{"id":114000,"date":"2017-03-16T22:00:42","date_gmt":"2017-03-17T00:00:42","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=114000"},"modified":"2017-03-16T22:00:42","modified_gmt":"2017-03-17T00:00:42","slug":"as-academias-de-siao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/as-academias-de-siao","title":{"rendered":"As Academias de Si\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Conhecem as academias de Si\u00e3o? Bem sei que em Si\u00e3o nunca houve academias: mas suponhamos que sim, e que eram quatro, e escutem-me.<\/p>\n<p>I As estrelas, quando viam subir, atrav\u00e9s da noite, muitos vaga-lumes cor de leite, costumavam dizer que eram os suspiros do rei de Si\u00e3o, que se divertia com as suas trezentas concubinas. E, piscando o olho umas \u00e0s outras, perguntavam: \u2014 Reais suspiros, em que \u00e9 que se ocupa esta noite o lindo Kalaphangko? Ao que os vaga-lumes respondiam com gravidade: \u2014 N\u00f3s somos os pensamentos sublimes das quatro academias de Si\u00e3o; trazemos conosco toda a sabedoria do universo.<\/p>\n<p>Uma noite, foram em tal quantidade os vaga-lumes, que as estrelas, de medrosas, refugiaram-se nas alcovas, e eles tomaram conta de uma parte do espa\u00e7o, onde se fixaram para sempre com o nome de via-l\u00e1ctea.<\/p>\n<p>Deu lugar a essa enorme ascens\u00e3o de pensamentos o fato de quererem as quatro academias de Si\u00e3o resolver este singular problema: \u2014 por que \u00e9 que h\u00e1 homens femininos e mulheres masculinas? E o que as induziu a isso foi a \u00edndole do jovem rei. Kalaphangko era virtualmente uma dama. Tudo nele respirava a mais esquisita feminidade: tinha os olhos doces, a voz argentina, atitudes moles e obedientes e um cordial horror \u00e0s armas. Os guerreiros siameses gemiam, mas a na\u00e7\u00e3o vivia alegre, tudo eram dan\u00e7as, com\u00e9dias e cantigas, \u00e0 maneira do rei que n\u00e3o cuidava de outra coisa. Da\u00ed a ilus\u00e3o das estrelas.<\/p>\n<p>Vai sen\u00e3o quando, uma das academias achou esta solu\u00e7\u00e3o ao problema: \u2014 Umas almas s\u00e3o masculinas, outras femininas. A anomalia que se observa \u00e9 uma quest\u00e3o de corpos errados.<\/p>\n<p>\u2014 Nego, bradaram as outras tr\u00eas; a alma \u00e9 neutra; nada tem com o contraste exterior.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi preciso mais para que as vielas e \u00e1guas de Bangkok se tingissem de sangue acad\u00eamico. Veio primeiramente a controv\u00e9rsia, depois a descompostura, e finalmente a pancada. No princ\u00edpio da descompostura tudo andou menos mal; nenhuma das rivais arremessou um improp\u00e9rio que n\u00e3o fosse escrupulosamente derivado do s\u00e2nscrito, que era a l\u00edngua acad\u00eamica, o latim de Si\u00e3o. Mas dali em diante perderam a vergonha. A rivalidade desgrenhou-se, p\u00f4s as m\u00e3os na cintura, baixou \u00e0 lama, \u00e0 pedrada, ao murro, ao gesto vil, at\u00e9 que a academia sexual, exasperada, resolveu dar cabo das outras, e organizou um plano sinistro&#8230; Ventos que passais, se quis\u00e9sseis levar convosco estas folhas de papel, para que eu n\u00e3o contasse a trag\u00e9dia de Si\u00e3o! Custa-me (ai de mim!), custa-me escrever a singular desforra. Os acad\u00eamicos armaram-se em segredo, e foram ter com os outros, justamente quando estes, curvados sobre o famoso problema, faziam subir ao c\u00e9u uma nuvem de vagalumes.