bofetada<br \/>\nque o atira no ch\u00e3o.) Oh, que bomba!<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; \u00c9 uma gir\u00e2ndola, patife! (Jeremias levanta-se apressado<br \/>\ne deita a correr para o fundo, e Henriqueta o segue. Henriqueta, correndo:)<br \/>\nEspera, patife, espera! (Saem correndo e desce o pano.)<\/p>\n<p><strong>Fim do primeiro ato.<\/strong><\/p>\n<h4><a name=\"2\"><\/a>Ato Segundo<\/h4>\n<p>A cena passa-se na Bahia. O teatro representa uma sala; portas laterais,<br \/>\ne no fundo duas janelas; mesa e cadeiras.<\/p>\n<h2>CENA I<\/h2>\n<p>Virg\u00ednia e Clarisse.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA, entrando pela direita &#8211; Isto \u00e9 um horror!<\/p>\n<p>CLARISSE, acompanhando-a &#8211; \u00c9 uma inf\u00e2mia!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Tratar-nos assim, a n\u00f3s suas leg\u00edtimas mulheres?<br \/>\nE ent\u00e3o, Clarisse?<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; E tu, que me dizes, Virg\u00ednia?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Quem podia prever tudo isto?<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Pareciam t\u00e3o submissos e respeitosos, l\u00e1 no Rio<br \/>\nde Janeiro! Que mudan\u00e7a!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; E casai-vos por inclina\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Este \u00e9 o nosso castigo, minha cara irm\u00e3. Fugimos<br \/>\nde casa de nosso pai&#8230; Por mais que me queira persuadir, foi um mau passo<br \/>\nque demos.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Quem poderia prever que eles fossem ingratos? Pareciam-nos<br \/>\nt\u00e3o sinceros e mantes&#8230;<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; \u00c9 verdade. E no entanto, h\u00e1 apenas dois meses que<br \/>\nestamos casadas, e j\u00e1 experimentamos todas as contrariedades que o<br \/>\nestado traz consigo.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; As contrariedades do estado nada seriam; com elas contava<br \/>\neu, razoavelmente falando. Por\u00e9m o que mais me desespera \u00e9 ter<br \/>\nde aturar as manias inglesas de nossos caros maridos&#8230; Ontem, o meu quis<br \/>\nque eu comesse, por for\u00e7a, rosbife quase cru.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; E o meu, que eu engolisse metade de um plum-pudding horroroso.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Ateimou comigo boa meia hora para que eu bebesse um copo<br \/>\nde cerveja. Prrr&#8230; que bebida diab\u00f3lica!<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; E eu vi-me obrigada a beber um copo de ponche deste tamanho, que<br \/>\nme deixou a cabe\u00e7a por esses ares!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; O que mais me mortifica \u00e9 que o Sr. Jeremias esteja<br \/>\npresenciando tudo isto e que o v\u00e1 contar quando voltar para o Rio.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; E que rem\u00e9dio? Vamos preparar o ch\u00e1, que nossos<br \/>\nsenhores n\u00e3o tardam.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Eui n\u00e3o! Preparem eles. N\u00e3o sou sua escrava;<br \/>\nn\u00e3o fa\u00e7o mais nada, n\u00e3o quero! (Batendo o p\u00e9.)<\/p>\n<h2>CENA II<\/h2>\n<p>Jeremias e as ditas.<\/p>\n<p>JEREMIAS, entrando pela direita e falando para dentro &#8211; J\u00e1 volto,<br \/>\nj\u00e1 volto, abram o champanha! (Para a cena:) Os diabos destes ingleses<br \/>\nbebem como uma esponja! (Vendo as duas:) Oh, por que deixastes a mesa na melhor<br \/>\nocasi\u00e3o, quando se iria abrir o champanha?<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; N\u00e3o gosto de champanha.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Nem de vinho nenhum.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; N\u00e3o gostam de champanha, desse vinho divino e sem igual?<br \/>\nOh, minhas amabil\u00edssimas, isso \u00e9 falta de gosto! Pif! Paf! Poum!<br \/>\nPsss!&#8230;<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; E o Sr. Jeremias para que n\u00e3o ficou l\u00e1, bebendo?<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Porque tinha que lhes falar.<\/p>\n<p>BOLINGBROK, dentro &#8211; Jeremias?<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Olha, que o chama.<\/p>\n<p>JEREMIAS, respondendo a Bolingbrok &#8211; L\u00e1 vou, e bebam enquanto eu n\u00e3o<br \/>\nchegar. (Para as duas:) Assim esperar\u00e3o com paci\u00eancia.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Mas o que nos quer dizer?<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Esta noite temos a primeira representa\u00e7\u00e3o da Son\u00e2mbula,<br \/>\npela Companhia Italiana. Dizem que a Mugnai e a Bocomini rivalizar\u00e3o;<br \/>\ne depois da pateada de outro dia, \u00e9 natural que hajam coisas boas.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Oh, se pud\u00e9ssemos ir&#8230;<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Seria bem bom, mas decerto que n\u00e3o o conseguiremos.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; E por que n\u00e3o?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Os nossos tiranos n\u00e3o o consentir\u00e3o.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Oh, isso veremos! D\u00e3o-me o seu consentimento para que ataque<br \/>\na pra\u00e7a?<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; N\u00e3o, n\u00e3o! Deixe o caso por nossa conta. Fazendo-se-lhes<br \/>\no pedido assim de surpresa, s\u00e3o capazes de negar&#8230; Estou certa que<br \/>\nnegar\u00e3o. Melhor \u00e9 resolv\u00ea-los pouco a pouco.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Clarisse tem raz\u00e3o. Com carinhos, obedi\u00eancia<br \/>\ne meiguice talvez possamos arranjar alguma coisa.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Tempo perdido&#8230; P\u00e9rolas a porcos! Meiguices n\u00e3o<br \/>\ns\u00e3o para ingleses; \u00e9 bom c\u00e1 para n\u00f3s.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Deixe o caso por nossa conta.<\/p>\n<p>BOLINGBROK, dentro &#8211; Jeremias?<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; L\u00e1 vou, ingl\u00eas do diabo!<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; V\u00e1, v\u00e1 e tenha cuidado que eles n\u00e3o bebam<br \/>\nmuito.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Sen\u00e3o, n\u00e3o nos ouvem, pegam a dormir, e adeus<br \/>\nSon\u00e2mbula.<\/p>\n<p>BOLIGBROK, dentro &#8211; Jeremias?<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Adeus, adeus! (Vai saindo, cantando:) God save the King!&#8230; (Sai.)<\/p>\n<h2>CENA III<\/h2>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Mana Clarisse, \u00e9 preciso fazer-nos am\u00e1veis.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Amabil\u00edssimas!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Preparemos primeiro o ch\u00e1.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Dizes bem. ( De uma mesa que est\u00e1 no fundo, trazem para<br \/>\na que est\u00e1 no meio da sala todos os preparos do ch\u00e1.)<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA, enquanto preparam o ch\u00e1 &#8211; Que rem\u00e9dio temos<br \/>\nn\u00f3s? Querem assim iludidos&#8230; (Chamando:) Tom\u00e1s? Tom\u00e1s?<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Tanto peior para eles&#8230; Que culpa temos n\u00f3s? (Aqui entra<br \/>\num criado ingl\u00eas.)<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Traze \u00e1gua quente para o ch\u00e1. (O criado sai.)<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; As x\u00edcaras est\u00e3o prontas.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Jesus! Ia-me esquecendo o aguardente, ou rum, como eles<br \/>\nchamam. (Vai buscar sobre a mesa do fundo um frasco com rum.)<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; E esse esquecimento deitaria tudo a perder&#8230; (Entra o criado<br \/>\ncom uma chaleira com \u00e1gua quente.) D\u00e1 c\u00e1. (Deita \u00e1gua<br \/>\nno bule.) Leva. (O criado sai com a chaleira.)<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Agora creio que nada falta.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Vamo-nos vestir, e pentearmo-nos.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Sim, sim! Fa\u00e7amo-nos bonitas, para melhor seduzir.<br \/>\nEles a\u00ed vem. (Saem ambas, apressadas.)<\/p>\n<h2>CENA IV<\/h2>\n<p>Jeremias e depois John e Bolingbrok.<\/p>\n<p>JEREMIAS, entrando &#8211; J\u00e1 n\u00e3o posso beber. Safa, diabo! Se me<br \/>\ndemoro mais tempo \u00e0 mesa, acabo por uma combust\u00e3o espont\u00e2nea&#8230;<br \/>\nIrra, que funis s\u00e3o os meus dois \u00ednglis!<\/p>\n<p>JOHN, entrando &#8211; Assim abandonas o campo?<\/p>\n<p>BOLINGBROK, entrando &#8211; Jeremias est\u00e1 fraco, tem cabe\u00e7a mole;<br \/>\nn\u00e3o pode!<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Sim, se eu estivesse como os senhores, acostumados desde crian\u00e7a<br \/>\na beberem cerveja&#8230;<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Porter.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Yes, porter.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Vamos ao ch\u00e1. (Assentam-se \u00e0 mesa.)<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Jeremias tem medo da vinho; gosta de \u00e1gua&#8230; \u00c9<br \/>\numa pata.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Pata ser\u00e1 ele.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Pata! Ah, ah! (Rindo:) Pata, yes!<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Tu nunca h\u00e1s de tomar l\u00edngua.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Queres ch\u00e1?<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; D\u00e1-me. (Servem-se de ch\u00e1 e continuam a falar, bebendo-o.)<\/p>\n<p>JOHN &#8211; N\u00e3o tens recebido cartas do Rio?<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; N\u00e3o, e nem se me d\u00e1.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Chama-se a isso descuido e indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Descuida, yes.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Que queres? Sou assim. Tamb\u00e9m por descuido foi que me casei.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; V\u00ea l\u00e1, Bolingbrok, como s\u00e3o os brasileiros, quando<br \/>\ntratam de seus interesses pecuni\u00e1rios. Jeremias vendeu tudo quanto<br \/>\npossu\u00eda: uma fazenda de a\u00e7ucar que lhe deixou o pai&#8230;<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; N\u00e3o rendia nada; tudo era pouco para os negros comerem,<br \/>\ne morrerem muitos.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Porque n\u00e3o sabe trabalha.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Vendeu duas belas propriedades de casa&#8230;<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Das quais estava sempre mandando consertar os telhados, por pedido<br \/>\ndos inquilinos. S\u00f3 nisso iam-se os alugu\u00e9is.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; E sabes tu, Bolingbrok, o que fez ele de todo esse capital?<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Dize.