{"id":113741,"date":"2017-03-15T18:27:05","date_gmt":"2017-03-15T20:27:05","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=113741"},"modified":"2017-03-15T18:27:05","modified_gmt":"2017-03-15T20:27:05","slug":"almas-agradecidas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/almas-agradecidas","title":{"rendered":"Almas Agradecidas"},"content":{"rendered":"<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>I Havia representa\u00e7\u00e3o no Gin\u00e1sio. A pe\u00e7a da moda era ent\u00e3o a c\u00e9lebre Dama das cam\u00e9lias. A casa estava cheia. No fim do quarto ato come\u00e7ou a chover um pouco; do meio do quinto ato em diante, a chuva redobrou de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Quando acabou o espet\u00e1culo, cada fam\u00edlia entrou no seu carro; as poucas que n\u00e3o tinham esperavam uma estiada, e, mediante os guarda-chuvas, l\u00e1 sa\u00edram com as saias arrega\u00e7adas.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.. aos olhos dando, O que \u00e0s m\u00e3os cobi\u00e7osas v\u00e3o negando.<\/p>\n<p>Os homens abriam os seus guarda-chuvas; outros chamavam t\u00edlburis; e pouco a pouco se foi despejando o sagu\u00e3o, at\u00e9 que s\u00f3 ficaram dois rapazes, um dos quais abotoara at\u00e9 o pesco\u00e7o o palet\u00f3, e esperava maior estiada para sair, porque al\u00e9m de n\u00e3o ter guardachuva, n\u00e3o via nenhum t\u00edlburi no horizonte.<\/p>\n<p>O outro tamb\u00e9m abotoara o palet\u00f3, mas tinha guarda-chuva; n\u00e3o parecia, entretanto, disposto a abri-lo. Olhava de esguelha para o primeiro, que fumava tranq\u00fcilamente um charuto.<\/p>\n<p>J\u00e1 o porteiro havia fechado as duas portas laterais e ia fazer o mesmo \u00e0 porta central, quando o rapaz do guarda-chuva dirigiu ao outro estas palavras: \u2014 Para que lado vai? O interpelado compreendeu que o companheiro lhe ia oferecer abrigo e respondeu, com palavras de agradecimento, que morava na Gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 muito longe, disse ele, para aceitar o abrigo que naturalmente me quer oferecer. Eu esperarei aqui um t\u00edlburi.<\/p>\n<p>\u2014 Mas a porta vai fechar-se, observou o outro.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o importa, esperarei do lado de fora.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, insistiu o primeiro; a chuva ainda est\u00e1 forte e pode aumentar mais. N\u00e3o lhe ofere\u00e7o abrigo at\u00e9 casa porque moro na Prainha, que \u00e9 justamente do lado oposto; mas posso cobri-lo at\u00e9 ao Rocio, onde encontraremos um t\u00edlburi.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, respondeu o rapaz que n\u00e3o tinha guarda-chuva; n\u00e3o me havia ocorrido isto, aceito com prazer.<\/p>\n<p>Sa\u00edram os dois rapazes e foram at\u00e9 ao Rocio. Nem sombra de t\u00edlburi ou cale\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o admira, disse o rapaz do guarda-chuva; foram todos com gente do teatro. Daqui a pouco haver\u00e1 algum de volta&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu n\u00e3o quisera dar-lhe o inc\u00f4modo de o reter mais tempo aqui \u00e0 chuva.<\/p>\n<p>\u2014 Cinco ou dez minutos, talvez; esperaremos.