{"id":113843,"date":"2017-03-16T11:39:23","date_gmt":"2017-03-16T13:39:23","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=113843"},"modified":"2023-03-30T12:02:26","modified_gmt":"2023-03-30T14:02:26","slug":"macunaima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/macunaima","title":{"rendered":"Macuna\u00edma"},"content":{"rendered":"<p><strong>An\u00e1lise de Macuna\u00edma<\/strong><\/p>\n<p><strong>Macuna\u00edma<\/strong> foi escrita no ano de 1926 e em poucos dias. Para escrev\u00ea-la, M\u00e1rio de Andrade passou anos a fio pesquisando sobre o folclore, mitologia ind\u00edgena, os costumes e a linguagem dos brasileiros. Numa tentativa de registrar a hist\u00f3ria, costumes, falares, os ritmos das can\u00e7\u00f5es e das dan\u00e7as populares do Brasil, o livro, num clima m\u00edtico, acumula exagero de lendas, supersti\u00e7\u00f5es, frases feitas, prov\u00e9rbios e modismos de linguagem.<\/p>\n<p>Tomando como centro a personagem Macuna\u00edma, o autor faz uma colagem de diversos fragmentos, misturando as lendas estudadas durante anos dos \u00edndios com a vida urbana das cidades do Sudeste, as anedotas da hist\u00f3ria brasileira com os costumes do Nordeste etc.<\/p>\n<p><strong>Tempo e Espa\u00e7o<\/strong><\/p>\n<p>Criando uma narrativa fant\u00e1stica e picaresca, h\u00e1 subvers\u00e3o do tempo e do espa\u00e7o geogr\u00e1fico, que n\u00e3o obedecem \u00e0s regras da verossimilhan\u00e7a, de tal forma que o \u201cher\u00f3i sem nenhum car\u00e1ter\u201d pode, num mesmo cap\u00edtulo, estar em S\u00e3o Paulo, e fugir correndo pra Sergipe, Campinas, Bahia, deparando-se em todo esse percurso com personagens reais e lend\u00e1rias.<\/p>\n<p>Assim, as aventuras de Macuna\u00edma s\u00e3o vividas num espa\u00e7o diferente, pr\u00f3prio da atmosfera em que se desenvolve a narrativa.<\/p>\n<p><strong>Linguagem<\/strong><\/p>\n<p>A linguagem tamb\u00e9m \u00e9 constitu\u00edda pelo processo de colagem, pela combina\u00e7\u00e3o de voc\u00e1bulos e torneios sint\u00e1ticos colhidos dos mais variados sotaques e costumes do Brasil. Com isso, o autor criou um estilo muito pessoal e expressivo, capaz de transmitir lirismo, humor, deboche, comicidade, revelando maturidade liter\u00e1ria e dom\u00ednio estil\u00edstico.<\/p>\n<p><strong>Foco Narrativo<\/strong><\/p>\n<p>O foco narrativo predominante \u00e9 o de terceira pessoa, mas M\u00e1rio de Andrade inova ao utilizar uma t\u00e9cnica cinematogr\u00e1fica de cortes bruscos no discurso do narrador para dar lugar \u00e0 fala dos personagens.<\/p>\n<table width=\"646\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"top\" width=\"220\">\n<div align=\"center\"><strong><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#1\">I &#8211; Macuna\u00edma<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#2\">II &#8211; Maioridade<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#3\">III &#8211; Ci, M\u00e3e do Mato<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#4\">IV &#8211; Boi\u00fana Luna<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#5\">V &#8211; Piaim\u00e3<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#6\">VI &#8211; A Francesa e o Gigante<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#7\">VII &#8211; Macumba<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#8\">VIII &#8211; Vei, A Sol<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#9\">IX &#8211; Carta Pras Icamiabas<\/a><br \/>\n<\/strong><\/div>\n<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"220\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><a class=\"links\" href=\"#10\">X &#8211; Pau\u00ed-P\u00f3dole<\/a><\/strong><br \/>\n<strong> <a class=\"links\" href=\"#11\">XI &#8211; A Velha Ceiuci<\/a><\/strong><br \/>\n<strong> <a class=\"links\" href=\"#12\">XII &#8211; Tequeteque, Chupinz\u00e3o e a Injusti\u00e7a dos Homens<\/a><\/strong><br \/>\n<strong> <a class=\"links\" href=\"#13\">XIII &#8211; A Piolhenta do Jigu\u00ea<\/a><\/strong><br \/>\n<strong> <a class=\"links\" href=\"#14\">XIV &#8211; Muiraquit\u00e3<\/a><\/strong><br \/>\n<strong> <a class=\"links\" href=\"#15\">XV &#8211; A Pacuera de Oib\u00ea<\/a><\/strong><br \/>\n<strong> <a class=\"links\" href=\"#16\">XVI &#8211; Uraricoera<\/a><\/strong><br \/>\n<strong> <a class=\"links\" href=\"#17\">XVII &#8211; Ursa Maior<\/a><\/strong><br \/>\n<strong> <a class=\"links\" href=\"#18\">Ep\u00edlogo<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>M\u00e1rio de Andrade<\/h4>\n<h4><a name=\"1\"><\/a>I &#8211; Macuna\u00edma<\/h4>\n<p>No fundo do mato-virgem nasceu Macuna\u00edma, her\u00f3i de nossa gente.<br \/>\nEra preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o sil\u00eancio<br \/>\nfoi t\u00e3o grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a \u00edndia,<br \/>\ntapanhumas pariu uma crian\u00e7a feia. Essa crian\u00e7a \u00e9 que<br \/>\nchamaram de Macuna\u00edma.<\/p>\n<p>J\u00e1 na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro: passou mais<br \/>\nde seis anos n\u00e3o falando. Sio incitavam a falar exclamava: If \u2014<br \/>\nAi! que pregui\u00e7a!. . . e n\u00e3o dizia mais nada.&#8221;] Ficava<br \/>\nno canto da maloca, trepado no jirau de paxi\u00faba, espiando o trabalho<br \/>\ndos outros e principalmente os dois manos que tinha, Maanape j\u00e1 velhinho<br \/>\ne Jigu\u00ea na for\u00e7a de homem. O divertimento dele era decepar cabe\u00e7a<br \/>\nde sa\u00fava. Vivia deitado mas si punha os olhos em dinheiro, Macuna\u00edma<br \/>\ndandava pra ganhar vint\u00e9m. E tamb\u00e9m espertava quando a fam\u00edlia<br \/>\nia tomar banho no rio, todos juntos e nus. Passava o tempo do banho dando<br \/>\nmergulho, e as mulheres soltavam gritos gozados por causa dos guaimuns diz-que<br \/>\nhabitando a \u00e1gua-doce por l\u00e1. No mucambo si alguma cunhat\u00e3<br \/>\nse aproximava dele pra fazer festinha, Macuna\u00edma punha a m\u00e3o<br \/>\nnas gra\u00e7as dela, cunhat\u00e3 se afastava. Nos machos guspia na cara.<br \/>\nPor\u00e9m respeitava os velhos, e freq\u00fcentava com aplica\u00e7\u00e3o<br \/>\na murua a porac\u00ea o tor\u00ea o bacoroc\u00f4 a cucuicogue, todas essas<br \/>\ndan\u00e7as religiosas da tribo.<\/p>\n<p>Quando era pra dormir trepava no macuru pequeninho sempre se esquecendo<br \/>\nde mijar. Como a rede da m\u00e3e estava por debaixo do ber\u00e7o, o<br \/>\nher\u00f3i mijava quente na velha, espantando os mosquitos bem. Ent\u00e3o<br \/>\nadormecia sonhando palavras-feias, imoralidades estramb\u00f3licas e dava<br \/>\npatadas no ar.<\/p>\n<p>Nas conversas das mulheres no pino do dia o assunto eram sempre as peraltagens<br \/>\ndo her\u00f3i. As mulheres se riam muito simpatizadas, falando que &#8220;espinho<br \/>\nque pinica, de pequeno j\u00e1 traz ponta&#8221;, e numa pagelan\u00e7a<br \/>\nRei Nag\u00f4 fez um discurso e avisou que o her\u00f3i era inteligente.<\/p>\n<p>Nem bem teve seis anos deram \u00e1gua num chocalho pra ele e Macuna\u00edma<br \/>\nprincipiou falando como todos. E pediu pra m\u00e3e que largasse da mandioca<br \/>\nralando na cevadeira e levasse ele passear no mato. A m\u00e3e n\u00e3o<br \/>\nquis porque n\u00e3o podia largar da mandioca n\u00e3o. Macuna\u00edma<br \/>\nchoramingou dia inteiro. De noite continuou chorando. No outro dia esperou<br \/>\ncom o olho esquerdo dormindo que a m\u00e3e principiasse o trabalho. Ent\u00e3o<br \/>\npediu pra ela que largasse de tecer o paneiro de guarum\u00e1-membeca e<br \/>\nlevasse ele no mato passear. A m\u00e3e n\u00e3o quis porque n\u00e3o<br \/>\npodia largar o paneiro n\u00e3o. E pediu pra nora, companheira de Jigu\u00ea<br \/>\nque levasse o menino. A companheira de Jigu\u00ea era bem mo\u00e7a e chamava<br \/>\nSofar\u00e1. Foi se aproximando ressabiada por\u00e9m desta vez Macuna\u00edma<br \/>\nficou muito quieto sem botar a m\u00e3o na gra\u00e7a de ningu\u00e9m.<br \/>\nA mo\u00e7a carregou o pi\u00e1 nas costas e foi at\u00e9 o p\u00e9<br \/>\nde aninga na beira do rio. A \u00e1gua parar\u00e1 pra inventar um ponteio<br \/>\nde gozo nas folhas do javari. O longe estava bonito com muitos bigu\u00e1s<br \/>\ne biguatingas avoando na estrada do furo. A mo\u00e7a botou Macuna\u00edma<br \/>\nna praia por\u00e9m ele principiou choramingando, que tinha muita formiga!&#8230;<br \/>\ne pediu pra Sofar\u00e1 que o levasse at\u00e9 o derrame do morro l\u00e1<br \/>\ndentro do mato, a mo\u00e7a fez. Mas assim que deitou o curumim nas tiriricas,<br \/>\ntaj\u00e1s e trapoerabas da serrapilheira, ele botou corpo num \u00e1timo<br \/>\ne ficou um pr\u00edncipe lindo. Andaram por l\u00e1 muito.<\/p>\n<p>Quando voltaram pra maloca a mo\u00e7a parecia muito fatigada de tanto<br \/>\ncarregar pi\u00e1 nas costas. Era que o her\u00f3i tinha brincado muito<br \/>\ncom ela. Nem bem ela deitou Macuna\u00edma na rede, Jigu\u00ea j\u00e1<br \/>\nchegava de pescar de pu\u00e7\u00e1 e a companheira n\u00e3o trabalhara<br \/>\nnada. Jigu\u00ea enquizlou e depois de catar os carrapatos deu nela muito.<br \/>\nSofar\u00e1 ag\u00fcentou a sova sem falar um isto.<\/p>\n<p>Jigu\u00ea n\u00e3o desconfiou de nada e come\u00e7ou tran\u00e7ando<br \/>\ncorda com fibra de curau\u00e1. N\u00e3o v\u00ea que encontrara rasto<br \/>\nfresco de anta e queria pegar o bicho na armadilha. Macuna\u00edma pediu<br \/>\num peda\u00e7o de curau\u00e1 pro mano por\u00e9m Jigu\u00ea falou<br \/>\nque aquilo n\u00e3o era brinquedo de crian\u00e7a. Macuna\u00edma principiou<br \/>\nchorando outra vez e a noite ficou bem dif\u00edcil de passar pra todos.<\/p>\n<p>No outro dia Jigu\u00ea levantou cedo pra fazer arma-ilha e enxergando<br \/>\no menino tristinho falou:<\/p>\n<p>\u2014 Bom-dia, cora\u00e7\u00e3ozinho dos outros.<\/p>\n<p>Por\u00e9m Macuna\u00edma fechou-se em copas carrancudo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o quer falar comigo, \u00e9? \u2014 Estou de mal.<\/p>\n<p>\u2014 Por causa?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Macuna\u00edma pediu fibra de curau\u00e1. Jigu\u00ea<br \/>\nolhou pra ele com \u00f3dio e mandou a companheira arranjar fio pro menino,<br \/>\na mo\u00e7a fez. Macuna\u00edma agradeceu e foi pedir pro pai-de-terreiro<br \/>\nque tran\u00e7asse uma corda para ele e assoprasse bem nela fuma\u00e7a<br \/>\nde petum.<\/p>\n<p>Quando tudo estava pronto Macuna\u00edma pediu pra m\u00e3e que deixasse<br \/>\no cachiri fermentando e levasse ele no mato passear. A velha n\u00e3o podia<br \/>\npor causa do trabalho mas a companheira de Jigu\u00ea mui sonsa falou pra<br \/>\nsogra que &#8220;estava \u00e0s ordens&#8221;. E foi no mato com o pi\u00e1<br \/>\nnas costas.<\/p>\n<p>Quando o botou nos carurus e sororocas da serrapilheira, o pequeno foi crescendo<br \/>\nfoi crescendo e virou pr\u00edncipe lindo. Falou pra Sofar\u00e1 esperar<br \/>\num bocadinho que j\u00e1 voltava pra brincarem e foi no bebedouro da anta<br \/>\narmar um la\u00e7o. Nem bem voltaram do passeio, tardinha, Jigu\u00ea j\u00e1<br \/>\nchegava tamb\u00e9m de prender a armadilha no rasto da anta. A companheira<br \/>\nn\u00e3o trabalhara nada. Jigu\u00ea ficou fulo e antes de catar os carrapatos<br \/>\nbateu nela muito. Mas Sofar\u00e1 ag\u00fcentou a coca com paci\u00eancia.<\/p>\n<p>No outro dia a arraiada inda estava acabando de trepar nas \u00e1rvores,<br \/>\nMacuna\u00edma acordou todos, fazendo um bu\u00e9 medonho, que fossem!<br \/>\nque fossem no bebedouro buscar a bicha que ele ca\u00e7ara!&#8230; Por\u00e9m<br \/>\nningu\u00e9m n\u00e3o acreditou e todos principiaram o trabalho do dia.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma ficou muito contrariado e pediu pra Sofar\u00e1 que desse<br \/>\numa chegadinha no bebedouro s\u00f3 pra ver. A mo\u00e7a fez e voltou<br \/>\nfalando pra todos que de fato estava no la\u00e7o uma anta muito grande<br \/>\nj\u00e1 morta. Toda a tribo foi buscar a bicha, matutando na intelig\u00eancia<br \/>\ndo curumim. Quando Jigu\u00ea chegou com a corda de curau\u00e1 vazia,<br \/>\nencontrou todos tratando da ca\u00e7a, ajudou. E quando foi pra repartir<br \/>\nn\u00e3o deu nem um peda\u00e7o de carne pra Macuna\u00edma, s\u00f3<br \/>\ntripas. O her\u00f3i jurou vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>No outro dia pediu pra Sofar\u00e1 que levasse ele passear e ficaram no<br \/>\nmato at\u00e9 a b\u00f4ca-da-noite. Nem bem o menino tocou no folhi\u00e7o<br \/>\ne virou num pr\u00edncipe fogoso. Brincaram. Depois de brincarem tr\u00eas<br \/>\nfeitas,<\/p>\n<p>correram mato fora fazendo festinhas um pro outro. Depois das festinhas de<br \/>\ncotucar, fizeram a das c\u00f3cegas, depois se enterraram na areia, depois<br \/>\nse queimaram com fogo de palha, isso foram muitas festinhas. Macuna\u00edma<br \/>\npegou num tronco de copa\u00edba e se escondeu por detr\u00e1s, da piranheira.<br \/>\nQuando Sofar\u00e1 veio correndo, ele deu com o pau na cabe\u00e7a dela.<br \/>\nFez uma brecha que a mo\u00e7a caiu torcendo de riso aos p\u00e9s dele.<br \/>\nPuxou-o por uma perna. Macuna\u00edma gemia de gosto se agarrando no tronco<br \/>\ngigante. Ent\u00e3o a mo\u00e7a abocanhou o ded\u00e3o do p\u00e9<br \/>\ndele e engoliu. Macuna\u00edma chorando de alegria tatuou o corpo dela com<br \/>\no sangue do p\u00e9. Depois retesou os m\u00fasculos, se erguendo num<br \/>\ntrap\u00e9zio de cip\u00f3 e aos pulos atingiu num \u00e1timo o galho<br \/>\nmais alto da piranheira. Sofar\u00e1 trepava atr\u00e1s. O ramo fininho<br \/>\nvergou oscilando com o peso do pr\u00edncipe. Quando a mo\u00e7a chegou<br \/>\ntamb\u00e9m no tope eles brincaram outra vez balanceando no c\u00e9u.<br \/>\nDepois de brincarem Macuna\u00edma quis fazer uma festa em Sofar\u00e1.<br \/>\nDobrou o corpo todo na viol\u00eancia dum pux\u00e3o mas n\u00e3o p\u00f4de<br \/>\ncontinuar, galho quebrou e ambos despencaram aos embol\u00e9us at\u00e9<br \/>\nse esborracharem no ch\u00e3o. Quando o her\u00f3i voltou da sapituca<br \/>\nprocurou a mo\u00e7a em redor, n\u00e3o estava. Ia se erguendo pra busc\u00e1-la<br \/>\npor\u00e9m do galho baixo em riba dele furou o sil\u00eancio o miado tem\u00edvel<br \/>\nda su\u00e7uarana. O her\u00f3i se estatelou de medo e fechou os olhos<br \/>\npra ser comido sem ver. Ent\u00e3o se escutou um risinho e Macuna\u00edma<br \/>\ntomou com uma gusparada no peito, era a mo\u00e7a. Macuna\u00edma principiou<br \/>\natirando pedras nela e quando feria, Sofar\u00e1 gritava de excita\u00e7\u00e3o<br \/>\ntatuando o corpo dele em baixo com o sangue espirrado. Afinal uma pedra lascou<br \/>\no canto da boca da mo\u00e7a e moeu tr\u00eas dentes. Ela pulou do galho<br \/>\ne juque! tombou sentada na barriga do her\u00f3i que a envolveu com o corpo<br \/>\ntodo, uivando de prazer. E brincaram mais outra vez.<\/p>\n<p>J\u00e1 a estrela Papac\u00e9ia brilhava no c\u00e9u quando a mo\u00e7a<br \/>\nvoltou parecendo muito fatigada de tanto carregar pi\u00e1 nas costas. Por\u00e9m<br \/>\nJigu\u00ea desconfiado seguira os dois no mato, enxergara a transforma\u00e7\u00e3o<br \/>\ne o resto. Jigu\u00ea era muito bobo. Teve raiva. Pegou num rabo-de-tatu<br \/>\ne chegou-o com vontade na bunda do her\u00f3i. O berreiro foi t\u00e3o<br \/>\nimenso que encurtou o tamanh\u00e3o da noite e muitos p\u00e1ssaros ca\u00edram<br \/>\nde susto no ch\u00e3o e se transformaram em pedra.<\/p>\n<p>Quando Jigu\u00ea n\u00e3o p\u00f4de mais surrar, Macuna\u00edma correu<br \/>\nat\u00e9 a capoeira, mastigou raiz de cardeiro e voltou s\u00e3o. Jigu\u00ea<br \/>\nlevou Sofar\u00e1 pro pai dela e dormiu folgado na rede.<\/p>\n<h4><a name=\"2\"><\/a>II &#8211; Maioridade<\/h4>\n<p>Jigu\u00ea era muito bobo e no outro dia apareceu puxando pela m\u00e3o<br \/>\numa cunha. Era a companheira nova dele e chamava Iriqui. Ela trazia sempre<br \/>\num rat\u00e3o vivo escondido na ma\u00e7aroca dos cabelos e faceirava<br \/>\nmuito. Pintava a cara com arara\u00faba e jenipapo e todas as manh\u00e3s<br \/>\npassava coquinho de assai nos bei\u00e7os que ficavam totalmente roxos.<br \/>\nDepois esfregava lim\u00e3o-de-caiena por cima e os bei\u00e7os viravam<br \/>\ntotalmente encarnados. Ent\u00e3o Iriqui se envolvia num manto de algod\u00e3o<br \/>\nlistrado com preto de acari\u00faba e verde de tatajuba e aromava os cabelos<br \/>\ncom ess\u00eancia de umiri, era linda.<\/p>\n<p>Ora depois de todos comerem a anta de Macuna\u00edma a fome bateu no mocambo.<br \/>\nCa\u00e7a, ningu\u00e9m n\u00e3o pegava ca\u00e7a mais, nem algum<br \/>\ntatu-galinha aparecia! e por causa de Maanape ter matado um boto pra comerem,<br \/>\no sapo cunauru chamado Maraguigana pai do boto fitou enfezado. Mandou a enchente<br \/>\ne o milharal apodreceu. Comeram tudo, at\u00e9 a crueira dura se acabou<br \/>\ne o fogar\u00e9u de noite e dia n\u00e3o moqueava nada n\u00e3o, era<br \/>\ns\u00f3 pra remediar a friagem que caiu. N\u00e3o havia pra gente assar<br \/>\nnele nem uma isca de job\u00e1.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Macuna\u00edma quis se divertir um pouco. Falou pr\u00f3s<br \/>\nmanos que inda tinha muita piaba muito jeju muito matrinch\u00e3o e jatuaranas,<br \/>\ntodos esses peixes do rio, fossem bater timb\u00f3! Maanape disse:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se encontra mais timb\u00f3. Macuna\u00edma disfar\u00e7ando<br \/>\nsecundou:<\/p>\n<p>\u2014 Junto daquela grota onde tem dinheiro enterrado enxerguei um despotismo<br \/>\nde timb\u00f3.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o venha com a gente pra mostrar onde que \u00e9.<\/p>\n<p>Foram. A margem estava trai\u00e7oeira e nem se achava bem o que era terra<br \/>\no que era rio entre as mamoranas copadas. Maanape e Jigu\u00ea procuravam<br \/>\nprocuravam enlameados at\u00e9 os dentes, degringolando juque! nos barreiros<br \/>\nocultos pela inunda\u00e7\u00e3o. E pulavam se livrando dos buracos, aos<br \/>\nberros, com as m\u00e3os pra tr\u00e1s por causa dos candirus safadinhos<br \/>\nquerendo entrar por eles. Macuna\u00edma ria por dentro vendo as micagens<br \/>\ndos manos campeando timb\u00f3. Fingia campear tamb\u00e9m mas n\u00e3o<br \/>\ndava passo n\u00e3o, bem enxutinho no firme. Quando os manos passavam perto<br \/>\ndele, se agachava e gemia de fadiga.<\/p>\n<p>\u2014 Deixe de trabucar assim, pi\u00e1!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Macuna\u00edma sentou numa barranca do rio e batendo com<br \/>\nos p\u00e9s n&#8217;\u00e1gua espantou os mosquitos. E eram muitos mosquitos,<br \/>\npiuns maruins arurus tatuquiras muri\u00e7ocas meruanhas mariguis borrachudos<br \/>\nvarejas, toda essa mosquitada.<\/p>\n<p>Quando foi de tardezinha os manos vieram buscar Macuna\u00edma tiriricas<br \/>\npor n\u00e3o terem topado com nenhum p\u00e9 de timb\u00f3. O her\u00f3i<br \/>\nteve medo e disfar\u00e7ou:<\/p>\n<p>\u2014 Acharam? \u2014 Que achamos nada!<\/p>\n<p>\u2014 Pois foi aqui mesmo que enxerguei timb\u00f3. Timb\u00f3 j\u00e1<br \/>\nfoi gente um dia que nem n\u00f3s&#8230; Presenciou que andavam campeando ele<br \/>\ne sorveteu. Timb\u00f3 foi gente um dia que nem n\u00f3s&#8230;<\/p>\n<p>Os manos se admiraram da intelig\u00eancia do menino e voltaram os tr\u00eas<br \/>\npra maloca.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma estava muito contrariado por causa da fome. No outro dia<br \/>\nfalou pra velha:<\/p>\n<p>\u2014 M\u00e3e, quem que leva nossa casa pra outra banda do rio l\u00e1<br \/>\nno teso, quem que leva? Fecha os olhos um bocadinho, velha, e pergunta assim.<\/p>\n<p>A velha fez. Macuna\u00edma pediu pra ela ficar mais tempo com os olhos<br \/>\nfechados e carregou tejupar marombas flechas piqu\u00e1s sapiqu\u00e1s<br \/>\ncorotes urupemas redes, todos esses trens pra um aberto do mato l\u00e1<br \/>\nno teso do outro lado do rio. Quando a velha abriu os olhos estava tudo l\u00e1<br \/>\ne tinha ca\u00e7a peixes, bananeiras dando, tinha comida por demais. Ent\u00e3o<br \/>\nfoi cortar banana.<\/p>\n<p>\u2014 Inda que mal lhe pergunte, m\u00e3e, porque a senhora arranca<br \/>\ntanta pacova assim!<\/p>\n<p>\u2014 Levar pra vosso mano Jigu\u00ea com a linda Iriqui e pra vosso mano<br \/>\nMaanape que est\u00e3o padecendo fome.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma ficou muito contrariado. Maginou maginou e disse pra velha:<\/p>\n<p>\u2014 M\u00e3e, quem que leva nossa casa pra outra banda do rio no banhado,<br \/>\nquem que leva? Pergunta assim! A velha fez. Macuna\u00edma pediu pra ela<br \/>\nficar com os olhos fechados e levou todos os carregos, tudo, pro lugar em<br \/>\nque estavam de j\u00e1-hoje<\/p>\n<p>no mondongo imundado. Quando a velha abriu os olhos tudo estava no lugar<br \/>\nde dantes, vizinhando com os tejupares de mano Maanape e de mano Jigu\u00ea<br \/>\ncom a linda Iriqui. E todos ficaram roncando de fome outra vez.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a velha teve uma raiva malvada. Carregou o her\u00f3i na<br \/>\ncintura e partiu. Atravessou o mato e chegou no capoeir\u00e3o chamado Cafund\u00f3<br \/>\ndo Judas. Andou l\u00e9gua e meia nele, nem se enxergava mato mais, era<br \/>\num coberto plano apenas movimentado com o pulinho dos cajueiros. Nem guaxe<br \/>\nanimava a solid\u00e3o. A velha botou o curumim no campo onde ele podia<br \/>\ncrescer mais n\u00e3o e falou:<\/p>\n<p>\u2014 Agora vossa m\u00e3e vai embora. Tu ficas perdido no coberto e<br \/>\npodes crescer mais n\u00e3o.<\/p>\n<p>E desapareceu. Macuna\u00edma assuntou o deserto e sentiu que ia chorar.<br \/>\nMas n\u00e3o tinha ningu\u00e9m por ali, n\u00e3o chorou n\u00e3o.<br \/>\nCriou coragem e botou p\u00e9 na estrada, tremelicando com as perninhas<br \/>\nde arco. Vagamundou de d\u00e9u em d\u00e9u semana, at\u00e9 que topou<br \/>\ncom o Currupira inoqueando carne, acompanhado do cachorro dele Papamel. E<br \/>\no Currupira vive no grelo do tucunzeiro e pede fumo pra gente. Macuna\u00edma<br \/>\nfalou:<\/p>\n<p>\u2014 Meu av\u00f4, d\u00e1 ca\u00e7a pra mim comer? \u2014 Sim,<br \/>\nCurrupira fez.<\/p>\n<p>Cortou carne da perna moqueou e deu pro menino, perguntando:<\/p>\n<p>\u2014 O que voc\u00ea est\u00e1 fazendo na capoeira, rapaiz!<\/p>\n<p>\u2014 Passeando.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o diga! \u2014 Pois \u00e9, passeando&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o contou o castigo da m\u00e3e por causa dele ter sido mal\u00e9volo<br \/>\npr\u00f3s manos. E contando o transporte da casa de novo pra deixa onde<br \/>\nn\u00e3o tinha ca\u00e7a deu uma grande gargalhada. O Currupira olhou<br \/>\npra ele e resmungou:<\/p>\n<p>\u2014 Tu n\u00e3o \u00e9 mais curumi, rapaiz, tu n\u00e3o \u00e9 mais<br \/>\ncurumi n\u00e3o &#8230; Gente grande que faiz isso&#8230;<\/p>\n<p>Macuna\u00edma agradeceu e pediu pro Currupira ensinar o caminho pro mocambo<br \/>\ndos Tapanhumas. O Currupira estava querendo mas era comer o her\u00f3i,<br \/>\nensinou falso:<\/p>\n<p>\u2014 Tu vai por aqui, menino-home, vai por aqui, passa pela frente daquele<br \/>\npau, quebra a m\u00e3o esquerda, vira e volta por debaixo dos meus uaiariquiniz\u00eas.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma foi fazer a volta por\u00e9m chegado na frente do pau,<br \/>\ncocou a perninha e murmurou: \u2014 Ai! que pregui\u00e7a!&#8230; e seguiu<br \/>\ndireito.<\/p>\n<p>O Currupira esperou bastante por\u00e9m curumim n\u00e3o chegava&#8230;<br \/>\nPois ent\u00e3o o monstro amontou no viado, que \u00e9 o cavalo dele,<br \/>\nfincou o p\u00e9 redondo na virilha do corredor e l\u00e1 se foi gritando:<br \/>\n\u2014 Carne de minha perna! carne de minha perna! L\u00e1 de dentro da<br \/>\nbarriga do her\u00f3i a carne respondeu: \u2014 Que foi? Macuna\u00edma<br \/>\napertou o passo e entrou correndo na caatinga por\u00e9m o Currupira corria<br \/>\nmais que ele e o menino isso vinha que vinha acochado pelo outro.<\/p>\n<p>\u2014 Carne de minha perna! carne de minha perna! A carne secundava: \u2014<br \/>\nQue foi? O pi\u00e1 estava desesperado. Era dia do casamento da raposa e<br \/>\na velha Vei, a Sol, relampeava nas gotinhas de chuva debulhando luz feito<br \/>\nmilho. Macuna\u00edma chegou perto duma po\u00e7a, bebeu \u00e1gua de<br \/>\nlama e vomitou a carne.<\/p>\n<p>\u2014 Carne de minha perna! carne de minha perna! que o Currupira vinha<br \/>\ngritando.<\/p>\n<p>\u2014 Que foi? secundou a carne j\u00e1 na po\u00e7a. Macuna\u00edma<br \/>\nganhou os bredos por outro lado e escapou.<\/p>\n<p>L\u00e9gua e meia adiante por detr\u00e1s dum formigueiro escutou uma<br \/>\nvoz cantando assim: &#8220;Acuti pita canh\u00e9m&#8230;&#8221; lentamente.<\/p>\n<p>Foi l\u00e1 e topou com a cotia farinhando mandioca num tipiti de j achara.<\/p>\n<p>\u2014 Minha v\u00f3, d\u00e1 aipim pra mim comer? \u2014 Sim, cotia<br \/>\nfez. Deu aipim pro menino, perguntando: \u2014 Qu\u00ea que voc\u00ea est\u00e1<br \/>\nfazendo na caatinga, meu neto? \u2014 Passeando.<\/p>\n<p>\u2014 Ah o qu\u00ea!<\/p>\n<p>\u2014 Passeando, ent\u00e3o!<\/p>\n<p>Contou como enganara o Currupira e deu uma grande gargalhada. A cotia olhou<br \/>\npra ele e resmungou:<\/p>\n<p>\u2014 Culumi faz isso n\u00e3o, meu neto, culumi faz isso n\u00e3o. ..<br \/>\nVou te igualar o corpo com o bestunto.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o pegou na gamela cheia de caldo envenenado de aipim e jogou<br \/>\na lavagem no pi\u00e1. Macuna\u00edma fastou sarapantado mas s\u00f3<br \/>\nconseguiu livrar a cabe\u00e7a, todo o resto do corpo se molhou. O her\u00f3i<br \/>\ndeu um espirro e botou corpo. Foi desempenando crescendo fortificando e ficou<br \/>\ndo tamanho dum home taludo. Por\u00e9m a cabe\u00e7a n\u00e3o molhada<br \/>\nficou pra sempre rombuda e com carinha enjoativa de pi\u00e1.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma agradeceu o feito e frechou cantando pro mocambo nativo.<br \/>\nA noite vinha bezourenta enfiando as formigas na terra e tirando os mosquitos<br \/>\nd&#8217;\u00e1gua. Fazia um calor de ninho no ar. A velha tapanhumas escutou a<br \/>\nvoz do filho no longe cinzado e se espantou: Macuna\u00edma apareceu de<br \/>\ncara amarrada e falou pra ela:<\/p>\n<p>\u2014 M\u00e3e, sonhei que caiu meu dente.<\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9 morte de parente, comentou a velha.<\/p>\n<p>\u2014 Bem que sei. A senhora vive mais uma Sol s\u00f3. Isso mesmo porque<br \/>\nme pariu.<\/p>\n<p>No outro dia os manos foram pescar e ca\u00e7ar, a velha foi no ro\u00e7ado<br \/>\ne Macuna\u00edma ficou s\u00f3 com a companheira de Jigu\u00ea. Ent\u00e3o<br \/>\nele virou na formiga quenqu\u00e9m e mordeu Iriqui pra fazer festa nela.<br \/>\nMas a mo\u00e7a atirou a quenqu\u00e9m longe. Ent\u00e3o Macuna\u00edma<br \/>\nvirou num p\u00e9 de urucum. A linda Iriqui riu, colheu as sementes se faceirou<br \/>\ntoda pintando a cara e os distintivos, Ficou lind\u00edssima. Ent\u00e3o<br \/>\nMacuna\u00edma, de gostoso, virou gente outra feita e morou com a companheira<br \/>\nde Jigu\u00ea.<\/p>\n<p>Quando os manos voltaram da ca\u00e7a Jigu\u00ea percebeu a troca logo,<br \/>\npor\u00e9m Maanape falou pra ele que agora Macuna\u00edma estava homem<br \/>\npra sempre e troncudo. Maanape era feiticeiro. Jigu\u00ea viu que a maloca<br \/>\nestava cheia de alimentos, tinha pacova tinha milho tinha macaxeira, tinha<br \/>\nalua e cachiri, tinha mapar\u00e1s e camorins pescados, maracuj\u00e1-michira<br \/>\nata abio sapota sapotilha, tinha passoca de viado e carne fresca de cutiara,<br \/>\ntodos esses comes e bebes bons&#8230; Jigu\u00ea conferiu que<b> <\/b>n\u00e3o<br \/>\npagava a pena brigar com o mano e deixou a linda Iriqui pra ele. Deu um suspiro<br \/>\ncatou os carrapatos e dormiu folgado na rede.<\/p>\n<p>No outro dia Macuna\u00edma depois de brincar cedinho com a linda Iriqui,<br \/>\nsaiu pra dar uma voltinha. Atravessou o reino encantado da Pedra Bonita em<br \/>\nPernambuco e quando estava chegando na cidade de Santar\u00e9m topou com<br \/>\numa viada parida.<\/p>\n<p>\u2014 Essa eu ca\u00e7o! ele fez. E perseguiu a viada. Esta escapuliu<br \/>\nf\u00e1cil mas o her\u00f3i p\u00f4de pegar o filhinho dela que nem n\u00e3o<br \/>\nandava quase, se escondeu por detr\u00e1s duma carapana\u00faba e cotucando<br \/>\no viadinho fez ele berrar. A viada ficou feito louca, esbugalhou os olhos<br \/>\nparou turtuveou e veio vindo veio vindo parou ali mesmo defronte chorando<br \/>\nde amor. Ent\u00e3o o her\u00f3i flechou a viada parida. Ela caiu esperneou<br \/>\num bocado e ficou rija estirada no ch\u00e3o. O her\u00f3i cantou vit\u00f3ria.<br \/>\nChegou perto da viada olhou que mais olhou e deu um grito, desmaiando. Tinha<br \/>\nsido uma pe\u00e7a do Anhanga&#8230; N\u00e3o era viada n\u00e3o, era a<br \/>\npr\u00f3pria m\u00e3e tapanhumas que Macuna\u00edma flechara e estava<br \/>\nmorta ali, toda arranhada com os espinhos das titaras e mandacarus d\u00f3<br \/>\nmato.<\/p>\n<p>Quando o her\u00f3i voltou da sapituca foi chamar os manos e os tr\u00eas<br \/>\nchorando muito passaram a noite de guarda bebendo oloniti e comendo carim\u00e3<br \/>\ncom peixe. Madrugadinha pousaram o corpo da velha numa rede e foram enterr\u00e1-la<br \/>\npor debaixo duma pedra no lugar chamado Pai da Tocandeira. Maanape que era<br \/>\num catimbozeiro de marca maior, foi que gravou o epit\u00e1fio. E era assim:<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img decoding=\"async\" title=\"\" src=\"imagens\/macu-naima-1.gif\" alt=\"\" width=\"289\" height=\"123\" border=\"0\" \/><\/p>\n<p>Jejuaram o tempo que o preceito mandava e Macuna\u00edma gastou o jejum<br \/>\nse lamentando heroicamente. A barriga da morta foi inchando foi inchando e<br \/>\nno fim das chuvas tinha virado num cerro macio. Ent\u00e3o Macuna\u00edma<br \/>\ndeu a m\u00e3o pra Iriqui, Iriqui deu a m\u00e3o pra Maanape, Maanape<br \/>\ndeu a m\u00e3o pra Jigu\u00ea e os quatro partiram por esse mundo.<\/p>\n<h4><a name=\"3\"><\/a>III &#8211; Ci, M\u00e3e do Mato<\/h4>\n<p>Uma feita os quatro iam seguindo por um caminho no mato e estavam penando<br \/>\nmuito de sede, longe dos igap\u00f3s e das lagoas. N\u00e3o tinha nem<br \/>\nmesmo umbu no bairro e Vei, a Sol, esfiapando por entre a folhagem guascava<br \/>\nsem parada o lombo dos andarengos. Suavam como numa pagelan\u00e7a em que<br \/>\ntodos tivessem besuntado o corpo com azeite de piqui\u00e1, marchavam. De<br \/>\nrepente Macuna\u00edma parou riscando a noite do sil\u00eancio com um gesto<br \/>\nimenso de alerta. Os outros estacaram. N\u00e3o se escutava nada por\u00e9m<br \/>\nMacuna\u00edma sussurrou:<\/p>\n<p>\u2014 Tem coisa.<\/p>\n<p>Deixaram a linda Iriqui se enfeitando sentada nas ra\u00edzes duma sama\u00fama<br \/>\ne avan\u00e7aram cautelosos. J\u00e1 Vei estava farta de tanto guascar<br \/>\no lombo dos tr\u00eas manos quando l\u00e9gua e meia adiante Macuna\u00edma<br \/>\nescoteiro topou com uma cunha dormindo. Era Ci, M\u00e3e do Mala Logo viu<br \/>\npelo peito destro seco dela, que a mo\u00e7a fazia parte dessa tribo de<br \/>\nmulheres sozinhas parando l\u00e1 nas praias da lagoa Espelho da Lua, coada<br \/>\npela Nhamund\u00e1. A cunha era linda com o corpo chupado pelos v\u00edcios,<br \/>\ncolorido com genipapo.<\/p>\n<p>O her\u00f3i se atirou por cima dela pra brincar. Ci n\u00e3o queria.<br \/>\nFez lan\u00e7a de flecha tridente enquanto Macuna\u00edma puxava da page\u00fa.<br \/>\nFoi um pega tremendo e por debaixo da copada reboavam os berros dos briguentos<br \/>\ndiminuindo de medo os corpos dos passarinhos. O her\u00f3i apanhava. Recebera<br \/>\nj\u00e1 um murro de fazer sangue no nariz e um lapo fundo de txara no rabo.<br \/>\nA icamiaba n\u00e3o tinha nem um arranh\u00e3ozinho e cada gesto que fazia<br \/>\nera mais sangue no corpo do her\u00f3i soltando berros formidandos que diminu\u00edam<br \/>\nde medo os corpos dos passarinhos. Afinal se vendo nas amarelas porque n\u00e3o<br \/>\npodia mesmo com a icamiaba, o her\u00f3i deitou fugindo chamando pelos manos:<br \/>\n\u2014 Me acudam que sin\u00e3o eu mato! me acudam que sin\u00e3o eu<br \/>\nmato! Os manos vieram e agarraram Ci. Maanape tran\u00e7ou os bra\u00e7os<br \/>\ndela por detr\u00e1s enquanto Jigu\u00ea com a murucu lhe dava uma porrada<br \/>\nno coco. E a icamiaba caiu sem aux\u00edlio nas samambaias da serrapilheira.<br \/>\nQuando ficou bem im\u00f3vel, Macuna\u00edma se aproximou e brincou com<br \/>\na M\u00e3e do Mato. Vieram ent\u00e3o muitas jandaias, muitas araras vermelhas<\/p>\n<p>tuins coricas periquitos, muitos papagaios saudar Macuna\u00edma, o novo<br \/>\nImperador do Mato-Virgem.<\/p>\n<p>E os tr\u00eas manos seguiram com a companheira nova. Atravessaram a cidade<br \/>\ndas Flores evitaram o rio das Amarguras passando por debaixo do salto da Felicidade,<br \/>\ntomaram a estrada dos Prazeres e chegaram no cap\u00e3o de Meu Bem que fica<br \/>\nnos cerros da Venezuela. Foi de l\u00e1 que Macuna\u00edma imperou sobre<br \/>\nos matos misteriosos, enquanto Ci comandava nos assaltos as mulheres empunhando<br \/>\ntxaras de tr\u00eas pontas.<\/p>\n<p>O her\u00f3i vivia sossegado. Passava os dias marupiara na rede matando<br \/>\nformigas taiocas, chupitando golinhos estalados de pajuari e quando agarrava<br \/>\ncantando companhado pelos sons gotejantes do cotcho, os matos reboavam com<br \/>\ndo\u00e7ura adormecendo as cobras os carrapatos os mosquitos as formigas<br \/>\ne os deuses ruins.<\/p>\n<p>De noite Ci chegava recendendo resina de pau, sangrando das brigas e trepava<br \/>\nna rede que ela mesmo tecera com fios de cabelo. Os dois brincavam e depois<br \/>\nficavam rindo um pro outro.<\/p>\n<p>Ficavam rindo longo tempo, bem juntos. Ci aromava tanto que Macuna\u00edma<br \/>\ntinha tonteiras de moleza.<\/p>\n<p>\u2014 Puxa como voc\u00ea cheira, benzinho! que ele murmurava gozado.<br \/>\nE escancarava as narinas mais. Vinha uma tonteira t\u00e3o macota que o<br \/>\nsono principiava pingando das p\u00e1lpebras dele. Por\u00e9m a M\u00e3e<br \/>\ndo Mato inda n\u00e3o estava satisfeita n\u00e3o e com um jeito de rede<br \/>\nque enla\u00e7ava os dois convidava o companheiro para mais brinquedo. Morto<br \/>\nde soneira, infernizado, Macuna\u00edma brincava para n\u00e3o desmentir<br \/>\na fama s\u00f3 por\u00e9m quando Ci queria rir com ele de satisfa\u00e7\u00e3o:<br \/>\n\u2014 Ai! que pregui\u00e7a!&#8230;<\/p>\n<p>que o her\u00f3i suspirava enfarado. E dando as costas para ela adormecia<br \/>\nbem. Mas Ci queria brincar inda mais&#8230; Convidava convidava&#8230; O her\u00f3i<br \/>\nferrado no sono. Ent\u00e3o a M\u00e3e do Mato pegava na txara e cotucava<br \/>\no companheiro. Macuna\u00edma se acordava dando grandes gargalhadas estorcegando<br \/>\nde c\u00f3cegas.<\/p>\n<p>\u2014 Faz isso n\u00e3o, oferecida! \u2014 Fa\u00e7o! \u2014 Deixa<br \/>\na gente dormir, meu bem&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Vamos brincar.<\/p>\n<p>\u2014 Ai! que pregui\u00e7a!&#8230;<\/p>\n<p>E brincavam mais outra vez Por\u00e9m nos dias de muito pajuari bebido,<br \/>\nCi encontra o Imperador do Mato-Virgem largado por a\u00ed num porre m\u00e3e.<br \/>\nIam brincar e o her\u00f3i esquecia no meio.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, her\u00f3i! \u2014 Ent\u00e3o o qu\u00ea! \u2014<br \/>\nVoc\u00ea n\u00e3o continua? \u2014 Continua o qu\u00ea! \u2014 Pois,<br \/>\nmeus pecados, a gente est\u00e1 brincando e vai voc\u00ea p\u00e1ra no<br \/>\nmeio! \u2014 Ai! que pregui\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Macuna\u00edma mal esbo\u00e7ava de t\u00e3o chumbado. E procurando<br \/>\num macio nos cabelos da companheira adormecia feliz.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o pra anim\u00e1-lo, Ci empregava o estratagema sublime. Buscava<br \/>\nno mato a folhagem de fogo da urtiga e sapecava com ela uma co\u00e7a co\u00e7adeira<br \/>\nno chu\u00ed do her\u00f3i e na nalach\u00edtchi dela. Isso Macuna\u00edma<br \/>\nficava que ficava um li\u00e3o querendo. Ci tamb\u00e9m. E os dois brincavam<br \/>\nque mais brincavam num deboche de ardor prodigioso.<\/p>\n<p>Mas era nas noites de ins\u00f4nia que o gozo inventava mais. Quando todas<br \/>\nas estrelas incendiadas derramavam sobre a Terra um \u00f3leo calorento<br \/>\nque ningu\u00e9m n\u00e3o suportava de t\u00e3o quente, corria pelo<br \/>\nmato uma presen\u00e7a de inc\u00eandio. Nem a passarinhada ag\u00fcentava<br \/>\nno ninho. Mexia inquieta o pesco\u00e7o, voava pro galho em frente e no<br \/>\nmilagre mais enorme deste mundo inventava de sopet\u00e3o uma alvorada preta,<br \/>\ncantacantando que n\u00e3o tinha fim. A bulha era tremenda o cheiro poderoso<br \/>\ne o calor inda mais.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma dava um safan\u00e3o na rede atirando Ci longe. Ela acordava<br \/>\nfeito f\u00faria e crescia pra cima dele. Brincavam assim. E agora despertados<br \/>\ninteiramente pelo gozo inventavam artes novas de brincar.<\/p>\n<p>Nem bem seis meses passaram e a M\u00e3e do Mato pariu um filho encarnado.<br \/>\nIsso, vieram famosas mulatas da Bahia, do Recife, do Rio Grande do Norte e<br \/>\nda Para\u00edba, e deram pra M\u00e3e do Mato um la\u00e7arote rubro<br \/>\ncor de mal, porque agora ela era mestra do cord\u00e3o encarnado em todos<br \/>\nos Pastoris de Natal. Depois foram-se embora com prazer e alegria, bailando<br \/>\nque mais bailando, seguidas de futeb\u00f3leres \u00e1guias pequenos xod\u00f3s<br \/>\nseresteiros, toda essa rapaziada dor\u00ea. Macuna\u00edma ficou de repouso<br \/>\no m\u00eas de preceito por\u00e9m se recusou a jejuar. O pecurrucho tinha<br \/>\ncabe\u00e7a chata e Macuna\u00edma inda a achatava mais batendo nela todos<br \/>\nos dias e falando pro guri: \u2014 Meu filho, cresce depressa pra voc\u00ea<br \/>\nir pra S\u00e3o Paulo ganhar muito dinheiro.<\/p>\n<p>Todas as icamiabas queriam bem o menino encarnado e no primeiro banho dele<br \/>\npuseram todas as j\u00f3ias da tribo pra que o pequeno fosse rico sempre.<br \/>\nMandaram buscar na Bol\u00edvia uma tesoura e enfiaram ela aberta debaixo<br \/>\ndo cabeceiro porque sin\u00e3o Tutu Maramb\u00e1 vinha, chupava o umbigo<br \/>\ndo pi\u00e1 e o ded\u00e3o do p\u00e9 de Ci. Tutu Maramb\u00e1 veio,<br \/>\ntopou com a tesoura e se enganou: chupou o olho dela e foi-se embora satisfeito.<br \/>\nTodos agora s\u00f3 matutavam no pecurrucho. Mandaram buscar pra ele em<br \/>\nS\u00e3o Paulo os famosos sapatinhos de l\u00e3 tricotados por dona Ana<br \/>\nFrancisca de Almeida Leite Morais e em Pernambuco as rendas &#8220;Rosa dos<br \/>\nAlpes&#8221;, &#8220;Flor de Guabiroba&#8221; e &#8220;Por ti pade\u00e7o&#8221;<br \/>\ntecidas pelas m\u00e3os de dona Joaquina Leit\u00e3o mais conhecida pelo<br \/>\nnome de Quinquina Cacunda. Filtravam o milhor tamarindo das irm\u00e3s Louro<br \/>\nVieira, de \u00d3bidos, pro menino engolir no refresco o remedinho pra lombriga.<br \/>\nVida feliz, era bom!&#8230; Mas uma feita jucurutu pousou na maloca do imperador<br \/>\ne soltou o regougo agourento. Macuna\u00edma tremeu assustado espantou os<br \/>\nmosquitos e caiu no pajuari por demais pra ver si espantava o medo tamb\u00e9m.<br \/>\nBebeu e dormiu noite inteira. Ent\u00e3o chegou a Cobra Preta e tanto que<br \/>\nchupou o \u00fanico peito vivo de Ci que n\u00e3o deixou nem o apojo.<br \/>\nE como Jigu\u00ea n\u00e3o conseguira mo\u00e7ar nenhuma das icamiabas<br \/>\no curumim sem ama chupou o peito da m\u00e3e no outro dia, chupou mais,<br \/>\ndeu um suspiro envenenado e morreu.<\/p>\n<p>Botaram o anjinho numa iga\u00e7aba esculpida com forma de jaboti e pr\u00f3s<br \/>\nboitat\u00e1s n\u00e3o comerem os olhos do morto o enterraram mesmo no<br \/>\ncentro da taba com muitos cantos muita dan\u00e7a e muito pajuari.<\/p>\n<p>Terminada a fun\u00e7\u00e3o a companheira de Macuna\u00edma toda<br \/>\nenfeitada ainda, tirou do colar uma muiraquit\u00e3 famosa, deu-a pro companheiro<br \/>\ne subiu pro c\u00e9u por um cip\u00f3. \u00c9 l\u00e1 que Ci vive<br \/>\nagora nos trinques pas-seando, liberta das formigas, toda enfeitada ainda,<br \/>\ntoda enfeitada de luz, virada numa estrela. \u00c9 a Beta do Centauro.<\/p>\n<p>No outro dia quando Macuna\u00edma foi visitar o t\u00famulo do filho<br \/>\nviu que nascera do corpo uma plantinha. Trataram dela com muito cuidado e<br \/>\nfoi o guaran\u00e1. Com as frutinhas piladas dessa planta \u00e9 que a<br \/>\ngente cura muita doen\u00e7a e se refresca durante os calor\u00f5es de<br \/>\nVei, a Sol.<\/p>\n<h4><a name=\"4\"><\/a>IV &#8211; Boi\u00fana Luna<\/h4>\n<p>No outro dia bem cedo o her\u00f3i padecendo saudades de Ci a companheira<br \/>\npra sempre inesquec\u00edvel, furou o bei\u00e7o inferior e fez da muiraquit\u00e3<br \/>\num tembet\u00e1. Sentiu que ia chorar. Chamou depressa os manos, se despediu<br \/>\ndas icamiabas e partiu.<\/p>\n<p>Gauderiaram gauderiaram por todos aqueles matos sobre os quais Macuna\u00edma<br \/>\nimperava agora. Por toda a parte ele recebia homenagens e era sempre acompanhado<br \/>\npelo s\u00e9quito de araras vermelhas e jandaias. Nas noites de amargura<br \/>\nele trepava num a\u00e7aizeiro de frutas roxas como a alma dele e contemplava<br \/>\nno c\u00e9u a figura faceira de Ci. &#8220;Marvada!&#8221; que ele gemia&#8230;<br \/>\nEnt\u00e3o ficava muito sofrendo, muito! e invocava os deuses bons cantando<br \/>\nc\u00e2nticos de longa dura\u00e7\u00e3o.. .<\/p>\n<p>Rud\u00e1, Rud\u00e1!&#8230;<\/p>\n<p>Tu que secas as chuvas, Faz com que os ventos do oceano Desembestem por<br \/>\nminha terra Pra que as nuvens v\u00e3o-se embora E a minha marvada brilhe<br \/>\nLimpinha e firme no c\u00e9u!. . .<\/p>\n<p>Faz com que amansem Todas as \u00e1guas dos rios Pra que eu me banhando<br \/>\nneles Possa brincar com a marvada Refletida no espelho das \u00e1guas!&#8230;<\/p>\n<p>Assim. Ent\u00e3o descia e chorava encostado no ombro de Maanape. Jigu\u00ea<br \/>\nsolu\u00e7ando de pena animava o togo da caieira pra que o her\u00f3i<br \/>\nn\u00e3o sentisse frio. Maanape engulia as l\u00e1grimas, invocando o<br \/>\nAcutipuru o Murucututu o Ducucu, todos esses donos do sono em acalantos assim:<br \/>\nAcutipuru, Empresta vosso sono Pra Macuna\u00edma Que \u00e9 muito manhoso!&#8230;<\/p>\n<p>Catava os carrapatos do her\u00f3i e o acalmava balanceando o corpo. O<br \/>\nher\u00f3i acalmava acalmava e adormecia bem.<\/p>\n<p>No outro dia os tr\u00eas estradeiros recome\u00e7avam a caminhada atrav\u00e9s<br \/>\ndos matos misteriosos. E Macuna\u00edma era sempre seguido pelo s\u00e9quito<br \/>\nde araras vermelhas e jandaias.<\/p>\n<p>Caminhando caminhando, uma feita em que a arraiada principiava enxotando<br \/>\na escureza da noite, escutaram longe um lamento de mo\u00e7a. Foram ver.<br \/>\nAndaram l\u00e9gua e meia e encontraram uma cascata chorando sem parada.<br \/>\nMacuna\u00edma perguntou pra cascata: \u2014 Que \u00e9 isso! \u2014<br \/>\nChouri\u00e7o! \u2014 Conta o que \u00e9.<\/p>\n<p>E a cascata contou o que tinha sucedido pra ela.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o v\u00ea que chamo Naipi e sou filha do tuxaua Mex\u00f4-Mexoitiqui<br \/>\nnome que na minha fala quer dizer Engatinha-Engatinha. Eu era uma boniteza<br \/>\nde cunhat\u00e3 e todos os tuxauas vizinhos desejavam dormir na minha rede<br \/>\ne provar meu corpo mais molengo que embirossu. Por\u00e9m quando algum vinha<br \/>\neu dava dentadas e pontap\u00e9s por amor de experimentar a for\u00e7a<br \/>\ndele. E todos n\u00e3o ag\u00fcentavam e partiam sorumb\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Minha tribo era escrava da boi\u00fana Capei que morava num cov\u00e3o<br \/>\nem companhia das sa\u00favas. Sempre no tempo em que os ip\u00eas de beira-rio<br \/>\nse amarelavam de flores a boi\u00fana vinha na taba escolher a cunha virgem<br \/>\nque ia dormir com ela na socava cheia de esqueletos.<\/p>\n<p>Quando meu corpo chorou sangue pedindo for\u00e7a de homem pra servir,<br \/>\na suinara cantou manh\u00e3zinha nas jarinas de meu tejup\u00e1, veio<br \/>\nCapei e me escolheu. Os ip\u00eas de beira-rio relampeavam de amarelo e todas<br \/>\nas flores ca\u00edram nos ombros solu\u00e7ando do mo\u00e7o Tit\u00e7at\u00ea<br \/>\nguerreiro de meu pai. A tristura talqualmente correi\u00e7\u00e3o de sacassaia<br \/>\nviera na taba e devorara at\u00e9 o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Quando o paj\u00e9 velho tirou a noite do buraco outra vez, Tit\u00e7at\u00ea<br \/>\najuntou as florzinhas perto dele e veio com elas pra rede da minha \u00faltima<br \/>\nnoite livre. Ent\u00e3o mordi Tit\u00e7at\u00ea.<\/p>\n<p>O sangue espirrou na munheca mordida por\u00e9m o mo\u00e7o n\u00e3o<br \/>\nfez caso n\u00e3o, gemeu de raiva amando, me encheu a boca de flores que<br \/>\nn\u00e3o pude mais morder. Tit\u00e7at\u00ea pulou na rede e Naipi serviu<br \/>\nTit\u00e7at\u00ea.<\/p>\n<p>Depois que brincamos feito doidos entre sangue escorrendo e as florzinhas<br \/>\nde ip\u00ea, meu vencedor me carregou no ombro me jogou na ipeigara abicada<br \/>\nnum esconderijo de aturi\u00e1s e flechou pro largo rio Zangado, fugindo<br \/>\nda boi\u00fana.