{"id":113849,"date":"2017-03-16T12:09:28","date_gmt":"2017-03-16T14:09:28","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=113849"},"modified":"2017-03-16T12:09:28","modified_gmt":"2017-03-16T14:09:28","slug":"amar-verbo-intransitivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/amar-verbo-intransitivo","title":{"rendered":"Amar, Verbo Intransitivo"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"646\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Uma Dif\u00edcil Conjuga\u00e7\u00e3o<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Um Id\u00edlio \u00e0 Bernardini de Saint-Pierre<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Um Id\u00edlio Expressionista<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">O Amor, A Mulher e o Expressionismo<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><\/p>\n<p>\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">Brunilda S\u00e9culo XX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">Escrever Brasileiro<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#7\" class=\"links\">Amar, Verbo Transitivo: M\u00e1rio e a Cultura Alem\u00e3<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#8\" class=\"links\">A meu Irm\u00e3o <\/a><br \/>\n\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h4>M&aacute;rio de Andrade<\/h4>\n<p><strong>Um Romance que Resiste<\/strong> <\/p>\n<p>Amar, verbo intransitivo, o primeiro romance de M&aacute;rio de Andrade,<br \/>\n    publicado em 1927 e re-fundido em 1944 para as Obras Completas (Martins),<br \/>\n    &eacute; ainda, infelizmente, pouco procurado pelos leitores. Na d&eacute;cada<br \/>\n    de 20 foi aplaudido com entusiasmo pela cr&iacute;tica modernista e atacado<br \/>\n    pela vozes passadistas; na d&eacute;cada de 40 teve seu valor reconhecido<br \/>\n    pela nova gera&ccedil;&atilde;o de escritores. <\/p>\n<p>Foi traduzido para o ingl&ecirc;s, deu ensejo ao bel&iacute;ssimo filme de<br \/>\n    Eduardo Escorei, Li&ccedil;&atilde;o de amor e vem sendo objeto de v&aacute;rios<br \/>\n    estudos universit&aacute;rios. Hoje, apesar de consolidado o interesse pelo<br \/>\n    modernismo e apesar de Macuna&iacute;ma ser do conhecimento do grande p&uacute;blico,<br \/>\n    este primeiro romance de M&aacute;rio de Andrade permanece quieto demais no<br \/>\n    plano das leituras brasileiras. As raz&otilde;es podem ser diversas e n&atilde;o<br \/>\n    cabe aqui analis&aacute;-las. <\/p>\n<p>A verdade &eacute; que Macuna&iacute;ma, projeto moderno e nacionalista levado<br \/>\n    a um cl&iacute;max de consci&ecirc;ncia estrutural e estil&iacute;stica, ultrapassou<br \/>\n    os limites do Brasil, universalizando-se enquanto representa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do homem contempor&acirc;neo alienado, servindo ao sistema que reifica e mercantiliza<br \/>\n    a vida. Macuna&iacute;ma tornou-se discuss&atilde;o atual que prende, atrai.<br \/>\n    Por&eacute;m, a preocupa&ccedil;&atilde;o com a nossa identidade &#8212; car&aacute;ter<br \/>\n    nacional &#8212; o emprego da fala brasileira por parte do narrador e das<br \/>\n    personagens, a movimenta&ccedil;&atilde;o intensa do foco narrativo, bem como<br \/>\n    a den&uacute;ncia firme &#8212; e artisticamente irrepreens&iacute;vel &#8212;<br \/>\n    da aliena&ccedil;&atilde;o e da mentalidade colonizada, n&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    novidades na raps&oacute;dia de 1928. Tiveram in&iacute;cio j&aacute; nos<br \/>\n    Contos de Belazarte e afirmaram-se como partes integrantes de um projeto ,est&eacute;tico<br \/>\n    e ideol&oacute;gico claro em Amar, verbo intransitivo. Atingir&atilde;o a<br \/>\n    estatura de obra-prima em Macuna&iacute;ma.<\/p>\n<p> Quando do aparecimento do livro, Manuel Bandeira justificou o aspecto mais<br \/>\n    chocante para a &eacute;poca: &quot;A linguagem do romance est&aacute; toda<br \/>\n    errada. Errada no sentido portuga da gram&aacute;tica que aprendemos em meninos.<br \/>\n    Do ponto de vista brasileiro, por&eacute;m, ela &eacute; que est&aacute; certa,<br \/>\n    a de todos os outros livros &eacute; que est&aacute; errada. M&aacute;rio<br \/>\n    se imp&otilde;e &agrave; sistematiza&ccedil;&atilde;o de nossos modismos.&quot;<br \/>\n    Radicaliza&ccedil;&otilde;es da amizade &agrave; parte, v&ecirc;-se que o<br \/>\n    narrador t&atilde;o brasileiro de Amar, verbo intransitivo &eacute; o leg&iacute;timo<br \/>\n    antecessor do rapsodo de Macuna&iacute;ma. Narrador problem&aacute;tico, satiriza<br \/>\n    duramente ou esgrime com muita gra&ccedil;a o humor; &quot;fala&quot; e, &quot;falando&quot;,<br \/>\n    cria refr&atilde;os que ratificam a personagem, como ocorrer&aacute; em Macuna&iacute;ma.<br \/>\n    E o faz at&eacute; parodisticamente quando, por exemplo, tratando dos Sousa<br \/>\n    Costas, pai e filho, arremeda sempre a afirma&ccedil;&atilde;o polida: &quot;Perfeitamente.&quot;<br \/>\n    Tudo em ordem, previsto, controlado. O burgu&ecirc;s sem espa&ccedil;o para<br \/>\n    o v&ocirc;o&#8230; para o grito.<\/p>\n<p> Amar, verbo intransitivo foi e continua a ser atual e mesmo revolucion&aacute;rio.<br \/>\n    Classificado pelo autor como &quot;id&iacute;lio&quot;, &eacute;, de fato,<br \/>\n    um romance experimental, modernista e moderno, cinematogr&aacute;fico. M&aacute;rio<br \/>\n    de Andrade que, desde Paulic&eacute;ia desvairada vem se inclinando para os<br \/>\n    deserdados da sorte, com a empatia de um verdadeiro expressionista, consegue<br \/>\n    captar a alma da mulher. Expressa-se magistralmente no feminino quando cria<br \/>\n    Fr&auml;ulein, a governanta alem&atilde;, professora de amar. E esta hero&iacute;na<br \/>\n    se recorta com grande autonomia, ingressando no rol das melhores personagens<br \/>\n    femininas da Literatura Brasileira, machadiana-mente singular, acima da moralidade.<br \/>\n    Leitor fino da alma da mulher, M&aacute;rio soube denunciar sua marginalidade<br \/>\n    num mundo marcado pelo poder masculino. Traz uma percep&ccedil;&atilde;o aguda<br \/>\n    e v&aacute;lida, mensagem viva.<\/p>\n<p> Esta edi&ccedil;&atilde;o est&aacute; desejando reacender a leitura de Amar,<br \/>\n    verbo intransitivo. Agregou ao texto de fic&ccedil;&atilde;o um posf&aacute;cio<br \/>\n    in&eacute;dito e uma carta-aberta, documentando as rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do autor com sua obra. Considerando a id&eacute;ia de livro, foi buscar uma<br \/>\n    imagem para, na capa, representar Fr&auml;ulein, encontrando-a no brasileiro<br \/>\n    De Fiori. Seu retrato de mulher, pintura de muita liberdade e de tra&ccedil;os<br \/>\n    expressionistas, pode acolher a proje&ccedil;&atilde;o desta mulher criada<br \/>\n    por M&aacute;rio de Andrade: no olhar est&aacute; sua &acirc;nsia e sua paix&atilde;o<br \/>\n    e os bra&ccedil;os cruzados abra&ccedil;am a intensidade das sensa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e dos sentimentos. &Eacute; Fr&auml;ulein, prestes a explodir em seu grito.<\/p>\n<p><strong>TEL&Ecirc; PORTO ANCONA LOPEZ<\/strong><\/p>\n<h4><a name=\"1\" id=\"1\">Uma Dif&iacute;cil Conjuga&ccedil;&atilde;o<\/a><\/h4>\n<p><strong>Tel&ecirc; Porto Ancona Lopez<\/strong><\/p>\n<p class=\"imagem\"> &quot;Os que amam sem amor <br \/>\n    N&atilde;o ter&atilde;o o reino dos c&eacute;us.&quot;<\/p>\n<p align=\"right\" class=\"img\"><strong>Carlos Drummond de Andrade<\/strong><\/p>\n<p>\n    Em 1927, &agrave;s expensas do autor, Ant&ocirc;nio Tisi tirava do prelo,<br \/>\n    em S&atilde;o Paulo, Amar, verbo intransitivo, romance de M&aacute;rio de<br \/>\n    Andrade, apresentado na capa como &quot;id&iacute;lio&quot;. Esta classifica&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    mantida mesmo depois do texto refundido para a segunda edi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    (1944 &#8212; Martins &#8212; III &#8212; Obras Completas), &eacute; de capital<br \/>\n    import&acirc;ncia, pois testemunha a consci&ecirc;ncia e o exerc&iacute;cio<br \/>\n    efetivo da prosa experimental, vinculando id&iacute;lio, n&atilde;o apenas<br \/>\n    ao tema que desenvolve, como &agrave; pr&oacute;pria estrutura da narrativa<br \/>\n    escrita entre 1923-24 e terminada em 1926. Quando do lan&ccedil;amento do<br \/>\n    livro, M&aacute;rio est&aacute; trabalhando em Macuna&iacute;ma, raps&oacute;dia,<br \/>\n    fic&ccedil;&atilde;o que ambiciona, ser um &quot;canto&quot;, dentro das perspectivas<br \/>\n    do romance moderno, romance aberto &agrave; experimenta&ccedil;&atilde;o e<br \/>\n    &agrave; auto-problematiza&ccedil;&atilde;o. Na verdade, o escritor j&aacute;<br \/>\n    vem procurando esse caminho desde as cr&ocirc;nicas de Malazarte na Am&eacute;rica<br \/>\n    Brasileira, depois publicadas como contos, dando, ali&aacute;s, &quot;O besouro<br \/>\n    e a rosa&quot; como &quot;intermezzo&quot;..<\/p>\n<p> Amar, verbo intransitivo conta uma li&ccedil;&atilde;o de amar ou a inicia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    amorosa do adolescente Carlos, da burguesia paulistana de novos-ricos, apresentada<br \/>\n    como burguesia industrial urbana, tipicamente brasileira. A professora de<br \/>\n    amor &#8212; contratada para instrutora de sexo pelo pai do rapaz, Sousa Costa,<br \/>\n    em combina&ccedil;&atilde;o que, para ele, exclu&iacute;a a participa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Laura, a esposa -&#8212; &eacute; Fr&auml;ulein Elza, governanta alem&atilde;,<br \/>\n    tamb&eacute;m professora de l&iacute;nguas e piano na fam&iacute;lia. Sua<br \/>\n    profiss&atilde;o n&atilde;o a impedia de acalentar, aos 35 anos, um rom&acirc;ntico<br \/>\n    ideal de amor. N&atilde;o traz e n&atilde;o precisa de sobrenome; Fr&auml;ulein<br \/>\n    e Elza, sempre mencionados separadamente, valem como um todo, dando &agrave;<br \/>\n    hero&iacute;na, ainda que indelevelmente, tra&ccedil;os protot&iacute;picos.<br \/>\n    O n&uacute;cleo da narrativa &eacute; o id&iacute;lio, a hist&oacute;ria de<br \/>\n    amor: a descoberta do amor, sua pr&aacute;tica pelo jovem aluno e Fr&auml;ulein<br \/>\n    revisitando sua pedagogia e seu sonho, afei&ccedil;oando-se, mais do que desejava,<br \/>\n    a Carlos, sem esquecer, entretanto, a intransitividade do verbo amar&#8230; O<br \/>\n    romance, por&eacute;m, n&atilde;o pretende apenas contar uma hist&oacute;ria<br \/>\n    de amor; como texto moderno e modernista que &eacute;, tem muitos outros prop&oacute;sitos&#8230;<br \/>\n    Possui, al&eacute;m da hero&iacute;na muito e pouco her&oacute;ica, outra<br \/>\n    personagem &quot;principal&quot;, esta n&atilde;o participando diretamente<br \/>\n    da intriga, mas vivendo os percal&ccedil;os do contar &#8212; o Narrador.<br \/>\n    O Narrador firma com autonomia sua voz, existindo na linha machadiana da perplexidade,<br \/>\n    tentando entender uma figura singular de mulher, dela se distanciando, ou<br \/>\n    com ela se solidarizando, admitindo, todavia, que Fr&auml;ulein lhe escapa<br \/>\n    &#8212; pirandelianamente &#8212; e faz com que se questione. Mesmo sendo<br \/>\n    o &uacute;nico a se referir &agrave; hero&iacute;na pelo nome de batismo &#8212;<br \/>\n    para todas as demais personagens ela ser&aacute; sempre e unicamente &quot;Fr&auml;ulein&quot;,<br \/>\n    forma de tratamento (senhorita) que, para o alem&atilde;o, designa habitualmente<br \/>\n    professora &#8212; conseguindo se expressar no feminino ou apoiando-se em<br \/>\n    teorias para explicar comportamentos e o amor, n&atilde;o fecha sua figura.<br \/>\n    Ficam pistas, pegadas mais ou menos n&iacute;tidas, para que o leitor tente,<br \/>\n    ele tamb&eacute;m, desvendar Fr&auml;ulein atrav&eacute;s dela pr&oacute;pria<br \/>\n    ou dos tra&ccedil;os que o Narrador simplesmente registrou e n&atilde;o aprofundou<br \/>\n    em seu significado. Assim, M&aacute;rio de Andrade, por meio de Fr&auml;ulein<br \/>\n    no exerc&iacute;cio de sua profiss&atilde;o &#8212; e Maria Lu&iacute;sa Ramos<br \/>\n    j&aacute; a comparou &agrave; Di&oacute;tima de Plat&atilde;o &#8212; por<br \/>\n    meio do entrecho ou da express&atilde;o do Narrador, vai colocando sua possibilidade<br \/>\n    de constru&ccedil;&atilde;o do moderno romance brasileiro. <\/p>\n<h4><a name=\"2\" id=\"2\">Um Id&iacute;lio &agrave; Bernardini de Saint-Pierre<\/a><\/h4>\n<p>Manuel Bandeira, escrevendo sobre o livro logo depois de sua publica&ccedil;&atilde;o&sup1;,<br \/>\n    apegando-se ao entrecho, considera blague, ironia de M&aacute;rio de Andrade,<br \/>\n    declarar, atrav&eacute;s do Narrador, que o id&iacute;lio havia sido &quot;imitado<br \/>\n    do franc&ecirc;s de Bernardin de Saint-Pierre. Do franc&ecirc;s. De Bernardin<br \/>\n    de Saint-Pierre.&quot; (p. 91)&sup2;. O poeta se engana quanto &agrave; dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da ironia; &quot;imita&ccedil;&atilde;o&quot; &eacute; uma blague de &oacute;timo<br \/>\n    humor apontando para uma das fontes de inspira&ccedil;&atilde;o, uma das matrizes<br \/>\n    geradoras de recria&ccedil;&atilde;o, e sugerindo semelhan&ccedil;as de projetos<br \/>\n    liter&aacute;rios. Suponho que a leitura de Paul et Virginie tenha feito o<br \/>\n    modernista brasileiro pensar em pontos para ele de grande import&acirc;ncia.<br \/>\n    Bernardin de Saint-Pierre escreve em uma l&iacute;ngua que n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    exatamente o franc&ecirc;s casti&ccedil;o, ensinado nas escolas ou nas p&aacute;ginas<br \/>\n    dos monstros sagrados da Fran&ccedil;a do S&eacute;culo XVIII. Fazendo sua<br \/>\n    narrativa se passar numa possess&atilde;o francesa distante da Europa, colocando-a<br \/>\n    na boca de um narrador local, acolhe no texto um bom n&uacute;mero de express&otilde;es<br \/>\n    e constru&ccedil;&otilde;es do franc&ecirc;s das col&ocirc;nias&#8230; sem radicaliza&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    mas acolhendo! A ironia &eacute;, talvez, surgir, num momento de acirrada<br \/>\n    luta modernista contra a importa&ccedil;&atilde;o de modelos culturais franceses,<br \/>\n    e logo no livro de M&aacute;rio de Andrade, tal confiss&atilde;o! Mas, para<br \/>\n    bom entendedor, M&aacute;rio est&aacute; dando seu recado. Est&aacute; reconhecendo<br \/>\n    a necessidade de aliar o projeto est&eacute;tico ao projeto ling&uuml;&iacute;stico,<br \/>\n    para que o modernismo liter&aacute;rio se tornasse ideologicamente coerente<br \/>\n    e eficaz. E delineando sua pesquisa da l&iacute;ngua portuguesa falada no<br \/>\n    Brasil: o Narrador de Amar, verbo intransitivo &eacute; o antecessor do rapsodo<br \/>\n    de Macuna&iacute;ma, expressando-se na fala brasileira &quot;desgeograficada&quot;,<br \/>\n    cheia de &quot;brasileirismos&quot; de todos os quadrantes do pa&iacute;s.<br \/>\n    Mais adiante, cuidarei particularmente desse aspecto; por ora, basta concluir<br \/>\n    que nosso escritor teria detectado um projeto de linguagem na t&atilde;o festejada<br \/>\n    hist&oacute;ria de amor do final do S&eacute;culo XVIII..<\/p>\n<p> &quot;Do franc&ecirc;s. De Bernardin de Saint-Pierre&quot;. Continuando<br \/>\n    a brincadeira, a armadilha &eacute;, na verdade, o s&eacute;rio oferecido<br \/>\n    jocosamente, quando o Narrador separa l&iacute;ngua e autor, ou melhor, sugere<br \/>\n    outras contribui&ccedil;&otilde;es al&eacute;m da linguagem. &Eacute; poss&iacute;vel<br \/>\n    que o pref&aacute;cio de Saint-Pierre em Paul et Virginie, juntamente com<br \/>\n    o texto de fic&ccedil;&atilde;o, tenha sublinhado para M&aacute;rio de Andrade<br \/>\n    duas preocupa&ccedil;&otilde;es que tamb&eacute;m eram suas e que podem ser<br \/>\n    vistas no id&iacute;lio de Fr&auml;ulein. Na constru&ccedil;&atilde;o de personagens<br \/>\n    fica claro a valoriza&ccedil;&atilde;o de um novo modo de ser, de compreender<br \/>\n    o mundo, dimens&atilde;o de pensar e sentir diversa da europ&eacute;ia. O<br \/>\n    autor quer se livrar de um racionalismo &aacute;rido, &quot;pintar um solo<br \/>\n    e uma vegeta&ccedil;&atilde;o diferentes&quot; e mostrar que a liberdade s&oacute;<br \/>\n    encontra seu espa&ccedil;o fora do Velho Mundo. Pondo seu par de namorados<br \/>\n    &agrave; sombra de coqueiros, bananeiras e limoeiros em flor&#8212; Bernardin<br \/>\n    de Saint-Pierre declara&#8212; conferiu-lhes um novo modo de ver e julgar,<br \/>\n    em harmonia com a natureza generosa em que viviam. Paulo e Virg&iacute;nia<br \/>\n    n&atilde;o pensam como europeus e sabem mostrar sua particularidade; s&atilde;o<br \/>\n    puros, isentos de ambi&ccedil;&atilde;o; ali, em sua ilha, a fortuna ou a<br \/>\n    ascens&atilde;o social n&atilde;o tem sentido para eles. Conseq&uuml;entemente<br \/>\n    &#8212; continua a explica&ccedil;&atilde;o do autor &#8212; o &quot;romance&quot;,<br \/>\n    enquanto g&ecirc;nero em moda na Europa, n&atilde;o lhe servira; a trama que<br \/>\n    arquitetara era simples e pura, capaz apenas de caber &quot;nessa esp&eacute;cie<br \/>\n    de pastoral&quot;, seu texto.3 O pref&aacute;cio remete ent&atilde;o o fazer<br \/>\n    romanesco &agrave; antiga &eacute;gloga, eivada de lirismo, contando que o<br \/>\n    autor encontrara 0 caminho certo recortando cenas e quadros e com eles estruturando<br \/>\n    um &quot;id&iacute;lio&quot;, Paul et Virginie. Al&eacute;m disso, o romancista<br \/>\n    franc&ecirc;s, como bom pr&eacute;-rom&acirc;ntico, avalizou a ingenuidade<br \/>\n    (naivet&eacute;) e marcou o id&iacute;lio da &Icirc;le de Bourbon com uma<br \/>\n    li&ccedil;&atilde;o de amor. Virg&iacute;nia fora mandada para a Europa e<br \/>\n    vivia com sua tia rica e preconceituosa. Paulo, saudoso, conversa com o Velho,<br \/>\n    seu mestre, confiando-lhe o desejo de ir ao encontro da amada, trabalhar para<br \/>\n    enriquecer e ter o direito de com ela se casar. O Velho, s&aacute;bio, faz<br \/>\n    a defesa do viver simples e coerente, acentuando a decad&ecirc;ncia da sociedade<br \/>\n    europ&eacute;ia e fazendo &#8212; o que &eacute; mais importante &#8212; a<br \/>\n    defesa da mulher. No di&aacute;logo longo &agrave; moda de Plat&atilde;o,<br \/>\n    di&aacute;logo que quebra a monotonia da voz praticamente &uacute;nica do<br \/>\n    narrador, o Velho diz a Paulo que &quot;as mulheres s&atilde;o falsas nas<br \/>\n    terras em que os homens s&atilde;o tiranos&quot;; ali, em toda parte, a viol&ecirc;ncia<br \/>\n    gera os subterf&uacute;gios, o fingimento. Paulo, espantado, quer saber como<br \/>\n    pode algu&eacute;m ser tirano com as mulheres e a resposta vem pronta e concreta,<br \/>\n    lembrando a amea&ccedil;a que pesa sobre Virg&iacute;nia: &quot;Casando-as<br \/>\n    sem consult&aacute;-las, uma jovem com um velho, uma mulher sens&iacute;vel<br \/>\n    com um homem indiferente.&quot;4 Continuando, tratar&aacute; do privil&eacute;gio<br \/>\n    do amor correspondido, s&oacute;lido para enfrentar sacrif&iacute;cios, o<br \/>\n    amor constru&ccedil;&atilde;o, enfim. O di&aacute;logo explicita, por certo,<br \/>\n    a proposta do pref&aacute;cio..<\/p>\n<p> Em se tratando do g&ecirc;nero, M&aacute;rio de Andrade al&eacute;m de se<br \/>\n    preocupar com a designa&ccedil;&atilde;o e o recurso de Bernardin de Saint-Pierre,<br \/>\n    ou com a oposi&ccedil;&atilde;o Novo x Velho Mundo que ele lhe ofereceu, foi<br \/>\n    leitor dos Idyllen de Gessner5. Na edi&ccedil;&atilde;o-fac-similar primorosa,<br \/>\n    ilustrada, presente em sua biblioteca, teria encontrado no programa de Gessner,<br \/>\n    &quot;Ao leitor&quot;, coloca&ccedil;&otilde;es interessantes: a natureza<br \/>\n    &eacute; o espa&ccedil;o gratificante, capaz de resgatar aspectos de uma idade<br \/>\n    de ouro perdida, quando reinava a simplicidade natural e os seres eram &quot;livres<br \/>\n    de situa&ccedil;&otilde;es de escravid&atilde;o&quot;, n&atilde;o se vendo<br \/>\n    degradados como o homem moderno. Curiosa modernidade a de Salomon Gessner<br \/>\n    (1730-88): est&aacute; em sua esp&eacute;cie de pr&eacute;-consci&ecirc;ncia<br \/>\n    da aliena&ccedil;&atilde;o do homem, quando voltado para a fetichiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da vida. Gessner, su&iacute;&ccedil;o, escrevendo em alem&atilde;o, foi um<br \/>\n    escritor de sucesso em seu tempo; seus Id&iacute;lios foram traduzidos para<br \/>\n    todas as l&iacute;nguas da Europa; exerceu influ&ecirc;ncia sobre os poemas<br \/>\n    pastoris galantes do S&eacute;culo XVIII e encantou os rousseaunianos franceses.<br \/>\n    Seu tema &eacute; o amor; sua id&eacute;ia de amor terno n&atilde;o exclui<br \/>\n    a sensualidade e mesmo um certo erotismo. No S&eacute;culo XIX as edi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    francesas apreciaram juntar Gessner e Bernardin de Saint-Pierre abrindo por&eacute;m<br \/>\n    o livro com o texto de mais p&uacute;blico ent&atilde;o, Paul et Virginie.<br \/>\n    Gessner, o predecessor ficava assim resgatado&#8230;.<\/p>\n<p> No pref&aacute;cio de Idyllen, conhecido por M&aacute;rio de Andrade, o<br \/>\n    autor faz a defesa do realismo e da simplicidade de Te&oacute;crito &#8212;<br \/>\n    o que hoje se pode ler como uma defesa do primitivismo &#8212; e ambiciona<br \/>\n    recapturar a primeira inf&acirc;ncia da poesia. Op&otilde;e a inoc&ecirc;ncia<br \/>\n    ao artificialismo, quer o texto divorciado da anedota epigram&aacute;tica<br \/>\n    e do arranjo escolar das frases, valorizando &quot;a ordem natural dos sentimentos<br \/>\n    de inoc&ecirc;ncia na arte.&quot; 6 E, finalmente, o que me parece bem significativo:<br \/>\n    o texto estruturado pelas cenas, pelos quadros. De qualquer maneira, em ambos,<br \/>\n    Bernardin e Gessner, o id&iacute;lio &eacute; o g&ecirc;nero antigo que est&aacute;<br \/>\n    sendo retomado em busca de solu&ccedil;&otilde;es novas, valendo, guardadas<br \/>\n    as devidas propor&ccedil;&otilde;es, como uma experi&ecirc;ncia na prosa.<br \/>\n    Voltando ao tema de Gessner e Saint-Pierre &#8212; o amor terno &#8212; &eacute;<br \/>\n    bom lembrar que um dos motivos que pontuam a trajet&oacute;ria de Fr&auml;ulein,<br \/>\n    seu devaneio para ser vivido na Alemanha, ao lado de um homem culto e sens&iacute;vel,<br \/>\n    numa idealizada vida a dois, glosa esse mesmo amor, destacando sempre a Pastoral<br \/>\n    de Beethoven; a mo&ccedil;a se v&ecirc; &quot;regando flores, pastoreando<br \/>\n    os alvos gansos no prado, enfeitando os lindos cabelos com margaridinhas&#8230;&quot;.<br \/>\n    Em &quot;alvos&quot; e &quot;prado&quot; fica, inclusive, a par&oacute;dia<br \/>\n    do estilo arc&aacute;dico, e no id&iacute;lio de 1927, a idade de ouro do<br \/>\n    sentimento de Fr&auml;ulein&#8230; sua fantasia.<\/p>\n<h4><a name=\"3\" id=\"3\">Um Id&iacute;lio Expressionista<\/a><\/h4>\n<p>Amar, verbo intransitivo n&atilde;o possui cap&iacute;tulos conforme a norma<br \/>\n    aceita, numera&ccedil;&atilde;o de seq&uuml;&ecirc;ncias ou t&iacute;tulos<br \/>\n    para elas. &Eacute; um texto de fic&ccedil;&atilde;o constru&iacute;do pelas<br \/>\n    cenas que fixam diretamente momentos, &quot;flashs&quot;, resgatando o passado,<br \/>\n    ou que s&atilde;o apresentadas pelo Narrador. &Agrave;s cenas contrap&otilde;em-se<br \/>\n    as digress&otilde;es do Narrador que compete freq&uuml;entemente, dando grandes<br \/>\n    demonstra&ccedil;&otilde;es de conhecimento te&oacute;rico, com a vis&atilde;o<br \/>\n    que a hero&iacute;na tem do mundo e do amor. As digress&otilde;es s&atilde;o,<br \/>\n    de fato, sua interpreta&ccedil;&atilde;o. A separa&ccedil;&atilde;o dos epis&oacute;dios,<br \/>\n    a mudan&ccedil;a de cen&aacute;rio, de espa&ccedil;o, a passagem do tempo,<br \/>\n    os cortes desviando a aten&ccedil;&atilde;o do leitor, s&atilde;o marcados<br \/>\n    apenas pelo espacejamento padronizado que, graficamente, acentua a id&eacute;ia<br \/>\n    de seq&uuml;&ecirc;ncia solta e divis&atilde;o da narrativa em flagrantes..<\/p>\n<p> Fico pensando em uma sedutora possibilidade: o recurso da cena, detectado<br \/>\n    no id&iacute;lio como um tra&ccedil;o de estrutura, pode ter sido associado,<br \/>\n    por M&aacute;rio de Andrade, a recurso semelhante utilizado por outros cultores<br \/>\n    da experimenta&ccedil;&atilde;o &#8212; os expressionistas alem&atilde;es,<br \/>\n    seus mestres e precursores. Foram eles os contempor&acirc;neos de M&aacute;rio<br \/>\n    que procuraram as cenas, os quadros que se sucedem &#8212; pesados e duros,<br \/>\n    n&atilde;o mais ternos id&iacute;lios &#8212; criando a seq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    solta, independente de uma l&oacute;gica fora do texto. Compulsando datas<br \/>\n    de edi&ccedil;&otilde;es, autores presentes na biblioteca de nosso escritor,<br \/>\n    pode-se ver que, desde o in&iacute;cio da d&eacute;cada de 20 e talvez antes,<br \/>\n    entrou em contacto com o expressionismo alem&atilde;o, cujo eco atingiu Paulic&eacute;ia<br \/>\n    desvairada (Werfel, Rubiner, etc.) 7 E, o que &eacute; significativo, leu<br \/>\n    Wadekind, aquele que mais se apegou &agrave; cena estruturadora do texto.<br \/>\n    Conhecendo os expressionistas &#8212; e impressionistas como Hugo von Hofmannsthal<br \/>\n    &#8212; conhecia a necessidade de renova&ccedil;&atilde;o da linguagem, a<br \/>\n    urg&ecirc;ncia de uma nova express&atilde;o ling&uuml;&iacute;stica, servindo<br \/>\n    &agrave; cria&ccedil;&atilde;o; conhecia o estilo ligado &agrave; reprodu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    imediata das vis&otilde;es. Percebia que a cena era, para os expressionistas,<br \/>\n    o meio de trazer as antinomias dilacerantes, colocando-as numa atmosfera suspensa,<br \/>\n    muito semelhante &agrave; atmosfera do cinema. Sabia que, entre os ficcionistas<br \/>\n    da est&eacute;tica de Der Sturm, era comum, no suceder das cenas, o fio da<br \/>\n    narrativa ser interrompido e surgirem as digress&otilde;es, estas, muitas<br \/>\n    vezes ambivalentes, desenhando a met&aacute;fora..<\/p>\n<p> Em Amar, verbo intransitivo, um embate cl&aacute;ssico &#8212; sentimento,<br \/>\n    paix&atilde;o x raz&atilde;o, solu&ccedil;&otilde;es pr&aacute;ticas para<br \/>\n    resolver a vida &#8212; &eacute; colocado como o tra&ccedil;o b&aacute;sico<br \/>\n    de um povo possuidor de car&aacute;ter nacional definido, o alem&atilde;o,<br \/>\n    representado por Fr&auml;ulein. A oposi&ccedil;&atilde;o que estrutura a psique<br \/>\n    do alem&atilde;o, homem-do-sonho x homem-da-vida, com o conseq&uuml;ente predom&iacute;nio<br \/>\n    do segundo, garantindo a sociedade burguesa, vem a prop&oacute;sito da grande<br \/>\n    preocupa&ccedil;&atilde;o nacionalista de M&aacute;rio de Andrade &#8212;<br \/>\n    definir nosso car&aacute;ter, ou, como escreveu em 1926 no l&ordm; Pref&aacute;cio<br \/>\n    de Macuna&iacute;ma, descobrir, o mais que pudesse, a &quot;entidade nacional<br \/>\n    dos brasileiros&quot;8. O car&aacute;ter nacional do alem&atilde;o contracena<br \/>\n    com a &quot;const&acirc;ncia cultural brasileira constatada&quot; e ambos<br \/>\n    possuem tra&ccedil;os positivos e tra&ccedil;os que s&atilde;o duramente criticados;<br \/>\n    o alem&atilde;o &eacute; condenado porque tenta amorda&ccedil;ar o sublime<br \/>\n    e o brasileiro porque n&atilde;o possui consci&ecirc;ncia, conhecimento de<br \/>\n    seu modo de ser 9. Como os impressionistas e os expressionistas alem&atilde;es,<br \/>\n    M&aacute;rio condena a burguesia, calcando o giz no grotesco em sua representa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Fixa o instante e a personagem atrav&eacute;s da hipertrofia do detalhe significativo,<br \/>\n    do &quot;close&quot; na cena e da pontua&ccedil;&atilde;o telegr&aacute;fica.<br \/>\n    Explorando a simultaneidade, empilha sensa&ccedil;&otilde;es, orquestra momentos.<br \/>\n    Trabalhando com o grotesco, mais irado ou mais condescendente, n&atilde;o<br \/>\n    poupa ningu&eacute;m, nem mesmo Fr&auml;ulein. N&atilde;o &eacute; manique&iacute;sta,<br \/>\n    transformando suas personagens em fantoches de den&uacute;ncia; &eacute; capaz,<br \/>\n    por exemplo, de permitir que o rid&iacute;culo e o grotesco, depois de atingirem<br \/>\n    um auge na explos&atilde;o do c&ocirc;mico, abram vaga para o lirismo, quando,<br \/>\n    na viagem de trem, depois de uma s&eacute;rie de absurdos, Sousa Costa termina<br \/>\n    por se solidarizar com sua filhinha. Como os expressionistas e seus mestres,<br \/>\n    M&aacute;rio est&aacute; desperto para os sentimentos, a complexidade do mundo<br \/>\n    interno de cada personagem, para &quot;o sentimento tr&aacute;gico da vida&quot;<br \/>\n    como declara em carta a Alceu de Amoroso Lima. Como os expressionistas, admite<br \/>\n    com Freud as for&ccedil;as do inconsciente. Seu Narrador, embora pirandelianamente<br \/>\n    n&atilde;o obtenha uma compreens&atilde;o integral da hero&iacute;na, &eacute;<br \/>\n    sens&iacute;vel &agrave;s vibra&ccedil;&otilde;es mais intensas de seu pathos.<br \/>\n    Esse Narrador &eacute;, por assim dizer, um brasileiro &quot;melhor&quot;,<br \/>\n    de olhos abertos, sabendo de si e sabendo dos outros. Sabe que Fr&auml;ulein<br \/>\n    n&atilde;o apenas admira a natureza, mas, confunde-se com ela primitivamente.<br \/>\n    Na seq&uuml;&ecirc;ncia do passeio &agrave; mata da Tijuca, Narrador versado<br \/>\n    em expressionismo, recria literariamente O grito de Munch (quadro tomado como<br \/>\n    s&iacute;mbolo dessa est&eacute;tica), acompanhando o avassalar das sensa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    das emo&ccedil;&otilde;es de sua hero&iacute;na. Vale a pena transcrever as<br \/>\n    passagens mais significativas:.<\/p>\n<p> &quot;Encontrou Fr&auml;ulein acabrunhada, com vontade de chorar. A luz<br \/>\n    delirava, apressada a um vago aviso da tarde. Era tal e tanta que emba&ccedil;ava<br \/>\n    de ouro a amplid&atilde;o. Se via tudo longe num halo que divinizava e afastava<br \/>\n    as coisas mais. Lassitude.(&#8230;).<\/p>\n<p> &quot;Fr&auml;ulein botara os bra&ccedil;ccedil;os cruzados no parapeito de pedra,<br \/>\n    fincara o mento ali, nas carnes rijas. E se perdia. Os olhos dela pouco a<br \/>\n    pouco se fecharam, cega duma vez. A raz&atilde;o pouco a pouco escampou. Desapareceu<br \/>\n    por fim, escorra&ccedil;ada pela vida excessiva dos sentidos. Das partes profundas<br \/>\n    do ser lhe vinham apelos vagos e decretos fracionados. Se misturavam animalidades<br \/>\n    e inven&ccedil;&otilde;es geniais. E o orgasmo. Adquirira enfim aquela alma<br \/>\n    vegetal. E assim perdida, assim vibrando, as narinas se alastraram, os l&aacute;bios<br \/>\n    se partiram, contra&ccedil;&otilde;es, rugas, esgar, numa express&atilde;o<br \/>\n    dolorosa de gozo, ficou feia..<\/p>\n<p> &quot;(&#8230;).<\/p>\n<p> &quot;(&#8230;) Tanta sensa&ccedil;&atilde;o forte ignorada&#8230; a impon&ecirc;ncia<br \/>\n    dos c&eacute;us imensos&#8230; o apelo dos horizontes invis&iacute;veis&#8230; Abriu<br \/>\n    os bra&ccedil;os. Enervada, ainda pretendeu sorrir. N&atilde;o p&ocirc;de<br \/>\n    mais. O corpo arrebentou. Fr&auml;ulein deu um grito&quot;, (p.110).<\/p>\n<p> O eclodir das emo&ccedil;&otilde;es de Fr&auml;ulein de forma t&atilde;o<br \/>\n    intensa, dionis&iacute;aca, faz com que se v&aacute;, de pronto, &agrave;<br \/>\n    liga&ccedil;&atilde;o do id&iacute;lio com a natureza, &agrave; valoriza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do primitivismo grifada por Nietzsche na Origem da trag&eacute;dia. Nietzsche,<br \/>\n    cuja obra foi t&atilde;o prestigiada pelos expressionistas, ao afirmar que<br \/>\n    &quot;o s&aacute;tiro, bem como o pastor de nosso id&iacute;lio moderno, s&atilde;o<br \/>\n    ambos resultado de uma aspira&ccedil;&atilde;o ao estado primitivo e natural&quot;,<br \/>\n    est&aacute;, na realidade, buscando um modo de ser diverso da exist&ecirc;ncia<br \/>\n    regida pelo racionalismo r&iacute;gido. Diante do &quot;tipo primordial do<br \/>\n    homem&quot;, o s&aacute;tiro; completado pelo pastor, apagam-se as ilus&otilde;es<br \/>\n    da civiliza&ccedil;&atilde;o. Como se v&ecirc;, essas id&eacute;ias n&atilde;o<br \/>\n    est&atilde;o distantes das de Gessner.11.<\/p>\n<p> O Narrador que capta a cena no que ela tem de essencial, freq&uuml;entemente<br \/>\n    nos faz lembrar a representa&ccedil;&atilde;o cinematogr&aacute;fica: a c&acirc;mera<br \/>\n    que segue os passos, foco isento, olhando por detr&aacute;s, ou foco comprometido<br \/>\n    que faz as vezes dos olhos da personagem. 12 Narrar cinematogr&aacute;fico<br \/>\n    de romance moderno combinado com a reflex&atilde;o liter&aacute;ria, machadiana,<br \/>\n    metaling&uuml;&iacute;stica, e com a capacidade do Narrador de se fundir &agrave;s<br \/>\n    manifesta&ccedil;&otilde;es do mundo interior de suas personagens. Romance<br \/>\n    moderno que p&otilde;e em di&aacute;logo vozes v&aacute;rias, diversos modos<br \/>\n    de ver, misturando-os sem aviso pr&eacute;vio&#8230; romance polif&ocirc;nico,<br \/>\n    se quisermos adotar Bakhtne. E j&aacute; que se falou em cinema, &eacute;<br \/>\n    bom dizer que o pr&oacute;prio Narrador se encarrega de o lembrar. Est&aacute;<br \/>\n    tratando da chegada de Fr&auml;ulein na mans&atilde;o da Av. Higien&oacute;polis;<br \/>\n    define-a metonimicamente como o &quot;futuro ponteiro do rel&oacute;gio familiar&quot;,<br \/>\n    dando-lhe por ep&iacute;teto &quot;Professora.&quot;; uma ora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    curta, telegr&aacute;fica, s&iacute;ntese iluminando uma parcela da personalidade.<br \/>\n    Socialmente ela ser&aacute; a espartana da rotina determinada; agora, entrando<br \/>\n    para a casa dos Sousa Costas, n&atilde;o pode se admitir como objeto de proje&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    fantasiosas. O Narrador &#8212; c&acirc;mera de cinema &#8212; j&aacute; registrara,<br \/>\n    ali&aacute;s, em uma das cenas de abertura da narrativa, acompanhando os olhos<br \/>\n    de Elza (que em seu quartinho de pens&atilde;o e at&eacute; ser definida como<br \/>\n    professora, conserva seu nome), as duas dire&ccedil;&otilde;es de seu caminho.<br \/>\n    No espa&ccedil;o, os dois signos diretores de seu comportamento, ou de seu<br \/>\n    car&aacute;ter de alem&atilde;o: &quot;O retrato de Wagner. O retrato de Bismarck&quot;,<br \/>\n    o &quot;homem-do-sonho&quot; e o &quot;homem-da-vida&quot;. Assim, Bismarck,<br \/>\n    Fr&auml;ulein precisa mostrar-se sem mist&eacute;rios, correto ponto final,<br \/>\n    garantindo para si pr&oacute;pria a superioridade quando compara seu modo<br \/>\n    de ser alem&atilde;o com a desorganiza&ccedil;&atilde;o do latino e do brasileiro.<br \/>\n    Come&ccedil;ando o novo trabalho &eacute; uma hero&iacute;na sem grandeza,<br \/>\n    desmistificada figura de cena de filme vagabundo: &quot;A gente percebia muito<br \/>\n    bem as cordas que elevavam a protagonista no ar. O p&uacute;blico n&atilde;o<br \/>\n    aplaudiu.&quot; &#8212; (Ou: fic&ccedil;&atilde;o t&atilde;o desvendada perde<br \/>\n    a gra&ccedil;a! ironiza o Narrador). Fr&auml;ulein dever&aacute; enfrentar<br \/>\n    com sua defini&ccedil;&atilde;o &#8212; produto de clivagem, mas defini&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &#8212; uma clientela que n&atilde;o se preocupa com isso: &quot;Regrava passeios<br \/>\n    sempre curtos, batia as horas das li&ccedil;&otilde;es sempre compridas. Como<br \/>\n    o p&uacute;blico podia se interessar por uma fita dessas! N&atilde;o aplaudiu!&quot;,<br \/>\n    (p. 47).<\/p>\n<p> Uma outra refer&ecirc;ncia ao cinema, interessante porque acentua o fazer<br \/>\n    liter&aacute;rio, surge quando de um leg&iacute;timo corte cinematogr&aacute;fico<br \/>\n    da cena principal. Passeando os olhos de c&acirc;mera pela biblioteca e tra&ccedil;ando<br \/>\n    a digress&atilde;o enquanto Carlos beija Fr&auml;ulein pela primeira vez &#8212;<br \/>\n    e beijo de cinema! &#8212; o Narrador conta:.<\/p>\n<p> &quot;Das lombadas de couro, os grandes amorosos espiavam, Dante, Cam&otilde;es,<br \/>\n    Dirceu. N&atilde;o digo que pro momento f&iacute;lmico do caso, estes sejam<br \/>\n    livros exemplares, por&eacute;m asseguro que eram exemplares virgens. Nem<br \/>\n    cortados alguns. N&atilde;o adiantavam nada, pois.&quot; (p. 80).<\/p>\n<p> Ironia e ambig&uuml;idade magistrais no discurso do Narrador; v&atilde;o<br \/>\n    crescendo, terminando por fechar satiricamente a digress&atilde;o: ali, os<br \/>\n    poetas do amor sentimento elevado, espiritual (entre eles o &aacute;rcade<br \/>\n    Dirceu), s&oacute; poderiam assistir &agrave; encena&ccedil;&atilde;o do amor<br \/>\n    &#8212; cena de cinema; eles tamb&eacute;m haviam sido comprados pelo novo-rico<br \/>\n    Sousa Costa. Haviam perdido sua fun&ccedil;&atilde;o; &quot;representavam&quot;<br \/>\n    uma biblioteca e faziam companhia aos viajantes Barlaeus e Rugendas, estrangeiros<br \/>\n    que vibraram com a paisagem brasileira e cujos desenhos magn&iacute;ficos<br \/>\n    est&atilde;o acompanhados de textos penetrantes sobre o Brasil. Ali, por&eacute;m,<br \/>\n    eram usados somente para distrair crian&ccedil;as&#8230;.<\/p>\n<p> Lan&ccedil;ado na d&eacute;cada de 20, Amar, verbo intransitivo &eacute;<br \/>\n    &quot;literatura de circunst&acirc;ncia&quot;, conceituada na &eacute;poca<br \/>\n    por M&aacute;rio de Andrade como o texto voltado para o aqui e o agora, desprezando<br \/>\n    a perenidade, desejando apenas existir com firmeza em seu momento, oferecendo<br \/>\n    uma vis&atilde;o cr&iacute;tica a seus contempor&acirc;neos. Ser moderno seria,<br \/>\n    pois, desenvolver a reflex&atilde;o cr&iacute;tica, admitir a d&uacute;vida<br \/>\n    e exercer a ironia (Lefebvre). Id&iacute;lio, classifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que pode indicar prop&oacute;sitos &agrave; Bernardin de Saint-Pierre, pode<br \/>\n    tamb&eacute;m sugerir uma experimenta&ccedil;&atilde;o moderna. Aparece sempre<br \/>\n    que o Narrador est&aacute; disposto a confessar o exerc&iacute;cio da prosa<br \/>\n    experimental e avisar que seu texto, embora fic&ccedil;&atilde;o renovada<br \/>\n    aberta ao leitor, continua sendo o seu texto: est&aacute; escrito &agrave;<br \/>\n    sua moda e o entrecho est&aacute; traduzindo sua concep&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Ent&atilde;o, mesmo os garantidos leitores (anda pouco acompanhado aquele<br \/>\n    que renova!) desdobrando Fr&auml;ulein em 51 hero&iacute;nas &#8212; &quot;assim<br \/>\n    &eacute; se lhes parece&quot; &#8212; existir&aacute; &quot;um s&oacute; id&iacute;lio&quot;<br \/>\n    (p. 50). Essa id&eacute;ia pode, inclusive, ser destacada pela ambig&uuml;idade,<br \/>\n    quando, discutindo o corpo apropriado para a protagonista, formas sensuais<br \/>\n    sem, entretanto, a perfei&ccedil;&atilde;o de um Leucipo, o Narrador conclui:<br \/>\n    &quot;Ali&aacute;s, se renascente e perfeito, o id&iacute;lio seria o mesmo.&quot;<br \/>\n    (p. 50). Renascente e perfeito o corpo&#8230; ou o id&iacute;lio? Nesse sentido,<br \/>\n    id&iacute;lio vale como o romance que desenvolve o tema amor, o amor, verbo<br \/>\n    intransitivo na artificialidade do &quot;perfeito&quot; id&iacute;lio renascentista<br \/>\n    e verbo intransitivo no s&eacute;culo XX da exaspera&ccedil;&atilde;o da mercadoria<br \/>\n    e da atividade do homem-da-vida. Deste modo, Elza (o Narrador a distingue<br \/>\n    de Fr&auml;ulein) ao iniciar &quot;este id&iacute;lio&quot; era &quot;uma<br \/>\n    mulher feita que n&atilde;o estava disposta a sofrer&quot; (p. 75 &quot;era&quot;).<br \/>\n    &quot;Este id&iacute;lio&quot; = esta narrativa e = este caso de amor, amor<br \/>\n    programado, como o amor galante do id&iacute;lio renascentista, um jogo que<br \/>\n    n&atilde;o oferecia espa&ccedil;o para o sofrimento intenso e profundo por<br \/>\n    amor. E id&iacute;lio = romance de amor, com sofrimento, objeto amado, se<br \/>\n    insinuando, querendo vingar: &quot;Abandonava Carlos&#8230; Isto lhe do&iacute;a,<br \/>\n    do&iacute;a, n&atilde;o nega n&atilde;o.&quot; (p. 75). Fr&auml;ulein, n&atilde;o<br \/>\n    mais &quot;a Elza&quot;, est&aacute; sofrendo por amor&#8230; tamb&eacute;m. Mas,<br \/>\n    o que deve dominar, e domina, &eacute; a primeira acep&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    amor, o que d&aacute; &agrave; classifica&ccedil;&atilde;o &quot;id&iacute;lio&quot;<br \/>\n    um forte peso de ironia; n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel existir o verdadeiro<br \/>\n    romance de amor, pois n&atilde;o existe, no livro, vez para amar, verbo transitivo.<br \/>\n    &quot;O id&iacute;lio continua.&quot; (p. 89), galante, jogo, com o Narrador<br \/>\n    convidando para espiarmos Carlos saindo furtivo do quarto de &quot;Fr&auml;ulein&quot;,<br \/>\n    &quot;p&eacute;s de on&ccedil;a&quot; no corredor, on&ccedil;a-ca&ccedil;ador<br \/>\n    e n&atilde;o ca&ccedil;a, preocupado com uma poss&iacute;vel transgress&atilde;o<br \/>\n    da moral. Em seu despertar de amor, her&oacute;i burgu&ecirc;s degradado (Goldmann),<br \/>\n    sem profundidade, Carlos n&atilde;o merece uma par&oacute;dia brasileira da<br \/>\n    madrugada de Romeu e Julieta: &quot;N&atilde;o existem galos em Higien&oacute;polis&#8230;&quot;<br \/>\n    No S&atilde;o Paulo da &eacute;poca, &quot;v&aacute;rios galos madrugas, ami&uacute;dam<br \/>\n    no Pacaembu&quot; &#8230; O Narrador, conferindo duplo sentido a sua digress&atilde;o,<br \/>\n    privilegia a masculinidade dos habitantes das ch&aacute;caras do Pacaembu,<br \/>\n    onde n&atilde;o viviam, como na cidade, feras furtivas&#8230; Como se v&ecirc;,<br \/>\n    &quot;o id&iacute;lio continua&quot;, isto &eacute;, o romance de amor, tal<br \/>\n    como ele pode ser &#8212; texto de ironia. E a ironia, no desfecho, brinca<br \/>\n    com o conceito tradicional de romance de amor; em que o importante, o que<br \/>\n    sustem o interesse do leitor, &eacute; o relacionamento do her&oacute;i com<br \/>\n    a hero&iacute;na. Ali havia se desenrolado um id&iacute;lio sem import&acirc;ncia<br \/>\n    maior, embora constituindo o n&uacute;cleo da narrativa. Viajando, terminando<br \/>\n    sua tarefa com a Programada &quot;separa&ccedil;&atilde;o dos amantes&quot;,<br \/>\n    Fr&auml;ulein que n&atilde;o pudera manter integralmente a dist&acirc;ncia<br \/>\n    de profissional, recupera sua dimens&atilde;o pr&aacute;tica, alem&atilde;o<br \/>\n    homem-da-vida. O Narrador pontifica: &quot;E o id&iacute;lio de Fr&auml;ulein<br \/>\n    acaba aqui. O id&iacute;lio dos dois. O livro est&aacute; acabado.&quot; (p.<br \/>\n    126). O romance de amor, ainda que tenuemente, chegara a existir para Fr&auml;ulein<br \/>\n    no agitar de seu deus encarcerado, em seus anseios de uni&atilde;o de corpo<br \/>\n    e esp&iacute;rito, como no momento em que, na Floresta da Tijuca, fundira<br \/>\n    Carlos &agrave; imagem do companheiro sonhado. Em Amar, verbo intransitivo,<br \/>\n    torna-se ent&atilde;o claro que o fundamental n&atilde;o &eacute; a hist&oacute;ria<br \/>\n    de amor, pois o livro n&atilde;o termina; vai ainda por muitas p&aacute;ginas,<br \/>\n    cenas e digress&otilde;es. Sabemos das repercuss&otilde;es da partida, de<br \/>\n    Carlos sarando do desespero e da saudade, pouco a pouco se transformando em<br \/>\n    um adulto, um segundo Sousa Costa, e de Fr&auml;ulein, esta, fechado seu c&iacute;rculo,<br \/>\n    continuando sua carreira de professora do verbo intransitivo. No livro de<br \/>\n    M&aacute;rio, o que interessa &eacute; o alcance de suas personagens, o modo<br \/>\n    de constituir um romance. Perd&atilde;o! o modo de experimentar&#8230; um id&iacute;lio..<\/p>\n<h4><a name=\"4\" id=\"4\">O Amor, A Mulher e o Expressionismo<\/a><\/h4>\n<p>Creio que &eacute; preciso explicar um pouco minha posi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Quando me refiro, neste estudo, aos expressionistas, seus mestres e antecessores<br \/>\n    (os impressionistas), ou &agrave; simultaneidade construindo o texto, n&atilde;o<br \/>\n    estou, de forma alguma, colocando a id&eacute;ia de uma repeti&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ing&ecirc;nua das vanguardas modernas por parte de M&aacute;rio de Andrade.<br \/>\n    Seu conhecimento do futurismo, do expressionismo, sua leitura de todos os<br \/>\n    ismos, vale como a procura, dentro da arte, de uma vis&atilde;o contempor&acirc;nea,<br \/>\n    capaz de oferecer subs&iacute;dios a quem se empenhava em superar o atraso<br \/>\n    brasileiro resultante da coloniza&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica e cultural.<br \/>\n    Buscar as vanguardas, nesse caso, n&atilde;o &eacute; paradoxo, nem falta<br \/>\n    de sa&iacute;da, pois M&aacute;rio est&aacute; se debru&ccedil;ando criticamente<br \/>\n    sobre propostas e conquistas estrangeiras, peneirando-as, escolhendo o que<br \/>\n    considerava adequado para nossa literatura, em nossa realidade. Est&aacute;,<br \/>\n    &eacute; claro, agindo de acordo com seu grau de consci&ecirc;ncia (Goldmann),<br \/>\n    analisando de acordo com suas possibilidades. Nesse sentido, surpreende-nos<br \/>\n    o alcance de sua percep&ccedil;&atilde;o; embora datando seus romances como<br \/>\n    literatura de circunst&acirc;ncia, ainda hoje eles se conservam, sob v&aacute;rios<br \/>\n    aspectos, extremamente atuais. O autor do id&iacute;lio de Fr&auml;ulein n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; o modernista festivo que ouve cantar o galo, mas o artista moderno<br \/>\n    que possui um crivo cr&iacute;tico e entende que a cria&ccedil;&atilde;o se<br \/>\n    alimenta de descobertas vindas de toda parte, passando por sua defini&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de brasileiro e de homem do S&eacute;culo XX. Deste modo, aceita, como todas<br \/>\n    as demais vanguardas ali&aacute;s, solu&ccedil;&otilde;es do Manifesto t&eacute;cnico<br \/>\n    da literatura futurista e, atrav&eacute;s de seus livros e de seus escritos<br \/>\n    de jornal, pode-se considerar que, at&eacute; o final da d&eacute;cada de<br \/>\n    20, pelo menos, v&ecirc; no expressionismo a mais completa das est&eacute;ticas<br \/>\n    renovadoras, aquela que, para ele, unia coerentemente os aspectos t&eacute;cnicos,<br \/>\n    est&eacute;ticos e ideol&oacute;gicos e, al&eacute;m de denunciar contradi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de classe na sociedade, ousava descer aos infernos da alma humana. M&aacute;rio<br \/>\n    foi um devotado leitor dos expressionistas, j&aacute; sabemos isso, contudo,<br \/>\n    n&atilde;o justifica que se venha a garimpar, em seu livro, mecanicamente,<br \/>\n    coincid&ecirc;ncias como no jogo da mem&oacute;ria. O que me interessa &eacute;<br \/>\n    mostrar como, Amar, verbo intransitivo &eacute; um romance brasileiro, moderno,<br \/>\n    que se abeberou criticamente no expressionismo alem&atilde;o. E talvez, at&eacute;<br \/>\n    mais do que isso: por sua estrutura e seu estilo linguagem e ideologia, pelo<br \/>\n    reconhecimento p&uacute;blico da fonte, o romance que pode ser tomado como<br \/>\n    uma repercuss&atilde;o nossa da est&eacute;tica de O grito.<\/p>\n<p> O Narrador empenha-se em ressaltar a presen&ccedil;a do expressionismo alem&atilde;o<br \/>\n    no entrecho; exibe informa&ccedil;&atilde;o, mas, como tamb&eacute;m &eacute;<br \/>\n    personagem, faz parte da verossimilhan&ccedil;a que o recorta n&atilde;o perceber<br \/>\n    o quanto Fr&auml;ulein, na faceta homem-do-sonho, deus encarcerado, representa<br \/>\n    no livro a &acirc;nsia avassaladora expressionista. Registra, mas n&atilde;o<br \/>\n    mergulha atr&aacute;s do significado mais fundo. Prefere aplicar-se &agrave;<br \/>\n    faceta homem-da-vida. Assim, vai destacando: Fr&auml;ulein conhece o expressionismo<br \/>\n    atrav&eacute;s de um amigo alem&atilde;o; passa a ler Der Sturm, voltando<br \/>\n    sempre, por inclina&ccedil;&atilde;o, aos cl&aacute;ssicos e aos poemas de<br \/>\n    Wagner. Para ele, Fr&auml;ulein &quot;seguiu p&aacute;gina por p&aacute;gina<br \/>\n    livros e revistas ignorados. Compreendeu e aceitou o expressionismo, que nem<br \/>\n    alem&atilde;o med&iacute;ocre aceita primeiro e depois compreende. Porque<br \/>\n    existe.&quot; (p. 62). No seu modo de analisar, o expressionismo seria para<br \/>\n    ela a arte que est&aacute; no papel e que n&atilde;o admite existindo na vida<br \/>\n    pr&aacute;tica, em torno de si. Nesse sentido, o Narrador sabe bastante; sua<br \/>\n    voz chega a se confundir com os pensamentos de Fr&auml;ulein, aproveitando<br \/>\n    por&eacute;m a oportunidade para mostrar que digeriu as propostas da est&eacute;tica<br \/>\n    de Walden e deixar impl&iacute;cito que seu texto &eacute; regido por elas.<br \/>\n    Fr&auml;ulein, quando exasperada com a mentalidade brasileira, com a incapacidade<br \/>\n    do casal Sousa Costa de conversar e entender logicamente uma inicia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    amorosa, mostra-se &quot;indignada&quot;, mas se cont&eacute;m, ainda pensando<br \/>\n    juntamente com o Narrador: &quot;Que diabo! atos da vida n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    arte expressionista, que pode ser nebulosa ou sint&eacute;tica. N&atilde;o<br \/>\n    percebera bem a claridade latina daquela explica&ccedil;&atilde;o. O m&eacute;todo<br \/>\n    germanicamente dela e a did&aacute;tica habilidade no agir, n&atilde;o admitiam<br \/>\n    tal fumarada de palavras desconexas. Aquelas frases sem dicion&aacute;rio<br \/>\n    nem gram&aacute;tica irritaram-na inda mais. Queria, exigia, sujeito, verbo<br \/>\n    e complemento.&quot; (p. 68). O Narrador gosta de crivar o texto de refer&ecirc;ncias<br \/>\n    aos expressionistas e seus precursores; fala em Schikele, Werfel, Edschimid,<br \/>\n    nos &quot;farrapos de papel&quot; de Holweg, coloca id&eacute;ias do respeitad&iacute;ssimo<br \/>\n    Nietzsche, de Rubiner, considera&ccedil;&otilde;es sobre a multiplicidade<br \/>\n    do ser, a clivagem no mundo atual, mas, de fato, surpreende-se com sua personagem,<br \/>\n    apesar da ressalva pirandeliana de que nada tinha a ver com a cria&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Fr&auml;ulein, pois fora ela quem o procurara e &quot;se contara&quot;.<br \/>\n    Sua defesa, no in&iacute;cio um primor de par&oacute;dia do estilo parnasiano<br \/>\n    (&quot;m&eacute;diuns dicazes&quot;, &quot;vates de segundo grau&quot;, &quot;fac&uacute;ndia<br \/>\n    son&acirc;mbula&quot;, etc), afirma a seguir, ainda nas pegadas de Pirandello,<br \/>\n    que &quot;S&atilde;o os personagens que escolhem seus autores e n&atilde;o<br \/>\n    estes que constroem suas hero&iacute;nas.&quot; (p. 70). Havendo personalidades<br \/>\n    concordantes somente no romance psicol&oacute;gico e n&atilde;o sendo sua<br \/>\n    personagem assim, obviamente ele est&aacute; fazendo outra coisa que romance<br \/>\n    desse tipo &#8212; romance experimental, expressionista.13<\/p>\n<p> Esse Narrador que sabe t&atilde;o bem definir o expressionismo, as &quot;misturas<br \/>\n    incompletas, assustadoras incoer&ecirc;ncias&quot;, interpreta, todavia, taxativamente<br \/>\n    Fr&auml;ulein quando d&aacute; maior &ecirc;nfase &agrave; sua parcela alem&atilde;o-homem-da-vida.<br \/>\n    S&oacute; poder&aacute;, conseq&uuml;entemente, espantar-se com uma hero&iacute;na<br \/>\n    que, embora defendendo um ideal de amor burgu&ecirc;s, transcende os par&acirc;metros<br \/>\n    de seu pr&oacute;prio bom-senso. Uma Fr&auml;ulein cheia de paix&atilde;o,<br \/>\n    que, refutando os equ&iacute;vocos dos Sousa Costas, mistura condena&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    aos fil&oacute;sofos queridos dos expressionistas, Nietzsche e Schopenhauer,<br \/>\n    arroubos patrioteiros, racistas e moralistas &agrave; defesa da capacidade<br \/>\n    de amar, saindo-se com uma verdade que soa como incoer&ecirc;ncia na fic&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    certamente desnortear&aacute; o sabido contador de sua hist&oacute;ria. Para<br \/>\n    ela, o amor &eacute; uma pedagogia burguesa, mas &eacute; tamb&eacute;m, naquele<br \/>\n    instante, o libertar da capacidade de sentir intensamente, profundamente,<br \/>\n    do deus-encarcerado&#8230; para continuar intransitiva. Embora contradit&oacute;ria,<br \/>\n    cindida, Fr&auml;ulein, fervorosa, recha&ccedil;a a Filosofia que invadira<br \/>\n    o terreno do amor! Verdade, n&atilde;o frase de efeito, deixa todos at&ocirc;nitos:<br \/>\n    o amor n&atilde;o &eacute; uma especula&ccedil;&atilde;o intelectualizada,<br \/>\n    cient&iacute;fica; &eacute; um sentimento! Verdade cujo alcance lhe escapa,<br \/>\n    carapu&ccedil;a que tamb&eacute;m lhe serve&#8230; P&otilde;e o Narrador numa<br \/>\n    enrascada! mete-se em explica&ccedil;&otilde;es sobre verossimilhan&ccedil;a,<br \/>\n    mas n&atilde;o compreende que Fr&auml;ulein n&atilde;o &eacute; apenas &quot;senhorinha<br \/>\n    modesta e um pouco est&uacute;pida.&quot; (p. 71). A sensibilidade exacerbada,<br \/>\n    o erotismo, marcam a movimenta&ccedil;&atilde;o de Fr&auml;ulein por meio<br \/>\n    de uma quantidade de ind&iacute;cios que o Narrador registra, at&eacute; comenta,<br \/>\n    mas n&atilde;o aprofunda enquanto carga expressionista do ser que &eacute;<br \/>\n    marginal em seu modo de ver e sentir. Para o Narrador, a professora fazia<br \/>\n    caxiasmente sua leitura dos expressionistas, mantendo-se a par do que se escrevia<br \/>\n    na Alemanha, mas, voltava para Goethe, &quot;sempre Schiller e os poemas de<br \/>\n    Wagner&quot;. Pois &eacute;: &quot;sempre Schiller&quot;, de cuja Joana d&#8217;Arc<br \/>\n    se lembra num momento em que deseja libertar o deus encarcerado, ser aut&ecirc;ntica.<br \/>\n    E lia Racine, Romain Rolland, &quot;no original&quot;. Falsa pista, refor&ccedil;ando<br \/>\n    o Narrador como personagem de fic&ccedil;&atilde;o: Fr&auml;ulein sabe realmente<br \/>\n    franc&ecirc;s! Enquanto isso, o alem&atilde;o homem-do-sonho n&atilde;o lhe<br \/>\n    aparece. Entretanto, est&aacute; ali. impondo-se atrav&eacute;s dos autores<br \/>\n    lidos, todos, sem exce&ccedil;&atilde;o, apologistas da primazia do sentimento.<br \/>\n    Torna-se assim bastante coerente a fus&atilde;o do Sturm und Drang, Goethe<br \/>\n    e Schiller, a Der Sturm. E a Wagner&#8230;<\/p>\n<p> A hero&iacute;na sonhando, devaneando, ou simplesmente agindo, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; apenas o &quot;ponto final&quot; que satisfaz o Narrador quando a<br \/>\n    esquematiza. &Eacute; personagem revestida de uma coer&ecirc;ncia art&iacute;stica<br \/>\n    mais visceral. Seus sonhos e projetos s&atilde;o tamb&eacute;m id&eacute;ias<br \/>\n    e palavras soltas no ar, seus pensamentos, na hora do sofrimento, s&atilde;o<br \/>\n    &quot;migalhas&quot; e &quot;Simult&acirc;neos, brotam da consci&ecirc;ncia<br \/>\n    dela desenhos inacabados, isto &eacute;, prel&uacute;dios de id&eacute;ias&quot;<br \/>\n    (o grifo &eacute; meu). Seu sonho de amor &eacute; quadro de id&iacute;lio,<br \/>\n    delicado, frugal, rom&acirc;ntico, burgu&ecirc;s da Panzschule ou do estudo<br \/>\n    universit&aacute;rio sobre o apelo da natureza na poesia dos Minnes&auml;nger,<br \/>\n    sonho onde cabem regras para o amor n&atilde;o s&oacute; dos alem&atilde;es:<br \/>\n    &quot;Apenas um pouco mais de verdade pr&aacute;tica e menos Wagner&quot;.<br \/>\n    Por&eacute;m, o marido comprado com seu trabalho, dedica-se a encontrar o<br \/>\n    apelo da natureza, querendo, portanto, detect&aacute;-lo entre os mestres<br \/>\n    cantores t&atilde;o severos nos c&acirc;nones uma arte po&eacute;tica e musical.<br \/>\n    Fr&auml;ulein projeta, pois, um desejo inconsciente de liberdade, de primitivismo.<br \/>\n    Al&eacute;m disso, a figura da morte &agrave; Montanha m&aacute;gica, sugerida<br \/>\n    pela tosse, a magreza e o corado irregular das faces do companheiro, ronda<br \/>\n    e solapa o cromo idealizado. Fr&auml;ulein entregue a sua fantasia possui<br \/>\n    frases telegr&aacute;ficas, frases sem a organiza&ccedil;&atilde;o que a gram&aacute;tica<br \/>\n    pede. Multiplica-se nas retic&ecirc;ncias. Seja pontua&ccedil;&atilde;o &eacute;<br \/>\n    a mesma dos latinos que condena, Com uma diferen&ccedil;a, entretanto: eles<br \/>\n    hesitam nas retic&ecirc;ncias de quem n&atilde;o sabe o que quer. Fr&auml;ulein<br \/>\n    homem-da-vida e homem-do-sonho, alienada ou n&atilde;o, sabe se definir, n&atilde;o<br \/>\n    gosta de hesitar. Em sua mente as duas facetas se conjugam, se justap&otilde;em,<br \/>\n    se op&otilde;em: o ponto final e as retic&ecirc;ncias, O ponto final marcando<br \/>\n    tudo o que &eacute; pr&aacute;tico, mesmo no sonho; soluciona o dia a dia,<br \/>\n    o garantir da sobreviv&ecirc;ncia de quem come&ccedil;ara a trabalhar em Leipzig<br \/>\n    e viera fazer Am&eacute;rica. Fr&auml;ulein, al&eacute;m de n&atilde;o gostar<br \/>\n    de sofrer, aprecia comer bem e trajar bons tecidos. O projeto de vida sonhado,<br \/>\n    as retic&ecirc;ncias, s&atilde;o sua porta aberta para fugir do discurso masculino<br \/>\n    de opress&atilde;o ostensiva, dos Sousa Costas que se imp&otilde;em atrav&eacute;s<br \/>\n    de gritos quando apanhados em falta &#8212; pai e filho &#8212; do jovem machucador,<br \/>\n    dos mo&ccedil;os que podiam trat&aacute;-la com impaci&ecirc;ncia e grosseria,<br \/>\n    do julgamento hip&oacute;crita dos chefes de fam&iacute;lia. E porta aberta<br \/>\n    para se colocar sob um poder masculino mais brando, &quot;sem dom&iacute;nio&quot;,<br \/>\n    pois a professora de amor n&atilde;o discute a supremacia do homem. N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; solid&aacute;ria com as outras mulheres, &eacute; sempre severa no<br \/>\n    julgar Laura, n&atilde;o se apega &agrave;s meninas. Condena a si pr&oacute;pria,<br \/>\n    moralista, declarando ter &quot;a profiss&atilde;o que uma fraqueza&quot;<br \/>\n    lhe permitiu exercer. Defende a ordem e a moral estabelecidas &#8212; transgride-as<br \/>\n    para as consolidar e aperfei&ccedil;oar &#8212; legitima o autoritarismo,<br \/>\n    exigindo de Sousa Costa que o rompimento da liga&ccedil;&atilde;o clandestina<br \/>\n    se processasse com viol&ecirc;ncia. Na cena final do romance, observando Carlos,<br \/>\n    lembra versos que falam em casamento e recursos financeiros, em amor de burgu&ecirc;s<br \/>\n    em suma, e a condena&ccedil;&atilde;o homem-do-sonho lhe brota, inconscientemente:<br \/>\n    &quot;O verso seguinte veio, sem ela querer: Ungerecht bleiben die M&auml;nner&#8230;<br \/>\n    repeliu-o.&quot;. (Tradu&ccedil;&atilde;o no rodap&eacute;: &quot;Os homens<br \/>\n    s&atilde;o muito injustos&#8230;&quot;) Prefere entregar-se &agrave; fantasia,<br \/>\n    chegando &agrave; alucina&ccedil;&atilde;o, vendo-se como &quot;M&atilde;e<br \/>\n    de amor! M&atilde;e&#8230;&quot; Personagem de tra&ccedil;os expressionistas,<br \/>\n    alucina, bane a raz&atilde;o&#8230; Nosso primeiro impulso de leitor &eacute;<br \/>\n    pensar num cl&iacute;max ligado ao mito, Fr&auml;ulein Jocasta, Erda, M&atilde;e<br \/>\n    Terra, cl&iacute;max em que a hero&iacute;na transcende, paira acima de suas<br \/>\n    contradi&ccedil;&otilde;es. 0 mito, voz do deus encarcerado avan&ccedil;a,<br \/>\n    para ser imediatamente suplantado pelas exig&ecirc;ncias do homem-da-vida.