{"id":114007,"date":"2017-03-16T22:12:45","date_gmt":"2017-03-17T00:12:45","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=114007"},"modified":"2017-03-16T22:12:45","modified_gmt":"2017-03-17T00:12:45","slug":"astucias-de-marido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/astucias-de-marido","title":{"rendered":"Ast\u00facias de Marido"},"content":{"rendered":"<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p><strong>I<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o me admira, dizia um poeta antigo, que um homem case uma vez; admira-me que, depois de vi\u00favo, torne a casar. Valentim Barbosa achava-se ainda no primeiro caso e j\u00e1 compartia a admira\u00e7\u00e3o do poeta pelos que se casavam duas vezes.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 que a mulher dele fosse um drag\u00e3o ou uma f\u00faria, uma mulher como a de S\u00f3crates; ao contr\u00e1rio, Clarinha era meiga, d\u00f3cil e submissa, como uma rola; nunca abrira os l\u00e1bios para exprobrar ao marido uma express\u00e3o ou um gesto. Mas que faria ent\u00e3o a desgra\u00e7a de Valentim? \u00c9 o que eu vou dizer aos que tiverem a paci\u00eancia de ler esta hist\u00f3ria at\u00e9 o fim.<\/p>\n<p>Valentim fora apresentado em casa de Clarinha pelo correspondente de seu pai no Rio de Janeiro. Era um rapaz de vinte e oito anos, formado em direito, mas suficientemente rico para n\u00e3o usar do t\u00edtulo como meio de vida.<\/p>\n<p>Era um belo rapaz, no sentido mais elevado da palavra. Adquirira nos campos riograndenses uma robustez que lhe ia bem com a beleza m\u00e1scula. Tinha tudo quanto podia seduzir uma donzela: uma beleza varonil e uma gra\u00e7a de cavaleiro. Tinha tudo quanto podia seduzir um pai de fam\u00edlia: nome e fortuna.<\/p>\n<p>Clarinha era ent\u00e3o uma interessante menina, cheia de gra\u00e7as e prendas. Era alta e magra, n\u00e3o da magreza m\u00f3rbida, mas da magreza natural, po\u00e9tica, fascinante; era dessas mulheres que inspiram o amor de longe e de joelhos t\u00e3o imposs\u00edvel parece que se lhes possa tocar sem profana\u00e7\u00e3o. Tinha um olhar l\u00edmpido e uma fisionomia insinuante.<\/p>\n<p>Cantava e tocava piano, com a inspira\u00e7\u00e3o de uma musa.<\/p>\n<p>A primeira vez que Valentim a viu, Clarinha sa\u00eda da cama, onde a detivera, durante um m\u00eas, uma febre intermitente. Um rosto p\u00e1lido e uns olhos m\u00f3rbidos deixaram logo o advogado sem saber de si, o que prova que n\u00e3o havia nele uma alma de lorpa.<\/p>\n<p>Clarinha n\u00e3o se inspirou de nada; gostava do rapaz, como o rapaz gostara de outras mulheres; achou-o bonito; mas n\u00e3o sentiu amor por ele.<\/p>\n<p>Valentim n\u00e3o teve tempo nem for\u00e7a para analisar a situa\u00e7\u00e3o. Ficou abalado pela menina e decidiu-se a apresentar-lhe as suas homenagens. N\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que tome mais facilmente intimidade do que um namorado. Valentim, aos primeiros oferecimentos do pai de Clarinha, n\u00e3o hesitou; volveu \u00e0 casa da mo\u00e7a e tornou-se o mais ass\u00edduo freq\u00fcentador.<\/p>\n<p>Valentim conhecia a vida; metade por ci\u00eancia, metade por intui\u00e7\u00e3o. Tinha lido o Tratado de paz com os homens, de Nicole, e reteve estas duas condi\u00e7\u00f5es a que o fil\u00f3sofo de Port Royal reduz o seu sistema: n\u00e3o opor-se \u00e0s paix\u00f5es, n\u00e3o contrariar as opini\u00f5es. O pai de Clarinha era doido pelo xadrez e n\u00e3o via salva\u00e7\u00e3o fora do partido conservador; Valentim fustigava os liberais e acompanhava o velho na estrat\u00e9gia do rei e dos elefantes. Uma tia da mo\u00e7a detestava o imp\u00e9rio e a constitui\u00e7\u00e3o, chorava pelos minuetos da corte e ia sempre resmungando ao teatro l\u00edrico; Valentim contrafazia-se no teatro, dan\u00e7ava a custo uma quadrilha e tecia loas ao regime absoluto. Enfim, um primo de Clarinha mostrava-se ardente liberal e amigo das polcas; Valentim n\u00e3o via nada que valesse uma polca e um artigo do programa liberal.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a este sistema era amigo de todos e tinha seguro o bom agasalho.<\/p>\n<p>Mas daqui resultavam algumas cenas divertidas.<\/p>\n<p>Por exemplo, o velho surpreendia \u00e0s vezes uma conversa entre Ernesto (o sobrinho) e Valentim a respeito de pol\u00edtica: ambos coroavam a liberdade.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9 isso, meu caro? Ent\u00e3o segue as opini\u00f5es escaldadas de Ernesto? \u2014 Ah! respondia Valentim.<\/p>\n<p>\u2014 Dar-se-\u00e1 caso que tamb\u00e9m perten\u00e7a ao partido liberal? \u2014 Sou, mas n\u00e3o sou&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Como assim? perguntava Ernesto.<\/p>\n<p>\u2014 Quero dizer, n\u00e3o sou mas sou&#8230;<\/p>\n<p>Aqui Valentim tomava a palavra e fazia um longo discurso t\u00e3o bem deduzido que contentava as duas opini\u00f5es. Dizem que \u00e9 isto uma qualidade para ser ministro.<\/p>\n<p>Outras vezes era a tia quem o surpreendia no campo contr\u00e1rio, mas a habilidade de Valentim triunfava sempre.<\/p>\n<p>Deste modo, concordando em tudo, nas opini\u00f5es como nas paix\u00f5es \u2014 apesar das pesadas obriga\u00e7\u00f5es de jogar o xadrez e ouvir a velha e as hist\u00f3rias do outro tempo \u2014, Valentim conseguiu na casa de Clarinha uma posi\u00e7\u00e3o proeminente. Sua opini\u00e3o tornou-se decisiva em tudo quanto concernia aos projetos do velho pai. Baile onde n\u00e3o fosse Valentim n\u00e3o ia a fam\u00edlia. Dia em que este n\u00e3o fosse visit\u00e1-la podia dizer-se que corria mal.