{"id":113998,"date":"2017-03-16T21:58:31","date_gmt":"2017-03-16T23:58:31","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=113998"},"modified":"2017-03-16T21:58:31","modified_gmt":"2017-03-16T23:58:31","slug":"antes-que-cases","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/antes-que-cases","title":{"rendered":"Antes que Cases"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>I Era um dia um rapaz de vinte e cinco anos, bonito e celibat\u00e1rio, n\u00e3o rico, mas vantajosamente empregado. N\u00e3o tinha ambi\u00e7\u00f5es, ou antes tinha uma ambi\u00e7\u00e3o s\u00f3; era amar loucamente uma mulher e casar sensatamente com ela. At\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o se apaixonara por nenhuma. Estreara algumas afei\u00e7\u00f5es que n\u00e3o passaram de namoricos modestos e prosaicos. O que ele sonhava era outra coisa.<\/p>\n<p>A viveza da imagina\u00e7\u00e3o e a leitura de certos livros lhe desenvolveram o germe que a natureza lhe pusera no cora\u00e7\u00e3o. Alfredo Tavares (\u00e9 o nome do rapaz) povoara o seu esp\u00edrito de Julietas e Virg\u00ednias, e aspirava noite e dia viver um romance como s\u00f3 ele o podia imaginar. Em amor a prosa da vida metia-lhe nojo, e ningu\u00e9m dir\u00e1 certamente que ela seja uma coisa inteiramente agrad\u00e1vel; mas a poesia \u00e9 rara e passageira \u2014 a poesia como a queria Alfredo Tavares, e n\u00e3o viver a prosa, na esperan\u00e7a de uma poesia incerta, era arriscar-se a n\u00e3o viver absolutamente.<\/p>\n<p>Este racioc\u00ednio n\u00e3o o fazia Alfredo. \u00c9 at\u00e9 duvidoso que ele raciocinasse alguma vez.<\/p>\n<p>Alfredo devaneava e nada mais. Com a sua imagina\u00e7\u00e3o, vivia \u00e0s vezes s\u00e9culos, sobretudo de noite \u00e0 mesa do ch\u00e1, que ele ia tomar no Carceller. Os castelos que ele fabricava entre duas torradas eram obras-primas de fantasia. Seus sonhos oscilavam entre o ala\u00fade do trovador e a g\u00f4ndola veneziana, entre uma castel\u00e3 da idade m\u00e9dia e uma fidalga da idade dos doges.<\/p>\n<p>N\u00e3o era isto s\u00f3; era mais e menos.<\/p>\n<p>Alfredo n\u00e3o exigia especialmente um sangue real; muita vez ia al\u00e9m da castel\u00e3, muita vez vinha aqu\u00e9m da filha dos doges, sonhava com Sem\u00edramis e com Ruth ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>O que ele pedia era o po\u00e9tico, o delicioso, o vago; uma mulher bela e vaporosa, delgada se fosse poss\u00edvel, em todo o caso vaso de quimeras, com quem iria suspirar uma vida mais do c\u00e9u que da terra, \u00e0 beira de um lago ou entre duas colinas eternamente verdes. A vida para ele devia ser a cristaliza\u00e7\u00e3o de um sonho. Essa era nem mais nem menos a sua ambi\u00e7\u00e3o e o seu desespero.<\/p>\n<p>Alfredo Tavares adorava as mulheres bonitas. Um leitor menos sagaz achar\u00e1 nisto uma vulgaridade. N\u00e3o \u00e9; admir\u00e1-las, am\u00e1-las, que \u00e9 a regra comum; Alfredo adorava-as literalmente. N\u00e3o ca\u00eda de joelhos porque a raz\u00e3o lhe dizia que seria rid\u00edculo; mas se o corpo ficava de p\u00e9, o cora\u00e7\u00e3o ajoelhava. Elas passavam e ele ficava mais triste que dantes, at\u00e9 que a imagina\u00e7\u00e3o o levasse outra vez nas asas, al\u00e9m e acima dos paralelep\u00edpedos e do Carceller.<\/p>\n<p>Mas se a sua ambi\u00e7\u00e3o era amar uma mulher, por que raz\u00e3o n\u00e3o amara uma de tantas que adorava assim de passagem? Leitor, nenhuma delas lhe tocara o verdadeiro ponto do cora\u00e7\u00e3o. Sua admira\u00e7\u00e3o era de artista; a bala que o devia matar, ou n\u00e3o estava fundida, ou n\u00e3o fora disparada. N\u00e3o seria por\u00e9m dif\u00edcil que uma das que ele simplesmente admirava, lograsse dominar-lhe o cora\u00e7\u00e3o; bastava-lhe um quebrar de olhos, um sorriso, um gesto qualquer. A imagina\u00e7\u00e3o dele faria o resto.<\/p>\n<p>Do que vai dito at\u00e9 aqui n\u00e3o se conclua rigorosamente que Alfredo fosse apenas um habitante dos vastos interm\u00fandios de Epicuro, como dizia o Diniz. N\u00e3o; Alfredo n\u00e3o vivia sempre das suas quimeras. A outra viajava muito, mas a besta comia, passeava, londreava, e at\u00e9 (\u00f3 desilus\u00e3o \u00faltima!), e at\u00e9 engordava. Alfredo era refeito e corado devendo ser p\u00e1lido e magro, como convinha a um sonhador da sua esp\u00e9cie. Vestia com apuro, regateava as suas contas, n\u00e3o era raro cear nas noites em que ia ao teatro, tudo isto sem preju\u00edzo dos seus sentimentos po\u00e9ticos. Feliz n\u00e3o era, mas tamb\u00e9m n\u00e3o torcia o nariz \u00e0s necessidades vulgares da vida. Casava o devaneio com a prosa.<\/p>\n<p>Tal era Alfredo Tavares.<\/p>\n<p>Agora que o leitor o conhece, vou contar o que lhe aconteceu, por onde ver\u00e1 o leitor como os acontecimentos humanos dependem de circunst\u00e2ncias fortuitas e indiferentes. Chame a isto acaso ou provid\u00eancia; nem por isso a coisa deixa de existir.<\/p>\n<p>II Uma noite, era em 1867, subia Alfredo pela Rua do Ouvidor. Eram oito horas; ia aborrecido, impaciente, com vontade de se distrair, mas sem vontade de falar a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>A Rua do Ouvidor oferecia boa distra\u00e7\u00e3o, mas era um perigo para quem n\u00e3o queria conversar. Alfredo reconheceu isto mesmo; e chegando \u00e0 esquina da Rua da Quitanda parou. Seguiria pela Rua da Quitanda ou pela Rua do Ouvidor? That was the question.<\/p>\n<p>Depois de hesitar uns dez minutos, e de tomar ora por uma, ora por outra rua, Alfredo seguiu enfim pela da Quitanda na dire\u00e7\u00e3o da de S\u00e3o Jos\u00e9. Sua id\u00e9ia era subir depois por esta, entrar na da Ajuda, ir pela do Passeio, dobrar a dos Arcos, vir pela do Lavradio at\u00e9 ao Rocio, descer pela do Ros\u00e1rio at\u00e9 a Direita, onde iria tomar ch\u00e1 ao Carceller, depois do que se recolheria a casa estafado e com sono.<\/p>\n<p>Foi neste ponto que interveio o personagem que o leitor pode chamar Dom Acaso ou madre Provid\u00eancia, como lhe aprouver. Nada mais fortuito que ir por uma rua em vez de ir por outra, sem nenhuma necessidade que obrigue a seguir por esta ou por aquela. Pois este ato assim fortuito \u00e9 o ponto de partida da aventura de Alfredo Tavares.<\/p>\n<p>Havia em frente de uma loja, que ficava adiante do extinto Correio Mercantil, um carro parado. Esta circunst\u00e2ncia n\u00e3o chamou a aten\u00e7\u00e3o de Alfredo; ele ia cheio de seu pr\u00f3prio aborrecimento, de todo alheio ao mundo exterior. Mas uma mulher n\u00e3o \u00e9 um carro, e a coisa de seis passos da loja, Alfredo via assomar \u00e0 porta uma mulher, vestida de preto, e esperar que um criado lhe abrisse a portinhola.<\/p>\n<p>Alfredo parou.<\/p>\n<p>A necessidade de esperar que a senhora entrasse no carro, justificava este ato; mas a raz\u00e3o dele era pura e simplesmente a admira\u00e7\u00e3o, o pasmo, o \u00eaxtase em que ficou o nosso Alfredo ao contemplar, de perfil e \u00e0 meia luz, um rosto idealmente belo, uma figura elegant\u00edssima, gravemente envolvida em singelas roupas pretas, que lhe real\u00e7avam mais a alvura dos bra\u00e7os e do rosto. Eu diria que o rapaz ficara embasbacado, se o permitisse a nobreza dos seus sentimentos e o asseio do escrito.