{"id":114005,"date":"2017-03-16T22:08:55","date_gmt":"2017-03-17T00:08:55","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=114005"},"modified":"2017-03-16T22:08:55","modified_gmt":"2017-03-17T00:08:55","slug":"cinco-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/cinco-mulheres","title":{"rendered":"Cinco Mulheres"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Aqui vai um grupo de cinco mulheres, diferentes entre si, partindo de diversos pontos, mas reunidas na mesma cole\u00e7\u00e3o, como em um \u00e1lbum de fotografias.<\/p>\n<p>Desenhei-as rapidamente, conforme apareciam, sem inten\u00e7\u00e3o de preced\u00eancia, nem cuidado de escolha.<\/p>\n<p>Cada uma delas forma um esbo\u00e7o \u00e0 parte; mas todas podem ser examinadas entre o charuto e o caf\u00e9.<\/p>\n<p>I Marcelina Marcelina era uma criatura d\u00e9bil como uma haste de flor; dissera-se que a vida lhe fugia em cada palavra que lhe sa\u00eda dos l\u00e1bios rosados e finos. Tinha um olhar l\u00e2nguido como os \u00faltimos raios do dia. A cabe\u00e7a, mais ang\u00e9lica do que feminina, aspirava ao c\u00e9u. Quinze anos contava, como Julieta. Como Of\u00e9lia, parecia que estava destinada a colher a um tempo as flores da terra e as flores da morte.<\/p>\n<p>De todas as irm\u00e3s \u2014 eram cinco \u2014, era Marcelina a \u00fanica a quem a natureza tinha dado t\u00e3o pouca vida. Todas as mais pareciam ter seiva de sobra. Eram mulheres altas e refor\u00e7adas, de olhos vivos e cheios de fogo. Alfenim era o nome que davam a Marcelina.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m a convidava para as fadigas de um baile ou para os grandes passeios. A boa menina fraqueava depois de uma valsa ou no fim de cinq\u00fcenta passos do caminho.<\/p>\n<p>Era ela a mais querida dos pais. Tinha na sua fragilidade a raz\u00e3o da prefer\u00eancia. Um instinto secreto dizia aos velhos que ela n\u00e3o havia de viver muito; e como que para desforr\u00e1-la do amor que havia de perder, eles a amavam mais do que \u00e0s outras filhas. Era ela a mais mo\u00e7a, circunst\u00e2ncia que acrescia \u00e0quela, porque ordinariamente os pais amam o \u00faltimo filho mais do que os primeiros, sem que os primeiros pere\u00e7am inteiramente no seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Marcelina tocava piano perfeitamente. Era a sua distra\u00e7\u00e3o habitual; tinha o gosto da m\u00fasica no mais apurado grau. Conhecia os compositores mais estimados, Mozart, Weber, Beethoven, Palestrina. Quando se assentava ao piano para executar as obras dos seus favoritos, nenhum prazer da terra a tiraria dali.<\/p>\n<p>Chegara \u00e0 idade em que o cora\u00e7\u00e3o da mulher come\u00e7a a interrog\u00e1-la secretamente; mas ningu\u00e9m conhecia um sentimento s\u00f3 de amor no cora\u00e7\u00e3o de Marcelina. Talvez n\u00e3o fosse a hora, mas todos que a viam acreditavam que ela n\u00e3o pudesse amar na terra, t\u00e3o do c\u00e9u parecia ser aquela delicada criatura.<\/p>\n<p>Um poeta de vinte anos, virgem ainda nas suas ilus\u00f5es, teria encontrado nela o mais puro ideal dos seus sonhos; mas nenhum havia na roda que freq\u00fcentava a casa da mo\u00e7a. Os homens que l\u00e1 iam preferiam a tagarelice insossa e incessante das irm\u00e3s \u00e0 complei\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil e a recatada mod\u00e9stia de Marcelina.<\/p>\n<p>A mais velha das irm\u00e3s tinha um namorado. As outras sabiam do namoro e o protegiam na medida dos seus recursos. Do namoro ao casamento pouco tempo mediou, apenas um m\u00eas. O casamento foi fixado para um dia de junho. O namorado era um belo rapaz de vinte e seis anos, alto, moreno, de olhos e cabelos pretos. Chamava-se J\u00falio.<\/p>\n<p>No dia seguinte em que se anunciou o casamento de J\u00falio, Marcelina n\u00e3o se levantou da cama. Era uma ligeira febre que cedeu no fim de dois dias aos esfor\u00e7os de um velho m\u00e9dico, amigo do pai. Mas, ainda assim, a m\u00e3e de Marcelina chorou amargamente, e n\u00e3o dormiu uma hora. Nunca houve crise s\u00e9ria na mol\u00e9stia da filha, mas o simples fato da mol\u00e9stia bastou para que a boa m\u00e3e perdesse a cabe\u00e7a. Quando a viu de p\u00e9 regou de l\u00e1grimas os p\u00e9s de uma imagem da Virgem, que era a sua devo\u00e7\u00e3o particular.<\/p>\n<p>Entretanto seguiam os preparativos do casamento. Devia efetuar-se dali a quinze dias.<\/p>\n<p>J\u00falio estava radiante de alegria, e n\u00e3o perdia ocasi\u00e3o de comunicar-se a todos o estado em que se achava. Marcelina ouvia-o com tristeza; dizia-lhe duas palavras de cumprimento e desviava a conversa daquele assunto, que lhe parecia penoso. Ningu\u00e9m reparava, menos o m\u00e9dico, que um dia, em que ela se achava ao piano, disse-lhe com ar pesaroso: \u2014 Menina, isso faz-lhe mal.<\/p>\n<p>\u2014 Isso qu\u00ea? \u2014 Sufoque o que sente, esque\u00e7a um sonho imposs\u00edvel e n\u00e3o v\u00e1 adoecer por um sentimento sem esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Marcelina cravou os olhos nas teclas do piano e levantou-se a chorar.<\/p>\n<p>O doutor saiu mais pesaroso do que estava.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 morta, dizia ele descendo as escadas.