<\/p>\n<p>Nem pre\u00e2mbulo, nem piedade. Ca\u00edram-lhes em cima, espumando de raiva. Os que puderam fugir, n\u00e3o fugiram por muitas horas; perseguidos e atacados, morreram na beira do rio, a bordo das lanchas, ou nas vielas escusas. Ao todo, trinta e oito cad\u00e1veres. Cortaram uma orelha aos principais, e fizeram delas colares e braceletes para o presidente vencedor, o sublime U-Tong. \u00c9brios da vit\u00f3ria, celebraram o feito com um grande festim, no qual cantaram este hino magn\u00edfico: &#8220;Gl\u00f3ria a n\u00f3s, que somos o arroz da ci\u00eancia e a lumin\u00e1ria do universo.&#8221; A cidade acordou estupefata. O terror apoderou-se da multid\u00e3o. Ningu\u00e9m podia absolver uma a\u00e7\u00e3o t\u00e3o crua e feia; alguns chegavam mesmo a duvidar do que viam&#8230; Uma s\u00f3 pessoa aprovou tudo: foi a bela Kinnara, a flor das concubinas r\u00e9gias.<\/p>\n<p>II Molemente deitado aos p\u00e9s da bela Kinnara, o jovem rei pedia-lhe uma cantiga.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o dou outra cantiga que n\u00e3o seja esta: creio na alma sexual.<\/p>\n<p>\u2014 Cr\u00eas no absurdo, Kinnara.<\/p>\n<p>\u2014 Vossa Majestade cr\u00ea ent\u00e3o na alma neutra? \u2014 Outro absurdo, Kinnara. N\u00e3o, n\u00e3o creio na alma neutra, nem na alma sexual.<\/p>\n<p>\u2014 Mas ent\u00e3o em que \u00e9 que Vossa Majestade cr\u00ea, se n\u00e3o cr\u00ea em nenhuma delas? \u2014 Creio nos teus olhos, Kinnara, que s\u00e3o o sol e a luz do universo.<\/p>\n<p>\u2014 Mas cumpre-lhe escolher: \u2014 ou crer na alma neutra, e punir a academia viva, ou crer na alma sexual, e absolv\u00ea-la.<\/p>\n<p>\u2014 Que deliciosa que \u00e9 a tua boca, minha doce Kinnara! Creio na tua boca: \u00e9 a fonte da sabedoria.<\/p>\n<p>Kinnara levantou-se agitada. Assim como o rei era o homem feminino, ela era a mulher m\u00e1scula \u2014 um b\u00fafalo com penas de cisne. Era o b\u00fafalo que andava agora no aposento, mas da\u00ed a pouco foi o cisne que parou, e, inclinando o pesco\u00e7o, pediu e obteve do rei, entre duas car\u00edcias, um decreto em que a doutrina da alma sexual foi declarada leg\u00edtima e ortodoxa, e a outra absurda e perversa. Nesse mesmo dia, foi o decreto mandado \u00e0 academia triunfante, aos pagodes, aos mandarins, a todo o reino. A academia p\u00f4s lumin\u00e1rias; restabeleceu-se a paz p\u00fablica.<\/p>\n<p>III Entretanto, a bela Kinnara tinha um plano engenhoso e secreto. Uma noite, como o rei examinasse alguns pap\u00e9is do Estado, perguntou-lhe ela se os impostos eram pagos com pontualidade.<\/p>\n<p>\u2014 Ohim\u00e9! exclamou ele, repetindo essa palavra que lhe ficara de um mission\u00e1rio italiano. Poucos impostos t\u00eam sido pagos. Eu n\u00e3o quisera mandar cortar a cabe\u00e7a aos contribuintes&#8230; N\u00e3o, isso nunca&#8230; Sangue? sangue? n\u00e3o, n\u00e3o quero sangue&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E se eu lhe der um rem\u00e9dio a tudo? \u2014 Qual? \u2014 Vossa Majestade decretou que as almas eram femininas e masculinas, disse Kinnara depois de um beijo. Suponha que os nossos corpos est\u00e3o trocados. Basta restituir cada alma ao corpo que lhe pertence. Troquemos os nossos&#8230;<\/p>\n<p>Kalaphangko riu muito da id\u00e9ia, e perguntou-lhe como \u00e9 que fariam a troca. Ela respondeu que pelo m\u00e9todo Mukunda, rei dos hindus, que se meteu no cad\u00e1ver de um br\u00e2mane, enquanto um tru\u00e3o se metia no dele Mukunda, \u2014 velha lenda passada aos turcos, persas e crist\u00e3os. Sim, mas a f\u00f3rmula da invoca\u00e7\u00e3o? Kinnara declarou que a possu\u00eda; um velho bonzo achara c\u00f3pia dela nas ru\u00ednas de um templo.<\/p>\n<p>\u2014 Valeu? \u2014 N\u00e3o creio no meu pr\u00f3prio decreto, redarg\u00fciu ele rindo; mas v\u00e1 l\u00e1, se for verdade, troquemos&#8230; mas por um semestre, n\u00e3o mais. No fim do semestre destro\u00e7aremos os corpos.