<\/p>\n<p>Mas o amor caminhava ao lado da intimidade, e at\u00e9 por causa da intimidade. Cada dia trazia a Valentim a descoberta de uma nova prenda no objeto do seu culto. A mo\u00e7a estava na mesma situa\u00e7\u00e3o do primeiro dia, mas era t\u00e3o am\u00e1vel, t\u00e3o doce, t\u00e3o delicada, que Valentim, tomando a nuvem por Juno, chegou a acreditar que era amado. Talvez mesmo Clarinha n\u00e3o fosse completamente ing\u00eanua no engano em que fazia cair Valentim. Um olhar e uma palavra n\u00e3o custa, e \u00e9 t\u00e3o bom alargar o c\u00edrculo dos adoradores! O pai de Clarinha descobriu o amor de Valentim e aprovou-o logo antes da declara\u00e7\u00e3o oficial. Aconteceu o mesmo \u00e0 tia. S\u00f3 o primo, apenas desconfiou, declarou-se interiormente em oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para que encobri-lo mais? N\u00e3o sou romancista que me alegre com as torturas do leitor, pousando, como o abutre de Prometeu, no f\u00edgado da paci\u00eancia sempre renascente. Direi as coisas como elas s\u00e3o: Clarinha e Ernesto amavam-se.<\/p>\n<p>N\u00e3o era recente esse amor: datava de dois anos. De tr\u00eas em tr\u00eas meses Ernesto pedia ao velho a m\u00e3o da prima, e o velho recusava-lhe dizendo que n\u00e3o dava a filha a quem n\u00e3o tinha eira nem beira. O mo\u00e7o n\u00e3o p\u00f4de arranjar um emprego, apesar de todos os esfor\u00e7os; mas no fim do per\u00edodo regular de tr\u00eas meses voltava \u00e0 carga para receber a mesma recusa.<\/p>\n<p>A \u00faltima vez que Ernesto renovou o pedido, o pai de Clarinha respondeu que se lhe ouvisse mais falar nisso fechava-lhe a porta. Proibiu \u00e0 filha que falasse ao primo, e comunicou tudo \u00e0 irm\u00e3, que julgou oportuna a ocasi\u00e3o para obrig\u00e1-lo a suspender a assinatura do teatro l\u00edrico.<\/p>\n<p>Ir \u00e0 casa de Clarinha sem poder falar-lhe era cruel para o jovem Ernesto. Ernesto, portanto, retirou-se amigavelmente. No fim de algum tempo voltou declarando estar curado. Pede a fidelidade que manifeste neste ponto ser a declara\u00e7\u00e3o de Ernesto a mais s\u00e9ria do mundo. O pai acreditou, e tudo voltou ao seu antigo estado; sim, ao seu antigo estado, digo bem, porque o amor que Ernesto cuidara extinto reviveu \u00e0 vista da prima.<\/p>\n<p>Quanto a esta, ausente ou presente, nunca esqueceu o amante. Mas a vigil\u00e2ncia prudente do pai p\u00f4s os nossos dois her\u00f3is de sobreaviso, e ambos passaram a amar em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Foi pouco depois disto que apareceu Valentim em casa de Clarinha.<\/p>\n<p>Aqui devo eu fazer notar aos leitores desta hist\u00f3ria, como ela vai seguindo suave e honestamente, e como os meus personagens se parecem com todos os personagens de romance: um velho man\u00edaco; uma velha impertinente, e amante plat\u00f4nica do passado; uma mo\u00e7a bonita apaixonada por um primo, que eu tive o cuidado de fazer pobre para dar-lhe maior relevo, sem todavia decidir-me a faz\u00ea-lo poeta, em virtude de acontecimentos que se h\u00e3o de seguir; um pretendente rico e elegante, cujo amor \u00e9 aceito pelo pai, mas rejeitado pela mo\u00e7a; enfim, os dois amantes \u00e0 borda de um abismo condenados a n\u00e3o verem coroados os seus leg\u00edtimos desejos, e ao fundo do quadro um horizonte enegrecido de d\u00favidas e de receios.<\/p>\n<p>Depois disto, duvido que um s\u00f3 dos meus leitores n\u00e3o me acompanhe at\u00e9 o fim desta hist\u00f3ria, que, apesar de t\u00e3o comum ao princ\u00edpio, vai ter alguma coisa de original l\u00e1 para o meio. Mas como conv\u00e9m que n\u00e3o v\u00e1 tudo de uma assentada, eu dou algum tempo para que o leitor acenda um charuto, e entro ent\u00e3o no segundo cap\u00edtulo.<\/p>\n<p><strong>II<\/strong><\/p>\n<p>Se o leitor j\u00e1 amou imagine qual n\u00e3o seria o desespero de Ernesto, descobrindo um rival em Valentim. A primeira pergunta que o pobre namorado fez a si mesmo foi esta: \u2014 Ama-lo-\u00e1 ela? Para responder a esta pergunta Ernesto preparou-se a averiguar o estado do cora\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o o fez sem algum despeito. Um sentimento interior dizia-lhe que Valentim lhe era superior, e nesse caso suspeitava o pobre rapaz que o triunfo coubesse ao rival intruso.<\/p>\n<p>Neste estado fez as suas primeiras indaga\u00e7\u00f5es. Ou fosse c\u00e1lculo, ou natural sentimento, Clarinha, \u00e0s primeiras interroga\u00e7\u00f5es de Ernesto, mostrou que era insens\u00edvel ao afeto de Valentim. N\u00f3s podemos saber que era c\u00e1lculo, apesar de me servir este ponto para eu atormentar um bocado os meus leitores. Mas Ernesto viveu na d\u00favida durante alguns dias.<\/p>\n<p>Um dia, por\u00e9m, convenceu-se de que Clarinha continuava a am\u00e1-lo como dantes, e que portanto o iludido era Valentim. Para chegar a esta convic\u00e7\u00e3o lan\u00e7ou m\u00e3o de um estratagema: declarou que se ia matar.<\/p>\n<p>A pobre mo\u00e7a quase chorou l\u00e1grimas de sangue. E Ernesto, que tinha tanta vontade de morrer como eu, apesar de amar doidamente a prima, pediu-lhe que jurasse que nunca amaria outro. A mo\u00e7a jurou. Ernesto quase morreu de alegria, e pela primeira vez, apesar de serem primos, p\u00f4de selar a sua paix\u00e3o com um beijo de fogo, longo, mas inocente.<\/p>\n<p>Entretanto, Valentim embalava-se nas mais enganadoras esperan\u00e7as. Cada gesto da mo\u00e7a (e ela os fazia por garridice) parecia-lhe a promessa mais decisiva. Todavia, nunca Valentim alcan\u00e7ara um momento que lhe permitisse fazer uma declara\u00e7\u00e3o positiva \u00e0 mo\u00e7a. Ela sabia at\u00e9 onde convinha ir e n\u00e3o dava um passo adiante.<\/p>\n<p>Nesta luta \u00edntima e secreta passaram-se muitos dias. Um dia entrou, n\u00e3o sei como, na cabe\u00e7a de Valentim que devia sem pr\u00e9via autoriza\u00e7\u00e3o pedir ao velho a m\u00e3o de Clarinha.<\/p>\n<p>Acreditando-se amado, mas supondo que a ingenuidade da pequena era igual \u00e0 beleza, Valentim julgou que tudo dependia daquele passo extremo.<\/p>\n<p>O velho, que aguardava aquilo mesmo, armado de um sorriso ben\u00e9volo, como um ca\u00e7ador armado da espingarda \u00e0 espera da on\u00e7a, apenas Valentim fez-lhe o pedido da m\u00e3o da filha, declarou que aceitava a honra que o mo\u00e7o lhe fazia, e prometeu-lhe, nadando em j\u00fabilo, que Clarinha aceitaria do mesmo modo.<\/p>\n<p>Consultada particularmente acerca do pedido de Valentim, Clarinha n\u00e3o hesitou um momento: recusou. Foi um esc\u00e2ndalo dom\u00e9stico. Interveio a tia, munida de dois conselhos e dois axiomas, para convencer a rapariga de que devia aceitar a m\u00e3o do rapaz. O velho assumiu as propor\u00e7\u00f5es de semideus e atroava a casa; finalmente Ernesto exasperado prorrompeu em protestos en\u00e9rgicos, sem poupar alguns adjetivos mais ou menos desairosos para a autoridade paternal.