{"id":114002,"date":"2017-03-16T22:06:20","date_gmt":"2017-03-17T00:06:20","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=114002"},"modified":"2017-03-16T22:06:20","modified_gmt":"2017-03-17T00:06:20","slug":"as-bodas-de-luis-duarte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/as-bodas-de-luis-duarte","title":{"rendered":"As Bodas de Lu\u00eds Duarte"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Na manh\u00e3 de um s\u00e1bado, 25 de abril, andava tudo em alvoro\u00e7o em casa de Jos\u00e9 lemos.<\/p>\n<p>Preparava-se o aparelho de jantar dos dias de festa, lavavam-se as escadas e os corredores, enchiamse os leit\u00f5es e os perus para serem assados no forno da padaria defronte; tudo era movimento; alguma coisa ia acontecer nesse dia.<\/p>\n<p>O arranjo da sala ficou a cargo de Jos\u00e9 Lemos. O respeit\u00e1vel dono da casa, trepado num banco, tratava de pregar\u00e1 parede duas gravuras compradas na v\u00e9spera em casa do Bernasconi; uma representava a Morte de Sardanapalo; outra a Execu\u00e7\u00e3o de Maria Stuart. Houve alguma luta entre ele e a mulher a respeito da coloca\u00e7\u00e3o da primeira gravura. D. Beatriz achou que era indecente um grupo de homens abra\u00e7ado com tantas mulheres. Al\u00e9m disso, n\u00e3o lhe pareciam pr\u00f3prios dois quadros f\u00fanebres em dia de festa. Jos\u00e9 lemos, que tinha sido membro de uma sociedade liter\u00e1ria, quando era rapaz, respondeu triunfantemente que os dois quadros eram hist\u00f3ricos. E que a hist\u00f3ria est\u00e1 bem em todas as fam\u00edlias. Podia acrescentar que nem todas as fam\u00edlias est\u00e3o bem na hist\u00f3ria; mas este trocadilho era mais l\u00fagubre que os quadros.<\/p>\n<p>D. Beatriz, com as chaves na m\u00e3o, mas sem a melena desgrenhada do son\u00eato de Tolentino, andava literalmente da sala para a cozinha, dando ordens, apressando as escravas, tirando toalhas e guardanapos lavados e mandando fazer compras, em suma, ocupada nas mil coisas que est\u00e3o a cargo de uma dona de casa, m\u00e1xime num dia de tanta magnitude.<\/p>\n<p>De quando em quando, chagava Dona Beatriz \u00e0 escada que ia ter ao segundo andar, e gritava: \u2013 Meninas, venham almo\u00e7ar! Mas parece que as meninas n\u00e3o tinham pressa, porque s\u00f3 depois das nove horas acudiram ao oitavo chamado da m\u00e3e, j\u00e1 disposta a subir ao quarto das pequenas o que era verdadeiro sacrif\u00edcio da parte de uma senhora t\u00e3o gorda.<\/p>\n<p>Eram duas moreninhas de truz as filhas do casal Lemos. Uma representava ter vinte anos, outra dezessete; ambas eram altas e um tanto refeitas. A mais velha estava um pouco p\u00e1lida; a outra, coradinha e alegre, desceu cantando n\u00e3o sei que romance do Alcazar, ent\u00e3o em moda.. parecia que das duas a mais feliz seria a que cantava; n\u00e3o era; a mais feliz era a outra que nesse dia devia ligarse pelos la\u00e7os matrimoniais ao jovem Lu\u00eds Duarte, com quem nutria longo e porfiado namoro.<\/p>\n<p>Estava p\u00e1lida por ter tido uma ins\u00f4nia terr\u00edvel, doen\u00e7a de que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o padecera nunca. H\u00e1 doen\u00e7as assim.<\/p>\n<p>Desceram as duas pequenas, tomaram a ben\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e3e, que lhes fez um r\u00e1pido discurso e foram \u00e0 sala para falar ao pai. Jos\u00e9 lemos, que pela s\u00e9tima vez trocava a posi\u00e7\u00e3o dos quadros, consultou as filhas sobre se era melhor que a Stuart ficasse do lado do sof\u00e1 ou do lado oposto. As meninas disseram que era melhor deix\u00e1-la onde estava, e esta opini\u00e3o p\u00f4s termo \u00e0s d\u00favidas de Jos\u00e9 lemos que deu por conclu\u00edda a tarefa e foi almo\u00e7ar.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de Jos\u00e9 Lemos, sua mulher Dona Beatriz, Carlota (a noiva) e Lu\u00edsa, estavam \u00e0 mesa Rodrigo Lemos e o menino Antonico, filhos tamb\u00e9m do casal Lemos. Rodrigo, tinha dezoito anos e Antonico seis; o Antonico era a miniatura do Rodrigo; distinguiam-se ambos por uma not\u00e1vel pregui\u00e7a, e nisso eram perfeitamente irm\u00e3os. Rodrigo desde as oito horas da manh\u00e3 gastou o tempo em duas coisas; ler os an\u00fancios do Jornal e ir \u00e0 cozinha saber em que altura estava o almo\u00e7o.<\/p>\n<p>Quanto ao Antonico, tinha comido \u00e0s seis horas um bom prato de mingau, na forma de costume, e s\u00f3 se ocupou em dormir tranq\u00fcilamente at\u00e9 que a mucama o foi chamar.<\/p>\n<p>O almo\u00e7o correu sem novidade. Jos\u00e9 lemos era homem que comia calado; Rodrigo contou o enredo da com\u00e9dia que vira na noite antecedente no Gin\u00e1sio; e n\u00e3o se falou em outra coisa durante o almo\u00e7o. Quando este acabou, Rodrigo levantou-se para ir fumar; e Jos\u00e9 Lemos encostando os bra\u00e7os na mesa perguntou se o tempo amea\u00e7ava chuva. Efetivamente o c\u00e9u estava sombrio, e a Tijuca n\u00e3o apresentava bom aspecto.