<\/p>\n<p>No outro dia quando o paj\u00e9 velho guardou a noite no buraco outra<br \/>\nvez, Capei foi me buscar e encontrou a rede sangrando vazia. Deu um urro e<br \/>\ndeitou correndo em busca nossa. Vinha vindo vinha vindo, a gente escutava<br \/>\no urro dela perto, mais perto pertinho e afinal as \u00e1guas do rio Zangado<br \/>\nempinaram com o corpo da boi\u00fana ali.<\/p>\n<p>Tit\u00e7at\u00ea n\u00e3o podia mais remar desfalecido, sangrando<br \/>\nsempre com a mordida na munheca. Por isso que n\u00e3o pudemos fugir. Capei<br \/>\nme prendeu, me revirou, fez a sorte do ovo em mim, deu certo e a boi\u00fana<br \/>\nviu que eu j\u00e1 servira Tit\u00e7at\u00ea.<\/p>\n<p>Quis acabar com o mundo de raiva tamanha, n\u00e3o sei&#8230; me virou nesta<br \/>\npedra e atirou Tit\u00e7at\u00ea na praia do rio, transformado numa planta.<br \/>\n\u00c9 aquela uma que est\u00e1 l\u00e1, l\u00e1 em baixo, l\u00e1!<br \/>\n\u00c9 aquele murur\u00ea t\u00e3o lindo que se enxerga, bracejando n&#8217;\u00e1gua<br \/>\npra mim. As flores roxas dele s\u00e3o os pingos de sangue da mordida, que<br \/>\nmeu frio de cascata regelou.<\/p>\n<p>Capei mora em baixo de mim, examinando sempre si fui mesmo brincada pelo<br \/>\nmo\u00e7o. Fui sim e passarei chorando nesta pedra at\u00e9 o fim do que<br \/>\nn\u00e3o tem fim, m\u00e1goas de n\u00e3o servir mais o meu guerreiro<br \/>\nT\u2019\u00e7at\u00ea&#8230; Parou. O choro pingava nos joelhos de Macuna\u00edma<br \/>\ne ele solu\u00e7ou tremido.<\/p>\n<p>\u2014 Si&#8230; si&#8230; si a boi\u00fana aparecesse eu&#8230; eu matava ela! Ent\u00e3o<br \/>\nse escutou um urro gua\u00e7u e Capei veio saindo d&#8217;\u00e1gua. E Capei<br \/>\nera a boi\u00fana. Macuna\u00edma ergueu o busto relumeando de hero\u00edsmo<br \/>\ne avan\u00e7ou pro monstro. Capei escancarou a goela e soltou uma nuvem<br \/>\nde apiac\u00e1s. Macuna\u00edma bateu que mais bateu vencendo os marimbondos.<br \/>\nO monstro atirou uma guascada tirlintando com os guizos do rabo, por\u00e9m<br \/>\nnesse momento uma formiga tracu\u00e1 mordeu o calcanhar do her\u00f3i.<br \/>\nEle agachou distra\u00eddo com a dor e o rabo passou por cima dele indo<br \/>\nbater na cara de Capei. Ent\u00e3o ela urrou mais e deu um bote na coxa<br \/>\nde Macuna\u00edma. Ele s\u00f3 fez um afastadinho com o corpo, agarrou<br \/>\nnum rochedo e juque! decepou a cabe\u00e7a da bicha.<\/p>\n<p>O corpo dela se estorceu na corrente enquanto a cabe\u00e7a com aqueles<br \/>\nolh\u00f5es docinhos vinha beijar vencida os p\u00e9s do vingador. O her\u00f3i<br \/>\nteve medo e jogou no viado mato dentro acompanhado pelos manos.<\/p>\n<p>\u2014 Vem c\u00e1, siriri, vem c\u00e1! que a cabe\u00e7a gritava.<\/p>\n<p>Eles chispavam mais. Correram l\u00e9gua e meia e olharam para tr\u00e1s.<br \/>\nA cabe\u00e7a de Capei vinha rolando sempre em busca deles. Correram mais<br \/>\ne quando n\u00e3o podiam de fadiga treparam num bacuparizeiro ribeirinho<br \/>\npra ver si a cabe\u00e7a continuava pra diante. Mas cabe\u00e7a parou<br \/>\npor debaixo do pau e pediu bacuparis. Macuna\u00edma sacudiu a \u00e1rvore.<br \/>\nA cabe\u00e7a catou as frutas do ch\u00e3o, comeu e pediu mais. Jigu\u00ea<br \/>\nsacudiu bacuparis dentro d&#8217;\u00e1gua por\u00e9m a cabe\u00e7a falou<br \/>\nque l\u00e1 n\u00e3o ia n\u00e3o. Ent\u00e3o Maanape atirou com toda<br \/>\na for\u00e7a uma fruta longe e enquanto a cabe\u00e7a ia busc\u00e1-la<br \/>\nos manos desceram do pau e se rasparam. Correndo correndo, l\u00e9gua e<br \/>\nmeia adiante deram com a casa onde morava o bacharel de Canan\u00e9ia. O<br \/>\ncoroca estava na porta sentado e lia manuscritos profundos. Macuna\u00edma<br \/>\nfalou pra ele: \u2014 Como vai, bacharel? \u2014 Menos mal, ignoto viajor.<\/p>\n<p>\u2014 Tomando a fresca, n\u00e3o? \u2014 C\u2019est vrai, como dizem<br \/>\nos franceses.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, t\u00e9-logo bacharel, estou meio afobado&#8230;<\/p>\n<p>E chisparam outra vez. Atravessaram os sambaquis do Caputera e do Morrete<br \/>\nnum respiro. Logo adiante havia um rancho teatino. Entraram e fecharam a borta<br \/>\nbem. Ent\u00e3o Macuna\u00edma p\u00f4s reparo que perdera o tembet\u00e1.<br \/>\nFicou desesperado porque era a \u00fanica lembran\u00e7a que guardava<br \/>\nde Ci. Ia saindo pra campear a pedra por\u00e9m os manos n\u00e3o deixaram.<br \/>\nN\u00e3o durou muito a cabe\u00e7a chegou. Juque! bateu.<\/p>\n<p>\u2014 Que h\u00e1? \u2014 Abra a porta pra mim entrar! Por\u00e9m<br \/>\njacar\u00e9 abriu? nem eles! e a cabe\u00e7a n\u00e3o p\u00f4de entrar.<br \/>\nMacuna\u00edma n\u00e3o sabia que a cabe\u00e7a ficara escrava dele<br \/>\ne n\u00e3o vinha pra fazer mal n\u00e3o. A cabe\u00e7a esperou muito<br \/>\npor\u00e9m vendo que n\u00e3o abriam mesmo matutou no que ia ser. Si fosse<br \/>\nser \u00e1gua os outros bebiam, si fosse mosquito flitavam, si fosse trem<br \/>\nde ferro descarrilava, si fosse rio punham no mapa&#8230; Resolveu: &#8220;Vou<br \/>\nser Lua&#8221;. Gritou:<\/p>\n<p>\u2014 Abram a porta, gente, que quero umas coisas! Macuna\u00edma espiou<br \/>\npela fresta e avisou Jigu\u00ea j\u00e1 abrindo: \u2014 Est\u00e1 solta!<\/p>\n<p>Jigu\u00ea tornou a fechar a porta. Por isso que existe a express\u00e3o<br \/>\n&#8220;T\u00e1 solto!&#8221; indicando que a gente n\u00e3o faz mesmo o que<br \/>\nnos pedem.<\/p>\n<p>Quando Capei viu que n\u00e3o abriam a porta principiou se lamentando<br \/>\nmuito e perguntou pra iandu caranguejeira si ajudava a subida pro c\u00e9u.<\/p>\n<p>\u2014 Meu fio Sol derrete, secundou a aranha tatamanha.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a cabe\u00e7a pediu pr\u00f3s xex\u00e9us se ajuntarem<br \/>\ne ficou noite escura.<\/p>\n<p>\u2014 Meu fio ningu\u00e9m n\u00e3o enxerga de noite, disse a aranha<br \/>\ntatamanha.<\/p>\n<p>A cabe\u00e7a foi buscar um cuit\u00ea de friagem nos Andes e falou:<br \/>\n\u2014 Despeja uma gota cada l\u00e9gua e meia, fio branqueia de geada.<br \/>\nPodemos ir.<\/p>\n<p>\u2014 Pois ent\u00e3o vamos.<\/p>\n<p>A iandu principiou fazendo fio no ch\u00e3o. Com o primeiro ventinho que<br \/>\nbrisou por ali o fio leviano se ergueu no c\u00e9u. Ent\u00e3o a aranha<br \/>\ntatamanha subiu por ele e da ponta l\u00e1 em riba derramou um bocado de<br \/>\ngeada. E enquanto a iandu caranguejeira fazia mais fio de l\u00e1 pra riba,<br \/>\no de baixo branqueava todo. A cabe\u00e7a gritou: \u2014 Adeus, meu povo,<br \/>\nque vou pro c\u00e9u! E l\u00e1 foi comendo fie sobessubindo pro campo<br \/>\nvasto do c\u00e9u. Os manos abriram a porta e espiaram. Capei sempre subindo.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea vai mesmo pro c\u00e9u, cabe\u00e7a? \u2014 Uum,<br \/>\nela fez n\u00e3o podendo mais abrir a boca. Quando foi ali pela hora antes<br \/>\nda madrugada a boi\u00fana Capei chegou no c\u00e9u. Estava gorducha de<br \/>\ntanto fio comido e muito p\u00e1lida do esfor\u00e7o. Todo o suor dela<br \/>\nca\u00eda sobre a Terra em gotinhas de orvalho novo. Por causa do fio geado<br \/>\n\u00e9 que Capei \u00e9 t\u00e3o fria. Dantes Capei foi a boi\u00fana<br \/>\nmas agora \u00e9 a cabe\u00e7a da Lua l\u00e1 no campo vasto do c\u00e9u.<br \/>\nDesde essa feita as caranguejeiras preferem fazer fio de noite.<\/p>\n<p>No outro dia os manos deram um campo at\u00e9 a beira do rio mas campearam,<br \/>\ncampearam em v\u00e3o, nada de muiraquit\u00e3. Perguntaram pra<\/p>\n<p>todos os seres, aperemas sag\u00fcis tatus-mulitas tejus mussu\u00e3s da<br \/>\nterra e das \u00e1rvores, tapiucabas chab\u00f3s matinta-pereras pinica-paus<br \/>\ne aracu\u00e3s do ar, pra ave japiim e seu compadre marimbondo, pra baratinha<br \/>\ncasadeira, pro p\u00e1ssaro que grita &#8220;Taam!&#8221; e sua companheira<br \/>\nque responde &#8220;Taim!&#8221;, pra lagartixa que anda de pique com o rat\u00e3o,<br \/>\npr\u00f3s tambaquis tucunar\u00e9s piracurus curimat\u00e1s do rio,<br \/>\nos peca\u00eds tapicurus e ierer\u00eas da praia, todos esses entes vivos<br \/>\nmas ningu\u00e9m n\u00e3o vira nada, ningu\u00e9m n\u00e3o sabia de<br \/>\nnada. E os manos bateram p\u00e9 na estrada outra vez, varando os dom\u00ednios<br \/>\nimperiais. O sil\u00eancio era feio e o desespero tamb\u00e9m. De vez em<br \/>\nquando Macuna\u00edma parava pensando na marvada&#8230; Que desejo batia nele!<br \/>\nParava tempo. Chorava muito tempo. As l\u00e1grimas escorregando pelas faces<br \/>\ninfantis, do her\u00f3i iam lhe batizar a peitaria cabeluda. Ent\u00e3o<br \/>\nele suspirava sacudindo a cabecinha:<\/p>\n<p>\u2014 Qual, manos! Amor primeiro n\u00e3o tem companheiro, n\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>Continuava a caminhar. E por toda a parte recebia homenagens e era sempre<br \/>\nseguido pelo s\u00e9quito sarapintado de jandaias e araras vermelhas.<\/p>\n<p>Uma feita em que deitara numa sombra enquanto esperava os manos pescando,<br \/>\no Negrinho do Pastoreio pra quem Macuna\u00edma rezava diariamente, se apiedou<br \/>\ndo panema e resolveu ajud\u00e1-lo. Mandou o passarinho uirapuru. Quando<br \/>\nsin\u00e3o quando o her\u00f3i escutou um tatalar inquieto e o passarinho<br \/>\nuirapuru pousou no joelho dele. Macuna\u00edma fez um gesto de cacetea\u00e7\u00e3o<br \/>\ne enxotou o passarinho uirapuru. Nem bem minuto passado escutou de novo a<br \/>\nbulha e o passarinho pousou na barriga dele. Macuna\u00edma nem se amolou<br \/>\nmais. Ent\u00e3o o passarinho uirapuru agarrou cantando com do\u00e7ura<br \/>\ne o her\u00f3i entendeu tudo o que ele cantava. E era que Macuna\u00edma<br \/>\nestava desinfeliz porque perdera a muiraquit\u00e3 na praia do rio quando<br \/>\nsubia no bacupari. Por\u00e9m agora, cantava o lamento do uirapuru, nunca<br \/>\nmais que Macuna\u00edma havia de ser marupiara n\u00e3o, porque uma tra\u00e7a<br \/>\nj\u00e1 engulira a muiraquit\u00e3 e o mariscador que apanhara a tartaruga<br \/>\ntinha vendido a pedra verde pra um regat\u00e3o peruano se chamando Venceslau<br \/>\nPietro Pietra. O dono do talism\u00e3 enriquecera e parava fazendeiro e<br \/>\nbaludo l\u00e1 em S\u00e3o Paulo, a cidade macota lambida pelo igarap\u00e9<br \/>\nTiet\u00ea.<\/p>\n<p>Dito isto o passarinho uirapuru executou uma letra no ar e desapareceu. Quando<br \/>\nos manos chegaram da pesca Macuna\u00edma falou pra eles:<\/p>\n<p>\u2014 Ia andando por um caminho negaceando um catingueiro e vai, presenciei<br \/>\num fri\u00fame no costado. Botei a m\u00e3o e saiu uma lacraia mansa que<br \/>\nme falou toda a verdade.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Macuna\u00edma contou o paradeiro da muiraquit\u00e3 e<br \/>\ndisse pr\u00f3s manos que estava disposto a ir em S\u00e3o Paulo procurar<br \/>\nesse tal Venceslau Pietro Pietra e retomar o tembet\u00e1 roubado.<\/p>\n<p>\u2014 &#8230; ei cascavel fa\u00e7a ninho si eu n\u00e3o topo com a muiraquit\u00e3!<br \/>\nSi voc\u00eas venham comigo muito que bem, si n\u00e3o, homem, antes s\u00f3<br \/>\ndo que mal acompanhado! Mas eu tenho opini\u00e3o de sapo e quando encasqueto<br \/>\numa coisa ag\u00fcento firme no toco. Hei de ir s\u00f3 pra tirar a prosa<br \/>\ndo passarinho uirapuru, minto! da lacraia.<\/p>\n<p>Depois que discursou Macuna\u00edma deu uma grande gargalhada imaginando<br \/>\nna pe\u00e7a que pregava no passarinho. Maanape e Jigu\u00ea resolveram<br \/>\nir com ele, mesmo porque o her\u00f3i carecia de prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h4><a name=\"5\"><\/a>V &#8211; Piaim\u00e3<\/h4>\n<p>No outro dia Macuna\u00edma pulou cedo na ub\u00e1 e deu uma chegada<br \/>\nat\u00e9 a foz do rio Negro pra deixar a consci\u00eancia na ilha de Marapat\u00e1.<br \/>\nDeixou-a bem na ponta dum mandacaru de dez metros, pra n\u00e3o ser comida<br \/>\npelas sa\u00favas. Voltou pro lugar onde os manos esperavam e no pino do<br \/>\ndia os tr\u00eas rumaram pra margem esquerda da Sol.<\/p>\n<p>Muitos casos sucederam nessa viagem por caatingas rios corredeiras, gerais,<br \/>\ncorgos, corredores de tabatinga matos-virgens e milagres do sert\u00e3o.<br \/>\nMacuna\u00edma vinha com os dois manos pra S\u00e3o Paulo. Foi o Araguaia<br \/>\nque facilitou-lhes a viagem. Por tantas conquistas e tantos feitos passados<br \/>\no her\u00f3i n\u00e3o ajuntara um vint\u00e9m s\u00f3 mas os tesouros<br \/>\nherdados da icamiaba estrela estavam escondidas nas grunhas do Roraima l\u00e1.<br \/>\nDesses tesouros Macuna\u00edma apartou pra viagem nada menos de quarenta<br \/>\nvezes quarenta milh\u00f5es de bagos de cacau, a moeda tradicional. Calculou<br \/>\ncom eles um dil\u00favio de embarca\u00e7\u00f5es. E ficou lindo trepando<br \/>\npelo Araguaia aquele poder de igaras, duma em uma duzentas em ajojo que-nem<br \/>\nflecha na pele do rio. Na frente Macuna\u00edma vinha de p\u00e9, carrancudo,<br \/>\nprocurando no longe a cidade. Matutava roendo os dedos.&#8221; agora cobertos<br \/>\nde berrugas de tanto apontarem Ci estrela. Os manos remavam espantando os<br \/>\nmosquitos a cada arranco dos remos repercutindo nas duzentas igaras ligadas,<br \/>\ndespejava uma batelada de bagos na pele do rio, deixando uma esteira de chocolate<br \/>\nonde os camuat\u00e1s pirapitingas dourados piracanjubas uarus-uar\u00e1s<br \/>\ne bacus se regalavam.<\/p>\n<p>Uma feita a Sol cobrira os tr\u00eas manos duma escaminha de suor e Macuna\u00edma<br \/>\nse lembrou de tomar banho. Por\u00e9m no rio era imposs\u00edvel por causa<br \/>\ndas piranhas t\u00e3o vorazes que de quando em quando na luta pra pegar<br \/>\num naco de irm\u00e3 espeda\u00e7ada, pulavam aos cachos pra fora d&#8217;\u00e1gua<br \/>\nmetro e mais. Ent\u00e3o Macuna\u00edma enxergou numa lapa bem no meio<br \/>\ndo rio uma cova cheia d&#8217;\u00e1gua. E a cova era que-nem a marca dum p\u00e9-gigante.<br \/>\nAbicaram. O her\u00f3i depois de muitos gritos por causa do frio da \u00e1gua<br \/>\nentrou na cova e se lavou inteirinho. Mas a \u00e1gua era encantada porque<br \/>\naquele buraco na lapa era marca do pez\u00e3o do Sum\u00e9, do tempo em<br \/>\nque andava pregando o evangelho de Jesus pra indiada brasileira. Quando o<br \/>\nher\u00f3i saiu do banho estava branco louro e de olhos azuizinhos, \u00e1gua<br \/>\nlavara o pretume dele. E ningu\u00e9m n\u00e3o seria capaz mais de indicar<br \/>\nnele um filho da tribo retinta dos Tapanhumas.<\/p>\n<p>Nem bem Jigu\u00ea percebeu o milagre, se atirou na marca do pez\u00e3o<br \/>\ndo Sum\u00e9. Por\u00e9m a \u00e1gua j\u00e1 estava muito suja da<br \/>\nnegrura do her\u00f3i e por mais que Jigu\u00ea esfregasse feito maluco<br \/>\natirando \u00e1gua pra todos os lados s\u00f3 conseguiu ficar da cor do<br \/>\nbronze novo. Macuna\u00edma teve d\u00f3 e consolou: \u2014 Olhe, mano<br \/>\nJigu\u00ea, branco voc\u00ea ficou n\u00e3o, por\u00e9m pretume foi-se<br \/>\ne antes fanhoso que sem nariz.<\/p>\n<p>Maanape ent\u00e3o \u00e9 que foi se lavar, mas Jigu\u00ea esborrifara<br \/>\ntoda a \u00e1gua encantada pra fora da cova. Tinha s\u00f3 um bocado l\u00e1<br \/>\nno fundo e Maanape conseguiu molhar s\u00f3 a palma dos p\u00e9s e das<br \/>\nm\u00e3os. Por isso ficou negro bem filho da tribo dos Tapanhumas. S\u00f3<br \/>\nque as palmas das m\u00e3os e dos p\u00e9s dele s\u00e3o vermelhas por<br \/>\nterem se limpado na \u00e1gua santa. Macuna\u00edma teve d\u00f3 e consolou:<br \/>\n\u2014 N\u00e3o se avexe, mano Maanape, n\u00e3o se avexe n\u00e3o,<br \/>\nmais sofreu nosso tio Judas! E estava lind\u00edssima na Sol da lapa os<br \/>\ntr\u00eas manos um louro um vermelho outro negro, de p\u00e9 bem erguidos<br \/>\ne nus. Todos os seres do mato espiavam assombrados. O jacar\u00e8una o jacar\u00e8tinga,<br \/>\no jacar\u00e9-a\u00e7u o jacar\u00e9-ururau de papo amarelo, todos esses<br \/>\njacar\u00e9s botaram os olhos de rochedo pra fora d&#8217;\u00e1gua. Nos ramos<br \/>\ndas ig\u00e0zeiras das aningas das mamoranas das emba\u00fabas dos catauaris<br \/>\nde beira-rio o macaco-prego o macaco-de-cheiro o guariba o bugio o cuat\u00e1<br \/>\no barrigudo o coxi\u00fa o cairara, todos os quarenta macacos do Brasil,<br \/>\ntodos, espiavam babando de inveja. E os sabi\u00e1s,o sabi\u00e0cia o<br \/>\nsabi\u00e0poca o sabi\u00e0\u00fana o sabi\u00e0piranga o sabi\u00e0gonga<br \/>\nque quando come n\u00e3o me d\u00e1, o sabi\u00e1-barranco o sabi\u00e1-tropeiro<br \/>\no sabi\u00e1-laranjeira o sabi\u00e1-gute todos esses ficaram pasmos e<br \/>\nesqueceram de acabar o trinado, vozeando vozeando com eloq\u00fc\u00eancia.<br \/>\nMacuna\u00edma teve \u00f3dio. Botou as m\u00e3os nas ancas e gritou<br \/>\npra natureza: \u2014 Nunca viu n\u00e3o! Ent\u00e3o os seres naturais<br \/>\ndebandavam vivendo e os tr\u00eas manos seguiram caminho outra vez.<\/p>\n<p>Por\u00e9m entrando nas terras do igarap\u00e9 Tiet\u00ea adonde o<br \/>\nburbon vogava e a moeda tradicional n\u00e3o era mais cacau, em vez, chamava<br \/>\narame contos contecos milreis bor\u00f3s tost\u00e3o duzentorr\u00e9is<br \/>\nquinhentorreis, cinq\u00fcenta paus, noventa bagarotes, e pelegas cobres xenx\u00e9ns<br \/>\ncaramingu\u00e1s selos bicos-de-coruja massuni bolada calc\u00e1reo gimbra<br \/>\nsirid\u00f3 bicha e pataracos, assim, adonde at\u00e9 liga pra meia ningu\u00e9m<br \/>\ncomprava nem por vinte mil cacaus. Macuna\u00edma ficou muito contrariado.<br \/>\nTer de trabucar, ele, her\u00f3i. . . Murmurou desolado: \u2014 Ai! que<br \/>\npregui\u00e7a!. . .<\/p>\n<p>Resolveu abandonar a empresa, voltando pr\u00f3s pagos de que era imperador.<br \/>\nPor\u00e9m Maanape falou assim: \u2014 Deixa de ser aru\u00e1, mano!<br \/>\nPor morrer um carangueijo o mangue n\u00e3o bota luto! que diacho! desanima<br \/>\nn\u00e3o que arranjo as coisas! Quando chegaram em S\u00e3o Paulo, ensacou<br \/>\num pouco do tesouro pra comerem e barganhando o resto na Bolsa apurou perto<br \/>\nde oitenta contos de r\u00e9is. Maanape era feiticeiro. Oitenta contos n\u00e3o<br \/>\nvalia muito mas o her\u00f3i refletiu bem e falou pr\u00f3s manos: \u2014<br \/>\nPaci\u00eancia. A gente se arruma com isso mesmo, quem quer cavalo sem tacha<br \/>\nanda de a-p\u00e9.. . Com esses cobres \u00e9 que Macuna\u00edma viveu.<br \/>\nE foi numa b\u00f4ca-da-noite frio que os manos toparam com a cidade macota<br \/>\nde S\u00e3o Paulo esparramada a beira-rio do igarap\u00e9 Tiet\u00ea.<br \/>\nPrimeiro foi a gritaria da papagaiada imperial se despedindo do her\u00f3i.<br \/>\nE l\u00e1 se foi o bando sarapintado volvendo pr\u00f3s matos do norte.<br \/>\nOs manos entraram num cerrado cheio de inaj\u00e1s ouricuris ubussus bacabas<br \/>\nmucaj\u00e1s miritis tucum\u00e3s trazendo no curuat\u00e1 uma penachada<br \/>\nde fumo em vez de palmas e cocos. Todas as estrelas tinham descido do c\u00e9u<br \/>\nbranco de t\u00e3o molhado de garoa e banzavam pela cidade. Macuna\u00edma<br \/>\nlembrou de procurar Ci \u00cah! dessa ele nunca poderia esquecer n\u00e3o,<br \/>\nporque a rede feiticeira que ela armara pr\u00f3s brinquedos, fora tecida<br \/>\ncom os pr\u00f3prios cabelos dela e isso torna a tecedeira inesquec\u00edvel.<br \/>\nMacuna\u00edma campeou campeou mas as estradas e terreiros estavam apinhados<br \/>\nde cunhas t\u00e3o brancas t\u00e3o alvinhas, t\u00e3o!&#8230; Macuna\u00edma<br \/>\ngemia. Ro\u00e7ava nas cunhas murmurejando com do\u00e7ura: &#8220;Mani!<br \/>\nMani! filhinhas da mandioca&#8230;&#8221; perdido de gosto e tanta formosura. Afinal<br \/>\nescolheu tr\u00eas. Brincou com elas na rede estranha plantada no ch\u00e3o,<br \/>\nnuma maloca mais alta que a Paranaguara. Depois, por causa daquela rede ser<br \/>\ndura, dormiu de atravessado sobre os corpos das cunhas. E a noite custou pra<br \/>\nele quatrocentos bagarotes.<\/p>\n<p>\u2014 A intelig\u00eancia do her\u00f3i estava muito perturbada. Acordou<br \/>\ncom os berros da bicharia l\u00e1 em baixo nas ruas, disparando entre as<br \/>\nmalocas tem\u00edveis. E aquele diacho de sag\u00fci-a\u00e7u que o carregara<br \/>\npro alto do tapiri tamanho em que dormira. . . Qu\u00ea mundo de bichos!<br \/>\nqu\u00ea desprop\u00f3sito de pap\u00f5es roncando, mauaris juruparis<br \/>\nsacis e boitat\u00e1s nos atalhos nas socavas nas cordas dos morros furados<br \/>\npor grot\u00f5es donde gentama sa\u00eda muito branquinha branqu\u00edssima,<br \/>\nde certo a filharada da mandioca!&#8230; \u00c1 intelig\u00eancia do her\u00f3i<br \/>\nestava muito perturbada. As cunhas rindo tinham ensinado pra ele que o sag\u00fci-a\u00e7u<br \/>\nn\u00e3o era sag\u00fcim n\u00e3o, chamava elevador e era uma m\u00e1quina.<br \/>\nDe-manh\u00e3zinha ensinaram que todos aqueles piados berros cuquiadas sopros<br \/>\nroncos esturros n\u00e3o eram nada disso n\u00e3o, eram mas cl\u00e1xons<br \/>\ncampainhas apitos buzinas e tudo era m\u00e1quina. As on\u00e7as pardas<br \/>\nn\u00e3o eram on\u00e7as pardas, se chamavam fordes hupmobiles chevrol\u00e9s<br \/>\ndodges m\u00e1rmons e eram m\u00e1quinas. Os tamandu\u00e1s os boitat\u00e1s<br \/>\nas inaj\u00e1s de curuat\u00e1s de fumo, em vez eram caminh\u00f5es<br \/>\nbondes autobondes an\u00fancios-luminosos rel\u00f3gios far\u00f3is<br \/>\nr\u00e1dios motocicletas telefones gorjetas postes chamin\u00e9s. . .<br \/>\nEram m\u00e1quinas e tudo na cidade era s\u00f3 m\u00e1quina! O her\u00f3i<br \/>\naprendendo calado. De vez em quando estremecia. Voltava a ficar im\u00f3vel<br \/>\nescutando assuntando maquinando numa cisma assombrada. Tomou-o um respeito<br \/>\ncheio de inveja por essa deusa de deveras for\u00e7uda, Tup\u00e3 famanado<br \/>\nque os filhos da mandioca chamavam de M\u00e1quina, mais cantadeira que<br \/>\na M\u00e3e-D&#8217;\u00e1gua, em bulhas de sarapantar.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o resolveu ir brincar com a M\u00e1quina pra ser tamb\u00e9m<br \/>\nimperador dos filhos da mandioca. Mas as tr\u00eas cunhas deram muitas risadas<br \/>\ne falaram que isso de deuses era gorda mentira antiga, que n\u00e3o tinha<br \/>\ndeus n\u00e3o e que com a m\u00e1quina ningu\u00e9m n\u00e3o brinca<br \/>\nporque ela mata. A m\u00e1quina n\u00e3o era deus n\u00e3o, nem possu\u00eda<br \/>\nos distintivos femininos de que o her\u00f3i gostava tanto. Era feita pelos<br \/>\nhomens. Se mexia com eletricidade com fogo com \u00e1gua com vento com.,<br \/>\nfumo, os homens aproveitando as for\u00e7as da natureza. Por\u00e9m jacar\u00e9<br \/>\nacreditou? nem o her\u00f3i! Se levantou na cama e com um gesto, esse sim!<br \/>\nbem gua\u00e7u de desd\u00e9m, t\u00f3! batendo o antebra\u00e7o esquerdo<br \/>\ndentro do outro dobrado, mexeu com energia a munheca direita pras tr\u00eas<br \/>\ncunhas e partiu. Nesse instante, falam, ele inventou o gesto famanado de ofensa:<br \/>\na pacova.<\/p>\n<p>E foi morar numa pens\u00e3o com os manos. Estava com a boca cheia de sapinhos<br \/>\npor causa daquela primeira noite de amor paulistano. Gemia com as dores e<br \/>\nn\u00e3o havia meios de sarar at\u00e9 que Maanape roubou uma chave de<br \/>\nsacr\u00e1rio e deu pra Macuna\u00edma chupar. O her\u00f3i chupou chupou<br \/>\ne sarou bem. Maanape era feiticeiro.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma passou ent\u00e3o uma semana sem comer nem brincar s\u00f3<br \/>\nmaquinando nas brigas sem vit\u00f3ria dos filhos da mandioca com a M\u00e1quina.<br \/>\nA M\u00e1quina era que matava os homens por\u00e9m os homens \u00e9<br \/>\nque mandavam na M\u00e1quina&#8230; Constatou pasmo que os filhos da mandioca<br \/>\neram donos sem mist\u00e9rio e sem for\u00e7a da m\u00e1quina sem mist\u00e9rio<br \/>\nsem querer sem fastio, incapaz de explicar as infelicidades por si. Estava<br \/>\nnost\u00e1lgico assim. At\u00e9 que uma noite, suspenso no terra\u00e7o<br \/>\ndum arranha-c\u00e9u com os manos, Macuna\u00edma concluiu: \u2014 Os<br \/>\nfilhos da mandioca n\u00e3o ganham da m\u00e1quina nem ela ganha deles<br \/>\nnesta luta. H\u00e1 empate.<\/p>\n<p>N\u00e3o concluiu mais nada porque inda n\u00e3o estava acostumado com<br \/>\ndiscursos por\u00e9m palpitava pra ele muito embrulhadamente muito! que<br \/>\na m\u00e1quina devia de ser um deus de que os homens n\u00e3o eram verdadeiramente<br \/>\ndonos s\u00f3 porque n\u00e3o tinham feito dela uma Iara explic\u00e1vel<br \/>\nmas apenas uma realidade do mundo. De toda essa embrulhada o pensamento dele<br \/>\nsacou bem clarinha uma luz: Os homens \u00e9 que eram m\u00e1quinas e<br \/>\nas m\u00e1quinas \u00e9 que eram homens. Macuna\u00edma deu uma grande<br \/>\ngargalhada. Percebeu que estava livre outra vez e teve uma satisfa m\u00e3e.<br \/>\nVirou Jigu\u00ea na m\u00e1quina telefone, ligou pr\u00f3s cabar\u00e9s<br \/>\nencomendando lagosta e francesas.<\/p>\n<p>No outro dia estava t\u00e3o fatigado da farra que a saudade bateu nele.<br \/>\nSe lembrou da muiraquit\u00e3. Resolveu agir logo porque primeira pancada<br \/>\n\u00e9 que mata cobra.<\/p>\n<p>Venceslau Pietro Pietra morava num tejupar maravilhoso rodeado de mato no<br \/>\nfim da rua Maranh\u00e3o olhando pra noruega do Pacaembu. Macuna\u00edma<br \/>\nfalou pra Maanape que ia dar uma chegadinha at\u00e9 l\u00e1 por amor<br \/>\nde conhecer Venceslau Pietro Pietra. Maanape fez um discurso mostrando as<br \/>\ninconveni\u00eancias de ir l\u00e1 porque a regat\u00e3o andava com o<br \/>\ncalcanhar pra frente e si Deus o assinalou alguma lhe achou. De certo um manuari<br \/>\nmalevo&#8230; Quem sabe si o gigante Piaim\u00e3 comedor de gente!&#8230; Macuna\u00edma<br \/>\nn\u00e3o quis saber.<\/p>\n<p>\u2014 Pois vou assim mesmo. Onde me conhecem honras me d\u00e3o onde<br \/>\nn\u00e3o me conhecem me dar\u00e3o ou n\u00e3o!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Maanape acompanhou o mano.<\/p>\n<p>Por detr\u00e1s do tejupar do regat\u00e3o vivia a \u00e1rvore Dzala\u00fara-Iegue<br \/>\nque d\u00e1 todas as frutas, cajus caj\u00e1s caj\u00e0mangas mangas<br \/>\nabacaxis abacates jaboticabas graviolas sapotis pupunhas pitangas guajiru<br \/>\ncheirando sovaco de preta, todas essas frutas e \u00e9 mui alta. Os dois<br \/>\nmanos estavam com fome. Fizeram um zaiac\u00fati com folhagem cortada pelas<br \/>\nsa\u00favas, esconderijo no galho mais baixo da \u00e1rvore pra flecharem<br \/>\na ca\u00e7a devorando as frutas. Maanape falou pra Macuna\u00edma: \u2014<br \/>\nOlha, si algum p\u00e1ssaro cantar n\u00e3o secunda n\u00e3o, mano,<br \/>\nsin\u00e3o adeus minhas encomendas! O her\u00f3i mexeu a cabe\u00e7a<br \/>\nque sim. Maanape atirava m a sarabatana e Macuna\u00edma recolhia por detr\u00e1s<br \/>\ndo zaiac\u00fati a ca\u00e7a caindo. Ca\u00e7a ca\u00eda com estrondo<br \/>\ne Macuna\u00edma aparava os macucos macacos micos mutuns jacus ja\u00f3s<br \/>\ntucanos, todas essas ca\u00e7as. Por\u00e9m o estrondo tirou Venceslau<br \/>\nPietro Pietra do farniente e ele veio saber o que era aquilo. E Venceslau<br \/>\nPietro Pietra era o gigante Piaim\u00e3 comedor de gente. Chegou na porta<br \/>\nda casa e cantou feito p\u00e1ssaro: \u2014 Ogor\u00f3! ogor\u00f3!<br \/>\nogor\u00f3! parecendo muito longe. Macuna\u00edma secundou logo: \u2014<br \/>\nOgor\u00f3! ogor\u00f3! ogor\u00f3! Maanape sabia do perigo e murmurou:<br \/>\n\u2014 Esconde, mano! O her\u00f3i escondeu por detr\u00e1s do zaiac\u00fati<br \/>\nentre a ca\u00e7a morta e as formigas. Ent\u00e3o gigante veio.<\/p>\n<p>\u2014 Quem que secundou? Maanape respondeu: \u2014 Sei n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Quem que secundou? \u2014 Sei n\u00e3o.<\/p>\n<p>Treze vezes. Da\u00ed o gigante falou: \u2014 Foi gente. Me mostra quem<br \/>\nera. Maanape jo^ou um macuco morto. Piaim\u00e3 engoliu o macuco e falou:<br \/>\n\u2014 Foi gente. Me mostra quem era. Maanape jogou um macaco morto. Piaim\u00e3<br \/>\nengoliu-o e continuou: \u2014 Foi gente. Me mostra quem era.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o enxergou o dedo mindinho do her\u00f3i escondido e atirou<br \/>\numa ban\u00edni na dire\u00e7\u00e3o. Se ouviu um grito gemido comprido,<br \/>\njuuuque! e Macuna\u00edma agachou com a flecha enterrada no cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO gigante falou pra Maanape: \u2014 Atira a gente que eu cacei! Maanape atirou<br \/>\nguaribas ja\u00f3s mutuns mutum-de-vargem mutum-de-fava mutuporanga urus<br \/>\nurumutum, todas essas ca\u00e7as por\u00e9m Piaim\u00e3 engolia e tornava<br \/>\na pedir a gente que ele flechara. Maanape n\u00e3o queria dar o her\u00f3i<br \/>\ne jogava as ca\u00e7as. Levaram muito tempo assim e Macuna\u00edma j\u00e1<br \/>\ntinha morrido. A final Piaim\u00e3 deu um berro medonho: \u2014 Maanape,<br \/>\nmeu neto, deixa de conversa! Atira a gente que eu cacei que sin\u00e3o te<br \/>\nmato, velho safadinho! Maanape n\u00e3o queria jogar o mano mesmo, pegou<br \/>\ndesesperado em seis ca\u00e7as duma vez um macuco um macaco um jacu uma<br \/>\njacutinga uma picota e uma pia-co\u00e7a e atirou no ch\u00e3o gritando:<br \/>\n\u2014 Toma seis! Piaim\u00e3 ficou danado. Agarrou quatro paus do mato,<br \/>\numa acapurana um angelim um api\u00f3 e um carar\u00e1, e veio com eles<br \/>\npra cima de Maanape: \u2014 Sai do caminho, por queira! jacar\u00e9 n\u00e3o<br \/>\ntem pesco\u00e7o, formiga n\u00e3o tem caro\u00e7o! comigo \u00e9<br \/>\ns\u00f3 quatro paus na ponta da unha, jogador de ca\u00e7a falsa!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Maanape ficou com muito medo e jogou, truque! o her\u00f3i no<br \/>\nch\u00e3o. Foi assim que Maanape com Piaim\u00e3 inventaram o jogo sublime<br \/>\ndo truco.<\/p>\n<p>Piaim\u00e3 sossegou.<\/p>\n<p>\u2014 Este mesmo.<\/p>\n<p>Agarrou o defunto por uma perna e foi puxando. Entrou na casa. Maanape desceu<br \/>\nda \u00e1rvore desesperado. Quando ia pra seguir atr\u00e1s do defunto<br \/>\nmano topou com a formiguinha sarara chamada Cambgique. A sarara perguntou:<br \/>\n\u2014 O que voc\u00ea faz por aqui, parceiro! \u2014 Vou atr\u00e1s<br \/>\ndo gigante que matou meu mano.<\/p>\n<p>\u2014 Vou tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Cambgique sugou todo sangue do her\u00f3i, esparramado no<br \/>\nch\u00e3o e nos ramos e sugando sempre as gotas do caminho foi monstrando<br \/>\no rasto pra Maanape.<\/p>\n<p>Entraram na casa atravessaram o hol e a sala-de-jantar, passaram pela copa<br \/>\nsa\u00edram no terra\u00e7o do lado e pararam na frente do por\u00e3o.<br \/>\nMaanape acendeu uma tocha de juta\u00ed e puderam descer a escadinha negra.<br \/>\nBem na porta da adega restejava a \u00faltima gota de sangue. A porta estava<br \/>\nfechada. Maanape cocou o nariz e perguntou pra Cambgique: \u2014 E agora!<br \/>\nEnt\u00e3o veio por debaixo da porta o carrapato Zlezlegue e perguntou pra<br \/>\nMaanape: \u2014 Agora o qu\u00ea, parceiro? \u2014 Vou atr\u00e1s do<br \/>\ngigante que matou meu mano. Zlezlegue falou: \u2014 Est\u00e1 bom. Ent\u00e3o<br \/>\nfecha o olho, parceiro. Maanape fechou.<\/p>\n<p>\u2014 Abre o olho, perceiro.<\/p>\n<p>Maanape abriu e o carrapato Zlezlegue tinha virado numa chave yale. Maanape<br \/>\nergueu a chave do ch\u00e3o e abriu a porta. Zlezlegue virou carrapato outra<br \/>\nvez e ensinou: \u2014 Com as garrafas bem de cima voc\u00ea convence Piaim\u00e3.<\/p>\n<p>E desapareceu. Maanape tirou dez garrafas, abriu e veio vindo uma aroma<br \/>\nperfeito. Era o cauim famoso chamado qui\u00e2nti. Ent\u00e3o Maanape entrou<br \/>\nna outra sala da adega. O gigante estava a\u00ed com a companheira, uma<br \/>\ncaapora velha sempre cachimbando que se chamava Ceiuci e era muito gulosa.<br \/>\nMaanape deu as garrafas pra Venceslau Pietro Pietra, um naco de fumo do Acar\u00e1<br \/>\npra caapora e o casal esqueceram que havia mundo.<\/p>\n<p>O her\u00f3i picado em vinte vezes trinta torresminhos bubuiava na polenta<br \/>\nfervendo. Maanape catou os pedacinhos e os ossos e estendeu tudo. no cimento<br \/>\npra refrescar. Quando esfriaram a sarara Cambgique derramou por cima o sangue<br \/>\nsugado. Ent\u00e3o Maanape embrulhou todos os pedacinhos sangrando em folhas<br \/>\nde bananeira, jogou o embrulho num sapiqu\u00e1 e tocou pra pens\u00e3o.<\/p>\n<p>L\u00e1 chegado botou o cesto de p\u00e9 assoprou fumo nele e Macuna\u00edma<br \/>\nveio saindo meio pamonha ainda, muito desmerecido, do meio das folhas. Maanape<br \/>\ndeu guaran\u00e1 pro mano e ele ficou taludo outra vez. Espantou os mosquitos<br \/>\ne perguntou: \u2014 O que foi que sucedeu pra mim? \u2014 Mas, meus cuidados,<br \/>\nn\u00e3o falei pra voc\u00ea n\u00e3o secundar cantiga de passarinho!<br \/>\nfalei sim, pois ent\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>No outro dia Macuna\u00edma acordou com escarlatina e levou todo o tempo<br \/>\nda febre imaginando que carecia da m\u00e1quina garrucha pra matar Venceslau<br \/>\nPietro Pietra. Nem bem sarou foi na casa dos Ingleses pedir uma smith-w\u00easson.<br \/>\nOs Ingleses falaram: \u2014 As garruchas inda est\u00e3o muito verdolengas<br \/>\npor\u00e9m vamos a ver si tem alguma t\u00eampora.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o foram em baixo da \u00e1rvore garrucheira. Os Ingleses falaram:<br \/>\n\u2014 Voc\u00ea fica esperando aqui. Se despencar alguma garrucha ent\u00e3o<br \/>\npegue. Mas n\u00e3o deixa ela cair no ch\u00e3o n\u00e3o! \u2014 Feito.<\/p>\n<p>Os Ingleses sacudiram sacudiram a \u00e1rvore e caiu uma garrucha t\u00eampora.<br \/>\nOs Ingleses falaram: \u2014 Essa est\u00e1 boa.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma agradeceu e foi-se embora. Queria que os outros acreditassem<br \/>\nque ele falava o ingl\u00eas por\u00e9m n\u00e3o falava nem sweetheart<br \/>\nn\u00e3o, os manos \u00e9 que falavam. Maanape tamb\u00e9m desejava<br \/>\ngarrucha balas e u\u00edsque. Macuna\u00edma aconselhou: \u2014 Voc\u00ea<br \/>\nn\u00e3o fala ingl\u00eas, bem, mano Maanape, vai l\u00e1 e a volta \u00e9<br \/>\ncruel. \u00c9 capaz de pedir garrucha e darem conserva. Deixa que eu vou.<\/p>\n<p>E foi falar outra vez com os Ingleses. Debaixo da \u00e1rvore garrucheira<br \/>\nos Ingleses sacolejaram sacolejaram os ramos por\u00e9m n\u00e3o caiu<br \/>\nnem uma garrucha n\u00e3o. Ent\u00e3o foram debaixo da \u00e1rvore baleira,<br \/>\nos Ingleses sacudiram e despencou um desperd\u00edcio de balas que Macuna\u00edma<br \/>\ndeixou cair no ch\u00e3o depois catou. \u2014 Agora u\u00edsque, falou.<\/p>\n<p>Foram debaixo da \u00e1rvore uisqueira, os Ingleses sacudiram e despencaram<br \/>\nduas caixas que Macuna\u00edma pegou no ar. Agradeceu pr\u00f3s Ingleses<br \/>\ne voltou pra pens\u00e3o. L\u00e1 chegado escondeu as caixas debaixo da<br \/>\ncama e foi falar com o mano: \u2014 Falei ingl\u00eas com eles, mano, por\u00e9m<br \/>\nn\u00e3o tinha nem garrucha nem u\u00edsque por causa que passou uma correi\u00e7ao<br \/>\nde formiga oncinha e comeu tudo. As balas trago aqui. Agora dou minha garrucha<br \/>\npra voc\u00ea e quando algu\u00e9m bulir comigo voc\u00ea atira.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o virou Jigu\u00ea na m\u00e1quina telefone, ligou pro gigante<br \/>\ne xingou a m\u00e3e dele.<\/p>\n<h4><a name=\"6\"><\/a>VI &#8211; A Francesa e o Gigante<\/h4>\n<p>Maanape gostava muito de caf\u00e9 e Jigu\u00ea muito de dormir. Macuna\u00edma<br \/>\nqueria erguer um papiri pr\u00f3s tr\u00eas morarem por\u00e9m jamais<br \/>\nque papiri se acabava. Os puchir\u00f5es goravam sempre porque Jigu\u00ea<br \/>\npassava o dia dormindo e Maanape bebendo caf\u00e9. O her\u00f3i teve<br \/>\nraiva. Pegou numa colher, virou-a num bichinho e falou: \u2014 Agora voc\u00ea<br \/>\nfica sovertida no p\u00f3 de caf\u00e9. Quando mano Maanape vier beber,<br \/>\nmorda a l\u00edngua dele! Ent\u00e3o pegando num cabeceiro de algod\u00e3o,<br \/>\nvirou-o numa tatorana branca e falou: \u2014 Agora voc\u00ea fica sovertida<br \/>\nna maqueira. Quando mano Jigu\u00ea vier dormir, chupe o sangue dele! Maanape<br \/>\nj\u00e1 vinha entrando na pens\u00e3o pra beber caf\u00e9 outra vez.<br \/>\nO bichinho picou a l\u00edngua dele. Ai! Maanape fez. Macuna\u00edma bem<br \/>\nsonso falou:<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 doendo, mano? Quando bichinho me pica n\u00e3o d\u00f3i<br \/>\nn\u00e3o.<\/p>\n<p>Maanape teve raiva. Atirou o bichinho muito pra longe falando: \u2014 Sai,<br \/>\npraga! Ent\u00e3o Jigu\u00ea entrou na pens\u00e3o pra tirar um corte.<br \/>\nO marandov\u00e1 branquinho tanto chupou o sangue dele que at\u00e9 virou<br \/>\nrosado.<\/p>\n<p>\u2014 Ai! que Jigu\u00ea gritou. E Macuna\u00edma: \u2014 Est\u00e1<br \/>\ndoendo, mano? Ora veja s\u00f3! Quando tatorana me chupa at\u00e9 gosto.<\/p>\n<p>Jigu\u00ea teve raiva e atirou a tatorana longe falando: \u2014 Sai, praga!<br \/>\nE ent\u00e3o os tr\u00eas manos foram continuar a constru\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo papiri. Maanape e Jigu\u00ea ficaram dum lado e Macuna\u00edma do outro<br \/>\npegava os tijolos que os manos atiravam. Maanape e Jigu\u00ea estavam tiriricas<br \/>\ne desejando se vingar do mano. O her\u00f3i n\u00e3o maliciava nada. Vai,<br \/>\nJigu\u00ea pegou num tijolo, por\u00e9m pra n\u00e3o machucar muito virou-o<br \/>\nnuma bola de couro dur\u00edssima. Passou a bola pra Maanape q\u00fce estava<br \/>\nmais na frente e Maanape com um pontap\u00e9 mandou ela bater em Macuna\u00edma.<br \/>\nEsborrachou todo o nariz do her\u00f3i.<\/p>\n<p>\u2014 Ui! que o her\u00f3i fez.<\/p>\n<p>Os manos bem sonsos gritaram: \u2014 Uai! est\u00e1 doendo, mano! Pois<br \/>\nquando bola bate na gente nem n\u00e3o d\u00f3i! Macuna\u00edma teve<br \/>\nraiva e atirando a bola com o p\u00e9 bem pra longe falou: \u2014 Sai,<br \/>\npeste! Veio onde estavam os manos: \u2014 N\u00e3o fa\u00e7o mais papiri,<br \/>\npronto! E virou tijolos pedras telhas ferragens numa nuvem de i\u00e7\u00e1s<br \/>\nque tomou S\u00e3o Paulo por tr\u00eas dias.<\/p>\n<p>O bichinho caiu em Campinas. A tatorana caiu por a\u00ed. A bola caiu<br \/>\nno campo. E foi assim que Maanape inventou o bicho-do-caf\u00e9, Jigu\u00ea<br \/>\na largarta-rosada e Macuna\u00edma o futebol, tr\u00eas pragas.<\/p>\n<p>No outro dia, com o pensamento sempre na marvada, o her\u00f3i percebeu<br \/>\nque xetrara mesmo duma vez e nunca mais que podia aparecer na rua Maranh\u00e3o<br \/>\nporque agora Venceslau Pietro Pietra j\u00e1 o conhecia bem. Imaginou e<br \/>\nali pelas quinze horas teve uma id\u00e9ia. Resolveu enganar o gigante.<br \/>\nEnfiou um membi na goela, virou Jigu\u00ea na m\u00e1quina telefone e telefonou<br \/>\npra Venceslau Pietro Pietra que uma francesa queria falar com ele a respeito<br \/>\nda m\u00e1quina neg\u00f3cios. O outro secundou que sim e que viesse agorinha<br \/>\nj\u00e1 porque a velha Ceiuci tinha sa\u00eddo com as duas filhas e podiam<br \/>\nnegociar mais folgado.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Macuna\u00edma emprestou da patroa da pens\u00e3o uns pares<br \/>\nde bonitezas, a m\u00e1quina ruge, a m\u00e1quina meia-de-s\u00eada,<br \/>\na m\u00e1quina combina\u00e7\u00e3o com cheiro de cascasacaca, a m\u00e1quina<br \/>\ncinta aromada com capim cheiroso, a m\u00e1quina decolet\u00ea \u00famida<br \/>\ne patchuli, a m\u00e1quina mitenes, todas essas bonitezas, dependurou dois<br \/>\nmangar\u00e1s nos peitos e se vestiu assim. Pra completar inda barreou com<br \/>\nazul de pau campeche os olhinhos de pi\u00e1 que se tornaram l\u00e2nguidos.<br \/>\nEra tanta coisa que ficou pesado mas virou numa francesa t\u00e3o linda<br \/>\nque se defumou com jurema e alfinetou um raminho de pinh\u00e3o paraguaio<br \/>\nno patriotismo pra evitar quebranto. E foi no pal\u00e1cio de Venceslau<br \/>\nPietro Pietra. E Venceslau Pietro Pietra era o gigante Piaim\u00e3 comedor<br \/>\nde gente.<\/p>\n<p>Saindo da pens\u00e3o Macuna\u00edma topou com um beija-flor com rabo<br \/>\nde tesoura. N\u00e3o gostou da cag\u00fcira n\u00e3o e pensou abandonar<br \/>\no randevu por\u00e9m como promessa \u00e9 d\u00edvida fez um esconjuro<br \/>\ne seguiu.<\/p>\n<p>L\u00e1 chegado encontrou o gigante no port\u00e3o, esperando. Depois<br \/>\nde muitos salamaleques Piaim\u00e3 tirou os carrapatos da francesa e levou-a<br \/>\npra uma alcova lind\u00edssima com esteios de acaricoara e tesouras de ita\u00faba.<br \/>\nO assoalho era um xadrez de munirapiranga e pau-cetim. A alcova estava mobiliada<br \/>\ncom as famosas redes brancas do Maranh\u00e3o. Bem no centro havia uma mesa<br \/>\nde jacarand\u00e1 esculpido arranjada com lou\u00e7a branco-encarnada<br \/>\nde Breves e cer\u00e2mica de Bel\u00e9m, disposta sobre um toalha de rendas<br \/>\ntecidas com fibra de bananeira. Numas bacias enormes origin\u00e1rias das<br \/>\ncavernas do rio Cunani fumegava tacac\u00e1 com tucupi, sopa feita com um<br \/>\npaulista vindo dos frigor\u00edficos da Continental, uma jacarezada e polenta.<br \/>\nOs vinhos eram um Puro de Ica subidor vindo de Iquitos, um Porto imita\u00e7\u00e3o,<br \/>\nde Minas, uma cai\u00e7uma de oitenta anos, champanha de S\u00e3o Paulo<br \/>\nbem gelada e um extrato de jenipapo famanado e ruim como tr\u00eas dias-<br \/>\nde chuva. E inda havia dispostos com arte enfeitadeira e muitos recortados<br \/>\nde papel, os espl\u00eandidos bombons Falchi e biscoitos do Rio Grande empilhados<br \/>\nem cuias dum preto brilhante de cumat\u00e9 com desenhos esculpidos a canivete,<br \/>\nprovindas de Monte Alegre.<\/p>\n<p>A francesa sente i numa rede e fazendo gestos graciosos principiou mastigando.<br \/>\nEstava com muita fome e comeu bem. Depois tomou um copo de Puro pra rebater<br \/>\ne resolveu entrar no assunto de chap\u00e9u-de-sol aberto. Foi logo perguntando<br \/>\nsi o gigante era verdade que possu\u00eda uma muiraquit\u00e3 com forma<br \/>\nde jacar\u00e9. O gigante foi l\u00e1 dentro e voltou com um caramujo<br \/>\nna m\u00e3o. E puxou pra fora dele uma pedra verde. Era a muiraquit\u00e3!<br \/>\nMacuna\u00edma sentiu um frio por dentro de tanta como\u00e7\u00e3o<br \/>\ne percebeu que ia chorar. Mas disfar\u00e7ou bem perguntando si o gigante<br \/>\nn\u00e3o queria vender a pedra. Por\u00e9m Venceslau Pietro Pietra piscou<br \/>\nfaceiro dizendo que vendida n\u00e3o dava a pedra n\u00e3o. Ent\u00e3o<br \/>\na francesa pediu suplicando pra levar a pedra de emprestado pra casa. Venceslau<br \/>\nPietro Pietra mais uma vez piscou faceiro falando que de emprestado n\u00e3o<br \/>\ndava a pedra tamb\u00e9m n\u00e3o: \u2014 Voc\u00ea imagina ent\u00e3o<br \/>\nque vou cedendo assim com duas risadas, francesa? Qual! \u2014 Mas eu estou<br \/>\nquerendo tanto a pedra!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1 querendo! \u2014 Pois tanto se me d\u00e1 como se me<br \/>\ndava, regat\u00e3o! \u2014 Regat\u00e3o uma ova, francesa! Dobre a l\u00edngua!<br \/>\nColecionador \u00e9 que \u00e9! Foi l\u00e1 dentro e voltou carregando<br \/>\num graja\u00fa tamanho feito de embira e cheinho de pedra. Tinha turquesas<br \/>\nesmeraldas berilos seixos polidos, ferragem com forma de agulha, cris\u00f3lita<br \/>\npingo-d&#8217;\u00e1gua tinideira esmeril lapinha ovo-de-pomba osso-de-cavalo<br \/>\nmachados fac\u00f5es flechas de pedra lascada, grigris rochedos elefantes<br \/>\npetrificados, colunas gregas, deuses eg\u00edpcios, budas javaneses, obeliscos<br \/>\nmesas mexicanas, ouro guianense, pedras ornitomorfas de Iguape, opalas do<br \/>\nigarap\u00e9 Alegre, rubis e granadas do rio Gurupi, itamotingas do rio<br \/>\ndas Gar\u00e7as, itacolumitos, turmalinas de Vupabu\u00e7u, blocos de<br \/>\ntit\u00e2nio do rio Piri\u00e1, bauxitas do ribeir\u00e3o do Macaco,<br \/>\nf\u00f3sseis calc\u00e1reos de Pirabas, p\u00e9rolas de Camet\u00e1,<br \/>\no rochedo tamanho que Oaque o Pai do Tucano atirou com a sarabatana l\u00e1<br \/>\ndo alto daquela montanha, um lit\u00f3glifo de Calamare, tinha todas essas<br \/>\npedras no graja\u00fa.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Piaim\u00e3 contou pra francesa que ele era um colecionador<br \/>\nc\u00e9lebre, colecionava pedras. E a francesa era Macuna\u00edma, o her\u00f3i.<br \/>\nPiaim\u00e3 confessou que a j\u00f3ia da cole\u00e7\u00e3o era mesmo<br \/>\na muiraquit\u00e3 com forma de jacar\u00e9 comprada por mil contos da<br \/>\nimperatriz das icamiabas l\u00e1 nas praias da lagoa Jaciuru\u00e1. E<br \/>\ntudo era mentira do gigante. Vai, ele sentou na rede mui rente da francesa,<br \/>\nmuito! e falou murmuriando que com ele era oito ou oitenta, n\u00e3o vendia<br \/>\nn\u00e3o emprestava a pedra mas por\u00e9m era capaz de dar&#8230; &#8220;Confrome&#8230;&#8221;<br \/>\nO gigante estava mas era querendo brincar com a francesa. Quando por causa<br \/>\ndo jeito de Piaim\u00e3 o her\u00f3i entendeu o que significava o tal<br \/>\nde &#8220;conforme&#8221;, ficou muito inquieto. Matutou: &#8220;Ser\u00e1<br \/>\nque o gigante imagina que sou francesa mesmo!