<\/p>\n<p>A chuva veio contrariar estes bons desejos do rapaz, caindo com furor. Mas o desejo de servir tem mil maneiras de se manifestar. O rapaz do guarda-chuva prop\u00f4s um meio excelente de escapar \u00e0 chuva e esperar condu\u00e7\u00e3o: era ir tomar ch\u00e1 ao hotel que mais \u00e0 m\u00e3o lhes ficasse. O convite n\u00e3o era mau; tinha s\u00f3 o inconveniente de vir de um desconhecido. Antes de lhe responder, o rapaz sem guarda-chuva deitou um r\u00e1pido olhar ao seu companheiro, esp\u00e9cie de exame pr\u00e9vio da condi\u00e7\u00e3o social da pessoa. Parece que a achou boa, porque aceitou o convite.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 levar muito longe a sua bondade, disse ele, mas eu n\u00e3o posso deixar de abusar dela; a noite est\u00e1 inclemente.<\/p>\n<p>\u2014 Eu tamb\u00e9m costumo esquecer o guarda-chuva, e amanh\u00e3 estarei nas suas mesmas circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Foram para o hotel e da\u00ed a pouco tinham diante de si um excelente peda\u00e7o de rosbife frio, acompanhado de n\u00e3o menos excelente ch\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 de desculpar a minha curiosidade, disse o rapaz sem guarda-chuva; mas eu desejaria saber a quem devo a obsequiosidade com que sou tratado h\u00e1 vinte minutos.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o somos inteiramente desconhecidos, respondeu o outro; a sua mem\u00f3ria \u00e9 que \u00e9 menos conservadora do que a minha.<\/p>\n<p>\u2014 De onde me conhece? \u2014 Do col\u00e9gio. Andamos juntos no col\u00e9gio Rosa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Andei l\u00e1, \u00e9 verdade, mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se lembra do 0liveira? Aquele que trocava as r\u00e9guas por laranjas? Aquele que desenhava com giz o retrato do mestre nas costas dos outros meninos? \u2014 Que me diz? \u00c9 o senhor? \u2014 De carne e osso; eu mesmo. Acha-me mudado, n\u00e3o? \u2014 Oh! muito! \u2014 N\u00e3o admira; eu era naquele tempo uma crian\u00e7a rechonchuda e vermelha; hoje como v\u00ea, estou quase t\u00e3o magro como D. Quixote; e n\u00e3o foram trabalhos, porque eu n\u00e3o os tenho tido; nem desgostos, que eu ainda n\u00e3o os experimentei. O senhor, por\u00e9m, \u00e9 que n\u00e3o mudou; se n\u00e3o fosse esse pequeno bigode, pareceria o mesmo daquele tempo.<\/p>\n<p>\u2014 E todavia n\u00e3o me h\u00e3o faltado desgostos, acudiu o outro; minha vida tem sido atribulada. A natureza tem destas coisas.<\/p>\n<p>\u2014 Casou? \u2014 N\u00e3o; e o senhor? \u2014 Tamb\u00e9m n\u00e3o.<\/p>\n<p>A pouco e pouco come\u00e7aram as confid\u00eancias pessoais; cada um narrou aquilo que podia narrar, por maneira que, ao fim da ceia, pareciam t\u00e3o \u00edntimos como no tempo do col\u00e9gio.<\/p>\n<p>Sabemos destas revela\u00e7\u00f5es m\u00fatuas, que Oliveira era bacharel em direito, e come\u00e7ava a advogar com pouco \u00eaxito. Herdara alguma coisa da av\u00f3, \u00faltima parenta que conservara at\u00e9 ent\u00e3o, tendo-lhe morrido os pais antes de entrar na adolesc\u00eancia. Estava com certo desejo de entrar na vida pol\u00edtica e contava com a prote\u00e7\u00e3o de alguns amigos de seu pai, para ser eleito deputado \u00e0 Assembl\u00e9ia Provincial fluminense.<\/p>\n<p>Magalh\u00e3es era o nome do outro; n\u00e3o herdara de seus pais dinheiro, nem amigos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Aos 16 anos, achou-se s\u00f3 no mundo; exercera v\u00e1rios empregos de car\u00e1ter particular, at\u00e9 que conseguira obter uma nomea\u00e7\u00e3o para o Arsenal de Guerra, onde estava atualmente.