<\/p>\n<p>O dia do casamento chegou. Foi uma alegria na casa, mesmo para Marcelina, que cobria a irm\u00e3 de beijos; aos olhos de todos era a afei\u00e7\u00e3o fraternal que se manifestava assim num dia de j\u00fabilo para a irm\u00e3; mas a um olhar experimentado n\u00e3o escaparia a tristeza escondida debaixo daquelas demonstra\u00e7\u00f5es t\u00e3o fervorosas.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o \u00e9 um romance, nem um conto, nem um epis\u00f3dio; \u2014 n\u00e3o me ocuparei, portanto, com os acontecimentos dia por dia. Um m\u00eas se passou depois do casamento de J\u00falio com a irm\u00e3 de Marcelina. Era o dia marcado para o jantar comemorativo em casa de J\u00falio. Marcelina foi com repugn\u00e2ncia, mas era preciso; simular uma doen\u00e7a era impedir a festa; a boa menina n\u00e3o quis. Foi.<\/p>\n<p>Mas quem pode responder pelo futuro? Marcelina, duas horas depois de estar em casa da irm\u00e3, teve uma vertigem. Foi levada para um sof\u00e1, mas tornada a si achou-se doente.<\/p>\n<p>Foi transportada para casa. Toda a fam\u00edlia a acompanhou. A festa n\u00e3o teve lugar.<\/p>\n<p>Declarou-se uma nova febre.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico, que sabia o fundo da doen\u00e7a de Marcelina, procurou curar-lhe a um tempo o corpo e o cora\u00e7\u00e3o. Os rem\u00e9dios do corpo pouco faziam, porque o cora\u00e7\u00e3o era o mais doente. O m\u00e9dico quando empregava uma dose no corpo, empregava duas no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eram os conselhos brandos, as palavras persuasivas, as car\u00edcias quase fraternais. A mo\u00e7a respondia a tudo com um sorriso triste \u2014 era a \u00fanica resposta.<\/p>\n<p>Quando o velho m\u00e9dico lhe dizia: \u2014 Menina, esse amor \u00e9 imposs\u00edvel&#8230;<\/p>\n<p>Ela respondia: \u2014 Que amor? \u2014 Esse: o de seu cunhado.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 sonhando, doutor. Eu n\u00e3o amo ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 debalde que procura ocultar.<\/p>\n<p>Um dia, como ela insistisse em negar, o doutor amea\u00e7ou-a sorrindo que ia contar tudo \u00e0 m\u00e3e.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a empalideceu mais do que estava.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, disse ela, n\u00e3o diga nada.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, \u00e9 verdade? A mo\u00e7a n\u00e3o ousou responder: fez um leve sinal com a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o v\u00ea que \u00e9 imposs\u00edvel? perguntou o doutor.<\/p>\n<p>\u2014 Sei.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o por que pensar nisso? \u2014 N\u00e3o penso.<\/p>\n<p>\u2014 Pensa. \u00c9 por isso que est\u00e1 t\u00e3o doente&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o creia, doutor; estou doente porque Deus o quer; talvez fique boa, talvez n\u00e3o; \u00e9 indiferente para mim; s\u00f3 Deus \u00e9 quem manda estas coisas.<\/p>\n<p>\u2014 Mas sua m\u00e3e?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ela ir\u00e1 ter comigo, se eu morrer.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico voltou a cabe\u00e7a para o lado de uma janela que se achava meio aberta.<\/p>\n<p>Esta conversa reproduziu-se muitas vezes, sempre com o mesmo resultado. Marcelina definhava a olhos vistos. No fim de alguns dias o m\u00e9dico declarou que era imposs\u00edvel salv\u00e1-la.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia ficou desolada com esta not\u00edcia.<\/p>\n<p>J\u00falio ia visitar Marcelina com sua mulher; nessas ocasi\u00f5es Marcelina sentia-se elevada a uma esfera de bem-aventuran\u00e7a. Vivia da voz de J\u00falio. As faces se lhe coloriam e os olhos readquiriam um brilho celeste.<\/p>\n<p>Depois voltava ao seu estado habitual.<\/p>\n<p>Mais de uma vez quis o m\u00e9dico declarar \u00e0 fam\u00edlia qual era a verdadeira causa da mol\u00e9stia de Marcelina; mas que ganharia com isso? N\u00e3o viria da\u00ed o rem\u00e9dio, e a boa menina ficaria do mesmo modo.<\/p>\n<p>A m\u00e3e, desesperada com aquele estado de coisas, imaginou todos os meios de salvar a filha; lembrou a mudan\u00e7a de ares, mas a pobre Marcelina raras vezes deixava de arder em febre.<\/p>\n<p>Um dia, era um domingo de julho, a menina declarou que desejava comunicar alguma coisa ao doutor.<\/p>\n<p>Todos os deixaram a s\u00f3s.<\/p>\n<p>\u2014 Que quer? perguntou o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>\u2014 Sei que \u00e9 nosso amigo, e sobretudo meu amigo. Sei quanto sente a minha doen\u00e7a, e como lhe d\u00f3i que eu n\u00e3o possa ficar boa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 de ficar, n\u00e3o fale assim&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Qual doutor! eu sei o que sinto! Se lhe quero falar \u00e9 para dizer-lhe uma coisa. Quando eu morrer n\u00e3o diga a ningu\u00e9m qual foi o motivo da minha morte.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o fale assim&#8230; interrompeu o velho levando o len\u00e7o aos olhos.<\/p>\n<p>\u2014 Di-lo-\u00e1 somente a uma pessoa, continuou Marcelina; \u00e9 a minha m\u00e3e. Essa sim, coitada, que tanto me ama e que vai ter a dor de me perder! Quando lhe disser, entreguelhe ent\u00e3o este papel.