&#8230; Cai fora, peruano senvergonha&#8221;!<br \/>\nE saiu correndo pelo jardim. O gigante correu atr\u00e1s. A francesa pulou<br \/>\nnuma moita pra se esconder por\u00e9m estava uma pretinha l\u00e1. Macuna\u00edma<br \/>\ncochilou Pra ela: \u2014 Caterina, sai da\u00ed sim? Caterina nem gesto.<br \/>\nMacuna\u00edma j\u00e1 meio impinimado com ela, cochichou: \u2014 Caterina,<br \/>\nsai da\u00ed que sin\u00e3o te bato! A mulatinha ali. Ent\u00e3o Macuna\u00edma<br \/>\ndeu um bruto dum tapa na peste e ficou com a m\u00e3o grudada nela.<\/p>\n<p>\u2014 Caterina, me larga minha m\u00e3o e vai-te embora que te dou mais<br \/>\ntapa, Caterina! Caterina era mas uma boneca de cera de carna\u00faba posta<br \/>\nali pelo gigante. Ficou bem quieta. Macuna\u00edma deu outro tapa com a<br \/>\nm\u00e3o livre e ficou mais preso.<\/p>\n<p>\u2014 Caterina, Caterina! me larga minhas m\u00e3os e vaite embora pixaim!<br \/>\nsin\u00e3o te dou um pontap\u00e9! Deu o pontap\u00e9 e ficou mais preso<br \/>\nainda. Afinal o her\u00f3i ficou inteirinho grudado na Catita. Ent\u00e3o<br \/>\nchegou Piaim\u00e3 com um cesto. Tirou a francesa da armadilha e berrou<br \/>\npro cesto: \u2014 Abra a boca, cesto, abra a vossa grande boca! O cesto abriu<br \/>\na boca e o gigante despejou o her\u00f3i nele. O cesto fechou a boca outra<br \/>\nvez, Piaim\u00e3 carregou-o e voltou. A francesa em vez de bolsa estava<br \/>\narmada com o m\u00eanie que serve pra guardar as frechinhas da sarabatana.<br \/>\nO gigante deixou o cesto encostado na porta de entrada e afundou casa a dentro<br \/>\npra guardar o m\u00eanie entre as pedras da cole\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m<br \/>\no m\u00eanie era de pano cheirando piche de ca\u00e7a. O gigante desconfiou<br \/>\ndaquilo e perguntou: \u2014 Vossa m\u00e3e \u00e9 t\u00e3o cheirosa<br \/>\ne gordinha que nem voc\u00ea, criatura? E revirou os olhos de gosto. Ele<br \/>\nestava maliciando que o m\u00eanie era filhinho da francesa. E a francesa<br \/>\nera Macuna\u00edma o her\u00f3i. L\u00e1 do cesto ele escutou a pergunta<br \/>\ne principiou ficando excessivamente inquieto. &#8220;Pois ent\u00e3o ser\u00e1<br \/>\nmesmo que esse tal de Venceslau imagina que passei por debaixo de algum arco-da-velha<br \/>\npra ter mundado a natureza? te esconjuro, credo!&#8221; Ent\u00e3o assoprou<br \/>\nraiz de cumac\u00e1 em p\u00f3 que bambeia cordas, bambeou o amarrilho<br \/>\ndo cesto e pulou pra fora. Ia saindo quando topou com o jaguar\u00e1 do<br \/>\ngigante, que chamava Xar\u00e9u, nome de peixe pra n\u00e3o ficar hidr\u00f3fobo.<br \/>\nO her\u00f3i teve medo e desembestou numa chispada m\u00e3e parque adentro.<br \/>\nO cachorro correu atr\u00e1s. Correram. Passaram J\u00e1 rente \u00e0<br \/>\nPonta do Calabou\u00e7o, tomaram rumo de Guajar\u00e1 Mirim e voltaram<br \/>\npra leste. Em Itamarac\u00e1 Macuna\u00edma passou um pouco folgado e<br \/>\nteve tempo de comer uma d\u00fazia de manga-jasmim que nasceu do corpo de<br \/>\ndona Sancha, dizem. Rumaram pra sudoeste e nas alturas de Barbacena o fugitivo<br \/>\navistou uma vaca no alto duma ladeira cal\u00e7ada com pedras pontudas.<br \/>\nLembrou de tomar leite. Subiu esperto pela capistrana pra n\u00e3o cansar<br \/>\npor\u00e9m a vaca era de ra\u00e7a Guzer\u00e1 muito brava. Escondeu<br \/>\no leitinho pobre. Mas Macuna\u00edma fez uma ora\u00e7\u00e3o assim:<\/p>\n<p>Valei-me Nossa Senhora, Santo Ant\u00f4nio de Nazar\u00e9, A vaca mansa<br \/>\nd\u00e1 leite, A braba d\u00e1 si quis\u00e9!<\/p>\n<p>A vaca achou gra\u00e7a, deu leite e o her\u00f3i chispou pro sul. Atravessando<br \/>\no Paran\u00e1 j\u00e1 de volta dos pampas bem que ele queria trepar numa<br \/>\ndaquelas \u00e1rvores por\u00e9m os latidos estavam na cola dele e o her\u00f3i<br \/>\nisso vinha que vinha acochado pelo jaguara. Gritava: \u2014 Sai, pau!<\/p>\n<p>E desviava de cada castanheira, de cada pau-d&#8217;arco, de cada cumpro bom de trepar.<br \/>\nAdiante da cidade de Serra no Esp\u00edrito Santo quase arrebentou a cabe\u00e7a<br \/>\nnuma pedra com muitas pinturas esculpidas que n\u00e3o se entendia. De certo<br \/>\nera dinheiro enterrado&#8230; Por\u00e9m Macuna\u00edma estava com pressa e<br \/>\nfrechou pras barrancas da ilha do Bananal. Enfim enxergou um formigueiro de<br \/>\ntrinta metros abrindo um olho no r\u00e9s do ch\u00e3o bem na frente. Barafustou<br \/>\nsubindo pelo buraco a dentro e se encolheu no alto. O jaguara ficou acuando<br \/>\nali.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o gigante veio e topou com o jaguara acuando o formigueiro.<br \/>\nBem na entrada a francesa perdera uma correntinha de prata. &#8220;Meu tesouro<br \/>\nest\u00e1 aqui&#8221; murmurou o gigante. Ent\u00e3o o jaguara desapareceu.<br \/>\nPiaim\u00e3 arrancou da terra com raiz e tudo uma palmeira inaj\u00e1<br \/>\ne nem deixou sinal no ch\u00e3o. Cortou o grelo do pau e enfiou-o pelo buraco<br \/>\npor amor de fazer a francesa sair. Por\u00e9m jacar\u00e9 saiu? nem ela!<br \/>\nAbriu as pernas e o her\u00f3i ficou como se diz empalado na inaj\u00e1.<br \/>\nVendo que a francesa n\u00e3o sa\u00eda mesmo, Piaim\u00e3 foi buscar<br \/>\npimenta. Trouxe uma correi\u00e7\u00e3o das formigas anaquil\u00e3s<br \/>\nque \u00e9 pimenta de gigante, botou-as no buraco, elas ferraram no her\u00f3i.<br \/>\nMas nem assim mesmo a francesa saiu. Piaim\u00e3 jurou vingan\u00e7a.<br \/>\nPinchou fora as anaquil\u00e3s e gritou pra Macuna\u00edma: \u2014 Agora<br \/>\nque te agarro mesmo porque vou buscar a jararaca Elite! Quando ouviu isso<br \/>\no her\u00f3i gelou. Com a jararaca ningu\u00e9m n\u00e3o pode n\u00e3o.<br \/>\nGritou pro gigante: \u2014 Espera um bocado, gigante, que j\u00e1 saio.<br \/>\nPor\u00e9m pra ganhar tempo tirou os mangar\u00e1s do peito e botou na<br \/>\nboca do buraco falando: \u2014 Primeiro bota isso pra fora, faz favor. Piaim\u00e3<br \/>\nestava t\u00e3o furibundo que atirou os mangar\u00e1s longe. Macuna\u00edma<br \/>\npresenciou a raiva do gigante.<\/p>\n<p>Tirou a m\u00e1quina decolet\u00ea, p\u00f4s ela na boca do buraco,<br \/>\nfalando outra vez: \u2014 Bota isso pra fora, faz favor.<\/p>\n<p>Piaim\u00e3 inda atirou o vestido mais longe. Ent\u00e3o Macuna\u00edma<br \/>\nbotou a m\u00e1quina cinta, depois a m\u00e1quina sapatos e foi fazendo<br \/>\nassim com todas as roupas. O gigante isso j\u00e1 estava fumando de t\u00e3o<br \/>\ndanado. Jogava tudo longe sem nem olhar o que era. Ent\u00e3o bem de mansinho<br \/>\no her\u00f3i p\u00f4s o sim-sinh\u00f4 dele na boca do buraco e falou:<br \/>\n\u2014 Agora me bote fora s\u00f3 mais esta caba\u00e7a fedorenta.<\/p>\n<p>Piaim\u00e3 cego de raiva agarrou no sim-sinh\u00f4 sem ver o que era<br \/>\ne atirou sim-sinh\u00f4 com her\u00f3i e tudo l\u00e9gua e meia adiante.<br \/>\nE ficou esperando pra sempre enquanto o her\u00f3i l\u00e1 longe ganhava<br \/>\nos moror\u00f3s.<\/p>\n<p>Chegou na pens\u00e3o tomando a b\u00ean\u00e7\u00e3o de cachorro<br \/>\ne chamando gato de tio, s\u00f3 vendo! suando esfolado com fogo nos olhos,<br \/>\nbotando os bofes pela boca. Descansou um peda\u00e7o e como estava arado<br \/>\nde fome bateu uma fritada de sururu de Macei\u00f3, um pato seco de Maraj\u00f3<br \/>\nmolhando a janta com mocoror\u00f3. Descansou.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma estava muito contrariado. Venceslau Pietro Pietra era um<br \/>\ncolecionador c\u00e9lebre e ele n\u00e3o. Suava de inveja e afinal resolveu<br \/>\nimitar o gigante. Por\u00e9m n\u00e3o achava gra\u00e7a em colecionar<br \/>\npedra n\u00e3o porque j\u00e1 tinha uma imund\u00edcie delas na terra<br \/>\ndele pelos espig\u00f5es, nos manadeiros nas corredeiras nas seladas e gupiaras<br \/>\naltas. E todas essas pedras j\u00e1 tinham sido vespas formigas mosquitos<br \/>\ncarrapatos animais passarinhos gentes e cunhas e cunhat\u00e3s e at\u00e9<br \/>\nas gra\u00e7as das cunhas e das cunhat\u00e3s&#8230; Praqu\u00ea mais pedra<br \/>\nque \u00e9 t\u00e3o pesado de carregar!&#8230; Estendeu os bra\u00e7os com<br \/>\nmoleza e murmurou: \u2014 Ai! que pregui\u00e7a!&#8230;<\/p>\n<p>Matutou matutou e resolveu. Fazia uma cole\u00e7\u00e3o de palavras-feias<br \/>\nde que gostava tanto.<\/p>\n<p>Se aplicou. Num \u00e1timo reuniu milietas delas em todas as falas vivas<br \/>\ne at\u00e9 nas l\u00ednguas grega e latina que estava estudando um bocado.<br \/>\nA cole\u00e7\u00e3o italiana era completa, com palavras pra todas as horas<br \/>\ndo dia, todos os dias do ano, todas as circunst\u00e2ncias da vida e sentimentos<br \/>\nhumanos. Cada bocagem! Mas a j\u00f3ia da cole\u00e7\u00e3o era uma<br \/>\nfrase indiana que nem se fala.<\/p>\n<h4><a name=\"7\"><\/a> VII &#8211; Macumba<\/h4>\n<p>Macuna\u00edma estava muito contrariado. N\u00e3o conseguia reaver a muiraquit\u00e3<br \/>\ne isso dava \u00f3dio. O milhor era matar Piaim\u00e3&#8230; Ent\u00e3o saiu<br \/>\nda cidade e foi no mato Fulano experimentar for\u00e7a. Campeou l\u00e9gua<br \/>\ne meia e afinal enxergou uma peroba sem fim. Enfiou o bra\u00e7o na sapopemba<br \/>\ne deu um pux\u00e3o pra ver si arrancava o pau mas s\u00f3 o vento sacudia<br \/>\na folhagem na altura por\u00e9m. &#8220;Inda n\u00e3o tenho bastante for\u00e7a<br \/>\nn\u00e3o&#8221;, Macuna\u00edma, refletiu. Agarrou num dente de ratinho chamado<br \/>\ncr\u00f4, fez uma bruta incis\u00e3o na perna, de preceito pra quem \u00e9<br \/>\nfrouxo e voltou sangrando pra pens\u00e3o. Estava desconsolado de n\u00e3o<br \/>\nter for\u00e7a ainda e vinha numa distra\u00e7\u00e3o tamanha que deu<br \/>\numa topada.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o de tanta dor o her\u00f3i viu no alto as estrelas c entre<br \/>\nelas enxergou Capei minguadinha cercada de n\u00e9voa. &#8220;Quando mingua<br \/>\na Luna n\u00e3o comeces coisa alguma&#8221; suspirou. E continuou consolado.<\/p>\n<p>No outro dia o tempo estava inteiramente frio e o her\u00f3i resolveu<br \/>\nse vingar de Venceslau Pietro Pietra dando uma sova nele pra esquentar. Por\u00e9m<br \/>\npor causa de n\u00e3o ter for\u00e7a tinha mas era muito medo do gigante.<br \/>\nPois ent\u00e3o resolveu tomar um trem e ir no Rio de Janeiro se socorrer<br \/>\ne Exu diabo em cuja honra se realizava uma macumba no outro dia.<\/p>\n<p>Era junho e o tempo estava inteiramente frio. A macumba se rezava l\u00e1<br \/>\nno Mangue no zungu da tia Ciata, feiticeira como n\u00e3o tinha outra, m\u00e3e-de-santo<br \/>\nfamanada e cantadeira ao viol\u00e3o. \u00c0s vinte horas Macuna\u00edma<br \/>\nchegou na biboca levando debaixo do bra\u00e7o o garraf\u00e3o de pinga<br \/>\nobrigat\u00f3rio. J\u00e1 tinha muita gente l\u00e1, gente direita,<br \/>\ngente pobre, advogados gar\u00e7ons pedreiros meias-colheres deputados gatunos,<br \/>\ntodas essas gentes e a fun\u00e7\u00e3o ia principiando. Macuna\u00edma<br \/>\ntirou os sapatos e as meias como os outros e enfiou no pesco\u00e7o a milonga<br \/>\nfeita de cera de vespa tatucaba e raiz seca de assacu. Entrou na sala cheia<br \/>\ne afastando a mosquitada foi de quatro saudar a candombl\u00e8zeira im\u00f3vel<br \/>\nsentada na tripe\u00e7a, n\u00e3o falando um isto. Tia Ciata era uma negra<br \/>\nvelha com um s\u00e9culo no sofrimento, javev\u00f3 e galguincha com a<br \/>\ncabeleira branca esparramada feito luz em torno da cabe\u00e7a pequetita.<br \/>\nNingu\u00e9m mais n\u00e3o enxergava olhos nela, era s\u00f3 ossos duma<br \/>\ncompridez j\u00e1 sonolenta pendependendo, pro ch\u00e3o de terra.<\/p>\n<p>Vai, um rapaz filho de Ochum, falavam, filho de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o<br \/>\ncuja macumba era em dezembro, distribuiu uma vela acesa pra cada um dos marinheiros<br \/>\nmarcineiros jornalistas rica\u00e7os gamelas f\u00eameas empregados-p\u00fablicos,<br \/>\nmuitos empregados-p\u00fablicos! todas essas gentes e apagou o bico de g\u00e1s<br \/>\nalumiando a saleta.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a macumba principiou de deveras se fazendo um \u00e7air\u00ea<br \/>\npra saudar os santos. E era assim: Na ponta vinha o og\u00e3 tocador de<br \/>\natabaque, um negr\u00e3o filho de Ogum, bexiguento e fadistas de profiss\u00e3o,<br \/>\nse chamando Olel\u00ea Rui Barbosa. Tabaque mexiamexia acertado num ritmo<br \/>\nque manejou toda a prociss\u00e3o. E as velas jogaram nas paredes de papel<br \/>\ncom florzinhas, sombras tremendo vagarentas feito assombra\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAtr\u00e1s do og\u00e3 vinha tia Ciata quase sem mexer, s\u00f3 bei\u00e7os<br \/>\npuxando a reza mon\u00f3tona. E ent\u00e3o seguiam advogados taifeiros<br \/>\ncurandeiros poetas o her\u00f3i gatunos portugas senadores, todas essas<br \/>\ngentes dan\u00e7ando e cantando a resposta da reza. E era assim: \u2014<br \/>\nVa-mo sa-ra-v\u00e1!&#8230;<\/p>\n<p>Tia Ciata cantava o nome do santo que tinham de saudar: v. .. .<\/p>\n<p>\u2014 \u00d4h Olorung! E a gente secundando: \u2014 Va-mo sa-ra-v\u00e1!&#8230;<\/p>\n<p>Tia Ciata continuava: \u2014 \u00d4 Boto Tucuchi! E a gente secundando:<br \/>\n\u2014 Va-mo sa-ra-v\u00e1!&#8230;<\/p>\n<p>Docinho numa reza mui mon\u00f3tona.<\/p>\n<p>\u2014 \u00d4 Iemanj\u00e1! Anamburucu! e Ochum! tr\u00eas M\u00e3es-d&#8217;\u00e1gua!<br \/>\n\u2014 Va-mo sa-ra-v\u00e1!&#8230;<\/p>\n<p>Assim. E quando a tia Ciata parava gritando com gesto imenso: \u2014 Sai<br \/>\nExu! porque Exu era o diabo-coxo, um capiroto mal\u00e9volo, mas bom por\u00e9m<br \/>\npra fazer malvadezas, era um tormento na sala uivando: \u2014 Uuum!&#8230; uuum!&#8230;<br \/>\nExu! Nosso padre Exu&#8230;! E o nome do diabo reboava com estrondo diminuindo<br \/>\no tamanh\u00e3o da noite fora. O \u00e7air\u00ea continuava: \u2014<br \/>\n\u00d4h Rei Nag\u00f4! \u2014 Va-mo sa-ra-v\u00e1!&#8230; Docinho na reza<br \/>\nmon\u00f3tona.<\/p>\n<p>\u2014 \u00d4h Baru! \u2014 Va-mo sa-ra-v\u00e1!&#8230;<\/p>\n<p>Quando sin\u00e3o quando tia Ciata parava gritando com gesto imenso: \u2014<br \/>\nSai Exu! porque Exu era o p\u00e9-de-pato, um janana\u00edra mal\u00e9volo.<br \/>\nE de novo era o tormento na sala uivando: \u2014 Uuuum!&#8230; Exu! Nosso padre<br \/>\nExu!&#8230;<\/p>\n<p>E o nome do diabo reboava com estrondo encurtando o tamanho da noite.<\/p>\n<p>\u2014 \u00d4h Oxal\u00e1! \u2014 Va-mo sa-ra-v\u00e1!&#8230;<\/p>\n<p>Era assim. Saudaram todos os santos da pagelan\u00e7a, o Boto Branco que<br \/>\nd\u00e1 os amores Xang\u00f4, Omulu, Iroco Ochosse, a Boi\u00fana M\u00e3e<br \/>\nferoz, Obatal\u00e1 que d\u00e1 for\u00e7a pra brincar muito, todos<br \/>\nesses santos e o \u00e7air\u00ea se acabou. Tia Ciata sentou na tripe\u00e7a<br \/>\nnum canto e toda aquela gente suando, m\u00e9dicos padeiros engenheiros<br \/>\nr\u00e1bulas pol\u00edcias criadas focas assassinos, Macuna\u00edma,<br \/>\ntodos vieram botar as velas no ch\u00e3o rodeando a tripe\u00e7a. As velas<br \/>\njogaram no teto a sombra da m\u00e3e-de-santo im\u00f3vel. J\u00e1 quase<br \/>\ntodos tinham tirado algumas roupas e o respiro ficara chiado por causa do<br \/>\ncheiro de mistura budum coty pitium e o suor de todos. Ent\u00e3o veio a<br \/>\nvez de beber. E foi l\u00e1 que Macuna\u00edma provou pela primeira vez<br \/>\no cachiri tem\u00edvel cujo nome \u00e9 cacha\u00e7a. Provou estalando<br \/>\ncom a l\u00edngua feliz e deu uma grande gargalhada.<\/p>\n<p>Depois da bebida, entre bebidas, seguiram as rezas de invoca\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTodos estavam inquietos ardentes desejando que um santo viesse na macumba<br \/>\ndaquela noite. Fazia j\u00e1 tempo que nenhum n\u00e3o vinha por mais<br \/>\nque os outros pedissem. Porque a macumba da tia Ciata n\u00e3o era que-nem<br \/>\nessas macumbas falsas n\u00e3o, em que sempre o pai-de-terreiro fingia vir<br \/>\nXang\u00f4 Ochosse qualquer, pra contentar os macumbeiros. Era uma macumba<br \/>\ns\u00e9ria e quando santo aparecia, aparecia de deveras sem nenhuma falsidade.<br \/>\nTia Ciata n\u00e3o permitia dessas desmoraliza\u00e7\u00f5es no zungu<br \/>\ndela e fazia mais de doze meses que Ogum nem Exu n\u00e3o apareciam no Mangue.<br \/>\nTodos desejavam que Ogum viesse. Macuna\u00edma queria Exu s\u00f3 pra<br \/>\nse vingar de Venceslau Pietro Pietra.<\/p>\n<p>Entre golinhos de abrideira, uns de joelhos outros de quatro, todas essas<br \/>\ngentes seminuas rezavam em torno da feiticeira pedindo a apari\u00e7\u00e3o<br \/>\ndum santo. \u00c0 meia-noite foram l\u00e1 dentro comer o bode cuja cabe\u00e7a<br \/>\ne patas j\u00e1 estavam l\u00e1 no pegi, na frente da imagem de Exu que<br \/>\nera um tacuru de formiga com tr\u00eas conchas fazendo olhos e boca. O bode<br \/>\nfora morto em honra do diabo e salgado com p\u00f3 de chifre e espor\u00e3o<br \/>\nde galo-de-briga. A m\u00e3e-de-santo puxou a comilan\u00e7a com respeito<br \/>\ne tr\u00eas pelossinais de atravessado. Toda a gente vendedores bibli\u00f3filos<br \/>\np\u00e9s-rapados acad\u00eamicos banqueiros, todas essas gentes dan\u00e7ando<br \/>\nem volta da mesa cantavam: Bamba quer\u00ea Sai Aru\u00ea Mongi gongo Sai<br \/>\nOrob\u00f4, \u00cah!&#8230;<\/p>\n<p>\u00f4h mungunz\u00e1 Bom aca\u00e7\u00e1 Vanc\u00ea nhamanja De<br \/>\npai Guengu\u00ea, \u00cah!&#8230;<\/p>\n<p>E conversando pagodeando devoraram o bode consagrado e cada qual buscando<br \/>\no garraf\u00e3o de pinga dele porque ningu\u00e9m n\u00e3o podia beber<br \/>\nno de outro, todos beberam muita caninha, muita! Macuna\u00edma dava grandes<br \/>\ngargalhadas e de repente derrubou vinho na mesa. Era sinal de alegr\u00e3o<br \/>\npra ele e todos imaginavam que o her\u00f3i era o predestinado daquela noite<br \/>\nsanta. N\u00e3o era n\u00e3o.<\/p>\n<p>Nem bem reza recome\u00e7ou se viu pular no meio da saleta uma f\u00eamea<br \/>\nobrigando todos a sil\u00eancio com o gemido meio choro e puxar canto novo.<br \/>\nFoi um tremor em todos e as velas jogaram a sombra de cunha que nem monstro<br \/>\nretorcido procanto do teto, era Exu! Og\u00e3 pelejava batendo tabaque pra<br \/>\nperceber os ritmos doidos do canto novo, canto livre, de notas afobadas cheio<br \/>\nde saltos dif\u00edceis, \u00eaxtase maluco baixinho tremendo de f\u00faria.<br \/>\nE a polaca muito pintada na cara, com as al\u00e7as da combina\u00e7\u00e3o<br \/>\narrebentadas estremecia no centro da saleta, j\u00e1 com as gorduras quasi<br \/>\ninteiramente nuas. Os peitos dela balangavam batendo nos ombros na cara e<br \/>\ndepois na barriga, juque! com estrondo. E a ruiva cantando cantando. Afinal<br \/>\na espuminha rolou dos bei\u00e7os desmanchados, ela deu um grito que diminuiu<br \/>\no tamanh\u00e3o da noite mais, caiu no santo e ficou dura.<\/p>\n<p>Passou um tempo de sil\u00eancio sagrado. Ent\u00e3o tia Ciata se levantou<br \/>\nda tripe\u00e7a que uma mazombinha substituiu no sufragante por um banco<br \/>\nnovo nunca sentado, agora pertencendo pra outra. A m\u00e3e-de-terreiro<br \/>\nveio vindo veio vindo. Og\u00e3 vinha com ela. Todos os outros estavam de<br \/>\np\u00e9 se achatando nas paredes. S\u00f3 tia Ciata veio vindo veio vindo<br \/>\ne chegou junto do corpo duro da polaca no centro da saleta ali. A feiticeira<br \/>\ntirou a roupa ficou nua, s\u00f3 com os colares os braceletes os brincos<br \/>\nde contas de prata pingando nos ossos. Foi tirando da cuia que Og\u00e3<br \/>\npegava, o sangue coalhado do bode comido e esfregando a pasta na cabe\u00e7a<br \/>\nda balala\u00f3. Mas quando derramou o ef\u00e9m verdento em riba, a dura<br \/>\nse estorceu gemida e o cheiro iodado embebedou o ambiente. Ent\u00e3o a<br \/>\nm\u00e3e-de-santo entoou a reza sagrada de Exu, melop\u00e9ia mon\u00f3tona.<\/p>\n<p>Quando acabou, a f\u00eamea abriu os olhos, principiou se movendo bem diferente<br \/>\nde j\u00e1-hoje e n\u00e3o era mais f\u00eamea era o cavalo do santo,<br \/>\nera Exu. Era Exu, o rom\u00e3ozinho que viera ali com todos pra macumbar.<\/p>\n<p>O par de nuas executava um jongo improvisado e festeiro que ritmavam os<br \/>\nestralos dos ossos da tia, os juques dos peitos da gorda e o og\u00e3 com<br \/>\nbatidos chatos. Todos estavam nus tamb\u00e9m e se esperava a escolha do<br \/>\nFilho de Exu pelo grande C\u00e3o presente. Jongo tem\u00edvel. Macuna\u00edma<br \/>\nfremia de esperan\u00e7a querendo o cariapemba pra pedir uma tunda em Venceslau<br \/>\nPietro Pietra. N\u00e3o se sabe o que deu nele de sopet\u00e3o, entrou<br \/>\ngingando no meio da sala derrubou Exu e caiu por cima brincando com vit\u00f3ria.<br \/>\nE a consagra\u00e7\u00e3o do Filho de Exu novo era celebrada por licen\u00e7as<br \/>\nde todos e todos se urarizaram em honra do filho novo do ic\u00e1.<\/p>\n<p>Terminada a cerim\u00f4nia o diabo foi conduzido pra tripe\u00e7a, principiando<br \/>\na adora\u00e7\u00e3o. Os ladr\u00f5es os senadores os jecas os negros<br \/>\nas senhoras os futeb\u00f3leres, todos, vinham se rojando por debaixo do<br \/>\np\u00f3 alaranjando a saleta e depois de batida a cabe\u00e7a com o lado<br \/>\nesquerdo no ch\u00e3o, beijavam os joelhos beijavam todo o corpo do uamoti.<br \/>\nA polaca vermelha tremendo rija pigando espuminha da boca em que todos molhavam<br \/>\no mata-piolho pra se benzerem de atravessado, gemia uns roncos regougados<br \/>\nmeio choro meio gozo e n\u00e3o era polaca mais, era Exu, o jurupari mais<br \/>\nmacanudo daquela religi\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois que todos beijaram adoraram e se benzeram muito, foi a hora dos pedidos<br \/>\ne promessas. Um carniceiro pediu pra todos comprarem a carne doente dele e<br \/>\nExu consentiu. Um fazendeiro pediu pra n\u00e3o ter mais sa\u00fava nem<br \/>\nmaleita no s\u00edtio dele e Exu se riu falando que isso n\u00e3o consentia<br \/>\nn\u00e3o. Um namorista pediu pra pequena dele conseguir o lugar de professora<br \/>\nmunicipal pra casarem e Exu consentiu. Um m\u00e9dico fez um discurso pedindo<br \/>\npra escrever com muita eleg\u00e2ncia a fala portuguesa e Exu n\u00e3o<br \/>\nconsentiu. Assim. Afinal veio a vez de Macuna\u00edma o filho novo do fute.<br \/>\nE Macuna\u00edma falou: \u2014 Venho pedir pra meu pai por causa que estou<br \/>\nmuito contrariado.<\/p>\n<p>\u2014 Como se chama? perguntou Exu.<\/p>\n<p>\u2014 Macuna\u00edma, o her\u00f3i.<\/p>\n<p>\u2014 Uhum&#8230; o maioral resmungou, nome principiado por Ma tem m\u00e1-sina&#8230;<\/p>\n<p>Mas recebeu com carinho o her\u00f3i e prometeu tudo o que ele pedisse<br \/>\nporque Macuna\u00edma era filho. E o her\u00f3i pediu que Exu fizesse<br \/>\nsofrer Venceslau Pietro Pietra que era o gigante Piaim\u00e3 comedor de<br \/>\ngente.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o foi horroroso o que se passou. Exu pegou tr\u00eas pauzinhos<br \/>\nde erva-cidreira benta por padre ap\u00f3stata, jogou pro alto, fez encruzilhada,<br \/>\nmandando o eu de Venceslau Pietro Pietra vir dentro dele Exu pra apanhar.<br \/>\nEsperou um momento, o eu do gigante veio, entrou dentro da f\u00eamea, e<br \/>\nExu mandou o filho dar a sova no eu que estava encarnado no corpo polaco.<br \/>\nO her\u00f3i pegou uma tranca e chegou-a em Exu com vontade. Deu que mais<br \/>\ndeu. Exu gritava: \u2014 Me espanca devagar Que isto d\u00f3i d\u00f3i<br \/>\nd\u00f3i! Tamb\u00e9m tenho fam\u00edlia E isto d\u00f3i d\u00f3i<br \/>\nd\u00f3i!<\/p>\n<p>Enfim roxo de pancada sangrando pelo nariz pela boca pelos ouvidos caiu desmaiando<br \/>\nno ch\u00e3o. E era horroroso&#8230; Macuna\u00edma ordenou que o eu do gigante<br \/>\nfosse tomar um banho salgado e fervendo e o corpo de Exu fumegou molhando<br \/>\no terreno. E Macuna\u00edma ordenou que o eu do gigante fosse pisando vidro<br \/>\natrav\u00e9s dum mato de urtiga e agarra-compadre at\u00e9 as grunhas<br \/>\nda serra dos Andes pleno inverno e o corpo de Exu sangrou com lapos de vidro,<br \/>\nunhadas de espinho e queimaduras de urtiga, ofegando de fadiga e tremendo<br \/>\nde tanto frio. Era horroroso. E Macuna\u00edma ordenou que o eu de Venceslau<br \/>\nPietro Pietra recebesse o guampa\u00e7o dum marru\u00e1, o coice dum bagual,<br \/>\na dentada dum jacar\u00e9 e os ferr\u00f5es de quarenta vezes quarenta<br \/>\nmil formigas-de-fogo e o corpo de Exu retorceu sangrando empolando na terra,<br \/>\ncom uma carreira de dentes numa perna, com quarenta vezes quarenta mil ferroadas<br \/>\nde formiga na pele j\u00e1 invis\u00edvel, com a testa quebrada pelo casco<br \/>\ndum bagual e um furo de aspa aguda na barriga. A saleta se encheu dum cheiro<br \/>\nintoler\u00e1vel. E Exu gemia:<\/p>\n<p>\u2014 Me chifra devagar Que isto d\u00f3i d\u00f3i d\u00f3i! Tamb\u00e9m<br \/>\ntenho fam\u00edlia E isto d\u00f3i d\u00f3i d\u00f3i!<\/p>\n<p>Macuna\u00edma ordenou muito tempo muitas coisas assim e tudo o eu de Venceslau<br \/>\nPietro Pietra ag\u00fcentou pelo corpo de Exu. Afinal a vingan\u00e7a do<br \/>\nher\u00f3i n\u00e3o p\u00f4de inventar mais nada, parou. A f\u00eamea<br \/>\ns\u00f3 respirava levinho largada no ch\u00e3o de terra. Teve um sil\u00eancio<br \/>\nfatigado. E era horroroso.<\/p>\n<p>L\u00e1 no pal\u00e1cio da rua Maranh\u00e3o em S\u00e3o Paulo tinha<br \/>\num correcorre sem parada. Vinham m\u00e9dicos veio a Assist\u00eancia todos<br \/>\nestavam desesperados. Venceslau Pietro Pietra sangrava todo urrando. Mostrava<br \/>\numa chifrada na barriga, quebrou a testa que parecia coice de potro, queimado<br \/>\nenregelado mordido e todo cheio das manchas e galos duma tremend\u00e9rrima<br \/>\nsova de pau.<\/p>\n<p>Na macumba continuava o sil\u00eancio de horror. Tia Ciata veio maneira<br \/>\ne principiou rezando a reza maior do diabo. Era a reza sacr\u00edlega entre<br \/>\ntodas, que se errando uma palavra d\u00e1 morte, a reza do Padre Nosso Exu,<br \/>\ne era assim: \u2014 Padre Exu achado nosso que v\u00f3s estais no trezeno<br \/>\ninferno da esquerda de baixo, n\u00f3is te queremo muito, n\u00f3is tudo!<br \/>\n\u2014 Quereremos! quereremos! \u2014 &#8230; O pai nosso Exu de cada dia nos<br \/>\ndai hoje, seja feita vossa vontade assim tamb\u00e9m no terreiro da sanzala<br \/>\nque pertence pro nosso padre Exu, por todo o sempre que assim seja, am\u00e9m!&#8230;<\/p>\n<p>Gl\u00f3ria pra p\u00e1tria g\u00eage de Exu! \u2014 Gl\u00f3ria<br \/>\npro fio de Exu! Macuna\u00edma agradeceu. A tia acabou: \u2014 Chico-t-era<br \/>\num pr\u00edncipe gege que virou nosso padre Exu dos s\u00e9culo secul\u00f3ro<br \/>\npra sempre que assim seja, am\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 Pra sempre que assim seja, am\u00e9m! Exu ia sarando sarando,<br \/>\ntudo foi desaparecendo por encanto quando a caninha circulou e o corpo da<br \/>\npolaca virou s\u00e3o outra vez. Se escutou uma bulha tamanha e tomou o<br \/>\nespa\u00e7o um cheiro de breu queimado enquanto a f\u00eamea deitava pela<br \/>\nboca um anel de azeviche. Ent\u00e3o voltou do desmaio vermelha gorda s\u00f3<br \/>\nque mui fatigada e agora estava s\u00f3 a polaca ali, Exu tinha ido embora.<\/p>\n<p>E pra acabar todos fizeram a festa juntos comendo bom presunto e dan\u00e7ando<br \/>\num samba de arromba em que todas essas gentes se alegraram com muitas p\u00e2ndegas<br \/>\nliberdosas. Ent\u00e3o tudo acabou se fazendo a vida real. E os macumbeiros,<br \/>\nMacuna\u00edma, Jaime Ovalle, Dod\u00f4, Manu Bandeira, Blaise Cendrars,<br \/>\nAscenso Ferreira, Raul Bopp, Ant\u00f4nio Bento, todos esses macumbeiros<br \/>\nsa\u00edram na madrugada.<\/p>\n<h4><a name=\"8\"><\/a>VIII &#8211; Vei, A Sol<\/h4>\n<p>Macuna\u00edma ia seguindo e topou com a \u00e1rvore Volom\u00e3 bem<br \/>\nalta. Num galho estava um pitiguari que nem bem enxergou o her\u00f3i, se<br \/>\ndesgoelou cantando \u2014 &#8220;Olha no caminho quem vem! Olha no caminho<br \/>\nquem vem!&#8221; Macuna\u00edma olhou pra cima com inten\u00e7\u00e3o<br \/>\nde agradecer mas Volom\u00e3 estava cheinha de fruta. O he<\/p>\n<p>r\u00f3i vinha dando horas de tanta fome e a barriga dele empacou espiando<br \/>\naquelas sapotas sapotilhas sapotis bacuris abric\u00f4s mucaj\u00e1s miritis<br \/>\nguabijus melancias ariticuns, todas essas frutas.<\/p>\n<p>\u2014 Volom\u00e3, me d\u00e1 uma fruta, Macuna\u00edma pediu. O<br \/>\npau n\u00e3o quis dar. Ent\u00e3o o her\u00f3i gritou duas vezes: \u2014<br \/>\nBoi\u00f4i\u00f4, boi\u00f4i\u00f4! quizama quizu! Ca\u00edram todas<br \/>\nas frutas e ele comeu bem. Volom\u00e3 ficou com \u00f3dio. Pegou o her\u00f3i<br \/>\npelos p\u00e9s e atirou-o pra al\u00e9m da ba\u00eda de Guanabara numa<br \/>\nilhota deserta, ha bitada antigamente pela ninfa Alamoa que veio com os Holandeses.<br \/>\nMacuna\u00edma pendia tanto de fadiga que pe gou no sono durante o pulo.<br \/>\nCaiu dormindo em baixo duma palmeirinha guair\u00f4 muito aromada onde um<br \/>\nuru bu estava encarapitado.<\/p>\n<p>Ora o p\u00e1ssaro careceu de fazer necessidades, fez e o her\u00f3i<br \/>\nficou escorrendo sujeira de urubu. J\u00e1 era de madrugadinha e o. tempo<br \/>\nestava inteiramente frio. Ma cuna\u00edma acordou tremendo, todo enlambuzado.<br \/>\nAssim mesmo examinou bem a pedra mirim da ilhota pra ver si n\u00e3o havia<br \/>\nalguma cova com dinheiro enterrado. N\u00e3o havia n\u00e3o. Nem a correntinha<br \/>\nencantada de prata que indica pro escolhido, tesouro de Holand\u00eas. Havia<br \/>\ns\u00f3 as formigas jaquitaguas ruivinhas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o passou Caiuanogue, a estr\u00eala-da-manh\u00e3. Macuna\u00edma<br \/>\nj\u00e1 meio enjoado de tanto viver pediu pra ela que o carregasse pro c\u00e9u.<br \/>\nCaiuanogue foi se che gando por\u00e9m o her\u00f3i fedia muito.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1 tomar banho! ela fez. E foi-se embora. Assim nasceu a<br \/>\nexpress\u00e3o &#8220;V\u00e1 tomar banho!&#8221; que os Brasileiros empregam<br \/>\nse referindo a certos imigran tes europeus.<\/p>\n<p>Vinha passando Capei, a Lua. Macuna\u00edma gritou pra ela: \u2014 Sua<br \/>\nb\u00ean\u00e7\u00e3o, dindinha Lua! \u2014 Uhum&#8230; que ela secundou.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ele pediu pra Lua que o carregasse pra ilha de Maraj\u00f3.<br \/>\nCapei veio chegando por\u00e9m Macuna\u00edma estava mesmo fedendo por<br \/>\ndemais.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1 tomar banho! ela fez. E foi-se embora. E a express\u00e3o<br \/>\nse fixou definitivamente. Macuna\u00edma gritou pra Capei que pelo menos<br \/>\ndesse um foguinho pra ele aquecer.<\/p>\n<p>\u2014 Pe\u00e7a no vizinho! ela fez apontando pra Sol que j\u00e1<br \/>\nvinha l\u00e1 no longe remando pelo paran\u00e1 gua\u00e7u. E foi-se<br \/>\nembora.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma tremia que mais tremia e o urubu sem pre fazendo necessidade<br \/>\nem riba dele. Era por causa da pedra ser muito pequetitinha. Vei vinha chegando<br \/>\nvermelha e toda molhada de suor. E Vei era a Sol. Foi muito bom pra Macuna\u00edma<br \/>\nporque l\u00e1 em casa ele sem pre dera presentinhos de b\u00f4-lo-de-aipim<br \/>\npra Sol lamber secando.<\/p>\n<p>Vei tomou Macuna\u00edma na jangada que tinha uma vela cor-de-ferrugem<br \/>\npintada com muruci e fez as tr\u00eas filhas limparem o her\u00f3i, catarem<br \/>\nos carrapatos e exa minarem si as unhas dele estavam limpas. E Macuna\u00ed<br \/>\nma ficou alinhado outra vez. Por\u00e9m por causa dela es tar velha vermelha<br \/>\ne t\u00e3o suando o her\u00f3i n\u00e3o mal\u00edciava que a coroca<br \/>\nera mesmo a Sol, a boa da Sol poncho dos probres. Por isso pediu pra ela que<br \/>\nchamasse Vei com seu calor porque ele estava lavadinho bem mas tre mendo de<br \/>\ntanto frio. Vei era a Sol mesmo e andava matinando fazer Macuna\u00edma<br \/>\ngenro dela. S\u00f3 que ainda n\u00e3o podia aquentar ningu\u00e9m n\u00e3o,<br \/>\nporque era cedo por demais, n\u00e3o tinha for\u00e7a. Pra distrair a<br \/>\nespera assobiou dum jeito e as tr\u00eas filhas dela fizeram muitos cafun\u00e9s<br \/>\ne cosquinhas no corpo todo do her\u00f3i.<\/p>\n<p>Ele dava risadas chatas, se espremendo de c\u00f3ce gas e gostando muito.<br \/>\nQuando elas paravam pedia mais estorcendo j\u00e1 de antegozo. Vei p\u00f4s<br \/>\nreparo na senvergonhice do her\u00f3i, teve raiva. Foi ficando sem vontade<br \/>\nde tirar fogo do corpo e esquentar ningu\u00e9m. Ent\u00e3o as cunhat\u00e3s<br \/>\nagarraram na m\u00e3e, amarraram bem ela e Macuna\u00edma dando muitos<br \/>\nmunheca\u00e7os na barriga da bruaca saiu que saiu um fogar\u00e9u por<br \/>\ndetr\u00e1s e todos se aquentaram.<\/p>\n<p>Principiou um calor\u00e3o que tomou a jangada, se alastrou nas \u00e1guas<br \/>\ne dourou a face limpa do ar. Ma cuna\u00edma deitado na jangada lagarteava<br \/>\nnuma quebreira azul. E o sil\u00eancio alargando tudo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ai&#8230; que pregui\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>O her\u00f3i suspirou. Se ouvia o murmurejo da onda, s\u00f3. Veio um<br \/>\nenfaro feliz subindo pelo corpo de Ma cuna\u00edma, era bom&#8230; A cunhat\u00e3<br \/>\nmais mo\u00e7a batia o urucungo que a m\u00e3e trouxera da \u00c1frica.<br \/>\nEra vasto o paran\u00e1 e n\u00e3o tinha uma nuvem na gupiara elevada<br \/>\ndo c\u00e9u. Macuna\u00edma cruzou as munhecas no alto por de tr\u00e1s<br \/>\nfazendo um cabeceiro com as m\u00e3os e enquanto a filha-da-luz mais velha<br \/>\nafastava os mosquitos borrachudos em quantidade, a terceira chinoca com as<br \/>\npontas das trancas fazia estremecer de gosto a barriga do he r\u00f3i. E<br \/>\nera se rindo em plena felicidade, parando pra gozar de estrofe em estrofe<br \/>\nque ele cantava assim: Quando eu morrer n\u00e3o me chores, Deixo a vida<br \/>\nsem sodade; \u2014 Mandu sarar\u00e1,<\/p>\n<p>Tive pro pai o desterro, Por m\u00e3e a infelicidade, \u2014 Mandu sarar\u00e1,<\/p>\n<p>Papai chegou e me disse: \u2014 N\u00e3o h\u00e1s de ter um amor! \u2014<br \/>\nMandu sarar\u00e1,<\/p>\n<p>Mam\u00e3e veio e me botou Um colar feito de dor, \u2014 Mandu sarar\u00e1,<\/p>\n<p>Que o tatu prepare a cova Dos seus dentes desdentados, \u2014 Mandu sarar\u00e1,<\/p>\n<p>Para o mais desinfeliz De todos os desgra\u00e7ados, \u2014 Mandu sarar\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>Era bom&#8230; O corpo dele relumeava de ouro cinzando nos cristaizinhos do sal<br \/>\ne por causa do cheiro da maresia, por causa do remo pachorrento de Vei, e<br \/>\ncom a barriga assim mexemexendo com cosquinhas de mu<\/p>\n<p>lher, ah!&#8230; Macuna\u00edma gozou do nosso gozo, ah!&#8230; &#8220;Puxavante! que<br \/>\nfilha-duma?&#8230; de gostosura, gente!&#8221; exclamou. E cerrando os olhos malandros,<br \/>\ncom a boca rindo num riso moleque safado de vida boa o her\u00f3i gostou gostou<br \/>\ne adormeceu.<\/p>\n<p>Quando a jacum\u00e3 de Vei n\u00e3o embalou mais o sono dele Macuna\u00edma<br \/>\nacordou. L\u00e1 no longe se perce bia mais que tudo um arranhac\u00e9u<br \/>\ncor-de-rosa. A jan gada estava abicada na cai\u00e7ara da maloca sublime<br \/>\ndo Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Ali mesmo na beira d&#8217;\u00e1gua tinha um cerrad\u00e3o comprido cheinho<br \/>\nda \u00e1rvore pau-brasil e com pal\u00e1cios de cor nos dois lados. E<br \/>\no cerrad\u00e3o era a avenida Rio Branco. A\u00ed que mora Vei a Sol com<br \/>\nsuas tr\u00eas filhas de luz. Vei queria que Macuna\u00edma ficasse genro<br \/>\ndela por que afinal das contas ele era um her\u00f3i e tinha dado tanto<br \/>\nb\u00f4lo-de-aipim pra ela chupar secando, falou: \u2014 Meu genro: voc\u00ea<br \/>\ncarece de casar com uma das minhas filhas. O dote que dou pra ti \u00e9<br \/>\nOropa Fran\u00e7a e Bahia. Mas por\u00e9m voc\u00ea tem de ser fiel e<br \/>\nn\u00e3o andar assim brincando com as outras cunhas por a\u00ed.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma agradeceu e prometeu que sim juran do pela mem\u00f3ria<br \/>\nda m\u00e3e dele. Ent\u00e3o Vei saiu com as tr\u00eas filhas pra fazer<br \/>\no dia no cerrad\u00e3o, ordenando mais uma vez que Macuna\u00edma n\u00e3o<br \/>\nsa\u00edsse da jangada pra n\u00e3o andar brincando com as outras cunhas<br \/>\npor a\u00ed. Macuna\u00ed ma tornou a prometer, jurando outra vez pela<br \/>\nm\u00e3e.<\/p>\n<p>Nem bem Vei com as tr\u00eas filhas entraram no cer rad\u00e3o que Macuna\u00edma<br \/>\nficou cheio de vontade de ir brincar com uma cunha. Acendeu um cigarro e a<br \/>\nvon tade foi subindo. L\u00e1 por debaixo das \u00e1rvores passavam muitas<br \/>\ncunhas cunhe cunhe se mexemexendo com ta lento e formosura.<\/p>\n<p>\u2014 Pois que fogo devore tudo! Macuna\u00edma excla mou. N\u00e3o<br \/>\nsou frouxo agora pra mulher me fazer mal! E uma luz vasta brilhou no c\u00e9rebro<br \/>\ndele. Se er gueu na jangada e com os bra\u00e7os oscilando por cima da p\u00e1tria<br \/>\ndecretou solene: \u2014 POUCA SA\u00daDE E MUITA SA\u00daVA, OS MALES<br \/>\nDO BRASIL S\u00c3O! Pulou da jangada no sufragante, foi fazer conti n\u00eancia<br \/>\ndiante da imagem de Santo Ant\u00f4nio que era ca pit\u00e3o de regimento<br \/>\ne depois deu em cima de todas as cunhas por a\u00ed. Logo topou com uma<br \/>\nque fora varina l\u00e1 na terrinha do compadre chegadinho-chegadinho e<br \/>\ninda cheirava no-mais! um fartum bem de peixe. Macuna\u00ed ma piscou pra<br \/>\nela e os dois vieram na jangada brincar. Fizeram. Bastante eles brincaram.<br \/>\nAgora est\u00e3o se rindo um pro outro.<\/p>\n<p>Quando Vei com suas tr\u00eas filhas chegaram do dia e era a b\u00f4ca-da-noite<br \/>\nas mo\u00e7as que vinham na frente encontraram Macuna\u00edma e a Portuguesa<br \/>\nbrincando mais. Ent\u00e3o as tr\u00eas filhas de luz se zangaram: \u2014<br \/>\nEnt\u00e3o \u00e9 assim que se faz, her\u00f3i! Pois nossa m\u00e3e<br \/>\nVei n\u00e3o falou pra voc\u00ea n\u00e3o sair da jangada e n\u00e3o<br \/>\nir brincar com as outras cunhas por a\u00ed?! \u2014 Estava muito tristinho!<br \/>\no her\u00f3i fez.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tem que tristinho nem mane tristinho, he r\u00f3i!<br \/>\nAgora que voc\u00ea vai tomar um pito de nossa m\u00e3e Vei! E viraram<br \/>\nmuito zangadas pra velha: \u2014 Veja, nossa m\u00e3e Vei, o que vosso<br \/>\ngenro fez! Nem bem a gente foi no cerrad\u00e3o que ele escapuliu, deu em<br \/>\ncima duma boa, trouxe ela na vossa jangada e brin caram at\u00e9 mais n\u00e3o!<br \/>\nAgora est\u00e3o se rindo um pro outro! Ent\u00e3o a Sol se queimou e<br \/>\nralhou assim: Ara ara, ara, meus cuidados! Pois n\u00e3o falei pra voc\u00ea<br \/>\nn\u00e3o dar em cima de nenhuma cunha n\u00e3o!&#8230; Fa lei sim! E inda<br \/>\npor cima voc\u00ea brinca com ela na jan gada minha e agora est\u00e3o<br \/>\nse rindo um pro outro! \u2014 Estava muito tristinho! Macuna\u00edma repetiu.<\/p>\n<p>\u2014 Pois si voc\u00ea tivesse me obedecido casava com uma das minhas<br \/>\nfilhas e havia de ser sempre mo\u00e7o e bonit\u00e3o. Agora voc\u00ea<br \/>\nfica pouco tempo mo\u00e7o talqualmente os outros homens e depois vai ficando<br \/>\nmocetudo e sem gra\u00e7a nenhuma.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma sentiu vontade de chorar. Suspirou.<\/p>\n<p>\u2014 Si eu subesse&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O &#8220;si eu subesse&#8221; \u00e9 santo que nunca n\u00e3o<br \/>\nvaleu pra ningu\u00e9m, meus cuidados! Voc\u00ea o que \u00e9 mas \u00e9<br \/>\nmui to safadinho, isso sim! N\u00e3o te dou mais nenhuma das minhas filhas<br \/>\nn\u00e3o! Da\u00ed Macuna\u00edma pisou nos calos tamb\u00e9m: \u2014<br \/>\nPois nem eu queria nenhuma das tr\u00eas, sabe! Tr\u00eas, diabo fez! Ent\u00e3o<br \/>\nVei com as tr\u00eas filhas foram pedir pouso num hotel e deixaram Macuna\u00edma<br \/>\ndormir com a Portuga jangada.<\/p>\n<p>Quando foi ali pela hora antes da madrugada, veio a Sol com as mo\u00e7as<br \/>\npra darem o passeio na ba\u00eda e en contraram Macuna\u00edma com a Portuguesa<br \/>\ninda pegados no sono. Vei acordou os dois e fez presente da pedra Vat\u00f3<br \/>\npra Macuna\u00edma. E a pedra Vat\u00f3 d\u00e1 fogo quando a gente<br \/>\nquer. E l\u00e1 se foi a Sol com as tr\u00eas filhas de luz.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma inda passou esse dia brincando com a varina pela cidade.<br \/>\nQuando foi de-noite eles estavam dormindo num banco do Flamengo quando chegou<br \/>\numa assombra\u00e7\u00e3o medonha. Era Mianiqu\u00ea-Teib\u00ea que<br \/>\nvinha pra enguilir o her\u00f3i. Respirava com os dedos, escutava pelo umbigo<br \/>\ne tinha os olhos no lugar das mamicas. A boca era duas bocas e estavam escondidas<br \/>\nna dobra interior dos dedos dos p\u00e9s. Macuna\u00edma acordou com o<br \/>\ncheiro da assombra\u00e7\u00e3o e jogou no viado Flamengo fora. Ent\u00e3o<br \/>\nMianiqu\u00ea-Teib\u00ea comeu a varina e se foi.<\/p>\n<p>No outro dia Macuna\u00edma n\u00e3o achou mais gra\u00e7a na capital<br \/>\nda Rep\u00fablica. Trocou a pedra Vat\u00f3 por um retrato no jornal e<br \/>\nvoltou pra taba do igarap\u00e9 Tiet\u00ea.<\/p>\n<h4><a name=\"9\"><\/a>IX &#8211; Carta Pras Icamiabas<\/h4>\n<p>\u00c0s mui queridas s\u00fabditas nossas, Senhoras Ama<\/p>\n<p>zonas.<\/p>\n<p>Trinta de Maio de Mil Novecentos e Vinte e Seis, S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Senhoras: N\u00e3o pouco vos surpreender\u00e1, por certo, o endere\u00e7o<br \/>\ne a literatura desta missiva. Cumpre-nos, entretanto, iniciar estas linhas<br \/>\nde saudades e muito amor, com de sagrad\u00e1vel nova. \u00c9 bem verdade<br \/>\nque na boa cidade de S\u00e3o Paulo \u2014 a maior do universo, no dizer<br \/>\nde seus pro lixos habitantes \u2014 n\u00e3o sois conhecidas por &#8220;icamiabas&#8221;,<br \/>\nvoz esp\u00faria, sin\u00e3o que pelo apelativo de Amazonas; e de v\u00f3s,<br \/>\nse afirma, cavalgardes ginetes bel\u00edgeros e virdes da H\u00e9lade<br \/>\ncl\u00e1ssica; e assim sois chamadas. Muito nos pesou a n\u00f3s, Imperator<br \/>\nvosso, tais dislates da erudi\u00e7\u00e3o por\u00e9m heis de convir<br \/>\nconosco que, assim, ficais mais her\u00f3icas e mais consp\u00edcuas,<br \/>\ntocadas por essa platina respeit\u00e1vel da tradi\u00e7\u00e3o e da<br \/>\npureza antiga.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o devemos esperdi\u00e7armos vosso tempo fero, e muito menos<br \/>\nconturbarmos vosso entendimento, com not\u00edcias de mau calibre; passemos<br \/>\npois, imediato, ao relato dos nossos feitos por c\u00e1.<\/p>\n<p>Nem cinco s\u00f3is eram passados que de v\u00f3s nos par t\u00edramos,<br \/>\nquando a mais temerosa desdita pesou sobre N\u00f3s. Por uma bela noite<br \/>\ndos idos de maio do ano translato, perd\u00edamos a muiraquit\u00e3; que<br \/>\nou trem grafara muraquit\u00e3, e, alguns doutos, ciosos de etimologias<br \/>\nesdr\u00fa xulas, ortografam muyrakitan e at\u00e9 mesmo muraqu\u00e9it\u00e3,<br \/>\nn\u00e3o sorriais! Haveis de saber que este voc\u00e1bulo, t\u00e3o<br \/>\nfamiliar \u00e0s vossas trompas de Eust\u00e1quio, \u00e9 quase desconhecido<br \/>\npor aqui. Por estas paragens mui civis, os guerreiros chamam-se pol\u00edcias,<br \/>\ngrilos, guardas-c\u00edvicas, boxistas, legalistas, masorqueiros, etc; sendo<br \/>\nque alguns desses termos s\u00e3o neologismos absurdos \u2014 ba ga\u00e7o<br \/>\nnefando com que os desleixados e petimetres cons purcam o bom falar lusitano.<br \/>\nMas n\u00e3o nos sobra j\u00e1 va gar para discretearmos &#8220;sub tegmine<br \/>\nfagi&#8221;, sobre a l\u00edn gua portuguesa, tamb\u00e9m chamada lusitana.<br \/>\nO que vos interessar\u00e1 mais, por sem d\u00favida, \u00e9 saberdes<br \/>\nque os guerreiros de c\u00e1 n\u00e3o buscam mav\u00f3rticas damas para<br \/>\no enlace epital\u00e2mico; mas antes as preferem d\u00f3ceis e facilmente<br \/>\ntroc\u00e1veis por pequeninas e vol\u00e1teis folhas de papel a que o<br \/>\nvulgo chamar\u00e1 dinheiro \u2014 o &#8220;curriculum vitae&#8221; da Civiliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\na que hoje fazemos ponto de hon ra em pertencermos. Assim a palavra muiraquit\u00e3,<br \/>\nque fere j\u00e1 os ouvidos latinos do vosso Imperador, \u00e9 desco nhecida<br \/>\ndos guerreiros, e de todos em geral que por estas partes respiram. Apenas<br \/>\nalguns &#8220;sujeitos de im port\u00e2ncia em virtude e letras&#8221;, como<br \/>\nj\u00e1 dizia o bom velhinho e cl\u00e1ssico frei Lu\u00eds de Sousa,<br \/>\ncitado pelo dou tor Rui Barbosa, ainda sobre as muiraquit\u00e3s projetam<br \/>\nas suas luzes, para aquilat\u00e1-las de med\u00edocre valia, ori gin\u00e1rias<br \/>\nda \u00c1sia, e n\u00e3o de vossos dedos, violentos no polir.