{"id":113743,"date":"2017-03-15T18:30:56","date_gmt":"2017-03-15T20:30:56","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=113743"},"modified":"2017-03-15T18:30:56","modified_gmt":"2017-03-15T20:30:56","slug":"anedota-do-cabriolet","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/anedota-do-cabriolet","title":{"rendered":"Anedota do Cabriolet"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>&#8212; CABRIOLET est\u00e1 a\u00ed, sim senhor, dizia o preto que viera \u00e0 matriz de S. Jos\u00e9 chamar o vig\u00e1rio para sacramentar dous moribundos.<\/p>\n<p>A gera\u00e7\u00e3o de hoje n\u00e3o viu a entrada e a sa\u00edda do cabriolet no Rio de Janeiro. Tamb\u00e9m n\u00e3o saber\u00e1 do tempo em que o cab e o tilbury vieram para o rol dos nossos ve\u00edculos de pra\u00e7a ou particulares. O cab durou pouco. O tilbury, anterior aos dous, promete ir \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o da cidade. Quando esta acabar e entrarem os cavadores de ru\u00ednas, achar-se-\u00e1 um parado, com o cavalo e o cocheiro em ossos esperando o fregu\u00eas do costume. A paci\u00eancia ser\u00e1 a mesma de hoje, por mais que chova, a melancolia maior, como quer que brilhe o sol, porque juntar\u00e1 a pr\u00f3pria atual \u00e0 do espectro dos tempos. O arque\u00f3logo dir\u00e1 cousas raras sobre os tr\u00eas esqueletos. O cabriolet n\u00e3o teve hist\u00f3ria; deixou apenas a anedota que vou dizer.<\/p>\n<p>&#8212; Dous! exclamou o sacrist\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Sim, senhor, dous, nh\u00e3 Anunciada e nh\u00f4 Pedrinho. Coitado de nh\u00f4 Pedrinho! E nh\u00e3 Anunciada, coitada! continuou o preto a gemer, andando de um lado para outro, aflito, fora de si.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m que leia isto com a alma turva de d\u00favidas, \u00e9 natural que pergunte se o preto sentia deveras, ou se queria picar a curiosidade do coadjutor e do sacrist\u00e3o. Eu estou que tudo se pode combinar neste mundo, como no outro. Creio que ele sentia deveras; n\u00e3o descreio que ansiasse por dizer alguma hist\u00f3ria terr\u00edvel. Em todo caso, nem o coadjutor nem o sacrist\u00e3o lhe perguntavam nada.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 que o sacrist\u00e3o n\u00e3o fosse curioso. Em verdade, pouco mais era que isso. Trazia a par\u00f3quia de cor; sabia os nomes \u00e0s devotas, a vida delas, a dos maridos e a dos pais, as prendas e os recursos de cada uma, e o que comiam, e o que bebiam, e o que diziam, os vestidos e as virtudes, os dotes das solteiras, o comportamento das casadas, as saudades das vi\u00favas. Pesquisava tudo: nos intervalos ajudava a missa e o resto. Chamava-se Jo\u00e3o das Merc\u00eas, homem quarent\u00e3o, pouca barba e grisalho, magro e me\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Que Pedrinho e que Anunciada ser\u00e3o esses?&#8221; dizia consigo, acompanhando o coadjutor.<\/p>\n<p>Embora ardesse por sab\u00ea-los, a presen\u00e7a do coadjutor impediria qualquer pergunta. Este ia t\u00e3o calado e pio, caminhando para a porta da igreja, que era for\u00e7a mostrar o mesmo sil\u00eancio e piedade que ele. Assim foram andando. O cabriolet esperava-os; o cocheiro desbarretou-se, os vizinhos e alguns passantes ajoelharam-se, enquanto o padre e o sacrist\u00e3o entravam e o ve\u00edculo enfiava pela Rua da Miseric\u00f3rdia. O preto desandou o caminho a passo largo.