<\/p>\n<p>Marcelina tirou debaixo do travesseiro uma folha de papel dobrada em quatro, e atada por uma fita roxa.<\/p>\n<p>\u2014 Escreveu isto? Quando? perguntou o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>\u2014 Antes de adoecer.<\/p>\n<p>O velho tomou o papel das m\u00e3os da doente e guardou-o no seu bolso.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, venha c\u00e1, disse ele, que id\u00e9ias s\u00e3o essas de morrer? T\u00e3o mo\u00e7a! Come\u00e7a apenas a viver; outros cora\u00e7\u00f5es podem ainda receber os seus afetos; para que quer t\u00e3o cedo deixar o mundo? Pode ainda encontrar nele uma felicidade digna da sua alma e dos seus sentimentos&#8230; Olhe c\u00e1, ficando boa iremos todos para fora. A menina gosta da ro\u00e7a. Pois toda a fam\u00edlia ir\u00e1 para a ro\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Basta, doutor! \u00c9 in\u00fatil.<\/p>\n<p>Da\u00ed em diante Marcelina pouco falou.<\/p>\n<p>No dia seguinte \u00e0 tarde J\u00falio e a mulher vieram visit\u00e1-la. Marcelina achava-se pior. Toda a fam\u00edlia estava ao p\u00e9 da cama. A m\u00e3e debru\u00e7ada \u00e0 cabe\u00e7a chorava silenciosamente.<\/p>\n<p>Quando veio a noite fechada, declarou-se a crise da morte. Houve ent\u00e3o uma explos\u00e3o de solu\u00e7os; por\u00e9m a menina, serena e calma, a todos procurava consolar dando-lhes a esperan\u00e7a de que iria orar por todos no c\u00e9u.<\/p>\n<p>Quis ver o piano em que tocava; mas era dif\u00edcil satisfazer-lhe o desejo e ela facilmente se convenceu. N\u00e3o desistiu por\u00e9m de ver as m\u00fasicas; quando elas lhas deram distribuiu-as pelas irm\u00e3s.<\/p>\n<p>\u2014 Quanto a mim vou tocar outras m\u00fasicas no c\u00e9u.<\/p>\n<p>Pediu algumas flores secas que tinha numa gaveta, e distribuiu-as igualmente pelas pessoas presentes.<\/p>\n<p>\u00c0s oito horas expirou.<\/p>\n<p>Um m\u00eas depois o velho m\u00e9dico, fiel \u00e0 promessa que fizera \u00e0 moribunda, pediu uma confer\u00eancia particular \u00e0 infeliz m\u00e3e.<\/p>\n<p>\u2014 Sabe de que morreu Marcelina? perguntou ele; n\u00e3o foi de uma febre, foi de um amor.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! \u2014 \u00c9 verdade.<\/p>\n<p>\u2014 Quem era? \u2014 A pobre menina p\u00f4s a sua felicidade num desejo imposs\u00edvel; mas n\u00e3o se revoltou contra a sorte; resignou-se e morreu.<\/p>\n<p>\u2014 Quem era? perguntou a m\u00e3e.<\/p>\n<p>\u2014 Seu genro.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 poss\u00edvel? disse a pobre m\u00e3e dando um grito.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade. Eu o descobri, e ela mo confessou. Sabe como eu era amigo dela; fiz tudo quanto pude para desvi\u00e1-la de semelhante pensamento; mas tinha chegado tarde. A senten\u00e7a estava lavrada; ela devia amar, adoecer e subir ao c\u00e9u. Que amor, e que destino! O velho tinha os olhos rasos de l\u00e1grimas; a m\u00e3e de Marcelina chorava e solu\u00e7ava que cortava o cora\u00e7\u00e3o. Quando ela p\u00f4de ficar um pouco calma, o m\u00e9dico continuou: \u2014 A entrevista que ela me pediu nos seus \u00faltimos dias foi para dar-me um papel, disseme ent\u00e3o que lho entregasse depois da morte. Aqui o tem.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico tirou do bolso o papel que recebera de Marcelina e lho entregou intacto.<\/p>\n<p>\u2014 Leia-o, doutor. O segredo \u00e9 nosso.<\/p>\n<p>O doutor leu em voz alta e com voz tr\u00eamula: Devo morrer deste amor. Sinto que e o primeiro e o \u00faltimo. Podia ser a minha vida e \u00e9 a minha morte. Por qu\u00ea? Deus o quer.<\/p>\n<p>N\u00e3o viu ele nunca que era eu a quem devia amar. N\u00e3o lhe dizia acaso um secreto instinto que eu carecia dele para ser feliz? Cego! foi procurar o amor de outra, t\u00e3o sincero como o meu, mas nunca t\u00e3o grande e t\u00e3o elevado! Deus o fa\u00e7a feliz! Escrevi um pensamento mau. Por que me hei de revoltar contra minha irm\u00e3? N\u00e3o pode ela sentir o que eu sinto? Se eu sofro por n\u00e3o ter a felicidade de possu\u00ed-lo n\u00e3o sofreria ela, se ele fosse meu? Querer a minha felicidade \u00e0 custa dela, \u00e9 um sentimento mau que mam\u00e3e nunca me ensinou. Que ela seja feliz e sofra eu a minha sorte.<\/p>\n<p>Talvez eu possa viver; e nesse caso, \u00f3 minha Virgem da Concei\u00e7\u00e3o, eu s\u00f3 te pe\u00e7o que me d\u00eas a for\u00e7a necess\u00e1ria para ser feliz s\u00f3 com a vista dele, embora ele me seja indiferente.<\/p>\n<p>Se mam\u00e3e soubesse disto talvez ralhasse comigo, mas eu acho que&#8230;<\/p>\n<p>O papel achava-se interrompido neste ponto.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico acabou estas linhas banhado em l\u00e1grimas. A m\u00e3e chorava igualmente. O segredo confiado aos dois morreu com ambos.<\/p>\n<p>Mas um dia, tendo morrido a velha m\u00e3e de Marcelina, e procedendo-se ao invent\u00e1rio, foi achado o papel pelo cunhado de Marcelina&#8230; J\u00falio conheceu ent\u00e3o a causa da morte a cunhada. Lan\u00e7ou os olhos para um espelho, procurando nas suas fei\u00e7\u00f5es um raio da simpatia que inspirara a Marcelina, e exclamou: \u2014 Pobre menina! Acendeu um charuto e foi ao teatro.