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a desceu a cal\u00e7ada, p\u00f4s um p\u00e9 quase invis\u00edvel no estribo do carro e entrou; fechouse a portinhola, o criado subiu a almofada e o carro partiu. Alfredo s\u00f3 se moveu quando o carro come\u00e7ou a andar. A vis\u00e3o desaparecera, mas o rosto dela ficara-lhe na mem\u00f3ria e no cora\u00e7\u00e3o. O cora\u00e7\u00e3o palpitava com for\u00e7a. Alfredo apressou o passo atr\u00e1s do carro, mas muito antes de chegar \u00e0 esquina da Rua da Assembl\u00e9ia, j\u00e1 o carro subia por esta acima.<\/p>\n<p>Quis a sua felicidade que um t\u00edlburi viesse atr\u00e1s dele e vazio. Alfredo meteu-se no t\u00edlburi e mandou tocar atr\u00e1s do carro.<\/p>\n<p>A aventura sorria-lhe. O fortuito do encontro, a corrida de um ve\u00edculo atr\u00e1s de outro, ainda que n\u00e3o fossem coisas raras, davam-lhe sempre um ponto de partida para um romance.<\/p>\n<p>Sua imagina\u00e7\u00e3o estava j\u00e1 al\u00e9m deste primeiro cap\u00edtulo. A mo\u00e7a devia ser uma L\u00e9lia perdida na realidade, uma Helo\u00edsa ignota da sociedade fluminense, de quem ele seria, salvo algumas altera\u00e7\u00f5es, o apaixonado Abelardo. Neste caminho de inven\u00e7\u00e3o Alfredo tinha j\u00e1 mentalmente escrito muitos cap\u00edtulos do seu romance, quando o carro parou em frente de uma casa da Rua de Mata-cavalos, chamada hoje de Riachuelo.<\/p>\n<p>O t\u00edlburi parou a alguns passos.<\/p>\n<p>N\u00e3o tardou que a mo\u00e7a sa\u00edsse do carro e entrasse na casa, cuja apar\u00eancia indicava certa abastan\u00e7a. O carro voltou depois pelo mesmo caminho, a passo lento, enquanto o t\u00edlburi, tamb\u00e9m a passo lento seguia para diante. Alfredo tomou nota da casa, e de novo mergulhou-se nas suas reflex\u00f5es.<\/p>\n<p>O cocheiro do t\u00edlburi que at\u00e9 ent\u00e3o guardara um inexplic\u00e1vel sil\u00eancio, entendeu que devia oferecer os seus bons of\u00edcios ao fregu\u00eas.<\/p>\n<p>\u2014 V. S. ficou entusiasmado por aquela mo\u00e7a, disse ele com ar sonso. \u00c9 bem bonita! \u2014 Parece que sim, respondeu Alfredo; vi-a de relance. Morar\u00e1 ali mesmo? \u2014 Mora.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! o senhor j\u00e1 ali foi&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Duas vezes.<\/p>\n<p>\u2014 Foi naturalmente levar o marido.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 vi\u00fava.<\/p>\n<p>\u2014 Sabe disso? \u2014 Sei, sim, senhor&#8230; Onde pus eu o meu charuto?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Tome um.<\/p>\n<p>Alfredo ofereceu um charuto de Havana ao cocheiro, que o aceitou com muitos sinais de reconhecimento. Aceso o charuto, o cocheiro continuou.<\/p>\n<p>\u2014 Aquela mo\u00e7a \u00e9 vi\u00fava e luxa muito. Muito homem anda a\u00ed mordido por ela, mas parece que ela n\u00e3o quer casar.<\/p>\n<p>\u2014 Como sabe disso? \u2014 Eu moro ali na Rua do Resende. N\u00e3o viu como o cavalo queria quebrar a esquina? Alfredo esteve um instante calado.<\/p>\n<p>\u2014 Mora s\u00f3? perguntou ele.<\/p>\n<p>\u2014 Mora com uma tia velha e uma irm\u00e3 mais mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Sozinhas? \u2014 H\u00e1 tamb\u00e9m um primo.<\/p>\n<p>\u2014 Mo\u00e7o? \u2014 Trinta e tantos anos.<\/p>\n<p>\u2014 Solteiro? \u2014 Vi\u00favo.<\/p>\n<p>Alfredo confessou a si mesmo que este primo era carta desnecess\u00e1ria no baralho.<\/p>\n<p>Palpitou-lhe que seria um obst\u00e1culo \u00e0s suas venturas. Se fosse um pretendente? Era natural, se n\u00e3o estava morto para as paix\u00f5es da terra. Uma prima t\u00e3o bonita \u00e9 uma Eva tentada e tentadora. Alfredo fantasiava j\u00e1 assim um inimigo e as for\u00e7as dele, antes de conhecer a disposi\u00e7\u00e3o da pra\u00e7a.<\/p>\n<p>O cocheiro deu-lhe algumas informa\u00e7\u00f5es mais. Havia umas partidas na casa da formosa dama, mas s\u00f3 de m\u00eas a m\u00eas, as quais eram freq\u00fcentadas por algumas poucas pessoas escolhidas. \u00c2ngela, que assim dizia ele chamar-se a mo\u00e7a, tinha alguns haveres, e viria a herdar da tia, que j\u00e1 estava muito velha.<\/p>\n<p>Alfredo recolheu carinhosamente as informa\u00e7\u00f5es todas do cocheiro, e o nome de \u00c2ngela para logo lhe ficou entranhado no cora\u00e7\u00e3o. Inquiriu do n\u00famero do t\u00edlburi, o lugar onde estacionava e o n\u00famero da cocheira na Rua do Resende, e mandou voltar para baixo. Ao passar em frente \u00e0 casa de \u00c2ngela, Alfredo deitou para l\u00e1 os olhos. A sala estava alumiada, mas nenhum vulto de mulher ou de homem lhe apareceu. Alfredo recostou-se molemente e o t\u00edlburi partiu a todo o galope.<\/p>\n<p>III Alfredo estava contente consigo e com a fortuna. Depara-lhe esta uma mulher como aquela senhora, teve ele a id\u00e9ia de a seguir, as circunst\u00e2ncias o ajudaram poderosamente; sabia agora onde morava a bela, sabia que era livre, e enfim, e mais que tudo, amava.<\/p>\n<p>Amava, sim. Aquela primeira noite foi toda dedicada \u00e0 lembran\u00e7a da vis\u00e3o ausente e passageira. Enquanto ela talvez dormia no sil\u00eancio da sua alcova solit\u00e1ria, Alfredo pensava nela e fazia j\u00e1 de longe mil castelos no ar. Um pintor n\u00e3o comp\u00f5e na imagina\u00e7\u00e3o o seu primeiro painel com mais amor do que ele delineava os incidentes da sua paix\u00e3o e o feliz desenlace que ela n\u00e3o podia deixar de ter. Escusado \u00e9 dizer que n\u00e3o entrava no esp\u00edrito do solit\u00e1rio amador a id\u00e9ia de que \u00c2ngela fosse uma mulher vulgar. Era imposs\u00edvel que uma mulher t\u00e3o bela n\u00e3o fosse igualmente, em esp\u00edrito, superior ou, melhor, uma imagina\u00e7\u00e3o et\u00e9rea, vaporosa, com aspira\u00e7\u00f5es an\u00e1logas \u00e0s dele, que eram de viver como se poetisa. Isto devia ser \u00c2ngela, sem o que n\u00e3o se cansaria a natureza a dar-lhe t\u00e3o aprimorado inv\u00f3lucro.<\/p>\n<p>Com estas e outras reflex\u00f5es foi passando a noite, e j\u00e1 a aurora tingia o horizonte sem que o nosso aventuroso her\u00f3i tivesse dormido. Mas era preciso dormir e dormiu. O sol j\u00e1 ia alto quando ele acordou. \u00c2ngela foi ainda o seu primeiro pensamento. Ao almo\u00e7o pensou nela, pensou nela durante o trabalho, nela pensou ainda quando se sentou \u00e0 mesa do hotel. Era a primeira vez que se sentia t\u00e3o fortemente abalado; n\u00e3o tinha que ver; era chegada a sua hora.<\/p>\n<p>De tarde foi a Mata-cavalos. N\u00e3o achou ningu\u00e9m \u00e0 janela. Passou tr\u00eas ou quatro vezes por diante da casa sem ver o menor vest\u00edgio da mo\u00e7a. Alfredo era naturalmente impaciente e fren\u00e9tico; este primeiro rev\u00e9s da fortuna o p\u00f4s de mau humor. A noite desse dia foi pior que a anterior. A tarde seguinte, por\u00e9m, alguma compensa\u00e7\u00e3o lhe deu. Ao avistar a casa deu com um vulto de mulher \u00e0 janela. Se n\u00e3o lho dissessem os olhos, dizialhe claramente o cora\u00e7\u00e3o que a mulher era \u00c2ngela. Alfredo ia pelo lado oposto, com os olhos pregados na mo\u00e7a e t\u00e3o apaixonados os levava, que se ela os visse, n\u00e3o deixaria de lhes ler o que andava no cora\u00e7\u00e3o do pobre rapaz. Mas a mo\u00e7a, ou porque algu\u00e9m a chamasse de dentro, ou porque j\u00e1 estivesse aborrecida de estar \u00e0 janela, entrou rapidamente, sem dar f\u00e9 do nosso her\u00f3i.