<\/p>\n<p>Que andem burros e pessoas na rua, e as nuvens no c\u00e9u, se as h\u00e1, e os pensamentos nas cabe\u00e7as, se os t\u00eam. A do sacrist\u00e3o tinha-os v\u00e1rios e confusos. N\u00e3o era acerca do Nosso- Pai, embora soubesse ador\u00e1-lo, nem da \u00e1gua benta e do hissope que levava; tamb\u00e9m n\u00e3o era acerca da hora, &#8212; oito e quarto da noite, &#8212; ali\u00e1s, o c\u00e9u estava claro e a lua ia aparecendo. O pr\u00f3prio cabriolet, que era novo na terra, e substitu\u00eda neste caso a sege, esse mesmo ve\u00edculo n\u00e3o ocupava o c\u00e9rebro todo de Jo\u00e3o das Merc\u00eas, a n\u00e3o ser na parte que pegava com nh\u00f4 Pedrinho e nh\u00e3 Anunciada.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 de ser gente nova, ia pensando o sacrist\u00e3o, mas h\u00f3spede em alguma casa, decerto, porque n\u00e3o h\u00e1 casa vazia na praia, e o n\u00famero \u00e9 da do Comendador Brito. Parentes, ser\u00e3o? Que parentes, se nunca ouvi&#8230; ? Amigos, n\u00e3o sei; conhecidos, talvez, simples conhecidos. Mas ent\u00e3o mandariam cabriolet? Este mesmo preto \u00e9 novo na casa; h\u00e1 de ser escravo de um dos moribundos, ou de ambos.&#8221; Era assim que Jo\u00e3o das Merc\u00eas ia cogitando, e n\u00e3o foi por muito tempo. O cabriolet parou \u00e0 porta de um sobrado, justamente a casa do Comendador Brito, Jos\u00e9 Martins de Brito. J\u00e1 havia algumas pessoas embaixo com velas, o padre e o sacrist\u00e3o apearam-se e subiram a escada, acompanhados do comendador. A esposa deste, no patamar, beijou o anel ao padre. Gente grande, crian\u00e7as, escravos, um burburinho surdo, meia claridade, e os dous moribundos \u00e0 espera, cada um no seu quarto, ao fundo.<\/p>\n<p>Tudo se passou, como \u00e9 de uso e regra, em tais ocasi\u00f5es. Nh\u00f4 Pedrinho foi absolvido e ungido, nh\u00e3 Anunciada tamb\u00e9m, e o coadjutor despediu-se da casa para tornar \u00e0 matriz com o sacrist\u00e3o. Este n\u00e3o se despediu do comendador sem lhe perguntar ao ouvido se os dous eram parentes seus. N\u00e3o, n\u00e3o eram parentes, respondeu Brito; eram amigos de um sobrinho que vivia em Campinas; uma hist\u00f3ria terr\u00edvel&#8230; Os olhos de Jo\u00e3o das Merc\u00eas escutaram arregaladamente estas duas palavras, e disseram, sem falar, que viriam ouvir o resto &#8212; talvez naquela mesma noite. Tudo foi r\u00e1pido, porque o padre descia a escada, era for\u00e7a ir com ele.<\/p>\n<p>Foi t\u00e3o curta a moda do cabriolet que este provavelmente n\u00e3o levou outro padre a moribundos. Ficou-lhe a anedota, que vou acabar j\u00e1, t\u00e3o escassa foi ela, uma anedota de nada. N\u00e3o importa. Qualquer que fosse o tamanho ou a import\u00e2ncia, era sempre uma fatia de vida para o sacrist\u00e3o, que ajudou o padre a guardar o p\u00e3o sagrado, a despir a sobrepeliz, e a fazer tudo mais, antes de se despedir e sair. Saiu, enfim, a p\u00e9, rua acima, praia fora, at\u00e9 parar \u00e0 porta do comendador.<\/p>\n<p>Em caminho foi evocando toda a vida daquele homem, antes e depois da comenda.<\/p>\n<p>Comp\u00f4s o neg\u00f3cio, que era fornecimento de navios, creio eu, a fam\u00edlia, as festas dadas, os cargos paroquiais, comerciais e eleitorais, e daqui aos boatos e anedotas n\u00e3o houve mais que um passo ou dois. A grande mem\u00f3ria de Jo\u00e3o das Merc\u00eas guardava todas as cousas, m\u00e1ximas e m\u00ednimas, com tal nitidez que pareciam da v\u00e9spera, e t\u00e3o completas que nem o pr\u00f3prio objeto delas era capaz de as repetir iguais. Sabia-as como o padrenosso, isto \u00e9 sem pensar nas palavras; ele rezava