{"id":113851,"date":"2017-03-16T12:10:53","date_gmt":"2017-03-16T14:10:53","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=113851"},"modified":"2017-03-16T12:10:53","modified_gmt":"2017-03-16T14:10:53","slug":"a-meditacao-sobre-o-tiete","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-meditacao-sobre-o-tiete","title":{"rendered":"A Medita\u00e7\u00e3o Sobre o Tiet\u00ea"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h4>M\u00e1rio de Andrade<\/h4>\n<p>\u00c1gua do meu Tiet\u00ea,<br \/>\nOnde me queres levar?<br \/>\n&#8211; Rio que entras pela terra<br \/>\nE que me afastas do mar&#8230;<br \/>\n\u00c9 noite. E tudo \u00e9 noite. Debaixo do arco admir\u00e1vel<br \/>\nDa Ponte das Bandeiras o rio<br \/>\nMurmura num banzeiro de \u00e1gua pesada e oliosa.<br \/>\n\u00c9 noite e tudo \u00e9 noite. Uma ronda de sombras,<br \/>\nSoturnas sombras, enchem de noite de t\u00e3o vasta<br \/>\nO peito do rio, que \u00e9 como si a noite fosse \u00e1gua,<br \/>\n\u00c1gua noturna, noite l\u00edquida, afogando de apreens\u00f5es<br \/>\nAs altas torres do meu cora\u00e7\u00e3o exausto. De repente<br \/>\nO \u00f3lio das \u00e1guas recolhe em cheio luzes tr\u00eamulas,<br \/>\n\u00c9 um susto. E num momento o rio<br \/>\nEsplende em luzes inumer\u00e1veis, lares, pal\u00e1cios e ruas,<br \/>\nRuas, ruas, por onde os dinossauros caxingam<br \/>\nAgora, arranha-c\u00e9us valentes donde saltam<br \/>\nOs bichos blau e os punidores gatos verdes,<br \/>\nEm c\u00e2nticos, em prazeres, em trabalhos e f\u00e1bricas,<br \/>\nLuzes e gl\u00f3ria. \u00c9 a cidade&#8230; \u00c9 a emaranhada forma<br \/>\nHumana corrupta da vida que muge e se aplaude.<br \/>\nE se aclama e se falsifica e se esconde. E deslumbra.<br \/>\nMas \u00e9 um momento s\u00f3. Logo o rio escurece de novo,<br \/>\nEst\u00e1 negro. As \u00e1guas oliosas e pesadas se aplacam<br \/>\nNum gemido. Flor. Tristeza que timbra um caminho de morte.<br \/>\n\u00c9 noite. E tudo \u00e9 noite. E o meu cora\u00e7\u00e3o devastado<br \/>\n\u00c9 um rumor de germes insalubres pela noite insone e humana.<br \/>\nMeu rio, meu Tiet\u00ea, onde me levas?<br \/>\nSarc\u00e1stico rio que contradizes o curso das \u00e1guas<br \/>\nE te afastas do mar e te adentras na terra dos homens,<br \/>\nOnde me queres levar?&#8230;<br \/>\nPor que me pro\u00edbes assim praias e mar, por que<br \/>\nMe impedes a fama das tempestades do Atl\u00e2ntico<br \/>\nE os lindos versos que falam em partir e nunca mais voltar?<br \/>\nRio que fazes terra, h\u00famus da terra, bicho da terra,<br \/>\nMe induzindo com a tua insist\u00eancia turrona paulista<br \/>\nPara as tempestades humanas da vida, rio, meu rio!&#8230;<\/p>\n<p>J\u00e1 nada me amarga mais a recusa da vit\u00f3ria<br \/>\nDo indiv\u00edduo, e de me sentir feliz em mim.<br \/>\nEu mesmo desisti dessa felicidade deslumbrante,<br \/>\nE fui por tuas \u00e1guas levado,<br \/>\nA me reconciliar com a dor humana pertinaz,<br \/>\nE a me purificar no barro dos sofrimentos dos homens.