<\/p>\n<p>II Ant\u00f4nia A hist\u00f3ria conhece um tipo da dissimula\u00e7\u00e3o, que resume todos os outros, como a mais alta express\u00e3o de todos: \u2014 \u00e9 Tib\u00e9rio. Mas nem esse chegaria a vencer a dissimula\u00e7\u00e3o dos Tib\u00e9rios femininos, armados de olhos e sorrisos capazes de frustrar os planos mais bem combinados e enfraquecer as vontades mais resolutas.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nia era uma mulher assim.<\/p>\n<p>Quando eu a conheci era ela casada de doze meses. O marido tinha nela a mais plena confian\u00e7a. Amavam-se ambos com o amor mais ardente e apaixonado que ainda houve.<\/p>\n<p>Era uma alma s\u00f3 em dois corpos. Se ele demorava fora de casa, Ant\u00f4nia n\u00e3o s\u00f3 velava todo o tempo, como desfazia-se em l\u00e1grimas de saudades e de dor. Apenas ele chegava, n\u00e3o havia o desenlace comum das recrimina\u00e7\u00f5es est\u00e9reis; Ant\u00f4nia lan\u00e7ava-se-lhe aos bra\u00e7os e tudo voltava em bem.<\/p>\n<p>Onde um n\u00e3o ia, n\u00e3o ia o outro. Para qu\u00ea, se a felicidade deles residia em estarem juntos, viverem dos olhos um do outro, fora do mundo e dos seus v\u00e3os prazeres? Assim ligadas estas duas criaturas davam ao mundo o doce espet\u00e1culo de uma uni\u00e3o perfeita. Eram o enlevo das fam\u00edlias e o desespero dos mal casados.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nia era bela; tinha vinte e seis anos. Estava no pleno desenvolvimento de uma dessas belezas robustas e destinadas a resistir \u00e0 a\u00e7\u00e3o do tempo. Oliveira, seu marido, era o que se podia chamar um Apolo. Via-se que aquela mulher devia amar aquele homem e aquele homem devia amar aquela mulher.<\/p>\n<p>Freq\u00fcentavam a casa de Oliveira alguns amigos, uns da inf\u00e2ncia, outros de data recente, alguns de menos de um ano, isto \u00e9, da data do casamento de Oliveira. A amizade \u00e9 o melhor pretexto, at\u00e9 hoje inventado, para que um indiv\u00edduo pretenda tomar parte na felicidade de outro. Os amigos de Oliveira, que n\u00e3o primavam pela originalidade dos costumes, n\u00e3o ficaram isentos de encantos que a beleza de Ant\u00f4nia produzia em todos.<\/p>\n<p>Uns, menos corajosos, desanimaram diante do extremoso amor que ligava o casal; mas um houve, menos t\u00edmido, que assentou de si para si tomar lugar \u00e0 mesa da ventura dom\u00e9stica do amigo.<\/p>\n<p>Era um tal Moura.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei dos primeiros passos de Moura; nem das esperan\u00e7as que ele p\u00f4de ir concebendo \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que corria o tempo. Um dia, por\u00e9m, a not\u00edcia de que entre Moura e Ant\u00f4nia havia um la\u00e7o de simpatia amorosa surpreendeu a todos.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nia era at\u00e9 ent\u00e3o o s\u00edmbolo do amor e da felicidade conjugal. Que dem\u00f4nio lhe soprara ao ouvido t\u00e3o negra resolu\u00e7\u00e3o de iludir a confian\u00e7a e o amor do marido? Uns duvidaram, outros se irritaram, alguns esfregaram as m\u00e3os de contentes, animados pela id\u00e9ia de que o primeiro erro devia ser uma arma e um incentivo para os erros futuros.<\/p>\n<p>Desde que a not\u00edcia, contada \u00e0 meia voz, e com a mais perfeita discri\u00e7\u00e3o, correu de boca em boca, todas as aten\u00e7\u00f5es voltaram-se para Ant\u00f4nia e Moura. Um olhar, um gesto, um suspiro, escapam aos mais dissimulados; os olhos mais experimentados viram logo a veracidade dos boatos; se os dois se n\u00e3o amavam, estavam perto do amor.<\/p>\n<p>Deve-se acrescentar que ao p\u00e9 de Oliveira, Moura fazia o papel de deus P\u00e3 ao p\u00e9 do deus Febo. Era uma figura vulgar, \u00e0s vezes rid\u00edculo, sem nada que pudesse legitimar a paix\u00e3o de uma mulher bela e altiva. Mas assim aconteceu, a grande aprazimento da sombra de La Bruy\u00e8re.<\/p>\n<p>Uma noite uma fam\u00edlia da amizade de Oliveira foi convid\u00e1-la para irem ao Teatro L\u00edrico.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nia mostrou grande desejo de ir. Cantava ent\u00e3o n\u00e3o sei que celebridade italiana.<\/p>\n<p>Oliveira, por doente ou por enfado, n\u00e3o quis ir. As inst\u00e2ncias da fam\u00edlia que os convidara foram in\u00fateis; Oliveira teimou em ficar.<\/p>\n<p>Oliveira insistia em ficar, Ant\u00f4nia em ir. Depois de muito tempo o mais que se conseguiu foi que Ant\u00f4nia fosse em companhia das amigas, que a trariam depois para casa.<\/p>\n<p>Oliveira ficara em companhia de um amigo.<\/p>\n<p>Mas, antes de sa\u00edrem todos, Ant\u00f4nia insistiu de novo com o marido para que fosse.<\/p>\n<p>\u2014 Mas se eu n\u00e3o quero ir? dizia ele. Vai tu, eu ficarei, conversando com ***.<\/p>\n<p>\u2014 E que se tu n\u00e3o fores, disse Ant\u00f4nia o espet\u00e1culo n\u00e3o vale nada para mim. Anda! \u2014 Vai, querida, eu irei em outra ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o vou! E sentou-se disposta a n\u00e3o ir ao teatro. As amigas exclamaram em coro: \u2014 Como \u00e9 isso: n\u00e3o ir? Que ma\u00e7ada! Era o que faltava! anda, anda! \u2014 Vai, sim, disse Oliveira. Ent\u00e3o por que eu n\u00e3o vou, n\u00e3o te queres divertir? Ant\u00f4nia levantou-se: \u2014 Est\u00e1 bem, disse ela, irei.