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Gastou metade em bailes, passeios, carruagens, cavalos&#8230;<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Oh!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; E a outra metade emprestou a juros.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Este est\u00e1 bom; boa firma, jura doze per cento&#8230;<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Qual doze, homem!<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Quante?<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; A oito por cento ao ano.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Oh, Jeremias est\u00e1 doido! A oito per cento? Oh!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Assim \u00e9 que se estraga uma fortuna.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Brasileiros sabe mais gasta do que ganha.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Ora, adeus! A vida \u00e9 curta e \u00e9 preciso goz\u00e1-la.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; E depois dessa crian\u00e7ada, veio c\u00e1 para a Bahia e deixou<br \/>\na mulher no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>JEREMIAS, para Bolingbrok &#8211; Isto tamb\u00e9m \u00e9 loucura?<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Conforme&#8230; Quando mulher \u00e9 m\u00e1, deixa ela; quando<br \/>\n\u00e9 boa, pega nela.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Pega nela, yes! Mas como a minha era o diabo com saia, eu deixa<br \/>\nela.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Yes!<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Oh, John, oh, Bolingbrok, se eu tivesse uma mulher como as vossas,<br \/>\nent\u00e3o&#8230; Que anjos, que docilidade! Eu, se fosse qualquer de voc\u00eas,<br \/>\nn\u00e3o lhes negava a mais pequena coisa. ( parte:) \u00c9 preciso prepar\u00e1-los.<br \/>\n(Alto:) Oh, eu os julgo incapazes de as tratar mal! Nem me passa isso pela<br \/>\ncabe\u00e7a.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Mim n\u00e3o nega coisa razo\u00e1vel. (Levanta-se.)<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Nem eu. (Levanta-se.)<\/p>\n<p>JEREMIAS, levantando-se e \u00e0 parte &#8211; N\u00e3o gostaram do conselho&#8230;<br \/>\n(Alto:) Enfim, cada um faz o que entende.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Yes.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Adeus, John, tenho muito que passear, e \u00e9 tarde. Farewel,<br \/>\nmy dear Bolingbrok. How do you do? Give me some bread. I thank you. Hem? Tem<br \/>\nque dizer a esta bela pron\u00fancia? At\u00e9 logo. ( parte:) \u00c9<br \/>\npreciso deix\u00e1-los com as mulheres&#8230; (Alto:) Adeus! Sejam am\u00e1veis.<br \/>\n(Sai cantando.)<\/p>\n<h2>CENA V<\/h2>\n<p>Bolingbrok e John<\/p>\n<p>BOLINGBROK, passeando &#8211; Mim est\u00e1 desconfiado&#8230;<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Dar-se-\u00e1, acaso, que nossas mulheres se tenham queixado a Jeremias?<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Mim pensa&#8230; Clarisse quer passeia, quer dan\u00e7a, quer<br \/>\ntheater, e mim n\u00e3o pode, mim n\u00e3o quer&#8230;<\/p>\n<p>JOHN &#8211; E fazes bem. De que servem tantas folias, sen\u00e3o para perdi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas mulheres?<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; John, eu n\u00e3o quer perde perde Clarisse, mas eu est\u00e1<br \/>\nmuito aflita&#8230; Clarisse est\u00e1 zangado comiga.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; N\u00e3o te d\u00eas disso; os arrufos fazem agrad\u00e1vel a<br \/>\nreconcilia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Oh, mais palavra de amor \u00e9 t\u00e3o doce, e palavra<br \/>\nde briga \u00e9 t\u00e3o, t\u00e3o repiada&#8230;<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Bolingbrok, meu caro s\u00f3cio, desconfia sempre de tr\u00eas<br \/>\nqualidades de mulher: primeiro, das que s\u00f3 palavras: meu amorzinho,<br \/>\nmeu bem, meu ladr\u00e3ozinho, e vos acarinham as faces com a m\u00e3o;<br \/>\nsegundo, das que te rodeiam de aten\u00e7\u00f5es e cuidados quando te<br \/>\nest\u00e1s vestindo para sa\u00edres; e terceiro, das que te fazem presentinhos<br \/>\nde suspens\u00f3rios bordados, bolsa para rel\u00f3gio, paninhos para<br \/>\nbarba, etc. \u00c9 que te querem assim causar agrad\u00e1veis surpresas.<br \/>\nDesconfia dessas, sobretudo. De surpresa em surpresa atiram com o homem ao<br \/>\ninferno&#8230;<\/p>\n<h2>CENA VI<\/h2>\n<p>Virg\u00ednia, Clarisse e os mesmos.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA, \u00e0 porta e \u00e0 parte para Clarisse &#8211; Ei-los!<br \/>\nExperimentemos. (Encaminham-se para os dois sem vistas.)<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Oh, oh, John, eu me lembrarei, John&#8230; Minha amorzinho, minha<br \/>\nladr\u00e3ozinho, n\u00e3o quer&#8230; Ni presentes, ni carinhas&#8230; Oh, non!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA, tomando John pelo bra\u00e7o &#8211; Meu bom maridinho!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Ah, sois v\u00f3s, Virg\u00ednia?<\/p>\n<p>CLARISSE, tomando Bolingbrok pelo bra\u00e7o &#8211; Meu amorzinho!<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Clarisse! ( parte:) Disse: minha amorzinho&#8230;<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA, para John &#8211; O ch\u00e1 estava bom?<\/p>\n<p>JOHN &#8211; N\u00e3o achei mau.<\/p>\n<p>CLARISSE, para Bolingbrok &#8211; Gostaste do ch\u00e1, meu ladr\u00e3ozinho?<\/p>\n<p>BOLINGBROK, \u00e0 parte &#8211; Oh, minha ladr\u00e3ozinho!&#8230;<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA, para John &#8211; N\u00e3o vais hoje passear?<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Oh, tanto cuidado!<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; N\u00e3o passeias? (Passando-lhe a m\u00e3o pela barba.)<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Oh!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Que tensJohn? Acho-te assim, n\u00e3o sei como&#8230;<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Nada, nada, absolutamente!<\/p>\n<p>CLARISSE, para Bolingbrok &#8211; Por que te espantas?<\/p>\n<p>BOLINGBROK, \u00e0 parte &#8211; Oh, s\u00f3 falta suspens\u00f3rias bordada!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; John, tinha um favor que pedir-te&#8230;<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Dize.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Eu tamb\u00e9m a ti&#8230;<\/p>\n<p>BOLIGBROK &#8211; Fala.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Se fosses t\u00e3o bom&#8230;<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; T\u00e3o am\u00e1vel&#8230;<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Que promet\u00easseis que hoje&#8230;<\/p>\n<p>JOHN &#8211; O qu\u00ea?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Oh, mas tu n\u00e3o ter\u00e1s a crueldade de me dizeres<br \/>\nque n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Nem tu, minha vida, ter\u00e1s a barbaridade de recusares um<br \/>\nmeu pedido&#8230;<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Vamos, dizei.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Eu est\u00e1 esperando.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Quer\u00edamos hoje ir&#8230; Dize, Virg\u00ednia.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Ir ao teatro. Sim?<\/p>\n<p>JOHN &#8211; N\u00e3o pode ser. (Apartando-se dela.)<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Non, non pode! (Apartando-se dela.)<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Ah, ent\u00e3o n\u00e3o consente?<\/p>\n<p>JOHN &#8211; N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Recusa?<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; No, non recusa&#8230; Permite a v\u00f3s a permiss\u00e3o de<br \/>\nn\u00e3o ir ao teatro&#8230;<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Assim morreremos neste insuport\u00e1vel cativeiro!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Virg\u00ednia!<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Isto \u00e9 indigno! (Chora.)<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Clarisse!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Meu Deus, meu Deus, como sou desgra\u00e7ada! (Chora.)<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Tenha ju\u00edzo, senhora!<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Infeliz de mim! (Chora.)<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; My Clarisse \u00e9 crian\u00e7a?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA, resoluta &#8211; Oh, mas isto n\u00e3o pode ser assim; h\u00e1<br \/>\nde mudar ou sen\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>CLARISSE, resoluta &#8211; Sim, \u00e9 preciso que isto mude, ou eu&#8230;<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Amea\u00e7ais?<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Essa tom?<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; \u00c9 o tom que nos conv\u00e9m.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; E o que havemos de tomar de aqui em diante.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; E pretendes assim obrigar-me a que te leve ao teatro?<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Pensas que assim obriga a mim, senhora?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Ent\u00e3o n\u00e3o sairemos mais de casa?<\/p>\n<p>JOHN &#8211; N\u00e3o!<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; No!<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Que inferno!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Muito bem! E durante o tempo que ficamos em casa h\u00e3o<br \/>\nde os senhores andar por esses hot\u00e9is, bailes, public-houses e teatros,<br \/>\ndivertindo-se e bebendo grogue&#8230;<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Virg\u00ednia!<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; E a fumarem por essas ruas.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Eu fuma aqui mesmo, senhora; sou capaz de fuma aqui mesmo.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Ent\u00e3o n\u00e3o sairemos?<\/p>\n<p>CLARISSE, raivosa, ao mesmo tempo &#8211; N\u00e3o sairemos?<\/p>\n<p>JOHN &#8211; N\u00e3o! (Chamando:) Tom\u00e1s?<\/p>\n<p>BOLINGBROK, ao mesmo tempo &#8211; No! (Chamando:) Tom\u00e1s? (Entra o criado.)<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Meu chap\u00e9u.<\/p>\n<p>BOLINGBROK, ao mesmo tempo &#8211; Minha chap\u00e9u.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA e CLARISSE &#8211; Meu Deus! (V\u00e3o cair desmaiadas nas cadeiras.)<\/p>\n<p>BOLINGBROK, querendo ir socorrer Clarisse &#8211; My Clarisse!<\/p>\n<p>JOHN, retendo-o &#8211; O que fazes? Elas tornar\u00e3o a si. (Entra o criado<br \/>\ncom os chap\u00e9us.)<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Pode morre, John.