<\/p>\n<p>Alfredo nem por isso ficou desconsolado.<\/p>\n<p>Tinha visto outra vez a mo\u00e7a; tinha verificado que era realmente uma formosura not\u00e1vel; sentia o cora\u00e7\u00e3o cada vez mais preso. Isto era o essencial. O resto seria objeto de paci\u00eancia e de fortuna.<\/p>\n<p>Como era natural, amiudaram-se os passeios a Mata-cavalos. A mo\u00e7a ora estava, ora n\u00e3o estava \u00e0 janela; mas ainda ao cabo de oito dias n\u00e3o reparara no paciente amador. No nono dia Alfredo foi visto por \u00c2ngela. N\u00e3o se admirou de que ele j\u00e1 de longe viesse a olhar para ela, porque isso era o que faziam todos os rapazes que ali passavam; mas a express\u00e3o com que ele olhava \u00e9 que lhe chamou a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desviou contudo os olhos por n\u00e3o lhe parecer conveniente que atendia ao desconhecido.<\/p>\n<p>N\u00e3o tardou por\u00e9m que de novo olhasse; mas como ele n\u00e3o houvesse desviado os seus dela, \u00c2ngela retirou-se.<\/p>\n<p>Alfredo suspirou.<\/p>\n<p>O suspiro de Alfredo tinha dois sentidos.<\/p>\n<p>Era o primeiro uma homenagem do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O segundo era uma confiss\u00e3o de des\u00e2nimo.<\/p>\n<p>O rapaz via claramente que o cora\u00e7\u00e3o da bela n\u00e3o fora tomado de assalto, como ele supunha. Todavia n\u00e3o tardou que reconhecesse a possibilidade de p\u00f4r as coisas em bom caminho, com o andar do tempo, e bem assim a obriga\u00e7\u00e3o que tinha \u00c2ngela de n\u00e3o parecer namoradeira deixando-se ir ao sabor da ternura que naturalmente havia de ter lido nos olhos dele.<\/p>\n<p>Da\u00ed a quatro dias \u00c2ngela tornou a ver o rapaz; pareceu reconhec\u00ea-lo, e mais depressa que da primeira vez, deixou a janela. Alfredo desta vez enfiou. Um mon\u00f3logo triste e \u00e0 meia voz entrou a correr-lhe dos l\u00e1bios fora, mon\u00f3logo em que ele acusava a sorte e a natureza, culpadas de n\u00e3o terem feito e dirigido os cora\u00e7\u00f5es de modo que quando um amasse ao outro se afinasse pela mesma corda. Queria ele dizer na sua que as almas deviam descer aos pares c\u00e1 a este mundo. O sistema era excelente, agora que ele amava a bela vi\u00fava; se amasse alguma velha desdentada e tabaquista, o sistema seria detest\u00e1vel.<\/p>\n<p>Assim vai o mundo.<\/p>\n<p>Cinco ou seis semanas correram assim, ora a v\u00ea-la e ela a fugir-lhe, ora a n\u00e3o v\u00ea-la absolutamente e a passar noites atrozes. Um dia, estando em uma loja na Rua do Ouvidor ou dos Ourives, n\u00e3o sei bem onde foi, viu-a entrar acompanhada da irm\u00e3 mais mo\u00e7a, e estremeceu. \u00c2ngela olhou para ele; se o conheceu n\u00e3o o disse no rosto, que se mostrou impass\u00edvel. De outra vez indo a uma missa f\u00fanebre na Lapa, deu com os olhos na formosa esquiva; mas foi o mesmo que se olhasse para uma pedra; a mo\u00e7a n\u00e3o se moveu; uma s\u00f3 fibra do rosto n\u00e3o se lhe alterou.<\/p>\n<p>Alfredo n\u00e3o tinha amigos \u00edntimos a quem confiasse estas coisas de cora\u00e7\u00e3o. Mas o sentimento era mais forte, e ele sentia a necessidade de derramar o que sentia no cora\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m. Deitou os olhos a um companheiro de passeios, com quem ali\u00e1s n\u00e3o andava desde a aventura da Rua da Quitanda. Tib\u00farcio era o nome do confidente. Era um sujeito magro e amarelo, que se andasse naturalmente podia apresentar uma figura sofrivelmente elegante, mas que tinha o sestro de contrariar a natureza dando-lhe um jeito particular e perfeitamente rid\u00edculo. Votava todas as senhoras honestas ao maior desprezo; e era muito querido e festejado na roda das que o n\u00e3o eram.<\/p>\n<p>Alfredo reconhecia isto mesmo; mas olhava-lhe algumas qualidades boas, e sempre o considerara seu amigo. N\u00e3o hesitou portanto em dizer tudo a Tib\u00farcio. O amigo ouviu lisonjeado a narra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 de fato bonita? \u2014 Oh! n\u00e3o sei como a descreva! \u2014 Mas \u00e9 rica?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei se o \u00e9&#8230; sei que por ora tudo \u00e9 in\u00fatil; pode ser que ame algu\u00e9m e esteja at\u00e9 para casar com o tal primo, ou com outro qualquer. O certo \u00e9 que eu estou cada vez pior.<\/p>\n<p>\u2014 Imagino.<\/p>\n<p>\u2014 Que farias tu? \u2014 Eu insistia.<\/p>\n<p>\u2014 Mas se nada alcan\u00e7ar? \u2014 Insiste sempre. J\u00e1 arriscaste uma carta? \u2014 Oh! n\u00e3o! Tib\u00farcio refletiu.<\/p>\n<p>\u2014 Tens raz\u00e3o, disse ele; seria inconveniente. N\u00e3o sei que te diga; eu nunca naveguei nesses mares. Ando c\u00e1 por outros, cujos parc\u00e9is conhe\u00e7o, e cuja b\u00fassola \u00e9 conhecida por todos.<\/p>\n<p>\u2014 Se eu pudesse esquecer-me dela, disse Alfredo que nenhuma aten\u00e7\u00e3o prestara \u00e0s palavras do amigo, j\u00e1 tinha deixado isto de m\u00e3o. \u00c0s vezes penso que estou fazendo figura rid\u00edcula, porque enfim ela \u00e9 pessoa de outra sociedade&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O amor iguala as dist\u00e2ncias, disse sentenciosamente Tib\u00farcio.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o parece-te?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Parece-me que deves continuar como hoje; e se daqui a algumas semanas mais nada houveres adiantado, fala-me porque eu terei meio de te dar algum conselho bom.<\/p>\n<p>Alfredo apertou fervorosamente as m\u00e3os do amigo.<\/p>\n<p>\u2014 Entretanto, continuou este, seria bom que eu a visse; talvez que, n\u00e3o estando namorado como tu, possa conhecer-lhe o car\u00e1ter e saber se \u00e9 frieza ou soberba o que a faz at\u00e9 agora esquiva.<\/p>\n<p>Interiormente Alfredo fez uma careta. N\u00e3o lhe parecia conveniente passar por casa de \u00c2ngela acompanhado de outro, o que tiraria ao seu amor o car\u00e1ter rom\u00e2ntico de um padecimento solit\u00e1rio e discreto. Era entretanto imposs\u00edvel recusar nada a um amigo que se interessava por ele. Convieram em que iriam nessa mesma tarde a Mata-cavalos.<\/p>\n<p>\u2014 Acho bom, disse o namorado alegre com uma id\u00e9ia s\u00fabita, acho bom que n\u00e3o passemos juntos; tu ir\u00e1s adiante e eu um pouco atr\u00e1s.<\/p>\n<p>\u2014 Pois sim. Mas estar\u00e1 ela \u00e0 janela hoje? \u2014 Talvez; estes \u00faltimos cinco dias tenho-a visto sempre \u00e0 janela.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! isso \u00e9 j\u00e1 um bom sinal.<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o olha para mim.<\/p>\n<p>\u2014 Dissimula\u00e7\u00e3o! \u2014 Aquele anjo? \u2014 Eu n\u00e3o creio em anjos, respondeu filosoficamente Tib\u00farcio, n\u00e3o creio em anjos na terra. O mais que posso conceder neste ponto \u00e9 que os haja no c\u00e9u; mas \u00e9 apenas uma hip\u00f3tese vaga.<\/p>\n<p>IV Nessa mesma tarde foram os dois a Mata-cavalos, na ordem convencionada. \u00c2ngela estava \u00e0 janela, acompanhada da tia velha e da irm\u00e3 mais mo\u00e7a. Viu de longe o namorado, mas n\u00e3o fitou os olhos nele; Tib\u00farcio pela sua parte n\u00e3o desviava os seus da formosa dama. Alfredo passou como sempre.