tal qual comia, mastigando a ora\u00e7\u00e3o, que lhe sa\u00eda dos queixos sem sentir. Se a regra mandasse rezar tr\u00eas d\u00fazias de padrenossos seguidamente, Jo\u00e3o das Merc\u00eas os diria sem contar. Tal era com as vidas alheias; amava sab\u00ea-las, pesquisava-as, decorava-as, e nunca mais lhe sa\u00edam da mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Na par\u00f3quia todos lhe queriam bem, porque ele n\u00e3o enredava nem maldizia. Tinha o amor da arte pela arte. Muita vez nem era preciso perguntar nada. Jos\u00e9 dizia-lhe a vida de Ant\u00f4nio e Ant\u00f4nio a de Jos\u00e9. O que ele fazia era ratificar ou retificar um com outro, e os dous com Sancho, Sancho com Martinho, e vice-versa, todos com todos. Assim \u00e9 que enchia as horas vagas, que eram muitas. Alguma vez, \u00e0 pr\u00f3pria missa, recordava uma anedota da v\u00e9spera, e, a princ\u00edpio, pedia perd\u00e3o a Deus; deixou de lho pedir quando refletiu que n\u00e3o falhava uma s\u00f3 palavra ou gesto do santo sacrif\u00edcio, t\u00e3o consubstanciados os trazia em si. A anedota que ent\u00e3o revivia por instantes era como a andorinha que atravessa uma paisagem. A paisagem fica sendo a mesma, e a \u00e1gua, se h\u00e1 \u00e1gua, murmura o mesmo som. Esta compara\u00e7\u00e3o, que era dele, valia mais do que ele pensava, porque a andorinha, ainda voando, faz parte da paisagem, e a anedota fazia nele parte da pessoa, era um dos seus atos de viver.<\/p>\n<p>Quando chegou \u00e0 casa do comendador, tinha desfiado o ros\u00e1rio da vida deste, e entrou com o p\u00e9 direito para n\u00e3o sair mal. N\u00e3o pensou em sair cedo, por mais aflita que fosse a ocasi\u00e3o, e nisto a fortuna o ajudou. Brito estava na sala da frente, em conversa com a mulher, quando lhe vieram dizer que Jo\u00e3o das Merc\u00eas perguntava pelo estado dos moribundos. A esposa retirou-se da sala, o sacrist\u00e3o entrou pedindo desculpas e dizendo que era por pouco tempo; ia passando e lembrara-se de saber se os enfermos tinham ido para o c\u00e9u, &#8212; ou se ainda eram deste mundo. Tudo o que dissesse respeito ao comendador seria ouvido por ele com interesse.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o morreram, nem sei se escapar\u00e3o, quando menos, ela creio que morrer\u00e1, concluiu Brito.<\/p>\n<p>&#8212; Parecem bem mal.<\/p>\n<p>&#8212; Ela, principalmente; tamb\u00e9m \u00e9 a que mais padece da febre. A febre os pegou aqui em nossa casa, logo que chegaram de Campinas, h\u00e1 dias.<\/p>\n<p>&#8212; J\u00e1 estavam aqui? perguntou o sacrist\u00e3o, pasmado de o n\u00e3o saber.<\/p>\n<p>&#8212; J\u00e1; chegaram h\u00e1 quinze dias, &#8212; ou quatorze. Vieram com o meu sobrinho Carlos e aqui apanharam a doen\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Brito interrompeu o que ia dizendo; assim pareceu ao sacrist\u00e3o, que p\u00f4s no semblante toda a express\u00e3o de pessoa que espera o resto. Entretanto, como o outro estivesse a morder os bei\u00e7os e a olhar para as paredes, n\u00e3o viu o gesto de espera, e ambos se detiveram calados. Brito acabou andando ao longo da sala, enquanto Jo\u00e3o das Merc\u00eas dizia consigo que havia alguma cousa mais que febre. A primeira id\u00e9ia que lhe acudiu foi se os m\u00e9dicos teriam errado na doen\u00e7a ou no rem\u00e9dio, tamb\u00e9m pensou que podia ser outro mal escondido, a que deram o nome de febre para encobrir a verdade. Ia acompanhando com os olhos o comendador, enquanto este andava e desandava a sala toda, apagando os passos para n\u00e3o aborrecer mais os que estavam dentro. De l\u00e1 vinha algum murm\u00fario de conversa\u00e7\u00e3o, chamado, recado, porta que se abria ou fechava. Tudo isso era cousa nenhuma para quem tivesse outro cuidado, mas o nosso sacrist\u00e3o j\u00e1 agora n\u00e3o tinha mais que saber o que n\u00e3o sabia. Quando menos, a fam\u00edlia dos enfermos, a posi\u00e7\u00e3o, o atual estado, alguma p\u00e1gina da vida deles, tudo era conhecer algo, por mais arredado que fosse da par\u00f3quia.