<br \/>\n    0 mito, s&oacute; como fuga: Fr&auml;ulein afastara sua ang&uacute;stia, seu<br \/>\n    sofrimento, compensando-se, reassegurando-se com uma vis&atilde;o grandiosa<br \/>\n    de seu mister. Tr&aacute;gica &eacute; sua condi&ccedil;&atilde;o de mulher<br \/>\n    e marginal no mundo que &eacute; burgu&ecirc;s e do homem, t&atilde;o tr&aacute;gica<br \/>\n    que n&atilde;o lhe confere sequer a sa&iacute;da para a trag&eacute;dia. At&eacute;<br \/>\n    a morte, em sua l&iacute;ngua, &eacute; masculino &#8212; der Tod. Sacerdotisa<br \/>\n    do amor, serve volunt&aacute;ria e alienadamente ao homem e &agrave; burguesia,<br \/>\n    acorrentando-se a S&iacute;sifo&#8230; Ama o amor e n&atilde;o quer correr, efetivamente,<br \/>\n    o risco de amar. Existe e age: verbo; por&eacute;m, sem objeto: verbo intransitivo.<br \/>\n    Seu interesse pelo homem jovem, transformado em profiss&atilde;o, pode talvez<br \/>\n    ser entendido dentro de sua &acirc;nsia de amor devotado, intenso, interessado<br \/>\n    em sua pedagogia. Digo talvez, porque n&atilde;o se pode esquecer a singularidade<br \/>\n    machadiana de Fr&auml;ulein, personagem cheia de facetas e de mist&eacute;rio&#8230;<br \/>\n    Seguindo a primeira id&eacute;ia, v&ecirc;-se que, para Fr&auml;ulein, os<br \/>\n    jovens n&atilde;o s&atilde;o ainda Sousa Costas consolidados, embora, brevemente<br \/>\n    o venham a ser. Por enquanto, apaixonam-se, s&atilde;o delicados, podem mesmo<br \/>\n    ser vistos por Fr&auml;ulein como o jovem Siegfried&#8230; de costas, afastando-se.<br \/>\n    Amor intenso, determinadamente ef&ecirc;mero, sob o controle da professora,<br \/>\n    mas, de qualquer maneira, existindo enquanto duram as li&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de amar. O jovem at&eacute; merece do arcanjo, nos c&eacute;us, um &quot;registro<br \/>\n    do amor sincero&quot;, onde n&atilde;o figuram inten&ccedil;&otilde;es&#8230;<\/p>\n<p> Amar, verbo intransitivo &eacute; um grande romance, infelizmente muito<br \/>\n    pouco lido e estudado. Maria Lu&iacute;sa Ramos, em um ensaio de grande acuidade,<br \/>\n    acompanhou os ecos do expressionismo no seu bojo, o latente manifesto de M&aacute;rio<br \/>\n    de Andrade 14. A vereda &eacute; rica e vale a pena continuar por ela. E pensar<br \/>\n    nos temas e na ideologia dos expressionistas e seus precursores: os deserdados<br \/>\n    da sorte, os p&aacute;rias, os loucos, a mulher, o estrangeiro marginalizado;<br \/>\n    a presen&ccedil;a da ang&uacute;stia, da dor, a den&uacute;ncia da burguesia,<br \/>\n    a valoriza&ccedil;&atilde;o da sexualidade humana, libertando-a da id&eacute;ia<br \/>\n    de pecado. 15 O desmascarar da opress&atilde;o da mulher j&aacute; est&aacute;<br \/>\n    em Senhorita J&uacute;lia e em Nora da Casa de bonecas; est&aacute; no assumir<br \/>\n    do discurso feminino de Arthur Schnitzler, expressionista austr&iacute;aco.<br \/>\n    E M&aacute;rio lia Ibsen, Strindberg, traduzidos para o franc&ecirc;s e o<br \/>\n    alem&atilde;o. Sabemos que se aplicava no estudo da l&iacute;ngua alem&atilde;<br \/>\n    e que em sua biblioteca est&atilde;o desde Hauptmann at&eacute; Hugo von Hofmannsthal,<br \/>\n    Fritz von Unruh, Wadekind, Werfel, Trakl, etc, poesia, narrativa, teatro.<br \/>\n    A partir de 1923 e at&eacute; o ano seguinte, &eacute; leitor de Der Sturm15<br \/>\n    Em carta de 7 de junho de 1923, dirigida a Manuel Bandeira, confessa estar<br \/>\n    ent&atilde;o &quot;mais perto dos alem&atilde;es&quot;.17 Mais adiante focalizarei<br \/>\n    biograficamente o escritor estudando a l&iacute;ngua de Goethe; por enquanto,<br \/>\n    esta &eacute; simplesmente uma informa&ccedil;&atilde;o de refor&ccedil;o,<br \/>\n    necess&aacute;ria porque se liga a poss&iacute;veis ra&iacute;zes da hero&iacute;na.<br \/>\n    O banquete &eacute; uma refer&ecirc;ncia expl&iacute;cita em Amar, verbo intransitivo.<br \/>\n    Todavia, ali, na li&ccedil;&atilde;o sobre o amor, o mundo interno da mulher<br \/>\n    mantin&eacute;ia n&atilde;o &eacute; objeto do contar de Plat&atilde;o, interessado<br \/>\n    em fixar apenas sua filosofia. Di&oacute;tima, a Estrangeira, ensina o amor<br \/>\n    que eleva, dignifica e realiza; o que nos fica &eacute; seu discurso de sabedoria,<br \/>\n    n&atilde;o o de seus sentimentos, de sua paisagem interior. No expressionismo<br \/>\n    e na pr&oacute;pria &aacute;rea da realidade hist&oacute;rica de S&atilde;o<br \/>\n    Paulo da burguesia pr&oacute;spera da d&eacute;cada de 20 est&atilde;o outros<br \/>\n    dados. No expressionismo, o mergulhar na sensibilidade, na alma da mulher;<br \/>\n    em S&atilde;o Paulo, o qui&ccedil;&aacute; ver&iacute;dico tornando-se fic&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    a li&ccedil;&atilde;o de amar a domic&iacute;lio, sem ferir a &quot;respeitabilidade&quot;<br \/>\n    da fam&iacute;lia. M&aacute;rio de Andrade estudou alem&atilde;o, muito provavelmente,<br \/>\n    com duas professoras: Else Sch&ouml;ler Eggebert e K&auml;the Blosen esta,<br \/>\n    Fr&auml;ulein, jovem e loura, ensinando-o na &eacute;poca de reda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do id&iacute;lio. Else, conforme seu cart&atilde;o, &eacute; uma &quot;Sra.&quot;,<br \/>\n    professora de alem&atilde;o, franc&ecirc;s e ingl&ecirc;s. Teria sido K&auml;the<br \/>\n    Blosen a Fr&auml;ulein que &quot;se contara&quot; e Else, a mestra cujo nome<br \/>\n    serviu para batizar a hero&iacute;na? De qualquer maneira, na escolha estaria<br \/>\n    a lembran&ccedil;a de Else Sch&ouml;ler somada &agrave; homenagem a Else Lasker-Sch&ouml;ller,<br \/>\n    romancista do expressionismo, como pensa Maria Lu&iacute;sa Ramos. A estas<br \/>\n    duas Elsas (com s e a de M&aacute;rio com z, grafia fon&eacute;tica aceitando<br \/>\n    a forma aqui consagrada), pode-se acrescentar, talvez, uma terceira, a de<br \/>\n    Arthur Schnitzler. Fr&auml;ulein Else, novela de 1924, n&atilde;o se encontra<br \/>\n    na biblioteca do romancista brasileiro e &eacute; posterior ao in&iacute;cio<br \/>\n    da reda&ccedil;&atilde;o de Amar, verbo intransitivo (1923)18. Apesar disso,<br \/>\n    mostra interessantes possibilidades de aproxima&ccedil;&atilde;o, sobretudo<br \/>\n    considerando-se que M&aacute;rio conhecia Schnitzler em Morir, vers&atilde;o<br \/>\n    espanhola de 1920, onde Fios, o tradutor, discute no pref&aacute;cio o amor<br \/>\n    e suas formas, diferenciando-o da vontade de amar.19 Voltando por&eacute;m<br \/>\n    a Fr&auml;ulein Else e excluindo-se a coincid&ecirc;ncia do t&iacute;tulo,<br \/>\n    uma vez que a escolha original para o id&iacute;lio, j&aacute; em 1923, havia<br \/>\n    sido Fr&auml;ulein, compreende-se que determinados aspectos ligados &agrave;<br \/>\n    ideologia e ao pr&oacute;prio processo de constru&ccedil;&atilde;o do texto,<br \/>\n    justificam o risco de se acompanhar esta hip&oacute;tese. 20 Al&eacute;m disso,<br \/>\n    o fato de M&aacute;rio estar iniciando seu trabalho em 1923, conforme comunica<br \/>\n    ao amigo Manuel Bandeira, n&atilde;o significa que, nesse ano, ou no seguinte,<br \/>\n    o tivesse definitivamente terminado. &Eacute; bem conhecida sua forma de escrever:<br \/>\n    Macuna&iacute;ma e os contos n&atilde;o ficaram em uma &uacute;nica vers&atilde;o;<br \/>\n    acr&eacute;scimos, modifica&ccedil;&otilde;es foram feitas e existem provas<br \/>\n    disso, apesar de seu costume de queimar os originais dos livros publicados.<br \/>\n    Amar, verbo intransitivo, at&eacute; o momento, disp&otilde;e de pouca documenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    apoiando seu trajeto, o que n&atilde;o invalida que se possa estud&aacute;-lo<br \/>\n    comparativamente, recorrendo a Fr&auml;ulein Else. Schnitzler, que assumiu<br \/>\n    a den&uacute;ncia do vazio das esferas elegantes e abastadas de seu pa&iacute;s<br \/>\n    e a den&uacute;ncia da situa&ccedil;&atilde;o da mulher, objeto de luxo feito<br \/>\n    para a satisfa&ccedil;&atilde;o do homem, retratou, com muita coragem, as<br \/>\n    fraquezas da alma do homem burgu&ecirc;s, afetivamente pobre, parco de recursos<br \/>\n    inferiores. Fr&auml;ulein Else conta a hist&oacute;ria da jovem que n&atilde;o<br \/>\n    nega o seu erotismo, enfrenta preconceitos, vivendo na alta sociedade vienense.<br \/>\n    Obrigada a vender seu corpo para salvar o pai, enterrado em d&iacute;vidas,<br \/>\n    suicida-se. A novela n&atilde;o possui outro narrador al&eacute;m de Else,<br \/>\n    que em mon&oacute;logo, tom confessional de di&aacute;rio, &quot;se conta&quot;,<br \/>\n    ou seja, com Schnitzler conseguindo se expressar magnificamente no feminino.<br \/>\n    N&atilde;o possui divis&otilde;es, separa&ccedil;&otilde;es gr&aacute;ficas,<br \/>\n    nem cap&iacute;tulos. Else est&aacute; se revivendo para morrer. Unicamente<br \/>\n    os apelos externos lembrados, as vozes daqueles que a procuraram, interrompem<br \/>\n    o fio de seu pr&oacute;prio pensar num refr&atilde;o que a invoca: &quot;Else!<br \/>\n    Else! ou em corteses e hip&oacute;critas frases de sauda&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    repisando o elegante cumprimento austr&iacute;aco: &quot;Gusten Abend, Fr&auml;ulein<br \/>\n    Else. &#8212; K&uuml;ss&#8217; die Hand, griadige Frau.&quot; As vozes externas<br \/>\n    s&atilde;o sempre distinguidas graficamente em it&aacute;lico. O erotismo<br \/>\n    &eacute; um leit-motif de Schnitzler; passado e presente s&atilde;o tra&ccedil;ados<br \/>\n    pelo discurso de quem resolveu morrer: uma sucess&atilde;o de imagens, evoca&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    simultaneidade, situa&ccedil;&otilde;es aparentemente descosidas e o novo<br \/>\n    realismo do expressionista extremando-se no momento em que Fr&auml;ulein Else<br \/>\n    est&aacute; sucumbindo, depois de uma forte dose de Veronal: &quot;Ich fliege&#8230;<br \/>\n    ich tr&auml;ume&#8230; ich schlafe&#8230; ich traume &#8212; ich flie&#8230;&quot; 21<br \/>\n    Else toca piano e pode reconhecer, do momento de sua degrada&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    os acordes do Carnaval de Schumann que partem da sala&#8230; Recupera-os, e eles<br \/>\n    aparecem no livro em nota&ccedil;&atilde;o musical. 22<\/p>\n<p> Creio que uma aproxima&ccedil;&atilde;o n&atilde;o deixa de ser plaus&iacute;vel.<br \/>\n    M&aacute;rio e o austr&iacute;aco tomam o cotidiano. Em Amar, verbo intransitivo,<br \/>\n    no estruturar das cenas, v&aacute;rias vezes surgem di&aacute;logos convencionais,<br \/>\n    em alem&atilde;o e em portugu&ecirc;s. E, em diversos momentos, o Lied e outras<br \/>\n    can&ccedil;&otilde;es alem&atilde;s t&ecirc;m seus versos citados, isso sem<br \/>\n    esquecer Carlos cantando e dan&ccedil;ando &quot;Tatu subiu no pau&#8230;&quot;<br \/>\n    Carlos &eacute; o herdeiro homem, centro do mundo na Av. Higien&oacute;polis,<br \/>\n    &eacute; o adolescente lutando por seu dom&iacute;nio. Seu nome &eacute; um<br \/>\n    refr&atilde;o que, repetido constantemente, cortando seq&uuml;&ecirc;ncias,<br \/>\n    o faz onipresente, futuro dono do poder, ocupando seu espa&ccedil;o. &quot;<br \/>\n    &#8212; Mam&atilde;e! Mam&atilde;e! Olhe Carlos!&quot; e todas as suas varia&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Mesmo quando o &quot;id&iacute;lio&quot; j&aacute; terminou e Carlos j&aacute;<br \/>\n    recebeu sua li&ccedil;&atilde;o de amor, o refr&atilde;o permanece ir&ocirc;nico<br \/>\n    destaque final, abrupto, com as retic&ecirc;ncias aparecendo como o estigma<br \/>\n    do homem que continuar&aacute; &quot;machucador&quot;.&quot; &#8212; Mam&atilde;e<br \/>\n    olhe Carlos!&#8230;&quot; (p. 132); Carlos, homem sem maiores dotes de esp&iacute;rito.<br \/>\n    E&#8230; por falar em Arthur Schnitzler pode-se at&eacute; pensar que o interesse<br \/>\n    pela psicologia do adolescente que tanto marcaria M&aacute;rio de Andrade<br \/>\n    na cr&iacute;tica liter&aacute;ria &#8212; &quot;Amor e medo&quot; etc. &#8212;,<br \/>\n    tenha sido refor&ccedil;ado pela leitura de Anatol. Mas, j&aacute; &eacute;<br \/>\n    disparar nas conjeturas&#8230;<\/p>\n<p> Amar, verbo intransitivo &eacute; um romance pr&oacute;-mulher, o Narrador<br \/>\n    conquistando a express&atilde;o feminina e admitindo a autonomia de sua hero&iacute;na.<br \/>\n    Entretanto, como o Narrador &eacute; uma personagem acessoriamente &quot;principal&quot;,<br \/>\n    sua presen&ccedil;a &eacute; tamb&eacute;m desenhada por suas contradi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de voz masculina &#8212; Maria Lu&iacute;sa Ramos o chamou mesmo de machista<br \/>\n    &#8212; contradi&ccedil;&otilde;es de voz masculina&#8230; progressista. Mostra-se<br \/>\n    compadecido com a condi&ccedil;&atilde;o de Fr&auml;ulein, para quem at&eacute;<br \/>\n    a morte est&aacute; no masculino, mas, logo depois &eacute; severamente ir&ocirc;nico<br \/>\n    rindo de seu faz de conta de insist&ecirc;ncia dos patr&otilde;es para n&atilde;o<br \/>\n    ter que abandonar o trabalho, e perder oito contos. &Eacute; assim: trata<br \/>\n    bem e trata mal sua hero&iacute;na ao longo do livro. Defende o erotismo,<br \/>\n    faz a den&uacute;ncia do poder que transforma o homem num simples &quot;macho&quot;,<br \/>\n    usando textualmente, sem subterf&uacute;gios, essa express&atilde;o. Condena<br \/>\n    o poder que permite a mulher se sentir &quot;deliciosamente batida&quot;.<br \/>\n    No romance, o homem, exce&ccedil;&atilde;o feita ao companheiro sonhado por<br \/>\n    Fr&auml;ulein &#8212; &eacute; &quot;machucador&quot; e &quot;&aacute;spero&quot;;<br \/>\n    somente quando apaixonado, jovem, na fugacidade do amor sincero, poder&aacute;<br \/>\n    se humanizar e se sentir machucado. Ele, Narrador, confirma um tra&ccedil;o<br \/>\n    que M&aacute;rio de Andrade grifa na sexualidade do brasileiro, tra&ccedil;o<br \/>\n    que ser&aacute; exaustivamente explorado em Macuna&iacute;ma na fala do rapsodo<br \/>\n    e comentado em um dos pref&aacute;cios. Trata-se da verbaliza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do sexo na coprolalia ou nas palavras e frases de duplo sentido, no cac&oacute;faton<br \/>\n    que provoca a risada. No romance de Fr&auml;ulein, a sexualidade de Carlos<br \/>\n    &eacute; aproximada &agrave; do boi, com vantagem para este, que M&aacute;rio<br \/>\n    considerar&aacute; como s&iacute;mbolo da unidade nacional. A met&aacute;fora<br \/>\n    consolida-se na digress&atilde;o que mistura o desra&ccedil;ado, Carlos, e<br \/>\n    as preocupa&ccedil;&otilde;es com ra&ccedil;as bovinas selecionadas. Carlos<br \/>\n    filho de Felisberto Sousa Costa, criador de touros de ra&ccedil;a, reprodutores,<br \/>\n    &eacute; um brasileiro da burguesia urbana, incaracter&iacute;stico, repetidor<br \/>\n    de padr&otilde;es, pouco afeito &agrave; express&atilde;o do afeto, &quot;machucador&quot;<br \/>\n    de aperto de m&atilde;o fl&aacute;cido. O amor para ele ser&aacute; o sexo<br \/>\n    = encargo de macho, touro reprodutor. A digress&atilde;o do Narrador, enquanto<br \/>\n    Carlos espera a resposta de Fr&auml;ulein marcando o primeiro encontro em<br \/>\n    seu aposento, &eacute; um trecho estil&iacute;stica e ideologicamente extraordin&aacute;rio.<br \/>\n    A par&oacute;dia e a ambig&uuml;idade condenam, nas entrelinhas, a aliena&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do homem burgu&ecirc;s e j&aacute; anunciam a vivacidade que atingiriam na<br \/>\n    &quot;Carta pras icamiabas&quot;. Assim, o polled-angus &quot;sempre abunda&quot;;<br \/>\n    no Brasil j&aacute; entrou o zebu &quot;Entra o durhan tamb&eacute;m, e j&aacute;<br \/>\n    pasta o curraleiro e principalmente o caracu&quot;. O tom &quot;moreno rosado&quot;,<br \/>\n    &quot;deliciosa e masculina cor&quot;, &quot;Cobre carnes rijas musculosas,<br \/>\n    afirmo. Apenas estas se disseminam porque a obriga&ccedil;&atilde;o delas<br \/>\n    &eacute; cobrir&quot;, (grifei).<\/p>\n<p> O Narrador &eacute; intrigante em suas contradi&ccedil;&otilde;es: det&eacute;m-se<br \/>\n    no erotismo, na sensualidade de Fr&auml;ulein, &quot;Potranca na invernada,<br \/>\n    ema, siriema, passarinho&quot;; det&eacute;m-se em Carlos; prefere, por&eacute;m,<br \/>\n    n&atilde;o focalizar cenas mais ousadas quando o casal est&aacute; junto.<br \/>\n    O beijo na biblioteca &eacute; um &quot;momento f&iacute;lmico&quot;, mas<br \/>\n    o Narrador foge de sua descri&ccedil;&atilde;o, olhando metaforicamente os<br \/>\n    exemplares &quot;virgens&quot; das estantes. Literariamente, &eacute; tento<br \/>\n    marcado: a met&aacute;fora &eacute; solu&ccedil;&atilde;o habil&iacute;ssima,<br \/>\n    admiravelmente utilizada, sublinhando a verossimilhan&ccedil;a desse Narrador-personagem.<br \/>\n    Da mesma forma que o cinema de sua &eacute;poca, o Narrador n&atilde;o pode<br \/>\n    mostrar a rela&ccedil;&atilde;o sexual; pode apenas sugeri-la e colocar o<br \/>\n    erotismo nas met&aacute;foras. Carlos entra no quarto de Fr&auml;ulein pela<br \/>\n    primeira vez. Corte. Outro, momento, outro espa&ccedil;o. O Narrador possui<br \/>\n    &quot;raz&otilde;es&quot;, que n&atilde;o declara, para n&atilde;o focalizar<br \/>\n    os amantes. Vai gastar seu &quot;fim de noite&quot; tratando das rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    entre estrangeiros: Tanaka, o criado japon&ecirc;s da fam&iacute;lia, e Fr&auml;ulein,<br \/>\n    inimigos de dia e companheiros dialogando na sala, &agrave; noite. J&aacute;<br \/>\n    aproximei aqui a escolha do estrangeiro por parte de M&aacute;rio de Andrade<br \/>\n    &agrave; escolha id&ecirc;ntica no expressionismo. Continuo, lembrando o japon&ecirc;s,<br \/>\n    ser enigm&aacute;tico em Hugo von Hofmansthal ou O Japon&ecirc;s pintado por<br \/>\n    Anita Malfatti. Em Amar verbo intransitivo, Tanaka &eacute; o estrangeiro,<br \/>\n    o exilado, figura marginal, turva que, juntamente com Fr&auml;ulein, falando<br \/>\n    mal dos patr&otilde;es e do Brasil, forma o par de tigres, feras do escuro,<br \/>\n    amea&ccedil;a latente&#8230; mas pouco perigosa. Acossados pela queimada da servid&atilde;o<br \/>\n    e da pobreza, resta-lhes a evoca&ccedil;&atilde;o emocionada do passado e<br \/>\n    a luta de classe do lacaio, a mais mi&uacute;da e inexpressiva: falar mal.<br \/>\n    Enquanto Carlos e Fr&auml;ulein ardem em sua primeira noite de amor, a &quot;Queimada&quot;<br \/>\n    de Castro Alves, em recria&ccedil;&atilde;o brasileira moderna, &quot;desgeograficada&quot;,<br \/>\n    admitindo tigres, tem sua eloq&uuml;&ecirc;ncia condoreira parodiada e abre<br \/>\n    a discuss&atilde;o sobre o estrangeiro, o ex&iacute;lio e nossa nacionalidade<br \/>\n    incorporadora.23<\/p>\n<p> O Narrador iguala-se a suas personagens no censurar as refer&ecirc;ncias<br \/>\n    ao ato sexual. Todas as men&ccedil;&otilde;es que fazem caracterizam-se pelas<br \/>\n    ora&ccedil;&otilde;es incompletas, abruptamente cortadas em sua parte final,<br \/>\n    ou seja, no explicitar. N&atilde;o se trata do eufemismo, que, algumas vezes,<br \/>\n    se movimenta na esfera l&iacute;rica, mas da mutila&ccedil;&atilde;o da id&eacute;ia<br \/>\n    a ser comunicada. O Narrador, moralista, est&aacute;, nesses momentos, t&atilde;o<br \/>\n    assustado quanto suas personagens com a transgress&atilde;o da moral estabelecida.<br \/>\n    Assemelha-se a uma comadre preconceituosa (e n&atilde;o menos voluptuosa em<br \/>\n    seu recalcar&#8230;). Os exemplos se sucedem: Carlos consigo pr&oacute;prio (narrador<br \/>\n    &quot;com&quot;), temendo voltar &agrave; biblioteca para a aula: &quot;Por&eacute;m,<br \/>\n    passar uma hora juntinhos, depois de!&#8230; que horror!&quot; (p. 91). Narrador:<br \/>\n    &quot;Bem que ela desconfiara, na primeira noite, que Carlos j&aacute; conhecia<br \/>\n    o.&#8217; (p. 92). Sousa Costa e suas aventuras extra-conjugais: &quot;Se lhe telefonassem<br \/>\n    do clube, avisando que (p. 101), Narrador: &quot;Amoleciam os bra&ccedil;os<br \/>\n    dela pra o enlace e.&quot; (p.105); &quot;Carlos entrara no quarto de Fr&auml;ulein.<br \/>\n    Mal tivera tempo de.&quot; (p. 121); &quot;N&atilde;o sabe que Fr&auml;ulein<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; a governanta alem&atilde; que.&quot; (p. 129); Narrador<br \/>\n    e Carlos fundidos: &quot;Severamente reprimia envergonhado a tend&ecirc;ncia<br \/>\n    para as torpezas e procurava de novo a pr&oacute;pria tristura, buscando no<br \/>\n    quarto andar aquela Fr&auml;ulein que&#8230; j&aacute; muita coisa de convencional<br \/>\n    nessa tristura.&quot; (p. 132). Como se pode ver, &eacute; bem maior a incid&ecirc;ncia<br \/>\n    do ponto final, censura t&aacute;cita, mais pesada que as retic&ecirc;ncias.<\/p>\n<h4><a name=\"5\" id=\"5\">Brunilda S&eacute;culo XX<\/a><\/h4>\n<p>Estudando Macuna&iacute;ma, Gilda de Mello e Souza mostrou como a cria&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    liter&aacute;ria de M&aacute;rio de Andrade adota processos compositivos musicais:<br \/>\n    a su&iacute;te e a varia&ccedil;&atilde;o. A po&eacute;tica de M&aacute;rio<br \/>\n    foi, nos primeiros anos modernistas, por ele mesmo colocada no &quot;Pref&aacute;cio<br \/>\n    interessant&iacute;ssimo&quot; de Paulic&eacute;ia desvairada definindo a<br \/>\n    polifonia po&eacute;tica, que, atrav&eacute;s dos versos harm&ocirc;nicos<br \/>\n    e mel&oacute;dicos proporciona seq&uuml;&ecirc;ncias abertas de id&eacute;ias,<br \/>\n    sons e imagens jogados no ar&#8217; vibrando, dialogando, contrapondo duas ou mais<br \/>\n    vozes. Em Paulic&eacute;ia desvairada est&aacute; o orat&oacute;rio profano<br \/>\n    &quot;As enfibraturas do Ipiranga&quot;, onde, atrav&eacute;s da polifonia<br \/>\n    po&eacute;tica, o poeta traz a discuss&atilde;o, em v&aacute;rias vozes, sobre<br \/>\n    a poesia moderna. Depois, nos poemas de Cl&atilde; do Jaboti, compostos em<br \/>\n    sua maioria entre 1924-25, lan&ccedil;a m&atilde;o de estruturas musicais<br \/>\n    populares: a toada, a moda de viola, o romance. Mais tarde, bem mais tarde,<br \/>\n    tentar&aacute; o libreto de &oacute;pera em Caf&eacute;. Na fic&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    buscou classifica&ccedil;&otilde;es musicais: chamou o conto de &quot;intermezzo&quot;,<br \/>\n    Macuna&iacute;ma de &quot;esquerzo&quot;, &quot;romance&quot; e finalmente,<br \/>\n    &quot;raps&oacute;dia&quot;. M&aacute;rio, bom moderno e modernista, conhecedor<br \/>\n    das vanguardas, acreditava na uni&atilde;o das artes e, nessa dire&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    procurou harmonizar dois objetos de seu interesse &#8212; a literatura e a<br \/>\n    m&uacute;sica. Em, Amar, verbo intransitivo a m&uacute;sica tamb&eacute;m<br \/>\n    est&aacute; presente, contribuindo para estruturar a narrativa e a cria&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de personagens e situa&ccedil;&otilde;es. A m&uacute;sica de Wagner &eacute;<br \/>\n    um ponto chave que se revela no arcabou&ccedil;o do texto.<\/p>\n<p> Na biblioteca de M&aacute;rio de Andrade est&aacute; uma complet&iacute;ssima<br \/>\n    (para sua &eacute;poca) wagneriana: edi&ccedil;&otilde;es preciosas de partituras<br \/>\n    do g&ecirc;nio de Bayreuth, libretos, cartas, biografia, a fortuna cr&iacute;tica.<br \/>\n    J&aacute; observei que o romance &eacute; constru&iacute;do pelas cenas que<br \/>\n    dialogam ou se contrap&otilde;em &agrave;s digress&otilde;es do Narrador.<br \/>\n    E fiz a liga&ccedil;&atilde;o de recursos do livro a recursos cinematogr&aacute;ficos<br \/>\n    que se lhe assemelham. Agora &eacute; a vez de se parar um pouco sobre os<br \/>\n    elementos ficcionais e musicais wagnerianos do texto. Sabe-se bem, a esta<br \/>\n    altura, que Fr&auml;ulein, hero&iacute;na de romance dos tempos modernos,<br \/>\n    se for lembrado L. Goldmann, est&aacute; empenhada em uma busca degradada,<br \/>\n    incapaz de amenizar sua irremedi&aacute;vel clivagem; n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    o her&oacute;i &eacute;pico cuja harmonia, unidade, eram recuperadas, gra&ccedil;as<br \/>\n    a sua decis&atilde;o, contando com a ajuda dos deuses&#8230; Fr&auml;ulein tem<br \/>\n    suas manifesta&ccedil;&otilde;es de homem-do-sonho, seus impulsos de deus<br \/>\n    encarcerado, sob o signo de Wagner, o compositor t&atilde;o valorizado por<br \/>\n    Nietzsche, pelos expressionistas, o criador do pathos grandioso e do drama<br \/>\n    l&iacute;rico. A classifica&ccedil;&atilde;o &quot;id&iacute;lio&quot; ligada<br \/>\n    a aspectos da &oacute;pera Siegfried de Wagner, ultrapassa o momento em que<br \/>\n    aparece &#8212; o segundo devaneio da professora. Simult&acirc;nea e alternadamente<br \/>\n    teorizando sobre o amor &agrave; alem&atilde; e dando asas a seu sonho de<br \/>\n    amor, orquestrando obviamente a oposi&ccedil;&atilde;o homem-do-sonho x homem-da-vida,<br \/>\n    Fr&auml;ulein tenta uma concilia&ccedil;&atilde;o: Wagner e programa para<br \/>\n    uma noite na &oacute;pera. E &quot;Brahms&quot;, men&ccedil;&atilde;o pura<br \/>\n    e simples, telegr&aacute;fica, seguida de frase destacando seus atributos<br \/>\n    de grandeza, profundidade seriedade&#8230; Brahms, t&atilde;o conhecido pelo sentimento,<br \/>\n    cede lugar, na mente que divaga, ao coro alem&atilde;o, concluindo o que j&aacute;<br \/>\n    conhecemos: mais verdade pr&aacute;tica e menos Wagner, porque &quot;o servi&ccedil;o<br \/>\n    dela s&oacute; entende da forma&ccedil;&atilde;o de homens&quot;&#8230; homens-da-vida,<br \/>\n    pode-se completar. Pois bem: no devaneio seguinte Fr&auml;ulein constr&oacute;i<br \/>\n    seu programa de concerto para a Filarm&ocirc;nica: a Pastoral (&quot;Que bom.&quot;),<br \/>\n    seguida de Strauss (Richard?), Mascagni e Wagner; pergunta-se ent&atilde;o,<br \/>\n    perplexa: &quot;E de Wagner? Siegfried-Idill e G&ouml;tterd&auml;mmerung.<br \/>\n    Siegfried-Idill? Siegfried-Idill. Ah! podiam dar a Her&oacute;ica&#8230; J&aacute;<br \/>\n    ouvimos cinco vezes a Pastoral, este ano&#8230; Podiam levar a Her&oacute;ica&#8230;<br \/>\n    Mas a Her&oacute;ica&#8230; Napole&atilde;o&#8230; Em todo caso a gente n&atilde;o<br \/>\n    pode negar: Napole&atilde;o foi um grande general&#8230; Morreu preso em Santa<br \/>\n    Helena.&quot; (p. 56). Triste &eacute; o destino dos her&oacute;is, assusta<br \/>\n    e faz emergir o prosaico. O sonho alto de Fr&auml;ulein desce em crep&uacute;sculo.<br \/>\n    Significativa &eacute; a refer&ecirc;ncia ao Id&iacute;lio de Siegfried, pe&ccedil;a<br \/>\n    de c&acirc;mera que, al&eacute;m de ser oriunda de um dos momentos mais intensos<br \/>\n    de explora&ccedil;&atilde;o do sentimento amoroso na &oacute;pera &#8212;<br \/>\n    Siegfried busca a mem&oacute;ria de Siglinda e acorda a amada, Brunilda, de<br \/>\n    seu sonho maravilhoso &#8212; &eacute; um lind&iacute;ssimo canto de amor.<br \/>\n    Composto em 1870, 13 anos depois da &oacute;pera, o id&iacute;lio, que tem<br \/>\n    como leit-motif o tema de Siegfried, foi dedicado por Wagner a C&oacute;sima,<br \/>\n    sua mulher; &eacute; uma pe&ccedil;a delicada, capaz de conter a tranq&uuml;ilidade<br \/>\n    pastoril, a can&ccedil;&atilde;o de ninar, sem banir, por&eacute;m as notas<br \/>\n    de paix&atilde;o na trompa que repete o tema estruturador. 24 Assim, o id&iacute;lio<br \/>\n    vale para Fr&auml;ulein como o romance de amor &#8212; do jovem Siegfried<br \/>\n    &#8212; curiosamente acompanhado pela men&ccedil;&atilde;o ao Crep&uacute;sculo<br \/>\n    dos deuses, quando estes perdem sua invulnerabilidade e a condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    humana determina o rompimento do par amoroso. Mas, se em Wagner a valqu&iacute;ria<br \/>\n    Brunilda possui a for&ccedil;a de uma personagem de trag&eacute;dia cl&aacute;ssica,<br \/>\n    acompanhando Siegfried na morte, &agrave; Fr&auml;ulein-Brunilda restar&aacute;<br \/>\n    achatar o her&oacute;ico at&eacute; o prosaico e prosseguir, alimentando sua<br \/>\n    &quot;fraqueza&quot; e seu sonho.<\/p>\n<p> A men&ccedil;&atilde;o ao Id&iacute;lio de Siegfried &eacute; uma pista<br \/>\n    preciosa, casando-se com outras men&ccedil;&otilde;es a personagens de Wagner<br \/>\n    disseminadas pela narrativa, aproximando Fr&auml;ulein a Brunilda e a Hans<br \/>\n    Sachs. O Siegfried-Idill no programa da Filarm&ocirc;nica significa, naquele<br \/>\n    instante, a presen&ccedil;a do sentimento amoroso no idealizado programa de<br \/>\n    vida; o lirismo, a ternura, a confiss&atilde;o apaixonada mesclando-se &agrave;s<br \/>\n    aspira&ccedil;&otilde;es t&atilde;o concretas do homem-da-vida. Mas, o romance<br \/>\n    n&atilde;o ser&aacute; um Siegfried-Idill, pois o entrecho n&atilde;o pretende<br \/>\n    recriar uma grandiosidade &agrave; Wagner, a n&atilde;o ser em um &uacute;nico<br \/>\n    momento, o momento m&aacute;ximo de Fr&auml;ulein, personagem expressionista<br \/>\n    entregue totalmente a seus impulsos, sensa&ccedil;&otilde;es e sentimentos<br \/>\n    mais rec&ocirc;nditos &#8212; a cena do grito. Munch, Nietzsche, Wagner unidos.<br \/>\n    Ali, no passeio &agrave; floresta da Tijuca, Fr&auml;ulein comunga com a natureza,<br \/>\n    arrebatadamente, livrando-se de suas peias de compostura e racionalismo. Vai<br \/>\n    descobrindo no espa&ccedil;o entidades mitol&oacute;gicas vindas de suas leituras<br \/>\n    Alberico avan&ccedil;a para seu colo a &quot;m&atilde;o de um cacto&quot;<br \/>\n    e das &aacute;guas surge o monstro que conheceu em Hauptmann; Wagner, vinculado<br \/>\n    ao expressionismo proporciona a associa&ccedil;&atilde;o da hero&iacute;na<br \/>\n    de Amar, verbo intransitivo a Brunilda cercada pelo fogo. Associa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que o Narrador faz clara e diretamente. Loge, contudo n&atilde;o deve velar<br \/>\n    o sono da valqu&iacute;ria que perdeu a imortalidade; dever&aacute; ao contr&aacute;rio,<br \/>\n    anular o homem-da-vida, provocando o despertar de Fr&auml;ulein breve mas<br \/>\n    intens&iacute;ssimo, conferindo-lhe um modo de ver e de se expressar totalmente<br \/>\n    expressionista. Assim como a professora alem&atilde;, a natureza est&aacute;<br \/>\n    crispada contorcida como num quadro de Soutine:<\/p>\n<p> &quot;Numa das voltas, olhando para tr&aacute;s, viu a montanha curvada,<br \/>\n    com o sol lhe mordendo as ilhargas. Era Loge, deus do inc&ecirc;ndio&#8230; as<br \/>\n    montanhas assustadas, grimpando os itatins com gestos de socorro, contorcidas.<br \/>\n    Loge perseguia as medrosas, lambido de chamas, trinando. Fr&auml;ulein escutou<br \/>\n    um xilofone, o tema conhecido. E o encantamento do fogo principiou para Brunilda.&quot;<br \/>\n    (p. 110). Tema do sono de Brunilda: sono &#8211; parada do homem-da-vida e sono<br \/>\n    = encantamento, liberta&ccedil;&atilde;o do homem-do-sonho. Fr&auml;ulein<br \/>\n    est&aacute; apta, conseq&uuml;entemente, para manifestar sua &acirc;nsia,<br \/>\n    sua paix&atilde;o, primitivamente: o grito.<\/p>\n<p> Wagner &eacute; um dos p&oacute;los de Fr&auml;ulein; calejada conhecedora<br \/>\n    do desamor, &eacute; hero&iacute;na em cujo comportamento repercutem notas<br \/>\n    de Siegfried e dos G&ouml;tter-dammerung25<\/p>\n<p> Reacende sempre sua chama no potencial de amor que o jovem possui; n&atilde;o<br \/>\n    o amor ligado a conven&ccedil;&otilde;es alem&atilde;s como o marido burgu&ecirc;s<br \/>\n    sonhado, mas o amor completo &#8212; ternura e paix&atilde;o, intenso &#8212;<br \/>\n    e ef&ecirc;mero &#8212; como o de Siegfried por Brunilda. Carlos machucador<br \/>\n    &eacute; visto com indulg&ecirc;ncia por Fr&auml;ulein que valoriza sua &quot;serena<br \/>\n    for&ccedil;a&quot;, &quot;so einfach, nem vaidades nem complica&ccedil;&otilde;es&#8230;<br \/>\n    atraente.&quot; (p. 51). Afastando-se, de costas, &eacute; um jovem Siegfried,<br \/>\n    &quot;Vitorioso, sereno.&quot; (p. 60). Entretanto, seu Siegfried brasileiro<br \/>\n    n&atilde;o ir&aacute; acord&aacute;-la cheio de &ecirc;xtase e emo&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    como o filho de Siglinda: &quot; &#8212; Erwache! Erwache! Heiliges Weib!&quot;.26<br \/>\n    &Eacute; aquele que se embara&ccedil;a com o poema, que se comove pensando<br \/>\n    na amada, mas que dorme, perdendo a hora do primeiro encontro, para depois<br \/>\n    bater, impetuoso e autorit&aacute;rio, at&eacute; a porta do quarto de Fr&auml;ulein<br \/>\n    se abrir. A governanta, machucada em seus sentimentos ou &quot;deliciosamente<br \/>\n    batida&quot;, vai sucumbindo ao ass&eacute;dio de Carlos, ass&eacute;dio que<br \/>\n    profissionalmente provoca e deseja. Por&eacute;m, no momento em que consente<br \/>\n    no encontro noturno pondo fim &agrave; etapa namoro, sai &quot;furiosa da<br \/>\n    biblioteca, uma raiva de Carlos, dos homens, de ser mulher&#8230;&quot; (p. 82).<br \/>\n    Assemelha-se assim &agrave; Brunilda zangada consigo pr&oacute;pria e com<br \/>\n    seu destino de mulher: n&atilde;o era mais a valqu&iacute;ria que cavalgava<br \/>\n    livre nas alturas, mas a mortal que pertencia a um homem, Siegfried. Pode-se<br \/>\n    ainda ligar Carlos a Siegfried quando este, no primeiro ato da &oacute;pera<br \/>\n    que leva seu nome, &eacute; um machucador folgaz&atilde;o e irreverente; mais<br \/>\n    tarde ser&aacute; o machucador dos sentimentos de Brunilda. 27<\/p>\n<p> No Crep&uacute;sculo dos deuses Brunilda deixa-se ficar &agrave; espera<br \/>\n    do companheiro que parte em busca de aventuras; transmitiu-lhe tudo o que<br \/>\n    sabe e lhe deu seu cavalo. Valqu&iacute;ria castigada, deve aprender a renunciar<br \/>\n    e ser a mulher machucada, rejeitada e sofrida, sem poder protestar, pois est&aacute;<br \/>\n    no mundo do poder masculino. Fr&auml;ulein ensina a Carlos a necessidade da<br \/>\n    separa&ccedil;&atilde;o, a ren&uacute;ncia de Hermann e Dorot&eacute;ia e<br \/>\n    deve suportar, inclusive, ver sua pedagogia aviltada, tendo que calar os escr&uacute;pulos<br \/>\n    quanto &agrave; legitimidade do pagamento combinado, conservando &quot;sempre<br \/>\n    pelos anos, a sensa&ccedil;&atilde;o logo vencida mas imortal de que tinham<br \/>\n    lhe passado a perna.&quot; (p. 93). No motivo ren&uacute;ncia do amor, Brunilda<br \/>\n    se apazigua, tornando-se o Hans Sachs dos Mestres cantores, o poeta sapateiro<br \/>\n    que tamb&eacute;m ama o mais jovem, mas, cuja juventude e beleza n&atilde;o<br \/>\n    estacionaram &agrave; espera do amor. Sachs renuncia &agrave; m&atilde;o de<br \/>\n    Eva e age em nome do amor e da generosidade, auxiliando seu rival. Em Amar,<br \/>\n    verbo intransitivo, Sachs &eacute; a op&ccedil;&atilde;o do bom-senso, a nega&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de si enquanto regra, confundindo homem-do-sonho e homem-da-vida. Sua figura<br \/>\n    leva o Narrador &agrave; importante conclus&atilde;o: Fr&auml;ulein tamb&eacute;m<br \/>\n    havia renunciado a se conhecer em maior profundidade, resignando-se a ir vivendo<br \/>\n    como sabia: &quot;Era verbo ser.&quot; (p. 93). Verbo de liga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao lado do verbo intransitivo, pode-se concluir.<\/p>\n<p> Se o recurso da cena estruturando o romance faz pensar em cinema, pode tamb&eacute;m<br \/>\n    quando vinculado &agrave; m&uacute;sica, fazer pensar em &oacute;pera. Amar,<br \/>\n    verbo intransitivo possui tr&ecirc;s leitmotiv bem n&iacute;tidos: Carlos<br \/>\n    homem, centro das preocupa&ccedil;&otilde;es das mulheres de sua casa; Carlos<br \/>\n    machucador e as mulheres, todas derreadas, machucadas, entregues, batidas.<br \/>\n    Carlos &eacute; o machucador que estraga tudo; sua capacidade de conturbar<br \/>\n    e machucar &eacute; reiterada pelo Narrador e pelas personagens com quem contracena,<br \/>\n    constituindo dois refr&atilde;os (motivos recorrentes):&quot; &#8212; Mam&atilde;e!<br \/>\n    Mam&atilde;e! Olhe Carlos!&quot; e &quot;Machucador apenas.&quot;, com variantes.<br \/>\n    O primeiro, como se viu, ganha maior destaque aparecendo at&eacute; mesmo<br \/>\n    isolado, com valor de cena; musicalmente, se quisermos, ser&aacute; o &quot;tema&quot;<br \/>\n    de Carlos; combinado com o segundo, seu coment&aacute;rio. Fica interessante<br \/>\n    ent&atilde;o lembrar que os cr&iacute;ticos de Wagner informam que seu leit-motif<br \/>\n    &eacute; sempre curto e simples, f&aacute;cil de ser memorizado ou reconhecido.<br \/>\n    Al&eacute;m disso, M&aacute;rio de Andrade em seu Comp&ecirc;ndio de Hist&oacute;ria<br \/>\n    da M&uacute;sica considera que o motivo condutor (traduz) possui um valor<br \/>\n    dram&aacute;tico l&oacute;gico, sendo, ao mesmo tempo c&eacute;lula tem&aacute;tica<br \/>\n    da constru&ccedil;&atilde;o sinf&ocirc;nica. Substitu&iacute;da &quot;constru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sinf&ocirc;nica&quot; por &quot;estrutura da narrativa&quot; vemos que os<br \/>\n    motivos homem dono, centro e machucador &#8212; mulher submetida, balida se<br \/>\n    contrap&otilde;em, tecendo a trama.<\/p>\n<p> A liga&ccedil;&atilde;o do romance com a m&uacute;sica est&aacute; no projeto<br \/>\n    do Narrador que vai nos oferecer, muitas vezes, o andamento, o compasso da<br \/>\n    cena que est&aacute; registrando, como se pusesse nas m&atilde;os do leitor,<br \/>\n    n&atilde;o a partitura, mas o libreto de uma &oacute;pera de Wagner que completa<br \/>\n    o texto com o movimento musical. Assim, fornece a cena liter&aacute;ria musicalmente,<br \/>\n    e em alem&atilde;o! Um bom exemplo est&aacute; no devaneio musical de Fr&auml;ulein<br \/>\n    que une Max Reger a um lied de K&ouml;rner, cantiga de ninar, onde o esclarecimento<br \/>\n    &quot;Langsam (1).&quot; &eacute; acompanhado de nota de rodap&eacute;: &quot;Lento.<br \/>\n    (Aqui o termo vem tomado no sentido de movimento musical).&quot; (p. 65).<br \/>\n    Como se v&ecirc;, a presen&ccedil;a de elementos musicais enriquece a fic&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Naquela hora, por for&ccedil;a da cantiga de ninar e da id&eacute;ia de plenitude<br \/>\n    na natureza fica-se pensando novamente no Id&iacute;lio de Siegfried, a pe&ccedil;a<br \/>\n    de c&acirc;mara.<\/p>\n<p> Para o Narrador &eacute; importante criar, ao lado da imagem f&iacute;sica<br \/>\n    e psicol&oacute;gica de cada personagem, sua imagem sonora. As vozes tornam-se<br \/>\n    ent&atilde;o instrumentos: gaita desafinada, xilofone, berimbau, guizos, clave<br \/>\n    de f&aacute;, flautim; as onomatop&eacute;ias s&atilde;o in&uacute;meras.<br \/>\n    Ecos dos barulhadores de Russolo? A verdade &eacute; que, se, por um lado,<br \/>\n    tem-se um Narrador erudito, derramando teorias, por outro, recebe-se um texto<br \/>\n    que se concretiza visual e sonoramente, que transmite, recupera sensa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    narrativa nova, moderna.<\/p>\n<h4><a name=\"6\" id=\"6\">Escrever Brasileiro<\/a><\/h4>\n<p>Amar, verbo intransitivo possu&iacute;a originalmente um posf&aacute;cio<br \/>\n    tratando, sobretudo, do emprego da l&iacute;ngua portuguesa no romance. 28<br \/>\n    O autor, por&eacute;m, preferiu deix&aacute;-lo in&eacute;dito, discutindo<br \/>\n    o assunto apenas com seus companheiros modernistas. Estes, quando da publica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do id&iacute;lio, ante a avalanche de censuras ao desrespeito do autor para<br \/>\n    com a gram&aacute;tica, possu&iacute;am bons argumentos para defender publicamente<br \/>\n    o amigo, valorizando sua pesquisa e seu pioneirismo, atribuindo-lhe inclusive<br \/>\n    um papel equivalente ao de Dante. 29 Entendiam e aceitavam o projeto ling&uuml;&iacute;stico<br \/>\n    de M&aacute;rio de Andrade que viabilizava, concretizava propostas est&eacute;ticas<br \/>\n    e ideol&oacute;gicas da fac&ccedil;&atilde;o de nosso modernismo voltada para<br \/>\n    o nacionalismo mais cr&iacute;tico em suas inten&ccedil;&otilde;es. M&aacute;rio<br \/>\n    na d&eacute;cada de 20 principalmente a partir de 1923, est&aacute; empenhad&iacute;ssimo<br \/>\n    em pesquisar e empregar a l&iacute;ngua portuguesa tal como ela se configura<br \/>\n    no Brasil, vendo-a como um organismo vivo, din&acirc;mico, recebendo, por<br \/>\n    parte do povo, constantes modifica&ccedil;&otilde;es. N&atilde;o pretende<br \/>\n    reagir contra Portugal, mas, &quot;agir, o que &eacute; mais nobre, estudando,<br \/>\n    recolhendo material, experimentando.&quot;30 Usa a express&atilde;o &quot;l&iacute;ngua<br \/>\n    brasileira&quot; na acep&ccedil;&atilde;o de &quot;fala&quot;, conscientemente,<br \/>\n    tanto que sua sistematizar&atilde;o dos fen&ocirc;menos observados destina-se<br \/>\n    a uma Gramatiquinha da fala brasileira. Incursiona pela fala do povo, observa<br \/>\n    a comunica&ccedil;&atilde;o verbal do dia a dia, e, ao mesmo tempo, vai retirando<br \/>\n    da fic&ccedil;&atilde;o brasileira todas as ocorr&ecirc;ncias que lhe parecem<br \/>\n    dignas de registro: regionalismos, vulgarismos, idiotismos, g&iacute;ria,<br \/>\n    sintaxe pouco ortodoxa, etc, etc. Vai construindo seu cabedal; passa os dados<br \/>\n    para fichas, anota os livros que l&ecirc;. 31 Seu estudo visa o conhecimento<br \/>\n    da identidade nacional, pois est&aacute; dentro da an&aacute;lise que faz<br \/>\n    de nossa particularidade de povo brasileiro. Al&eacute;m disso, serve para<br \/>\n    municiar o artista, alicer&ccedil;ando sua constru&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria<br \/>\n    brasileira. Em 1923, com Belazarte (&quot;O besouro e a rosa&quot;) nasce<br \/>\n    o narrador brasileiro &quot;desgeograficado&quot; de M&aacute;rio de Andrade,<br \/>\n    aquele em cuja voz est&atilde;o sendo reunidas e misturadas particularidades<br \/>\n    do falar de todos os rinc&otilde;es do pa&iacute;s. A gram&aacute;tica portuguesa<br \/>\n    n&atilde;o comanda o escritor; sua linguagem est&aacute; determinada por seu<br \/>\n    projeto liter&aacute;rio que engloba naturalmente o projeto est&eacute;tico<br \/>\n    e o ideol&oacute;gico do modernista: a constru&ccedil;&atilde;o de uma arte<br \/>\n    nacional, capaz de se al&ccedil;ar, ainda que um dia, ao universal, traduzindo,<br \/>\n    tocando verdades humanas. M&aacute;rio foi fiel a ele pr&oacute;prio, &agrave;<br \/>\n    sua cria&ccedil;&atilde;o; fez como o expressionista Lothar Schreyer. &quot;A<br \/>\n    obra liter&aacute;ria n&atilde;o pode respeitar a gram&aacute;tica&quot;;<br \/>\n    seguiu sua Gramatiquinha&#8230;<\/p>\n<p> Escrevendo a Manuel Bandeira em outubro de 1924, provavelmente quando do<br \/>\n    t&eacute;rmino da primeira reda&ccedil;&atilde;o de Amar, verbo intransitivo,<br \/>\n    M&aacute;rio de Andrade d&aacute; uma boa s&iacute;ntese de seu projeto, ressaltando<br \/>\n    sua op&ccedil;&atilde;o: &quot;O livro &eacute; uma mistura incr&iacute;vel.<br \/>\n    Tem tudo l&aacute; dentro. Cr&iacute;tica, teoria, psicologia e at&eacute;<br \/>\n    romance: sou eu. E eu pesquisador. Pronomes obl&iacute;quos come&ccedil;ando<br \/>\n    a frase, &#8216;mandei ela&#8217; e coisas assim, n&atilde;o na boca de personagens, mas<br \/>\n    na minha direta pena. Fugi do sistema portugu&ecirc;s. Que me importa que<br \/>\n    o livro seja falho. Meu destino n&atilde;o &eacute; ficar. Meu destino &eacute;<br \/>\n    lembrar que existem mais coisas que as vistas e ouvidas por todos. Se conseguir<br \/>\n    que se escreva brasileiro sem por isso ser caipira mas sistematizando erros<br \/>\n    di&aacute;rios de conversa&ccedil;&atilde;o, idiotismos brasileiros e sobretudo<br \/>\n    psicologia brasileira, j&aacute; cumpri o meu destino. Que me importa ser<br \/>\n    louvado em 1985? O que eu quero &eacute; viver a minha vida e ser louvado<br \/>\n    por mim nas noites antes de dormir. Da&iacute;: Fr&auml;ulein. Confesso-te<br \/>\n    que sou feliz.&quot; 32 Como se v&ecirc;, para o ficcionista que busca a psique<br \/>\n    brasileira, a base &eacute; a l&iacute;ngua falada, o que n&atilde;o coloca<br \/>\n    apenas a id&eacute;ia de arte ligada &agrave; vida, como a id&eacute;ia de<br \/>\n    som, de texto atento para a sonoridade (a a&ccedil;&atilde;o ideomotora da<br \/>\n    leitura e os v&iacute;nculos de M&aacute;rio com a m&uacute;sica). No posf&aacute;cio<br \/>\n    in&eacute;dito afirma que a l&iacute;ngua utilizada &quot;veio escutar uma<br \/>\n    melodia nova&quot; e no id&iacute;lio, o Narrador avisa: &quot;estou falando<br \/>\n    brasileiro.&quot; (grifei). Este Narrador pertence, de fato, &agrave; fam&iacute;lia:<br \/>\n    est&aacute; com Belazarte que emprega &quot;brasileirismos&quot;, com o poeta<br \/>\n    de Cl&atilde; do Jaboti e com o rapsodo de Macuna&iacute;ma, cantador ponteando<br \/>\n    na violinha, &quot;cantando na fala impura&quot;. Sua express&atilde;o acolheu<br \/>\n    a sintaxe e a pros&oacute;dia institu&iacute;das pela pr&aacute;tica popular.<br \/>\n    Seu vocabul&aacute;rio &eacute; riqu&iacute;ssimo, multif&aacute;rio, reunindo,<br \/>\n    desgeograficando (misturando e permutando elementos das diferentes regi&otilde;es),<br \/>\n    buscando o falar do Brasil inteiro rural e urbano, &aacute;rea culta e &aacute;rea-popular.<br \/>\n    Modismos e chav&otilde;es verbais, galicismos coma &#8216;ardido&quot; (ousado),<br \/>\n    italianismo como &quot;meia medrosa&quot;, g&iacute;ria como &quot;chu&eacute;&quot;<br \/>\n    &quot;encafifou&quot;, vulgarismos e regionalismos &#8212; para o autor &quot;brasileirismos&quot;<br \/>\n    &#8212; em profus&atilde;o (contando com os arca&iacute;smos): &quot;desinfeliz&quot;,<br \/>\n    &quot;assuntou&quot;, &quot;espaventa&quot;, &quot;pira&ccedil;unungava&quot;,<br \/>\n    &quot;tapejara&quot;, &quot;g&acirc;mbias&quot;, &quot;ingranz&eacute;u&quot;,<br \/>\n    &quot;cunh&atilde;s&quot;, &quot;pussanga&quot;, para lembrar poucos. Pleonasmos<br \/>\n    (&quot;maus piores&quot;), pronome obl&iacute;quo iniciando per&iacute;odo.<br \/>\n    E at&eacute; o erro generalizado, como &quot;trigres&quot;. O Narrador da<br \/>\n    hist&oacute;ria de Fr&auml;ulein &eacute; bem o precursor do rapsodo de Macuna&iacute;ma<br \/>\n    acolhendo a intensidade verbal, a duplica&ccedil;&atilde;o do verbo (&quot;brincabrincando&quot;,<br \/>\n    &quot;queimaqueimando&quot;, &quot;chorachorando&quot;). Como Werfel, rompeu<br \/>\n    o m&aacute;rmore de sua forma; rasgou os c&acirc;nones, quis chegar no povo.<br \/>\n    Det&eacute;m-se no urbano, na classe dominante, lan&ccedil;ando m&atilde;o,<br \/>\n    por&eacute;m, de palavras oriundas de regi&otilde;es distantes, primitivas,<br \/>\n    porque luta para se livrar do modo de ver convencional, da m&aacute; consci&ecirc;ncia,<br \/>\n    das racionaliza&ccedil;&otilde;es. Cria deliberadamente contrastes entre o<br \/>\n    vocabul&aacute;rio e a cena descrita, como na apresenta&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    grupo familiar burgu&ecirc;s, est&aacute;tico, fotografia: a m&atilde;e com<br \/>\n    a &quot;fam&iacute;lia&quot; (filho) menor, o pai e os &quot;barrigudinhos&quot;<br \/>\n    (os outros filhos) em torno (p. 46). A primeira vista, os brasileirismos,<br \/>\n    ambos de regi&otilde;es economicamente desprivilegiadas do Brasil, Norte e<br \/>\n    Nordeste, parecem uma incoer&ecirc;ncia, um exagero do Narrador em seu desejo<br \/>\n    de ser brasileiro. Depois, entende-se que a linguagem aparentemente descabida<br \/>\n    est&aacute;, de fato, sobrepondo indiretamente uma outra cena, uma outra realidade,<br \/>\n    a daqueles que n&atilde;o tiram fotografia familiar&#8230; O Narrador de Amar,<br \/>\n    verbo intransitivo _&eacute;, quanto &agrave; linguagem, um alter ego de M&aacute;rio<br \/>\n    de Andrade; pesquisador, dono de s&oacute;lida cultura, tentando ser solid&aacute;rio<br \/>\n    com a voz popular, unir as dist&acirc;ncias entre o popular e o erudito. Os<br \/>\n    chav&otilde;es, o vocabul&aacute;rio do cotidiano da cidade ou do cotidiano<br \/>\n    rural e mesmo da selva, ligados a termos do discurso culto, at&eacute; sofisticado<br \/>\n    (com e sem par&oacute;dia), decalcam muito vivamente, ao lado da pesquisa<br \/>\n    ling&uuml;&iacute;stica, uma alt&iacute;ssima consci&ecirc;ncia estil&iacute;stica.<br \/>\n    Nada &eacute; gratuito, ornamental; tudo serve aos prop&oacute;sitos liter&aacute;rios<br \/>\n    do texto. Assim, por exemplo, &eacute; o humor nascendo da aproxima&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos contrastes quando &quot;cuit&eacute;&quot; (cuia no Nordeste) e &quot;mon&acirc;da-sensitiva&quot;<br \/>\n    (express&atilde;o de Leibnitz) servem para compor a grotesca figura do novo-rico<br \/>\n    Sousa Costa, e convivem com &quot;graxa&quot;, &quot;cheiro&quot; (por perfume),<br \/>\n    &quot;femeeiro&#8221;, palavras do universo da classe baixa. Citando: &quot;Ali&aacute;s,<br \/>\n    todo ele era um cuit&eacute; de brilhantinas simb&oacute;licas, uma graxa,<br \/>\n    m&ocirc;nada sensitiva e cuidadoso de sua pessoa.N&atilde;o esquecia nunca<br \/>\n    o cheiro no len&ccedil;o. Vinha de portugueses. Perfeitamente. E de Cam&otilde;es<br \/>\n    herdara ser femeeiro irredut&iacute;vel&quot; (p. 47). Completam-se no chav&atilde;o<br \/>\n    verbal, &#8212; incorporado com inten&ccedil;&atilde;o de par&oacute;dia.<br \/>\n    &quot;Perfeitamente&quot;, isolado como est&aacute;, arremeda cacoete verbal<br \/>\n    do portugu&ecirc;s, d&aacute; espa&ccedil;o para a voz da personagem, &#8212;<br \/>\n    polifoniza. H&aacute; realmente muito que estudar no tocante &agrave; linguagem<br \/>\n    de Amar, verbo intransitivo, trabalho para especialista da &aacute;rea, trabalho<br \/>\n    de f&ocirc;lego urgente e necess&aacute;rio. Deve ser feito levando em conta<br \/>\n    o estilo, modern&iacute;ssimo na obra, buscando nas pegadas do futurismo liter&aacute;rio,<br \/>\n    qualificar sem o adjetivo, por meio de substantivos bem brasileiros.<\/p>\n<h4><a name=\"7\" id=\"7\">Amar, Verbo Transitivo: M&aacute;rio e a Cultura Alem&atilde;<\/a><\/h4>\n<p>Pode-se supor que a exposi&ccedil;&atilde;o de Anita Malfatti em 1917, que<br \/>\n    mostrou possibilidade de novos caminhos tamb&eacute;m para os jovens escritores<br \/>\n    saturados com o parnasianismo, tenha levado M&aacute;rio de Andrade a se interessar<br \/>\n    pelas vanguardas europ&eacute;ias e, conseq&uuml;entemente, a procurar aprender<br \/>\n    a l&iacute;ngua alem&atilde; para conhecer o expressionismo, sua arte, sua<br \/>\n    literatura. Em &quot;Teutos, mas m&uacute;sicos&quot; trata de seus estudos<br \/>\n    de alem&atilde;o, oferecendo dados que ajudam a situar a hero&iacute;na de<br \/>\n    Amar, verbo intransitivo. Pelo que conta, seus professores foram tr&ecirc;s<br \/>\n    e a data do in&iacute;cio do estudo &#8212; data de que n&atilde;o se lembra<br \/>\n    muito bem &#8212; 1922. Segundo o escritor, sua primeira professora foi uma<br \/>\n    &quot;senhora musical&iacute;ssima&quot;, casada com um organista; atrav&eacute;s<br \/>\n    dela entrara em contato com uma &quot;vast&iacute;ssima literatura musical&quot;.33<br \/>\n    A segunda, mo&ccedil;a rec&eacute;m-chegada ao Brasil havia decorado o Dicion&aacute;rio<br \/>\n    Michaelis para aprender o portugu&ecirc;s! O terceiro &quot;um soldado do<br \/>\n    ex&eacute;rcito prussiano, com mentira e tudo&quot;. M&aacute;rio re&uacute;ne<br \/>\n    e funde na lembran&ccedil;a as contribui&ccedil;&otilde;es que recebeu de<br \/>\n    todos, evoca sua liga&ccedil;&atilde;o de amizade, sem contudo distinguir<br \/>\n    pessoas ou &eacute;pocas: as conversas, os autores favoritos as reuni&otilde;es<br \/>\n    com vinho do Reno ou doces t&iacute;picos e caf&eacute; em que &quot;pingavam<br \/>\n    uma furtiva l&aacute;grima de leite&quot;, reuni&otilde;es em que cantavam<br \/>\n    em coro can&ccedil;&otilde;es alem&atilde;s, ao som da citara, e onde estava<br \/>\n    o escultor Harberg.34<\/p>\n<p> O escritor, entretanto, n&atilde;o menciona nomes. Isso faz com que o levantamento<br \/>\n    de dados sobre seus estudos de alem&atilde;o tenha que se contentar com a<br \/>\n    observa&ccedil;&atilde;o de documentos existentes em seu arquivo ou datas<br \/>\n    de edi&ccedil;&atilde;o de suas leituras. E se contentar com solu&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    parciais&#8230; Assim, pode-se deduzir que os estudos tenham se iniciado antes<br \/>\n    de 1922: entre os quatro caderninhos que relacionam vocabul&aacute;rio em<br \/>\n    colunas, conforme se usava para ensinar l&iacute;nguas estrangeiras, tr&ecirc;s<br \/>\n    s&atilde;o de ingl&ecirc;s e um de alem&atilde;o, este com letra g&oacute;tica<br \/>\n    bem caprichada e a tradu&ccedil;&atilde;o das palavras em franc&ecirc;s. Os<br \/>\n    cadernos de ingl&ecirc;s est&atilde;o datados na primeira p&aacute;gina: 1918<br \/>\n    e o de alem&atilde;o traz apenas o n&uacute;mero &quot;7.1690&quot; (telefone?)<br \/>\n    seguido de &quot;Esther Hornstein&quot;. Este nome, pelo menos at&eacute;<br \/>\n    o momento, n&atilde;o foi encontrado em nenhum outro documento no acervo de<br \/>\n    M&aacute;rio de Andrade. Teria sido Esther Hornstein a primeira professora?<br \/>\n    Ou a &quot;Sra. Else Scholer Eggebert&quot;, cujo cart&atilde;o especificava:<br \/>\n    &quot;Aulas de alem&atilde;o, inglez e francez\/ cursos prim&aacute;rios em<br \/>\n    portuguez\/ Professora diplomada\/ Alameda Rocha Azevedo, 23 Teleph. Central<br \/>\n    1416\/ (Livraria Transatl&acirc;ntica) \/S&atilde;o Paulo&quot;? Else Scholer,<br \/>\n    Como assinava, deu de presente ao aluno dois livros, ambos em edi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de 1920, a poesia de Goethe e Mathias Gr&uuml;newald. 35 Goethe est&aacute;<br \/>\n    crivado de anota&ccedil;&otilde;es marginais destacando estrofes, versos e<br \/>\n    tradu&ccedil;&otilde;es de palavras Goethe, onde est&aacute; &quot;Hermann<br \/>\n    und Dorothea&quot;! E Gr&uuml;newald, o grande mestre da pintura expressionista.<br \/>\n    E a eles Else juntou Wagner, a partitura de Tristan und Isolde (Leipzig, Breitkopf<br \/>\n    &amp; Hartel, s\/d), recomendado ao aluno com entusiasmo: &quot;Schones lieben!<br \/>\n    \/ In herzlicher Freundschaft. \/ Else Scholer-Eggebert\/ S&atilde;o Paulo, 26.7.21.&quot;.<br \/>\n    A verdade &eacute; que o rastro do estudioso do alem&atilde;o, denotando grande<br \/>\n    empenho e esfor&ccedil;o, sublinhando id&eacute;ias e traduzindo palavras,<br \/>\n    come&ccedil;a a aparecer em sua cole&ccedil;&atilde;o da revista Deutsch Kunsf<br \/>\n    und Dekoration em n&uacute;meros datados de 1919 em diante. &Eacute; ali que<br \/>\n    M&aacute;rio encontra, quem sabe em 1920, o texto de Worringer &quot;Natur<br \/>\n    und Expressionismus&quot; (n&ordm; 5, fev., 1920), cujas id&eacute;ias sobre<br \/>\n    o belo na arte e na natureza repercutem no &quot;Pref&aacute;cio interessant&iacute;ssimo&quot;<br \/>\n    de Paulic&eacute;ia desvairada. E, entre os livros, com as p&aacute;ginas<br \/>\n    cobertas de anota&ccedil;&otilde;es testemunhando a leitura demorada e dif&iacute;cil,<br \/>\n    est&aacute; a importante antologia de Kurt Pintus, Mancheits D&auml;mmerung:<br \/>\n    Symphonie J&uuml;ngster Dichtung, edi&ccedil;&atilde;o de 1920 (Berlin, Ernst<br \/>\n    Rewohlt), onde o poeta brasileiro descobre outros que completam seu mestre<br \/>\n    Whitman. Ao lado da revista e da antologia, autores expressionistas se agrupam,<br \/>\n    edi&ccedil;&otilde;es de 1918, 1919, 20, 22 (Wadekind, Rubiner, Fritz von<br \/>\n    Unruh, G. Kaiser, etc); s&atilde;o complementados por um bem antigo livro<br \/>\n    did&aacute;tico, The German Reader: 3rd. part: Selected German Comedies. Organizado<br \/>\n    por Emil Otto e publicado em 1878 (Heildelberg, Julius Gros), possui vocabul&aacute;rio<br \/>\n    traduzido e mereceu de M&aacute;rio v&aacute;rias anota&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de leitura. N&atilde;o resolve por&eacute;m a quest&atilde;o: foi realmente<br \/>\n    Else Scholer quem abriu para nosso modernista o mundo da cultura alem&atilde;?<\/p>\n<p> Em 1922 M&aacute;rio de Andrade est&aacute; escrevendo os poemas que publicar&aacute;<br \/>\n    em 1926 sob o t&iacute;tulo Losango caqui ou afetos militares de mistura com<br \/>\n    os porqu&ecirc;s de eu saber alem&atilde;o e com a &quot;Advert&ecirc;ncia&quot;<br \/>\n    que os classifica como um &quot;di&aacute;rio de tr&ecirc;s meses&quot;. Dedica<br \/>\n    o volume a sua amiga Anita Malfatti, confessando-lhe terem os poemas nascido<br \/>\n    de sua paix&atilde;o por uma &quot;diabinha de alem&atilde;&quot;. No ano<br \/>\n    da Semana de Arte Moderna tem-se o primeiro dado concreto a respeito de sua<br \/>\n    segunda professora de alem&atilde;o. K&auml;the Blosen &#8212; que no volume<br \/>\n    Schillers Werke tem seu telefone anotado como &quot;Frl. (Fr&auml;ulein) K&auml;the<br \/>\n    Blosen&quot; &#8212; escreve, a 30 de novembro, uma gentil cartinha a seu<br \/>\n    aluno, combinando o hor&aacute;rio das aulas.36 Em fevereiro de 1924 envia-lhe<br \/>\n    o recibo das aulas do m&ecirc;s de janeiro; esquece-se da assinatura, mas,<br \/>\n    a letra &eacute; id&ecirc;ntica &agrave; da carta de 1922. 37 Al&eacute;m<br \/>\n    disso, d&aacute; ao destinat&aacute;rio o mesmo tratamento, entre cerimonioso<br \/>\n    e bem humorado: &quot;Herr Mario de Andrade !&quot;. Teriam aspectos seus,<br \/>\n    como o gostar de Schiller, passado para a Fr&auml;ulein do romance? Sobre<br \/>\n    K&auml;the Blosen falou sua amiga Lotte Sievers em 1951:<\/p>\n<p> &quot;Quando, em mar&ccedil;o de 1923, conheci M&aacute;rio de Andrade,<br \/>\n    ele era para mim apenas um aluno de minha loura colega Kaethe, com quem eu<br \/>\n    havia alugado uma casinha, onde d&aacute;vamos parte de nossas aulas e onde<br \/>\n    reun&iacute;amos nosso grupo de amigos, constitu&iacute;do, por falta de nossos<br \/>\n    conhecimentos da l&iacute;ngua portuguesa, na maioria de alem&atilde;es rec&eacute;m-chegados<br \/>\n    da Europa.<\/p>\n<p> &quot;Kaethe j&aacute; me havia falado muito nesse seu aluno, interessante,<br \/>\n    bondoso e delicad&iacute;ssimo, embora de uma fei&uacute;ra impressionante,<br \/>\n    que era poeta moderno e a presenteara com um livro de sua autoria: Paulic&eacute;ia<br \/>\n    desvairada. Em sua opini&atilde;o ele tinha uma cole&ccedil;&atilde;o de quadros<br \/>\n    muito esquisita e estava loucamente apaixonado por ela.<br \/>\n    &quot;Encontr&aacute;vamos M&aacute;rio de vez em quando em concertos, sempre<br \/>\n    am&aacute;vel, sempre disposto a ajudar.