<br \/>\nEu que decido. E eu mesmo me reconstitu\u00ed \u00e1rduo na dor<br \/>\nPor minhas m\u00e3os, por minhas desvividas m\u00e3os, por<br \/>\nEstas minhas pr\u00f3prias m\u00e3os que me traem,<br \/>\nMe desgastaram e me dispersaram por todos os descaminhos,<br \/>\nFazendo de mim uma trama onde a aranha insaciada<br \/>\nSe perdeu em cisco e polem, cad\u00e1veres e verdades e ilus\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas por\u00e9m, rio, meu rio, de cujas \u00e1guas eu nasci,<br \/>\nEu nem tenho direito mais de ser melanc\u00f3lico e fr\u00e1gil,<br \/>\nNem de me estrelar nas vol\u00fapias in\u00fateis da l\u00e1grima!<br \/>\nEu me reverto \u00e0s tuas \u00e1guas espessas de inf\u00e2mias,<br \/>\nOliosas, eu, voluntariamente, sofregamente, sujado<br \/>\nDe inf\u00e2mias, ego\u00edsmos e trai\u00e7\u00f5es. E as minhas vozes,<br \/>\nPerdidas do seu tenor, rosnam pesadas e oliosas,<br \/>\nVarando terra adentro no espanto dos mil futuros,<br \/>\n\u00c0 espera angustiada do ponto. N\u00e3o do meu ponto final!<br \/>\nEu desisiti! Mas do ponto entre as \u00e1guas e a noite,<br \/>\nDaquele ponto leal \u00e0 terrestre pergunta do homem,<br \/>\nDe que o homem h\u00e1 de nascer.<\/p>\n<p>Eu vejo; n\u00e3o \u00e9 por mim, o meu verso tomando<br \/>\nAs cordas oscilantes da serpente, rio.<br \/>\nToda a gra\u00e7a, todo o prazer da vida se acabou.<br \/>\nNas tuas \u00e1guas eu contemplo o Boi Paci\u00eancia<br \/>\nSe afogando, que o peito das \u00e1guas tudo soverteu.<br \/>\nCont\u00e1gios, tradi\u00e7\u00f5es, brancuras e not\u00edcias,<br \/>\nMudo, esquivo, dentro da noite, o peito das \u00e1guas,<br \/>\nfechado, mudo,<br \/>\nMudo e vivo, no despeito estr\u00eddulo que me fustiga e devora.<br \/>\nDestino, predestina\u00e7\u00f5es&#8230; meu destino. Estas \u00e1guas<br \/>\nDo meu Tiet\u00ea s\u00e3o abjetas e barrentas,<br \/>\nD\u00e3o febre, d\u00e3o morte decerto, e d\u00e3o gar\u00e7as e ant\u00edteses.<br \/>\nNem as ondas das suas praias cantam, e no fundo<br \/>\nDas manh\u00e3s elas d\u00e3o gargalhadas fren\u00e9ticas,<br \/>\nSilvos de tocaias e lamurientos jacar\u00e9s.<br \/>\nIsto n\u00e3o s\u00e3o \u00e1guas que se beba, conhecido, isto s\u00e3o<br \/>\n\u00c1guas do v\u00edcio da terra. Os jabirus e os soc\u00f3s<br \/>\nGargalham depois morrem. E as antas e os bandeirantes e os ing\u00e1s,<br \/>\nDepois morrem. Sobra n\u00e3o. Nem siquer o Boi Paci\u00eancia<br \/>\nSe muda n\u00e3o. Vai tudo ficar na mesma, mas vai!&#8230; e os corpos<br \/>\nPodres envenenam estas \u00e1guas completas no bem e no mal.<br \/>\nIsto n\u00e3o s\u00e3o \u00e1guas que se beba, conhecido! Estas \u00e1guas<br \/>\nS\u00e3o malditas e d\u00e3o morte, eu descobri! e \u00e9 por isso<br \/>\nQue elas se afastam dos oceanos e induzem \u00e0 terra dos homens,<br \/>\nPaspalhonas. Isto n\u00e3o s\u00e3o \u00e1gua que se beba, eu descobri!<br \/>\nE o meu peito das \u00e1guas se esborrifa, ventarr\u00e3o vem, se encapela<br \/>\nEngruvinhado de dor que n\u00e3o se suporta mais.<br \/>\nMe sinto o pai Tiet\u00ea! \u00f4h for\u00e7a dos meus sovacos!<br \/>\nCio de amor que me impede, que destr\u00f3i e fecunda!