{"id":113841,"date":"2017-03-16T11:35:00","date_gmt":"2017-03-16T13:35:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=113841"},"modified":"2017-03-16T11:35:00","modified_gmt":"2017-03-16T13:35:00","slug":"o-peru-de-natal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-peru-de-natal","title":{"rendered":"O Peru de Natal"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h4>M\u00e1rio de Andrade<\/h4>\n<p>O nosso primeiro Natal de fam\u00edlia, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de conseq\u00fc\u00eancias decisivas para a felicidade familiar. N\u00f3s sempre f\u00f4ramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econ\u00f4micas. Mas, devido principalmente \u00e0 natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, de uma exemplaridade incapaz, acolchoado no med\u00edocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma esta\u00e7\u00e3o de \u00e1guas, aquisi\u00e7\u00e3o de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dram\u00e1tico, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.<\/p>\n<p>Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Quando chegamos nas proximidades do Natal, eu j\u00e1 estava que n\u00e3o podia mais pra afastar aquela mem\u00f3ria obstruente do morto, que parecia ter sistematizado pra sempre a obriga\u00e7\u00e3o de uma lembran\u00e7a dolorosa em cada almo\u00e7o, em cada gesto m\u00ednimo da fam\u00edlia. Uma vez que eu sugerira \u00e0 mam\u00e3e a id\u00e9ia dela ir ver uma fita no cinema, o que resultou foram l\u00e1grimas. Onde se viu ir ao cinema, de luto pesado! A dor j\u00e1 estava sendo cultivada pelas apar\u00eancias, e eu, que sempre gostara apenas regularmente de meu pai, mais por instinto de filho que por espontaneidade de amor, me via a ponto de aborrecer o bom do morto.<\/p>\n<p>Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a id\u00e9ia de fazer uma das minhas chamadas &#8220;loucuras&#8221;. Essa fora ali\u00e1s, e desde muito cedo, a minha espl\u00eandida conquista contra o ambiente familiar. Desde cedinho, desde os tempos de gin\u00e1sio, em que arranjava regularmente uma reprova\u00e7\u00e3o todos os anos; desde o beijo \u00e0s escondidas, numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha, uma detest\u00e1vel de tia; e principalmente desde as li\u00e7\u00f5es que dei ou recebi, n\u00e3o sei, de uma criada de parentes: eu consegui no reformat\u00f3rio do lar e na vasta parentagem, a fama conciliat\u00f3ria de &#8220;louco&#8221;. &#8220;\u00c9 doido, coitado!&#8221; falavam. Meus pais falavam com certa tristeza condescendente, o resto da parentagem buscando exemplo para os filhos e provavelmente com aquele prazer dos que se convencem de alguma superioridade. N\u00e3o tinham doidos entre os filhos. Pois foi o que me salvou, essa fama. Fiz tudo o que a vida me apresentou e o meu ser exigia para se realizar com integridade. E me deixaram fazer tudo, porque eu era doido, coitado. Resultou disso uma exist\u00eancia sem complexos, de que n\u00e3o posso me queixar um nada.<\/p>\n<p>Era costume sempre, na fam\u00edlia, a ceia de Natal. Ceia reles, j\u00e1 se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de am\u00eandoas e nozes (quanto discutimos os tr\u00eas manos por causa dos quebra-nozes&#8230;), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abra\u00e7ava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas &#8220;loucuras&#8221;:<\/p>\n<p>&#8211; Bom, no Natal, quero comer peru.<\/p>\n<p>Houve um desses espantos que ningu\u00e9m n\u00e3o imagina. Logo minha tia solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que n\u00e3o pod\u00edamos convidar ningu\u00e9m por causa do luto.<\/p>\n<p>&#8211; Mas quem falou de convidar ningu\u00e9m! essa mania&#8230; Quando \u00e9 que a gente j\u00e1 comeu peru em nossa vida! Peru aqui em casa \u00e9 prato de festa, vem toda essa parentada do diabo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Meu filho, n\u00e3o fale assim&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois falo, pronto!