&quot; 38<\/p>\n<p> Lotte Sievers continua, contando que em 1924 pedira a M&aacute;rio para<br \/>\n    lhe traduzir can&ccedil;&otilde;es alem&atilde;s que ia apresentar em um recital,<br \/>\n    tendo ele lhe provado &quot;que as aulas de alem&atilde;o, recebidas de Kaethe,<br \/>\n    haviam sido proveitosas. Naquela &eacute;poca, meus conhecimentos ling&uuml;&iacute;sticos<br \/>\n    n&atilde;o me permitiram julgar isso, mas, hoje, folheando meus velhos programas,<br \/>\n    surpreendo-me com a exatid&atilde;o da tradu&ccedil;&atilde;o, feita de uma<br \/>\n    l&iacute;ngua t&atilde;o fundamentalmente diferente do portugu&ecirc;s, sem<br \/>\n    que o texto perdesse seu mais leve sopro po&eacute;tico.&quot; Pois bem: fica-se<br \/>\n    sabendo que, em 1924, a tradu&ccedil;&atilde;o de M&aacute;rio n&atilde;o<br \/>\n    era a de um principiante e que conheceu de perto a vida e os sentimentos dos<br \/>\n    alem&atilde;es de um certo n&iacute;vel cultural que viviam em S&atilde;o<br \/>\n    Paulo e, que esse conhecimento alimentou sua cria&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria.<br \/>\n    Unicamente a data 1922, oferecida por ele para in&iacute;cio de seus estudos<br \/>\n    da l&iacute;ngua de Goethe, deixa a d&uacute;vida inc&ocirc;moda marcando<br \/>\n    um impasse: ind&iacute;cios de uma data anterior x depoimento, evoca&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    x hip&oacute;tese da pesquisa. Contudo, conv&eacute;m n&atilde;o esquecer<br \/>\n    que M&aacute;rio de Andrade, principalmente em seus escritos de jornal, nem<br \/>\n    sempre recorda datas com fidelidade; coloca, por exemplo, a pioneira exposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    Malfatti em 1915!39<\/p>\n<p> Os dados, infelizmente, param por aqui, restringindo-se &agrave;s duas professoras.<br \/>\n    K&auml;the Blosen instiga a imagina&ccedil;&atilde;o: loura, independente,<br \/>\n    possivelmente bonita, promovendo reuni&otilde;es como aquelas que a hero&iacute;na<br \/>\n    de Amar, verbo intransitivo freq&uuml;entava&#8230; Seria ela a Fr&auml;ulein?<br \/>\n    E, quanto ao soldado prussiano, nenhuma not&iacute;cia, nenhuma pegada vislumbrei.<br \/>\n    &Eacute; dif&iacute;cil resgatar fatos que se perderam no passado e isso,<br \/>\n    apesar de sua import&acirc;ncia biogr&aacute;fica, n&atilde;o &eacute; primordial<br \/>\n    para a compreens&atilde;o do romance. O que significa mais &eacute; M&aacute;rio<br \/>\n    de Andrade, em sua representa&ccedil;&atilde;o ficcional, ter captado e ordenado<br \/>\n    artisticamente tra&ccedil;os de uma &eacute;poca, de uma sociedade e o pulsar<br \/>\n    poderoso do ser humano. Temendo o francesismo, aproximou-se dos alem&atilde;es<br \/>\n    e descobriu uma cultura nova para ele, procurando entend&ecirc;-la: literatura,<br \/>\n    artes pl&aacute;sticas, teatro, m&uacute;sica, rela&ccedil;&otilde;es d&ecirc;<br \/>\n    amizade. Leu, estudou muito. Revelou aos brasileiros a arte e a literatura<br \/>\n    alem&atilde;s contempor&acirc;neas; acompanhou a produ&ccedil;&atilde;o dos<br \/>\n    alem&atilde;es no Brasil. Essa divulga&ccedil;&atilde;o M&aacute;rio fez ao<br \/>\n    longo de seu trabalho de jornalista: cr&iacute;tica de arte, de livros cr&ocirc;nicas.<br \/>\n    Soube, por exemplo, mostrar o valor da dan&ccedil;a expressionista de Chinita<br \/>\n    Ulmann e Carleto Thieben, pioneiros em nossa terra. E foi gra&ccedil;as a<br \/>\n    seu conhecimento do alem&atilde;o que chegou ao lend&aacute;rio de Macuna&iacute;ma<br \/>\n    em Vom Roraima zum Orinoco de Theodor Koch-Grunberg. Deixou in&eacute;dita<br \/>\n    a Tradu&ccedil;&atilde;o Koch-Grunberg em que tomou texto sobre a m&uacute;sica<br \/>\n    dos &iacute;ndios das Guianas, o estudo que tanto motivou o cubano Alejo Carpentier.<br \/>\n    40 M&aacute;rio teve poemas seus traduzidos para o alem&atilde;o por Ignez<br \/>\n    Theltscher e Hilde Kowsmann, brasileiras.41 Chegando a guerra, repudiou com<br \/>\n    veem&ecirc;ncia e publicamente o nazismo; sua indigna&ccedil;&atilde;o estendeu-se<br \/>\n    at&eacute; Amar, verbo intransitivo, onde, em 1944, acrescentou ao discurso<br \/>\n    do Narrador uma frase de acusa&ccedil;&atilde;o inflamada: &quot;B&aacute;rbaro<br \/>\n    tedesco, infra terno germano infraterno&quot; (p. 53). Na primeira edi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    o Narrador, pacifista, condenava as tend&ecirc;ncias b&eacute;licas do alem&atilde;o<br \/>\n    homem-da-vida, diferenciando-as do desejo de paz do homem-do-sonho. Na segunda<br \/>\n    edi&ccedil;&atilde;o o trocadilho explode, carreando o protesto que vibra<br \/>\n    fora do livro. Mas, o rep&uacute;dio n&atilde;o compromete o texto, n&atilde;o<br \/>\n    atinge a valoriza&ccedil;&atilde;o do homem-do-sonho, nem recrimina, generalizando,<br \/>\n    o povo alem&atilde;o. Tem destino certo: &eacute; para aquele que, cultivando<br \/>\n    a guerra, deixou at&eacute; mesmo de ser simplesmente &quot;alem&atilde;o&quot;,<br \/>\n    tornando-se os sin&ocirc;nimos execrados, os ep&iacute;tetos terr&iacute;veis<br \/>\n    &quot;b&aacute;rbaro tedesco&quot;, &quot;germano infraterno&quot;. Desta<br \/>\n    forma, o trecho passou, em &uacute;ltima an&aacute;lise, a manifestar-se contra<br \/>\n    duas guerras&#8230;<\/p>\n<p><strong>Mongagu&aacute;, dezembro de 1981.<\/strong><\/p>\n<p>    <strong>NOTAS<\/strong><\/p>\n<p>1 BANDEIRA, Manuel &#8212; &quot;Amar, verbo intransitivo&quot;. &quot;A<br \/>\n    Semana. Bel&eacute;m, 23 mar., 1972&quot; (Recorte com indica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de fonte em Nota M. A. &#8212; Arquivo M&aacute;rio de Andrade &#8212; IEB-USP)<br \/>\n    2 ANDRADE, M&aacute;rio de &#8212; Amar, verbo intransitivo. 10&ordm; ed.<br \/>\n    revista por Tel&ecirc; Porto Ancona Lopez. Belo Horizonte, Itatiaia, 1982.<br \/>\n    No intuito de facilitar a localiza&ccedil;&atilde;o das cita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do romance, preferi indicar a presente edi&ccedil;&atilde;o. Como todas as<br \/>\n    cita&ccedil;&otilde;es pertencem a ela, s&atilde;o seguidas, no pr&oacute;prio<br \/>\n    texto, pelo n&uacute;mero da p&aacute;gina em que se encontram, sem que haja<br \/>\n    necessidade de se repetir em nota a fonte.<br \/>\n    3 SAINT-PIERRE, Bernardin de &#8212; &quot;Avant-propos&quot;. In: SAINT-PIERRE,<br \/>\n    Bernardin de e GESSNER &#8212;Paul et Virginie &#8212;La chaumi&egrave;re<br \/>\n    indienne et le caf&eacute; de Surate &#8212; Florian &#8212; Galat&eacute;e,<br \/>\n    Estelle et ses douze nouvelles &#8212; Choix de ses idyttes. Paris, Firmier<br \/>\n    Didot Fr&egrave;res et Cie., 1836, p. 1.<br \/>\n    4 SAINT-PIERRE, Bernardin de e GESSNER &#8212; op. cit., p. 41. Traduzi.<br \/>\n    5 GESSNER, Salomon &#8212; Idytlen mit 11 Radierung von Salomon Gessner und<br \/>\n    12 Kupfern von Daniel ChodowiecKi. Berlin, Eigenbr&ouml;der Verlag, s\/d. (ed.<br \/>\n    fac-similar da edi&ccedil;&atilde;o do autor: Zurich, bei Gessner, 1756 &#8212;<br \/>\n    Biblioteca M&aacute;rio de Andrade &#8212; IEB &#8212; USP).<br \/>\n    6 IDEM &#8212;&quot;An den Lesen&quot;. In: op. cit., p. 5-12. Trechos citados<br \/>\n    traduzidos por Rosemarie Horch.<br \/>\n    7 Estudei alguns aspectos da presen&ccedil;a do expressionismo em Paulic&eacute;ia<br \/>\n    desvairada em &quot;Ar-lequim e modernidade&quot;. Revista do IEB, ns 21.<br \/>\n    S&atilde;o Paulo, 1979, p. 85 -100.<br \/>\n    8 ANDRADE, M&aacute;rio de &#8212; &quot;Pref&aacute;cio in&eacute;dito escrito<br \/>\n    imediatamente depois de terminada a primeira vers&atilde;o&quot;. In: Macunatma<br \/>\n    o her&oacute;i sem nenhum car&aacute;ter. Edi&ccedil;&atilde;o-cr&iacute;tica<br \/>\n    de Tel&ecirc; Porto Ancona Lopez. Rio de Janeiro &#8212; S&atilde;o Paulo,<br \/>\n    LTC &#8212; SCCT, 1978, p. 219. Ali&aacute;s, a partir de 1924, nosso modernismo<br \/>\n    empenha-se diretamente no nacionalismo, surgindo as correntes de tend&ecirc;ncias<br \/>\n    diversas.<br \/>\n    9 IDEM &#8212; &quot;A prop&oacute;sito de &#8216;Amar, verbo intransitivo&#8217; &quot;.<br \/>\n    Jn: Di&aacute;rio Nacional. S&atilde;o Paulo, 4 dez., 1927. (Recortes &#8212;<br \/>\n    Arquivo M&aacute;rio de Andrade &#8212; IEB-USP. Artigo transcrito em BATISTA,<br \/>\n    Marta Rosseti et al., org. &#8212; Brasil: l&ordm; tempo modernista &#8212;1917-29:<br \/>\n    Documenta&ccedil;&atilde;o. S&atilde;o Paulo, IEB, 1973, p. 258-88 e nesta<br \/>\n    edi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    10 FERNANDES, Lygia, org. &#8212; 71 cartas de M&aacute;rio de Andrade. Rio<br \/>\n    de Janeiro, S&atilde;o Jos&eacute;, s\/d., p. 21. (Carta datada de S&atilde;o<br \/>\n    Paulo, 23 dez., 1927).<br \/>\n    11 &quot;NIETZSCHE, Fr&eacute;deric &#8212; Vorigine de la Trag&eacute;die<br \/>\n    ou Hell&eacute;nisme et pessimisme. Trad. de Jean Marnold e Jacques Morland.<br \/>\n    9&ordm; ed. Paris, Mercure de France, s\/d., p. 75. (Biblioteca M&aacute;rio<br \/>\n    de Andrade &#8212; IEB-USP). Traduzi. &Eacute; interessante perceber, al&eacute;m<br \/>\n    disso, como essas id&eacute;ias se casam, de certo modo, com a tese de Keyserling<br \/>\n    sobre o primitivismo (Le monde qui nait) e com a valoriza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da pregui&ccedil;a por parte de M&aacute;rio de Andrade.<br \/>\n    12 Em agosto de 1923, escrevendo a S&eacute;rgio Milliet, M&aacute;rio de<br \/>\n    Andrade classifica o romance que est&aacute; compondo: &quot;Atualmente escrevo<br \/>\n    Fr&auml;ulein &#8212; romance. &Eacute; poss&iacute;vel que fique no meio,<br \/>\n    como todas as grandes empreitadas que tomo. Cinematogr&aacute;fico. (&#8230;)&quot;<br \/>\n    (Carta datada de S&atilde;o Paulo, 2 ago., 1923. &quot;Cartas a S&eacute;rgio<br \/>\n    Milliet&quot;. In: DUARTE, Paulo &#8212; M&aacute;rio de Andrade por ele mesmo.<br \/>\n    S&atilde;o Paulo, EDART, 1971, p. 293).<br \/>\n    13 Escrevendo ao amigo Manuel Bandeira a 15 de novembro de 1924 M&aacute;rio<br \/>\n    tamb&eacute;m se refere ao &quot;romance&quot;: &quot;escrevo um romance,<br \/>\n    Manuel. &Eacute; Fr&auml;ulein. Est&aacute; bastante avan&ccedil;ado. Todo<br \/>\n    tempo meu que tenho, dou-o ao novo livro. Estou satisfeito comigo mesmo&quot;.<br \/>\n    (ANDRADE, M&aacute;rio de &#8212; Cartas a Manuel Bandeira. Ed. organizada<br \/>\n    e anotada por Manuel Bandeira. Rio de Janeiro, Sim&otilde;es, 1958, p. 59<br \/>\n    &#8212; A ordem cronol&oacute;gica no livro de Bandeira n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    rigorosa).<br \/>\n    14 RAMOS, Maria Lu&iacute;sa &#8212; &quot;O latente manifesto&quot;. Ensaios<br \/>\n    de semi&oacute;tica,: Cadernos de Ling&uuml;&iacute;stica e Teoria da Literatura,<br \/>\n    n&raquo; 2. Belo Horizonte, FALE\/UFGM, 1979.<br \/>\n    15 Nas artes Pl&aacute;sticas a representa&ccedil;&atilde;o do amor tamb&eacute;m<br \/>\n    acolhe o erotismo; basta lembrar O beijo de Munch ou mesmo o de Klimt, Egon<br \/>\n    Schiele no Abra&ccedil;o.<br \/>\n    16 Na biblioteca de M&aacute;rio de Andrade est&atilde;o 11 n&uacute;meros<br \/>\n    de Der Sturm (1910 &#8212; Berlim) 1923, 9 nos, 1924, 2 nos. Trazem anota&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de leitura: destaque de trechos e tradu&ccedil;&atilde;o de palavras. Der<br \/>\n    Querschitt est&aacute; tamb&eacute;m ali presente. (Berlim, 1924-30).<br \/>\n    17 ANDRADE, M&aacute;rio de &#8212; Cartas a Manuel Bandeira, ed. cit., p.<br \/>\n    55. A carta foi colocada erroneamente em 1924; lendo-a, v&ecirc;-se que &eacute;<br \/>\n    de 1923.<br \/>\n    18 SCHNITZLER, Arthur &#8212; &quot;Fr&auml;ulein Else&quot;. In: Casanovas<br \/>\n    Heimfart. Frankfurt, Fischer, 1950, p. 245-99. Schnitzler, amigo de Kokoschka,<br \/>\n    expressionista de Viena, bastante conhecido na Europa, tendo recebido v&aacute;rias<br \/>\n    tradu&ccedil;&otilde;es. Seu romance Reigen, Dialogue serviu de base para<br \/>\n    o filme de Vadim, La ronde.<br \/>\n    19 IDEM &#8212;Morir. Trad. de Alberto Fios. Madrid, Biblioteca Nueva, s\/d.<br \/>\n    O pref&aacute;cio de Fios est&aacute; datado de 1920. O livro traz, ao lado<br \/>\n    da novela que lhe d&aacute; o nome, o conto &quot;La mujer dei docente&quot;:<br \/>\n    conta a hist&oacute;ria da mulher adulta que se apaixona por aluno do marido,<br \/>\n    tentando conquist&aacute;-lo quando ele &eacute; um adolescente e anos mais<br \/>\n    tarde.<br \/>\n    20 Escrevendo a Alceu Amoroso Lima, M&aacute;rio revela ter sido Fr&auml;ulein<br \/>\n    o t&iacute;tulo original do livro, afastado depois para evitar erros de pron&uacute;ncia<br \/>\n    no Brasil. (Carta datada de S&atilde;o Paulo, 23 dez., 1927; V. nota (10).<br \/>\n    21 SCHNITZLER, Arthur &#8212; &quot;Fr&auml;ulein Else&quot;. ed. cit., p.<br \/>\n    299. Traduzindo: &quot;Eu estou voando&#8230; estou sonhando&#8230; estou dormindo&#8230;<br \/>\n    estou sonhando-sonhando. voand&#8230;&quot;<br \/>\n    22 Curiosamente, a tradutora do Amar, verbo intransitivo para o ingl&ecirc;s,<br \/>\n    que adotou t&iacute;tulo original Fr&auml;ulein, dentre as v&aacute;rias modifica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que fez ao texto (na refei&ccedil;&atilde;o por exemplo, coloca uma &quot;baiana&quot;<br \/>\n    servindo a mesa), atribuiu um sobrenome a Ela: Schumann&#8230; (New York, Macaulay,<br \/>\n    1933).<br \/>\n    23 No segundo pref&aacute;cio para Macuna&iacute;ma M&aacute;rio de Andrade<br \/>\n    explica sua id&eacute;ia de &quot;desgeograficar&quot;: unir, num mesmo espa&ccedil;o,<br \/>\n    elementos de todas as regi&otilde;es do Brasil, fundindo-os ou deslocando-os<br \/>\n    pura servir ao nacionalismo, para ele mais fecundo, do que o regionalismo.<br \/>\n    (ANDRADE, M&aacute;rio de &#8212; &quot;Pref&aacute;cio in&eacute;dito escrito<br \/>\n    quando foi da impress&atilde;o do livro&quot;. In: Macuna&iacute;ma o her&oacute;i<br \/>\n    sem nenhum car&aacute;ter, ed. cit., p. 229).<br \/>\n    24 A an&aacute;lise musical de Siegfried-Idill devo a Fl&aacute;via Toni.<br \/>\n    O id&iacute;lio, forma musical, consignada em dicion&aacute;rios especializados,<br \/>\n    tendo sempre seu car&aacute;ter pastoril ressaltado, seus tra&ccedil;os de<br \/>\n    ternura e paz. J. B. F. Ferreira (Vocabul&aacute;rio musical. Rio de Janeiro,<br \/>\n    Marcos de Mendon&ccedil;a e Cia., 1921-Biblioteca M&aacute;rio de Andrade<br \/>\n    &#8212; IEB-USP), Ren&eacute; Vannes {Essais de Terminologie Musicale: Dictionnaire<br \/>\n    Universel. s\/l., ed. do A., 1925, p. 165 &#8212; Ibidem) e Frei Pedro Sinzig<br \/>\n    (Dicion&aacute;rio Musical, &quot;a. ed. reimpr. Rio de Janeiro, Cosmos, 1976,<br \/>\n    p. 297) registram o termo. Percy A. Scholes (The Oxford Companion to Music.<br \/>\n    2&ordf; ed. americana. New York, Oxford, 1943) cita como exemplo o Id&iacute;lio<br \/>\n    de Siegfried de Wagner.<br \/>\n    25 O t&iacute;tulo de Wagner foi, muito sintomaticamente glosado por Kurt<br \/>\n    Pintus em sua antologia da poesia expressionista: Macheits D&acirc;mmerung:<br \/>\n    Symphonie J&uuml;ngster Dichtung. Berlin Ernst Rewohlt, 1920. Nietzsche (Origem<br \/>\n    da trag&eacute;dia) fala no &quot;crep&uacute;sculo dos &iacute;dolos&quot;.<br \/>\n    <br \/>\n    26 WAGNER, Richard &#8212; &quot;Siegfried&quot;, In: Das Rheingold Vorabendd<br \/>\n    zum B&uuml;hnenfestspiel Der Ring des Niebelungen; mit Angale de Leitmotive,<br \/>\n    der f&uuml;hrenden Orcherisnstrument nebst den Leitmotiven in Noten ais Anhang.<br \/>\n    Leipzig, Breitkopf &amp; Hartel, 1882, p.91. Tradu&ccedil;&atilde;o de Rosemarie<br \/>\n    Horch para os versos citados: &quot;Acorda! Acorda!\/ Mulher divina!&quot;.<br \/>\n    <br \/>\n    27 A &oacute;pera Siegfried ecoaria tamb&eacute;m em Macuna&iacute;ma: a luta<br \/>\n    com a Boi&uacute;na, excluindo-se o grotesco e o c&ocirc;mico na cena de M&#038;aacutaacute;rio,<br \/>\n    assemelha-se &agrave; luta do her&oacute;i de Wagner com Fafner; atrav&eacute;s<br \/>\n    do canto de um passarinho, Siegfried sabe da exist&ecirc;ncia do Anel dos<br \/>\n    Niebelungen e do Tarnhelm; o uirapuru conta a Macuna&iacute;ma onde est&aacute;<br \/>\n    a muiraquit&atilde;.<br \/>\n    28 ANDRADE, M&aacute;rio de&#8212;Postfacio. S&atilde;o Paulo, S\/d. (Manuscrito<br \/>\n    in&eacute;dito &#8212; originais &#8212; Arquivo M&aacute;rio de Andrade &#8212;<br \/>\n    IEB-USP). O escritor tinha por h&aacute;bito destruir os originais da obras<br \/>\n    que publicava. Este posf&aacute;cio para Amar, verbo intransitivo encontrava-se<br \/>\n    no final de um caderno onde terminava o romance. M&aacute;rio arrancou do<br \/>\n    caderno e conservou as p&aacute;ginas onde est&aacute; o posf&aacute;cio,<br \/>\n    escrito a l&aacute;pis (p.296-300). Foi assim obrigado a guardar a &uacute;ltima<br \/>\n    p&aacute;gina do romance, pois o posf&aacute;cio come&ccedil;a em seu verso;<br \/>\n    rabiscou-a contudo.<br \/>\n    29 Rodrigo M. F. de Andrade assim escreveu em 1927: &quot;(&#8230;) trabalho s&eacute;rio,<br \/>\n    penoso, imenso, o que empreendeu. Construir ou cristalizar uma l&iacute;ngua<br \/>\n    &eacute; tarefa para um Dante, um Cam&otilde;es e, muito provavelmente, ele<br \/>\n    n&atilde;o se sentia com o g&ecirc;nio e a for&ccedil;a de um, nem de outro.&quot;<br \/>\n    (&quot;Dois livros de M&aacute;rio de Andrade&quot;. Vida liter&aacute;ria.<br \/>\n    &#8221;O Jornal. Rio de Janeiro, 8 maio, 1927&quot;. (Indica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    em Nota M. A. &#8212; Recortes &#8212; Arquivo M&aacute;rio de Andrade &#8212;<br \/>\n    IEB-USP). Manuel Bandeira focaliza tamb&eacute;m a quest&atilde;o da l&iacute;ngua<br \/>\n    em seu artigo para A Semana (V. nota (1))-<br \/>\n    30 ANDRADE, M&aacute;rio de &#8212; Gramatiquinha da fala brasileira. S&atilde;o<br \/>\n    Paulo, s\/d. (Originais &#8212; Arquivo M&aacute;rio de Andrade &#8212; IEB-USP).<br \/>\n    Na &eacute;poca da reda&ccedil;&atilde;o de Amar, verbo intransitivo, M&aacute;rio<br \/>\n    j&aacute; est&aacute; trabalhando na Gramatiquinha; nas cartas aos amigos<br \/>\n    faz refer&ecirc;ncias a ela. <br \/>\n    31 A margin&aacute;lia de M&aacute;rio de Andrade &eacute; riqu&iacute;ssima.<br \/>\n    Lendo obras sobre Folclore, Etnografia e textos de fic&ccedil;&atilde;o, M&aacute;rio<br \/>\n    de Andrade sublinhava e depois anotava em fichas termos peculiares do Brasil;<br \/>\n    assim conhecia o falar de todas as regi&otilde;es, valendo-se sobretudo da<br \/>\n    pesquisa dos regionalistas, cujos livros crivava de anota&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Neusa Quirino Sim&otilde;es em sua disserta&ccedil;&atilde;o de mestrado Estudando<br \/>\n    a Margin&aacute;lia: M&aacute;rio de Andrade e a fic&ccedil;&atilde;o brasileira.<br \/>\n    (Literatura Brasileira &#8212; S&atilde;o Paulo, FFLCH-USP, 1980 &#8212; xerox)<br \/>\n    acompanhou a leitura do pesquisador, destacando seus pontos de interesse.<br \/>\n    <br \/>\n    32 ANDRADE, M&aacute;rio de &#8212; Cartas a Manuel Bandeira. Ed. cit., p.<br \/>\n    54 (Carta datada de &quot;10 de outubro&quot;, ano (1924) fornecido pelo organizador<br \/>\n    da edi&ccedil;&atilde;o).<br \/>\n    33 ANDRADE, M&aacute;rio de &#8212; &quot;Teutos, mas m&uacute;sicos&quot;.<br \/>\n    In: M&uacute;sica, doce m&uacute;sica. S&atilde;o Paulo Martins, 1963, p.<br \/>\n    314-18. (VII &#8212; Obras Completas). Artigo escrito para O Estado de S.<br \/>\n    Paulo. S&atilde;o Paulo, 31 dez., 1939.<br \/>\n    34 IDEM &#8212; Ibidem.<br \/>\n    35 O livro de Goethe, Lyrische und Epische Dichtungen (2v. Leipzig, Inserverlag,<br \/>\n    1920) foi oferecido com a dedicat&oacute;ria: &quot;Sr. M&aacute;rio de Andrade\/<br \/>\n    z. (ur) Erinnerung an\/ E. Sch&oacute;ler&quot;(&quot;Sr. M&aacute;rio de Andrade\/<br \/>\n    como recorda&ccedil;&atilde;o de\/E. Sch&ouml;ler&quot;). Em Mathias Gr&uuml;newald<br \/>\n    de Hermann L. Mayer (M&uuml;nchen, Dolphin, 1920), as palavras de oferecimento<br \/>\n    s&atilde;o exatamente as mesmas. O cart&atilde;o de Else estava tamb&eacute;m<br \/>\n    dentro de_L&#8217;inaugurazione delia primavera de Govoni, 9&ordf; ed. de 1920 (Ferrara,<br \/>\n    A. Taddei e Figli).<br \/>\n    36 BLOSEN, K&auml;the &#8212; Carta a M&aacute;rio de Andrade. &quot;S&atilde;o<br \/>\n    Paulo, 30 nov., 1922&quot;. Carta escrita a tinta azul com notas M. A. a l&aacute;pis<br \/>\n    &#8212; Correspond&ecirc;ncia passiva n&atilde;o lacrada &#8212; Arquivo M&aacute;rio<br \/>\n    de Andrade &#8212; loc. cit). Frl. Blosen escreve em portugu&ecirc;s: &quot;S&atilde;o<br \/>\n    Paulo, 30. IX, 22\/Senhor M&aacute;rio de Andrade! \/ Recebi sua carta.\/ Pe&ccedil;o-lhe<br \/>\n    desculpar me por n&atilde;o ter\/respondido antes, mas precisava\/falar com<br \/>\n    meus outros alumnos\/ para arranjar suas aulas:\/<br \/>\n    2. feira 10-11<br \/>\n    3. &quot; 10-11<br \/>\n    5. &quot; 10-11<br \/>\n    6. &quot; 10-11 <br \/>\n    Sabbado. 81\/2-9 1\/2\/<br \/>\n    Si o senhor n&atilde;o me der outra\/ not&iacute;cia, come&ccedil;o com as<br \/>\n    aulas\/2. feira.\/ Sauda&ccedil;&otilde;es.\/ K&auml;the Blosen&quot;.<br \/>\n    37 IDEM, Recibo. S&atilde;o Paulo, 1&ordm; fev., 1924. (Documenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    v&aacute;ria &#8212; Arquivo M&aacute;rio de Andrade &#8212; loc. cit.) Texto:<br \/>\n    &quot;Herrn Mario de Andrade!\/ Fur ert (eiten) Unterricht im Monat Januar\/80<br \/>\n    $ 000&quot;. Tradu&ccedil;&atilde;o de Rosemarie Horch: &quot;Sr. Mario de<br \/>\n    Andrade!\/ Por aulas dadas no m&ecirc;s de janeiro\/ 80 $ 000&quot;.<br \/>\n    38 SIEVERS, Lotte &#8212; Depoimento sem t&iacute;tulo. Alia arriba, n5 38,<br \/>\n    sobre M&aacute;rio de Andrade, S&atilde;o Paulo, 1957, p.10.<br \/>\n    39 Na 7a cr&ocirc;nica Vil de Malazarte, em 1924 M&aacute;rio escreveu: &quot;(&#8230;)<br \/>\n    Quem primeiro trouxe uma sistematizada manifesta&ccedil;&atilde;o de arte<br \/>\n    moderna para o Brasil foi Anita Malfatti. Em 1915 &#8230;N&atilde;o. Parece-me<br \/>\n    que antes. Ou depois&#8230;N&atilde;o me lembro mais a data em que ela abriu a<br \/>\n    exposi&ccedil;&atilde;o de seus trabalhos na rua Libero Badar&oacute;.&quot;<br \/>\n    (Cr&ocirc;nicas de Malazarte&quot; &#8212; VII. Am&eacute;rica Brasileira,<br \/>\n    Rio de Janeiro, abr., 1924, p. 144-5. (Recortes &#8212; Arquivo M&aacute;rio<br \/>\n    de Andrade &#8212; loc. cit.; a data foi posteriormente corrigida pelo A.<br \/>\n    no recorte).<br \/>\n    40 ANDRADE, M&aacute;rio de &#8212; Tradu&ccedil;&atilde;o Koch-Gr&uuml;berg,<br \/>\n    1929. (Manuscrito in&eacute;dito. Originais &#8212; Arquivo M&aacute;rio de<br \/>\n    Andrade &#8212; IEB-USP). Trata-se do estudo de HORNBOSTEL, Erich M. V. &#8212;<br \/>\n    &quot;Musik der Makuschi, Taulipang und Musikinstrumente&quot;, ap&ecirc;ndice<br \/>\n    do terceiro volume de KOCH-GR&Uuml;NBERG, Theodor &#8212; Vom Roroima zum<br \/>\n    Orinoco: Ergebnisse einer Reise in Nord Brasilien und Venezuela in den Jahre<br \/>\n    1911-13 (Stuttgart, Str&otilde;cker und Schroder, 1929, p. 345-423 &#8212;<br \/>\n    Biblioteca M&aacute;rio de Andrade).<br \/>\n    41 M&aacute;rio de Andrade conservou os originais dos poemas traduzidos por<br \/>\n    ambas. As tradu&ccedil;&otilde;es de Ignez Thelsher foram publicadas em 1938<br \/>\n    em Vom brasilianischen Seele (Rio de Janeiro, Deustche Zeitun). Mais esclarecimentos<br \/>\n    sobre o assunto est&atilde;o em &quot;Ignez Thelscher&quot; no livro de M&aacute;rio<br \/>\n    T&aacute;xi e cr&ocirc;nicas no Di&aacute;rio Nacional (S&atilde;o Paulo,<br \/>\n    Duas Cidades, 1976, p. 501-3).<\/p>\n<p><strong>BIBLIOGRAFIA<\/strong><\/p>\n<p>Nota: Para evitar repeti&ccedil;&otilde;es, fica estabelecido aqui que Recorte<br \/>\n    M. de A. e Originais M. de A. est&atilde;o no Arquivo M&aacute;rio de Andrade;<br \/>\n    esse arquivo e a Biblioteca M. de A. fazem parte do Acervo M&aacute;rio de<br \/>\n    Andrade que est&aacute; no patrim&ocirc;nio do Instituto de Estudos Brasileiros<br \/>\n    &#8212; USP (Cidade Universit&aacute;ria &#8212; S&atilde;o Paulo).<br \/>\n    ANDRADE, M&aacute;rio de &#8212;Amar, verbo intransitivo. 10&ordf; ed. Belo<br \/>\n    Horizonte, Itatiaia, 1982. IDEM &#8212; &quot;A prop&oacute;sito de &#8216;Amar,<br \/>\n    verbo intransitivo&#8217;&quot;. In. Di&aacute;rio Nacional. S&atilde;o Paulo, 4<br \/>\n    dez., 1927. (Recortes M. de A.)<br \/>\n    IDEM &#8212; Comp&ecirc;ndio de Hist&oacute;ria da M&uacute;sica. S&atilde;o<br \/>\n    Paulo, Ir. Chiarato &amp; Cia., 1929.<br \/>\n    IDEM &#8212; Cartas a Manuel Bandeira. Ed. organizada e anotada por Manuel<br \/>\n    Bandeira. Rio de Janeiro, Sim&otilde;es, 1958.<br \/>\n    IDEM &#8212; &quot;Cr&ocirc;nicas de Malazarte &#8212; VII&quot;. Am&eacute;rica<br \/>\n    Brasileira. Rio de Janeiro, abr., 1924, p. 144-5, (Recortes M. de A.)<br \/>\n    IDEM &#8212; Gramatiquinha da fala brasileira, s\/d. (Originais M. de A.) Rodrigo<br \/>\n    Mello Franco de Andrade em seu artigo sobre Amar, verbo intransitivo refere-se<br \/>\n    &agrave; Gramatiquinha pesquisa e projeto em andamento em 1927.<br \/>\n    IDEM &#8212; Losango caqui ou afetos militares de mistura com os porqu&ecirc;s<br \/>\n    de eu saber alem&atilde;o. S&atilde;o Paulo, Ant&ocirc;nio Tisi, 1926.<br \/>\n    IDEM &#8212; Postfacio. (Amar, verbo intransitivo) S&atilde;o Paulo s\/d. &#8212;<br \/>\n    (Originais M. de A.). <br \/>\n    IDEM &#8212; &quot;Pref&aacute;cios&quot;. In: Macuna&iacute;ma o her&oacute;i<br \/>\n    sem nenhum car&aacute;ter. Edi&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica de Tel&ecirc;<br \/>\n    Porto Ancona Lopez. Rio de Janeiro &#8212; S&atilde;o Paulo, LTC-SCCT, 1978,<br \/>\n    p. 217-45. IDEM &#8212; T&aacute;xi e cr&ocirc;nicas no Di&aacute;rio Nacional.<br \/>\n    Estabelecimentos de texto, introdu&ccedil;&atilde;o e notas de Tel&ecirc;<br \/>\n    Porto Ancona Lopez. S&atilde;o Paulo, Duas Cidades, 1976.<br \/>\n    IDEM &#8212; &quot;Teutos, mas m&uacute;sicos&quot;. In: M&uacute;sica, doce<br \/>\n    m&uacute;sica. S&atilde;o Paulo, Martins, 1963, p. 314-18. (VII &#8212; Obras<br \/>\n    Completas).<br \/>\n    ANDRADE, Rodrigo M. F. &#8212; &quot;Dois livros de M&aacute;rio de Andrade&quot;.<br \/>\n    Vida liter&aacute;ria. &quot;O Jornal. Rio de Janeiro, 9 maio, 1927&quot;.<br \/>\n    (Recorte com Nota M. A indicando a fonte).<br \/>\n    BANDEIRA, Manuel &#8212; &quot;Amar, verbo intransitivo&quot;. &quot;A Semana.<br \/>\n    Bel&eacute;m, 23 mar., 1927&quot;. (Recorte com Nota M. A. indicando a fonte).<br \/>\n    BERTAUX, F&eacute;lix &#8212;Panorama de la litt&eacute;rature allemande contemporaine.<br \/>\n    18a ed. Paris, Kra, 1928. (Panoramas des litt&eacute;ratures contemporaines<br \/>\n    &#8212; Biblioteca M. de A.).<br \/>\n    BOESCH, Bruno, Org. &#8212; Hist&oacute;ria da literatura alem&atilde;. Trad.<br \/>\n    da Cadeira de Alem&atilde;o da FFCL-USP. S&atilde;o Paulo, Herder &#8212;<br \/>\n    EDUSP, 1967.<br \/>\n    DER QUERSCHITT. Berlim, 1924-27. (Biblioteca M. de A.).<br \/>\n    DER STURM. Berlim, 1923-24. (Ibidem).<br \/>\n    DEUTSCH KUNST UND DEKORATION. Darmstadt, 1919-30. (Ibidem).<br \/>\n    DUARTE, Paulo &#8212; M&aacute;rio de Andrade por ele mesmo. S&atilde;o Paulo,<br \/>\n    EDART, 1971.<br \/>\n    FERNANDES, Lygia org. &#8211; 71 cartas de M&aacute;rio de Andrade. Rio de Janeiro,<br \/>\n    S&atilde;o Jos&eacute;, s\/d.<br \/>\n    GESSNER, Salomon &#8211; Idyllen mit 11 Radierung von Salomon Gessner und 12 Kuipuyfern<br \/>\n    von DaniTchodowiecki. Berlin, Eigenbr&ouml;der Verlag, s\/d. (ed.facsim.l.ar<br \/>\n    da ed. do A.: Zurich bei Cessner, 1756; Biblioteca M de A.). <br \/>\n    LAVIGNAC, Albert &#8211; Voyage artistique &agrave; Bayreuth. \\8&#8242;- ed. Paris, Ch.<br \/>\n    Delagrave. (1897). (Biblioteca M. de A.). <br \/>\n    LOPEZ Tel&ecirc; Porto Ancona &#8212; &quot;Arlequim e modernidade&quot;.<br \/>\n    Revista do IEB, n&ordm; 21. S&atilde;o Paulo, 1979, p. 85-100. <br \/>\n    NEWMAN Ernest &#8212; Hist&oacute;ria das grandes &oacute;peras e seus compositores,<br \/>\n    v. 1. Trad. de Ant&ocirc;nio Ruas. Porto Alegre. Globo, 1943. (Biblioteca<br \/>\n    M. de A.).<br \/>\n    NIETZCHE, Fr&eacute;deric &#8211; L&#8217;origine de la trag&eacute;die ou Hell&eacute;nisme<br \/>\n    et pessimisme.Trad.de Jean Manold e Jacques Morland. 9&ordf; ed. Paris, Mercure<br \/>\n    de France s\/d. (Biblioteca M. de A.). <br \/>\n    PINTUS, Kurt &#8212; Mancheits D&auml;mmerung; Symphonie J&uuml;ngster Dichturg.<br \/>\n    Berlin, brnest<br \/>\n    Rewohlt, 1920. (Biblioteca M. de A.). <br \/>\n    PLAT&Atilde;O &#8211; &quot;O banquete&quot;. In: Di&aacute;logos &#8211; v. 1, 5&ordf;<br \/>\n    ed. Trad. Jorge Paleikat. Porto Alegre.<br \/>\n    Globo, 1962. <br \/>\n    RAMOS, Maria Lu&iacute;sa &#8211; &quot;O latente manisfesto&quot;. Ensaios de Semi&oacute;tica:<br \/>\n    Cadernos de Ling&uuml;&iacute;stica e Teoria da Literatura, n&deg; 2. Belo<br \/>\n    Horizonte, FALE\/UFMG, 19\/y. <br \/>\n    IDEM &#8212; &quot;Presen&ccedil;a de Pen&eacute;lope&quot;. In: Memorial.<br \/>\n    Belo Horizonte, UFMG, 1980 (xerox). <br \/>\n    SAIN-PIERRE Bernardin de e Gessner &#8211; Paul et Virginie &#8211; La chaumi&egrave;re<br \/>\n    indienne et te caf&eacute; de Surate &#8211; Florian &#8212; Galat&eacute;e, Estelle<br \/>\n    et ses douze nouvelles -Choix de ses idylles. Paris, Firmier Didot Fr&egrave;res<br \/>\n    et Cie., 1836. <br \/>\n    SCHNITZLER, Arthur &#8212; Casanova Heimfart. Frankfurt, Fischer, 1950. IDEM<br \/>\n    _ Morir. Trad. de Alberto Fios. Madrid, Biblioteca Nueva, s\/d. (Biblioteca<br \/>\n    M. de A.). <br \/>\n    SIEVERS, Lotte &#8211; Depoimento sem t&iacute;tulo. Alia arriba, ns38, especial<br \/>\n    sobre M&aacute;rio de Andrade. S&atilde;o Paulo, 1957, p. 10. <br \/>\n    SIM&Otilde;ES, Neusa Quirino &#8211; Estudando a Margin&aacute;lia: M&aacute;rio<br \/>\n    de Andrade e a fic&ccedil;&atilde;o brasileira: 1920-1944. S&atilde;o Paulo,<br \/>\n    FFLCH-USP, 1980. (disserta&ccedil;&atilde;o de mestrado &#8212; xerox). <br \/>\n    SOUZA, Gilda de Mello e &#8212; O tupi e o ala&uacute;de: Uma interpreta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Macuna&iacute;ma. S&atilde;o<br \/>\n    Paulo, Duas Cidades, 1980.<br \/>\n    WAGNER, Richard &#8211; Das Reingold. Voranbend zum B&uuml;hnenfestspiel der Ring<br \/>\n    des belungen; m&iacute;t Angabe der Leitmotive, der f&uuml;hrenden Orchesterinstrumente<br \/>\n    inebst den leit-motiven in Noten ais Anhang. Leipzig, Breitkopf &amp; Hartel,<br \/>\n    1882.<\/p>\n<h3>Id&iacute;lio<\/h3>\n<h4><a name=\"8\" id=\"8\">A meu Irm&atilde;o <\/a><\/h4>\n<p> A porta do quarto se abriu e eles sa&iacute;ram no corredor. Cal&ccedil;ando<br \/>\n    as luvas Sousa Costa largou por despedida:<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; frio.<\/p>\n<p> Ela muito correta e simples:<\/p>\n<p> &#8212; Estes fins de inverno s&atilde;o perigosos em S&atilde;o Paulo.<\/p>\n<p> Lembrando mais uma coisa reteve a m&atilde;o de adeus que o outro lhe estendia<\/p>\n<p> &#8212; E, senhor&#8230; sua esposa? est&aacute; avisada?<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o! A senhorita compreende&#8230; ela &eacute; m&atilde;e. Esta<br \/>\n    nossa educa&ccedil;&atilde;o brasileira&#8230; Al&eacute;m do mais com tr&ecirc;s<br \/>\n    meninas em casa!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Pe&ccedil;o-lhe que avise sua esposa, senhor. N&atilde;o posso compreender<br \/>\n    tantos mist&eacute;rios. Se &eacute; para bem do rapaz.<\/p>\n<p> &#8212; Mas senhorita&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Desculpe insistir. &Eacute; preciso avis&aacute;-la. N&atilde;o<br \/>\n    me agradaria ser tomada por aventureira, sou s&eacute;ria. E tenho 35 anos,<br \/>\n    senhor. Certamente n&atilde;o irei se sua esposa n&atilde;o souber o que vou<br \/>\n    fazer l&aacute;. Tenho a profiss&atilde;o que uma fraqueza me permitiu exercer,<br \/>\n    nada mais nada menos. &Eacute; uma profiss&atilde;o.<\/p>\n<p> Falava com a voz mais natural desse mundo, mesmo com certo orgulho que Sousa<br \/>\n    Costa percebeu sem compreender. Olhou pra ela admirado e, jurando n&atilde;o<br \/>\n    falar nada &agrave; mulher, prometeu.<\/p>\n<p> Elza viu ele abrir a porta da pens&atilde;o, P&acirc;am.., Entrou de novo<br \/>\n    no quartinho ainda agitado pela presen&ccedil;a do estranho. Lhe deu,um olhar<br \/>\n    de confian&ccedil;a. Tudo foi sossegando pouco a pouco. Penca de livros sobre<br \/>\n    a escrivaninha, um piano. O retrato de Wagner. O retrato de Bismarck.<\/p>\n<p> Ter&ccedil;a-feira o t&aacute;xi parou no port&atilde;o da Vila Laura. Elza<br \/>\n    apeou ajeitando o casaco, toda de pardo, enquanto o motorista botava as duas<br \/>\n    malas, as caixas e embrulhos no ch&atilde;o.<\/p>\n<p> Era esperada. J&aacute; carregavam as malas pra dentro. Uns olhos de 12<br \/>\n    anos em que uma gaforinha americana enroscava a galharia negro-azul apareceu<br \/>\n    na porta. E no sil&ecirc;ncio pomposo do cas&atilde;o o xilofone tiniu:<\/p>\n<p> &#8212; A governanta est&aacute; a&iacute;! Mam&atilde;e! a governanta est&aacute;<br \/>\n    a&iacute;!<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; sei, menina! N&atilde;o grite assim!<\/p>\n<p> Elza discutia o pre&ccedil;o da corrida.<\/p>\n<p> &#8212;&#8230; e com tantas malas, a senhora&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; muito. Aqui est&atilde;o cinco. Passe bem. Ah, a gorjeta&#8230;<\/p>\n<p> Deitou quinhentos r&eacute;is na m&atilde;o do motorista. Atravessou as<br \/>\n    roseiras festivas do jardim.<\/p>\n<p> Dia primeiro ou dois de setembro, n&atilde;o lembro mais. Por&eacute;m &eacute;<br \/>\n    f&aacute;cil de saber por causa da ter&ccedil;a-feira.<\/p>\n<p> Bem diferente dos quartinhos de pens&atilde;o&#8230; Alegre, espa&ccedil;oso.<br \/>\n    Pelas duas janelas escancaradas entrava a serenidade rica dos jardins. O olhar<br \/>\n    torcendo para a esquerda seguia a disciplinada carreira das &aacute;rvores<br \/>\n    na avenida. Em Higien&oacute;polis os bondes passam com bulha quase grave<br \/>\n    soberbosa, macaqueando o bem-estar dos autos particulares. &Eacute; o mimetismo<br \/>\n    arisco e ir&ocirc;nico das coisas ditas inanimadas. S&atilde;o bondes que<br \/>\n    nem badalam. Procedem como o rico-de-repente que no ch&aacute; da senhora<br \/>\n    Tal, fam&iacute;lia campineira de sangue, adquire na epiderme do fraque a<br \/>\n    macieza dos tradicionais e cruza as m&atilde;os nas costas &#8212; que import&acirc;ncia!<br \/>\n    &#8212; pra que a gente n&atilde;o repare na grossura dos dedos, no quadrado<br \/>\n    das unhas chatas. Neto de Borbas me secunda desdenhoso que badalo e m&atilde;os<br \/>\n    &aacute;speras nem por isso deixam de existir, ora! o badalo pode n&atilde;o<br \/>\n    tocar e m&atilde;os se enluvam.<\/p>\n<p> Elza trouxe de novo os olhos de fora. O criado japon&ecirc;s botara as malas<br \/>\n    bem no meio do vazio. Est&uacute;pidas assim. As caixas, os embrulhos perturbavam<br \/>\n    as retas leg&iacute;timas.<\/p>\n<p> A mo&ccedil;a depois das cortesias trocadas com a senhora Sousa Costa e<br \/>\n    um naco de conversa indiferente, subira apenas pra tirar o chap&eacute;u.<br \/>\n    Logo o criado viria cham&aacute;-la pro almo&ccedil;o&#8230; Acalmava depois aquilo,<br \/>\n    agora tinha de se arranjar. Alisou os cabelos, deu &agrave; gola da blusa,<br \/>\n    &agrave;s pregas do casaco uma rijeza militar. Nenhuma faceirice por enquanto.<br \/>\n    No princ&iacute;pio tinha de ser simples. Simples e insexual. O amor nasce<br \/>\n    das excel&ecirc;ncias interiores. Espirituais, pensava. O desejo depois. Quando<br \/>\n    pronta, esperou imaginando, encostada no lavat&oacute;rio. Ganhava mais oito<br \/>\n    contos&#8230; Se o estado da Alemanha melhorasse, mais um ou dois servi&ccedil;os<br \/>\n    e podia partir. E a casinha sossegada&#8230; Rendimento certo, casava&#8230; O vulto<br \/>\n    ideal, esculpido com o pensamento de anos, atravessou devagarinho a mem&oacute;ria<br \/>\n    dela. Comprido magro&#8230; Apenas curvado pelo prolongamento dos estudos&#8230; Cient&iacute;ficos.<br \/>\n    Muito alvo, quase transparente&#8230; E a mancha irregular do sangue nas ma&ccedil;&atilde;s&#8230;<br \/>\n    &Oacute;culos sem aro&#8230;<\/p>\n<p> Se impacientou. Quis pensar pr&aacute;tico, e o almo&ccedil;o? Porque o<br \/>\n    criado n&atilde;o chegava? A senhora Sousa Costa avisara que o almo&ccedil;o<br \/>\n    era j&aacute;. Devia de ser j&aacute;. No entanto esperava fazia bem uns quinze<br \/>\n    minutos, que irregularidade. Olhou o rel&oacute;gio-pulseira. Marcava aluado<br \/>\n    como sempre, ponhamos seis horas. Ou dezoito, &agrave; escolha. Havia de acert&aacute;-lo<br \/>\n    outra vez quando chegasse em baixo no hol. Dez vezes, cem vezes. In&uacute;til<br \/>\n    mand&aacute;-lo mais ao relojoeiro, mal sem cura. Em todo o caso sempre era<br \/>\n    rel&oacute;gio. Por&eacute;m n&atilde;o teriam hora certa de almo&ccedil;ar<br \/>\n    naquela casa? Olhou pro c&eacute;u. Ficou assim.<\/p>\n<p> O pequeno corredor de que o quarto dela era a &uacute;ltima porta, dava<br \/>\n    pra sala central. De l&aacute; vinham as flautas e os tico-ticos. Parava a<br \/>\n    m&uacute;sica. A bulha dos passinhos arranhava o corredor. De repente fogefugia<br \/>\n    assustado sem motivo colibri. Plequeleque, pleque&#8230; pleque&#8230;<\/p>\n<p> Causava aqueles atropelos&#8230;Nem sorriu. As crian&ccedil;as desta casa s&atilde;o<br \/>\n    curiosas. Pensou em sair do quarto, indagar. N&atilde;o que tivesse fome,<br \/>\n    por&eacute;m era hora do almo&ccedil;o, a senhora Sousa Costa afirmara que<br \/>\n    o almo&ccedil;o era j&aacute;. M&atilde;ozinha tamborilando no m&aacute;rmore.<br \/>\n    Depois olhou as unhas. Repuxava uma pele mais saliente.<\/p>\n<p> &#8212; Mam&atilde;e! Mam&atilde;e! olhe Carlos!<\/p>\n<p> O menino agarrara a irm&atilde; na boca do corredor. Brincalh&atilde;o,<br \/>\n    bem disposto como sempre. E machucador. Por&eacute;m n&atilde;o fazia de prop&oacute;sito,<br \/>\n    ia brincar e machucava. Cingia Maria Lu&iacute;sa com os bra&ccedil;os fortes,<br \/>\n    empurrava-a com o peito, cantarolando bamboleado no picadinho. Ela se debatia,<br \/>\n    danando por se ver t&atilde;o mais fraca. Empurrada sacudida revirada. &quot;Tatu<br \/>\n    subiu no pau&quot;&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mam&atilde;e! Me largue, Carlos! Me laargue! <\/p>\n<p> Sacudida revirada, tiririca, socos.<\/p>\n<p> &#8212;&#8230;&quot;Lagarto lagartixa <\/p>\n<p> Isso sim &eacute; que pode ser&quot;. <\/p>\n<p> Empurrada sacudida.<\/p>\n<p> &#8212; Mam&atilde;e !&#8230;<\/p>\n<p> A carne rija dele recebia os socos, deliciada. S&oacute; protegia a cara<br \/>\n    erguendo-a pro alto, de lado. Podia bater at&eacute; no est&ocirc;mago se<br \/>\n    quisesse ! J&aacute; praticava boxe. &quot;Tatu subiu&#8230;&quot;<\/p>\n<p> Dona Laura em baixo:<\/p>\n<p> &#8212; Que &eacute; isso, meninos! Carlos ! &ocirc;h Carlos ! Des&ccedil;a<br \/>\n    j&aacute;!<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o estou fazendo nada, mam&atilde;e ! Tamb&eacute;m n&atilde;o<br \/>\n    posso dan&ccedil;ar um poucadinho!<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute;! me sacudiu toda!&#8230; Bruto!<\/p>\n<p> &#8212; Estava ensinando o shimmy pra ela, mam&atilde;e! Voc&ecirc; n&atilde;o<br \/>\n    viu a Beb&ecirc; Daniels?<\/p>\n<p> &#8212; Mas eu n&atilde;o sou Beb&ecirc; Daniels!<\/p>\n<p> &#8212; Mas eu quero que seja!<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o sou e n&atilde;o sou, pronto! Mam&atilde;e!<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Tatu sub&#8230;&quot;<\/p>\n<p> &#8212; Me largue! Bruto bruto!<\/p>\n<p> Elza desembocara na sala. Carlos vendo a desconhecida, largou Maria Lu&iacute;sa<br \/>\n    e encabulou. Pra disfar&ccedil;ar carregou a irm&atilde;zinha menor. Machucou.<br \/>\n    Flautim:<\/p>\n<p> &#8212; Mam&atilde;e! Mam&atilde;e!<\/p>\n<p> Se rindo do chuvisco dos tapinhas, carregando a irm&atilde; no bra&ccedil;o<br \/>\n    esquerdo Carlos ofereceu a m&atilde;o livre &agrave; mo&ccedil;a. Voz paulista,<br \/>\n    certa de chegar no fim da frase. Olhos francos investigando.<\/p>\n<p> &#8212; Bom dia. A senhora &eacute; a governanta, &eacute;? Ela sorriu,<br \/>\n    escondendo a irrita&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Sou.<\/p>\n<p> Mas Aldinha achando de jeito a m&atilde;o que Carlos trouxera pra resguardo<br \/>\n    do rosto, mordeu.<\/p>\n<p> &#8212; Viu s&oacute;! Mam&atilde;e! Aldinha me deu uma dentada!<\/p>\n<p> &#8212; Meu Deus! inda enlouque&ccedil;o com essas crian&ccedil;as!<\/p>\n<p> &#8212; Tirou sangue! Olhe a&iacute; o que voc&ecirc; fez, sua gatinha!<\/p>\n<p> &#8212; Carlos, voc&ecirc; n&atilde;o me ouve! Olhem que eu subo! Dona Laura<br \/>\n    nunca subiria a escada outra vez.<\/p>\n<p> &#8212; Mam&atilde;e&#8230; foi ele que me machucou! j&aacute; chorosa.<\/p>\n<p> &#8212; Voc&ecirc;s n&atilde;o ouvem sua m&atilde;e chamar! Des&ccedil;am<br \/>\n    j&aacute;!<\/p>\n<p> Era a clave de f&aacute; de Sousa Costa. Bar&iacute;tono enfarado, de quem<br \/>\n    n&atilde;o gosta de se amolar nem passar pitos.<\/p>\n<p> Elza consolava a pecurrucha, com meriguice emprestada N&atilde;o sabia ter<br \/>\n    meiguice. Mais quest&atilde;o de temperamento que de ra&ccedil;a, n&atilde;o<br \/>\n    me venham dizer que os alem&atilde;es s&atilde;o r&iacute;spidos. Tolice!<br \/>\n    conheci.<\/p>\n<p> Carlos descia a escada rindo. Se explicava. Limpava o sangue na outra m&atilde;o,<br \/>\n    esfregando a mordida. Era exagero s&oacute; pra evitar pito maior. Elza viu<br \/>\n    ele descer equilibrado, brincando com os degraus. Aquele &quot;A senhora &eacute;<br \/>\n    a governanta&#8230;&#8221; Percebeu que o menino era um forte.<\/p>\n<p> Machucador apenas.<\/p>\n<p> Ali pela boca da noite o viver da casa j&aacute; estava reorganizado e velho,<br \/>\n    mesma coisa de antes resvalando para a mesma coisa de em seguida. Isto n&atilde;o<br \/>\n    sei se &eacute; bem se &eacute; mal, mas a culpa &eacute; toda de Elza. Isto<br \/>\n    sei e afirmo. Se n&atilde;o fosse a mo&ccedil;a, dona Laura levaria um dil&uacute;vio<br \/>\n    de manh&atilde;s pra se acomodar com a situa&ccedil;&atilde;o nova. Sousa<br \/>\n    Costa inda por vinte jantas teria a surpresa desagrad&aacute;vel duma intrometida<br \/>\n    lhe roubando as anedotas de fam&iacute;lia. Elza por&eacute;m desde o primeiro<br \/>\n    instante se apresentara t&atilde;o conhecida, t&atilde;o trilhada e de ontem!<br \/>\n    O desembara&ccedil;o era premeditado n&atilde;o tem d&uacute;vida, mas lhe<br \/>\n    sa&iacute;a natural e discreto. Isto se descontaria dentre as facilidades<br \/>\n    das ra&ccedil;as superiores&#8230; Por&eacute;m tal raz&atilde;o &eacute; assuntar<br \/>\n    apenas a epiderme da experi&ecirc;ncia. Antes, estou disposto a reconhecer<br \/>\n    nela essa faculdade pr&aacute;tica de adapta&ccedil;&atilde;o dos alem&atilde;es<br \/>\n    em terra estranha.<\/p>\n<p> Imediatamente se apossara dos deveres pr&oacute;prios e se colocara na posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    exata. O come&ccedil;o dela &eacute; de quem recome&ccedil;a. Voc&ecirc; repare<br \/>\n    no filho, na mulher que voltam dos quinze dias de fazenda ou Caxambu. Abra&ccedil;os,<br \/>\n    forrobod&oacute; festivo, admira&ccedil;&atilde;o premeditada. &quot;Voc&ecirc;<br \/>\n    est&aacute; bem mais gordo!&quot; Alegrias. Depois a gente troca as novidades.<br \/>\n    Depois a mesma coisa recome&ccedil;a, o polvo readquire o tent&aacute;culo<br \/>\n    que faltava. Com a mesma naturalidade quotidiana pratica o destino dele: prover<br \/>\n    e vogar. Sobe &agrave; tona da vida ou desce porta a dentro, na profundeza<br \/>\n    marinha. Profundeza eminentemente respeit&aacute;vel e secreta. Quanto &agrave;<br \/>\n    tona da vida, j&aacute; se conhece bem a fotografia: A m&atilde;e est&aacute;<br \/>\n    sentada com a fam&iacute;lia menorzinha no colo. O pai de p&eacute; descansa<br \/>\n    protetoramente no ombro dela a m&atilde;o honrada. Em torno se arranjaram<br \/>\n    os barrigudinhos. A disposi&ccedil;&atilde;o pode variar, mas o conceito continua<br \/>\n    o mesmo. V&aacute;ria disposi&ccedil;&atilde;o demonstra unicamente o progresso<br \/>\n    que nestes tempos de agora fizeram os fot&oacute;grafos norte-americanos.<br \/>\n    Elza &eacute; filho chegando do s&iacute;tio ou m&atilde;e que volta de Caxambu.<br \/>\n    Membro que faltava e de novo cresce. Come&ccedil;ara como quem recome&ccedil;a<br \/>\n    e a tranq&uuml;ilidade aplainou logo a exist&ecirc;ncia dos Sousa Costas,<br \/>\n    extraindo as &uacute;ltimas lascas da desordem, polindo os engruvinhamentos<br \/>\n    do imprevisto.<\/p>\n<p> Mesmo para as meninas, tr&ecirc;s: Maria Lu&iacute;sa com doze anos, Laurita<br \/>\n    com sete, Aldinha com cinco, Elza j&aacute; dera completo conhecimento de<br \/>\n    si estrangulando a curiosidade delas. J&aacute; determinara as horas de li&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Maria Lu&iacute;sa e Carlos. J&aacute; dispusera os vestidos, os chap&eacute;us<br \/>\n    e os sapatos na guarda-roupa. No jardim, fizera as meninas pronunciarem muitas<br \/>\n    vezes Fr&auml;ulein. Assim deviam lhe chamar.<\/p>\n<p> &quot;Fr&auml;ulein&quot; era pras pequenas a defini&ccedil;&atilde;o daquela<br \/>\n    mo&ccedil;a&#8230; antip&aacute;tica? N&atilde;o. Nem antip&aacute;tica nem simp&aacute;tica:<br \/>\n    elemento. Mecanismo novo da casa. Mal imaginam por enquanto que ser&aacute;<br \/>\n    o ponteiro do rel&oacute;gio familiar.<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein&#8230; nome esquisito! nunca vi! Que bonitas assombra&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    havia de gerar na imagina&ccedil;&atilde;o das crian&ccedil;as! Era s&oacute;<br \/>\n    deixar ele descansar um pouco na ramaria baralhada, mesmo inda com poucas<br \/>\n    folhas, das associa&ccedil;&otilde;es infantis, que nem semente que dorme<br \/>\n    os primeiros tempos e espera. Ent&atilde;o espigaria em brotos fant&aacute;sticos,<br \/>\n    floradas maravilhosas como nunca ningu&eacute;m viu. Por&eacute;m as crian&ccedil;as<br \/>\n    nada mais enxergariam entre as asas daquela mosca azul&#8230; Elza lhes fizera<br \/>\n    repetir muitas vezes, vezes por demais a palavra! Metodicamente a dissecara.<br \/>\n    &quot;Fr&auml;ulein&quot; significava s&oacute; isto e n&atilde;o outra coisa.<br \/>\n    E elas perderam todo gosto com a repeti&ccedil;&atilde;o. A mosca sucumbira,<br \/>\n    rota, nojenta, vil. E ba&ccedil;a.<\/p>\n<p> Talqual o substantivo, Elza se mostrara no seu eu vis&iacute;vel e poss&iacute;vel.<br \/>\n    No seu eu pass&iacute;vel de entendimento infantil. Que infantil! humano universal<br \/>\n    devo escrever. Malvada! Cerceara os galopes da cria&ccedil;&atilde;o imaginativa,<br \/>\n    iluminara de sol cru as sombras do mist&eacute;rio. Que-d&ecirc; os elfos<br \/>\n    da Floresta Negra? as ondinas sonorosas do Vater Rhein? A gente percebia muito<br \/>\n    bem as cordas que elevavam a protagonista no ar. O p&uacute;blico n&atilde;o<br \/>\n    aplaudiu.<\/p>\n<p> As crian&ccedil;as lhe chamariam sempre Fr&auml;ulein&#8230; Fr&auml;ulein queria<br \/>\n    dizer mo&ccedil;a? Qual mo&ccedil;a nem virgem! Fr&auml;ulein era Elza. Elza<br \/>\n    era a governanta Professora. Regrava passeios sempre curtos, batia as horas<br \/>\n    das li&ccedil;&otilde;es sempre compridas. Como &eacute; que o p&uacute;blico<br \/>\n    podia se interessar por uma fita dessas! N&atilde;o aplaudiu. Com outras palavras<br \/>\n    mais bonitas, assim pensou mais tarde Maria Lu&iacute;sa Sousa Costa, herdeira<br \/>\n    de fazendas, grave.<\/p>\n<p> &#8212; Como ela est&aacute; ficando parecida com a senhora, dona Laura!<\/p>\n<p> &#8212; Acha!&#8230;<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o tem d&uacute;vida: isto da vida continuar igualzinha, embora<br \/>\n    nova e diversa, &eacute; um mal. Mal de alem&atilde;es. O alem&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    tem escapadas nem imprevistos. A surpresa, o in&eacute;dito da vida &eacute;<br \/>\n    pra ele uma continuidade a continuar. Diante da natureza n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    assim. Diante da vida &eacute; assim. Decis&atilde;o. Viajaremos hoje. O latino<br \/>\n    falar&aacute;: Viajaremos hoje! O alem&atilde;o fala: Viajaremos hoje. Ponto<br \/>\n    final. Pontos-de-exclama&ccedil;&atilde;o&#8230; &Eacute; preciso exclamar pra<br \/>\n    que a realidade n&atilde;o canse&#8230;<\/p>\n<p> Sousa Costa usava bigodes onde a brilhantina indiscreta suava negrores n&iacute;tidos.<br \/>\n    Ali&aacute;s todo ele era um cuit&eacute; de brilhantinas simb&oacute;licas,<br \/>\n    uma graxa m&ocirc;nada sensitiva e cuidadoso de sua pessoa. N&atilde;o esquecia<br \/>\n    nunca o cheiro no len&ccedil;o. Vinha de portugueses. Perfeitamente. E de<br \/>\n    Cam&otilde;es herdara ser femeeiro irredut&iacute;vel.<\/p>\n<p> Em tempos de calor&atilde;o surgiam nos cabelos negros de dona Laura uma;<br \/>\n    ondula&ccedil;&otilde;es suspeitas. Usava penteadores e vestidos de seda muito<br \/>\n    largos Apenas um gesto e aqueles panos e rendas e vidrilhos despencavam pra<br \/>\n    uma banda afligindo a gente. Meia malacabada. Era maior que o marido, era.<br \/>\n    Lhe permitira aumentar as fabricas de tecidos no Br&aacute;s e se dedicar<br \/>\n    por desfastio &agrave; cria&ccedil;&atilde;o do gado caracu.<\/p>\n<p> Nas noites espa&ccedil;adas em que Sousa Costa se aproximava da mulher,<br \/>\n    ele tomava sempre o cuidado de n&atilde;o mostrar jeitos e saben&ccedil;as<br \/>\n    adquiridos l&aacute; em baixo no vale. No vale do Anhangaba&uacute;? &Eacute;.<br \/>\n    Dona Laura comprazia com prazer o marido. Com prazer? Cansada. Entre ambos<br \/>\n    se firmara tacitamente e bem cedo uma conven&ccedil;&atilde;o honesta: nunca<br \/>\n    jamais ele trouxera do vale um fio louro no palet&oacute; nem aromas que j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o fossem pessoais. Ou ent&atilde;o aromas c&iacute;vicos. Dona Laura<br \/>\n    por sua vez fingia ignorar as navega&ccedil;&otilde;es do Pedro &Aacute;lvares<br \/>\n    Cabral. Conven&ccedil;&atilde;o honesta se quiserem&#8230; N&atilde;o seria talvez<br \/>\n    a precis&atilde;o interior de sossego?&#8230; Parece que sim. Afirmo que n&atilde;o.<br \/>\n    Ah! ningu&eacute;m o saber&aacute; jamais!.. 1 E quem diria que Sousa Costa<br \/>\n    n&atilde;o era bom marido? era sim. Fora t&atilde;o nu de preconceitos at&eacute;<br \/>\n    casar sem por reparo nas ondas suspeitas dos cabelos da noiva. E bem me lembro<br \/>\n    que ficaram noivos em tempo de calor&atilde;o&#8230; Dona Laura retribu&iacute;a<br \/>\n    a confian&ccedil;a do marido, esquecendo por sua vez que bigodes abastosos<br \/>\n    e brilhantinados t&atilde;o suspeitos tamb&eacute;m. Sentia agora eles trepadeirando<br \/>\n    pelo bra&ccedil;o gelatinoso dela e, meia dormindo, se ajeitando:<\/p>\n<p> &#8212; Vendeu o touro?<\/p>\n<p> &#8212; Resolvi n&atilde;o vender. &Eacute; muito bom reprodutor. <\/p>\n<p> Dormiam.<\/p>\n<p> Quando Carlos nasceu batizaram-no, pois n&atilde;o. As meninas iam nas missas<br \/>\n    de domingo, se era manh&atilde; de sol, o passeio at&eacute; fazia bem&#8230;<br \/>\n    Com nove anos mais ou menos recebiam a primeira comunh&atilde;o. Dona Laura<br \/>\n    mandava lhes ensinar o catecismo por uma parenta pobre, muito religiosa, coitada!<br \/>\n    catequista em Santa Cec&iacute;lia. Dona Laura usava uma cruz de brilhantes<br \/>\n    que o marido dera pra ela no primeiro anivers&aacute;rio de casamento. Era<br \/>\n    uma fam&iacute;lia cat&oacute;lica. Nas festas principais da casa vinha Monsenhor.<\/p>\n<p> Carlos abaixou o rosto, brincabrincando com a p&aacute;gina:<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o sei&#8230; Papai quer que eu estude Direito&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E voc&ecirc; n&atilde;o gosta de Direito?<\/p>\n<p> &#8212;N&atilde;o gosto nem desgosto, mas pra que? Ele j&aacute; falou uma<br \/>\n    vez que quando eu fizer vinte e um anos me d&aacute; uma fazenda pra mim&#8230;<br \/>\n    Ent&atilde;o pra que Direito!<\/p>\n<p> &#8212; Quantos anos voc&ecirc; tem? <\/p>\n<p> &#8212;&#8230; fazer dezasseis.<\/p>\n<p> &#8212; Ich bin sechzehn lahre alt. <\/p>\n<p> Carlos repetiu encabulado.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o. Pronuncie melhor. N&atilde;o abra assim as vogais. &Eacute;<br \/>\n    sechzehn.<\/p>\n<p> &#8212; Sechzehn.<\/p>\n<p> &#8212; Isso. Repita agora a frase inteira.<\/p>\n<p> &#8212; Em ingl&ecirc;s eu sei bem! I&#8217;m sixteen years old!<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein escondeu o movimento de impaci&ecirc;ncia. N&atilde;o conseguia<br \/>\n    prender a aten&ccedil;&atilde;o do menino. O ingl&ecirc;s e o franc&ecirc;s<br \/>\n    eram familiares j&aacute; pra ele. Principalmente o ingl&ecirc;s de que tinha<br \/>\n    aulas di&aacute;rias desde nove anos. Mas alem&atilde;o&#8230; J&aacute; cinco<br \/>\n    li&ccedil;&otilde;es e n&atilde;o decorara uma palavrinha s&oacute;, burrice?<br \/>\n    Nesta aula que acabava Fr&auml;ulein j&aacute; fora obrigada a repetir tr&ecirc;s<br \/>\n    vezes que irm&atilde; era Schwester. Carlos aluado. As palavras alem&atilde;s<br \/>\n    lhe fugiam da mem&oacute;ria, assustadi&ccedil;as, num tilintar de consoantes<br \/>\n    agrupadas. Pra salvar a vaidade respondia em ingl&ecirc;s. Machucava a professora,<br \/>\n    lhe dando uns ci&uacute;mes inconscientes. Por&eacute;m Fr&auml;ulein se esconde<br \/>\n    num sorriso:<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o fa&ccedil;a assim. Ich bin sechzehn lahre alt, repita.<br \/>\n    S&oacute; mais uma vez. Carlos repetiu molemente. A hora acabava. Se livrar<br \/>\n    daquela biblioteca!&#8230; Encontraram Maria Lu&iacute;sa no hol. Carlos parou<br \/>\n    pernas fincadas, peitaria ressaltada, impedindo a passagem da irm&atilde;.<\/p>\n<p> &#8212; Mam&atilde;e! venha ver Carlos! <\/p>\n<p> Fr&auml;ulein puxava-o pela m&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Carlos, j&aacute; come&ccedil;a&#8230;<\/p>\n<p> Segurava-o com do&ccedil;ura, se rindo. Ele deu aquele risinho curto. Desapontava<br \/>\n    sempre. Ao menos desenhava no jeito a apar&ecirc;ncia do desapontamento. Nenhuma<br \/>\n    timidez por&eacute;m, muito menos ainda a desconfian&ccedil;a de si mesmo.<br \/>\n    Desapontava no sorriso horizontal, mostrando a f&iacute;mbria dos dentes grandalh&otilde;es<br \/>\n    irregulares. Desapontava no olhar, pondo olheiras na face com a sombra larga<br \/>\n    das pestanas.<\/p>\n<p> Agora estava muito encafifado por causa da munheca presa entre as m&atilde;os<br \/>\n    da mo&ccedil;a. Se desvencilhava aos poucos. Ela forcejou<\/p>\n<p> &#8212; Voc&ecirc; n&atilde;o &eacute; mais forte que eu!<\/p>\n<p> &#8212; Sooooou! um minuto durou o indicativo presente. E foi um brinquedinho<br \/>\n    se livrar. Sem aspereza. Subiu a escada pulando de quatro em quatro degraus.<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein ficou im&oacute;vel. Deliciosamente batida.<\/p>\n<p> N&atilde;o vejo raz&atilde;o pra me chamarem vaidoso se imagino que o meu<br \/>\n    livro tem neste momento cinq&uuml;enta leitores. Comigo 51. Ningu&eacute;m<br \/>\n    duvide: esse um que l&ecirc; com mais compreens&atilde;o e entusiasmo um escrito<br \/>\n    &eacute; autor dele. Quem cria, v&ecirc; sempre uma Lind&oacute;ia na criatura,<br \/>\n    embora as &iacute;ndias sejam pan&ccedil;udas e ramelentas. Volto a afirmar<br \/>\n    que o meu livro tem 50 leitores. Comigo 51. N&atilde;o &eacute; muito n&atilde;o.<br \/>\n    Cinq&uuml;enta exemplares distribu&iacute; com dedicat&oacute;rias gentil&iacute;ssimas.<br \/>\n    Ora dentre cinq&uuml;enta presenteados, n&atilde;o tem exagero algum supor<br \/>\n    que ao menos 5 h&atilde;o de ler o livro. Cinco leitores. Tenho, salvo omiss&atilde;o,<br \/>\n    45 inimigos. Esses ler&atilde;o meu livro, juro. E a lota&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do bonde se completa. Pois toquemos para avenida Higien&oacute;polis!<\/p>\n<p> Se este livro conta 51 leitores sucede que neste lugar da leitura j&aacute;<br \/>\n    existem 51 Elzas. &Eacute; bem desagrad&aacute;vel, mas logo depois da primeira<br \/>\n    cena cada um tinha a Fr&auml;ulein dele na imagina&ccedil;&atilde;o. Contra<br \/>\n    isso n&atilde;o posso nada e teria sido indiscreto se antes de qualquer familiaridade<br \/>\n    com a mo&ccedil;a, a minuciasse em todos os seus pormenores f&iacute;sicos,<br \/>\n    n&atilde;o fa&ccedil;o isso. Outro mal apareceu: cada um criou Fr&auml;ulein<br \/>\n    segundo a pr&oacute;pria fantasia, e temos atualmente 51 hero&iacute;nas pra<br \/>\n    um s&oacute; id&iacute;lio. 51, com a minha, que tamb&eacute;m vale. Vale,<br \/>\n    por&eacute;m n&atilde;o tenho a m&iacute;nima inten&ccedil;&atilde;o de exigir<br \/>\n    dos leitores o abandono de suas Elzas e impor a minha como &uacute;nica de<br \/>\n    exist&ecirc;ncia real. O leitor continuar&aacute; com a dele. Apenas por curiosidade,<br \/>\n    vamos cotej&aacute;-las agora. Pra isso mostro a minha nos 35 atuais janeiros<br \/>\n    dela.<\/p>\n<p> Se n&atilde;o fosse a luz excessiva, dir&iacute;amos a Betsab&ecirc;, de<br \/>\n    Rembrandt. N&atilde;o a do banho que traz bracelete e colar, a outra, a da<br \/>\n    Toilette, mais magrinha, tra&ccedil;os mais regulares.<\/p>\n<p> N&atilde;o &eacute; cl&aacute;ssico nem perfeito o corpo da minha Fr&auml;ulein.<br \/>\n    Pouco maior que a m&eacute;dia dos corpos de mulher. E cheio nas suas partes.<br \/>\n    Isso o torna pesado e bastante sensual. Longe por&eacute;m daquele peso divino<br \/>\n    dos nus renascentes italianos ou daquela sensualidade das figuras de Scopas<br \/>\n    e Leucipo. Isso: Rembrandt quase Cranach. Nenhuma espiritualidade. Indiferente<br \/>\n    burguesice.<\/p>\n<p> Casasse com ela mais cedo, o marido veria no fim da vida a terra e os cobres<br \/>\n    repartidos entre 21 generaizinhos infelizes. Disse 21 porque me lembrei agora<br \/>\n    da filharada de Jo&atilde;o Sebasti&atilde;o Bach. Generaizinhos porque me<br \/>\n    lembrei do fim de Alexandre Magno. E infelizes! Ora porque qualifiquei os<br \/>\n    21 generaizinhos de infelizes!&#8230; pessimismo! amargura! ah&#8230;<\/p>\n<p> Isso do corpo de Fr&auml;ulein n&atilde;o ser perfeito, em nada enfraquece<br \/>\n    a hist&oacute;ria. Lhe d&aacute; mesmo certa honestidade espiritual e n&atilde;o<br \/>\n    provoca sonhos. E ali&aacute;s, se renascente e perfeito, o id&iacute;lio<br \/>\n    seria o mesmo.<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein n&atilde;o &eacute; bonita, n&atilde;o. Por&eacute;m tra&ccedil;os<br \/>\n    muito regulares, coloridos de cor real. E agora que se veste, a gente pode<br \/>\n    olhar com mais franqueza isso que fica de fora e ao mundo pertence, agrada,<br \/>\n    n&atilde;o, n&atilde;o agrada? N&atilde;o se pinta, quase nem usa p&oacute;-de-arroz.<br \/>\n    A pele estica, discretamente polida com os arrancos da carne s&atilde;. O<br \/>\n    embate &eacute; cruento. Resiste a pele, o sangue se alastra pelo interior<br \/>\n    e Fr&auml;ulein toda se roseia agradavelmente.