<\/p>\n<p>Ajustaram que seria nessa mesma noite. Quando toda a cidade dormia, eles mandaram vir a piroga real, meteram-se dentro e deixaram-se ir \u00e0 toa. Nenhum dos remadores os via. Quando a aurora come\u00e7ou a aparecer, fustigando as vacas r\u00fatilas, Kinnara proferiu a misteriosa invoca\u00e7\u00e3o; a alma desprendeu-se-lhe, e ficou pairando, \u00e0 espera que o corpo do rei vagasse tamb\u00e9m. O dela ca\u00edra no tapete.<\/p>\n<p>\u2014 Pronto? disse Kalaphangko.<\/p>\n<p>\u2014 Pronto, aqui estou no ar, esperando. Desculpe Vossa Majestade a indignidade da minha pessoa&#8230;<\/p>\n<p>Mas a alma do rei n\u00e3o ouviu o resto. L\u00e9pida e cintilante, deixou o seu vaso f\u00edsico e penetrou no corpo de Kinnara, enquanto a desta se apoderava do despojo real. Ambos os corpos ergueram-se e olharam um para o outro, imagine-se com que assombro. Era a situa\u00e7\u00e3o do Buoso e da cobra, segundo conta o velho Dante; mas vede aqui a minha aud\u00e1cia. O poeta manda calar Ov\u00eddio e Lucano, por achar que a sua metamorfose vale mais que a deles dois. Eu mando-os calar a todos tr\u00eas. Buoso e a cobra n\u00e3o se encontram mais, ao passo que os meus dois her\u00f3is, uma vez trocados, continuam a falar e a viver juntos \u2014 coisa evidentemente mais dantesca, em que me pese \u00e0 mod\u00e9stia.<\/p>\n<p>\u2014 Realmente, disse Kalaphangko, isto de olhar para mim mesmo e dar-me majestade \u00e9 esquisito. Vossa Majestade n\u00e3o sente a mesma coisa? Um e outro estavam bem, como pessoas que acham finalmente uma casa adequada.<\/p>\n<p>Kalaphangko espregui\u00e7ava-se todo nas curvas femininas de Kinnara. Esta inteiri\u00e7ava-se no tronco rijo de Kalaphangko. Si\u00e3o tinha, finalmente, um rei.<\/p>\n<p>IV A primeira a\u00e7\u00e3o de Kalaphangko (daqui em diante entenda-se que \u00e9 o corpo do rei com a alma de Kinnara, e Kinnara o corpo da bela siamesa com a alma do Kalaphangko) foi nada menos que dar as maiores honrarias \u00e0 academia sexual. N\u00e3o elevou os seus membros ao mandarinato, pois eram mais homens de pensamento que de a\u00e7\u00e3o e administra\u00e7\u00e3o, dados \u00e0 filosofia e \u00e0 literatura, mas decretou que todos se prosternassem diante deles, como \u00e9 de uso aos mandarins. Al\u00e9m disso, fez-lhes grandes presentes, coisas raras ou de valia, crocodilos empalhados, cadeiras de marfim, aparelhos de esmeralda para almo\u00e7o, diamantes, rel\u00edquias. A academia, grata a tantos benef\u00edcios, pediu mais o direito de usar oficialmente o t\u00edtulo de Claridade do Mundo, que lhe foi outorgado.<\/p>\n<p>Feito isso, cuidou Kalaphangko da fazenda p\u00fablica, da justi\u00e7a, do culto e do cerimonial. A na\u00e7\u00e3o come\u00e7ou de sentir o peso grosso, para falar como o excelso Cam\u00f5es, pois nada menos de onze contribuintes remissos foram logo decapitados. Naturalmente os outros, preferindo a cabe\u00e7a ao dinheiro, correram a pagar as taxas, e tudo se regularizou. A justi\u00e7a e a legisla\u00e7\u00e3o tiveram grandes melhoras. Constru\u00edram-se novos pagodes; e a religi\u00e3o pareceu at\u00e9 ganhar outro impulso, desde que Kalaphangko, copiando as antigas artes espanholas, mandou queimar uma d\u00fazia de pobres mission\u00e1rios crist\u00e3os que por l\u00e1 andavam; a\u00e7\u00e3o que os bonzos da terra chamaram a p\u00e9rola do reinado.<\/p>\n<p>Faltava uma guerra. Kalaphangko, com um pretexto mais ou menos diplom\u00e1tico, atacou a outro reino, e fez a campanha mais breve e gloriosa do s\u00e9culo. Na volta a Bangkok, achou grandes festas espl\u00eandidas. Trezentos barcos, forrados de seda escarlate e azul, foram receb\u00ea-lo. Cada um destes tinha na proa um cisne ou um drag\u00e3o de ouro, e era tripulado pela mais fina gente da cidade; m\u00fasicas e aclama\u00e7\u00f5es atroaram os ares. De noite, acabadas as festas, sussurrou ao ouvido a bela concubina: \u2014 Meu jovem guerreiro, paga-me as saudades que curti na aus\u00eancia; dize-me que a melhor das festas \u00e9 a tua meiga Kinnara.