<\/p>\n<p>Do que resultou ser o rapaz expulso de casa pela segunda vez, e ficar assentado de pedra e cal que Clarinha casaria com Valentim.<\/p>\n<p>Quando Valentim foi de novo saber do resultado do pedido, o velho afirmou-lhe que Clarinha consentia em aceit\u00e1-lo por marido. Valentim manifestou logo um desejo leg\u00edtimo de falar \u00e0 noiva, mas o futuro sogro respondeu-lhe que ela se achava meio incomodada.<\/p>\n<p>O inc\u00f4modo era nem mais nem menos resultante das cenas a que dera lugar o pedido de casamento.<\/p>\n<p>O velho contava com a docilidade de Clarinha, e n\u00e3o se iludia. A pobre menina, antes de tudo, acatava o pai e recebia as ordens dele como se foram artigos de f\u00e9. Passada a primeira como\u00e7\u00e3o, teve de resignar-se a aceitar a m\u00e3o de Valentim.<\/p>\n<p>O leitor, que ainda anda \u00e0 procura das ast\u00facias do marido, sem que ainda tenha visto nem marido, nem ast\u00facias, ao chegar a este ponto exclama naturalmente: \u2014 Ora, gra\u00e7as a Deus! j\u00e1 temos um marido.<\/p>\n<p>E eu, para furtar-me \u00e0 obriga\u00e7\u00e3o de narrar o casamento e a lua-de mel, passo a escrever o terceiro cap\u00edtulo.<\/p>\n<p><strong>III<\/strong><\/p>\n<p>Lua-de-mel! H\u00e1 sempre uma lua-de-mel em todos os casamentos, n\u00e3o a houve no casamento de Valentim. O pobre noivo viu na reserva de Clarinha um acanhamento natural do estado em que ia entrar; mas desde que, passados os primeiros dias, a mo\u00e7a n\u00e3o sa\u00eda do mesmo prop\u00f3sito, Valentim concluiu que havia enguia na erva.<\/p>\n<p>O autor desta novela n\u00e3o se viu ainda em situa\u00e7\u00e3o igual, nem tamb\u00e9m caiu num po\u00e7o de cabe\u00e7a para baixo, mas acredita que a impress\u00e3o deve ser absolutamente a mesma.<\/p>\n<p>Valentim fez o seguinte racioc\u00ednio: \u2014 Se Clarinha n\u00e3o me ama \u00e9 que ama algu\u00e9m; esse algu\u00e9m talvez n\u00e3o me valha, mas tem sobre mim a grande vantagem de ser preferido. Ora, esse algu\u00e9m quem \u00e9? Desde ent\u00e3o a quest\u00e3o de Otelo entrou no esp\u00edrito de Valentim e fez cama a\u00ed: ser ou n\u00e3o ser amado, tal era o problema do infeliz marido.<\/p>\n<p>Amar uma mulher mo\u00e7a, bela, ador\u00e1vel e adorada; ter a subida gl\u00f3ria de possu\u00ed-la de poucos dias, \u00e0 face da Igreja, \u00e0 face da sociedade; viver por ela e para ela; mas ter ao mesmo tempo a certeza de que diante de si n\u00e3o existe mais do que o corpo frio e insens\u00edvel, e que a alma vagueia em busca da alma do outro; transformar-se ele, noivo e amante, em objeto de luxo, em simples pessoa oficial, sem um elo do cora\u00e7\u00e3o, sem uma centelha de amor que lhe d\u00ea a posse inteira daquela que ama, tal era a miseranda e dolorosa situa\u00e7\u00e3o de Valentim.<\/p>\n<p>Como homem de esp\u00edrito e de cora\u00e7\u00e3o, o rapaz compreendeu a sua situa\u00e7\u00e3o. Neg\u00e1-la era absurdo, confess\u00e1-la no interior era ganhar metade do caminho, porque era saber o terreno que pisava. Valentim n\u00e3o se deteve em suposi\u00e7\u00f5es v\u00e3s; assegurou-se da verdade e tratou de descobri-la.<\/p>\n<p>Mas como? Perguntar \u00e0 pr\u00f3pria Clarinha, era inaugurar o casamento por uma desconsidera\u00e7\u00e3o, e qualquer que fosse o direito que tivesse de resgatar o cora\u00e7\u00e3o da mulher, Valentim n\u00e3o queria desprestigi\u00e1-la aos seus pr\u00f3prios olhos. Restava a pesquisa.<\/p>\n<p>Mas de que modo exerc\u00ea-la? \u00c0 casa dele n\u00e3o ia ningu\u00e9m; e demais, se alguma coisa havia, devera ter come\u00e7ado em casa do pai. Interrogar o pai seria assisado? Valentim desistiu de toda a investiga\u00e7\u00e3o do passado e disp\u00f4s-se simplesmente a analisar o presente.<\/p>\n<p>A reserva de Clarinha n\u00e3o era uma dessas reservas que levam o desespero ao fundo do cora\u00e7\u00e3o; era uma reserva d\u00f3cil e submissa. E era exatamente isso o que feria o despeito e a vaidade de Valentim. A submiss\u00e3o de Clarinha parecia a resigna\u00e7\u00e3o do condenado \u00e0 morte. Valentim via nessa resigna\u00e7\u00e3o um protesto mudo contra ele; cada olhar da mo\u00e7a parecia-lhe anunciar um remorso.<\/p>\n<p>Uma tarde&#8230;<\/p>\n<p>O leitor h\u00e1 de ter achado muito singular que eu n\u00e3o tenha marcado nesta novela os lugares em que se passam as diversas cenas de que ela se comp\u00f5e. \u00c9 de prop\u00f3sito que fa\u00e7o: limitei-me a dizer que a a\u00e7\u00e3o se passava no Rio de Janeiro. Fica \u00e0 vontade do leitor marcar as ruas e at\u00e9 as casas.<\/p>\n<p>Uma tarde, Valentim e Clarinha achavam-se no jardim. Se se amassem igualmente estariam \u00e0quela hora num verdadeiro c\u00e9u; o sol parecia ter guardado um dos seus melhores ocasos para aquela tarde. Mas os dois esposos pareciam apenas dois conhecidos que por acaso se haviam encontrado num hotel; ela por uma reserva natural e que tinha explica\u00e7\u00e3o no amor de Ernesto, ele por uma reserva estudada, filha do ci\u00fame e do despeito.<\/p>\n<p>O sol morria numa das suas melhores mortes; uma aragem fresca agitava mansamente as folhas dos arbustos e trazia ao lugar onde se achavam os dois esposos o doce aroma das ac\u00e1cias e das magn\u00f3lias.<\/p>\n<p>Os dois estavam assentados em bancos de junco, colocados sobre um ch\u00e3o de relva; uma esp\u00e9cie de parede composta de trepadeiras formava por assim dizer o fundo do quadro. Perto ouvia-se o murm\u00fario de um regato que atravessava a ch\u00e1cara. Finalmente duas rolas brincavam a dez passos do ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, a cena pedia uma conversa\u00e7\u00e3o adequada em que se falasse de amor, de esperan\u00e7as, de ilus\u00f5es, enfim, de tudo quanto pudesse varrer da mem\u00f3ria a boa prosa da vida.<\/p>\n<p>Mas em que conversavam os dois? A descri\u00e7\u00e3o fez-nos perder as primeiras palavras do di\u00e1logo; mal podemos pilhar uma interroga\u00e7\u00e3o de Valentim.