<\/p>\n<p>E descarreguei minha gelada indiferen\u00e7a pela nossa parentagem infinita, diz-que vinda de bandeirantes, que bem me importa! Era mesmo o momento pra desenvolver minha teoria de doido, coitado, n\u00e3o perdi a ocasi\u00e3o. Me deu de sopet\u00e3o uma ternura imensa por mam\u00e3e e titia, minhas duas m\u00e3es, tr\u00eas com minha irm\u00e3, as tr\u00eas m\u00e3es que sempre me divinizaram a vida. Era sempre aquilo: vinha anivers\u00e1rio de algu\u00e9m e s\u00f3 ent\u00e3o faziam peru naquela casa. Peru era prato de festa: uma imund\u00edcie de parentes j\u00e1 preparados pela tradi\u00e7\u00e3o, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Minhas tr\u00eas m\u00e3es, tr\u00eas dias antes j\u00e1 n\u00e3o sabiam da vida sen\u00e3o trabalhar, trabalhar no preparo de doces e frios fin\u00edssimos de bem feitos, a parentagem devorava tudo e ainda levava embrulhinhos pros que n\u00e3o tinham podido vir. As minhas tr\u00eas m\u00e3es mal podiam de exaustas. Do peru, s\u00f3 no enterro dos ossos, no dia seguinte, \u00e9 que mam\u00e3e com titia ainda provavam num naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mam\u00e3e quem servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade ningu\u00e9m sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru resto de festa.<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o se convidava ningu\u00e9m, era um peru pra n\u00f3s, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os mi\u00fados, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado s\u00f3 com a farofa gorda, em que hav\u00edamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um c\u00e1lice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Est\u00e1 claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se n\u00e3o seria tenta\u00e7\u00e3o do Dianho aproveitar receita t\u00e3o gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. \u00c9 certo que com meus &#8220;gostos&#8221;, j\u00e1 bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente franc\u00eas. Mas a ternura por mam\u00e3e venceu o doido, mam\u00e3e adorava cerveja.<\/p>\n<p>Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felic\u00edssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho \u00e9 que estava desejando muito aquilo e havia jeito f\u00e1cil de empurrarem pra cima de mim a&#8230; culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, t\u00edmidos como pombas desgarradas, at\u00e9 que minha irm\u00e3 resolveu o consentimento geral:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 louco mesmo!&#8230;<\/p>\n<p>Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. Fora engra\u00e7ado:assim que me lembrara de que finalmente ia fazer mam\u00e3e comer peru, n\u00e3o fizera outra coisa aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar minha velhinha adorada. E meus manos tamb\u00e9m, estavam no mesmo ritmo violento de amor, todos dominados pela felicidade nova que o peru vinha imprimindo na fam\u00edlia. De modo que, ainda disfar\u00e7ando as coisas, deixei muito sossegado que mam\u00e3e cortasse todo o peito do peru. Um momento ali\u00e1s, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, n\u00e3o resistindo \u00e0quelas leis de economia que sempre a tinham entorpecido numa quase pobreza sem raz\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o senhora, corte inteiro! S\u00f3 eu como tudo isso!<\/p>\n<p>Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim, que at\u00e9 era capaz de comer pouco, s\u00f3-pra que os outros quatro comessem demais. E o diapas\u00e3o dos outros era o mesmo. Aquele peru comido a s\u00f3s, redescobria em cada um o que a quotidianidade abafara por completo, amor, paix\u00e3o de m\u00e3e, paix\u00e3o de filhos. Deus me perdoe mas estou pensando em Jesus&#8230; Naquela casa de burgueses bem modestos, estava se realizando um milagre digno do Natal de um Deus. O peito do peru ficou inteiramente reduzido a fatias amplas.<\/p>\n<p>&#8211; Eu que sirvo!<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 louco, mesmo&#8221; pois por que havia de servir, se sempre mam\u00e3e servira naquela casa! Entre risos, os grandes pratos cheios foram passados pra mim e principiei uma distribui\u00e7\u00e3o her\u00f3ica, enquanto mandava meu mano servir a cerveja. Tomei conta logo de um peda\u00e7o admir\u00e1vel da &#8220;casca&#8221;, cheio de gordura e pus no prato. E depois vastas fatias brancas. A voz severizada de mam\u00e3e cortou o espa\u00e7o angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru:<\/p>\n<p>&#8211; Se lembre de seus manos, Juca!<\/p>\n<p>Quando que ela havia de imaginar, a pobre! que aquele era o prato dela, da M\u00e3e, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus crimes, a que eu s\u00f3 lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O prato ficou sublime.<\/p>\n<p>&#8211; Mam\u00e3e, este \u00e9 o da senhora! N\u00e3o! n\u00e3o passe n\u00e3o!