<\/p>\n<p>Kalaphangko respondeu com um beijo.<\/p>\n<p>\u2014 Os teus bei\u00e7os t\u00eam o frio da morte ou do desd\u00e9m, suspirou ela.<\/p>\n<p>Era verdade, o rei estava distra\u00eddo e preocupado; meditava uma trag\u00e9dia. Ia-se aproximando o termo do prazo em que deviam destrocar os corpos, e ele cuidava em iludir a cl\u00e1usula, matando a linda siamesa. Hesitava por n\u00e3o saber se padeceria com a morte dela visto que o corpo era seu, ou mesmo se teria de sucumbir tamb\u00e9m. Era esta a d\u00favida de Kalaphangko; mas a id\u00e9ia da morte sombreava-lhe a fronte, enquanto ele afagava ao peito um frasquinho com veneno, imitado dos B\u00f3rgias.<\/p>\n<p>De repente, pensou na douta academia; podia consult\u00e1-la, n\u00e3o claramente, mas por hip\u00f3tese. Mandou chamar os acad\u00eamicos; vieram todos menos o presidente, o ilustre UTong, que estava enfermo. Eram treze; prosternaram-se e disseram ao modo de Si\u00e3o: \u2014 N\u00f3s, desprez\u00edveis palhas, corremos ao chamado de Kalaphangko.<\/p>\n<p>\u2014 Erguei-vos, disse benevolamente o rei.<\/p>\n<p>\u2014 O lugar da poeira \u00e9 o ch\u00e3o, teimaram eles com os cotovelos e joelhos em terra.<\/p>\n<p>\u2014 Pois serei o vento que subleva a poeira, redarg\u00fciu Kalaphangko; e, com um gesto cheio de gra\u00e7a e toler\u00e2ncia, estendeu-lhes as m\u00e3os.<\/p>\n<p>Em seguida, come\u00e7ou a falar de coisas diversas, para que o principal assunto viesse de si mesmo; falou nas \u00faltimas not\u00edcias do ocidente e nas leis de Manu. Referindo-se a UTong, perguntou-lhes se realmente era um grande s\u00e1bio, como parecia; mas, vendo que mastigavam a resposta, ordenou-lhes que dissessem a verdade inteira. Com exemplar unanimidade, confessaram eles que U-Tong era um dos mais singulares est\u00fapidos do reino, esp\u00edrito raso, sem valor, nada sabendo e incapaz de aprender nada. Kalaphangko estava pasmado. Um est\u00fapido? \u2014 Custa-nos diz\u00ea-lo, mas n\u00e3o \u00e9 outra coisa; \u00e9 um esp\u00edrito raso e chocho. O cora\u00e7\u00e3o \u00e9 excelente, car\u00e1ter puro, elevado&#8230;<\/p>\n<p>Kalaphangko, quando voltou a si do espanto, mandou embora os acad\u00eamicos, sem lhes perguntar o que queria. Um est\u00fapido? Era mister tir\u00e1-lo da cadeira sem molest\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Tr\u00eas dias depois, U-Tong compareceu ao chamado do rei. Este perguntou-lhe carinhosamente pela sa\u00fade; depois disse que queria mandar algu\u00e9m ao Jap\u00e3o estudar uns documentos, neg\u00f3cio que s\u00f3 podia ser confiado a pessoa esclarecida. Qual dos seus colegas da academia lhe parecia id\u00f4neo para tal mister? Compreende-se o plano artificioso do rei: era ouvir dois ou tr\u00eas nomes, e concluir que a todos preferia o do pr\u00f3prio U-Tong; mas eis aqui o que este lhe respondeu: \u2014 Real Senhor, perdoai a familiaridade da palavra: s\u00e3o treze camelos, com a diferen\u00e7a que os camelos s\u00e3o modestos, e eles n\u00e3o; comparam-se ao sol e \u00e0 lua. Mas, na verdade, nunca a lua nem o sol cobriram mais singulares pulhas do que esses treze&#8230;<\/p>\n<p>Compreendo o assombro de Vossa Majestade; mas eu n\u00e3o seria digno de mim se n\u00e3o dissesse isto com lealdade, embora confidencialmente&#8230;<\/p>\n<p>Kalaphangko tinha a boca aberta. Treze camelos? Treze, treze. U-Tong