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; N\u00e3o morrem. (Para o criado:) D\u00e1 c\u00e1 o chap\u00e9u&#8230;<br \/>\nToma o teu, e vamos para os hot\u00e9is, como estas senhoras disseram. (Tomando-o<br \/>\npelo bra\u00e7o e obrigando-o a segu\u00ed-lo:) Vamos. (V\u00e3o sair<br \/>\npela esquerda; logo que chegam junto \u00e0 porta, Virg\u00ednia e Clarisse<br \/>\nlevantam das cadeiras.)<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA, levantando-se &#8211; B\u00e1rbaros!<\/p>\n<p>CLARISSE, levantando-se, ao mesmo tempo &#8211; Desumanos!<\/p>\n<p>BOLINGBROK, da parta &#8211; Oh, est\u00e1 viva!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; N\u00e3o te disse? (Os dois riem-se \u00e0s gargalhadas e saem.)<\/p>\n<h2>CENA VII<\/h2>\n<p>VIRG\u00cdNIA, chegando-se \u00e0 porta por onde eles sa\u00edram &#8211;<br \/>\nMalcriados!<\/p>\n<p>CLARISSE, nomesmo &#8211; Grosseir\u00f5es!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; E ent\u00e3o?<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; E ent\u00e3o?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Pois como n\u00e3o quer que eu saia a passeio, vom pregar-me<br \/>\n\u00e0 janela e namorar a torto e a direito&#8230; Hei de mostrar! (Vai para<br \/>\na janela.)<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Mas cuidado que ele n\u00e3o te veja. O melhor \u00e9 termos<br \/>\npaci\u00eancia.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Tem tu, que eu n\u00e3o.<\/p>\n<p>CLARISSE, sentando-se &#8211; Faze o que quiseres. Enfim, assim o quisemos, assim<br \/>\no tenhamos&#8230; A nossa fugida havia dar em alguma&#8230; Ai, ai, quem o adivinhasse!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Clarisse, Clarisse, vem c\u00e1! Vem c\u00e1 depressa!<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; O que \u00e9?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Corre! (Clarisse vai para junto de Virg\u00ednia.) Quem<br \/>\n\u00e9 aquela que ali vai?<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Aquela?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Sim&#8230; Talvez engane-me&#8230; \u00c9 quase noite, e n\u00e3o<br \/>\nposso certificar-me.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Parece-me, pelo corpo e andar, a Henriqueta.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; \u00c9 isso mesmo que eu pensava.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; \u00c9 ela, \u00e9!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA, chamando &#8211; Psiu! Psiu! Henriqueta!<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; N\u00e3o grites tanto!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Somos n\u00f3s! Ela ouviu-nos; a\u00ed vem. Sim, sim,<br \/>\nentra, entra, sou eu e minha irm\u00e3. (Saindo ambas da janela.)<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Henriqueta c\u00e1 pela Bahia? O que ser\u00e1?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; N\u00e3o adivinhas? Vem atr\u00e1s do marido.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Que casal tamb\u00e9m esse&#8230;<\/p>\n<h2>CENA VIII<\/h2>\n<p>Henriqueta e as ditas.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Henriqueta! (Abra\u00e7ando-a.)<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Minhas caras amigas!<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Tu por c\u00e1, Henriqueta?<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Cheguei esta manh\u00e3 mesmo no vapor, e muito estimo ter-vos<br \/>\nencontrado. Ajudar-me-eis no empenho que me trouxe \u00e0 Bahia?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Qual \u00e9 ele?<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Conta conosco.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Venho em procura de meu marido, que h\u00e1 m\u00eas e meio<br \/>\nabandonou-me.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Abandonou-te?<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Sim, sim, e partiu para a Bahia. Um m\u00eas depois \u00e9<br \/>\nque soube que ele aqui estava, e pus-me logo a caminho.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Pobre Henriqueta!<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Em que lida vives por um ingrato?<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Voc\u00eas o n\u00e3o tem visto?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Se temos&#8230;<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; E h\u00e1 bem pouco tempo.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Aonde?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Aqui.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Aqui mesmo?<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Sim.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; E voltar\u00e1?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; N\u00e3o tarda.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Oh, Sr. Jeremias, agora veremos! O senhor n\u00e3o contava<br \/>\ncom a minha resolu\u00e7\u00e3o. Assim abandonar-me&#8230;<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; E o teu marido \u00e9 como todos &#8211; falso, ingrato e traidor.<br \/>\n(Aqui entra o criado com velas e as p\u00f5e sobre a mesa.)<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Ele dizia sempre que recebia cartas tuas, e dava-nos lembran\u00e7as.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; P\u00e9rfido mentiroso! Oh, mas hei de segui-lo ainda que<br \/>\nseja at\u00e9 o inferno!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; V\u00ea tu, Henriqueta, como s\u00e3o as coisas&#8230; Tu<br \/>\ncorres atr\u00e1s de teu marido, e n\u00f3s quis\u00e9ramos estar bem<br \/>\nlonge dos nossos.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Como assim?<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Henriqueta, somos muito desgra\u00e7adas, muito&#8230;<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Voc\u00eas, desgra\u00e7adas?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA, chorando &#8211; Sim, e muito.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Oh, e por qu\u00ea?<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Nossos maridos tratam-nos como f\u00f4ssemos suas escravas. (Chora.)<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; \u00c9 poss\u00edvel&#8230;<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; N\u00f3s \u00e9 que pagamos as cabeleiras que tomam.<br \/>\nN\u00e3o temos vontade nem delibera\u00e7\u00e3o em coisa alguma. Governam-nos<br \/>\nbritanicamente.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; E o que fazem voc\u00eas?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; O que havemos fazer, sen\u00e3o sujeitarmo-nos?<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Nada, isso lhes d\u00e1 raz\u00e3o!<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Ah, minha cara amiga, se estivesses em nosso lugar&#8230;<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Escuta, Virg\u00ednia, e tu, Clarisse, uma coisa que<br \/>\neu n\u00e3o dissera, se n\u00e3o ouvisse a confid\u00eancia que acabas<br \/>\nde fazer-me. Mas sou vossa amiga e compade\u00e7o-me do estado e engano<br \/>\nem que viveis&#8230;<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Engano em que vivemos?<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Explica-te&#8230;<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Sabes tu o que se diz no Rio de Janeiro?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Tu me assustas!<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Acaba.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Que voc\u00eas n\u00e3o est\u00e3o casadas legitimamente.<\/p>\n<p>AMBAS &#8211; N\u00e3o estamos casadas?<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Tu gracejas.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Ora dizei-me, em que religi\u00e3o fostes criadas?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Na religi\u00e3o de nossos pais.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Cat\u00f3lica, Apost\u00f3lica, Romana.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; E teus maridos?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; S\u00e3o protestantes.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; E aonde vos casastes?<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; No templo ingl\u00eas do Rio de Janeiro, na Rua dos Barbonos.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; E n\u00e3o fostes tamb\u00e9m receber a ben\u00e7\u00e3o<br \/>\ncat\u00f3lica do vig\u00e1rio da vossa freguesia?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Minhas amigas, sinto muito repetir; n\u00e3o estais legitimamente<br \/>\ncasadas.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Mas por qu\u00ea?<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; N\u00e3o compreendo.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; As cerim\u00f4nias nupciais protestantes s\u00f3 ligam os<br \/>\nprotestantes; e as cat\u00f3licas, os cat\u00f3licos.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Assim&#8230;<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Assim, s\u00f3 eles \u00e9 que est\u00e3o casados; voc\u00eas,<br \/>\nn\u00e3o.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Meu Deus!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA, ao mesmo tempo &#8211; Oh, \u00e9 isto poss\u00edvel?<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; E vivam na certeza que voc\u00eas n\u00e3o s\u00e3o mais<br \/>\nque amantes de vossos maridos, isto \u00e9, casadas solteiras.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Que inf\u00e2mia!<\/p>\n<p>CLARISSE, ao mesmo tempo &#8211; Que trai\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; E agora que de tudo sabem, querem ainda viver com eles, e dar-lhes<br \/>\nobedi\u00eancia?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Nem mais um instante! Fujamos! Casadas solteiras!&#8230;<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Fujamos! Que vergonha! Duas amantes!&#8230; Que posi\u00e7\u00e3o<br \/>\na nossa!<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Esperem, esperem, isto n\u00e3o vai assim. \u00c9 preciso<br \/>\nsangue frio. O vapor larga esta madrugada para o Rio de Janeiro, iremos nele.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Minha amiga, tu nos acompanhar\u00e1s?<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Com uma condi\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Qual \u00e9?<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Que voc\u00eas resolver\u00e3o a Jeremias a acompanhar-me,<br \/>\nse eu o n\u00e3o puder conseguir.<\/p>\n<p>AMBAS &#8211; Conta conosco.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Muito bem. Agora v\u00e3o arranjar a roupa necess\u00e1ria.<br \/>\n(Ouve-se dentro Jeremias cantar.) E depressa, que eu ou\u00e7o a voz do<br \/>\nmeu tratante&#8230;<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Em um momento estamos prontas. (Saem as duas.)<\/p>\n<h2>CENA IX<\/h2>\n<p>Henriqueta e depois Jeremias.<\/p>\n<p>HENRIQUETA, s\u00f3 &#8211; Vens muito alegre&#8230; Mal sabes tu o que te espera.<br \/>\nCanta, canta, que logo chiar\u00e1s! (Apaga a vela.) Ah, meu tratante!