<\/p>\n<p>Quando Antonico ia levantar-se, impetrada a licen\u00e7a, ouviu da m\u00e3e este aviso: \u2013 Olha l\u00e1, Antonico, n\u00e3o fa\u00e7as logo ao jantar o que fazes sempre que h\u00e1 gente de fora.<\/p>\n<p>\u2013 O que \u00e9 que ele faz? perguntou Jos\u00e9 Lemos.<\/p>\n<p>\u2013 Fica envergonhado e mete o dedo no nariz. S\u00f3 os meninos tolos \u00e9 que fazem isto: eu n\u00e3o quero semelhante coisa.<\/p>\n<p>O Antonico ficou envergonhado com a reprimenda e foi para a sala lavado em l\u00e1grimas. D.<\/p>\n<p>Beatriz correu logo atr\u00e1s para acalentar o seu Benjamin, e todos os mais se levantaram da mesa.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Lemos indagou da mulher se n\u00e3o faltava nenhum convite, e depois de certificar-se que estavam convidados todos os que deviam assistir \u00e0 festa, foi vestir-se para sair. Imediatamente foi incumbido de v\u00e1rias coisas: recomendar ao cabeleireiro que viesse cedo, comprar luvas para a mulher e as filhas, avisar de novo os carros, encomendar os sorvetes e os vinhos, e outras coisas mais em que poderia ser ajudado pelo jovem Rodrigo, se este hom\u00f4nimo do Cid n\u00e3o tivesse ido dormir para descansar o almo\u00e7o.<\/p>\n<p>Apenas Jos\u00e9 Lemos p\u00f4s a sola dos sapatos em contato com as pedras da rua, Dona Beatriz disse a sua filha Carlota que a acompanhasse \u00e0 sala, e apenas ali chegaram ambas, proferiu a boa senhora o seguinte speech: \u2013 Minha filha, hoje termina a sua vida de solteira, e amanh\u00e3 come\u00e7a a tua vida de casada.<\/p>\n<p>Eu, que j\u00e1 passei pela mesma transforma\u00e7\u00e3o, sei praticamente que o car\u00e1ter de uma senhora casada traz consigo responsabilidades grav\u00edssimas. Bom \u00e9 que cada qual aprenda \u00e0 sua custa; mas eu sigo nisto o exemplo de tua av\u00f3, que na v\u00e9spera da minha uni\u00e3o com teu pai, exp\u00f4s em linguagem clara e simples a significa\u00e7\u00e3o do casamento e a alta responsabilidade dessa nova posi\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>D. Beatriz estacou; Carlota que atribuiu o sil\u00eancio da m\u00e3e ao desejo de obter uma resposta, n\u00e3o achou melhor palavra do que um beijo amorosamente filial.<\/p>\n<p>Entretanto, se a noiva de Lu\u00eds Duarte tivesse espiado tr\u00eas dias antes pela fechadura do gabinete de seu pai, adivinharia que D. Beatriz recitava um discurso composto por Jos\u00e9 Lemos, e que o sil\u00eancio era simplesmente um eclipse de mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Melhor fora que D. Beatriz, como as outras m\u00e3es, tirasse alguns conselhos do seu cora\u00e7\u00e3o e da sua experi\u00eancia. O amor materno \u00e9 a melhor ret\u00f3rica deste mundo. Mas o Sr. Jos\u00e9 Lemos, que conservara desde a juventude um sestro liter\u00e1rio, achou que fazia mal expondo a cara metade a alguns erros gramaticais numa ocasi\u00e3o t\u00e3o solene.<\/p>\n<p>Continuou D. Beatriz o seu discurso, que n\u00e3o foi longo e terminou perguntando se realmente Carlota amava o noivo, e se aquele casamento n\u00e3o era, como podia acontecer, um resultado de despeito. A mo\u00e7a respondeu que amava o noivo tanto como a seus pais. A m\u00e3e acabou beijando a filha com ternura, n\u00e3o estudada na prosa de Jos\u00e9 Lemos.<\/p>\n<p>Pelas duas horas da tarde voltou este, suando em bica, mas satisfeito de si, porque al\u00e9m de ter dado conta de todas as incumb\u00eancias da mulher, relativas aos carros, cabeleireiro, etc., conseguiu que o tenente Porf\u00edrio fosse l\u00e1 jantar, coisa que at\u00e9 ent\u00e3o, estava duvidosa.<\/p>\n<p>O tenente Porf\u00edrio era o tipo do orador de sobremesa; possu\u00eda o entono, a facilidade, a gra\u00e7a, todas as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias a esse mister. A posse de t\u00e3o belos talentos proporcionava ao tenente Porf\u00edrio alguns lucros de valor; raro domingo ou dia de festa jantava em casa. Convidava-se o tenente Porf\u00edrio com a condi\u00e7\u00e3o t\u00e1cita de fazer um discurso, como se convida um m\u00fasico para tocar alguma coisa. O tenente Porf\u00edrio estava entre o creme e o caf\u00e9; e n\u00e3o se cuide que era acepipe gratuito; o bom homem, se bem falava. Melhor comia. De maneira que, bem pesadas as coisas, o discurso valia o jantar.<\/p>\n<p>Foi grande assunto de debate nos tr\u00eas dias anteriores ao dia das bodas, se o jantar devia preceder a cerim\u00f4nia ou vice-versa. O pai da noiva inclinava-se a que o casamento fosse celebrado depois do jantar, e nisto era apoiado pelo jovem Rodrigo, que com uma sagacidade digna de estadista, percebeu que, no caso contr\u00e1rio, o jantar seria muito tarde. Prevaleceu entretanto a opini\u00e3o de D. Beatriz que achou esquisito ir para a igreja com a barriga cheia. Nenhuma raz\u00e3o teol\u00f3gica ou disciplinar se opunha a isso, mas a esposa de Jos\u00e9 Lemos tinha opini\u00f5es especiais em assunto de igreja.