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9s feliz? perguntou ele.<\/p>\n<p>\u2014 Sou, respondeu a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Como dizes isso! parece que respondes a uma interroga\u00e7\u00e3o da morte! Um triste sorriso passou pelos l\u00e1bios de Clarinha.<\/p>\n<p>Seguiu-se um breve sil\u00eancio, durante o qual Valentim considerava as botas e Clarinha analisava a barra do vestido.<\/p>\n<p>\u2014 Pois olha, n\u00e3o me falta vontade&#8230; disse Valentim.<\/p>\n<p>\u2014 Vontade de qu\u00ea? \u2014 De fazer-te feliz; \u2014 Ah! \u2014 Nem foi para outra coisa que eu te fui buscar \u00e0 casa de teu pai. Amo-te muito, mas se eu soubera que tu n\u00e3o correspondias com o mesmo amor desistiria do meu intento, porque para mim \u00e9 um duplo remorso ver o objeto de meu amor triste e desconsolado.<\/p>\n<p>\u2014 Parece-te isso! \u2014 E n\u00e3o \u00e9? \u2014 N\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>Clarinha procurou dar a esta \u00faltima resposta uma express\u00e3o da maior ternura; mas se ela tivesse pedido um copo d\u2019\u00e1gua teria empregado a mesm\u00edssima express\u00e3o.<\/p>\n<p>Valentim respondeu com um suspiro.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei como queres que eu te diga as coisas! \u2014 N\u00e3o quero nada; desde que eu te impusesse um modo de falar pode ser que eu me arrufasse menos, mas n\u00e3o era diversa a minha situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Clarinha levantou-se.<\/p>\n<p>\u2014 Anda passear.<\/p>\n<p>Valentim obedeceu, mas obedeceu maquinalmente.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, ainda est\u00e1s triste? \u2014 Ah! se tu me amasses, Clarinha! respondeu Valentim.<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o te &#8230; amo? Valentim olhou para ela e murmurou: \u2014 N\u00e3o! Valentim deu o bra\u00e7o a Clarinha e foram passear pelo jardim, dos mais bem arrumados e plantados da capital; a enxada, a tesoura e a simetria ajudavam ali o nascimento das rosas. A tarde ca\u00eda, o c\u00e9u tomava essa cor de chumbo que inspira tanta melancolia e convida a alma e o corpo ao repouso. Valentim parecia n\u00e3o ver nada disso; estava diante do seu tremendo infort\u00fanio.<\/p>\n<p>Clarinha, por seu lado, procurava distrair o marido, substituindo por algumas palavras de terno interesse o amor que lhe n\u00e3o tinha.<\/p>\n<p>Valentim respondia por monoss\u00edlabos ao princ\u00edpio; depois a conversa foi-se empenhando e ao cabo de meia hora j\u00e1 Valentim mostrava-se menos sombrio, Clarinha procurava por esse modo acalmar o esp\u00edrito do marido, quando ele insistia na conversa\u00e7\u00e3o que ouvimos h\u00e1 pouco.<\/p>\n<p>Uma coruja que acaba de cantar agora \u00e0 janela traz-me \u00e0 mem\u00f3ria que eu devia apresentar em cena neste momento a tia de Clarinha.<\/p>\n<p>Entra, portanto, a tia de Clarinha. Vem acompanhada de um moleque vestido de pajem. A mo\u00e7a vai lan\u00e7ar-se-lhe aos bra\u00e7os, e Valentim encaminha-se para ela com passo regular, para dar tempo \u00e0s efus\u00f5es de amizade. Mas aquele mesmo espet\u00e1culo da afei\u00e7\u00e3o que ligava a tia \u00e0 sobrinha, a espontaneidade com que esta correra a receber \u00e0quela, mais o entristecia, comparando o que Clarinha era h\u00e1 pouco e o que era agora.<\/p>\n<p>Findos os primeiros cumprimentos entraram todos em casa. A boa velha vinha passar oito dias com a sobrinha; Valentim fez um gesto de desgosto; mas a mo\u00e7a manifestou uma grande alegria com a visita da tia.<\/p>\n<p>Valentim retirou-se para o seu gabinete e deixou \u00e0s duas plena liberdade.<\/p>\n<p>\u00c0 mesa do ch\u00e1 falou-se de muita coisa; Clarinha indagava de tudo quanto era da casa do pai. Este devia vir no dia seguinte jantar com o genro.<\/p>\n<p>Valentim pouco falou.<\/p>\n<p>Mas l\u00e1 para o meio do ch\u00e1, Clarinha voltou-se para a tia e perguntou com certa timidez o que era feito de Ernesto. A mo\u00e7a procurou dar \u00e0 pergunta o tom mais inocente do mundo; mas t\u00e3o mal o fez que despertou a aten\u00e7\u00e3o do marido.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! respondeu a tia; est\u00e1 bom, isto \u00e9&#8230; est\u00e1 doente.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! de qu\u00ea? perguntou a mo\u00e7a empalidecendo.<\/p>\n<p>\u2014 De umas febres&#8230;<\/p>\n<p>Clarinha calou-se, p\u00e1lida como a morte.<\/p>\n<p>Valentim tinha os olhos fixos nela. Um sorriso, meio de satisfa\u00e7\u00e3o, meio de \u00f3dio, pairavalhe nos l\u00e1bios. Enfim o marido descobrira o segredo da reserva da mulher.<\/p>\n<p>Seguiu-se um longo sil\u00eancio da parte de ambos, s\u00f3 interrompido pelo palavreado da tia, que afinal, depois de fazer algumas perguntas aos dois sem obter resposta, decidiu-se a reclamar contra aquele sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014 Estamos ouvindo, minha tia, disse Valentim.<\/p>\n<p>E t\u00e3o significativas foram aquelas palavras, que Clarinha olhou para ele assustada.<\/p>\n<p>\u2014 Estamos ouvindo, repetiu Valentim.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! pois bem&#8230; Como ia dizendo&#8230;<\/p>\n<p>A conversa continuou at\u00e9 o fim do ch\u00e1. \u00c0s onze horas todos se recolheram aos seus aposentos. \u00c9 a melhor ocasi\u00e3o para terminar o terceiro cap\u00edtulo e deixar que o leitor acenda um novo charuto.<\/p>\n<p><strong>IV<\/strong><\/p>\n<p>A tia de Clarinha n\u00e3o se demorou oito dias em casa da sobrinha, demorou-se quinze dias.<\/p>\n<p>A boa velha estava encantada com o agasalho que encontrara a\u00ed.<\/p>\n<p>Durante esse tempo n\u00e3o houve incidente algum que interesse \u00e0 nossa hist\u00f3ria. O primeiro susto de Clarinha causado pelas palavras do marido desvaneceu-se \u00e0 vista do procedimento posterior dele, que pareceu nada haver descoberto. Com efeito, Valentim, como homem atilado que era, entendeu que lhe n\u00e3o cumpria provocar uma declara\u00e7\u00e3o da parte de Clarinha. Julgou melhor estudar a situa\u00e7\u00e3o e esperar os acontecimentos.