<\/p>\n<p>JEREMIAS, entrando &#8211; Que diabo! \u00c9 noite fechada e ainda n\u00e3o<br \/>\nacenderam as velas! (Chamando:) Tom\u00e1s, Tom\u00e1s, traze luz! N\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 nada como estar o homem solteiro, ou, se \u00e9 casado, viver<br \/>\nbem longe da mulher. (Enquanto fala, Henriqueta vem-se aproximando dele pouco<br \/>\na pouco.) Vivo como um lindo amor! Ora, j\u00e1 n\u00e3o posso aturar<br \/>\na minha cara-metade&#8230; O que me vale \u00e9 estar ela h\u00e1 mais de<br \/>\nduzentas l\u00e9guas de mim. (Henriqueta, que a este tempo est\u00e1 junto<br \/>\ndele, agarra-lhe pela gola da casaca, Jeremias assustando-se:) Quem \u00e9?<br \/>\n(Henriqueta d\u00e1-lhe uma bofetada e o deixa. Jeremias, gritando:) Ai,<br \/>\ntragam luzes! S\u00e3o Ladr\u00f5es! (Aqui entra o criado com luzes.)<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; \u00c9 outra gir\u00e2ndola, patife!<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Minha mulher!<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Pensavas que te n\u00e3o havia de encontrar?<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Mulher do diabo!<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Agora n\u00e3o te perderei de vista um s\u00f3 instante.<\/p>\n<p>JEREMIAS, para o criado &#8211; Vai-te embora. (O criado sai.)<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Ah, n\u00e3o queres testemunhas?<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; N\u00e3o, porque quero te matar!<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Ah, ah, ah! Disso me rio eu.<\/p>\n<p>JEREMIAS, furioso &#8211; Ah, tens vontade de rir? Melhor; a morte ser\u00e1<br \/>\nalegre. (Tomando-a pelo bra\u00e7o.) Tu \u00e9s uma peste, e a peste se<br \/>\ncura; \u00e9s um dem\u00f4nio, e os dem\u00f4nios se exorcizam; \u00e9s<br \/>\numa v\u00edbora, e as v\u00edboras se matam!<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; E aos desavergonhados se ensinam! (Levanta a m\u00e3o para<br \/>\ndar-lhe uma bofetada, e ele, deixando-a, recua.) Ah, foges?<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Fujo sim, porque da peste, dos dem\u00f4nios, e das v\u00edboras<br \/>\nse foge&#8230; N\u00e3o quero mais te ver! (Fecha os olhos.)<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; H\u00e1s de ver-me e ouvir-me!<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; N\u00e3o quero mais te ouvir! (Tapa os ouvidos com a m\u00e3o.)<\/p>\n<p>HENRIQUETA, tomando-o pelo bra\u00e7o &#8211; Pois h\u00e1 de me sentir.<\/p>\n<p>JEREMIAS, saltando &#8211; Arreda!<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Agora n\u00e3o me arredarei mais do p\u00e9 de ti, at\u00e9<br \/>\no dia do Ju\u00edzo&#8230;<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Pois agora tamb\u00e9m fa\u00e7o eu protesto solene a todas<br \/>\nas na\u00e7\u00f5es, declara\u00e7\u00e3o formal\u00edssima \u00e0<br \/>\nface do universo inteiro, que hei de fugir de ti como o diabo foge da cruz;<br \/>\nque hei de evitar-te como o devedor ao credor; que hei de odiar-te como as<br \/>\noposi\u00e7\u00f5es odeiam as maiorias.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; E eu declaro que te hei de seguir como a sombra segue o corpo&#8230;<\/p>\n<p>JEREMIAS, exclamando &#8211; Meu Deus, quem me livrar\u00e1 deste diabo encarnado?<\/p>\n<p>CRIADO, entrando &#8211; Uma carta da Corte para o Sr. Jeremias.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; D\u00e1 c\u00e1. (O criado entraga e sai. Jeremias para Henriqueta:)<br \/>\nN\u00e3o ter eu a fortuna, peste, que esta carta fosse a de convite para<br \/>\nteu enterro&#8230;<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; N\u00e3o ter\u00e1 esse gostinho. Pode ler, n\u00e3o fa\u00e7a<br \/>\ncerim\u00f4nia.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; N\u00e3o preciso da sua permiss\u00e3o. (Abre a carta e a<br \/>\nl\u00ea em sil\u00eancio.) Estou perdido! (Deixa cair a carta no ch\u00e3o.)<br \/>\nDesgra\u00e7ado de mim! (Vai cair sentado na cadeira.)<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; O que \u00e9?<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Que infelicidade, ai!<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Jeremias!<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Arruinado! Perdido!<\/p>\n<p>HENRIQUETA, corre e apanha a carta e a l\u00ea &#8211; &#8220;Sr. Jeremias, muito<br \/>\nsinto dar-lhe t\u00e3o desagrad\u00e1vel not\u00edcia. O negociante<br \/>\na quem o senhor emprestou o resto de sua fortuna acaba de falir. Os credores<br \/>\nn\u00e3o puderam haver nem dois por cento do rateio. Tenha resigna\u00e7\u00e3o&#8230;&#8221;<br \/>\n&#8211; Que desgra\u00e7a! Pobre Jeremias! (Chegando-se para ele:) Tende coragem.<\/p>\n<p>JEREMIAS, chorando &#8211; Ter coragem! \u00c9 bem f\u00e1cil de dizer-se&#8230;<br \/>\nPbre miser\u00e1vel&#8230; Ah! (Levantando-se:) Henriqueta, tu que sempre me<br \/>\namaste, n\u00e3o me abandones agora&#8230; Mas n\u00e3o, tu me abandonar\u00e1s;<br \/>\neu estou pobre&#8230;<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Injusto que tu \u00e9s. Acaso amava eu o teu dinheiro, ou<br \/>\na ti?<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Minha boa Henriqueta, minha querida mulher, agora que tudo perdi,<br \/>\ns\u00f3 tu \u00e9s o meu tesouro; s\u00f3 tu ser\u00e1s a consola\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo pobre Jeremias.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Aben\u00e7oada seja a desgra\u00e7a que me faz recobrar<br \/>\no teu amor! Trabalharemos para viver, e a vida junto de ti ser\u00e1 para<br \/>\nmim um para\u00edso&#8230;<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Oh, nunca mais te deixarei! Partamos para o Rio de Janeiro, partamos,<br \/>\nque talvez ainda seja tempo de remediar o mal.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Partamos hoje mesmo.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Sim, sim, hoje mesmo, agora mesmo&#8230;<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Espera.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; O qu\u00ea?<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Virg\u00ednia e Clarisse ir\u00e3o conosco.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Virg\u00ednia e Clarisse? E seus maridos?<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Ficam.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; E elas?<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Fogem.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Acaso tiraram eles a sorte grande?<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Lisonjeiro!<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Venha quem quiser comigo, fuja quem quiser, que eu o que quero<br \/>\n\u00e9 ver-me no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Vem c\u00e1. (Saindo.) Feliz de mim! (Saem pela direita.)<\/p>\n<h2>CENA X<\/h2>\n<p>Entram pela esquerda John e Bolingbrok.<\/p>\n<p>BOLINGBROK, entrando &#8211; Very good porter, John.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Sim. \u00c9 um pouco forte.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Oh, forte n\u00e3o! Eu ainda pode bebe mais. (Senta-se e chama:)<br \/>\nTom&amp;aaaacute;s? Tom\u00e1s? (O criado entra.) Traz uma ponche. (O criado sai.)<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Pois ainda queres beber? (Sentando-se.)<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; John, bebe tamb\u00e9m comigo; eu quero bebe \u00e0 sa\u00fade<br \/>\nde minha Clarisse, e tu, de Virg\u00ednia. (Gritando:) Tom\u00e1s? Tom\u00e1s?<br \/>\n(O criado entra com uma salva com dois copos de ponche.) Bota aqui! (O criado<br \/>\ndeixa a bandeja sobre a mesa e sai.)<\/p>\n<p>JOHN, bebendo &#8211; tua sa\u00fade, Bolingbrok.<\/p>\n<p>BOLINGBROK, bebendo &#8211; Yes, minha sa\u00fade&#8230; Tamb\u00e9m sa\u00fade<br \/>\ntua. Oh, este ponche est\u00e1 belo. John, \u00e0 sa\u00fade de Clarisse!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; V\u00e1, \u00e0 sa\u00fade de Clarisse e de Virg\u00ednia.<br \/>\n(Bebem.)<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Oh, este garrafa&#8230; \u00c9 rum de Jamaica. Toma, John. (Deita<br \/>\nrum nos copos.)<\/p>\n<p>JOHN &#8211; autoridade marital!<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Yes, autoridade maritale! (Bebem.)<\/p>\n<p>JOHN &#8211; De duas coisas uma, Bolingbrok: ou \u00e9 a mulher, ou o marido<br \/>\nque governam.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Yes, quando mulher governa, tudo leva diabo!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Bravo! Tens raz\u00e3o e compreendes&#8230; nossa sa\u00fade! (Bebem.)<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Marido governa mulher, ou, &#8211; goddam! &#8211; mata ela. (D\u00e1<br \/>\num soco na mesa.)<\/p>\n<p>JOHN, falando com dificuldade &#8211; Obedi\u00eancia mata&#8230; salva tudo&#8230; Bolingbrok,<br \/>\n\u00e0 sa\u00fade da obedi\u00eancia!<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Yes! (Falando com dificuldade:) Eu quer obedi\u00eancia. (Bebem.)<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Virg\u00ednia \u00e9 minha mulher&#8230; H\u00e1 de fazer o que<br \/>\nquero.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Brasil \u00e9 bom para ganhar dinheiro e ter mulher&#8230; Os<br \/>\nlucros&#8230; cento por cento&#8230; \u00c9 belo! John, eu quero dorme, mim tem<br \/>\na cabe\u00e7a pesada&#8230; (Vai adormecendo.)<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Eu tenho sede. (Bebe.) Bolingbrok dorme. Ah, ah, ah! (Rindo-se.) Est\u00e1<br \/>\nbom, est\u00e1 b\u00eabado! Ah, ah! Cabe\u00e7a fraca&#8230; N\u00e3o vai<br \/>\na teatro&#8230; Virg\u00ednia&#8230; (Adormece.)<\/p>\n<h2>CENA XI<\/h2>\n<p>Entram Virg\u00ednia, Clarisse, Henriqueta e Jeremias como quem v\u00e3o<br \/>\nde viagem, trazendo trouxas, caixa de chap\u00e9u, etc.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA, entrando &#8211; Sil\u00eancio, que eles dormem. (Adiantam-se<br \/>\npara a cena, p\u00e9 ante p\u00e9, passando entre os dois e o pano de<br \/>\nfundo.)<\/p>\n<p>CLARISSE, parando detr\u00e1s dos dois &#8211; Se eles se arrependessem&#8230;<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Nada de fraqueza, vamos!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Talvez ainda f\u00f4ssemos felizes&#8230;<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Nada de demora, ou vou s\u00f3&#8230;<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Clarisse, fiquemos!<\/p>\n<p>JOHN, sonhando &#8211; Virg\u00ednia \u00e9 minha escrava.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Sua escrava?&#8230;<\/p>\n<p>BOLINGBROK, sonhando e batendo com o punho na mesa &#8211; Eu mata Clarisse&#8230;<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Matar-me?&#8230;<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA e CLARISSE &#8211; Vamos! (V\u00e3o atravessando para a porta<br \/>\nda esquerda.)<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Adeus, g\u00f3dames!