<\/p>\n<p>Os dois amigos foram reunir-se quando j\u00e1 n\u00e3o podiam estar ao alcance dos olhos dela.<\/p>\n<p>Tib\u00farcio fez um elogio \u00e0 beleza da mo\u00e7a que o amigo ouviu encantado, como se lhe estivessem a elogiar uma obra sua.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! hei de ser muito feliz! exclamou ele num acesso de entusiasmo.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, concordou Tib\u00farcio; creio que h\u00e1s de ser feliz.<\/p>\n<p>\u2014 Que me aconselhas? \u2014 Mais alguns dias de luta, uns quinze, por exemplo, e depois uma carta&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 tinha pensado nisso, disse Alfredo; mas receava errar; precisava da opini\u00e3o de algu\u00e9m. Uma carta, assim, sem nenhum fundamento de esperan\u00e7a, sai fora da norma comum; por isso mesmo me seduz. Mas como hei de mandar a carta? \u2014 Isto agora \u00e9 contigo, disse Tib\u00farcio; v\u00ea se tens meio de travar rela\u00e7\u00f5es com algum criado da casa, ou&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ou o cocheiro do t\u00edlburi! exclamou triunfalmente Alfredo Tavares.<\/p>\n<p>Tib\u00farcio exprimiu com a cara o \u00faltimo limite do assombro ao ouvir estas palavras de Alfredo; mas o amigo n\u00e3o se deteve em explicar-lhe que havia um cocheiro de t\u00edlburi meio confidente neste neg\u00f3cio. Tib\u00farcio aprovou o cocheiro; ficou assentado que o meio da carta seria aplicado.<\/p>\n<p>Os dias correram sem incidente not\u00e1vel. Perd\u00e3o; houve um not\u00e1vel incidente.<\/p>\n<p>Alfredo passava uma tarde por baixo das janelas de \u00c2ngela. Ela n\u00e3o olhava para ele. De repente Alfredo ouve um pequeno grito e v\u00ea passar-lhe por diante dos olhos alguma coisa parecida com um lacinho de fita.<\/p>\n<p>Era efetivamente um lacinho de fita que ca\u00edra no ch\u00e3o. Alfredo olhou para cima; j\u00e1 n\u00e3o viu a vi\u00fava. Olhou em roda de si, abaixou-se, apanhou o la\u00e7o e guardou-o na algibeira.<\/p>\n<p>Dizer o que havia dentro da sua alma naquele venturoso instante \u00e9 tarefa que pediria muito tempo e mais adestrado pincel. Alfredo mal podia conter o cora\u00e7\u00e3o. A vontade que tinha era beijar ali mesmo na rua o la\u00e7o, que ele j\u00e1 considerava uma parte da sua bela.<\/p>\n<p>Reprimiu-se contudo; foi at\u00e9 o fim da rua; voltou por ela; mas, contra o costume daqueles \u00faltimos dias, a mo\u00e7a n\u00e3o apareceu.<\/p>\n<p>Esta circunst\u00e2ncia era suficiente para fazer crer na casualidade da queda do la\u00e7o. Assim pensava Alfredo; ao mesmo tempo por\u00e9m perguntava se n\u00e3o era poss\u00edvel que \u00c2ngela, envergonhada da sua aud\u00e1cia, quisesse agora evitar a presen\u00e7a dele e n\u00e3o menos as vistas curiosas da vizinhan\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Talvez, dizia ele.<\/p>\n<p>Da\u00ed a um instante: \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel tamanha felicidade. O grito que soltou foi de sincera surpresa. A fita foi casual. Nem por isso a adorarei menos&#8230;<\/p>\n<p>Apenas chegou \u00e0 casa, Alfredo tirou o la\u00e7o, que era de fita azul, e devia ter estado no colo ou no cabelo da vi\u00fava. Alfredo beijou-o cerca de vinte e cinco vezes e, se a natureza o tivesse feito poeta, \u00e9 prov\u00e1vel que naquela mesma ocasi\u00e3o expectorasse dez ou doze estrofes em que diria estar naquela fita um peda\u00e7o da alma da bela; a cor da fita serviria para fazer bonitas e adequadas compara\u00e7\u00f5es com o c\u00e9u.<\/p>\n<p>N\u00e3o era poeta o nosso Alfredo; contentou-se em beijar o precioso despojo, e n\u00e3o deixou de referir o epis\u00f3dio ao seu confidente.<\/p>\n<p>\u2014 Na minha opini\u00e3o, disse este, \u00e9 chegada a ocasi\u00e3o de lan\u00e7ar a carta.<\/p>\n<p>\u2014 Creio que sim.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sejas mole.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 de ser j\u00e1 amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Alfredo n\u00e3o contava com a instabilidade das coisas humanas. A amizade na terra, ainda quando o cora\u00e7\u00e3o a mantenha, est\u00e1 dependente do fio da vida. O cocheiro do t\u00edlburi n\u00e3o se teria provavelmente esquecido do seu fregu\u00eas de uma noite; mas tinha morrido no intervalo daquela noite ao dia em que Alfredo o foi procurar.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 demais! exclamou Alfredo; parece que a sorte se compraz de multiplicar os obst\u00e1culos com que eu esbarro a cada passo! Aposto que esse homem n\u00e3o morria se eu n\u00e3o precisasse dele. O destino persegue-me&#8230; Mas nem por isso hei de curvar a cabe\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Oh! n\u00e3o! Com esta boa resolu\u00e7\u00e3o se foi o namorado em busca de outro meio. A sorte trouxe-lhe um excelente. Vagou a casa cont\u00edgua \u00e0 de \u00c2ngela; era uma casa pequena, elegantezinha, pr\u00f3pria para um ou dois rapazes solteiros&#8230; Alfredo alugou a casa e foi diz\u00ea-lo triunfalmente ao seu amigo.<\/p>\n<p>\u2014 Fizeste muito bem! exclamou este; o golpe \u00e9 de mestre. Estando ao p\u00e9 \u00e9 imposs\u00edvel que n\u00e3o chegues a algum resultado.<\/p>\n<p>\u2014 Tanto mais que ela j\u00e1 me conhece, disse Alfredo; deve ver nisso uma prova de amor.<\/p>\n<p>\u2014 Justamente! Alfredo n\u00e3o se demorou em fazer a mudan\u00e7a; dali a dois dias estava na sua casa nova. \u00c9 escusado dizer que o la\u00e7o azul n\u00e3o foi em alguma gaveta ou caixinha; foi na algibeira dele.<\/p>\n<p>V Tanto a casa de \u00c2ngela como a de Alfredo tinham um jardim no fundo. Alfredo quase morreu de contentamento quando descobriu esta circunst\u00e2ncia.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 imposs\u00edvel, pensava ele, que aquela mo\u00e7a t\u00e3o po\u00e9tica, n\u00e3o goste de passear no jardim. V\u00ea-la-ei desta janela do fundo, ou por cima da cerca se for baixa. Ser\u00e1? Alfredo desceu \u00e0 cerca e verificou que a cerca lhe dava pelo peito.<\/p>\n<p>\u2014 Bom! disse ele. Nem de prop\u00f3sito! Agradeceu mentalmente \u00e0 sorte que ainda h\u00e1 poucos dias amaldi\u00e7oava e subiu para p\u00f4r os seus objetos em ordem e dar alguns esclarecimentos ao criado.<\/p>\n<p>Nesse mesmo dia de tarde, estando \u00e0 janela, viu a mo\u00e7a. \u00c2ngela encarou com ele como quem duvidava do que via; mas passado esse momento de exame, pareceu n\u00e3o lhe dar aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Alfredo, cuja inten\u00e7\u00e3o era cumpriment\u00e1-la, com o pretexto da vizinhan\u00e7a, esqueceu-se completamente da formalidade. Em v\u00e3o procurou nova ocasi\u00e3o. A mo\u00e7a parecia alheia \u00e0 sua pessoa.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o faz mal, disse ele consigo; o essencial \u00e9 que eu esteja aqui ao p\u00e9.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a parecia-lhe agora ainda mais bonita. Era uma beleza que ainda ganhava mais quando examinada de perto. Alfredo reconheceu que era de todo imposs\u00edvel pensar em outra mulher deste mundo ainda que aquela devesse faz\u00ea-lo desgra\u00e7ado.