<\/p>\n<p>Confessou que esteve a ponto de enriquecer, casando com uma vi\u00fava rica; mas n\u00e3o revelou as causas que lhe impediram essa mudan\u00e7a de fortuna.<\/p>\n<p>A chuva cessara de todo. J\u00e1 uma parte do c\u00e9u se havia descoberto deixando aparecer o rosto da lua cheia, cujos raios p\u00e1lidos e frios brincavam nas pedras e nos telhados \u00famidos.<\/p>\n<p>Sa\u00edram os nossos dois amigos.<\/p>\n<p>Magalh\u00e3es declarou que iria a p\u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o chove mais, disse ele; ou, pelo menos, nesta meia hora; vou a p\u00e9 at\u00e9 \u00e0 Gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem, respondeu Oliveira; j\u00e1 lhe disse o n\u00famero da minha casa e do meu escrit\u00f3rio; apare\u00e7a l\u00e1 algumas vezes; folgarei de reatar as nossas rela\u00e7\u00f5es da meninice.<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m eu; at\u00e9 breve.<\/p>\n<p>Despediram-se na esquina da Rua do Lavradio, e Oliveira enfiou pela de S. Jorge. Ambos foram pensando um no outro.<\/p>\n<p>\u2014 Parece ser um excelente rapaz este Magalh\u00e3es, dizia o jovem advogado consigo; no col\u00e9gio, foi sempre um menino s\u00e9rio. Ainda o \u00e9 agora, e at\u00e9 parece um pouco reservado, mas \u00e9 natural porque sofreu.<\/p>\n<p>II Tr\u00eas dias depois, apareceu Magalh\u00e3es no escrit\u00f3rio de Oliveira; falou na sala a um porteiro que lhe pediu o cart\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenho cart\u00e3o, respondeu Magalh\u00e3es envergonhado; esqueci-me de o trazer; digalhe que \u00e9 o Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>\u2014 Queira esperar alguns minutos, tornou o porteiro; ele est\u00e1 conversando com uma pessoa.<\/p>\n<p>Magalh\u00e3es assentou-se numa cadeira de bra\u00e7os, enquanto o porteiro assoava silenciosamente o nariz e tomava uma pitada de rap\u00e9, que lhe n\u00e3o ofereceu. Magalh\u00e3es examinou detidamente as cadeiras, as estantes, os quadros de gravuras, os capachos e as escarradeiras. A sua curiosidade era minuciosa e sagaz; parecia estar avaliando o gosto ou a riqueza de seu ex-colega.<\/p>\n<p>Minutos depois, ouviu-se um rumor de cadeiras, e n\u00e3o tardou que viesse da sala do fundo um velho alto e empertigado, vestido com certo apuro, a quem o porteiro fez largos cumprimentos at\u00e9 o patamar da escada.<\/p>\n<p>Magalh\u00e3es n\u00e3o esperou que o porteiro fosse avisar Oliveira; atravessou o corredor que separava as duas salas e foi ter com o amigo.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, viva! disse este apenas o viu entrar. Estimo que n\u00e3o lhe houvesse esquecido a promessa. Sente-se; chegou a casa com chuva? \u2014 Come\u00e7ou a chuviscar, quando eu me achava a dois passos da porta, respondeu Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>\u2014 Que horas s\u00e3o? \u2014 Pouco mais de duas, creio eu.<\/p>\n<p>\u2014 O meu rel\u00f3gio est\u00e1 parado, disse Oliveira, lan\u00e7ando o olhar de esguelha para o colete de Magalh\u00e3es, que n\u00e3o tinha rel\u00f3gio. Naturalmente, ningu\u00e9m mais me procurar\u00e1 hoje; e ainda que venham, quero descansar.<\/p>\n<p>Oliveira tocou a campainha apenas acabou de proferir estas palavras. Veio o porteiro.<\/p>\n<p>\u2014 Se vier algu\u00e9m, disse Oliveira, n\u00e3o estou c\u00e1.<\/p>\n<p>O porteiro inclinou-se e saiu.