<\/p>\n<p>Demais, ele nada tinha de positivo a alegar. Temia enganar-se e n\u00e3o se perdoaria nunca se fizesse a inj\u00faria de atribuir \u00e0 sua mulher um delito que n\u00e3o existia. Deste modo, nunca fez alus\u00e3o alguma nem mudou o procedimento; era o mesmo homem que no primeiro dia.<\/p>\n<p>Valentim pensava ainda que a afei\u00e7\u00e3o que ele supunha existir em Clarinha pelo primo, talvez n\u00e3o passasse de uma ligeira afei\u00e7\u00e3o da inf\u00e2ncia, pr\u00f3pria a desaparecer diante da id\u00e9ia do dever. \u00c9 verdade que isto anulava um pouco a sua pr\u00f3pria pessoa, mas Valentim, para que n\u00e3o ficasse s\u00f3 ao tempo e aos bons instintos da mo\u00e7a a mudan\u00e7a do estado das coisas, cuidou de ajudar a um e aos outros deitando na balan\u00e7a a sua pr\u00f3pria influ\u00eancia.<\/p>\n<p>Seu c\u00e1lculo foi este: ao passo que Ernesto perdesse no cora\u00e7\u00e3o de Clarinha, gra\u00e7as \u00e0 aus\u00eancia e nobreza dos sentimentos dela, ele Valentim procuraria ganhar a influ\u00eancia do outro e substitu\u00ed-lo no cora\u00e7\u00e3o em lit\u00edgio. Estavam as coisas neste p\u00e9, quando no q\u00fcinquag\u00e9simo dia apareceu em casa de Valentim&#8230; quem? o pr\u00f3prio Ernesto, meio enfermo ainda, cheio de uma palidez po\u00e9tica e fascinante.<\/p>\n<p>Clarinha recebeu-o no jardim, por cuja porta Ernesto entrou.<\/p>\n<p>Teve um movimento para abra\u00e7\u00e1-lo; mas recuou logo, corada e envergonhada. Baixou os olhos. Depois do casamento era a primeira vez que se viam. Ernesto aproximou-se para ela sem dizer palavra, e durante alguns minutos assim estiveram interditos, at\u00e9 que a tia veio p\u00f4r termo ao embara\u00e7o, entrando no jardim.<\/p>\n<p>Mas, ao mesmo tempo que aquela cena se dava, Valentim, atrav\u00e9s dos vidros de uma das janelas da sala de jantar, tinha os olhos pregados em Clarinha e Ernesto. Viu tudo, o movimento dela quando Ernesto entrou e o movimento de reserva que se seguiu a esse.<\/p>\n<p>Quando a velha entrou Valentim desceu ao jardim.<\/p>\n<p>A recep\u00e7\u00e3o da parte do marido foi a mais cordial e amiga; parecia que estava longe da cabe\u00e7a dele a menor id\u00e9ia de que os dois se amavam. Foi essa a \u00faltima prova para Clarinha; mas isso a perdeu decerto, porque, confiada na boa f\u00e9 de Valentim, entregou-se demasiado ao prazer de tornar a ver Ernesto. Esse prazer contrastava singularmente com a tristeza dos dias anteriores.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho o prop\u00f3sito de acompanhar dia por dia os acontecimentos da fam\u00edlia Valentim.<\/p>\n<p>Apenas me ocuparei com aqueles que importarem \u00e0 nossa hist\u00f3ria, e neste ponto entro j\u00e1 nas ast\u00facias empregadas pelo marido para libertar a mulher do amor que ainda parecia conservar pelo primo.<\/p>\n<p>Que ast\u00facias foram essas? Valentim refletiu nelas uma noite inteira. Ele tinha diversos meios para empregar: uma viagem, por exemplo. Mas uma viagem n\u00e3o adiantaria nada; a aus\u00eancia dava at\u00e9 mais incremento ao amor. Valentim compreendeu isso e desistiu logo da id\u00e9ia. Que meio escolheu? Um: o rid\u00edculo.<\/p>\n<p>Na verdade, o que h\u00e1 neste mundo que resista ao rid\u00edculo? Nem mesmo o amor. O marido perspicaz compreendeu que era esse o meio mais r\u00e1pido.<\/p>\n<p>Todavia, n\u00e3o tomou o rid\u00edculo sen\u00e3o naquilo que ele \u00e9 de conven\u00e7\u00e3o, naquilo que o mundo aceita como tal, sem que o seja muitas vezes. Clarinha n\u00e3o podia resistir a esse.<\/p>\n<p>Era mulher como as outras.<\/p>\n<p>Um dia, pois, estando reunida a fam\u00edlia toda em casa de Valentim, e com ela muitas visitas mais, o marido de Clarinha convidou Ernesto, que se dava por cavaleiro perfeito, a ensaiar um cavalo que havia comprado.<\/p>\n<p>\u2014 Onde est\u00e1 ele? \u2014 Chegou ontem&#8230; \u00e9 um animal lind\u00edssimo.<\/p>\n<p>\u2014 Mas onde est\u00e1? \u2014 Vai v\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Enquanto se deram ordens de aparelhar o cavalo, Ernesto dirigia-se \u00e0s senhoras e dizialhes com \u00eanfase: \u2014 Desculpem se fizer m\u00e1 figura.<\/p>\n<p>\u2014 Ora! \u2014 Pode ser.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o acreditamos; h\u00e1 de fazer sempre boa figura.<\/p>\n<p>\u2014 Talvez n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Quer que o elogiemos? Aparelhado o cavalo, saiu Ernesto a mont\u00e1-lo. Todos foram v\u00ea-lo do terra\u00e7o.<\/p>\n<p>O cavalo era um animal fogoso e manhoso. Ernesto saltou para ele com certa gra\u00e7a e agilidade que adquiriu logo os aplausos das damas, inclusive Clarinha.<\/p>\n<p>Mal o cavalo sentiu o destro cavaleiro em seu dorso, come\u00e7ou a pinotear. Mas Ernesto susteve-se, e com tanta gra\u00e7a que as damas aplaudiram alegremente. Mas Valentim sabia o que fazia. Contava com o resultado da cena, e olhava tranq\u00fcilo o triunfo t\u00e3o celebrado de Ernesto.<\/p>\n<p>Esse resultado n\u00e3o se fez esperar. N\u00e3o tardou muito que Ernesto n\u00e3o come\u00e7asse a sentir que estava mal. Tanto bastou para que nunca mais pudesse dominar o animal. Este, como se pudesse conhecer o enfraquecimento do cavaleiro e os desejos secretos de Valentim, redobrou a viol\u00eancia dos seus movimentos. A cena tornou-se ent\u00e3o mais s\u00e9ria.<\/p>\n<p>Um sorriso que pairava nos l\u00e1bios de Ernesto desapareceu; o mo\u00e7o foi tomando uma posi\u00e7\u00e3o grotesca quando s\u00f3 tinha presente a id\u00e9ia de cair e n\u00e3o a id\u00e9ia de que estava diante de mulheres, entre as quais estava Clarinha. Por mal dos pecados, se havia de cair como Hip\u00f3lito, calado e nobre, come\u00e7ou a soltar uns gritos entrecortados. As damas assustaram-se, entre elas Clarinha, que mal podia dissimular o terror de que se achava possu\u00edda. Mas quando o cavalo, com um movimento mais violento, deitou o cavaleiro na relva, e que, depois de cair prosaicamente estendido, levantou-se sacudindo o palet\u00f3, houve uma grande gargalhada geral.