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos ainda abatido por termos perdido a nos sa muiraquit\u00e3,<br \/>\nem forma de s\u00e1urio, quando talvez por algum influxo metaps\u00edquico,<br \/>\nou, qui lo s\u00e1, provocado por algum libido saudoso, como explica o s\u00e1bio<br \/>\ntudesco, doutor Sigmundo Freud (lede Fr\u00f3ide), se nos depa rou em sonho<br \/>\num arcanjo maravilhoso. Por ele sou bemos que o talism\u00e3 perdido estava<br \/>\nnas diletas m\u00e3os do doutor Venceslau Pietro Pietra, s\u00fabdito<br \/>\ndo Vice-Reinado do Peru, e de origem francamente florentina, como os Cavalc\u00e2ntis<br \/>\nde Pernambuco. E como o doutor demorasse na ilustre cidade anchietana, sem<br \/>\ndemora nos partimos para c\u00e1, em busca do velocino roubado.<\/p>\n<p>As nossas rela\u00e7\u00f5es actuais com o doutor Venceslau s\u00e3o<br \/>\nas mais lisonjeiras poss\u00edveis; e sem d\u00favida mui para breve recebereis<br \/>\na grata nova de que hemos reavido o talism\u00e3: e por ela vos pediremos<br \/>\nalv\u00ed\u00e7aras.<\/p>\n<p>Porque, s\u00fabditas dilectas, \u00e9 incontest\u00e1vel que N\u00f3s,<br \/>\nImperator vosso, nos achamos em prec\u00e1ria condi\u00e7\u00e3o. O<br \/>\ntesouro que da\u00ed trouxemos, foi-nos de mister conver t\u00ea-lo na<br \/>\nmoeda corrente do pa\u00eds; e tal convers\u00e3o muito nos h\u00e1<br \/>\ndificultado o mantenimento, devido \u00e0s oscila\u00e7\u00f5es do C\u00e2mbio<br \/>\ne \u00e0 baixa do cacau.<\/p>\n<p>Sabereis mais que as donas de c\u00e1 n\u00e3o se derribam a pauladas,<br \/>\nnem brincam por brincar, gratuitamente&#8217;, sen\u00e3o que a chuvas do vil<br \/>\nmetal, repuxos brasonados de champagne, e uns monstros comest\u00edveis,<br \/>\na que, vul garmente, d\u00e3o o nome de lagostas. E qu\u00ea monstros en<br \/>\ncantados, senhoras Amazonas!!! Duma carapa\u00e7a poli da e sobrosada, feita<br \/>\na modo de casco de nau, saem bra\u00e7os, tent\u00e1culos e cauda rem\u00edgeros,<br \/>\nde muitos feitios; de modo que o pesado engenho, deposto num prato de porcelana<br \/>\nde S\u00eavres, se nos antoja qual velejante trirreme a bordeisjar \u00e1gua<br \/>\nde Nilo, trazendo no bojo o corpo inestim\u00e1vel de Cle\u00f3patra.<\/p>\n<p>Ponde tento na acentua\u00e7\u00e3o deste voc\u00e1bulo, senho ras<br \/>\nAmazonas, pois muito nos pesara n\u00e3o prefer\u00edsseis conosco, essa<br \/>\npron\u00fancia, condizente com a li\u00e7\u00e3o dos cl\u00e1ssicos,<br \/>\n\u00e0 pron\u00fancia Cle\u00f3patra, dic\u00e7\u00e3o mais moderna;<br \/>\ne que alguns vocabulistas levianamente subscrevem, sem que se apercebam de<br \/>\nque \u00e9 ganga desprez\u00edvel, que nos trazem, com o enxurro de Fran\u00e7a,<br \/>\nos galiparlas de m\u00e1 morte.<\/p>\n<p>Pois \u00e9 com esse dedicado monstro, vencedor dos mais delicados v\u00e9us<br \/>\npaladinos, que as donas de c\u00e1 tom bam nos leitos nupciais. Assim haveis<br \/>\nde compreender de que alv\u00ed\u00e7aras falamos; porque as lagostas<br \/>\ns\u00e3o car\u00eds simas, car\u00edssimas s\u00fabditas, e algumas<br \/>\nhemos n\u00f3s adquiridas por sessenta contos e mais; o que, convertido<br \/>\nem nossa moeda tradicional, alcan\u00e7a a vultosa soma de oitenta milh\u00f5es<br \/>\nde bagos de cacau&#8230; Bem podereis conceber, pois, quanto hemos j\u00e1 gasto;<br \/>\ne que j\u00e1 estamos carecido do vil metal, para brincar com tais dif\u00edceis<br \/>\ndo nas. Bem quis\u00e9ramos impormos \u00e0 nossa ardida chama uma abstin\u00eancia,<br \/>\npenosa embora, para vos pouparmos despesas; por\u00e9m que \u00e2nimo forte<br \/>\nn\u00e3o cedera ante os encantos e galanteios de t\u00e3o agrad\u00e1veis<br \/>\npastoras! Andam elas vestidas de rutilantes j\u00f3ias e panos fi n\u00edssimos,<br \/>\nque lhes acentuam o donaire do porte, e mal encobrem as gra\u00e7as, que,<br \/>\na de nenhuma outra cedem pelo formoso do torneado e pelo tom. S\u00e3o sempre<br \/>\nalv\u00edssimas as donas de c\u00e1; e tais e tantas habilidades de monstram,<br \/>\nno brincar, que enumer\u00e1-las, aqui seria f\u00e0stiendo porventura;<br \/>\ne, certamente, quebraria os manda mentos de discre\u00e7\u00e3o, que em<br \/>\nrela\u00e7\u00e3o de Imperator para s\u00fabditas se requer. Que beldades!<br \/>\nQue eleg\u00e2ncia! Que cachet! Que degag\u00e9 flam\u00edfero, ign\u00edvomo,<br \/>\ndevorador!! S\u00f3 pensamos nelas, muito embora n\u00e3o nos descuidemos,<br \/>\nrelapso, da nossa muiraquit\u00e3.<\/p>\n<p>N\u00f3s, nos parece ilustres Amazonas, que assaz ganhar\u00edeis em<br \/>\naprenderdes com elas, as condescend\u00eancias, os brincos e passes do Amor.<br \/>\nDeixar\u00edeis ent\u00e3o a vossa orgulhosa e solit\u00e1ria Lei, por<br \/>\nmais am\u00e1veis mesteres, em que o Beijo sublima, as Vol\u00fapias encandecem,<br \/>\ne se demonstra gloriosa, &#8220;urbi et orbe&#8221;, a subtil for\u00e7a do<br \/>\nOdor di Femina, como escrevem os italianos.<\/p>\n<p>E j\u00e1 que nos detivemos neste delicado assunto, n\u00e3o no abandonaremos<br \/>\nsem mais alguns reparos, que vos poder\u00e3o ser \u00fateis. As donas<br \/>\nde S\u00e3o Paulo, sobre serem mui formosas e s\u00e1bias, n\u00e3o<br \/>\nse contentam com os dons e excel\u00eancia que a Natura lhes concedeu; assaz<br \/>\nse preo cupam elas de si mesmas; e n\u00e3o puderam acabarem consigo, que<br \/>\nn\u00e3o mandassem vir de todas as partes do globo, tudo o que de mais sublimado<br \/>\ne gentil acrisolou a ci\u00eancia fescenina, digo, feminina das civiliza\u00e7\u00f5es<br \/>\navitas. Assim \u00e9 que chamaram mestras da velha Europa, e sobretudo de<br \/>\nFran\u00e7a, e com elas aprenderam a pas sarem o tempo de maneira bem diversa<br \/>\nda vossa. Ora se alimpam, e gastam horas nesse delicado mester, ora encantam<br \/>\nos conv\u00edvios teatrais da sociedade, ora n\u00e3o fazem coisa alguma;<br \/>\ne nesses trabalhos passam elas o dia t\u00e3o entretecidas e afanosas que,<br \/>\nem chegando a noute, mal lhes sobra vagar para brincarem e presto se entregam<br \/>\nnos bra\u00e7os de Orfeu, como se diz. Mas heis de saber, senhoras minhas,<br \/>\nque por c\u00e1 dia e noute divergem singularmente do vosso hor\u00e1rio<br \/>\nbel\u00edgero; o dia come\u00e7a quando para v\u00f3s \u00e9 o pino<br \/>\ndele, e a noute, quando estais no quarto sono vosso, que, por derradeiro,<br \/>\n\u00e9 o mais reparador.<\/p>\n<p>Tudo isso as donas paulistanas aprenderam com as mestras de Fran\u00e7a;<br \/>\ne mais o polimento das unhas e cres cimento delas, bem como ali\u00e1s &#8220;horjesco<br \/>\nreferens&#8221;, das demais partes c\u00f3rneas dos seus companheiros legais.<br \/>\nDeixai passe esta fl\u00f3rida ironia! E muito h\u00e1 que vos diga ainda<br \/>\nsobre o jeito com que cortam as comas, de tal maneira gracioso e viril, que<br \/>\nmais se assemelham elas a efebos e Antinous, de perversa mem\u00f3ria, que<br \/>\na matronas de t\u00e3o directa prog\u00eanie latina. Todavia, convireis<br \/>\nconosco, no desacerto de longas trancas por c\u00e1, si atenderdes ao que<br \/>\nmais atr\u00e1s ficou dito; pois que os doutores de S\u00e3o Paulo n\u00e3o<br \/>\nderribam as suas requestadas pela for\u00e7a, sen\u00e3o que a troco de<br \/>\noiro e de iocustas, as ditas comas s\u00e3o de somenos, acrescendo ainda<br \/>\nque assim se amainam os ma les, que tais comas acarretam, de serem moradia<br \/>\ne pas to habitual de insectos mui daninho como entre v\u00f3s se d\u00e1.<\/p>\n<p>Pois n\u00e3o contentes de terem aprendido de Fran\u00e7a, as subtilezas<br \/>\ne passes da galanteria \u00e0 Lu\u00eds XV, as do nas paulistanas importam<br \/>\ndas regi\u00f5es mais in\u00f3spitas c que lhes acrescente ao sabor, tais<br \/>\ncomo pezinhos nip\u00f4nicos, rubis da \u00cdndia, desenvolturas norteamericanas;<br \/>\ne muitas outras sabedorias e tesoiros internacionais.<\/p>\n<p>J\u00e1 agora vos falaremos ainda, bem que por alto, dum nitente armento<br \/>\nde senhoras, origin\u00e1rias da Pol\u00f4 nia, que aqui demoram e imperam<br \/>\ngenerosamente. S\u00e3o elas mui alentadas no porte e mais numerosas que<br \/>\nas areias do mar oceano. Como v\u00f3s, senhoras Amazonas, tais damas formam<br \/>\num gineceu; estando os homens que em suas casas delas habitam, reduzidos escravos<br \/>\ne con denados ao vil of\u00edcio de servirem. E por isso n\u00e3o se lhes<br \/>\nchamam homens, sin\u00e3o que \u00e0 voz esp\u00faria de gar\u00e7ons<br \/>\nrespondem; e s\u00e3o assaz polidos e silentes, e sempre do mesmo indumento<br \/>\ngravebundo trajam.<\/p>\n<p>Vivem essas damas encasteladas num mesmo lo cal, a que chamam por c\u00e1<br \/>\nde quarteir\u00e3o, e mesmo de pens\u00f5es ou &#8220;zona estragada&#8221;;<br \/>\nsobrelevando notar que a derradeira destas express\u00f5es n\u00e3o caberia,<br \/>\npor indina nesta not\u00edcia sobre as coisas de S\u00e3o Paulo, n\u00e3o<br \/>\nfora o nosso anseio de sermos exacto e conhecedor. Por\u00e9m si, como v\u00f3s,<br \/>\nformam essas queridas senhoras um cl\u00e3 de mulheres, muito de v\u00f3s<br \/>\nse apartam do f\u00edsico, no g\u00eanero de vida e nas ideais. Assim vos<br \/>\ndiremas que vivem \u00e0 noute, e se n\u00e3o d\u00e3o aos afazeres<br \/>\nde Marte nem quei mam o destro seio, mas a Merc\u00fario cortejam t\u00e3o<br \/>\nso mente; e quanto aos seios, deixam-nos envolverem, \u00e0 fei\u00e7\u00e3o<br \/>\nde gigantescos e fl\u00e1cidos pomos, que, si lhes n\u00e3o acrescentam<br \/>\nao donaire, servem para numerosos e \u00e1r duos trabalhos de excelente<br \/>\nvirtude e prodigiosa excita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda lhes difere o f\u00edsico, tanto ou quanto mons truoso, bem que<br \/>\nde am\u00e1vel monstruosidade, por terem elas o c\u00e9rebro nas partes<br \/>\npudendas, e como t\u00e3o bem se diz em linguagem madrigalesca, o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nnas m\u00e3os. Falam numerosas e mui r\u00e1pidas l\u00ednguas; s\u00e3o<br \/>\nvia jadas e educad\u00edssimas; sempre todas obedientes por igual, embora.ricamente<br \/>\nd\u00edspares entre si, quais loiras, quais morenas, quais f\u00f4sse-maigres,<br \/>\nquais rotundas; e de tal sorte abundantes no n\u00famero e diversidade,<br \/>\nque muito nos preocupa a raz\u00e3o, o serem todas e tantas, ori ginais<br \/>\ndum pa\u00eds somente. Acresce ainda que a todas se lhes d\u00e3o o excitante,<br \/>\nembora injusto, ep\u00edteto de &#8220;fran cesas&#8221;. A nossa desconfian\u00e7a<br \/>\n\u00e9 que essas damas n\u00e3o se originaram todas da Pol\u00f4nia,<br \/>\npor\u00e9m que faltam \u00e0 ver dade, e s\u00e3o iberas, it\u00e1licas,<br \/>\ngerm\u00e2nicas, turcas, argenti nas, peruanas, e de todas as outras partes<br \/>\nf\u00e9rteis de um e outro hemisf\u00e9rio.<\/p>\n<p>Muito estimar\u00edamos que compartilh\u00e1sseis da nossa desconfian\u00e7a,<br \/>\nsenhoras Amazonas; e que convid\u00e1sseis tamb\u00e9m algumas dessas<br \/>\ndamas para demorarem nas vossas terras e Imp\u00e9rio nosso, por que aprendais<br \/>\ncom elas um moderno e mais rendoso g\u00eanero de vida, que muito far\u00e1<br \/>\navultar os tesoiros do vosso Imperador. E mesmo, si n\u00e3o quiserdes largar<br \/>\nm\u00e3o da vossa solit\u00e1ria Lei, sempre a exist\u00eancia de algumas<br \/>\ncentenas dessas da mas entre v\u00f3s, muito nos facilitar\u00e1 o &#8220;modus<br \/>\nin rebus&#8221;, quando for no nosso retorno ao Imp\u00e9rio do Mato Vir<br \/>\ngem, cujo este nome, ali\u00e1s, propor\u00edamos se mudasse para Imp\u00e9rio<br \/>\nda Mata Virgem, mais condizente com a li\u00e7\u00e3o dos cl\u00e1ssicos.<\/p>\n<p>Todavia para terminar neg\u00f3cio t\u00e3o principal, hemos por bem<br \/>\nadvertir-vos dum perigo que essa impor ta\u00e7\u00e3o acarretara, si<br \/>\nn\u00e3o aceit\u00e1sseis alguns doutores pos santes nos limites do Estado,<br \/>\nenquanto dele estivermos apartado. Com serem essas damas mui fogosas e livres;<br \/>\nbem pudera pesar-lhes em demasia o seq\u00fcestro incon seq\u00fcente em que<br \/>\nviveis, e, por n\u00e3o perderem elas as ci\u00eancias e segredos que lhes<br \/>\nd\u00e3o o p\u00e3o, bem poderiam ir ao extremo de utilizarem-se das bestas<br \/>\nferas, dos bogios, dos tapires e dos solertes candirus. E muito mais ainda<br \/>\nnos pesaria \u00e0 consci\u00eancia e sentimento nobre do dever; que v\u00f3s,<br \/>\ns\u00fabditas nossas, aprend\u00e1sseis com elas certas abus\u00f5es,<br \/>\ntal como foi com as companheiras da gentil declamadora Safo na ilha r\u00f3sea<br \/>\nde Lesbos \u2014 v\u00edcios esses que n\u00e3o suportam cr\u00edtica<br \/>\n\u00e0 luz das possi bilidades humanas, e muito menos o escalpelo da r\u00edgida<br \/>\ne s\u00e3 moral.<\/p>\n<p>Como vedes, assaz hemos aproveitada esta demora na ilustre terra bandeirante,<br \/>\ne si n\u00e3o descuidamos do nosso talism\u00e3, por certo que n\u00e3o<br \/>\npoupamos esfor\u00e7os nem vil metal, por aprendermos as coisas mais principais<br \/>\ndesta eviterna civiliza\u00e7\u00e3o latina, por que iniciemos quando<br \/>\nfor do nosso retorno ao Mato Virgem, uma s\u00e9 rie de milhoramentos, que,<br \/>\nmuito nos facilitar\u00e3o a exis t\u00eancia, e mais espalhem nossa pros\u00e1pia<br \/>\nde na\u00e7\u00e3o culta entre as mais cultas do Universo. E por isso<br \/>\nagora vos diremos algo sobre esta nobre cidade, pois que preten demos construir<br \/>\numa igual nos vossos dom\u00ednios e Im p\u00e9rio nosso.<\/p>\n<p>\u00c9 S\u00e3o Paulo constru\u00edda sobre sete colinas, \u00e0<br \/>\nfei \u00e7\u00e3o tradicional de Roma, a cidade ces\u00e1rea, &#8220;capita&#8221;<br \/>\nda Latinidade de que provimos; e beija-lhes os p\u00e9s a gr\u00e1cil<br \/>\ne inquieta linfa do Tiet\u00ea. As \u00e1guas s\u00e3o magn\u00edficas,<br \/>\nos ares t\u00e3o amenos quanto os de Aquisgrana ou de Anver-res, e a \u00e1rea<br \/>\nt\u00e3o a eles igual em salubridade e abund\u00e2n cia, que bem se pudera<br \/>\nafirmar, ao modo fino dos cro nistas, que de tr\u00eas AAA se gera espontaneamente<br \/>\na fauna urbana.<\/p>\n<p>Cidade \u00e9 bel\u00edssima, e grato o seu conv\u00edvio. Toda cortada<br \/>\nde ruas habilmente estreitas e tomadas por es t\u00e1tuas e lampi\u00f5es<br \/>\ngracios\u00edssimos e de rara escultura; tudo diminuindo com ast\u00facia<br \/>\no espa\u00e7o de forma tal, que nessas art\u00e9rias n\u00e3o cabe a<br \/>\npopula\u00e7\u00e3o. Assim se obt\u00e9m o efeito dum grande ac\u00famulo<br \/>\nde gentes, cuja estimativa pode ser aumentada \u00e0 vontade, o que \u00e9<br \/>\npro p\u00edcio \u00e0s elei\u00e7\u00f5es que s\u00e3o inven\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos inimit\u00e1veis mi neiros; ao mesmo tempo que os edis disp\u00f5em<br \/>\nde largo assunto com que ganhem dias honrados e a admira\u00e7\u00e3o<br \/>\nde todos, com surtos de eloq\u00fc\u00eancia do mais puro es tilo e sublimado<br \/>\nlavor.<\/p>\n<p>As ditas art\u00e9rias s\u00e3o todas recamadas de ricocheteantes papeizinhos<br \/>\ne vel\u00edvolas cascas de fruitos; e em principal duma fin\u00edssima<br \/>\npoeira, e mui dan\u00e7arina, em que se despargem diariamente mil e uma<br \/>\nesp\u00e9cimens de vorazes macr\u00f3bios, que dizimam a popula\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPor essa forma resolveram, os nossos maiores, o problema da circula\u00e7\u00e3o;<br \/>\npois que tais insectos devoram as mes quinhas vidas da ral\u00e9; e impedem<br \/>\no ac\u00famulo de deso cupados e oper\u00e1rios; e assim se conservam<br \/>\nsempre as gentes em n\u00famero igual. E n\u00e3o contentes com essa poeira<br \/>\nser erguida pelo andar dos pedestrianistas e por urrantes m\u00e1quinas<br \/>\na que chamam &#8220;autom\u00f3veis&#8221; e &#8220;el\u00e9ctricos&#8221;,<br \/>\n(empregam alguns a palavra Bond, voz esp\u00faria, vinda certamente do ingl\u00eas)<br \/>\ncontrataram os diligentes edis, uns antrop\u00f3ides, monstros hipocent\u00e1ureos<br \/>\nazulegos e mon\u00f3tonos, a que congloba o t\u00edtulo de Limpeza P\u00fablica;<br \/>\nque &#8220;per amica silencia lunae&#8221;, quando cessa o movimento e o p\u00f3<br \/>\ndescansa in\u00f3cuo, saem das suas mans\u00f5es, e, com os rabos girantes<br \/>\na modo de vassouras cil\u00edndricas, puxadas por muares, soerguem do asfalto<br \/>\na poeira e tiram os insetos do sono, e os concitam \u00e0 actividade com<br \/>\nlargos gestos e grita formidanda. Estes afazeres nocturnos s\u00e3o discretamente<br \/>\nconduzidos por pequeninas luzes, dispostas de longe em longe, de ma neira<br \/>\na permanecer quase total a escuridade, n\u00e3o per turbem elas os trabalhos<br \/>\nde malfeitores e ladr\u00f5es.<\/p>\n<p>A c\u00f3pia destes se nos afigura realmente excessiva; e temos que s\u00e3o<br \/>\na \u00fanica usan\u00e7a que n\u00e3o se coaduna com nosso temperamento,<br \/>\nordeiro e pac\u00edfico de seu na tural. Por\u00e9m, longe de n\u00f3s<br \/>\nqualquer reproche aos admi nistradores de S\u00e3o Paulo, pois sabemos muito<br \/>\nbem que aos valerosos Paulistas, s\u00e3o apraz\u00edveis tais malfeitores<br \/>\ne suas artes. S\u00e3o os Paulistas gente ardida e avalentoada, e muito<br \/>\nafeita \u00e0s agruras da guerra. Vivem em combates singulares e colectivos,<br \/>\ntodos armados da ca be\u00e7a aos p\u00e9s; assim assaz numerosos s\u00e3o<br \/>\nos dist\u00farbios por c\u00e1, em que, n\u00e3o raro, tombam na arena<br \/>\nda luta, centenas de milhares de her\u00f3is, chamados bandeirantes. &#8211; Pelo<br \/>\nmesmo motivo S\u00e3o Paulo, est\u00e1 dotada de mui aguerrida e vultosa<br \/>\nPol\u00edcia, que habita pal\u00e1cios bran cos de custosa engenharia.<br \/>\nA essa Pol\u00edcia compete ain da equilibrar os excessos da riqueza p\u00fablica,<br \/>\npor se n\u00e3o desvalorizar o oiro incont\u00e1vel da Na\u00e7\u00e3o;<br \/>\ne tal dilig\u00ean cia emprega nesse af\u00e3, que, por todos os lados<br \/>\ndevora os dinheiros nacionais, quer em paradas e roupagens luzidas, quer em<br \/>\ngin\u00e1sticas da recomend\u00e1vel Eug\u00eania, que inda n\u00e3o<br \/>\ntivemos o prazer de conhecermos; quer finalmente atacando os incautos burgueses<br \/>\nque regres sam do seu teatro, do seu cinema, ou &#8220;d\u00e3o a sua volta<br \/>\nde autom\u00f3vel pelos verg\u00e9is amenos que circundam a ca pital.<br \/>\nA essa Pol\u00edcia ainda lhe compete divertir a classe das criadinhas paulistanas;<br \/>\ne para seu lustre se diga que o faz com jornaleiro pr\u00e9stimo, em parques,<br \/>\ncons tru\u00eddos &#8220;ad hoc&#8221;, tais como o parque de Dom Pedro Se<br \/>\ngundo e o Jardim da Luz. E quando o numer\u00e1rio des sa Pol\u00edcia<br \/>\navulta, s\u00e3o os seus homens enviados para as rech\u00e3s long\u00ednquas<br \/>\ne menos f\u00e9rteis da p\u00e1tria, para se rem devorados por s\u00facias<br \/>\nde gigantes antrop\u00f3fagos, que infestam a nossa geografia, na ingl\u00f3ria<br \/>\ntarefa de ruir por terra Governos honestos; e de pleno gosto e assentimento<br \/>\ngeral da popula\u00e7\u00e3o, como se descrimina das urnas e dos \u00e1gapes<br \/>\ngovernamentais. Esses masorqueiros pegam nos pol\u00edcias, assam-nos e<br \/>\ncomem-nos ao jeito alem\u00e3o; e as ossadas ca\u00eddas na terra maninha<br \/>\ns\u00e3o exce lente adubo de futuros cafezais.<\/p>\n<p>Assim t\u00e3o bem organizados vivem e prosperam os Paulistas na mais<br \/>\nperfeita ordem e progresso; e lhes n\u00e3o \u00e9 escasso o tempo para<br \/>\nconstru\u00edrem generosos hos pitais, atraindo para c\u00e1 todos os<br \/>\nleprosos sulamericanos, Mineiros, Paraibanos, Peruanos, Bolivianos, Chilenos,<br \/>\nParaguaios, que, antes de ir morarem nesses lind\u00edssimos lepros\u00e1rios,<br \/>\ne serem servidos por donas de duvidosa e decadente beldade \u2014 sempre<br \/>\ndonas! \u2014 animam as es tradas do Estado e as ruas da capital, em garridas<br \/>\nco mitivas eq\u00fcestres ou em maratonas soberbas que s\u00e3o o orgulho<br \/>\nde nossa ra\u00e7a desportiva, em cujo conspeito pul sa o sangue das her\u00f3icas<br \/>\nbigas e quadrigas latinas! Por\u00e9m, senhoras minhas! Inda tanto nos sobra,<br \/>\npor este grandioso pa\u00eds, de doen\u00e7as e insectos por cui dar!<br \/>\n&#8230; Tudo vai num descalabro sem comedimento, e estamos corro\u00eddos pelo<br \/>\nmorbo e pelos miri\u00e1podes! Em breve seremos novamente uma col\u00f4nia<br \/>\nda Inglaterra ou da Am\u00e9rica do Norte!&#8230; Por isso e para eterna lem<br \/>\nbran\u00e7a destes Paulistas, que s\u00e3o a \u00fanica gente \u00fatil<br \/>\ndo pa\u00eds, e por isso chamados de Locomotivas, nos demos ao trabalho<br \/>\nde metrificarmos um d\u00edstico, em que se en cerram os segredos de tanta<br \/>\ndesgra\u00e7a:<\/p>\n<h5>&#8220;POUCA SA\u00daDE E MUITA SA\u00daVA, OS MALES DO BRASIL S\u00c3O.&#8221;<\/h5>\n<p>Este d\u00edstico \u00e9 que houvemos por bem escrevermos no livro de<br \/>\nVisitantes Ilustres do Instituto Butant\u00e3, quando foi da nossa visita<br \/>\na esse estabelecimento famo<\/p>\n<p>so na Europa.<\/p>\n<p>Moram os Paulistanos em Pal\u00e1cios alterosos de cin q\u00fcenta, cem<br \/>\ne mais andares, a que, nas \u00e9pocas da procrea\u00e7\u00e3o, invadem<br \/>\numas nuvens de mosquitos pernilongos, de v\u00e1ria esp\u00e9cie, muito<br \/>\nao gosto dos nativos, mor dendo os homens e as senhoras com tanta propriedade<br \/>\nnos seus distintivos, que n\u00e3o precisam eles e elas das c\u00e1usticas<br \/>\nurtigas para as massagens da excita\u00e7\u00e3o, tal como entre os selv\u00edcolas<br \/>\n\u00e9 de uso. Os pernilongos se encarregam dessa faina; e obram tais milagres<br \/>\nque, nos bairros miser\u00e1veis, surge anualmente uma incont\u00e1vel<br \/>\nmultid\u00e3o de rapazes e raparigas bulhentos, a que cha mamos &#8216;italianinhos&#8221;;<br \/>\ndestinados a alimentarem as f\u00e1 bricas dos \u00e1ureos potentados,<br \/>\ne a servirem, escravos, o descanso arom\u00e1tico dos Cresos.<\/p>\n<p>Estes e outros multimilion\u00e1rios \u00e9 que ergueram em torno da<br \/>\nurbs as doze mil f\u00e1bricas de seda, e no recesso dela os famosos Caf\u00e9s<br \/>\nmaiores do mundo, todos de obra de talha em jacarand\u00e1 folhado de oiro,<br \/>\ncom embutidos de salsas tartarugas.<\/p>\n<p>E o Pal\u00e1cio do Governo \u00e9 todo de oiro, \u00e0 fei\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos da Rainha do Adri\u00e1tico; e, em carruagens de prata, for radas de<br \/>\npeles fin\u00edssimas, o Presidente, que mant\u00e9m muitas esposas, passeia,<br \/>\nao cair das tardes, sorrindo com vagar.<\/p>\n<p>De outras c muitas grandezas vos poder\u00edamos ilus trar, senhoras Amazonas,<br \/>\nn\u00e3o fora perlongar demasia do esta ep\u00edstola; todavia, com afirmar-vos<br \/>\nque esta \u00e9, por sem d\u00favida, a mais bela cidade terr\u00e1quea,<br \/>\nmuito hemos feito em favor destes homens de prol. Mas cair-nos-iam as faces,<br \/>\nsi ocult\u00e1ramos no sil\u00eancio, uma curio sidade original deste povo.<br \/>\nOra sabereis que a sua ri queza de express\u00e3o intelectual \u00e9 t\u00e3o<br \/>\nprodigiosa, que falam numa l\u00edngua e escrevem noutra. Assim chegado<br \/>\na estas plagas hospitalares, nos demos ao trabalho de bem nos inteirarmos<br \/>\nda etnologia da terra, e dentre muita surpresa e assombro que se nos deparou,<br \/>\npor cer to n\u00e3o foi das menores tal originalidade ling\u00fc\u00edstica.<br \/>\nNas conversas utilizam-se os paulistanos dum linguajar b\u00e1r baro e multif\u00e1rio,<br \/>\ncrasso de fei\u00e7\u00e3o e impuro na vernaculidade, mas que n\u00e3o<br \/>\ndeixa de ter o seu sabor e for\u00e7a nas ap\u00f3strofes, e tamb\u00e9m<br \/>\nnas vozes do brincar. Destas e daquelas nos inteiramos, sol\u00edcito; e<br \/>\nnos ser\u00e1 grata em presa vo-las ensinarmos a\u00ed chegado. Mas si<br \/>\nde tal des prez\u00edvel l\u00edngua se utilizam na conversa\u00e7\u00e3o<br \/>\nos naturais desta terra, logo que tomam da pena, se despojam de tanta asperidade,<br \/>\ne surge o Homem Latino, de Lineu, exprimindo-se numa outra linguagem, mui<br \/>\npr\u00f3xima da vergiliana, no dizer dum panegirista, meigo idioma, que,<br \/>\ncom imperec\u00edvel galhardia, se intitula: l\u00edngua de Ca m\u00f5es!<br \/>\nDe tal originalidade e riqueza vos h\u00e1-de ser grato ter ci\u00eancia,<br \/>\ne mais ainda vos espantareis com saberdes, que \u00e0 grande e quase total<br \/>\nmaioria, nem essas duas l\u00edn guas bastam, sen\u00e3o que se enriquecem<br \/>\ndo mais l\u00eddimo italiano, por mais musical e gracioso, e que por todos<br \/>\nos recantos da urbs \u00e9 versado. De tudo nos inteiramos satisfatoriamente,<br \/>\ngra\u00e7as aos deuses; e muitas horas hemos ganho, discretando sobre o<br \/>\nz do termo Brazil e a quest\u00e3o do pronome &#8220;se&#8221;. Outrossim,<br \/>\nhemos adquiri do muitos livros bil\u00edng\u00fces, chamados &#8220;burros&#8221;,<br \/>\ne o di cion\u00e1rio Pequeno Larousse; e j\u00e1 estamos em condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde citarmos no original latino muitas frases c\u00e9lebres dos fil\u00f3sofos<br \/>\ne os test\u00edculos da B\u00edblia.<\/p>\n<p>Enfim, senhoras Amazonas, heis de saber ainda que a estes progressos e luzida<br \/>\nciviliza\u00e7\u00e3o, h\u00e3o elevado esta grande cidade os seus maiores,<br \/>\ntamb\u00e9m chamados de pol\u00edticos. Com este apelativo se designa<br \/>\numa ra\u00e7a refinad\u00edssima de doutores, t\u00e3o desconhecidos<br \/>\nde v\u00f3s, que os dir\u00edeis monstros. Monstros s\u00e3o na verdade<br \/>\nmas na grandiosidade incompar\u00e1vel da aud\u00e1cia, da sapi\u00eancia,<br \/>\nda honestidade e da moral; e embora algo com os ho mens se pare\u00e7am,<br \/>\noriginam-se eles dos reais uiraua\u00e7us e muito pouco t\u00eam de humanos.<br \/>\nObedecem todos a um imperador, chamado Papai Grande na g\u00edria familiar,<br \/>\ne que demora na oce\u00e2nica cidade do Rio de Janeiro \u2014 a mais bela<br \/>\ndo mundo, na opini\u00e3o de todos os es trangeiros, e que por meus olhos<br \/>\nverifiquei.<\/p>\n<p>Finalmente, senhoras Amazonas e muito amadas s\u00fabditas, assaz hemos<br \/>\nsofrido e curtido \u00e1rduos e cons tantes pesares, depois que os deveres<br \/>\nda nossa posi\u00e7\u00e3o, nos apartaram do Imp\u00e9rio do Mato Virgem.<br \/>\nPor c\u00e1 tu do s\u00e3o del\u00edcias e venturas, por\u00e9m nenhum<br \/>\ngozo tere mos e nenhum descanso, enquanto n\u00e3o rehouvermos o perdido<br \/>\ntalism\u00e3. Hemos por bem repetir entretanto que as nossas rela\u00e7\u00f5es<br \/>\ncom o doutor Venceslau s\u00e3o as milhores poss\u00edveis; que as negocia\u00e7\u00f5es<br \/>\nest\u00e3o entaboladas e perfeitamente encaminhadas; e bem poder\u00edeis<br \/>\nenviar de antem\u00e3o as alv\u00ed\u00e7aras que enunciamos atr\u00e1s.<br \/>\nCom pouco o vosso abst\u00eamio Imperador se contenta; si n\u00e3o puderdes<br \/>\nenviar duzentas igaras cheias de bagos de ca cau, mandai, cem, ou menos cinq\u00fcenta!<br \/>\nRecebei a b\u00ean\u00e7\u00e3o do vosso Imperador e mais sa\u00fade<br \/>\ne fraternidade. Acatai com respeito e obedi\u00eancia estas mal tra\u00e7adas<br \/>\nlinhas; e, principalmente, n\u00e3o vos esque \u00e7ais das alv\u00ed\u00e7aras<br \/>\ne das polonesas, de que muito hemos mister.<\/p>\n<p>Ci guarde a Vossas Excias.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma, Imperator.<\/p>\n<h4><a name=\"10\"><\/a>X &#8211; Pau\u00ed-P\u00f3dole<\/h4>\n<p>Venceslau Pietro Pietra ficara muito doente com a sova e estava todo envolvido<br \/>\nem rama de algod\u00e3o. Passou meses na rede. Macuna\u00edma n\u00e3o<br \/>\npodia nem dar passo pra conseguir a muiraquit\u00e3 agora guardada den tro<br \/>\ndo caramujo por debaixo do corpo do gigante. Ima ginou botar formiga cupim<br \/>\nno chinelo do outro porque isso traz morte, dizem, por\u00e9m Piaim\u00e3<br \/>\ntinha p\u00e9 pra tr\u00e1s e n\u00e3o usava chinelo. Macuna\u00edma<br \/>\nestava muito contra riado com aquele chove-n\u00e3o-molha e passava o dia<br \/>\nna rede mastigando beiju membeca entre cod\u00f3rios longos de restilo.<br \/>\nNesse tempo veio pedir pousada na pens\u00e3o o \u00edndio Ant\u00f4nio,<br \/>\nsanto famoso com a companheira dele, M\u00e3e de Deus. Foi visitar Macuna\u00edma,<br \/>\nfez discurso e ba<\/p>\n<p>tizou o her\u00f3i diante do deus que havia de vir e tinha forma nem bem de<br \/>\npeixe nem bem de anta. Foi assim que Macuna\u00edma entrou pra religi\u00e3o<br \/>\nCaraimonhaga que estava fazendo furor no sert\u00e3o da Bahia.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma aproveitava a espera se aperfei\u00e7oando nas duas l\u00ednguas<br \/>\nda terra, o brasileiro falado e o por tugu\u00eas escrito. J\u00e1 sabia<br \/>\nnome de tudo. Uma feita era dia da Flor, festa inventada pr\u00f3s Brasileiros<br \/>\nserem ca ridosos e tinha tantos mosquitos carapan\u00e3s que Ma cuna\u00edma<br \/>\nlargou do estudo e foi na cidade refrescar as id\u00e9ias. Foi e viu um<br \/>\ndesprop\u00f3sito de coisas. Parava em cada vitrina e examinava dentro dela<br \/>\naquela por\u00e7\u00e3o de monstros, tantos que at\u00e9 parecia a serra<br \/>\ndo Erer\u00ea onde tudo se refugiou quando a enchente grande inundou o mundo.<br \/>\nMacuna\u00edma passeava passeava e encontrou uma cunhat\u00e3 com uma<br \/>\nurupema carregadinha de ro sas. A mocica fez ele parar e botou uma flor na<br \/>\nlapela dele, falando: \u2014 Custa milr\u00e9is.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma ficou muito contrariado porque n\u00e3o sabia como era<br \/>\no nome daquele buraco da m\u00e1quina roupa onde a cunhat\u00e3 enfiara<br \/>\na flor. E o buraco chama va botoeira. Imaginou escarafunchando na mem\u00f3ria<br \/>\nbem, mas nunca n\u00e3o ouvira mesmo o nome daquele buraco. Quis chamar<br \/>\naquilo de buraco por\u00e9m viu logo que confundia com os outros buracos<br \/>\ndeste mundo e ficou com vergonha da cunhat\u00e3. &#8220;Orif\u00edcio&#8221;<br \/>\nera palavra que a gente escrevia mas por\u00e9m nunca ningu\u00e9m n\u00e3o<br \/>\nfalava &#8220;orif\u00edcio&#8221; n\u00e3o. Depois de pensamentear pensamentear<br \/>\nn\u00e3o havia meios mesmo de descobrir o nome daquilo e p\u00f4s reparo<br \/>\nque da rua Direita onde topara com a cunhat\u00e3 j\u00e1 tinha ido parar<br \/>\nadiante de S\u00e3o Ber nardo, passada a moradia de mestre Cosme. Ent\u00e3o<br \/>\nvol tou, pagou pra mo\u00e7a e falou de venta-inchada: \u2014 A senhora<br \/>\nme arrumou com um dia-de-judeu! Nunca mais me bote flor neste&#8230; neste pu\u00edto,<br \/>\ndona! Macuna\u00edma era desbocado duma vez. Falara uma bocagem muito porca,<br \/>\nmuito! A cunhat\u00e3 n\u00e3o sabia que pu\u00edto era palavra-feia<br \/>\nn\u00e3o e enquanto o her\u00f3i voltava aluado com o caso pra pens\u00e3o,<br \/>\nficou se rindo, achando gra\u00e7a na palavra. &#8220;Pu\u00edto&#8230;&#8221;<br \/>\nque ela dizia. E repetia gozado: &#8220;Pu\u00edto&#8230; Pu\u00edto&#8221;&#8230;<br \/>\nImaginou que era moda. Ent\u00e3o se p\u00f4s falando pra toda a gente<br \/>\nsi queriam que ela botasse uma rosa no pu\u00edto deles. Uns quiseram ou<br \/>\ntros n\u00e3o quiseram, as outras cunhat\u00e3s escutaram a pa lavra,<br \/>\na empregaram e &#8220;pu\u00edto&#8221; pegou. Ningu\u00e9m mais n\u00e3o<br \/>\nfalava em boutonni\u00e8re por exemplo; s\u00f3 pu\u00edto, pu\u00edto<br \/>\nse escutava.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma ficou de azeite uma semana, sem co mer sem brincar sem<br \/>\ndormir s\u00f3 porque desejava saber as l\u00ednguas da terra. Lembrava<br \/>\nde perguntar pr\u00f3s ou tros como era o nome daquele buraco mais tinha<br \/>\nver gonha de irem pensar que ele era ignorante e moita. \u2022 Afinal chegou<br \/>\no domingo p\u00e9-de-cachimbo que era dia do Cruzeiro, feriado novo inventado<br \/>\npr\u00f3s Brasileiros descansarem mais. De manh\u00e3 teve parada na Mooca,<br \/>\nao meio-dia missa campal no Cora\u00e7\u00e3o de Jesus, \u00e0s dezes<br \/>\nsete corso e batalha de confetes na avenida Rangel Pes tana e de-noite, depois<br \/>\nda passeata dos deputados e desocupados pela rua Quinze, ia queimar um fogo-de-artif\u00edcio<br \/>\nno Ipiranga. Ent\u00e3o pra espairecer Macuna\u00ed ma foi no parque ver<br \/>\nos fogos.<\/p>\n<p>Nem bem saiu da pens\u00e3o topou com uma cunha clara, lour\u00edssima,<br \/>\nfilhinha-da-mandioca bem, toda de branco e o chap\u00e9u de tucum\u00e3<br \/>\nvermelho coberto de margaridinhas. Chamava Fr\u00e1ulein e sempre carecia<br \/>\nde pro te\u00e7\u00e3o. Foram juntos e chegaram l\u00e1. O parque estava<br \/>\numa boniteza. Tinha tantas m\u00e1quinas repuxos mistu radas com a m\u00e1quina<br \/>\nluz el\u00e9trica que a gente se en costava um no outro no escuro e as m\u00e3os<br \/>\nse agarra vam pra ag\u00fcentar a admira\u00e7\u00e3o. Assim a dona fez<br \/>\ne Macuna\u00edma sussurrou docemente: \u2014 Mani&#8230; filhinha da mandioca!&#8230;<\/p>\n<p>Pois ent\u00e3o a alem\u00e3zinha chorando comovida, se vi rou e perguntou<br \/>\npra ele si deixava ela afincar aquela margarida no pu\u00edto dele. Primeiro<br \/>\no her\u00f3i ficou muito assarapantado, muito! e quis zangar por\u00e9m<br \/>\ndepois li gou os fatos e percebeu que fora muito inteligente. Ma cuna\u00edma<br \/>\ndeu uma grande gargalhada.<\/p>\n<p>Mas o caso \u00e9 que &#8220;pu\u00edto&#8221; j\u00e1 entrara pras<br \/>\nrevistas estudando com muita ci\u00eancia os idiomas escrito e falado e j\u00e1<br \/>\nestava mais que assente que pelas leis de catalepse elipse s\u00edncope<br \/>\nmenton\u00edmia metafonia met\u00e1tese pr\u00f3clise pr\u00f3tese<br \/>\naf\u00e9rese ap\u00f3cope haplologia etimologia popular todas essas leis,<br \/>\na palavra &#8220;botoeira&#8221; viera a dar em &#8220;pu\u00edto&#8221;, por<br \/>\nmeio duma palavra intermedi\u00e1ria, a voz latina &#8220;rabanitius&#8221;<br \/>\n(botoeira-rabanitius-pu\u00edto), sendo que rabanitius embora n\u00e3o<br \/>\nencontrada nos documentos medievais, afirmaram os doutos que na certa existira<br \/>\ne fora corrente no sermo vulgaris.<\/p>\n<p>Nesse momento um mulato da maior mulataria tre pou numa est\u00e1tua e<br \/>\nprincipiou um discurso entusias mado explicando pra Macuna\u00edma o que<br \/>\nera o dia do Cruzeiro. No c\u00e9u escampado da noite n\u00e3o tinha uma<br \/>\nnuvem nem Capei. A gente enxergava os conhecidos, os pais-das-\u00e1rvores<br \/>\nos pais-das-aves os pais-das-ca\u00e7as e o parentes manos pais m\u00e3es<br \/>\ntias cunhadas cunhas cunhat\u00e3s, todas essas estrelas piscapiscando bem<br \/>\nfelizes nessa terra sem mal, adonde havia muita sa\u00fade e pouca sa\u00fava,<br \/>\no firmamento l\u00e1. Macuna\u00edma escutava muito agradecido, concordando<br \/>\ncom a fala comprida que o discursador fazia pra ele. S\u00f3 depois do homem<br \/>\napontar muito e descrever muito \u00e9 que Macuna\u00edma p\u00f4s reparo<br \/>\nque o tal de Cruzeiro era mas eram aquelas quatro es trelas que ele sabia<br \/>\nmuito bem serem o Pai de Mutum morando no campo do c\u00e9u. Teve raiva<br \/>\nda mentira do mulato e berrou: \u2014 N\u00e3o \u00e9 n\u00e3o! \u2014<br \/>\n&#8230; Meus senhores, que o outro discursava aquelas quatro estrelas rutilantes<br \/>\ncomo l\u00e1grimas arden tes, no dizer do sublime poeta, s\u00e3o o sacrossanto<br \/>\ne tra dicional Cruzeiro que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 n\u00e3o! \u2014 Psiu! \u2014 &#8230; o s\u00edmbolo<br \/>\nmais&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 n\u00e3o! \u2014 Apoiados! \u2014 Fora!<br \/>\n\u2014 Psiu!&#8230; Psiu!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 &#8230; mais su-sublime e maravilhoso da nossa amarmada p\u00e1tria<br \/>\n\u00e9 aquele misterioso Cruzeiro lucilante que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 n\u00e3o! \u2014 &#8230; ve-vedes com&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Nan sculh\u00e0mba! \u2014 &#8230; suas&#8230; qua&#8230; tro claras lantejoulas<br \/>\nde prat&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 n\u00e3o! \u2014 N\u00e3o \u00e9 n\u00e3o!<br \/>\nque outros gritavam tamb\u00e9m. Com tanta bulha afinal o mulato entrupigaitou<br \/>\ne todos os presentes animados pelo &#8220;N\u00e3o \u00e9 n\u00e3o!&#8221;<br \/>\ndo he r\u00f3i estavam com muita vontade de fazer um chinfrim. Por\u00e9m<br \/>\nMacuna\u00edma tremia t\u00e3o tiririca que nem perce beu. Pulou em riba<br \/>\nda est\u00e1tua e principiou contando a hist\u00f3ria do Pai do Mutum.<br \/>\nE era assim: \u2014 N\u00e3o \u00e9 n\u00e3o! Meus senhores e minhas<br \/>\nsenhoras! Aquelas quatro estrelas l\u00e1 \u00e9 o Pai do Mutum! juro<br \/>\nque \u00e9 o Pai do Mutum, minha gente, que p\u00e1ra no campo vasto do<br \/>\nc\u00e9u!&#8230; Isso foi no tempo em que os animais j\u00e1 n\u00e3o eram<br \/>\nmais homens e sucedeu no grande mato Fulano. Era uma vez dois cunhados que<br \/>\nmoravam mui to longe um do outro. Um chamava Cam\u00e3-Pabinque e era catimbozeiro.<br \/>\nUma feita o cunhado de Cam\u00e3-Pabin que entrou no mato por amor de ca\u00e7ar<br \/>\num bocado. Es tava fazendo e topou com Pau\u00ed-P\u00f3dole e seu compadre<br \/>\no vaga-lume Camaiu\u00e1. E Pau\u00ed-P\u00f3dole era o Pai do Mu tum.<br \/>\nEstava trepado no galho alto da acapu, descan sando. Vai, o cunhado do feiticeiro<br \/>\nvoltou pra maloca e falou pra companheira dele que tinha topado com Pau\u00ed-P\u00f3dole<br \/>\ne seu compadre Camaiu\u00e1. E o Pai do Mutum com seu compadre num tempo<br \/>\nmuito de dantes j\u00e1 foram gente que nem n\u00f3s. O homem falou mais<br \/>\nque bem que tinha querido matar Pau\u00ed-P\u00f3dole com a sarabatana<br \/>\npor\u00e9m n\u00e3o alcan\u00e7ara o poleiro alto do Pai do Mutum na<br \/>\nacapu. E ent\u00e3o pegou na frecha de pracuuba com ponta de taboca e foi<br \/>\npescar carata\u00eds. Logo Cam\u00e3-Pabinque chegou na maloca do cunhado<br \/>\ne falou: \u2014 Mana, o que foi que vosso companheiro falou pra voc\u00ea?<br \/>\nEnt\u00e3o a mana contou tudo pro feiticeiro e que Pau\u00ed-P\u00f3dole<br \/>\nestava empoleirado na acapu com seu com padre o vaga-lume Camaiu\u00e1.<br \/>\nNo outro dia manh\u00e3zinha Cam\u00e3-Pabinque saiu do papiri dele e<br \/>\nachou Pau\u00ed-P\u00f3dole piando na acapu. Ent\u00e3o o catimbozeiro<br \/>\nvirou na tocandeira Ilague e foi subindo pelo pau mas o Pai do Mutum enxergou<br \/>\na formigona e soprou um pio forte. Bateu um ventar\u00e3o tamanho que o<br \/>\nfeiticeiro despencou do pau, caindo nas capituvas da serrapilheira. Ent\u00e3o<br \/>\nvirou na tacuri Opal\u00e1 menorzinha e foi subindo outra vez, por\u00e9m<br \/>\nPau\u00ed-P\u00f3dole tornou a enxergar a formiga. Soprou e veio um ventinho<br \/>\nbrisando que sacudiu Opal\u00e1 nas trapoerabas da serrapilheira. Ent\u00e3o<br \/>\nCam\u00e3-Pabin que virou na lavap\u00e9s chamada Megue, pequetitinha,<br \/>\nsu biu na acapu, ferrou o Pai do Mutum bem no furinho do nariz, enrolou o<br \/>\ncorpico e trazendo o n\u00e3o-se-diz entre os ferr\u00f5es, juque! esguichou<br \/>\n\u00e1cido-f\u00f3rmico a\u00ed. Chi! mi nha gente! Isso Pau\u00ed-P\u00f3dole<br \/>\nabriu um v\u00f4o esparra mado com a dor e espirrou Megue longe! O feiticeiro<br \/>\nnem n\u00e3o p\u00f4de sair mais do corpo de Megue, do susto que pegou.<br \/>\nE ficou mais essa praga da formiguinha la vap\u00e9s pra n\u00f3s&#8230; Gente!.<\/p>\n<p>&#8220;Pouca sa\u00fade e muita sa\u00fava, Os males do Brasil s\u00e3o!&#8221;<\/p>\n<p>j\u00e1 falei&#8230; No outro dia Pau\u00ed-P\u00f3dole quis ir morar no<br \/>\nc\u00e9u pra n\u00e3o padecer mais com as formigas da nossa terra, fez.<br \/>\nPediu, pro compadre vaga-lume alumiar o ca minho na frente com as lanterninhas<br \/>\nverdes bem ace sas. O vaga-lume Cunav\u00e1 sobrinho do outro foi na fren<br \/>\nte alumiando caminho pra Camaiu\u00e1 e pediu pro mano que fosse na frente<br \/>\nalumiando pra ele tamb\u00e9m. O man0 pediu pro pai, o pai pediu pra m\u00e3e,<br \/>\na m\u00e3e pediu pra toda a gera\u00e7\u00e3o, o chefe-de-pol\u00edcia<br \/>\ne o inspetor do quarteir\u00e3o e muitos muitos, uma nuvem de valumes foram<br \/>\nalumiando caminho uns pr\u00f3s outros. Fizeram, gostaram de l\u00e1 e<br \/>\nsempre uns atr\u00e1s dos outros nunca mais voltaram do campo vasto do c\u00e9u.<br \/>\n\u00c9 aquele ca<\/p>\n<p>minho de luz que daqui se enxerga atravessando o espa\u00e7o. Pau\u00ed-P\u00f3dole<br \/>\nent\u00e3o avoou pro c\u00e9u e ficou l\u00e1. Minha gente! aquelas quatro<br \/>\nestrelas n\u00e3o \u00e9 Cruzeiro, que Cruzeiro nada! \u00c9 o Pai do<br \/>\nMutum! \u00c9 o Pai do Mutum, minha gente! \u00c9 o Pai do Mutum, Pau\u00ed-P\u00f3dole<br \/>\nque p\u00e1ra no campo vasto do C\u00e9u!&#8230; Tem mais n\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma parou fatigado. Ent\u00e3o se ergueu do povar\u00e9u<br \/>\num murmurejo longo de felicidade fazendo relumear mais ainda as gentes, os<br \/>\npais-dos-p\u00e1ssaros os pais-dos-peixes os pais-dos-insetos os pais-das-\u00e1rvores,<br \/>\ntodos esses conhecidos que param no campo do c\u00e9u. E era imenso o contentamento<br \/>\ndaquela paulistanada man dando olhos de assombro pras gentes, pra todos esses<br \/>\npais dos vivos brilhando morando no c\u00e9u. E todos esses assombros de-primeiro<br \/>\nforam gente depois foram os as sombros misteriosos que fizeram nascer todos<br \/>\nos seres vivos. E agora s\u00e3o as estrelinhas do c\u00e9u.<\/p>\n<p>O povo se retirou comovido, feliz no cora\u00e7\u00e3o cheio de explica\u00e7\u00f5es<br \/>\ne cheio das estrelas vivas. Ningu\u00e9m n\u00e3o se amolava mais nem<br \/>\ncom dia do Cruzeiro nem com as m\u00e1quinas repuxos misturadas com a m\u00e1quina<br \/>\nluz el\u00e9 trica. Foram pra casa botar pelego por debaixo do len \u00e7ol<br \/>\nporque por terem brincado com fogo aquela noite, na certa que iam mijar na<br \/>\ncama. Foram todos dormir. E a escurid\u00e3o se fez.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma parado em riba da est\u00e1tua ficara so zinho ali. Tamb\u00e9m<br \/>\nestava comovido. Olhou pra altura. Que Cruzeiro nada! Era Pau\u00ed-P\u00f3dole<br \/>\nse percebia bem daqui&#8230; E Pau\u00ed-P\u00f3dole estava rindo pra ele,<br \/>\nagradecendo. De repente piou comprido parecendo trem-de-ferro. N\u00e3o<br \/>\nera trem era piado e o sopro apagou todas as luzes do parque. Ent\u00e3o<br \/>\no Pai do Mutum mexeu uma asa mansamente se despedindo do her\u00f3i. Macuna\u00edma<br \/>\nia agradecer, por\u00e9m o p\u00e1ssaro erguendo a poeira da neblina largou<br \/>\nnuma carreira esparramando pelo campo vasto do c\u00e9u.<\/p>\n<h4><a name=\"11\"><\/a>XI &#8211; A Velha Ceiuci<\/h4>\n<p>No outro dia o her\u00f3i acordou muito constipado. Era porque apesar do<br \/>\ncalor\u00e3o da noite ele dormira de roupa com medo da Caruviana que pega<br \/>\nindiv\u00edduo dor mindo nu. Mas estava muito gangento com o sucesso do<br \/>\ndiscurso da v\u00e9spera. Esperou impaciente os quinze dias da doen\u00e7a<br \/>\nresolvido a contar mais casos pro povo. Por\u00e9m quando se sentiu bom<br \/>\nera manh\u00e3zinha e quem conta hist\u00f3ria de dia cria rabo de cotia.<br \/>\nPor isso con<\/p>\n<p>vidou os manos pra ca\u00e7ar, fizeram.<\/p>\n<p>Quando chegaram ao bosque da Sa\u00fade o her\u00f3i murmurou: \u2014<br \/>\nAqui serve.<\/p>\n<p>Disp\u00f4s os manos nas esperas, botou fogo no bos que e ficou tamb\u00e9m<br \/>\namoitado esperando que sa\u00edsse al gum viado mateiro pra ele ca\u00e7ar.<br \/>\nPor\u00e9m n\u00e3o tinha nenhum viado l\u00e1 e quando queimada acabou,<br \/>\njacar\u00e9 saiu? pois nem viado mateiro nem viado catingueiro, sa\u00edram<br \/>\ns\u00f3 dois ratos chamuscados. Ent\u00e3o o her\u00f3i ca\u00e7ou<br \/>\nos ratos chamuscados, comeu-os e sem chamar os ma nos voltou pra pens\u00e3o.<\/p>\n<p>L\u00e1 chegado ajuntou os vizinhos, criados a patroa cunhas datil\u00f3grafos<br \/>\nestudantes empregados-p\u00fablicos, muitos empregados-p\u00fablicos!<br \/>\ntodos esses vizinhos e con tou pra eles que tinha ido ca\u00e7ar na feira<br \/>\ndo Arouche e matara dois&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 &#8230; mateiros, n\u00e3o eram viados mateiros n\u00e3o, dois viados<br \/>\ncatingueiros que comi com os manos. At\u00e9 vinha trazendo um naco pra<br \/>\nvoc\u00eas mas por\u00e9m escor reguei na esquina, ca\u00ed derrubei<br \/>\no embrulho e cachorro comeu tudo.<\/p>\n<p>Toda a gente se sarapantou com o sucedido e des confiaram do her\u00f3i.<br \/>\nQuando Maanape e Jigu\u00ea volta ram, os vizinhos foram perguntar pra eles<br \/>\nsi era ver dade que Macuna\u00edma ca\u00e7ara dois catingueiros na feira<br \/>\ndo Arouche. Os manos ficaram muito inquizilados por que n\u00e3o sabiam<br \/>\nmentir e exclamaram irritad\u00edssimos: \u2014 Mas que catingueiros esses!<br \/>\nO her\u00f3i nunca ma tou viado!- N\u00e3o tinha nenhum viado na ca\u00e7ada<br \/>\nn\u00e3o! Gato miador, pouco ca\u00e7ador, gente! Em vez foram dois ratos<br \/>\nchamuscados que Macuna\u00edma pegou e comeu.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o os vizinhos perceberam que tudo era mentira do her\u00f3i,<br \/>\ntiveram raiva e entraram no quarto dele pra tomar satisfa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMacuna\u00edma estava tocando numa flautinha feita de canudo de mam\u00e3o.