<\/p>\n<p>Venceu a sua opini\u00e3o.<\/p>\n<p>Pelas quatro horas come\u00e7aram a chegar convidados.<\/p>\n<p>Os primeiros foram os Vilelas, fam\u00edlia composta de Justiniano Vilela, chefe de se\u00e7\u00e3o aposentado, D. Margarida, sua esposa, e D. Augusta, sobrinha de ambos.<\/p>\n<p>A cabe\u00e7a de Justiniano Vilela, &#8211; se se pode chamar cabe\u00e7a a uma jaca metida numa gravata de cinco voltas, &#8211; era um exemplo da prodigalidade da natureza quando quer fazer cabe\u00e7as grandes.<\/p>\n<p>Afirmavam, por\u00e9m, algumas pessoas que o talento n\u00e3o correspondia ao tamanho, posto que tivesse corrido algum tempo o boato contr\u00e1rio. N\u00e3o sei de que talento falavam essas pessoas; e a palavra pode ter v\u00e1rias explica\u00e7\u00f5es. O certo \u00e9 que um talento teve Justiniano vilela, foi a escolha da mulher, senhora que, apesar dos seus quarenta e seis anos bem puxados, ainda merecia, no entender de Jos\u00e9 Lemos, dez minutos de aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Trajava Justiniano Vilela como \u00e9 de uso em tais reuni\u00f5es; e a \u00fanica coisa verdadeiramente digna de nota eram os seus sapatos ingleses de apertar no peito do p\u00e9 por meio de cord\u00f5es. Ora, como o marido de D. Margarida tinha horror \u00e0s cal\u00e7as compridas, aconteceu que apenas se sentou deixou patente a alvura de um fino e imaculado par de meias.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do ordenado com que foi aposentado, tinha Justiniano Vilela uma casa e dois molecotes, e com isto ia vivendo menos mal. N\u00e3o gostava de pol\u00edtica; mas tinha opini\u00f5es assentadas a respeito dos neg\u00f3cios p\u00fablicos. Jogava o solo e o gam\u00e3o todos os dias, alternadamente; gabava as coisas so seu tempo, e tomava rap\u00e9 com o dedo polegar e o dedo m\u00e9dio.<\/p>\n<p>Outros convidados foram chegando, mas em pequena quantidade, porque \u00e0 cerim\u00f4nia e ao jantar s\u00f3 devia assistir um pequeno n\u00famero de pessoas \u00edntimas.<\/p>\n<p>\u00c0s quatro horas e meia chegou o padrinho, Dr. Valen\u00e7a, e a madrinha sua irm\u00e3 vi\u00fava, D.<\/p>\n<p>Virg\u00ednia. Jos\u00e9 Lemos correu a abra\u00e7ar o Dr. Valen\u00e7a; mas este que era homem formalista e cerimonioso, repeliu brandamente dizendo-lhe ao ouvido que naquele dia toda a gravidade era pouca. Depois, com uma serenidade que s\u00f3 ele possu\u00eda, entrou o Dr. Valen\u00e7a e foi cumprimentar a dona da casa e as outras senhoras.<\/p>\n<p>Era ele homem de seus cinq\u00fcenta anos, nem gordo nem magro, mas dotado de um largo peito e um largo abd\u00f4men que lhe davam maior gravidade ao rosto e \u00e0s maneiras. O abd\u00f4men \u00e9 a express\u00e3o mais positiva da gravidade humana; um homem magro tem necessariamente os movimentos r\u00e1pidos; ao passo que para ser completamente grave precisa ter os movimentos tardos e medidos. Um homem verdadeiramente grave n\u00e3o pode gastar menos de dois minutos em tirar o len\u00e7o e assoar-se. O Dr. Valen\u00e7a gastava tr\u00eas quando estava com defluxo e quatro no estado normal.<\/p>\n<p>Era um homem grav\u00edssimo.<\/p>\n<p>Insisto neste ponto porque \u00e9 a maior prova de intelig\u00eancia do Dr. Valen\u00e7a. Compreendeu este advogado, logo que saiu da academia, que a primeira condi\u00e7\u00e3o para merecer a considera\u00e7\u00e3o dos outros era ser grave; e indagando o que era gravidade, pareceu-lhe que n\u00e3o era nem o peso da reflex\u00e3o, nem a seriedade do esp\u00edrito, mas unicamente certo mist\u00e9rio do corpo, como se lhe chama La Rochefoucauld; o qual mist\u00e9rio, acrescentar\u00e1 o leitor, \u00e9 como a bandeira dos neutros em tempo de guerra: salva do exame a carga que cobre. Podia-se dar uma boa gratifica\u00e7\u00e3o a quem descobrisse uma ruga na casaca do Dr. Valen\u00e7a. O colete tinha apenas tr\u00eas bot\u00f5es e abria-se at\u00e9 ao pesco\u00e7o em forma de cora\u00e7\u00e3o. Um elegante claque completava a toilette do Dr. Valen\u00e7a. N\u00e3o era ele bonito de fei\u00e7\u00f5es no sentido afeminado que alguns d\u00e3o \u00e0 beleza masculina; mas n\u00e3o deixava de ter certa corre\u00e7\u00e3o nas linhas do rosto, o qual se cobria de um v\u00e9u de serenidade que lhe ficava a matar.<\/p>\n<p>Depois da entrada dos padrinhos, Jos\u00e9 Lemos perguntou pelo noivo, e o Dr. Valen\u00e7a respondeu que n\u00e3o sabia dele. Eram j\u00e1 cinco horas. Os convidados, que cuidavam ter chegado tarde para a cerim\u00f4nia, ficaram desagradavelmente surpreendidos com a demora, e Justiniano Vilela confessou ao ouvido da mulher que estava arrependido de n\u00e3o ter comido alguma coisa antes. Era justamente o que estava fazendo o jovem Rodrigo Lemos, desde que percebeu que o jantar viria l\u00e1 para as sete horas.<\/p>\n<p>A irm\u00e3 do Dr. Valen\u00e7a, de quem n\u00e3o falei detidamente por ser uma das figuras insignificantes que jamais produziu a ra\u00e7a de Eva, apenas entrou manifestou logo o desejo de ir ver a noiva, e D.