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, Valentim, para tornar a situa\u00e7\u00e3o de Ernesto mais rid\u00edcula ainda, mandou chegar o cavalo e montou.<\/p>\n<p>\u2014 Aprende, olha, Ernesto.<\/p>\n<p>E com efeito, Valentim, airoso e tranq\u00fcilo, sopeava os movimentos do animal e cumprimentava as senhoras. Foi uma tr\u00edplice bateria de aplausos. Nesse dia um foi o objeto das palmas de todos, como o outro fora o objeto da pateada geral.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Ernesto, que ao princ\u00edpio quis meter o caso \u00e0 bulha, n\u00e3o p\u00f4de fugir depois \u00e0 humilha\u00e7\u00e3o da sua derrota. Essa humilha\u00e7\u00e3o foi completa quando Clarinha, mais compadecida que despeitada com a situa\u00e7\u00e3o dele, procurou consol\u00e1-lo da figura que fizera. Ele viu nas consola\u00e7\u00f5es de Clarinha uma confirma\u00e7\u00e3o \u00e0 sua derrota. E n\u00e3o est\u00e1 bem o amante que inspira mais compaix\u00e3o que amor.<\/p>\n<p>Ernesto reconheceu por instinto esse desastroso inconveniente; mas como remedi\u00e1-lo? Curvou a cabe\u00e7a e protestou n\u00e3o cair noutra. E deste modo terminou a sua primeira humilha\u00e7\u00e3o como termina o nosso quarto cap\u00edtulo.<\/p>\n<p><strong>V<\/strong><\/p>\n<p>Fazia anos o pai de Clarinha. A casa estava cheia de amigos e parentes. Havia uma festa de fam\u00edlia com os parentes e os amigos para celebrar aquele dia.<\/p>\n<p>Desde a cena do cavalo at\u00e9 o dia dos anos do velho, j\u00e1 Valentim tinha armado a Ernesto mais dois la\u00e7os do mesmo g\u00eanero, cujo resultado era sempre expor o pobre rapaz ao motejo dos outros. Todavia, Ernesto n\u00e3o atribu\u00eda nunca inten\u00e7\u00f5es malignas ao primo, que era o primeiro a compungir-se dos infort\u00fanios dele.<\/p>\n<p>O dia do anivers\u00e1rio do sogro era para Valentim um dia excelente: mas que fazer? que nova humilha\u00e7\u00e3o, que novo rid\u00edculo preparar ao rapaz? Valentim, t\u00e3o f\u00e9rtil de ordin\u00e1rio, n\u00e3o achava nada naquele dia.<\/p>\n<p>O dia passou-se nos folguedos pr\u00f3prios de uma festa anivers\u00e1ria como aquela. A casa era fora da cidade. Folgava-se melhor.<\/p>\n<p>\u00c0 hora pr\u00f3pria serviu-se um jantar espl\u00eandido. O velho tomou a cabeceira da mesa, entre a filha e a irm\u00e3; seguiu-se Valentim e Ernesto, e o resto sem ordem de preced\u00eancia.<\/p>\n<p>No meio da conversa animada que acompanhou o jantar desde o princ\u00edpio, Valentim teve uma id\u00e9ia e preparou-se para pratic\u00e1-la \u00e0 sobremesa. Entretanto, correram as sa\u00fades mais cordiais e mais entusi\u00e1sticas.<\/p>\n<p>Notou-se, por\u00e9m, que Ernesto do meio do jantar em diante ficara triste.<\/p>\n<p>Que seria? Todos perguntavam, ningu\u00e9m sabia responder, nem mesmo ele, que teimava em recolher-se ao mais absoluto sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Valentim levantou-se ent\u00e3o para fazer a sa\u00fade de Ernesto, e pronunciou algumas palavras de entusiasmo cujo efeito foi fulminante. Ernesto durante alguns minutos viu-se o objeto de aplausos que lhe valiam as pateadas da montaria.<\/p>\n<p>Uma coisa o perdeu, e nisto estava o segredo de Valentim. Ernesto quis responder ao speech de Valentim. A tristeza que se lhe notara antes era o resultado de uma desastrada mistura de dois vinhos antip\u00e1ticos. For\u00e7ado a responder por um capricho tomou o copo e respondeu ao primo. Da\u00ed em diante era ele o iniciador de todas as sa\u00fades. Quando ningu\u00e9m faltava para ser objeto dos seus speechs, fez uma sa\u00fade ao cozinheiro, que foi extremamente aplaudida.<\/p>\n<p>Descreverei eu as cenas que se seguiram a esta? Fora entreter os leitores com algumas p\u00e1ginas repugnantes. Ernesto excedera-se no entusiasmo, e quando todos se levantavam da mesa e tomavam o caminho das outras salas, Ernesto desatou a chorar. Imaginem o efeito desta cena grotesca. Ningu\u00e9m p\u00f4de conter o riso; mas tamb\u00e9m ningu\u00e9m p\u00f4de estancar o pranto ao infeliz, que chorou ainda por espa\u00e7o de duas horas.<\/p>\n<p>VI Uma noite havia reuni\u00e3o em casa de Valentim. Era puramente familiar. Meia d\u00fazia de amigos e meia d\u00fazia de parentes formavam toda a companhia. \u00c0s onze horas essa companhia estava reduzida a muito pequeno n\u00famero.<\/p>\n<p>Armou-se (para usar da express\u00e3o familiar), armou-se uma mesa de jogo em que Valentim tomou parte. Ernesto ao princ\u00edpio n\u00e3o quis, estava amuado&#8230; Por qu\u00ea? Parecialhe ver em Clarinha uma frieza a que n\u00e3o estava acostumado. Finalmente aceitou; mas procurou tomar lugar em frente da mulher de Valentim; ela, por\u00e9m, ou fosse por indiferen\u00e7a ou fosse adrede, retirou-se para a janela com algumas amigas.<\/p>\n<p>Abriu-se o jogo.<\/p>\n<p>Em pouco tempo estavam os jogadores t\u00e3o animados que as pr\u00f3prias senhoras foram-se aproximando do campo da batalha.<\/p>\n<p>Os mais empenhados eram Valentim e Ernesto.<\/p>\n<p>Tudo estava observando um curioso, mas tranq\u00fcilo interesse, quando de repente Valentim p\u00e1ra o jogo e diz para Ernesto: \u2014 N\u00e3o jogo mais! \u2014 Por qu\u00ea? perguntou Ernesto.<\/p>\n<p>Um primo de Valentim, de nome L\u00facio, olhou igualmente para Ernesto e disse: \u2014 Tens raz\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea? insistiu Ernesto.<\/p>\n<p>Valentim levantou-se, atirou as cartas para o lugar de Ernesto, e disse com um tom de desprezo: \u2014 Por nada! L\u00facio e mais um dos presentes disseram: \u2014 \u00c9 caso de duelo.<\/p>\n<p>Houve profundo sil\u00eancio. L\u00facio olhou para Ernesto e perguntou-lhe: \u2014 Que faz o senhor? \u2014 Que fa\u00e7o? \u2014 \u00c9 caso de duelo.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, isso n\u00e3o est\u00e1 nos nossos h\u00e1bitos&#8230; o que eu posso fazer \u00e9 abandonar aquele senhor ao meu desprezo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea? perguntou Valentim.<\/p>\n<p>\u2014 Abandon\u00e1-lo ao desprezo, porque o senhor \u00e9 um&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Um&#8230; qu\u00ea? \u2014 O que quiser! \u2014 H\u00e1 de dar-me uma satisfa\u00e7\u00e3o! \u2014 Eu? \u2014 Decerto, disse L\u00facio.