<\/p>\n<p>\u2014 Estamos livres de importunos, disse o advogado, apenas o porteiro virou as costas.<\/p>\n<p>Todas estas maneiras e palavras de simpatia e cordialidade foram angariando a confian\u00e7a de Magalh\u00e3es, que come\u00e7ou a parecer alegre e franco com o seu ex-colega.<\/p>\n<p>Longa foi a conversa, que durou at\u00e9 \u00e0s 4 horas da tarde. As 5 jantava Oliveira; mas o outro jantava \u00e0s 3, e se o n\u00e3o disse, era talvez por defer\u00eancia, se n\u00e3o fosse por c\u00e1lculo.<\/p>\n<p>Um jantar copioso e escolhido n\u00e3o era melhor que o ramerr\u00e3o culin\u00e1rio de Magalh\u00e3es? Fosse uma ou outra coisa, Magalh\u00e3es suportou a fome com admir\u00e1vel denodo. Eram 4 horas da tarde, quando Oliveira deu acordo de si.<\/p>\n<p>\u2014 Quatro horas! exclamou ele, ouvindo as badaladas de um sino pr\u00f3ximo. Naturalmente, j\u00e1 voc\u00ea perdeu a hora do jantar.<\/p>\n<p>\u2014 Assim \u00e9, respondeu Magalh\u00e3es; eu costumo jantar \u00e0s 3 horas. N\u00e3o importa; adeus.<\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9 que n\u00e3o; h\u00e1 de ir jantar comigo \u2014 N\u00e3o; obrigado&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ande c\u00e1, jantaremos no hotel mais pr\u00f3ximo, porque a minha casa \u00e9 longe. Eu ando com id\u00e9ia de mudar de casa; estou muito fora do centro da cidade. Vamos aqui ao Hotel de Europa.<\/p>\n<p>Os vinhos eram bons; Magalh\u00e3es gostava de vinhos bons. No meio do jantar, tinha-se-lhe desenvolvido completamente a l\u00edngua. Oliveira fazia quanto podia para tirar ao amigo da inf\u00e2ncia toda esp\u00e9cie de acanhamento. Isto e o vinho deram excelente resultado.<\/p>\n<p>Desta ocasi\u00e3o em diante foi que Oliveira come\u00e7ou a apreciar o ex-colega. Era Magalh\u00e3es um rapaz de agudo esp\u00edrito, boa observa\u00e7\u00e3o, conversador ameno, um pouco lido em obras f\u00fateis e correntes. Tinha, al\u00e9m disso, o dom de ser naturalmente insinuante. Com estas prendas juntas n\u00e3o era dif\u00edcil, era antes fac\u00edlimo angariar as boas gra\u00e7as de Oliveira, que, \u00e0 sua extrema bondade, reunia uma natural confian\u00e7a, ainda n\u00e3o diminu\u00edda pelos c\u00e1lculos da vida madura. Demais Magalh\u00e3es tinha sido infeliz; esta circunst\u00e2ncia era aos olhos de Oliveira um realce. Finalmente, o seu ex-colega j\u00e1 lhe confiara no trajeto do escrit\u00f3rio ao hotel, que n\u00e3o contava um amigo debaixo do sol. Oliveira queria ser esse amigo.<\/p>\n<p>Qual importa mais \u00e0 vida, ser Dom Quixote ou Sancho Pan\u00e7a? O ideal ou o pr\u00e1tico? A generosidade ou a prud\u00eancia? Oliveira n\u00e3o hesitava entre esses dois opostos pap\u00e9is; nem sequer pensara neles. Estava no per\u00edodo do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Apertaram-se os la\u00e7os da amizade entre os dois colegas. Oliveira mudou-se para a cidade, o que deu azo a que os dois amigos se encontrassem mais vezes. A freq\u00fc\u00eancia veio a uni-los ainda mais.<\/p>\n<p>Oliveira apresentou Magalh\u00e3es a todos os seus amigos; levou-o \u00e0 casa de alguns. A sua palavra afian\u00e7ava o h\u00f3spede que, dentro em pouco tempo, captava as simpatias de todos.<\/p>\n<p>Nisto era Magalh\u00e3es superior a Oliveira. N\u00e3o faltava ao advogado intelig\u00eancia, nem maneiras, nem dom para se fazer estimado. Mas os dotes de Magalh\u00e3es superavam os dele. A conversa de Magalh\u00e3es era mais picante, mais variada, mais atraente. H\u00e1 muito quem prefira a amizade de um homem sarc\u00e1stico, e Magalh\u00e3es tinha seus longes de sarc\u00e1stico.