<\/p>\n<p>Beatriz saiu com ela da sala, deixando plena liberdade ao marido que encetava uma conversa\u00e7\u00e3o com a interessante esposa do Sr. Vilela.<\/p>\n<p>\u2013 Os noivos de hoje n\u00e3o se apressam, disse filosoficamente Justiniano; quando eu me casei fui o primeiro que apareceu em casa da noiva.<\/p>\n<p>A esta observa\u00e7\u00e3o, toda filha do est\u00f4mago implac\u00e1vel do ex-chefe de se\u00e7\u00e3o, o Dr. Valen\u00e7a respondeu dizendo: \u2013 Compreendo a demora e a como\u00e7\u00e3o de aparecer diante da noiva.<\/p>\n<p>Todos sorriram ouvindo esta defesa do noivo ausente e a conversa tomou certa anima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Justamente, no momento em que Vilela discutia com o Dr. Valen\u00e7a as vantagens do tempo antigo sobre o tempo atual, e as mo\u00e7as conversavam entre si do \u00faltimo corte dos vestidos, entrou na sala a noiva, escoltada pela m\u00e3e e pela madrinha, vindo logo na retaguarda a interessante Lu\u00edsa, acompanhada do jovem Antonico.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o seria narrador, exato nem de bom gosto se n\u00e3o dissesse que houve na sala um murm\u00fario de admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Carlota estava efetivamente deslumbrante com o seu vestido branco, e a sua grinalda de flores de laranjeira, e o seu fin\u00edssimo v\u00e9u, sem outra j\u00f3ia mais que os seus olhos negros, verdadeiros diamantes da melhor \u00e1gua.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Lemos interrompeu a conversa em que estava com a esposa de Justiniano e contemplou a filha. Foi a noiva apresentada aos convidados, e conduzida para o sof\u00e1, onde se sentou entre a madrinha e o padrinho. Este, pondo o claque em p\u00e9 sobre a perna, e sobre o claque a m\u00e3o aperta\u0001a numa luva de tr\u00eas mil e quinhentos, disse \u00e0 afilhada palavras de louvor que a mo\u00e7a ouviu corando e sorrindo, alian\u00e7a am\u00e1vel de vaidade e mod\u00e9stia.<\/p>\n<p>Ouviram-se passos na escada, e j\u00e1 o Sr. Jos\u00e9 Lemos esperava ver entrar o futuro genro, quando assomou \u00e0 porta o grupo dos irm\u00e3os Valadares.<\/p>\n<p>Destes dois irm\u00e3os, o mais velho que se chamava Calisto, era um homem amarelo, nariz aquilino, cabelos e olhos redondos. Chamava-se o mais mo\u00e7o Eduardo, e s\u00f3 se diferenciava do irm\u00e3o na cor, que era vermelha. Eram ambos empregados numa Companhia, e estavam na flor dos quarenta para cima. Outra diferen\u00e7a havia: era que Eduardo cultivava a poesia quando as cifras lho permitiam, ao passo que o irm\u00e3o era inimigo de tudo o que cheirava a literatura.<\/p>\n<p>Passava o tempo, e nem o noivo, nem o tenente Porf\u00edrio davam sinais de si. O noivo era essencial para o casamento, e o tenente para o jantar. Eram cinco e meia quando apareceu finalmente Lu\u00eds Duarte. Houve um Gl\u00f3ria in excelsis Deo no interior de todos os convidados.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Duarte apareceu \u00e0 porta da sala, e da\u00ed mesmo fez uma cortesia geral, cheia de gra\u00e7a e t\u00e3o cerimoniosa que o padrinho lha invejou.<\/p>\n<p>Era um rapaz de vinte e cinco anos, tez mui alva, bigode louro e sem barba nenhuma. Trazia o cabelo apartado no centro da cabe\u00e7a. Os l\u00e1bios eram t\u00e3o rubros que um dos Valadares disse ao ouvido do outro: parece que os tingiu. Em suma, Lu\u00eds Duarte era uma figura capaz de agradar a uma mo\u00e7a de vinte anos, e eu n\u00e3o teria grande repugn\u00e2ncia em chamar-lhe um Ad\u00f4nis, se ele realmente o fosse. Mas n\u00e3o era. Dada a hora, sa\u00edram os noivos, os pais e os padrinhos, e foram \u00e0 igreja, que ficava perto; os outros convidados ficaram em casa, fazendo as honras dela a menina Lu\u00edsa e o jovem Rodrigo, a quem o pai foi chamar, e que apareceu logo trajado no rigor da moda.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 um par de pombos, disse a Sra. D. Margarida Vilela, apenas saiu a comitiva.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 verdade! disseram em coro os dois irm\u00e3os Valadares e Justiniano Vilela.<\/p>\n<p>A menina Lu\u00edsa, que era alegre por natureza, alegrou a situa\u00e7\u00e3o, conversando com as outras mo\u00e7as, uma das quais, a convite seu, foi tocar alguma coisa ao piano. Calisto Valadares suspeitava que houvesse uma omiss\u00e3o nas Escrituras, e vinha a ser que entre as pragas do Egito devia ter figurado o piano. Imagine o leitor com que cara viu ele sair uma das mo\u00e7as do seu lugar e dirigir-se ao fatal instrumento. Soltou um longo suspiro e come\u00e7ou a contemplar as duas gravuras compradas na v\u00e9spera.<\/p>\n<p>\u2013 Que magn\u00edfico \u00e9 isso! exclamou ele diante do Sardanapalo, quadro que achava detest\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u2013 Foi papai quem escolheu, disse Rodrigo, e foi essa a primeira palavra que pronunciou desde que entrou na sala.