<br \/>\nParou o sopro, aparou o bocal da flautinha e se admirou muito sos segado:<br \/>\n\u2014 Praqu\u00ea essa gentama no meu quarto, agora!&#8230; Faz mal pra sa\u00fade,<br \/>\ngente! Todos perguntaram pra ele: \u2014 O que foi mesmo que voc\u00ea ca\u00e7ou,<br \/>\nher\u00f3i? \u2014 Dois viados mateiros.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o os criados as cunhas estudantes empregados-p\u00fablicos.<br \/>\ntodos esses vizinhos principiaram rindo dele. Macuna\u00edma sempre aparando<br \/>\no bocal da flauti nha. A patroa cruzando os bra\u00e7os ralhou assim: \u2014<br \/>\nMas, meus cuidados, praqu\u00ea voc\u00ea fala que fo ram dois viados e<br \/>\nem vez foram dois ratos chamuscados! Macuna\u00edma parou assim os olhos<br \/>\nnela e secundou: \u2014 Eu menti.<\/p>\n<p>Todos os vizinhos ficaram com cara de Andr\u00e9 e cada um foi saindo<br \/>\nna maciota. E Andr\u00e9 era um vizi nho que andava sempre encalistrado.<br \/>\nMaanape e Jigu\u00ea se olharam, com inveja da intelig\u00eancia do mano.<br \/>\nMaa nape inda falou pra ele: \u2014 Mas praqu\u00ea voc\u00ea mentiu, her\u00f3i!<br \/>\n\u2014 N\u00e3o foi por querer n\u00e3o&#8230; quis contar o que ti nha sucedido<br \/>\npra gente e quando reparei estava men tindo. ..<\/p>\n<p>Jogou a flautinha fora, pegou no ganz\u00e1 pigarreou e descantou. Descantou<br \/>\na tarde inteirinha uma moda t\u00e3o sorumb\u00e1tica mas t\u00e3o sorumb\u00e1tica<br \/>\nque os olhos dele choravam a cada estrofe. Parou porque os solu\u00e7os<br \/>\nn\u00e3o deixaram mais continuar. Largou do ganz\u00e1. L\u00e1 fora<br \/>\na vista era uma tristura de entardecer dentro da cerra\u00e7\u00e3o. Macuna\u00edma<br \/>\nsentiu-se desinfeliz e teve saudades de Ci a inesquec\u00edvel. Chamou os<br \/>\nmanos pra se conso larem todos juntos. Maanape e Jigu\u00ea sentaram junto<br \/>\ndele na cama e os tr\u00eas falaram longamente da M\u00e3e do Mato. E espalhando<br \/>\na saudade falaram dos matos e cobertos cerra\u00e7\u00f5es deuses e barrancas<br \/>\ntrai\u00e7oeiras do Uraricoera. L\u00e1 que eles tinham nascido e se rido<br \/>\npela primeira vez nos macurus&#8230; Encostados nas maquiras pra l\u00e1 do<br \/>\nlimpo do mocambo os guir\u00e1s cantavam o que n\u00e3o dava o dia e eram<br \/>\npra mais de quinhentas as fam\u00ed lias dos guir\u00e1s&#8230; Perto de quinze<br \/>\nvezes mil esp\u00e9cies de animais assombravam o mato de tantos milh\u00f5es<br \/>\nde paus que n\u00e3o tinham mais conta&#8230; Uma feita um branco trouxera da<br \/>\nterra dos Ingleses, dentro dum sapiqu\u00e1 g\u00f3 tico, a constipa\u00e7\u00e3o<br \/>\nque fazia agora Macuna\u00edma tanto chorar de sodades. E a constipa\u00e7\u00e3o<br \/>\ntinha ido morar no antro das formigas mumbucas mui pretas. Na escureza o calor<br \/>\nse amaciava como saindo das \u00e1guas; pra trabalhar se cantava; nossa<br \/>\nm\u00e3e ficara virada numa coxilha mansa no lugar chamado Pai do Tocandeira.<br \/>\n&gt;. Ai, que pregui\u00e7a&#8230; E os tr\u00eas manos perceberam per tinho<br \/>\no murmurejo do Uraricoera! Oh! como era bom por l\u00e1&#8230; O her\u00f3i<br \/>\nse atirou pra tr\u00e1s chorando largado na cama.<\/p>\n<p>Quando a vontade de chorar parou, Macuna\u00edma afastou os mosquitos<br \/>\ne quis espairecer. Se lembrou de ofender a m\u00e3e do gigante com uma bocagem<br \/>\nnovinha vinda da Austr\u00e1lia. Virou Jigu\u00ea na m\u00e1quina telefone<br \/>\npor\u00e9m o mano inda estava muito confundido com o caso da mentira do<br \/>\nher\u00f3i e n\u00e3o houve meios de ligar. O apa relho tinha defeito.<br \/>\nEnt\u00e3o Macuna\u00edma fumou fava de paric\u00e1 pra ter sonhos gostosos<br \/>\ne adormeceu bem.<\/p>\n<p>No outro dia lembrou que precisava se vingar dos manos e resolveu passar<br \/>\num pealo neles. Levantou madrugadinha e foi esconder no quarto da patroa.<br \/>\nBrin cou pra fazer tempo. Depois voltou falando afobado pr\u00f3s manos:<br \/>\n\u2014 Oi, manos achei rasto fresco de tapir bem na frente da Bolsa de Mercadorias!<br \/>\n\u2014 Que me diz, perdiz! \u2014 Pois \u00e9. Quem que havia de dizer!<br \/>\nNingu\u00e9m inda n\u00e3o matara tapir na cidade. Os ma nos se sarapantaram<br \/>\ne foram com Macuna\u00edma ca\u00e7ar o bicho. Chegaram l\u00e1, principiaram<br \/>\nprocurando o rasto e aquele mund\u00e3o de gente comerciantes revendedores<br \/>\nbaixistas matarazos, vendo os tr\u00eas manos curvados pro asfalto procurando,<br \/>\nprincipiaram campeando tamb\u00e9m, todo aquele mund\u00e3o de gente.<br \/>\nProcuraram procura ram, voc\u00ea achou? nem eles! Ent\u00e3o perguntaram<br \/>\npra Macuna\u00edma: \u2014 Onde que voc\u00ea achou rasto de tapir? Aqui<br \/>\nn\u00e3o tem rasto nenhum n\u00e3o! Macuna\u00edma n\u00e3o parava<br \/>\nde campear falando sem pre: \u2014 Tet\u00e1pe, dz\u00f3nanei pemon\u00e9ite<br \/>\nh\u00eah\u00ea zet\u00e9ne neta\u00edte.<\/p>\n<p>E os manos regat\u00f5es zangu\u00f5es tequeteques mada lenas e Hungareses<br \/>\nrecome\u00e7avam procurando o rasto. Quando cansavam e paravam pra perguntar,<br \/>\nMacuna\u00ed ma campeando sempre secundava: \u2014 Tet\u00e1pe, dz\u00f3nanei<br \/>\npemon\u00e9ite h\u00eah\u00ea zet\u00e9ne neta\u00edte.<\/p>\n<p>E todo aquele mund\u00e3o de gente procurando. Era j\u00e1 perto da<br \/>\nnoite quando pararam desacor\u00e7oados. En t\u00e3o Macuna\u00edma<br \/>\nse desculpou: \u2014 Tet\u00e1pe dz\u00f3nanei pemo&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o deixaram nem que ele acabasse, todos pergun tando o que significava<br \/>\naquela frase. Macuna\u00edma res pondeu: \u2014 Sei n\u00e3o. Aprendi<br \/>\nessas palavras quando era pe queno l\u00e1 em casa.<\/p>\n<p>E todos se queimaram muito. Macuna\u00edma fastou disfar\u00e7ado falando:<br \/>\n\u2014 Calma gente! Tet\u00e1pe h\u00eah\u00ea! N\u00e3o falei que<br \/>\ntem rasto de tapir n\u00e3o falei que tinha! Agora n\u00e3o tem mais n\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi pior. Um dos comerciantes se zangou de ver dade e o rep\u00f3rter<br \/>\nque estava ao p\u00e9 dele vendo o outro zangado zangou tamb\u00e9m por<br \/>\ndemais.<\/p>\n<p>\u2014 Isso n\u00e3o vai assim n\u00e3o! Pois ent\u00e3o a gente<br \/>\nvi ve trabucando pra ganhar o p\u00e3o-nosso e vai um indi v\u00edduo<br \/>\ntira a gente o dia inteiro do trabalho s\u00f3 pra cam pear rasto de tapir!<br \/>\n\u2014 Mas eu n\u00e3o pedi pra ningu\u00e9m procurar rasto, mo\u00e7o,<br \/>\nme desculpe! Meus manos Maanape e Jigu\u00ea \u00e9 que andaram pedindo,<br \/>\neu n\u00e3o! Culpa \u00e9 deles! Ent\u00e3o o povo que j\u00e1 estava<br \/>\ntodo zangado virou contra Maanape e contra Jigu\u00ea. J\u00e1 todos, e<br \/>\neram mui tos! estavam com vontade de armar uma briga. Ent\u00e3o um estudante<br \/>\nsubiu na capota dum auto e fez discurso contra Maanape e contra Jigu\u00ea.<br \/>\nO povo estava ficando zangad\u00edssimo.<\/p>\n<p>\u2014 Meus senhores, a vida dum grande centro ur bano como S\u00e3o<br \/>\nPaulo j\u00e1 obriga a uma intensidade tal de trabalho que n\u00e3o permite-se<br \/>\nmais dentro da magn\u00ed fica entrosagem do seu progresso siquer a passagem<br \/>\nmo ment\u00e2nea de seres in\u00f3cuos. Ergamo-nos todos una voc\u00ea<br \/>\ncontra os miasmas delet\u00e9rios que conspurcam o nosso organismo social<br \/>\ne j\u00e1 que o Governo cerra os olhos e delapida os cofres da Na\u00e7\u00e3o,<br \/>\nsejamos n\u00f3s mesmos os justi\u00e7adores&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Lincha! lincha! que o povo principiou gritando.<\/p>\n<p>\u2014 Qu\u00ea lincha nada! exclamou Macuna\u00edma to mando as dores<br \/>\npelos manos.<\/p>\n<p>E todos se viraram contra ele outra vez. E agora j\u00e1 estavam zangad\u00edssimos.<br \/>\nO estudante continuava pra si: \u2014 &#8230; e quando o trabalho honesto do<br \/>\npovo \u00e9 perturbado por um desconhecido&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea! quem que \u00e9 desconhecido! berrou Macuna\u00edma<br \/>\ndesesperado com a ofensa.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea! \u2014 N\u00e3o sou, t\u00e1&#8217;\u00ed! \u2014<br \/>\n\u00c9! \u2014 Ora v\u00e1 desmamar jacu com alpiste, mo\u00e7o! Des<br \/>\nconhecida \u00e9 a senhora vossa m\u00e3e, ouviu! \u2014 e virando pro<br \/>\npovo: O que voc\u00eas est\u00e3o pensando, hein! N\u00e3o te nho medo<br \/>\nn\u00e3o! nem de um nem de dois nem de dez mil e daqui a pouco eu arraso<br \/>\ntudo isto aqui! Uma madalena que estava na frente do her\u00f3i, virou pro<br \/>\ncomerciante atr\u00e1s dela e zangou: \u2014 N\u00e3o bolina, senvergonha!<br \/>\nO her\u00f3i estava cego de raiva, pensou que era com ele e: \u2014 Qu\u00ea<br \/>\n&#8220;n\u00e3o bolina&#8221; agora! n\u00e3o estou bolinando ningu\u00e9m,<br \/>\nsua lambisg\u00f3ia! \u2014 Lincha o bolina! Pau nele! \u2014 Pois venham,<br \/>\ncafajestes! E avan\u00e7ou pra multid\u00e3o. O advogado quis fugir por\u00e9m<br \/>\nMacuna\u00edma atirou um pontap\u00e9 nas costas dele e entrou pelo povo<br \/>\ndistribuindo rasteiras e cabe\u00e7adas. De repente viu na frente um homem<br \/>\nalto loiro mui lindo. E o homem era um grilo. Macuna\u00edma teve \u00f3dio<br \/>\nde tanta boniteza e chimpou uma bruta duma bolacha nas fu\u00e7as do grilo.<br \/>\nO grilo berrou, e enquanto falava uma frase em l\u00edngua estrangeira agarrou<br \/>\no her\u00f3i pelo congote.<\/p>\n<p>\u2014 Prrr\u00easo! O her\u00f3i gelou.<\/p>\n<p>\u2014 Preso por qu\u00ea? O pol\u00edcia secundou uma por\u00e7\u00e3o<br \/>\nde coisas em l\u00edn gua estrangeira e segurou firme.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o estou fazendo nada! que o her\u00f3i murmu rava com<br \/>\nmedo.<\/p>\n<p>Por\u00e9m o grilo n\u00e3o quis conversa e foi descendo a ladeirinha<br \/>\ncom o povo todo atr\u00e1s. Outro grilo chegou e os dois falaram muitas<br \/>\nfrases, muitas! em l\u00edngua estran geira e l\u00e1 foram empurrando<br \/>\no her\u00f3i ladeira abaixo. Uma testemunha de tudo contou o sucedido pra<br \/>\num se nhor que estava na porta duma casa de frutas e o se nhor penalizado<br \/>\natravessou a multid\u00e3o e fez os grilos pararem. Era j\u00e1 na rua<br \/>\nLibero. Ent\u00e3o o senhor fez um discurso pr\u00f3s grilos, que eles<br \/>\nn\u00e3o deviam de levar Ma cuna\u00edma preso porque o her\u00f3i n\u00e3o<br \/>\nfizera nada. Tinha ajuntado uma por\u00e7\u00e3o de grilos mas nenhum<br \/>\nn\u00e3o enten dia o discurso porque nenhum n\u00e3o pescava nada de bra<br \/>\nsileiro. As mulheres choravam com d\u00f3 do her\u00f3i. Os gri los falavam<br \/>\npor demais numa l\u00edngua estrangeira e uma voz gritou: \u2014 N\u00e3o<br \/>\npode! Ent\u00e3o o povo ficou com muita vontade de pelear outra vez e de<br \/>\ntodos os lados agora estavam gritando: &#8220;Larga!&#8221;. &#8220;N\u00e3o<br \/>\nleva!&#8221;. &#8220;N\u00e3o pode!&#8221;. &#8220;N\u00e3o pode!&#8221;, um<br \/>\nchinfrim, &#8220;Solta!&#8221;. Um fazendeiro estava disposto a fa zer discurso<br \/>\ninsultando a Pol\u00edcia. Os grilos n\u00e3o enten diam nada e gesticulavam,<br \/>\nmuito atrapalhados falando em l\u00edngua estrangeira. Formou-se um furdun\u00e7o<br \/>\ntem\u00edvel. Ent\u00e3o Macuna\u00edma se aproveitou da trapalhada<br \/>\ne pernas praqu\u00ea vos quero! Vinha um bonde na carreira badalando. Macuna\u00edma<br \/>\npongou o bonde e foi ver como passava o gigante.<\/p>\n<p>Venceslau Pietro Pietra j\u00e1 principiava convales cendo da sova apanhada<br \/>\nna macumba. Fazia um calor\u00e3o dentro da casa porque era hora de cozinharem<br \/>\na polenta e fora a fresca era boa por causa do vento sul\u00e3o. Por isso<br \/>\no gigante com a velha Ceiuci as duas filhas e a criadagem pegaram cadeiras<br \/>\ne vieram sentar na por ta da rua pra gozar a frescata. O gigante ainda n\u00e3o<br \/>\nsa\u00edra do algod\u00e3o e estava talequal um fardo caminhan do. Sentaram.<\/p>\n<p>O curumi Chuvisco andava librinando pelo bairro e encontro Macuna\u00edma<br \/>\nnegaceando da esquina. Pa rou e ficou olhando o her\u00f3i. Macuna\u00edma<br \/>\nvirou-se: \u2014 Nunca viu n\u00e3o! \u2014 Qu\u00ea que voc\u00ea est\u00e1<br \/>\nfazendo a\u00ed, conhecido! \u2014 Estou assustando o gigante Piaim\u00e3<br \/>\ncom sua fa m\u00edlia.<\/p>\n<p>Chuvisco debicou: \u2014 Qual! n\u00e3o v\u00ea que gigante tem medo<br \/>\nde ti! Macuna\u00edma encarou o curumi empalamado e teve raiva. Quis bater<br \/>\nnele por\u00e9m lembrou de cor: &#8220;Quando voc\u00ea estiver embrabecendo<br \/>\nconta tr\u00eas vezes os bot\u00f5es da vossa roupa&#8221;, contou e ficou<br \/>\nmanso de novo. Ent\u00e3o secundou: \u2014 Quer apostar? Eu fa\u00e7o<br \/>\ne aconte\u00e7o e garanto que Paiam\u00e3 vai pra dentro com medo de mim.<br \/>\nEsconde l\u00e1 perto pra escutar s\u00f3 o que eles falam.<\/p>\n<p>Chuvisco avisou: \u2014 Oi, conhecido, tome tento com gigante! Voc\u00ea<br \/>\nj\u00e1 sabe do que ele \u00e9 capaz. Piaim\u00e3 est\u00e1 fraco<br \/>\nest\u00e1 fraco por\u00e9m canudo que teve pimenta guarda o ardume.. Si<br \/>\nvoc\u00ea n\u00e3o tem medo mesmo, aposto.<\/p>\n<p>Virou numa gota e pingou rente de Venceslau Pie tro Pietra com a companheira<br \/>\nas filhas e a criadagem. Ent\u00e3o Macuna\u00edma pegou na primeira palavra-feia<br \/>\nda cole\u00e7\u00e3o e jogou na cara de Piaim\u00e3. O palavr\u00e3o<br \/>\nbateu de rijo por\u00e9m Venceslau Pietro Pietra nem se incomo dou, direitinho<br \/>\nelefante. Macuna\u00edma chimpou outra bocagem mais feia na caapora. A ofensa<br \/>\nbateu rijo po r\u00e9m se incomodar \u00e9 que ningu\u00e9m se incomodou.<br \/>\nEnt\u00e3o Macuna\u00edma jogou toda a cole\u00e7\u00e3o de bocagens<br \/>\ne eram dez mil vezes dez mil bocagens. Venceslau Pietro Pietra falou pra velha<br \/>\nCeiuici, bem quieto: \u2014 Tem algumas que a gente n\u00e3o conhece inda<br \/>\nn\u00e3o, guarda pra nossas filhas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Chuvisco voltou pra esquina. O her\u00f3i garganteou: \u2014<br \/>\nTiveram medo ou n\u00e3o tiveram! \u2014 Medo nada, conhecido! At\u00e9<br \/>\no gigante mandou guardar as bocagens novas pras filhas brincarem. De mim que<br \/>\neles t\u00eam medo, oc\u00ea aposta? V\u00e1 l\u00e1 perto e escute<br \/>\ns\u00f3.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma virou num caxipara que \u00e9 o macho da formiga sa\u00fava<br \/>\ne foi se enroscar na rama de algod\u00e3o acolchoando o gigante. Chuvisco<br \/>\namontou numa nebli na e quando ia passando em riba da fam\u00edlia deu uma<br \/>\nmijadinha no ar. Principiou peneirando uma chuva-de-pregui\u00e7a. Quando<br \/>\nos pingos vieram caindo o gigante olhou pra um agarrado na m\u00e3o dele<br \/>\ne teve pa\u00fara de tanta \u00e1gua.<\/p>\n<p>\u2014 Vam&#8217;bora, gente! E todos com muito medo foram correndo pra den tro.<br \/>\nEnt\u00e3o Chuvisco desapeou e disse pra Macuna\u00edma: \u2014 Est\u00e1<br \/>\nvendo? E assim at\u00e9 hoje. A fam\u00edlia do gigante tem medo de Chuvisco<br \/>\nmas de palavra-feia n\u00e3o.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma ficou muito despeitado e perguntou pro rival: \u2014 Me<br \/>\ndiga uma coisa: voc\u00ea conhece a l\u00edngua do lim-pim-gua-p\u00e1?<br \/>\n\u2014 Nunca vi mais gordo! \u2014 Pois ent\u00e3o, rival: V\u00e1-p\u00e1<br \/>\n\u00e0-p\u00e1 mer-per-da-p\u00e1! E abriu o pala at\u00e9 a pens\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas estava muito contrariado por ter perdido a aposta e se lembrou de fazer<br \/>\numa pescaria. Por\u00e9m n\u00e3o podia pescar nem de frecha nem com timb\u00f3<br \/>\nnem cunambi nem tigu\u00ed nem macer\u00e1 nem no pari nem com linha nem<br \/>\narp\u00e3o nem juquia\u00ed nem sararaca nem gaponga nem de poita nem<br \/>\nde cassu\u00e1 nem itapu\u00e1 nem de giqui nem de grozera nem de gerer\u00ea<br \/>\ngu\u00ea tresmalho aparador gung\u00e1 cambango arinque batebate gradeira<br \/>\ncaicai penca anzol de vara covo, todos esses objetos armadilhas e ve nenos<br \/>\nporque n\u00e3o possu\u00eda nada disso n\u00e3o. Fez um anzol com cera<br \/>\nde mandaguari mas bagre mordia, le vava anzol e tudo. Por\u00e9m tinha ali<br \/>\nperto um Ingl\u00eas pes cando aimar\u00e1s com anzol de verdade. Macuna\u00edma<br \/>\nvol tou pra casa e falou pra Maanape: \u2014 Qu\u00ea que havemos de fazer!<br \/>\nCarecemos de to mar anzol de Ingl\u00eas. Vou tirar aimar\u00e1 de mentira<br \/>\npra enganar o bife. Quando ele me pescar e der a batida na minha cabe\u00e7a<br \/>\nent\u00e3o fa\u00e7o &#8220;juque!&#8221; enganando que morri. Ele me atira<br \/>\nno sambur\u00e1, voc\u00ea pede o peixe mais grande pra comer e sou eu.<\/p>\n<p>Fez. Virou num aimar\u00e1 pulou na lagoa, o Ingl\u00eas pescou-o e bateu<br \/>\nna cabe\u00e7a dele. O her\u00f3i gritou &#8220;Ju que!&#8221; Mas o Ingl\u00eas<br \/>\ntirou o anzol da goela do peixe po r\u00e9m. Maanape veio vindo e muito<br \/>\ndisfar\u00e7ado pediu pro Ingl\u00eas: \u2014 D\u00e1 peixe pra mim,<br \/>\nseu Yes? \u2014 Ali right. E deu um lambari de rabo vermelho.<\/p>\n<p>\u2014 Ando padecendo de fome, seu Ingl\u00eas! d\u00e1 um macota, v\u00e1!<br \/>\nesse um gordinho do sambur\u00e1! Macuna\u00edma estava com o olho esquerdo<br \/>\ndormindo por\u00e9m Maanape conheceu-o bem. Maanape era feiticei ro. O Ingl\u00eas<br \/>\ndeu o aimar\u00e1 pra Maanape que agradeceu foi-se embora. Quando estava<br \/>\nl\u00e9gua e meia longe o limar\u00e1 virou Macuna\u00edma outra vez.<br \/>\nAssim tr\u00eas vezes, Ingl\u00eas sempre tirando anzol da goela do her\u00f3i.<br \/>\nMacuna\u00edma segredou pro mano: \u2014 Qu\u00ea que havemos de fazer!<br \/>\nCarecemos de tomar anzol de Ingl\u00eas. Vou virar piranha de mentira e arranco<br \/>\nanzol da vara.<\/p>\n<p>Virou numa piranha feroz pulou na lagoa arrancou anzol e desvirando outra<br \/>\nvez l\u00e9gua e meia abaixo no lugar chamado Po\u00e7o do Umbu onde tinha<br \/>\numas pedras cheias de letreiros encarnados da gente fen\u00edcia sacou anzol<br \/>\nda goela bem contente porque agora podia pescar corim\u00e3 pira\u00edba<br \/>\naruana pirara piaba todos esses&#8217;pei tes. Os dois manos iam-se quando escutaram<br \/>\nIngl\u00eas falando pra Uruguaio: \u2014 Que posso fazer agora! N\u00e3o<br \/>\npossuo mais anzol que a piranha engoliu. Vou pra vossa terra, conhecido.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Macuna\u00edma fez um grande gesto com os dois bra\u00e7os<br \/>\ne gritou: \u2014 Espera um bocado, tapuitinga! O Ingl\u00eas se voltou e<br \/>\nMacuna\u00edma s\u00f3 de ca\u00e7oada virou-o na m\u00e1quina London<br \/>\nBank.<\/p>\n<p>No outro dia falou pr\u00f3s manos que ia pescar peix\u00f5es no igarap\u00e9<br \/>\nTiet\u00ea. Maanape avisou: \u2014 N\u00e3o v\u00e1, her\u00f3i, que<br \/>\nvoc\u00ea topa com a velha Ceiuci mulher do gigante. Te come, heim! \u2014<br \/>\nN\u00e3o tem inferno pra quem j\u00e1 navegou no Ca choeira! que Macuna\u00edma<br \/>\nexclamou. E partiu.<\/p>\n<p>Nem bem lan\u00e7ou a linha de cima dum mut\u00e1 que veio vindo a velha<br \/>\nCeiuci pescando de tarrafa. A caapora viu a sombra de Macuna\u00edma refletida<br \/>\nn&#8217;\u00e1gua jogou depressa a tarrafa e s\u00f3 pescou sombra. O her\u00f3i<br \/>\nnem n\u00e3o achou gra\u00e7a porque estava tremendo de medo, vai, pra<br \/>\nagradecer falou assim: \u2014 Bom-dia, minha v\u00f3.<\/p>\n<p>A velha virou a cara pro alto e descobriu Macuna\u00ed ma em riba do mut\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Vem c\u00e1, meu neto.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o vou l\u00e1 n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Pois ent\u00e3o mando marimbondos.<\/p>\n<p>Fez. Macuna\u00edma arrancou um molho de pataqueira e matou os marimbondos.<\/p>\n<p>\u2014 Desce, meu neto, que sin\u00e3o mando novatas! Fez. As formigas<br \/>\nnovatas ferraram em Macuna\u00ed ma e ele caiu n&#8217;\u00e1gua. Ent\u00e3o<br \/>\na velha tarrafiou, envolveu o her\u00f3i nas malhas e foi pra casa. L\u00e1<br \/>\nchegada p\u00f4s o em brulho na sala-de-visitas que tinha um abajur encarna<br \/>\ndo e foi chamar a filha mais velha que era bem habilidosa, pras duas comerem<br \/>\no pato que ela ca\u00e7ara. E o pato era Macuna\u00edma o her\u00f3i.<br \/>\nPor\u00e9m a filhona estava muito ocupada porque era mesmo habilidosa e<br \/>\na velha pra adiantar servi\u00e7o foi fazer fogo. A caapora possu\u00eda<br \/>\nduas filhas e a mais nova que n\u00e3o era nada habilidosa e s\u00f3 sabia<br \/>\nsuspirar, enxergando a velha fazer fogo, ima ginou: &#8220;M\u00e3e quando<br \/>\nvem da pescaria conta logo o que pescou, hoje n\u00e3o. Vou ver&#8221;. Desenrolou<br \/>\na tarrafa e saiu dela um mo\u00e7o bem do gosto. O her\u00f3i falou: \u2014<br \/>\nMe esconde! Ent\u00e3o a mo\u00e7a que estava mui bondosa porque vi via<br \/>\ndesocupada desde tempo, levou Macuna\u00edma pro quarto e brincaram. Agora<br \/>\nest\u00e3o se rindo um pro outro.<\/p>\n<p>Quando fogo ficou bem quente a velha Ceiuci veio com a filhona habilidosa<br \/>\npra depenarem o pato por\u00e9m acharam s\u00f3 tarrafa. A caapora embrabeceu:<br \/>\n\u2014 Isso h\u00e1-de ser minha filhinha nova que \u00e9 muito bondosa&#8230;<\/p>\n<p>Bateu no quarto da mo\u00e7a, gritando: \u2014 Minha filhinha nova, entrega<br \/>\nj\u00e1 meu pato que sin\u00e3o enxoto voc\u00ea da casa minha pra todo<br \/>\no sempre! A mo\u00e7a ficou com medo e mandou Macuna\u00edma ati rar vinte<br \/>\nmilr\u00e9is por debaixo da porta pra ver si con tentava a gulosa. Macuna\u00edma<br \/>\nde medo j\u00e1 atirou cem que viraram em muitas perdizes lagostas robalos<br \/>\nvidros-de-perfume e caviar. A velha gulosa engoliu tudo e pediu mais. Ent\u00e3o<br \/>\nMacuna\u00edma atirou um conto de r\u00e9is por debaixo da porta. O conto<br \/>\nvirou em mais lagostas coelhos pacas champanha rendas cogumelos r\u00e3s<br \/>\ne a ve lha sempre comendo e pedindo mais. Ent\u00e3o a mo\u00e7a bondosa<br \/>\nabriu a janela dando pro Pacaembu deserto e falou: \u2014 Vou dizer tr\u00eas<br \/>\nadivinhas, si voc\u00ea descobre, te deixo fugir. O que \u00e9 que \u00e9:<br \/>\n\u00c9 comprido roli\u00e7o e perfu rado, entra duro e sai mole, satisfaz<br \/>\no gosto da gente e n\u00e3o \u00e9 palavra indecente? \u2014 Ah! isso<br \/>\n\u00e9 indec\u00eancia sim! \u2014 Bobo! \u00e9 macarr\u00e3o! \u2014<br \/>\nAhn&#8230; \u00e9 mesmo!&#8230; Engra\u00e7ado, n\u00e3o? \u2014 Agora o que<br \/>\n\u00e9 que \u00e9: Qual o lugar onde as mulheres t\u00eam cabelo mais<br \/>\ncrespinho? \u2014 \u00f4h, que bom! isso eu sei! \u00e9 a\u00ed! \u2014<br \/>\nCachorro! \u00c9 na \u00c1frica, sabe! \u2014 Me mostra, por favor! \u2014<br \/>\nAgora \u00e9 a \u00faltima vez. Diga o qu\u00ea que \u00e9:<\/p>\n<p>Mano, vamos fazer Aquilo que Deus consente: Ajuntar p\u00ealo com p\u00ealo,<br \/>\nDeixar o pelado dentro.<\/p>\n<p>E Macuna\u00edma: \u2014 Ara! Tamb\u00e9m isso quem n\u00e3o sabe!<br \/>\nMas c\u00e1 pra n\u00f3s que ningu\u00e9m nos ou\u00e7a, voc\u00ea<br \/>\n\u00e9 bem senvergonha, dona! \u2014 Descobriu. N\u00e3o \u00e9 dormir<br \/>\najuntando os p\u00ealos das pestanas e deixando o olho pelado dentro que<br \/>\nvoc\u00ea est\u00e1 imaginando? Pois si voc\u00ea n\u00e3o acertasse<br \/>\npelo menos uma das advinhas te entregava pra gulosa de minha m\u00e3e. Agora<br \/>\nfuja sem escarc\u00e9u, serei expulsa, voarei pro c\u00e9u. Na esquina<br \/>\nvoc\u00ea encontra uns cavalos. Tome o castanho-escuro que pisa no mole e<br \/>\nno duro. Esse \u00e9 bom. Si voc\u00ea escuta um passarinho gritando &#8220;Ba\u00faa!<br \/>\nBa\u00faa!&#8221; en t\u00e3o \u00e9 a velha Ceiuci chegando. Agora fuja<br \/>\nsem escar c\u00e9u, serei expulsa, voarei pro c\u00e9u! \u2014 Macuna\u00edma<br \/>\nagradeceu e pulou pela janela. Na esquina estavam dois cavalos, um castanho-escuro<br \/>\ne ou tro card\u00e3o-pedrez. &#8220;Cavalo card\u00e3o-pedrez pra carreira<br \/>\nDeus o fez&#8221; Macuna\u00edma murmurou. Pulou nesse e abriu na galopada.<br \/>\nCaminhou caminhou caminhou e j\u00e1 per to de Manaus ia correndo quando<br \/>\no cavalo deu uma to pada que arrancou ch\u00e3o. No fundo do buraco Macuna\u00ed<br \/>\nma enxergou uma coisa relumeando. Cavou depressa e descobriu o resto do deus<br \/>\nMarte, escultura grega acha da naquelas paragens inda na Monarquia e primeiro-de-abril<br \/>\npassado no Araripe de Alencar pelo jornal cha mado Com\u00e9rcio do Amazonas.<br \/>\nEstava contemplando aquele torso macanudo quando escutou &#8220;Ba\u00faa!<br \/>\nBa\u00faa!&#8221;. Era a velha Ceiuci chegando. Macuna\u00edma esporeou<br \/>\no card\u00e3o-pedrez e depois de perto de Mendoza na Argen tina quasi dar<br \/>\num esbarr\u00e3o num gal\u00e9 que tamb\u00e9m vi nha fugindo da Guiana<br \/>\nFrancesa, chegou num lugar on de uns padres estavam melando. Gritou: \u2014<br \/>\nMe escondam, padres!<\/p>\n<p>Nem bem os padres esconderam Macuna\u00edma num pote vazio que a caapora chegou<br \/>\nmontada no tapir.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o viram meu neto passar por aqui no seu ca valinho comendo<br \/>\ncapim? \u2014 J\u00e1 passou.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a velha apeou do tapir e. montou num ca valo gazeo-sarar\u00e1<br \/>\nque nunca prestou nem prestar\u00e1 e se guiu. Quando ela virou a serra<br \/>\ndo Pafanacoara os pa dres tiraram o her\u00f3i do pote, deram pra ele um<br \/>\ncavalo melado-caxito que tanto \u00e9 bom como \u00e9 bonito e man daram<br \/>\nele embora. Macuna\u00edma agradeceu e galopou. Logo adiante encontrou uma<br \/>\ncerca de arame por\u00e9m era cavaleiro: deu um sacal\u00e3o, esbarrou<br \/>\no pongo e ajuntan do as m\u00e3os do animal ca\u00eddo com um jeito forte<br \/>\nfez o cavalo girar e passar por debaixo do arame. Ent\u00e3o o her\u00f3i<br \/>\npulou a cerca e amontou de novo. Galopeou galopeou galopeou. Passando no Cear\u00e1<br \/>\ndecifrou os letreiros ind\u00edgenas do Aratanha; no Rio Grande do Norte<br \/>\ncosteando o serrote do Cabelo-n\u00e3o-tem decifrou outro. Na Para\u00edba,<br \/>\nindo de Manguape pra Bacamarte passou na Pedra-Lavrada com tanta inscri\u00e7\u00e3o<br \/>\nque dava um ro mance. N\u00e3o leu por causa da pressa e nem a da Barra<br \/>\ndo Poti do Piau\u00ed, nem a de Jaje\u00fa em Pernambuco, nem a dos Apertados<br \/>\ndo Inhamum, que j\u00e1 era no quarto dia e se escutava no ar rentinho:<br \/>\n&#8220;Ba\u00faa! Ba\u00faa!&#8221; Era a ve lha Ceiuci chegando. Macuna\u00edma<br \/>\npernas pra que vos quero pelo eucaliptal. Mas o passarinho sempre mais perto<br \/>\ne Macuna\u00edma isso vinha que vinha acochado pela velha. Afinal topou<br \/>\ncom a biboca dum surucucu que tinha parte com o canhoto.<\/p>\n<p>\u2014 Me esconde, surucucu! O surucucu nem bem escondeu o her\u00f3i<br \/>\nno buraco da latrininha, a velha Ceiuci chegou.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o viram meu neto passar por aqui no seu ca valinho comendo<br \/>\ncapim? \u2014 J\u00e1 passou.<\/p>\n<p>A gulosa apeou do gazeo-sarar\u00e1 que nunca prestou nem prestar\u00e1<br \/>\ne montou num cavalo bebe-em-branco que \u00e9 cavalo manco e seguiu.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Macuna\u00edma escutou surucucu tratando com a companheira<br \/>\npra fazerem um moqu\u00e9m do her\u00f3i. Pu lou do buraco do quartinho<br \/>\ne jogou no terreiro o anel com brilhant\u00e3o que dera de presente pro<br \/>\ndedo Mindinho. O brilhant\u00e3o virou em quatro contos de carros de milho,<br \/>\nadubo Polisu e uma fordeca de segunda m\u00e3o. Enquanto o surucucu olhava<br \/>\npra aquilo tudo satisfeito, Macuna\u00edma pro melado-caxito descansar,<br \/>\namontou num bagual card\u00e3o-rodado que nunca pode estar parado e galopeou<br \/>\natrav\u00e9s de varj\u00f5es e varjotas. Varou num \u00e1ti mo o mar<br \/>\nde areia do chapad\u00e3o dos Parecis e por der rames e dependurados entrou<br \/>\nna caatinga e assustou as galinhas com pintos de ouro do Camutengo perto de<br \/>\nNatal. L\u00e9gua e meia adiante abandonando a mar gem do S\u00e3o Francisco<br \/>\nemporcalhada com a enchente-da-p\u00e1scoa, entrou por uma brecha aberta<br \/>\nno morro al to. Ia seguindo quando escutou um &#8220;psiu&#8221; de cunha. Parou<br \/>\nmorto de medo. Ent\u00e3o saiu do meio da catinga-de-porco uma dona alta<br \/>\ne feiosa com tran\u00e7a at\u00e9 o p\u00e9. E a dona perguntou cochichando<br \/>\npro her\u00f3i: \u2014 J\u00e1 se foram? \u2014 Se foram, quem! \u2014<br \/>\nOs Holandeses! \u2014 Voc\u00ea est\u00e1 caducando, qu\u00ea Holand\u00eas<br \/>\nesse! N\u00e3o tem Holand\u00eas nenhum, dona! Era Maria Pereira cunha<br \/>\nportuga amufumbada na quela brecha de morro desde a guerra com os Holande<br \/>\nses Macuna\u00edma n\u00e3o sabia bem mais em que parte de Brasil estava<br \/>\ne lembrou de perguntar.<\/p>\n<p>\u2014 Me diga uma coisa, filho de gamb\u00e1 \u00e9 raposa, como chama<br \/>\neste lugar? A cunha secundou emproada: \u2014 Aqui \u00e9 o Buraco de Maria<br \/>\nPereira. Macuna\u00edma soltou uma grande gargalhada e escafedeu enquanto<br \/>\na mulher amoitava outra vez. O her\u00f3i segui de carreira e enfim passou<br \/>\npra outra banda do rio Chu\u00ed. Foi l\u00e1 que topou com o tuiui\u00fa<br \/>\npescando.<\/p>\n<p>\u2014 Primo Tuiui\u00fa, voc\u00ea me leva pra casa? \u2014 Pois n\u00e3o!<br \/>\nLogo o tuiui\u00fa se transformou na m\u00e1quina aeroplano, Macuna\u00edma<br \/>\nescanchou no aturi\u00e1 vazio e ergueram v\u00f4o. Voaram sobre o chapad\u00e3o<br \/>\nmineiro de Urucuia, fi zeram o circuito de Itapecerica e bateram pro Nordeste.<br \/>\nPassando pelas dunas de Mossor\u00f3, Macuna\u00edma olhou pra baixo e<br \/>\nenxergou Bartolomeu Louren\u00e7o de Gusm\u00e3o, batina arrega\u00e7ada,<br \/>\npelejando pra caminhar no are\u00e3o. Gritou pra ele: \u2014 Venha aqui<br \/>\ncom a gente, ilustre! Por\u00e9m o padre gritou com um gesto imenso: \u2014<br \/>\nBasta! Depois que pulando a serra do Tombador no Mato Grosso deixaram pra<br \/>\nesquerda as cochilhas de SantAna do Livramento, o tuiuiu-aeroplano e Macuna\u00edma<br \/>\nsubi ram at\u00e9 o Telhado do Mundo, mataram a sede nas \u00e1guas novas<br \/>\ndo Vilcanota e na \u00faltima etapa voando so bre Amargosa na Bahia, sobre<br \/>\no Gurup\u00e1 e sobre o Gurupi com sua cidade encantada, enfim toparam de<br \/>\nnovo com o mocambo ilustre do igarap\u00e9 Tiet\u00ea. Da\u00ed a pouqui<br \/>\nnho estavam na porta da pens\u00e3o. Macuna\u00edma agrade ceu muito e<br \/>\nquis pagar o ajut\u00f3rio por\u00e9m se lembrou que estava carecendo<br \/>\nde fazer economia. Virou pro tuiui\u00fa e falou: \u2014 Olha, primo, pagar<br \/>\nn\u00e3o posso n\u00e3o mas vou te dar um conselho que vale ouro: Neste<br \/>\nmundo tem tr\u00eas barras que s\u00e3o a perdi\u00e7\u00e3o dos homens:<br \/>\nbarra de rio, barra de ouro e barra de saia, n\u00e3o caia! Por\u00e9m<br \/>\nestava t\u00e3o acostumado a gastar que esque ceu-se da economia. Deu dez<br \/>\ncontos pro tuiui\u00fa, subiu satisfeito pro quarto e contou tudo pr\u00f3s<br \/>\nmanos j\u00e1 muito ressabiados com a demora. O caso afinal custara uns<br \/>\nbons pacotes. Maanape ent\u00e3o virou Jigu\u00ea num telefone e deu queixa<br \/>\npra Pol\u00edcia que deportou a velha gulosa. Por\u00e9m Piaim\u00e3<br \/>\ntinha muita influ\u00eancia e ela voltou na companhia l\u00edrica.<\/p>\n<p>A filha expulsa corre no c\u00e9u, batendo perna de d\u00e9u em d\u00e9u.<br \/>\n\u00c9 uma cometa.<\/p>\n<h4><a name=\"12\"><\/a>XII &#8211; Tequeteque, Chupinz\u00e3o e a Injusti\u00e7a dos Homens<\/h4>\n<p>No outro dia Macuna\u00edma acordou febrento. Tinha mesmo delirado a noite<br \/>\ninteira e sonhado com navio.<\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9 viagem por mar, falou a dona da pens\u00e3o. Macuna\u00edma<br \/>\nagradeceu e de t\u00e3o satisfeito virou logo Jigu\u00ea na m\u00e1quina<br \/>\ntelefone pra insultar a m\u00e3e de Venceslau Pietro Pietra. Mas a sombra<br \/>\ntelefonista avisou que n\u00e3o secundavam. Macuna\u00edma achou aquilo<br \/>\nesqui sito e quis se levantar pra ir saber o que era. Por\u00e9m sentia<br \/>\num calor\u00e3o cocado no corpo todo e uma moleza de \u00e1gua. Murmurou:<br \/>\n\u2014 Ai&#8230; que pregui\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Virou a cara pro canto e principiou falando bocagens. Quando os manos vieram<br \/>\nsaber o que era, era saramp\u00e3o. Maanape logo foi buscar o famoso Bento<br \/>\ncurandeiro em Beberibe que curava com alma de \u00edndio e \u00e1gua de<br \/>\npote. Bento deu uma ag\u00fcinha e fez reza can tada. Numa semana o her\u00f3i<br \/>\nj\u00e1 estava descascando. En t\u00e3o se levantou e foi saber o que<br \/>\ntinha sucedido pro gigante.<\/p>\n<p>N\u00e3o tinha ningu\u00e9m no pal\u00e1cio e a copeira do vi zinho<br \/>\ncontou que Piaim\u00e3 com toda a fam\u00edlia fora na Europa descansar<br \/>\nda sova. Macuna\u00edma perdeu todo o requebrado e se contrariou bem. Brincou<br \/>\ncom a co peira muito aluado e voltou macamb\u00fazio pra pens\u00e3o.<br \/>\nMaanape e Jigu\u00ea encontraram o her\u00f3i na porta da rua e perguntaram<br \/>\npra ele: \u2014 Quem matou seu cachorrinho, meus cuidados? Ent\u00e3o Macuna\u00edma<br \/>\ncontou o sucedido e principiou chorando. Os manos ficaram bem tristes de ver<br \/>\no he r\u00f3i assim e levaram ele visitar o Lepros\u00e1rio de Guapira,<br \/>\npor\u00e9m Macuna\u00edma estava muito contrariado e o passeio n\u00e3o<br \/>\nteve gra\u00e7a nenhuma. Quando chegaram na pens\u00e3o era noitinha e<br \/>\ntodos j\u00e1 estavam desesperados. Tiraram uma por\u00e7\u00e3o enorme<br \/>\nde tabaco dum cornimboque imitando cabe\u00e7a de tucano e espirraram bem.<br \/>\nEnt\u00e3o puderam pensamentear.<\/p>\n<p>\u2014 Pois \u00e9, meus cuidados, voc\u00ea andou lerdeando, cozinhando<br \/>\ngalo, cozinhando galo, o gigante \u00e9 que n\u00e3o havia de esperar,<br \/>\nfoi-se. Agora ag\u00fcente a massada! Nisto Jigu\u00ea bateu na cabe\u00e7a<br \/>\ne exclamou: \u2014 Achei! Os manos levaram um susto. Ent\u00e3o Jigu\u00ea<br \/>\nlembrou que eles podiam ir na Europa tamb\u00e9m, atr\u00e1s da muiraquit\u00e3.<br \/>\nDinheiro, inda sobravam quarenta contos do cacau vendido. Macuna\u00edma<br \/>\naprovou logo por\u00e9m Maanape que era feiticeiro imaginou imaginou e concluiu:<br \/>\n\u2014 Tem coisa milhor.<\/p>\n<p>\u2014 Pois ent\u00e3o desembuxe! \u2014 Macuna\u00edma finge de pianista,<br \/>\narranja uma pen s\u00e3o do Governo e vai sozinho.<\/p>\n<p>\u2014 Mas praqu\u00ea tanta complica\u00e7\u00e3o si a gente pos<br \/>\nsui dinheiro \u00e0 bessa e os manos podem me ajudar na Europa! \u2014<br \/>\nVoc\u00ea tem cada uma que at\u00e9 parece duas! Po der a gente pode sim<br \/>\npor\u00e9m mano seguindo com arame do Governo n\u00e3o \u00e9 milhor?<br \/>\n\u00c9. Pois ent\u00e3o! Macuna\u00edma estava refletindo e de repente<br \/>\nbateu na testa: \u2014 Achei! Os manos levaram um susto.<\/p>\n<p>\u2014 Qu\u00ea foi! \u2014 Pois ent\u00e3o finjo de pintor que \u00e9<br \/>\nmais bonito! Foi buscar a m\u00e1quina \u00f3culos de tartaruga um gramofoninho<br \/>\nmeias de golfe luvas e ficou parecido com pintor.<\/p>\n<p>No outro dia pra esperar a nomea\u00e7\u00e3o matou o tem po fazendo<br \/>\npinturas. Assim: Agarrou num romance de E\u00e7a de Queiroz e foi na Cantareira<br \/>\npassear. Ent\u00e3o pas sou perto dele um cotruco andarengo muito marupiara<br \/>\nporque possu\u00eda folhinha de picapau. Macuna\u00edma dei tado de bru\u00e7os<br \/>\ndivertia-se amassando os tacurus das for migas tapipitingas. O tequeteque<br \/>\nsaudou: \u2014 Bom-dia, conhecido, como le vai, muito obriga do, bem. Trabalhando,<br \/>\nn\u00e3o? \u2014 Quem n\u00e3o trabuca n\u00e3o manduca.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 mesmo. Bom, t\u00e9-loguinho.<\/p>\n<p>E passou. L\u00e9gua e meia adiante topou com um mi-cura e lembrou de<br \/>\ntrabucar tamb\u00e9m um bocado. Pe gou no gambazinho, fez ele engolir dez<br \/>\npratas de dois milr\u00e9is e voltou com o bicho debaixo do bra\u00e7o.<br \/>\nChegan do perto de Macuna\u00edma mascateou: \u2014 Bom-dia, conhecido,<br \/>\ncomo le vai, muito obriga do, bem. Si voc\u00ea quer te vendo meu micura.<\/p>\n<p>\u2014 Qu\u00ea que vou fazer com um bicho t\u00e3o pichento! Macuna\u00edma<br \/>\nsecundou botando a m\u00e3o no nariz.<\/p>\n<p>\u2014 Tem aca mas \u00e9 coisa muito boa! Quando faz necessidade s\u00f3<br \/>\nprata que sai! Vendo barato pra voc\u00ea! \u2014 Deixe de conversa, turco!<br \/>\nOnde que se viu mi cura assim! Ent\u00e3o o tequeteque apertou a barriga<br \/>\ndo gamb\u00e1 e o bicho desistiu as dez pratinhas.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 vendo! Faz necessidade \u00e9 prata s\u00f3! Ajuntando<br \/>\na gente fica riqu\u00edssimo! Barato pra voc\u00ea! \u2014 Quanto que<br \/>\ncusta? \u2014 Quatrocentos contos.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso comprar, s\u00f3 tenho trinta.<\/p>\n<p>\u2014 Pois ent\u00e3o pra ficar fregu\u00eas deixo por trinta contos<br \/>\npra voc\u00ea! Macuna\u00edma desabotoou as cal\u00e7as e por debaixo<br \/>\nda camisa tirou o cinto que carregava dinheiro. Por\u00e9m s\u00f3 tinha<br \/>\na letra de quarenta contos e seis fichas do Cassi no de Copacabana. Deu a<br \/>\nletra e teve vergonha de re ceber o troco. At\u00e9 inda deu as fichas de<br \/>\ninhapa e agra deceu a bondade do tequeteque.<\/p>\n<p>Nem bem o mascate sorvetera entre as sapupiras guarubas e parinais do mato<br \/>\nque j\u00e1 o micura quis fa zer necessidade outra feita. O her\u00f3i<br \/>\narrendondou o bol so aparando e a porcaria caiu toda ali. Ent\u00e3o Macuna\u00edma<br \/>\npercebeu o logro e abriu numa gritaria desgra\u00e7ada, caminho da pens\u00e3o.<br \/>\nVirando uma esquina encontrou o Jos\u00e9 Prequet\u00e9 e gritou pra ele:<br \/>\n\u2014 Z\u00e9 Prequet\u00e9, tira bicho do p\u00e9 pra comer com caf\u00e9!<br \/>\nJos\u00e9 Prequet\u00e9 ficou com \u00f3dio e insultou a m\u00e3e<br \/>\ndo her\u00f3i por\u00e9m este n\u00e3o fez caso n\u00e3o, deu uma<br \/>\ngrande gargalhada e foi seguindo. Mais adiante lembrou que ia indo pra casa<br \/>\nzangado e pegou na gritaria outra vez.<\/p>\n<p>Os manos inda n\u00e3o tinham voltado da maloca do Governo e a patroa<br \/>\nveio no quarto pra consolar Macuna\u00edma, brincaram. Depois de brincarem<br \/>\no her\u00f3i pe gou no choro. Quando os manos chegaram toda a gen te se<br \/>\nsarapantou porque eles tinham cinco metros de altura. N\u00e3o v\u00ea<br \/>\nque o Governo estava com mil vezes mil pintores j\u00e1 encaminhados pra<br \/>\nmandar na pens\u00e3o da Europa e Macuna\u00edma ser nomeado era mas s\u00f3<br \/>\nno dia de S\u00e3o Nunca. Ficava muito longe. O invento tinha favado e os<br \/>\nmanos ficaram compridos por causa do de saponto. Quando enxergaram o mano<br \/>\nchorando, se as sustaram bem e quiseram saber a causa. E como es queceram<br \/>\no desaponto voltaram pro tamanho de dan tes, Maanape j\u00e1 velhinho e<br \/>\nJigu\u00ea na for\u00e7a do homem.<\/p>\n<p>O her\u00f3i fazia: \u2014 Ihihih! tequeteque me embromou! Ihihih! Com<br \/>\nprei micura dele, quarenta contos me custou! Ent\u00e3o os irm\u00e3os<br \/>\nse descabelaram. Agora n\u00e3o era poss\u00edvel mais irem na Europa<br \/>\nn\u00e3o, porque possu\u00edam s\u00f3 a noite e o dia. Levaram na prantina<br \/>\nenquanto o he r\u00f3i esfregava o \u00f3leo de andiroba no corpo pr\u00f3s<br \/>\nmosqui tos n\u00e3o amolarem e adormecia bem.<\/p>\n<p>No outro dia amanhaceu fazendo um calor\u00e3o tem\u00ed vel e Macuna\u00edma<br \/>\nsuava que mais suava dum lado pra outro enraivecido com a injusti\u00e7a<br \/>\ndo Governo. Quis sair pra espairecer por\u00e9m aquela roupa tanta aumentando<br \/>\no calor&#8230; Teve mais raiva. Teve raiva por demais e maliciou que ia ficar<br \/>\ncom o butecaiana que \u00e9 doen\u00e7a da raiva. Ent\u00e3o exclamou:<br \/>\n\u2014 Ara! Ande eu quente, ria-se a gente! Tirou as cal\u00e7as pra refrescar<br \/>\ne pisou em cima. A raiva se acalmou no sufragante e at\u00e9 que muito satis<br \/>\nfeito Macuna\u00edma falou pr\u00f3s manos: \u2014 Paci\u00eancia, manos!<br \/>\nn\u00e3o! n\u00e3o vou na Europa n\u00e3o. Sou Americano e meu lugar<br \/>\n\u00e9 na Am\u00e9rica. A civiliza \u00e7\u00e3o europ\u00e9ia de<br \/>\ncerto esculhamba a inteireza do nosso car\u00e1ter.<\/p>\n<p>Durante uma semana os tr\u00eas vararam o Brasil to do pelas restingas<br \/>\nde areia marinha, pelas restingas de mato ralo, barrancas de paran\u00e3s,<br \/>\nabert\u00f5es, corredeiras carrascos carrasc\u00f5es e chavacais, coroas<br \/>\nde vazante bo queir\u00f5es mangas e fund\u00f5es que eram ninhos de geada,<br \/>\nespraiados pancadas pedrais funis bocainas barroqueiras e rasouras, todos<br \/>\nesses lugares, campeando nas ru\u00ed nas dos conventos e na base dos cruzeiros<br \/>\npra ver si n\u00e3o achavam alguma panela com dinheiro enterrado. N\u00e3o<br \/>\nacharam nada.<\/p>\n<p>\u2014 Paci\u00eancia, manos! Macuna\u00edma repetiu macamb\u00fazio.<br \/>\nJogamos no bicho! E foi na pra\u00e7a Ant\u00f4nio Prado meditar sobre<br \/>\na in justi\u00e7a dos homens. Ficou l\u00e1 encostado num pl\u00e1tano<br \/>\nmuito bem. Todos os comerciantes e aquele desprop\u00f3sito de m\u00e1quina<br \/>\npassavam rentinho do her\u00f3i grugunzando sobre a injusti\u00e7a dos<br \/>\nhomens. Macuna\u00edma j\u00e1 es tava disposto a mudar o d\u00edstico<br \/>\npra: &#8220;Pouca sa\u00fade e muitos pintores os males do Brasil s\u00e3o&#8221;<br \/>\nquando escutou um &#8220;Ihihih!&#8221; chorando atr\u00e1s. Virou e viu no<br \/>\nch\u00e3o um ticotico e um chupim.<\/p>\n<p>O ticotico era pequetitinho e o chupim era macota. O ticotiquinho ia dum<br \/>\nlado pra outro acompanhado sempre do chupinz\u00e3o chorando pro outro dar<br \/>\nde comer pra ele. Fazia raiva. O ticotiquinho imaginava que o chupinz\u00e3o<br \/>\nera filhote dele mas n\u00e3o era n\u00e3o. Ent\u00e3o voa va, arranjava<br \/>\num decum\u00ea por a\u00ed que botava no bico do chupinz\u00e3o. Chupinz\u00e3o<br \/>\nengolia e pegava na manha outra vez: &#8220;Ihihih! mam\u00e3e&#8230; telo decum\u00ea!&#8230;<br \/>\ntelo decum\u00ea!&#8230;&#8221; l\u00e1 na l\u00edngua dele. O ticotiquinho<br \/>\nficava azaranzado porque estava padecendo fome e aquele nhenhenh\u00e9n-nhenhenh\u00e9n<br \/>\nazucrinando ele, atr\u00e1s, diz-que &#8220;Telo decum\u00ea!&#8230; telo decum\u00ea!&#8230;&#8221;<br \/>\nn\u00e3o podia com o amor sofrendo. Largava de si, voava buscar um bichi<br \/>\nnho uma quirerinha, todos esses decum\u00eas, botava no bico do chupinz\u00e3o,<br \/>\nchupinz\u00e3o engolia e principiava atr\u00e1s do ticotiquinho outra<br \/>\nvez. Macuna\u00edma estava meditan do na injusti\u00e7a dos homens e teve<br \/>\num amargor imenso da injusti\u00e7a do chupinz\u00e3o. Era porque Macuna\u00edma<br \/>\nsa bia que de primeiro os passarinho foram gente feito n\u00f3s&#8230; Ent\u00e3o<br \/>\no her\u00f3i pegou num porrete e matou o ticotiquinho.<\/p>\n<p>Foi-se embora. Depois que andou l\u00e9gua e meia sen tiu calor e lembrou<br \/>\nde beber pinga pra refrescar. Tra zia sempre num bolso do palet\u00f3 uma<br \/>\ngarrafinha de pin ga presa ao pu\u00edto por uma corrente de prata. Desarrolhou<br \/>\ne chupitou de manso. Eis sin\u00e3o quando escutou atr\u00e1s um &#8220;Ihihih!&#8221;<br \/>\nchorando. Virou sarapantado. Era o chupinz\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ihihih! papai&#8230; telo decum\u00ea!&#8230; telo decu m\u00ea!&#8230; l\u00e1<br \/>\nna l\u00edngua dele.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma ficou com \u00f3dio. Abriu o bolso onde es tava guardado<br \/>\naquilo do micura e falou: \u2014 Pois coma ent\u00e3o! Chupinz\u00e3o<br \/>\npulou na beira do bolso e comeu tudo sem saber. Foi engordando engordando,<br \/>\nvirou num p\u00e1s saro preto bem grande e voou pr\u00f3s matos gritando<br \/>\n&#8220;Afinca! Afinca!&#8221;. \u00c9 o Pai do Vira.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma seguiu caminho. L\u00e9gua e meia adian te estava um<br \/>\nmacaco mono comendo coquinho bagua\u00e7u. Pegava no coquinho, botava no<br \/>\nv\u00e3o das pernas junto com uma pedra, apertava e juque! a fruta quebrava.<br \/>\nMacuna\u00edma veio e esgurejou com a boca cheia d&#8217;\u00e1gua. Falou: \u2014<br \/>\nBom-dia, meu tio, como lhe vai? \u2014 Assim assim, sobrinho.<\/p>\n<p>\u2014 Em casa todos bons? \u2014 Na mesma.