<\/p>\n<p>N\u00e3o se magoava com isto Oliveira, antes parecia ter certa gl\u00f3ria em ver que seu amigo obtinha por seu m\u00e9rito a estima dos outros.<\/p>\n<p>Facilmente acreditar\u00e1 o leitor que estes dois amigos se fizessem confidentes de todas as coisas, principalmente de coisas de amores. Nada esconderam a este respeito um ao outro, com a diferen\u00e7a de que Magalh\u00e3es, n\u00e3o tendo amores atuais, confiou ao amigo apenas algumas proezas antigas, ao passo que Oliveira, a bra\u00e7os com algumas aventuras, n\u00e3o dissimulou nenhuma delas, e tudo contou a Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>E foi bem que o fizesse, porque Magalh\u00e3es era homem de bom conselho, dava ao amigo pareceres sensatos, que ele ouvia e aceitava com grande proveito seu e para maior gl\u00f3ria da rec\u00edproca amizade.<\/p>\n<p>A dedica\u00e7\u00e3o de Magalh\u00e3es ainda se manifestava por outro modo. N\u00e3o era raro v\u00ea-lo desempenhar um papel de conciliador, auxiliar uma inocente mentira, ajudar o amigo em todas as dificuldades que o amor depara aos seus alunos.<\/p>\n<p>III Um dia de manh\u00e3, leu Oliveira, ainda na cama, a not\u00edcia da demiss\u00e3o de Magalh\u00e3es, impressa no Jornal do Commercio. Grande foi a sua m\u00e1goa, mas ainda maior que a m\u00e1goa foi a raiva que esta not\u00edcia lhe causou. Demitir Magalh\u00e3es! Oliveira mal podia compreender este ato do ministro. O ministro era necessariamente tolo ou tratante.<\/p>\n<p>Havia patronato naquilo. N\u00e3o seria pagamento a algum eleitor sol\u00edcito? Estas e outras conjecturas preocuparam o advogado at\u00e9 \u00e0 hora do almo\u00e7o. Almo\u00e7ou pouco. O est\u00f4mago acompanhava a dor do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Magalh\u00e3es devia ir nesse dia ao escrit\u00f3rio de Oliveira. Com que ansiedade esperou este a hora marcada! Esteve a ponto de faltar a um depoimento de testemunhas. Mas a hora chegou e Magalh\u00e3es n\u00e3o apareceu. Oliveira estava sobre brasas. Qual a raz\u00e3o da falta? N\u00e3o atinava com ela.<\/p>\n<p>Eram quatro horas, quando saiu do escrit\u00f3rio, e sua resolu\u00e7\u00e3o imediata foi meter-se num t\u00edlburi e seguir para a Gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>Assim o fez.<\/p>\n<p>Quando l\u00e1 chegou, estava Magalh\u00e3es lendo um romance. N\u00e3o parecia abatido pelo golpe ministerial. Todavia, n\u00e3o estava alegre. Fechou o livro lentamente e abra\u00e7ou o amigo.<\/p>\n<p>Oliveira n\u00e3o podia conter a sua c\u00f3lera.<\/p>\n<p>\u2014 L\u00e1 vi hoje, disse ele, a not\u00edcia da tua demiss\u00e3o. \u00c9 uma patifaria sem nome&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea? \u2014 Ainda o perguntas? \u2014 Sim; por qu\u00ea? O ministro \u00e9 senhor dos seus atos e respons\u00e1vel por eles; podia demitirme e f\u00ea-lo.<\/p>\n<p>\u2014 Mas fez mal, disse Oliveira.<\/p>\n<p>Magalh\u00e3es sorriu tristemente.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o podia deixar de o fazer, disse ele; um ministro \u00e9 muitas vezes um amanuense do destino, que s\u00f3 parece ocupar-se em me perturbar a vida e multiplicar todos os esfor\u00e7os.