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! exclamou Brito estacando o passo.<\/p>\n<p>Parecia haver nele o desejo impaciente de referir um caso, &#8212; a &#8220;hist\u00f3ria terr\u00edvel&#8221;, que anunciara ao sacrist\u00e3o, pouco antes; mas nem este ousava pedi-la nem aquele diz\u00ea-la, e o comendador pegou a andar outra vez.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o das Merc\u00eas sentou-se. Viu bem que em tal situa\u00e7\u00e3o cumpria despedir-se com boas palavras de esperan\u00e7a ou de conforto, e voltar no dia seguinte; preferiu sentar-se e aguardar. N\u00e3o viu na cara do outro nenhum sinal de reprova\u00e7\u00e3o do seu gesto; ao contr\u00e1rio, ele parou defronte e suspirou com grande cansa\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8212; Triste, sim, triste, concordou Jo\u00e3o das Merc\u00eas. Boas pessoas, n\u00e3o? &#8212; Iam casar.<\/p>\n<p>&#8212; Casar? Noivos um do outro? Brito confirmou de cabe\u00e7a. A nota era melanc\u00f3lica, mas n\u00e3o havia sinal da hist\u00f3ria terr\u00edvel anunciada, e o sacrist\u00e3o esperou por ela. Observou consigo que era a primeira vez que ouvia alguma cousa de gente que absolutamente n\u00e3o conhecia. As caras, vistas h\u00e1 pouco eram o \u00fanico sinal dessas pessoas. Nem por isso se sentia menos curioso. Iam casar&#8230; Podia ser que a hist\u00f3ria terr\u00edvel fosse isso mesmo. Em verdade, atacados de um mal na v\u00e9spera de um bem, o mal devia ser terr\u00edvel. Noivos e moribundos&#8230;<\/p>\n<p>Vieram trazer recado ao dono da casa; este pediu licen\u00e7a ao sacrist\u00e3o, t\u00e3o depressa que nem deu tempo a que ele se despedisse e sa\u00edsse. Correu para dentro, e l\u00e1 ficou cinq\u00fcenta minutos. Ao cabo, chegou \u00e0 sala um pranto sufocado; logo ap\u00f3s, tornou o comendador.<\/p>\n<p>&#8212; Que lhe dizia eu, h\u00e1 pouco? Quando menos, ela ia morrer; morreu.<\/p>\n<p>Brito disse isto sem l\u00e1grimas e quase sem tristeza. Conhecia a defunta de pouco tempo.<\/p>\n<p>As l\u00e1grimas, segundo referiu, eram do sobrinho de Campinas e de uma parenta da defunta, que morava em Mata-porcos. Da\u00ed a supor que o sobrinho do comendador gostasse da noiva do moribundo foi um instante para o sacrist\u00e3o, mas n\u00e3o se lhe pegou a id\u00e9ia por muito tempo; n\u00e3o era for\u00e7oso, e depois se ele pr\u00f3prio os acompanhara&#8230;<\/p>\n<p>Talvez fosse padrinho de casamento. Quis saber, e era natural, &#8212; o nome da defunta. O dono da casa, &#8212; ou por n\u00e3o querer dar-lho, &#8212; ou porque outra id\u00e9ia lhe tomasse agora a cabe\u00e7a, &#8212; n\u00e3o declarou o nome da noiva, nem do noivo. Ambas as causas seriam.<\/p>\n<p>&#8212; Iam casar&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Deus a receber\u00e1 em sua santa guarda, e a ele tamb\u00e9m, se vier a expirar, disse o sacrist\u00e3o cheio de melancolia.