<\/p>\n<p>\u2014 De que n\u00famero \u00e9 o camarote? perguntou bruscamente Oliveira.<\/p>\n<p>\u2014 Vinte, segunda ordem, disseram as amigas de Ant\u00f4nia.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nia empalideceu ligeiramente.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, ir\u00e1s depois, n\u00e3o \u00e9? disse ela.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, decididamente, n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Dize se vais.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, fico, \u00e9 decidido.<\/p>\n<p>Sa\u00edram para o Teatro L\u00edrico. Sob pretexto de que desejava ir ver a celebridade tomei o chap\u00e9u e fui ao Teatro Lirico.<\/p>\n<p>Moura estava l\u00e1! III Carolina Pois qu\u00ea! vais casar-te? \u2014 \u00c9 verdade.<\/p>\n<p>\u2014 Com o Mendon\u00e7a? \u2014 Com o Mendon\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9 imposs\u00edvel! Tu, Carolina, tu formosa e mo\u00e7a, mulher de um homem como aquele, sem nada que possa inspirar amor? Ama-o acaso? \u2014 Hei de estim\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o o amas, j\u00e1 vejo.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 meu dever. Que queres, L\u00facia? Meu pai assim o quer, devo obedecer-lhe. Pobre pai! ele cuida fazer a minha felicidade. A fortuna de Mendon\u00e7a parece-lhe uma garantia de paz e de ventura da minha vida. Como se engana! \u2014 Mas n\u00e3o deves consentir nisso&#8230; Vou falar-lhe.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 in\u00fatil, nem eu quero.<\/p>\n<p>\u2014 Mas ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Olha, h\u00e1 talvez outra raz\u00e3o: creio que meu pai deve favores ao Mendon\u00e7a; este apaixonou-se por mim, pediu-me; meu pai n\u00e3o teve \u00e2nimo de recusar-me.<\/p>\n<p>\u2014 Pobre amiga! Sem conhecer ainda as nossas hero\u00ednas, j\u00e1 o leitor come\u00e7a a lamentar a sorte da futura mulher de Mendon\u00e7a. \u00c9 mais uma v\u00edtima, dir\u00e1 o leitor, imolada ao capricho ou \u00e0 necessidade. Assim \u00e9. Carolina devia casar-se da\u00ed a alguns dias com Mendon\u00e7a, e era isso o que lamentava a amiga L\u00facia.<\/p>\n<p>\u2014 Pobre Carolina! \u2014 Boa L\u00facia! Carolina \u00e9 uma mo\u00e7a de vinte anos, alta, formosa, refeita. Era uma dessas belezas que seduzem os olhos lascivos, e j\u00e1 por aqui ficam os leitores sabendo que Mendon\u00e7a \u00e9 um desses, com a circunst\u00e2ncia agravante de ter meios com que lisonjear os seus caprichos.<\/p>\n<p>Bem vejo como me poderia levar longe este \u00faltimo ponto da minha hist\u00f3ria; mas eu desisto de fazer agora uma s\u00e1tira contra o vil metal (por que metal?); e bem assim n\u00e3o me dou ao trabalho de descrever a figura da amiga de Carolina.<\/p>\n<p>Direi somente que as duas amigas conversavam no quarto de dormir da prometida noiva de Mendon\u00e7a.<\/p>\n<p>Depois das lamenta\u00e7\u00f5es feitas por L\u00facia \u00e0 sorte de Carolina, houve um momento de sil\u00eancio. Carolina empregou algumas l\u00e1grimas; L\u00facia continuou: \u2014 E ele? \u2014 Quem? \u2014 Fernando.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! esse que me perdoe e me esque\u00e7a; \u00e9 tudo quanto posso fazer por ele. N\u00e3o quis Deus que f\u00f4ssemos felizes; paci\u00eancia! \u2014 Por isso o vi triste l\u00e1 na sala! \u2014 Triste? ele n\u00e3o sabe nada. H\u00e1 de ser por outra coisa.<\/p>\n<p>\u2014 O Mendon\u00e7a vir\u00e1? \u2014 Deve vir.<\/p>\n<p>As duas mo\u00e7as sa\u00edram para a sala. L\u00e1 se achava Mendon\u00e7a em conversa com o pai de Carolina, Fernando a uma janela de costas para a rua, uma tia de Carolina conversando com o pai de L\u00facia. Ningu\u00e9m mais havia. Esperava-se a hora do ch\u00e1.<\/p>\n<p>Quando as duas mo\u00e7as apareceram todos voltaram-se para elas. O pai de Carolina foi busc\u00e1-las e levou-as a um sof\u00e1.<\/p>\n<p>Depois, no meio do sil\u00eancio geral, o velho anunciou o casamento pr\u00f3ximo de Carolina e Mendon\u00e7a.<\/p>\n<p>Ouviu-se um grito sufocado do lado da janela. Ouviu-se, digo mal \u2014 n\u00e3o se ouviu; Carolina foi a \u00fanica que ouviu ou antes adivinhou. Quando voltou os olhos para a janela, Fernando estava de costas para a sala e tinha a cabe\u00e7a entre m\u00e3os.<\/p>\n<p>O ch\u00e1 foi tomado no meio de geral acanhamento. Parece que ningu\u00e9m, al\u00e9m do noivo e do pai de Carolina, aprovava semelhante cons\u00f3rcio.<\/p>\n<p>Mas, quer aprovasse, quer n\u00e3o, ele devia efetuar-se da\u00ed a vinte dias.<\/p>\n<p>Entro no teto conjugal como num t\u00famulo, escrevia Carolina na manh\u00e3 do casamento \u00e0 amiga L\u00facia; deixo as minhas ilus\u00f5es \u00e0 porta, e pe\u00e7o a Deus que n\u00e3o perca s\u00f3 isso.