<\/p>\n<p>JEREMIAS, da porta &#8211; Good night, my dear! (Saem todos. Bolingbrok e John,<br \/>\ncom o grito de Jeremias, como que acordam; esfregam os olhos.)<\/p>\n<p>BOLINGBROK, dormindo &#8211; Good night!<\/p>\n<p>JOHN, dormindo &#8211; Yes! (Tornam a cair em sono profundo e desce o pano.)<\/p>\n<p><strong>Fim do segundo ato.<\/strong><\/p>\n<h4><a name=\"3\"><\/a>Ato Terceiro<\/h4>\n<p>Sala: portas laterais e no fundo; no meio, uma mesa. No segundo plano, \u00e0<br \/>\ndireita, um guarda-pratos, e \u00e0 esquerda, duas meias pipas serradas<br \/>\npelo meio; cadeiras.<\/p>\n<h2>CENA I<\/h2>\n<p>Virg\u00ednia e Clarisse, sentadas junto \u00e0 mesa, cosendo. Narciso,<br \/>\ntendo um papel na m\u00e3o..<\/p>\n<p>NARCISO, entrando &#8211; Est\u00e1 pronto. Muito bem! Meninas, \u00e9 preciso<br \/>\nque assinem este papel.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; E que papel \u00e9 este?<\/p>\n<p>NARCISO, apresentando-lhe o papel e uma pena &#8211; A procura\u00e7\u00e3o<br \/>\npara anular vossos casamentos.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Ah, d\u00ea-me! (Toma o papel e assina.) Agora tu, Clarisse.<\/p>\n<p>CLARISSE, toma o papel e assina &#8211; Est\u00e1 assinado.<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; Muito bem, muito bem, minhas filhas! Tudo est\u00e1 em regra.<br \/>\nN\u00e3o descansarei enquanto n\u00e3o vir anulados estes malditos casamentos.<br \/>\nCasamentos! Patifes, hei de ensin\u00e1-los. J\u00e1 estive esta manh\u00e3<br \/>\ncom o meu letrado, que me d\u00e1 muito boas esperan\u00e7as. Minhas filhas,<br \/>\nespero em Deus e na Justi\u00e7a, que amanh\u00e3 estejais livres.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Livres?<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; Sim, sim, e podereis casar-vos de novo com quem quiserdes.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Casarmo-nos de novo?<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; E por que n\u00e3o? Filhas, uma coisa vos quero eu pedir&#8230;<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; O qu\u00ea, meu pai?<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; Fugistes de minha casa; dois meses depois voltastes, e um s\u00f3<br \/>\nqueixume ainda n\u00e3o ouvistes de vosso pai, que vos recebeu com os bra\u00e7os<br \/>\nabertos.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Meu pai&#8230; (Levantando-se.)<\/p>\n<p>CLARISSE, levantando-se &#8211; Ordenai.<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; Amanh\u00e3 estareis livres, e espero que aceiteis os noivos<br \/>\nque eu vos destino.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Noivos?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; E quem s\u00e3o eles?<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; Para ti ser\u00e1 o amigo Serapi\u00e3o.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Serapi\u00e3o?<\/p>\n<p>NARCISO, para Clarisse &#8211; E para ti, o vizinho Pantale\u00e3o.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Pantale\u00e3o?<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; S\u00e3o duas dignas pessoas. Enfim, trataremos disso; talvez<br \/>\nhoje vo-los apresente. Adeus, adeus, que \u00e9 tarde. Vou daqui ao teatro.<br \/>\nJ\u00e1 vos disse que hoje n\u00e3o janto em casa; por conseguinte, quando<br \/>\nforem horas, n\u00e3o me esperem. Manda tirar estas vasilhas aqui da sala.<br \/>\n(Sai.)<\/p>\n<h2>CENA II<\/h2>\n<p>As ditas e depois Henriqueta<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Que me dizes a esta, mana? Eu, casada com um Serapi\u00e3o!<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; E eu, com um Pantale\u00e3o!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Isto n\u00e3o pode ser&#8230;<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Que d\u00favida!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; At\u00e9 porque ainda nutro certas esperan\u00e7as&#8230;<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; E eu tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>HENRIQUETA, da porta &#8211; D\u00e1 licen\u00e7a?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA e CLARISSE &#8211; Henriqueta! Entra!<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Como passam voc\u00eas?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Bem, e tu?<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Vamos passando. Ent\u00e3o, o que h\u00e1 de novo?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Muitas coisas&#8230; Amanh\u00e3 estaremos completamente<br \/>\nlivres.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; E poder-nos-emos casar com Serapi\u00f5es e Pantale\u00f5es.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Hem? O que \u00e9 isso?<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; \u00c9 c\u00e1 um projeto do nosso pai.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Um projeto?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Meu pai quer nos casar de novo.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Sim? E voc\u00eas consentem em tal, e est\u00e3o completamente<br \/>\nresolvidas a abandonarem os pobres inglesinhos?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; N\u00e3o sei o que te diga&#8230;<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Sabes, Henriqueta, que eles est\u00e3o c\u00e1 no Rio?<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Sei. Ontem encontrei o teu, o Bolin, Bolin&#8230; Que maldito nome,<br \/>\nque nunca pude pronunciar!<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Bolingbrok.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Bolinloque a passear no Largo do Pa\u00e7o, vermelho como<br \/>\num camar\u00e3o. Assim que avistou-me, veio direitinho para mim; mas eu<br \/>\nque n\u00e3o estava para atur\u00e1-lo, fiz-me de esquerda e fui andando.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; H\u00e1 quinze dias que chegaram da Bahia, e atormentam-nos<br \/>\ncom cartas e recados.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; E j\u00e1 encontraste com ele?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; J\u00e1, em um baile.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; E dan\u00e7aste com ele?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Por cinco ou seis vezes vieram convidar-nos para contradan\u00e7a,<br \/>\npolca e valsa, mas n\u00f3s, nada de aceitar.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Coitados!<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; E se tu visses a afli\u00e7\u00e3o em que eles estavam! Como<br \/>\nviam que n\u00f3s n\u00e3o os quer\u00edamos aceitar para pares, zangados<br \/>\ne raivosos agarravam-se ao primeiro par que encontravam, e agora ver\u00e1s!<br \/>\nSaltavam como uns dem\u00f4nios&#8230; Cada pernada!&#8230;<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; E na polca ia tudo raso, com pontap\u00e9s e encontr\u00f5es.<br \/>\nTodos fugiam deles. Ah, ah!<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Assim \u00e9 que os ingleses dan\u00e7am; \u00e9 moda<br \/>\nentre eles.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; E depois iam para a sala dos refresco, e &#8211; grogue e mais grogue&#8230;<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Era para afogar as paix\u00f5es. Ah, ah, ah!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA, rindo-se &#8211; Ah, ah, ah! Com que caras estavam!<\/p>\n<p>CLARISSE, rindo-se &#8211; E eu a regalar-me de n\u00e3o fazer caso deles.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; E sabes tu que hoje eles jantam conosco?<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Aqui?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Sim, mandamo-los convidar.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Para mangarem com eles?<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Sim, e nos pagarem os dissabores por que passamos na Bahia. V\u00eas<br \/>\naquelas dua vasilhas? \u00c9 uma das manias de meu pai. Deu-lhe hoje para<br \/>\ntingir o algod\u00e3o de Minas que d\u00e1 para roupa dos negros. Ali<br \/>\ndentro ainda h\u00e1 um resto de tinta, e eu tenho c\u00e1 um plano&#8230;<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; E depois?<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Depois? Veremos&#8230;<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Henriqueta, o que \u00e9 feito de teu marido?<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Anda no seu lidar. Depois que perdeu tudo, fez-se procurador<br \/>\nde causas&#8230; Pobre Jeremias! Mas eu sou bem feliz, porque ele agora ama-me.<br \/>\n(Dentro d\u00e3o palmas.)<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; D\u00e3o palmas; s\u00e3o eles! Henriqueta, recebe-os, enquanto<br \/>\nnos vamos preparar.<\/p>\n<p>BOLINGBROK, dentro &#8211; D\u00e1 licen\u00e7a?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Vamos. (Sai com Clarisse.)<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Pode entrar. Isto h\u00e1 de ser bom!<\/p>\n<h2>CENA III<\/h2>\n<p>Henriqueta, Bolingbrok e John. Bolingbrok e John vir\u00e3o de cal\u00e7a<br \/>\ne colete branco e casaca.<\/p>\n<p>JOHN, da porta &#8211; D\u00e1 licen\u00e7a?<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Os senhores podem entrar.<\/p>\n<p>JOHN, entrando &#8211; Minha senhora&#8230;<\/p>\n<p>BOLINGBROK, para John &#8211; Este \u00e9 mulher de Jeremias!<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Queiram ter a bondade de assentarem-se.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; No precisa; obrigada. Dona Clarisse?<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Posso falar com a senhora Dona Virg\u00ednia?<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Neste momento est\u00e3o l\u00e1 dentro, ocupadas. Ter\u00e3o<br \/>\na bondade de esperarem um pouco&#8230;<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Mim n\u00e3o pode espera; quer fala a ela j\u00e1.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Ui!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Bolingbrok!<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Eu grita, chama ela. Clarisse? (Gritando:) Clarisse?<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; N\u00e3o grite, que j\u00e1 a vou chamar. Safa! (Sai.)<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Estais louco?<\/p>\n<p>BOLINGBROK, passeando pela casa com passos largos &#8211; John, oh, oh, mim est\u00e1<br \/>\nzanga&#8230;<\/p>\n<p>JOHN &#8211; E eu tamb\u00e9m n\u00e3o estou muito contente; mas enfim, \u00e9<br \/>\npreciso termos paci\u00eancia; estamos em casa de nossas mulheres.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Yes, eu estar satisfeita de estar junto de Clarisse.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; E eu, de Virg\u00ednia. (Assenta-se.) H\u00e1 tr\u00eas meses<br \/>\nque as vimos pela primeira vez e lhe fizemos a corte; e eis-nos de novo obrigados<br \/>\na principiarmos&#8230;<\/p>\n<p>BOLINGBROK, sempre passeando de um para outro lado &#8211; Yes, come\u00e7a declaration<br \/>\noutra vez&#8230;<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Que de acontecimentos, que de tribula\u00e7\u00f5es!