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, os nossos h\u00e1bitos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Em toda a parte vinga-se a honra! \u2014 Sou o ofendido, tenho a escolha das armas.<\/p>\n<p>\u2014 A pistola, disse L\u00facio.<\/p>\n<p>\u2014 Ambas carregadas, acrescentou Valentim.<\/p>\n<p>Durante este tempo as senhoras estavam tr\u00eamulas e embasbacadas. N\u00e3o sabiam o que se presenciava. Enfim, Clarinha p\u00f4de falar, e as suas primeiras palavras foram para o marido.<\/p>\n<p>Mas este parecia n\u00e3o atender a nada. Em poucos minutos redobrou a confus\u00e3o. Ernesto insistia contra o emprego do meio lembrado para resolver a quest\u00e3o, alegando que ele n\u00e3o estava nos nossos h\u00e1bitos. Mas Valentim n\u00e3o queria, nem admitia outra coisa.<\/p>\n<p>Depois de larga discuss\u00e3o admitiu Ernesto o sanguinolento desenlace.<\/p>\n<p>\u2014 Pois sim, venha a pistola.<\/p>\n<p>\u2014 E j\u00e1, disse Valentim.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1? perguntou Ernesto.<\/p>\n<p>\u2014 No jardim.<\/p>\n<p>Ernesto empalideceu.<\/p>\n<p>Quanto a Clarinha, sentiu faltar-lhe a luz e caiu desfalecida no sof\u00e1.<\/p>\n<p>Aqui nova confus\u00e3o.<\/p>\n<p>Imediatamente prestaram-se-lhe os primeiros socorros. Tanto bastou. No fim de quinze minutos ela voltava \u00e0 vida.<\/p>\n<p>Estava ent\u00e3o no quarto, onde s\u00f3 haviam o marido e um dos convivas que era m\u00e9dico.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a do marido lembrou-lhe o que se passara. Deu um leve grito, mas Valentim tranq\u00fcilizou-a imediatamente, dizendo: \u2014 Nada houve&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Nem haver\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! \u2014 Foi brincadeira, Clarinha, foi tudo um plano. O duelo h\u00e1 de haver, mas s\u00f3 para experimentar o Ernesto. Pois cuidas que eu faria semelhante coisa? \u2014 Falas s\u00e9rio? \u2014 Falo, sim.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico confirmou.<\/p>\n<p>Valentim contou que as duas testemunhas j\u00e1 se entendiam com as duas do outro, tiradas todas dentre os que jogavam e que entravam no plano. O duelo teria lugar pouco depois.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! n\u00e3o acredito! \u2014 Juro&#8230; juro por esta bela cabe\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>E Valentim inclinando-se para a cama beijou a testa da mulher.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! se tu morresses! disse esta.<\/p>\n<p>Valentim olhou para ela: duas l\u00e1grimas rolaram-lhe pelas faces. Que mais queria o marido? Interveio o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 um meio para cr\u00ea-lo. Venham duas pistolas.<\/p>\n<p>Clarinha levantou-se e foi para outra sala, que dava para o jardim e onde se achavam as outras senhoras.<\/p>\n<p>A\u00ed foram ter as pistolas. Carregaram-nas \u00e0 vista de Clarinha e dispararam depois, a fim de assegurar \u00e0 pobre senhora que o duelo era pura brincadeira.<\/p>\n<p>Valentim desceu para o jardim. As quatro testemunhas levaram as pistolas. As senhoras, prevenidas do que havia, ficaram na sala, onde olhavam para o jardim, que foi iluminado de prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>Marcaram-se os passos e entregou-se a cada um dos combatentes uma pistola.<\/p>\n<p>Ernesto, que at\u00e9 ent\u00e3o parecia alheio \u00e0 vida, mal viu diante de si uma arma, apesar de ter outra, mas tendo-lhe as testemunhas dito que ambas se achavam armadas, come\u00e7ou a tremer.<\/p>\n<p>Valentim apontou sobre ele. Ernesto fazia esfor\u00e7os, mas n\u00e3o conseguia levantar o bra\u00e7o.<\/p>\n<p>Estava ansiado. Fez sinal para que Valentim se detivesse, e tirou um len\u00e7o para enxugar o suor.<\/p>\n<p>Tudo contribu\u00eda para assust\u00e1-lo, e de mais a mais as seguintes palavras que se ouviam em roda: \u2014 O que ficar morto h\u00e1 de ser enterrado aqui mesmo no jardim.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 claro. J\u00e1 se foi fazer a cova.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! que seja profunda! Enfim, soaram as pancadas. \u00c0 primeira Ernesto estremeceu, \u00e0 segunda caiu-lhe o bra\u00e7o, e quando lhe diziam que apontasse o alvo para soar a terceira pancada, ele deixou cair a pistola no ch\u00e3o e estendeu a m\u00e3o para o advers\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u2014 Prefiro dar a satisfa\u00e7\u00e3o. Confesso que fui injusto! \u2014 Como? prefere? disseram todos.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho raz\u00f5es para n\u00e3o morrer, respondeu Ernesto, e confesso que fui injusto.<\/p>\n<p>As pazes foram feitas.<\/p>\n<p>Uma gargalhada, uma s\u00f3, mas terr\u00edvel, porque foi dada por Clarinha, soou na sala.<\/p>\n<p>Voltaram todos para l\u00e1. Clarinha tomando as pistolas, apontou-as para Ernesto e disparou-as.<\/p>\n<p>Houve ent\u00e3o uma gargalhada geral.<\/p>\n<p>Ernesto tinha o rosto mais enfiado deste mundo. Era um lacre.<\/p>\n<p>Clarinha largou as pistolas e lan\u00e7ou-se nos bra\u00e7os de Valentim.<\/p>\n<p>\u2014 Pois tu brincas com a morte, meu amor? \u2014 Com a morte, pelo amor, sim! Ernesto arranjou da\u00ed a dias uma viagem e nunca mais voltou.