<br \/>\nNordeste de impaciente amor sem met\u00e1foras,<br \/>\nQue se horroriza e enraivece de sentir-se<br \/>\nDemagogicamente t\u00e3o sozinho! \u00d4 for\u00e7a!<br \/>\nInc\u00eandio de amor estrondante, enchente magn\u00e2nima que me inunda,<br \/>\nMe alarma e me destro\u00e7a, inerme por sentir-me<br \/>\nDemagogicamente t\u00e3o s\u00f3!<\/p>\n<p>A culpa \u00e9 tua, Pai Tiet\u00ea? A culpa \u00e9 tua<br \/>\nSi as tuas \u00e1guas est\u00e3o podres de fel<br \/>\nE majestade falsa? A culpa \u00e9 tua<br \/>\nOnde est\u00e3o os amigos? Onde est\u00e3o os inimigos?<br \/>\nOnde est\u00e3o os pardais? e os teus estudiosos e s\u00e1bios, e<br \/>\nOs iletrados?<br \/>\nOnde o teu povo? e as mulheres! dona Hircenuhdis Quiroga!<br \/>\nE os Prados e os crespos e os pratos e<br \/>\nos barbas e os gatos e os l\u00ednguas<br \/>\nDo Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico, e os museus e a C\u00faria,<br \/>\ne os senhores chantres reverend\u00edssimos,<br \/>\nCelso niil estate var\u00edolas gide memoriam,<br \/>\nCal\u00edpedes flog\u00edsticos e a Confraria Brasiliense e Clima<br \/>\nE os jornalistas e os trustkistas e a Light e as<br \/>\nNovas ruas abertas e a falta de habita\u00e7\u00f5es e<br \/>\nOs mercados?&#8230; E a tiradeira divina de Cristo!&#8230;<br \/>\nTu \u00e9s Demagogia. A pr\u00f3pria vida abstrata tem vergonha<br \/>\nDe ti em tua ambi\u00e7\u00e3o fumarenta.<br \/>\n\u00c9s demagogia em teu cora\u00e7\u00e3o insubmisso.<br \/>\n\u00c9s demagogia em teu desequil\u00edbrio antic\u00e9ptico<br \/>\nE antiuniversit\u00e1rio.<br \/>\n\u00c9s demagogia. Pura demagogia.<br \/>\nDemagogia pura. Mesmo alimpada de met\u00e1foras.<br \/>\nMesmo irrespir\u00e1vel de furor na fala reles:<br \/>\nDemagogia.<br \/>\nTu \u00e9s enquanto tudo \u00e9 eternidade e malvasia:<br \/>\nDemagogia.<br \/>\nTu \u00e9s em meio \u00e0 (crase) gente pia:<br \/>\nDemagogia.<br \/>\n\u00c9s tu jocoso enquanto o ato gratuito se esvazia:<br \/>\nDemagogia.<br \/>\n\u00c9s demagogia, ningu\u00e9m chegue perto!<br \/>\nNem Alberto, nem Adalberto nem Dagoberto<br \/>\nEsperto Ciumento Peripat\u00e9tico e Ceci<br \/>\nE Tancredo e Afrod\u00edsio e tamb\u00e9m Armida<br \/>\nE o pr\u00f3prio Pedro e tamb\u00e9m Alcib\u00edades,<br \/>\nNingu\u00e9m te chegue perto, porque tenhamos o pudor,<br \/>\nO pudor do pudor, sejamos verticais e sutis, bem<br \/>\nSutis!&#8230; E as tuas m\u00e3os se emaranham lerdas,<br \/>\nE o Pai Tiet\u00ea se vai num suspiro educado e sereno,<br \/>\nPorque \u00e9s demagogia e tudo \u00e9 demagogia.<br \/>\nOlha os peixes, demagogo incivil! Repete os carcomidos peixes!<br \/>\nS\u00e3o eles que empurram as \u00e1guas e as fazem servir de alimento<br \/>\n\u00c0s areias gordas da margem. Olha o peixe dourado sonoro,<br \/>\nEsse \u00e9 um presidente, mant\u00e9m faixa de crach\u00e1 no peito,<br \/>\nAcirculado de tubar\u00f5es que escondendo na fu\u00e7a rotunda<br \/>\nO perrepismo dos dentes, se revezam na rota solene<br \/>\nLanguidamente presidenciais. Ei-vem o tubar\u00e3o-martelo<br \/>\nE o lambari-spitfire. Ei-vem o boto-ministro.