<\/p>\n<p> O que mais atrai nela s&atilde;o os bei&ccedil;os, curtos, bastante largos,<br \/>\n    sempre encarnados. E inda bem que sabem rir: entremostram apenas os dentinhos<br \/>\n    dum amarelo sadio mas sem frescor. Olhos castanhos, pouco fundos. Se abrem<br \/>\n    grandes, muito claros, verdadeiramente sem express&atilde;o. Por isso duma<br \/>\n    calma quase religiosa, puros. Que cabelos mud&aacute;veis! ora louros, ora<br \/>\n    sombrios, dum pardo em fogo interior. Ela tem esse jeito de os arranjar, que<br \/>\n    est&atilde;o sempre pedindo arranjo outra vez. As vezes as madeixas de Fr&auml;ulein<br \/>\n    se apresentam embara&ccedil;adas, soltas de forma tal, que as luzes penetram<br \/>\n    nelas e se cruzam, como numa planta&ccedil;&atilde;o nova de eucaliptos. Ora<br \/>\n    &eacute; a mecha mais loura que Fr&auml;ulein prende e cem vezes torna a cair&#8230;<\/p>\n<p> O menino aluado como sempre. Fixava com insist&ecirc;ncia um pouco de vi&eacute;s&#8230;<br \/>\n    Seria a orelha dela? Mais pro lado, fora dela, atr&aacute;s. Fr&auml;ulein<br \/>\n    se volta. N&atilde;o v&ecirc; nada. Apenas o batalh&atilde;o dos livros, na<br \/>\n    ordem de sempre. Ent&atilde;o era nela, talvez a nuca. N&atilde;o se desagradou<br \/>\n    do culto. Por&eacute;m Carlos com o movimento da professora viu que ela percebera<br \/>\n    a insist&ecirc;ncia do olhar dele. Carecia explicar. Criou coragem mas encabulou,<br \/>\n    encafifado de estar penetrando intimidades femininas. N&atilde;o foi sem como&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que venceu a pr&oacute;pria castidade e avisou:<\/p>\n<p> &#8212; Fr&auml;ulein, seu grampo cai.<\/p>\n<p> O gesto dela foi natural porque o despeito se disfar&ccedil;ou. Por&eacute;m<br \/>\n    Fr&auml;ulein se fecha duma vez. Quinze dias j&aacute; e nem mostras do mais<br \/>\n    leve interesse, arre!<\/p>\n<p> Ser&aacute; que n&atilde;o consegue nada!&#8230; Isso lhe parece imposs&iacute;vel,<br \/>\n    estava trabalhando bem&#8230; Que nem das outras vezes. At&eacute; melhor, porque<br \/>\n    o menino lhe interessava, era muito&#8230; muito&#8230; simpatia? a inoc&ecirc;ncia<br \/>\n    verdadeiramente esportiva? talvez a ingenuidade&#8230; A serena for&ccedil;a&#8230;<br \/>\n    Und so einfach1, nem vaidades nem complica&ccedil;&otilde;es&#8230; atraente.<br \/>\n    Fr&auml;ulein principiara com mais entusiasmo que das outras vezes. E nada.<br \/>\n    Veremos, ganhava pra isso e paci&ecirc;ncia n&atilde;o falta a alem&atilde;o.<br \/>\n    Agora por&eacute;m est&aacute; fechada por despeito, dentro dela n&atilde;o<br \/>\n    penetra mais ningu&eacute;m.<\/p>\n<p> 1. E t&atilde;o simples.<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein se sentiu logo perfeitamente bem dentro daquela fam&iacute;lia<br \/>\n    im&oacute;vel mas feliz. Apenas a sa&uacute;de de Maria Lu&iacute;sa perturbava<br \/>\n    um tanto o cansa&ccedil;o de dona Laura e a calma prudencial de Sousa Costa.<br \/>\n    Servia de assunto poss&iacute;vel nos dias em que, depois da janta, Sousa<br \/>\n    Costa queimava o charuto no hol, como que tradicionalmente revivendo a cerim&ocirc;nia<br \/>\n    tupi. Depois se escovava, pigarreando circunspecto. Vinha dar o beijo na mulher.<\/p>\n<p> &#8212; Adeus papai!<\/p>\n<p> &#8212; At&eacute; logo.<\/p>\n<p> &#8212; At&eacute; logo papai!<\/p>\n<p> &#8212; Boa noite.<\/p>\n<p> Dona Laura ficava ali, mazonza, numa quebreira gostosa, quase deitada na<br \/>\n    poltrona de vime, balanceando manso uma perna sobre a outra. Isso quando n&atilde;o<br \/>\n    tinham frisa, segundas e quintas no Cine Rep&uacute;blica. Folheava o jornal.<br \/>\n    Os olhos dela, descendo pela coluna termom&eacute;trica dos falecimentos e<br \/>\n    natal&iacute;cios, vinham descansar no clima temperado do folhetim. &Agrave;s<br \/>\n    vezes ela acordava um romance da biblioteca morta, mas os livros t&ecirc;m<br \/>\n    tantas p&aacute;ginas&#8230; Folhetim a gente acaba sem sentir, nem cansa a vista.<br \/>\n    Como Fr&auml;ulein l&ecirc;!&#8230; As crian&ccedil;as foram dormir. Vida p&aacute;ra.<br \/>\n    Os estralos espa&ccedil;ados dos vimes assombram o cochilar de dona Laura.<\/p>\n<p> Qual! Fr&auml;ulein n&atilde;o podia se sentir a gosto com aquela gente!<br \/>\n    Podia porque era bem alem&atilde;. Tinha esse poder de adapta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    exterior dos alem&atilde;es, que &eacute; mesmo a maior raz&atilde;o do progresso<br \/>\n    deles.<\/p>\n<p> No filho da Alemanha tem dois seres: o alem&atilde;o propriamente dito,<br \/>\n    homem-do-sonho; e o homem-da-vida, esp&eacute;cie pr&aacute;tica do homem-do-mundo<br \/>\n    que S&oacute;crates se dizia.<\/p>\n<p> O alem&atilde;o propriamente dito &eacute; o cujo que sonha, trapalh&atilde;o,<br \/>\n    obscuro, nostalgicamente fil&oacute;sofo, religioso, idealista incorrig&iacute;vel,<br \/>\n    muito s&eacute;rio, agarrado com a p&aacute;tria, com a fam&iacute;lia, sincero<br \/>\n    e 120 quilos. Vestindo o tal, aparece outro sujeito, homem-da-vida, fortemente<br \/>\n    vis&iacute;vel, esperto, h&aacute;bil e europeiamente bonit&atilde;o. Em princ&iacute;pio<br \/>\n    se pode dizer que &eacute; mat&eacute;ria sem forma, d&uacute;til H&sup2;O<br \/>\n    se amoldando a todas as quartinhas. N&atilde;o tem nenhuma hipocrisia nisso,<br \/>\n    nem m&aacute;scara. Se adapta o homem-da-vida, faz muito bem. Eu se pudesse<br \/>\n    fazia o mesmo, e voc&ecirc;, leitor. Por&eacute;m o homem-do-sonho permanece<br \/>\n    intacto. Nas horas silenciosas da contempla&ccedil;&atilde;o, se escuta o<br \/>\n    suspiro dele, gemido espiritual um pouco doce por demais, que escapa dentre<br \/>\n    as molas flex&iacute;veis do homem-da-vida, que nem o queixume dum deus paciente<br \/>\n    encarcerado.<\/p>\n<p> O homem-da-vida &eacute; que a gente v&ecirc;. Ele criou no neg&oacute;cio<br \/>\n    dele artigo t&atilde;o bom como o do ingl&ecirc;s. Cobra caro. Mas n&atilde;o<br \/>\n    v&ecirc; que um comprador saiu com as m&atilde;os abanando por causa do pre&ccedil;o.<br \/>\n    Adapta-se o homem-da-vida. No dia seguinte o fregu&ecirc;s encontra artigo<br \/>\n    quase igual ao outro, com o mesmo aspecto faceiro e de pre&ccedil;o alcan&ccedil;&aacute;vel.<br \/>\n    Sai com os bolsos vazios e as m&atilde;os cheias. O anglo da f&aacute;brica<br \/>\n    vizinha, ali mesmo, s&oacute; atravessar um estir&atilde;o de &aacute;gua<br \/>\n    zangada, n&atilde;o vendeu o artigo dele. N&atilde;o vendeu nem vender&aacute;.<br \/>\n    E continuar&aacute; sempre fazendo-o muito bom.<\/p>\n<p> Eu admirava mais o ingl&ecirc;s se s&oacute; este conseguisse manipular<br \/>\n    a mercadoria excelente, por&eacute;m o alem&atilde;o homem-da-vida tamb&eacute;m<br \/>\n    melhora as coisas at&eacute; a excel&ecirc;ncia. Apenas carece que algu&eacute;m<br \/>\n    v&aacute; na frente primeiro. Isso o pr&oacute;prio Walter de Rathenau observou,<br \/>\n    grande homem!&#8230; Homem-do-sonho. Os outros que inventem. O alem&atilde;o pega<br \/>\n    na descoberta da gente e a desenvolve e melhora. E a piora tamb&eacute;m,<br \/>\n    estabelecendo uma tabela de pre&ccedil;os a que podem abordar bolsas de todos<br \/>\n    os calados. Da&iacute;, aos poucos, todo o mundo ir preferindo o comerciante<br \/>\n    alem&atilde;o.<\/p>\n<p> Os pa&iacute;ses de exporta&ccedil;&atilde;o industrial viam o fen&ocirc;meno,<br \/>\n    de cara feia. O homem-da-vida observava a raiva da vizinhan&ccedil;a&#8230; E<br \/>\n    se l&aacute; nas trevas interiores, onde se re&uacute;nem as assombra&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    familiares, o homem-do-sonho tamb&eacute;m cantava o seu &quot;Home, sweet<br \/>\n    home&quot; que a nenhuma ra&ccedil;a pertence e &eacute; desejo universal,<br \/>\n    o homem-da-vida se adaptava ainda. Constru&iacute;a canh&otilde;es pelas m&atilde;os<br \/>\n    brandas duma vi&uacute;va. Armazenava gases asfixiantes, afiava lamparinas<br \/>\n    pra cortar futuramente os imagin&aacute;rios bracinhos de quanto Haensel e<br \/>\n    quanta Gretel imagin&aacute;rios e franceses produz o susto razo&aacute;vel<br \/>\n    de Chantecler. B&aacute;rbaro tedesco, infra terno germano infraterno!<\/p>\n<p> Aceitemos mesmo que engordasse a id&eacute;ia multissecular, universal e<br \/>\n    secreta, da posse do mundo&#8230; N&atilde;o culpe-se por ela o homem-do-sonho.<br \/>\n    O da-vida &eacute; que se observando vitorioso no mundo conclu&iacute;a que<br \/>\n    era muito justo lhe caber a posse do tal. Quem que errou forte e incorrigivelmente?<br \/>\n    S&oacute; Bismarck. Algu&eacute;m chamou esse homem de &quot;&uacute;ltimo<br \/>\n    Nibelungo&quot;&#8230; Nibelungo, n&atilde;o tem d&uacute;vida Conseguiu Als&aacute;cia,<br \/>\n    ouro do Reno, pela ren&uacute;ncia do amor.<\/p>\n<p> Enquanto isso todos os pa&iacute;ses da terra, abra&ccedil;ados, se amavam<br \/>\n    numa prom&iacute;scua rede comum, n&atilde;o &eacute;? Est&aacute;vamos no<br \/>\n    primeiro dec&ecirc;nio deste s&eacute;culo que deu no vinte. Todos os abra&ccedil;ados<br \/>\n    perdiam terreno. O homem-da-vida ganhava-o. Por adapta&ccedil;&atilde;o? &Eacute;.<br \/>\n    Ser&aacute;? Vejo Serajevo, apenas como bandeira. Nas pregas dela brisam invis&iacute;veis<br \/>\n    as ambi&ccedil;&otilde;es comerciais. Pum! Tarat&aacute;! Clarins gritando,<br \/>\n    baionetas cintilando, desvairado matar, hecatombes, trincheiras, pestes, cemit&eacute;rios&#8230;<br \/>\n    Soldados desconhecidos. A culpa era do homem-da-vida,n&atilde;o &eacute;?<br \/>\n    Por&eacute;m a guerra foi inventada pelos propriet&aacute;rios das f&aacute;bricas<br \/>\n    vizinhas, isso n&atilde;o tem que g&uuml;er&ecirc; nem pipoca! N&atilde;o<br \/>\n    foi.<\/p>\n<p> Culpa de um, culpa de outro, tornaram a vida insuport&aacute;vel na Alemanha.<br \/>\n    Mesmo antes de 14 a exist&ecirc;ncia arrastava dif&iacute;cil l&aacute;, Fr&auml;ulein<br \/>\n    se adaptou. Veio pro Brasil, Rio de Janeiro. Depois Curitiba onde n&atilde;o<br \/>\n    teve o que fazer. Rio de Janeiro. S&atilde;o Paulo. Agora tinha que viver<br \/>\n    com os Sousa Costas. Se adaptou. &#8212; &#8230; der Vater&#8230; die Mutter&#8230; Wie<br \/>\n    geht es ihnen?&#8230; A p&aacute;tria em alem&atilde;o &eacute; neutro: das Vaterland.<br \/>\n    Ser&aacute;! Vejo Serajevo apenas como bandeira. Nas pregas dela brisam&#8230;<br \/>\n    etc.<\/p>\n<p> (Aqui o leitor recome&ccedil;a a ler este fim de cap&iacute;tulo do lugar<br \/>\n    em que a frase do etc. principia. E assim continuar&aacute; repetindo o c&acirc;none<br \/>\n    infinito at&eacute; que se conven&ccedil;a do que afirmo. Se n&atilde;o se<br \/>\n    convencer, ao menos convenha comigo que todos esses europeus foram uns grandess&iacute;ssimos<br \/>\n    canalh&otilde;es.)<\/p>\n<p> &#8212; Minhas filhas j&aacute; falam o alem&atilde;o muito direitinho.<br \/>\n    Ontem entrei na Lirial com Maria Lu&iacute;sa&#8230; pois imagine que ela falou<br \/>\n    em alem&atilde;o com a caixeirinha! Achei uma gra&ccedil;a nela!&#8230; Fr&auml;ulein<br \/>\n    &eacute; muito instru&iacute;da, l&ecirc; tanto! Gosta muito de Wagner, voc&ecirc;<br \/>\n    foi no Trist&atilde;o e Isolda? que coisa linda. Gostei muito. Tamb&eacute;m:<br \/>\n    quatrocentos mil r&eacute;is por m&ecirc;s!<\/p>\n<p> E continuava falando que Felisberto n&atilde;o se importava de gastar, contanto<br \/>\n    que os meninos aprendessem, etc.<\/p>\n<p> De repente Carlos come&ccedil;ou a estudar o alem&atilde;o. Em 15 dias fez<br \/>\n    um progresso danado. Quis propor mesmo um aumento nas horas de estudo, por&eacute;m,<br \/>\n    n&atilde;o sabendo bem porque, n&atilde;o prop&ocirc;s. Lhe interessava tudo<br \/>\n    o que era alem&atilde;o, comprava revistas de Munique. Andava com elas na<br \/>\n    rua e depois vinha depressa entreg&aacute;-las a Fr&auml;ulein. Soube de cor<br \/>\n    a popula&ccedil;&atilde;o da Alemanha, aspecto geral e clima. At&eacute; longitude<br \/>\n    e latitude, que n&atilde;o sabia bem o que eram. A potamografia alem&atilde;<br \/>\n    lhe era familiar, ah! os castelos do Reno&#8230; viver l&aacute;!&#8230; Seguia com<br \/>\n    interesse a ocupa&ccedil;&atilde;o da Alemanha pelos franceses. Aplaudia o<br \/>\n    procedimento da Inglaterra, pa&iacute;s &agrave;s direitas. Um dia afirmou<br \/>\n    no jantar que Goethe era muito maior que Cam&otilde;es, maior g&ecirc;nio<br \/>\n    de todos os tempos!<\/p>\n<p> Tivera nesse dia uma can&ccedil;&atilde;ozinha de Goethe pra traduzir, hist&oacute;ria<br \/>\n    dum pastor que vivia no alto das montanhas. Se entusiasmara, lind&iacute;ssimo!<br \/>\n    Decorava-a.<\/p>\n<p> E falou pro pai que estava com vontade de aprender piano tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> Sousa Costa n&atilde;o dava aten&ccedil;&atilde;o. Corresse o caso bem depressa!<br \/>\n    desejava. De quando em quando lhe roncavam azedos na id&eacute;ia uns borborigmos<br \/>\n    de arrependimento.<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein &eacute; que percebeu muito bem a mudan&ccedil;a do rapaz,<br \/>\n    finalmente! Carecia agora se reter um pouco, mesmo voltar pra tr&aacute;s.<br \/>\n    Avan&ccedil;ara por demais porque ele tardava. Devia guardar-se outra vez.<br \/>\n    As coisas principiam pelo princ&iacute;pio.<\/p>\n<p> &#8212; Bom dia, Fr&auml;ulein!<\/p>\n<p> &#8212; Bom dia, Carlos.<\/p>\n<p> &#8212; Wie gehfs Ihnen?<\/p>\n<p> &#8212; Danke, gut1.<\/p>\n<p> 1&#8212; Como vai?<\/p>\n<p> &#8212; Bem, obrigada.<\/p>\n<p>&#8212; Fr&auml;ulein! vamos passear no jardim com as crian&ccedil;as!<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o posso, Carlos. Estou ocupada.<\/p>\n<p> &#8212; Ora, vamos! Maria Lu&iacute;sa tamb&eacute;m vai, ela precisa! Aldinha!<br \/>\n    Laurita! vamos passear no jardim com Fr&auml;ulein!<\/p>\n<p> &#8212; Vamos! Vamos! as crian&ccedil;as apareceram correndo.<\/p>\n<p> &#8212; Vamos hein!&#8230;&quot;<\/p>\n<p> &#8212; Carlos, eu j&aacute; disse que n&atilde;o posso. V&aacute; voc&ecirc;.<\/p>\n<p> Levar as crian&ccedil;as no jardim&#8230; ora essa! ele n&atilde;o era ama-seca!<br \/>\n    Mas foi.<\/p>\n<p> &Eacute; coisa que se ensine o amor? Creio que n&atilde;o. Pode ser que<br \/>\n    sim. Fr&auml;ulein tinha um m&eacute;todo bem dela. O deus paciente o constru&iacute;ra,<br \/>\n    talqual os prisioneiros fazem essas catitas cestinhas cheias de flores e de<br \/>\n    frutas coloridas. Tudo de miolo de p&atilde;o, t&atilde;o mimoso!<\/p>\n<p> O amor deve nascer de correspond&ecirc;ncias, de excel&ecirc;ncias interiores.<br \/>\n    Espirituais, pensava. Os dois se sentem bem juntos. A vida se aproxima. Repartem-na,<br \/>\n    pois quatro ombros podem mais que dois. A gente deve trabalhar &#8230;os quatro<br \/>\n    ombros trabalham igualmente. Deve-se ter filhos &#8230;Os quatro ombros carregam<br \/>\n    os filhos, quantos a fecundidade quiser, assim cresce a Alemanha. De noite<br \/>\n    uma &oacute;pera de Wagner. Brahms. Brahms &eacute; grande. Que profundeza,<br \/>\n    seriedade. H&aacute; concertos de &oacute;rg&atilde;o tamb&eacute;m. E a gente<br \/>\n    pode cantar em coro&#8230; Os quatro ombros freq&uuml;entam a Sociedade Coral.<br \/>\n    T&ecirc;m boa voz e cantam. Solistas? S&oacute; cantam em coro. Gesellschaft.<br \/>\n    Por&eacute;m isso &eacute; para alem&atilde;es, e pr&oacute;s outros? Sim:<br \/>\n    quase o mesmo &#8230;Apenas um pouco mais de verdade pr&aacute;tica e menos Wagner.<br \/>\n    E o servi&ccedil;o dela entende s&oacute; da forma&ccedil;&atilde;o dos homens.<br \/>\n    O homem tem de ser apegado ao lar. Dirige o sossego do lar. Manda. Por&eacute;m<br \/>\n    sem dom&iacute;nio. Prove. &Eacute; certo que a mulher o ajudar&aacute;. O<br \/>\n    ajudar&aacute; muito, dando algumas li&ccedil;&otilde;es de l&iacute;nguas,<br \/>\n    servindo de acompanhadora pra ensaios na Panzschuele, fazendo a comida, preparando<br \/>\n    doces, regando as flores, pastoreando os gansos alvos no prado, enfeitando<br \/>\n    os lindos cabelos com margaridinhas&#8230;<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein engole quase um remorso porque se apanha a divagar. Queixumes<br \/>\n    do deus encarcerado. O homem-da-vida quer apagar tantas nuvens e afirma r&iacute;spido<br \/>\n    que n&atilde;o trata-se de nada disso: a profiss&atilde;o dela se resume a<br \/>\n    ensinar primeiros passos, a abrir olhos, de modo a prevenir os inexperientes<br \/>\n    da cilada das m&atilde;os rapaces. E evitar as doen&ccedil;as, que tanto infelicitam<br \/>\n    o casal futuro. Profilaxia. Aqui o homem-do-sonho corcoveia, se revolta contra<br \/>\n    a aspereza do bom senso e berra: Profilaxia, n&atilde;o! Mas por&eacute;m<br \/>\n    dever&aacute; parolar, quando mais chegadinho o conv&iacute;vio, sobre essas<br \/>\n    &quot;meretrizes&quot;que chupam o sangue do corpo sadio. O sangue deve ser<br \/>\n    puro.<\/p>\n<p> Vejam por exemplo a Alemanha, que-d&ecirc; ra&ccedil;a mais forte? Nenhuma.<br \/>\n    E justamente porque mais forte e indestrut&iacute;vel neles o conceito da<br \/>\n    fam&iacute;lia. Os filhos nascem robustos As mulheres s&atilde;o grandes e<br \/>\n    claras. S&atilde;o fecundas. O nobre destino do homem &eacute; se conservar<br \/>\n    sadio e procurar esposa prodigiosamente sadia. De ra&ccedil;a superior, como<br \/>\n    ela, Fr&auml;ulein. Os negros s&atilde;o de ra&ccedil;a inferior. Os &iacute;ndios<br \/>\n    tamb&eacute;m. Os portugueses tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> Mas esta &uacute;ltima verdade Fr&auml;ulein n&atilde;o fala aos alunos.<br \/>\n    Foi decreto lido a vez em que um trabalho de Reimer lhe passou pelas m&atilde;os:<br \/>\n    afirmava a inferioridade dos latinos. Leg&iacute;tima verdade, pois quem &eacute;<br \/>\n    Reimer? Reimer &eacute; um grande s&aacute;bio alem&atilde;o. Os portugueses<br \/>\n    fazem parte duma ra&ccedil;a inferior. E ent&atilde;o os brasileiros misturados?<br \/>\n    Tamb&eacute;m isso Fr&auml;ulein n&atilde;o podia falar. Por adapta&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    S&oacute; quando entre amigos de segredo, e alem&atilde;es. Por&eacute;m os<br \/>\n    &iacute;ndios, os negros quem negar&aacute; sejam ra&ccedil;as inferiores?<\/p>\n<p> Como &eacute; belo o destino do casal superior. Sossego e trabalho. Os quatro<br \/>\n    ombros trabalham sossegadamente, ela no lar, o marido fora do lar. Pela boca<br \/>\n    da noite ele chega da cidade escura&#8230; Vai botar os livros na escrivaninha.<br \/>\n    Depois vem lhe dar o beijo na testa&#8230; Beijo calmo&#8230; Beijo preceptivo&#8230;<br \/>\n    Todo de preto, com o alfinete de ouro na gravata. Nariz longo, quase di&aacute;fano<br \/>\n    bem ra&ccedil;ado&#8230; Todo ele &eacute; claro, transparente&#8230; Tossiria, arranhando<br \/>\n    o &oacute;culos sem aro&#8230; Tossia sempre&#8230; E a mancha irregular do sangue<br \/>\n    nas ma&ccedil;&atilde;s&#8230; Jantariam quase sem dizer nada&#8230; Como passara?&#8230;<br \/>\n    Assim, e ele?&#8230; Talvez mais tr&ecirc;s meses e termina o segundo volume de<br \/>\n    O Apelo da Natureza na Poesia dos Minnes&auml;nger&#8230; Lhe davam o lugar na<br \/>\n    Universidade&#8230; A janta acabava&#8230; Ele atirava-se ao estudo&#8230; Ela arranja<br \/>\n    de novo a toalha sobre a mesa&#8230; Temos concerto da Filarm&ocirc;nica amanh&atilde;.<br \/>\n    Diga o programa. Abertura de Spohr, a Pastoral de Beethoven, Strauss, Hino<br \/>\n    ao Sol de Mascagni e Wagner. A Pastoral? A Pastoral. Que bom. E de Wagner?<br \/>\n    Siegfried-Idill e G&ouml;tterd&atilde;mmerung. Siegfried-Idill? Siegfried-Idill.<br \/>\n    Ah! podiam dar a Her&oacute;ica&#8230; J&aacute; ouvimos cinco vezes a Pastoral,<br \/>\n    este ano&#8230; podiam levar a Her&oacute;ica&#8230; Mas a Her&oacute;ica&#8230; Napole&atilde;o&#8230;<br \/>\n    Em todo caso a gente n&atilde;o pode negar: Napole&atilde;o foi um grande<br \/>\n    general&#8230; Morreu preso em Santa Helena.<\/p>\n<p> Aqui Fr&auml;ulein repara que aos poucos o homem-do-sonho se substitu&iacute;ra<br \/>\n    de novo ao homem-da-vida. &Eacute; porque este aparece unicamente quando trata-se<br \/>\n    de viver mover agir. O outro &eacute; interior, eu j&aacute; falei. Ora, pois<br \/>\n    o pensamento &eacute; interior, nem sequer &eacute; voli&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que participa j&aacute; do ato. O homem-da-vida age n&atilde;o pensa. Fr&auml;ulein<br \/>\n    est&aacute; pensando. Nem o homem-da-vida, propriamente, lhe disse que ela<br \/>\n    ensina apenas os primeiros passos do amor, d&aacute; a entender isso apenas,<br \/>\n    pela maneira com que obstinada e mudamente se comporta. Franqueza: o que pratica<br \/>\n    &eacute; isso e apenas isso.<\/p>\n<p>  Por&eacute;m v&atilde;o falar a um alem&atilde;o que ele traz consigo tal homem-da-vida&#8230;<br \/>\n  Energicamente negar&aacute;, nunca morou nesta casa. E com raz&atilde;o. Reconhece<br \/>\n  o homem-do-sonho porque este pensa e sonha. Ora de verdadeiro, pro idealista<br \/>\n  s&oacute; o que &eacute; metaf&iacute;sico. As mat&eacute;rias s&atilde;o mudas,<br \/>\n  as almas pensam e falam. Tratando-se pois de amor-tese, teoria do amor, amorologia,<br \/>\n  &eacute; o prisioneiro paciente quem amassa o miolo de p&atilde;o, esculpe e<br \/>\n  colore cestinhas lindas, pra enfeite do apartamento arranjado e limpo que Fr&auml;ulein<br \/>\n  tem no pensamento. <\/p>\n<p> A consci&ecirc;ncia, por&eacute;m, que n&atilde;o &eacute; nem da vida nem<br \/>\n    do sonho e a Deus pertence, lhe mostra como atuou o homem-da-vida. Unicamente<br \/>\n    ensinou primeiros passos, abriu olhos. Foi pr&aacute;tico. Foi excelente.<br \/>\n    Por&eacute;m pra Fr&auml;ulein tal virtude n&atilde;o basta, e a conseq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    &eacute; um remorso. Por&eacute;m remorsico vago, muito esgar&ccedil;ado.<br \/>\n    E ela continuara divagando, divagando, a&ccedil;ucaradamente divagando em<br \/>\n    seu pequeno pensamento. Assim enfeita os gestos do homem-da-vida com o sonho<br \/>\n    s&eacute;rio severo e simples, pra usar unicamente esses. E sonoro. Wiegenlied,<br \/>\n    de Max Reger, opus 76.<\/p>\n<p> Langsam.&sup1;<\/p>\n<p> Lento. (Aqui o termo vem tomado como indica&ccedil;&atilde;o de movimento<br \/>\n    musical.)<\/p>\n<p>&#8230; O quartinho &eacute; escuro. Maria embala no bercinho pobre o filho rec&eacute;m-nascido.<br \/>\n    Janelas abertas, dando para a grande noite azulada, facilmente m&iacute;stica.<br \/>\n    Nascem do ch&atilde;o, saem pelas janelas as duas colunas inclinadas do luar.<br \/>\n    Ver&atilde;o. Sil&ecirc;ncio. Murm&uacute;rio em baixo, longe, das &aacute;guas<br \/>\n    sagradas do Reno. Respira-se possante, fecundo, imortal, o aroma do ventre<br \/>\n    de Erda. A can&ccedil;&atilde;o &eacute; para criancinhas. E, como na cisma<br \/>\n    tudo &eacute; mistura e associa&ccedil;&atilde;o, &agrave; melodia de Reger<br \/>\n    vem continuar o Lied, de K&ouml;rner:<\/p>\n<p>&quot;Geht zur Ruh&#8217;! <\/p>\n<p> Schlisst die m&uuml;den Augen zu! <\/p>\n<p> Stille wird es auf den Strassen <\/p>\n<p> Nur den W&auml;chter h&ouml;rt man blasen, <\/p>\n<p> Und die Nacht ruft allen zu: <\/p>\n<p> Geht zur Ruh&#8217;!.. &quot;<\/p>\n<p>Ide dormir!<\/p>\n<p> Fechai os olhos cansados! <\/p>\n<p> Nas ruas silenciosas <\/p>\n<p> S&oacute; se ouve o apito do guarda, <\/p>\n<p> E a noite a todos adverte: <\/p>\n<p> Ide dormir!<\/p>\n<p> (Trad. de Manuel Bandeira)<\/p>\n<p>A can&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; pra criancinhas? &Eacute;. Soa<br \/>\n    severa, honesta, popular&#8230; A consci&ecirc;ncia de Fr&auml;ulein adormece.<\/p>\n<p> &Eacute; coisa que se ensine o amor? Creio que n&atilde;o. Ela cr&ecirc;<br \/>\n    que sim. Por isso n&atilde;o foi no jardim, deve se guardar. Quer mostrar<br \/>\n    que o dever supera os prazeres da carne, supera. Carlos desfolha uma rosa.<br \/>\n    Sob as glic&iacute;nias da p&eacute;rgola braceja de tal jeito que o ch&atilde;o<br \/>\n    todo se pontilha de lil&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Ih! vou contar pra mam&atilde;e que voc&ecirc; est&aacute; estragando<br \/>\n    as plantas!<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o me amole!<\/p>\n<p> &#8212; Amolo, pronto! Mam&atilde;e! Mam&atilde;e! Me largue! Feio! Mam&atilde;e!<\/p>\n<p> &#8212; Me d&aacute; um beijo!<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o dou!<\/p>\n<p> &#8212; D&aacute;!<\/p>\n<p> &#8212; Mam&atilde;e! olhe Car-los! ai!&#8230; Aldinha aos berros pela casa.<\/p>\n<p> Ele n&atilde;o fez por mal, quis beijar e machucou. Aldinha chora. A culpa<br \/>\n    &eacute; de quem? De Carlos.<\/p>\n<p> Carlos &eacute; um menino mau.<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein fazia Maria Lu&iacute;sa estudar no piano pequenos Lieder<br \/>\n    populares dum livro em quarto com figuras coloridas. Lhe dava tamb&eacute;m<br \/>\n    pecinhas de Schubert e alegros de Haydn. Pra divertir, fez ela decorar uma<br \/>\n    transcri&ccedil;&atilde;o f&aacute;cil da &quot;Can&ccedil;&atilde;o da Estrela&quot;,<br \/>\n    do Tanh&auml;user. As crian&ccedil;as j&aacute; cantavam em un&iacute;ssono<br \/>\n    o &quot;Tannenbaum&quot; e um cantar-de-estrada mais recente, que pretendia<br \/>\n    ser alegre mas era p&acirc;ndego. Fr&auml;ulein fazia a segunda voz. E falava<br \/>\n    sempre que n&atilde;o deviam cantar maxixes nem foxtrotes. N&atilde;o entendia<br \/>\n    aquele sarapintado abuso da sincopa. Auf Fl&uuml;geln des Gesanges&#8230;&sup1;<br \/>\n    Ritmo embalador e casto. 0 samba lhe dava uns arrepios de espinha e uma alegria&#8230;<br \/>\n    musical? Desprez&iacute;vel. S&oacute; Wagner soubera usar a sincopa no noturno<br \/>\n    do Trist&atilde;o.<\/p>\n<p> 1. &quot;Nas asas do canto&quot;, can&ccedil;&atilde;o conhecid&iacute;ssima,<br \/>\n    bastante melosa, de Mendelssohn.<\/p>\n<p> Carlos tamb&eacute;m cantava o Tannenbaum mas desafinava. N&atilde;o tinha<br \/>\n    voz nenhuma. Por&eacute;m descobrira o perfume das rosas. Perfume sutil e<br \/>\n    fugitivo, &ocirc;h! a boniteza das vistas!&#8230; As vezes se surpreendia parado<br \/>\n    diante das sombras misteriosas. As tardes, o lento cair das tardes&#8230; Tristes.<br \/>\n    Surgia nele esse gosto de andar escoteiro, cismando. Cismando em que? Cismando,<br \/>\n    sem mais nada. Devia de ter felicidades quentes al&eacute;m&#8230; Estava pertinho<br \/>\n    do suspiro, sem alegria nem tristeza, suspiro, no sil&ecirc;ncio amigo do<br \/>\n    luar.<\/p>\n<p> &#8212; Mam&atilde;e! olhe Carlos!<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein tinha poucas rela&ccedil;&otilde;es na col&ocirc;nia, achava-a<br \/>\n    muito interesseira e inquieta. Sem eleva&ccedil;&atilde;o. Preferia ficar<br \/>\n    em casa nos dias de folga relendo Schiller, can&ccedil;&otilde;es e poemas<br \/>\n    de Goethe. Por&eacute;m com as duas ou tr&ecirc;s professoras a que mais se<br \/>\n    ligava pela amizade da instru&ccedil;&atilde;o igual, discutia Fausto e Werther.<br \/>\n    N&atilde;o gostava muito desses livros, embora tivesse a certeza que eram<br \/>\n    obras-primas.<\/p>\n<p> Tamb&eacute;m com essas amigas, alguns camaradas, um pintor, professores<br \/>\n    sa&iacute;a nalgum domingo raro em piqueniques pelo campo. &Agrave;s vezes<br \/>\n    tamb&eacute;m o grupo se reunia na casa de Fr&auml;ulein Kothen, professora<br \/>\n    de piano l&iacute;nguas e bordados. Depois do caf&eacute; emba&ccedil;ado<br \/>\n    com um pingo arisco de leite, a conversa mudava de alegria. Todos sinceros.<br \/>\n    E de Wagner, de Brahms, de Beethoven se falava.<\/p>\n<p> Uma frase sobre Mahler associava &agrave; conversa a id&eacute;ia de pol&iacute;tica<br \/>\n    e dos destinos do povo alem&atilde;o, o tom baixava. O mist&eacute;rio penoso<br \/>\n    das inquieta&ccedil;&otilde;es baritonava aquelas almas, inchadas de amor<br \/>\n    pela grande Alemanha. Frases curtas. Elipses. Queimava cada l&aacute;bio,<br \/>\n    saboroso, um gosto de conspira&ccedil;&atilde;o. Que conspiram eles? Sossegue,<br \/>\n    brasileiro, por enquanto n&atilde;o conspiram nada. Mas a Fran&ccedil;a&#8230;<br \/>\n    Tanta parolagem bomb&aacute;stica. Humanidade, Liberdade, Justi&ccedil;a&#8230;<br \/>\n    n&atilde;o sei que mais! e estra&ccedil;alhar um povo assim&#8230; lhe dar morte<br \/>\n    lenta. Porque n&atilde;o matara duma vez, quando pediu armist&iacute;cio o<br \/>\n    invencido povo do Reno?&#8230; die Fluten des Rheines<\/p>\n<p> Sch&uuml;tzen uns zwar, doch ach! was sind nun Fluten und Berge&#8230;<\/p>\n<p> Jenen schrecKlichen Volke, das wie ein Gewitter daherzieht!&#8230;&sup1; Versos<br \/>\n    de Goethe n&atilde;o faltam na ocasi&atilde;o, fremiam de amor. N&atilde;o<br \/>\n    conspiravam nada. Desconversava um pouco a sociedade, por&eacute;m um pouco<br \/>\n    s&oacute;, porque alimentava aqueles exilados a confian&ccedil;a do futuro.<br \/>\n    Por isso criticavam com justeza a figura do Kaiser. Todos republicanos. Porque<br \/>\n    a Alemanha era republicana. Mas ao concordarem que o Kaiser devia ter morrido,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; que ecoa na voz deles, insopit&aacute;vel, quase solu&ccedil;ante,<br \/>\n    o pesar por aquele rei amado, rei t&atilde;o grande, morto em vida e de morte<br \/>\n    chu&eacute;!<\/p>\n<p> 1 &#8230;As ondas do Reno<\/p>\n<p> Nos protegem, &eacute; certo, mas ali! de que valem agora ondas e montanhas.\n  <\/p>\n<p> Para esse povo terr&iacute;vel que avan&ccedil;a feito tempestade!&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Devia morrer!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Devia morrer.<\/p>\n<p> Esconde as l&aacute;grimas, Fr&auml;ulein. &Eacute; verdade que s&atilde;o<br \/>\n    duas apenas. Os olhos vibram j&aacute; de venera&ccedil;&atilde;o e entusiasmo<br \/>\n    sem cr&iacute;tica: algu&eacute;m no sil&ecirc;ncio fala da vida e obras de<br \/>\n    Bismarck. Fr&auml;ulein trouxe a citara. Pois cantemos em coro as can&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da velha Alemanha. Vibra a sala. O acorde admir&aacute;vel sobe lentamente,<br \/>\n    se transforma pesadamente, cresce, cresce, morre aos poucos no pian&iacute;ssimo<br \/>\n    grave, cheio de un&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Os homens cantavam melhor que as mulheres.<\/p>\n<p>Levara as meninas &agrave; missa. Ao voltar, por desfastio dominical, perturbara<br \/>\n    o sono eg&iacute;pcio da biblioteca de Sousa Costa, e viera pro jardim sob<br \/>\n    a p&eacute;rgola, entender aplicadamente uma elegia de Cam&otilde;es. O sol<br \/>\n    de dezembro escaldava as sombras curtas. No vestido alv&iacute;ssimo vinham<br \/>\n    latejar as frutinhas da luz. O rosai estalava duro, gotejando no ar um cheiro<br \/>\n    pesado que arrastava.<\/p>\n<p> Carlos descera do bonde e entrava no jardim, vinha do clube. Fr&auml;ulein<br \/>\n    viu ele chegar como sem ver, escondida na leitura. Ele hesitou. Enveredou<br \/>\n    pra p&eacute;rgola.<\/p>\n<p> &#8212; Bom dia, Fr&auml;ulein!<\/p>\n<p> &#8212; Bom dia, Carlos. Nadou muito?<\/p>\n<p> &#8212; Assim.<\/p>\n<p> Agora sorria com esse sorriso enjeitado dos que n&atilde;o agem claro e&#8230;<br \/>\n    procedendo mal? porque! Passara a perna esquerda sobre a mesa branca, semi-sentado.<br \/>\n    Balan&ccedil;ava-a num ritmo quase irregular. Quase. E olhava sobre a mesa<br \/>\n    uma folha perdida com que a m&atilde;o brincava. Os desapontados se deixam<br \/>\n    olhar, Fr&auml;ulein examinou Carlos.<\/p>\n<p> Essa foi, sem que para isso tivesse uma raz&atilde;o mais forte, a imagem<br \/>\n    dele que conservaria n&iacute;tida por toda a vida. 0 rapazinho derrubara<br \/>\n    o bra&ccedil;o desocupado sobre a perna direita retesa. Assim, ao passo que<br \/>\n    um lado do corpo, rijo, quase reto, dizia a virilidade guapa duma for&ccedil;a<br \/>\n    crescente ainda, o outro, apoiado na mesa, descansando quebrado em curvas<br \/>\n    de bra&ccedil;o e joelho, tinha uma gra&ccedil;a e do&ccedil;ura mesmo fem&iacute;nea,<br \/>\n    jovialidade!<\/p>\n<p> De repente entregou os olhos &agrave; mo&ccedil;a. Trouxe-os de novo para<br \/>\n    a brincadeira da folha e da m&atilde;o. Fr&auml;ulein sabia apreciar tanta<br \/>\n    meninice pura e t&atilde;o sadia. Felizes ambos nessa intimidade. &#8212;<br \/>\n    Vou trocar de roupa!<\/p>\n<p> Na verdade ele fugia. N&atilde;o tinha ainda a ci&ecirc;ncia de prolongar<br \/>\n    as venturas, talvez nem soubesse que estava feliz. Fr&auml;ulein sorriu pra<br \/>\n    ele, inclinando de leve a cabe&ccedil;a bruna manchada de sol. Carlos se afastou<br \/>\n    com passo marinheiro balan&ccedil;ando, bem apoiado no ch&atilde;o. A cabe&ccedil;a<br \/>\n    bem plantada na touceira do su&eacute;ter. Entrou na casa sem olhar pra tr&aacute;s.<\/p>\n<p> Mas Fr&auml;ulein o enxerga por muito tempo ainda, se afastando. Vitorioso<br \/>\n    sereno. Como um jovem Siegfried.<\/p>\n<p> Depois do almo&ccedil;o as crian&ccedil;as foram na matin&ecirc; do Royal.<br \/>\n    Estou falando brasileiro. Fr&auml;ulein acompanhou-as. Carlos acompanhou.<br \/>\n    Acompanhou quem?<\/p>\n<p> &#8212; E! Voc&ecirc; nunca vinha na matin&ecirc; e agora vem s&oacute;<br \/>\n    pra amolar os outros! V&aacute; pro seu futebol que &eacute; melhor! Ningu&eacute;m<br \/>\n    carece da sua companhia&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Que tem, Maria, eu ir tamb&eacute;m!<\/p>\n<p> &#8212; Olhe o autom&oacute;vel como est&aacute;! Machuca todo o vestido<br \/>\n    da gente!<\/p>\n<p> Com efeito o autom&oacute;vel alugado &eacute; pequeno pra cinco pessoas,<br \/>\n    se apertaram um pouco. E como s&atilde;o juntinhas as cadeiras do Royal!.<\/p>\n<p> Carlos n&atilde;o repara que tem entreatos nos quais os rapazotes saem queimar<br \/>\n    o cigarro, engolir o refresco. Se ele n&atilde;o fuma&#8230; Mas n&atilde;o tem<br \/>\n    rapazote que n&atilde;o goste de passar em revista as meninetas. Carlos n&atilde;o<br \/>\n    fuma. Se deixa ficar bem sentadinho, pouco mexe. Olha sempre pra diante fixo.<br \/>\n    Vermelho. Distra&iacute;do. Isso: quebrado pelos calores de dezembro, nada<br \/>\n    mais razo&aacute;vel. O espantoso &eacute; perceber que ela derrubou o programa,<br \/>\n    ergue-o com servilidade possante. <\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; gostando, Fr&auml;ulein?<\/p>\n<p> Ao gesto de calor que ela apenas esbo&ccedil;a, faz quest&atilde;o de guardar<br \/>\n    sobre os joelhos o j&eacute;rsei verde. Tudo com masculina prote&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Isso a derreia. Como est&aacute; quente! O certo &eacute; que o corpo dela<br \/>\n    ultrapassa as bordas da cadeira todo o mundo se queixa das cadeiras do Royal.<br \/>\n    H&aacute;, talvez me engane, um contato. Dura pouco? Dura muito? Dura toda<br \/>\n    a matin&ecirc;, vida feliz foge t&atilde;o r&aacute;pida!.. Principalmente<br \/>\n    quando a gente acompanha uma senhora e tr&ecirc;s meninas. De repente Carlos<br \/>\n    quase abra&ccedil;a Fr&auml;ulein, debru&ccedil;ando pra ver se do outro lado<br \/>\n    dela as irm&atilde;zinhas, portem-se bem, heim!&#8230; Compra balas. Ajuda as<br \/>\n    meninas a descer do autom&oacute;vel na volta, e t&atilde;o depressa que ainda<br \/>\n    paga o motorista antes de Fr&auml;ulein, eu que pago! Subindo a escada, por<br \/>\n    que arroubos de ternura n&atilde;o sei, abra&ccedil;a de repente Maria Lu&iacute;sa,<br \/>\n    lhe afunda uns l&aacute;bios sem beijo nos cabelos. &#8212; Ai, Carlos! N&atilde;o<br \/>\n    fa&ccedil;a assim! Voc&ecirc; me machuca!<\/p>\n<p> Desta vez ele n&atilde;o machucou- Machucou sim &#8211; Por&eacute;m nas epidermes<br \/>\n    da vaidade, que Maria Lu&iacute;sa se pensa mocinha e se quer tratada com<br \/>\n    distin&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Por&eacute;m o menino j&aacute; esta longe e agora havemos de segui-lo at&eacute;<br \/>\n    o fim, entrou no quarto. Mais se deixou cair, sem escolha, numa cadeira qualquer,<br \/>\n    a boca movendo numa express&atilde;o de angustia divina. Quereria sorrir&#8230;<br \/>\n    Quereria, quem sabe um pouco de pranto, o pranto abandonado faz v&aacute;rios<br \/>\n    anos, talvez agora lhe fizesse bem. Nada disso. O romancista &eacute; que<br \/>\n    esta complicando o estado de alma do rapaz. Carlos apenas assunta sem ver<br \/>\n    o quadrado vazio do c&eacute;u. Uma final sublime, estranha sensa&ccedil;&atilde;o&#8230;<br \/>\n    Que avan&ccedil;a, aumenta&#8230; Sorri bobo no ar. Pra n&atilde;o estar mais<br \/>\n    assim esfregando lentamente, fortemente, as palmas das m&atilde;os, uma na<br \/>\n    outra, aperta os bra&ccedil;os entre as pernas encolhidas, musculosas. N&atilde;o<br \/>\n    pode mais, faltou-lhe o ar. Todo o corpo se retesou numa explos&atilde;o e<br \/>\n    pensou que morria. Pra se salvar murmura:<\/p>\n<p> &#8212; Fr&auml;ulein!<\/p>\n<p>Baixam r&aacute;pidos do Emp&iacute;reo os anjos do Senhor, asas, muitas<br \/>\n    asas. Tatalam produzindo brisa fria que refrigera as carnes exasperadas do<br \/>\n    menino. As massagens das m&atilde;os ang&eacute;licas pouco a pouco lhe relaxam<br \/>\n    os m&uacute;sculos espetados, Carlos se larga todo em beata prostra&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Os anjos ro&ccedil;am pela epiderme dele esponjas celestiais. Essas esponjas<br \/>\n    apagam tudo, sensa&ccedil;&otilde;es estranhas, ard&ecirc;ncias e mesmo qualquer<br \/>\n    prova de delito. Na alma e no corpo. Ele n&atilde;o faz por mal! s&atilde;o<br \/>\n    coisas que acontecem. Por&eacute;m, apesar de sozinho, Carlos encafifou.<\/p>\n<p> Acham muita nisso os anjos, lhe passando nos olhos aquela pomada que deixa<br \/>\n    seres e vida tal-e-qual a gente quer.<\/p>\n<p> S&atilde;o Rafael nos c&eacute;us escreve:<\/p>\n<p>N&ordm; 9.877.524.953.407:<\/p>\n<p>Carlos Alberto Sousa Costa. <\/p>\n<p> Nacionalidade: Brasileiro. <\/p>\n<p> Estado social: Solteiro.<\/p>\n<p> Idade: Quinze (15) anos.<\/p>\n<p> Profiss&atilde;o: (um tracinho).<\/p>\n<p> Inten&ccedil;&otilde;es: (um tracinho).<\/p>\n<p> Observa&ccedil;&otilde;es extraordin&aacute;rias: (um tracinho).<\/p>\n<p> &quot;REGISTRO DO AMOR SINCERO&quot;.<\/p>\n<p>Outro dia Fr&auml;ulein voltou duma dessas reuni&otilde;es na casa da amiga,<br \/>\n    com um ma&ccedil;o de revistas e alguns livros. Um m&eacute;dico rec&eacute;m-chegado<br \/>\n    da Alemanha convicto de Expressionismo, lhe emprestara uma cole&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Der Sturm e obra de Schikele, Franz Werfel e Casimiro Edschmid.<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein quase nada sabia do Expressionismo nem de modernistas. Li;<br \/>\n    Goethe, sempre Schiller e os poemas de Wagner. Principalmente. Lia tamb&eacute;m<br \/>\n    bastante Shakespeare traduzido. Heine. Por&eacute;m Heine ca&ccedil;oara da<br \/>\n    Alemanha, lhe desagradava que nem Schopenhauer, s&oacute; as can&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Preferia Nietzsche mas um pouquinho s&oacute;, era maluco, diziam. Em todo<br \/>\n    caso Fr&auml;ulein acreditava em Nietzsche. Dos franceses, admitia Racine<br \/>\n    e Romain Rolland. Lidos no original<\/p>\n<p> Seguiu p&aacute;gina por p&aacute;gina livros e revistas ignorados. Compreendeu<br \/>\n    e aceitou o Expressionismo, que nem alem&atilde;o med&iacute;ocre aceita primeiro<br \/>\n    e depois compreende. O que existe deve ser tomado a s&eacute;rio. Porque existe.<br \/>\n    Aquela prociss&atilde;o de imagens afastad&iacute;ssimas, e cont&iacute;nuo<br \/>\n    adejar por alturas filos&oacute;ficas metaf&iacute;sicas, aquela eterna grandiloq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    sentimental&#8230; E a s&iacute;ntese, a palavra solta desvirtuando o arrastar<br \/>\n    natural da linguagem&#8230; De repente a mancha realista, ver um bombo pam! de<br \/>\n    chofre&#8230; Eram assim. Leu tudo. E voltou ao seu Goethe e sempre Schiller.<\/p>\n<p> Se lhe dessem nova cole&ccedil;&atilde;o de algum mens&aacute;rio inovador,<br \/>\n    mais livros, leria tudo p&aacute;gina por p&aacute;gina. Aceitaria tudo. Compreenderia<br \/>\n    tudo? Aceitaria tudo. Para voltar de novo a Goethe. E sempre Schiller.<\/p>\n<p> O caso evolucionava com rapidez. Muita rapidez, pensava Fr&auml;ulein. Mas<br \/>\n    Carlos era ardido, tinha pressa. Por outra: n&atilde;o &eacute; que tivesse<br \/>\n    pressa exatamente, por&eacute;m n&atilde;o sabia somar.<\/p>\n<p> A aritm&eacute;tica nunca foi prop&iacute;cia aos brasileiros. N&oacute;s<br \/>\n    n&atilde;o somamos coisa nenhuma. Das quatro opera&ccedil;&otilde;es, unicamente<br \/>\n    uma nos atrai, a multiplica&ccedil;&atilde;o, justo a que mais raro freq&uuml;enta<br \/>\n    os sucessos deste mundo vagarento.<\/p>\n<p> De resto, n&oacute;s j&aacute; sabemos que Carlos estragava tudo. Castigos<br \/>\n    da multiplica&ccedil;&atilde;o. Ele compreendeu enfim, devido aquele fato<br \/>\n    lament&aacute;vel apagado pela esponja dos arcanjos, que gostava mesmo de<br \/>\n    Fr&auml;ulein. Principiou n&atilde;o querendo mais sair de casa. De primeiro<br \/>\n    era o dia inteirinho na rua, futebol, li&ccedil;&otilde;es de ingl&ecirc;s,<br \/>\n    de geografia, de n&atilde;o-sei-que-mais e nata&ccedil;&atilde;o, tarde com<br \/>\n    os camaradas e inda por cima, depois da janta, cinema. Agora? Vive na saia<br \/>\n    de Fr&auml;ulein. Sempre desapontado, que d&uacute;vida! mas por&eacute;m<br \/>\n    na saia de Fr&auml;ulein. Sorri aquele sorriso enjeitado, geralmente de olhos<br \/>\n    baixos, cheio de m&atilde;os. De repente fixa a mo&ccedil;a na cara destemido<br \/>\n    pedindo. Pedindo o que? Vencendo. Fr&auml;ulein se irrita: sem-vergonha!<\/p>\n<p> Mas na verdade Carlos nem sabia bem o que queria. Fr&auml;ulein &eacute;<br \/>\n    que sentia-se quebrar. Tinha ang&uacute;stias desnecess&aacute;rias, calores,<br \/>\n    fraqueza. Em v&atilde;o o homem-do-sonho trabalhava teses e teorias. Em v&atilde;o<br \/>\n    o homem-da-vida pedia vagares e m&eacute;todo, que estas coisas devem seguir<br \/>\n    normalmente at&eacute; o cume do Itatiaia.<\/p>\n<p> &#8212; Fr&auml;ulein largue disso. Venha tocar um pouco pra mim!&#8230; Voz<br \/>\n    queixosa. Voz cantante. Voz molenga.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o posso, Carlos. Preciso pregar estes bot&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; Ora venha!&#8230; Voc&ecirc; ensina piano pra mim, ensina?<\/p>\n<p> &#8212; Carlos, n&atilde;o me incomode.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o me ensine a pregar bot&otilde;es, v&aacute;!&#8230; me<br \/>\n    d&aacute; a agulha&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Voc&ecirc; me perturba, menino!<\/p>\n<p> &#8212; Perturba!&#8230; (risinho) Ora, Fr&auml;ulein! perturba no que! Imagine!<br \/>\n    estou perturbando Fr&auml;ulein! (baixinho churriando) toca sim?&#8230; deixa<br \/>\n    de enjoamento!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Voc&ecirc; &eacute; imposs&iacute;vel, Carlos.<\/p>\n<p> Ia pro piano. Folheava os cadernos sonoros. Atacava, suponhamos, a op. 81<br \/>\n    ou os Episoden, de Max Reger. Tocava aplicadamente, n&atilde;o errava nota.<br \/>\n    N&atilde;o mudava uma s&oacute; indica&ccedil;&atilde;o din&acirc;mica. Por&eacute;m<br \/>\n    fazia melhor o diminuendo que o crescendo&#8230;<\/p>\n<p> Carlos muito atento, debru&ccedil;ado sobre o piano. Na verdade ele n&atilde;o<br \/>\n    escutava nada, todo olhos para a pianista, esperando o aceno dela pra virar<br \/>\n    a p&aacute;gina. Pouco a pouco &#8212; n&atilde;o ouvia mas a m&uacute;sica<br \/>\n    penetrava nele &#8212; pouco a pouco sentia pazes imberbes. Os anseios adquiriam<br \/>\n    perspectivas. Nasciam espa&ccedil;o, dist&acirc;ncias, planos, calmas&#8230; Placidez.<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein p&aacute;ra e volta pra costura. Carlos solitariamente macamb&uacute;zio,<br \/>\n    sem pensar em nada, se afasta. Jardim. Passeia as m&atilde;os amputadas pelas<br \/>\n    folhagens e flores. Agora n&atilde;o estraga mais nada. Considera o c&eacute;u<br \/>\n    liso. N&atilde;o est&aacute; cansado. Incapaz de fazer coisa alguma. Maria<br \/>\n    Lu&iacute;sa passa, ele estira a perna. Movimento reflexo e pura mem&oacute;ria<br \/>\n    muscular. Maria Lu&iacute;sa se viu obrigada a pular. <\/p>\n<p> &#8212; Conto pra mam&atilde;e, bruto!&#8230; V&aacute; bulir com Fr&auml;ulein!\n  <\/p>\n<p> Ele apenas sorri, na indiferen&ccedil;a. N&atilde;o quer agir, n&atilde;o<br \/>\n    sente o gosto de viver. Fosse noutro momento, Maria Lu&iacute;sa n&atilde;o<br \/>\n    sa&iacute;a dali sem chorar. Por&eacute;m Carlos agora como que apenas se<br \/>\n    deixa existir. Existir&aacute;?<\/p>\n<p> Aquilo dura tempo, bastante tempo.<\/p>\n<p> H&aacute; todo um estudo comparativo a fazer entre a naftalina Max Reger<br \/>\n    e os brometos em geral.<\/p>\n<p> Agora qualquer passagem mais pequena pro ditado. Estavam mais silenciosos<br \/>\n    que nunca. Prolongavam as li&ccedil;&otilde;es e, pelas partes em que estas<br \/>\n    se dividiam, observavam machucados a aproxima&ccedil;&atilde;o do fim. No<br \/>\n    entanto eram horas de ang&uacute;stia aquelas! Em trinta dias partira esse<br \/>\n    bom tempinho de amor nascente, no qual as almas ainda n&atilde;o se utilizam<br \/>\n    do corpo. Porque nada sabem ainda. Os dois? Ponhamos os dois. Fr&auml;ulein<br \/>\n    notava que desta feita era diferente. E quando a li&ccedil;&atilde;o acabava,<br \/>\n    saindo da biblioteca, surpreendia os dois aquela como consci&ecirc;ncia de<br \/>\n    liberta&ccedil;&atilde;o, arre! mas se fosse poss&iacute;vel renovariam a<br \/>\n    ang&uacute;stia imediatamente, era t&atilde;o bom!<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein folheou o livro. A p&aacute;gina cantou uns versos de Heine.<br \/>\n    Servia. <\/p>\n<p> &#8212; Esta.<\/p>\n<p> Carlos voz grave, quase lassa murmurou:<\/p>\n<p>Du sch&ouml;nes Fischerm&atilde;dchen<\/p>\n<p> Treibe den Kahn ans Land;<\/p>\n<p> Komm zu mir und setze dich nieder,<\/p>\n<p> Wir Kosen, Hand in Hand.<\/p>\n<p>Leg&#8217;an mein Herz dein Kopfchen <\/p>\n<p> Und furcht dicht nicht so sehr: <\/p>\n<p> Vertraust du dich doch sorglos <\/p>\n<p> Taglich dem wilden Meer!<\/p>\n<p>Mein Herz gleicht ganz dem Meere, <\/p>\n<p> Hat Sturm und Ebb und Flut, <\/p>\n<p> Und manche sch&ouml;ne Perle <\/p>\n<p> In seiner Tiefe ruht.*<\/p>\n<p> *Vide nota no final do livro<\/p>\n<p>&#8212; Entendeu, Carlos?<\/p>\n<p> Ela repetia sempre &quot;Carlos&quot;, era a sensualidade dela. Talvez de<br \/>\n    todos&#8230; Se voc&ecirc; ama, ou por outra se j&aacute; deseja no amor, pronuncie<br \/>\n    baixinho o nome desejado. Veja como ele se moja em formas transmissoras do<br \/>\n    encosto que enlanguesce. Esse ou essa que voc&ecirc; ama, se torna assim maior,<br \/>\n    mais poderoso. E se apodera de voc&ecirc;. Homens, mulheres, fortes, fracos&#8230;<br \/>\n    Se apodera.<\/p>\n<p> E pronunciado, assim como ela faz, em frente do outro, sai e se encosta<br \/>\n    no dono, &eacute; beijo. Por isso ela repete sempre, como de-j&aacute;-hoje,<br \/>\n    inutilmente: <\/p>\n<p> &#8212; Entendeu, Carlos?<\/p>\n<p> E ele jogando um dos tais risinhos alastrados com que desaponta sempre:\n  <\/p>\n<p> &#8212; Quase! mas adivinhei!<\/p>\n<p> Eis a&iacute; uma das coisas com que Fr&auml;ulein n&atilde;o se dava bem.<br \/>\n    Pra ela era preciso entender sempre o significado das palavras, sen&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o compreendia mesmo. Estes brasileiros?!&#8230; Uma pregui&ccedil;a de<br \/>\n    estudar!&#8230; Qual de voc&ecirc;s seria capaz de decorar, que nem eu, p&aacute;gina<br \/>\n    por p&aacute;gina, o dicion&aacute;rio de Michaelis pra vir para o Brasil?<br \/>\n    n&atilde;o v&ecirc;! Por&eacute;m quando careciam de saber, sabiam. Adivinhavam.<br \/>\n    Olhe agora: Que podia Carlos entender, se ignorava o sentido de muitas daquelas<br \/>\n    palavras? R&iacute;spida:<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o diga o que &eacute;. <\/p>\n<p> O menino, meio enfiado, vai vivendo:<\/p>\n<p> &Eacute; que eles ficaram sentados na praia, de m&atilde;os dadas muito<br \/>\n    juntinhos. Depois ele deitou a cabe&ccedil;a no ombro dela. (Carlos abaixava<br \/>\n    a dele e j&aacute; n&atilde;o ria.) Depois&#8230; (lhe deu aquela vergonha de<br \/>\n    saber o que n&atilde;o sabia. Ficou muito azaranzado). A segunda estrofe n&atilde;o<br \/>\n    entendo nada. Vertraust&#8230; que que &eacute; vertraust!&#8230; Mas depois o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    deles principiou fazendo que nem o mar&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Deles n&atilde;o, Carlos. Dele s&oacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Deles! Ganz: todos! Aqui quer dizer dos dois, dela tamb&eacute;m!<\/p>\n<p> &#8212; Voc&ecirc; est&aacute; adivinhando, Carlos! Mein Herz, o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dele parecia com o mar. Ganz gleicht: parecia, era como, tal-e-qual.<\/p>\n<p> &#8212; Hmm&#8230;<\/p>\n<p> Desconsolado. Sensa&ccedil;&atilde;o de pobreza, isolamento&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o sei mais!<\/p>\n<p> Ela, muito suave, extasiada:<\/p>\n<p> &#8212; Voc&ecirc; est&aacute; falando certo, Carlos! Continue!<\/p>\n<p> &#8212; O cora&ccedil;&atilde;o dele estava tal-e-qual o mar&#8230; Em tempestade&#8230;<\/p>\n<p> E de repente transfigurado, numa confiss&atilde;o de olhos &uacute;midos,<br \/>\n    arrebatou todos os s&iacute;mbolos murmurando:<\/p>\n<p> &#8212; Mas ele tinha muitas p&eacute;loras no cora&ccedil;&atilde;o!<\/p>\n<p> Queria dizer p&eacute;rolas por&eacute;m saiu p&eacute;loras, o que que<br \/>\n    a gente h&aacute; de fazer com a como&ccedil;&atilde;o!<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein r&iacute;spida: &#8212; Escreva agora.<\/p>\n<p> R&iacute;spida, porque de outro jeito n&atilde;o se salvava mesmo. Careceria<br \/>\n    pra abafar o&#8230; desejo? desejo, tampar o peito com a cabe&ccedil;a dele. Pampampam&#8230;<br \/>\n    acelerado. Lhe beijar os cabelos os olhos, os olhos a testa muito, muito muito&#8230;<br \/>\n    Sempre! Ficarem assim!&#8230; Sempre&#8230; Depois ele voltava do trabalho na cidade<br \/>\n    escura&#8230; Depunha os livros na escrivaninha&#8230; Ela trazia a janta&#8230; Talvez<br \/>\n    mais tr&ecirc;s meses, pronto o livro sobre O Apelo da Natureza na Obra dos<br \/>\n    Minnes&auml;nger&#8230; Comeriam quase em sil&ecirc;ncio&#8230;<\/p>\n<p> Carlos tamb&eacute;m estava escrevendo letras muito alheias. Era uma ang&uacute;stia<br \/>\n    cada vez mais forte, intoler&aacute;vel j&aacute;. Como respirar? P&eacute;rolas&#8230;<br \/>\n    Pra que p&eacute;rolas!&#8230; que id&eacute;ia de Heine! A hora ia acabar&#8230;<br \/>\n    As letras se desenhavam mais lentas, sem gosto, prolongando a mis&eacute;ria<br \/>\n    e a felicidade. A fala de Fr&auml;ulein, seca, riscava as palavras do ditado<br \/>\n    em explos&otilde;es &aacute;cidas navalhando a entressombra. Acabava desoladamente:<\/p>\n<p> &#8212;&#8230; Tiefe ruht.<\/p>\n<p> Se levantou libertada. Por&eacute;m no papel surgia em letras infelizes<br \/>\n    &quot;tiefe ruht&quot;, e deu-se ent&atilde;o que Fr&auml;ulein n&atilde;o<br \/>\n    p&ocirc;de mais consigo. Se despejou sobre o menino, com o pretexto de corrigir:<\/p>\n<p> &#8212; Vou escrever com a m&atilde;o de voc&ecirc; mesmo, disfar&ccedil;ou.<\/p>\n<p> O rosto se apoiou nos cabelos dele. Os l&aacute;bios quase que, &eacute;<br \/>\n    natural, sim: tocaram na orelha dele. Tocaram por acaso, quest&atilde;o de<br \/>\n    posi&ccedil;&atilde;o. Os seios pousaram sobre um ombro largo, musculoso,<br \/>\n    agora impass&iacute;vel escutando. Chuvarada de ouro sobre a abandonada barca<br \/>\n    de D&acirc;nae&#8230; Carlos&#8230; &ecirc;ta arroubo interior, medo? vergonha? aterrorizado!<br \/>\n    indiz&iacute;vel do&ccedil;ura&#8230; Carlos que nem Pedra. Fr&auml;ulein com<br \/>\n    a m&atilde;o dele escreveu em letras palha&ccedil;as: &quot;Tiefe ruht&quot;.<\/p>\n<p> N&atilde;o tinham mais nada pra se falar, n&atilde;o tinham.<\/p>\n<p> Quando sa&iacute;ram da biblioteca, pela primeira vez, uma desesperada felicidade<br \/>\n    de acabar com aquilo.<\/p>\n<p> Por&eacute;m s&oacute; Carlos desta vez &eacute; que n&atilde;o sabia bem<br \/>\n    direito o que era o &quot;aquilo&quot;.<\/p>\n<p> Pancadas na porta de Fr&auml;ulein. Virou assustada, resguardando o peito.<br \/>\n    Abotoava a blusa:<\/p>\n<p> &#8212; Quem &eacute;?<\/p>\n<p> &#8212; Sou eu, Fr&auml;ulein. Queria lhe falar. Abriu a porta e dona Laura<br \/>\n    entrou.<\/p>\n<p> &#8212; Queria lhe falar. Um pouco&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Estou &agrave;s suas ordens, minha senhora.<\/p>\n<p> Esperou. Dona Laura respirava muito nervosa, n&atilde;o sabendo principiar.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; por causa do Carlos&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ah&#8230; Sente-se.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o v&ecirc; que eu vinha lhe pedir, Fr&auml;ulein, pra deixar<br \/>\n    a nossa casa. Acredite: isto me custa muito porque j&aacute; estava muito<br \/>\n    acostumada com voc&ecirc; e n&atilde;o fa&ccedil;o m&aacute; id&eacute;ia<br \/>\n    de si, n&atilde;o pense! mas&#8230; Creio que j&aacute; percebeu o jeito de Carlos&#8230;<br \/>\n    ele &eacute; t&atilde;o crian&ccedil;a!&#8230; Pelo seu lado, Fr&auml;ulein, fico<br \/>\n    inteiramente descansada&#8230; Por&eacute;m esses rapazes&#8230; Carlos&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; vejo que o senhor seu marido n&atilde;o lhe disse o que<br \/>\n    vim fazer aqui. Dona Laura teve uma tontona, escancarou olhos parados:<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o!<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; lament&aacute;vel, minha senhora, o procedimento do senhor<br \/>\n    seu marido, evitaria esta explica&ccedil;&atilde;o desagrad&aacute;vel. Pra<br \/>\n    mim. Creio que pra senhora tamb&eacute;m. Mas &eacute; melhor chamar o seu<br \/>\n    marido. Ou quer que des&ccedil;amos pro hol?<\/p>\n<p> Foram encontrar Sousa Costa na biblioteca. Ele tirou os olhos da carta,<br \/>\n    ergueu a caneta, vendo elas entrarem.<\/p>\n<p> &#8212; O senhor me prometeu contar a sua esposa a raz&atilde;o da minha<br \/>\n    presen&ccedil;a aqui. Lamento profundamente que o n&atilde;o tenha feito,<br \/>\n    senhor Sousa Costa.<\/p>\n<p> Sousa Costa encafifou, desacochado por se ver colhido em falta. Riscou uma<br \/>\n    desculpa sem intelig&ecirc;ncia:<\/p>\n<p> &#8212; Queira desculpar, Fr&auml;ulein. Vivo t&atilde;o atribulado com<br \/>\n    os meus neg&oacute;cios! Demais: isso &eacute; uma coisa de t&atilde;o pouca<br \/>\n    import&acirc;ncia!&#8230; Laura, Fr&auml;ulein tem o meu consentimento. Voc&ecirc;<br \/>\n    sabe: hoje esses mocinhos&#8230; &eacute; t&atilde;o perigoso! Podem cair nas<br \/>\n    m&atilde;os de alguma exploradora! A cidade&#8230; &eacute; uma invas&atilde;o<br \/>\n    de aventureiras agora! Como nunca teve!. COMO NUNCA TEVE, Laura&#8230; Depois<br \/>\n    isso de principiar&#8230; &eacute; t&atilde;o perigoso! Voc&ecirc; compreende:<br \/>\n    uma pessoa especial evita muitas coisas. E viciadas! N&atilde;o &eacute; s&oacute;<br \/>\n    bebida n&atilde;o! Hoje n&atilde;o tem mulher-da-vida que n&atilde;o seja<br \/>\n    eter&ocirc;mana, usam morfina&#8230; E os mo&ccedil;os imitam! Depois as doen&ccedil;as!&#8230;<br \/>\n    Voc&ecirc; vive na sua casa, n&atilde;o sabe&#8230; &eacute; um horror! Em pouco<br \/>\n    tempo Carlos estava sifil&iacute;tico e outras coisas horr&iacute;veis, um<br \/>\n    perdido! &Eacute; o que eu te digo, Laura, um perdido! Voc&ecirc; compreende&#8230;<br \/>\n    meu dever &eacute; salvar o nosso filho&#8230; Por isso! Fr&auml;ulein prepara<br \/>\n    o rapaz. E evitamos quem sabe? at&eacute; um desastre!&#8230; UM DESASTRE! <\/p>\n<p> Repetia o &quot;desastre&quot; satisfeito por ter chegado ao fim da explica&ccedil;&atilde;o.\n  <\/p>\n<p> Passeava de canto a canto. Assim se fingem as c&oacute;leras, e os machos<br \/>\n    se imp&otilde;em, enganando a pr&oacute;pria vergonha. Dona Laura sentara<br \/>\n    numa poltrona, maravilhada. Compreendia! Por&eacute;m n&atilde;o juro que<br \/>\n    compreendesse tudo n&atilde;o. Ali&aacute;s isso nem convinha pra que pudesse<br \/>\n    ceder logo. Fr&auml;ulein &eacute; que estava indignada. Que diabo! atos da<br \/>\n    vida n&atilde;o &eacute; arte expressionista, que pode ser nebulosa ou sint&eacute;tica.<br \/>\n    N&atilde;o percebera bem a claridade latina daquela explica&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    O m&eacute;todo germanicamente dela e did&aacute;tica habilidade no agir,<br \/>\n    n&atilde;o admitiam tal fumarada de palavras desconexas. Aquelas frases sem<br \/>\n    dicion&aacute;rio nem gram&aacute;tica irritaram-na inda mais. Queria, exigia<br \/>\n    sujeito verbo e complemento. S&oacute; uma coisa julgara perceber naquele<br \/>\n    ingranz&eacute;u, e, engra&ccedil;ado! Justamente o que Sousa Costa pensava,<br \/>\n    mas n&atilde;o tivera a inten&ccedil;&atilde;o de falar: pagavam s&oacute;<br \/>\n    pra que ela se sujeitasse &agrave;s primeiras fomes amorosas do rapaz.<\/p>\n<p> Este circunl&oacute;quio das &quot;fomes amorosas&quot; fica muito bem aqui.<br \/>\n    Evita o &quot;libido&quot; da nomenclatura psicanalista, antip&aacute;tico,<br \/>\n    vago masculino, e de duvidosa compreens&atilde;o leitoril. As fomes amorosas<br \/>\n    s&atilde;o muito mais expressivas e n&atilde;o fazem mal pra ningu&eacute;m.<br \/>\n    Isto &eacute;: vir na casa de Sousa Costa unicamente pra se sujeitar &agrave;s<br \/>\n    tais de Carlos, o homem-do-sonho de dentro de Fr&auml;ulein v&ecirc; nisso<br \/>\n    um insulto, d&aacute; uns urros e principia chorando. Sem um gesto, bem plantadinha<br \/>\n    nos p&eacute;s, com a nobreza que a indigna&ccedil;&atilde;o nunca negou ningu&eacute;m,<br \/>\n    Fr&auml;ulein discursa:<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute; bem isso, minha senhora (Se dirigia a dona Laura,<br \/>\n    porque o homem-da-vida estava um pouco amedrontado com os modos de Sousa Costa.<br \/>\n    E tamb&eacute;m, sejamos francos, isto &eacute;, parece&#8230; ser&aacute; que<br \/>\n    conservava uma esperancinha? Aquilo ainda podia se arranjar&#8230; Homem! ningu&eacute;m<br \/>\n    o saber&aacute; jamais&#8230;) N&atilde;o &eacute; bem isso, minha senhora. N&atilde;o<br \/>\n    sou nenhuma sem-vergonha nem interesseira! Estou no exerc&iacute;cio duma<br \/>\n    profiss&atilde;o. E t&atilde;o nobre como as outras. &Eacute; certo que o<br \/>\n    senhor Sousa Costa me tomou pra que viesse ensinar a Carlos o que &eacute;<br \/>\n    o amor e evitar assim muitos perigos, se ele fosse obrigado a aprender l&aacute;<br \/>\n    fora. Mas n&atilde;o estou aqui apenas como quem se vende, isso &eacute; uma<br \/>\n    vergonha! <\/p>\n<p> &#8212; Mas Fr&auml;ulein n&atilde;o tive a inten&ccedil;&atilde;o de!