<\/p>\n<p>Foi quando ela n\u00e3o pode mais com tanta como\u00e7\u00e3o e principiou chorando. Minha tia tamb\u00e9m, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no refr\u00e3o das l\u00e1grimas. E minha irm\u00e3, que jamais viu l\u00e1grima sem abrir a torneirinha tamb\u00e9m, se esparramou no choro. Ent\u00e3o principiei dizendo muitos desaforos pra n\u00e3o chorar tamb\u00e9m, tinha dezenove anos&#8230; Diabo de fam\u00edlia besta que via peru e chorava! coisas assim. Todos se esfor\u00e7avam por sorrir, mas agora \u00e9 que a alegria se tornara imposs\u00edvel. \u00c9 que o pranto evocara por associa\u00e7\u00e3o a imagem indesej\u00e1vel de meu pai morto. Meu pai, com sua figura cinzenta, vinha pra sempre estragar nosso Natal, fiquei danado.<\/p>\n<p>Bom, principiou-se a comer em sil\u00eancio, lutuosos, e o peru estava perfeito. A carne mansa, de um tecido muito t\u00eanue boiava fagueira entre os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida, inquietada e redesejada, pela interven\u00e7\u00e3o mais violenta da ameixa preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz. Mas papai sentado ali, gigantesco, incompleto, uma censura, uma chaga, uma incapacidade. E o peru, estava t\u00e3o gostoso, mam\u00e3e por fim sabendo que peru era manjar mesmo digno do Jesusinho nascido.<\/p>\n<p>Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalec\u00ea-lo na luta, e, est\u00e1 claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos t\u00eam meios visguentos, muito hip\u00f3critas de vencer: nem bem gabei o peru que a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 falta seu pai&#8230;<\/p>\n<p>Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai. E nem sei que inspira\u00e7\u00e3o genial, de repente me tornou hip\u00f3crita e pol\u00edtico. Naquele instante que hoje me parece decisivo da nossa fam\u00edlia, tomei aparentemente o partido de meu pai. Fingi, triste:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 mesmo&#8230; Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de tanto trabalhar pra n\u00f3s, papai l\u00e1 no c\u00e9u h\u00e1 de estar contente&#8230; (hesitei, mas resolvi n\u00e3o mencionar mais o peru) contente de ver n\u00f3s todos reunidos em fam\u00edlia.<\/p>\n<p>E todos principiaram muito calmos, falando de papai. A imagem dele foi diminuindo, diminuindo e virou uma estrelinha brilhante do c\u00e9u. Agora todos comiam o peru com sensualidade, porque papai fora muito bom, sempre se sacrificara tanto por n\u00f3s, fora um santo que &#8220;voc\u00eas, meus filhos, nunca poder\u00e3o pagar o que devem a seu pai&#8221;, um santo. Papai virara santo, uma contempla\u00e7\u00e3o agrad\u00e1vel, uma inestorv\u00e1vel estrelinha do c\u00e9u. N\u00e3o prejudicava mais ningu\u00e9m, puro objeto de contempla\u00e7\u00e3o suave. O \u00fanico morto ali era o peru, dominador, completamente vitorioso.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e, minha tia, n\u00f3s, todos alagados de felicidade. Ia escrever &#8220;felicidade gustativa&#8221;, mas n\u00e3o era s\u00f3 isso n\u00e3o. Era uma felicidade mai\u00fascula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da fam\u00edlia, o in\u00edcio de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de ent\u00e3o uma felicidade familiar pra n\u00f3s que, n\u00e3o sou exclusivista, alguns a ter\u00e3o assim grande, por\u00e9m mais intensa que a nossa me \u00e9 imposs\u00edvel conceber.<br \/>\nMam\u00e3e comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia lhe fazer mal. Mas logo pensei: ah, que fa\u00e7a! mesmo que ela morra, mas pelo menos que uma vez na vida coma peru de verdade!<\/p>\n<p>A tamanha falta de ego\u00edsmo me transportara o nosso infinito amor&#8230; Depois vieram umas uvas leves e uns doces, que l\u00e1 na minha terra levam o nome de &#8220;bem-casados&#8221;. Mas nem mesmo este nome perigoso se associou \u00e0 lembran\u00e7a de meu pai, que o peru j\u00e1 convertera em dignidade, em coisa certa, em culto puro de contempla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por duas garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco importa, porque \u00e9 bom uma ins\u00f4nia feliz. O diabo \u00e9 que a Rose, cat\u00f3lica antes de ser Rose, prometera me esperar com uma champanha. Pra poder sair, menti, falei que ia a uma festa de amigo, beijei mam\u00e3e e pisquei pra ela, modo de contar onde \u00e9 que ia e faz\u00ea-la sofrer seu bocado. As outras duas mulheres beijei sem piscar. E agora, Rose!&#8230;<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e1rio de Andrade O nosso primeiro Natal de fam\u00edlia, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de conseq\u00fc\u00eancias decisivas para a felicidade familiar. N\u00f3s sempre f\u00f4ramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econ\u00f4micas. 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