<br \/>\nEi-vem o peixe-boi com as mil mamicas imprudentes,<br \/>\nPerturbado pelos golfinhos saltitantes e as tabaranas<br \/>\nEm z\u00e1s-tr\u00e1s dos guapos P\u00ead\u00eac\u00ea e Guapor\u00e9s.<br \/>\nEis o peixe-baleia entre os peixes mu\u00e7uns lineares,<br \/>\nE os bagres do lodo oliva e bilh\u00f5es de peixins japoneses;<br \/>\nMas \u00e9s asn\u00e1tico o peixe-baleia e vai logo encalhar na margem,<br \/>\nPois quis engolir a pr\u00f3pria margem, confundido pela facheada,<br \/>\nPeixes aos mil e mil, como se diz, brincabrincando<br \/>\nDe dirigir a corrente com ares de salva-vidas.<br \/>\nE l\u00e1 vem por debaixo e por de-banda os interrogativos peixes<br \/>\nInternacionais, uns rubicundos sustentados de mosca,<br \/>\nE os espadartes a trote chique, esses s\u00e3o espadartes! e as duas<br \/>\nSemanas Santas se insultam e odeiam, na lufa-lufa de ganhar<br \/>\nNo bicho o corpo do crucificado. Mas as \u00e1guas,<br \/>\nAs \u00e1guas choram baixas num murm\u00fario l\u00edvido, e se difundem<br \/>\nTecidas de peixe e abandono, na mais incompetente solid\u00e3o.<br \/>\nVamos, Demagogia! eia! sus! aceita o ventre e investe!<br \/>\nBerra de amor humano impenitente,<br \/>\nCega, sem l\u00e1grimas, ignara, col\u00e9rica, investe!<br \/>\nUm dia h\u00e1s de ter raz\u00e3o contra a ci\u00eancia e a realidade,<br \/>\nE contra os fariseus e as lontras luzidias.<br \/>\nE contra os guar\u00e1s e os elogiados. E contra todos os peixes.<br \/>\nE tamb\u00e9m os mariscos, as ostras e os trair\u00f5es fartos de equil\u00edbrio e<br \/>\nPundhonor.<br \/>\nPum d&#8217;honor.<br \/>\nQu\u00e9-de as Juvenilidades Auriverdes!<br \/>\nEu tenho medo&#8230; Meu cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 pequeno, \u00e9 tanta<br \/>\nEssa demagogia, \u00e9 tamanha,<br \/>\nQue eu tenho medo de abra\u00e7ar os inimigos,<br \/>\nEm busca apenas dum sabor,<br \/>\nEm busca dum olhar,<br \/>\nUm sabor, um olhar, uma certeza&#8230;<br \/>\n\u00c9 noite&#8230; Rio! meu rio! meu Tiet\u00ea!<br \/>\n\u00c9 noite muito!&#8230; As formas&#8230; Eu busco em v\u00e3o as formas<br \/>\nQue me ancorem num porto seguro na terra dos homens.<br \/>\n\u00c9 noite e tudo \u00e9 noite. O rio tristemente<br \/>\nMurmura num banzeiro de \u00e1gua pesada e oliosa.<br \/>\n\u00c1gua noturna, noite l\u00edquida&#8230; Aug\u00farios mornos afogam<br \/>\nAs altas torres do meu exausto cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMe sinto esvair no apagado murmulho das \u00e1guas<br \/>\nMeu pensamento quer pensar, flor, meu peito<br \/>\nQuereria sofrer, talvez (sem met\u00e1foras) uma dor irritada&#8230;<br \/>\nMas tudo se desfaz num choro de agonia<br \/>\nPl\u00e1cida. N\u00e3o tem formas nessa noite, e o rio<br \/>\nRecolhe mais esta luz, vibra, reflete, se aclara, refulge,<br \/>\nE me larga desarmado nos transes da enorme cidade.<\/p>\n<p>Si todos esses dinossauros imponentes de luxo e diamante,<br \/>\nVorazes de genealogia e de arcanos,<br \/>\nQuisessem reconquistar o passado&#8230;<br \/>\nEu me vejo sozinho, arrastando sem m\u00fasculo<br \/>\nA cauda do pav\u00e3o e mil olhos de s\u00e9culos,<br \/>\nSobretudo os vinte s\u00e9culos de anticristianismo<br \/>\nDa por todos chamada Civiliza\u00e7\u00e3o Crist\u00e3&#8230;<\/p>\n<p>Olhos que me intrigam, olhos que me denunciam,<br \/>\nDa cauda do pav\u00e3o, t\u00e3o pesada e ilus\u00f3ria.