<\/p>\n<p> &#8212;&#8230; que se vende! N&atilde;o! Se infelizmente n&atilde;o sou mais<br \/>\n    nenhuma virgem, tamb&eacute;m n&atilde;o sou&#8230; n&atilde;o sou nenhuma perdida.<\/p>\n<p> Lhe inchavam os olhos duas l&aacute;grimas de verdade. N&atilde;o rolavam<br \/>\n    ainda e j&aacute; lhe molhavam a fala:<\/p>\n<p> &#8212;&#8230; E o amor n&atilde;o &eacute; s&oacute; o que o senhor Sousa Costa<br \/>\n    pensa. Vim ensinar o amor como deve ser. Isso &eacute; que eu pretendo, pretendia<br \/>\n    ensinar pra Carlos. O amor sincero, elevado, cheio de senso pr&aacute;tico,<br \/>\n    sem loucuras. Hoje, minha senhora, isso est&aacute; se tornando uma necessidade<br \/>\n    desde que a filosofia invadiu o terreno do amor! Tudo o que h&aacute; de pessimismo<br \/>\n    pela sociedade de agora! Est&atilde;o se animalizando cada vez mais. Pela<br \/>\n    influ&ecirc;ncia &agrave;s vezes at&eacute; indireta de Schopenhauer, de Nietzsche&#8230;<br \/>\n    embora sejam alem&atilde;es. Amor puro, sincero, uni&atilde;o inteligente<br \/>\n    de duas pessoas, compreens&atilde;o m&uacute;tua. E um futuro de paz conseguido<br \/>\n    pela coragem de aceitar o presente.<\/p>\n<p> Rosto polido por l&aacute;grimas saudosas, quem vira Fr&auml;ulein chorar!&#8230;<br \/>\n    &#8212;&#8230; &Eacute; isso que eu vim ensinar pra seu filho, minha senhora.<br \/>\n    Criar um lar sagrado! Onde &eacute; que a gente encontra isso agora?<\/p>\n<p> Parou arfando. &quot;Lar sagrado&quot; lhe fizera resplandecer o castanho<br \/>\n    dos olhos num lumeiro de anseios. Se aproximava da santa sob a figura en&eacute;rgica<br \/>\n    da enfermeira. Mas convic&ccedil;&atilde;o protestante, nobil&iacute;ssima<br \/>\n    n&atilde;o discuto, por&eacute;m sem a latinidade que d&aacute; gra&ccedil;a<br \/>\n    e objetiva o calor da beleza sensual. Lembrou, ainda outra vez indignada:<\/p>\n<p> &#8212; Foi isso que vim ensinar a seu filho e n&atilde;o: me entregar!<br \/>\n    Mas vejo que sou tomada por outra mulher aqui. Deixarei a sua casa amanh&atilde;<br \/>\n    mesmo, minha senhora. E penso que n&atilde;o tem mais nada pra me dizer?&#8230;<\/p>\n<p> &Eacute; certo que Fr&auml;ulein tinha esclarecido muito o que viera fazer<br \/>\n    na casa deles, por&eacute;m dona Laura que tinha percebido tudo com a explica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Felisberto, agora n&atilde;o compreendia mais nada. Afinal: o que era mesmo<br \/>\n    que Fr&auml;ulein estava fazendo na casa dela!<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein esperou um segundo. Nada tinham para lhe falar aqueles dois.<br \/>\n    Cumprimentou e saiu. Subiu pro quarto. Fechou-se. Tirou o casaco. O pensamento<br \/>\n    forte imobilizou-a. Comprimiu o seio com a m&atilde;o, ao mesmo tempo que<br \/>\n    amarfanhava-lhe a cara uma dor vigorosa, incompreendida assim! Mas foi um<br \/>\n    minuto apenas, dominou-se. Tinha que despir-se. Continuou se despindo. E Carlos?&#8230;<br \/>\n    Minuto apenas. Varreu o carinho. Prendeu com aten&ccedil;&atilde;o os cabelos.<br \/>\n    Lavou o rosto. Se deitou. Um momento no escuro, os olhos inda pestanejaram<br \/>\n    pensativos. N&atilde;o nada com isso: haviam de lhe pagar os oito contos.<br \/>\n    Mas agora tinha que dormir, dormiu.<\/p>\n<p>Aquilo de Fr&auml;ulein falar que &quot;hoje a filosofia invadiu o terreno<br \/>\n    do amor&quot; e mais duas ou tr&ecirc;s largadas que escaparam na fala dela,<br \/>\n    s&oacute; vai servir pra dizerem que o meu personagem est&aacute; mal constru&iacute;do<br \/>\n    e n&atilde;o concorda consigo mesmo. Me defendo j&aacute;.<\/p>\n<p> Primeiro: Que mentira, meu Deus! dizerem Fr&auml;ulein, personagem inventado<br \/>\n    por mim e por mim constru&iacute;do! n&atilde;o constru&iacute; coisa nenhuma.<br \/>\n    Um dia Elza me apareceu, era uma quarta-feira, sem que eu a procurasse. Nem<br \/>\n    invocasse, pois sou incr&eacute;u de mesas volantes e de m&eacute;diuns dicazes.<br \/>\n    Aquelas n&atilde;o valem um tangar&aacute;. Quanto a m&eacute;diuns dicazes<br \/>\n    adjetivo bonito! &#8212; &eacute; sabido que escrevem sonetos de Bilac mais<br \/>\n    piores que um d&iacute;stico de versejadores de terceira plana. Ora se os<br \/>\n    vates de segundo grau j&aacute; s&atilde;o cacetes, se imagine o que n&atilde;o<br \/>\n    engendra a fac&uacute;ndia son&acirc;mbula dos m&eacute;diuns e dos espiritistas<br \/>\n    em geral! Dicazes.<\/p>\n<p> Um dia, era uma quarta-feira, Fr&auml;ulein apareceu diante de mim e se<br \/>\n    contou. O que disse aqui est&aacute; com poucas v&iacute;rgulas, vernaculiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    acomodat&iacute;cia e ortografia. Os personagens, &eacute; poss&iacute;vel<br \/>\n    que uma disposi&ccedil;&atilde;o particular e moment&acirc;nea do meu esp&iacute;rito<br \/>\n    tenha aceitado as somas por eles apresentadas, essa toda a minha falta. Por&eacute;m<br \/>\n    asseguro serem criaturas j&aacute; feitas e que se moveram sem mim. S&atilde;o<br \/>\n    os personagens que escolhem os seus autores e n&atilde;o estes que constroem<br \/>\n    as suas hero&iacute;nas. Virgulam-nas apenas, pra que os homens possam ter<br \/>\n    delas conhecimento suficiente. Segunda e mais forte raz&atilde;o: Afirmarem<br \/>\n    que Fr&auml;ulein n&atilde;o concorda consigo mesma&#8230; Mas eu s&oacute; queria<br \/>\n    saber neste mundo misturado quem concorda consigo mesmo! Somos misturas incompletas,<br \/>\n    assustadoras incoer&ecirc;ncias, metades, tr&ecirc;s-quartos e quando muito<br \/>\n    nove-d&eacute;cimos. At&eacute; afirmo n&atilde;o existir uma s&oacute; pessoa<br \/>\n    perfeita, de S&atilde;o Paulo a S&atilde;o Paulo, a gente fazendo toda a volta<br \/>\n    deste globo, com expressiva justeza adjetivadora, chamado de terr&aacute;queo.<\/p>\n<p> Mesmo cientistas j&aacute; afirmaram isso tamb&eacute;m. Desde Gley, Chevalier<br \/>\n    e Fliess se desconfia que de primeiro os seres foram hermafroditas. Antes<br \/>\n    desses senhores, Darwin estivera escrevendo coisas pr&oacute;s leitores inteligentes<br \/>\n    do tal de globo terr&aacute;queo e desde ent&atilde;o se come&ccedil;ou falando<br \/>\n    em sele&ccedil;&atilde;o e outras espertezas que permitiram este saboros&iacute;ssimo<br \/>\n    cisma em seres imperfeitos machos e f&ecirc;meas imperfeitas. Que invento<br \/>\n    admir&aacute;vel o cisma!<\/p>\n<p> Pouco depois da Origem das esp&eacute;cies, nasceu na Alemanha uma criancinha.<br \/>\n    Mamava que nem as outras, berrava sonoramente e trocava os dias pelas noites<br \/>\n    pra dormir.<\/p>\n<p> Como desse em seguida pra escrever coisas espantosas, os alem&atilde;es<br \/>\n    principiaram lhe chamando Herr Professor Freud. Pois n&atilde;o &eacute; que<br \/>\n    essa criancinha ainda veio fortificar mais as escrituras de Fliess, de Kraff-Ebbing,<br \/>\n    sobre a nossa imperfeita bizarria! Afirmou que uma certa por&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de hermafroditismo anat&ocirc;mico &eacute; ainda normal na gente! Incr&iacute;vel!<br \/>\n    Incr&iacute;vel e desagrad&aacute;vel.<\/p>\n<p> A tanta ci&ecirc;ncia e t&atilde;o pouca anatomia, eu prefiro aquela id&eacute;ia<br \/>\n    contada pelo padre Pernetty: &quot;Les femmes sont plus de pituite et les<br \/>\n    hommes plus de bile&#8230; Certains philosophes ne craindraient pas d&#8217;afirmer<br \/>\n    que les femmes ne sont femmes que par un d&eacute;faut de chaleur&quot;. E<br \/>\n    se quiserem coisa ainda mais grata, &eacute; lembrar a f&aacute;bula discreta<br \/>\n    contada por Plat&atilde;o no Banquete&#8230; Por&eacute;m o que importa s&atilde;o<br \/>\n    as afirmativas daqueles alem&atilde;es sapient&iacute;ssimos, aqui evocados<br \/>\n    para validar a minha asser&ccedil;&atilde;o e lhe dar carranca cient&iacute;fico-experimental:<\/p>\n<p> N&Atilde;O EXISTE MAIS UMA &Uacute;NICA PESSOA INTEIRA NESTE MUNDO E NADA<br \/>\n    MAIS SOMOS QUE DISC&Oacute;RDIA E COMPLICA&Ccedil;&Atilde;O.<\/p>\n<p> O que chama-se vulgarmente personalidade &eacute; um complexo e n&atilde;o<br \/>\n    um completo. Uma personalidade concordante, milagre! Pra criar tais milagres<br \/>\n    o romance psicol&oacute;gico apareceu. De ent&atilde;o, come&ccedil;aram a<br \/>\n    pulular os figurinos mec&acirc;nicos. Figurinos, membros, c&eacute;rebros,<br \/>\n    f&iacute;gados de lat&atilde;o, que, por serem de lat&atilde;o, se moveram<br \/>\n    com a vulgaridade e a gelidez prevista do lat&atilde;o.<\/p>\n<p> Oh! positivistas da fantasia! oh fic&ccedil;&otilde;es mon&oacute;tonas<br \/>\n    e resultados j&aacute; sabidos!&#8230; Fr&auml;ulein &eacute; senhorinha modesta<br \/>\n    e um pouco est&uacute;pida. N&atilde;o &eacute; dama nem padre de Bourget.<br \/>\n    Pois uma vez em defesa pr&oacute;pria afirmou: &quot;Hoje a filosofia invadiu<br \/>\n    o terreno do amor&quot;, que surpresa pra n&oacute;s! Ningu&eacute;m esperava<br \/>\n    por isso, n&atilde;o &eacute; verdade? Da&iacute; uma sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de discord&acirc;ncia, eminentemente realista.<\/p>\n<p> Eu sempre verifiquei que n&oacute;s todos, os do excelente mundo e os da<br \/>\n    fic&ccedil;&atilde;o quando excelente, temos os nossos gestos e id&eacute;ias<br \/>\n    geniais&#8230; Pois tomemos essa frase de Fr&auml;ulein por uma id&eacute;ia genial<br \/>\n    que ela teve. E tanto assim que produziu uma surpresa nos leitores e outra<br \/>\n    em Sousa Costa e dona Laura. De tal for&ccedil;a que os abateu. Est&atilde;o,<br \/>\n    faz quase um minuto, mudos e parados. Sousa Costa olha o ch&atilde;o. Dona<br \/>\n    Laura olha o teto. Ah! criaturas, criaturas de Deus, qu&atilde;o d&iacute;spares<br \/>\n    sois! As Lauras olhar&atilde;o sempre o c&eacute;u. Os Felisbertos sempre<br \/>\n    o ch&atilde;o. Alma feminina ascensional&#8230; E o macho apegado &agrave;s imund&iacute;cies<br \/>\n    terrenas. Ponhamos imund&iacute;cies terr&aacute;queas.<\/p>\n<p> &#8212; Mas Laura voc&ecirc; devia ter falado comigo primeiro!<\/p>\n<p> &#8212; Mas quando &eacute; que eu havia de imaginar!&#8230; A culpa foi de<br \/>\n    voc&ecirc; tamb&eacute;m!<\/p>\n<p> &#8212; Ora essa &eacute; boa! eu fiz o que devia! E agora ela vai-se embora!<\/p>\n<p> A lembran&ccedil;a de que Fr&auml;ulein partia, lhes deu o sossego desejado.<br \/>\n    O mal foi dona Laura acentuar:<\/p>\n<p> &#8212; E ele &eacute; t&atilde;o crian&ccedil;a!<\/p>\n<p> &#8212; T&atilde;o crian&ccedil;a? voc&ecirc; n&atilde;o v&ecirc; como ele<br \/>\n    est&aacute;!<\/p>\n<p> Sousa Costa n&atilde;o vira quase nada ou coisa nenhuma, o argumento por&eacute;m<br \/>\n    &#8212; era fort&iacute;ssimo.<\/p>\n<p> &#8212; Pois eu lamento profundamente que Fr&auml;ulein v&aacute; embora,<br \/>\n    Carlos me preocupa&#8230; Est&aacute; a&iacute; o filho do Oliveira! E tantos!&#8230;<br \/>\n    Eu n&atilde;o queria que Carlos se perdesse assim!<\/p>\n<p> Viram imediatamente o menino mais que tr&ecirc;mulo, empalamado, b&ecirc;bedo<br \/>\n    e jogador. Rodeavam-no, ponhamos, tr&ecirc;s amantes. Uma era morfin&ocirc;mana,<br \/>\n    outra eter&ocirc;mana, outra cocain&ocirc;mana, os dois c&ocirc;njuges tremendo<br \/>\n    horrorizados. Carlos desencabe&ccedil;ara duma vez. Nojento e cachorro. E<br \/>\n    o imenso amor verdadeiro por aquele primog&ecirc;nito adorado, cresceu dentro<br \/>\n    deles estrepitosamente Dona Laura abalad&iacute;ssima desafogava as mem&oacute;rias:<\/p>\n<p> &#8212; Voc&ecirc; n&atilde;o imagina&#8230; passa o dia inteiro junto de Fr&auml;ulein.<br \/>\n    Dela n&atilde;o me queixo n&atilde;o&#8230; se porta muito discretamente. Eu seria<br \/>\n    incapaz de adivinhar!&#8230; As crian&ccedil;as t&ecirc;m progredido muito&#8230;<br \/>\n    Maria Lu&iacute;sa j&aacute; fala bem o alem&atilde;o&#8230; Pois at&eacute; elas<br \/>\n    j&aacute; perceberam! Voc&ecirc; sabe o que s&atilde;o essas crian&ccedil;as<br \/>\n    de hoje! toda hora mandam Carlos ir bulir com Fr&auml;ulein!<\/p>\n<p> Sousa Costa gostou da intelig&ecirc;ncia das filhas.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute;!&#8230; Pestinhas!<\/p>\n<p> Depois se assustou. Crian&ccedil;as n&atilde;o devem saber dessas coisas<br \/>\n    principalmente meninas. Lembrou rem&eacute;dio decisivo:<\/p>\n<p> &#8212; Voc&ecirc; pro&iacute;ba elas de falarem isso! ah, tamb&eacute;m<br \/>\n    agora Fr&auml;ulein parte -Acaba-se com isto!<\/p>\n<p> Suspirou. A id&eacute;ia de que Fr&auml;ulein partia lhes deu o desassossego.<\/p>\n<p> &#8212; A hist&oacute;ria &eacute; Carlos&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Eu tamb&eacute;m tenho medo&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Laura, as coisas hoje t&ecirc;m de ser assim, a gente n&atilde;o<br \/>\n    pode mais proceder como no nosso tempo, o mundo est&aacute; perdido&#8230; Olhe:<br \/>\n    contam tantas desses rapazes&#8230; N&atilde;o se sabe de nenhum que n&atilde;o<br \/>\n    tenha amante! E vivem nos lupanares! Jogadores! isso ent&atilde;o? n&atilde;o<br \/>\n    tem um que n&atilde;o seja jogador!&#8230; Eu tamb&eacute;m n&atilde;o digo que<br \/>\n    n&atilde;o se jogue&#8230; afinal&#8230; Um pouco&#8230; de noite&#8230; depois do jantar&#8230;<br \/>\n    n&atilde;o faz mal. E quando se tem dinheiro, note-se! E ju&iacute;zo. Essa<br \/>\n    gente de hoje?!&#8230; Depois d&atilde;o na morfina, &eacute; o que acontece!<br \/>\n    Veja a cor do filho do Oliveira! aquilo &eacute; morfina!<\/p>\n<p> &#8212; Carlos&#8230;<\/p>\n<p> Sousa Costa se extasiando com o discurso:<\/p>\n<p> &#8212; Fr&auml;ulein preparava ele. Depois isso n&atilde;o tem conseq&uuml;&ecirc;ncia&#8230;<br \/>\n    Quem me indicou, Fr&auml;ulein foi o Mesquita. O Zez&eacute; Mesquita, voc&ecirc;<br \/>\n    conhece, ora! aquele um que mudou-se pro Rio o ano passado&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Sei.<\/p>\n<p> &#8212; Se utilizaram dela, creio que pro filho mais velho. E o pior perigo<br \/>\n    &eacute; a amante! S&atilde;o crian&ccedil;olas, levam a s&eacute;rio essas<br \/>\n    tolices, principiam dando dinheiro por demais&#8230; e com isso v&ecirc;m os v&iacute;cios!<br \/>\n    O perigo s&atilde;o os v&iacute;cios! E as doen&ccedil;as! Porque que esses<br \/>\n    mo&ccedil;os andam todos desmerecidos, moles?&#8230; Por causa das amantes! e<br \/>\n    depois voc&ecirc; pensa que Carlos, se n&atilde;o tivesse Fr&auml;ulein, n&atilde;o<br \/>\n    aprendia essas coisas da mesma forma? aprendia sim senhora! Se j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    aprendeu!&#8230; E com quem! Bom! o melhor &eacute; n&atilde;o se falar mais nisso,<br \/>\n    at&eacute; me d&aacute; dor de cabe&ccedil;a. Est&aacute; acabado e pronto.<\/p>\n<p> Por&eacute;m agora os dois convencid&iacute;ssimos de que aquilo n&atilde;o<br \/>\n    devia acabar assim. Ali&aacute;s, a convic&ccedil;&atilde;o se firmara desde<br \/>\n    que Sousa Costa empregara, por reminisc&ecirc;ncias rom&acirc;nticas, a palavra<br \/>\n    &quot;lupanar&quot;. Eu j&aacute; falei que toda a gente tem id&eacute;ias<br \/>\n    geniais. Careciam de Fr&auml;ulein. Pra sossego deles, Fr&auml;ulein devia<br \/>\n    ficar.<\/p>\n<p> &#8212; Quem sabe&#8230; voc&ecirc; falando com ela&#8230; ela ficava&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Eu acho melhor, Laura. Francamente: acho. Fr&auml;ulein falava tudo<br \/>\n    pra ele, abria os olhos dele e fic&aacute;vamos descansados, ela &eacute;<br \/>\n    t&atilde;o instru&iacute;da! Depois preg&aacute;vamos um bom susto nele. (Se<br \/>\n    ria.) Ficava curado e avisado. Ao menos eu salvava a minha responsabilidade.<br \/>\n    Depois n&atilde;o &eacute; barato n&atilde;o! tratei Fr&auml;ulein por oito<br \/>\n    contos! Sim senhora: oito contos, fora a mensalidade. Naturalmente n&atilde;o<br \/>\n    barateei. Mais caro que o Caxambu que me custou seis e j&aacute; deu um lote<br \/>\n    de novilhas estupendas. Mas isso n&atilde;o tem import&acirc;ncia, o importante<br \/>\n    &eacute; o nosso descanso.<\/p>\n<p>Pausa.<\/p>\n<p>&#8212; Voc&ecirc; pro&iacute;ba as crian&ccedil;as de falarem mais nisso&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Pois &eacute;. Talvez ela fique&#8230; Voc&ecirc; fala com ela amanh&atilde;&#8230;<\/p>\n<p> Se ergueram. Entraram no hol. Mas aquilo continuar&#8230; Era bem melhor que<br \/>\n    Fr&auml;ulein partisse. E depois, ora! ele que se arrume! boa educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    tivera, exemplos bons em casa&#8230; E o mundo n&atilde;o era t&atilde;o feio<br \/>\n    como parecia. Nem Carlos nenhum arara&#8230; E as crian&ccedil;as j&aacute; tinham<br \/>\n    percebido&#8230; que espertas!<\/p>\n<p> Avan&ccedil;avam no peso do ambiente. Dona Laura estava pensando tamb&eacute;m<br \/>\n    assim mais ou menos. Apesar disso, largou mais uma vez, arrependida j&aacute;<br \/>\n    do que falava:<\/p>\n<p> &#8212; Amanh&atilde; voc&ecirc; fala com ela&#8230; Talvez ela resolva ficar&#8230;<\/p>\n<p> Mas Sousa Costa j&aacute; n&atilde;o estava mais querendo que Fr&auml;ulein<br \/>\n    ficasse e teve um argumento &oacute;timo:<\/p>\n<p> &#8212;Ah! mas, eu falar?!&#8230; Prefer&iacute;vel voc&ecirc;! Voc&ecirc;s<br \/>\n    s&atilde;o mulheres, l&aacute; se entendam!<\/p>\n<p> &#8212; Mas eu estou envergonhad&iacute;ssima com ela, Felisberto! Com que<br \/>\n    cara agora vou pedir pra ela ficar!<\/p>\n<p> &#8212; Por isso mesmo! Voc&ecirc; arranjou o embrulho&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Como voc&ecirc; est&aacute; &aacute;spero hoje!<\/p>\n<p> &#8212; Mas voc&ecirc; compreende que uma coisa destas n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    nada agrad&aacute;vel pra mim!<\/p>\n<p> &#8212; Nem pra mim, ent&atilde;o!&#8230; Sabe duma coisa? se quiser falar com<br \/>\n    ela fale, eu n&atilde;o falo! O que eu posso &eacute; depois pedir desculpas<br \/>\n    pra ela&#8230; E tamb&eacute;m n&atilde;o quero saber mais disso, lavo minhas<br \/>\n    m&atilde;os. Voc&ecirc; &eacute; que acha melhor Fr&auml;ulein ficar&#8230;<\/p>\n<p> Sousa Costa positivamente n&atilde;o achava melhor Fr&auml;ulein ficar.<br \/>\n    Por&eacute;m tinha achado. Enfiou as m&atilde;os nos bolsos e convicto:<\/p>\n<p> &#8212; Eu&#8230; eu acho sim. Falo com ela amanh&atilde;. Exaustos, mortalmente<br \/>\n    tristes, os c&ocirc;njuges v&atilde;o dormir. <\/p>\n<p> Duas horas da manh&atilde;. Vejo esta cena.<\/p>\n<p> No leito grande, entre linhos bordados dormem marido e mulher As brisas<br \/>\n    nobres de Higien&oacute;polis entram pelas venezianas, servilmente aplacando<br \/>\n    os calores do ver&atilde;o. Dona Laura, livre o colo das colchas, ressona<br \/>\n    boca aberta apoiando a cabe&ccedil;a no bra&ccedil;o erguido. Bra&ccedil;o<br \/>\n    largo, achatado, nu. A tran&ccedil;a negra flui pelas barrancas moles do travesseiro,<br \/>\n    cascateia no &aacute;lveo dos len&ccedil;&oacute;is. Concavamente recurvada,<br \/>\n    a esposa toda se ap&oacute;ia no esposo dos p&eacute;s ao bra&ccedil;o erguido.<br \/>\n    Sousa Costa completamente oculto pelas cobertas, enrodilhado se aninha na<br \/>\n    concavidade feita pelo corpo da mulher, e ronca. O ronco inda acentua a paz<br \/>\n    compacta.<\/p>\n<p> Estes dois seres t&atilde;o unidos, t&atilde;o apoiados um no outro, t&atilde;o<br \/>\n    B&aacute;ucis e Filam&atilde;o, creio que s&atilde;o felizes. Perfeitamente.<br \/>\n    N&atilde;o tem racioc&iacute;nio que invalide a minha firme cren&ccedil;a<br \/>\n    na felicidade destes dois cidad&atilde;os da Rep&uacute;blica. Arist&oacute;teles&#8230;<br \/>\n    me parece que na Pol&iacute;tica afirma serem felizes os homens pela quantidade<br \/>\n    de raz&atilde;o e virtude possu&iacute;das e na medida em que, por estas,<br \/>\n    regram a norma do viver&#8230; Estes c&ocirc;njuges s&atilde;o virtuosos e justos.<br \/>\n    Perfeitamente. Souza Costa se mexe. Tira um pouco, pra fora das cobertas,<br \/>\n    algumas ramagens do bigode. Ap&oacute;ia melhor a cara no sovaco gorducho<br \/>\n    da esposa. Dona Laura suspira. Se agita um pouco. E se ap&oacute;ia inda mais<br \/>\n    no honrado esposo e senhor. Pouco a pouco Sousa Costa recome&ccedil;a a roncar.<br \/>\n    0 ronco inda acentua a paz compacta. Perfeitamente.<\/p>\n<p> Quando veio para o caf&eacute;, na hora de sempre, suponho que Sousa Costa<br \/>\n    e mulher inda dormiam. Just&iacute;ssimo. Reparavam o esfor&ccedil;o gasto.<br \/>\n    N&atilde;o encontrou ningu&eacute;m e Tanaka se aproveitou disso pra servi-la<br \/>\n    mal Fr&auml;ulein nem p&ocirc;s reparo na escaramu&ccedil;a do japon&ecirc;s.<br \/>\n    Pensava. Isto &eacute;&#8230; Pensaria?<\/p>\n<p> Estava muito pouco Fr&auml;ulein no momento. Porque Fr&auml;ulein, a Elza<br \/>\n    que principiou este id&iacute;lio era uma mulher feita que n&atilde;o estava<br \/>\n    disposta a sofrer. E a Fr&auml;ulein deste minuto &eacute; uma mulher desfeita,<br \/>\n    uma Fr&auml;ulein que sofre. Fr&auml;ulein sofre. E porque sofre, est&aacute;<br \/>\n    al&eacute;m de Fr&auml;ulein, al&eacute;m de alem&atilde;: &eacute; um pequenino<br \/>\n    ser humano.<\/p>\n<p> Por isso turtuviei no falar que ela pensava: ela sofre. N&atilde;o pensa<br \/>\n    bem porque sente demais. Acumula apenas farrapos de pensamentos. Farrapos<br \/>\n    n&atilde;o! palavra que insulta&#8230; Lembra Bethmann Holweg. Que culpa Fr&auml;ulein<br \/>\n    tem dos &quot;farrapos de papel&quot; de Bethmann Holweg? Nenhuma. Retiremos<br \/>\n    os farrapos. Ela apenas acumula, ponhamos, migalhas de pensamentos, n&atilde;o,<br \/>\n    antes prel&uacute;dios de pensamentos, que fica mais musical. Simult&acirc;neos<br \/>\n    brotam na consci&ecirc;ncia dela desenhos inacabados, isto &eacute;, prel&uacute;dios<br \/>\n    de id&eacute;ias. Umas dolorosas, outras dolentes, outras macabras. At&eacute;?<br \/>\n    At&eacute; macabras, zum Henker!1 Um chacoalhar de ossos mal presos, anuncia<br \/>\n    que por detr&aacute;s a morte passa cal&ccedil;uda e masculina pr&oacute;s<br \/>\n    que pensam em alem&atilde;o, der Tod&#8230;<\/p>\n<p> 1. Equivalente a &quot;Cos diabos!&quot;, &quot;Pr&oacute;s dem&ocirc;nios!&quot;<\/p>\n<p>Esse esgotar lento e invis&iacute;vel de for&ccedil;as e gastar de tentativas<br \/>\n    dia a dia&#8230; S&uacute;bito: que cansa&ccedil;o! ah!&#8230; N&atilde;o melhora<br \/>\n    mesmo! E achar&aacute; casamento?&#8230; Brigando, se aviltando por oito contos&#8230;<br \/>\n    Tanaka&#8230; Correio Paulistano&#8230; Se aviltar n&atilde;o. Abandonava Carlos&#8230;<br \/>\n    Isto lhe do&iacute;a, do&iacute;a, n&atilde;o nega n&atilde;o.<\/p>\n<p> E aonde ir agora?&#8230; Quartinho de pens&atilde;o&#8230; E nova espera&#8230; Mal-e-mal<br \/>\n    dobrando os vestidos retirados da guarda-roupa, abria malas. Recordava em<br \/>\n    corisco os dinheiros ajuntados&#8230; H. Blumenfeld &amp; Comp. do Rio de Janeiro..,<br \/>\n    certo que podia em breve descansar&#8230; Ai &#8230; Casava&#8230; De tarde ele voltava<br \/>\n    do trabalho&#8230; Jantavam&#8230; Muito magro, &oacute;culos sem aro&#8230; A Pastoral?<br \/>\n    A Pastoral&#8230; Universidade&#8230; Assim mesmo, o Brasil n&atilde;o fora muito<br \/>\n    prop&iacute;cio pra ela n&atilde;o&#8230; Frau Benn pedira de emprestado sessenta<br \/>\n    mil r&eacute;is&#8230; Imaginava bem mais f&aacute;cil progressos ao abordar imigrante<br \/>\n    a terra americana&#8230; Passara uma vez quase dois anos sem encontrar o trabalho<br \/>\n    dela, de casa em casa, professora de alem&atilde;o e piano&#8230;<\/p>\n<p> E devia se calar. Se acaso se propunha a algum chefe de fam&iacute;lia a<br \/>\n    recusa vinha logo&#8230; R&iacute;spida. Falta de entendimento e de pr&aacute;tica&#8230;<br \/>\n    Deste povo inteiro. E era sempre aquilo: no outro dia a dona da casa vinha<br \/>\n    muito s&aacute;xea e&#8230;, Mas mesmo poss&iacute;vel que uma pessoa olhe pr&oacute;s<br \/>\n    outros de cima, altivamente?&#8230;<\/p>\n<p> S&oacute; porque tinha dinheiro?&#8230; Lhe entregava o envelope com a mensalidade<br \/>\n    Isso quando n&atilde;o descontavam as li&ccedil;&otilde;es que inda faltava<br \/>\n    dar&#8230; Agora os meninos iam descansar um pouco; mais tarde, quando fosse pra<br \/>\n    recome&ccedil;ar, avisariam&#8217; Pra que mentir?&#8230; Preciso comprar meias brancas.<br \/>\n    Como eram complicados os latinos. Cansativos.<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein achava desnecess&aacute;ria tanta mentirada, e bobo tanto<br \/>\n    preconceito De primeiro isso irritava bastante o deus encarcerado, e era um<br \/>\n    berreiro d&#8217; atordoar dentro do corpo dela. Achava que o ideal da honra era<br \/>\n    repetir aquela frase que Schiller botara na boca de Joana D&#8217;Arc: &quot;N&atilde;o<br \/>\n    posso aparecer sem minha bandeira&quot;, ser sincera. Mas qual, as m&atilde;es<br \/>\n    brasileiras, quando se tratava dos filhos, eram pouco patriotas, Fr&auml;ulein<br \/>\n    fora obrigada a guardar a bandeira.<\/p>\n<p> E n&atilde;o sei se o deus encarcerado acabou se adaptando tamb&eacute;m,<br \/>\n    sei &eacute; que n&atilde;o fez mais chinfrim.<\/p>\n<p> S&oacute; ficou aquele pensamento de que podia ser bem mais sincera na Europa.<br \/>\n    E na Alemanha ent&atilde;o?&#8230; Por&eacute;m sofria-se muito agora l&aacute;,<br \/>\n    e Fr&auml;ulein n&atilde;o gostava de sofrer. As not&iacute;cias chegavam<br \/>\n    cada vez mais tristes. A &uacute;ltima carta do irm&atilde;o eram dois bra&ccedil;os<br \/>\n    implorantes pra Am&eacute;rica&#8230; Am&eacute;rica desilus&oacute;ria. Afinal<br \/>\n    nem tanto assim, n&atilde;o se morria de fome, trajava boas fazendas. Sobretudo<br \/>\n    comia bem.<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein come&ccedil;ou arranjando com mais aten&ccedil;&atilde;o os<br \/>\n    vestidos. Por&eacute;m sabia que chegando a hora de descansar, so lhe seria<br \/>\n    poss&iacute;vel o sossego na p&aacute;tria alem&atilde;.<\/p>\n<p> &#8212; Patr&atilde;o est&aacute; chamando.<\/p>\n<p> Esperan&ccedil;a! Onde estava Sousa Costa? Correu pra porta.<\/p>\n<p> &#8212; Tanaka&#8230;<\/p>\n<p> Ningu&eacute;m mais no corredor.<\/p>\n<p> &#8212; P&ouml;bel.1<\/p>\n<p> 1 Aqui equivale a &quot;Ordin&aacute;rio!&quot;<\/p>\n<p>Se apressou diante do espelho, deu um toque nos cabelos, concertou a blusa.<br \/>\n    Sousa Costa, que estava esperando no hol, fez ela entrar na biblioteca.<\/p>\n<p> &#8212; Fr&auml;ulein&#8230; antes eu tenho de lhe apresentar as nossas desculpas.<br \/>\n    Laura n&atilde;o sabia de nada e foi precipitada. Ela &eacute; m&atilde;e,<br \/>\n    Fr&auml;ulein&#8230; Mas est&aacute; muito arrependida do que fez.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o tem d&uacute;vida, senhor Sousa Costa. O mal foi o senhor&#8230;<br \/>\n    &Eacute; verdade que o senhor se esqueceu.<\/p>\n<p> &#8212; Esqueci, Fr&auml;ulein&#8230; esqueci. Tantos neg&oacute;cios! &Eacute;<br \/>\n    imposs&iacute;vel a gente se lembrar de tudo mas Laura fez mal. Fr&auml;ulein&#8230;<br \/>\n    h&aacute; de concordar comigo&#8230; o que passou, passou, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    assim? Laura est&aacute; convencida de que a senhora&#8230; Deve abandonar a id&eacute;ia<br \/>\n    de ontem, Fr&auml;ulein. Eu&#8230; n&oacute;s lhe pedimos que fique.<\/p>\n<p> &#8212; Mas senhor Sousa Costa&#8230;<\/p>\n<p> Esperou. Sousa Costa tamb&eacute;m esperou. Da&iacute; nascer um sil&ecirc;ncio.<br \/>\n    Aproveitemo-lo pra observar o seguinte: Fr&auml;ulein n&atilde;o hesitava,<br \/>\n    como fez parecer, queria ficar. Estava certa de ficar. Ent&atilde;o porque<br \/>\n    hesitou? Porque &eacute; de praxe se fazer de rogada a pessoa vulgar. E uma<br \/>\n    pr&aacute;tica boa de honestidade n&atilde;o voltar atr&aacute;s sem muita<br \/>\n    insist&ecirc;ncia dos outros. Se compreende pois o abandono em que vive a<br \/>\n    bandeira de Joana D&#8217;Arc.<\/p>\n<p> E porque Sousa Costa esperou? Porque a hesita&ccedil;&atilde;o da mo&ccedil;a<br \/>\n    lhe dava esperan&ccedil;a nova, se ela recusasse&#8230; Que bom! acabava-se com<br \/>\n    aquilo! Que eram oito contos pra ele! Nada. Por isso n&atilde;o insistiu,<br \/>\n    esperou. Por&eacute;m ela foi mais forte. Ascend&ecirc;ncia de ra&ccedil;a<br \/>\n    superior. Sousa Costa principiou tendo vergonha do sil&ecirc;ncio. Ascend&ecirc;ncia<br \/>\n    de boa educa&ccedil;&atilde;o. Insistiu:<\/p>\n<p> &#8212; Desista de partir, Fr&auml;ulein.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; que&#8230;<\/p>\n<p> Agora Sousa Costa se calou duma vez, cumprira com o dever. Assim ela n&atilde;o<br \/>\n    se dobrasse &agrave;s raz&otilde;es que ele dera!&#8230; Fr&auml;ulein n&atilde;o<br \/>\n    percebeu isso, mas ficou com medo de hesitar mais, ele podia aceitar aquilo<br \/>\n    como recusa. E devemos ser francos nesta vida, sempre fora simples e franca.<br \/>\n    Se aceitava, devia falar que aceitava e deixar-se de candongas. Sempre fora<br \/>\n    como a Joana de Schiller que n&atilde;o podia aparecer sem a bandeira dela.<br \/>\n    Emendou logo:<\/p>\n<p> &#8212; Bom, senhor Sousa Costa. Como o senhor e sua esposa insistem, eu<br \/>\n    fico. Ora, Fr&auml;ulein, v&aacute; saindo! ningu&eacute;m insistiu tanto<br \/>\n    assim. N&atilde;o, &eacute; certo que<\/p>\n<p> Sousa Costa e dona Laura insistiram, esta com o marido e ele com Fr&auml;ulein.<br \/>\n    Mas porque insistiram, se n&atilde;o queriam? Ningu&eacute;m o saber&aacute;<br \/>\n    jamais. Insistiram, simplesmente. Fr&auml;ulein &eacute; que ficar&aacute;<br \/>\n    por causa da insist&ecirc;ncia. Por causa disso. Ser&aacute; melhor dizer<br \/>\n    que por adapta&ccedil;&atilde;o. Isso: por adapta&ccedil;&atilde;o. Tamb&eacute;m<br \/>\n    se pode pensar no desejo vigiando&#8230; sensualidades&#8230; Vamos pra diante.<\/p>\n<p> Como tombam as expectativas! A alma espera. A postura da espera &eacute;<br \/>\n    estar suspensa, e a alma parece ent&atilde;o um pinheiro do Paran&aacute;,<br \/>\n    todos os ramos em corimbo, erguidos pra cima. Os ramos se sustentam muito<br \/>\n    bem, ascendendo pro alto, expectantes. Enrija-os a seiva da esperan&ccedil;a,<br \/>\n    que &eacute; forte. Mas eis que falha a expectativa. O pinheiro do Paran&aacute;<br \/>\n    vira pinheiro da Su&eacute;cia. E os ramos descendentes, uns nos outros se<br \/>\n    apoiando, at&eacute; que os mais de baixo se arrimam no ch&atilde;o.<\/p>\n<p> O pinheiro da Su&eacute;cia volta macamb&uacute;zio pro quarto conjugai.<br \/>\n    Dona Laura, pinheiro do Paran&aacute;:<\/p>\n<p> &#8212; Recusou?.<\/p>\n<p> &#8212; Aceitou.<\/p>\n<p> Dona Laura, pinheiro da Su&eacute;cia. Sousa Costa suspira e:<\/p>\n<p> &#8212; Assim &eacute; melhor, Laura.<\/p>\n<p> &#8212; Muito melhor, Felisberto.<\/p>\n<p> Os dois agora est&atilde;o convencidos de que o caso resolveu-se bem. Se<br \/>\n    Carlos se perdesse&#8230; Mas agora se salvar&aacute; pois Fr&auml;ulein fica.<br \/>\n    Os dois c&ocirc;njuges se sentem descansadamente satisfeitos. V&atilde;o se<br \/>\n    vestir, v&atilde;o viver. Que sossego esta vida boa!&#8230;<\/p>\n<p> E que gostosura liquidar um caso! Quase todos conservam a impress&atilde;o<br \/>\n    de ter vencido.<\/p>\n<p> Susto. Os temores entram saem pelas portas fechadas. Chiuiiii&#8230; ventinho<br \/>\n    apreensivo. Grandes olhos espantados de Aldinha e Laurita. Porta bate. Mau<br \/>\n    agouro? N&atilde;o&#8230; Pl&aacute;aa&#8230; Brancos mantos&#8230; E ilus&atilde;o. N&atilde;o<br \/>\n    deixe essa porta bater! Que sombras grandes no hol&#8230; Por ques? tocaiando<br \/>\n    nos espelhos, nas janelas com vidros fechados&#8230; que vazias. Chiuiii&#8230; Olhe<br \/>\n    o sil&ecirc;ncio. Grave. Ningu&eacute;m o escuta. Existe. Mana Luisa procura,<br \/>\n    toda ouvidos ao zunzum dos criados. Porque falam t&atilde;o baixo os criados?<br \/>\n    N&atilde;o sabem. Espreitam. Que que espreitam? Esperam. Que que esperam?&#8230;<br \/>\n    Carlos soturno. Esta dorzinha no est&ocirc;mago&#8230; O inverno vai chegar&#8230;<\/p>\n<p> Ningu&eacute;m sabe de nada. Se ningu&eacute;m n&atilde;o escutou nada!<br \/>\n    Mas a vida esta suspensa nesse dia.<\/p>\n<p> &#8212; Fr&auml;ulein&#8230; que foi que houve, heim! <\/p>\n<p> E ficou rubro rubro da coragem.<\/p>\n<p> &#8212; Quando, Carlos?<\/p>\n<p> Ele envergonhad&iacute;ssimo. E ela n&atilde;o ajudava, esperando&#8230; Por<br \/>\n    &uacute;ltimo inda repetiu, escangalhando o menino:<\/p>\n<p> &#8212; Quando? <\/p>\n<p> Ele mentiu:<\/p>\n<p> &#8212; Pensei que voc&ecirc; estava doente. N&atilde;o me deu li&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ontem&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Estive doente, Carlos.<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; sarou!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute;. Continue a li&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o houve nada.<br \/>\n    Futuro:<\/p>\n<p> &#8212; Ich werde gefallen Fr&auml;ulein! Eu n&atilde;o quero que voc&ecirc;<br \/>\n    saia daqui de casa! Ela sorrindo pra refrescar o arroubo, &ocirc;h! descansou<br \/>\n    a m&atilde;o na dele.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o vou sair, Carlos, sossegue.<\/p>\n<p> &#8212; Ich werde gefallen, du w&uuml;rdest gefallen&#8230; continuou, retirando<br \/>\n    a m&atilde;o. Fr&auml;ulein nem reparou que ele passava do futuro pro condicional:<br \/>\n    Eu cairei, tu cairias se&#8230; etc. Ela estava pensando que carecia apressar<br \/>\n    e acabar com aquilo, sen&atilde;o. Chegou mais a cadeira por acaso. E o rapazinho<br \/>\n    continuava aos trambulh&atilde;es, errando muito.<\/p>\n<p> &Uacute;ltimo quarto da hora, o detestado. Carlos detestava o ditado e Fr&auml;ulein<br \/>\n    tamb&eacute;m. O ditado? N&atilde;o. O &uacute;ltimo quarto da hora. Por causa<br \/>\n    do ditado. Ou detestavam o ditado por ser no &uacute;ltimo quarto da hora?&#8230;<br \/>\n    Ningu&eacute;m o saber&aacute; jamais.<\/p>\n<p> Sobre a grande escrivaninha, leg&iacute;timo liceu-de-artes-e-of&iacute;cios,<br \/>\n    o menino escrevia com lentid&atilde;o. Hesitava mais que o necess&aacute;rio.<br \/>\n    Sucedia que ent&atilde;o Fr&auml;ulein se inclinava sobre ele pra ver as letras<br \/>\n    e corrigir, Fr&auml;ulein era m&iacute;ope. Inclinava, se encostava toda nele<br \/>\n    e Carlos n&atilde;o gostava daquilo. Escrit&oacute;rio &uacute;mido, frio,<br \/>\n    fechado no sil&ecirc;ncio. Os &uacute;ltimos calores do outono derretiam a<br \/>\n    luz l&aacute; fora e esta, escorrendo pela janela entrecerrada, se coagulava<br \/>\n    no tapete. Dan&ccedil;arina-mente na linfa luminosa a poeira.<\/p>\n<p> Carlos n&atilde;o suportaria mais o malentendido, isso via-se. A ang&uacute;stia<br \/>\n    interior, imperiosa, aterrorizante, avisava-o tamb&eacute;m disso. Confessaria<br \/>\n    hoje agora j&aacute; na li&ccedil;&atilde;o. Ser&aacute; que Fr&auml;ulein<br \/>\n    tamb&eacute;m percebera o desespero do menino? Acabava. A hora acabava. Carlos,<br \/>\n    respira&ccedil;&atilde;o multiplicada sonora. E era verdade que esquecia-se<br \/>\n    das letras agora, Sehnsucht tinha ag&aacute; ou n&atilde;o? Desejaria escrever<br \/>\n    r&aacute;pido, acabar! correr ao sol noutro calor!&#8230; Fr&auml;ulein, com o<br \/>\n    bra&ccedil;o esquerdo no espaldar da cadeira de Carlos, ponhamos, nas costas<br \/>\n    do rapaz, se despejou sobre ele, amoldada:<\/p>\n<p> &#8212; Deixe ver.<\/p>\n<p> Deitou o bra&ccedil;o direito sobre o dele, lhe segurando a m&atilde;o,<br \/>\n    soerguendo-a do papel. Assim, n&atilde;o &eacute; para intrigar, por&eacute;m<br \/>\n    ele ficava abra&ccedil;ado. Abaixou a cabe&ccedil;a, querendo e n&atilde;o<br \/>\n    querendo, que desespero! era demais! se ergueu violento. Empurrou a cadeira.<br \/>\n    Machucou Fr&auml;ulein.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o escrevo mais!<\/p>\n<p> Ela ficou branca, tomou com um golpe. Custou o:<\/p>\n<p> &#8212; Que &eacute; isso? Venha escrever, Carlos!<\/p>\n<p> &#8212; Desse jeito n&atilde;o escrevo mais!<\/p>\n<p> Abriu a luz da janela. Olhava pra fora, raivoso, enterrando virilmente as<br \/>\n    m&atilde;os nos bolsos do pijama, incapaz de sair daquela sala. Fr&auml;ulein<br \/>\n    n&atilde;o compreendia. Estava bela. Corada. Os cabelos eri&ccedil;ados, met&aacute;licos.<br \/>\n    Do&iacute;a nela o desejo daquele ing&ecirc;nuo, amou-o no momento com del&iacute;rio.<br \/>\n    Revela&ccedil;&atilde;o!<\/p>\n<p> Todos os instintos baixos dela, porque baixos! todos os instintos alt&iacute;ssimos<br \/>\n    dela, guardados por horas&#8230; (altos ou baixos?&#8230; ningu&eacute;m o saber&aacute;<br \/>\n    jamais!) guardados por horas, por dias, meses, surgiam somados numa carreira<br \/>\n    de &laquo;touro que s&oacute; a exaust&atilde;o pararia. E ele era mais forte,<br \/>\n    duma for&ccedil;a de pureza! vencia. Se partisse, tudo acabado. Oh n&atilde;o<br \/>\n    queria n&atilde;o! Vai falar pro pai n&atilde;o sei&#8230; Mesmo que sofresse<br \/>\n    tamb&eacute;m, era capaz de trazer Maria Lu&iacute;sa pras li&ccedil;&otilde;es&#8230;<br \/>\n    E nunca mais ficar&aacute; s&oacute; com ela, com aquela que desejava, que<br \/>\n    pedia de amor&#8230; Depois come&ccedil;aria a pensar nela&#8230; Aos poucos ei-la<br \/>\n    idealizada, l&aacute; longe&#8230;<\/p>\n<p> N&atilde;o! Assim Fr&auml;ulein n&atilde;o queria! E n&atilde;o reparava<br \/>\n    que Carlos era muito quotidiano pra tais idealiza&ccedil;&otilde;es. Isso<br \/>\n    s&oacute; prova que Fr&auml;ulein era ruim observadora, nada mais. Ou por<br \/>\n    causa da ard&ecirc;ncia do instante. Ali&aacute;s, j&aacute; tinham ambos<br \/>\n    ultrapassado o pensamento de amor. Carlos n&atilde;o sair&aacute; daquela<br \/>\n    sala, assim, m&atilde;os nos bolsos, l&aacute;bios pobres, alma interrogativa.<\/p>\n<p> &#8212; Mas que modos s&atilde;o esses, Carlos&#8230; Responda! dolorida. Ele<br \/>\n    deu um som muxoxado com a l&iacute;ngua, sacudindo a cabe&ccedil;a recurva<br \/>\n    balan&ccedil;ando o corpo numa irrita&ccedil;&atilde;o motivada, sem nexo.<br \/>\n    Batia o calcanhar! Fr&auml;ulein se aproximou. Que pedido sublime, murmurando<br \/>\n    aquele:<\/p>\n<p> &#8212; Venha escrever&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o escrevo mais, j&aacute; disse&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Venha&#8230;<\/p>\n<p> Tinha de ser a primeira a se confessar. Ela era a mais forte, da for&ccedil;a<br \/>\n    de saben&ccedil;a. Teve tristeza por isso. Carlos por seu lado j&aacute; estava<br \/>\n    mais calmo. A revolta lhe desagrupara os tais instintos alt&iacute;ssimos.<br \/>\n    Quando Fr&auml;ulein toda entregue, amolecida, emoliente, lhe segurou no bra&ccedil;o:<\/p>\n<p> &#8212; Venha&#8230; Voc&ecirc; me entristece, Carlos&#8230;<\/p>\n<p> Ele n&atilde;o sentiu nada. Imaginou que estava tudo acabado e vencera-o.<br \/>\n    Op&ocirc;s apenas por opor:<\/p>\n<p> &#8212; Mas a hora j&aacute; acabou&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o ainda!&#8230;<\/p>\n<p> Voltaram pras cadeiras. Muito unidos agora. De prop&oacute;sito. Sabiam<br \/>\n    que estavam unidos de prop&oacute;sito. Amantes e confessados. Sehnsucht tinha<br \/>\n    ag&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Ora Carlos. Como &eacute; o esse mai&uacute;sculo?<\/p>\n<p> E como se afastara um pouco dele, no recuo parlamentar dos espantos, Carlos<br \/>\n    n&atilde;o p&ocirc;de suportar o gozo perdido. Olhou pra ela e canalha, se<br \/>\n    rindo quase de vergonha, vencedor:<\/p>\n<p> &#8212; Venha! Fique daquele jeito!<\/p>\n<p> Enla&ccedil;ava-lhe a cintura enfim, puxou-a. Botou a cara gostosa no colo<br \/>\n    dela, aonde nascem os aromas que atarantam. Lhe beijou as roupas. Depois sentiu<br \/>\n    um medo grande dela, vergonha desmedida, se refugiou dela nela. Sensualmente<br \/>\n    afundou olhos, nariz, boca, muita boca no corpo da querida. Pra se esconder.<br \/>\n    Fr&auml;ulein sufocou-o contra o peito, com os seus bra&ccedil;os enrolados.<\/p>\n<p> Quando ele sentiu sobre os cabelos uma respira&ccedil;&atilde;o quente de<br \/>\n    noroeste, principiou a imaginar e criticar. Criticar &eacute; comparar. Que<br \/>\n    gosto que teriam esses beijos do cinema? ergueu a cara. E, pois que era de<br \/>\n    novo o mais forte, beijou Fr&auml;ulein na boca.<\/p>\n<p> Das lombadas de couro, os grandes amorosos espiavam, Dante, Cam&otilde;es,<br \/>\n    Dirceu. N&atilde;o digo que pro momento f&iacute;lmico do caso, estes sejam<br \/>\n    livros exemplares, por&eacute;m asseguro que eram exemplares virgens. Nem<br \/>\n    cortados alguns.<\/p>\n<p> N&atilde;o adiantavam nada, pois.<\/p>\n<p> O caso &eacute; que Sousa Costa, escutando um amigo bibli&oacute;filo gabar<br \/>\n    exemplares caros, falara pra ele:<\/p>\n<p> &#8212; Olha, Magalh&atilde;es, veja se me arranja uns desses pra minha<br \/>\n    biblioteca.<\/p>\n<p> Por isso &eacute; que possu&iacute;a aquele Cam&otilde;es t&atilde;o grande,<br \/>\n    aquela Vita Nuova em pergaminho, um Barlaeus e um Rugendas bom pra distrair<br \/>\n    as crian&ccedil;as, dia de chuva.<\/p>\n<p> Ahn&#8230; ia me esquecendo de avisar que este id&iacute;lio &eacute; imitado<br \/>\n    do franc&ecirc;s de Bernardin de Saint-Pierre. Do franc&ecirc;s. De Bernardin<br \/>\n    de Saint-Pierre.<\/p>\n<p> Carlos esses tr&ecirc;s dias viveu? Eu n&atilde;o sei se alcan&ccedil;ar<br \/>\n    a felicidade m&aacute;xima, extasiar-se a&iacute;, e sentir que ela, apesar<br \/>\n    de superlativa, inda cresce, e reparar que inda pode crescer mais&#8230; isso<br \/>\n    &eacute; viver? A felicidade &eacute; t&atilde;o oposta &agrave; vida que,<br \/>\n    estando nela, a gente esquece que vive. Depois quando acaba, dure pouco, dure<br \/>\n    muito, fica apenas aquela impress&atilde;o do segundo. Nem isso, impress&atilde;o<br \/>\n    de hiato, de defeito de sintaxe logo corrigido, vertigem em que ningu&eacute;m<br \/>\n    d&aacute; tento de si. E fica mais essa id&eacute;ia que retomasse de novo<br \/>\n    a vida, que das portas do Para&iacute;so Terrestre em diante &eacute; sofrer<br \/>\n    e impedimento s&oacute;. Estou convencido: Carlos n&atilde;o viveu esses tr&ecirc;s<br \/>\n    dias.<\/p>\n<p> Tr&ecirc;s, porque no quarto dia os arroubos se espevitaram t&atilde;o alarmantemente<br \/>\n    que n&atilde;o puderam mais sujeitar-se ao &acirc;mbito social da biblioteca<br \/>\n    e na mesquinha nora de li&ccedil;&atilde;o. Pra ele talvez tempo e ambiente<br \/>\n    pouco importassem, por&eacute;m n&oacute;s j&aacute; sabemos que Fr&auml;ulein<br \/>\n    tinha o gosto das metodiza&ccedil;&otilde;es, ali n&atilde;o. Carlos deitando<br \/>\n    a mania dela, assim gemeu:<\/p>\n<p> &#8212; Fr&auml;ulein&#8230; eu queria te falar uma coisa&#8230;<\/p>\n<p> Sem vergonha, sorria. E fechou os olhos encabulado. Se aninhara nos bra&ccedil;os<br \/>\n    dela, pra com mais efic&aacute;cia ordenar.<\/p>\n<p> &#8212; Pois fale, Carlos.<\/p>\n<p> &#8212; Aqui n&atilde;o!&#8230;<\/p>\n<p> Estes paulistas falam muito devagar, escuta s&oacute; como ele arrasta a<br \/>\n    voz:<\/p>\n<p> &#8212; Aqui n&atilde;o &#8230;De repente a li&ccedil;&atilde;o acaba e a gente<br \/>\n    carece de sair&#8230; Podem desconfiar!&#8230;<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein muda.<\/p>\n<p> Certas coisas s&atilde;o muito dif&iacute;ceis de falar, quando a gente<br \/>\n    tem uma quinzena de anos, n&atilde;o pensa nas conseq&uuml;&ecirc;ncias e<br \/>\n    a querida espera, muda. Carlos era inocente por demais para supor que Fr&auml;ulein<br \/>\n    j&aacute;. Sen&atilde;o desembuxava, qual desembuxava! agia. Por&eacute;m<br \/>\n    como nada supunha, n&atilde;o teve coragem pra. Al&ccedil;ou o bra&ccedil;o,<br \/>\n    puxou a cabe&ccedil;a dela, deu o beijo.<\/p>\n<p> &#8212; Uhmm&#8230; suspirou. E emudeceu. Sil&ecirc;ncio. Principiou brincando<br \/>\n    com os dedos dela e muito baixo:<\/p>\n<p> &#8212; Sim?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Sim o que, Carlos?<\/p>\n<p> &#8212; Ora!<\/p>\n<p> De repente, se apertando nos bra&ccedil;os dela:<\/p>\n<p> &#8212; Ah, vamos! diga se eu posso ir falar com voc&ecirc;!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mas falar o que, Carlos?<\/p>\n<p> &#8212; Ahn&#8230;<\/p>\n<p> Riu. Depois, cantando numa gaita desafinada:<\/p>\n<p> &#8212; Voc&ecirc; j&aacute; sabe, agora!&#8230;<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein teve uma dor toda machucada, teve raiva, empurrou Carlos.<\/p>\n<p> &#8212; Vamos embora.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Me largue. A hora j&aacute; acabou.<\/p>\n<p> &#8212; Mais um poucadinho!<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o me aperte assim!<\/p>\n<p> &#8212; D&aacute; um beijo!<\/p>\n<p> &#8212; Que men&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; S&oacute; um&#8230; &uacute;ltimo! Vencida.<\/p>\n<p> &#8212; Hoje?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o me amole!<\/p>\n<p> &#8212; Hoje, ouviu.<\/p>\n<p> Estava combinado.A dificuldade sempre parece maior do que &eacute;.<\/p>\n<p> Imagino que esta m&aacute;xima deve ser da maior imoralidade, paci&ecirc;ncia.<br \/>\n    Tem cr&aacute;pulas ordinar&iacute;ssimos que namoram a mulher do pr&oacute;ximo.<br \/>\n    Tem tamb&eacute;m estudantes dignos de elogio, que pretendem aprender a l&iacute;ngua<br \/>\n    japonesa. Ora eu falo pra esse estudante: Irm&atilde;ozinho, principie e siga<br \/>\n    corajoso. A dificuldade sempre parece maior do que &eacute;. A gente chega<br \/>\n    ao fim, ora se chega!<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein &eacute; que saiu furiosa da biblioteca, uma raiva de Carlos,<br \/>\n    dos homens, de ser mulher&#8230; Principalmente de Carlos, objeto, ser que ocupa<br \/>\n    lugar no espa&ccedil;o. Lhe machucara o deus encarcerado. Ali&aacute;s eu<br \/>\n    j&aacute; preveni que Carlos era machucador.<\/p>\n<p>Carlos era machucador. Por&eacute;m n&atilde;o fazia por mal. Atrapalhava<br \/>\n    tudo, nunca tinha inten&ccedil;&atilde;o de atrapalhar coisa nenhuma.<\/p>\n<p> Repare nesse menino que passa. &Eacute; grandalh&atilde;o, &eacute;. Mesmo<br \/>\n    pesado. Muitos afirmam que ele &eacute; magro&#8230; A culpa n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    tanto das carnes, que s&atilde;o rijas e abundantes. Come bem. Dorme bem.<br \/>\n    Passa vida regalada. E &eacute; escandalosamente sadio, nem sequer a faringite<br \/>\n    cr&ocirc;nica de oitocentos mil paulistanos.<\/p>\n<p> Mas ent&atilde;o porque &eacute; magro? J&aacute; falei que n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    magro, desra&ccedil;ado, apenas isso. O que sucede com as ra&ccedil;as muito<br \/>\n    apuradas? A carne &eacute; bem cotada no Mercado, por ser muito mais macia.<br \/>\n    Pra conservar tais excel&ecirc;ncias a Inglaterra pro&iacute;be a intromiss&atilde;o<br \/>\n    do boi zebu nas marombas dela. Toda gente sabe tamb&eacute;m que o gado abatido<br \/>\n    l&aacute; na grande Argentina, que do polled-angus albion sempre abunda, atinge<br \/>\n    tipo elevado na cota&ccedil;&atilde;o dos importadores europeus.<\/p>\n<p> Ora no Brasil entrou o boi zebu. Entra o dunham tamb&eacute;m, e j&aacute;<br \/>\n    pasta o curraleiro e principalmente o caracu. Por&eacute;m inda n&atilde;o<br \/>\n    se apurou coisa que valha. Ser&aacute; falta de carne nestes membros possantes?<br \/>\n    Nem tanto, os ossos &eacute; que ainda n&atilde;o diminu&iacute;ram. Del&iacute;rios<br \/>\n    da sele&ccedil;&atilde;o! fundam o Herd-Book Caracu. O muchir&atilde;o vai<br \/>\n    progredindo e j&aacute; orgulha bastante o Estado de S&atilde;o Paulo. Por&eacute;m<br \/>\n    essas coisas n&atilde;o se fazem num dia, carece tempo, muito experi&ecirc;ncia&#8230;<\/p>\n<p> E aos poucos, devido &agrave; clarivid&ecirc;ncia dos criadores, os chifres<br \/>\n    diminuem, o focinho se torna uniformemente r&oacute;seo,cascos r&oacute;seos,<br \/>\n    e as malhas apanteradas alindam o p&ecirc;lo arroz-doce do bicho. Bem claro<br \/>\n    inda n&atilde;o est&aacute;&#8230; Mas lindo assim mesmo, n&atilde;o acha? Moreno<br \/>\n    rosado&#8230; ter&aacute; mais deliciosa e masculina cor! Cobre carnes rijas,<br \/>\n    musculosas, afirmo. Apenas estas se disseminam porque a obriga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    delas &eacute; cobrir. Ent&atilde;o cobrem esses ossos de pouca ou nenhuma<br \/>\n    sele&ccedil;&atilde;o, grandalhudos e grandes. Veja os bra&ccedil;os, por<br \/>\n    exemplo. O menino at&eacute; anda meio recurvado. E as m&atilde;os s&atilde;o<br \/>\n    grosseiras, por&eacute;m isso j&aacute; tem causa muito diferente, a culpa<br \/>\n    &eacute; toda dos esportes, futebol, principalmente nata&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e remo. Agora o boxe est&aacute; na moda e Carlos boxa.<\/p>\n<p> Nos momentos, felizmente mais raros, de consci&ecirc;ncia de si mesmo, ele<br \/>\n    se falsifica por completo. Afirma que gosta muito de pugilismo (&eacute; mentira)<br \/>\n    e toma os ares do forte que j&aacute; n&atilde;o chora como os &iacute;ndios<br \/>\n    de Gon&ccedil;alves Dias. Mas de fato, pra meu gosto pessoal, Carlos &eacute;<br \/>\n    um bocado long&iacute;nquo. Isso n&atilde;o quer dizer falta de cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    significa somente esquecimento do cora&ccedil;&atilde;o, coisa muito comum<br \/>\n    nas pessoas normais. Carlos &eacute; frio? N&atilde;o, por&eacute;m n&atilde;o<br \/>\n    se lembra de querer bem. Se basta a si mesmo e se defende das festinhas.<\/p>\n<p> Se algu&eacute;m lhe bota a m&atilde;o no ombro, retira o corpo instintivamente.<br \/>\n    Se uma das irm&atilde;s, irm&atilde;s nem tanto, camaradas, que Carlos n&atilde;o<br \/>\n    bate em mulheres, lhe d&aacute; a m&atilde;o, aperta at&eacute; machucar.<br \/>\n    Ali&aacute;s n&atilde;o corresponde ao aperto de m&atilde;o de ningu&eacute;m.<br \/>\n    Aos de alguma superioridade que estendem a m&atilde;o pra ele, entrega dedos<br \/>\n    sem contato, inerte, retos, que n&atilde;o se curvam pra apertar. Paralisia<br \/>\n    infantil. Nunca! paralisia de Carlos. &Eacute; doen&ccedil;a particular. Quero<br \/>\n    mostrar, com o caso do ombro e o da m&atilde;o, que ele n&atilde;o goza (nem<br \/>\n    mesmo as percebe) com as pequenas e mais ou menos mascaradas sensualidades<br \/>\n    que entret&ecirc;m as fomes amorosas de todos, da aurora ao se deitar. Por&eacute;m<br \/>\n    nestes &uacute;ltimos dias Carlos beija muito as irm&atilde;s, principalmente<br \/>\n    Aldinha.<\/p>\n<p> &#8212; Que ca&iacute;dos s&atilde;o esses com sua irm&atilde;!<\/p>\n<p> Carlos baixa os olhos, se ri. Pronto: j&aacute; envaretou outra vez. Sem<br \/>\n    querer aperta Aldinha e machuca.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, Carlos!&#8230; Feio!<\/p>\n<p> &#8212; Quem que &eacute; feio!<\/p>\n<p> &#8212; Voc&ecirc;, sabe!<\/p>\n<p> &#8212; Quem que &eacute; feio! Repita mais uma vez pra voc&ecirc; ver!<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; voc&ecirc;!&eacute; voc&ecirc;!<\/p>\n<p> &#8212; Quem!<\/p>\n<p> &#8212; Tu, turututu! parente do tatu e do urubu, pronto!<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o se sou parente do tatu e do urubu, voc&ecirc; &eacute;<br \/>\n    tatua misturada com urubua.<\/p>\n<p> Aldinha chora, &eacute; natural.<\/p>\n<p> &#8212; Mam&atilde;e! Ahn&#8230; mam&atilde;e! <\/p>\n<p> &#8212; Que foi, Aldinha!<\/p>\n<p> &#8212; Ahn&#8230; Carlos me chamou de tatua misturada com urubua&#8230;<\/p>\n<p> Ele n&atilde;o fez por mal, s&oacute; crian&ccedil;as fracas, doentias e<br \/>\n    nervosas s&atilde;o malvadas Vejam Mana Luisa&#8230; Faz um par de dias, foi no<br \/>\n    ch&aacute; da amiguinha. Pois achou jeito escondido de esquartejar o beb&ecirc;<br \/>\n    de porcelana. Quando sa&iacute;a, esperando a m&atilde;e no jardim, depenou<br \/>\n    a palmeirinha. De caso pensado. Mas ningu&eacute;m n&atilde;o viu e ela n&atilde;o<br \/>\n    contou nada Se fosse Carlos, juro que pegando na boneca desarticulava num<br \/>\n    instante os bra&ccedil;os da coitadinha. Por&eacute;m ia logo mostrar o malfeito,<br \/>\n    tomava pito, encabulava. Depois foi saltar a palmeirinha, facilitou, deu com<br \/>\n    o p&eacute; no vaso caro.<\/p>\n<p> &#8212; Dona Mercedes, quebrei o vaso da senhora! me desculpe! Ela diria<br \/>\n    o &quot;n&atilde;o faz mal&quot;, tiririca por dentro. Depois desabafava:<\/p>\n<p> &#8212; A Laura tem um filho insuport&aacute;vel! malvado! voc&ecirc; nem<br \/>\n    imagina! Quebra tudo de prop&oacute;sito! Diferente da irm&atilde;&#8230; Maria<br \/>\n    Lu&iacute;sa &eacute; t&atilde;o boazinha!&#8230;<\/p>\n<p> Por&eacute;m isso n&atilde;o faria nenhum mal pra Carlos, a essa hora, quem<br \/>\n    sabe? talvez envaretado por novas reina&ccedil;&otilde;es, pensando noutras<br \/>\n    coisas. Maria Lu&iacute;sa lembra a outra palmeirinha&#8230; Lhe cresce a pena<br \/>\n    de n&atilde;o a ter desfolhado tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> N&atilde;o sei pus alguma coisa de Carlos nestas &uacute;ltimas p&aacute;ginas.Tive<br \/>\n    inten&ccedil;&atilde;o de. Relendo o cap&iacute;tulo, sinto que a&iacute;<br \/>\n    est&atilde;o a pureza, a inoc&ecirc;ncia, os ossos e a gra&ccedil;a sutil<br \/>\n    do rapaz. E determinei bem que ele era um machucador de marca. Nesse dia ent&atilde;o,<br \/>\n    viveu atentando as meninas.<\/p>\n<p> &#8212; Mam&atilde;e! venha ver Carlos! <\/p>\n<p> Dona Laura ficou zonza.<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein enciumada, se remordendo, traidor! nem pensava mais nela!<br \/>\n    Ali pela tardinha n&atilde;o p&ocirc;de mais, passou por ele e murmurou: &#8212;<br \/>\n    Meia-noite. Carlos se acalmou de sopet&atilde;o, n&atilde;o buliu mais com<br \/>\n    as irm&atilde;s, s&eacute;rio. Estava homem.<\/p>\n<p> Carlos estava homem. Sem que se amedrontasse, assuntou a noite envelhecer.<br \/>\n    S&oacute; reparou no vagar dela. Muito sereno, por&eacute;m apressado.<\/p>\n<p> Aos poucos se apagaram as bulhas da casa, vinte e tr&ecirc;s horas. Se irritou<br \/>\n    com a impaci&ecirc;ncia chegando, que o fazia banzar pelo quarto assim, e<br \/>\n    lhe dava sensa&ccedil;&atilde;o do prisioneiro que espera o minuto pra fugir.<br \/>\n    Puxa! cora&ccedil;&atilde;o aos priscos. A calma era exterior. N&atilde;o.<br \/>\n    O cora&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m se fatigou e sentou. Carlos tamb&eacute;m<br \/>\n    sentou. Cruzou os bra&ccedil;os pra n&atilde;o mexer tanto assim, disposto<br \/>\n    a esperar com paci&ecirc;ncia. Tomou o cuidado de p&ocirc;r o bra&ccedil;o<br \/>\n    esquerdo sobre o outro, que assim o rel&oacute;gio ficava &agrave; mostra<br \/>\n    na munheca.<\/p>\n<p> E os minutos se acabando, tardonhos. Ali&aacute;s nem tinha pressa mais,<br \/>\n    o aproximar da aventura lhe apaziguava as ard&ecirc;ncias. Resfriado. Qualquer<br \/>\n    coisa lhe tirava o calor dos dedos&#8230; Se lembrou de vestir pijama limpo, fez.<br \/>\n    Depois pensou. N&atilde;o tinha prop&oacute;sito trocar de pijama s&oacute;<br \/>\n    porque. Carlos, como se v&ecirc;, j&aacute; tinha progredido sobre o pai,<br \/>\n    nunca usar&aacute; brilhantina nos bigodes. Se nem bigodes! Vestiu outra vez<br \/>\n    o pijama usado e se reconciliou consigo, j&aacute; confiante. E outra vez<br \/>\n    se sentou. Olhava a imobilidade dos ponteiros que lhe abririam a porta de<br \/>\n    Fr&auml;ulein. Que o entregariam a Fr&auml;ulein. Uma como&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    doce, quase filial esquentou Carlos novamente. E porque amava sem temor nem<br \/>\n    pensamento, sem gozo, apenas por instinto e por amor, por gozo, iria se entregar.<br \/>\n    Est&aacute; certo. Carlos amava com paix&atilde;o.<\/p>\n<p> A imobilidade &eacute; a sala de espera do sono. Procurou ler e cochilou.<br \/>\n    Vinte e tr&ecirc;s e trinta, se ergueu. Cacetea&ccedil;&atilde;o esperar!<br \/>\n    Tamb&eacute;m o momento estava estourando por a&iacute;, gra&ccedil;as a Deus!<br \/>\n    Sentou na cama. Mais vinte e sete minutos. Vinte e seis&#8230; Vinte e cinco&#8230;<br \/>\n    Vinte e&#8230; Nos bra&ccedil;os cruzados sobre a guarda da cama, a cabe&ccedil;a<br \/>\n    dele pousou.<\/p>\n<p>A posi&ccedil;&atilde;o inc&ocirc;moda acordou Carlos. Espregui&ccedil;ou,<br \/>\n    empurrando com as m&atilde;os a dor do corpo, sentado por que? ah! lembran&ccedil;a<br \/>\n    viva enxota qualquer sono. Hora e meia! Desejo furioso subiu. Sem reflex&atilde;o,<br \/>\n    sem vergonha H fraqueza, corre pra porta de Fr&auml;ulein. Fechada! Bate.<br \/>\n    Bate forte com risco de acordar os outros, bate at&eacute; a porta se abrir,<br \/>\n    entra&#8230;<\/p>\n<p> Aqui devem se trocar naturalmente umas primeiras frases de explica&ccedil;&atilde;o&#8212;<br \/>\n    se ele der espa&ccedil;o para tanto entre os dois! &#8212; por&eacute;m obede&ccedil;o<br \/>\n    a v&aacute;rias raz&otilde;es que obrigam-me a n&atilde;o contar a cena do<br \/>\n    quarto. Mas como nos ser&aacute; imposs&iacute;vel dormir, ao leitor e a mim,<br \/>\n    ambos naquela torcida pelo triunfo de Carlos, vamos gastar este resto de noite<br \/>\n    resolvendo uma quest&atilde;o pan&ccedil;uda: Quais eram de fato as rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    entre Fr&auml;ulein e o criado japon&ecirc;s? Inimigos? Quem me falou que<br \/>\n    ele se entendem?&#8230;<\/p>\n<p> Pois &eacute;. Castro Alves cantava que na &uacute;ltima conting&ecirc;ncia<br \/>\n    da calamidade, quando a queimada galopa destruindo matos, sacudindo as trombas<br \/>\n    curtas de fogo no ar, a cor&ccedil;a e o tigre v&atilde;o se unir na mesma<br \/>\n    rocha. N&atilde;o sei em que pa&iacute;s do mundo Castro Alves viu a &quot;Queimada&quot;<br \/>\n    dele&#8230; Talvez nalgum &Eacute;den b&iacute;blico ou nas b&iacute;blicas proximidades<br \/>\n    da moradia de Tamandar&eacute;, depois do dil&uacute;vio. O certo &eacute;<br \/>\n    que tinha l&aacute; prom&iacute;scuo farrancho, um tigre, uma cor&ccedil;a,<br \/>\n    al&eacute;m de iaras e cascav&eacute;is. N&atilde;o esque&ccedil;amos tamb&eacute;m<br \/>\n    o perdigueiro. Por&eacute;m essa fauna panterrestre n&atilde;o tem import&acirc;ncia<br \/>\n    nenhuma pra este id&iacute;lio, pois n&atilde;o trata-se de cor&ccedil;a nem<br \/>\n    de tigre, estou falando de Fr&auml;ulein e do criado japon&ecirc;s.<\/p>\n<p> Mas da rela&ccedil;&atilde;o &iacute;ntima que possa existir entre os quatro<br \/>\n    inda me resta o que falar. N&atilde;o sei por&eacute;m como igualar Fr&auml;ulein<br \/>\n    a uma cor&ccedil;a&#8230; A compara&ccedil;&atilde;o tomava assim uns ares insinuantes<br \/>\n    de pureza que n&atilde;o ficam bem, pois n&oacute;s todos j&aacute; sabemos<br \/>\n    que. O japon&ecirc;s ent&atilde;o, gente guerreira aquela! &eacute; que de<br \/>\n    todo n&atilde;o pode ser a t&iacute;mida veadinha&#8230; De mais a mais confesso<br \/>\n    que n&atilde;o vejo entre os brutos escolhidos por Castro Alves para o mesmo<br \/>\n    habitat conciliat&oacute;rio, mais que ant&iacute;tese in&oacute;cua, nem<br \/>\n    s&atilde;o t&atilde;o opostos assim! Mais inimigos ainda, mais muito mais!