&#8230; Mas tu<br \/>\n\u00e9 que \u00e9s a causa de tudo isto.<\/p>\n<p>BOLINGBROK, parando &#8211; Mim, John?<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Sim.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Oh, este \u00e9 forte! Culpada \u00e9 tu, que d\u00e1<br \/>\nconselho a mim. Maus conselhos.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Sim? E tu, com estes maus modos?<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Oh, eu \u00e9 que diz: minha ladr\u00e3ozinho \u00e9 mau,<br \/>\nminha amorzinho \u00e9 mau?&#8230; Oh, eu queixa de ti, e se ti n\u00e3o estar<br \/>\nminha s\u00f3cio&#8230; Eu d\u00e1 soco.<\/p>\n<p>JOHN, levantando-se &#8211; Tu \u00e9 que precisas uma roda deles.<\/p>\n<p>BOLINGBROK, chegando-se para John &#8211; Eu \u00e9 que precisa, John? Eu \u00e9<br \/>\nque precisa, John?<\/p>\n<p>JOHN, gritando &#8211; \u00c9 sim, maluco!<\/p>\n<p>BOLINGBROK, gritando muito junto de John &#8211; Eu \u00e9 que precisa, John?<\/p>\n<p>JOHN, empurrando-o &#8211; Irra, n\u00e3o me ensurde\u00e7as!<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Oh! (Arrega\u00e7ando as mangas:) John, vamos joga soco? Vamos,<br \/>\nJohn? Eu quer quebra o nariz&#8230;<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Chega-te para l\u00e1!<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Oh!<\/p>\n<h2>CENA IV<\/h2>\n<p>Virg\u00ednia, Clarisse e os ditos.<\/p>\n<p>CLARISSE, entrando &#8211; O que \u00e9 isto, senhores?<\/p>\n<p>BOLINGBROK, est\u00e1tico &#8211; Oh!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Minhas senhoras, n\u00e3o \u00e9 nada.<\/p>\n<p>BOLINGBROK, cumprimentando &#8211; Minhas comprimentas.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; A bondade que tivestes de nos convidar&#8230;<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Queiram assentar. (Puxam cadeiras e assentam-se na seguinte<br \/>\nordem: Virg\u00ednia e Clarisse \u00e0 direita, e Bolingbrok e John \u00e0<br \/>\nesquerda, e em dist\u00e2ncia.)<\/p>\n<p>JOHN, tossindo &#8211; Hum, hum!<\/p>\n<p>BOLINGBROK, tossindo &#8211; Hum, hum! (As duas sorriem-se.)<\/p>\n<p>JOHN &#8211; O dia hoje est\u00e1 fresco&#8230;<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Est\u00e1 bonita dia&#8230;<\/p>\n<p>JOHN &#8211; E creio que teremos chuva&#8230;<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Muita chuva; a tempo est\u00e1 perturbada&#8230;<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA, sorrindo-se &#8211; Bem vejo que est\u00e1 perturbado.<\/p>\n<p>CLARISSE, desatando a rir &#8211; E muito&#8230; Ah, ah!<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Oh!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Enfim, senhoras, temos a felicidade de vos falar sem testemunhas.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; E de nos achar junta de v\u00f3s.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; E esse obs\u00e9quio fez-se tanto esperar!<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Yes&#8230; Mim estava sequiosa para vos ver.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Sequioso? Quer um copo de \u00e1gua com a\u00e7\u00facar?<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; No, no. I thank you.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; N\u00e3o fa\u00e7a cerim\u00f4nia&#8230; Parece-me t\u00e3o<br \/>\nalterado.<\/p>\n<p>BOLINGBROK, levantando-se &#8211; No quer! Oh!<\/p>\n<p>JOHN, levantando-se &#8211; Senhoras, este cerimonial muito pesa depois de t\u00e3o<br \/>\nlonga aus\u00eancia. N\u00e3o seria melhor deixarmos de lado estes modos<br \/>\npolidos, reservados, e falarmos sinceramente?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA, levantando-se &#8211; Como quiserdes, mas lembrai-vos das condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nmediante as quais vos concedemos esta entrevista &#8211; nem uma palavra sobre o<br \/>\npassado.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Recusais ouvir a nossa justifica\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Oh, n\u00e3o d\u00e1 orelha a n\u00f3s?<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Se temos culpa, v\u00f3s tamb\u00e9m a tendes.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; N\u00f3s, senhor?<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Yes.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Sem d\u00favida! Abandonar-nos!&#8230;<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA, com gravidade &#8211; Senhores, v\u00f3s pensastes que depois<br \/>\nde nos enganar cruelmente, sujeitar-nos-\u00edamos, de boa vontade, a ser<br \/>\nvossas escravas? Muito vos iludistes! Felizmente recobramos a nossa liberdade,<br \/>\ne estamos resolvidas a n\u00e3o sacrific\u00e1-la de novo.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; O vosso proceder foi uma trai\u00e7\u00e3o indigna.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; My Clarisse!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Virg\u00ednia, nunca me amaste&#8230;<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Mas convenha que muito pouco foi feito para alcan\u00e7ar<br \/>\no meu amor.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Basta; deixemos de recrimina\u00e7\u00f5es. Os senhores far\u00e3o<br \/>\no obs\u00e9quio de jantarem conosco.<\/p>\n<p>BOLINGBROK, contente &#8211; Oh, by God!<\/p>\n<p>JOHN, contente &#8211; \u00c9 isto para n\u00f3s de grande satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>BOLINGBROK, \u00e0 parte, para John &#8211; Elas inda gosta de n\u00f3s, John.<br \/>\n(Alto, e muito risonho:) Eu est\u00e1 muito satisfeita, muito contente janta<br \/>\ncom v\u00f3s. Ah, ah, ah!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Henriqueta, nossa amiga, jantar\u00e1 conosco.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Henriqueta, mulher de Jeremias? Jeremias est\u00e1 traidor.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Jeremias \u00e9 uma pessoa de nossa amizade.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Oh, pardon! Ent\u00e3o \u00e9 minha amiga.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Um favor que lhe quisera eu pedir&#8230;<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Ordenai.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Henriqueta gosta muito de empadas e p\u00e3o-de-l\u00f3;<br \/>\nse quisesse ter a bondade de ir ali \u00e0 confeitaria e comprar&#8230;<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Oh!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Como? N\u00e3o quereis?<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Eu vou, eu vou. (Sai apressado.)<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Se eu achasse quem quisesse ir comprar alface para salada&#8230;<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Eu vai, Miss, eu vai.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Quer ter esse inc\u00f4modo?<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Inc\u00f4modo n\u00e3o; d\u00e1 prazer, basta, eu faz&#8230;<br \/>\nEu compra alface, batata, repolha e nabos; eu traz tudo&#8230; Est\u00e1 muito<br \/>\nsatisfeita. Eu volta. (Sai.)<\/p>\n<h2>CENA V<\/h2>\n<p>Virg\u00ednia, Clarisse e Henriqueta. Virg\u00ednia e Clarisse, logo<br \/>\nque Bolingbrok sai, caem assentadas nas cadeiras e riem-se \u00e0s gargalhadas.<\/p>\n<p>HENRIQUETA, entrando &#8211; O que \u00e9? De que se riem? Que \u00e9 deles?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA, rindo-se &#8211; Ah, ah, ah! Isto \u00e9 delicioso!<\/p>\n<p>CLARISSE, rindo-se &#8211; Ah, ah, ah! \u00c9 magn\u00edfico!<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Acabem de rir, e digam-me o que \u00e9.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; O meu ex-marido foi comprar alfaces e couves&#8230;<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; E o meu, empadas e p\u00e3o-de-l\u00f3. Ah, ah!&#8230;<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Eles mesmos? T\u00e3o orgulhosos como s\u00e3o?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Pois ent\u00e3o? \u00c9 que o caso mudou de figura.<br \/>\nNa Bahia nem queriam carregar o nosso chapelinho-de-sol.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; E agora carregar\u00e3o tudo quanto quisermos.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Assim s\u00e3o os homens&#8230; Ou mansos cordeiros quando dpendem,<br \/>\nou bravios le\u00f5es quando nos governam. Ah, se n\u00e3o precis\u00e1ssemos<br \/>\ndeles&#8230;<\/p>\n<h2>CENA VI<\/h2>\n<p>Jeremias e os meninos. Jeremias vir\u00e1 vestido muito ordinariamente.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Viva!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA e CLARISSE &#8211; Sr. Jeremias!<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Como passam?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA e CLARISSE &#8211; Bem.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Que fazes tu por aqui a estas horas?<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Vim falar com estas senhoras.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Conosco?<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Nem mais, nem menos.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; E para qu\u00ea?<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Seu pai encarregou ao seu procurador estes pap\u00e9is. (Mostra-lhe<br \/>\nuns pap\u00e9is.) \u00c9 o auto de anula\u00e7\u00e3o do vosso casamento<br \/>\ncom os meus amigos \u00ednglis. O procurador, por\u00e9m, que \u00e9<br \/>\num procurador muito procurado e tem muito que fazer, encarregou-me de dar<br \/>\nandamento aos pap\u00e9is. N\u00e3o sei se j\u00e1 tive a distinta de<br \/>\nlhes participar que dpois que n\u00e3o soube dirigir o que era meu, trato<br \/>\nde neg\u00f3cios dos outros&#8230;<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; J\u00e1 sabemos, que no-lo disse Henriqueta.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Muito bem. Recebi os pap\u00e9is, e lan\u00e7nado os olhos<br \/>\nsobre eles, li os vossos nomes, o dos nossos car\u00edssimos amigos e a<br \/>\ncausa de toda a barulhada, e disse c\u00e1 com os meus bot\u00f5es: isto<br \/>\npode ser maroteira do velho Narciso das Neves, e ainda vejo aqui a assinatura<br \/>\nde suas filhas, n\u00e3o fa\u00e7amos nada sem consult\u00e1-las&#8230;<br \/>\nPus-me a caminho e eis-me aqui.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Muito lhe agradecemos.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; N\u00e3o h\u00e1 de qu\u00ea.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; \u00c9s um excelente rapaz.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Obrigado. Mas ent\u00e3o, que querem que eu fa\u00e7a? D\u00e1-se<br \/>\nandamento aos pap\u00e9is, ou n\u00e3o?<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Responde tu Virg\u00ednia.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; E por que n\u00e3o respondes tu?<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Ah, j\u00e1 sei! Nenhuma quer responder, para ao depois n\u00e3o<br \/>\nter do que se arrepender. Pois decidirei eu.