<br \/>\nN\u00e3o posso continuar mais, n\u00e3o tenho, porque os homens<br \/>\nN\u00e3o querem me ajudar no meu caminho.<br \/>\nEnt\u00e3o a cauda se abriria orgulhosa e reflorescente<br \/>\nDe luzes inimagin\u00e1veis e certezas&#8230;<br \/>\nEu n\u00e3o seria t\u00e3o-somente o peso deste meu desconsolo,<br \/>\nA lepra do meu castigo queimando nesta epiderme<br \/>\nQue encurta, me encerra e me inutiliza na noite,<br \/>\nMe revertendo min\u00fasculo \u00e0 advert\u00eancia do meu rio.<br \/>\nEscuto o rio. Assunto estes balou\u00e7os em que o rio<br \/>\nMurmura num banzeiro. E contemplo<br \/>\nComo apenas se movimenta escravizada a torrente,<br \/>\nE rola a multid\u00e3o. Cada onda que abrolha<br \/>\nE se mistura no rolar fatigado \u00e9 uma dor. E o surto<br \/>\nMirim dum crime impune.<br \/>\nV\u00eam de tr\u00e1s o estir\u00e3o. \u00c9 t\u00e3o solu\u00e7ante e t\u00e3o longo,<br \/>\nE l\u00e1 na curva do rio v\u00eam outros estir\u00f5es e mais outros,<br \/>\nE l\u00e1 na frente s\u00e3o outros, todos solu\u00e7antes e presos<br \/>\nPor curvas que ser\u00e3o sempre apenas as curvas do rio.<br \/>\nH\u00e1 de todos os assombros, de todas as purezas e mart\u00edrios<br \/>\nNesse rolo torvo das \u00e1guas. Meu Deus! meu<br \/>\nRio! como \u00e9 poss\u00edvel a torpeza da enchente dos homens!<br \/>\nQuem pode compreender o escravo macho<br \/>\nE multimilenar que escorre e sofre, e mandado escorre<br \/>\nEntre injusti\u00e7a e impiedade, estreitado<br \/>\nNas margens e nas areias das praias sequiosas?<br \/>\nElas bebem e bebem. N\u00e3o se fartam, deixando com desespero<br \/>\nQue o rosto do gal\u00e9 aquoso ultrapasse esse dia,<br \/>\nPra ser represado e bebido pelas outras areias<br \/>\nDas praias adiante, que tamb\u00e9m dominam, aprisionam e mandam<br \/>\nA tr\u00e1gica sina do rolo das \u00e1guas, e dirigem<br \/>\nO leito impass\u00edvel da injusti\u00e7a e da impiedade.<br \/>\nOndas, a multid\u00e3o, o rebanho, o rio, meu rio, um rio<br \/>\nQue sobe! Fervilha e sobe! E se adentra fatalizado, e em vez<br \/>\nDe ir se alastrar arejado nas liberdades oce\u00e2nicas,<br \/>\nEm vez se adentra pela terra escura e \u00e1vida dos homens,<br \/>\nDando sangue e vida a beber. E a massa l\u00edquida<br \/>\nDa multid\u00e3o onde tudo se esmigalha e se iguala,<br \/>\nRola pesada e oliosa, e rola num rumor surdo,<br \/>\nE rola mansa, amansada imensa eterna, mas<br \/>\nNo eterno imenso r\u00edgido canal da estulta dor.<\/p>\n<p>Porque os homens n\u00e3o me escutam! Por que os governadores<br \/>\nN\u00e3o me escutam? Por que n\u00e3o me escutam<br \/>\nOs plutocratas e todos os que s\u00e3o chefes e s\u00e3o fezes?<br \/>\nTodos os donos da vida?<br \/>\nEu lhes daria o imposs\u00edvel e lhes daria o segredo,<br \/>\nEu lhes dava tudo aquilo que fica pra c\u00e1 do grito<br \/>\nMet\u00e1lico dos n\u00fameros, e tudo<br \/>\nO que est\u00e1 al\u00e9m da insinua\u00e7\u00e3o cruenta da posse.