<\/p>\n<p>E continuou mastigando. Macuna\u00edma ali, sapeando. O outro enquizilou<br \/>\nassanhado: \u2014 N\u00e3o me olhe de banda que n\u00e3o sou quitanda,<br \/>\nn\u00e3o me olhe de lado que n\u00e3o sou melado! \u2014 Mas o qu\u00ea<br \/>\nvoc\u00ea est\u00e1 fazendo a\u00ed, titio! O macaco mono soverteu o<br \/>\ncoquinho na m\u00e3o fe chada e secundou: \u2014 Estou quebrando os meus<br \/>\ntoaliqui\u00e7us pra comer.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1 mentir na praia! \u2014 Uai, sobrinho, si tu n\u00e3o<br \/>\nd\u00e1 cr\u00e9dito ent\u00e3o pra-qu\u00ea pergunta! Macuna\u00edma<br \/>\nestava com vontade de acreditar e in dagou: \u2014 \u00c9 gostoso \u00e9?<br \/>\nO mono estalou a l\u00edngua: \u2014 Chi! prove s\u00f3! Quebrou de escondido<br \/>\noutro coquinho, fingindo que era um dos toaliqui\u00e7us e deu pra Macuna\u00edma<br \/>\ncomer. Macuna\u00edma gostou bem.<\/p>\n<p>\u2014- \u00c9 bom mesmo, tio! Tem mais? \u2014 Agora se acabou mas<br \/>\nsi o meu era gostoso que far\u00e1 os vossos! Come eles, sobrinho! O her\u00f3i<br \/>\nteve medo: \u2014 N\u00e3o d\u00f3i n\u00e3o? \u2014 Qual, si at\u00e9<br \/>\n\u00e9 agrad\u00e1vel!&#8230;<\/p>\n<p>O her\u00f3i agarrou num paralelep\u00edpedo. O macaco mono rindo por<br \/>\ndentro inda falou pra ele: \u2014 Voc\u00ea tem mesmo coragem, sobrinho?<br \/>\n\u2014 Boni-t-\u00f3-t\u00f3 macaxeira comot\u00f3! o her\u00f3i<br \/>\nexcla mou empafioso. Firmou bem o paralelep\u00edpedo e juque! nos toaliqui\u00e7us.<br \/>\nCaiu morto. O macaco mono ca\u00e7oou assim: \u2014 Pois, meus cuidados,<br \/>\nn\u00e3o falei que tu morrias! Falei! N\u00e3o me escutas! Est\u00e1s<br \/>\nvendo o que sucede pr\u00f3s desobedientes. Agora: sic transit! Ent\u00e3o<br \/>\ncal\u00e7ou as luvas de balata e foi-se. Da\u00ed a pouco veio uma chuvarada<br \/>\nque refrescou a carne verde do her\u00f3i, impedindo a putrefa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nLogo se formou um poder de correi\u00e7\u00f5es de formigas guajuguajus<br \/>\ne muru-petecas pro corpo morto. O advogado Fulano atra\u00eddo pelas correi\u00e7\u00f5es<br \/>\ntopou com o defunto. Abaixou, tirou a carteira do cad\u00e1ver por\u00e9m<br \/>\ns\u00f3 tinha cart\u00e3o-de-visita. Ent\u00e3o resolveu levar o defunto<br \/>\npra pens\u00e3o, fez. Carre gou Macuna\u00edma nas costas e foi andando.<br \/>\nPor\u00e9m o de funto pesava por demais e o advogado viu que n\u00e3o<br \/>\npo dia com o peso. Ent\u00e3o arreou o cad\u00e1ver e deu uma coca de<br \/>\nvara nele. O defunto ficou levianinho e o advo gado Fulano p\u00f4de lev\u00e1-lo<br \/>\npra pens\u00e3o.<\/p>\n<p>Maanape chorou muito se atirando sobre o corpo do mano. Depois descobriu<br \/>\no esmagamento. Maanape era feiticeiro. Logo pediu de emprestado pra patroa<br \/>\ndois c\u00f4cos-da-Bahia, amarrou-os com n\u00f3-cego no lugar dos toaliqui\u00e7us<br \/>\namassados e assoprou fuma\u00e7a de ca chimbo no defunto her\u00f3i. Macuna\u00edma<br \/>\nfoi se erguendo muito desmerecido. Deram guaran\u00e1 pra ele e da\u00ed<br \/>\na pou co matava sozinho as formigas que inda o mordiam. Es tava tremendo muito<br \/>\nporque por causa da chuvarada a friagem batera de repente. Macuna\u00edma<br \/>\ntirou a garrafinha do bolso e bebeu o resto da pinga pra esquentar. Depois<br \/>\npediu uma centena pra Maanape e foi at\u00e9 um chal\u00e9 jogar no bicho.<br \/>\nDe-tarde quando viram, a cente na tinha dado mesmo. E assim eles viveram com<br \/>\nos pal pites do mano mais velho. Maanape era feiticeiro.<\/p>\n<h4><a name=\"13\"><\/a>XIII &#8211; A Piolhenta do Jigu\u00ea<\/h4>\n<p>No outro dia por causa da machucadura Macuna\u00edma amanheceu com uma<br \/>\ngrosseira pelo corpo todo. Fo ram ver e era a erisipa, doen\u00e7a comprida.<br \/>\nOs manos trataram dele bem e traziam diariamente pra casa to dos esses rem\u00e9dios<br \/>\npra erisipela que os vizinhos e co nhecidos, todos esses Brasileiros aconselhavam.<br \/>\nO he r\u00f3i passou uma semana de cama. De-noite sonhava sempre com embarca\u00e7\u00f5es<br \/>\ne a dona da pens\u00e3o quando vinha de-manh\u00e3 por amor de saber como<br \/>\nia o her\u00f3i dizia sempre que embarca\u00e7\u00e3o significava na<br \/>\ncerta viagem por mar. Depois sa\u00eda deixando sobre a cama do enfer mo<br \/>\no Estado de S\u00e3o Paulo. E o Estado de S\u00e3o Paulo era um jornal.<br \/>\nEnt\u00e3o Macuna\u00edma gastava o dia lendo todos esses an\u00fancios<br \/>\nde rem\u00e9dios pra erisipa. E eram muitos an\u00fancios! No fim da semana<br \/>\no her\u00f3i estava descascando bem e foi na cidade buscar sarna pra se<br \/>\ncocar. Andou ban zando banzando, e muito fatigado por causa da fraqueza parou<br \/>\nno parque do Anhangaba\u00fa. Chegara bem de baixo do monumento a Carlos<br \/>\nGomes que fora um m\u00fa sico muito c\u00e9lebre e agora era uma estrelinha<br \/>\ndo c\u00e9u. O ru\u00eddo da fonte murmurejando na tardinha dava pro her\u00f3i<br \/>\na visagem das \u00e1guas do mar. Macuna\u00edma sentou no parapeito da<br \/>\nfonte e assuntou os baguais marinhos de bronze chorando \u00e1gua. E l\u00e1<br \/>\nna escureza da gruta por detr\u00e1s da tropilha presenciou uma luz. Fixou<br \/>\nmais e distinguiu uma embarca\u00e7\u00e3o muito linda que vinha boiando<br \/>\nsobre as \u00e1guas. &#8220;\u00c9 uma vigilenga&#8221; murmurou. Por\u00e9m<br \/>\na nau vinha chegando cada vez maior. \u00c9 um gaiola&#8221; murmurou. Mas<br \/>\no gaiola vinha chegando t\u00e3o granto t\u00e3o! que o her\u00f3i deu<br \/>\num salto sarapantado e gritou na b\u00f4ca-da-noite ecoada &#8220;\u00c9<br \/>\num vaticano!&#8221; O navio j\u00e1 vinha bem vis\u00edvel por detr\u00e1s<br \/>\ndos baguais de bronze. Tinha o corte da velocidade no casco de prata e os<br \/>\nmastros inclinados pra tr\u00e1s estavam cheios de bandeiras que o vento<br \/>\nda correria imprensava entre as l\u00e2minas de ar. O grito chamara os choferes<br \/>\nda espla nada e todos curioseavam o gesto parado do her\u00f3i e se<\/p>\n<p>guiam o risco do olhar dele batendo na fonte escura.<\/p>\n<p>\u2014 Qu\u00ea foi, her\u00f3i? \u2014 Olha l\u00e1!&#8230; Olha o vaticano<br \/>\nmacota que vem vindo sobre as \u00e1guas imensas do mar! \u2014 Aonde!<br \/>\n\u2014 Por detr\u00e1s do cavalo de estibordo! Ent\u00e3o todos viram<br \/>\npor detr\u00e1s do cavalo de estibor do o navio chegando. J\u00e1 estava<br \/>\nbem perto e ia passar entre o cavalo e a parede de pedra, j\u00e1 estava<br \/>\nna boca da gruta. E era um navio gua\u00e7u.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 vaticano n\u00e3o! \u00e9 o transatl\u00e2ntico<br \/>\nfazendo viagem por mar! gritou um chofer japon\u00eas que j\u00e1 fi zera<br \/>\nmuita viagem por mar. E era um transatl\u00e2ntico enorme. Vinha iluminado,<br \/>\nrelampeava todo de ouro e prata embandeirado e festeiro. Os \u00f3culos<br \/>\ndas cabinas eram colares no casco e nos cinco deques empoleirados corria m\u00fasica<br \/>\nentre a gentana dan\u00e7ando mexida no cururu. A choferada comentava: \u2014<br \/>\n\u00c9 do L\u00f3ide! \u2014 N\u00e3o, \u00e9 da Hamburgo! \u2014<br \/>\nV\u00e1 saindo! tou percebendo! ent\u00e3o! \u00c9 il pir\u00f3scafo<br \/>\nConte Verde em vez! E era o pir\u00f3scafo Conte Verde sim. E era a M\u00e3e<br \/>\nD&#8217;\u00e1gua que vinha bancando pir\u00f3scafo pra atentar o her\u00f3i.<\/p>\n<p>\u2014 Gente! adeus, gente! Vou pra Europa que \u00e9 milhor! Vou em<br \/>\nbusca de Venceslau Pietro Pietra que \u00e9 o gigante Piaim\u00e3 comedor<br \/>\nde gente! que o her\u00f3i dis cursava.<\/p>\n<p>E toda a choferada abra\u00e7ava Macuna\u00edma se despe dindo. O vapor<br \/>\nestava ali e Macuna\u00edma j\u00e1 pulara no cais da fonte pra subir<br \/>\na escadinha do pir\u00f3scafo Conte Verde. Todos os tripulantes na frente<br \/>\nda m\u00fasica ace navam chamando Macuna\u00edma e eram marujos for\u00e7udos,<br \/>\neram Argentinos fin\u00edssimos e eram tantas donas lind\u00eds simas<br \/>\npra gente brincar at\u00e9 enjoar com os balangos das ondas.<\/p>\n<p>\u2014 Desce a escadinha, capit\u00e3o! que o her\u00f3i ex clamou.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o capit\u00e3o tirou o cocar e executou uma le tra no ar.<br \/>\nE todos, os marujos os Argentinos fin\u00edssimos e as cunhas lind\u00edssimas<br \/>\npra Macuna\u00edma brincar, todos esses tripulantes soltaram vaias macotas<br \/>\nca\u00e7oando do her\u00f3i enquanto o navio manobrando sem parar dava<br \/>\na popa pra terra e flechava de novo pro fundo da gruta. E todos aqueles tripulantes<br \/>\nviraram doentes com erisipa sempre ca\u00e7oando do her\u00f3i. E quando<br \/>\no pir\u00f3scafo atra vessou o estreito entre a parede da gruta e o bagual<br \/>\nde bombordo a chamin\u00e8zona guspiu uma fuma\u00e7ada de pernilongos,<br \/>\nde borrachudos mosquitos-p\u00f3lvora mutucas marimbondos cabas pot\u00f3s<br \/>\nm\u00f4sca-de-ura, todos es ses mosquitos afugentando os motoristas.<\/p>\n<p>O her\u00f3i sentado no rebordo da fonte penava todo mordido e com mais<br \/>\nerisipa, mais, todo erisipelado. Sentiu frio e veio febre. Ent\u00e3o espantou<br \/>\ncom um gesto os mosquitos e caminhou pra pens\u00e3o.<\/p>\n<p>No outro dia Jigu\u00ea entrou em casa com uma cunhat\u00e3, fez ela<br \/>\nengolir tr\u00eas bagos de chumbo pra n\u00e3o ter filhos e os dois dormiram<br \/>\nna rede. Jigu\u00ea tinha se amulherado. Ele era muito valente. Passava o<br \/>\ndia limpan do a espingarda e afiando a lamparina. A companheira de Jigu\u00ea<br \/>\ntodas as manh\u00e3s ia comprar macaxeira pr\u00f3s quatro comerem e se<br \/>\nchamava Suzi. Por\u00e9m Macuna\u00edma que era o namorado da companheira<br \/>\nde Jigu\u00ea, to dos os dias comprava uma lagosta pra ela, punha no fundo<br \/>\ndo jamachi e por cima esparramava a macaxeira pra ningu\u00e9m n\u00e3o<br \/>\nmaliciar. Suzi era bem feiticeira. Quando chegava em casa deixava a cesta<br \/>\nna saleta e ia dormir pra sonhar. Sonhando ela falava pra Jigu\u00ea: \u2014<br \/>\nJigu\u00ea, meu companheiro Jigu\u00ea, estou sonhando que tem lagosta por<br \/>\ndebaixo da macaxeira.<\/p>\n<p>Jigu\u00ea ia ver e tinha. Todos os dias era assim e Jigu\u00ea tendo<br \/>\namanhecido com dor-de-cotovelo descon fiou. Macuna\u00edma percebeu a dor<br \/>\ndo mano e fez uma mandinga pra ver si passava. Pegou numa cuia e de-noite<br \/>\ndeixou-a no terra\u00e7o, rezando manso:<\/p>\n<p>&#8220;\u00c1gua do c\u00e9u Vem nesta cuia, Paticl vem nesta \u00e1gua,<br \/>\nMopos\u00earu vem nesta \u00e1gua, Sivuo\u00edmo vem nesta \u00e1gua,<br \/>\nOmaispopo vem nesta \u00e1gua, Os Donos da \u00c1gua enxotem a dor-de-corno!<br \/>\nAracu, Mecumecuri, Pai que venham nesta \u00e1gua, E enxotem a dor-de-corno<br \/>\nsi o doente beber esta \u00e1gua Em que est\u00e3o encantados os Donos<br \/>\nda \u00c1gua!&#8221;<\/p>\n<p>Deu pra Jigu\u00ea beber no outro dia por\u00e9m n\u00e3o sur<\/p>\n<p>tiu efeito n\u00e3o e o mano andava muito desconfiado.<\/p>\n<p>Quando Suzi se vestia pra ir na feira, assobiava o foxtrote da moda pro<br \/>\nnamorado ir tamb\u00e9m. O na morado era Macuna\u00edma, ia. A companheira<br \/>\nde Jigu\u00ea sa\u00eda e Macuna\u00edma sa\u00eda atr\u00e1s. Andavam<br \/>\nbrincando por a\u00ed e quando chegava a hora da volta j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\ntinha macaxeira mais na feira. Pois ent\u00e3o Suzi disfar\u00e7ando ia<br \/>\natr\u00e1s da casa, sentava no jamachi e puxava uma por \u00e7\u00e3o<br \/>\nde macaxeira de dentro do maiss\u00f3. Todos comiam muito bem, s\u00f3<br \/>\nMaanape resmungava: \u2014 Caboclo de Taubat\u00e9, cavalo pangar\u00e9,<br \/>\nmulher que mija em p\u00e9, libera n\u00f3s Domin\u00e9! e empurrava<br \/>\na co mida.<\/p>\n<p>Maanape era feiticeiro. N\u00e3o queria saber daquela macaxeira n\u00e3o<br \/>\ne como andava curtindo fome passava o tempo mastigando ipadu pra enganar.<br \/>\nDe-noite quan do Jigu\u00ea queria pular na rede a companheira dele prin<br \/>\ncipiava gemendo, falando que estava empanzinada de tanto engolir caro\u00e7o<br \/>\nde pitomba. Era s\u00f3 pra Jigu\u00ea n\u00e3o brincar com ela. Jigu\u00ea<br \/>\nteve raiva.<\/p>\n<p>No outro dia ela foi na feira e assobiou o foxtrote da moda. Macuna\u00edma<br \/>\nsaiu atr\u00e1s. Jigu\u00ea era muito va lente. Pegou numa mirassanga enorme<br \/>\ne foi devagari nho atr\u00e1s deles. Procurou procurou e encontrou Suzi<br \/>\ncom Macuna\u00edma de, m\u00e3os dadas no Jardim da Luz. J\u00e1 estavam<br \/>\nse rindo um pro outro. Jigu\u00ea desceu a miras sanga nos dois, levou a<br \/>\ncompanheira pra pens\u00e3o e dei xou o mano fatigado na beira da lagoa<br \/>\nentre cisnes.<\/p>\n<p>Do outro dia em diante Jigu\u00ea \u00e9 que fazia as com pras deixando<br \/>\na companheira presa no quarto. Suzi sem quefazer passava o tempo contrariando<br \/>\na morali dade mas uma feita o santo Anchieta vindo ao mundo passou pela casa<br \/>\ndela e por piedade ensinou-a a catar piolhos. Suzi possu\u00eda uns cabelos<br \/>\nruivos \u00e0 la gar\u00e7onne e sustentava muitos piolhos, muitos! Agora<br \/>\nn\u00e3o so nhava mais que tinha lagostas por debaixo da macaxeira nem n\u00e3o<br \/>\nfazia imoralidades. Quando Jigu\u00ea par tia ela tirava os cabelos e espetando-os<br \/>\nno porrete do companheiro, catava piolhos. Mas tinha muitos piolhos, muitos!<br \/>\nEnt\u00e3o com medo que o companheiro apanhas se ela no trabalho, falou<br \/>\nassim: \u2014 Jigu\u00ea, meu companheiro Jigu\u00ea, quando voc\u00ea<br \/>\nvolta do mercado bate primeiro na porta, bate todos os dias uma por\u00e7\u00e3o<br \/>\nde tempo pra mim ficar contente e ir cozinhar a macaxeira.<\/p>\n<p>Jigu\u00ea falou que sim. Todos os dias ia no mercado comprar macaxeira<br \/>\ne quando voltava batia demorado na porta. Ent\u00e3o a cunha botava os cabelos<br \/>\nna cabe\u00e7a e ficava esperando Jigu\u00ea.<\/p>\n<p>\u2014 Suzi, minha companheira Suzi, bati uma por \u00e7\u00e3o de<br \/>\nvezes na porta, ser\u00e1 que voc\u00ea alegrou? \u2014 Muito! ela fez.<br \/>\nE foi cozinhar a macaxeira.<\/p>\n<p>E todos os dias eram assim. Mas tinha muitos pio lhos, muitos! \u00c9<br \/>\nque ela contava os catados um por um e por isso os piolhos aumentavam. Uma<br \/>\nfeita Jigu\u00ea matutou no que ficava fazendo a companheira quando ele ia<br \/>\nno mercado e teve vontade de assust\u00e1-la, fez. Vi rou de pernas pro<br \/>\nar e veio andando nas pontas das m\u00e3os. Abriu a porta e assustou Suzi.<br \/>\nIsso ela gritou botando afobada a cabeleira na cabe\u00e7a. E os cabelos<br \/>\nda testa ficaram no cangote e os cabelos do cangote fi caram na testa escorrendo.<br \/>\nJigu\u00ea xingou Suzi de porca e deu nela at\u00e9 escutar algu\u00e9m<br \/>\nsubindo a escada. Era Chico vindo de baixo. Ent\u00e3o Jigu\u00ea parou<br \/>\ne foi afiar a bicuda.<\/p>\n<p>No outro dia Macuna\u00edma estava outra vez com von tade de brincar com<br \/>\na companheira de Jigu\u00ea. Falou pr\u00f3s manos que ia numa ca\u00e7ada<br \/>\nlonge por\u00e9m n\u00e3o foi n\u00e3o. Comprou duas garrafas de licor<br \/>\nde buti\u00e1 catarinense uma d\u00fazia de sandu\u00edches dois abacaxis<br \/>\nde Pernambuco e se amoitou no quartinho. Passado tempo saiu de l\u00e1 e<br \/>\nfalou pra Jigu\u00ea, mostrando o embrulho: \u2014 Mano Jigu\u00ea, no<br \/>\nfim de muitas ruas, voc\u00ea indo, tem uma fruteira trilhada. Vi um poder<br \/>\nde ca\u00e7a, v\u00e1 ver! O mano espiou desconfiado pra ele por\u00e9m<br \/>\nMa cuna\u00edma disfar\u00e7ou bem: \u2014 Olhe, tem paca tatu cotia&#8230;<br \/>\nMinto, cotia n\u00e3o enxerguei nenhuma. Paca tatu, cotia n\u00e3o.<\/p>\n<p>Jigu\u00ea emprenhava pelas oi\u00e7as mesmo, foi logo pe gando na espingarda<br \/>\ne falou: \u2014 Ent\u00e3o vou por\u00e9m mano jura primeiro que n\u00e3o<br \/>\nbrinca com minha obriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma jurou pela mem\u00f3ria da m\u00e3e que nem olhava<br \/>\npra Suzi. Ent\u00e3o Jigu\u00ea tornou a pegar na espingarda-p\u00e1<br \/>\ne na faca de ponta-t\u00e1 tatat\u00e1 e partiu. Ma cuna\u00edma nem<br \/>\nbem Jigu\u00ea virou a esquina ajudou Suzi abrindo os embrulhos e botando<br \/>\numa toalha da renda famosa chamada &#8220;Ninho de Abelha&#8221; cujo papel\u00e3o<br \/>\nfora roubado em Muri\u00fa do Cear\u00e1-Mirim pela danada Geracina da<br \/>\nPonta do Mangue. Quando tudo ficou pronto os dois pularam na rede e brincaram.<br \/>\nAgora est\u00e3o se rindo um pro outro. Depois de rirem bastante, Ma cuna\u00edma<br \/>\nfalou: \u2014 Desarrolha uma garrafa pra gente beber.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, ela fez. E beberam a primeira garrafa de licor de buti\u00e1<br \/>\nque era muito gostoso. Os dois estala ram a l\u00edngua e pularam na rede<br \/>\noutra vez. Brincaram quanto quiseram. Agora est\u00e3o se rindo um pro outro.<\/p>\n<p>Jigu\u00ea andou l\u00e9gua e meia, foi at\u00e9 no fim das ruas, campeou<br \/>\na fruteira uns pares de vezes, muito tempo, jacar\u00e9 achou? nem ele!<br \/>\nN\u00e3o tinha fruteira nenhuma e Jigu\u00ea voltou campeando sempre por<br \/>\ntodos os fins das ruas. Afinal chegou subiu no quarto e encontrou mano Macuna\u00edma<br \/>\ncom a Suzi j\u00e1 rindo. Jigu\u00ea teve raiva e deu uma coca na companheira.<br \/>\nAgora ela est\u00e1 chorando. Jigu\u00ea agarrou o her\u00f3i e chegou<br \/>\no porrete com vontade nele. Deu que mais deu at\u00e9 Manuel chegar. Manuel<br \/>\nera o criado da pens\u00e3o, um ilh\u00e9u. Agora o her\u00f3i est\u00e1<br \/>\nfatigado. E Jigu\u00ea que vinha padecendo de fome. ent\u00e3o comeu as<br \/>\nsandu\u00edches os abacaxis e bebeu o licor de buti\u00e1.<\/p>\n<p>Os dois sovados passaram a noite se lastimando. No outro dia Jigu\u00ea<br \/>\nenfarado pegou na sarabatana e saiu pra ver si encontrava \u00e0 tal de<br \/>\nfruteira. Jigu\u00ea era muito bobo. Suzi viu ele sair, enxugou os olhos<br \/>\ne falou pro namorado: \u2014 Choremos n\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Macuna\u00edma desamarrou a cara e se arran jou pra ir falar<br \/>\ncom mano Maanape. Jigu\u00ea de volta na pens\u00e3o perguntou pra Suzi:<br \/>\n\u2014 Onde anda o her\u00f3i? Por\u00e9m ela estava zangad\u00edssima<br \/>\ne principiou asso biando. Ent\u00e3o Jigu\u00ea agarrou no porrete, se<br \/>\nchegou pra companheira e disse muito triste: \u2014 Vai embora, perdi\u00e7\u00e3o!<br \/>\nDa\u00ed ela sorriu feliz. Catou sem contar todos os pio lhos que restavam<br \/>\ne eram muitos piolhos, atrelou-os a uma cadeira-de-balan\u00e7o, sentou<br \/>\nnela, os piolhos pu laram e Suzi foi pro c\u00e9u virada na estrela que<br \/>\npula. \u00c9 uma zela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O her\u00f3i nem bem viu Maanape de longe pegou se lastimando. Se atirou<br \/>\nnos bra\u00e7os do mano e contou uma hist\u00f3ria bem triste provando<br \/>\nque Jigu\u00ea n\u00e3o tinha raz\u00e3o nenhuma pra sov\u00e1-lo tanto.<br \/>\nMaanape ficou zan gado e foi falar com Jigu\u00ea. Mas Jigu\u00ea tamb\u00e9m<br \/>\nj\u00e1 vinha pra falar com Maanape. Se encontraram no corredor. Maanape<br \/>\ncontou pra Jigu\u00ea e Jigu\u00ea contou pra Maanape. Ent\u00e3o eles<br \/>\nverificaram que Macuna\u00edma era muito safa do e sem car\u00e1ter. Voltaram<br \/>\npro quarto de Maanape e toparam com o her\u00f3i se lastimando. Pra consolar<br \/>\nle varam ele passear na m\u00e1quina autom\u00f3vel.<\/p>\n<h4><a name=\"14\"><\/a>XIV &#8211; Muiraquit\u00e3<\/h4>\n<p>No outro dia de manh\u00e3 nem bem Macuna\u00edma abriu a janela, enxergou<br \/>\num passarinho verde. O her\u00f3i ficou satisfeit\u00edssimo e inda estava<br \/>\nficando satisfeito quando Maanape entrou no quarto contando que as m\u00e1quinas<br \/>\njornais anunciavam a volta de Venceslau Pietro Pietra. Ent\u00e3o Macuna\u00edma<br \/>\nresolveu n\u00e3o ter mais contempla\u00e7\u00e3o com o gigante e mat\u00e1-lo.<br \/>\nSaiu da cidade e foi no mato Fulano experimentar for\u00e7a. Campeou l\u00e9gua<br \/>\ne meia e afinal topou com uma peroba com a sapopemba do ta manho dum bonde.<br \/>\n&#8220;Esta serve&#8221; ele fez. Enfiou o bra \u00e7o na sapopemba, deu arranco<br \/>\ne o pau saiu da terra n\u00e3o deixando nem sinal. &#8220;Agora sim que tenho<br \/>\nfor\u00e7a!&#8221; Macuna\u00edma exclamou. Tornou a ficar satisfeito e<br \/>\nvol tou pra cidade. Por\u00e9m n\u00e3o podia nem andar porque estava<br \/>\ncheio de carrapatos. Macuna\u00edma com muita pa chorra falou pra eles:<br \/>\n\u2014 Ara, carrapatos! v\u00e3o embora, pessoal. N\u00e3o de vo nada<br \/>\npra voc\u00eas n\u00e3o! Ent\u00e3o a carrapatada caiu no ch\u00e3o<br \/>\npor encanto e foi-se embora. Carrapato j\u00e1 foi gente que nem n\u00f3s&#8230;<br \/>\nUma feita botou uma vendinha na beira da estrada e fazia muitos neg\u00f3cios<br \/>\nporque n\u00e3o se incomodava de vender fiado. Tanto fiou tanto fiou, tanto<br \/>\nBrasileiro n\u00e3o pagou que afinal carrapato quebrou e foi posto pra fora<br \/>\nda vendinha. Ele agarra tanto na gente por<\/p>\n<p>que est\u00e1 cobrando as contas.<\/p>\n<p>Quando Macuna\u00edma chegou na cidade j\u00e1 era noite fechada e ele<br \/>\nfoi logo tocaiar a casa do gigante. Tinha neblina sobre o mundo e a casa estava<br \/>\nsem ningu\u00e9m de tanta que era a escureza. Macuna\u00edma se lembrou<br \/>\nde procurar uma criada pra brincar mas tinha estacionamento das m\u00e1quinas<br \/>\nt\u00e1xis na esquina e as cunhas j\u00e1 estavam brincado por a\u00ed.<br \/>\nMacuna\u00edma se lembrou de armar arapuca pr\u00f3s curi\u00f3s mas<br \/>\nfaltava isca. N\u00e3o havia que fazer e sentiu sono. Por\u00e9m dormir<br \/>\nn\u00e3o que ria n\u00e3o porque estava esperando Venceslau Pietro Pietra.<br \/>\nImaginou: &#8220;Agora vou vigiar e quando Sono vier enforco ele&#8221;. N\u00e3o<br \/>\ndemorou muito viu um vulto chegan do. Era Emoron-P\u00f3dole, o Pai do Sono.<br \/>\nMacuna\u00edma fi cou muito parado entre os ninhos de cupim pra n\u00e3o<br \/>\nespantar o Pai do Sono e poder mat\u00e1-lo. Emoron-P\u00f3 dole veio<br \/>\nvindo veio vindo e quando j\u00e1 estava pertinho, o her\u00f3i cochilou,<br \/>\nbateu com o queixo no peito, mordeu a l\u00edngua e gritou: \u2014 Que<br \/>\nsusto! O Sono fugiu logo. Macuna\u00edma seguiu andando muito desapontado.<br \/>\n&#8220;Ora veja s\u00f3! n\u00e3o peguei mas qua se&#8230; Vou esperar outra<br \/>\nvez e macacos me lambam si agora n\u00e3o pego o Pai do Sono e enforco ele!&#8221;<br \/>\nAssim que o her\u00f3i refletiu. Tinha um corgo perto com um pau ca\u00eddo<br \/>\npor cima servindo de pinguela. Mais pra lon ge uma lagoa branquejava de luar<br \/>\nporque a neblina j\u00e1 tinha ido-se embora. A vista era quieta e muito<br \/>\nsuave por causa da ag\u00fcinha cantando o acalanto dos pobres. O Pai do Sono<br \/>\ndevia de estar amoitado por ali. Ma cuna\u00edma cruzou os bra\u00e7os<br \/>\ne com o olho esquerdo dor mindo ficou im\u00f3vel entre os ninhos de cupim.<br \/>\nN\u00e3o de morou muito enxergou Emoron-P\u00f3dole chegando. O Pai do<br \/>\nSono veio vindo veio vindo e de repente parou. Macuna\u00edma ouviu que<br \/>\nele falava: \u2014 Aquele sujeito n\u00e3o t\u00e1 morto n\u00e3o.<br \/>\nMorto que n\u00e3o arrota onde se viu! Ent\u00e3o o her\u00f3i arrotou<br \/>\n&#8220;juque!&#8221; \u2014 Onde se viu morto arrotar, gentes! o Sono ca \u00e7oou<br \/>\ne fugiu logo.<\/p>\n<p>Por isso que o Pai do Sono inda existe e os homens por castigo n\u00e3o<br \/>\npodem dormir em p\u00e9.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma ia ficar desapontado com o sucedido quando escutou uma<br \/>\nbulha e enxergou do outro lado do corgo um chofer gesticulando feito chamado.<br \/>\nFicou muito sarapantado e gritou tiririca: \u2014 Isso \u00e9 comigo, colega!<br \/>\nSou francesa n\u00e3o! \u2014 Sai azar! o rapaz fez.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Macuna\u00edma p\u00f4s reparo numa criadinha com um vestido<br \/>\nde linho amarelo pintado com extrato de tatajuba. Ela j\u00e1 ia atravessando<br \/>\no corgo pelo pau. De pois dela passar o her\u00f3i gritou pra pingela: \u2014<br \/>\nViu alguma coisa, pau? \u2014 Vi a gra\u00e7a dela! \u2014 Qu\u00e1!<br \/>\nqu\u00e1! qu\u00e1 quaqu\u00e1!&#8230;<\/p>\n<p>Macuna\u00edma deu uma grande gargalhada. Ent\u00e3o seguiu atr\u00e1s<br \/>\ndo par. Eles j\u00e1 tinham brincado e descan savam na beira da lagoa. A<br \/>\nmo\u00e7a estava sentada na borda duma igarit\u00e9 encalhada na praia.<br \/>\nToda nua inda do banho comia tambi\u00fas vivos, se rindo pro rapaz. Ele<br \/>\ndeitara de bru\u00e7os na \u00e1gua rente do p\u00e9s da mo\u00e7a<br \/>\ne ti rava os lambarizinhos da lagoa pra ela comer. A crilada das ondas amontava<br \/>\nnas costas dele por\u00e9m escor regando no corpo nu molhado ca\u00eda<br \/>\nde novo na lagoa com risadinhas de pingos. A mo\u00e7a batia com os p\u00e9s<br \/>\nn&#8217;\u00e1gua e era feito um repuxo roubado da Luna espirrando jeitoso, cegando<br \/>\no rapaz. Ent\u00e3o ele enfiava a cabe\u00e7a na lagoa e trazia a boca<br \/>\ncheia de \u00e1gua. A mo\u00e7a apertava com os p\u00e9s as bochechas<br \/>\ndele e recebia o jato em cheio na barriga, assim. A brisa fiava a cabeleira<br \/>\nda mo\u00e7a esticando de um em um os fios lisos na cara dela. O mo \u00e7o<br \/>\np\u00f4s reparo nisso. Firmando o queixo no joelho da companheira ergueu<br \/>\no busto da \u00e1gua, estirou o bra\u00e7o pro alto e principiou tirando<br \/>\nos cabelos da cara da mo\u00e7a pra que ela pudesse comer sossegada os tami\u00fas.<br \/>\nEnt\u00e3o pra agradecer ela enfiou tr\u00eas lambarizinhos na boca dele<br \/>\ne rindo muito fastou o joelho depressa. O busto do rapaz n\u00e3o teve apoio<br \/>\nmais e ele no sufragante focinhou n&#8217;\u00e1gua at\u00e9 o fundo, a mo\u00e7a<br \/>\ninda for\u00e7ando o pes co\u00e7o dele com os p\u00e9s. Ela ia escorregando<br \/>\nsem perce ber de tanta gra\u00e7a que achava na vida. Ia escorregan do e<br \/>\nafinai a canoa virou. Pois deixai ela virar! A mo\u00e7a levou,um tombo<br \/>\nengra\u00e7ado por cima do rapaz e ele enrolou-se nela talqualmente um apuizeiro<br \/>\ncari nhoso. Todos os tami\u00fas fugiram enquanto os dois brincavam n&#8217;\u00e1gua<br \/>\noutra vez.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma chegava. Sentou no .fundo da igarit\u00e9 virada, esperando.<br \/>\nQuando viu que eles tinham acaba do de brincar, falou pro chofer: \u2014<br \/>\nFaz tr\u00eas dias que n\u00e3o como, Semana que n\u00e3o escarro, Ad\u00e3o<br \/>\nfoi feito de barro, Sobrinho, me d\u00e1 um cigarro.<\/p>\n<p>O chofer secundou:<\/p>\n<p>\u2014 Me desculpe, meu parente, Si cigarro n\u00e3o lhe dou; A palha<br \/>\no fosfre e o goiano Caiu n&#8217;\u00e1gua, se molhou.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se incomode que eu tenho, respondeu Ma cuna\u00edma.<br \/>\nTirou uma cigarreira de tartaruga feita por Ant\u00f4nio do Ros\u00e1rio<br \/>\nno Par\u00e1, ofereceu cigarros de pa lha de tauari pro mo\u00e7o e pra<br \/>\ncriadinha, acendeu um f\u00f3sforo pr\u00f3s dois e outro pra ele. Depois<br \/>\nafastou os mosquitos e principiou contando um caso. Assim a noi te passava<br \/>\ndepressa e a gente n\u00e3o se amolava com o canto da sururina marcando<br \/>\nas horas da escurid\u00e3o. E era assim; \u2014 No tempo de dantes, mo\u00e7os,<br \/>\no autom\u00f3vel n\u00e3o era uma m\u00e1quina que nem hoje n\u00e3o,<br \/>\nera a on\u00e7a parda. Se chamava Palau\u00e1 e parava no grande mato<br \/>\nFulano. Vai, Palau\u00e1 falou pr\u00f3s olhos dela: \u2014 V\u00e3o<br \/>\nna praia do mar, meus verdes olhos, de pressa depressa depressa! Os olhos<br \/>\nforam e a on\u00e7a parda ficou cega. Por\u00e9m levantou o focinho, fez<br \/>\nele cheirar o vento e percebeu que Aimal\u00e1-P\u00f3dole, o Pai da Tra\u00edra<br \/>\nestava andando l\u00e1 no longe do mar e gritou: \u2014 Venham da praia<br \/>\ndo mar, meus verdes olhos, depressa depressa depressa! Os olhos vieram e Palau\u00e1<br \/>\nficou enxergando outra vez. Passava por ali a tigre preta que era muito feroz<br \/>\ne falou pra Palau\u00e1: \u2014 O que voc\u00ea est\u00e1 fazendo, comadre!<\/p>\n<p>\u2014 Estou mandando meus olhos olharem o mar.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 bom? \u2014 Pr\u00f3s cachorros! \u2014 Ent\u00e3o<br \/>\nmanda os meus tamb\u00e9m, comadre! \u2014 Mando n\u00e3o porque Aimal\u00e1-P\u00f3dole<br \/>\nest\u00e1 na praia do mar.<\/p>\n<p>\u2014 Manda que sin\u00e3o te engulo, comadre! Ent\u00e3o Palau\u00e1<br \/>\nfalou assim: \u2014 V\u00e3o na praia do mar, amarelos olhos de minha comadre<br \/>\ntigre, depressa depressa depressa! Os olhos foram e a tigre preta ficou cega.<br \/>\nAimal\u00e1-P\u00f3dole estava l\u00e1 e juque! engoliu os olhos da<br \/>\ntigre. Palau\u00e1 maliciou tudo porque o Pai da Tra\u00edra estava cheirando<br \/>\nmui forte. Foi tratando de se raspar. Por\u00e9m a tigre preta que era mui<br \/>\nferoz presenciou a fugida e falou pra on\u00e7a parda: \u2014 Espera um<br \/>\npouco, comadre! \u2014 N\u00e3o v\u00ea que care\u00e7o de buscar janta<br \/>\npra meus fi lhos, comadre. Ent\u00e3o at\u00e9 outro dia.<\/p>\n<p>\u2014 Primeiro manda meus olhos voltarem, comadre, que j\u00e1 tomei<br \/>\num fart\u00e3o de escureza.<\/p>\n<p>Palau\u00e1 gritou: \u2014 Venham da praia do mar, amarelos olhos de<br \/>\nminha comadre tigre, depressa depressa depressa! Por\u00e9m os olhos n\u00e3o<br \/>\nvoltaram n\u00e3o e a tigre preta ficou feito f\u00faria.<\/p>\n<p>\u2014 Agora que te engulo, comadre! E correu atr\u00e1s da on\u00e7a<br \/>\nparda. Foi uma chispada m\u00e3e por esses matos que chii! os passarinhos<br \/>\nse tor naram pequetitinhos pequetitinhos de medo e a noite levou um susto<br \/>\ntamanho que ficou paral\u00edtica. Por isso que quando faz dia em riba das<br \/>\n\u00e1rvores, dentro do ma to \u00e9 sempre noite. A coitada n\u00e3o<br \/>\npode mais andar&#8230;<\/p>\n<p>Quando Palau\u00e1 correu l\u00e9gua e meia olhou pra tr\u00e1s fatigada.<br \/>\nA tigre preta vinha perto. Vai, Palau\u00e1 che gou num morro chamado Ibira\u00e7oiaba<br \/>\ne topou com um bigorna gigante, aquela uma que pertencia \u00e0 fundi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Afonso Sardinha no princ\u00edpio da vida brasileira. Junto da bigorna<br \/>\nestavam quatro rodas esquecidas. En t\u00e3o Palau\u00e1 amarrou elas<br \/>\nnos p\u00e9s pra poder deslizar sem muito esfor\u00e7o e, como se diz:<br \/>\ndesatou o punho da rede outra vez, uma chispada m\u00e3e! A on\u00e7a<br \/>\nengoliu num \u00e1timo l\u00e9gua e meia de terreno por\u00e9m isso<br \/>\nvinha que vi nha acochada pela tigre. Faziam um barulh\u00e3o tama nho que<br \/>\nos passarinhos estavam pequetitinhos pequeti tinhos de medo e a noite mais<br \/>\npesada por causa que n\u00e3o podia andar. E a bulha inda era assombrada<br \/>\npelos gemidos do noitib\u00f3&#8230; Noitib\u00f3 \u00e9 Pai da Noite, mo\u00e7os,<br \/>\ne chorava a mis\u00e9ria da filha.<\/p>\n<p>Bateu fome em Palau\u00e1. A tigre na cola dela. Mas Palau\u00e1 nem<br \/>\nn\u00e3o podia mais correr assim com o est\u00f4ma go nas costas, vai\u00bb<br \/>\nem de mais longe quando passou pela barra do Boipeba onde o cuisarruim morou,<br \/>\nviu um mo tor perto e engoliu o tal. Nem bem motor caiu na barriga da on\u00e7a<br \/>\nque a pobre criou for\u00e7a nova e chispou. Fez l\u00e9gua e meia e olhou<br \/>\npra tr\u00e1s. Isso a tigre preta vinha feita pra cima dela. Estava uma<br \/>\nescureza que s\u00f3 vendo por causa da malinconia da noite e bem na frente<br \/>\ndum feixo a on\u00e7a deu uma trombada tem\u00edvel no derrame dum morrete,<br \/>\nque por um triz, era uma vez Palau\u00e1! Vai, ela abocanhou dois vagalum\u00f5es<br \/>\ne seguiu com eles nos dentes pra alumiar caminho. Nem bem fez outra l\u00e9gua<br \/>\ne meia olhou pra tr\u00e1s. A tigre junto. Era por causa que a on\u00e7a<br \/>\nparda cheirava muito e a peste da cega tinha faro de perdigueiro. Vai, Palau\u00e1<br \/>\ningeriu um purgante de \u00f3leo de mamona, pegou numa lata da ess\u00eancia<br \/>\nchamada gasolina, despejou no x e l\u00e1 foi fuomfuom! fuom! que nem burro<br \/>\npeidorreiro por a\u00ed. A bulha foi tamanha que nem se escutou o tinido<br \/>\nas sombrado dos pratos partidos do morro do Assobio ali. A tigre preta ficou<br \/>\ntoda atrapalhada por causa que era cega e n\u00e3o cheirava mais a catinga<br \/>\nda comadre. Palau\u00e1 correu mais muito e olhou pra tr\u00e1s. N\u00e3o<br \/>\nenxergou a tigre. Tamb\u00e9m nem n\u00e3o podia mais correr com as fu\u00e7as<br \/>\nfumegando de quentura. Tinha ali perto um bana nal macota com um pau\u00ea<br \/>\nna faixa porque Palau\u00e1 j\u00e1 tinha chegado no porto de Santos.<br \/>\nVai, a bicha der ramou \u00e1gua cansada no focinho e desesquentou. De pois<br \/>\ncortou uma folha a\u00e7u de banana-figo e se escon deu botando ela por<br \/>\nriba feito capote. Dormiu assim. A tigre preta que era muito feroz at\u00e9<br \/>\npassou por ali, on\u00e7a nem pio. E a outra passou n\u00e3o presenciando<br \/>\na comadre. Ent\u00e3o de medo a on\u00e7a nunca mais que lar gou de tudo<br \/>\no que tinha ajudado ela fugir. Anda sem pre com roda nos p\u00e9s, motor<br \/>\nna barriga, purgante de \u00f3leo na garganta, \u00e1gua nas fu\u00e7a?,<br \/>\ngasolina no osso-de-Pai-Jo\u00e3o, os dois vaga-lumes na boca e o capote<br \/>\nde fo lha de banana-figo cobrindo, ai ai! prontinha pra chispar. Principalmente<br \/>\nsi pisa nalguma correi\u00e7\u00e3o da for miga chamada taxi e alguma<br \/>\ntrepando no pelame luzido morde a orelha dela, qual! chispa que nem Deus!<br \/>\nE inda tomou nome estranho pra disfar\u00e7ar mais. \u00c9 a m\u00e1quina<br \/>\nautom\u00f3vel.<\/p>\n<p>Mas por causa que bebeu \u00e1gua cansada Palau\u00e1 te ve estupor.<br \/>\nPossuir autom\u00f3vel de seu \u00e9 ter estupor em casa, mo\u00e7os.&#8217;<br \/>\nDizem que mais tarde a on\u00e7a pariu uma ninhada enorme. Teve filhos e<br \/>\nfilhas. Uns machos outros f\u00eameas. Por isso que a gente fala &#8220;um<br \/>\nforde&#8221; e fala &#8220;uma chevrol\u00e9&#8221;&#8230;<\/p>\n<p>Tem mais n\u00e3o.&#8221; Macuna\u00edma parou. Chorava como\u00e7\u00e3o<br \/>\npela boca dos mo\u00e7os. Sobre as \u00e1guas a fresca boiava de barriga<br \/>\npro ar. O rapaz mergulhou \u00e1 cabe\u00e7a pra disfar\u00e7ar a l\u00e1<br \/>\ngrima e trouxe um tabi\u00fa nos dentes rabejando danadinho. Repartiu a<br \/>\ncomida com a mo\u00e7a. Ent\u00e3o l\u00e1 na porta da casa uma on\u00e7a<br \/>\nf\u00edate abriu a goela e urrou pra Lua: \u2014 Ba\u00faa, Ba\u00faa!<br \/>\nSe escutou uma bulha formid\u00e1vel e tomou conta do ar um pitium sufocado.<br \/>\nEra Venceslau Pietro Pietra que chegava. O motorista se ergueu logo e a criada<br \/>\ntamb\u00e9m. Estenderam a m\u00e3o pra Macuna\u00edma, convi dando:<br \/>\n\u2014 Seu gigante chegou de viagem, vamos todos saber como est\u00e1?<br \/>\nFizeram. Encontraram Venceslau Pietro Pietra na porta-da-rua conversando com<br \/>\nrep\u00f3rter. O gigante rio pr\u00f3s tr\u00eas e falou pro motorista:<br \/>\n\u2014 Vamos l\u00e1 dentro? \u2014 Pois n\u00e3o! Piaim\u00e3 possu\u00eda<br \/>\norelhas furadas por causa dos brin cos. Enfiou uma perna do rapaz na orelha<br \/>\ndireita, a outra na esquerda e foi carregando o mo\u00e7o nas costas. Atravessaram<br \/>\no parque e entraram na casa. Bem no meio do hol de acapu mobiliado com sof\u00e1s<br \/>\nde cip\u00f3-titica feitos por um judeu alem\u00e3o de Manaus, se via<br \/>\num buraco enorme tendo por cima um cip\u00f3 de japecanga feito ba lan\u00e7o.<br \/>\nPiaim\u00e3 sentou o mo\u00e7o no cip\u00f3 e perguntou pra ele si queria<br \/>\nbalan\u00e7ar um bocado. O mo\u00e7o fez que sim. Piaim\u00e3 balan\u00e7ou<br \/>\nbalan\u00e7ou, de repente deu um arranco. Japecanga tem espinho&#8230; Os espinhos<br \/>\nentraram na carne do chofer e principiou escorrendo sangue no buraco.<\/p>\n<p>\u2014 Chega! j\u00e1 estou satisfeito! que o chofer gritava.<\/p>\n<p>\u2014 Balan\u00e7a que vos digo! secundava Piaim\u00e3.<\/p>\n<p>Sangue escorrendo. A caapora companheira do gi gante estava l\u00e1 em<br \/>\nbaixo do buraco e o sangue pingava numa tachada de macarr\u00e3o que ela<br \/>\npreparava pro com panheiro. O rapaz gemia no balan\u00e7o: \u2014 Ah, si<br \/>\neu possu\u00edsse meu pai e minha m\u00e3e a meu lado n\u00e3o estava<br \/>\npadecendo nas m\u00e3os deste malvado!&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Piaim\u00e3 deu um arranco muito forte no cip\u00f3 e o<br \/>\nrapaz caiu no molho da macarronada.<\/p>\n<p>Venceslau Pietro Pietra foi buscar Macuna\u00edma. O her\u00f3i j\u00e1<br \/>\nestava se rindo com a criadinha. O gigante fa lou pra ele: \u2014 Vamos l\u00e1<br \/>\ndentro? Macuna\u00edma estendeu os bra\u00e7os sussurrando: \u2014 Ai!&#8230;<br \/>\nque pregui\u00e7a!.. .<\/p>\n<p>\u2014 Ora vamos!&#8230; Vamos? \u2014 Pois sim&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Piaim\u00e3 fez pra ele como fizera pro chofer, carregou<br \/>\no her\u00f3i nas costas de cabe\u00e7a pra baixo pren didos os p\u00e9s<br \/>\nnos buracos das orelhas. Macuna\u00edma apru mou a sarabatana e assim de<br \/>\ncabe\u00e7a pra baixo era ver um atirador malabarista de circo, acertando<br \/>\nnos ovinhos do alvo. O gigante ficou muito incomodado virou e percebeu tudo.<\/p>\n<p>\u2014 Faz isso n\u00e3o, patr\u00edcio! Tomou a sarabatana e jogou<br \/>\nlonge, Macuna\u00edma agarrava quanto ramo ca\u00eda na m\u00e3o dele.<\/p>\n<p>\u2014 Que voc\u00ea est\u00e1 fazendo? perguntou o gigante ressabiado.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o v\u00ea que os ramos est\u00e3o batendo na minha cara!<br \/>\nPiaim\u00e3 virou o her\u00f3i de cabe\u00e7a pra cima. Ent\u00e3o<br \/>\nMacuna\u00edma fez c\u00f3cegas com os ramos nas orelhas do gigante. Piaim\u00e3<br \/>\ndava grandes gargalhadas e pulava de gozo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o amola mais, patr\u00edcio! ele fez. Chegaram no hol.<br \/>\nPor debaixo da escada tinha uma gaiola de ouro com passarinhos cantadores.<br \/>\nE os passarinhos do gigante eram cobras e lagartos. Ma cuna\u00edma pulou<br \/>\nna gaiola e principiou muito disfar\u00e7ado comendo cobra. Piaim\u00e3<br \/>\nconvidava-o pra vir no balan\u00e7o por\u00e9m Macuna\u00edma engolia<br \/>\ncobras contando: \u2014 Falta cinco&#8230;<\/p>\n<p>E engolia mais outra bicha. Afinal as cobras se^ acabaram e o her\u00f3i<br \/>\ncheio de raiva desceu da gaiola com o p\u00e9 direito. Olhou cheio de raiva<br \/>\npro gatuno da muiraquit\u00e3 e rosnou: \u2014 Hhhm&#8230; que pregui\u00e7a!<br \/>\nMas Piaim\u00e3 insistia pro her\u00f3i balangar.<\/p>\n<p>\u2014 Eu at\u00e9 que nem n\u00e3o sei balan\u00e7ar. . . Milhor<br \/>\nvoc\u00ea vai primeiro, que Macuna\u00edma rosnou.<\/p>\n<p>\u2014 Que eu nada, her\u00f3i! \u00c9 f\u00e1cil que-nem beber \u00e1gua<br \/>\nAssuba na japecanga, pronto: eu balan\u00e7o! \u2014 Ent\u00e3o aceito<br \/>\npor\u00e9m voc\u00ea vai primeiro, gigante. Piaim\u00e3 insistiu, mas<br \/>\nele sempre falando pro gigante balan\u00e7ar primeiro. Ent\u00e3o Venceslau<br \/>\nPietro Pietra amontou no cip\u00f3 e Macuna\u00edma foi balan\u00e7ando<br \/>\ncada vez mais forte. Cantava:<\/p>\n<p>&#8220;B\u00e3o-ba-l\u00e3o Senhor capit\u00e3o, Espada na cinta Ginete<br \/>\nna m\u00e3o!&#8221;<\/p>\n<p>Deu um arranco. Os espinhos ferraram na carne do gigante e o sangue espirrou.<br \/>\nA caapora l\u00e1 em baixo n\u00e3o sabia que aquela sangueira era do<br \/>\ngigante dela e aparava a chuva na macarronada. Molho engrossando.<\/p>\n<p>P\u00e1ra! P\u00e1ra! Piaim\u00e3 gritava.<\/p>\n<p>\u2014 Balan\u00e7a que vos digo! secundava Macuna\u00edma. Balan\u00e7ou<br \/>\nat\u00e9 o gigante ficar bem tonto e ent\u00e3o deu um arranco fort\u00edssimo<br \/>\nna japecanga. Era porque tinha comido cobra e estava furibundo. Venceslau<br \/>\nPietro Pie tra caiu no buraco berrando cantado: \u2014 Lem lem lem&#8230; si<br \/>\ndesta escapar, nunca mais como ningu\u00e9m! Enxergava a macarronada fumegando<br \/>\nl\u00e1 em baixo e berrou pra ela.<\/p>\n<p>\u2014 Afasta que vos engulo! Por\u00e9m jacar\u00e9 fastou? nem tacho!<br \/>\nO gigante caiu na macarronada fervendo e subiu no ar um cheiro t\u00e3o<br \/>\nforte de couro cozido que matou todos os ticoticos da cidade e o her\u00f3i<br \/>\nteve uma sapituca. Piaim\u00e3 se debateu muito e j\u00e1 estava morre-n\u00e3o-morre.<br \/>\nNum esfor\u00e7o gi gantesco inda se ergueu no fundo do tacho. Afastou os<br \/>\nmacarr\u00f5es que corriam na cara dele, revirou os olhos pro alto, lambeu<br \/>\na bigodeira: \u2014 Falta queijo! exclamou&#8230; E faleceu.<\/p>\n<p>Este foi o fim de Venceslau Pietro Pietra que era o gigante Piaim\u00e3<br \/>\ncomedor de gente.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma quando voltou da sapituca foi buscar a muiraquit\u00e3<br \/>\ne partiu na m\u00e1quina bonde pra pens\u00e3o. E chorava gemendo assim:<br \/>\n\u2014 Muiraquit\u00e3, muiraquit\u00e3 de minha bela, vejo voc\u00ea<br \/>\nmas n\u00e3o vejo ela!&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"15\"><\/a>XV &#8211; A Pacuera de Oib\u00ea<\/h4>\n<p>Ent\u00e3o os tr\u00eas manos voltaram pra quer\u00eancia deles.<\/p>\n<p>Estavam satisfeitos por\u00e9m o her\u00f3i inda mais con tente que<br \/>\nos outros porque tinha os sentimentos que s\u00f3 um her\u00f3i pode ter:<br \/>\numa satisfa imensa. Partiram. Quando atravessaram o pico do Jaragu\u00e1<br \/>\nMacuna\u00edma virou pra tr\u00e1s contemplando a cidade macota de S\u00e3o<br \/>\nPaulo. Maginou sorumb\u00e1tico muito tempo e no fim sacudiu a cabe\u00e7a<br \/>\nmurmurando: \u2014 Pouca sa\u00fade e muita sa\u00fava, os males do Brasil<br \/>\ns\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Enxugou a l\u00e1grima, consertou o beicinho tremendo. Ent\u00e3o fez<br \/>\num caborge: Sacudiu os bra\u00e7os no ar e virou a taba gigante num bicho<br \/>\npregui\u00e7a todinho de pedra. Partiram.<\/p>\n<p>Depois de muito refletir, Macuna\u00edma gastara o ara me derradeiro comprando<br \/>\no que mais o entusiasmara na civiliza\u00e7\u00e3o paulista. Estavam ali<br \/>\ncom ele o rev\u00f3lver Smith-Wesson o rel\u00f3gio Pathek e o casal de<br \/>\ngalinha Legorne. Do rev\u00f3lver e do rel\u00f3gio Macuna\u00edma fizera<br \/>\nos brincos das orelhas e trazia na m\u00e3o uma gaiola com o galo e a galinha.<br \/>\nN\u00e3o possu\u00eda mais nem um tost\u00e3o do que ganhara no bicho<br \/>\npor\u00e9m lhe balangando no bei\u00e7o furado pendia a muiraquit\u00e3.<\/p>\n<p>E por causa dela tudo ficara mais f\u00e1cil. Desciam de rodada o Araguaia<br \/>\ne quando Jigu\u00ea remava Maanape manejava o jo\u00e3o-de-pau. Se sentiam<br \/>\nmarupiaras outra vez. Pois ent\u00e3o Macuna\u00edma adestro na proa tomava<br \/>\nnota das pontes que carecia construir ou consertar pra facilitar a vida do<br \/>\npovo goiano. Noite chegada, enxer gando as luzinhas dos afogados sambando<br \/>\nmanso nas ipueiras da cheia, Macuna\u00edma olhava olhava e adormecia bem.<br \/>\nAcordava esperto no outro dia e erguido na proa da igarit\u00e9 com o argol\u00e3o<br \/>\nda gaiola enfiado no bra\u00e7o esquerdo, repinicava na violinha botando<br \/>\na boca no mundo cantando saudades da quer\u00eancia, assim: Antianti \u00e9<br \/>\ntapejara, \u2014 Pir\u00e1-uauau, Ariramba \u00e9 cozinheira, \u2014<br \/>\nPir\u00e1-uauau, Tapera, onde a tapera.<\/p>\n<p>Da beira do Uraricoera? \u2014 Pir\u00e1-uauau.<\/p>\n<p>E o olhar dele espichando espichando descia a pele do rio em busca dos pagos<br \/>\nda inf\u00e2ncia. Descia e cada cheiro de peixe cada moita de craguat\u00e1<br \/>\ncada tudo pu nha entusiasmo nele e o her\u00f3i botava a boca no mundo feito<br \/>\nmaluco fazendo emboladas e tra\u00e7ados sem sentido: Tapera tapejara, \u2014<br \/>\nCabor\u00e9, Arapa\u00e7u passoca, \u2014 Cabor\u00e9, Manos, vamos-se<br \/>\nembora Pra beira do Uraricoera! \u2014 Cabor\u00e9!<\/p>\n<p>As \u00e1guas araguaias murmurejavam chamando a reta da igarit\u00e9<br \/>\ncom gemidinho e l\u00e1 do longe vinha a cantiga pequenta das uiaras. Vei,<br \/>\na Sol, dava lambadas no costado relumeando suor de Maanape e Jigu\u00ea remeiros<br \/>\ne no cabeludo corpo em p\u00e9 do her\u00f3i. Era um calor\u00e3o molhado<br \/>\nfazendo fogo no del\u00edrio dos tr\u00eas. Macuna\u00edma se lembrou<br \/>\nque era imperador do Mato-Virgem. Riscou um gesto na Sol, gritando: \u2014<br \/>\nEropita boiamorebo! Logo o c\u00e9u se escurentou de sopet\u00e3o e uma<br \/>\nnuvem ruivor subiu do horizonte entardecendo a calma do dia. A ruivor veio<br \/>\nvindo veio vindo e era o bando de araras vermelhas e jandaias, todos esses<br \/>\nfaladores, era o papagaio-trombeta era o papagaio-curraleiro era o periquito<br \/>\ncutapado era o xar\u00e3 o peito-roxo o ajuru-curau o ajuru-curica arari<br \/>\nararica arara\u00fana arara\u00ed aragua\u00ed arara-taua maracana maitaca<br \/>\narara-piranga catorra teriba camiranga anaca anapura canind\u00e9s tuins<br \/>\nperiquitos, todos esses, o cortejo sarapintado de Macuna\u00edma im perador.