<\/p>\n<p>Que queres? Eu j\u00e1 estou acostumado, n\u00e3o resisto; dia vir\u00e1 em que estes golpes ter\u00e3o um termo. Dia vir\u00e1 em que eu possa vencer a m\u00e1 fortuna de uma vez para sempre. Tenho o rem\u00e9dio nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u2014 Deixa-te de tolices, Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>\u2014 Tolices? \u2014 Mais que tolices; s\u00ea forte! Magalh\u00e3es abanou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o custa aconselhar fortaleza, murmurou ele; mas quem tem sofrido como eu&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 n\u00e3o contas com os amigos? \u2014 Os amigos n\u00e3o podem tudo.<\/p>\n<p>\u2014 Muito obrigado! Eu te mostrarei, se podem.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o te iludas, Oliveira; n\u00e3o te esforces a favor de um homem que a sorte condenou.<\/p>\n<p>\u2014 Hist\u00f3rias! \u2014 Sou um condenado.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9s um fracalh\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Acreditas que eu&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Acredito que \u00e9s um fracalh\u00e3o, e que n\u00e3o pareces aquele mesmo Magalh\u00e3es que sabe conservar o sangue frio em todas as ocasi\u00f5es graves. Descansa, eu tirarei desforra brilhante. Antes de quinze dias estar\u00e1s empregado.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o creias&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Desafias-me? \u2014 N\u00e3o; bem conhe\u00e7o de que \u00e9 capaz teu cora\u00e7\u00e3o nobre e generoso&#8230; mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas o qu\u00ea? Receio que a m\u00e1 fortuna seja mais forte do que eu.<\/p>\n<p>\u2014 Ver\u00e1s.<\/p>\n<p>Oliveira deu um passo para a porta.<\/p>\n<p>\u2014 Nada disso impede que venhas jantar comigo, disse ele, voltando-se para Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>\u2014 Obrigado; j\u00e1 jantei.<\/p>\n<p>\u2014 Anda ao menos comigo para ver se te distrais.<\/p>\n<p>Magalh\u00e3es recusou; mas Oliveira insistiu com t\u00e3o boa vontade que n\u00e3o havia recusar.<\/p>\n<p>Durante a noite seguinte meditou Oliveira acerca do neg\u00f3cio de Magalh\u00e3es. Tinha amigos importantes, os mesmos que forcejavam por lhe abrir carreira pol\u00edtica. Oliveira pensou neles como os mais pr\u00f3prios para levar a cabo a obra de seus desejos. O grande caso para ele era empregar Magalh\u00e3es, em cargo tal que despicasse da prepot\u00eancia ministerial. O substantivo prepot\u00eancia era a exata express\u00e3o de Oliveira.<\/p>\n<p>N\u00e3o lhe ocultaram os amigos que o caso n\u00e3o era f\u00e1cil; mas prometeram que a dificuldade seria vencida. N\u00e3o se dirigiram ao ministro da Guerra, mas a outro; Oliveira p\u00f4s em campo o recurso feminino. Duas senhoras de seu conhecimento foram em pessoa falar ao ministro, em favor do feliz candidato.<\/p>\n<p>N\u00e3o negou o digno membro do poder executivo a dificuldade de criar um lugar para dar ao pretendente. Seria cometer a injusti\u00e7a de tirar o p\u00e3o a empregados \u00fateis ao pa\u00eds.