<\/p>\n<p>\u2013 Pois, senhor, tem bom gosto, continuou Calisto; n\u00e3o sei se conhecem o assunto do quadro&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 O assunto \u00e9 Sardanapalo, disse afoitamente Rodrigo.<\/p>\n<p>\u2013 Bem sei, retrucou Calisto, estimando que a conversa pegasse; mas pergunto se&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o pode acabar; soaram os primeiros compassos.<\/p>\n<p>Eduardo, que na sua qualidade de poeta, devia amar a m\u00fasica, aproximou-se do piano e inclinou-se sobre ele na posi\u00e7\u00e3o melanc\u00f3lica de um homem que conversa com as musas. Quanto ao irm\u00e3o, n\u00e3o tendo podido evitar a cascata de notas, foi sentar-se ao p\u00e9 de Vilela, com quem travou conversa, come\u00e7ando por perguntar que horas eram no rel\u00f3gio dele. Era tocar na tecla mais preciosa do ex-chefe de se\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 j\u00e1 tarde, disse este com voz fraca; olhe, seis horas.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o podem tardar muito.<\/p>\n<p>\u2013 Eu sei! A cerim\u00f4nia \u00e9 longa, e talvez n\u00e3o achem o padre&#8230;<\/p>\n<p>Os casamentos deviam fazer-se em casa e de noite.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 a minha opini\u00e3o.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a terminou o que estava tocando; Calisto suspirou. Eduardo, que estava encostado ao piano, cumprimentou a executante com entusiasmo.<\/p>\n<p>\u2013 Por que n\u00e3o toca mais alguma coisa? disse ele.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 verdade, Mariquinhas, toca alguma coisa da Son\u00e2mbula, disse Lu\u00edsa obrigando a amiga a sentar-se.<\/p>\n<p>\u2013 Sim! a Son&#8230;<\/p>\n<p>Eduardo n\u00e3o pode acabar; viu em frente os dois olhos repreensivos do irm\u00e3o e fez uma careta.<\/p>\n<p>Interromper uma frase e fazer uma careta podia ser ind\u00edcio de um calo. Todos assim pensaram, exceto Vilela, que, julgando os outros por si, ficou convencido de que algum grito agudo do est\u00f4mago tinha interrompido a voz de Eduardo. E, como acontece \u00e0s vezes, a dor alheia despertou a pr\u00f3pria, de maneira que o est\u00f4mago de Vilela formulou um verdadeiro ultimatum, ao qual o homem cedeu, aproveitando a intimidade que tinha na casa e indo ao interior sob pretexto de dar exerc\u00edcio \u00e0s pernas.<\/p>\n<p>Foi uma felicidade.<\/p>\n<p>A mesa, que j\u00e1 tinha em cima de si alguns acepipes convidativos, apareceu como uma verdadeira fonte de Mois\u00e9s aos olhos do ex-chefe de se\u00e7\u00e3o. Dois pastelinhos e um croquette foram os parlamentares que Vilela mandou ao est\u00f4mago rebelado e com os quais aquela v\u00edscera se conformou.<\/p>\n<p>No entanto D. Mariquinhas fazia maravilhas ao piano; Eduardo encostado \u00e0 janela parecia meditar um suic\u00eddio, ao passo que o irm\u00e3o brincando com a corrente do rel\u00f3gio umas confid\u00eancias de Dona Margarida a respeito do mau servi\u00e7o dos escravos. Quando Rodrigo, passeava de um lado para outro, dizendo de vez em quando em voz alta: \u2013 J\u00e1 tardam! Eram seis horas e um quarto; nada de carros, algumas pessoas j\u00e1 estavam impacientes. \u00c0s seis e vinte minutos ouviu-se um rumor de rodas; Rodrigo correu \u00e0 janela: era um tuburi. \u00c0s seis e vinte e cinco minutos todos supuseram ouvir o rumor dos carros.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 agora, exclamou uma voz.<\/p>\n<p>N\u00e3o era nada. Pareceu-lhes ouvir por um efeito (desculpem a aud\u00e1cia com que eu caso este substantivo a este adjetivo) por um efeito de miragem auricular.<\/p>\n<p>\u00c0s seis e trinta e oito minutos apareceram os carros. Grande alvoro\u00e7o na sala; as senhoras correram \u00e1s janelas. Os homens olharam uns para os outros como conjurados que medem as suas for\u00e7as para uma grande surpresa. Toda a comitiva entrou. As escravas da casa, que espreitavam do corredor a entrada dos noivos, causaram uma verdadeira surpresa \u00e0 sinh\u00e1 mo\u00e7a, deitando-lhe sobre a cabe\u00e7a um dil\u00favio de folhas de rosa. Cumprimentos e beijos, houve tudo quanto se faz em tais ocasi\u00f5es.<\/p>\n<p>O Sr. Jos\u00e9 lemos estava content\u00edssimo, mas caiu-lhe \u00e1gua na fervura quando soube que o tenente Porf\u00edrio n\u00e3o tinha chegado.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 preciso mand\u00e1-lo chamar.<\/p>\n<p>\u2013 A esta hora! murmurou Calisto Valadares.<\/p>\n<p>\u2013 Sem o Porf\u00edrio n\u00e3o h\u00e1 festa completa, disse o Sr. Jos\u00e9 Lemos confidencialmente ao Dr.<\/p>\n<p>Valen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2013 Papai, disse Rodrigo, eu creio que ele n\u00e3o vem.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 imposs\u00edvel! \u2013 S\u00e3o quase sete horas.<\/p>\n<p>\u2013 E o jantar j\u00e1 nos espera, acrescentou D. Beatriz.