<\/p>\n<p>No segundo dia foi mais feliz. Chegou \u00e0 janela repentinamente na ocasi\u00e3o em que ela e a tia estavam \u00e0 sua; Alfredo cumprimentou-as respeitosamente. Elas corresponderam com um leve gesto.<\/p>\n<p>O conhecimento estava travado.<\/p>\n<p>Nem por isso adiantou o namoro, porque durante a tarde os olhos de ambos n\u00e3o se encontraram e a exist\u00eancia de Alfredo parecia ser a \u00faltima coisa de que \u00c2ngela se lembrava.<\/p>\n<p>Oito dias depois, estando Alfredo \u00e0 janela, viu chegar a mo\u00e7a sozinha, com uma flor na m\u00e3o. Ela olhou para ele; cumprimentaram.<\/p>\n<p>Era a primeira vez que Alfredo alcan\u00e7ava alguma coisa. A sua alma voou ao s\u00e9timo c\u00e9u.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a recostou-se na grade com a flor na m\u00e3o, a brincar distra\u00edda, n\u00e3o sei se por brincar, se por mostrar a m\u00e3o ao vizinho. O certo \u00e9 que Alfredo n\u00e3o tirava os olhos da m\u00e3o. A m\u00e3o era digna irm\u00e3 do p\u00e9, que Alfredo entrevira na Rua da Quitanda.<\/p>\n<p>O rapaz estava fascinado.<\/p>\n<p>Mas quando ele quase perdeu o ju\u00edzo foi na ocasi\u00e3o em que ela, indo retirar-se da janela, encarou outra vez com ele. N\u00e3o havia severidade nos l\u00e1bios; Alfredo viu-lhe at\u00e9 uma sombra de sorriso.<\/p>\n<p>\u2014 Sou feliz! exclamou Alfredo entrando. Enfim, consegui j\u00e1 alguma coisa.<\/p>\n<p>Dizendo isto deu alguns passos na sala, agitado, rindo, mirando-se ao espelho, completamente fora de si. Dez minutos depois chegou \u00e0 janela; outros dez minutos depois chegava \u00c2ngela.<\/p>\n<p>Olharam-se ainda uma vez.<\/p>\n<p>Era a terceira naquela tarde, depois de tantas semanas da mais profunda indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>A imagina\u00e7\u00e3o de Alfredo n\u00e3o o deixou dormir nessa noite. Pelos seus c\u00e1lculos dentro de dois meses iria pedir-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p>No dia seguinte n\u00e3o a viu e ficou desesperado com esta circunst\u00e2ncia. Felizmente o criado, que j\u00e1 havia percebido alguma coisa, achou meio de lhe dizer que a fam\u00edlia da casa vizinha sa\u00edra de manh\u00e3 e n\u00e3o voltara.<\/p>\n<p>Seria uma mudan\u00e7a? Esta id\u00e9ia veio fazer da noite de Alfredo uma noite de ang\u00fastias. No dia seguinte trabalhou mal. Jantou \u00e0s pressas e foi para casa. \u00c2ngela estava \u00e0 janela.<\/p>\n<p>Quando Alfredo apareceu \u00e0 sua e a cumprimentou, viu que ela tinha outra flor na m\u00e3o; era um malmequer.<\/p>\n<p>Alfredo ficou logo embebido a contempl\u00e1-la; \u00c2ngela come\u00e7ou a desfolhar o malmequer, como se estivesse consultando sobre algum problema do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O namorado n\u00e3o se deteve mais; correu a uma gavetinha de segredo, tirou o la\u00e7o de fita azul, e veio para a janela com ele.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a tinha desfolhado toda a flor; olhou para ele e viu o lacinho que lhe ca\u00edra da cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Estremeceu e sorriu.<\/p>\n<p>Daqui em diante compreende o leitor que as coisas n\u00e3o podiam deixar de caminhar.<\/p>\n<p>Alfredo conseguiu v\u00ea-la um dia no jardim, assentada dentro de um caramanch\u00e3o, e j\u00e1 desta vez o cumprimento foi acompanhado de um sorriso. No dia seguinte ela j\u00e1 n\u00e3o estava no caramanch\u00e3o; passeava. Novo sorriso e tr\u00eas ou quatro olhares.<\/p>\n<p>Alfredo arriscou a primeira carta.<\/p>\n<p>A carta era escrita com fogo; falava de um c\u00e9u, de um anjo, de uma vida toda poesia e amor. O mo\u00e7o oferecia-se para morrer a seus p\u00e9s se fosse preciso.<\/p>\n<p>A resposta veio com prontid\u00e3o.<\/p>\n<p>Era menos ardente; direi at\u00e9 que n\u00e3o havia ardor nenhum; mas simpatia sim, e muita simpatia, entremeada de algumas d\u00favidas e receios, e frases bem dispostas para espertar os brios de um cora\u00e7\u00e3o que todo se desfazia em sentimento.<\/p>\n<p>Travou-se ent\u00e3o um duelo epistolar que durou cerca de um m\u00eas antes da entrevista.<\/p>\n<p>A entrevista verificou-se ao p\u00e9 da cerca, de noite, pouco depois das ave-marias, tendo Alfredo mandado o criado ao seu amigo e confidente Tib\u00farcio com uma carta em que lhe pedia que detivesse o portador at\u00e9 \u00e0s oito horas ou mais.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m dizer que esta entrevista era perfeitamente desnecess\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u00c2ngela era livre; podia escolher livremente um segundo marido; n\u00e3o tinha de quem esconder os seus amores.<\/p>\n<p>Por outro lado, n\u00e3o era dif\u00edcil a Alfredo obter uma apresenta\u00e7\u00e3o em casa da vi\u00fava, se lhe conviesse entrar primeiramente assim, antes de lhe pedir a m\u00e3o.<\/p>\n<p>Todavia, o namorado insistiu na entrevista do jardim, que ela recusou a princ\u00edpio. A entrevista entrava no sistema po\u00e9tico de Alfredo, era uma leve reminisc\u00eancia da cena de Shakespeare.<\/p>\n<p>VI \u2014 Juras ent\u00e3o que me amas? \u2014 Juro.<\/p>\n<p>\u2014 At\u00e9 \u00e0 morte? \u2014 At\u00e9 \u00e0 morte.<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m eu te amo, minha querida \u00c2ngela, n\u00e3o de hoje, mas h\u00e1 muito, apesar dos teus desprezos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Oh! \u2014 N\u00e3o direi desprezos, mas indiferen\u00e7a&#8230; Oh! mas tudo l\u00e1 vai; agora somos dois cora\u00e7\u00f5es ligados para sempre.<\/p>\n<p>\u2014 Para sempre! Neste ponto ouviu-se um rumor na casa de \u00c2ngela.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9? perguntou Alfredo.<\/p>\n<p>\u00c2ngela quis fugir.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o fujas! \u2014 Mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 nada; algum criado&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Se dessem por mim aqui! \u2014 Tens medo? \u2014 Vergonha.<\/p>\n<p>A noite encobriu a mortal palidez do namorado.<\/p>\n<p>\u2014 Vergonha de amar! exclamou ele.<\/p>\n<p>\u2014 Quem te diz isso? Vergonha de me acharem aqui, expondo-me \u00e0s cal\u00fanias, quando nada impede que tu&#8230;<\/p>\n<p>Alfredo reconheceu a justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Nem por isso deixou de meter a m\u00e3o nos cabelos com um gesto de afli\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica, que a noite continuava a encobrir aos olhos da formosa vi\u00fava.<\/p>\n<p>\u2014 Olha! o melhor \u00e9 vires \u00e0 nossa casa. Autorizo-te a pedir a minha m\u00e3o.<\/p>\n<p>Conquanto ela j\u00e1 houvesse indicado isto nas cartas, era a primeira vez que formalmente o dizia. Alfredo viu-se transportado ao s\u00e9timo c\u00e9u. Agradeceu a autoriza\u00e7\u00e3o que lhe dava e respeitosamente beijou-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Agora, adeus! \u2014 Ainda n\u00e3o! exclamou Alfredo.<\/p>\n<p>\u2014 Que imprud\u00eancia! \u2014 Um instante mais! \u2014 Ouves? disse ela prestando o ouvido ao rumor que se fazia na casa.