<\/p>\n<p>Instavam, por\u00e9m, os padrinhos, audi\u00eancias e cartas, pedidos de toda sorte; nada ficou por empregar em favor de Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>Depois de cinco dias de lutas e solicita\u00e7\u00f5es di\u00e1rias, declarou o ministro que poderia dar um bom emprego a Magalh\u00e3es na Alf\u00e2ndega de Corumb\u00e1. J\u00e1 era boa vontade da parte do ministro, mas os protetores de Magalh\u00e3es recusaram a gra\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 O que se deseja de V. Excia., disse um deles, \u00e9 que o nosso afilhado seja empregado aqui mesmo na corte. Vai nisso uma quest\u00e3o de honra, e uma quest\u00e3o de comodidade.<\/p>\n<p>Tinha boa vontade o ministro, e entrou a cogitar no meio de acomodar o pretendente.<\/p>\n<p>Havia em uma das reparti\u00e7\u00f5es a seu cargo um empregado que durante o ano faltava muitas vezes ao ponto, e na \u00faltima peleja eleitoral votara contra o ministro. Caiu-lhe uma demiss\u00e3o em casa, e para evitar empenhos mais fortes, no mesmo dia em que apareceu a demiss\u00e3o do empregado vadio, apareceu a nomea\u00e7\u00e3o de Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>Foi o pr\u00f3prio Oliveira que levou a Magalh\u00e3es o desejado decreto.<\/p>\n<p>\u2014 D\u00e1-me c\u00e1 um abra\u00e7o, disse ele, e reza a\u00ed um mea culpa. Venci o destino. Est\u00e1s nomeado.<\/p>\n<p>\u2014 Qu\u00ea! ser\u00e1 poss\u00edvel? \u2014 Aqui tens o decreto! Magalh\u00e3es caiu nos bra\u00e7os de Oliveira.<\/p>\n<p>A gratid\u00e3o de quem recebe um benef\u00edcio \u00e9 sempre menor que o prazer daquele que o faz.<\/p>\n<p>Magalh\u00e3es exprimia todo seu reconhecimento pela dedica\u00e7\u00e3o e perseveran\u00e7a de Oliveira; mas a alegria de Oliveira n\u00e3o tinha limites. A explica\u00e7\u00e3o desta diferen\u00e7a est\u00e1 talvez neste fundo de ego\u00edsmo que h\u00e1 em todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Em todo caso, a amizade dos dois ex-colegas ganhou com isso maior solidez.<\/p>\n<p>IV O novo emprego de Magalh\u00e3es era muito melhor que o primeiro em categoria e lucro, de maneira que a demiss\u00e3o, longe de lhe ser um golpe funesto do destino, foi um lance de melhor fortuna.<\/p>\n<p>Passou Magalh\u00e3es a ter melhor casa e a alargar um pouco mais a bolsa, pois que a tinha agora mais farta que dantes; Oliveira observava esta mudan\u00e7a e regozijava-se com a id\u00e9ia de que contribu\u00edra para ela.<\/p>\n<p>A vida de ambos continuaria por este teor, pl\u00e1cida e indiferente, se um acontecimento n\u00e3o a viesse perturbar de repente.<\/p>\n<p>Um dia, achou Magalh\u00e3es que Oliveira parecia preocupado. Perguntou-lhe francamente o que era.<\/p>\n<p>\u2014 Que h\u00e1 de ser? disse Oliveira. Eu sou um miser\u00e1vel nessas coisas de amores; estou apaixonado.<\/p>\n<p>\u2014 Queres que te diga uma coisa? \u2014 O qu\u00ea? \u2014 Acho que fazes mal em diluir o teu cora\u00e7\u00e3o com essas mulheres.<\/p>\n<p>\u2014 Que mulheres? \u2014 Essas.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me compreendes, Magalh\u00e3es; a minha atual paix\u00e3o \u00e9 s\u00e9ria; amo uma menina honesta.<\/p>\n<p>\u2014 Que m\u00e1goas ent\u00e3o s\u00e3o essas? Casa com ela.<\/p>\n<p>\u2014 Esse \u00e9 o ponto. Creio que ela n\u00e3o me ama.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! Houve um sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o te resta esperan\u00e7a nenhuma? perguntou Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso dizer isso; n\u00e3o penso que ela seja sempre esquiva ao meu sentimento; mas por ora nada h\u00e1 entre n\u00f3s.<\/p>\n<p>Magalh\u00e3es entrou a rir.<\/p>\n<p>\u2014 Pareces-me calouro, homem! disse ele. Quantos anos tem ela? \u2014 Dezessete.