<\/p>\n<p>Quanto a Fernando, a quem ela n\u00e3o p\u00f4de ver mais depois da noite da declara\u00e7\u00e3o do casamento, eis a carta que ele mandou a Carolina, na v\u00e9spera de realizar-se o cons\u00f3rcio: Quis acreditar at\u00e9 hoje que fosse uma ilus\u00e3o, ou um sonho mau semelhante casamento; agora sei que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel duvidar da verdade. Pois qu\u00ea! tudo te esqueceu, o amor, as promessas, os castelos de felicidade, tudo, por amor de um velho rid\u00edculo, mas opulento, isto \u00e9, dono desse vil metal, etc., etc..<\/p>\n<p>O leitor sagaz suprir\u00e1 o resto da carta, acrescentando qualquer per\u00edodo tirado de qualquer romance da moda.<\/p>\n<p>Isto que a\u00ed fica escrito n\u00e3o muda em nada a situa\u00e7\u00e3o da pobre Carolina; condenada a receber recrimina\u00e7\u00f5es quando ia dar a m\u00e3o de esposa com o luto no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A \u00fanica resposta dada por ela \u00e0 carta de Fernando foi esta: Esque\u00e7a-se de mim.<\/p>\n<p>Fernando n\u00e3o assistiu ao casamento. L\u00facia assistiu triste como se fora um enterro. Em geral perguntava-se que amor estranho era aquele que levava Carolina a desfolhar a sua mocidade t\u00e3o vi\u00e7osa nos bra\u00e7os de semelhante homem. Ningu\u00e9m atinava com a resposta.<\/p>\n<p>Como eu n\u00e3o quero entreter os leitores com epis\u00f3dios in\u00fateis e narra\u00e7\u00f5es fastidiosas, salto aqui uns seis meses e vou lev\u00e1-los \u00e0 casa do Mendon\u00e7a, numa manh\u00e3 de inverno.<\/p>\n<p>L\u00facia, solteira ainda, est\u00e1 com Carolina, onde costuma ir passar alguns dias. N\u00e3o se fala na pessoa de Mendon\u00e7a; Carolina \u00e9 a primeira a respeit\u00e1-lo; a amiga respeita esses sentimentos.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que os seis primeiros meses de casamento foram para Carolina seis s\u00e9culos de l\u00e1grimas, de ang\u00fastia, de desespero. De longe a desgra\u00e7a parecia-lhe menor; mas desde que ela p\u00f4de tocar com o dedo o deserto \u00e1rido e seco em que entrou, ent\u00e3o n\u00e3o p\u00f4de resistir e chorou amargamente.<\/p>\n<p>Era o \u00fanico recurso que lhe restava: chorar. Uma porta de bronze separava-a para sempre da felicidade que sonhara nas suas ambi\u00e7\u00f5es de donzela. Ningu\u00e9m sabia dessa odiss\u00e9ia \u00edntima, menos L\u00facia, que ainda assim sabia mais por adivinhar e por surpreender as torturas menores da companheira dos primeiros anos.<\/p>\n<p>Estavam, pois, as duas em conversa, quando \u00e0s m\u00e3os de Carolina chegou uma carta assinada por Fernando.<\/p>\n<p>Pintava-lhe o antigo namorado o estado em que tinha o cora\u00e7\u00e3o, as dores que sofrera, as mortes de que escapara. Nessa s\u00e9rie de padecimentos, dizia ele, nunca perdera a coragem de viver para am\u00e1-la, embora de longe.<\/p>\n<p>A carta era abundante em coment\u00e1rios, mas eu julgo melhor conservar somente a subst\u00e2ncia dela.<\/p>\n<p>Leu-a Carolina, tr\u00eamula e confusa; esteve alguns minutos calada; depois rasgando a carta em tiras muito mi\u00fadas: \u2014 Pobre rapaz! \u2014 Que \u00e9? perguntou L\u00facia.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 uma carta de Fernando.<\/p>\n<p>L\u00facia n\u00e3o insistiu. Carolina indagou do escravo que lhe trouxera a carta o modo por que lhe havia chegado \u00e0s m\u00e3os. O escravo respondeu que um moleque lha entregara \u00e0 porta.<\/p>\n<p>L\u00facia deu ordem para que n\u00e3o recebesse cartas que viessem pelo mesmo portador.<\/p>\n<p>Mas no dia seguinte uma nova carta de Fernando chegou \u00e0s m\u00e3os de Carolina. Outro portador a entregara.<\/p>\n<p>Nessa carta Fernando pintava com cores negras a situa\u00e7\u00e3o em que se achava e pedia dois minutos de entrevista com Carolina.<\/p>\n<p>Carolina hesitou, mas releu a carta; ela parecia t\u00e3o desesperada e dolorosa, que a pobre mo\u00e7a, em quem falava um resto de amor por Fernando, respondeu afirmativamente.<\/p>\n<p>Ia mandar a resposta, mas de novo hesitou e rasgou o bilhete, protestando fazer o mesmo a quantas cartas chegassem.<\/p>\n<p>Durante os cinco dias seguintes vieram cinco cartas, uma por dia, mas todas ficaram sem resposta, como as anteriores.<\/p>\n<p>Enfim, na noite do quarto dia, Carolina achava-se no gabinete de trabalho, quando assomou \u00e0 janela que dava para o jardim a figura de Fernando.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a deu um grito e recuou.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o grite! disse o mo\u00e7o em voz baixa, podem ouvir&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas, fuja! fuja! \u2014 N\u00e3o! quis vir de prop\u00f3sito, a fim de saber se deveras n\u00e3o me amas, se esqueceste aqueles juramentos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o devo am\u00e1-lo!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o deve! Que tem o dever conosco? \u2014 Vou chamar algu\u00e9m! Fuja! Fuja! Fernando saltou para o quarto.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1s de chamar! A mo\u00e7a correu para a porta. Fernando travou-lhe do bra\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9 isso? disse ele; amo-te tanto, e tu foges de mim? Quem impede a nossa felicidade? \u2014 Quem? Meu marido! \u2014 Seu marido! Que temos n\u00f3s com ele? Ele&#8230;<\/p>\n<p>Carolina pareceu adivinhar um pensamento sinistro em Fernando e tapou os ouvidos.