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Ainda bem. Sempre te conheci com resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; N\u00e3o d\u00ea andamento a esses pap\u00e9is.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; E por que?<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Porque bem depressa se arrepender\u00e3o. Falemos claramente;<br \/>\nvoc\u00eas ainda conservam esperan\u00e7as&#8230;<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; E quem te disse?<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Isso n\u00e3o \u00e9 preciso que se diga; adivinha-se.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Pois bem, sejamos sinceras. Sr. Jeremias, n\u00f3s ainda amamos<br \/>\nos nossos ingratos, e nem poderemos esquecer-nos que por eles fugimos desta<br \/>\ncasa, e que para eles vivemos dois meses&#8230; N\u00f3s, mulheres, n\u00e3o<br \/>\nsomos como os senhores; o nosso amor \u00e9 mais constante e resiste mais<br \/>\ntempo.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Est\u00e1s ouvindo?<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Mas em compensa\u00e7\u00e3o, somos vingativas. Os nossos<br \/>\ncaros ex-maridos h\u00e3o de primeiro pagar com usura o que sofremos, se<br \/>\nquiserem ser perdoados. H\u00e3o de se curvar como n\u00f3s nos curvamos,<br \/>\ne obedecerem \u00e0 nossa voz com humildade&#8230; Assim, talvez, nos dignemos<br \/>\nperdo\u00e1-los.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Brav\u00edssimo! Vou fazer com estes pap\u00e9is o que fazem<br \/>\ntodos os procuradores, meus colegas &#8211; dormir no caso&#8230;<\/p>\n<h2>CENA VII<\/h2>\n<p>Entra Bolingbrok com dois grandes sambur\u00e1s pendurados nos bra\u00e7os,<br \/>\ncheios de hortali\u00e7as e frutas. Segue-o John com uma empada em uma m\u00e3o<br \/>\ne um p\u00e3o-de-l\u00f3 na outra.<\/p>\n<p>BOLINGBROK, entrando &#8211; Est\u00e1 alface e repolha, Miss.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Oh, muito bem.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; E a empada e p\u00e3o-de-l\u00f3.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Andaram diligentes.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Para ser agrad\u00e1vel a v\u00f3s.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; D\u00e1 c\u00e1 a empada.<\/p>\n<p>JEREMIAS, ao mesmo tempo &#8211; D\u00e1 c\u00e1 um sambur\u00e1.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Jeremias est\u00e1 aqui!<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Yes, my dear, d\u00e1 sambur\u00e1 a mim. Oh, homem, compraste<br \/>\no mercado inteiro? (Depositam tudo sobre a mesa.)<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Para faze salada. (Indo para Clarisse:) Miss est\u00e1 contente?<\/p>\n<p>CLARISSE, reprimindo o riso &#8211; Muito.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Mim ent\u00e3o est\u00e1 muito satisfeita.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Tratemos do mais.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Querem ainda outra empada?<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Mais repolha e nabas?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; N\u00e3o, mas enquanto vamos l\u00e1 dentro ver em<br \/>\nque estado est\u00e1 o jantar, aqui est\u00e1 a mesa, e naquele guarda-pratos<br \/>\ntudo o que \u00e9 necess\u00e1rio para ela.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; E os senhores ter\u00e3o a bondade de arranjarem isto.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Eu bota mesa? Oh!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Querem que preparemos a mesa?<\/p>\n<p>BOLINGBROK, \u00e0 parte &#8211; Oh, este \u00e9 muito! (Alto:) Mim n\u00e3o<br \/>\nsabe faz dom\u00e9stico; n\u00e3o quer.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Ah, n\u00e3o quer? Est\u00e1 bem. (Mostrando-se zangada.)<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Pelo contr\u00e1rio, aceitamos o encargo com muito prazer. (Para<br \/>\nBolingbrok:) Cala-te, que botas tudo a perder. (Alto:) N\u00e3o \u00e9<br \/>\nverdade Bolingbrok, que temos nisso muito prazer?<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Oh, yes. ( parte:) Goddam! (Esfor\u00e7ando-se para rir:)<br \/>\nEst\u00e1 contente bota mesa para n\u00f3s janta; muito bom, est\u00e1<br \/>\nsatisfeita, muito&#8230; ( parte, raivoso:) Goddam!<\/p>\n<p>CLARISSE, com ternura &#8211; E eu te agrade\u00e7o.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Te agrade\u00e7e? Oh, oh! (Muito alegre.)<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; M\u00e3os \u00e0 obra! Tirem a toalha e pratos.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Melhor ser\u00e1 que os senhores tirem primeiro as casacas;<br \/>\nassim n\u00e3o podem servir bem.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA, CLARISSE e HENRIQUETA &#8211; \u00c9 verdade!<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Mim n\u00e3o tira casaca!<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Tamb\u00e9m n\u00e3o pedimos nada coisa alguma que os senhores<br \/>\nfa\u00e7am de boa vontade! \u00c9 sempre de mau modo.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Eu tira. John, tira casaca. (Despem ambos as casacas. As tr\u00eas<br \/>\nriem-se \u00e0s escondidas.)<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Agora sim, parecem-se mesmo uns criados ingleses.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Henriqueta, vamos ver o jantar. J\u00e1 voltamos. (Saem<br \/>\nas tr\u00eas, rindo-se.)<\/p>\n<h2>CENA VIII<\/h2>\n<p>Bolingbrok, John e Jeremias.<\/p>\n<p>JEREMIAS, da extremidade direita da sala, observa, rindo-se, os dois, que<br \/>\nabrindo o guarda-prato, tiram dele toalhas, pratos, etc. &#8211; Eis a\u00ed est\u00e1<br \/>\ncomo se abate o orgulho. S\u00e3o meus amigos, e verdade, mas estimo muito<br \/>\nque isto lhes aconte\u00e7a. Oh, se pud\u00e9ssemos assim abater a proa<br \/>\na outros muitos inglismanes que eu conhe\u00e7o&#8230; (Alto:) John, p\u00f5e<br \/>\nesta mesa direito! Bolingbrok, adio, my dear, farewell&#8230; Good night. (Sai.)<\/p>\n<h2>CENA IX<\/h2>\n<p>Bolingbrok e John.<\/p>\n<p>JOHN, pondo a mesa &#8211; Ent\u00e3o, que me dizes a isto?<\/p>\n<p>BOLINGBROK, pondo a mesa &#8211; Eu est\u00e1 envergonhada. Quem dize que William<br \/>\nBolingbrok limpa pratas como uma cozinheiro, e carrega repolha e sambur\u00e1?<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Que queres? Com submiss\u00e3o e paci\u00eancia \u00e9 que as<br \/>\ntornaremos favor\u00e1veis&#8230; Cada vez a amo mais.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Eu tamb\u00e9m, John. As garfos fica aqui&#8230; Mim est\u00e1<br \/>\nmaluco por Clarisse.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Aqui governam elas; l\u00e1 govern\u00e1vamos n\u00f3s.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Yes. N\u00f3s est\u00e1 cativa aqui. Este \u00e9 desagrad\u00e1val,<br \/>\nmas est\u00e1 satisfeita de serve ela.<\/p>\n<h2>CENA X<\/h2>\n<p>Entram Virg\u00ednia, Clarisse e Henriqueta, apressadas.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA, entrando &#8211; Escondam-se!<\/p>\n<p>CLARISSE, entrando, ao mesmo tempo &#8211; Escondam-se!<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; E depressa!<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; O que \u00e9?<\/p>\n<p>JOHN, ao mesmo tempo &#8211; O que foi?<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Meu pai a\u00ed vem, e se aqui os encontra, estamos perdidas!<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Oh, que fazer?<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Escondam-se, escondam-se!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Mas onde? Onde?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Dentro daquelas pipas.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; \u00c9 verdade! Andem, andem! (As tr\u00eas empurram-nos para<br \/>\njunto das meias pipas. Henriqueta levanta a tampa de madeira que as cobre.)<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Entrem!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Oh, est\u00e3o com \u00e1gua!<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; \u00c9 tinta, John!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; E o que tem isso? Entrem!<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Por quem sois, entrai, sen\u00e3o morreremos!<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Entra, John.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Entrar? Mas a tinta?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; \u00c9 assim que nos amais?<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Peior \u00e9 a demora.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Meu John, compadece-te de mim!<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Meu Bolingbrok, s\u00f3 assim te perdoaremos, e tornarei a amar-te.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Entrem, entrem!<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; John, entra; elas torna ama a n\u00f3s. (Bolingbrok e John<br \/>\nentram nas pipas; as mo\u00e7as cobrem-nas com as tampas e, trepando sobre<br \/>\nela, dan\u00e7am e riem-se.)<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Ah, ah, ah, que belo ensino!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Agora sim, estamos vingadas!<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Quantas casadas conhe\u00e7o eu que invejam agora a nossa posi\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\n(Dan\u00e7a.)<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Est\u00e1 bom; n\u00e3o se demorem muito, que eles podem<br \/>\nmorrer.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA, saltando &#8211; Morrer? Isso n\u00e3o! Morto n\u00e3o me<br \/>\nserve de nada.<\/p>\n<p>CLARISSE, saltando &#8211; Para ensino, basta.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Sinto passos&#8230;<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Quem ser\u00e1?<\/p>\n<p>NARCISO, dentro &#8211; Diga que o espero.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; \u00c9 meu pai.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Oh, com esta n\u00e3o contava eu! Que faremos?<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Ora, eis a\u00ed est\u00e1! Voc\u00eas foram meter medo<br \/>\naos pobres ingleses com a vinda de seu pai, e ele chega sem ser esperado&#8230;<\/p>\n<h2>CENA XI<\/h2>\n<p>Narciso e as ditas.<\/p>\n<p>NARCISO, entrando &#8211; Ai, que estou estafado! Muito tenho andado (sentando-se),<br \/>\ne muito conseguido&#8230;<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Meu pai resolveu-se a jantar em casa?<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; Sim, estou com muitas dores de cabe\u00e7a, e o jantar fora incomodar-me-ia&#8230;<br \/>\nMas qu\u00ea? Esta mesa&#8230;<\/p>\n<p>HENRIQUETA, \u00e0 parte &#8211; Mau&#8230;<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; Tantos talheres?