<br \/>\nE si acaso eles protestassem, que n\u00e3o! que n\u00e3o desejam<br \/>\nA borboleta transl\u00facida da humana vida, porque preferem<br \/>\nO retrato a \u00f3lio das inaugura\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas,<br \/>\nCom b\u00e9stias de oper\u00e1rio e do oficial, imediatamente inferior.<br \/>\nE palminhas, e mais os sorrisos das m\u00e1scaras e a profunda como\u00e7\u00e3o,<br \/>\nPois n\u00e3o! Melhor que isso eu lhes dava uma felicidade deslumbrante<br \/>\nDe que eu consegui me despojar porque tudo sacrifiquei.<br \/>\nSejamos generos\u00edssimos. E enquanto os chefes e as fezes<br \/>\nDe mamadeira ficassem na creche de laca e lacinhos,<br \/>\nIng\u00eanuos brincando de felicidade deslumbrante:<br \/>\nN\u00f3s nos ir\u00edamos de camisa aberta ao peito,<br \/>\nDescendo verdadeiros ao l\u00e9u da corrente do rio,<br \/>\nEntrando na terra dos homens ao coro das quatro esta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Pois que mais uma vez eu me aniquilo sem reserva,<br \/>\nE me estilha\u00e7o nas fagulhas eternamente esquecidas,<br \/>\nE me salvo no eternamente esquecido fogo de amor&#8230;<br \/>\nEu estalo de amor e sou s\u00f3 amor arrebatado<br \/>\nAo fogo irrefletido do amor.<br \/>\n&#8230;eu j\u00e1 amei sozinho comigo; eu j\u00e1 cultivei tamb\u00e9m<br \/>\nO amor do amor, Maria!<br \/>\nE a carne plena da amante, e o susto v\u00e1rio<br \/>\nDa amiga, e a inconfid\u00eancia do amigo&#8230; Eu j\u00e1 amei<br \/>\nContigo, Irm\u00e3o Pequeno, no ex\u00edlio da pregui\u00e7a elevada, escolhido<br \/>\nPelas \u00e1guas do t\u00farbido rio do Amazonas, meu outro sinal.<br \/>\nE tamb\u00e9m, \u00f4h tamb\u00e9m! na mais imp\u00e1vida gl\u00f3ria<br \/>\nDescobridora da minha inconst\u00e2ncia e aventura,<br \/>\nDesque me fiz poeta e fui trezentos, eu amei<br \/>\nTodos os homens, odiei a guerra, salvei a paz!<br \/>\nE eu n\u00e3o sabia! eu bailo de ignor\u00e2ncias inventivas,<br \/>\nE a minha sabedoria vem das fontes que eu n\u00e3o sei!<br \/>\nQuem move meu bra\u00e7o? quem beija por minha boca?<br \/>\nQuem sofre e se gasta pelo meu renascido cora\u00e7\u00e3o?<br \/>\nQuem? sin\u00e3o o inc\u00eandio nascituro do amor?&#8230;<br \/>\nEu me sinto grimpado no arco da Ponte das Bandeiras,<br \/>\nBardo mesti\u00e7o, e o meu verso vence a corda<br \/>\nDa caninana sagrada, e afina com os ventos dos ares, e enrouquece<br \/>\n\u00damido nas espumas da \u00e1gua do meu rio,<br \/>\nE se espatifa nas dedilha\u00e7\u00f5es brutas do incorp\u00f3reo Amor.<br \/>\nPor que os donos da vida n\u00e3o me escutam?<br \/>\nEu s\u00f3 sei que eu n\u00e3o sei por mim! sabem por mim as fontes<br \/>\nDa \u00e1gua, e eu bailo de ignor\u00e2ncias inventivas.<\/p>\n<p>Meu baile \u00e9 solto como a dor que range, meu<br \/>\nBaile \u00e9 t\u00e3o v\u00e1rio que possui mil sambas insonhados!<br \/>\nEu converteria o humano crime num baile mais denso<br \/>\nQue estas ondas negras de \u00e1gua pesada e oliosa,<br \/>\nPorque os meus gestos e os meus ritmos nascem<br \/>\nDo inc\u00eandio puro do amor&#8230; Repeti\u00e7\u00e3o. Primeira voz sabida, o Verbo.