<\/p>\n<p>O voto de D. Beatriz pesava muito no \u00e2nimo de Jos\u00e9 Lemos; por isso n\u00e3o insistiu. N\u00e3o houve rem\u00e9dio sen\u00e3o sacrificar o tenente.<\/p>\n<p>Mas o tenente era homem das situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis, o salvador dos lances arriscados. Mal acabava D. Beatriz de falar, e Jos\u00e9 lemos de assentir mentalmente \u00e0 opini\u00e3o da mulher, ouviu-se a escada a voz do tenente Porf\u00edrio. O dono da casa soltou um suspiro de al\u00edvio e satisfa\u00e7\u00e3o. Entrou na sala o longamente esperado conviva.<\/p>\n<p>Pertencia o tenente a essa classe feliz de homens que n\u00e3o t\u00eam idade; uns lhe davam 30 anos, outros 35 e outros 40; alguns chegavam at\u00e9 os 45, e tanto esses como os outros podiam ter igualmente raz\u00e3o. A todas as hip\u00f3teses se prestavam a cara e as su\u00ed\u00e7as castanhas do tenente. Era ele magro e de estatura me\u00e3; vestia com certa gra\u00e7a, e, comparado com um boneco n\u00e3o havia grande diferen\u00e7a. A \u00fanica coisa que destoava um pouco era o modo de pisar; o tenente Porf\u00edrio pisava para fora a tal ponto, que da ponta do p\u00e9 esquerdo \u00e0 ponta do p\u00e9 direito, quase se podia tra\u00e7ar uma linha reta. Mas como tudo tem compensa\u00e7\u00e3o, usava ele sapatos rasos de verniz, mostrando um fino par de meias de fio de Esc\u00f3cia mais lisas que a superf\u00edcie de uma bola de bilhar.<\/p>\n<p>Entrou com a gra\u00e7a que lhe era peculiar. Para cumprimentar os noivos arredondou o bra\u00e7o direito, p\u00f4s a m\u00e3o atr\u00e1s das costas segurando o chap\u00e9u, e curvou profundamente o busto, ficando em posi\u00e7\u00e3o que fazia lembrar (de longe!) os antigos lampi\u00f5es das nossas ruas.<\/p>\n<p>Porf\u00edrio tinha sido tenente do ex\u00e9rcito, e dera baixa, com o que andou perfeitamente, porque entrou no com\u00e9rcio de trastes e j\u00e1 possu\u00eda algum pec\u00falio. N\u00e3o era bonito, mas algumas senhoras afirmavam que apesar disso era mais perigoso que uma lata de nitroglicerina. Naturalmente n\u00e3o devia essa qualidade \u00e0 gra\u00e7a da linguagem, pois falava sibilando muito a letra s; dizia assim: Asss minhasss botasss&#8230;<\/p>\n<p>Quando Porf\u00edrio acabou os cumprimentos, disse-lhe o dono da casa: \u2013 J\u00e1 sei que hoje temos coisa boa! \u2013 Qual! respondeu ele com uma mod\u00e9stia exemplar; quem ousar\u00e1 levantar a voz diante de ilustra\u00e7\u00f5es? Porf\u00edrio disse estas palavras pondo os quatro dedos da m\u00e3o esquerda no bolso do colete, gesto que ele praticava por n\u00e3o saber onde havia de por aquele fatal bra\u00e7o, obst\u00e1culo dos atores nov\u00e9is.<\/p>\n<p>\u2013 Mas por que veio tarde? perguntou D. Beatriz.<\/p>\n<p>\u2013 Condene-me, minha senhora, mas poupe-me a vergonha de explicar uma demora que n\u00e3o tem atenuante no c\u00f3digo da amizade e da polidez.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Lemos sorriu olhando para todos e como se destas palavras do tenente lhe resultasse alguma gl\u00f3ria para ele. Mas Justiniano Vilela que, apesar dos pestelinhos, sentia-se impelido para a mesa, exclamou velhacamente: \u2013 Felizmente chegou \u00e0 hora de jantar! \u2013 \u00c9 verdade; vamos para a mesa, disse Jos\u00e9 Lemos dando o bra\u00e7o a D. Margarida e a D.<\/p>\n<p>Virg\u00ednia. Seguiram-se os mais em prociss\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 mais j\u00fabilo nos peregrinos de Meca do que houve nos convivas ao avistarem uma longa mesa, profusamente servida, alastrada de porcelanas e cristais, assados, doces e frutas.<\/p>\n<p>Sentaram-se em boa ordem. Durante alguns minutos houve aquele sil\u00eancio que precede a batalha, e s\u00f3 no fim dela, come\u00e7ou a geral conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 Quem diria h\u00e1 um ano, quando eu aqui apresentei o nosso Duarte que ele seria hoje noivo desta interessante D. Carlota? disse o Dr. Valen\u00e7a limpando os l\u00e1bios com o guardanapo, e lan\u00e7ando um ben\u00e9volo olhar para a noiva.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 verdade! disse D. Beatriz.<\/p>\n<p>\u2013 Parece dedo da Provid\u00eancia, opinou a mulher de Vilela.<\/p>\n<p>\u2013 Parece, e \u00e9, disse D. Beatriz.<\/p>\n<p>\u2013 Se \u00e9 o dedo da Provid\u00eancia, acudiu o noivo, agrade\u00e7o aos c\u00e9us o interesse que toma por mim.<\/p>\n<p>Sorriu D. Carlota e Jos\u00e9 Lemos achou o dito de bom gosto e digno de um genro.<\/p>\n<p>\u2013 Provid\u00eancia ou acaso? perguntou o tenente. Eu sou mais pelo acaso.<\/p>\n<p>\u2013 Vai mal, disse Vilela que, pela primeira vez levantara a cabe\u00e7a do prato; isso que o senhor chama acaso n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o a Provid\u00eancia. O casamento e a mortalha no c\u00e9u se talha.<\/p>\n<p>Ah! o senhor acredita nos prov\u00e9rbios? \u00c9 a sabedoria das na\u00e7\u00f5es, disse Jos\u00e9 Lemos.