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Henriqueta e seu marido jantavam conosco.<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; Ah, est\u00e1 bom. Acrescentem mais dois talheres.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Para quem?<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; Para os amigos Serapi\u00e3o e Pantale\u00e3o.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Pois v\u00eam jantar conosco?<\/p>\n<p>SERAPI\u00c3O, dentro &#8211; D\u00e1 licen\u00e7a?<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; Ei-los. (Levantando-se:) Podem entrar. (Indo ao fundo.)<\/p>\n<p>CLARISSE, para Virg\u00ednia e Henriqueta &#8211; E ent\u00e3o?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; N\u00e3o sei no que isto dar\u00e1&#8230;<\/p>\n<h2>CENA XII<\/h2>\n<p>Serapi\u00e3o, Pantale\u00e3o e os ditos. Serapi\u00e3o e Pantale\u00e3o<br \/>\nvir\u00e3o vestidos como dois velhos que s\u00e3o, e muito est\u00fardios.<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; Sejam muito bem-vindos, meus caros amigos.<\/p>\n<p>CLARISSE, \u00e0 parte &#8211; Oh, que figuras!<\/p>\n<p>SERAPI\u00c3O &#8211; Deus esteja nesta casa.<\/p>\n<p>PANTALE\u00c3O &#8211; Humilde criado&#8230;<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; Entrem, entrem, meus caros amigos; aqui est\u00e3o elas. Hem?<br \/>\nQue vos parecem?<\/p>\n<p>SERAPI\u00c3O &#8211; Encantados!<\/p>\n<p>PANTALE\u00c3O &#8211; Belas como os amores!<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; Bravo, amigo Pantale\u00e3o, como estais expressivo! Meninas,<br \/>\nent\u00e3o? Cheguem-se para c\u00e1; \u00e9 dos senhores que eu h\u00e1<br \/>\npouco vos falava. (Aqui Bolingbrok e John levantam as tampas das pipas e observam.)<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Muita satisfa\u00e7\u00e3o tenho em conhecer ao Sr&#8230;.<\/p>\n<p>SERAPI\u00c3O &#8211; Serapi\u00e3o.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Serapi\u00e3o.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; E eu, o Sr&#8230;.<\/p>\n<p>PANTALE\u00c3O &#8211; Pantale\u00e3o.<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; Pantale\u00e3o.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Jib\u00f3ia!&#8230;<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; Virg\u00ednia, Clarisse, minhas caras filhas, dar-me-eis hoje<br \/>\na maior satisfa\u00e7\u00e3o com a vossa obedi\u00eancia. A estas horas,<br \/>\nsem d\u00favida, estar\u00e1 lan\u00e7ada a senten\u00e7a que anula<br \/>\no vosso primeiro casamento, e dentro de oito a quinze dias espero que estejais<br \/>\nunidas aos meus dignos amigos.<\/p>\n<p>SERAPI\u00c3O &#8211; Grande ser\u00e1 a nossa felicidade&#8230;<\/p>\n<p>PANTALE\u00c3O &#8211; E contentamento.<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; E j\u00e1 me tarda ver este neg\u00f3cio conclu\u00eddo,<br \/>\nporque, na verdade, ainda temo os tais inglesinhos.<\/p>\n<p>SERAPI\u00c3O &#8211; Que apare\u00e7am, e ver\u00e3o para quanto prestamos!<\/p>\n<p>PANTALE\u00c3O &#8211; Sim, sim, que apare\u00e7am! (Enquanto Serapi\u00e3o<br \/>\ne Pantale\u00e3o falam, Bolingbrok e John levantam das pipas e saltam fora.<br \/>\nSuas roupas, caras, m\u00e3os estar\u00e3o o mais completamente tintas<br \/>\nque for poss\u00edvel, isto \u00e9, Bolingbrok todo de azul e John de<br \/>\nvermelho. Atiram-se sobre Serapi\u00e3o e Pantale\u00e3o, que d\u00e3o<br \/>\ngritos, espavoridos.)<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Goddam! Goddam!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Aqui estamos!<\/p>\n<p>NARCISO, assustad\u00edssimo, corre para a porta do fundo, gritando &#8211; Ai,<br \/>\nai, \u00e9 o diabo, \u00e9 o diabo! (Jeremias, que entra nesse instante,<br \/>\nesbarra-se com ele e rolam ambos pelo ch\u00e3o. As tr\u00eas mo\u00e7as<br \/>\nrecuam para junto da porta da direita. Serapi\u00e3o e Pantale\u00e3o<br \/>\ncaem de joelhos, a tremerem. Bolingbrok e John gritam, enfurecidos.)<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Ah, tu quer casa, quer mulher a mim? Goddam!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Pensas que assim h\u00e1 de ser, velho do diabo?<\/p>\n<p>JEREMIAS, caindo &#8211; Que diabo \u00e9 isso?<\/p>\n<p>NARCISO, gritando &#8211; Ai, ai! (Levanta-se, quer fugir; Jeremias o ret\u00e9m.)<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Espere! Aonde vai?<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; Deixe-me, deixe-me! (Bolinbrok e John a este tempo t\u00eam deixado<br \/>\nSerapi\u00e3o e Pantale\u00e3o ca\u00eddos no ch\u00e3o; dirigem-se<br \/>\npara Virg\u00ednia e Clarisse.)<\/p>\n<p>JOHN, abra\u00e7ando Virg\u00ednia &#8211; N\u00e3o te deixarei mais!<\/p>\n<p>BOLINGBROK, ao mesmo tempo, abra\u00e7ando Clarisse &#8211; Mim n\u00e3o deixa<br \/>\nmais v\u00f3s.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; Ai!<\/p>\n<p>CLARISSE, ao mesmo tempo &#8211; Ai!<\/p>\n<p>HENRIQUETA, indo para Narciso &#8211; Senhor Narciso, N\u00e3o se assuste!<\/p>\n<p>JEREMIAS, puxando para frente &#8211; Venha c\u00e1.<\/p>\n<p>JOHN, abra\u00e7ado com Virg\u00ednia &#8211; Matar-me-\u00e3o junto de ti,<br \/>\nmas eu n\u00e3o te deixarei&#8230; N\u00e3o, n\u00e3o, Virg\u00ednia.<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; N\u00e3o me suje de tinta!<\/p>\n<p>BOLINGBROK, abra\u00e7ado com Clarisse &#8211; Esfola a mim, mas eu n\u00e3o<br \/>\nlarga a v\u00f3s! No, no!<\/p>\n<p>JEREMIAS, que a este tempo tem obrigado Narciso a aproximar-se dos ingleses<br \/>\n&#8211; Est\u00e1 vendo? S\u00e3o os primeiros maridos de suas filhas.<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Os ingleses.<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; Os ingleses? (Enfurecido, para os dois:) Ingleses do diabo, goddams<br \/>\nde mil diabos, que fazem em minha casa? Larguem minhas filhas, ou eu sou capaz<br \/>\nde&#8230; (Bolingbrok e John deixam as mulheres e atiram-se sobre Narciso e seguram-no.)<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Maldito velho!<\/p>\n<p>BOLINGBROK, ao mesmo tempo &#8211; Velho macaco!<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; Ai, deixem-me!<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; John! Bolingbrok!<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Quero minha mulher!<\/p>\n<p>BOLINGBROK, ao mesmo tempo &#8211; Minha mulher, macaco!<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; Diabos, diabos!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA, para John &#8211; Deixe meu pai!<\/p>\n<p>CLARISSE, para Bolingbrok &#8211; Largue! Largue! (Ambas, ajudadas por Jeremias<br \/>\ne Henriqueta, puxam os ingleses, que se mostram enfurecidos contra Narciso.<br \/>\nNeste tempo, Serapi\u00e3o e Pantale\u00e3o est\u00e3o de p\u00e9,<br \/>\nolhando muito para o que se passa.)<\/p>\n<p>NARCISO, vendo-se livre dos ingleses &#8211; Haveis de pagar-me, ingleses do inferno!<br \/>\nPatifes!<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Larga a mim, Jeremias; quer dar soco&#8230;<\/p>\n<p>NARCISO, para Serapi\u00e3o e Pantale\u00e3o &#8211; Amigos, ide chamar meirinhos,<br \/>\nsoldados, a justi\u00e7a, para prender estes dois tratantes quie desencaminharam<br \/>\nminhas filhas.<\/p>\n<p>JOHN, sempre seguro &#8211; Virg\u00ednia \u00e9 minha mulher!<\/p>\n<p>BOLINGBROK, sempre seguro &#8211; Clarisse \u00e9 mulher a mim!<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; Isso veremos! O casamento est\u00e1 anulado. A senten\u00e7a<br \/>\na estas horas estar\u00e1 lavrada.<\/p>\n<p>JEREMIAS, adiantando-se &#8211; Ainda n\u00e3o est\u00e1.<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; O qu\u00ea?&#8230;<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; O procurador de Vossa Senhoria, o Sr. Moreira, por ter muito o<br \/>\nque fazer, entregou-me os autos em que se tratava de cancelar o casamento<br \/>\nde suas filhas, para eu dar andamento a eles. Deixei um instante sobre a minha<br \/>\nmesa e os meus pequenos o puseram neste estado&#8230; (Assim dizendo, tira da<br \/>\nalgibeira da casaca uma grande por\u00e7\u00e3o de papel cortado em tiras<br \/>\nestreitas.)<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; Oh! (Tomando algumas tiras de papel e examinando-as:) Oh, \u00e9<br \/>\na minha letra! A assinatura&#8230; N\u00e3o tem d\u00favida! (Para Jeremias:)<br \/>\nQue fizeste? (Bolingbrok e John abra\u00e7am Jeremias.)<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Meu amigo!<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Minha amigo! (Ao mesmo tempo.)<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; N\u00e3o me afoguem!<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; Vou me queixar ao Ministro ingl\u00eas, vou me queixar ao Governo<br \/>\ndesta imposi\u00e7\u00e3o inglesa. (Para Serapi\u00e3o e Pantale\u00e3o:)<br \/>\nVamos, amigos!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA, correndo para ele, e lan\u00e7ando-se-lhe aos p\u00e9s<br \/>\n&#8211; Meu pai!<\/p>\n<p>CLARISSE, no mesmo, ao mesmo tempo &#8211; Meu pai!<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; O que \u00e9 l\u00e1 isso?<\/p>\n<p>VIRG\u00cdNIA &#8211; John ainda me ama.<\/p>\n<p>CLARISSE, ao mesmo tempo tempo &#8211; Bolingbrok ainda me ama.<\/p>\n<p>JOHN e BOLINGBROK &#8211; Yes!<\/p>\n<p>CLARISSE &#8211; E estar\u00e1 pronto a sujeitar-se a todas as cerim\u00f4nias<br \/>\nreligiosas que tornem o nosso casamento leg\u00edtimo.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Eu estou pronto para tudo.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Yes, pronta.<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Meu caro senhor Narciso, a isto n\u00e3o se pode o senhor se<br \/>\nopor; elas querem&#8230; (Bolingbrok e John abra\u00e7am Jeremias.)<\/p>\n<p>CLARISSE e VIRG\u00cdNIA &#8211; Meu pai, eu ainda o amo.<\/p>\n<p>NARCISO &#8211; Levantai-vos. (As duas levantam-se.) Bem sei que sem o vosso consentimento<br \/>\nn\u00e3o poderei anular o casamento. Senhores, depois que estiverdes legitimamente<br \/>\ncasados, poderei levar vossas mulheres.<\/p>\n<p>JOHN, abra\u00e7ando Virg\u00ednia &#8211; Minha Virg\u00ednia!<\/p>\n<p>BOLINGBROK, abra\u00e7ando Clarisse, ao mesmo tempo &#8211; My Clarisse!<\/p>\n<p>NARCISO, para Serapi\u00e3o e Pantale\u00e3o &#8211; Perdoai-me, meus amigos.<\/p>\n<p>JOHN &#8211; Jeremias ser\u00e1 nosso sociado.<\/p>\n<p>BOLINGBROK &#8211; Yes, ser\u00e1 nosso sociado!<\/p>\n<p>JEREMIAS &#8211; Oh, eu vou fazer fortuna, minha Henriqueta! (Abra\u00e7a-a.)<\/p>\n<p>HENRIQUETA &#8211; Iremos para a Bahia e seremos todos&#8230;<\/p>\n<p>JOHN, BOLINGBROK, VIRG\u00cdNIA, CLARISSE, JEREMIAS e HENRIQUETA &#8211; Felizes!<\/p>\n<p>NARCISO, SERAPI\u00c3O e PANTALE\u00c3O, ao mesmo tempo &#8211; Logrados!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Ato Primeiro Ato Segundo Ato Terceiro &nbsp; Martins Pena Ato Primeiro A cena se passa, o primeiro ato, em Paquet\u00e1; o segundo, na Bahia, e o terceiro, no Rio de Janeiro. O teatro representa o Campo de S\u00e3o Roque, em Paquet\u00e1. 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