<br \/>\n    s&atilde;o o tigre e o tigre.<\/p>\n<p> Agora sim a met&aacute;fora pode convir. S&atilde;o tigres pois, no sentido<br \/>\n    que mais convier a cada um, a governanta e o criado japon&ecirc;s dos Sousa<br \/>\n    Costas. Esta analogia vai surgir muito evidente, agora que me disponho a explicar<br \/>\n    porque lembrei o verso de Castro Alves.<\/p>\n<p> Em que companhia horrorosa a gente Sousa Costa foi se meter! Por&eacute;m<br \/>\n    no Brasil &eacute; assim mesmo e nada se pode melhorar mais! Os empregos brasileiros<br \/>\n    rareiam, brasileiro s&oacute; serve pra empregado-p&uacute;blico. Aqui o copeiro<br \/>\n    &eacute; sebastianista quando n&atilde;o &eacute; sect&aacute;rio de Mussolini.<br \/>\n    Por&eacute;m os italianos preferem guiar autom&oacute;veis, fazer a barba<br \/>\n    da gente, ou vender jornais. Se &eacute; que n&atilde;o partiram pro interior<br \/>\n    em busca de fazenda por colonizar. Depois compram um lote nos latif&uacute;ndios<br \/>\n    tradicionais, desmembrados em fazendas e estas em s&iacute;tios de dez mil<br \/>\n    p&eacute;s. Um belo dia surgem com automovel&atilde;o na porta do palacete<br \/>\n    lu&iacute;s-dezesseis na Avenida Paulista. Quem &eacute;, heim? &Eacute; o<br \/>\n    rica&ccedil;o Salom Qualquer-Coisa, que n&atilde;o &eacute; nome italiano<br \/>\n    mas, como verdade, &eacute; tamb&eacute;m duma exatid&atilde;o serena. Por&eacute;m<br \/>\n    se o copeiro n&atilde;o &eacute; fascista, a arrumadeira de quarto &eacute;<br \/>\n    belga. Muitas vezes, su&iacute;&ccedil;a. O encerador &eacute; polaco. Outros<br \/>\n    dias &eacute; russo, pr&iacute;ncipe russo.<\/p>\n<p> E assim aos poucos o Brasil fica pertencendo aos brasileiros, gra&ccedil;as<br \/>\n    a Deus! dona Maria Wight Blavatsky, dona Carlotinha n&atilde;o-sei-que-l&aacute;<br \/>\n    Manolo. Quando tem doen&ccedil;a em casa, vem o dr. Sarapi&atilde;o de Lucca.<br \/>\n    O engenheiro do bangal&ocirc; neo-colonial (&Aacute;sia e duas Am&eacute;ricas!<br \/>\n    Pois n&atilde;o: Chandernagor, Bay Shore e Tabating&uuml;era) &eacute; o snr.<br \/>\n    Peri Sternheim. Nas mans&otilde;es tradicionalistas s&oacute; as cozinheiras<br \/>\n    continuam ainda mulatas ou cafusas, gordas e pachorrentas negras da minha<br \/>\n    mocidade!&#8230; Brasil, ai, Brasil!<\/p>\n<p> Falemos dos trigres. O japon&ecirc;s arripiou logo o pelame el&eacute;trico<br \/>\n    e grunhiu zangad&iacute;ssimo. Mais uma estrangeira na casa que ele pretendia<br \/>\n    conquistar, ele s&oacute;&#8230; O tigre alem&atilde;o, se reconhecendo muito<br \/>\n    superior tanto na hierarquia solarenga como na instru&ccedil;&atilde;o ocidental,<br \/>\n    lhe secundou ao grunhido com o muxoxo desdenhoso. O tigre japon&ecirc;s curvou<br \/>\n    a cabe&ccedil;a, muito servilmente. Por&eacute;m toda casta de picuinha fazia<br \/>\n    pro outro. Quando era para dar um recado, batia na porta do outro e:<\/p>\n<p> &#8212; Senhora est&aacute; chamando e n&atilde;o dava o recado. O tigre<br \/>\n    alem&atilde;o tinha que descer as escadas e ir saber o que dona Laura queria.<br \/>\n    Na mesa, muita vezes o nip&ocirc;nico deixava de servir o tedesco ou esbarrava<br \/>\n    nele com peso e malvadez. Mas o tigre alem&atilde;o se vingava, e o senhor<br \/>\n    ou a senhora Sousa Costa ali, ordenava ao inimigo tal servi&ccedil;o, o tigre<br \/>\n    japon&ecirc;s obedecia servilmente. Era na alma que rosnava tiririca. E assim<br \/>\n    os dois tigres se odiavam. Viviam se arranhando em cont&iacute;nua rivalidade.<br \/>\n    Cada um se acreditava o dono daquela fam&iacute;lia, o conquistador da casa<br \/>\n    e do jardim, o quem sabe? futuro possuidor do Estado e pr&oacute;ximo rei<br \/>\n    da terra brasileira toda do Amazonas ao Prata.<\/p>\n<p> Odiavam? que estou falando! Quando os Sousa Costas grandes iam no teatro<br \/>\n    ou no baile, Fr&auml;ulein deitava as pequenas. Depois entrava no quarto.<br \/>\n    N&atilde;o sei se lhe pesava a solid&atilde;o, descia, sentava-se no hol e<br \/>\n    abria um livro sem vontade. Virava pouco a pouco as folhas secas que ringiam<br \/>\n    machucadas no ch&atilde;o frio. Devia de estar alguma fera no arredor&#8230; O<br \/>\n    luar coava solit&aacute;rio da alta rama das &aacute;rvores. De repente os<br \/>\n    cip&oacute;s se entreabriam. Dois olhos espantados relam-peavam na escureza<br \/>\n    e a carantonha chata do tigre japon&ecirc;s aparecia, glabra, polida pelo<br \/>\n    reflexo lunar. Com o passo enluvado, cauteloso, ele rondava &agrave; espera<br \/>\n    dum carinho. E o carinho chegava fatalmente. Fr&auml;ulein, fingindo indiferen&ccedil;a,<br \/>\n    fechava o livro.<\/p>\n<p> &#8212; Muito servi&ccedil;o, Tanaka?<\/p>\n<p> &#8212; Nem tanto, senhora, &ecirc;&ecirc;&ecirc;&#8230; na terra era pior.<\/p>\n<p> &#8212; Voc&ecirc; &eacute; de T&oacute;quio?<\/p>\n<p> &#8212; &Ecirc;&ecirc;&#8230; senhora, n&atilde;o.<\/p>\n<p> Se aproximava. Vinha felinamente estacar em frente do tigre germ&acirc;nico.<br \/>\n    Ent&atilde;o eles conversavam. Falavam longamente. Comovidamente. Se contavam<br \/>\n    as m&aacute;goas passadas. Confiantes, solit&aacute;rios. Doloridos. Se contavam<br \/>\n    as m&aacute;goas exteriores. As inf&acirc;ncias passavam lindas, inocentes,<br \/>\n    brinquedos, primavera, mam&atilde;e&#8230; Algumas vezes mesmo uma l&aacute;grima<br \/>\n    iluminava tanta recorda&ccedil;&atilde;o, tanta alegria. Tanta infelicidade.<\/p>\n<p> Batia sobre eles o luar, e os santos &oacute;leos da lua como que lhes redimiam<br \/>\n    as maldades pequeninas. Se olhavam comovidos. O tigre alem&atilde;o, longo,<br \/>\n    desgracioso, espiritual, ver um Schongauer. O tigre japon&ecirc;s, chato,<br \/>\n    contorcido, ver um Chuntai.<\/p>\n<p> Depois das recorda&ccedil;&otilde;es, vinham as esperan&ccedil;as. E das<br \/>\n    esperan&ccedil;as, t&atilde;o lentas de realizar! derivavam os exasperos e<br \/>\n    as revoltas. At&eacute; cal&uacute;nias, t&atilde;o eficientes para consolar.<br \/>\n    A roupa suja da fam&iacute;lia se quotidianizava ali. Os defeitos da p&aacute;tria<br \/>\n    emprestada eram repassados com exagero. Principalmente o nip&ocirc;nico falava,<br \/>\n    que o alem&atilde;o tinha as pernas mais altas do estudo para se rojar no<br \/>\n    lamedo. Por&eacute;m se percebia que escutava com prazer. E os dois tigres<br \/>\n    se aproximavam, olhos &uacute;midos, eram irm&atilde;os. Se a dist&acirc;ncia<br \/>\n    lhes impedia pra sempre o beijo sem desejo, insexual mas f&iacute;sico de<br \/>\n    irm&atilde;os, eles se davam, n&atilde;o tem d&uacute;vida, aquele beijo consolador,<br \/>\n    espiritual, redentor e reunidor da almas desinfelizes exiladas. Apalermados<br \/>\n    pela mis&eacute;ria, batidos pelo mesmo anseio de salva&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    sofre-nados pelo fogar&eacute;u do ego&iacute;smo e da inveja, na mesma rocha<br \/>\n    v&atilde;o tr&ecirc;mulos se unir. A queimada esbraveja em torno. Os guarant&atilde;s<br \/>\n    se lascam em risadas chocarreiras de reco-recos. A cascavel chocalha. A su&ccedil;uarana<br \/>\n    prisca. As labaredas lambem a rocha. Pula uma irar&aacute;, que susto! Peroba<br \/>\n    tomba. O repuxo das fagulhas dan&ccedil;arinas vidrilha de ouro o fumo lancetado<br \/>\n    pelas cuquiadas dos guaribas. Os dois tigres ofegam. Falta de ar. Sufocam,<br \/>\n    meu Deus! Deus? Por&eacute;m que deus? Odin de drama l&iacute;rico, s&aacute;xeo<br \/>\n    Bud&aacute; no contraforte das cavernas? Mas por&eacute;m sobre a queimada,<br \/>\n    Tup&atilde; retumba inda mais mucudo, de l&aacute; dos arax&aacute;s de Tapuirama.<br \/>\n    Por enquanto. Creio mesmo que vencer&aacute;. Os dois tigres acabar&atilde;o<br \/>\n    por desaparecer assimilados.<\/p>\n<p> Mesmo o japon&ecirc;s? Homem, n&atilde;o sei. Avisto Gobineau fraudulento<br \/>\n    a estudar o facies de Tup&atilde;. Odin e Bud&aacute; inda Tup&atilde; podia<br \/>\n    vencer, que em brigas entre iguais a vit&oacute;ria parece discut&iacute;vel.<br \/>\n    Mas Gobineau &eacute; homem, Homo Europeus, e sempre constatei que os homens<br \/>\n    s&atilde;o muito mais fortes que os deuses. Gobineau vencer&aacute; para maior<br \/>\n    gozo de alem&atilde;es.<\/p>\n<p> Mas que bem que importa isso &agrave; fam&iacute;lia Sousa Costa? N&atilde;o<br \/>\n    importa nada, nem dona Laura tem que ver com os futuros da p&aacute;tria,<br \/>\n    francamente. S&oacute; o presente &eacute; realidade. Qual ser&aacute; o futuro?<br \/>\n    Paradigma de conjuga&ccedil;&atilde;o seguir&aacute;? Ou irregular? Ou n&atilde;o<br \/>\n    tem futuro, e fam&iacute;lia e p&aacute;tria s&atilde;o defectivas?&#8230; Ningu&eacute;m<br \/>\n    o saber&aacute; jamais&#8230;<\/p>\n<p> Agora que as rela&ccedil;&otilde;es entre os dois tigres ficaram esclarecidas,<br \/>\n    s&oacute; me resta aconselhar aos leitores o seguinte: A gente n&atilde;o<br \/>\n    deve culpar nem Fr&auml;ulein nem o criado japon&ecirc;s. N&atilde;o adianta<br \/>\n    nada, nem s&atilde;o t&atilde;o culpados assim. E t&ecirc;m isso de imensamente<br \/>\n    c&ocirc;mico, que no fundo se odeiam. Mas ali est&atilde;o unidos por causa<br \/>\n    da &quot;Queimada&quot; de Castro Alves. Por causa das recorda&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    do ex&iacute;lio e da esperan&ccedil;a. Todos os exilados afinal t&ecirc;m<br \/>\n    direito a recorda&ccedil;&otilde;es e esperan&ccedil;as.<\/p>\n<p> E enviado pro Brasil, onde irar&aacute;s pulam, cascav&eacute;is chocalham,<br \/>\n    on&ccedil;as, jaguarandis, tatus-pebas, peixes-bois e tigres, pois n&atilde;o!<br \/>\n    tigres tamb&eacute;m se assanham, inda por cima vieram adquirir essa coisa<br \/>\n    tristonha e desagrad&aacute;vel que de portugueses herdamos: a saudade.<\/p>\n<p>A aurora entrecortada lan&ccedil;a um primeiro suspiro nos c&eacute;us noct&iacute;vagos.<br \/>\n    Dois ou tr&ecirc;s galos madrugas, galos em Higien&oacute;polis n&atilde;o<br \/>\n    tem, uns galos madrugas&#8230; &eacute; uma pena estes verdes am&aacute;veis do<br \/>\n    Brasil n&atilde;o ocultarem rouxinol nem cotovia, ali&aacute;s estamos na<br \/>\n    cidade e creio nem na umidade de White-Chapel a cotovia librar&aacute; o v&ocirc;o<br \/>\n    pesado dela, (ser&aacute; pesado o v&ocirc;o da cotovia?) nem sobre a c&uacute;spide<br \/>\n    da Cleopatra&#8217;s Needle o rouxinol cantar&aacute;, por&eacute;m estou me enganando,<br \/>\n    pois Romeu e Julieta passa-se na It&aacute;lia, nem Shakespeare &eacute; londrino&#8230;<br \/>\n    resumindo: v&aacute;rios galos madrugas, ami&uacute;dam no Pacaembu. Pois<br \/>\n    agora que bateram as tr&ecirc;s e trinta, o leitor pode retomar o caso e espiar<br \/>\n    o corredor. O id&iacute;lio continua.<\/p>\n<p> Carlos sai cuidadoso do quarto de Fr&auml;ulein. Caminha na maciota. Todo<br \/>\n    cuidado &eacute; pouco, n&atilde;o? com p&eacute;s de on&ccedil;a ele pisa.<br \/>\n    Nem um ru&iacute;do far&aacute;, n&atilde;o v&aacute; acordar algu&eacute;m&#8230;<br \/>\n    Carlos reflete. E sabe que essas coisas ningu&eacute;m deve descobrir. <\/p>\n<p> Fr&auml;ulein se fechou por dentro. Desenleou pensativa a ma&ccedil;aroca<br \/>\n    das cobertas. Foi alisar os cabelos, cheia de molas, boneco, pra n&atilde;o<br \/>\n    se embara&ccedil;arem mais durante o sono. Estava toda numa id&eacute;ia longe,<br \/>\n    parafusando, parafusando.<\/p>\n<p> Deitando, inda parou um pouco, esquecida, onde est&aacute; Fr&auml;ulein?<br \/>\n    Qual! que id&eacute;ia! Interrompeu a luz. Mas havia de tirar a limpo aquilo.<br \/>\n    Pegou no sono.<\/p>\n<p> Carlos se levantou tarde. Desapontado? &Eacute; certo que, descendo pro<br \/>\n    caf&eacute;, deu gra&ccedil;as a deus de n&atilde;o encontrar Fr&auml;ulein,<br \/>\n    bebeu, subiu escorra&ccedil;ado pelos sustos. Tomou o banho frio quotidiano,<br \/>\n    e cantava, distendendo os m&uacute;sculos morenos diante do espelho, nu. Coroava<br \/>\n    os olhos dele essa quebra de p&aacute;lpebras, voc&ecirc;s sabem&#8230; como brilham<br \/>\n    as pupilas! &Eacute; sono. Mas em volta delas, sombria, negrejante, a alian&ccedil;a<br \/>\n    matrimonial. De Saturno.<\/p>\n<p> N&atilde;o se discute: os estigmas do pecado alindam qualquer cara. Carlos<br \/>\n    hoje est&aacute; quase bonito, desse bonito que pega fogo nas mulheres. At&eacute;<br \/>\n    nas virgens, apesar do f&iacute;sico perfeito de Peri e do mo&ccedil;oloiro.<br \/>\n    Carlos estava assim com um arzinho sapeca, &aacute;gil, um arzinho faz-mesmo.<br \/>\n    N&atilde;o se mo&ccedil;oloirara nem um pouco. Por&eacute;m se cantava satisfeito<br \/>\n    parou a desafina&ccedil;&atilde;o de repente, malestar&#8230; Berimbaus guisos<br \/>\n    membis, as meninas voltavam do passeio. Fr&auml;ulein devia estar com elas.<br \/>\n    Ficaram no jardim.<\/p>\n<p> Cinco pras onze, hora da li&ccedil;&atilde;o! Carlos se imobiliza, apavorado,<br \/>\n    que vergonha, meu Deus! com que cara agora ia se apresentar diante de! Nunca<br \/>\n    mais olharia para ela! N&atilde;o teria coragem&#8230; Espiou. Fr&auml;ulein grande,<br \/>\n    linda e esbelta pr&oacute;s olhos dele (estava com sono) parar&aacute; entre<br \/>\n    as rosas, metida numa capa austera. As pregas em ordem despencavam dos ombros<br \/>\n    dela, pormenorizadas e g&oacute;ticas. Espalhavam serenidade sem segredos,<br \/>\n    religiosa. Ajoelhar diante daquela boniteza matinal!&#8230; Ficar assim, ext&aacute;tico,<br \/>\n    em silenciosa adora&ccedil;&atilde;o&#8230; divina!, E lhe beijar submisso a f&iacute;mbria<br \/>\n    pura dos vestidos, mantos, m&atilde;os&#8230; descansar a fronte naqueles seios<br \/>\n    protetores&#8230; afundar o rosto nesse corpo&#8230; apertar Fr&auml;ulein! molhar<br \/>\n    ela de beijos! morder, n&atilde;o sei!&#8230; Enla&ccedil;ar cheirar unir&#8230; dormir&#8230;<br \/>\n    morrer&#8230; era no outono quando a imagem&#8230; Que &eacute;!<\/p>\n<p> &#8212; Dona Fr&auml;ulein manda dizer pra senhor que &eacute; hora de li&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Nunca! N&atilde;o posso! como ser&aacute;!&#8230; Andou. Se riu de aflito, abrindo<br \/>\n    a porta. Fatalizado. Caminhar pro supl&iacute;cio. Mais hesita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que degraus. Ela no centro do hol. A casa desabou.<\/p>\n<p> Pra Fr&auml;ulein tamb&eacute;m. &#8212; Ora essa! &#8212; N&atilde;o me<br \/>\n    amolem com hist&oacute;rias de concord&acirc;ncia psicol&oacute;gica. Voc&ecirc;s<br \/>\n    se esquecem do deus encarcerado? A casa desabou pra ela tamb&eacute;m. S&oacute;<br \/>\n    que p&ocirc;de disfar&ccedil;ar:<\/p>\n<p> &#8212; Voc&ecirc; se esqueceu da li&ccedil;&atilde;o&#8230; Carlos?<\/p>\n<p> Ele encabulad&iacute;ssimo, rubro, p&aacute;lido, ergueu um pouco os olhos<br \/>\n    pra ela. Fr&auml;ulein tamb&eacute;m estava erguendo os dela. S&oacute; um<br \/>\n    pouquinho. Dois olhares que se relam, fogem. A casa redesabou. Muito desagrad&aacute;vel.<br \/>\n    Se pudessem levar mais algu&eacute;m pra bibloteca&#8230; podiam desconfiar!&#8230;<br \/>\n    n&atilde;o havia pretexto. Gostaram de n&atilde;o haver pretexto. N&atilde;o<br \/>\n    queriam levar ningu&eacute;m pra biblioteca. Por&eacute;m passar uma hora<br \/>\n    juntinhos, depois de!&#8230; que horror! Carlos respondeu com a voz mais natural<br \/>\n    deste mundo.<\/p>\n<p> &#8212; Estava me vestindo.<\/p>\n<p> Entraram mec&acirc;nicos, sem vontade. Porta fecha. Ele caiu sobre ela,<br \/>\n    choveu-lhe beijos pelo corpo, mastigou-a em abra&ccedil;os ardentes.<\/p>\n<p> &#8212; Como v&atilde;o os estudos de japon&ecirc;s, irm&atilde;ozinho!<\/p>\n<p> &#8212; Muito bem! Ora! j&aacute; n&atilde;o morria de fome em Nagas&aacute;qui!<br \/>\n    A dificuldade sempre parece maior do que &eacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Mam&atilde;e! venha ver Carlos!<\/p>\n<p> &#8212; Mas que ser&aacute; que sucedeu pra esse menino, hoje&#8230; N&atilde;o<br \/>\n    tem parada! Voc&ecirc; carece passar um pito nele, Felisberto! est&aacute;<br \/>\n    imposs&iacute;vel da gente aturar!<\/p>\n<p> Vieram correndo em busca dos amantes, os tempos de intimidade. A gente nem<br \/>\n    respira e a vida j&aacute; fica t&atilde;o de ontem! &Eacute; esquisito: o<br \/>\n    amor realizado se torna logo parecido com amizade. Carlos j&aacute; senta-se<br \/>\n    e cruza as pernas. Se fumasse, fumaria. E sempre o mesmo ardente, o mesmo<br \/>\n    entusiasmado&#8230; Mas por&eacute;m cruza as pernas, que &eacute; sintoma de<br \/>\n    amizade. Talvez mesmo pra evitarem o excesso de camaradagem, que traz os dizque<br \/>\n    e conta os casos desimportantes do dia, eles falam unicamente de amor. N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; por isso n&atilde;o. Fr&auml;ulein tem de ensinar e ensina, Carlos<br \/>\n    at&eacute; pouco fala. Geralmente ele apenas termina os racioc&iacute;nios<br \/>\n    da s&aacute;bia e se deita na sombra mansa das ila&ccedil;&otilde;es. Carece<br \/>\n    aprender e aprende.<\/p>\n<p> Que diabo! n&atilde;o acha muito cedo pra ensinar o ci&uacute;me da mulher,<br \/>\n    Fr&auml;ulein? Por&eacute;m a professora n&atilde;o se vence mais. Curiosidade?<br \/>\n    Antes afli&ccedil;&atilde;o. Por isso ela se fala: Chegou o momento de ensinar<br \/>\n    o ci&uacute;me da mulher. E porque chegou, lhe sobra ocasi&atilde;o pra se<br \/>\n    certificar de. Arranca desabrida:<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute;. Como as outras que voc&ecirc; j&aacute; teve. E as que<br \/>\n    h&aacute; de ter.<\/p>\n<p> Que m&eacute;todo, Virgem! Veja como espantou o menino! est&aacute; roxo<br \/>\n    de vergonha. Por&eacute;m a resposta &eacute; pura e firme:<\/p>\n<p> &#8212; Nunca tive ningu&eacute;m!<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein n&atilde;o deve insistir. Pois ela, esta cultura do sofrimento!<br \/>\n    ela imediatamente:<\/p>\n<p> &#8212; Ningu&eacute;m? Voc&ecirc; n&atilde;o me engana, Carlos. Ent&atilde;o<br \/>\n    hei de acreditar que fui a primeira?<\/p>\n<p> &#8212; Voc&ecirc; foi a primeira! a &Uacute;nica!<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o minta, Carlos. Ent&atilde;o voc&ecirc; nunca esteve com<br \/>\n    ningu&eacute;m?&#8230; Est&aacute; vendo?&#8230; Responda!<\/p>\n<p> Ele ergue a cara, ardendo em verdades magn&iacute;ficas. Quanta franqueza<br \/>\n    linda! E responde. Responde certo:<\/p>\n<p> &#8212; Estar n&atilde;o &eacute; gostar, Fr&auml;ulein!<\/p>\n<p> N&atilde;o tem d&uacute;vida: o m&eacute;todo socr&aacute;tico de perguntas<br \/>\n    e respostas d&aacute; no vinte, quase sempre. Ao menos quando escrito assim<br \/>\n    em cima do papel, seja por Plat&atilde;o ou mesmo por mim. A resposta de Carlos<br \/>\n    falava lind&iacute;ssima verdade. Por&eacute;m quando as verdades saltam do<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o, n&oacute;s homens intelectuais lhes damos o nome-feio<br \/>\n    de confiss&otilde;es. Carlos confessara apenas, n&atilde;o aprendera nada<br \/>\n    com a verdade que dissera. S&oacute; quando do peito passa pro c&eacute;rebro,<br \/>\n    a confiss&atilde;o se transforma em verdade. Dessa excurs&atilde;o o professor<br \/>\n    &eacute; o tapejara.<\/p>\n<p> T&iacute;nhamos chegado no momento da necessar&iacute;ssima distin&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    entre amor e posse que, quando pra mais n&atilde;o sirva, serve pra sossego<br \/>\n    dos Sousa Costas pais. Carlos chegaria &agrave; certeza boa, se Fr&auml;ulein<br \/>\n    dirigisse bem o di&aacute;logo. Bem que ela desconfiara na primeira noite,<br \/>\n    Carlos j&aacute; conhecia o. Agora sabia disso, pois continuasse a li&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    Qual o qu&ecirc;! A curiosidade corre num motociclo, o dever anda de bicicleta,<br \/>\n    ve&iacute;culo atrasado, quem vencer&aacute;? A gente j&aacute; sabe que,<br \/>\n    s&oacute; nas f&aacute;bulas o jabuti ganha da candimba, nem sou capcioso<br \/>\n    Plat&atilde;o que prepara os di&aacute;logos por amor de cobrir de gl&oacute;rias<br \/>\n    o mestre dele. Por estas duas raz&otilde;es acontece que o motociclo ganha<br \/>\n    a corrida e Fr&auml;ulein, em vez de ensinar, insiste. Faz perguntas, fingindo<br \/>\n    um ci&uacute;me ali&aacute;s muito verdadeiro. Carlos, refugando sempre, enojado,<br \/>\n    desembucha tudo afinal. Fora com uma qualquer, rua Ipiranga, por&eacute;m<br \/>\n    que tinha isso! t&atilde;o natural&#8230; E uma vez s&oacute;! uma vez s&oacute;!<br \/>\n    Fr&auml;ulein te juro!&#8230; nem tive prazer&#8230; e levado por companheiros&#8230;<br \/>\n    se soubesse que voc&ecirc; vinha!&#8230; E era s&oacute;, unicamente dela! nunca<br \/>\n    serei de mais ningu&eacute;m!&#8230; e, juro! foram os companheiros que me levaram,<br \/>\n    sen&atilde;o n&atilde;o ia! &#8212; Fr&auml;ulein, embora nada grega, acreditava<br \/>\n    que os esportes eram alambiques de pureza. Por&eacute;m n&atilde;o tinha vagar<br \/>\n    bastante agora, pra defender a ilus&atilde;o escangalhada. O fato de Carlos<br \/>\n    n&atilde;o lhe ter dado a inoc&ecirc;ncia, preocupava-a. Sejamos sinceros:<br \/>\n    aquilo machucou-lhe o orgulho profissional.<\/p>\n<p> Mais do que esse sentimento in&uacute;til, logo seq&uuml;estrado, Fr&auml;ulein<br \/>\n    discutia se os oito contos lhe escapavam ou n&atilde;o, certo que n&atilde;o!<br \/>\n    Por&eacute;m lhe faltava descanso agora, pra provar o n&atilde;o, Carlos estava<br \/>\n    ali. S&oacute; n&atilde;o cruzava as pernas mais, queixo nas m&atilde;os,<br \/>\n    cotovelos nos joelhos. O caso parecia grave. Bolas! preferia os beijos, Fr&auml;ulein<br \/>\n    repeliu-o. E porque chorou! Ningu&eacute;m o saber&aacute; jamais, chorou<br \/>\n    sinceramente. Aproveitou as l&aacute;grimas pra continuar a li&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    E aos poucos, entre perguntas e desalentos, mordida pelos solu&ccedil;os,<br \/>\n    tirava do aterrorizado as m&uacute;ltiplas verdades da sua teoria l&aacute;<br \/>\n    dela: qual o procedimento dum homem que n&atilde;o enci&uacute;ma &agrave;s<br \/>\n    cunhas, quais os gestos que d&atilde;o firme e duradouro consolo &agrave;<br \/>\n    amante, desculpe: esposa enfraquecida pela d&uacute;vida, etc. Carlos, que<br \/>\n    menino inteligente! foi apressado, foi dominador, sincero. Tanto mesmo que<br \/>\n    ao partir, compartilhava os ci&uacute;mes de Fr&auml;ulein, satisfeito. A<br \/>\n    tal farra com os camaradas&#8230; um crime. S&oacute; n&atilde;o se amaldi&ccedil;oou,<br \/>\n    n&atilde;o amaldi&ccedil;oou os companheiros e a perdida, s&oacute; n&atilde;o<br \/>\n    chorou nem monologou porque n&atilde;o tinha inclina&ccedil;&atilde;o pro<br \/>\n    g&ecirc;nero dram&aacute;tico. E aquilo teria mesmo tanta import&acirc;ncia<br \/>\n    assim. N&atilde;o sabe. Sente que n&atilde;o. Quer sofrer mas n&atilde;o pode,<br \/>\n    est&aacute; sublime de felicidade: uma mulher chorou por causa dele! puxa<br \/>\n    que gozo! Ele at&eacute; d&aacute; um solu&ccedil;o. De gozo.<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein, pelos dias adiante, pensou duas vezes longamente no caso.<br \/>\n    Seriamente. Foi honesta. Resolveu ficar bem quieta e aceitar os oitos contos.<br \/>\n    A miss&atilde;o dela n&atilde;o consistia em dirigir um ato: ensinava o amor<br \/>\n    integral, t&atilde;o desnaturado nos tempos de agora!&#8230; Amor calmo, etc.<br \/>\n    Com a freq&uuml;&ecirc;ncia do ideal escrito pelo deus encarcerado, com certeza<br \/>\n    disc&iacute;pulo de Hans Sachs, Fr&auml;ulein pouco a pouco mecanizara a sua<br \/>\n    concep&ccedil;&atilde;o pobre do amor. Ali o homem-da-vida e o homem-do-sonho<br \/>\n    vinham se confundir na prega&ccedil;&atilde;o duma verdade s&oacute; e, bem<br \/>\n    mais engra&ccedil;ado ainda, na vis&atilde;o do mesmo quadro. Professora de<br \/>\n    amor&#8230; por&eacute;m n&atilde;o nascera pra isso, sabia. As circunst&acirc;ncias<br \/>\n    &eacute; que tinham feito dela a professora de amor, se adaptara. Nem discutia<br \/>\n    se era feliz, n&atilde;o percebia a pr&oacute;pria infelicidade. Era, verbo<br \/>\n    ser.<\/p>\n<p> Insensivelmente por&eacute;m a teoria que ensinava aos alunos vinha se embrenhar<br \/>\n    no que ela desejava ser. E o alem&atilde;o de dentro de Fr&auml;ulein repisa<br \/>\n    insaci&aacute;vel, incans&aacute;vel, a suave cena, sinfonia Pastoral cinco<br \/>\n    vezes por ano e perp&eacute;tua vis&atilde;o: Boca-da-noite&#8230; Uma cidade<br \/>\n    escura milenar&#8230; Ele entraria do trabalho&#8230; Ela se deixava beijar&#8230; Durante<br \/>\n    a janta saberia dos bilhetes pra Filarm&ocirc;nica, no dia seguinte&#8230; E quando<br \/>\n    a noite viesse, ambos dormiriam sono grande sem gestos nem sonhar.<\/p>\n<p> Pra isso tamb&eacute;m inconscientemente Fr&auml;ulein dirigia os alunos.<br \/>\n    Sem inveja acreditava que os j&aacute; ensinados reproduziam, breve reproduziriam<br \/>\n    a visagem gostosa. Agora dirigia Carlos para o mesmo fim. Por&eacute;m que<br \/>\n    uma outra tivesse movido o menino a primeira vez&#8230; lhe desagradava. Conservaria<br \/>\n    sempre pelos anos a sensa&ccedil;&atilde;o logo vencida mas imortal de que<br \/>\n    tinham lhe passado a perna.<\/p>\n<p> &#8212;Sua m&atilde;e tem governanta em casa?<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, por que?<\/p>\n<p> &#8212; Nada.<\/p>\n<p> &#8212; Sua m&atilde;e tem governanta em casa? <\/p>\n<p> &#8212;N&atilde;o, por que? <\/p>\n<p> &#8212;Nada!<\/p>\n<p> &#8212; Sua m&atilde;e tem governanta em casa?<\/p>\n<p> &#8212; Tem, por que?<\/p>\n<p> &#8212; Ela ensina alem&atilde;o pra voc&ecirc;! N&atilde;o, &eacute; russa.<\/p>\n<p> &#8212;Voc&ecirc; aprende o russo com ela!<\/p>\n<p> &#8212;Eu! Deus te livre!<\/p>\n<p> &#8212;Ah.<\/p>\n<p> Vivia assim no quase. Contava ou n&atilde;o contava? se assusta. N&atilde;o<br \/>\n    devia contar, aquilo era escandaloso, era. E que satisfa, que vit&oacute;ria<br \/>\n    ser escandaloso!&#8230; Tinha tamb&eacute;m essa long&iacute;nqua no&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de que a aventura devia ser um pouco rid&iacute;cula. Mas, sem saber, se punha<br \/>\n    vaidoso desses rid&iacute;culos. Isso acontece com todos os seres racionais.<br \/>\n    Da&iacute;, aquela vontadinha de contar&#8230; Contar por contar, pouco se interessava<br \/>\n    com a inveja dos camaradas e n&atilde;o gostava de pabulagens. Carlos &eacute;<br \/>\n    um forte de verdade. Um desses que s&oacute; se comparam consigo mesmos. E<br \/>\n    com a doce agita&ccedil;&atilde;o que lhe dava chegar assim no mar da confidencia,<br \/>\n    percebia que estava crescido sobre o Carlos de dois meses atr&aacute;s. Gostava<br \/>\n    do brinquedo, confesso. Brinquedo consciente? Ningu&eacute;m o saber&aacute;<br \/>\n    jamais. O limiar da consci&ecirc;ncia &eacute; bem mais dif&iacute;cil de<br \/>\n    achar que as cabeceiras do rio da D&uacute;vida&#8230; Que o digam os psic&oacute;logos!<br \/>\n    Que o digam as penas rotas e mortas em buscar esse limiar fugitivo e ir&ocirc;nico!&#8230;<\/p>\n<p>Aldinha se chegando pra Maria Lu&iacute;sa, traz uma panelinha na m&atilde;o.<br \/>\n    Encostada:<\/p>\n<p> &#8212; Maria! vamos brincar, heim?<\/p>\n<p> &#8212; Mas brincar do que?<\/p>\n<p> &#8212; Brincar&#8230; Vamos brincar de fam&iacute;lia!<\/p>\n<p> Fala como quem descobre uma luz. E do que mais poderia ser o brinquedo das<br \/>\n    meninas?<\/p>\n<p> Sob o arco da escada que leva pra cozinha, atr&aacute;s, elas aprendem horas,<br \/>\n    brincando de fam&iacute;lia. Visitas. Depois adormecem as filhas. Lindo o<br \/>\n    beb&ecirc; de Maria Lu&iacute;sa! E dorme em cama pr&oacute;pria. Por&eacute;m<br \/>\n    Aldinha n&atilde;o inveja o beb&ecirc; da outra, escolhe sempre entre as bonecas<br \/>\n    essa filha de celul&oacute;ide que sonha sobre o peda&ccedil;o de l&atilde;<br \/>\n    no cimento. Mam&atilde;e &eacute; que deu o peda&ccedil;o de l&atilde;. Isso<br \/>\n    basta? Aldinha se sente feliz. Laurita cozinheira faz o almo&ccedil;o. Eu<br \/>\n    mesmo j&aacute; tantas vezes almocei &agrave;s quatorze horas! S&oacute; que<br \/>\n    por muito outras raz&otilde;es. A raz&atilde;o das meninas &eacute; imperiosa:<br \/>\n    vida de fam&iacute;lias de brinquedo principia de manh&atilde;. Eis que torno-me<br \/>\n    ir&ocirc;nico sem motivo, basta. Bateram quatorze horas faz pouco. Mas o brinquedo<br \/>\n    apenas principia. S&atilde;o, ponhamos, onze e trinta. Laurita bota o almo&ccedil;o<br \/>\n    na mesa. Madame est servie. Aldinha &eacute; visita de cerim&ocirc;nia que<br \/>\n    s&oacute; de tarde aparece, n&atilde;o faz mal.<\/p>\n<p> &#8212; Como vai sua filha, dona Maria Lu&iacute;sa?<\/p>\n<p> &#8212; Agora est&aacute; melhor, muito obrigada. Ela &eacute; muito fraquinha,<br \/>\n    tem sempre dores de cabe&ccedil;a, como sofre! O m&eacute;dico falou que &eacute;<br \/>\n    anemia&#8230; Mas n&oacute;s temos medo que seja cora&ccedil;&atilde;o&#8230; E a<br \/>\n    da senhora, dona Aldinha?<\/p>\n<p> A visita goza um orgulho a&ccedil;u, quer se recatar por&eacute;m n&atilde;o<br \/>\n    pode:<\/p>\n<p> &#8212; A minha! Vai muito bem! Nasceu ontem! &Eacute; muito forte! Est&aacute;<br \/>\n    corada, n&atilde;o acha? Nunca fica doente!<\/p>\n<p> Dona Maria Lu&iacute;sa melanc&oacute;lica olha a filha. Porque tem bonecas<br \/>\n    s&atilde;s e bonecas doentes neste mundo, meu Deus!&#8230; Dona Maria Lu&iacute;sa<br \/>\n    suspira. Ent&atilde;o esconde:<\/p>\n<p> &#8212; Vamos passear no jardim, dona Alda? A tarde est&aacute; t&atilde;o<br \/>\n    fresca!<\/p>\n<p> &#8212; E de manh&atilde;, Maria Lu&iacute;sa!<\/p>\n<p> &#8212; Tamb&eacute;m pra que que voc&ecirc; j&aacute; veio me visitar!<br \/>\n    V&atilde;o e levam as filhas. Vem a cozinheira:<\/p>\n<p> &#8212; O almo&ccedil;o est&aacute; na mesa!<\/p>\n<p> Dona Aldinha, instada, fica pra almo&ccedil;ar. A filha de celul&oacute;ide<br \/>\n    nasceu ontem&#8230; Ambas comem galhardamente um pouco de grama e p&eacute;talas<br \/>\n    roubadas das rosas, comest&iacute;veis ideais. O ch&aacute;, &aacute;gua pur&iacute;ssima,<br \/>\n    nas lindas ch&aacute;venas orladas de ouro. Carlos chega. Veio da aula de<br \/>\n    ingl&ecirc;s e procura.<\/p>\n<p> &#8212; Que &eacute; isso, agora!<\/p>\n<p> &#8212; Nada!<\/p>\n<p> &#8212; Tamb&eacute;m quero brincar!<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o pode!<\/p>\n<p> &#8212; Que tem, Aldinha! Deixe ele! Carlos &eacute; o pai da sua filha!<\/p>\n<p> Por&eacute;m Aldinha s&oacute; tem cinco anos, como &eacute; que a gente<br \/>\n    pode reconhecer, nessa idade, o uso de pais pra bonecas de celul&oacute;ide!<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o care&ccedil;o de pai pra minha filha! S&oacute; se for<br \/>\n    da de voc&ecirc;!<\/p>\n<p> Maria Lu&iacute;sa se cala porque tamb&eacute;m n&atilde;o quer pai pra<br \/>\n    beb&ecirc; t&atilde;o bonito. O imperialismo das m&atilde;es&#8230; Carlos ainda<br \/>\n    mais encafifa a menina:<\/p>\n<p> &#8212; Tamb&eacute;m voc&ecirc; pensa que vou ser pai duma boneca de celul&oacute;ide!<br \/>\n    n&atilde;o v&ecirc;! Sou pai s&oacute; de bonecas de lou&ccedil;a!<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o voc&ecirc; &eacute; visita! lembra a cozinheira, salvando<br \/>\n    as bonecas. Carlos n&atilde;o est&aacute; com nenhuma vontade de brincar,<br \/>\n    isso percebe-se. Mas ningu&eacute;m pode ficar inativo neste mundo, ri:<\/p>\n<p> &#8212; Pois &eacute;! Vim jantar tamb&eacute;m!<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute; janta, Carlos! &eacute; almo&ccedil;o!<\/p>\n<p> &#8212; Chi! que almo&ccedil;o mais porcaria!<\/p>\n<p> &#8212; Eu chamo mam&atilde;e!<\/p>\n<p> &#8212; Pode chamar! Tamb&eacute;m n&atilde;o care&ccedil;o de comer isso!&#8230;<br \/>\n    Capim&#8230; s&oacute; burro que come capim!<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute; capim t&#8217;a&iacute;, &eacute; grama!<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; capim.<\/p>\n<p> &#8212; Saia daqui!<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o saio!<\/p>\n<p> &#8212; Largue disso, Carlos!<\/p>\n<p> &#8212; Carlos!<\/p>\n<p> &#8212; Largue!<\/p>\n<p> &#8212; Mam&atilde;e!<\/p>\n<p> &#8212; Pronto!<\/p>\n<p> &#8212; Ah!&#8230; minha comidinha!&#8230;<\/p>\n<p> Tudo em pandarecos pelo ch&atilde;o, desilusoriamente. As meninas t&ecirc;m<br \/>\n    uma tristura enorme. Entram em lagrimas na casa. Carlos conhece o argumento:<br \/>\n    finge uma raiva.<\/p>\n<p> &#8212; Bem feito, mam&atilde;e! elas n&atilde;o queriam que eu brincasse<br \/>\n    tamb&eacute;m!<\/p>\n<p> &#8212; Mas voc&ecirc; n&atilde;o &eacute; mais crian&ccedil;a, Carlos!<\/p>\n<p> &#8212; E Maria Lu&iacute;sa, ent&atilde;o? Eu tamb&eacute;m posso brincar,<br \/>\n    ora essa! &Eacute;! fizeram uma porcariada no jardim! Arrancaram todas as<br \/>\n    rosas, diz que pra fazer comidinha, a senhora v&aacute; ver!<\/p>\n<p> &#8212; O&ocirc;&ocirc;&ocirc;&ocirc;&#8230; mentiroso!<\/p>\n<p> &#8212; Bom. O melhor &eacute; virem todos pra dentro. A tarde est&aacute;<br \/>\n    fria e Maria Lu&iacute;sa pode ficar doente.<\/p>\n<p> Eu imagino que Carlos est&aacute; desapontado por dentro. Imagino mais que<br \/>\n    desta vez ele fez mal. As crian&ccedil;as guardam a lou&ccedil;a, a mob&iacute;lia<br \/>\n    e as bonecas. Os solu&ccedil;os de Laurita cortam a friagem da tarde e o meu<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> A gente nunca deve desmanchar a comidinha das crian&ccedil;as.<\/p>\n<p> No dia seguinte o pessoalzinho n&atilde;o fez quest&atilde;o de sair da<br \/>\n    cama, at&eacute; acordou mais cedo. Tanto assim n&atilde;o carecia. S&oacute;<br \/>\n    as aulas matinais t&ecirc;m de ser mais curtas. Afoba&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; O almo&ccedil;o est&aacute; na mesa!<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein, sempre a primeira a ficar pronta, parar&aacute; no meio do<br \/>\n    hol. Batia com a m&atilde;o nos l&aacute;bios, impaciente. Carlos de mansinho<br \/>\n    se aproxima dela. Pensa que Aldinha n&atilde;o deve escutar a pergunta e mal<br \/>\n    sussurra:<\/p>\n<p> &#8212; Achou?<\/p>\n<p> &#8212; Inda n&atilde;o. &Eacute;&#8230; n&aacute;! n&atilde;o h&aacute; nada<br \/>\n    que me irrite mais do que isso. Dona Laura vem descendo com a pressa aflitiva<br \/>\n    das gordas:<\/p>\n<p> &#8212; Vamos! Maria Lu&iacute;sa! voc&ecirc; n&atilde;o est&aacute; pronta<br \/>\n    ainda!&#8230; Precisamos andar depressa!<\/p>\n<p> &#8212; Que-d&ecirc; Maria Lu&iacute;sa, Laura?<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; vem. Est&aacute; com um pouco de dor de cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; Quem sabe se &eacute; melhor ela n&atilde;o ir&#8230; Fr&auml;ulein<br \/>\n    ficava com ela&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ah, papai! deixe Maria Lu&iacute;sa ir com a gente, coitadinha!<\/p>\n<p> &#8212; Eu falei, Felisberto, principiou a chorar&#8230; Diz que quer ir, n&atilde;o<br \/>\n    se pode contrariar ela, &eacute; pior!&#8230; isso passa. Maria Lu&iacute;sa!<br \/>\n    o almo&ccedil;o est&aacute; pronto!<\/p>\n<p> Maria Lu&iacute;sa desce. Desmerecida, um pouco lenta. Mas sorri. Assim<br \/>\n    p&aacute;lida est&aacute; ver uma rainha brancarana, de olhos negros muito<br \/>\n    rasgados e cabelos crespos demais. &Eacute; que teve rainhas nas cinco partes<br \/>\n    do mundo.<\/p>\n<p> Almo&ccedil;aram num &aacute;timo. Visitar a nova ch&aacute;cara comprada<br \/>\n    por Sousa Costa adiante de Jundia&iacute;&#8230; E no autom&oacute;vel novo&#8230;<br \/>\n    que gostosura! Entusiasmo das meninas. Carlos quase feliz. Os pais se sentem<br \/>\n    bons.<\/p>\n<p> &#8212; Tem alguma coisa, Fr&auml;ulein? Ela meio que ri:<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute;&#8230; (hesita. Afinal conta:) Mas acontece cada<br \/>\n    uma. N&oacute;s hoje encontramos uma palavra na li&ccedil;&atilde;o&#8230; Sabemos<br \/>\n    como &eacute; em portugu&ecirc;s, por&eacute;m n&atilde;o h&aacute; meios<br \/>\n    de lembrar. Parece incr&iacute;vel, palavra t&atilde;o comum&#8230; E nem eu nem<br \/>\n    Carlos!<\/p>\n<p> &#8212; Mas porque n&atilde;o viu no dicion&aacute;rio?<\/p>\n<p> &#8212; A&iacute; &eacute; que est&aacute;: hei de me lembrar. Pois se n&oacute;s<br \/>\n    sabemos. (E, como que disfar&ccedil;ando o constrangimento sem motivo:) N&atilde;o<br \/>\n    se lembra mesmo, Carlos?<\/p>\n<p> &#8212; Naam&#8230;<\/p>\n<p> Olhou-o, estava branco branco! Ficara aterrorizado, escutando ela contar<br \/>\n    o caso. N&atilde;o sabia porque se amedrontava assim, por&eacute;m tinha medo,<br \/>\n    medo terr&iacute;vel. Lhe parecia que a m&atilde;e, o pai, as irm&atilde;s,<br \/>\n    os criados, todo o universo conheciam as rela&ccedil;&otilde;es dele com Fr&auml;ulein&#8230;<br \/>\n    O pobre! falou um &quot;n&atilde;o&quot; empalamado, enquanto se gelava todo.<\/p>\n<p> &#8212; Qual &eacute; a palavra?<\/p>\n<p> &#8212; Voc&ecirc; n&atilde;o sabe, Maria Lu&iacute;sa!<\/p>\n<p> &#8212; Porque n&atilde;o hei de saber! Se at&eacute; j&aacute; falo melhor<br \/>\n    que voc&ecirc;, agora!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Voc&ecirc;! uma crila&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Carlos, diga a palavra pra sua irm&atilde;!<\/p>\n<p> &#8212; Mas&#8230; papai&#8230; ela n&atilde;o sabe!<\/p>\n<p> &#8212; Diga a palavra, vamos!<\/p>\n<p> &#8212; Nn&#8230; n&atilde;o sei mais&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; Geheimnis, Maria Lu&iacute;sa.<\/p>\n<p> &#8212; Geheimnis&#8230; j&aacute; escutei essa palavra&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; vendo! n&atilde;o sabe!<\/p>\n<p> &#8212; Mas podia saber muito bem!<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; bom: deixem de briga e comam!<\/p>\n<p> Apesar de salvo, permanecera em Carlos um eco perto de terror. Se sente<br \/>\n    mal. Se o pai fosse procurar a palavra no dicion&aacute;rio&#8230; tudo perdido!<br \/>\n    E a vontade por Fr&auml;ulein, mais do que isso, o desespero por ela cresceu.<\/p>\n<p> Se aboletaram no torpedo. Desta vez Carlos n&atilde;o brigou com Maria Lu&iacute;sa<br \/>\n    por causa do lugar da frente. Deixou ela sentar-se ao lado do pai que dirigia.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o. Ela est&aacute; com dor de cabe&ccedil;a, pode ficar<br \/>\n    a&iacute; mais no claro. Mam&atilde;e! assim voc&ecirc; vai muito apertada&#8230;<br \/>\n    Deixe, eu sento no meio.<\/p>\n<p> Dona Laura, seca, acertando o decote da blusa, com rompante:<\/p>\n<p> &#8212; Fique nesse lugar. Est&aacute; bem assim.<\/p>\n<p> Carlos n&atilde;o insiste. Por&eacute;m carinhosamente passa o bra&ccedil;o<br \/>\n    pelas costas da m&atilde;e, e a resguarda. Do que? Do vento. Vento impertinente,<br \/>\n    gelado.<\/p>\n<p> &#8212; Minha filha, agasalhe-se bem. Voc&ecirc; devia n&atilde;o ter vindo&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ah, mam&atilde;e! j&aacute; estou boa!<\/p>\n<p> Ia me esquecendo&#8230; A m&atilde;o de Carlos ro&ccedil;a pelas fazendas de<br \/>\n    Fr&auml;ulein, al&eacute;m. Pois o passeio foi lindo, apesar da friagem. O<br \/>\n    chacreiro gostava de rosas. Tanta flor j&aacute;! O buqu&ecirc; oferecido<br \/>\n    &agrave; patroa &eacute; sensacional.<\/p>\n<p> &#8212; Olhe esta, Felisberto!<\/p>\n<p> &#8212; Em janeiro havemos de vir comer uvas!<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; chupar que se fala, papai!<\/p>\n<p> &#8212; Mam&atilde;e! posso comer mais uma laranja, posso, heim!<\/p>\n<p> &#8212; Poode!<\/p>\n<p> O &oacute; sai t&atilde;o aberto que d&aacute; id&eacute;ia do mais farto<br \/>\n    e eterno indicativo presente de todos os tempos. Que pai-de-fam&iacute;lia<br \/>\n    bom &eacute; Sousa Costa! A gente &eacute; for&ccedil;ado a reconhecer que<br \/>\n    Sousa Costa &eacute; um excelente pai-de-fam&iacute;lia. Pater fam&iacute;lias.<br \/>\n    Dona Laura por&eacute;m prev&ecirc; melhor, como a progenitoras conv&eacute;m:<\/p>\n<p> &#8212; Mas Felisberto, ela j&aacute; comeu duas!<\/p>\n<p> &#8212; Ora que tem, Laura! deixe a menina!<\/p>\n<p> &#8212; Mam&atilde;e! s&oacute; mais uma!&#8230; s&oacute; mais esta uminha!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Voc&ecirc; facilita, depois fica doente, minha filha!<\/p>\n<p> &#8212; Papai! olhe Carlos!<\/p>\n<p> Aldinha vem de carreira. O se agarra em Sousa Costa.<\/p>\n<p> &#8212; Ele pegou um bicho tamanho e quer botar na gente!<\/p>\n<p> &#8212; Que-d&ecirc; ele, heim,! me mostre!<\/p>\n<p> &#8212; Esse menino&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mas papai!&#8230; a gente n&atilde;o pode nem brincar, essa linguaruda<br \/>\n    vem fazer queixa j&aacute;! Que enjoamento, puxa!<\/p>\n<p> &#8212; Fique sossegado a&iacute;!<\/p>\n<p> &#8212; Tamb&eacute;m n&atilde;o vim aqui pra ficar sossegado! O chacreiro<br \/>\n    interrompe:<\/p>\n<p> &#8212; Senhor Costa, o pedreiro falou que carece dizer adonde que o senhor<br \/>\n    quer as cocheiras.<\/p>\n<p> &#8212; Papai vai ter bois aqui!<\/p>\n<p> &#8212; Vou.<\/p>\n<p> &#8212; Que bom!<\/p>\n<p> &#8212; A gente pode vim tomar leite, n&atilde;o? mam&atilde;e&#8230; Dona Laura<br \/>\n    num des&acirc;nimo:<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; t&atilde;o longe, Laurita.<\/p>\n<p> &#8212; Que pena!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E voc&ecirc; est&aacute; comendo a laranja, heim? Assim mam&atilde;e<br \/>\n    n&atilde;o gosta! Atr&aacute;s das &aacute;rvores:<\/p>\n<p> &#8212; Fr&auml;ulein! Kommen Sie her!<\/p>\n<p> &#8212; Warum, Karl? Ich bin etwas m&uuml;de.<\/p>\n<p> &#8212; Kommen Sie! Es ist so sonderbar!1<\/p>\n<p> &#8212; Fr&auml;ulein! vem c&aacute;!<\/p>\n<p> &#8212; Estou cansada, Carlos. pra que?<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; uma coisa batuta! venha!<\/p>\n<p>&#8212; Aonde que voc&ecirc; vai, Fr&auml;ulein!<\/p>\n<p> &#8212; Carlos est&aacute; chamando pra ver uma coisa&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Eu tamb&eacute;m vou!<\/p>\n<p> &#8212; Eu tamb&eacute;m! Me espere, Fr&auml;ulein! Encontraram Carlos debaixo<br \/>\n    do carramanch&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Tamb&eacute;m quero ver!<\/p>\n<p> &#8212; Que &eacute;, heim!<\/p>\n<p> &#8212; O que voc&ecirc;s vieram fazer aqui! Ningu&eacute;m chamou voc&ecirc;s!<br \/>\n    &Oacute;rf&atilde;s de pais Laurita e Aldinha desapontam, quase chorando j&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o aspereje assim com suas irm&atilde;s, Carlos, voc&ecirc;<br \/>\n    me entristece&#8230; Mas o que voc&ecirc; queria me mostrar?<\/p>\n<p> Olhou pra ela. Um dil&uacute;vio de &acirc;nsias, desesperan&ccedil;as,<br \/>\n    machucaram-lhe o rosto de sopet&atilde;o. E cada vez mais bonita!&#8230; Como<br \/>\n    a deseja! E n&atilde;o pode ser: abra&ccedil;ados ambos, entregues, esquecidos&#8230;<br \/>\n    Aquilo vai acabar, tem certeza disso. Pra esconder as duas l&aacute;grimas,<br \/>\n    curvou o rosto pro peito, dando as costas. Duas l&aacute;grimas de raiva.<br \/>\n    Mente mal:<\/p>\n<p> &#8212; Voou.<\/p>\n<p> Vai. Long&iacute;nquo, lento, reto, m&atilde;os nos bolsos, cabe&ccedil;a<br \/>\n    pendente da gola do su&eacute;ter. D&aacute; pontap&eacute;s nas pedras. Vai.<br \/>\n    Fr&auml;ulein&#8230; sensa&ccedil;&atilde;o ruim de abandonada, quase estende<br \/>\n    os bra&ccedil;os. Quase chama o senhor. Odeia Laurita, Aldinha. D&aacute;<br \/>\n    a m&atilde;o pra elas maquinalmente e volta. Mas&#8230; Geheimnis?&#8230; realmente<br \/>\n    espantada. Sabe a tradu&ccedil;&atilde;o, isso sabe, por&eacute;m n&atilde;o<br \/>\n    pode dizer! Por que raz&atilde;o? Estranho&#8230; Nota que a boca a l&iacute;ngua<br \/>\n    se amoldam pra rasgar as consoantes da palavra e uma coisa qualquer pro&iacute;be.<br \/>\n    Carlos? N&atilde;o, n&atilde;o pode ser Carlos, ela imagina. Por&eacute;m<br \/>\n    o que ser&aacute;? Se irrita.<\/p>\n<p> Passam das dezessete horas, creio que &eacute; tempo de voltar. S&oacute;<br \/>\n    que agora mandam Carlos pro assento da frente, Maria Lu&iacute;sa ter&aacute;<br \/>\n    o centro do autom&oacute;vel, bem agasalhada dos ventos. Diz que piorou. Lhe<br \/>\n    ardem os l&aacute;bios, as m&atilde;os. Carlos n&atilde;o se incomoda mais,<br \/>\n    vai pra onde quiserem. Nem uma vez sequer olha pra tr&aacute;s, para a irm&atilde;<br \/>\n    que piorou. N&atilde;o quer lutar. Sente cansa&ccedil;o na alma. Pra que tanto<br \/>\n    esfor&ccedil;o v&atilde;o? tudo perdido mesmo! Carlos se entrega &agrave;&#8230;<br \/>\n    isso: &agrave; fatalidade inexor&aacute;vel do destino.<\/p>\n<p> Chegaram em casa com noite.<\/p>\n<p> &#8212; O jantar estar&aacute; pronto, Laura?<\/p>\n<p> &#8212; Quer jantar j&aacute;?<\/p>\n<p> &#8212; Estou com fome. Voc&ecirc;?<\/p>\n<p> &#8212; Tanaka, pode botar o jantar na mesa.<\/p>\n<p> &#8212; Sissenh&ocirc;ra.<\/p>\n<p> &#8212; Olhem: se aprontem logo que o jantar vai j&aacute; pra mesa. Felisberto,<br \/>\n    voc&ecirc; telefona pro doutor Horton.<\/p>\n<p> &#8212; Telefono.<\/p>\n<p> &#8212; Pe&ccedil;a pra ele vir logo. .<\/p>\n<p> Se Fr&auml;ulein for a &uacute;ltima a descer, nada mais razo&aacute;vel,<br \/>\n    vai antes ajudar Maria Lu&iacute;sa a se despir. A menina quase chora, apertando<br \/>\n    a cabe&ccedil;a. Febre que aumenta, uhrrh.. Coitada de Maria Lu&iacute;sa!<br \/>\n    Mas Carlos, porque n&atilde;o aparece? Todos j&aacute; est&atilde;o assentados.<br \/>\n    Quando Fr&auml;ulein vem descer a escada, ele est&aacute; ali, machucando<br \/>\n    as unhas na parede. Emaranha-a nos bra&ccedil;os impacientes.<\/p>\n<p> &#8212; Carlos&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; D&aacute; um beijo!<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o fa&ccedil;a ass&#8230;<\/p>\n<p> S&atilde;o muitos beijos, dolorosos, quase sem prazer.<\/p>\n<p> &#8212; Me largue.<\/p>\n<p> &#8212; Mais!<\/p>\n<p> &#8212; Podem ver&#8230;<\/p>\n<p> Estaca. Express&atilde;o de quem triunfa. A mesma nele.<\/p>\n<p> &#8212; Carlos, venha jantar! Chame Fr&auml;ulein!<\/p>\n<p> Os dois exclamam duma vez, sem a surdina que abafara o di&aacute;logo anterior:<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; sei!<\/p>\n<p> Sil&ecirc;ncio curto. Um espera que o outro fale. E juntos:<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; segredo!<\/p>\n<p> Rindo muito, descem pra jantar. Fr&auml;ulein anuncia que afinal descobriram<br \/>\n    a palavra, Geheimnis quer dizer segredo:<\/p>\n<p> &#8212; Foi ela que achou!<\/p>\n<p> &#8212; Eu s&oacute; n&atilde;o, Carlos. Fomos os dois.<\/p>\n<p> E ambos t&ecirc;m uma desilus&atilde;o, palavra t&atilde;o sem signific&acirc;ncia!<br \/>\n    Fr&auml;ulein se admira de n&atilde;o ter dado com ela mais cedo, come calmamente.<br \/>\n    Carlos acha agora que n&atilde;o tinha raz&atilde;o pr&oacute;s terrores do<br \/>\n    almo&ccedil;o e do dia, come satisfeito. Nunca ningu&eacute;m descobrir&aacute;!<br \/>\n    Sousa Costa, n&atilde;o sei, por&eacute;m me parece que teve uma intui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    genial: olha malicioso pr&oacute;s dois.<\/p>\n<p> &#8212; Uma gripezinha&#8230; bastante forte&#8230; Muito cuidado sobretudo N&atilde;o<br \/>\n    tem import&acirc;ncia. Mas, pra que o senhor n&atilde;o leva ela pra um clima<br \/>\n    mais quente&#8230; Rio de Janeiro, Santos&#8230;<\/p>\n<p> Gripe danada. Apanhara-a naquela tarde fria, brincando de fam&iacute;lia<br \/>\n    com as irm&atilde;s.<\/p>\n<p> O brinquedo durava fazia uma hora quando Carlos veio, desmanchou a comidinha<br \/>\n    e machucou o sentimento das meninas. Fez mal. Isso n&atilde;o posso discutir:<br \/>\n    Carlos fez mal. Se chegasse por&eacute;m no princ&iacute;pio da fam&iacute;lia,<br \/>\n    teria escangalhado tudo do mesmo jeito, por&eacute;m Maria Lu&iacute;sa n&atilde;o<br \/>\n    apanhava a rebordosa. O racioc&iacute;nio me deixou consternado, n&atilde;o<br \/>\n    devia t&ecirc;-lo feito, &eacute; imoral&iacute;ssimo. Mas tamb&eacute;m agora<br \/>\n    a consterna&ccedil;&atilde;o &eacute; in&uacute;til, n&atilde;o adianta nada.<\/p>\n<p> A dos Sousa Costas bem mais razo&aacute;vel, permite acentuar o lado bom<br \/>\n    daquela gente e uma linda uni&atilde;o familiar. Brasileira. Portanto registremos<br \/>\n    com largueza: est&atilde;o consternados com a doen&ccedil;a de Maria Lu&iacute;sa:<br \/>\n    Sousa Costa pai, dona Laura, Carlos, Laurita, Aldinha. N&atilde;o: Fr&auml;ulein<br \/>\n    tamb&eacute;m. E Tanaka e a criada de quarto. A cozinheira e o motorista.<br \/>\n    Nem assim o rol se completa. O, pr&oacute;prio lar, paredes, janelas, voc&ecirc;s<br \/>\n    repararam como as luzes vivem menos impetuosas agora? as plantas, a comida&#8230;<br \/>\n    Consterna&ccedil;&atilde;o geral.<\/p>\n<p> Sousa Costa caminha l&eacute;guas, do vest&iacute;bulo at&eacute; a porta<br \/>\n    do quarto da filha., E como anda silencioso! ele que pesa nos passos fortes,<br \/>\n    bem gozados&#8230; L&ecirc; que todo o lote novo de novilhas foi inscrito no Herd-Book<br \/>\n    sem rejei&ccedil;&atilde;o duma s&oacute;. Bota a carta no bolso ou deixa<br \/>\n    na escrivaninha. Diabo! aonde botei essa carta! dir&aacute; quando puder gozar<br \/>\n    com ela. A carta existe. Por&eacute;m n&atilde;o sabe o que conta e aonde<br \/>\n    p&ocirc;s. Se lhe telefonassem do clube? do clube, avisando que. Ora deixemos<br \/>\n    de imoralidades! Sousa Costa nunca teve aventuras, nunca mais ter&aacute;<br \/>\n    aventuras, todos os sacrif&iacute;cios, por&eacute;m que minha filha sare!&#8230;<br \/>\n    Sousa Costa pensa em Deus.<\/p>\n<p> &#8212; Ela dorme.<\/p>\n<p> &#8212; Sossegadinha?<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute;. Decerto agora vai melhorar.<\/p>\n<p> A resposta veio de Fr&auml;ulein, sentada junto &agrave; porta do quarto<br \/>\n    de Maria Lu&iacute;sa. Quem ajuda a mo&ccedil;a nos servi&ccedil;os de fora<br \/>\n    do quarto? &Eacute; Carlos, sempre sol&iacute;cito, incans&aacute;vel, esperando<br \/>\n    as ordens cumpridas num &aacute;timo.<\/p>\n<p> Dona Laura, a pobre! sentou-se na cadeira de balan&ccedil;o do hol, agarrada<br \/>\n    nas filhas menores. Assim pensa que Maria Lu&iacute;sa sarar&aacute; depressa,<br \/>\n    com as l&aacute;grimas maternas e suspiros arrancados quase sangrando, Deus<br \/>\n    nos ajude! E os Pensamentos de dona Laura sobem ao at&aacute; pra c&eacute;us<br \/>\n    muito vagos e rezam de mistura pra Nosso Senhor, santa Maria Lu&iacute;sa<br \/>\n    e o Cora&ccedil;&atilde;o de Maria que &eacute; a igreja mais perto. E fica<br \/>\n    assim panema, calmando as pecurruchas. Estas de tanto abrirem os olhos na<br \/>\n    expectativa medrosa, esqueceram o jeito de fechar as p&aacute;lpebras. Quatro<br \/>\n    pupilas dum branco azul rolando nhampans no hol.<\/p>\n<p> &#8212; Mam&atilde;e, ser&aacute; que est&aacute; doendo muito pra ela?<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o! minha filha&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Eu n&atilde;o queria que Maria Lu&iacute;sa sofresse, mam&atilde;e&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mam&atilde;e! posso dar a minha boneca de celul&oacute;ide pra Maria<br \/>\n    Lu&iacute;sa, posso!<\/p>\n<p> &#8212; Pode, minha filha.<\/p>\n<p> &#8212; Mam&atilde;e, quando que eu posso ver Maria Lu&iacute;sa, heim?<\/p>\n<p> &#8212; Mam&atilde;e, mas depois voc&ecirc; me d&aacute; uma boneca de lou&ccedil;a<br \/>\n    pra mim?&#8230;<\/p>\n<p> Clave de f&aacute;:<\/p>\n<p> &#8212; Minhas filhas, voc&ecirc;s est&atilde;o amolando sua m&atilde;e!<\/p>\n<p> &#8212; Como vai ela!<\/p>\n<p> &#8212; Sossegadinha. Est&aacute; muito melhor.<\/p>\n<p> Carlos, zu&uacute;m! que nem bala, montado no corrim&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o lhe falei que n&atilde;o montasse mais no corrim&atilde;o!<\/p>\n<p> &#8212; Pra n&atilde;o fazer bulha, papai! Ela acordou! Est&aacute; com<br \/>\n    uma bruta sede! Fr&auml;ulein falou pra voc&ecirc; fazer um ch&aacute;!<\/p>\n<p> E dona Laura se transfigura. Junto da doente, morrem todas as coragens dela,<br \/>\n    se p&otilde;e chorando amalucada, quer se mover e n&atilde;o atina com o que<br \/>\n    vai fazer. Por&eacute;m sabe fazer ch&aacute;s! Ah! nenhuma das m&atilde;es<br \/>\n    desse mundo bem doloroso far&aacute; mais perfeito o ch&aacute; de canela<br \/>\n    ou de erva-cidreira! Dona Laura parte alvoro&ccedil;ada, triunfante.<\/p>\n<p> &#8212; Como vai nh&atilde; Maria Lu&iacute;sa?<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; melhor, Matilde, obrigada.<\/p>\n<p> &#8212; A senhora pode deixar eu preparo o&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Eu fa&ccedil;o o ch&aacute;!<\/p>\n<p> N&atilde;o se ofenda, Matilde, m&atilde;e com filha doente, n&atilde;o pensa<br \/>\n    em ares de boa educa&ccedil;&atilde;o. Est&aacute; certo. Dona Laura volta<br \/>\n    com a mais carinhosamente preparada das pussangas, sobe as escadas exaustivas,<br \/>\n    faz quest&atilde;o de levar ela mesma! a bebida pra Fr&auml;ulein. S&oacute;<br \/>\n    pra Fr&auml;ulein, que, na porta do quarto lhe amolecem as pernas, fica boba,<br \/>\n    os olhos se cegam de l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> &#8212; Ela vai bem, dona Laura. Mais alegrinha at&eacute;. E quase sem<br \/>\n    febre.<\/p>\n<p> &#8212; Deus lhe ou&ccedil;a, Fr&auml;ulein! Eu espero a x&iacute;cara aqui,<br \/>\n    n&atilde;o tenho coragem pra ver minha filha sofrer!<\/p>\n<p> E espera recurvada. Qual! assim n&atilde;o pode ser! enrija o corpo, lhe<br \/>\n    riscam fuzis de temeridade no olhar novo, entra no quarto.<\/p>\n<p> &#8212; Minha filha! est&aacute; melhor!<\/p>\n<p> Maria Lu&iacute;sa tira da porcelana as fitinhas brancas dos bei&ccedil;os<br \/>\n    e sorri no mart&iacute;rio. Dona Laura petrificada. O vidro fosco da brancarana<br \/>\n    a espaventa, pensa que a filha vai morrer. Recebe a x&iacute;cara quase sem<br \/>\n    gesto. Enquanto Fr&auml;ulein ajeita de novo a doente nas cobertas, dona Laura<br \/>\n    parte sem dizer nada. Mas outra vez n&atilde;o sabe o que a domina e move,<br \/>\n    bota a xicra numa cadeira qualquer, vem ajoelhar junto da filha, rosto a rosto,<br \/>\n    filhinha!&#8230; Em solu&ccedil;os convulsos parte arrebatada. Maria Lu&iacute;sa<br \/>\n    se espanta, primeiro. Depois pretende se rir, que j&aacute; conhece as manias<br \/>\n    da m&atilde;e. Por&eacute;m sempre fica essa d&uacute;vida&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Fr&auml;ulein&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Que &eacute;, Maria Lu&iacute;sa?<\/p>\n<p> &#8212; Fr&auml;ulein diga mesmo&#8230; eu vou morrer, &eacute;!<\/p>\n<p> &#8212; Que id&eacute;ia, Maria Lu&iacute;sa. N&atilde;o vai morrer n&atilde;o.<br \/>\n    Voc&ecirc; j&aacute; est&aacute; muito melhor. Tem uma raiva dessas m&atilde;es<br \/>\n    exageradas. Brasileiras. Fala com t&atilde;o f&eacute;rrea certeza aquele<br \/>\n    &quot;voc&ecirc; j&aacute; est&aacute; muito melhor&quot;, que Maria Lu&iacute;sa<br \/>\n    quase sente-se boa. A enfermeira enxuga o rosto da menina, lavado pela manha<br \/>\n    materna. D&aacute; novo arranjo nas cobertas.<\/p>\n<p> &#8212; Carlos.<\/p>\n<p> &#8212; Pronto, Fr&auml;ulein!<\/p>\n<p> &#8212; Leve essa x&iacute;cara que sua m&atilde;e deixou a&iacute;.<\/p>\n<p> Carlos atira um sorriso de coniv&ecirc;ncia pra Maria Lu&iacute;sa e vai.<br \/>\n    Escrevi &quot;coniv&ecirc;ncia&quot;&#8230; De caso pensado. Coniv&ecirc;ncia<br \/>\n    &eacute; duma exatid&atilde;o psicol&oacute;gica absoluta. Carlos se mostra<br \/>\n    alegre, despreocupado, n&atilde;o v&ecirc; a doen&ccedil;a e vai-se embora.<br \/>\n    O que n&atilde;o &eacute; vis&iacute;vel, existe?<\/p>\n<p> &#8212; Fr&auml;ulein, fique no quarto comigo.<\/p>\n<p> N&atilde;o responde. Puxa uma cadeira junto da cama, v&ecirc; mais uma vez<br \/>\n    se tudo repousa na ordem. N&atilde;o, Maria Lu&iacute;sa n&atilde;o carece<br \/>\n    de mais nada. Senta e abre o livro na marca. Rel&ecirc; Die Weise von Liebe<br \/>\n    un Tod. Se embrenha na melodia deliciosa, pronta a abandon&aacute;-la a qualquer<br \/>\n    momento, sem a m&iacute;nima impaci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> S&atilde;o duas semanas de maternidade pra ela. De maternidade integral.<br \/>\n    Teve momentos em que parecia m&atilde;e de todos, talqual o dedo maior da<br \/>\n    nossa m&atilde;o. At&eacute; de Sousa Costa. Todos pareciam nascer dela, dela<br \/>\n    se alimentar. Menos Carlos, recalcitrante, com intuitiva repugn&acirc;ncia<br \/>\n    por incestos. Servo, cachorro de guarda isso sim. Nada pedia, sossegara. Por&eacute;m<br \/>\n    como servo estava sempre ali, como filho nunca!<\/p>\n<p> Maria Lu&iacute;sa, ent&atilde;o, nem podia ver Fr&auml;ulein se afastar.<br \/>\n    N&atilde;o tanto por causa do bem-estar, mas me deixem que afirme: Fr&auml;ulein<br \/>\n    era uma certeza de salva&ccedil;&atilde;o. E sabia se dedicar. Quando preciso<br \/>\n    o sono se adia pra noites mais desimpedidas. Muito bem. N&atilde;o direi que<br \/>\n    ela gostasse da menina, gostava n&atilde;o. Pelo contrario, lhe tinha certa<br \/>\n    antipatia. Muito natural, pois se raramente adoecia. Porem apresentou-se a<br \/>\n    enfermeira sonhada: severa, sadia, sol&iacute;cita pra usar unicamente esses.<br \/>\n    Maria Lu&iacute;sa fixa os olhos nela, Fr&auml;ulein l&ecirc;; Fr&auml;ulein<br \/>\n    vela. A doentinha redorme encorajada. Quando acordar trar&aacute; for&ccedil;as<br \/>\n    novas. Que coisa misteriosa o sono!&#8230; S&oacute; aproxima a gente da morte<br \/>\n    para nos estabelecer melhor dentro da vida&#8230;<\/p>\n<p> Reque&#8230; reque&#8230; atr&aacute;s. Fr&auml;ulein nem se volta, sabe que Carlos<br \/>\n    vela tamb&eacute;m. Por&eacute;m porque n&atilde;o se voltou! Deitada sobre<br \/>\n    o assoalho no desv&atilde;o da porta, a cabe&ccedil;a dele. Isso Fr&auml;ulein<br \/>\n    havia de ver. E que dois olhos grandes a adoravam.<\/p>\n<p> Os frios de julho se temperavam mais agradavelmente no Leme, e as brisas<br \/>\n    salinas, mornas, confort&aacute;veis, convidavam pra caminhadas de branco<br \/>\n    na praia. Plena felicidade pr&oacute;s amantes. Plena? Fr&auml;ulein dorme<br \/>\n    no quarto de Maria Lu&iacute;sa. Por&eacute;m pelas manh&atilde;s, depois<br \/>\n    do banho, esta se deixava ficar no terra&ccedil;o do hotel, quase cansada,<br \/>\n    num convalescer feliz, desapressado. Ent&atilde;o Fr&auml;ulein sa&iacute;a<br \/>\n    com as pequenas. Carlos acompanhava as irm&atilde;s. Perfeitamente.<\/p>\n<p> Andava-se r&aacute;pido no come&ccedil;o, pra diante. As crian&ccedil;as<br \/>\n    corriam falando alto, discutindo. Que discutiam? Discutiam incansavelmente<br \/>\n    a for&ccedil;a dos ondas. A for&ccedil;a das ondas. Voc&ecirc; est&aacute;<br \/>\n    escutando bem? As crian&ccedil;as discutiam loucamente, todo santo dia, o<br \/>\n    ponto da praia que as vagas ir&atilde;o atingir. Porque discutem assim? Por<br \/>\n    divertimento. Por jogo, brincadeira. Pra adivinhar, s&oacute; pra isso. E<br \/>\n    depois ficavam maravilhadas porque erravam. Que bonito! luta infantil, in&uacute;til,<br \/>\n    sem meta&#8230; Coisa de muita boniteza, brincalhonas!