<\/p>\n<p>Nesse momento abriu-se a porta e apareceu L\u00facia.<\/p>\n<p>Fernando n\u00e3o p\u00f4de afrontar a presen\u00e7a da mo\u00e7a. Correu para a janela e saltou para o jardim.<\/p>\n<p>L\u00facia, que ouvira as \u00faltimas palavras dos dois, correu a abra\u00e7ar a amiga, exclamando: \u2014 Muito bem! muito bem! Dias depois Mendon\u00e7a e Carolina sa\u00edram para uma viagem de um ano. Carolina escrevia o seguinte a L\u00facia: Deixo-te, minha L\u00facia, mas assim \u00e9 preciso. Amei Fernando, e n\u00e3o sei se o amo agora, apesar do ato covarde que praticou. Mas eu n\u00e3o quero expor-me a um crime. Se o meu casamento \u00e9 um t\u00famulo, nem por isso posso deixar de respeit\u00e1-lo. Reza por mim e pede a Deus que te fa\u00e7a feliz.<\/p>\n<p>Foi para estas almas corajosas e honradas que se fez a bem-aventuran\u00e7a.<\/p>\n<p>IV Carlota e Hort\u00eancia Uma fila de cinq\u00fcenta carros, com um coche f\u00fanebre \u00e0 frente, dirigia-se para um dos cemit\u00e9rios da capital.<\/p>\n<p>O carro funer\u00e1rio conduzia o cad\u00e1ver de Carlota Durval, senhora de vinte e oito anos, morta no esplendor da beleza.<\/p>\n<p>Os que acompanhavam o enterro, apenas dois o faziam por estima \u00e0 finada: eram Lu\u00eds Patr\u00edcio e Valadares.<\/p>\n<p>Os mais iam por satisfazer a vaidade do vi\u00favo, um Jos\u00e9 Durval, homem de trinta e seis anos, dono de cinco pr\u00e9dios e de uma dose de fatuidade sem igual.<\/p>\n<p>Valadares e Patr\u00edcio, na qualidade de amigos da finada, eram os \u00fanicos que traduziam no rosto a profunda tristeza do cora\u00e7\u00e3o. Os outros levavam uma cara de tristeza oficial.<\/p>\n<p>Valadares e Patr\u00edcio iam no mesmo carro.<\/p>\n<p>\u2014 At\u00e9 que morreu a pobre senhora, disse o primeiro ao fim de algum sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014 Coitada! murmurou o outro.<\/p>\n<p>\u2014 Na flor da idade, acrescentava o primeiro, m\u00e3e de duas crian\u00e7as t\u00e3o bonitas, amadas por todos&#8230; Deus perdoe aos culpados! \u2014 Ao culpado, que foi s\u00f3 ele. Quanto \u00e0 outra, essa se n\u00e3o fora desinquietada&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Tens raz\u00e3o! \u2014 Mas ele deve ter remorsos.<\/p>\n<p>\u2014 Quais remorsos! \u00c9 incapaz de os ter. N\u00e3o o conheces, como eu? Ri e zomba de tudo.<\/p>\n<p>Isto para ele foi apenas um acidente; n\u00e3o lhe d\u00e1 maior import\u00e2ncia, acredita.<\/p>\n<p>Este pequeno di\u00e1logo d\u00e1 j\u00e1 ao leitor uma id\u00e9ia dos acontecimentos que precederam \u00e0 morte de Carlota.<\/p>\n<p>Como esses acontecimentos s\u00e3o o objeto destas linhas destinadas a apresentar o perfil desta quarta mulher, passo a narr\u00e1-los mui sucintamente.<\/p>\n<p>Carlota casara com vinte e dois anos. N\u00e3o sei por que apaixonara-se por Jos\u00e9 Durval, e menos ainda no tempo de solteira, de que depois de casada. O marido era para Carlota um \u00eddolo. S\u00f3 a id\u00e9ia de uma infidelidade da parte dele bastava para mat\u00e1-la.<\/p>\n<p>Viveram algum tempo no meio da mais perfeita paz, n\u00e3o que ele n\u00e3o desse \u00e0 mulher motivos de desgosto, mas porque eram estes t\u00e3o encobertos que nunca haviam chegado aos ouvidos da pobre mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Um ano antes Hort\u00eancia B., amiga de Carlota, separava-se do marido. Dizia-se que era por motivos de infidelidade conjugal da parte dele; mas ainda que o n\u00e3o fosse, Carlota receberia a amiga em sua casa, t\u00e3o amiga era dela.<\/p>\n<p>Carlota compreendia as dores que podiam trazer a uma mulher as infidelidades do marido; por isso recebeu Hort\u00eancia com os bra\u00e7os abertos e entusiasmo no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Era o mesmo que se uma rosa abrisse o seio confiante a um inseto venenoso.<\/p>\n<p>Dai a seis meses Carlota reconhecia o mal que tinha feito. Mas era tarde.<\/p>\n<p>Hort\u00eancia era amante de Jos\u00e9 Durval.<\/p>\n<p>Quando Carlota descobriu qual era a situa\u00e7\u00e3o de Hort\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o a ela, sufocou um grito. Era a um tempo, ci\u00fame, desprezo, vergonha. Se alguma coisa podia atenuar a dor que ela sentia, era a covardia do ato de Hort\u00eancia, que t\u00e3o mal pagava a hospitalidade que obtivera de Carlota.<\/p>\n<p>Mas o marido? N\u00e3o era igualmente culpado? Carlota avaliou de um relance toda a hediondez do proceder de ambos, e resolveu romper um dia.<\/p>\n<p>A frieza que come\u00e7ou a manifestar a Hort\u00eancia, mais do que isso, a repugn\u00e2ncia e o desd\u00e9m com que a tratava, despertou no esp\u00edrito desta a id\u00e9ia de que era preciso sair de uma situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o falsa.<\/p>\n<p>Todavia, retirar-se simplesmente seria confessar o crime. Hort\u00eancia dissimulou e um dia recriminou a Carlota os seus modos recentes de tratamento.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o tudo se clareou.<\/p>\n<p>Carlota, com uma c\u00f3lera sufocada, lan\u00e7ou em rosto \u00e0 amiga o procedimento que tivera em casa dela. Hort\u00eancia negou, mas era negar confessando, pois que nenhum tom de sinceridade tinha a sua voz.