<\/p>\n<p>Quanto aos nossos esposos, amaram-se muito e tiveram muitos filhos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis I N\u00e3o me admira, dizia um poeta antigo, que um homem case uma vez; admira-me que, depois de vi\u00favo, torne a casar. Valentim Barbosa achava-se ainda no primeiro caso e j\u00e1 compartia a admira\u00e7\u00e3o do poeta pelos que se casavam duas vezes. N\u00e3o \u00e9 que a mulher dele fosse um drag\u00e3o ou [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-114007","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Ast\u00facias de Marido, Conto Ast\u00facias de Marido<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Ast\u00facias de Marido, Conto, Machado de Assis, Obra Liter\u00e1ria, Literatura, Ast\u00facias de Marido\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Ast\u00facias de Marido, Conto Ast\u00facias de Marido\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Ast\u00facias de Marido, Conto, Machado de Assis, Obra Liter\u00e1ria, Literatura, Ast\u00facias de Marido\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/astucias-de-marido\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-03-17T00:12:45+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"31 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/astucias-de-marido#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/astucias-de-marido\"},\"author\":{\"name\":\"Fabiane Breda\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"headline\":\"Ast\u00facias de Marido\",\"datePublished\":\"2017-03-17T00:12:45+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/astucias-de-marido\"},\"wordCount\":6275,\"commentCount\":0,\"articleSection\":[\"Obras Liter\u00e1rias\"],\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/astucias-de-marido#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/astucias-de-marido\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/astucias-de-marido\",\"name\":\"Ast\u00facias de Marido, Conto Ast\u00facias de Marido\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\"},\"datePublished\":\"2017-03-17T00:12:45+00:00\",\"author\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"description\":\"Ast\u00facias de Marido, Conto, Machado de Assis, Obra Liter\u00e1ria, Literatura, Ast\u00facias de Marido\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/astucias-de-marido#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/astucias-de-marido\"]}]},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/astucias-de-marido#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"Linguagens e C\u00f3digos\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":3,\"name\":\"Literatura\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":4,\"name\":\"Obras Liter\u00e1rias\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":5,\"name\":\"Ast\u00facias de Marido\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\",\"name\":\"Portal S\u00e3o Francisco\",\"description\":\"Pesquisa Escolar Gratuita\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":{\"@type\":\"PropertyValueSpecification\",\"valueRequired\":true,\"valueName\":\"search_term_string\"}}],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"Person\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\",\"name\":\"Fabiane Breda\"}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"Ast\u00facias de Marido, Conto Ast\u00facias de Marido","description":"Ast\u00facias de Marido, Conto, Machado de Assis, Obra Liter\u00e1ria, Literatura, Ast\u00facias de Marido","robots":{"index":"noindex","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"og_locale":"pt_BR","og_type":"article","og_title":"Ast\u00facias de Marido, Conto Ast\u00facias de Marido","og_description":"Ast\u00facias de Marido, Conto, Machado de Assis, Obra Liter\u00e1ria, Literatura, Ast\u00facias de Marido","og_url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/astucias-de-marido","og_site_name":"Portal S\u00e3o Francisco","article_publisher":"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/","article_published_time":"2017-03-17T00:12:45+00:00","author":"Fabiane Breda","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Escrito por":"Fabiane Breda","Est. tempo de leitura":"31 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/astucias-de-marido#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/astucias-de-marido"},"author":{"name":"Fabiane Breda","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa"},"headline":"Ast\u00facias de Marido","datePublished":"2017-03-17T00:12:45+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/astucias-de-marido"},"wordCount":6275,"commentCount":0,"articleSection":["Obras Liter\u00e1rias"],"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/astucias-de-marido#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/astucias-de-marido","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/astucias-de-marido","name":"Ast\u00facias de Marido, Conto Ast\u00facias de Marido","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website"},"datePublished":"2017-03-17T00:12:45+00:00","author":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa"},"description":"Ast\u00facias de Marido, Conto, Machado de Assis, Obra Liter\u00e1ria, Literatura, Ast\u00facias de Marido","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/astucias-de-marido#breadcrumb"},"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/astucias-de-marido"]}]},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/astucias-de-marido#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"In\u00edcio","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"Linguagens e C\u00f3digos","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos"},{"@type":"ListItem","position":3,"name":"Literatura","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura"},{"@type":"ListItem","position":4,"name":"Obras Liter\u00e1rias","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias"},{"@type":"ListItem","position":5,"name":"Ast\u00facias de Marido"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/","name":"Portal S\u00e3o Francisco","description":"Pesquisa Escolar Gratuita","potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?s={search_term_string}"},"query-input":{"@type":"PropertyValueSpecification","valueRequired":true,"valueName":"search_term_string"}}],"inLanguage":"pt-BR"},{"@type":"Person","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa","name":"Fabiane Breda"}]}},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/114007","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=114007"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/114007\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=114007"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=114007"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=114007"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}