<\/p>\n<p>N\u00e3o, insistiu o tenente Porf\u00edrio, repare que para cada prov\u00e9rbio afirmando a coisa contr\u00e1ria.<\/p>\n<p>Os prov\u00e9rbios mentem. Eu creio que foi simplesmente um felic\u00edssimo acaso, ou antes uma lei de atra\u00e7\u00e3o das almas que fez com que o Sr. Lu\u00eds Duarte se aproximasse da interessante filha do nosso anfitri\u00e3o.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 lemos ignorava at\u00e9 aquela data se era anfitri\u00e3o; mas considerou que da parte de Porf\u00edrio n\u00e3o podia vir coisa m\u00e1. Agradeceu sorrindo o que lhe pareceu cumprimento, enquanto se servia da gelatina que Justiniano Vilela dizia estar excelente.<\/p>\n<p>As mo\u00e7as conversavam baixinho e sorrindo; os noivos estavam embebidos com a troca de palavras amorosas, ao passo que Rodrigo palitava os dentes com tal ru\u00eddo, que a m\u00e3e n\u00e3o pode deixar de lhe lan\u00e7ar um desses olhares fulminantes que eram as suas melhores armas.<\/p>\n<p>\u2013 Quer gelatina, Sr. Calisto? perguntou Jos\u00e9 Lemos com a colher no ar.<\/p>\n<p>\u2013 Um pouco, disse o homem de cara amarela.<\/p>\n<p>\u2013 A gelatina \u00e9 excelente! disse pela terceira vez o marido de D. Margarida, e t\u00e3o envergonhada ficou a mulher com estas palavras do homem que n\u00e3opode reter um gesto de desgosto.<\/p>\n<p>\u2013 Meus senhores, disse o padrinho, eu bebo aos noivos.<\/p>\n<p>\u2013 Bravo! disse uma voz.<\/p>\n<p>\u2013 S\u00f3 isso? perguntou Rodrigo; deseja-se uma sa\u00fade historiada.<\/p>\n<p>\u2013 Mam\u00e3e: eu quero gelatina! disse o menino Antonico.<\/p>\n<p>\u2013 Eu n\u00e3o sei fazer discursos: bebo simplesmente \u00e0 sa\u00fade dos noivos.<\/p>\n<p>Todos beberam.<\/p>\n<p>\u2013 Quero gelatina! insistiu o filho de Jos\u00e9 Lemos.<\/p>\n<p>D. Beatriz sentiu \u00edmpetos de med\u00e9ia; o respeito aos convidados impediu que ali houvesse uma cena grave. A boa senhora limitou-se a dizer a um dos serventes: \u2013 Leva isto a nhonh\u00f4&#8230;<\/p>\n<p>O Antonico recebeu o prato, e entrou a comer como comem as crian\u00e7as quando n\u00e3o t\u00eam vontade: levava uma colherada \u00e0 boca e demorava-se tempo infinito rolando o conte\u00fado da colher entre a l\u00edngua e o paladar, ao passo que a colher, empurrada por um lado formava na bochecha direita uma pequena eleva\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo agitava o pequeno as pernas de maneira que batia alternadamente na cadeira e na mesa.<\/p>\n<p>Enquanto se davam estes incidentes, em que ningu\u00e9m realmente reparava, a conversa continuava seu caminho. O Dr. Valen\u00e7a discutia com uma senhora a excel\u00eancia do vinho Xerez, e Eduardo Valadares recitava uma d\u00e9cima \u00e0 mo\u00e7a que lhe ficava ao p\u00e9.<\/p>\n<p>De repente levantou-se Jos\u00e9 lemos.<\/p>\n<p>\u2013 Sio! sio! sio! gritaram todos impondo sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 lemos pegou num copo e disse aos circunstantes: \u2013 N\u00e3o \u00e9, meus senhores, a vaidade de ser ouvido por t\u00e3o not\u00e1vel assembl\u00e9ia que me obriga a falar. \u00c9 um alto dever de cortesia, de amizade, de gratid\u00e3o; um desses deveres que podem mais que todos os outros, dever santo, dever imortal.<\/p>\n<p>A estas palavras a assembl\u00e9ia seria cruel se n\u00e3o aplaudisse. O aplauso n\u00e3o atrapalhou o orador, pela simples raz\u00e3o de que ele sabia o discurso de cor.<\/p>\n<p>\u2013 Sim, senhores. Curvo-me a esse dever, que \u00e9 para mim a lei mais santa e imperiosa. Eu bebo aos meus amigos, a estes sect\u00e1rios do cora\u00e7\u00e3o, a estas vestais, tanto masculinas como femininas, do puro fogo da amizade! Aos meus amigos! \u00e0 amizade! Ao falar verdade, o \u00fanico homem que percebeu a nulidade do discurso de Jos\u00e9 Lemos foi o Dr. Valen\u00e7a, que ali\u00e1s n\u00e3o era \u00e1guia. Por isso mesmo levantou-se e fez um brinde aos talentos orat\u00f3rios do anfitri\u00e3o.<\/p>\n<p>Seguiu-se a estes dois brindes o sil\u00eancio de uso, at\u00e9 que Rodrigo dirigindo-se ao tenente Porf\u00edrio perguntou-lhe se havia deixado a musa em casa.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 verdade! queremos ouvi-lo, disse uma senhora; dizem que fala t\u00e3o bem! \u2013 Eu, minha senhora? respondeu Porf\u00edro com aquela mod\u00e9stia de um homem que se sup\u00f5e um S. Jo\u00e3o Boca de Ouro.<\/p>\n<p>Distribuiu-se o champanhe; e o tenente Porf\u00edrio levantou-se. Vilela, que se achava um pouco distante, p\u00f4s a m\u00e3o em forma de concha atr\u00e1s da orelha direita, ao passo que Calisto ficando um olhar profundo sobre a toalha parecia estar contando os fios do tecido. Jos\u00e9 lemos chamou a aten\u00e7\u00e3o da mulher, que nesse momento servia uma castanha gelada ao implac\u00e1vel Antonico; todos os mais estavam com os olhos no orador.