<br \/>\nPrimeiro troco. Primeiro dinheiro vendido. Repeti\u00e7\u00e3o logo ignorada.<br \/>\nComo \u00e9 poss\u00edvel que o amor se mostre impotente assim<br \/>\nAnte o ouro pelo qual o sacrificam os homens,<br \/>\nTrocando a primavera que brinca na face das terras<br \/>\nPelo outro tesouro que dorme no fundo baboso do rio!<br \/>\n\u00c9 noite! \u00e9 noite!&#8230; E tudo \u00e9 noite! E os meus olhos s\u00e3o noite!<br \/>\nEu n\u00e3o enxergo siquer as barca\u00e7as na noite.<br \/>\nS\u00f3 a enorme cidade. E a cidade me chama e pulveriza,<br \/>\nE me disfar\u00e7a numa queixa fl\u00e9bil e comedida,<br \/>\nOnde irei encontrar a mal\u00edcia do Boi Paci\u00eancia<br \/>\nRedivivo. Flor. Meu suspiro ferido se agarra,<br \/>\nN\u00e3o quer sair, enche o peito de ard\u00eancia ardilosa,<br \/>\nAbre o olhar, e o meu olhar procura, flor, um tilintar<br \/>\nNos ares, nas luzes longe, no peito das \u00e1guas,<br \/>\nNo reflexo baixo das nuvens.<br \/>\nS\u00e3o formas&#8230; Formas que fogem, formas<br \/>\nIndivisas, se atropelando, um tilintar de formas fugidias<br \/>\nQue mal se abrem, flor, se fecham, flor, flor, informes inacess\u00edveis,<\/p>\n<p>Na noite. E tudo \u00e9 noite. Rio, o que eu posso fazer!&#8230;<br \/>\nRio, meu rio&#8230; mas por\u00e9m h\u00e1-de haver com certeza<br \/>\nOutra vida melhor do outro lado de l\u00e1<br \/>\nDa serra! E hei-de guardar sil\u00eancio<br \/>\nDeste amor mais perfeito do que os homens?&#8230;<br \/>\nEstou pequeno, in\u00fatil, bicho da terra, derrotado.<br \/>\nNo entanto eu sou maior&#8230; Eu sinto uma grandeza infatig\u00e1vel!<br \/>\nEu sou maior que os vermes e todos os animais.<br \/>\nE todos os vegetais. E os vulc\u00f5es vivos e os oceanos,<br \/>\nMaior&#8230; Maior que a multid\u00e3o do rio acorrentado,<br \/>\nMaior que a estrela, maior que os adjetivos,<br \/>\nSou homem! vencedor das mortes, bem nascido al\u00e9m dos dias,<br \/>\nTransfigurado al\u00e9m das profecias!<br \/>\nEu recuso a paci\u00eancia, o boi morreu, eu recuso a esperan\u00e7a.<br \/>\nEu me acho t\u00e3o cansado em meu furor.<br \/>\nAs \u00e1guas apenas murmuram hostis, \u00e1gua vil mas turrona paulista<br \/>\nQue sobe e se espraia, levando as auroras represadas<br \/>\nPara o peito dos sofrimentos dos homens.<br \/>\n&#8230; e tudo \u00e9 noite. Sob o arco admir\u00e1vel<br \/>\nDa Ponte das Bandeiras, morta, dissoluta, fraca,<br \/>\nUma l\u00e1grima apenas, uma l\u00e1grima,<br \/>\nEu sigo alga escusa nas \u00e1guas do meu Tiet\u00ea.<\/p>\n<p><b>30\/11\/1944 a 12\/2\/1945<\/b><\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e1rio de Andrade \u00c1gua do meu Tiet\u00ea, Onde me queres levar? &#8211; Rio que entras pela terra E que me afastas do mar&#8230; \u00c9 noite. E tudo \u00e9 noite. Debaixo do arco admir\u00e1vel Da Ponte das Bandeiras o rio Murmura num banzeiro de \u00e1gua pesada e oliosa. \u00c9 noite e tudo \u00e9 noite. 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