<\/p>\n<p> N&atilde;o e n&atilde;o, infelizmente. Nem estavam maravilhadas, nem era<br \/>\n    in&uacute;til o brinquedo. Repare nos olhos de Aldinha, Laurita de l&aacute;bios<br \/>\n    trementes.<\/p>\n<p> &#8212; Chiii! Laurita aquela!!&#8230; Aposto que chega at&eacute; aqui!<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o chega!<\/p>\n<p> &#8212; Voc&ecirc; quer ver como chega! E vinha o triunfo de Laurita:<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; vendo!&#8230; Eu disse que n&atilde;o chegava!<\/p>\n<p> Por jogo discutem as crian&ccedil;as. Mas tamb&eacute;m por avidez e briga.<br \/>\n    Aldinha sentia-se batida e sofria. Muito? Muito. Por&eacute;m depois gozava<br \/>\n    com a reflex&atilde;o: Antes assim! se a onda chegasse at&eacute; junto dela,<br \/>\n    meu Deus! teria medo&#8230; Antes assim! Ah! Laurita, Aldinha, vosso brinquedo<br \/>\n    me melancoliza&#8230; V&oacute;s n&atilde;o brincais por brincadeira, n&atilde;o&#8230;<br \/>\n    Brincais por treino, exercendo em diminutivo a angustiosa adivinha&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da exist&ecirc;ncia&#8230;<\/p>\n<p> O mar mapiava que nem boca malcriada, lan&ccedil;ando o guspe da espuma<br \/>\n    pro c&eacute;u. O andar germ&acirc;nico r&aacute;pido de todo aos poucos se<br \/>\n    latinizava. O passeio de fun&ccedil;&atilde;o virava inven&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Fr&auml;ulein abaixava a cara. Disfar&ccedil;ava um pudor inexistente com<br \/>\n    esses modos do p&eacute; atingindo conchas entressepultas, pisando o rastro<br \/>\n    das meninas adiante. E falava de amor. Hoje repisa o assunto da v&eacute;spera,<br \/>\n    Carlos carecia de reconhecer que no amor, sem sacrif&iacute;cio m&uacute;tuo<br \/>\n    n&atilde;o tem felicidade nem paz, n&atilde;o &eacute;?<\/p>\n<p>Este cap&iacute;tulo dava sempre desgostos pra ela. No entanto estava certa<br \/>\n    de que tinha raz&atilde;o. E se esmerava eloq&uuml;ente, n&atilde;o se esquecendo<br \/>\n    nunca de contar o caso de Hermann e Dorot&eacute;ia. Por&eacute;m n&atilde;o<br \/>\n    impressionava os disc&iacute;pulos. Aceitavam com facilidade, isso aceitavam,<br \/>\n    concordavam, olhavam pra ela francos, olhos rasgados com o luar da abnega&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    &ocirc;h! sim! me sacrificar por ti!&#8230; E, chegava o malentendido. Um menino<br \/>\n    alem&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel que entendesse bem, mas estes brasileiros<br \/>\n    &uacute;midos&#8230; N&atilde;o se lembravam mais da felicidade comum, nem da<br \/>\n    tranq&uuml;ilidade do lar. Se sacrificar!&#8230; Era o sacrif&iacute;cio por ela,<br \/>\n    pela amada, isto &eacute; pela alma da amada! Isto era o que entendiam estes<br \/>\n    brasileiros &uacute;midos. Chegava o instante do exemplo, Fr&auml;ulein mostrava<br \/>\n    um sacrif&iacute;cio, um qualquerzinho, primeiro a aparecer, abstin&ecirc;ncia<br \/>\n    de prazer por muito tempo, um dia. Ca&iacute;ram na esparrela, tinham que<br \/>\n    ceder. Numa obedi&ecirc;ncia escolar, im&oacute;veis, invernos, tiriricas<br \/>\n    por dentro. Depois se aproximavam dela, com alguma timidez, n&atilde;o tem<br \/>\n    duvida, desapontados, sorrindo. E pediam. Relavam nela, femininos que nem<br \/>\n    gatos e pediam. Pediam com tanta gra&ccedil;a, punham tanta humildade (umidade)<br \/>\n    no pedir, tanta pobreza&#8230; Que tristura sorridente ca&iacute;a dos olhos deles!<br \/>\n    Por&eacute;m fr&aacute;geis implorantes assim, enla&ccedil;avam a mo&ccedil;a<br \/>\n    os d&eacute;spotas. Fr&auml;ulein se abatia mas recusava. Os d&eacute;spotas<br \/>\n    apertavam. Fr&auml;ulein tinha uma fraqueza. T&atilde;o gentil o pedido, t&atilde;o<br \/>\n    envergonhado!&#8230; Aqueles bra&ccedil;os vencedores, &ocirc;ta! como apertavam&#8230;<br \/>\n    olhos t&atilde;o cheios dela, entregues&#8230; cedia. Seria monstruoso n&atilde;o<br \/>\n    ceder. Amoleciam-se os bra&ccedil;os dela, j&aacute; pegajosos pro enlace<br \/>\n    e.<\/p>\n<p> Outras vezes emperrava na recusa. Seria monstruoso n&atilde;o recusar. Pois<br \/>\n    os rapazes se zangavam, meu caro! sim senhor! Falavam alto, soltavam uma por&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de bocagens, sa&iacute;am batendo com a porta. Que escutassem! antes assim<br \/>\n    se acabava tudo duma vez! Era a desgra&ccedil;a, o esc&acirc;ndalo. Antes<br \/>\n    assim! Que importava pra eles esc&acirc;ndalo, desgra&ccedil;a! Fr&auml;ulein?<br \/>\n    Uma&#8230; xingavam.<\/p>\n<p> Cedendo ou n&atilde;o cedendo, todas as vezes com a mesma inalter&aacute;vel<br \/>\n    paci&ecirc;ncia, ela sofria a mesma inalter&aacute;vel desilus&atilde;o profissional.<\/p>\n<p> Passeava-se muito no Rio. Esse dia, devido &agrave;s inst&acirc;ncias do<br \/>\n    calor, Sousa Costa concordou em tomar parte na alegria da natureza. Tomar<br \/>\n    parte n&atilde;o: Chamou um autom&oacute;vel. Vamos fazer a volta da Tijuca!<\/p>\n<p> &#8212; Laurita, venha c&aacute;. Voc&ecirc; tamb&eacute;m, Aldinha. Olhem:<br \/>\n    mam&atilde;e vai fazer uma visita com papai, demora um pouco. Por isso voc&ecirc;s<br \/>\n    v&atilde;o com Marina passar o dia na casa de Baby e do Ren&eacute;, ouviram?<br \/>\n    Se ficarem bem quietinhas mam&atilde;e traz um presente da cidade pra voc&ecirc;s.<\/p>\n<p> &#8212; Mas&#8230; mam&atilde;e! Maria Lu&iacute;sa tamb&eacute;m vai na visita!?<\/p>\n<p> &#8212; Tamb&eacute;m, Aldinha. Vamos todos.<\/p>\n<p> &#8212; Eu queria ir tamb&eacute;m&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ora! J&aacute; est&aacute; fazendo feio j&aacute;! Assim mam&atilde;e<br \/>\n    n&atilde;o gosta!<\/p>\n<p> &#8212; Ela traz um presente pra voc&ecirc;, Aldinha!<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute;! Porque voc&ecirc; vai, sabe!&#8230; &Eacute; passeio, agora!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; &Ocirc;h, Laurita, ent&atilde;o eu te enganava assim! E visita,<br \/>\n    juro!<\/p>\n<p> &#8212; Deixe eu falar, Maria Lu&iacute;sa! Olhem, minhas filhas, fica muita<br \/>\n    gente no autom&oacute;vel. Baby &eacute; t&atilde;o boazinha&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mam&atilde;e traz uma caixinha-de-m&uacute;sica pra mim!<\/p>\n<p> &#8212; Trago.<\/p>\n<p> Dona Laura e Sousa Costa se olham, gozando. Caixinha-de-m&uacute;sica&#8230;<br \/>\n    &Eacute; isso: eles sempre acharam que Aldinha tem muito jeito pra m&uacute;sica,<br \/>\n    vive tamborilando no piano. Algum g&ecirc;nio musical decerto &#8212; Laura,<br \/>\n    &eacute; o que te digo: vamos ter uma Guiomar Novais&#8230; falava &agrave;s vezes<br \/>\n    Sousa Costa. Que gosto pr&oacute;s pais!<\/p>\n<p> &#8212; Eu quero um aparelhinho de lou&ccedil;a!<\/p>\n<p> &#8212; Trago tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> Quais seriam as tend&ecirc;ncias de Laurita? Por&eacute;m os pais n&atilde;o<br \/>\n    se preocupavam muito com as predisposi&ccedil;&otilde;es, ponhamos, art&iacute;sticas<br \/>\n    da outra filha. S&atilde;o sempre assim os pais: quando as esperan&ccedil;as<br \/>\n    se projetam sobre um filho, o resto s&atilde;o sombras mal reparadas. Que<br \/>\n    vivam, e Deus os aben&ccedil;oe! Am&eacute;m.<\/p>\n<p> O autom&oacute;vel foi levar as crian&ccedil;as e Marina, a pretinha. Tr&ecirc;s<br \/>\n    quartos de hora depois a bandeira partia. Por&eacute;m at&eacute; que os verdes<br \/>\n    ven&ccedil;am as derradeiras aud&aacute;cias do urbanismo, temos tempo farto<br \/>\n    pra umas considera&ccedil;&otilde;es. Todos subiram contentes pro autom&oacute;vel,<br \/>\n    satisfeit&iacute;ssimos. Mas vejo um estir&atilde;o comprido entre a alegria<br \/>\n    de Fr&auml;ulein e a desses brasileiros. Fr&auml;ulein estava alegre porque<br \/>\n    ia se retemperar ao contacto da terra inculta, gozar um pouco de ar virgem,<br \/>\n    viver a natureza. Esses brasileiros estavam alegres porque davam um passeio<br \/>\n    de autom&oacute;vel e principalmente porque assim ocupavam o dia todo, gra&ccedil;as<br \/>\n    a Deus! Sem autom&oacute;vel e estradas boas jamais conheceriam a Tijuca.<br \/>\n    Fr&auml;ulein iria mesmo marchando e de p&eacute;-no-ch&atilde;o. Esses brasileiros<br \/>\n    iam levar o corpo se gastar. Fr&auml;ulein ia levar o corpo ganhar. O corpo<br \/>\n    desses brasileiros &eacute; fechado, o corpo de Fr&auml;ulein &eacute; aberto.<br \/>\n    Ela se igualava &agrave;s coisas de terra, eles se resguardavam indiferentes.<br \/>\n    Resultado: Fr&auml;ulein se confundia com a natureza. Esses brasileiros sofreriam<br \/>\n    o gosto orgulhoso e infecundo da exce&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Ponhamos Carlos de lado, o caso dele &eacute; mais particular. Est&aacute;<br \/>\n    contente porque Fr&auml;ulein est&aacute; contente. 0 alegra estar junto da<br \/>\n    amante, s&oacute; isso. E amor satisfeito, entenda-se, sen&atilde;o dava em<br \/>\n    poeta brasileiro. Carlos desconhece a Tijuca. Depois do passeio continuar&aacute;<br \/>\n    desconhecendo a Tijuca. Em &uacute;ltima an&aacute;lise pra Carlos como pra<br \/>\n    esses mo&ccedil;os brasileiros em geral: A Tijuca s&oacute; &eacute; passe&aacute;vel<br \/>\n    com mulheres. Se n&atilde;o: pernada besta. Ora pinh&otilde;es! ver &aacute;rvores<br \/>\n    e terras&#8230; Se ao menos fossem minhas&#8230; cafezal&#8230;<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein parecia uma crian&ccedil;a. Crian&ccedil;a brasileira? N&atilde;o,<br \/>\n    crian&ccedil;a alem&atilde;. Diante da natureza, eu j&aacute; falei, o alem&atilde;o<br \/>\n    tamb&eacute;m tem as suas admira&ccedil;&otilde;es. Dava risadas, se virava<br \/>\n    pra olhar mais uma vez as vistas que ficavam atr&aacute;s, voltava temendo<br \/>\n    perder as novas que passavam. Mil olhos tivesse, gozaria por mil olhos mil<br \/>\n    vezes mais. Ali&aacute;s mesmo que fosse feia a paisagem, gozaria da mesma<br \/>\n    forma. Era o contacto da natureza que sensualizava Fr&auml;ulein, mais que<br \/>\n    o gozo das belezas naturais. Nem crian&ccedil;a! animalzinho. Potranca na<br \/>\n    invernada, ema, siriema, passarinho. Os outros olhavam pra ela espantados<br \/>\n    quase escandalizados. Rid&iacute;cula, n&atilde;o?<\/p>\n<p> Menos Carlos. Carlos se sentia orgulhoso e sorria, amparando com os olhos<br \/>\n    a feliz. Como era bonita e dele s&oacute;! Ela fremia. Ela vibrava e se entregava<br \/>\n    inteira aos enlaces faunescos do cheiro e da cor. Que se mostrasse assim amante,<br \/>\n    corajosa, desavergonhada e confessada da terra, Carlos n&atilde;o tinha ci&uacute;mes.<br \/>\n    Era, inteiramente normal, n&oacute;s sabemos. Desprezava os sentimentos sutis.<\/p>\n<p> Por&eacute;m eu escrevi que Fr&auml;ulein era o guri do grupo&#8230; Depois<br \/>\n    corrigi pra animalzinho. Estou com vontade de corrigir outra vez, &uacute;ltima.<br \/>\n    Fr&auml;ulein &eacute; o poeta da explora&ccedil;&atilde;o. Exclama assombrada<br \/>\n    ante as &aacute;guas que escachoam desabridas em arrepios de dor, com as entranhas<br \/>\n    varadas pelas it&aacute;s guampudas. Por&eacute;m logo deixa de olhar a Cascatinha,<br \/>\n    pra se extasiar diante dum arbusto.<\/p>\n<p> Aplaude a velocidade dos cip&oacute;s. Cr&eacute;dula, escruta o canto misterioso,<br \/>\n    donde no meio dos troncos a sombra botou o olhar. Mas que lindas folhinhas<br \/>\n    verdes! olhe, Carlos! Carlos! que distra&ccedil;&atilde;o essa! Olhe! parecem<br \/>\n    envernizadas!<\/p>\n<p> Depois teve um susto sincero nas Furnas. E verdadeiramente viu an&otilde;es,<br \/>\n    duendes vadios. Alberico avan&ccedil;ou pro colo dela a m&atilde;o dum cacto,<br \/>\n    erri&ccedil;ada de unhas verdes, murmurou:<\/p>\n<p> &#8212; Carlos&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Estou aqui, Fr&auml;ulein!<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o fa&ccedil;a assim! podem ver&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ficaram no autom&oacute;vel&#8230; Ningu&eacute;m v&ecirc;!<\/p>\n<p> &#8212; Assim n&atilde;o! &eacute; capaz de ter algu&eacute;m por a&iacute;&#8230;<\/p>\n<p> E tinha. O murmulho das &aacute;guas gargalhou um &quot;brekekekex&quot;<br \/>\n    fanhoso e o monstro repelente surgindo da grota espiou a mo&ccedil;a, como<br \/>\n    em Hauptmann.<\/p>\n<p> &#8212; Que &eacute; isso, Fr&auml;ulein! estou aqui! Se ria envergonhada.<\/p>\n<p> &#8212; Olhe aquela pedra! Que frio n&atilde;o? Carlos&#8230;<\/p>\n<p> Ele nada via de admir&aacute;vel na pedra, admirou Fr&auml;ulein. O pr&oacute;prio<br \/>\n    frescor, ele o gozava sem saber. Carlos apenas protegia a amada, era dever.<br \/>\n    Que-d&ecirc; os encantos da natureza? o ziguezague dos ramos, o segredo das<br \/>\n    socavas? Carlos protegia apenas a amada dele. Muito bem.<\/p>\n<p> Voltaram silenciosos pro autom&oacute;vel, que o motorista fora cham&aacute;-los.<br \/>\n    Maria Lu&iacute;sa, curiosa daqueles sempre-juntos, que estariam fazendo?<br \/>\n    pretextara aborrecimento. Sousa Costa, de combina&ccedil;&atilde;o com a filha,<br \/>\n    mandara chamar os dois. Isso tamb&eacute;m era demais, nas barbas dele!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Tamb&eacute;m, Laura, voc&ecirc; devia ter trazido qualquer coisa,<br \/>\n    sandu&iacute;ches&#8230; bolachas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ora essa, Felisberto! N&oacute;s passamos na cidade, voc&ecirc;<br \/>\n    podia ter comprado!<\/p>\n<p> &#8212; Tudo eu, arre!&#8230; o que voc&ecirc;s ficaram fazendo l&aacute; dentro!<\/p>\n<p> &#8212; Nada, papai, vendo! Voc&ecirc; n&atilde;o sabe o que perdeu!<\/p>\n<p> Se Sousa Costa explodisse, explodia ali mesmo. Mas por&eacute;m era fil&oacute;sofo<br \/>\n    brasileiro, sabia que a explos&atilde;o prejudica inda mais a brasilite que<br \/>\n    os trastes do arredor, olhou pro filho com uma raiva.<\/p>\n<p> O autom&oacute;vel debralhou. Mas nem os cabelos de Fr&auml;ulein estavam<br \/>\n    mais despenteados que na v&eacute;spera ou no dia seguinte. E sempre a mesma<br \/>\n    escandalosa, faladora, deslumbrada. Olhe a volta que n&oacute;s fizemos! Eu<br \/>\n    morava aqui toda a minha vida! Ser&aacute; que Carlos n&atilde;o? Sousa Costa<br \/>\n    concluiu que n&atilde;o. Sorriu, chamou o filho de bobo e se acalmou, j&aacute;<br \/>\n    reconciliado consigo.<\/p>\n<p> At&eacute; dava d&oacute; tirar Fr&auml;ulein do Excelsior. Felizmente os<br \/>\n    assentos do auto-m&oacute;vel s&atilde;o t&atilde;o c&ocirc;modos. Dona Laura<br \/>\n    bocejava refarta.<\/p>\n<p> Mandou chamar os sempre-juntos. Carlos veio correndo.<\/p>\n<p> &#8212; Voc&ecirc; chamou?<\/p>\n<p> &#8212; Meu filho, vamos embora! Suas irm&atilde;zinhas est&atilde;o esperando&#8230;<br \/>\n    E Carlos enfim confessou a piedade desses brasileiros:<\/p>\n<p> &#8212; Ah, mam&atilde;e., deixe Fr&auml;ulein olhar mais um pouquinho!<\/p>\n<p> &#8212; Parece que ela nunca viu uma vista bonita, coitada!<\/p>\n<p> &#8212; Tamb&eacute;m na Alemanha &eacute; s&oacute; neve.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute; papai! E o Reno &eacute; t&atilde;o cutuba!<br \/>\n    as florestas! Em Hamburgo tem um jardim zool&oacute;gico que &eacute; o mais<br \/>\n    bonito do mundo! tem de tudo! E Berlim ent&atilde;o?&#8230; Aposto que voc&ecirc;<br \/>\n    n&atilde;o sabe o que &eacute; Friedrichstrasse!<\/p>\n<p> &#8212; Ora, &eacute; uma rua!<\/p>\n<p> &#8212; Ningu&eacute;m perguntou pra senhora, Maria Lu&iacute;sa! Deixa<br \/>\n    sim, mam&atilde;e?&#8230; Vou subir outra vez!<\/p>\n<p> Encontrou Fr&auml;ulein acabrunhada, com vontade de chorar. A luz delirava,<br \/>\n    apressada a um vago aviso de tarde. Era tal e tanta que emba&ccedil;ava de<br \/>\n    ouro a amplid&atilde;o. Se via tudo longe num halo que divinizava e afastava<br \/>\n    as coisas mais. Lassitude. No quiriri tecido de ruidinhos abafados, a cidade<br \/>\n    se movia pesada, lerda. O mar parar&aacute; azul. Em baixo, dos verdes fundos<br \/>\n    das montanhas uma evapora&ccedil;&atilde;o rajava o escuro das grotas, e o<br \/>\n    Corcovado, ver um morubixaba pachorrento, pitava as nuvens que o sol lhe acendia<br \/>\n    no derrame.<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein botara os bra&ccedil;os cruzados no parapeito de pedra, fincara<br \/>\n    o mento a&iacute;, nas carnes rijas. E se perdia. Os olhos dela pouco a pouco<br \/>\n    se fecharam, &#8212; cega duma vez. A raz&atilde;o pouco a pouco escampou.<br \/>\n    Desapareceu por fim, escorra&ccedil;ada pela vida excessiva dos sentidos.<br \/>\n    Das partes profundas do ser lhe vinham apelos vagos e decretos fracionados.<br \/>\n    Se misturavam animalidades e inven&ccedil;&otilde;es geniais. E o orgasmo.<br \/>\n    Adquirira enfim uma alma vegetal. E assim perdida, assim vibrando, as narinas<br \/>\n    se alastraram, os l&aacute;bios se partiram, contra&ccedil;&otilde;es, rugas,<br \/>\n    esgar, numa express&atilde;o dolorosa de gozo, ficou feia.<\/p>\n<p> &#8212; Fr&auml;ulein&#8230;<\/p>\n<p> Abriu lentamente uns olhos alheios. O desconhecido estava perto dela. &Eacute;<br \/>\n    Carlos. Ahn. Sorriu. Numa cidade escura da Alemanha&#8230; Ele entrava de&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Vamos, suspirou. Mas precisava de se retomar. Venceu a melancolia.<br \/>\n    Vieram descendo muito alegres, falando alto.<\/p>\n<p> &#8212; Senhor Sousa Costa, eu nunca vi coisa mais linda em minha vida!<br \/>\n    &ocirc;h, muito obrigada!<\/p>\n<p> Sousa Costa sorriu pra ela, paternal.<\/p>\n<p> &#8212; De fato, Fr&auml;ulein&#8230; &Eacute; uma beleza.<\/p>\n<p> O autom&oacute;vel em disparada rolou pelas ladeiras, se lan&ccedil;ou nos<br \/>\n    abismos a pique sobre o mar.<\/p>\n<p> &#8212; Se ca&iacute;ssemos&#8230; Carlos protegeu logo:<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o tem perigo, Fr&auml;ulein!<\/p>\n<p> &#8212; Que bonita ilha! Dona Laura, repare no mar! Ficou negro de repente!<br \/>\n    N&oacute;s estivemos l&aacute; em cima!<\/p>\n<p> Numa das voltas olhando pra tr&aacute;s, viu a montanha curvada, com o sol<br \/>\n    lhe mordendo as ilhargas. Era Loge, deus do inc&ecirc;ndio&#8230; As montanhas<br \/>\n    desembestavam assustadas, grimpando os itatins com gestos de socorro, contorcidas.<br \/>\n    Loge perseguia as medrosas, lambido de chamas, trinando. Fr&auml;ulein escutou<br \/>\n    um xilofone, o tema conhecido. E o encantamento do fogo principiou para Brunilda.<\/p>\n<p> O &uacute;ltimo ponto de parada foi a gruta da Imprensa. Fr&auml;ulein desceu<br \/>\n    na frente, saltando os degraus r&aacute;pida. Carlos seguia:<\/p>\n<p> &#8212; Voc&ecirc; cai!<\/p>\n<p> Dona Laura nem se erguera do auto mais, pensava nas filhinhas. Sabia que<br \/>\n    os Camargos eram amigos, por&eacute;m filhas n&atilde;o se emprestam pra ningu&eacute;m,<br \/>\n    devem ficar junto das m&atilde;es, n&atilde;o &eacute; verdade? Sousa Costa<br \/>\n    passeava na estrada. Aproveitava o descanso pra fumar. Maria Lu&iacute;sa<br \/>\n    ainda na monotonia da fraqueza, descera as escadas tamb&eacute;m. Observava<br \/>\n    o fundo da gruta, pensando interrogativa nos tombos por ali.<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein estacara devorando pela moldura das arcadas o mar. A tarde<br \/>\n    ca&iacute;a r&aacute;pida. A exala&ccedil;&atilde;o acre da maresia, o cheiro<br \/>\n    dos vegetais.. Oprimem a gente. E os mist&eacute;rios frios da gruta&#8230; Tanta<br \/>\n    sensa&ccedil;&atilde;o forte ignorada., a impon&ecirc;ncia dos c&eacute;us<br \/>\n    imensos&#8230; o apelo dos horizontes invis&iacute;veis&#8230; Abriu os bra&ccedil;os.<br \/>\n    Enervada, ainda pretendeu sorrir. N&atilde;o p&ocirc;de mais. O corpo arrebentou.<br \/>\n    Fr&auml;ulein deu um grito. <\/p>\n<p>Juruvi&aacute;, juruvi&aacute; duma vez. Semicerrara as p&aacute;lpebras,<br \/>\n    uma ruguinha espetada na testa. Nem enxergava mais a vista sempre nova das<br \/>\n    &aacute;guas, das montanhas. Praias largas enfim.<\/p>\n<p> Tinham se assustado muito, dona Laura quase desmaiara, Sousa Costa correra.<br \/>\n    Viu a filha rolar pelos rochedos, ferida se debatendo, minha filha! O mar<br \/>\n    a engoliu Maria Lu&iacute;sa inda estava p&aacute;lida. Tremia. S&oacute;<br \/>\n    Carlos rira muito. N&atilde;o compreendera nada, por&eacute;m achara sadiamente<br \/>\n    muita gra&ccedil;a naquilo: onde se viu dar um grito assim, sem mais nem menos!<br \/>\n    que impag&aacute;vel!&#8230; Agora olhava pra Fr&auml;ulein de esguelha, inquieto<br \/>\n    com o burro da amada. Ela nem agradece tanta irmandade. Passaria muito bem<br \/>\n    sem ela. Mas j&aacute; se preocupa em comercialmente jugular uma raiva por<br \/>\n    esses brasileiros.<\/p>\n<p> Houve apenas um instante de sossego quando o pulman principiou gemendo,<br \/>\n    o trem partia. Ent&atilde;o, depois de mais uma olhadela para ver se todos<br \/>\n    estavam mesmo ali bem garantidos, dona Laura se lembrou que era senhora de<br \/>\n    sociedade. Ergueu um pouco o busto, recolheu o ventre pra caber melhor dentro<br \/>\n    da cinta e tentou guardar os fiapos de cabelos que lhe choviam pelo rosto,<br \/>\n    pela nuca, orelhas. Deu um suspiro de al&iacute;vio, como trabalhara!<\/p>\n<p> Na verdade n&atilde;o trabalhara coisa nenhuma, Fr&auml;ulein &eacute; que<br \/>\n    fizera tudo. Marina, a pretinha, era in&uacute;til nos seus quatorze anos<br \/>\n    de sonho. Sousa Costa, esse fazia s&oacute; pagar, pagar era com ele, ningu&eacute;m<br \/>\n    mais calmo pra sacar a carteira do bolso e dar gorjeta boa. Mas o resto, n&atilde;o<br \/>\n    entendia dessas &quot;coisas de mulher&quot;. Fr&auml;ulein fizera tudo e,<br \/>\n    por felicidade, sem nenhum acidente. As malas estavam todas despachadas, e<br \/>\n    maletas, bolsas, sacos de viagem, os filhos, luvas, luvinhas, chap&#038;eacuteacute;us,<br \/>\n    Marina, Felisberto, Fr&auml;ulein, a cesta com as sandu&iacute;ches das crian&ccedil;as,<br \/>\n    tudo estava ali. Dona Laura deu um &uacute;ltimo arranjinho no decote pequeno<br \/>\n    que j&aacute; eslava despencando pra direita e ficou feliz. Fr&auml;ulein<br \/>\n    ia sentada bem na frente dela. As crian&ccedil;as menores junto de ambas,<br \/>\n    j&aacute; encarapitadas, amarfanhando os guarda-p&oacute;s dos bancos de couro<br \/>\n    falso, olhavam pelas janelinhas abertas.<\/p>\n<p> &#8212; Cas&#8230; Cascadura! Mam&atilde;e! a esta&ccedil;&atilde;o se chama<br \/>\n    Cascadura!<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; sei. Laurita, fique quietinha, viu!<\/p>\n<p> Sousa Costa baixara o jornal com o grito de Laurita. Mas se riu, a filha<br \/>\n    j&aacute; estava lendo tudo. Dona Laura ficara meia incomodada porque diversas<br \/>\n    pessoas dos bancos da frente tinham se voltado com o grito da menina. Olhou<br \/>\n    o marido e sacudiu a cabe&ccedil;a, desaprovando. Mas Sousa Costa j&aacute;<br \/>\n    mergulhara no jornal, sentado fronteiro &agrave; mulher, do outro lado do<br \/>\n    corredor central do vag&atilde;o, com o resto do pessoal mi&uacute;do. Carlos,<br \/>\n    junto do pai, defrontava Maria Lu&iacute;sa.<\/p>\n<p> Em frente de Sousa Costa, a pretinha Marina im&oacute;vel, se agarrara com<br \/>\n    as duas m&atilde;os no banco, estarrecida, boca aberta, olhos esbugalhados,<br \/>\n    gozando. como tinham ido ao Rio pelo noturno, esta era realmente a primeira<br \/>\n    vez que enfim Marina viajava de trem, a sua maior aspira&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Autom&oacute;vel, jamais a interessara, era canja, n&atilde;o tinha apito.<br \/>\n    Mesmo pra ir da casinha dela, na chegada de Jundia&iacute;, para a vila Laura,<br \/>\n    foram busc&aacute;-la na Fiat, n&atilde;o tinha apito. E nos seus quatorze<br \/>\n    anos, Marina guardava aquele desejo eterno com que, todos os dias de sua j&aacute;<br \/>\n    longa vida, espiava os trens, trepada no barranco, os trens sublimes passando.<br \/>\n    A casa do pai dela, carapina em Jundia&iacute;, era justo numa curva de apitar,<br \/>\n    e o apito nascera dentro dela como a suprema express&atilde;o da dignidade<br \/>\n    dos ve&iacute;culos.<\/p>\n<p> S&oacute; uma coisa Marina ainda achava superior ao trem: ter dor de dente.<br \/>\n    Chegara a rezar a Deus pedindo que lhe mandasse uma dor de dente, nem que<br \/>\n    fosse uma dorzinha s&oacute;, bem pequenina, porque achava muito lindo a gente<br \/>\n    andar com um len&ccedil;o vermelho amarrado na cara. Achava lind&iacute;ssimo.<br \/>\n    No tempo em que morava com a fam&iacute;lia, chegava a chorar de escondido,<br \/>\n    porque o Dito andava sempre de len&ccedil;o amarrado na cara, maravilhoso,<br \/>\n    j&aacute; todo banguela de tanto dente arrancado com dor. E ela com aquela<br \/>\n    dentadura branca, alvinha, sem uma dor&#8230; Chorava.<\/p>\n<p> Laurita soletrava sempre:<\/p>\n<p> &#8212; Ba&#8230; B&acirc;ngu! Mam&atilde;e! essa &eacute; B&acirc;ngu! Maria<br \/>\n    Lu&iacute;sa se inclinou assanhada:<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; Bangu, Laurita! que boba!<\/p>\n<p> Carlos caiu na risada. Tamb&eacute;m ele vinha se divertindo muito com a<br \/>\n    viagem de trem, era t&atilde;o raro. A not&iacute;cia da volta pra casa o<br \/>\n    pusera um dia inteiro excitad&iacute;ssimo: Fr&auml;ulein. Andou tomando uns<br \/>\n    ares circunspectos de homem. Nessa manh&atilde;, aproveitando um momento de<br \/>\n    sozinhos, dera um abra&ccedil;o t&atilde;o encostado em Fr&auml;ulein que<br \/>\n    ela se sentira enrubescer. Mas agora a viagem o distra&iacute;a muito. Comprara<br \/>\n    uma revista pra imitar o pai, quisera ler, mas n&atilde;o sabia mesmo fingir.<br \/>\n    E as revistas j&aacute; estavam com Maria Lu&iacute;sa, essa sim uma senhora,<br \/>\n    bem arranjadinha, com muita compostura ver Fr&auml;ulein, de luvas, lendo<br \/>\n    sinceramente.<\/p>\n<p> O trem j&aacute; ultrapassara os sub&uacute;rbios cantados por Laurita e<br \/>\n    desembestava aos pinchos mundo fora. O c&eacute;u estava nublado mas a pequena<br \/>\n    fresca da manh&atilde; j&aacute; se fora. Por detr&aacute;s das nuvens baixas<br \/>\n    havia um sol violento queimando. O ambiente era de luz crua, clara demais,<br \/>\n    e os olhos semicerravam batidos por uma poeira fininha, angustiosa, implac&aacute;vel,<br \/>\n    aveludando tudo repulsivamente. Todos os passageiros j&aacute; tinham fechado<br \/>\n    as janelas, e vinham incomodad&iacute;ssimos com as conservadas abertas por<br \/>\n    aquela fam&iacute;lia. Alguns viajantes dos bancos de tr&aacute;s se limpavam<br \/>\n    com estr&eacute;pito, pra dar a perceber, indignados. Fr&auml;ulein percebeu<br \/>\n    e falou baixinho com dona Laura. Esta, meu Deus! essas crian&ccedil;as! fez<br \/>\n    um gesto aflito e ralhou com o marido:<\/p>\n<p> &#8212; Felisberto, feche essas janelas, faz favor! Veja que poeira!<\/p>\n<p> Ele deixou a leitura, ia se erguendo, mas o trem deu um daqueles trancos<br \/>\n    da Central, todos se viram atirados de banda, e Sousa Costa foi parar em cima<br \/>\n    de Fr&auml;ulein.<\/p>\n<p> &#8212; Desculpe, Fr&auml;ulein.<\/p>\n<p> Carlos j&aacute; fechara a janelinha do seu banco, mas n&atilde;o quis fechar<br \/>\n    a de Maria Lu&iacute;sa, feche voc&ecirc;! Fr&auml;ulein olhou-o. Ele encabulou<br \/>\n    muito, se ergueu, n&atilde;o! n&atilde;o se ergueu! Fr&auml;ulein n&atilde;o<br \/>\n    manda em mim! mas foi se erguendo com m&aacute; vontade, apertou a perna de<br \/>\n    Maria Lu&iacute;sa e fechou a janela. Sentou emburrado e mergulhou na revista<br \/>\n    s&oacute; de pique.<\/p>\n<p> Laurita chorosa deixava que Sousa Costa fechasse a janelinha:<\/p>\n<p> &#8212; Ah! papai!&#8230; Assim n&atilde;o posso ler o nome da esta&ccedil;&atilde;o!<\/p>\n<p> &#8212; Voc&ecirc; l&ecirc; pelo vidro, Laurita.<\/p>\n<p> &#8212; Ah, n&atilde;o sei ler pelo vidro, pronto!<\/p>\n<p> Aldinha n&atilde;o, nem se incomodou. Ajoelhada no banco olhando os passageiros<br \/>\n    de tr&aacute;s, pelo espaldar que mal atingia, estava muito entretida em dar,<br \/>\n    risadinhas para um menino quieto que vinha junto da m&atilde;e, no banco do<br \/>\n    outro lado. Era uma senhora norueguesa viajando com o filhinho de seis anos.<br \/>\n    No princ&iacute;pio ela sorrira no prazer instintivo de olhar a carinha gostosa<br \/>\n    da menina, mas depois ficara inquieta. Aldinha ria pro menino. O menino, muito<br \/>\n    agitado, n&atilde;o sabendo se podia rir tamb&eacute;m, consultou a m&atilde;e.<br \/>\n    Esta o maltratou com o olhar duro. E o pequeno voltara &agrave; imobilidade<br \/>\n    da boa educa&ccedil;&atilde;o, olhando pra frente muito. Mas lhe dava aquele<br \/>\n    desejo de ver se a menina estava se rindo pra ele, jogava muito r&aacute;pido,<br \/>\n    muito atemorizado um olharzinho pra ela. E Aldinha ficava cada vez mais apaixonada.<\/p>\n<p> A norueguesa fez um gesto de calor, pra disfar&ccedil;ar e trocou de lugar<br \/>\n    com o filho. Mas o trem pulava tanto que o menino se erguendo batera com a<br \/>\n    cabe&ccedil;a no banco da frente. Sentou chorando mudo. A norueguesa olhou<br \/>\n    com &oacute;dio pra Aldinha, e Fr&auml;ulein, assim viajando de costas, captou<br \/>\n    o olhar da outra. Ficou envergonhada, ali&aacute;s tudo a envergonhava naquela<br \/>\n    viagem brasileira, e tratou autoritariamente de fazer Aldinha sentar. Mas<br \/>\n    as crian&ccedil;as, com os pais ali, n&atilde;o obedeciam.<\/p>\n<p> Aldinha sentara com maus modos, em cima duma perna, s&oacute; pra n&atilde;o<br \/>\n    ficar direito. Mordida pela vontade de espiar o menino, principiou balanceando<br \/>\n    sobre a perna dobrada, pra se distrair. Um salto-mortal do vag&atilde;o atirou-a<br \/>\n    em cima da m&atilde;e, ia caindo, Fr&auml;ulein agarrou-a a tempo, Sousa Costa<br \/>\n    se ergueu para acudir, e nova guinada do vag&atilde;o o atirou em cima de<br \/>\n    Fr&auml;ulein outra vez. Agora machucou bem. Dona Laura assustad&iacute;ssima.<br \/>\n    A negrinha botara a m&atilde;o na boca pra n&atilde;o gritar, estarrecida.<br \/>\n    Maria Lu&iacute;sa, Carlos, Laurita, todos olhando inquietos. Sousa Costa,<br \/>\n    ah se pudesse matar! mastigava as s&iacute;labas, morto de vergonha:<\/p>\n<p> &#8212; Fr&auml;ulein&#8230; desculpe: este trem!<\/p>\n<p> Laurita ficou com sede e queria &aacute;gua. Aldinha, muito desapontada<br \/>\n    com o sucedido, se lembrou de pedir tamb&eacute;m alguma coisa e inventou<br \/>\n    comer. E bateu uma enorme fome nela. Meia chorosa:<\/p>\n<p> &#8212; Mam&atilde;e&#8230; tou com fome!<\/p>\n<p> &#8212; Minha filha! meu Deus! &eacute; t&atilde;o cedo!&#8230;<\/p>\n<p> Laurita com a id&eacute;ia de comer se virar&aacute; espevitada. Carlos<br \/>\n    tamb&eacute;m. A negrinha tamb&eacute;m. Maria Lu&iacute;sa tamb&eacute;m.<br \/>\n    S&oacute; que desceu a revista dos olhos pra ver a solu&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    pedido, mas logo se lembrou que era gente grande, ergueu a revista depressa,<br \/>\n    escondeu os olhos, sem ler, escutando o que a m&atilde;e resolvia. Batera<br \/>\n    uma fome catastr&oacute;fica no pessoalzinho.<\/p>\n<p> Dona Laura ficou completamente aflita. N&atilde;o era ela quem tiraria a<br \/>\n    cesta do lugar nem faria coisa nenhuma, por&eacute;m a paralisou um des&acirc;nimo<br \/>\n    tamanho, que calor!&#8230; Olhou pra Fr&auml;ulein que baixou os olhos sem consentir.<br \/>\n    Ainda n&atilde;o era hora de dar sandu&iacute;che &agrave;s crian&ccedil;as,<br \/>\n    tinham almo&ccedil;ado fartamente ao partir. Aldinha gemia, quase chorando<br \/>\n    j&aacute;. &#8212; Eu queria sandu&iacute;che&#8230;<\/p>\n<p> E olhava Fr&auml;ulein de soslaio, sentindo um gostinho em machucar a governante.<br \/>\n    Dona Laura angustiada procurou os olhos de Sousa Costa. Ele sacudiu a cabe&ccedil;a<br \/>\n    muito contrariado, mexeu os ombros, com um ar de &quot;o que se h&aacute;<br \/>\n    de fazer, Laura! &quot;. Mas ficou im&oacute;vel, temendo desagradar Fr&auml;ulein<br \/>\n    j&aacute; t&atilde;o machucada.<\/p>\n<p> &#8212; Eu tamb&eacute;m quero!<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein custou n&atilde;o tirar os olhos do ch&atilde;o e censurar<br \/>\n    Laurita. Mas a partida estava perdida mesmo. Resolveu sair daquele beco, mas<br \/>\n    s&oacute; de irrita&ccedil;&atilde;o. Fez um sinalzinho a Carlos que n&atilde;o<br \/>\n    esperava outra coisa. Ele se ergueu com presteza, foi tirar a cesta do porta-maletas<br \/>\n    do alto, veio, se desvencilhando el&aacute;stico dos trancos do vag&atilde;o,<br \/>\n    depor a cesta no colo da amante. Que ternura teve por ela ent&atilde;o! sentou<br \/>\n    a perna na guarda do banco, chegando muito pra encostar:<\/p>\n<p> &#8212; Eu distribuo, Fr&auml;ulein.<\/p>\n<p> Dona Laura, acalmada, desejava se reconciliar com a governanta:<\/p>\n<p> &#8212; Fr&auml;ulein, por favor, d&ecirc; s&oacute; uma, ouviu?<\/p>\n<p> &#8212; Uma s&oacute; n&atilde;o quero, &eacute; pouco!<\/p>\n<p> &#8212; Laurita!<\/p>\n<p> Maria Lu&iacute;sa n&atilde;o ag&uuml;entara mais consigo, pusera a revista<br \/>\n    no colo, espiando a distribui&ccedil;&atilde;o com avidez. Aldinha no ch&atilde;o,<br \/>\n    agarrada na saia de Fr&auml;ulein por causa dos solavancos, espiava as sandu&iacute;ches<br \/>\n    sem poder nem respirar de ansiedade. Nem bem pegou a que Fr&auml;ulein lhe<br \/>\n    dava, arrancou outra da cesta, se esgueirou sem no&ccedil;&atilde;o do perigo&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Aldinha!<\/p>\n<p> &#8212; Meu Deus!<\/p>\n<p> Sousa Costa ainda estendeu os bra&ccedil;os pra ver se alcan&ccedil;ava<br \/>\n    a filha. Ela atirada, batendo-se, foi cair no colo da norueguesa que a salvou.<br \/>\n    Aldinha, inconsciente do tombo frustrado, estava era triunfante, sorrindo,<br \/>\n    oferecendo a sandu&iacute;che amassada ao namoradinho. O menino olhou pra<br \/>\n    m&atilde;e bestificado. Todos tinham se erguido com o susto e sacolejavam<br \/>\n    ao vendaval, menos dona Laura, coitada, que num esfor&ccedil;o herc&uacute;leo<br \/>\n    ainda estava se desatarraxando do assento, pra se voltar e ver o desastre<br \/>\n    horr&iacute;vel. A norueguesa, sustentando sempre Aldinha com uma das m&atilde;os,<br \/>\n    varria do colo as migalhas de p&atilde;o, de queijo. Foi um minuto de ang&uacute;stia<br \/>\n    absoluta. Sousa Costa, envergonhad&iacute;ssimo outra vez, j&aacute; segurava<br \/>\n    a filha, tentando traz&ecirc;-la consigo. Mas Aldinha forcejava, triunfante<br \/>\n    sempre, falando:<\/p>\n<p> &#8212; Coma, menininho!&#8230; &eacute; booom!<\/p>\n<p> Afinal a norueguesa falou qualquer coisa com o filho que se levantou, roxo<br \/>\n    de timidez, estendeu dois dedos, agarrou a sandu&iacute;che e murmurou n&atilde;o<br \/>\n    sei o que l&aacute;. A&iacute; a m&atilde;e sorriu, falando de novo. O menino<br \/>\n    repetiu em portugu&ecirc;s certinho, devagar:<\/p>\n<p> &#8212; Muito obrigado.<\/p>\n<p> Aldinha arrastada pelo pai, olhando pra tr&aacute;s, queria ficar l&aacute;.<br \/>\n    Dona Laura e Sousa Costa, no &iacute;ntimo, estavam satisfeitos com o desprendimento<br \/>\n    da filha. N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida que lhes assustava muito o recato<br \/>\n    essas simples apar&ecirc;ncias de cont&aacute;gio com desconhecidos, mas enfim<br \/>\n    a estranha era visivelmente uma senhora distinta.<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein at&eacute; sentia vontade de chorar. Meio que esquecera a<br \/>\n    distribui&ccedil;&atilde;o das sandu&iacute;ches, perdida nos seus mundos,<br \/>\n    cestinha fechada. Laurita comendo, voltara a esperar tabuletas que pudesse<br \/>\n    ler. Maria Lu&iacute;sa n&atilde;o sabia ocultar mais a impaci&ecirc;ncia,<br \/>\n    e Marina, pela primeira vez, sa&iacute;a do seu estarrecimento, se mexendo<br \/>\n    no lugar, lambendo os bei&ccedil;os. Carlos ficara desapontado por n&atilde;o<br \/>\n    receber uma sandu&iacute;che tamb&eacute;m, mas j&aacute; desistira, n&atilde;o<br \/>\n    tinha fome nenhuma. Percebeu que Fr&auml;ulein estava sofrendo e se tomou<br \/>\n    de ardor por ela. Quase a abra&ccedil;a no pretexto de erguer a cesta pra<br \/>\n    guardar e lhe ro&ccedil;a a m&atilde;o no seio. Fr&auml;ulein sobressaltada<br \/>\n    sente-se nua no vag&atilde;o, d&aacute; um gritinho, agarra a m&atilde;o de<br \/>\n    Carlos em terror.<\/p>\n<p> &#8212; Vou guardar a cesta, Fr&auml;ulein!<\/p>\n<p> Ela, inteiramente desarvorada, fala por falar!<\/p>\n<p> &#8212; Voc&ecirc; tamb&eacute;m quer uma!<\/p>\n<p> Carlos fica no ar, aceita? recusa? estava com tamanha fome! Se salva:<\/p>\n<p> &#8212; Papai, voc&ecirc; quer uma!<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o.<\/p>\n<p> E quem salvou foi Maria Lu&iacute;sa que n&atilde;o se conteve mais:<\/p>\n<p> &#8212; Me d&aacute; uma&#8230; pra exprimentar&#8230;<\/p>\n<p> Ent&atilde;o Fr&auml;ulein abriu a cesta devagar, remoendo os gestos, parecia<br \/>\n    muito calma, tirara a m&atilde;o de Carlos dali. E deu sandu&iacute;ches.<br \/>\n    Deu, era pra dar, n&atilde;o &eacute;? deu, deu pra Maria Lu&iacute;sa, deu<br \/>\n    duas, deu pra Marina que ficou sufocada de comer na frente dos patr&otilde;es,<br \/>\n    deu, ara, Carlos tamb&eacute;m devia estar querendo, uma crian&ccedil;a afinal&#8230;<br \/>\n    naquela idade alem&atilde;o &eacute; crian&ccedil;a&#8230; deu.<\/p>\n<p> Carlos ainda teve &iacute;mpetos de recusar, homem n&atilde;o come sandu&iacute;che<br \/>\n    no trem.<\/p>\n<p> &#8212; Voc&ecirc; tamb&eacute;m n&atilde;o quer, Fr&auml;ulein?.. implorou.<\/p>\n<p> &#8212; Agora n&atilde;o, depois.<\/p>\n<p> E um tranco horrendo atirou-o com cesta e tudo para o lugar dele, que calor!&#8230;<br \/>\n    Mas n&atilde;o se podia abrir uma janela. Se a poeira espessa abafava o ambiente,<br \/>\n    sujando de pardo qualquer suor, janela que se abrisse, principiavam entrando<br \/>\n    no vag&atilde;o os carv&otilde;ezinhos que a m&aacute;quina enviava a todos,<br \/>\n    e tudo se pontilhava de preto. Alguns vinham incandescentes ainda, queimando<br \/>\n    em quanta fazenda pousavam. Agora Aldinha pedia &aacute;gua. Dona Laura tinha<br \/>\n    um sulco no rosto porque limpara o suor empoeirado. Fr&auml;ulein quis avisar<br \/>\n    mas n&atilde;o avisou. De raiva.<\/p>\n<p> &#8212; Barra Mansa! Mam&atilde;e&#8230; como que era a outra Barra que eu falei!<\/p>\n<p> &#8212; Que barra, minha filha?<\/p>\n<p> Dona Laura n&atilde;o podia de calor. Abrira mais um bot&atilde;o da blusa,<br \/>\n    s&oacute; mais um, mas o trem sacolejava tanto, agora &eacute; que as fazendas<br \/>\n    n&atilde;o paravam, despencando pr&oacute;s lados. Fr&auml;ulein estava despeitad&iacute;ssima,<br \/>\n    com aquele rego de dois seios imensos bem no nariz dela. Laurita, gritando<br \/>\n    pra se ouvir naquele estardalha&ccedil;o de ferragens:<\/p>\n<p> &#8212; Ara, aquela esta&ccedil;&atilde;o! eu falei que era Barra n&atilde;o<br \/>\n    sei do qu&ecirc;e!&#8230;<\/p>\n<p> Houve uma r&aacute;pida inquieta&ccedil;&atilde;o na fam&iacute;lia, ficaram<br \/>\n    dolorosamente envergonhados. E com efeito alguns passageiros sorriram, era<br \/>\n    vis&iacute;vel que sabiam que Barra era. Mas ningu&eacute;m na fam&iacute;lia<br \/>\n    se lembrava mais, n&atilde;o tinham prestado aten&ccedil;&atilde;o. S&oacute;<br \/>\n    a pretinha, que escutava tudo, devorava tudo, decorava tudo. De repente deu<br \/>\n    o riso esgani&ccedil;ado, botou a m&atilde;o na boca assustada e gritou sem<br \/>\n    querer:<\/p>\n<p> &#8212; Ih&#8230; Barra do Pira&iacute;!<\/p>\n<p> &#8212; Como que &eacute;, Marina!<\/p>\n<p> Todos a olhavam agora. Isso Marina caiu numa gargalhada de &quot;ih-ihs&quot;<br \/>\n    hist&eacute;ricos, que n&atilde;o parava mais.<\/p>\n<p> &#8212; Diga, Marina! n&atilde;o seja boba!<\/p>\n<p> Mas a pretinha n&atilde;o podia mais de vergonha, se ria, se ria, contorcia-se<br \/>\n    toda, botando agora as duas m&atilde;os espalmadas na frente da cara. Sousa<br \/>\n    Costa estava indignado. Foi preciso dona Laura entrar com toda a autoridade<br \/>\n    dela:<\/p>\n<p> &#8212; Marina, que &eacute; isso! Diga o nome pra Laurita!<\/p>\n<p> A pretinha abaixou as m&atilde;os, ficou muito s&eacute;ria, estarrecida<br \/>\n    mesmo, com os olhos brancos, esbugalhados, tomando a cara toda. Falou devagar,<br \/>\n    estatelada, num s&eacute;rio de quem ia morrer:<\/p>\n<p> &#8212; Barra do Pira&iacute;?<\/p>\n<p> Como que interrogava, assombrada de saber. Todos sossegaram e Laurita voltou<br \/>\n    a olhar a paisagem, enquanto duas l&aacute;grimas grossas rolavam pela cara<br \/>\n    da pretinha.<\/p>\n<p> Pois foi nessa viagem que se deu a anedota famosa, dessas que ficam recordadas<br \/>\n    sempre nas fam&iacute;lias feito trof&eacute;u. Laurita de vez em quando voltava<br \/>\n    &agrave;quela implac&aacute;vel solicitude de gritar a todo o vag&atilde;o<br \/>\n    o nome das esta&ccedil;&otilde;es que chegavam. Dona Laura, seios arfantes,<br \/>\n    arranjando pela milion&eacute;sima vez o decote despencado, agora n&atilde;o<br \/>\n    se ag&uuml;entava mais de calor. Olhou com desespero a vidra&ccedil;a da janelinha<br \/>\n    fechada. Umas casas, casas escoteiras, sem arruamento, se ajuntavam cada vez<br \/>\n    mais numerosas na paisagem. A sufoca&ccedil;&atilde;o de dona Laura pressentiu<br \/>\n    que o trem diminu&iacute;a a marcha aos trambolh&otilde;es. Decerto alguma<br \/>\n    cidade maior&#8230; iriam parar mais tempo e se abriria as janelas pra arejar<br \/>\n    o vag&atilde;o&#8230; E na espera ansiosa, pra que foi que dona Laura se lembrou<br \/>\n    de perguntar a Laurita o nome daquela esta&ccedil;&atilde;o! Laurita encostou<br \/>\n    o rostinho na vidra&ccedil;a, gloriosa de prestar um servi&ccedil;o &agrave;<br \/>\n    m&atilde;e. Mas gritou no estardalha&ccedil;o:<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o se enxerga, ainda&#8230; J&aacute; falo, mam&atilde;e!<\/p>\n<p> e amassava o nariz contra o vidro. Sousa Costa, com medo de algum fracasso<br \/>\n    da filha, espiou em roda. V&aacute;rios viajantes esperavam tamb&eacute;m,<br \/>\n    abatidos, alguns se erguendo, sorrindo com paci&ecirc;ncia. As casas agora<br \/>\n    j&aacute; chegavam arruadas, lerdas. O trem parava aos peda&ccedil;os. Laurita<br \/>\n    gritou:<\/p>\n<p> &#8212; E&#8230; &eacute; Mi-quit&oacute;-rio! Mam&atilde;e! &eacute; Miquit&oacute;rio!<\/p>\n<p> Dona Laura, Fr&auml;ulein se sentiram morrer. Mas desta vez Sousa Costa<br \/>\n    perdido por completo o controle, se ergueu, iria bater na filha. Fr&auml;ulein<br \/>\n    meio se levantou pra salvar o decoro, buscando evitar a palmada. O trem parou<br \/>\n    num tranco e os dois, Fr&auml;ulein com Sousa Costa abra&ccedil;ados, afundaram<br \/>\n    nos peitos de dona Laura. Sousa Costa enojado se desvencilhou num tempo deixando<br \/>\n    Fr&auml;ulein l&aacute;. Ia&#8230; O vag&atilde;o todo se escangalhava de rir,<br \/>\n    at&eacute; a norueguesa. De repente Sousa Costa n&atilde;o soube mais o que<br \/>\n    ia fazer. Xingar a Central do Brasil? jurar que nunca mais viajava de trem?<br \/>\n    Dona Laura com ar de muito machucada, arranjava o decote. Pedir desculpas?<br \/>\n    bater na filha, isso nunca! jamais Sousa Costa havia de por a m&atilde;o num<br \/>\n    filho. E como um b&oacute;lide tenebroso veio surgindo dentro dele, veio engrossando,<br \/>\n    Laurita era filha dele! o b&oacute;lide j&aacute; estava estrondando dentro<br \/>\n    dele, n&atilde;o sabia, um desespero gigantesco e lusitano de desatravancar<br \/>\n    a vida numa piada bem grossa, se igualar &agrave; filha, se igualar ao impudor<br \/>\n    dela, rirem assim duma crian&ccedil;a, ela era inocentinha, o b&oacute;lide<br \/>\n    j&aacute; se desfazia sem arrebentar, Sousa Costa desanimou duma vez. Sentou.<br \/>\n    Teve um desejo vago de sentar pra sempre. E falou muito queixoso:<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute; Mict&oacute;rio n&atilde;o, minha filhinha&#8230;<br \/>\n    &eacute; Taubat&eacute;.<\/p>\n<p> Na volta do Rio recome&ccedil;aram os encontros noturnos que bom! Carlos<br \/>\n    evolu&iacute;a r&aacute;pido. Fr&auml;ulein tinha j&aacute; seus despeitos<br \/>\n    e pequenas desilus&otilde;es. Por exemplo: ele demonstrava j&aacute; de quando<br \/>\n    em quando prefer&ecirc;ncias brasileiras e outras individuais que contrastavam<br \/>\n    com a honestidade cl&aacute;ssica do amor tese. Tese de Fr&auml;ulein. Se<br \/>\n    eu contasse tudo, a verdade, mesmo dosada, viria catalogar este id&iacute;lio<br \/>\n    entre os descaramentos naturalistas, isso &eacute; imposs&iacute;vel, n&atilde;o<br \/>\n    quero.<\/p>\n<p> Ningu&eacute;m negar&aacute; no entanto que Carlos prefere a orelhinha direita<br \/>\n    da amada pr&oacute;s beijos de ap&oacute;s ventura. Tal prefer&ecirc;ncia<br \/>\n    existe. Nada tinha em Carlos de perverso, isso n&atilde;o, por&eacute;m, palmilhando<br \/>\n    as larguezas da repeti&ccedil;&atilde;o, ele j&aacute; estava se tornando<br \/>\n    conhecido de si mesmo. Tinha exig&ecirc;ncias risonhas, por instinto, demonstradas<br \/>\n    com despotismo calmo, satisfeito, muito seguro de si. Crian&ccedil;a ainda<br \/>\n    e desajeitado, embonecava nele o homem latino, voc&ecirc;s sabem: o homem<br \/>\n    das adivinha&ccedil;&otilde;es. Olhem como ele cruza as pernas, ara!&#8230;<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein n&atilde;o apreciava essa concep&ccedil;&atilde;o da felicidade.<br \/>\n    Os homens alem&atilde;es quando n&atilde;o s&atilde;o pr&aacute;ticos e animais<br \/>\n    no amor, guardam sempre um certo jeito de obedi&ecirc;ncia &agrave;s leis<br \/>\n    naturais, mesmo dentro do requinte e da exce&ccedil;&atilde;o. Parece t&atilde;o<br \/>\n    natural aquilo neles!&#8230; Isto &eacute; segredo de alem&atilde;es. Os latinos<br \/>\n    nunca atingem tais extremos. Em verdade eles divagam no amor, n&atilde;o acha?<br \/>\n    O alem&atilde;o fica. Ponto final. O latino ondula. Retic&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> E a gente ent&atilde;o, os brasileiros misturados&#8230; N&atilde;o acredito<br \/>\n    nas avataras indianas. N&atilde;o acredito nessas vidas anteriores em que<br \/>\n    a gente foi um xeique das Ar&aacute;bias. Entretanto tantanam no fundo do<br \/>\n    mato&#8230; Negros pesados dan&ccedil;ando o cateret&ecirc;. Sil&ecirc;ncio grosso<br \/>\n    de cheiros de cernes, folhas, flores, terra, carnes, queimaqueimados pelo<br \/>\n    sol. Olhos relampeando na escureza da noite sem sono. Ent&atilde;o a imaginativa<br \/>\n    trabalha.<\/p>\n<p> De primeiro surgiram teogonias fantasiosas, produto das multiplica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    pelo Deus inicial. Depois fantasmas, lendas. Destas lendas provieram primeiro<br \/>\n    os animais, as plantas, as linfas, todos munidos dum poder de al&eacute;m,<br \/>\n    sacro, quase imposs&iacute;vel. A imaginativa tinha aonde manobrar &agrave;<br \/>\n    larga, o deserto era imenso, o deserto das areias, das florestas e das &aacute;guas.<br \/>\n    Quando tudo se povoou de milagres as lendas pariram a casta dos homens ruins<br \/>\n    e a casta dos homens bons, coisas imposs&iacute;veis ainda. Dessas divis&otilde;es<br \/>\n    vieram as guerras. Guerra ou paz. Tudo pretexto pra cantigas, esculturas,<br \/>\n    dan&ccedil;as. Tinem colares, chacoalham cores vivas, deuses, lendas, artes&#8230;<\/p>\n<p> Por&eacute;m quando n&atilde;o se dorme num mato ou quando a imaginativa<br \/>\n    n&atilde;o pode mais ultrapassar o recesso das tabas e a terra pisada das<br \/>\n    ocas, pra assuntar al&eacute;m das picadas, atrav&eacute;s das embiras, porque<br \/>\n    agora j&aacute; se est&aacute; dormindinho numa cama bem gostosa da avenida<br \/>\n    Higien&oacute;polis (que bem pode ser uma rua do Recife, uma pra&ccedil;a<br \/>\n    de Porto Alegre) quando&#8230; meu Deus! a frase est&aacute; muito longa, comecemos<br \/>\n    outra:<\/p>\n<p> O brasileiro misturado n&atilde;o carece mais de criar teogonias transandinas,<br \/>\n    nem imagina descender dum jabuti not&aacute;vel, nem cr&ecirc; nas castas<br \/>\n    dos homens ruins e dos homens bons, nem nas oferendas votivas, nem na estiliza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    duma ef&iacute;gie divina, nem por enquanto se preocupa com cafezais por plantar,<br \/>\n    nem mesmo sonha com a roupa nova que o pai lhe dar&aacute;, pela primeira<br \/>\n    vez feita no alfaiate c&eacute;lebre da rua Quinze. Tem-se dezesseis anos<br \/>\n    e um amor f&aacute;cil. A gente se levanta. P&eacute; por p&eacute;. Chega<br \/>\n    na porta de Fr&auml;ulein. Tantam&#8230; Dormia, Fr&auml;ulein? Estou sem sono,<br \/>\n    vim pra c&aacute;.<\/p>\n<p> Por&eacute;m a imaginativa n&atilde;o abandonou as abund&acirc;ncias dela,<br \/>\n    n&atilde;o pense, quer se gastar e faz muito bem. Pra que mais anhang&aacute;s,<br \/>\n    janana&iacute;ras e batat&otilde;es? Rud&aacute; protege bem os namorados.<br \/>\n    E estamos na rua do Recife, n&atilde;o tem perigo nenhum, medo pra que! O<br \/>\n    velho deve de estar dormindo. Risinho. At&eacute; parece que o outro &eacute;<br \/>\n    bobo. Dormir? T&atilde;o gostoso amar! Suspiro. E uma boquinha na orelha esquerda<br \/>\n    de Fr&auml;ulein. N&atilde;o. Se prefere a direita, n&atilde;o &eacute; a<br \/>\n    mesma coisa. Porque meu Deus! Por amor da inven&ccedil;&atilde;o, prefer&ecirc;ncia,<br \/>\n    livre-arb&iacute;trio. Aqui a latinidade se confunde com os &iacute;ndios<br \/>\n    songamongas e a negralhada relumeante. Deu-se um Fiat, rapazes! Foi criado<br \/>\n    o mito da orelhinha direita.<\/p>\n<p> Est&aacute; claro que Carlos n&atilde;o imaginou nada disso. Por&eacute;m<br \/>\n    o beijo existe. E pra provar que existe de fato com exist&ecirc;ncia real<br \/>\n    e n&atilde;o como fantasia liter&aacute;ria do escritor me vi obrigado a ir<br \/>\n    incomodar os coitados dos negros dan&ccedil;ando no fundo do mato ao tanta.<br \/>\n    Agora todos escutaram o beijo.<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein &eacute; que n&atilde;o compreende esse divagar sublimado.<br \/>\n    Corrosivo ela pensa. No dia seguinte principia matutando com o desfecho, vem<br \/>\n    vindo a hora de acabar. Cumpriu a miss&atilde;o dela, o que sabia ensinou.<br \/>\n    O homem-da-vida e o homem-do-sonho passeiam bra&ccedil;os dados. Quatro contos<br \/>\n    pra cada um. Vamos tomar um chope. Fr&auml;ulein sente uma fraqueza, sorri<br \/>\n    de amorosa. Pobre Carlos vai sofrer. Vem uma revolta: que sofra e ela ent&atilde;o?<br \/>\n    Grande Alemanha sem recursos, desmantelada. Tudo rapidamente. Por&eacute;m<br \/>\n    permanece um desejo mole pelo rapaz. Talvez a ensombre um arrependimento.<br \/>\n    O homem-da-vida afirma: N&atilde;o. E vira o chope.<\/p>\n<p> Mas agora se fala tanto nos sentimentos seq&uuml;estrados&#8230; 0 subconsciente<br \/>\n    se presta a essas teogonias novas. Fantasia? Ningu&eacute;m o saber&aacute;<br \/>\n    jamais. Minha vingan&ccedil;a &eacute; que Freud n&atilde;o pode ter sensa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de tantas no fundo do mato. Nem pode sentir &iacute;ndios pesados, com dinamismos<br \/>\n    de ritual dentro das g&acirc;mbias. Ali&aacute;s nem Fr&auml;ulein. Por isso<br \/>\n    &eacute; que falando de Carlos fui poeta, inventei. Falando agora de Fr&auml;ulein,<br \/>\n    de Freud, de Friedrich, pra usar unicamente efes, endurece-me a pena um decreto<br \/>\n    de ci&ecirc;ncia alem&atilde;. De ci&ecirc;ncia alem&atilde;. Mas o homem-do-sonho<br \/>\n    d&aacute; um urro: N&atilde;o! E vira o chope.<\/p>\n<p> Entre Sousa Costa e Fr&auml;ulein se convencionara desde o princ&iacute;pio,<br \/>\n    que aquilo n&atilde;o podia acabar sem um pouco de viol&ecirc;ncia. A maior<br \/>\n    li&ccedil;&atilde;o estava mesmo no susto que Sousa Costa pregaria no coitado.<br \/>\n    E ent&atilde;o lhe mostraria os perigos que nessas aventuras de amor pecaminoso,<br \/>\n    pecaminoso? correm os inexperientes. Voc&ecirc;s todos j&aacute; sabem quais<br \/>\n    s&atilde;o. Isso divertira muito Sousa Costa, representar a cena lhe dera<br \/>\n    um gostinho. Sousa Costa queria muito bem o filho &eacute; indiscut&iacute;vel,<br \/>\n    por&eacute;m isso de amores escandalosos dentro da pr&oacute;pria casa dele<br \/>\n    lhe repugnava bastante. N&atilde;o &eacute; que repugnasse propriamente&#8230;<br \/>\n    fazia irrita&ccedil;&atilde;o. Esta certo: irritava Sousa Costa. O filho era<br \/>\n    dele, lhe pertencia. Que se entregasse a uma outra e ele sabendo, teve ci&uacute;mes,<br \/>\n    confesso. Se sente como que comeado! Tal era a sensa&ccedil;&atilde;o inexplic&aacute;vel<br \/>\n    de Sousa Costa pai.<\/p>\n<p> Pois com o susto se vingava. O ante-sabor da com&eacute;dia lhe multiplicou<br \/>\n    os momentos de sorriso, n&atilde;o se esquecera mais. &quot;Depois pregamos<br \/>\n    um bom susto nele&quot; falara &agrave; mulher naquela cena inquieta de explica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com Fr&auml;ulein. Por&eacute;m agora diante desta, na biblioteca, pensava<br \/>\n    melhor, aquilo traria inc&ocirc;modos.<\/p>\n<p> Cacetea&ccedil;&atilde;o! o menino ia fazer barulho naturalmente&#8230; E esse<br \/>\n    malestar que as estr&eacute;ias sempre d&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mas Fr&auml;ulein, n&atilde;o seria poss&iacute;vel acabarmos de<br \/>\n    outra forma?&#8230; mansamente? Meu filho vai sofrer muito, &eacute; t&atilde;o<br \/>\n    amoroso! Depois&#8230; depois eu falo tudo pra ele.<\/p>\n<p> Por&eacute;m Fr&auml;ulein j&aacute; sabe que Sousa Costa promete e n&atilde;o<br \/>\n    cumpre, insistiu. De mais a mais assim, violentamente, a li&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ficava mais viva no esp&iacute;rito, isto &eacute;, no corpo de Carlos. O<br \/>\n    corpo tem muito mais mem&oacute;ria que o esp&iacute;rito, n&atilde;o &eacute;?<br \/>\n    &Eacute;. Al&eacute;m disso, por mais burgu&ecirc;s e vulgar que seja um alem&atilde;o,<br \/>\n    sempre de quando em quando lhe rebrota no deus encarcerado um desejo de trag&eacute;dia<br \/>\n    in&uacute;til, esse mesmo que fez a ren&uacute;ncia de Werther e o mais in&uacute;til<br \/>\n    ainda sacrif&iacute;cio de Franz von Moor. Sem confessar isso, Fr&auml;ulein<br \/>\n    desejava a trag&eacute;dia, mesmo com o sacrif&iacute;cio da mem&oacute;ria<br \/>\n    dela na recorda&ccedil;&atilde;o de Carlos.<\/p>\n<p> O que Carlos ficava pensando dela&#8230; Por&eacute;m como que isso lhe nobilitava<br \/>\n    o trabalho anterior, lhe redimia a profiss&atilde;o. Do qu&ecirc;?! Ah, consci&ecirc;ncia,<br \/>\n    consci&ecirc;ncia&#8230; O trabalho e a profiss&atilde;o de Fr&auml;ulein eram<br \/>\n    bem nobres, a mo&ccedil;a tinha certeza disso. Tinha certeza. Por&eacute;m.<br \/>\n    Ent&atilde;o ela se falava: Se o senhor Sousa Costa n&atilde;o ensinar agora,<br \/>\n    n&atilde;o ensina mais. &Eacute; preciso que ensine. O meu dever &eacute;<br \/>\n    n&atilde;o sair daqui sem que ele primeiro indique a Carlos os perigos. Mesmo<br \/>\n    com o meu sacrif&iacute;cio.<\/p>\n<p> Por tudo isso insistiu. Assim a consci&ecirc;ncia adormece. Get zur Ruhe!&sup1;<br \/>\n    Sousa Costa j&aacute; amolado, prometeu.<\/p>\n<p> 1 Dorme em paz!<\/p>\n<p> Dona Laura avisada, aceitou suspirando. Matutou assim: afinal Fr&auml;ulein<br \/>\n    partir&#8230; que ma&ccedil;ada! Tomara ao menos que eu arranje depressa governanta<br \/>\n    nova! At&eacute; de novo se acostumarem todos juntos&#8230; E estavam t&atilde;o<br \/>\n    bem assim!&#8230; Ningu&eacute;m desconfiava de nada. As meninas progrediam tanto&#8230;<br \/>\n    Maria Lu&iacute;sa j&aacute; tocava a &quot;Marcha Turca&quot; bem direita,<br \/>\n    quase que n&atilde;o parava.<\/p>\n<p> Mas dona Laura teria pensado mesmo tanta coisa! N&atilde;o pensou. Eu tamb&eacute;m<br \/>\n    por mim n&atilde;o pensei. Ent&atilde;o quem foi? Volta aqui o limiar da consci&ecirc;ncia<br \/>\n    andando que nem badalo, pra c&aacute;&#8230; pra l&aacute;&#8230; Inconsci&ecirc;ncia&#8230;<br \/>\n    Subconsci&ecirc;ncia&#8230; Consci&ecirc;ncia&#8230; Pra c&aacute;&#8230; pra l&aacute;&#8230;<br \/>\n    &Eacute; aqui! Ent&atilde;o &eacute; consci&ecirc;ncia. Juro que n&atilde;o!<br \/>\n    Ent&atilde;o o limiar &eacute; jamais &eacute; mais pra longe. Ser&aacute;?&#8230;<br \/>\n    Pra c&aacute;&#8230; pra l&aacute;&#8230; Dona Laura n&atilde;o falou nada daquilo,<br \/>\n    nem pensou. Por&eacute;m aquelas id&eacute;ias existem. A psicologia tamb&eacute;m<br \/>\n    existe. Pra c&aacute;&#8230; pra l&aacute;&#8230; E Fr&auml;ulein partia mesmo, era<br \/>\n    in&uacute;til se lastimar.<\/p>\n<p> &#8212; Paci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Carlos entrara no quarto de Fr&auml;ulein. Mal tivera tempo de. Por&eacute;m<br \/>\n    j&aacute; machucara a amante, cruzando as pernas sentado. T&aacute;t&atilde;o,<br \/>\n    t&atilde;o, t&atilde;o!<\/p>\n<p> &#8212; Abra!<\/p>\n<p> Meu Deus! entra Sousa Costa<\/p>\n<p> &#8212; Que est&aacute; fazendo aqui, diga!<\/p>\n<p> &#8212; Nada, papai&#8230;<\/p>\n<p> Fl&eacute;bil, fl&eacute;bil, nem se ouvia. Sousa Costa acreditou que era<br \/>\n    um grande artista dram&aacute;tico. Voltou-se pra Fr&auml;ulein. Por lembran&ccedil;as<br \/>\n    rom&acirc;nticas franziu a testa.<\/p>\n<p> &#8212; Ela n&atilde;o tem a culpa!<\/p>\n<p> De p&eacute; agora, relampeando em n&iacute;tida franqueza, her&oacute;ico.<\/p>\n<p> &#8212;O senhor tenha a bondade mas &eacute; de ir j&aacute; pro seu quarto!<br \/>\n    J&aacute; vou l&aacute; tamb&eacute;m!<\/p>\n<p> Carlos baixou a cabe&ccedil;a, partiu. Francamente: n&atilde;o soube que<br \/>\n    partia. N&atilde;o soube que chegou no quarto. N&atilde;o soube que se encostou<br \/>\n    na guarda da cama, sen&atilde;o ca&iacute;a mesmo, plor&uacute;m! desmanchado<br \/>\n    no ch&atilde;o. N&atilde;o soube o tempo que passou. Nada. Enxergou a porta<br \/>\n    se abrindo. Ergueu a cara pro pai:<\/p>\n<p> &#8212; Ela n&atilde;o teve a culpa, papai!<\/p>\n<p> N&atilde;o relumeava mais, mas sem implora&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m.<br \/>\n    Emperrado apenas na pr&oacute;pria verdade: quando uma mulher erra, s&oacute;<br \/>\n    o homem &eacute; que tem a culpa. E, sem nenhuma temeridade, corajoso.<\/p>\n<p> &#8212; Voc&ecirc; est&aacute; louco! Voc&ecirc; sabe quem &eacute; essa<br \/>\n    mulher! E se ela agora te obriga a casar! Est&aacute; muito bonito!<\/p>\n<p> Carlos aterrado, casar! Que explos&atilde;o de luz essa no c&eacute;rebro!<br \/>\n    Luz ruim. Mas o apego a Fr&auml;ulein subjuga todos os preconceitos, sociedade<br \/>\n    e futuro desaparecem, s&oacute; Fr&auml;ulein, o conchego de Fr&auml;ulein<br \/>\n    fica. E ainda um pouco de coragem, cabe&ccedil;udo. Fl&eacute;bil, fl&eacute;bil:<\/p>\n<p> &#8212; Eu caso, papai&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Bobo! Voc&ecirc; n&atilde;o est&aacute; vendo que &eacute; uma aventureira!