<br \/>\nE todos esses faladores formaram uma tenda de asas e de gritos protegendo<br \/>\no her\u00f3i do despeito vingarento da Sol. Era uma bulha de \u00e1guas<br \/>\ndeuses e pas sarinhos que nem se escutava mais nada e a igarit\u00e9 meio<br \/>\nparava atordoada. Mas Macuna\u00edma assustando os legornes riscava de quando<br \/>\nem vez um gesto diante de tudo e gritava: \u2014 Era uma vez uma vaca amarela,<br \/>\nquem falar primeiro come a bosta dela! Dem-de-lem chegou! O mundo ficava mudo<br \/>\nn\u00e3o falando um isto e o si l\u00eancio vinha amulegar a mornid\u00e3o<br \/>\nda sombra na iga rit\u00e9. E se escutava l\u00e1 no longe l\u00e1 no<br \/>\nlonge baixinho baixinho o ruidejar do Uraricoera. Ent\u00e3o dava mais entusiasmo<br \/>\nno her\u00f3i. A violinha repinicava tremida. Macuna\u00edma pigarreava<br \/>\natirando gusparadas no rio e en quanto o guspe afundava transformado em mata-mat\u00e1s<br \/>\nnojentos, o her\u00f3i botava a boca no mundo feito maluco sem nem saber<br \/>\no que cantava, assim:<\/p>\n<p>Panapan\u00e1 p\u00e1-panapan\u00e1, Panapan\u00e1 p\u00e1-panapanema:<br \/>\nPapa de papo na popa, \u2014 Maninha, Na beira do Uraricoera!<\/p>\n<p>Depois a b\u00f4ca-da-noite engoliu todas as bulhas e o mundo adormeceu.<br \/>\nTinha s\u00f3 Capei, a Lua, enorme de gorda, rechonchuda que-nem cara das<br \/>\npolacas depois duma noite daquelas, puxavante! quanta sacanagem fe liz quanta<br \/>\ncunha bonita e quanto cachiri&#8230; Ent\u00e3o Macuna\u00edma teve saudades<br \/>\ndo sucedido na taba grande paulistana. Viu todas aquelas donas de pele alvinha<br \/>\ncom quem brincara de marido e mulher, foi t\u00e3o bom!&#8230; Sussurrou docemente:<br \/>\n&#8220;Mani! Mani! filhinhas da man dioca!&#8221; &#8230; Deu um tremor comovido<br \/>\nno bei\u00e7o dele que quase a muiraquit\u00e3 cai no rio. Macuna\u00edma<br \/>\ntornou a enfiar o tembet\u00e1 no bei\u00e7o. Ent\u00e3o pensou muito<br \/>\ns\u00e9rio na dona da muiraquit\u00e3, na briguenta, na diaba gostosa<br \/>\nque batera tanto nele, Ci. Ah! Ci, M\u00e3e do Mato, marvada que tornara-se<br \/>\ninesquec\u00edvel porque fizera ele dormir na rede tecida com os cabelos<br \/>\ndela!&#8230; &#8220;Quem tem seus amores longe, passa trabalhos trianos&#8230;&#8221;<br \/>\nparafusou. Qu\u00ea caborge da marvada!&#8230; E estava l\u00e1 no campo do<br \/>\nc\u00e9u banzando nuns trinques toda enfeitada passean do brincando quem<br \/>\nsabe com quem&#8230; Teve ci\u00fames. Ergueu os bra\u00e7os pro alto assustando<br \/>\nos legornes e re zou pro Pai do Amor:<\/p>\n<p>Rud\u00e1! Rud\u00e1! Tu que est\u00e1s no c\u00e9u<\/p>\n<p>E mandas nas chuvas.<\/p>\n<p>Rud\u00e1! faz com que minha amada Por mais companheiros que arranje Ache<br \/>\nque todos s\u00e3o frouxos! Assopra nessa marvada Sodades do seu marvado!<br \/>\nFaz com que ela se lembre de mim amanh\u00e3 Quando a Sol for-se embora<br \/>\nno poente !&#8230;<\/p>\n<p>Olhou bem pro ar. N\u00e3o tinha Ci n\u00e3o, Capei s\u00f3, gordanchona,<br \/>\ntomando tudo. O her\u00f3i deitou de comprido na igarit\u00e9, fez um<br \/>\ncabeceiro da gaiola e ador<\/p>\n<p>meceu entre maruins piuns muri\u00e7ocas.<\/p>\n<p>A noite j\u00e1 estava amarelando quando Macuna\u00edma acordou com<br \/>\nos gritos dos viras num bambuzal. Assun tou a vista e deu um pulo na praia,<br \/>\nfalando pra Jigu\u00ea: \u2014 Espera um bocadinho.<\/p>\n<p>Entrou no mato bem, l\u00e9gua e meia. Foi buscar a linda Iriqui, companheira<br \/>\ndele que j\u00e1 fora companheira de Jigu\u00ea e esperava se enfeitando<br \/>\ne cocando mucuim assentada nas ra\u00edzes da sama\u00fama. Os dois se<br \/>\nfesteja ram, muito brincaram e vieram pra igarit\u00e9.<\/p>\n<p>Quando foi ali pelo meio-dia a papagaiada se es tendeu de novo resguardando<br \/>\nMacuna\u00edma. E assim por muitos dias. Uma tarde o her\u00f3i estava<br \/>\nmuito enfarado e se lembrou de dormir em terra firme, fez. Nem bem pisou na<br \/>\npraia e se ergueu na frente dele um mons tro. Era o bicho Ponde um jucurutu<br \/>\ndo Solim\u00f5es que virava gente de-noite e engolia os estradeiros. Por\u00e9m<br \/>\nMacuna\u00edma pegou na flecha que tinha na ponta a ca be\u00e7a chata<br \/>\nda formiga santa chamada curup\u00ea e nem fez pontaria, acertou que foi<br \/>\numa beleza. O bicho Ponde estourou virando coruja. Mais pra diante depois<br \/>\nde atravessado um chato quando subia por um espig\u00e3o cheio de crocas<br \/>\ntopou com o Monstro Mapinguari macaco-homem que anda no mato fazendo mal pr\u00e0s<br \/>\nmo\u00e7as. O monstro agarrou Macuna\u00edma por\u00e9m o her\u00f3i<br \/>\ntirou o toaqui\u00e7u pra fora e mostrou pro Mapinguari.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o confunde n\u00e3o, parceiro! O monstro riu e deixou<br \/>\nMacuna\u00edma passar. O he r\u00f3i andou l\u00e9gua e meia procurando<br \/>\num pouso sem for miga. Subiu na ponta dum cumaru de quarenta me tros e afinal<br \/>\ndepois de muito campear descobriu uma luzinha longe. Foi l\u00e1 e topou<br \/>\ncom um rancho. E era o rancho de Oib\u00ea. Macuna\u00edma bateu e uma<br \/>\nvozica mui doce gemeu de l\u00e1 dentro: \u2014 Quem vem l\u00e1! \u2014<br \/>\n\u00c9 de paz! Ent\u00e3o a porta se abriu e apareceu um bicho tama nho<br \/>\nque sarapantou o her\u00f3i. Era o monstro Oib\u00ea o minhoc\u00e3o<br \/>\ntem\u00edvel. O her\u00f3i sentiu friagem por dentro mas se lembrou do<br \/>\nsmith-wesson, criou coragem e pediu pou sada.<\/p>\n<p>\u2014 Entre que a casa \u00e9 sua.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma entrou, sentou numa canastra e ficou assim. Afinal perguntou:<br \/>\n\u2014 Vamos conversar? \u2014 Vamos.<\/p>\n<p>\u2014 Sobre o qu\u00ea? Oib\u00ea cocou a barbicha matutando e de repente<br \/>\ndes cobriu satisfeito: \u2014 Vamos conversar porcaria? \u2014 Chi! gosto<br \/>\ndisso que \u00e9 um horror! o her\u00f3i ex clamou: E conversaram uma<br \/>\nhora de porcariada.<\/p>\n<p>Oib\u00ea estava cozinhando a comidinha dele. Ma cuna\u00edma n\u00e3o<br \/>\ntinha fome nenhuma por\u00e9m botou a gaiola no ch\u00e3o e s\u00f3<br \/>\nde embusteiro esfregando a m\u00e3o na barriga fez: \u2014 Juque! Oib\u00ea<br \/>\nresmungou: \u2014 Que \u00e9 isso, gente! \u2014 \u00c9 fome \u00e9<br \/>\nfome! Oib\u00ea pegou numa gamela, botou car\u00e1 com feij\u00e3o dentro,<br \/>\nencheu uma cuia com farinha-d&#8217;\u00e1gua e ofere ceu pro her\u00f3i. Mas<br \/>\nn\u00e3o deu nem um tiquinho de pacuera assando no espeto de canela de sassafr\u00e1s<br \/>\ne aro mando bem. Macuna\u00edma engoliu tudo sem mastigar e n\u00e3o tinha<br \/>\nfome nenhuma por\u00e9m a boca dele ficou cheia de \u00e1gua por causa<br \/>\nda pacuera assando. Esfregou a m\u00e3o na barriga e fez: .<\/p>\n<p>\u2014 Juque! Oib\u00ea resmungou: \u2014 Que \u00e9 isso, gente! \u2014<br \/>\n\u00c9 sede \u00e9 sede! Oib\u00ea pegou no balde e foi buscar \u00e1gua<br \/>\nno po\u00e7o. Enquanto ia, Macuna\u00edma tirou a canela de sassafr\u00e1s<br \/>\ndas brasas engoliu a pacuera inteira sem mastigar e fi cou bem sossegado esperando.<br \/>\nQuando o minhoc\u00e3o trouxe o balde Macuna\u00edma bebeu um coco cheio.<br \/>\nDe pois se espregui\u00e7ando suspirou: \u2014 Juque! O monstro se sarapantou:<br \/>\n\u2014 Que mais que \u00e9, gente! \u2014 \u00c9 sono \u00e9 sono!<br \/>\nEnt\u00e3o Oib\u00ea levou Macuna\u00edma pro quarto-de-h\u00f3spedes<br \/>\ndeu boa-noite e fechou a porta por fora. Foi cear. Macuna\u00edma botou<br \/>\na gaiola num canto, cobrindo o ca sal de galinhas com umas chitas. Assuntou<br \/>\no quarto bem. Tinha uma bulhinha sem parada vinha de todos os lados. Macuna\u00edma<br \/>\nbateu a pedra do isqueiro e viu que eram baratas. Trepou assim mesmo na rede<br \/>\nn\u00e3o sem espiar mais uma vez si n\u00e3o faltava nada pr\u00f3s<br \/>\nlegornes. O casal estava at\u00e9 bem satisfeito comendo barata. Macuna\u00edma<br \/>\nse riu pra ele, arrotou e adorme ceu. Da\u00ed a pouco estava coberto de<br \/>\nbaratas lambendo.<\/p>\n<p>Quando Oib\u00ea p\u00f4s reparo que Macuna\u00edma tinha comido a pacuera,<br \/>\nteve raiva. Agarrou num sininho, se embrulhou num len\u00e7ol branco e foi<br \/>\nfazer assombra \u00e7\u00e3o pro h\u00f3spede. Mas era s\u00f3 de<br \/>\nbrincadeira. Bateu na porta e manejou o sininho, de-lem! \u2014 Oi? \u2014<br \/>\nVim buscar minha pacuera-cuera-cuera-cuera-cuera, de-lem! Abriu a porta. Quando<br \/>\no her\u00f3i enxergou a assom bra\u00e7\u00e3o ficou com tanto medo<br \/>\nque nem se mexeu. Ele n\u00e3o sabia que era Oib\u00ea n\u00e3o. A fantasma<br \/>\nvinha vindo: \u2014 Vim buscar minha pacuera-cuera-cuera-cuera cuera, de-lem!<br \/>\nEnt\u00e3o Macuna\u00edma percebeu que n\u00e3o era assom bra\u00e7\u00e3o<br \/>\nnada, era mas o monstro Oib\u00ea minhoc\u00e3o tem\u00edvel. Criou coragem<br \/>\npegou no brinco da orelha esquerda que era a m\u00e1quina rev\u00f3lver<br \/>\ne deu um tiro na assombra\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m Oib\u00ea n\u00e3o<br \/>\nfez caso e veio vindo. O her\u00f3i tornou a ter medo. Pulou da rede agarrou<br \/>\na gaiola e escafedeu pela janela, jogando baratas no caminho todo. Oib\u00ea<br \/>\ncorreu atr\u00e1s. Mas era s\u00f3 de brincadeira que ele queria comer<br \/>\no her\u00f3i. Macuna\u00edma desembestara agres te fora mas isso ia que<br \/>\nia acochado pelo minhoc\u00e3o. Ent\u00e3o botou o furabolo na goela,<br \/>\nfez cosquinha e lan \u00e7ou a farinha engolida. A farinha virou num are\u00e3o<br \/>\ne enquanto o monstro pelejava pra atravessar aquele mundo de areia escorregando,<br \/>\nMacuna\u00edma fugia. To mou pela direita, desceu o morro do Estrondo que<br \/>\nsoa de sete em sete anos seguiu por uns caponetes e depois de cortar um travess\u00e3o<br \/>\nencapelado fez o Sergipe de ponta a ponta e parou ofegando num agarrado muito<br \/>\npedregoso. Na frente havia uma lapa grande furada por uma furna com um altarzinho<br \/>\ndentro. Na boca da socava um frade. Macuna\u00edma perguntou pro frade:<br \/>\n\u2014 Como se chama o nome de voc\u00ea? O frade p\u00f4s no her\u00f3i<br \/>\nuns olhos frios e secundou com pachorra: \u2014 Eu sou Mendon\u00e7a Mar<br \/>\npintor. Desgostoso da injusti\u00e7a dos homens faz tr\u00eas s\u00e9culos<br \/>\nque afastei-me deles metendo cara no sert\u00e3o. Descobri esta gruta ergui<br \/>\ncom minhas m\u00e3os este altar do Bom Jesus da Lapa e vivo aqui perdoando<br \/>\ngente mudado em frei Francisco da Soledade.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 bom, Macuna\u00edma falou. E partiu na chispada.<\/p>\n<p>Mas o terreno era cheio de socavas e logo adiante estava outro desconhecido<br \/>\nfazendo um gesto t\u00e3o bobo que Macuna\u00edma parou sarapantado. Era<br \/>\nHercules Florence. Botara um vidro na boca duma furna mirim, tapava e destapava<br \/>\no vidro com uma folha de taioba. Macuna\u00edma perguntou: \u2014 Ara,<br \/>\nara ara! Mas voc\u00ea n\u00e3o me dir\u00e1 o qu\u00ea que est\u00e1<br \/>\nfazendo a\u00ed, si\u00f4! O desconhecido virou pra ele e com os olhos<br \/>\nrelumeando de alegria falou: \u2014 Gardez cette date: 1927! Je viens d&#8217;inventer<br \/>\nIa photographie! Macuna\u00edma deu uma grande gargalhada.<\/p>\n<p>\u2014 Chi! Isso j\u00e1 inventaram que anos, si\u00f4! Ent\u00e3o<br \/>\nHercules Florence caiu estuporado sobre a folha de taioba e principiou anotando<br \/>\ncom m\u00fasica uma mem\u00f3ria cient\u00edfica sobre o canto dos passarinhos.<br \/>\nEs tava maluco. Macuna\u00edma chispou.<\/p>\n<p>Depois que correu l\u00e9gua e meia olhou pra tr\u00e1s e viu que Oib\u00ea<br \/>\nj\u00e1 vinha perto. Botou o furabolo na goela e l\u00e1 foi pro ch\u00e3o<br \/>\ntodo o car\u00e1 engolido que virou num tartarugal mexemexendo. Oib\u00ea<br \/>\ncustou pra virar aquela imund\u00edcie de tartaruga e Macuna\u00edma fugiu.<br \/>\nL\u00e9gua e meia adiante olhou pra tr\u00e1s. Isso Oib\u00ea vinha na<br \/>\ncola dele. Ent\u00e3o tornou a botar o furabolo na goela e lan \u00e7ou<br \/>\nque era s\u00f3 feij\u00e3o e \u00e1gua. Tudo virou num lamedo cheio<br \/>\nde sapos-bois e quanto Oib\u00ea se debatia atraves sando aquilo, o her\u00f3i<br \/>\ncatava umas minhocas pras ga linhas e partia afobado. Ganhou muita dianteira<br \/>\ne pa rou pra descansar. Ficou bem admirado porque tinha corrido tanto que<br \/>\nestava outra feita na porta do rancho de Oib\u00ea. Resolveu se esconder<br \/>\nno pomar. Tinha um p\u00e9 de carambola e Macuna\u00edma principiou arrancando<br \/>\nra mos do caramboleiro pra se amoitar por debaixo. Os ramos cortados agarram<br \/>\npingando \u00e1gua de l\u00e1grima e se escutou o lamento do caramboleiro:<\/p>\n<p>Jardineiro de meu pai, N\u00e3o me, cortes meus cabelos, Que o malvado<br \/>\nme enterrou Pelo figo da figueira<\/p>\n<p>Que passarinho comeu&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ch\u00f3, ch\u00f3, passarinho!<\/p>\n<p>Todos os passarinhos choraram de pena gemida nos ninhos e o her\u00f3i<br \/>\ngelou de susto. Agarrou no patu\u00e1 que trazia entre os berloques do pesco\u00e7o<br \/>\ne tra\u00e7ou uma mandinga. O caramboleiro virou numa princesa muito chique.<br \/>\nO her\u00f3i teve um desejo danado de brincar com a princesa por\u00e9m<br \/>\nOib\u00ea j\u00e1 devia de estar estourando por a\u00ed. De-fato: \u2014<br \/>\nVim buscar minha pacuera-cuera-cuera-cuera-cuera, de-lem! Macuna\u00edma<br \/>\ndeu a m\u00e3o pra princesa e fugiram na disparada. Mais adiante havia uma<br \/>\nfigueira com a sapopemba enorme. Oib\u00ea estava j\u00e1 no calcanhar<br \/>\ndeles e Macuna\u00edma n\u00e3o tinha tempo mais pra nada. Ent\u00e3o<br \/>\nse meteu com a princesa no buraco da sapopemba. Mas o minhoc\u00e3o enfiou<br \/>\no bra\u00e7o e inda agarrou a perna do her\u00f3i. Ia puxar mas Macuna\u00edma<br \/>\ndeu uma grande gar galhada de experi\u00eancia e falou: \u2014 Voc\u00ea<br \/>\nest\u00e1 maginando que pegou minha g\u00e2mbia, pegou n\u00e3o! Isso<br \/>\n\u00e9 raiz, boc\u00f3! O minhoc\u00e3o largou. Macuna\u00edma gritou:<br \/>\n\u2014 Pois era a perna mesmo boc\u00f3-de-mola! Oib\u00ea tornou a enfiar<br \/>\no bra\u00e7o mas o her\u00f3i j\u00e1, tinha encolhido a perna e o minhoc\u00e3o<br \/>\ns\u00f3 achou raiz. Tinha uma gar\u00e7a perto. Oib\u00ea falou pra ela:<\/p>\n<p>\u2014 Comadre gar\u00e7a, bote sentido no her\u00f3i. N\u00e3o deixa<br \/>\nele sair que vou buscar uma enxada pra cavar.<\/p>\n<p>A gar\u00e7a ficou guardando. Quando Oib\u00ea j\u00e1 estava longe<br \/>\nMacuna\u00edma falou pra ela: \u2014 Ent\u00e3o, sua palerma, \u00e9<br \/>\nassim que se bota sen tido num her\u00f3i! Fique bem perto arregalando os<br \/>\nolhos! A gar\u00e7a fez. Ent\u00e3o Macuna\u00edma atirou um punha do<br \/>\nde formigas-de-fogo nos olhos dela e enquanto a gar \u00e7a gritava de cega<br \/>\nele saiu do buraco com a princesa e escafederam outra vez. Perto de Santo<br \/>\nAnt\u00f4nio do Mato Grosso toparam com uma bananeira e estavam morrendo<br \/>\nde fome. Macuna\u00edma falou pra princesa: \u2014 Assobe, come as verdes<br \/>\nque s\u00e3o boas e atira as amarelas pra mim.<\/p>\n<p>Ela fez. O her\u00f3i se fartou enquanto a princesa dan\u00e7ava de<br \/>\ne\u00f3licas pra ele apreciar. Oib\u00ea j\u00e1 vinha che gando e eles<br \/>\ndesataram o punho da rede outra vez.<\/p>\n<p>Depois de correrem mais l\u00e9gua e meia, enfim che garam num firme pontudo<br \/>\ndo Araguaia. Por\u00e9m a igarit\u00e9 estava abicada bem mais pra baixo<br \/>\nna outra mar gem com Maanape Jigu\u00ea a linda Iriqui, todos esses companheiros<br \/>\ndormindo. Macuna\u00edma olhou pra tr\u00e1s. Oib\u00ea quase ali. Ent\u00e3o<br \/>\nbotou o furabolo na goela pela \u00faltima vez, fez cosquinha e alojou a<br \/>\npacuera n&#8217;\u00e1gua. A pacuera virou num periant\u00e3 muito fofo de ervas.<br \/>\nMacuna\u00edma botou a gaiola com jeito no fofo, atirou a princesa l\u00e1<br \/>\ne dando um arranco na margem com o p\u00e9, afastou da praia o periant\u00e3<br \/>\nque as \u00e1guas levaram. Oib\u00ea chegou mas os fugitivos iam longe.<br \/>\nEnt\u00e3o o minhoc\u00e3o que era um lobisomem famoso principiou tremelicando<br \/>\ncriou rabo e virou cachorro-do-mato. Escancarou a goela desencantada e saiu<br \/>\nda barriga dele uma bor boleta azul. Era alma de homem presa no corpo do lobo<br \/>\npor artes do Carrapatu medonho que p\u00e1ra na gruta do Iporanga.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma e a princesa brincando desciam a cor rente do rio. Agora<br \/>\nest\u00e3o se rindo um pro outro.<\/p>\n<p>Quando passaram rente da igarit\u00e9 os manos se acordaram com os gritos<br \/>\nde Macuna\u00edma e foram atr\u00e1s. Iriqui ficou logo enciumada porque<br \/>\no her\u00f3i n\u00e3o queria saber mais dela e s\u00f3 brincava com<br \/>\na princesa. E pra ver si reconquistava o her\u00f3i abriu num bu\u00e9<br \/>\nfamoso. Jigu\u00ea teve logo muita pena dela e falou pra Macuna\u00edma<br \/>\nir brincar com Iriqui um poucadinho. Jigu\u00ea era muito bobo. Mas o her\u00f3i<br \/>\nque j\u00e1 andava impinimando com Iriqui secundou pra ele: \u2014 Iriqui<br \/>\n\u00e9 muito relamb\u00f3ria, mano, mas a prin cesa, upa! N\u00e3o d\u00ea<br \/>\ncredito pra Iriqui n\u00e3o! Oi que Sol de inverno chuva de ver\u00e3o<br \/>\nchoro de mulher palavra de ladr\u00e3o, eieiei&#8230; ningu\u00e9m n\u00e3o<br \/>\ncaia n\u00e3o! E foi brincar com a princesa. Iriqui ficou triste triste,<br \/>\nbem triste, chamou seis araras canind\u00e9s e subiu com elas pro c\u00e9u,<br \/>\nchorando luz virada numa estrela. As canind\u00e9s amarelinhas tamb\u00e9m<br \/>\nviraram estrelas. \u00c9 o Setestr\u00ealo.<\/p>\n<p>NO outro dia Macuna\u00edma amanheceu com muita tosse e uma febrinha sem<br \/>\nparada. Maanape desconfiou e foi fazer um cozimento de broto de abacate, imagi<br \/>\nnando que o her\u00f3i estava h\u00e9tico. Em vez era impalu dismo, e<br \/>\na tosse viera s\u00f3 por causa da laringite que toda a gente carrega de<br \/>\nS\u00e3o Paulo. Agora Macuna\u00edma passava as horas deitado de borco<br \/>\nna proa da igarit\u00e9 e nunca mais que havia de sarar. Quando a princesa<br \/>\nn\u00e3o podia mais e vinha pra brincarem, o her\u00f3i at\u00e9 uma<br \/>\nvez recusou suspirando: \u2014 Ara&#8230; que pregui\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>No outro dia atingiram as cabeceiras dum rio e escutaram perto o ruidejar<br \/>\ndo Uraricoera. Era ali. Um passarinho serigaita trepado na munguba, enxergando<br \/>\no farrancho gritou logo: \u2014 Sinh\u00e1 dona do porto, d\u00e1 caminho<br \/>\npra mim passar! Macuna\u00edma agradeceu feliz. De p\u00e9 ele assuntava<br \/>\na paisagem passando. Veio vindo o forte S\u00e3o Joaquim erguido pelo mano<br \/>\ndo grande Marqu\u00eas. Macuna\u00edma deu um t\u00e9-logo pro cabo e<br \/>\npro soldado que s\u00f3 possu\u00edam um naco esfarrapado de culote e<br \/>\no bon\u00e9 na cabe\u00e7a e viviam guardando as sa\u00favas dos canh\u00f5es.<br \/>\nAfinal ficou tudo conhecid\u00edssimo. Se enxergou o cerro manso que fora<br \/>\nm\u00e3e um dia, no lugar chamado Pai da Tocandeira, se enxergou o pau\u00ea<br \/>\ntrapacento malhado de vit\u00f3rias-r\u00e9gias escondendo os puraqu\u00eas<br \/>\ne os piti\u00fas e pra diante do be bedouro da anta se viu o ro\u00e7ado<br \/>\nvelho agora uma tig\u00fcera e a maloca velha agora uma tapera. Macuna\u00edma<br \/>\nchorou.<\/p>\n<p>Abicaram e entraram na tapera. Vinha a b\u00f4ca-da-noite. Maanape com<br \/>\nJigu\u00ea resolveram fazer uma facheada pra pegarem algum peixe e a princesa<br \/>\nfoi ver si topava com algum arezi pra comerem. O her\u00f3i ficou descansando.<br \/>\nEstava assim quando sentiu no ombro um peso de m\u00e3o. Virou a cara e<br \/>\nolhou. Junto dele estava um velho de barba. O velho falou: \u2014 Quem \u00e9s<br \/>\ntu, nobre estrangeiro? \u2014 N\u00e3o sou estranho n\u00e3o, conhecido.<br \/>\nSou Macuna\u00edma o her\u00f3i e vim parar de novo na terra dos meus.<br \/>\nVoc\u00ea quem \u00e9? O velho afastou os mosquitos com amargura e secundou:<br \/>\n\u2014 Sou Jo\u00e3o Ramalho.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Jo\u00e3o Ramalho enfiou dois dedos na boca e assoviou. Apareceram<br \/>\na mulher dele as quinze fam\u00ed lias de escadinha. E l\u00e1 partiram<br \/>\nde mudan\u00e7a buscando pagos novos sem ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>No outro dia bem cedinho foram todos trabucar. A princesa foi no ro\u00e7ado<br \/>\nMaanape foi no mato e Jigu\u00ea foi no rio. Macuna\u00edma se desculpou,<br \/>\nsubiu na montaria e deu uma chegadinha at\u00e9 a boca do rio Negro pra<br \/>\nbuscar a consci\u00eancia deixada na ilha de Marapat\u00e1. Jacar\u00e9<br \/>\nachou? nem ele. Ent\u00e3o o her\u00f3i pegou na cons ci\u00eancia dum<br \/>\nhispanoamericano, botou na cabe\u00e7a e se deu bem da mesma forma.<\/p>\n<p>Passava uma piracema de jaraquis. Macuna\u00edma agarrou pescando e distra\u00eddo<br \/>\ndistra\u00eddo quando viu es tava em \u00d3bidos, a montaria cheinha de<br \/>\npeixes frescos. Mas o her\u00f3i foi obrigado a atirar tudo fora porque<br \/>\nem \u00d3bidos &#8220;quem come j ar aqui fica aqui&#8221; falam e ele ti<br \/>\nnha que voltar pro Uraricoera. Voltou e como era ainda o pino do dia deitou<br \/>\nna sombra da ingazeira catou os carrapatos e dormiu. Tarde chegando todos<br \/>\nvoltaram pra tapera s\u00f3 Macuna\u00edma n\u00e3o. Os outros sa\u00edram<br \/>\npra esperar. Jigu\u00ea se acocorou botando a orelha no ch\u00e3o pra ver<br \/>\nsi escutava o passinho do her\u00f3i, nada. Maanape trepou no grelo duma<br \/>\ninaj\u00e1 pra ver si enxer gava o brilho dos brincos do her\u00f3i, nada.<br \/>\nEnt\u00e3o sa\u00edram por mato e capoeira gritando: \u2014 Macuna\u00edma,<br \/>\nnosso mano!&#8230;<\/p>\n<p>Nada. Jigu\u00ea chegou debaixo da ingazeira e gritou: \u2014 Nosso mano!<br \/>\n\u2014 Que foi! \u2014 Voc\u00ea, aposto que j\u00e1 estava dormindo!<br \/>\n\u2014 Dormindo nada, ent\u00e3o! Estava mas era nega ceando um inambu-gua\u00e7u.<br \/>\nVoc\u00ea fez bulha, nhambu escapoliu! Voltaram. E assim todos os dias. Os<br \/>\nmanos an davam muito desconfiados. Macuna\u00edma percebeu e disfar\u00e7ou<br \/>\nbem: \u2014 Eu ca\u00e7o por\u00e9m n\u00e3o acho nada n\u00e3o.<br \/>\nJigu\u00ea nem ca\u00e7a nem pesca, passa o dia dormindo.<\/p>\n<p>Jigu\u00ea teve raiva porque peixe andava rareando e ca\u00e7a inda mais.<br \/>\nFoi na praia do rio pra ver si pescava alguma coisa e topou com o feiticeiro<br \/>\nTzal\u00f3 que tem uma perna s\u00f3. O catimbozeiro possu\u00eda uma<br \/>\ncaba\u00e7a encantada feita com a metade duma casca de gerimum. Mergulhou<br \/>\na caba\u00e7a no rio, encheu de \u00e1gua at\u00e9 o meio e despejou<br \/>\nna praia. Caiu um desprop\u00f3sito de peixe. Jigu\u00ea reparou bem como<br \/>\nque o feiticeiro fazia. Tzal\u00f3 largou da caba\u00e7a por a\u00ed<br \/>\ne principiou matando peixe com um porrete. Ent\u00e3o Jigu\u00ea roubou<br \/>\na caba\u00e7a do fei ticeiro Tzal\u00f3 que tem uma perna s\u00f3.<\/p>\n<p>Mais pra diante fez que-nem tinha reparado e veio muito peixe, veio pirandira<br \/>\nveio pacu veio cascudo veio bagre jundi\u00e1 tucunar\u00e9, todos esses<br \/>\npeixes e Jigu\u00ea vol tou carregado pra tapera depois de esconder a caba\u00e7a<br \/>\nna raiz do cip\u00f3. Todos ficaram sarapantados com aquele mundo de peixe<br \/>\ne comeram bem. Macuna\u00edma desconfiou.<\/p>\n<p>No outro dia esperou com o olho esquerdo dor mindo que Jigu\u00ea fosse<br \/>\npescar, saiu atr\u00e1s. Descobriu tudo. Quando o mano foi-se embora Macuna\u00edma<br \/>\nlar gou da gaiola com os legornes no ch\u00e3o pegou na caba\u00e7a escondida<br \/>\ne fez que-nem o mano. Isso vieram muitos peixes, veio acar\u00e1 veio piracanjuba<br \/>\nveio avi\u00fa guri-juba, piramutaba mandi surubim, todos esses peixes.<br \/>\nMacuna\u00edma atirou a caba\u00e7a por a\u00ed, na pressa de matar<br \/>\ntodos os peixes, caba\u00e7a caiu numa lapa e juque! mer gulhou no rio.<br \/>\nPassava a pirandira chamada Padz\u00e1. Imaginou que era abobra e engoliu<br \/>\na caba\u00e7a que virou na beixiga de Padz\u00e1. Ent\u00e3o Macuna\u00edma<br \/>\nenfiou a gaiola no bra\u00e7o voltou pra tapera e contou o sucedido. Jigu\u00ea<br \/>\nteve raiva.<\/p>\n<p>\u2014 Cunhada princesa, eu que pesco, seu compa nheiro fica dormindo em<br \/>\nbaixo da ingazeira e inda atra palha os outros! \u2014 Mentira! \u2014 Ent\u00e3o<br \/>\no que voc\u00ea fez hoje? \u2014 Cacei viado.<\/p>\n<p>\u2014 Qu\u00ea-dele ele! \u2014 Comi, uai! Fui andando por um caminho,<br \/>\nvai, topei rasto dum&#8230; catingueiro n\u00e3o era n\u00e3o mas era mateiro.<br \/>\nMe agachei e fui no rasto. Olhando olhando, sabe, dei uma cabe\u00e7ada<br \/>\nnuma coisa mole, que engra \u00e7ado! sabem o que era! pois a bunda do viado,<br \/>\ngente! (Macuna\u00edma deu uma grande gargalhada). Viado per guntou pra<br \/>\nmim: \u2014 Que est\u00e1 fazendo a\u00ed, parente!, \u2014 Te campeando!<br \/>\nsecundei. E vai, matei o catingueiro que comi com tripa e tudo. Vinha trazendo<br \/>\num naco pra voc\u00eas, vai, escorreguei atravessando o ipu, dei um tombo,<br \/>\nnaco foi parar longe e tanajura sujou nele.<\/p>\n<p>A peta era tamanha que Maanape desconfiou. Maanape era feiticeiro. Chegou<br \/>\nbem rente do mano e perguntou: \u2014 Voc\u00ea foi na ca\u00e7a? \u2014<br \/>\nQuer dizer&#8230; fui sim.<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea voc\u00ea ca\u00e7ou? \u2014 Viado.<\/p>\n<p>\u2014 Qual! Maanape fez um grande gesto. O her\u00f3i piscou de medo<br \/>\ne confessou que tudo era lorota.<\/p>\n<p>No outro dia Jigu\u00ea estava procurando a caba\u00e7a quando topou<br \/>\ncom o tatu-canastra feiticeiro chamado Caic\u00e3e que nunca teve m\u00e3e.<br \/>\nCaic\u00e3e sentado na porta da toca puxou a violinha dele feita com a outra<br \/>\nmetade da abobra encantada e agarrou cantando assim:<\/p>\n<p>&#8220;Vote vote coandu! Vote vote cuati! Vote vote tai\u00e7u! Vote vote<br \/>\npacari! Vote vote cangu\u00e7u! \u00cah!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Assim. Vieram muitas ca\u00e7as. Jigu\u00ea, reparando. Caic\u00e3e<br \/>\natirou a violinha encantada por a\u00ed, pegou num porrete e foi matar todo<br \/>\naquele poder de ca\u00e7as que esta vam feito bobas. Ent\u00e3o Jigu\u00ea<br \/>\nroubou a violinha do feiticeiro Caic\u00e3e que nunca teve m\u00e3e.<\/p>\n<p>Mais pra diante cantou que nem tinha escutado e veio um dil\u00favio de<br \/>\nca\u00e7a parando na frente dele. Jigu\u00ea voltou carregado pra tapera<br \/>\ndepois de esconder a violi nha na raiz de outro cip\u00f3. Todos tornaram<br \/>\na se espan tar e comeram bem. Macuna\u00edma tornou a desconfiar.<\/p>\n<p>No outro dia esperou com o olho esquerdo dor mindo que Jigu\u00ea partisse,<br \/>\nfoi atr\u00e1s. Descobriu tudo. Quando o mano voltou pra tapera Macuna\u00edma<br \/>\npegou na violinha, fez talequal reparara e veio uma imund\u00edcie de ca\u00e7a,<br \/>\nviados cotias tamandu\u00e1s capivaras tatus aperemas pacas graxains lontras<br \/>\nmu\u00e7u\u00e3s catetos monos tejus queixadas antas, a anta sabatira,<br \/>\non\u00e7as, a on\u00e7a pinima a papa-viado a jaguatirica, su\u00e7uarana<br \/>\ncangu\u00e7u pixuna, isso era uma imund\u00edcie de ca\u00e7as! O her\u00f3i<br \/>\nteve medo daquela bicharada tamanha e saiu numa carreira m\u00e3e pinchando<br \/>\na violinha longe. A gaiola enfiada no bra\u00e7o dele ia batendo nos paus<br \/>\ne o galo com a galinha faziam um cacarejo de ensurdecer. O her\u00f3i imaginava<br \/>\nque era a bicharia e disparava mais.<\/p>\n<p>A violinha caiu no dente de um queixada que tinha umbigo nas costas e se<br \/>\npartiu em dez vezes dez peda\u00e7os que os bichos engoliram pensando que<br \/>\nera gerimum. Os peda\u00e7os viraram nas bexigas das ca\u00e7as.<\/p>\n<p>O her\u00f3i estourou tapera a dentro feito um desespe rado botando os<br \/>\nbofes pela boca. Nem bem p\u00f4de res pirar contou o sucedido. Jigu\u00ea<br \/>\nteve \u00f3dio e falou: \u2014 Agora que n\u00e3o ca\u00e7o nem pesco<br \/>\nmais! E foi dormir. Todos principiaram curtindo fome. Bem que pediam por\u00e9m<br \/>\nJigu\u00ea pulava na rede e fechava os olhos. O her\u00f3i jurou vingan\u00e7a.<br \/>\nFingiu um anzol com presa de sucuri e falou pro feiti\u00e7o: \u2014 Anzol<br \/>\nde mentira, si mano Jigu\u00ea vier experi mentar voc\u00ea, ent\u00e3o<br \/>\nentra na m\u00e3o dele.<\/p>\n<p>Jigu\u00ea n\u00e3o podia dormir de tanta fome e enxer gando o anzol<br \/>\nfalou pro mano: \u2014 Mano, esse anzol \u00e9 bom? \u2014 Xispete\u00f3!<br \/>\nMacuna\u00edma fez e continuou lim pando a gaiola.<\/p>\n<p>Jigu\u00ea decidiu ir numa pescaria porque estava mes mo curtindo fome,<br \/>\nfalou: \u2014 Deixa ver si anzol \u00e9 bom.<\/p>\n<p>Pegou no feiti\u00e7o e experimentou na palma da m\u00e3o. O dente de<br \/>\nsucuri entrou na pele e despejou todo o veneno l\u00e1. Jigu\u00ea correu<br \/>\npro matinho e bem que mastigou e engoliu maniveira, n\u00e3o vale de nada.<br \/>\nEnt\u00e3o foi bus car uma cabe\u00e7a de anhuma que fora encostada em<br \/>\npi cada de cobra. P\u00f4s na m\u00e3o. N\u00e3o valeu de nada. Ve neno<br \/>\nvirou numa ferida leprosa e principiou comendo Jigu\u00ea. Primeiro comeu<br \/>\num bra\u00e7o depois metade do corpo depois as pernas depois a outra metade<br \/>\ndo corpo depois o outro bra\u00e7o depois o pesco\u00e7o e a cabe\u00e7a.<br \/>\nS\u00f3 ficou a sombra de Jigu\u00ea.<\/p>\n<p>A princesa teve \u00f3dio. \u00c9 que ela andava ultima mente brincando<br \/>\ncom Jigu\u00ea. Macuna\u00edma bem que per cebeu por\u00e9m imaginou:<br \/>\n&#8220;Plantei mandioca nasceu maniva, de ladr\u00e3o de casa ningu\u00e9m<br \/>\nse priva, paci\u00ean cia! &#8230;&#8221; E tinha encolhido os ombros. A princesa<br \/>\nraivosa falou pra sombra: \u2014 Quando o her\u00f3i for passear de fome<br \/>\nvoc\u00ea vira num cajueiro numa bananeira e num churrasco de viado.<\/p>\n<p>A sombra era envenenada por causa da lepra e a princesa queria matar Macuna\u00edma.<\/p>\n<p>No outro dia o her\u00f3i acordou com tanta fome que foi espairecer passeando.<br \/>\nTopou com um cajueiro cheio de frutas. Quis comer por\u00e9m presenciou<br \/>\nque era a sombra leprosa e passou adiante. L\u00e9gua e meia depois topou<br \/>\ncom um churrasco de viado fumegando. J\u00e1 estava roxo de fome por\u00e9m<br \/>\np\u00f4s reparo que o chur rasco era a sombra leprosa e passou adiante. L\u00e9gua<br \/>\ne meia depois topou com uma bananeira carregadinha de pencas maduras. Mas<br \/>\nagora o her\u00f3i j\u00e1 estava que vinha vesgo de tanta fome. A vesgueira<br \/>\nfez ele enxergar dum lado a sombra do mano e do outro a bananeira.<\/p>\n<p>\u2014 Arre que posso comer! fez.<\/p>\n<p>E devorou todas as pencas. E as bananas eram a sombra leprosa do mano Jigu\u00ea.<br \/>\nMacuna\u00edma ia morrer. Ent\u00e3o se lembrou de passar a doen\u00e7a<br \/>\nnos outros pra n\u00e3o morrer sozinho. Pegou numa formiga sa\u00fava<br \/>\ne es fregou bem ela na ferida do nariz, formiga j\u00e1 foi gente que nem<br \/>\nn\u00f3s e a sa\u00fava ficou leprosa. Ent\u00e3o o her\u00f3i agarrou<br \/>\na formiga jaguataci e fez o mesmo. Jaguataci ficou leprosa tamb\u00e9m.<br \/>\nEnt\u00e3o foi a vez da formiga aqueque devoradora de sementes e da formiga<br \/>\nguiqu\u00e9m, da formiga tracu\u00e1 e da formiga mumbuca bem preta, todas<br \/>\nficaram leprosas. N\u00e3o tinha mais formigas em redor do her\u00f3i<br \/>\nsentado. Ele ficou com pregui\u00e7a de es tender o bra\u00e7o porque<br \/>\nj\u00e1 estava moribundo. Esperou a visita da sa\u00fade, criou for\u00e7a<br \/>\ne pegou no mosquito birig\u00fci mordendo o joelho dele. Passou a doen\u00e7a<br \/>\nno mosquito birig\u00fci. Por isso que agora quando esse mosquito morde a<br \/>\ngente, entra na pele, atravessa o corpo e sai do outro lado enquanto o furinho<br \/>\nde entrada vira na bereva medonha chamada chaga-de-Bauru.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma tinha passado a lepra em sete outras gentes e ficou s\u00e3o<br \/>\nno sufragante, voltando pra tapera. A sombra de Jigu\u00ea conferiu que o<br \/>\nher\u00f3i era muito inte ligente e quis voltar desesperada pra junto da<br \/>\nfam\u00edlia. Era j\u00e1 de-noite e se confundindo com a escureza a som<br \/>\nbra n\u00e3o achava mais o caminho perto. Sentou numa pedra e berrou: \u2014<br \/>\nFoguinho, cunhada princesa! A princesa coxeando muito porque estava doente<br \/>\nde zamparina veio com um ti\u00e7\u00e3o aluminando caminho. A sombra<br \/>\nengoliu o fogo e a cunhada. Berrou de novo: \u2014 Foguinho, mano Maanape!<br \/>\nMaanape veio logo com outro ti\u00e7\u00e3o alumiando ca minho. E se arrastava<br \/>\nmolengo porque barbeiro chu para sangue dele e Maanape estava opilado. A som<br \/>\nbra engoliu fogo e mano Maanape. Berrou: \u2014 Foguinho, mano Macuna\u00edma!<br \/>\nQueria engolir o her\u00f3i tamb\u00e9m mas Macuna\u00edma percebendo<br \/>\no que sucedera pro mano e pra companheira encostou a porta e ficou bem quieto<br \/>\nna tapera. A som bra pedia foguinho, pedia por\u00e9m n\u00e3o recebendo<br \/>\nres posta se lastimou at\u00e9 madrugada&#8221;. Ent\u00e3o Capei apare<br \/>\nceu iluminando a terra e a leprosa p\u00f4de chegar na tapera. Sentou na<br \/>\ncangerana da soleira e esperou o dia pra se vingar do mano.<\/p>\n<p>De-manh\u00e3 inda estava acocorada ali. Macuna\u00edma acordou e escutou.<br \/>\nN\u00e3o se ouvia nada e ele concluiu: \u2014 Arre! Foi-se! E saiu passear.<br \/>\nQuando passou pela porta a sombra trepou no ombro dele. O her\u00f3i n\u00e3o<br \/>\nmaliciou nada. Estava padecendo de fome por\u00e9m a sombra n\u00e3o.<br \/>\ndeixava ele comer. Tudo o que Macuna\u00edma pegava ela engolia, tamorita<br \/>\nmangarito inhame birib\u00e1 caju\u00ed guiamb\u00ea guac\u00e1 uxi<br \/>\ning\u00e1 bacuri cupua\u00e7u pupunha tape-reb\u00e1 graviola grumixama,<br \/>\ntodas essas comidas do mato. Ent\u00e3o Macuna\u00edma foi pescar porque<br \/>\nagora n\u00e3o tinha mais ningu\u00e9m que pescasse pra ele n\u00e3o.<br \/>\nMas cada peixe que tirava do anzol e jogava no paneiro, a som bra pulava do<br \/>\nombro, engolia o peixe e voltava pro poleiro outra vez. O her\u00f3i matutou:<br \/>\n&#8220;Deixa estar que te arranjo!&#8221; Quando peixe pegou, Macuna\u00edma<br \/>\nfez um esfor\u00e7o her\u00f3ico, deu um bruto arranco na vara de for<br \/>\nmas que o impulso fez o peixe ir parar l\u00e1 na Guiana. A sombra correu<br \/>\natr\u00e1s do peixe. Ent\u00e3o Macuna\u00edma gavionou mato fora no<br \/>\nsentido oposto. Quando a sombra voltou, n\u00e3o achando mais o mano disparou<br \/>\nno rasto dele. Depois de correr um pouco, atravessar a terra dos \u00edndios<br \/>\ntatus-brancos e pegar um susto tama nho que passou sem pedir licen\u00e7a<br \/>\nentre a sombra de Jorge Velho e a sombra do Zumbi que estavam dis cutindo,<br \/>\no her\u00f3i fatigad\u00edssimo, olhou pra tr\u00e1s e viu que a sombra<br \/>\nj\u00e1 vinha chegando. Estava na Para\u00edba e t\u00e3o sem vontade<br \/>\nde chispar que parou. Era por causa do her\u00f3i estar impaludado. Perto<br \/>\nhavia uns trabalhadores destruindo formigueiros para construir um a\u00e7ude.<br \/>\nMacuna\u00edma pediu \u00e1gua pra eles. N\u00e3o tinha nem gota por\u00e9m<br \/>\nderam raiz de umbu. O her\u00f3i matou a sede dos legornes, agradeceu e<br \/>\ngritou: Diabo leve quem trabalha! Os trabalhadores estumaram a cachorrada<br \/>\nno he r\u00f3i. Isso mesmo que ele queria porque teve medo e chispou bem.<br \/>\nNa frente abria a estrada das boiadas. Macuna\u00edma isso vinha que vinha<br \/>\nacochado pela som bra, nem turtuveou: meteu pelo estrad\u00e3o. Mais adiante<br \/>\nestava dormindo um boi malabar chamado Esp\u00e1cio que viera do Piau\u00ed.<br \/>\nO her\u00f3i deu um trompa\u00e7o nele de tanta f\u00faria. Isso o boi<br \/>\nsaiu numa galopada louca de susto e l\u00e1 foi cego manadeiro abaixo. Ent\u00e3o<br \/>\nMacuna\u00edma que brou por uma picada sem jeito e se amoitou por de baixo<br \/>\ndum mucumuco. A sombra escutava a bulha do marru\u00e1 galopeando e imaginou<br \/>\nque era Macuna\u00edma, foi atr\u00e1s. Alcan\u00e7ou o boi e pra n\u00e3o<br \/>\nperder a pernada fez poleiro no costado dele. E cantava satisfeita: &#8220;Meu<br \/>\nboi bonito, Boi Alegria, D\u00e1 um adeus Pra toda a fam\u00edlia!<\/p>\n<p>\u00f4h&#8230; \u00eah bumba, Folga meu boi! \u00d4h&#8230; \u00eah bumba, Folga<br \/>\nmeu boi!&#8221;<\/p>\n<p>Por\u00e9m nunca mais que o boi p\u00f4de comer, a sombra engolia tudo<br \/>\nantes do bicho. Ent\u00e3o o marru\u00e1 foi fican do jururu ficando jururu<br \/>\nmagru\u00e7o e lerdo. Quando passou pelo rinc\u00e3o chamado \u00c1gua<br \/>\nDoce perto de Guarapes, o boi mirou sarapantado bem no meio do are\u00e3o<br \/>\na vista linda, um laranjal cheio de sombra com a ga linha ciscando por baixo.<br \/>\nEra sinal de morte&#8230; A sombra desenganada cantava agora: &#8220;Meu boi bonito,<br \/>\nBoi desengano, D\u00e1 um adeus, At\u00e9 para o ano!<\/p>\n<p>&#8211; \u00f4h.-.. \u00eah bumba, Folga meu boi!&#8221; \u00f4h&#8230; \u00eah<br \/>\nbumba, Folga meu boi!<\/p>\n<p>No outro dia o marru\u00e1 estava morto. Foi esverdeando esverdeando&#8230;<br \/>\nA sombra muito penarosa se consolava cantando assim:<\/p>\n<p>&#8220;O meu boi morreu, Qu\u00ea ser\u00e1 de mim? Manda buscar outro,<br \/>\n\u2014 Maninha, L\u00e1 no Bom Jardim&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>E o Bom Jardim era uma est\u00e2ncia do Rio Grande do Sul. Ent\u00e3o<br \/>\nveio vindo uma giganta que gostava de brincar com o marru\u00e1. Viu o boi<br \/>\nmorto,-chorou bem e quis levar o cad\u00e1ver pra ela.<\/p>\n<p>A sombra teve raiva e cantou:<\/p>\n<p>&#8220;Arretira-te, giganta, Que o caso est\u00e1 perigoso! Quem se arretirou<br \/>\namante az a\u00e7\u00e3o de generoso!&#8221;<\/p>\n<p>A giganta agradeceu e foi-se embora dan\u00e7ando. Ent\u00e3o passou<br \/>\npor ali o indiv\u00edduo chamado Manuel da Lapa carregado de folha de cajueiro<br \/>\ne de rama de al god\u00e3o. A sombra saudou o conhecido: &#8220;Seu Manu\u00e9<br \/>\nque vem do A\u00e7u, Seu Manu\u00e9 que vem do A\u00e7u, Vem carregadinho<br \/>\nde folha de caju!<\/p>\n<p>Seu Manu\u00e9 que vem do sert\u00e3o, Seu Manu\u00e9 que vem do sert\u00e3o,<br \/>\nVem carregadinho de rama de algod\u00e3o!&#8221;<\/p>\n<p>Manuel da Lapa ficou muito concho com a sauda \u00e7\u00e3o e pra agradecer<br \/>\ndan\u00e7ou um sapateado e cobriu o cad\u00e1ver com a folha de caju e<br \/>\na rama de algod\u00e3o.<\/p>\n<p>O velho j\u00e1 estava tirando a noite do buraco e a sombra toda confundida<br \/>\nn\u00e3o via mais o boi debaixo dos flocos e da folhagem. Principiou dan\u00e7ando<br \/>\n\u00e0 procura dele. Um vaga-lume se admirou daquilo e cantou per guntando:<\/p>\n<p>&#8220;Linda pastorinha Que fazeis aqui?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Vim buscar meu gado, Maninha, Que eu aqui perdi&#8221;.<\/p>\n<p>Foi como a sombra secundou cantando. Ent\u00e3o o vaga-lume dan\u00e7ando<br \/>\nvoou do tronco pra baixo e mos trou o boi pra sombra. Ela trepou na barriga<br \/>\nverde do morto e ficou chorando ali.<\/p>\n<p>No outro dia o boi estava podre. Ent\u00e3o vieram muitos urubus, veio<br \/>\no urubu-camiranga, veio o urubu-jeregua o urubu-peba o urubu-ministro o urubu-tinga<br \/>\nque s\u00f3 come olhos e l\u00edngua, todos esses cabe\u00e7as-peladas<br \/>\ne principiaram dan\u00e7ando de contentes. O mai&amp; grande puxava a dan\u00e7a<br \/>\ncantando: &#8220;Urubu \u00e9 passo feio feio feio! Urubu \u00e9 passo<br \/>\nlimpo limpo limpo&#8221;!<\/p>\n<p>E era o urubu-ruxama, urubu-rei, o Pai do Urubu. Ent\u00e3o mandou um urubuzinho<br \/>\npi\u00e1 entrar dentro do boi para ver si j\u00e1 estava bem podre. O<br \/>\nurubuzinho fez. En trou por uma porta e saiu por outra dizendo que sim e todos<br \/>\nfizeram a festa juntos dan\u00e7ando e cantando: &#8220;Meu boi bonito, Boi<br \/>\nZebedeu, Corvo avoando, Boi que morreu.<\/p>\n<p>\u00d4h&#8230; \u00eah bumba, Folga meu boi! \u00d4h&#8230; \u00eah bumba, Folga<br \/>\nmeu boi!&#8221;<\/p>\n<p>E foi assim que inventaram a festa famanada do Bumba-meu-Boi, tamb\u00e9m<br \/>\nconhecida por Boi-Bumb\u00e1.<\/p>\n<p>A sombra teve raiva de estarem comendo o boi dela e pulou no ombro do urubu-ruxama.<br \/>\nO Pai do Urubu ficou muito satisfeito e gritou: \u2014 Achei companhia pra<br \/>\nminha cabe\u00e7a, gente! E vou pra altura. Desde esse dia o urubu-ruxama<br \/>\nque \u00e9 o Pai do Urubu possui duas cabe\u00e7as. A som bra leprosa<br \/>\n\u00e9 a cabe\u00e7a da esquerda. De primeiro o urubu-rei tinha s\u00f3<br \/>\numa cabe\u00e7a.<\/p>\n<h4><a name=\"16\"><\/a>XVI &#8211; Uraricoera<\/h4>\n<p>NO outro dia Macuna\u00edma amanheceu com muita tosse e uma febrinha sem<br \/>\nparada. Maanape desconfiou e foi fazer um cozimento de broto de abacate, imagi<br \/>\nnando que o her\u00f3i estava h\u00e9tico. Em vez era impalu dismo, e<br \/>\na tosse viera s\u00f3 por causa da laringite que toda a gente carrega de<br \/>\nS\u00e3o Paulo. Agora Macuna\u00edma passava as horas deitado de borco<br \/>\nna proa da igarit\u00e9 e nunca mais que havia de sarar. Quando a princesa<br \/>\nn\u00e3o podia mais e vinha pra brincarem, o her\u00f3i at\u00e9 uma<br \/>\nvez recusou suspirando: \u2014 Ara&#8230; que pregui\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>No outro dia atingiram as cabeceiras dum rio e escutaram perto o ruidejar<br \/>\ndo Uraricoera. Era ali. Um passarinho serigaita trepado na munguba, enxergando<br \/>\no farrancho gritou logo: \u2014 Sinh\u00e1 dona do porto, d\u00e1 caminho<br \/>\npra mim passar! Macuna\u00edma agradeceu feliz. De p\u00e9 ele assuntava<br \/>\na paisagem passando. Veio vindo o forte S\u00e3o Joaquim erguido pelo mano<br \/>\ndo grande Marqu\u00eas. Macuna\u00edma deu um t\u00e9-logo pro cabo e<br \/>\npro soldado que s\u00f3 possu\u00edam um naco esfarrapado de culote e<br \/>\no bon\u00e9 na cabe\u00e7a e viviam guardando as sa\u00favas dos canh\u00f5es.<br \/>\nAfinal ficou tudo conhecid\u00edssimo. Se enxergou o cerro manso que fora<br \/>\nm\u00e3e um dia, no lugar chamado Pai da Tocandeira, se enxergou o pau\u00ea<br \/>\ntrapacento malhado de vit\u00f3rias-r\u00e9gias escondendo os puraqu\u00eas<br \/>\ne os piti\u00fas e pra diante do be bedouro da anta se viu o ro\u00e7ado<br \/>\nvelho agora uma tig\u00fcera e a maloca velha agora uma tapera. Macuna\u00edma<br \/>\nchorou.<\/p>\n<p>Abicaram e entraram na tapera. Vinha a b\u00f4ca-da-noite. Maanape com<br \/>\nJigu\u00ea resolveram fazer uma facheada pra pegarem algum peixe e a princesa<br \/>\nfoi ver si topava com algum arezi pra comerem. O her\u00f3i ficou descansando.<br \/>\nEstava assim quando sentiu no ombro um peso de m\u00e3o. Virou a cara e<br \/>\nolhou. Junto dele estava um velho de barba. O velho falou: \u2014 Quem \u00e9s<br \/>\ntu, nobre estrangeiro? \u2014 N\u00e3o sou estranho n\u00e3o, conhecido.<br \/>\nSou Macuna\u00edma o her\u00f3i e vim parar de novo na terra dos meus.<br \/>\nVoc\u00ea quem \u00e9? O velho afastou os mosquitos com amargura e secundou:<br \/>\n\u2014 Sou Jo\u00e3o Ramalho.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Jo\u00e3o Ramalho enfiou dois dedos na boca e assoviou. Apareceram<br \/>\na mulher dele as quinze fam\u00ed lias de escadinha. E l\u00e1 partiram<br \/>\nde mudan\u00e7a buscando pagos novos sem ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>No outro dia bem cedinho foram todos trabucar. A princesa foi no ro\u00e7ado<br \/>\nMaanape foi no mato e Jigu\u00ea foi no rio. Macuna\u00edma se desculpou,<br \/>\nsubiu na montaria e deu uma chegadinha at\u00e9 a boca do rio Negro pra<br \/>\nbuscar a consci\u00eancia deixada na ilha de Marapat\u00e1. Jacar\u00e9<br \/>\nachou? nem ele. Ent\u00e3o o her\u00f3i pegou na cons ci\u00eancia dum<br \/>\nhispanoamericano, botou na cabe\u00e7a e se deu bem da mesma forma.<\/p>\n<p>Passava uma piracema de jaraquis. Macuna\u00edma agarrou pescando e distra\u00eddo<br \/>\ndistra\u00eddo quando viu es tava em \u00d3bidos, a montaria cheinha de<br \/>\npeixes frescos. Mas o her\u00f3i foi obrigado a atirar tudo fora porque<br \/>\nem \u00d3bidos &#8220;quem come j ar aqui fica aqui&#8221; falam e ele ti<br \/>\nnha que voltar pro Uraricoera. Voltou e como era ainda o pino do dia deitou<br \/>\nna sombra da ingazeira catou os carrapatos e dormiu. Tarde chegando todos<br \/>\nvoltaram pra tapera s\u00f3 Macuna\u00edma n\u00e3o. Os outros sa\u00edram<br \/>\npra esperar. Jigu\u00ea se acocorou botando a orelha no ch\u00e3o pra ver<br \/>\nsi escutava o passinho do her\u00f3i, nada. Maanape trepou no grelo duma<br \/>\ninaj\u00e1 pra ver si enxer gava o brilho dos brincos do her\u00f3i, nada.