<\/p>\n<p>Depois disso era necess\u00e1rio sair. Hort\u00eancia, negando sempre o crime de que era acusada, declarou que sairia de casa.<\/p>\n<p>\u2014 Mas isso n\u00e3o desmente, nem remedia nada, disse Carlota com os l\u00e1bios tr\u00eamulos. \u00c9 simplesmente mudar o teatro das suas loucuras.<\/p>\n<p>Esta cena abalou a sa\u00fade de Carlota. No dia seguinte amanheceu doente. Hort\u00eancia apareceu para falar-lhe, mas ela voltou o rosto para a parede. Hort\u00eancia n\u00e3o voltou ao quarto, mas tamb\u00e9m n\u00e3o saiu da casa. Jos\u00e9 Durval imp\u00f4s essa condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Que dir\u00e1 o mundo? perguntava ele.<\/p>\n<p>A pobre mulher foi obrigada a sofrer mais essa humilha\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a foi r\u00e1pida e ben\u00e9fica, porque no fim de quinze dias Carlota expirava.<\/p>\n<p>Os leitores j\u00e1 assistiram ao enterro dela.<\/p>\n<p>Quanto a Hort\u00eancia, continuou a viver em casa de Jos\u00e9 Durval, at\u00e9 que se passassem os primeiros seis meses do luto, no fim dos quais casaram-se perante um concurso numeroso de amigos, ou pessoas que se davam por isso.<\/p>\n<p>Supondo que os leitores ter\u00e3o curiosidade de saber o que sucedeu depois, aqui termino com uma carta escrita, depois de dois anos da morte de Carlota, por Valadares a L.<\/p>\n<p>Patr\u00edcio.<\/p>\n<p>Meu amigo. Corte, 12 de&#8230; \u2014 Vou dar-te algumas not\u00edcias que te h\u00e3o de alegrar, como a mim, posto que a caridade evang\u00e9lica nos manda lastimar as desgra\u00e7as alheias. Mas h\u00e1 certas desgra\u00e7as que parecem um castigo do c\u00e9u e a alma sente-se satisfeita quando v\u00ea o crime punido.<\/p>\n<p>Lembras-te ainda da pobre Carlota Durval, morta de desgosto pela trai\u00e7\u00e3o do marido e de Hort\u00eancia? Sabes que esta ficou a viver em casa do vi\u00favo, e que no fim de seis meses casaram-se \u00e0 face da Igreja, como duas criaturas aben\u00e7oadas do c\u00e9u? Pois bem, ningu\u00e9m as fa\u00e7a que as n\u00e3o pague; Durval est\u00e1 mais do que nunca arrependido do passo que deu.<\/p>\n<p>Primeiramente, ao passo que a pobre Carlota era uma pomba sem fel, Hort\u00eancia \u00e9 um drag\u00e3o de saias, que n\u00e3o deixa o marido p\u00f4r p\u00e9 em ramo verde. S\u00e3o exig\u00eancias de toda a casta, exig\u00eancias de luxo, exig\u00eancias de honra, porque a fortuna de Durval n\u00e3o podendo resistir aos ataques de Hort\u00eancia, foi-se desmoronando a pouco e pouco.<\/p>\n<p>Os desgostos envelheceram o pobre Jos\u00e9 Durval. Mas se fosse apenas isso, era de agradecer a Deus. O caso, por\u00e9m, tornou-se pior; Hort\u00eancia, que tra\u00edra a amiga, n\u00e3o teve d\u00favida em trair o marido: Hort\u00eancia tem hoje um amante! \u00c9 realmente triste semelhante coisa, mas eu n\u00e3o sei por que esfreguei as m\u00e3os de contente quando soube da infidelidade de Hort\u00eancia. Parece que as cinzas da Carlota deviam estremecer de alegria debaixo da terra&#8230;<\/p>\n<p>Perdoe-me Deus a blasf\u00eamia, se acaso o \u00e9.<\/p>\n<p>Julguei que estas not\u00edcias te seriam agrad\u00e1veis, a ti que estimastes aquela pobre m\u00e1rtir.<\/p>\n<p>Ia acabando sem contar a cena que houve entre Durval e a mulher.<\/p>\n<p>Um bilhete mandado por H. (o amante) caiu nas m\u00e3os de Jos\u00e9 Durval, n\u00e3o sei por que terr\u00edvel acaso. Houve explos\u00e3o da parte do marido; mas o infeliz n\u00e3o tinha for\u00e7as para manter-se na sua posi\u00e7\u00e3o; dois gritos e dois sorrisos da mulher puseram-lhe \u00e1gua fria na c\u00f3lera.<\/p>\n<p>Da\u00ed em diante, Durval anda triste, cabisbaixo, taciturno. Emagrece a olhos vistos. Pobre homem! afinal de contas come\u00e7o a ter pena&#8230;<\/p>\n<p>Adeus, meu caro, vai cultivando, etc&#8230;<\/p>\n<p>Esta carta era dirigida a Campos, onde se achava L. Patr\u00edcio. A resposta deste foi a seguinte: Muito me contas, meu amigo Valadares, acerca dos algozes da Carlota. \u00c9 uma pag\u00e3, n\u00e3o deixes de cr\u00ea-lo, mas no que fazes mal, \u00e9 em mostrares alegria por essa desgra\u00e7a. Nem devemos t\u00ea-la, nem as cinzas de Carlota se regozijaram no outro mundo. Os maus, no fim de conta, s\u00e3o dignos de l\u00e1stima, por serem t\u00e3o fracos que n\u00e3o possam ser bons. E basta a puni\u00e7\u00e3o para ficarmos j\u00e1 condo\u00eddos do pobre homem.<\/p>\n<p>Falemos de outra coisa. Sabes que os cafezais&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o interessa aos leitores saber dos cafezais de L. Patr\u00edcio.<\/p>\n<p>O que interessa saber \u00e9 que Durval morreu de desgosto dentro de pouco tempo, e que Hort\u00eancia procurou na devo\u00e7\u00e3o de uma velhice prematura a expia\u00e7\u00e3o dos erros passados.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Aqui vai um grupo de cinco mulheres, diferentes entre si, partindo de diversos pontos, mas reunidas na mesma cole\u00e7\u00e3o, como em um \u00e1lbum de fotografias. Desenhei-as rapidamente, conforme apareciam, sem inten\u00e7\u00e3o de preced\u00eancia, nem cuidado de escolha. 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