<\/p>\n<p>E esta palavra bastou a arrancar metade do segredo que parece ansiava por sair da boca do fornecedor de navios. Quando Jo\u00e3o das Merc\u00eas lhe viu a express\u00e3o dos olhos, o gesto com que o levou janela, e o pedido que lhe fez de jurar,&#8211; jurou por todas as almas dos seus que ouviria e calaria tudo. Nem era homem de assoalhar as confid\u00eancias alheias, mormente as de pessoas gradas e honradas como era o comendador. Ao que este se deu por satisfeito e animado, e ent\u00e3o lhe confiou a primeira metade do segredo, a qual era que os dous noivos, criados juntos, vinham casar aqui quando souberam, pela parenta de Mata-porcos, uma not\u00edcia abomin\u00e1vel&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; E foi&#8230;? precipitou-se em dizer Jo\u00e3o das Merc\u00eas, sentindo alguma hesita\u00e7\u00e3o no comendador.<\/p>\n<p>&#8212; Que eram irm\u00e3os.<\/p>\n<p>&#8212; Irm\u00e3os como? Irm\u00e3os de verdade? &#8212; De verdade; irm\u00e3os por parte de m\u00e3e. O pai \u00e9 que n\u00e3o era o mesmo. A parenta n\u00e3o lhes disse tudo nem claro, mas jurou que era assim, e eles ficaram fulminados durante um dia ou mais&#8230;<\/p>\n<p>Jo\u00e3o das Merc\u00eas n\u00e3o ficou menos espantado que eles; disp\u00f4s-se a n\u00e3o sair dali sem saber o resto. Ouviu dez horas, ouviria todas as demais da noite, velaria o cad\u00e1ver de um ou de ambos, uma vez que pudesse juntar mais esta p\u00e1gina \u00e0s outras da par\u00f3quia, embora n\u00e3o fosse da par\u00f3quia.<\/p>\n<p>&#8212; E vamos, vamos, foi ent\u00e3o que a febre os tomou&#8230;? Brito cerrou os dentes para n\u00e3o dizer mais nada. Como, por\u00e9m, o viessem chamar de dentro, acudiu depressa, e meia hora depois estava de volta, com a nova do segundo passamento. O choro, agora mais fraco, posto que mais esperado, n\u00e3o havendo j\u00e1 de quem o esconder, trouxera a not\u00edcia ao sacrist\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; L\u00e1 se foi o outro, o irm\u00e3o, o noivo. . . Que Deus lhes perdoe! Saiba agora tudo, meu amigo. Saiba que eles se queriam tanto que alguns dias depois de conhecido o impedimento natural e can\u00f4nico do cons\u00f3rcio, pegaram de si e, fiados em serem apenas meios irm\u00e3os e n\u00e3o irm\u00e3os inteiros, meteram-se em um cabriolet e fugiram de casa.<\/p>\n<p>Dado logo o alarma, alcan\u00e7amos pegar o cabriolet em caminho da Cidade Nova, e eles ficaram t\u00e3o pungidos e vexados da captura que adoeceram de febre e acabam de morrer.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode escrever o que sentiu o sacrist\u00e3o, ouvindo-lhe este caso. Guardou-o por algum tempo, com dificuldade. Soube os nomes das pessoas pelo obitu\u00e1rio dos jornais, e combinou as circunst\u00e2ncias ouvidas ao comendador com outras. Enfim, sem se ter por indiscreto, espalhou a hist\u00f3ria, s\u00f3 com esconder os nomes e cont\u00e1-la a um amigo, que a passou a outro, este a outros, e todos a todos. Fez mais; meteu-se-lhe em cabe\u00e7a que o cabriolet da fuga podia ser o mesmo dos \u00faltimos sacramentos; foi \u00e0 cocheira, conversou familiarmente com um empregado, e descobriu que sim. Donde veio chamar-se a esta p\u00e1gina a &#8220;anedota do cabriolet.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis &#8212; CABRIOLET est\u00e1 a\u00ed, sim senhor, dizia o preto que viera \u00e0 matriz de S. Jos\u00e9 chamar o vig\u00e1rio para sacramentar dous moribundos. A gera\u00e7\u00e3o de hoje n\u00e3o viu a entrada e a sa\u00edda do cabriolet no Rio de Janeiro. 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