<\/p>\n<p>Alfredo respondeu apaixonada e literariamente: \u2014 N\u00e3o \u00e9 a calhandra, \u00e9 o rouxinol! \u2014 \u00c9 a voz de minha tia! observou a vi\u00fava prosaicamente. Adeus&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Uma \u00faltima coisa te pe\u00e7o antes de ir \u00e0 tua casa.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9? \u2014 Outra entrevista neste mesmo lugar.<\/p>\n<p>\u2014 Alfredo! \u2014 Outra e \u00faltima.<\/p>\n<p>\u00c2ngela n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>\u2014 Sim? \u2014 N\u00e3o sei, adeus! E libertando a sua m\u00e3o das m\u00e3os do namorado que a retinha com for\u00e7a, \u00c2ngela correu para casa.<\/p>\n<p>Alfredo ficou triste e alegre ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Ouvira a doce voz de \u00c2ngela, tivera nas suas a sua m\u00e3o alva e macia como veludo, ouvira jurar que o amava, enfim estava autorizado a pedir-lhe solenemente a m\u00e3o.<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o por\u00e9m da mo\u00e7a a respeito do que pensaria a tia afigurou-se-lhe extremamente prosaica. Quisera v\u00ea-la toda po\u00e9tica, embebida no seu amor, esquecida do resto do mundo, morta para tudo o que n\u00e3o fosse o bater do seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A despedida sobretudo pareceu-lhe repentinamente demais. O adeus foi antes de medo que de amor, n\u00e3o se despediu, fugiu. Ao mesmo tempo esse sobressalto era dram\u00e1tico e interessante; mas por que n\u00e3o conceder-lhe segunda entrevista? Enquanto ele fazia estas reflex\u00f5es, \u00c2ngela pensava na impress\u00e3o que lhe teria deixado e na m\u00e1goa que por ventura lhe ficara da recusa de uma segunda e \u00faltima entrevista.<\/p>\n<p>Refletiu longo tempo e resolveu remediar o mal, se mal se podia aquilo chamar.<\/p>\n<p>No dia seguinte, logo cedo, recebeu Alfredo um bilhetinho da namorada.<\/p>\n<p>Era um protesto de amor, com uma explica\u00e7\u00e3o da fuga da v\u00e9spera e uma promessa de outra entrevista na seguinte noite, depois da qual ele iria pedir-lhe oficialmente a m\u00e3o.<\/p>\n<p>Alfredo exultou.<\/p>\n<p>Nesse dia a natureza pareceu-lhe melhor. O almo\u00e7o foi excelente apesar de lhe terem dado um filet t\u00e3o duro como sola e de estar o ch\u00e1 frio como \u00e1gua. O patr\u00e3o nunca lhe pareceu mais am\u00e1vel. Todas as pessoas que encontrava tinham cara de excelentes amigos. Enfim, at\u00e9 o criado ganhou com os sentimentos alegres do amo: Alfredo deu-lhe uma boa molhadura pela habilidade com que lhe escovara as botas, que, entre par\u00eanteses, nem sequer levavam graxa.<\/p>\n<p>Verificou-se a entrevista sem nenhum incidente not\u00e1vel. Houve os costumados protestos: \u2014 Amo-te muito! \u2014 E eu! \u2014 \u00c9s um anjo! \u2014 Seremos felizes.<\/p>\n<p>\u2014 Deus nos ou\u00e7a! \u2014 H\u00e1 de ouvir-nos.<\/p>\n<p>Estas e outras palavras foram o estribilho da entrevista que durou apenas meia hora.<\/p>\n<p>Nessa ocasi\u00e3o Alfredo desenvolveu o seu sistema de vida, a maneira por que ele encarava o casamento, os sonhos de amor que haviam realizar, e mil outros artigos de um programa de namorado, que a mo\u00e7a ouviu e aplaudiu.<\/p>\n<p>Alfredo despediu-se contente e feliz.<\/p>\n<p>A noite que passou foi a mais deliciosa de todas. O sonho que ele procurara durante tanto tempo ia enfim realizar-se; amava a uma mulher como ele a queria e imaginava. Nenhum obst\u00e1culo se oferecia \u00e0 sua ventura na terra.<\/p>\n<p>No outro dia de manh\u00e3 entrando no hotel, encontrou o amigo Tib\u00farcio; e referiu-lhe tudo.<\/p>\n<p>O confidente felicitou o namorado pelo triunfo que alcan\u00e7ara e deu-lhe logo um aperto de m\u00e3o, n\u00e3o podendo dar-lhe, como quisera, um abra\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Se soubesses como vou ser feliz! \u2014 Sei.<\/p>\n<p>\u2014 Que mulher! que anjo! \u2014 Sim! \u00e9 bonita.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 bonita. Bonitas h\u00e1 muitas. Mas a alma, a alma que ela tem, a maneira de sentir, tudo isso e mais, eis o que faz uma criatura superior.<\/p>\n<p>\u2014 Quando ser\u00e1 o casamento? \u2014 Ela o dir\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 de ser breve.<\/p>\n<p>\u2014 Dentro de tr\u00eas a quatro meses.<\/p>\n<p>Aqui fez Alfredo um novo hino em louvor das qualidades eminentes e raras da noiva e pela cent\u00e9sima vez defendeu a vida romanesca e ideal. Tib\u00farcio observou gracejando que lhe era necess\u00e1rio primeiro suprimir o bife que estava comendo, observa\u00e7\u00e3o que Alfredo teve a franqueza de achar descabida e um pouco tola.<\/p>\n<p>A conversa por\u00e9m n\u00e3o teve incidente desagrad\u00e1vel e os dois amigos separaram-se como dantes, n\u00e3o sem que o noivo agradecesse ao confidente a anima\u00e7\u00e3o que lhe dera nos piores dias do seu amor.<\/p>\n<p>\u2014 Enfim, quando a vais pedir? \u2014 Amanh\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 Coragem! VII N\u00e3o \u00e9 minha inten\u00e7\u00e3o nem vem ao caso referir ao leitor todos os epis\u00f3dios de Alfredo Tavares.<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui foi necess\u00e1rio contar alguns e resumir outros. Agora que o namoro chegou ao seu termo e que o per\u00edodo do noivado vai come\u00e7ar, n\u00e3o quero fatigar a aten\u00e7\u00e3o do leitor com uma narra\u00e7\u00e3o que nenhuma variedade apresenta. Justamente tr\u00eas meses depois da segunda entrevista recebiam-se os dois noivos, na igreja da Lapa, em presen\u00e7a de algumas pessoas \u00edntimas, entre as quais o confidente de Alfredo, um dos padrinhos. O outro era o primo de \u00c2ngela, de quem falara o cocheiro do t\u00edlburi, e que at\u00e9 agora n\u00e3o apareceu nestas p\u00e1ginas por n\u00e3o ser preciso. Chamava-se Epaminondas e tinha a habilidade de desmentir o padre que tal nome lhe dera, pregando a cada instante a sua peta. A circunst\u00e2ncia n\u00e3o vem ao caso e por isso n\u00e3o insisto nela.<\/p>\n<p>Casados os dois namorados foram passar a lua-de-mel na Tijuca, onde Alfredo escolhera casa adequada \u00e0s circunst\u00e2ncias e ao seu g\u00eanio po\u00e9tico.<\/p>\n<p>Durou um m\u00eas esta aus\u00eancia da corte. No trig\u00e9simo primeiro dia, \u00c2ngela viu anunciada uma pe\u00e7a nova no Gin\u00e1sio e pediu ao marido para virem \u00e0 cidade.<\/p>\n<p>Alfredo objetou que a melhor com\u00e9dia deste mundo n\u00e3o valia o aroma das laranjeiras que estavam florindo e o melanc\u00f3lico som do repuxo do tanque. \u00c2ngela encolheu os ombros e fechou a cara.<\/p>\n<p>\u2014 Que tens, meu amor? perguntou-lhe da\u00ed a vinte minutos o marido.<\/p>\n<p>\u00c2ngela olhou para ele com um gesto de l\u00e1stima, ergueu-se e foi encerrar-se na alcova.<\/p>\n<p>Dois recursos restavam a Alfredo.<\/p>\n<p>1\u00ba Co\u00e7ar a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>2\u00ba Ir ao teatro com a mulher.<\/p>\n<p>Alfredo curvou-se a estas duas necessidades da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c2ngela recebeu-o muito alegremente quando ele lhe foi dizer que iriam ao teatro.<\/p>\n<p>\u2014 Nem por isso, acrescentou Alfredo, nem por isso deixo de sentir algum pesar. Vivemos t\u00e3o bem estes trinta dias.<\/p>\n<p>\u2014 Voltaremos para o ano.<\/p>\n<p>\u2014 Para o ano! \u2014 Sim, alugaremos outra casa.