ressalvou t\u00e3o-somente o cora\u00e7\u00e3o de todos, que declarou excelente; nada superior a eles pelo lado do car\u00e1ter. Kalaphangko, com um fino gesto de complac\u00eancia, despediu o sublime U-Tong, e ficou pensativo. Quais fossem as suas reflex\u00f5es, n\u00e3o o soube ningu\u00e9m. Sabe-se que ele mandou chamar os outros acad\u00eamicos, mas desta vez separadamente, a fim de n\u00e3o dar na vista, e para obter maior expans\u00e3o. O primeiro que chegou, ignorando ali\u00e1s a opini\u00e3o de UTong, confirmou-a integralmente com a \u00fanica emenda de serem doze os camelos, ou treze, contando o pr\u00f3prio U-Tong. O segundo n\u00e3o teve opini\u00e3o diferente, nem o terceiro, nem os restantes acad\u00eamicos. Diferiam no estilo; uns diziam camelos, outro usavam circunl\u00f3quios e met\u00e1foras, que vinham a dar na mesma coisa. E, entretanto, nenhuma inj\u00faria ao car\u00e1ter moral das pessoas. Kalaphangko estava at\u00f4nito.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o foi esse o \u00faltimo espanto do rei. N\u00e3o podendo consultar a academia, tratou de deliberar por si, no que gastou dois dias, at\u00e9 que a linda Kinnara lhe segredou que era m\u00e3e. Esta not\u00edcia f\u00ea-lo recuar do crime. Como destruir o vaso eleito da flor que tinha de vir com a primavera pr\u00f3xima? Jurou ao c\u00e9u e \u00e0 terra que o filho havia de nascer e viver.<\/p>\n<p>Chegou ao fim do semestre; chegou o momento de destro\u00e7ar os corpos.<\/p>\n<p>Como da primeira vez, meteram-se no barco real, \u00e0 noite, e deixaram-se ir \u00e1guas abaixo, ambos de m\u00e1 vontade, saudosos do corpo que iam restituir um ao outro. Quando as vacas cintilantes da madrugada come\u00e7aram de pisar vagarosamente o c\u00e9u, proferiram eles a f\u00f3rmula misteriosa, e cada alma foi devolvida ao corpo anterior. Kinnara, tornando ao seu, teve a como\u00e7\u00e3o materna, como tivera a paterna quando ocupava o corpo de Kalaphangko.<\/p>\n<p>Parecia-lhe at\u00e9 que era ao mesmo tempo m\u00e3e e pai da crian\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Pai e m\u00e3e? repetiu o pr\u00edncipe restitu\u00eddo \u00e0 forma anterior.<\/p>\n<p>Foram interrompidos por uma deleitosa m\u00fasica, ao longe. Era algum junco ou piroga que subia o rio, pois a m\u00fasica aproximava-se rapidamente. J\u00e1 ent\u00e3o o sol alagava de luz as \u00e1guas e as margens verdes, dando ao quadro um tom de vida e renascen\u00e7a, que de algum modo fazia esquecer aos dois amantes a restitui\u00e7\u00e3o f\u00edsica. E a m\u00fasica vinha chegando, agora mais distinta, at\u00e9 que, numa curva do rio, apareceu aos olhos de ambos um barco magn\u00edfico, adornado de plumas e fl\u00e2mulas. Vinham dentro os quatorze membros da academia (contando U-Tong) e todos em coro mandavam aos ares o velho hino: &#8220;Gl\u00f3ria a n\u00f3s, que somos o arroz da ci\u00eancia e a claridade do mundo!&#8221; A bela Kinnara (antigo Kalaphangko) tinha os olhos esbugalhados de assombro.<\/p>\n<p>N\u00e3o podia entender como \u00e9 que quatorze var\u00f5es reunidos em academia eram a claridade do mundo, e separadamente uma multid\u00e3o de camelos. Kalaphangko, consultado por ela, n\u00e3o achou explica\u00e7\u00e3o. Se algu\u00e9m descobrir alguma, pode obsequiar uma das mais graciosas damas do Oriente, mandando-lha em carta fechada, e, para maior seguran\u00e7a, sobrescrita ao nosso c\u00f4nsul em Xangai, China.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Conhecem as academias de Si\u00e3o? Bem sei que em Si\u00e3o nunca houve academias: mas suponhamos que sim, e que eram quatro, e escutem-me. 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