<\/p>\n<p>\u2013 Minhas senhoras! meus senhores! Disse Porf\u00edrio; n\u00e3o irei esquadrinhar no \u00e2mago da hist\u00f3ria, essa mestra da vida, o que era o himeneu nas priscas da humanidade. Seria lan\u00e7ar a luva do esc\u00e1rnio \u00e0s faces imaculadas desta brilhante reuni\u00e3o. Todos n\u00f3s sabemos, senhoras e senhores, o que \u00e9 o himeneu. O himeneu \u00e9 a rosa, rainha dos verg\u00e9is, abrindo as p\u00e9talas rubras, para amenizar os cardos, os abrolhos, os espinhos da vida&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Bravo! \u2013 Bonito! \u2013 Se o himeneu \u00e9 isto que eu acabo de expor aos vossos sentidos auriculares, n\u00e3o \u00e9 mister explicar o g\u00e1udio, o fervor, os \u00edmpetos de amor, as explos\u00f5es de sentimento com que todos n\u00f3s estamos \u00e0 roda deste altar, celebrando a festa do nosso caro e prezad\u00edssimo amigo.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Lemos curvou a cabe\u00e7a at\u00e9 tocar com a ponta do nariz numa p\u00eara que tinha diante de si, enquanto D. Beatriz voltando-se para o Dr. Valen\u00e7a, que lhe ficava ao p\u00e9, dizia: \u2013 Fala muito bem! Parece um dicion\u00e1rio! Jos\u00e9 Porf\u00edrio continuou: \u2013 Sinto, senhores, n\u00e3o ter um talento digno do assunto&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o apoiado! est\u00e1 falando muito bem! disseram muitas vozes em volta do orador.<\/p>\n<p>\u2013 Agrade\u00e7o a bondade de V. Exas.; mas eu persisto na cren\u00e7a de que n\u00e3o tenho o talento capaz de arcar com um objeto de tanta magnitude.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o apoiado! \u2013 V. Exas. Confundem-me, respondeu Porf\u00edrio curvando-se. N\u00e3o tenho esse talento; mas sobra-me boa vontade, aquela boa vontade com que os ap\u00f3stolos plantaram no mundo a religi\u00e3o do Calv\u00e1rio, e gra\u00e7as a este sentimento poderei resumir em duas palavras o brinde aos noivos.<\/p>\n<p>Senhores, duas flores nasceram em diverso canteiro, ambas pulcras, ambas rescendentes, ambas cheias de vitalidade divina. Nasceram uma para outra; era o cravo e a rosa; a rosa vivia para o cravo, o cravo vivia para a rosa: veio uma brisa e comunicou os perfumes das duas flores, e as flores, conhecendo que se amavam, correram uma para a outra. A brisa apadrinhou essa uni\u00e3o. A rosa e o cravo ali consorciados no amplexo da simpatia: a brisa ali est\u00e1 honrando a nossa reuni\u00e3o.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m esperava pela brisa; a brisa era o Dr. Valen\u00e7a.<\/p>\n<p>Estrepidosos aplausos celebraram este discurso em que o Calv\u00e1rio andou unido ao cravo e \u00e0 rosa. Porf\u00edrio sentou-se com a satisfa\u00e7\u00e3o \u00edntima de ter cumprido o seu dever.<\/p>\n<p>O jantar chegava ao fim: eram oito horas e meia; vinham chegando alguns m\u00fasicos para o baile. Todavia, ainda houve uma poesia de Eduardo Valadares e alguns brindes a todos os presentes e a alguns ausentes. Ora, como os licores iam ajudando as musas, travou-se especial combate entre o tenente Porf\u00edrio e Justiniano Vilela, que, s\u00f3 depois de animado, pode entrar na arena. Esgotados os assuntos, fez Porf\u00edrio um brinde ao ex\u00e9rcito e aos seus generais, e Vilela outro \u00e0 uni\u00e3o das prov\u00edncias do imp\u00e9rio. Neste terreno os assuntos n\u00e3o podiam escassear. Quando todos se levantaram da mesa, l\u00e1 ficaram os dois brindando calorosamente todas as id\u00e9ias pr\u00e1ticas e \u00fateis deste mundo, e do outro.<\/p>\n<p>Seguiu-se o baile, que foi animad\u00edssimo e durou at\u00e9 \u00e0s tr\u00eas horas da manh\u00e3.<\/p>\n<p>Nenhum incidente perturbou esta festa. Quando muito podia citar-se um ato de mau gosto da parte de Jos\u00e9 Lemos que, dan\u00e7ando com D. Margarida, ousou lamentar a sorte dessa pobre senhora cujo marido se entretinha a fazer sa\u00fades em vez de ter a inapreci\u00e1vel ventura de estar ao lado dela.<\/p>\n<p>D. margarida sorriu; mas o incidente n\u00e3o foi adiante.<\/p>\n<p>\u00c0s duas horas retirou-se o Dr. Valen\u00e7a com a fam\u00edlia, sem que durante a noite, e apesar da familiaridade da reuni\u00e3o, perdesse um \u00e1tomo sequer da gravidade habitual. Calisto Valadares, esquivou-se na ocasi\u00e3o em que a filha mais mo\u00e7a de Dona Beatriz ia cantar ao piano. Os mais foram-se retirando a pouco e pouco.<\/p>\n<p>Quando a festa acabou de todo, ainda os dois \u00faltimos Abencerragens do copo e da mesa l\u00e1 estavam levantando brindes de todo e tamanho. O \u00faltimo brinde de Vilela foi ao progresso do mundo por meio do caf\u00e9 e do algod\u00e3o, e o de Porf\u00edrio ao estabelecimento da paz universal.<\/p>\n<p>Mas o verdadeiro brinde dessa festa memor\u00e1vel, foi um pequerrucho que viu em janeiro do ano seguinte, o qual perpetuar\u00e1 a dinastia dos Lemos, se n\u00e3o morrer na crise da denti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Na manh\u00e3 de um s\u00e1bado, 25 de abril, andava tudo em alvoro\u00e7o em casa de Jos\u00e9 lemos. 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