<\/p>\n<p>\u2014 Mas ent\u00e3o esta?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Esta acabou. Pois querias viver num desterro? \u2014 Mas eu pensei que era um para\u00edso, disse o marido com ar melanc\u00f3lico.<\/p>\n<p>\u2014 Para\u00edso \u00e9 coisa de romance.<\/p>\n<p>A alma de Alfredo levou um trambolh\u00e3o. \u00c2ngela viu o efeito produzido no esposo pelo seu reparo e procurou suaviz\u00e1-lo, dizendo-lhe algumas coisas bonitas com que ele algum tempo mitigou as suas penas.<\/p>\n<p>\u2014 Olha, \u00c2ngela, disse Alfredo, o casamento, como eu imaginei sempre, \u00e9 uma vida solit\u00e1ria de dois entes que se amam&#8230; Seremos n\u00f3s assim? \u2014 Por que n\u00e3o? \u2014 Juras ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que seremos felizes.<\/p>\n<p>A resposta era el\u00e1stica. Alfredo tomou-a ao p\u00e9 da letra e abra\u00e7ou a mulher.<\/p>\n<p>Naquele mesmo dia vieram para a casa da tia e foram ao teatro.<\/p>\n<p>A nova pe\u00e7a do Gin\u00e1sio aborreceu tanto o marido quanto agradou \u00e0 mulher. \u00c2ngela parecia fora de si de contente. Quando caiu o pano no \u00faltimo ato, disse ela ao esposo: \u2014 Havemos de vir outra vez.<\/p>\n<p>\u2014 Gostaste? \u2014 Muito. E tu? \u2014 N\u00e3o gostei, respondeu Alfredo com evidente mau humor.<\/p>\n<p>\u00c2ngela levantou os ombros, com o ar de quem dizia: \u2014 Gostes ou n\u00e3o, h\u00e1s de c\u00e1 voltar.<\/p>\n<p>E voltou.<\/p>\n<p>Este foi o primeiro passo de uma carreira que parecia n\u00e3o acabar mais.<\/p>\n<p>\u00c2ngela era um turbilh\u00e3o.<\/p>\n<p>A vida para ela estava fora de casa. Em casa morava a morte, sob a figura do aborrecimento. N\u00e3o havia baile a que faltasse, nem espet\u00e1culo, nem passeio, nem festa c\u00e9lebre, e tudo isto cercado de muitas rendas, j\u00f3ias e sedas, que ela comprava todos os dias, como se o dinheiro nunca devesse acabar.<\/p>\n<p>Alfredo esfor\u00e7ava-se por atrair a mulher \u00e0 esfera dos seus sentimentos rom\u00e2nticos; mas era esfor\u00e7o v\u00e3o.<\/p>\n<p>Com um levantar de ombros, \u00c2ngela respondia a tudo.<\/p>\n<p>Alfredo detestava principalmente os bailes, porque era quando a mulher menos lhe pertencia, sobretudo os bailes dados em casa dele.<\/p>\n<p>\u00c0s observa\u00e7\u00f5es que ele fazia nesse sentido, \u00c2ngela respondia sempre: \u2014 Mas s\u00e3o obriga\u00e7\u00f5es da sociedade; se eu quisesse ser freira metia-me na Ajuda.<\/p>\n<p>\u2014 Mas nem todos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Nem todos conhecem os seus deveres.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! a vida solit\u00e1ria, \u00c2ngela! a vida para dois! \u2014 A vida n\u00e3o \u00e9 um jogo de xadrez.<\/p>\n<p>\u2014 Nem um arraial.<\/p>\n<p>\u2014 Que queres dizer com isso? \u2014 Nada.<\/p>\n<p>\u2014 Pareces tolo.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c2ngela&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora! Levantava os ombros e deixava-o sozinho.<\/p>\n<p>Alfredo era sempre o primeiro a fazer as pazes. A influ\u00eancia que a mulher exercia nele n\u00e3o podia ser mais decisiva. Toda a energia estava com ela; ele era literalmente um f\u00e2mulo da casa.<\/p>\n<p>Nos bailes a que iam, o supl\u00edcio al\u00e9m de ser grande em si mesmo, era aumentado com os louvores que Alfredo ouvia fazer \u00e0 mulher.<\/p>\n<p>\u2014 L\u00e1 est\u00e1 \u00c2ngela, dizia um.<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9? \u2014 \u00c9 aquela de vestido azul.<\/p>\n<p>\u2014 A que se casou? \u2014 Pois casou? \u2014 Casou, sim.<\/p>\n<p>\u2014 Com quem? \u2014 Com um rapaz bonach\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Feliz mortal! \u2014 Onde est\u00e1 o marido? \u2014 Caluda! est\u00e1 aqui: \u00e9 este sujeito triste que est\u00e1 consertando a gravata&#8230;<\/p>\n<p>Estas e outras considera\u00e7\u00f5es irritavam profundamente Alfredo. Ele via que era conhecido por causa da mulher. A pessoa dele era uma esp\u00e9cie de cifra. \u00c2ngela \u00e9 que era a unidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia meio de se recolher cedo. \u00c2ngela entrando num baile s\u00f3 se retirava com as \u00faltimas pessoas. Cabia-lhe perfeitamente a express\u00e3o que o marido empregou num dia de mau humor: \u2014 Tu espremes um baile at\u00e9 o baga\u00e7o.<\/p>\n<p>As vezes estava o m\u00edsero em casa, descansando e alegremente conversando com ela, abrindo todo o pano \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o. \u00c2ngela, ou por aborrecimento, ou por desejo invenc\u00edvel de passear, ia vestir-se e convidava o marido a sair. O marido j\u00e1 n\u00e3o recalcitrava; suspirava e vestia-se. Do passeio voltava ele aborrecido, e ela alegre, al\u00e9m do mais porque n\u00e3o deixava de comprar um vestido novo e caro, uma j\u00f3ia, um enfeite qualquer.<\/p>\n<p>Alfredo n\u00e3o tinha for\u00e7as para reagir.<\/p>\n<p>O menor desejo de \u00c2ngela era para ele uma lei de ferro; cumpria-a por gosto e por fraqueza.<\/p>\n<p>Nesta situa\u00e7\u00e3o, Alfredo sentiu necessidade de desabafar com algu\u00e9m. Mas esse algu\u00e9m n\u00e3o aparecia. N\u00e3o lhe convinha falar ao Tib\u00farcio, por n\u00e3o querer confiar a um estranho, embora amigo, as suas zangas conjugais. A tia de \u00c2ngela parecia apoiar a sobrinha em tudo. Alfredo lembrou-se de pedir conselho a Epaminondas.<\/p>\n<p>VIII Epaminondas ouviu atentamente as queixas do primo. Achou-as exageradas, e foi o menos que lhe podia dizer, porque no seu entender eram verdadeiros desprop\u00f3sitos.<\/p>\n<p>\u2014 O que voc\u00ea quer \u00e9 realmente imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2014 Imposs\u00edvel? \u2014 Decerto. A prima est\u00e1 mo\u00e7a, quer naturalmente divertir-se. Por que raz\u00e3o h\u00e1 de viver como freira? \u2014 Mas eu n\u00e3o pe\u00e7o que viva como freira. Quisera v\u00ea-la mais em casa, menos aborrecida quando est\u00e1 s\u00f3 comigo. Lembra-se da nossa briga do domingo? \u2014 Lembro-me. Voc\u00ea queria ler-lhe uns versos e ela respondeu que n\u00e3o a aborrecesse.<\/p>\n<p>\u2014 Que tal?&#8230;<\/p>\n<p>Epaminondas recolheu-se a um eloq\u00fcente sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Alfredo esteve tamb\u00e9m algum tempo calado. Enfim: \u2014 Estou resolvido a usar da minha autoridade de marido.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o caia nessa.<\/p>\n<p>\u2014 Mas ent\u00e3o devo viver eternamente nisto? \u2014 Eternamente j\u00e1 v\u00ea que \u00e9 imposs\u00edvel, disse Epaminondas sorrindo. Mas veja bem o risco que corre. Eu tive uma prima que se vingou do marido por uma dessas. Parece incr\u00edvel! Cortou a si mesma o dedo m\u00ednimo do p\u00e9 esquerdo e deu-lhe a comer com batatas.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 brincando&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Estou falando s\u00e9rio. Chamava-se L\u00facia. Quando ele reconheceu que efetivamente tinha devorado a carne da sua carne, teve um ataque.<\/p>\n<p>\u2014 Imagino.<\/p>\n<p>\u2014 Dois dias depois expirou de remorsos. N\u00e3o fa\u00e7a tal; n\u00e3o irrite uma mulher. D\u00ea tempo ao tempo. A velhice h\u00e1 de cur\u00e1-la e traz\u00ea-la a costumes pac\u00edficos.