<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute; uma&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Cale-se!<\/p>\n<p> &#8212; Papai! mas ela n&atilde;o &eacute; uma aventureira! Agora implorava.<br \/>\n    Que d&oacute; fazia na gente!<\/p>\n<p> &#8212; Carlos, voc&ecirc; &eacute; uma crian&ccedil;a, Carlos! e n&atilde;o<br \/>\n    sabe nada, ouviu! E agora! E se tiverem um filho, como &eacute;! diga!! maluco&#8230;<\/p>\n<p> Ah! isso acabou Carlos. Caiu numa cadeira, chorou. Sousa Costa j&aacute;<br \/>\n    estava cansado tamb&eacute;m. Sentou-se e falou manso. Ali&aacute;s por pouco<br \/>\n    tempo, nem reparou que n&atilde;o ensinava nada. Viu o filho chorando e teve<br \/>\n    amor, consolou. Felizmente ele estava ali pra acabar com aquilo. Por&eacute;m<br \/>\n    que tivesse cuidado pra outra: n&atilde;o tem tantas mulheres sem perigo por<br \/>\n    a&iacute;, n&atilde;o o obrigasse mais a gastar dinheiro com essas coisas.<br \/>\n    Carlos tira a cara das m&atilde;os, quer ver se o dinheiro &eacute; verdade.<\/p>\n<p> &#8212; Ela n&atilde;o recebeu dinheiro!<\/p>\n<p> &#8212; Ah?! ent&atilde;o voc&ecirc; pensa que ela partia assim, sem nada,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute;!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Quando!<\/p>\n<p> Que dinheiro, nem baixezas! Fr&auml;ulein partia! s&oacute; isso Carlos<br \/>\n    escutou.<\/p>\n<p> &#8212; Quando?<\/p>\n<p> &#8212; Quando?! essa &eacute; muito boa! o mais depressa poss&iacute;vel<br \/>\n    amanh&atilde; cedo.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o! papai! n&atilde;o! Eu n&atilde;o fa&ccedil;o mais nada!<\/p>\n<p> &#8212; Como &eacute;! ent&atilde;o voc&ecirc;!!! Mas Carlos voc&ecirc;<br \/>\n    est&aacute; maluco duma vez! Parte! e &eacute; pena que n&atilde;o possa partir<br \/>\n    j&aacute;, agorinha mesmo!<\/p>\n<p> Perdia terreno. Voltou &agrave; id&eacute;ia do filho, com que vencera de-j&aacute;-hoje.<br \/>\n    Carlos recome&ccedil;ou a chorar. Era horr&iacute;vel! casar ainda, mas ter<br \/>\n    um filho&#8230; UM FILHO! N&atilde;o era imposs&iacute;vel! que medo! E como!<br \/>\n    Depois! Meu Deus! um filho&#8230; Um filho&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E agora o senhor vai-me deitar e nada de barulhos, ouviu? Eu j&aacute;<br \/>\n    falei que arranjo isso. Mas fique a&iacute; bem quieto e durma!<\/p>\n<p> Saiu.<\/p>\n<p> Um filho&#8230; <\/p>\n<p> Um filho.<\/p>\n<p> Um filho&#8230;<\/p>\n<p> Um&#8230; filho?<\/p>\n<p> Meu Deus! UM FILHO. <\/p>\n<p> Se atira na cama.<\/p>\n<p> &#8230; um filho&#8230; <\/p>\n<p> Horroroso! N&atilde;o raciocinava, n&atilde;o pensava.<\/p>\n<p> &#8230; um FILHO&#8230;<\/p>\n<p>Nem assombra&ccedil;&otilde;es amedrontam assim! E Carlos n&atilde;o acredita<br \/>\n    em assombra&ccedil;&otilde;es. Carlos espaventado, exausto, antes morrer!&#8230;<br \/>\n    Mas a no&ccedil;&atilde;o da morte o acalma e retempera. Carlos Principia<br \/>\n    se defendendo, pois n&atilde;o tem a menor inten&ccedil;&atilde;o de morrer.<br \/>\n    Um filho?! Mas viria mesmo um filho?&#8230; Fr&auml;ulein teria um fi&#8230; Fr&auml;ulein<br \/>\n    partia&#8230; Vem a figura de Fr&auml;ulein. Mata o filho. Que filho nem nada!<br \/>\n    Fr&auml;ulein! O desejo de Fr&auml;ulein. 0 desespero por ela! N&atilde;o<br \/>\n    tem nada, tem Fr&auml;ulein! o corpo dela, o calor dela&#8230; Carlos vai. Pra<br \/>\n    que precau&ccedil;&otilde;es? Vira o trinco. Porta fechada, naturalmente.<br \/>\n    Empurra-a. Sacode-a com for&ccedil;a. Se lembra de bater e bate.<\/p>\n<p>&#8212; Fr&auml;ulein! Evidentemente ela n&atilde;o dormia.<\/p>\n<p> &#8212; Quem &eacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Abra esta porta!<br \/>\n    &#8212; Carlos, n&atilde;o posso! V&aacute; dormir!<br \/>\n    &#8212; Abra esta porta, j&aacute; disse!<br \/>\n    &#8212; Mein Gott! seu pai escuta, Carlos. V&aacute; embora!<br \/>\n    &#8212; Eu arrebento esta porta! Fr&auml;ulein! abra a porta!<br \/>\n    &#8212; Meu filho, que &eacute; isso! N&atilde;o fa&ccedil;a assim!<br \/>\n    &#8212; Mam&atilde;e me largue! me largue! eu quero abrir esta porta, j&aacute;<br \/>\n    disse!<br \/>\n    &#8212; Mas meu filho tenha paci&ecirc;nc&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Abra a porta, Fr&auml;ulein!! Clave de f&aacute;:<br \/>\n    &#8212; Oc&ecirc; est&aacute; louco, Carlos! N&atilde;o lhe disse&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o sei se estou louco! Abra esta&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Meu filho voc&ecirc; acorda suas&#8230; &#8212;&#8230; porta!<br \/>\n    &#8212;&#8230; irm&atilde;zinhas!<br \/>\n    &#8212; Vamos embora!<br \/>\n    Sousa Costa foi parar na parede.<\/p>\n<p> &#8212; Fr&auml;ulein!<br \/>\n    &#8212; Carlos! voc&ecirc; faz assim pra seu pai!&#8230; Plam! pampam! plam!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Este menino&#8230; dou nele ainda!&#8230;<\/p>\n<p> Sousa Costa apanharia. Isto &eacute;: n&atilde;o apanharia mais, Carlos<br \/>\n    est&aacute; se cansando. Desilude-se, tudo est&aacute; perdido mesmo&#8230; N&atilde;o<br \/>\n    vale a pena lutar, brasileiro&#8230; M&atilde;e e pai seguram ele. Nem carecia.<br \/>\n    Guiam aquelas pernas sem vontade. Isso sim, carecia.<\/p>\n<p> &#8212; Fr&auml;ulein, mam&atilde;e&#8230;<\/p>\n<p> Nos seios de dona Laura &eacute; levado.<\/p>\n<p> &#8212; Agora eu vou mas &eacute; fechar voc&ecirc; a chave aqui!<br \/>\n    &#8212; Felisberto, tenha um pouco de paci&ecirc;ncia! Meu filho! n&atilde;o<br \/>\n    chore assim!<br \/>\n    &#8212; Vamos embora, Laura , deixe ele a&iacute;!<br \/>\n    &#8212; Felisberto!<br \/>\n    Sousa Costa foi pra cama. Ele bem tinha falado que o menino havia de fazer<br \/>\n    um barulh&atilde;o. Estas alem&atilde;s que v&atilde;o pro diabo que as carregue!<br \/>\n    Dona Laura acalma o filho. Chora o filho, chora a m&atilde;e. Os dedos dela<br \/>\n    alisam os cabelos de Carlos. Ele nos bra&ccedil;os maternos, molhando a m&atilde;e<br \/>\n    de l&aacute;grimas exasperadas. De quando em quando o solu&ccedil;o:<br \/>\n    &#8212; Fr&auml;ulein&#8230;<\/p>\n<p> Fl&eacute;bil, fl&eacute;bil.<\/p>\n<p>\n    Aldinha com seis anos dormia. Certos barulhos n&atilde;o acordam as crian&ccedil;as<br \/>\n    de seis anos. Por&eacute;m Laurita com oito e Maria Lu&iacute;sa com treze.<br \/>\n    Esta, assuntando da porta, olhos grudados na escureza, engole com vol&uacute;pia<br \/>\n    os barulhos. Aprende. Laurita tamb&eacute;m escutava. N&atilde;o entendia<br \/>\n    nada. Deitadinha, muito reta, com medo, sem falar um isto. Pensava? Laurita<br \/>\n    pensava que havia uma hist&oacute;ria triste. Fr&auml;ulein com Carlos. Talqual<br \/>\n    na fita da Gl&oacute;ria Swanson. Mais atr&aacute;s papai com mam&atilde;e.<br \/>\n    Depois vinham elas. Todos chorando. Carlos pagava o autom&oacute;vel e apareciam<br \/>\n    as pessoas que costumavam visitar mam&atilde;e. Carlos n&atilde;o ia mais<br \/>\n    no futebol. Elas ficavam com muita vergonha das visitas. Tudo muito embrulhado,<br \/>\n    vago, com sono. De repente Laurita pensou n&iacute;tido que se papai pegasse<br \/>\n    ela acordada e Maria Lu&iacute;sa na porta, tomavam um pito grande. Teve medo<br \/>\n    e principiou chorando, porque desta vez papai tinha raz&atilde;o. Adormeceu,<br \/>\n    chorando.<\/p>\n<p> O trem partia &agrave;s seis e trinta, escolhera Santos. Bem que podia ficar<br \/>\n    em S&atilde;o Paulo, a cidade era bastante grande pr&oacute;s dois, por&eacute;m<br \/>\n    o acaso dum encontro poss&iacute;vel, s&oacute; pensar nisso lhe prolongaria<br \/>\n    aquela ternura por Carlos. O irremedi&aacute;vel consola mais depressa.<\/p>\n<p> Al&eacute;m disso Fr&auml;ulein se aborrecera de S&atilde;o Paulo. Por causa<br \/>\n    de Carlos. N&atilde;o sei, mas tinha um sentimento de humildade diante dele.<br \/>\n    Lhe parecia muito s&eacute;rio isso. Careciam do irremedi&aacute;vel. Pois<br \/>\n    ent&atilde;o Santos. Ao menos pra partir: Santos. Campinas um segundo lhe<br \/>\n    passou na geografia. Seria poss&iacute;vel a profiss&atilde;o dela em Campinas?<br \/>\n    Talvez voltasse pro Rio. Seis horas no hol, devia partir. Como vencer a ternura!<br \/>\n    Pediu pra Sousa Costa que lhe deixasse ver Carlos. Como negar? Dona Laura<br \/>\n    subiu, chorando j&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Meu filho&#8230; acorde, meu filho!<br \/>\n    &#8212; Que &eacute; mam&atilde;e&#8230;<\/p>\n<p> Se ergueu sobressaltado, ainda sem pensamento.<\/p>\n<p> &#8212; Meu filho, Fr&auml;ulein vai embora&#8230; Voc&ecirc; n&atilde;o quer<br \/>\n    se despedir dela? mas seja homem, Carlos!<br \/>\n    Carlos de p&eacute;. Mal cal&ccedil;ou os chinelos, se arranjar pra que! Sujo<br \/>\n    de sono se atirou na porta, desceu as escadas, ficaram perdidos no abra&ccedil;o.<br \/>\n    Chorando ele mergulhava a cara nas roupas desejadas. Nem lhes gozava o cheiro<br \/>\n    lavado. Fr&auml;ulein, entre l&aacute;grimas, sorriu assim:<br \/>\n    &#8212; Meu filho&#8230;<\/p>\n<p> Sousa Costa repuxava os bigodes, bolas! Por&eacute;m lhe do&iacute;a a dor<br \/>\n    do filho. Dona Laura descia os &uacute;ltimos degraus. Um dos chinelos de<br \/>\n    Carlos estava ali.<\/p>\n<p> Era preciso partir.<\/p>\n<p> &#8212; Adeus, Carlos. Seja&#8230; muito feliz, ouviu? adeus&#8230;<\/p>\n<p> Beijou-o na testa. Na testa, tal-e-qual fazem as m&atilde;es. O beijo foi<br \/>\n    comprido por demais.<\/p>\n<p> Se desvencilhava. Dona Laura ajudou.<\/p>\n<p> &#8212; Filhinho&#8230; n&atilde;o fa&ccedil;a assim!&#8230;<\/p>\n<p> Os bra&ccedil;os dele foram ficando vazios. Os bra&ccedil;os dele ficaram<br \/>\n    compridos no ar. Ficaram comprid&iacute;ssimos. Foram descendo cansad&iacute;ssimos.<br \/>\n    Teve uma vaga lembran&ccedil;a de que nem a beijara. N&atilde;o, s&oacute;<br \/>\n    um verbo naturalista: n&atilde;o aproveitara. E agora nunca mais. Porta que<br \/>\n    fecha. Sonol&ecirc;ncia. N&atilde;o chorava. Foi andando. Parou cal&ccedil;ando<br \/>\n    o chinelo. Subia os degraus.<\/p>\n<p>\n    Fr&auml;ulein sacudida pelos solu&ccedil;os nervosos entrou no autom&oacute;vel.<br \/>\n    Partiam mesmo. Debru&ccedil;ou-se ainda na portinhola:<br \/>\n    &#8212; Meu Carlos&#8230;<\/p>\n<p> Nada. S&oacute; Tanaka fechando o port&atilde;o, se rindo. E uma casa fechada,<br \/>\n    toda num amarelo educado, senhorial. VILA LAURA. Quis lutar. Tolice sofrer<br \/>\n    sem causa. Derrubou-se pra tr&aacute;s largada, desinfeliz. Sousa Costa olhava<br \/>\n    de soslaio pra ela, sem compreender.<\/p>\n<p>\n    No primeiro andar a janela se abriu, que rompante! Carlos engoliu avenida,<br \/>\n    buscando ver, querendo ver, vendo, o autom&oacute;vel que sabia sem saber<br \/>\n    estava longe nunca mais, deserto s&oacute;. N&atilde;o estendeu os bra&ccedil;os.<br \/>\n    N&atilde;o gritou. Por&eacute;m o olhar turvo escorreu pela avenida at&eacute;<br \/>\n    onde! meu Deus&#8230;<\/p>\n<p> Os raros transeuntes da aurora viam na janela um mocinho chorachorando,<br \/>\n    coitado! decerto perdeu a m&atilde;e&#8230;<\/p>\n<p> Na esta&ccedil;&atilde;o Sousa Costa foi comprar o bilhete. Fez Fr&auml;ulein<br \/>\n    entrar no vag&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Muito obrigada, senhor Sousa Costa. E&#8230; acredite, oh! acredite&#8230;<br \/>\n    desejo a felicidade de Carlos!<br \/>\n    &#8212; Acredito, Fr&auml;ulein. Muito obrigado.<\/p>\n<p>\n    Exausta, meia triste ela olhava sem reparar a carreira das campinas. Esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de S&atilde;o Bernardo? Pensava. Quase sofria. Carlos. Era muito sincero,<br \/>\n    corajoso. Ora! E a raiva contra todos os homens quase que fez ela se rir,<br \/>\n    prevendo o desastre. Afastou com energia o &oacute;dio in&uacute;til. Se protegeu<br \/>\n    contra a imagina&ccedil;&atilde;o, pensando no dinheiro. Assegurou-se de que<br \/>\n    a maleta estava ali, estava. Oito contos. Mais dois ou tr&ecirc;s servi&ccedil;os<br \/>\n    e descansava. Apesar de tudo, Carlos&#8230; que alma bonita, um homem. Tomou-a<br \/>\n    novo relaxamento de vontades. Do&iacute;a. Talvez o amasse? Fr&auml;ulein<br \/>\n    murmurou severamente o &quot;n&atilde;o&quot;, quase que os outros escutaram.<br \/>\n    Sorriu. Uma ternurinha s&oacute;. Muito natural: era um bom menino, e n&atilde;o<br \/>\n    pensemos mais nisso. Estava muito calma.<\/p>\n<p> E o id&iacute;lio de Fr&auml;ulein realmente acaba aqui. O id&iacute;lio<br \/>\n    dos dois. O livro est&aacute; acabado.<\/p>\n<p>FIM<\/p>\n<p>Fr&auml;ulein n&atilde;o age mais e n&atilde;o sentir&aacute; mais. Quando<br \/>\n    muito uma recorda&ccedil;&atilde;o cada vez mais espa&ccedil;ada, o pensamento<br \/>\n    cada vez mais sint&eacute;tico lhe dir&aacute; que viveu ano e pico na casa<br \/>\n    da fam&iacute;lia Sousa Costa. N&atilde;o, isso n&atilde;o lhe dir&aacute;.<br \/>\n    Dir&aacute; que teve um Carlos Alberto Sousa Costa em sua vida, rapazola forte,<br \/>\n    simp&aacute;tico, que se aproxima dela sob a p&eacute;rgola do jardim. Depois<br \/>\n    se afasta com a cabe&ccedil;a bem plantada na gola do su&eacute;ter, vitorioso,<br \/>\n    sereno, como um jovem Siegfried. E s&oacute; isso. J&aacute; tomou posse de<br \/>\n    si mesma. As cita&ccedil;&otilde;es lhe voltam &agrave; mem&oacute;ria. Mais<br \/>\n    oito contos por colocar. E havia de vencer. Pra isso trabalhava sem f&eacute;rias,<br \/>\n    basta de reflex&otilde;es. Wer zuviel bedenkt, wird wenig leisten (Quem pensa,<br \/>\n    n&atilde;o casa), n&atilde;o dissera Schiller no Guilherme Tell? dissera.<br \/>\n    Pois ent&atilde;o? De que vale agora pensar em Carlos?&#8230; Ah&#8230; Bocejava.<br \/>\n    A paisagem se esfriava, resvalando entre morros infantis. A chapada come&ccedil;ava<br \/>\n    se arripiando j&aacute;. Os primeiros cortes escureciam o ambiente do trem.<br \/>\n    Davam impress&atilde;o de crep&uacute;sculos intermitentes&#8230; numa cidade<br \/>\n    escura na Alemanha. Mo&ccedil;o magro, p&aacute;lido, acurvado pelo trato<br \/>\n    quotidiano dos manuscritos&#8230; M&ecirc;s de outubro j&aacute; frio. Ainda frio<br \/>\n    aqui. Fr&auml;ulein veste o j&eacute;rsei verde. Ele voltava da&#8230; do estudo.<br \/>\n    Jantariam&#8230; Alto da Serra. Foi tomar caf&eacute;. Sentou-se de novo. Estava<br \/>\n    tudo arrumado&#8230; Guardara a lou&ccedil;a&#8230; Pusera a toalha&#8230; A maleta? Estava<br \/>\n    ali. Frases espa&ccedil;adas no vag&atilde;o. Algu&eacute;m tosse. Tossia<br \/>\n    sempre&#8230; Resguarde-se, que esta neblina daqui &eacute; perigosa. Iremos passar<br \/>\n    uns dias de f&eacute;rias numa praia&#8230; Volta da Tijuca. O guarda vem pedir<br \/>\n    a passagem. Ela guardava os bilhetes pro concerto do dia seguinte&#8230; Iria<br \/>\n    enxugar a lou&ccedil;a&#8230; Punha a toalha na mesa&#8230; Cantarolou.<\/p>\n<p>Am Holderstrauch, am Holderstrauch <br \/>\n    Wir sassen Hand in Hand: <br \/>\n    Wir waren in der Mainzeit&#8230;<\/p>\n<p>Boceja. Aterro N&ordm; 12. Talvez v&aacute; pro Rio. Estas montanhas s&atilde;o<br \/>\n    admir&aacute;veis.<\/p>\n<p>&#8230; Maienzeit,<br \/>\n    Die gl&uuml;ckdichsten im Land.<\/p>\n<p>A sombra do sabugueiro <br \/>\n    Sent&aacute;vamos de m&atilde;os dadas, <br \/>\n    &Eacute;ramos no m&ecirc;s de maio <br \/>\n    As criaturas mais felizes deste mundo.<\/p>\n<p>O id&iacute;lio acabou. Por&eacute;m se quiserem seguir Carlos mais um poucadinho,<br \/>\n    voltemos pra avenida Higien&oacute;polis. Eu volto.<\/p>\n<p> A casa esteve im&oacute;vel nesse dia. Todos sofriam. Porque Carlos sofria.<br \/>\n    O pr&oacute;prio Sousa Costa sofria, por&eacute;m era homem e voltara a achar<br \/>\n    certa gra&ccedil;a no caso, aquilo passava. Os outros imaginavam que n&atilde;o<br \/>\n    passava. Isto &eacute;: n&atilde;o se preocupavam com esses futuros muito<br \/>\n    condicionais, o importante era o presente. E no presente pirassunungava a<br \/>\n    dor macota de um, todos sofriam. At&eacute; as meninas que, sem saberem porque,<br \/>\n    estavam calmas. A pr&oacute;pria curiosidade m&aacute; de Maria Lu&iacute;sa<br \/>\n    deixara de exercer seus direitos de vida. Uma redoma descera sobre a casa,<br \/>\n    separando aquela gente da maquinaria da terra.<\/p>\n<p> Carlos n&atilde;o sa&iacute;ra do quarto. Dona Laura deixara o filho com<br \/>\n    os solu&ccedil;os, ali pelas oito quando o retirou da janela. Mais de hora<br \/>\n    no mesmo lugar! E o que lhes digo. O almo&ccedil;o foi um pretexto para ela<br \/>\n    subir de novo. Mas Carlos n&atilde;o tinha fome. Ent&atilde;o choraram juntos<br \/>\n    muito tempo. Depois o choro acabou.<\/p>\n<p> Ele p&ocirc;de beber o ch&aacute; que dona Laura preparou.<\/p>\n<p> &Agrave; noitinha apareceu na mesa da janta, que decep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pras meninas! n&atilde;o se via nada! Comeu pouco &eacute; verdade, muito<br \/>\n    digno, sem fraqueza, sem feminilidade. N&atilde;o se via nada, por&eacute;m<br \/>\n    se percebia que estava outro, estava homem. O, bom homem que tinha de ser,<br \/>\n    honesto, forte, vulgar. Que seria mesmo sem Fr&auml;ulein, s&oacute; que um<br \/>\n    pouco mais tarde. Secundava com calma ao que lhe perguntavam os outros meio<br \/>\n    com medo. Lhe espa&ccedil;ava a fala aquele ondular dos v&aacute;cuos interiores.<br \/>\n    Num dado momento Maria Lu&iacute;sa distra&iacute;da botou o cotovelo sobre<br \/>\n    a toalha. Carlos corrigiu o gesto dela, sem irrita&ccedil;&atilde;o mas com<br \/>\n    justi&ccedil;a. Maria Lu&iacute;sa voltou-se pra ele assanhada, por&eacute;m<br \/>\n    aqueles olhos t&atilde;o de quem sabe as coisas, serenos. Maria Lu&iacute;sa<br \/>\n    obedeceu. Que lindo!<br \/>\n    Acabada a janta, ele foi buscar o chap&eacute;u.<\/p>\n<p> &#8212; Vai sair, meu filho!<br \/>\n    &#8212; Andar um pouco.<\/p>\n<p> Caminhou reto pra frente, pelas ruas desconhecidas, n&atilde;o, pelas ruas<br \/>\n    inexistentes, se sentindo marchar na alma. Veio a fadiga. Depois veio o sono,<br \/>\n    e ent&atilde;o voltou. Entrando no quarto se fechou por dentro, que a m&atilde;e<br \/>\n    n&atilde;o viesse amolar&#8230; Sentou pesado sobre a cama. Quereria andar mais.<br \/>\n    N&atilde;o tem sono. Uma desocupa&ccedil;&atilde;o grande. Olhando a luz.<\/p>\n<p> A gente v&ecirc; uma casa&#8230;<\/p>\n<p> Paz.<\/p>\n<p> A casa dorme no sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p>\n    Sousa Costa seriamente preocupado, uma semana j&aacute; e nada de melhorar&#8230;<br \/>\n    O rabicho tinha ido longe por demais. Se fossem pra fazenda?&#8230; Fossem, mas<br \/>\n    fossem todos, porque mandar o filho s&oacute;, n&atilde;o convinha. Sousa<br \/>\n    Costa nunca abandonar&aacute; Carlos nesse estado. E muito menos dona Laura.<br \/>\n    N&atilde;o adiantavam nada, por&eacute;m amor brasileiro &eacute; assim: puxapuxa,<br \/>\n    contrai, estica, mas largar n&atilde;o larga mesmo.<\/p>\n<p> O diabo era aquele fim das &aacute;guas t&atilde;o chuvoso&#8230; Colheita acabada&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o tinha nada que fazer l&aacute;. A chacra n&atilde;o dera nenhum<br \/>\n    resultado. Foram de autom&oacute;vel, o caminho era quase que um lamedo s&oacute;.<br \/>\n    Nem guiando o carro, Carlos teve a apar&ecirc;ncia de quem se divertia. Sujaram<br \/>\n    o autom&oacute;vel, se sujaram&#8230; um desastre! E inda por cima a chuvarada<br \/>\n    na volta! &Eacute;: s&oacute; fazenda mesmo, largueza, cavalos, o rio, as<br \/>\n    cria&ccedil;&otilde;es&#8230; Diverte os rapazes. Mas a fazenda&#8230; N&atilde;o<br \/>\n    tinha nada que fazer l&aacute;. Deixemos de precipita&ccedil;&otilde;es! Melhor<br \/>\n    esperar mais um bocadinho, se n&atilde;o mudar mesmo, ent&atilde;o vamos todos<br \/>\n    pra fazenda&#8230; paci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; Voc&ecirc; carece de dinheiro?<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o, papai.<\/p>\n<p> &#8212; Tome.<\/p>\n<p> &#8212; Mas pra que, papai!<br \/>\n    &#8212; V&aacute; no teatro hoje&#8230; Divirta-se, que diabo!<br \/>\n    Sousa Costa tocara no assunto? N&atilde;o tocou. Tocou. Assim de esguelha<br \/>\n    os pais consolam nossos filhos. Carlos indiferente botou a bolada no bolso.<\/p>\n<p> Obedecer&#8230; Desobedecer&#8230; Obedeceu. Era um s&aacute;bado, o teatro cheio.<br \/>\n    A com&eacute;dia nacional &eacute; muito engra&ccedil;ada, aqueles brasileiros<br \/>\n    gesticulantes que espevitamento! Parece at&eacute; que se esfor&ccedil;am<br \/>\n    por falar as palavras com sutac purrtugu&ecirc;ss, n&atilde;o? E que p&acirc;ndegas!<br \/>\n    O p&uacute;blico ria ria. Lhe deu de sopet&atilde;o uma raiva tal, n&atilde;o<br \/>\n    devia de estar ali, era trai&ccedil;&atilde;o &agrave; saudade dela. Saiu<br \/>\n    no meio do ato, incomodando os vizinhos, sem pedir desculpa.<\/p>\n<p> A noite de outubro esgotado pingava uma garoa fria na gente. Carlos ao at&aacute;.<br \/>\n    Tomou mesmo o chope? N&atilde;o sabe mais, andava. Ah, se soubesse aonde ela<br \/>\n    estava! Cerrava os punhos, batia as pernas um joelho no outro, se machucando.<br \/>\n    An&uacute;ncio luminoso, parou, n&atilde;o podia mais. Jungiu o corpo com<br \/>\n    os bra&ccedil;os &aacute;speros, querendo se partir pelo meio. Aonde ir? Restaurante<br \/>\n    MEIA-NOITE. Pra casa? Pro inferno? Pro acabar duma vez com aquilo! Apertou<br \/>\n    mais o corpo, uma palavrinha saltou: Suic&iacute;dio. O subconsciente, que<br \/>\n    prestidigitador! Tira da carne as coisas mais inesperadas! A gente n&atilde;o<br \/>\n    pensa &#8212; Jornais do Rio! Correio da Manh&atilde;, Pa&iacute;s, Gazeta!&#8230;<br \/>\n    &#8212;n&atilde;o quer, bruscamente espirra uma palavra sem raz&atilde;o.<br \/>\n    Suic&iacute;dio? Carlos n&atilde;o se suicidar&aacute; nunca, sosseguem, a<br \/>\n    palavra pulou sem ser chamada. Pulou. Caiu no ch&atilde;o. Carlos n&atilde;o<br \/>\n    se abaixa pra ergu&ecirc;-la. Quem passa, enxerga aquele rapaz parado na esquina,<br \/>\n    se apertando com os bra&ccedil;os pelo meio do corpo, que posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    esquisita! Foram pensando que era dor de barriga. N&atilde;o era n&atilde;o.<br \/>\n    Era jeito de perguntar, taquarambo, uma resposta j&aacute; sabida:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o. N&atilde;o sabemos aonde Fr&auml;ulein est&aacute;.<\/p>\n<p> No entanto era t&atilde;o f&aacute;cil! Jornais do Rio! Folha da Noite!&#8230;<br \/>\n    Ela estava ali mesmo, perto dele, &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o dele,<br \/>\n    bastando atravessar a rua mais uns passos e portar na Pens&atilde;o Mme. Bianca<br \/>\n    (Familiar). Com cem bagarotes ent&atilde;o, a gente caminha mais um pouco<br \/>\n    e a encontra no largo do Arouche, novinhas, bonitas, &iacute;talo-brasileiras.<br \/>\n    E se n&atilde;o quer gastar os cem, o cinema AVENIDA cerra aos poucos os olhos<br \/>\n    el&eacute;tricos, gente que sai, gente nas portas, bulha de empregados apressados,<br \/>\n    se n&atilde;o quer gastar nem mesmo cinq&uuml;enta, ela est&aacute; ali prontinha-da-silva,<br \/>\n    por qualquer dez mil-r&eacute;is, vinte, nas lojas de terceira ordem. Na rua<br \/>\n    Ipiranga ent&atilde;o, ela espera Carlos em pencas de quatro e cinco em cada<br \/>\n    casa. Est&aacute; por toda a parte, a gente sabe. Carlos n&atilde;o sabe disso.<\/p>\n<p> &#8212; Psiu&#8230; Entra mocinho!<br \/>\n    N&atilde;o escuta. Cabe&ccedil;udo, n&atilde;o quer escutar. Ser&aacute; que<br \/>\n    cultiva a pr&oacute;pria dor? Nunca. S&oacute; que est&aacute; muito maturrango<br \/>\n    no amor, inda n&atilde;o sabe. N&atilde;o sabe que Fr&auml;ulein n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; a governanta alem&atilde; que. Nessa idade, bem entendido. O mesmo<br \/>\n    an&uacute;ncio luminoso outra vez, LAPA TERRENOS A PRESTA&Ccedil;&Otilde;ES,<br \/>\n    Fr&auml;ulein s&atilde;o dois bra&ccedil;os, duas pernas, tronco, seios, qualquer<br \/>\n    cara, cabelos compridos. Nem mesmo cabelos compridos carece mais, Carlos ofega.<br \/>\n    A ladeira ficou cansada, n&atilde;o tem feito esportes. &Eacute; isso: Carlos<br \/>\n    se lembra de que.n&atilde;o tem feito esportes, fazer esportes, ora pra que!&#8230;<br \/>\n    Banza ainda pelas ruas rarefeitas na neblina, viaduto. AO TATUZINHO. T&aacute;xi,<br \/>\n    patr&atilde;o? Ali pelas duas horas, fatigado, sem cansa&ccedil;o, ardendo,<br \/>\n    abre o port&atilde;o da avenida Higien&oacute;polis. Tem que se despir, &eacute;<br \/>\n    fatal.<\/p>\n<p> Escurid&atilde;o.<\/p>\n<p> A colcha branca ondula toda, insone, por mais de meia hora, ver terremoto<br \/>\n    de teatro. Gira dum lado pro outro, se contorce. Vai se desarranjando, cai.<br \/>\n    Carlos principia a correr. Vai correndo cada vez mais r&aacute;pido, depressa<br \/>\n    120 por hora&#8230; Pum! caiu. D&aacute; um pulo na cama, respira ofegante, se<br \/>\n    ergue. Procura a colcha e se cobre outra vez.<\/p>\n<p> Agora est&aacute; dormindo.<\/p>\n<p> A caridade faz milagres, faz. Aldinha entre as pernas do irm&atilde;o, puxando<br \/>\n    a cara dele:<br \/>\n    &#8212; Carlos! voc&ecirc; n&atilde;o foi! Estava t&atilde;o bonito! que engra&ccedil;ado!&#8230;<br \/>\n    Ri riso espetaculoso, sem verdade, s&oacute; pra ver se ele ri tamb&eacute;m.<br \/>\n    Carlos sorri. ia medrosa:<br \/>\n    &#8212; O palha&ccedil;o, sabe? veio num automovinho&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute; palha&ccedil;o, Aldinha! &eacute; Piolim!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Eu que conto! Veio num automovinho, sabe? grande mesmo! Depois pegou<br \/>\n    na buzina&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Primeiro ele levou um tombo, Aldinha!<br \/>\n    &#8212; Um tomb&atilde;o! Engra&ccedil;ado, n&atilde;o? Caiu de perna pra<br \/>\n    cima&#8230; Laurita! corno foi que ele falou!<br \/>\n    &#8212; Viva a Rep&uacute;blica!<br \/>\n    &#8212; &Eacute;! Depois ele pegou na buzina, buzinou, buzinou, sabe? e a<br \/>\n    buzina n&atilde;o buzinava! Ent&atilde;o Piolim espiou dentro da buzina&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o foi assim!<br \/>\n    &#8212; Foi!<br \/>\n    &#8212; Primeiro o dono do circo ficou parado no meio do circo&#8230;.<\/p>\n<p> Carlos brinca os bei&ccedil;os vadios na cabeleira de Aldinha. Esta agora<br \/>\n    escuta, vivendo-o o caso do palha&ccedil;o. Pronta pra corrigir Laurita que:<br \/>\n    &#8212;&#8230; ent&atilde;o Piolom amontou de novo no automovinho&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; T&atilde;o bonito, Carlos! Olhe! deste tamanho!<br \/>\n    &#8212;&#8230; e queria passar mas o dono de circo estava parado na frente&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ele n&atilde;o via, Laurita!<br \/>\n    &#8212; Pois &eacute;, o&#8230;<\/p>\n<p> &#8212;&#8230; o dono do circo estava olhando do outro lado. Ent&atilde;o o<br \/>\n    palha&ccedil;o, sabe? apertou assim na buzina e a buzina n&atilde;o buzinava.<br \/>\n    Ent&atilde;o ele foi buscar o anzol e enfiou ele dentro da buzina, imagine<br \/>\n    o que que ele pescou! um p&eacute; de botina! velha mesmo! ihih&#8230; Ent&atilde;o<br \/>\n    ele cal&ccedil;ou a botina no p&eacute;. Tinha uma meia toda escangalhada<br \/>\n    e&#8230; Como &eacute; mesmo que ele gritava?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Arre, Aldinha! Viva a Rep&uacute;blica!<br \/>\n    &#8212; Viva a Rep&uacute;blicaaa&#8230;! e saiu no automovinho, sabe?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; O dono.<\/p>\n<p> &#8212; do circo levou um tombo t&atilde;o engra&ccedil;ado! sujou toda<br \/>\n    a casaca dele! E Piolim foi-se embora muito contente, dizendo adeus pra gente<br \/>\n    com o lencinho amarelo, tinha tamb&eacute;m ih!&#8230; um cachorrinho, sabe?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Minha filha, voc&ecirc; est&aacute; caceteando seu irm&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o est&aacute;, mam&atilde;e. Deixe ela.<\/p>\n<p> E as meninas contam uma por&ccedil;&atilde;o de casos engra&ccedil;ados.<br \/>\n    Carlos sorri. Passeia os bei&ccedil;os desempregados na cabeleira da irm&atilde;.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o foi assim, Aldinha!<br \/>\n    &#8212; Foi! Deixe eu contar! A japonesa, Carlos?&#8230;<\/p>\n<p> Quando aquilo acaba, Carlos se ressente. O flautim, o reconto, a anedota<br \/>\n    Isso afasta. Afasta o que? N&atilde;o sei. Carlos n&atilde;o quer afastar<br \/>\n    coisa nenhuma. Aceita corajoso toda dor. Por&eacute;m que pena a pararaca<br \/>\n    ter parado de falar!&#8230; O flautim o reconto, a anedota&#8230; N&atilde;o tem d&uacute;vida:<br \/>\n    isso afasta. As imagens da saudade entulham tanto o caminho!&#8230; Varra isso<br \/>\n    da&iacute;! Tenho pressa e a vida inteira ainda por viver&#8230;<\/p>\n<p>\n    Carlos sentiu que j&aacute; estava de luto aliviado. Ao abatimento surdo e<br \/>\n    desespero dos primeiros dias, continuara uma tristeza cheia de imagem de Fr&auml;ulein.<br \/>\n    Quer dizer que a amante principiava a ser idealizada. Breve se chamaria Nize,<br \/>\n    Marila, Salut&aacute;ris Porta e outros nomes complicados. N&atilde;o, isso<br \/>\n    pra Carlos &eacute; imposs&iacute;vel. Breve Fr&auml;ulein ir&aacute; pra<br \/>\n    esse s&oacute;t&atilde;o da vida, quartinho empoeirado, aonde a gente joga<br \/>\n    os trastes in&uacute;teis. At&eacute; desagrad&aacute;veis. Mas por agora<br \/>\n    ela apenas fora viver num quarto andar. Sem elevador. Carlos j&aacute; carecia<br \/>\n    de procurar a imagem dela muito alto.<\/p>\n<p> E vinha sempre acompanhada de qualquer coisa cacete: o horror do filho,<br \/>\n    a mesquinhez dela, a exig&ecirc;ncia de casamento, do que escapei! teria mesmo<br \/>\n    recebido dinheiro?&#8230; N&atilde;o recebeu. Ent&atilde;o a imagem long&iacute;nqua<br \/>\n    se aproximava apressada. Adquiria mais tra&ccedil;os, se corporizava em representa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&iacute;tida. Bel&iacute;ssima, enriquecida, ai desejo! E n&atilde;o desagradava<br \/>\n    mais. Fr&auml;ulein, meu eterno amor!&#8230;<\/p>\n<p> Talvez mesmo at&eacute; nesses momentos ele intransitivamente pedisse qualquer<br \/>\n    corpo&#8230; Por&eacute;m s&oacute; tinha pr&aacute;tica dum, n&atilde;o amarei<br \/>\n    mais ningu&eacute;m! E o corpo de Fr&auml;ulein vinha, sem atributos morais,<br \/>\n    sem exig&ecirc;ncia de casamento, sem filhos, sublime. Carlos aos poucos se<br \/>\n    exaltava. O ofego dolorido chamava-o &agrave; realidade. Severamente reprimia<br \/>\n    envergonhado a tend&ecirc;ncia para as torpezas e procurava de novo a pr&oacute;pria<br \/>\n    tristura, buscando outra vez no quarto andar aquela Fr&auml;ulein que&#8230; j&aacute;<br \/>\n    muita coisa de convencional nessa tristura.<\/p>\n<p> E ele sentiu sem se confessar a si mesmo, que chegara o momento de principiar<br \/>\n    esquecendo. Meteu-se na manh&atilde;, procurou companheiro de esporte foram<br \/>\n    treinar futebol. Na avenida Higien&oacute;polis o telefonema avisou que ele<br \/>\n    almo&ccedil;ava com o Roberto. Mais um companheiro se juntara a eles. Passaram<br \/>\n    a tarde no cinema. Carlos fumou, pagou o chope, sorriu. Quase riu. De sopet&atilde;o<br \/>\n    falou alto. Os amigos namoravam. Carlos por dentro se riu dos plat&ocirc;nicos<br \/>\n    tolos! grelar assim e mais nada!&#8230; tolos. Carlos n&atilde;o namorar&aacute;.<\/p>\n<p> Na avenida Higien&oacute;polis n&atilde;o conheceu mais a casa nem ningu&eacute;m<br \/>\n    era uma gente antiga que voltava. E porque forte, sem precis&atilde;o de carinhos,<br \/>\n    a m&atilde;e, as irm&atilde;s se tornaram in&uacute;teis pra ele. Jantou se<br \/>\n    esfor&ccedil;ando por conservar jeito triste. As conveni&ecirc;ncias muitas<br \/>\n    vezes prolongam a infelicidade. Julgou mesmo a Prop&oacute;sito recordar a<br \/>\n    imagem de Fr&auml;ulein. Teve que subir quatro lances de escadaria intermin&aacute;vel,<br \/>\n    se cansou. Pudera, correra tanto de manh&atilde;!&#8230; se tivesse avan&ccedil;ado<br \/>\n    um pouco mais, fazia o gol&#8230; Tom Mix, que admir&aacute;vel!&#8230; O dia j&aacute;<br \/>\n    lhe interessava bem mais que o passado.<\/p>\n<p>\n    Vinte e duas horas.<\/p>\n<p> Carlos volta da rua Ipiranga.<\/p>\n<p>\n    &#8212; Mam&atilde;e! olhe Carlos!&#8230;<\/p>\n<p> O corso da Avenida Paulista se esparramava no auge. As quatro filas de autom&oacute;veis<br \/>\n    se entrecruzavam de manso, espirravam na tardinha as serpentinas. Lu&iacute;s<br \/>\n    j&aacute; abandonara outra vez o lugar junto do motorista.<\/p>\n<p> &#8212; Mais uma, Lu&iacute;s!<br \/>\n    Passava a serpentina para a irm&atilde;.<\/p>\n<p> &#8212; Por que voc&ecirc; saiu de junto do chauffeur? Voc&ecirc; tem alguma<br \/>\n    coisa? &#8212;&#8230; tenho nada, mam&atilde;e! Voc&ecirc; sempre pensa que estou<br \/>\n    doente!&#8230; Estava bem. Benz&iacute;ssimo. Fr&auml;ulein entre os dois irm&atilde;os,<br \/>\n    na capota descida da marmon, recebeu nos olhos a cara cheia de confiss&otilde;es<br \/>\n    medrosas do Lu&iacute;s. Abaixou recatada o olhar.<\/p>\n<p> &#8212; Mais uma, Lu&iacute;s! Lu&iacute;s, mais uma! que lerdeza. Me d&ecirc;<br \/>\n    um ma&ccedil;o logo!<br \/>\n    &#8212; Tamb&eacute;m n&atilde;o brinca, Fr&auml;ulein?<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o gosto muito desses brinquedos. Prefiro conversar.<\/p>\n<p> Olhou-o sorrindo. Por&eacute;m como pintara no sorriso quase a m&aacute;scara<br \/>\n    do desejo, tornou a baixar as p&aacute;lpebras serenas. Varreu com elas o<br \/>\n    impudor e ficou inocente. Lu&iacute;s se chegara um bocadinho mais ou teve<br \/>\n    a inten&ccedil;&atilde;o de. Muito feliz por descobrir essa correspond&ecirc;ncia.<br \/>\n    Tamb&eacute;m n&atilde;o gosta desses brinquedos, &aacute;speros, fazem cansa&ccedil;o<br \/>\n    na gente. &Eacute; tantas pessoas desconhecidas. E t&atilde;o melhor dentro<br \/>\n    de casa, onde a gente se conhece bem. Tamb&eacute;m preferia conversar. Com<br \/>\n    ela. Por&eacute;m como n&atilde;o tinha nada que falar, desenrolava envergonhadamente<br \/>\n    uma serpentina.<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein olhava-o, puxava-lhe da l&iacute;ngua, fornecia assuntos,<br \/>\n    confian&ccedil;a em si mesmo. Lu&iacute;s progredia, por&eacute;m lentamente,<br \/>\n    quase nada. E quando ela, no pretexto amoroso, agarrou a m&atilde;o dele:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o estrague assim a serpentina, mau!<br \/>\n    Lu&iacute;s j&aacute; n&atilde;o retirou a m&atilde;o. S&oacute; que ficou<br \/>\n    branco, tr&ecirc;mulo, se afoitando ao gosto do contacto. Se pusera a espiar<br \/>\n    muito atento a cadeia dos autos, n&atilde;o via nada, plum! plum! cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pulando no peito. Fr&auml;ulein retirou a m&atilde;o. Trouxera consigo a fita<br \/>\n    desenrolada da serpentina. Lu&iacute;s docemente, que gostosura! puxava. Fr&auml;ulein<br \/>\n    puxava. A serpentina se desenrolando. T&atilde;o divino o prazer que ele sentiu<br \/>\n    os olhos &uacute;midos.<\/p>\n<p> Fr&auml;ulein pensava, relando a vista pela multid&atilde;o. Lu&iacute;s<br \/>\n    lhe desagradava. N&atilde;o era o tipo dela. Nenhum desses brasileiros, ali&aacute;s&#8230;<br \/>\n    Queria algu&eacute;m de puro, de humilde, paciente, estudioso, pesquisador.<br \/>\n    Chegaria da Biblioteca, da Universidade&#8230; Qualquer edif&iacute;cio grande<br \/>\n    de pensamento, cheio de deuses dispon&iacute;veis. Deporia os livros&#8230; cadernos<br \/>\n    de notas? sobre a toalha de riscado&#8230; Lhe dava o beijo na testa&#8230; Todo de<br \/>\n    preto, alfinete de ouro na gravata&#8230; Nariz longo, muito fino e bem ra&ccedil;ado.<br \/>\n    Ali&aacute;s todo ele duma brancura transparente&#8230; E a mancha irregular do<br \/>\n    sangue nas ma&ccedil;&atilde;s&#8230; Tossiria arranjando os &oacute;culos sem<br \/>\n    aro&#8230; Tossia sempre&#8230; Jantariam quase sem falar nada&#8230;. Serpentinas paulistas<br \/>\n    a dois e quinhentos! Dois e quinhentos! A Pastoral Iriam no dia seguinte ouvir<br \/>\n    a Pastoral&#8230; Ele se punha no estudo&#8230; Ela arranjava de novo a&#8230; algu&eacute;m<br \/>\n    lhe chamou os olhos, conhecido, Carlos? era Carlos com as irm&atilde;s na<br \/>\n    fiat. Instintivamente ela atirou uma serpentina. A fita rebentou.<\/p>\n<p> Deu um gritinho horrorizada, acertara na testa dele, podia t&ecirc;-lo ferido&#8230;<br \/>\n    Carlos olhou. Mandou-lhe um gesto r&aacute;pido de cabe&ccedil;a, quase sauda&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    E continuou brincando com a holandesa. Fr&auml;ulein se doeu, tomou com o<br \/>\n    baque seco nas entranhas. O deus soltou um gemido que nem urro. Esses deuses<br \/>\n    do norte s&atilde;o muito cheios de exageros. Carlos n&atilde;o fez por mal!<br \/>\n    foi mostrar que reconhecia e machucou. Fr&auml;ulein virando o rosto pra tr&aacute;s,<br \/>\n    seguiu-o com os olhos, quase amorosa mas j&aacute; por&eacute;m reposta no<br \/>\n    dom&iacute;nio de si mesma. Estava muito direito assim! E se venceu completamente<br \/>\n    com o racioc&iacute;nio, numa esp&eacute;cie de felicidade. Estava muito certo<br \/>\n    assim. Ele amaria muito aquela mo&ccedil;a. Era bonita. Rica, se via. Carlos<br \/>\n    casaria bem, na mesma classe. Os versos de Hermann e Dorot&eacute;ia lhe confirmaram<br \/>\n    o pensamento:<\/p>\n<p>Mehr wohlangestattet moch ich im Hause die Braut sehn;<br \/>\n    Denn die Arme wird doch nur zulezt vom Manne verachtet,<br \/>\n    Und er h&auml;lt sie ais Magd, die ais Magd mit dem B&uuml;ndel hereinkam.<\/p>\n<p> Gostaria que a noiva trouxesse mais exoval;<br \/>\n    Pois a que se apresenta pobremente acaba desprezada pelo marido,<br \/>\n    E ele trata como criada a noiva que chega com uma trouxinha de criada.<\/p>\n<p>O verso seguinte veio, sem ela querer: Ungerecht bleiben die M&auml;nner&#8230;&sup1;<br \/>\n    repeliu-o. O mundo &eacute; tal como &eacute;. A gente deve aceitar sem revolta.<br \/>\n    Carlos casar&aacute; rico. Perfeitamente.<\/p>\n<p> 1Os homens s&atilde;o muito injustos&#8230;<\/p>\n<p>E uma como&ccedil;&atilde;o materna se desencadeou no corpo dela, nem via<br \/>\n    mais Carlos, os olhos batendo de auto em auto pela gente colorida, Carlos&#8230;<br \/>\n    Jos&eacute;&#8230; Alfredo j&aacute; casado&#8230; Antoninho tamb&eacute;m j&aacute;<br \/>\n    casado&#8230; E, mein Gott, tantos!&#8230; tomou-a maravilhosa alucina&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Estavam todos por ali amando. Felizes. Habil&iacute;ssimos. Familiares. Ela<br \/>\n    era m&atilde;e de amor! Estava at&eacute; bonita. M&atilde;e de amor! M&atilde;e&#8230;<\/p>\n<p> Lu&iacute;s muito sozinho nos seus dezessete anos medrosos, esguio pela<br \/>\n    desilus&atilde;o, se queixou:<br \/>\n    &#8212; &Eacute; Carlos&#8230;<\/p>\n<p> &#8230; de amor!&#8230; Ela abriu os olhos da vida pra aquele. Ininteligente. Saramb&eacute;.<br \/>\n    Batido, sem mesmo vivacidade interior. Decididamente Lu&iacute;s lhe desagradava,<br \/>\n    e Fr&auml;ulein n&atilde;o sentiu nenhuma vontade de continuar. Por&eacute;m<br \/>\n    como ele apenas esperasse um gesto dela pra recome&ccedil;ar o aprendizado,<br \/>\n    Fr&auml;ulein molemente buscou entre as m&atilde;os dele a fita da serpentina.<br \/>\n    O gesto preparado aproximara os corpos. Ondula&ccedil;&atilde;o macia de auto<br \/>\n    &eacute; pretexto que amantes n&atilde;o devem perder. Descansando um pouco<br \/>\n    mais pesadamente o ombro no peito dele, Fr&auml;ulein se deixou amparar. Ensinava<br \/>\n    assim o mais doce, mais suave dos gestos de prote&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>\n    NOTA<\/p>\n<p>Este ditado vai ser feito com um Lied de Heine, que traduzi tamb&eacute;m<br \/>\n    metrificado, me dando por divertimento ver se conseguia incluir o assunto<br \/>\n    da can&ccedil;&atilde;o em versos ainda menores e mais sint&eacute;ticos que<br \/>\n    os alem&atilde;es.<\/p>\n<p> Comunicando a tradu&ccedil;&atilde;o a Manuel Bandeira, ele n&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    me advertiu que esse mesmo Lied j&aacute; fora traduzido por Gon&ccedil;alves<br \/>\n    Dias e publicado, como me fez o favor de, por sua vez, traduzir a can&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    no mesmo ritmo de seis s&iacute;labas empregado por Heine. Embora modestamente<br \/>\n    s&oacute; pretendesse essa maior identidade r&iacute;tmica, n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    d&uacute;vida que a tradu&ccedil;&atilde;o de Manuel Bandeira &eacute; a que<br \/>\n    mais se aproxima do original.<\/p>\n<p> Aqui v&atilde;o as tr&ecirc;s tradu&ccedil;&otilde;es:<\/p>\n<p>Peixeira linda, <br \/>\n    Do barco vem; <br \/>\n    Senta a meu lado, <br \/>\n    Chega-te bem.<\/p>\n<p>Ouves meu peito? <br \/>\n    Porque assustar! <br \/>\n    Pois n&atilde;o te fias <br \/>\n    Ao di&aacute;rio mar?<\/p>\n<p>Como ele, eu tenho <br \/>\n    Mar&eacute; e tuf&atilde;o, <br \/>\n    Mas fundas p&eacute;rolas <br \/>\n    No cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>\n    Tradu&ccedil;&atilde;o de Gon&ccedil;alves Dias:<\/p>\n<p>Vem, &oacute; bela gondoleira! <br \/>\n    Ferra a vela, &#8212;junto a mim <br \/>\n    Te assenta&#8230; Quero as m&atilde;os dadas.<\/p>\n<p> E conversemos assim.<\/p>\n<p>P&otilde;e ao meu peito a cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> N&atilde;o tens de que recear.<\/p>\n<p> Que sem temor, cada dia, <br \/>\n    Te fias do crespo mar!<br \/>\n    Minha alma semelha o pego, <br \/>\n    Tem mar&eacute;, tormenta e onda; <br \/>\n    Mas finas per&#8217;las encontra <br \/>\n    Nos seus abismos a sonda.<\/p>\n<p>Tradu&ccedil;&atilde;o de Manuel Bandeira:<\/p>\n<p>Vem, linda peixeirinha, <br \/>\n    Tr&eacute;gua aos anz&oacute;is e aos remos! <br \/>\n    Senta-te aqui comigo, <br \/>\n    M&atilde;o dadas conversemos.<\/p>\n<p>Inclina a cabecinha <br \/>\n    E n&atilde;o temas assim: <br \/>\n    N&atilde;o te fias do oceano? <br \/>\n    Pois fia-te de mim!<\/p>\n<p>Minh&#8217;alma, como o oceano, <br \/>\n    Tem tuf&otilde;es, correntezas, <br \/>\n    E muitas lindas p&eacute;rolas <br \/>\n    Jazem nas profundezas.<\/p>\n<p>\n    M&Aacute;RIO DE ANDRADE &#8212; POSF&Aacute;CIO IN&Eacute;DITO (1926?)<\/p>\n<p>\n    Postfacio. A l&iacute;ngua que usei. Veio escutar melodia nova. Ser melodia<br \/>\n    nova n&atilde;o quer dizer feia. Carece primeiro a gente se acostumar. Procurei<br \/>\n    me afei&ccedil;oar ao meu falar e agora que j&aacute; estou acostumado a t&ecirc;-lo<br \/>\n    escrito gosto muito e nada me fere o ouvido j&aacute; esquecido da toada lusitana.<br \/>\n    N&atilde;o quis criar l&iacute;ngua nenhuma. Apenas pretendi usar os materiais<br \/>\n    que a minha terra me dava, minha terra da Amazonas ao Prata. Fugi cuidadosamente<br \/>\n    de escrever paulista empregando termos usados em diferentes regi&otilde;es<br \/>\n    do Brasil e modismos de sintaxe ou de express&atilde;o mais ou menos gerais<br \/>\n    dentro do pa&iacute;s. Certamente que muito errei, por&eacute;m isso n&atilde;o<br \/>\n    deve ser muito desculpado pra quem se mete num novo roteiro adonde ningu&eacute;m<br \/>\n    inda nunca passou! A gente s&oacute; tem at&eacute; agora livros regionalistas<br \/>\n    como linguagem. Quanto aos grand&otilde;es, os que sabem, n&atilde;o v&ecirc;<br \/>\n    que t&ecirc;m coragem de se sacrificar pelos outros, fa&ccedil;am o que eu<br \/>\n    digo vivem a falar, dizendo pr&oacute;s outros abrasileirarem a l&iacute;ngua<br \/>\n    por&eacute;m eles mesmo vivem na cola de quanto Figueiredino chupamel nos<br \/>\n    vem da Lisboa gramatical. Eu tenho certeza de conhecer suficientemente a l&iacute;ngua<br \/>\n    portuguesa pra escrever nela sem batatas e um suficiente estilo. Eu desafio<br \/>\n    quem quer que seja a me mostrar batatas ling&uuml;&iacute;sticas na Escrava,<br \/>\n    aonde atingi na prosa portuguesa uma solu&ccedil;&atilde;o que me satisfaz.<br \/>\n    Pois abandonei tudo e parti ignorante por&eacute;m com coragem, trope&ccedil;ando,<br \/>\n    me atrapalhando, tentando e tentarei sempre at&eacute; o fim. &#8212; A necessidade<br \/>\n    de empregar os brasileirismos vocabulares n&atilde;o s&oacute; no seu exato<br \/>\n    sentido por&eacute;m j&aacute; no sentido translato, metaf&oacute;rico, talqual<br \/>\n    eu fiz. A apropria&ccedil;&atilde;o subconsciente das palavras, pra que elas<br \/>\n    tenham realmente uma fun&ccedil;&atilde;o expressiva caracteristicamente nacional.<\/p>\n<p> &#8212; Tem tamb&eacute;m o sabor in&eacute;dito que este linguajar traz<br \/>\n    pro livro. E que fez pensar que com tal maneira qualquer novo livro meu no<br \/>\n    g&ecirc;nero, e qualquer tentativa de outro que coincidisse com a minha traria<br \/>\n    a monotonia e mostraria a pobreza e a pequena quantidade relativa dos modismos<br \/>\n    e brasileirismos vocabulares. Seria um erro pueril de vis&atilde;o cr&iacute;tica.<br \/>\n    N&atilde;o tive a m&iacute;nima inten&ccedil;&atilde;o de procurar o curioso<br \/>\n    nem o ineditismo depende de mim. Trata-se mesmo de acabar o mais cedo poss&iacute;vel<br \/>\n    com o ineditismo desses processos e de outros do mesmo g&ecirc;nero pra que<br \/>\n    todas essas express&otilde;es brasileiras, quer vocabulares, quer gramaticais<br \/>\n    passem a ser de uso comum passem a ser despercebidas na escritura liter&aacute;ria<br \/>\n    pra que ent&atilde;o possam ser estudadas, codificadas, catalogadas, escolhidas<br \/>\n    pra forma futura duma gram&aacute;tica e l&iacute;ngua liter&aacute;ria brasileiras.<br \/>\n    Ningu&eacute;m me tirar&aacute; a Convic&ccedil;&atilde;o, arraigada j&aacute;<br \/>\n    entre muitos dissabores, brinquedinhos depreciativos de amigos, diz-que e<br \/>\n    falar mal por tr&aacute;s e injusti&ccedil;as, que se muitos tentarem tamb&eacute;m<br \/>\n    o que eu tento (note-se que n&atilde;o digo &quot;como eu tento&#8221;) muito<br \/>\n    breve se organizar&aacute; uma maneira brasileira de expressar, muito pitoresca,<br \/>\n    psicologiqu&iacute;ssima na sua lentid&atilde;o, nova do&ccedil;ura e variedade,<br \/>\n    novas melodias bem nascidas da terra, e da ra&ccedil;a do Brasil. Essa express&atilde;o<br \/>\n    &eacute; muito prov&aacute;vel que talvez ainda passe sem que ela se diferencie<br \/>\n    suficientemente do portugu&ecirc;s a ponto de se formar uma nova l&iacute;ngua.<br \/>\n    N&atilde;o sei. E se tivermos uma l&iacute;ngua brasileira e prov&aacute;vel<br \/>\n    tamb&eacute;m que a diferen&ccedil;a entre ela e a portuguesa nunca seja maior<br \/>\n    que a que tem entre esta e a espanhola. O importante, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    ali&aacute;s a vaidadinha de ter l&iacute;ngua diferente, o importante &eacute;<br \/>\n    se adaptar, ser l&oacute;gico com a sua terra e o seu povo. Falam que pra<br \/>\n    que tenham literatura diferente carece que tenha l&iacute;ngua diferente&#8230;<br \/>\n    &Eacute; uma semiverdade. Pra que tenha literatura diferente &eacute; so preciso<br \/>\n    que ela seja l&oacute;gica e concordante com terra e povo diferente. O resto<br \/>\n    sim &eacute; literatura importada s&oacute; com certas variantes fatais. &Eacute;<br \/>\n    literatura morta ou pelo menos indiferente pro povo que ela pretendeu representar.<br \/>\n    &#8212; O problema sobre o lugar-comum pra estabelecer formas fixas. Empreguei<br \/>\n    lugares-comuns propositadamente. Bem entendido: se trata de lugares-comuns<br \/>\n    modismos brasileiros expressionais, e n&atilde;o lugares-comuns universais,<br \/>\n    frios polares, amores ardentes e por a&iacute;.<\/p>\n<p>\n    &#8212; Nota da edi&ccedil;&atilde;o: O &quot;Postf&aacute;cio&quot; foi escrito<br \/>\n    por M&aacute;rio de Andrade nas &uacute;ltimas p&aacute;ginas de um caderno<br \/>\n    pautado (23 x 16,5 cm) onde estava certamente a parte final de Amar, verbo<br \/>\n    intransitivo. Destruindo os originais depois do livro publicado, como costumava<br \/>\n    fazer, o romance (p. 295-300, por ele numeradas e escritas a l&aacute;pis),<br \/>\n    rabiscando esta. (Originais &#8212; Arquivo M&aacute;rio de Andrade &#8212;<br \/>\n    IEB-USP).<\/p>\n<p>\n    A PROP&Oacute;SITO DE AMAR, VERBO INTRANSITIVO &#8212; 1927<\/p>\n<p>\n    Sr. redator.<\/p>\n<p>Agora que as melhores penas da cr&iacute;tica liter&aacute;ria j&aacute;<br \/>\n    falaram sobre Amar, verbo intransitivo, todos pelo Jornal, pe&ccedil;o acolhida<br \/>\n    para certas explica&ccedil;&otilde;es pessoais.<\/p>\n<p> Eu sempre pus reparo no perigo que os meus pref&aacute;cios traziam esclarecendo<br \/>\n    por demais os meus trabalhos. Com o pref&aacute;cio de Paulic&eacute;ia toda<br \/>\n    a gente se botou falando em Desvairismo se esquecendo da li&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    verdadeira do pref&aacute;cio: aquela advert&ecirc;ncia de que o Desvairismo<br \/>\n    se acabara com o livro e nem eu mesmo continuava praticando-o. Como de fato<br \/>\n    n&atilde;o pratiquei em mais nenhuma das minhas obras.<\/p>\n<p> Por&eacute;m o que acabou me desgostando mesmo dos pref&aacute;cios foi<br \/>\n    o caso do Losango caqui. Escrevi aquela advert&ecirc;ncia e em geral os que<br \/>\n    falaram do livro se limitaram a glosar o que eu falara, quando justamente<br \/>\n    o papel do cr&iacute;tico &eacute; tamb&eacute;m determinar quanto o artista<br \/>\n    n&atilde;o fez aquilo que pretendeu e o quanto ele n&atilde;o &eacute; aquilo<br \/>\n    que julga ser. Enfim: o melhor papel do cr&iacute;tico, desde que o artista<br \/>\n    seja digno deste nome, &eacute; repor o pobre do sonhador na consci&ecirc;ncia<br \/>\n    de si, mesmo.<\/p>\n<p> Uma vez desgostado dos pref&aacute;cios, tirei o que estava apenso a Amar,<br \/>\n    verbo intransitivo e me parece que o desastre foi maior.<\/p>\n<p> N&atilde;o posso me queixar de incompreendido n&atilde;o, por&eacute;m,<br \/>\n    &eacute; certo que fui transcompreendido, se posso falar assim.<\/p>\n<p> O livro est&aacute; gordo de freudismo, n&atilde;o tem d&uacute;vida. E<br \/>\n    &eacute; uma l&aacute;stima os cr&iacute;ticos terem acentuado isso, quando<br \/>\n    era uma cousa j&aacute; estigmatizada por mim dentro do pr&oacute;prio livro.<br \/>\n    Agora o interessante seria estudar a maneira com que transformei em lirismo<br \/>\n    dram&aacute;tico a m&aacute;quina fria de um racionalismo cient&iacute;fico.<br \/>\n    Esse jogo est&eacute;tico assume ent&atilde;o particular import&acirc;ncia<br \/>\n    na p&aacute;gina em que &quot;inventei&quot; o crescimento de Carlos, seguindo<br \/>\n    passo a passo a doutrina freudiana.<\/p>\n<p> Mas isso inda n&atilde;o &eacute; nada. O que eu lastimo de deveras &eacute;<br \/>\n    que pelo menos de igual import&acirc;ncia ao freudismo do livro s&atilde;o<br \/>\n    as doutrinas de neo-vitalismo que est&atilde;o nele. Pois isso ningu&eacute;m<br \/>\n    n&atilde;o viu.<\/p>\n<p> Na pr&oacute;pria p&aacute;gina do crescimento de Carlos inculco visivelmente<br \/>\n    que vai ser honesto em vida por causa das rea&ccedil;&otilde;es fisiol&oacute;gicas.<\/p>\n<p> A honestidade dele &eacute; uma secre&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica.<br \/>\n    Pentear sem espelho na frente faz o repartido sair torto e isso deixa os cabelos<br \/>\n    doendo.<\/p>\n<p> Carlos carece de espelho e tem vergonha de se olhar nele falo eu no meu<br \/>\n    jogo de imagens, depois de qualquer a&ccedil;&atilde;o desonesta. Por isso,<br \/>\n    se conserva honesto para poder olhar no espelho. Honesto por &quot;rea&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    capilar&quot;.<\/p>\n<p> O fen&ocirc;meno biol&oacute;gico provocando a individualidade psicol&oacute;gica<br \/>\n    de Carlos &eacute; a pr&oacute;pria ess&ecirc;ncia do livro.<\/p>\n<p> Tanto assim que eu constato dentro do pr&oacute;prio livro que todo o sucedido<br \/>\n    para o menino foi absolutamente in&uacute;til e que Carlos seria o que vai<br \/>\n    ser, sucedesse o que sucedesse. Simplesmente &quot;porque &eacute; um indiv&iacute;duo<br \/>\n    normal que nem am&iacute;dalas inchadas n&atilde;o teve em pi&aacute;&quot;.<\/p>\n<p> Por&eacute;m n&atilde;o me conservei apenas nesse naturalismo que repudio,<br \/>\n    n&atilde;o. Embora n&atilde;o tenha acentuado o problema da perman&ecirc;ncia<br \/>\n    extra-biol&oacute;gica das id&eacute;ias coordenadoras do fen&ocirc;meno humano,<br \/>\n    creio que n&atilde;o &eacute; imposs&iacute;vel perceber que Carlos se rege<br \/>\n    por ideais de justi&ccedil;a, de religi&atilde;o, de sociabilidade, de verdade,<br \/>\n    etc. que n&atilde;o s&atilde;o simples fenomenologia biol&oacute;gica mas<br \/>\n    transcendem desta. Tanto assim que na conviv&ecirc;ncia de Carlos-corpo com<br \/>\n    Carlos-esp&iacute;rito, este ensina para o outro conceito permanente de Deus,<br \/>\n    de Justi&ccedil;a, de Ci&ecirc;ncia e de Sociedade.<\/p>\n<p> E ainda estava nas minhas inten&ccedil;&otilde;es fazer uma s&aacute;tira<br \/>\n    dolorosa para mim e para todos os filhos do tempo, a essa profundeza e agudeza<br \/>\n    de observa&ccedil;&atilde;o psicol&oacute;gica dos dias de agora. Aqueles<br \/>\n    que est&atilde;o magnetizados pelo &quot;sentimento tr&aacute;gico da vida&quot;<br \/>\n    e percebem for&ccedil;as exteriores, aqueles que est&atilde;o representados<br \/>\n    pelo fatalismo mec&acirc;nico maquinai do indiv&iacute;duo moderno, tal como<br \/>\n    Charles Chaplin, o realiza; aqueles que atravessaram o escalpelo de Freud<br \/>\n    e se sujeitaram a essa forma dubitativa de auto-analise de Proust; aqueles<br \/>\n    que por tanta fineza, tanta sutileza, tanta infinidade de rea&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    psicol&oacute;gicas contradit&oacute;ria? n&atilde;o conseguem mais perceber<br \/>\n    a verdade de si mesmos. Todos esses caem na gargalhada horr&iacute;vel destes<br \/>\n    dias, caem no diletantismo e nem indagam de mais nada porque &quot;ningu&eacute;m<br \/>\n    o saber&aacute; jamais&quot;. Pois ent&atilde;o: s&aacute;tira pra esses e<br \/>\n    aqueles! E dando como prot&oacute;tipo de beleza humana o meu inventado Carlos,<br \/>\n    indiv&iacute;duo puro, indiv&iacute;duo que se sujeita &agrave;s grande normas,<br \/>\n    eu creio que pude coroar a s&aacute;tira com uma evoca&ccedil;&atilde;o que<br \/>\n    vai al&eacute;m dos simples valores hedon&iacute;sticos.<\/p>\n<p> Aqui conv&eacute;m maturar numa cousa importante: parece que eu dou para<br \/>\n    minha arte uma efici&ecirc;ncia moral. N&atilde;o tem d&uacute;vida que minha<br \/>\n    arte &eacute; moral no sentido largo em que ela participa do vital e principalmente<br \/>\n    do vital humano.<\/p>\n<p> Por&eacute;m, estes costumei s&atilde;o &quot;artis-moralista&quot;. A arte<br \/>\n    &eacute; sempre moral enquanto lida com os costumes. Por&eacute;m, estes costumes<br \/>\n    s&atilde;o &quot;art&iacute;sticos&quot;, quero dizer, s&atilde;o brinquedos<br \/>\n    puros, desinteressados imediatamente, jogando com os dados vitais: sejam elementos<br \/>\n    sensoriais, sons, volumes, movimentos, cores, etc; sejam elementos ps&iacute;quicos,<br \/>\n    os sentimentos, o amor, hero&iacute;smo, c&oacute;lera, pavor, paulifica&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    At&eacute; paulifica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Confesso que com o elemento paulifica&ccedil;&atilde;o inda n&atilde;o publiquei<br \/>\n    nenhum trabalho &quot;propositalmente&quot;. Mas j&aacute; tenho alguns na<br \/>\n    gaveta. Por&eacute;m, &eacute; f&aacute;cil de provar que em v&aacute;rias<br \/>\n    p&aacute;ginas minhas publicadas procurei despertar nos meus leitores os sentimentos<br \/>\n    de c&oacute;lera, de irrita&ccedil;&atilde;o, de impertin&ecirc;ncia, de mist&eacute;rio,<br \/>\n    etc. N&atilde;o sei se conseq&uuml;entemente a boniteza coroou essas brincadeiras,<br \/>\n    por&eacute;m, eles &eacute; certo que existem.<\/p>\n<p> Mas por outro lado se Carlos conserva os &quot;prov&eacute;rbios de sociedade<br \/>\n    &quot; e se rege pelas grandes id&eacute;ias normativas ele n&atilde;o conseguir&aacute;<br \/>\n    ser mais do que uma simples rea&ccedil;&atilde;o fisiol&oacute;gica. Estas<br \/>\n    dar&atilde;o um S&atilde;o Thomaz e um Anchieta? Afirmei que n&atilde;o, no<br \/>\n    livro. Poder&atilde;o dar quando muito um Carlos Souza Costa. Foi o que afirmei.<\/p>\n<p> Carlos n&atilde;o passa de um burgu&ecirc;s chat&iacute;ssimo do s&eacute;culo<br \/>\n    passado. Ele &eacute; tradicional dentro da &uacute;nica cousa a que se resume<br \/>\n    at&eacute; agora a cultura brasileira: educa&ccedil;&atilde;o e modos.<\/p>\n<p> Em parte enorme: m&aacute; educa&ccedil;&atilde;o e mais modos. Carlos est&aacute;<br \/>\n    entre n&oacute;s pelo incomparavelmente mais numeroso que inda tem no Brasil<br \/>\n    de tradicionalismo &quot;cultural&quot; brasileiro burgu&ecirc;s octocentista.<br \/>\n    Ele n&atilde;o chega a manifestar o estado bio-ps&iacute;quico do indiv&iacute;duo<br \/>\n    que se pode chamar de moderno. Carlos &eacute; apenas uma apresenta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    uma constata&ccedil;&atilde;o da const&acirc;ncia cultural brasileira. E se<br \/>\n    n&atilde;o dei solu&ccedil;&atilde;o &eacute; porque meus livros n&atilde;o<br \/>\n    sabem ser tese. N&atilde;o se consegue tirar do Amar, verbo intransitivo,<br \/>\n    mais que a constata&ccedil;&atilde;o de uma infelicidade que independe dos<br \/>\n    homens.<\/p>\n<p> E basta. N&atilde;o sou nenhum vaidoso que julgue-me inating&iacute;vel<br \/>\n    &agrave;s cr&iacute;ticas. At&eacute; sou especialmente grato a Trist&atilde;o<br \/>\n    de Athayde por tudo o que &eacute; de mim sobre o qual ele chamou a minha<br \/>\n    aten&ccedil;&atilde;o consciente. Mas agora senti precis&atilde;o de evocar<br \/>\n    certas inten&ccedil;&otilde;es maiores do meu &uacute;ltimo trabalho para<br \/>\n    mostrar quanto eu estou&#8230; fora da moda?<\/p>\n<p><strong> M&Aacute;RIO DE ANDRADE<\/strong><\/p>\n<p>\n    Nota da edi&ccedil;&atilde;o: Texto publicado por M&aacute;rio de Andrade<br \/>\n    no Di&aacute;rio Nacional. S&atilde;o Paulo, 4 dez., 1927. (Recortes &#8212;<br \/>\n    Arquivo M&aacute;rio de Andrade &#8212; IEB-USP).<\/p>\n<h4>&nbsp;<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Uma Dif\u00edcil Conjuga\u00e7\u00e3o Um Id\u00edlio \u00e0 Bernardini de Saint-Pierre Um Id\u00edlio Expressionista O Amor, A Mulher e o Expressionismo Brunilda S\u00e9culo XX Escrever Brasileiro Amar, Verbo Transitivo: M\u00e1rio e a Cultura Alem\u00e3 A meu Irm\u00e3o M&aacute;rio de Andrade Um Romance que Resiste Amar, verbo intransitivo, o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-113849","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin 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