<br \/>\nEnt\u00e3o sa\u00edram por mato e capoeira gritando: \u2014 Macuna\u00edma,<br \/>\nnosso mano!&#8230;<\/p>\n<p>Nada. Jigu\u00ea chegou debaixo da ingazeira e gritou: \u2014 Nosso mano!<br \/>\n\u2014 Que foi! \u2014 Voc\u00ea, aposto que j\u00e1 estava dormindo!<br \/>\n\u2014 Dormindo nada, ent\u00e3o! Estava mas era nega ceando um inambu-gua\u00e7u.<br \/>\nVoc\u00ea fez bulha, nhambu escapoliu! Voltaram. E assim todos os dias. Os<br \/>\nmanos an davam muito desconfiados. Macuna\u00edma percebeu e disfar\u00e7ou<br \/>\nbem: \u2014 Eu ca\u00e7o por\u00e9m n\u00e3o acho nada n\u00e3o.<br \/>\nJigu\u00ea nem ca\u00e7a nem pesca, passa o dia dormindo.<\/p>\n<p>Jigu\u00ea teve raiva porque peixe andava rareando e ca\u00e7a inda mais.<br \/>\nFoi na praia do rio pra ver si pescava alguma coisa e topou com o feiticeiro<br \/>\nTzal\u00f3 que tem uma perna s\u00f3. O catimbozeiro possu\u00eda uma<br \/>\ncaba\u00e7a encantada feita com a metade duma casca de gerimum. Mergulhou<br \/>\na caba\u00e7a no rio, encheu de \u00e1gua at\u00e9 o meio e despejou<br \/>\nna praia. Caiu um desprop\u00f3sito de peixe. Jigu\u00ea reparou bem como<br \/>\nque o feiticeiro fazia. Tzal\u00f3 largou da caba\u00e7a por a\u00ed<br \/>\ne principiou matando peixe com um porrete. Ent\u00e3o Jigu\u00ea roubou<br \/>\na caba\u00e7a do fei ticeiro Tzal\u00f3 que tem uma perna s\u00f3.<\/p>\n<p>Mais pra diante fez que-nem tinha reparado e veio muito peixe, veio pirandira<br \/>\nveio pacu veio cascudo veio bagre jundi\u00e1 tucunar\u00e9, todos esses<br \/>\npeixes e Jigu\u00ea vol tou carregado pra tapera depois de esconder a caba\u00e7a<br \/>\nna raiz do cip\u00f3. Todos ficaram sarapantados com aquele mundo de peixe<br \/>\ne comeram bem. Macuna\u00edma desconfiou.<\/p>\n<p>No outro dia esperou com o olho esquerdo dor mindo que Jigu\u00ea fosse<br \/>\npescar, saiu atr\u00e1s. Descobriu tudo. Quando o mano foi-se embora Macuna\u00edma<br \/>\nlar gou da gaiola com os legornes no ch\u00e3o pegou na caba\u00e7a escondida<br \/>\ne fez que-nem o mano. Isso vieram muitos peixes, veio acar\u00e1 veio piracanjuba<br \/>\nveio avi\u00fa guri-juba, piramutaba mandi surubim, todos esses peixes.<br \/>\nMacuna\u00edma atirou a caba\u00e7a por a\u00ed, na pressa de matar<br \/>\ntodos os peixes, caba\u00e7a caiu numa lapa e juque! mer gulhou no rio.<br \/>\nPassava a pirandira chamada Padz\u00e1. Imaginou que era abobra e engoliu<br \/>\na caba\u00e7a que virou na beixiga de Padz\u00e1. Ent\u00e3o Macuna\u00edma<br \/>\nenfiou a gaiola no bra\u00e7o voltou pra tapera e contou o sucedido. Jigu\u00ea<br \/>\nteve raiva.<\/p>\n<p>\u2014 Cunhada princesa, eu que pesco, seu compa nheiro fica dormindo em<br \/>\nbaixo da ingazeira e inda atra palha os outros! \u2014 Mentira! \u2014 Ent\u00e3o<br \/>\no que voc\u00ea fez hoje? \u2014 Cacei viado.<\/p>\n<p>\u2014 Qu\u00ea-dele ele! \u2014 Comi, uai! Fui andando por um caminho,<br \/>\nvai, topei rasto dum&#8230; catingueiro n\u00e3o era n\u00e3o mas era mateiro.<br \/>\nMe agachei e fui no rasto. Olhando olhando, sabe, dei uma cabe\u00e7ada<br \/>\nnuma coisa mole, que engra \u00e7ado! sabem o que era! pois a bunda do viado,<br \/>\ngente! (Macuna\u00edma deu uma grande gargalhada). Viado per guntou pra<br \/>\nmim: \u2014 Que est\u00e1 fazendo a\u00ed, parente!, \u2014 Te campeando!<br \/>\nsecundei. E vai, matei o catingueiro que comi com tripa e tudo. Vinha trazendo<br \/>\num naco pra voc\u00eas, vai, escorreguei atravessando o ipu, dei um tombo,<br \/>\nnaco foi parar longe e tanajura sujou nele.<\/p>\n<p>A peta era tamanha que Maanape desconfiou. Maanape era feiticeiro. Chegou<br \/>\nbem rente do mano e perguntou: \u2014 Voc\u00ea foi na ca\u00e7a? \u2014<br \/>\nQuer dizer&#8230; fui sim.<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea voc\u00ea ca\u00e7ou? \u2014 Viado.<\/p>\n<p>\u2014 Qual! Maanape fez um grande gesto. O her\u00f3i piscou de medo<br \/>\ne confessou que tudo era lorota.<\/p>\n<p>No outro dia Jigu\u00ea estava procurando a caba\u00e7a quando topou<br \/>\ncom o tatu-canastra feiticeiro chamado Caic\u00e3e que nunca teve m\u00e3e.<br \/>\nCaic\u00e3e sentado na porta da toca puxou a violinha dele feita com a outra<br \/>\nmetade da abobra encantada e agarrou cantando assim:<\/p>\n<p>&#8220;Vote vote coandu! Vote vote cuati! Vote vote tai\u00e7u! Vote vote<br \/>\npacari! Vote vote cangu\u00e7u! \u00cah!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Assim. Vieram muitas ca\u00e7as. Jigu\u00ea, reparando. Caic\u00e3e<br \/>\natirou a violinha encantada por a\u00ed, pegou num porrete e foi matar todo<br \/>\naquele poder de ca\u00e7as que esta vam feito bobas. Ent\u00e3o Jigu\u00ea<br \/>\nroubou a violinha do feiticeiro Caic\u00e3e que nunca teve m\u00e3e.<\/p>\n<p>Mais pra diante cantou que nem tinha escutado e veio um dil\u00favio de<br \/>\nca\u00e7a parando na frente dele. Jigu\u00ea voltou carregado pra tapera<br \/>\ndepois de esconder a violi nha na raiz de outro cip\u00f3. Todos tornaram<br \/>\na se espan tar e comeram bem. Macuna\u00edma tornou a desconfiar.<\/p>\n<p>No outro dia esperou com o olho esquerdo dor mindo que Jigu\u00ea partisse,<br \/>\nfoi atr\u00e1s. Descobriu tudo. Quando o mano voltou pra tapera Macuna\u00edma<br \/>\npegou na violinha, fez talequal reparara e veio uma imund\u00edcie de ca\u00e7a,<br \/>\nviados cotias tamandu\u00e1s capivaras tatus aperemas pacas graxains lontras<br \/>\nmu\u00e7u\u00e3s catetos monos tejus queixadas antas, a anta sabatira,<br \/>\non\u00e7as, a on\u00e7a pinima a papa-viado a jaguatirica, su\u00e7uarana<br \/>\ncangu\u00e7u pixuna, isso era uma imund\u00edcie de ca\u00e7as! O her\u00f3i<br \/>\nteve medo daquela bicharada tamanha e saiu numa carreira m\u00e3e pinchando<br \/>\na violinha longe. A gaiola enfiada no bra\u00e7o dele ia batendo nos paus<br \/>\ne o galo com a galinha faziam um cacarejo de ensurdecer. O her\u00f3i imaginava<br \/>\nque era a bicharia e disparava mais.<\/p>\n<p>A violinha caiu no dente de um queixada que tinha umbigo nas costas e se<br \/>\npartiu em dez vezes dez peda\u00e7os que os bichos engoliram pensando que<br \/>\nera gerimum. Os peda\u00e7os viraram nas bexigas das ca\u00e7as.<\/p>\n<p>O her\u00f3i estourou tapera a dentro feito um desespe rado botando os<br \/>\nbofes pela boca. Nem bem p\u00f4de res pirar contou o sucedido. Jigu\u00ea<br \/>\nteve \u00f3dio e falou: \u2014 Agora que n\u00e3o ca\u00e7o nem pesco<br \/>\nmais! E foi dormir. Todos principiaram curtindo fome. Bem que pediam por\u00e9m<br \/>\nJigu\u00ea pulava na rede e fechava os olhos. O her\u00f3i jurou vingan\u00e7a.<br \/>\nFingiu um anzol com presa de sucuri e falou pro feiti\u00e7o: \u2014 Anzol<br \/>\nde mentira, si mano Jigu\u00ea vier experi mentar voc\u00ea, ent\u00e3o<br \/>\nentra na m\u00e3o dele.<\/p>\n<p>Jigu\u00ea n\u00e3o podia dormir de tanta fome e enxer gando o anzol<br \/>\nfalou pro mano: \u2014 Mano, esse anzol \u00e9 bom? \u2014 Xispete\u00f3!<br \/>\nMacuna\u00edma fez e continuou lim pando a gaiola.<\/p>\n<p>Jigu\u00ea decidiu ir numa pescaria porque estava mes mo curtindo fome,<br \/>\nfalou: \u2014 Deixa ver si anzol \u00e9 bom.<\/p>\n<p>Pegou no feiti\u00e7o e experimentou na palma da m\u00e3o. O dente de<br \/>\nsucuri entrou na pele e despejou todo o veneno l\u00e1. Jigu\u00ea correu<br \/>\npro matinho e bem que mastigou e engoliu maniveira, n\u00e3o vale de nada.<br \/>\nEnt\u00e3o foi bus car uma cabe\u00e7a de anhuma que fora encostada em<br \/>\npi cada de cobra. P\u00f4s na m\u00e3o. N\u00e3o valeu de nada. Ve neno<br \/>\nvirou numa ferida leprosa e principiou comendo Jigu\u00ea. Primeiro comeu<br \/>\num bra\u00e7o depois metade do corpo depois as pernas depois a outra metade<br \/>\ndo corpo depois o outro bra\u00e7o depois o pesco\u00e7o e a cabe\u00e7a.<br \/>\nS\u00f3 ficou a sombra de Jigu\u00ea.<\/p>\n<p>A princesa teve \u00f3dio. \u00c9 que ela andava ultima mente brincando<br \/>\ncom Jigu\u00ea. Macuna\u00edma bem que per cebeu por\u00e9m imaginou:<br \/>\n&#8220;Plantei mandioca nasceu maniva, de ladr\u00e3o de casa ningu\u00e9m<br \/>\nse priva, paci\u00ean cia! &#8230;&#8221; E tinha encolhido os ombros. A princesa<br \/>\nraivosa falou pra sombra: \u2014 Quando o her\u00f3i for passear de fome<br \/>\nvoc\u00ea vira num cajueiro numa bananeira e num churrasco de viado.<\/p>\n<p>A sombra era envenenada por causa da lepra e a princesa queria matar Macuna\u00edma.<\/p>\n<p>No outro dia o her\u00f3i acordou com tanta fome que foi espairecer passeando.<br \/>\nTopou com um cajueiro cheio de frutas. Quis comer por\u00e9m presenciou<br \/>\nque era a sombra leprosa e passou adiante. L\u00e9gua e meia depois topou<br \/>\ncom um churrasco de viado fumegando. J\u00e1 estava roxo de fome por\u00e9m<br \/>\np\u00f4s reparo que o chur rasco era a sombra leprosa e passou adiante. L\u00e9gua<br \/>\ne meia depois topou com uma bananeira carregadinha de pencas maduras. Mas<br \/>\nagora o her\u00f3i j\u00e1 estava que vinha vesgo de tanta fome. A vesgueira<br \/>\nfez ele enxergar dum lado a sombra do mano e do outro a bananeira.<\/p>\n<p>\u2014 Arre que posso comer! fez.<\/p>\n<p>E devorou todas as pencas. E as bananas eram a sombra leprosa do mano Jigu\u00ea.<br \/>\nMacuna\u00edma ia morrer. Ent\u00e3o se lembrou de passar a doen\u00e7a<br \/>\nnos outros pra n\u00e3o morrer sozinho. Pegou numa formiga sa\u00fava<br \/>\ne es fregou bem ela na ferida do nariz, formiga j\u00e1 foi gente que nem<br \/>\nn\u00f3s e a sa\u00fava ficou leprosa. Ent\u00e3o o her\u00f3i agarrou<br \/>\na formiga jaguataci e fez o mesmo. Jaguataci ficou leprosa tamb\u00e9m.<br \/>\nEnt\u00e3o foi a vez da formiga aqueque devoradora de sementes e da formiga<br \/>\nguiqu\u00e9m, da formiga tracu\u00e1 e da formiga mumbuca bem preta, todas<br \/>\nficaram leprosas. N\u00e3o tinha mais formigas em redor do her\u00f3i<br \/>\nsentado. Ele ficou com pregui\u00e7a de es tender o bra\u00e7o porque<br \/>\nj\u00e1 estava moribundo. Esperou a visita da sa\u00fade, criou for\u00e7a<br \/>\ne pegou no mosquito birig\u00fci mordendo o joelho dele. Passou a doen\u00e7a<br \/>\nno mosquito birig\u00fci. Por isso que agora quando esse mosquito morde a<br \/>\ngente, entra na pele, atravessa o corpo e sai do outro lado enquanto o furinho<br \/>\nde entrada vira na bereva medonha chamada chaga-de-Bauru.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma tinha passado a lepra em sete outras gentes e ficou s\u00e3o<br \/>\nno sufragante, voltando pra tapera. A sombra de Jigu\u00ea conferiu que o<br \/>\nher\u00f3i era muito inte ligente e quis voltar desesperada pra junto da<br \/>\nfam\u00edlia. Era j\u00e1 de-noite e se confundindo com a escureza a som<br \/>\nbra n\u00e3o achava mais o caminho perto. Sentou numa pedra e berrou: \u2014<br \/>\nFoguinho, cunhada princesa! A princesa coxeando muito porque estava doente<br \/>\nde zamparina veio com um ti\u00e7\u00e3o aluminando caminho. A sombra<br \/>\nengoliu o fogo e a cunhada. Berrou de novo: \u2014 Foguinho, mano Maanape!<br \/>\nMaanape veio logo com outro ti\u00e7\u00e3o alumiando ca minho. E se arrastava<br \/>\nmolengo porque barbeiro chu para sangue dele e Maanape estava opilado. A som<br \/>\nbra engoliu fogo e mano Maanape. Berrou: \u2014 Foguinho, mano Macuna\u00edma!<br \/>\nQueria engolir o her\u00f3i tamb\u00e9m mas Macuna\u00edma percebendo<br \/>\no que sucedera pro mano e pra companheira encostou a porta e ficou bem quieto<br \/>\nna tapera. A som bra pedia foguinho, pedia por\u00e9m n\u00e3o recebendo<br \/>\nres posta se lastimou at\u00e9 madrugada&#8221;. Ent\u00e3o Capei apare<br \/>\nceu iluminando a terra e a leprosa p\u00f4de chegar na tapera. Sentou na<br \/>\ncangerana da soleira e esperou o dia pra se vingar do mano.<\/p>\n<p>De-manh\u00e3 inda estava acocorada ali. Macuna\u00edma acordou e escutou.<br \/>\nN\u00e3o se ouvia nada e ele concluiu: \u2014 Arre! Foi-se! E saiu passear.<br \/>\nQuando passou pela porta a sombra trepou no ombro dele. O her\u00f3i n\u00e3o<br \/>\nmaliciou nada. Estava padecendo de fome por\u00e9m a sombra n\u00e3o.<br \/>\ndeixava ele comer. Tudo o que Macuna\u00edma pegava ela engolia, tamorita<br \/>\nmangarito inhame birib\u00e1 caju\u00ed guiamb\u00ea guac\u00e1 uxi<br \/>\ning\u00e1 bacuri cupua\u00e7u pupunha tape-reb\u00e1 graviola grumixama,<br \/>\ntodas essas comidas do mato. Ent\u00e3o Macuna\u00edma foi pescar porque<br \/>\nagora n\u00e3o tinha mais ningu\u00e9m que pescasse pra ele n\u00e3o.<br \/>\nMas cada peixe que tirava do anzol e jogava no paneiro, a som bra pulava do<br \/>\nombro, engolia o peixe e voltava pro poleiro outra vez. O her\u00f3i matutou:<br \/>\n&#8220;Deixa estar que te arranjo!&#8221; Quando peixe pegou, Macuna\u00edma<br \/>\nfez um esfor\u00e7o her\u00f3ico, deu um bruto arranco na vara de for<br \/>\nmas que o impulso fez o peixe ir parar l\u00e1 na Guiana. A sombra correu<br \/>\natr\u00e1s do peixe. Ent\u00e3o Macuna\u00edma gavionou mato fora no<br \/>\nsentido oposto. Quando a sombra voltou, n\u00e3o achando mais o mano disparou<br \/>\nno rasto dele. Depois de correr um pouco, atravessar a terra dos \u00edndios<br \/>\ntatus-brancos e pegar um susto tama nho que passou sem pedir licen\u00e7a<br \/>\nentre a sombra de Jorge Velho e a sombra do Zumbi que estavam dis cutindo,<br \/>\no her\u00f3i fatigad\u00edssimo, olhou pra tr\u00e1s e viu que a sombra<br \/>\nj\u00e1 vinha chegando. Estava na Para\u00edba e t\u00e3o sem vontade<br \/>\nde chispar que parou. Era por causa do her\u00f3i estar impaludado. Perto<br \/>\nhavia uns trabalhadores destruindo formigueiros para construir um a\u00e7ude.<br \/>\nMacuna\u00edma pediu \u00e1gua pra eles. N\u00e3o tinha nem gota por\u00e9m<br \/>\nderam raiz de umbu. O her\u00f3i matou a sede dos legornes, agradeceu e<br \/>\ngritou: Diabo leve quem trabalha! Os trabalhadores estumaram a cachorrada<br \/>\nno he r\u00f3i. Isso mesmo que ele queria porque teve medo e chispou bem.<br \/>\nNa frente abria a estrada das boiadas. Macuna\u00edma isso vinha que vinha<br \/>\nacochado pela som bra, nem turtuveou: meteu pelo estrad\u00e3o. Mais adiante<br \/>\nestava dormindo um boi malabar chamado Esp\u00e1cio que viera do Piau\u00ed.<br \/>\nO her\u00f3i deu um trompa\u00e7o nele de tanta f\u00faria. Isso o boi<br \/>\nsaiu numa galopada louca de susto e l\u00e1 foi cego manadeiro abaixo. Ent\u00e3o<br \/>\nMacuna\u00edma que brou por uma picada sem jeito e se amoitou por de baixo<br \/>\ndum mucumuco. A sombra escutava a bulha do marru\u00e1 galopeando e imaginou<br \/>\nque era Macuna\u00edma, foi atr\u00e1s. Alcan\u00e7ou o boi e pra n\u00e3o<br \/>\nperder a pernada fez poleiro no costado dele. E cantava satisfeita: &#8220;Meu<br \/>\nboi bonito, Boi Alegria, D\u00e1 um adeus Pra toda a fam\u00edlia!<\/p>\n<p>\u00f4h&#8230; \u00eah bumba, Folga meu boi! \u00d4h&#8230; \u00eah bumba, Folga<br \/>\nmeu boi!&#8221;<\/p>\n<p>Por\u00e9m nunca mais que o boi p\u00f4de comer, a sombra engolia tudo<br \/>\nantes do bicho. Ent\u00e3o o marru\u00e1 foi fican do jururu ficando jururu<br \/>\nmagru\u00e7o e lerdo. Quando passou pelo rinc\u00e3o chamado \u00c1gua<br \/>\nDoce perto de Guarapes, o boi mirou sarapantado bem no meio do are\u00e3o<br \/>\na vista linda, um laranjal cheio de sombra com a ga linha ciscando por baixo.<br \/>\nEra sinal de morte&#8230; A sombra desenganada cantava agora: &#8220;Meu boi bonito,<br \/>\nBoi desengano, D\u00e1 um adeus, At\u00e9 para o ano!<\/p>\n<p>&#8211; \u00f4h.-.. \u00eah bumba, Folga meu boi!&#8221; \u00f4h&#8230; \u00eah<br \/>\nbumba, Folga meu boi!<\/p>\n<p>No outro dia o marru\u00e1 estava morto. Foi esverdeando esverdeando&#8230;<br \/>\nA sombra muito penarosa se consolava cantando assim:<\/p>\n<p>&#8220;O meu boi morreu, Qu\u00ea ser\u00e1 de mim? Manda buscar outro,<br \/>\n\u2014 Maninha, L\u00e1 no Bom Jardim&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>E o Bom Jardim era uma est\u00e2ncia do Rio Grande do Sul. Ent\u00e3o<br \/>\nveio vindo uma giganta que gostava de brincar com o marru\u00e1. Viu o boi<br \/>\nmorto,-chorou bem e quis levar o cad\u00e1ver pra ela.<\/p>\n<p>A sombra teve raiva e cantou:<\/p>\n<p>&#8220;Arretira-te, giganta, Que o caso est\u00e1 perigoso! Quem se arretirou<br \/>\namante az a\u00e7\u00e3o de generoso!&#8221;<\/p>\n<p>A giganta agradeceu e foi-se embora dan\u00e7ando. Ent\u00e3o passou<br \/>\npor ali o indiv\u00edduo chamado Manuel da Lapa carregado de folha de cajueiro<br \/>\ne de rama de al god\u00e3o. A sombra saudou o conhecido: &#8220;Seu Manu\u00e9<br \/>\nque vem do A\u00e7u, Seu Manu\u00e9 que vem do A\u00e7u, Vem carregadinho<br \/>\nde folha de caju!<\/p>\n<p>Seu Manu\u00e9 que vem do sert\u00e3o, Seu Manu\u00e9 que vem do sert\u00e3o,<br \/>\nVem carregadinho de rama de algod\u00e3o!&#8221;<\/p>\n<p>Manuel da Lapa ficou muito concho com a sauda \u00e7\u00e3o e pra agradecer<br \/>\ndan\u00e7ou um sapateado e cobriu o cad\u00e1ver com a folha de caju e<br \/>\na rama de algod\u00e3o.<\/p>\n<p>O velho j\u00e1 estava tirando a noite do buraco e a sombra toda confundida<br \/>\nn\u00e3o via mais o boi debaixo dos flocos e da folhagem. Principiou dan\u00e7ando<br \/>\n\u00e0 procura dele. Um vaga-lume se admirou daquilo e cantou per guntando:<\/p>\n<p>&#8220;Linda pastorinha Que fazeis aqui?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Vim buscar meu gado, Maninha, Que eu aqui perdi&#8221;.<\/p>\n<p>Foi como a sombra secundou cantando. Ent\u00e3o o vaga-lume dan\u00e7ando<br \/>\nvoou do tronco pra baixo e mos trou o boi pra sombra. Ela trepou na barriga<br \/>\nverde do morto e ficou chorando ali.<\/p>\n<p>No outro dia o boi estava podre. Ent\u00e3o vieram muitos urubus, veio<br \/>\no urubu-camiranga, veio o urubu-jeregua o urubu-peba o urubu-ministro o urubu-tinga<br \/>\nque s\u00f3 come olhos e l\u00edngua, todos esses cabe\u00e7as-peladas<br \/>\ne principiaram dan\u00e7ando de contentes. O mai&amp; grande puxava a dan\u00e7a<br \/>\ncantando: &#8220;Urubu \u00e9 passo feio feio feio! Urubu \u00e9 passo<br \/>\nlimpo limpo limpo&#8221;!<\/p>\n<p>E era o urubu-ruxama, urubu-rei, o Pai do Urubu. Ent\u00e3o mandou um urubuzinho<br \/>\npi\u00e1 entrar dentro do boi para ver si j\u00e1 estava bem podre. O<br \/>\nurubuzinho fez. En trou por uma porta e saiu por outra dizendo que sim e todos<br \/>\nfizeram a festa juntos dan\u00e7ando e cantando: &#8220;Meu boi bonito, Boi<br \/>\nZebedeu, Corvo avoando, Boi que morreu.<\/p>\n<p>\u00d4h&#8230; \u00eah bumba, Folga meu boi! \u00d4h&#8230; \u00eah bumba, Folga<br \/>\nmeu boi!&#8221;<\/p>\n<p>E foi assim que inventaram a festa famanada do Bumba-meu-Boi, tamb\u00e9m<br \/>\nconhecida por Boi-Bumb\u00e1.<\/p>\n<p>A sombra teve raiva de estarem comendo o boi dela e pulou no ombro do urubu-ruxama.<br \/>\nO Pai do Urubu ficou muito satisfeito e gritou: \u2014 Achei companhia pra<br \/>\nminha cabe\u00e7a, gente! E vou pra altura. Desde esse dia o urubu-ruxama<br \/>\nque \u00e9 o Pai do Urubu possui duas cabe\u00e7as. A som bra leprosa<br \/>\n\u00e9 a cabe\u00e7a da esquerda. De primeiro o urubu-rei tinha s\u00f3<br \/>\numa cabe\u00e7a.<\/p>\n<h4><a name=\"17\"><\/a>XVII &#8211; Ursa Maior<\/h4>\n<p>Macuna\u00edma se arrastou at\u00e9 a tapera sem gente agora. Estava<br \/>\nmuito contrariado porque n\u00e3o com preendia o sil\u00eancio. Ficara<br \/>\ndefunto sem choro, no aban dono completo. Os manos tinham ido-se embora trans<br \/>\nformados na cabe\u00e7a esquerda do urubu-ruxama e nem siquer a gente encontrava<br \/>\ncunhas por ali. O sil\u00eancio principiava cochilando a beira-rio do Uraricoera.<br \/>\nQue enfaro! E principalmente, ah!&#8230; que pregui\u00e7a!&#8230;<\/p>\n<p>Macuna\u00edma foi obrigado a abandonar a tapera cuja \u00faltima parede<br \/>\ntran\u00e7ada com palha de catol\u00e9 estava caindo. Mas o impaludismo<br \/>\nn\u00e3o lhe dava coragem nem pra construir um papiri. Trouxera a rede pro<br \/>\nalto dum teso onde tinha uma pedra com dinheiro enterrado por debaixo. Amarrou<br \/>\na rede nos dois cajueiros frondejando e n\u00e3o saiu mais dela por muitos<br \/>\ndias dormindo caceteado e comendo cajus. Que solid\u00e3o! O pr\u00f3prio<br \/>\ns\u00e9quito sarapintado se dissolvera. N\u00e3o v\u00ea que um ajuru-catinga<br \/>\npassara muito afobado por ali. Os papa gaios perguntaram pro parente onde<br \/>\nque ia.<\/p>\n<p>\u2014 Madurou milho na terra dos Ingleses, vou pra l\u00e1! Ent\u00e3o<br \/>\ntodos os papagaios foram comer milho na terra dos Ingleses. Por\u00e9m primeiro<br \/>\nviraram periquitos porque assim, comiam e os periquitos levavam a fama. S\u00f3<br \/>\nficara um arua\u00ed muito falador. Macuna\u00edma se con solou pensamenteando:<br \/>\n&#8220;O mal ganhado, diabo leva&#8230; paci\u00eancia&#8221;. Passava os dias<br \/>\nenfarado e se distra\u00eda fa zendo o p\u00e1ssaro repetir na fala da<br \/>\ntribo os casos que tinham sucedido pro her\u00f3i desde inf\u00e2ncia.<br \/>\nAaah &#8230; Macuna\u00edma bocejava escorrendo caju, muito mole na rede, com<br \/>\nas m\u00e3os pra tr\u00e1s fazendo cabeceiro, o casal de legornes empoleirado<br \/>\nnos p\u00e9s e o papagaio na bar riga. Vinha a noite. Aromado pelas frutas<br \/>\ndo cajuei ro o her\u00f3i ferrava no sono bem. Quando a arraiada vinha o<br \/>\npapagaio tirava o bico da asa e tomava o caf\u00e9 da manh\u00e3 devorando<br \/>\nas aranhas que de-noite fiavam as teias dos ramos pro corpo do her\u00f3i.<br \/>\nDepois falava: \u2014 Macuna\u00edma! O dorminhoco nem se mexia.<\/p>\n<p>\u2014 Macuna\u00edma! \u00f4h Macuna\u00edma! \u2014 Deixa a gente<br \/>\ndormir, arua\u00ed&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Acorda, her\u00f3i! \u00c9 de-dia! \u2014 Ah&#8230; que pregui\u00e7a!..<br \/>\n.<\/p>\n<p>\u2014 Pouca sa\u00fade e muita sa\u00fava, Os males do Brasil s\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>Macuna\u00edma dava uma grande gargalhada e cocava a cabe\u00e7a cheia<br \/>\nde pixilinga que \u00e9 piolho-de-galinha. Ent\u00e3o o papagaio repetia<br \/>\no caso aprendido na v\u00e9spera e Macuna\u00edma se orgulhava de tantas<br \/>\ngl\u00f3rias passadas. Dava entusiasmo nele e se punha contado pro arua\u00ed<br \/>\noutro caso mais pan\u00e7udo. E assim todos os dias.<\/p>\n<p>Quando a Papaceia que \u00e9 a estrela V\u00e9sper apa recia falando<br \/>\npras coisas irem dormir, o papagaio zan gava por causa da hist\u00f3ria<br \/>\nparando no meio. Uma feita ele insultou a estrela Papaceia. Ent\u00e3o Macuna\u00edma<br \/>\ncontou: \u2014 &#8220;N\u00e3o insulta ela n\u00e3o, arua\u00ed! Ta\u00edna-C\u00e3<br \/>\n\u00e9 bom. Ta\u00edna-C\u00e3 que \u00e9 a estrela Papaceia tem pena<br \/>\nda Terra e manda Emoron-P\u00f3dole dar o sossego do sono deste mundo pra<br \/>\ntodas essas coisas que podem ter sossego porque n\u00e3o possuem pensamento<br \/>\nque nem n\u00f3s. Ta\u00edna-C\u00e3 \u00e9 indiv\u00edduo tamb\u00e9m&#8230;<br \/>\nRelumeava l\u00e1 no campo vasto do c\u00e9u e a filha mais velha do morubixaba<br \/>\nZo zoia\u00e7a da tribo caraj\u00e1, solteirona chamada Imaer\u00f4 fa<br \/>\nlou assim: \u2014 Pai, Ta\u00edna-C\u00e3 relumeia t\u00e3o bonito<br \/>\nque eu quero me amulherar com ele.<\/p>\n<p>Zozoia\u00e7a riu bem por causa que n\u00e3o podia dar Ta\u00edna-C\u00e3<br \/>\nde casamento pra filha velha n\u00e3o. Vai, de-noite veio descendo o rio<br \/>\numa piroga de prata, um remeiro saltou dela, bateu no poial e falou pra Imaer\u00f4:<br \/>\n\u2014 Eu sou Ta\u00edna-C\u00e3. Escutei vosso pedido e vim numa piroga<br \/>\nde prata. Casa comigo por favor? \u2014 Sim, ela fez content\u00edssima.<\/p>\n<p>Deu a rede pro noivo e foi dormir com a mana mais nova se chamando Denaqu\u00ea.<\/p>\n<p>No outro dia quando Ta\u00edna-C\u00e3 pulou da rede to dos se sarapantaram.<br \/>\nEra uma coroca enrugado enru gado, tremelicando tanto feito a luz da estrela<br \/>\nPapa ceia. Vai, Imaer\u00f4 falou: \u2014 Cai fora, coroca! V\u00ea l\u00e1<br \/>\nsi vou casar com velho! Pra mim h\u00e1-de ser um mo\u00e7o mui brabo<br \/>\nmucudo e de na\u00e7\u00e3o caraj\u00e1! Ta\u00edna-C\u00e3 ficou<br \/>\njururu jururu e principiou imagi nando na injusti\u00e7a dos homens. Por\u00e9m<br \/>\na filha mais nova do morubixaba Zozoia\u00e7a teve pena do coroca e falou:<br \/>\n\u2014 Eu caso com voc\u00ea&#8230;<\/p>\n<p>Ta\u00edna-C\u00e3 brilhou de gozo. Ficaram ajustados. Denaqu\u00ea<br \/>\npreparando o enxoval cantava noite e dia: \u2014 Amanh\u00e3 por estas<br \/>\nhoras, furrum-fum-fum&#8230; Zozoia\u00e7a respondia: \u2014 Eu tamb\u00e9m<br \/>\ncom vossa m\u00e3e, furrum-fum-fum &#8230;<\/p>\n<p>Depois que se acabaram os dedos das vossas m\u00e3os, papagaio, que s\u00e3o<br \/>\nde espera pra noivo, na rede tran\u00e7a da por Denaqu\u00ea se brincou<br \/>\ndan\u00e7a de amor, furrum-fum-fum.<\/p>\n<p>Nem bem o dia estava rompendo a barra, Ta\u00edna-C\u00e3 pulou da rede<br \/>\ne falou pra companheira: \u2014 Vou derrubar mato pra fazer ro\u00e7ado.<br \/>\nAgora voc\u00ea fica no mocambo e nunca n\u00e3o vai na ro\u00e7a me<br \/>\nespiar.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, ela fez.<\/p>\n<p>E ficou na rede, matutando gozada naquele velhi nho esquisito que dera pra<br \/>\nela a noite mais gostosa de amor que a gente imagina.<\/p>\n<p>Ta\u00edna-C\u00e3 derrubou mato, botou fogo em todos os macurus de<br \/>\nformiga e preparou a terra. Naquele tem po inda a na\u00e7\u00e3o caraj\u00e1<br \/>\nn\u00e3o conhecia as plantas boas. Era s\u00f3 peixe e bicho que caraj\u00e1<br \/>\nengolia.<\/p>\n<p>Na outra madrugada Ta\u00edna-C\u00e3 falou pra compa nheira que ia<br \/>\nbuscar sementes pra semear e repetiu a proibi\u00e7\u00e3o. Denaqu\u00ea<br \/>\nficou deitada na rede inda um bo cado, matutando nas gostosuras valentes das<br \/>\nnoites de amor que o bom do coroca dava pra ela. E foi fiar.<\/p>\n<p>Ta\u00edna-C\u00e3 deu uma chegadinha no c\u00e9u, foi at\u00e9<br \/>\no corgo Ber\u00f4, fez ora\u00e7\u00e3o e botando uma perna em cada barreira<br \/>\ndo corgo esperou assuntando a \u00e1gua. Da\u00ed a pouco vieram vindo<br \/>\nno p\u00ealo da ag\u00fcinha as sementes do milho cururuca, o fumo, a maniveira,<br \/>\ntodas essas plan tas boas. Ta\u00edna-C\u00e3 apanhou o que passava, desceu<br \/>\ndo c\u00e9u e foi no ro\u00e7ado plantar. Estava trabucando na Sol quando<br \/>\nDenaqu\u00ea apareceu. Era por causa que ela de sodosa quis ver o companheiro<br \/>\ndando gostosuras t\u00e3o valentes pra ela nas noites de amor. Denaqu\u00ea<br \/>\ndeu um grito de alegria. Ta\u00edna-C\u00e3* n\u00e3o era coroca n\u00e3o!<br \/>\nTa\u00edna-C\u00e3 era mas um rapaz muito brabo mucudo e de na\u00e7\u00e3o<br \/>\ncaraj\u00e1. Fizeram um macio de fumo e de maniva e brincaram pulado na<br \/>\nSol.<\/p>\n<p>Quando voltaram pro mocambo muito se rindo um pro outro, Imaer\u00f4 ficou<br \/>\ntiririca. Gritou: \u2014 Ta\u00edna-C\u00e3 \u00e9 meu! Foi pra mim<br \/>\nque ele veio do c\u00e9u! \u2014 Sai azar! que Ta\u00edna-C\u00e3 falou.<br \/>\nQuando eu quis voc\u00ea n\u00e3o quis, pois agora brinque-se! E trepou<br \/>\nna rede com Denaqu\u00ea. Imaer\u00f4 desinfeliz suspirou assim: \u2014<br \/>\nDeixe estar jacar\u00e9, que a lagoa h\u00e1-de secar!&#8230; E saiu gritando<br \/>\npelo mato. Virou na ave araponga que grita amarelo de inveja no quiriri do<br \/>\nmato diurno. Desde ent\u00e3o por causa da bondade de Ta\u00edna-C\u00e3<br \/>\n\u00e9 que Caraj\u00e1 come mandioca e milho e possui fumo pra se animar.<\/p>\n<p>E tudo o que Caraj\u00e1 carecia, Ta\u00edna-C\u00e3 ia no c\u00e9u<br \/>\ne voltava trazendo. Pois n\u00e3o \u00e9 que Denaqu\u00ea, de ambicio<br \/>\nsa, deu pra namorar com todas as estrelinhas do c\u00e9u! Deu sim, e Ta\u00edna-C\u00e3<br \/>\nque \u00e9 a Papaceia enxergou tudo. Isso, at\u00e9 se orvalhou de t\u00e3o<br \/>\ntriste, pegou nos ter\u00e9ns e foi-se embora pro vasto campo do c\u00e9u.<br \/>\nFicou l\u00e1, trouxe mais nada n\u00e3o. Si a Papaceia continuasse trazendo<br \/>\nas coisas do outro lado de l\u00e1, c\u00e9u era aqui, nosso todinho.<br \/>\nAgora \u00e9 s\u00f3 do nosso desejo. Tem mais n\u00e3o&#8221;. O papagaio<br \/>\ndormia.<\/p>\n<p>Uma feita janeiro chegado Macuna\u00edma acordou tarde com o pio agourento<br \/>\ndo tincu\u00e3. No entanto era dia feito e a cerra\u00e7\u00e3o j\u00e1<br \/>\nentrara pro buraco&#8230; O her\u00f3i tremeu e apalpou o feiti\u00e7o que<br \/>\ntrazia no pesco\u00e7o, um ossinho de pi\u00e1 morto pag\u00e3o. Procurou<br \/>\no arua\u00ed, desapa recera. S\u00f3 o galo com a galinha brigando por<br \/>\ncausa duma aranha derradeira. Fazia um calor\u00e3o parado t\u00e3o imenso<br \/>\nque se escutava o sininho de vidro dos gafanho tos. Vei, a Sol, escorregava<br \/>\npelo corpo de Macuna\u00edma, fazendo cosquinhas, virada em m\u00e3o de.<br \/>\nmo\u00e7a. Era mal vadeza da vingarenta s\u00f3 por causa do her\u00f3i<br \/>\nn\u00e3o ter se amulherado com uma das filhas de luz. A m\u00e3o de mo\u00e7a<br \/>\nvinha e escorregava t\u00e3o de manso no corpo&#8230; Que vontade nos m\u00fasculos<br \/>\npela primeira vez espetados depois de tanto tempo! Macuna\u00edma se lembrou<br \/>\nque fazia muito n\u00e3o brincava. \u00c1gua fria diz que \u00e9 bom<br \/>\npra es pantar as vontades&#8230; O her\u00f3i escorregou da rede, tirou a penugem<br \/>\nde teia vestindo todo o corpo dele e descendo at\u00e9 o vale de L\u00e1grimas<br \/>\nfoi tomar banho num sacado perto que os repiquetes do tempo-das-\u00e1guas<br \/>\nti nham virado num lago\u00e3o.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma dep\u00f4s com delicadeza os legornes na praia e se chegou<br \/>\npra \u00e1gua. A lagoa estava toda cober ta de ouro e prata e descobriu<br \/>\no rosto deixando ver o que tinha no fundo. E Macuna\u00edma enxergou l\u00e1<br \/>\nno fun do uma cunha lind\u00edssima, alvinha e padeceu de mais vontade.<br \/>\nE a cunha lind\u00edssima era a Uiara.<\/p>\n<p>Vinha chegando assim como quem n\u00e3o quer, com muitas dan\u00e7as,<br \/>\npiscava pro her\u00f3i, parecia que dizia \u2014 &#8220;Cai fora, seu nhonh\u00f4<br \/>\nmo\u00e7o!&#8221; e fastava com muitas dan\u00e7as assim como quem n\u00e3o<br \/>\nquer. Deu uma vontade no her\u00f3i t\u00e3o imensa que alargou o corpo<br \/>\ndele e a boca umideceu: \u2014 Mani!. . .<\/p>\n<p>Macuna\u00edma queria a dona. Botava o ded\u00e3o n&#8217;\u00e1gua e num<br \/>\n\u00e1timo a lagoa tornava a cobrir o rosto com as teias de ouro e prata.<br \/>\nMacuna\u00edma sentia o frio da \u00e1gua, retirava o ded\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi assim muitas vezes. Se aproximava o pino do dia e Vei estava zangad\u00edssima.<br \/>\nTorcia pra Macuna\u00edma cair nos bra\u00e7os trai\u00e7oeiros da mo\u00e7a<br \/>\ndo lago\u00e3o e o her\u00f3i tinha medo do frio. Vei sabia que a mo\u00e7a<br \/>\nn\u00e3o era mo\u00e7a n\u00e3o, era a Uiara. E a Uiara vinha chegando<br \/>\noutra vez com muitas dan\u00e7as. Qu\u00ea boniteza que ela era!&#8230; Mo<br \/>\nrena e coradinha que-nem a cara do dia e feito o dia que vive cercado de noite,<br \/>\nela enrolava a cara nos ca belos curtos negros como as asas da gra\u00fana.<br \/>\nTinha no perfil duro um narizinho t\u00e3o mimoso que nem servia pra respirar.<br \/>\nPor\u00e9m como ela s\u00f3 se mostrava de frente e festava sem virar<br \/>\nMacuna\u00edma n\u00e3o via o buraco no cangote por onde a p\u00e9rfida<br \/>\nrespirava.. E o her\u00f3i inde ciso, vai-n\u00e3o-vai. Sol teve raiva.<br \/>\nPegou num rabo-de-tatu de calor\u00e3o e guascou o lombo do her\u00f3i.<br \/>\nA dona ali, diz-que abrindo os bra\u00e7os mostrando a gra\u00e7a fe chando<br \/>\nos olhos molenga. Macuna\u00edma sentiu fogo no espinha\u00e7o, estremeceu,<br \/>\nfez pontaria, se jogou feito em cima dela, juque! Vei chorou de vit\u00f3ria.<br \/>\nAs l\u00e1grimas ca\u00edram na lagoa num chuveiro de ouro e de ouro.<br \/>\nEra o pino do dia.<\/p>\n<p>Quando Macuna\u00edma voltou na praia se percebia que brigara muito l\u00e1<br \/>\nno fundo, Ficou de bru\u00e7os um tem p\u00e3o coma vida dependurada nos<br \/>\nrespiros fatigados. Es tava sangrando com mordidas pelo corpo todo, sem per<br \/>\nna direita, sem os ded\u00f5es sem os c\u00f4cos-da-Bahia sem orelhas sem<br \/>\nnariz sem nenhum dos seus tesouros. Afinal p\u00f4de se erguer. Quando deu<br \/>\ntento das perdas teve \u00f3dio de Vei. A galinha cacarejava deixando um<br \/>\novo na praia. Macuna\u00edma pegou nele e chimpou-o no car\u00e3o feliz<br \/>\nda Sol. O ovo esborrachou bem nas bochechas dela que \\ sujou-se de amarelo<br \/>\npra todo o sempre. Entardecia.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma sentou numa lapa que j\u00e1 fora jaboti nos tempos de<br \/>\ndantes e andou contando os tesouros per didos em baixo d&#8217;\u00e1gua. E eram<br \/>\nmuitos, era uma perna os ded\u00f5es, eram os c\u00f4cos-da-Bahia eram<br \/>\nas orelhas os dois brincos feitos com a m\u00e1quina pathek e a m\u00e1quina<br \/>\nsmith-wesson, o nariz todos esses tesouros&#8230; O her\u00f3i pulou dando um<br \/>\ngrito que encurtou o tamanho do dia. As piranhas tinham comido tamb\u00e9m<br \/>\no bei\u00e7o dele e a muiraquit\u00e3! Ficou feito louco.<\/p>\n<p>Arrancou uma montanha de timb\u00f3 de assac\u00fa de tingui de canamb\u00ed,<br \/>\ntodas essas plantas e envenenou pra sempre o lago\u00e3o. Todos os peixes<br \/>\nmorreram e ficaram boiando com a barriga pra cima, barrigas azuis barrigas<br \/>\namarelas barrigas rosadas, todas as barrigas sara) pintando a face da lagoa.<br \/>\nEra de-tardinha.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Macuna\u00edma destripou todos esses peixes, todas as piranhas<br \/>\ne todos os botos, caqueando a muraquit\u00e3 nas barrigas. Foi uma sangueira<br \/>\nm\u00e3e escorrendo sobre a terra e tudo ficou tinto de sangue. Era b\u00f4ca-da-noite.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma campeava campeava. Achou os dois brincos achou os ded\u00f5es<br \/>\nachou as orelhas os nuquiiri o nariz, todos esses tesouros e prendeu todos<br \/>\nnos lugares deles com sap\u00e9 e cola de peixe. Por\u00e9m a perna e<br \/>\na muiraquit\u00e3 n\u00e3o achou n\u00e3o. Tinham sido engolidos pelo<br \/>\nmonstro Ururau que n\u00e3o morre com timb\u00f3 nem pau. O sangue coalhara<br \/>\nnegro cobrindo a praia e o lago\u00e3o. Era de-noite.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma campeava campeava. Soltava grite de lamenta\u00e7\u00e3o<br \/>\nencurtando com a bulha o tamanho da bicharada. Nada. O her\u00f3i varava<br \/>\no campo, saltando na perna s\u00f3. Gritava: \u2014 Lembran\u00e7a! Lembran\u00e7a<br \/>\nda minha marvada n\u00e3o vejo nem ela nem voc\u00ea nem nada! E pulava<br \/>\nmais. As l\u00e1grimas pingavam dos olhinhos azuis dele sobre as florzinhas<br \/>\nbrancas do campo. As florzinhas tingiram de azul e foram os mios\u00f3tis.<br \/>\nO her\u00f3i n\u00e3o podia mais, parou. Cruzou os bra\u00e7os num desespero<br \/>\nt\u00e3o her\u00f3ico que tudo se alargou no espa\u00e7o pra conter<br \/>\no sil\u00eancio daquele penar. S\u00f3 um mosquitinho raquitiquinho infernizava<br \/>\ninda mais a disgra do her\u00f3i, zumbindo fininho: &#8220;Vim di Minas&#8230;<br \/>\nvim di Minas&#8230;&#8221; Ent\u00e3o Macuna\u00edma n\u00e3o achou mais<br \/>\ngra\u00e7a nesta terra. Capei bem nova relumeava l\u00e1 na gupiara do<br \/>\nc\u00e9u. Macuna\u00edma cismou inda meio indeciso, sem saber si morar<br \/>\nno c\u00e9u ou na ilha de Maraj\u00f3. Um momento pensou mesmo em morar<br \/>\nna cidade da Pedra com o en\u00e9rgico Delmiro Gouveia, por\u00e9m lhe<br \/>\nfaltou \u00e2nimo. Pra vi ver l\u00e1, assim como tinha vivido era imposs\u00edvel.<br \/>\nAt\u00e9 era por causa disso mesmo que n\u00e3o achava mais gra\u00e7a<br \/>\nna Terra&#8230; Tudo o que fora a exist\u00eancia dele apesar de tantos casos<br \/>\ntanta brincadeira tanta ilus\u00e3o tanto sofri: mento tanto hero\u00edsmo,<br \/>\nafinal n\u00e3o fora sin\u00e3o um se dei xar viver; e pra parar na cidade<br \/>\ndo Delmiro ou na ilha de Maraj\u00f3 que s\u00e3o desta Terra carecia<br \/>\nde ter um sen tido. E ele n\u00e3o tinha coragem pra uma organiza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDecidiu: \u2014 Qua o qu\u00ea!&#8230; Quando urubu est\u00e1 de caipora o<br \/>\nde baixo caga no de cima, este mundo n\u00e3o tem jeito mais e vou pro c\u00e9u.<\/p>\n<p>Ia pro c\u00e9u viver com a marvada. Ia ser o brilho bonito mas in\u00fatil<br \/>\npor\u00e9m de mais uma constela\u00e7\u00e3o. N\u00e3o fazia mal que<br \/>\nfosse brilho in\u00fatil n\u00e3o, pelo menos era o mesmo de todos esses<br \/>\nparentes de todos os pais dos vivos da sua terra, m\u00e3es pais manos cunhas<br \/>\ncunhadas cunhat\u00e3s, todos esses conhecidos que vivem agora do brilho<br \/>\nin\u00fatil das estrelas.<\/p>\n<p>Plantou uma semente do cip\u00f3 matamat\u00e1, filho-da-luna, e enquanto<br \/>\no cip\u00f3 crescia agarrou numa it\u00e1 pontuda escreveu na lage que<br \/>\nj\u00e1 fora jaboti num tempo muito de dantes:<\/p>\n<p><strong>N\u00c3O VIM NO MUNDO PARA SER PEDRA<\/strong><\/p>\n<p>A planta j\u00e1 tinha crescido e se agarrava numa pon ta de Capei. O her\u00f3i<br \/>\ncapenga enfiou a gaiola dos legornes no bra\u00e7o e foi subindo pro c\u00e9u.<br \/>\nCantava triste: \u2014 &#8220;Vamos dar a despedida, \u2014 Tapera, Taleq\u00fcal<br \/>\no passarinho,.<\/p>\n<p>\u2014 Tapera, Bateu asa foi-se embora, \u2014 Tapera, Deixou a pena no<br \/>\nninho.<\/p>\n<p>\u2014 Tapera&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>L\u00e1 chegando bateu na maloca de Capei. A Lua desceu no terreiro e perguntou:<br \/>\n\u2014 Qu\u00ea que quer, saci? \u2014 Ab\u00ean\u00e7\u00e3o minha<br \/>\nmadrinha, me d\u00e1 p\u00e3o com fa rinha? Ent\u00e3o Capei reparou<br \/>\nque n\u00e3o era saci n\u00e3o, era Macuna\u00edma o her\u00f3i. Mas<br \/>\nn\u00e3o quis dar pens\u00e3o pra ele, se lembrando do fedor antigo do<br \/>\nher\u00f3i. Macuna\u00edma enfe zou. Deu uma por\u00e7\u00e3o de munheca\u00e7os<br \/>\nna cara da Lua. Por isso que ela tem aquelas manchas escuras na cara.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Macuna\u00edma foi bater na casa de Caiuano gue, a estr\u00eala-da-manh\u00e3.<br \/>\nCaiuanogue apareceu na janelinha pra ver quem era e confundida pelo negrume<br \/>\nda noite e a capenguice do her\u00f3i, perguntou: \u2014 Que \u00e9 que<br \/>\nquer, saci? Mas logo p\u00f4s reparo que era Macuna\u00edma o her\u00f3i<br \/>\ne nem esperou resposta se lembrando que ele cheirava muito fedido.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1 tomar banho! falou fechando a janelinha.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma tornou a enfezar e gritou.<\/p>\n<p>\u2014 Vem pra rua, cafajeste! Caiuanogue raspou um susto enorme e ficou<br \/>\ntre mendo espiando pelo buraco da fechadura. Por isso que a bonita da estrelinha<br \/>\n\u00e9 t\u00e3o pecurrucha e tremelica tanto.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Macuna\u00edma foi bater na casa de Pau\u00ed-P\u00f3dole,<br \/>\no Pai do Mutum. Pau\u00ed-P\u00f3dole gostava muito dele porque Macuna\u00edma<br \/>\no defendera daquele mulato da maior mulataria na festa do Cruzeiro. Mas exclamou:<br \/>\n\u2014 Ah, her\u00f3i, tarde piaste! Era uma honra grande pra mim receber<br \/>\nno meu mosqueiro um descendente de jaboti, ra\u00e7a primeira de todas..<br \/>\n. No princ\u00edpio era s\u00f3 o Jaboti Grande que existia na vida&#8230;<br \/>\nFoi ele que no sil\u00eancio da noite tirou da barriga um indiv\u00edduo<br \/>\ne sua cunha. Estes foram os primeiros fulanos vivos e as pri meiras gentes<br \/>\nda vossa tribo&#8230; Depois, que os outros vieram. Chegaste tarde, her\u00f3i!<br \/>\nJ\u00e1 somos em doze e com voc\u00ea a gente ficava treze na mesa. Sinto<br \/>\nmuito mas chorar n\u00e3o posso! \u2014 Que pena, sinh&#8217;Helena! que o her\u00f3i<br \/>\nexclamou. Ent\u00e3o Pau\u00ed-P\u00f3dole teve d\u00f3 de Macuna\u00edma.<br \/>\nFez uma feiti\u00e7aria. Agarrou tr\u00eas pauzinhos jogou pro alto fez<br \/>\nencruzilhada e virou Macuna\u00edma com todo o estenderete dele, galo galinha<br \/>\ngaiola rev\u00f3lver rel\u00f3gio, numa constela\u00e7\u00e3o nova.<br \/>\n\u00c9 a constela\u00e7\u00e3o da Ursa Maior.<\/p>\n<p>Dizem que um professor naturalmente alem\u00e3o an dou falando por a\u00ed<br \/>\npor causa da perna s\u00f3 da Ursa Maior que ela \u00e9 o saci&#8230; N\u00e3o<br \/>\n\u00e9 n\u00e3o! Saci inda p\u00e1ra neste mundo espalhando fogueira<br \/>\ne tra\u00e7ando crina de bagual&#8230; A Ursa Maior \u00e9 Macuna\u00edma.<br \/>\n\u00c9 mesmo o her\u00f3i capenga que de tanto penar na terra sem sa\u00fade<br \/>\ne com muita sa\u00fava, se aborreceu de tudo, foi-se embora e ban za solit\u00e1rio<br \/>\nno campo vasto do c\u00e9u.<\/p>\n<h4><a name=\"18\"><\/a>Ep\u00edlogo<\/h4>\n<p>Acabou-se a hist\u00f3ria e morreu a vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia mais ningu\u00e9m l\u00e1. Dera tangolo-mangolo na<br \/>\ntribo Tapanhumas e os filhos dela se acabaram de um em um. N\u00e3o havia<br \/>\nmais ningu\u00e9m l\u00e1. Aqueles lu gares aqueles campos furos puxadouros<br \/>\narrastadouros meios-barrancos, aqueles matos misteriosos, tudo era a solid\u00e3o<br \/>\ndo deserto&#8230; Um sil\u00eancio imenso dormia a beira-rio do Uraricoera.<\/p>\n<p>Nenhum conhecido sobre a terra n\u00e3o sabia nem falar na falta da tribo<br \/>\nnem contar aqueles casos t\u00e3o pan\u00e7udos. Quem que podia saber<br \/>\ndo her\u00f3i? Agora os manos virados na sombra leprosa eram a segunda cabe<br \/>\n\u00e7a do Pai do Urubu e Macuna\u00edma era a constela\u00e7\u00e3o<br \/>\nda Ursa Maior. Ningu\u00e9m jamais n\u00e3o podia saber tanta hist\u00f3ria<br \/>\nbonita e a fala da tribo acabada. Um sil\u00eancio imenso dormia a beira-rio<br \/>\ndo Uraricoera.<\/p>\n<p>Uma feita um homem foi l\u00e1. Era madrugadinha e Vei mandara as filhas<br \/>\nvisar o passe das estrelas. O deserto tamanho matava os peixes e os passarinhos<br \/>\nde pavor e a pr\u00f3pria natureza desmaiara e ca\u00edra num gesto largado<br \/>\npor a\u00ed. A mudez era t\u00e3o imensa que espichava o tamanh\u00e3o<br \/>\ndos paus no espa\u00e7o. De repente no peito doendo do homem caiu uma voz<br \/>\nda ramaria: \u2014 Currr-pac, papac! currr-pac, papac!&#8230;<\/p>\n<p>O homem ficou frio de susto feito pi\u00e1. Ent\u00e3o veio brisando<br \/>\num guanumbi e boleboliu no bei\u00e7o do homem: \u2014 Bilo, bilo, bilo,<br \/>\nl\u00e1&#8230; tet\u00e9ia! E subiu apressado pras \u00e1rvores. O homem<br \/>\nseguin do o v\u00f4o do guanumbi, olhou pra cima.<\/p>\n<p>\u2014 Puxa rama, boi! o beija-flor se riu. E escafedeu.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o homem descobriu na ramaria um papagaio verde de bico dourado<br \/>\nespiando pra ele. Falou: \u2014 D\u00e1 o p\u00e9, papagaio.<\/p>\n<p>O papagaio veio pousar na cabe\u00e7a do homem e os dois se acompanheiraram.<br \/>\nEnt\u00e3o o p\u00e1ssaro principiou falando numa fala mansa, muito nova,<br \/>\nmuito! que era canto e que era cachiri com mel-de-pau, que era boa e possu\u00eda<br \/>\na trai\u00e7\u00e3o das frutas desconhecidas do mato.<\/p>\n<p>A tribo se acabara, a fam\u00edlia virar\u00e1 sombras, a ma loca ru\u00edra<br \/>\nminada pelas sa\u00favas e Macuna\u00edma subira pro c\u00e9u, por\u00e9m<br \/>\nficara o arua\u00ed do s\u00e9quito daqueles tempos de dantes em que o<br \/>\nher\u00f3i fora o grande Macuna\u00edma im perador. E s\u00f3 o papagaio<br \/>\nno sil\u00eancio do Uraricoera pre servava do esquecimento os casos e a fala<br \/>\ndesaparecida. S\u00f3 o papagaio conservava no sil\u00eancio as frases<br \/>\ne feitos do her\u00f3i.<\/p>\n<p>Tudo ele contou pro homem e depois abriu asa ru mo de Lisboa. E o homem<br \/>\nsou eu, minha gente, e eu fiquei pra vos contar a hist\u00f3ria. Por isso<br \/>\nque vim aqui. Me acocorei em riba destas folhas, catei meus carrapatos, ponteei<br \/>\nna violinha e em toque rasgado botei a boca no mundo cantando na fala impura<br \/>\nas frases e os casos de Macuna\u00edma, her\u00f3i de nossa gente.<\/p>\n<p>Tem mais n\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>An\u00e1lise de Macuna\u00edma Macuna\u00edma foi escrita no ano de 1926 e em poucos dias. Para escrev\u00ea-la, M\u00e1rio de Andrade passou anos a fio pesquisando sobre o folclore, mitologia ind\u00edgena, os costumes e a linguagem dos brasileiros. 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