<\/p>\n<p>Alfredo fez um gesto de desespero.<\/p>\n<p>\u2014 Sossegue. Tamb\u00e9m eu fui assim. Minha finada mulher&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Era do mesmo gosto? \u2014 Do mesm\u00edssimo. Quis contrari\u00e1-la. Ia-me custando a vida.<\/p>\n<p>\u2014 Sim? \u2014 Tenho aqui entre duas costelas uma cicatriz larga; foi uma canivetada que Margarida me deu estando eu a dormir muito tranq\u00fcilamente.<\/p>\n<p>\u2014 Que me diz? \u2014 A verdade. Mal tive tempo de lhe segurar no pulso e arroj\u00e1-la para longe de mim. A porta do quarto estava fechada com o trinco mas foi tal a for\u00e7a com que a empurrei que a porta se abriu e ela foi parar ao fim da sala.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! Alfredo lembrou-se a tempo do sestro do primo e deixou-o falar a gosto. Epaminondas engendrou logo ali um ou dois cap\u00edtulos de romance sombrio e ensang\u00fcentado. Alfredo, aborrecido, deixou-o s\u00f3.<\/p>\n<p>Tib\u00farcio encontrou-o algumas vezes cabisbaixo e melanc\u00f3lico. Quis saber da causa, mas Alfredo conservou prudente reserva.<\/p>\n<p>A esposa deu ampla liberdade aos seus caprichos. Fazia recep\u00e7\u00f5es todas as semanas, apesar dos protestos do marido que, no meio da sua m\u00e1goa, exclamava: \u2014 Mas ent\u00e3o eu n\u00e3o tenho mulher! tenho uma locomotiva! Exclama\u00e7\u00e3o que \u00c2ngela ouvia sorrindo sem lhe dar a m\u00ednima resposta.<\/p>\n<p>Os cabedais da mo\u00e7a eram poucos; as despesas muitas. Com as mil coisas em que se gastava o dinheiro n\u00e3o era poss\u00edvel que ele durasse toda a vida. Ao cabo de cinco anos, Alfredo reconheceu que tudo estava perdido.<\/p>\n<p>A mulher sentiu dolorosamente o que ele lhe contou.<\/p>\n<p>\u2014 Sinto isto deveras, acrescentou Alfredo; mas a minha consci\u00eancia est\u00e1 tranq\u00fcila.<\/p>\n<p>Sempre me opus a despesas loucas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sempre? \u2014 Nem sempre, porque te amava e amo, e do\u00eda-me ver que ficavas triste; mas a maior parte delas opus-me com todas as for\u00e7as.<\/p>\n<p>\u2014 E agora? \u2014 Agora precisamos ser econ\u00f4micos; viver como pobres.<\/p>\n<p>\u00c2ngela curvou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Seguiu-se um grande sil\u00eancio.<\/p>\n<p>O primeiro que o rompeu foi ela.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 imposs\u00edvel! \u2014 Imposs\u00edvel o qu\u00ea? \u2014 A pobreza.<\/p>\n<p>\u2014 Imposs\u00edvel, mas necess\u00e1ria, disse Alfredo com filos\u00f3fica tristeza.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria; eu hei de fazer alguma coisa; tenho pessoas de amizade.<\/p>\n<p>\u2014 Ou um Potos\u00ed&#8230;<\/p>\n<p>\u00c2ngela n\u00e3o se explicou mais; Alfredo foi para a casa de neg\u00f3cio que estabelecera, n\u00e3o descontente com a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o estou bem, pensava ele; mas ao menos terei mudado a minha situa\u00e7\u00e3o conjugal.<\/p>\n<p>Os quatro dias seguintes passaram sem novidade.<\/p>\n<p>Houve sempre uma novidade.<\/p>\n<p>\u00c2ngela est\u00e1 muito mais carinhosa com o marido do que at\u00e9 ent\u00e3o. Alfredo atribu\u00eda esta mudan\u00e7a \u00e0s circunst\u00e2ncias atuais e agradeceu \u00e0 boa estrela que t\u00e3o venturoso o tornara.<\/p>\n<p>No quinto dia Epaminondas foi falar a Alfredo propondo-lhe ir pedir ao governo uma concess\u00e3o e privil\u00e9gio de minas em Mato Grosso.<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu n\u00e3o me meto em explorador de minas.<\/p>\n<p>\u2014 Perd\u00e3o; vendemos o privil\u00e9gio.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 certo disso? perguntou Alfredo tentado.<\/p>\n<p>\u2014 Cert\u00edssimo.<\/p>\n<p>E logo: \u2014 Temos al\u00e9m disso outra empresa: uma estrada de ferro no Piau\u00ed. Vende-se a empresa do mesmo modo.<\/p>\n<p>\u2014 Tem elementos para ambas as coisas? \u2014 Tenho.<\/p>\n<p>Alfredo refletiu.<\/p>\n<p>\u2014 Aceito.<\/p>\n<p>Epaminondas declarou que alcan\u00e7aria tudo do ministro. Tantas coisas disse que o primo, sabedor dos carapet\u00f5es que ele pregava, come\u00e7ou a desconfiar.<\/p>\n<p>Errava desta vez.<\/p>\n<p>Pela primeira vez Epaminondas falava verdade; tinha elementos para alcan\u00e7ar as duas empresas.<\/p>\n<p>\u00c2ngela n\u00e3o perguntou ao marido a causa da preocupa\u00e7\u00e3o com que ele nesse dia entrou em casa. A id\u00e9ia de Alfredo era tudo ocultar \u00e0 mulher, pelo menos enquanto pudesse.<\/p>\n<p>Confiava no resultado dos seus esfor\u00e7os para traz\u00ea-la a melhor caminho.<\/p>\n<p>Os pap\u00e9is andaram com uma prontid\u00e3o rara em coisas an\u00e1logas. Parece que uma fada benfazeja se encarregava de adiantar o neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Alfredo conhecia o ministro. Duas vezes fora convidado para l\u00e1 tomar ch\u00e1 e tivera al\u00e9m disso a honra de o receber em casa algumas vezes. Nem por isso julgava ter direito \u00e0 pronta solu\u00e7\u00e3o do neg\u00f3cio. O neg\u00f3cio, por\u00e9m, corria mais veloz que uma locomotiva.<\/p>\n<p>N\u00e3o se haviam passado dois meses depois da apresenta\u00e7\u00e3o do memorial quando Alfredo, ao entrar em casa, foi surpreendido por muitos abra\u00e7os e beijos da mulher.<\/p>\n<p>\u2014 Que temos? disse ele todo risonho.<\/p>\n<p>\u2014 Vou dar-te um presente.<\/p>\n<p>\u2014 Um presente? \u2014 Que dia \u00e9 hoje? \u2014 Vinte e cinco de mar\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Fazes anos.<\/p>\n<p>\u2014 Nem me lembrava.<\/p>\n<p>\u2014 Aqui est\u00e1 o meu presente.<\/p>\n<p>Era um papel.<\/p>\n<p>Alfredo abriu o papel.<\/p>\n<p>Era o decreto de privil\u00e9gio das minas.<\/p>\n<p>Alfredo ficou literalmente embasbacado.<\/p>\n<p>\u2014 Mas como veio isto?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Quis causar-te esta surpresa. O outro decreto h\u00e1 de vir de aqui a oito dias.<\/p>\n<p>\u2014 Mas ent\u00e3o sabia que eu&#8230;? \u2014 Sabia tudo.<\/p>\n<p>Quem te disse?&#8230;<\/p>\n<p>\u00c2ngela titubeou.<\/p>\n<p>\u2014 Foi&#8230; foi o primo Epaminondas.<\/p>\n<p>A explica\u00e7\u00e3o satisfez Alfredo durante tr\u00eas dias.<\/p>\n<p>No fim desse tempo abriu um jornal e leu com pasmo esta mofina: Mina de caro\u00e7o, Com que ent\u00e3o os cofres p\u00fablicos j\u00e1 servem para nutrir o fogo no cora\u00e7\u00e3o dos ministros? Quem pergunta quer saber.<\/p>\n<p>Alfredo rasgou o jornal no primeiro \u00edmpeto.<\/p>\n<p>Depois&#8230;<\/p>\n<p>IX \u2014 Mas em suma que tens? disse Tib\u00farcio ao ver que Alfredo n\u00e3o se atrevia a falar.<\/p>\n<p>\u2014 O que tenho? Fui \u00e0 cata de poesia e acho-me em prosa chata e baixa. Ah! meu amigo quem me mandou seguir pela Rua da Quitanda?<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis I Era um dia um rapaz de vinte e cinco anos, bonito e celibat\u00e1rio, n\u00e3o rico, mas vantajosamente empregado. N\u00e3o tinha ambi\u00e7\u00f5es, ou antes tinha uma ambi\u00e7\u00e3o s\u00f3; era amar loucamente uma mulher e casar sensatamente com ela. At\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o se apaixonara por nenhuma. 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