<\/p>\n<p>\u2014 A idade da inoc\u00eancia; suspiras em sil\u00eancio e queres que ela te adivinhe. Nunca chegar\u00e1s ao cabo. Tem-se comparado o amor \u00e0 guerra. Assim \u00e9. No amor, querem-se atos de bravura como na guerra. Avan\u00e7a afoitamente e vencer\u00e1s.<\/p>\n<p>Oliveira ouvia estas palavras com a aten\u00e7\u00e3o de um homem sem iniciativa, a quem todo conselho serve. Confiava no ju\u00edzo de Magalh\u00e3es e o parecer dele era razo\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u2014 Parece-te ent\u00e3o que eu devo expor-me? \u2014 Sem d\u00favida.<\/p>\n<p>O advogado referiu depois todas as circunst\u00e2ncias do seu encontro com a mo\u00e7a em quest\u00e3o. Pertencia a uma fam\u00edlia com quem esteve em casa de terceiro; o pai era um excelente homem, que o convidou a freq\u00fcentar a casa, e a m\u00e3e uma excelente senhora, que ratificou o convite do marido. Oliveira n\u00e3o tinha ido l\u00e1 depois disso, porque, segundo imaginava, a mo\u00e7a n\u00e3o correspondia \u00e0 sua afei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9s um tolo, disse Magalh\u00e3es quando o amigo acabou a narra\u00e7\u00e3o. V\u00eas a rapariga num baile, ficas gostando dela, e s\u00f3 porque ela n\u00e3o te caiu logo nos bra\u00e7os, desistes de lhe freq\u00fcentar a casa. Oliveira, tem ju\u00edzo: vai \u00e0 casa dela, e dir-me-\u00e1s daqui a pouco tempo se te n\u00e3o aproveita o conselho. Queres casar, n\u00e3o? \u2014 Oh! podias p\u00f4r em d\u00favida?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o; \u00e9 uma pergunta. N\u00e3o \u00e9 casamento rom\u00e2ntico? \u2014 Que queres dizer com isso? \u2014 Ela \u00e9 rica? Oliveira franziu a testa.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o te zangues, disse MagaLh\u00e3es. Eu n\u00e3o sou nenhum esp\u00edrito rasteiro; tamb\u00e9m, conhe\u00e7o as delicadezas do cora\u00e7\u00e3o. Nada vale mais que um amor verdadeiro e desinteressado. N\u00e3o se me h\u00e1 de censurar, por\u00e9m, que eu procure ver o lado pr\u00e1tico das coisas; um cora\u00e7\u00e3o de ouro vale muito; mas um cora\u00e7\u00e3o de ouro com ouro vale mais.<\/p>\n<p>\u2014 Cec\u00edlia \u00e9 rica.<\/p>\n<p>\u2014 Pois tanto melhor! \u2014 Afian\u00e7o-te, por\u00e9m, que essa considera\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o precisas afian\u00e7ar nada; eu bem sei o que vales, disse Magalh\u00e3es apertando as m\u00e3os de Oliveira. Anda, meu amigo, n\u00e3o te detenho; procura a tua felicidade.<\/p>\n<p>Animado por estes conselhos, tratou Oliveira de sondar o terreno para declarar a sua paix\u00e3o. Omiti de prop\u00f3sito a descri\u00e7\u00e3o de Cec\u00edlia feita por Oliveira ao seu amigo Nagalh\u00e3es. N\u00e3o desejava exagerar aos olhos dos leitores a beleza da mo\u00e7a, que a um namorado parece sempre maior do que realmente \u00e9. Mas Cec\u00edlia era realmente formosa.<\/p>\n<p>Era uma beleza, uma flor em toda a extens\u00e3o da palavra. Todas as for\u00e7as e fulgores da mocidade estavam nela, que apenas sa\u00eda da adolesc\u00eancia e parecia anunciar longa e espl\u00eandida juventude. N\u00e3o era alta, mas tamb\u00e9m n\u00e3o era baixa. Era acima de me\u00e3. Era muito corada e viva; tinha uns olhos brilhantes e buli\u00e7osos, olhos de namorada ou namoradeira; era talvez um pouco afetada, mas deliciosa; tinha certas exclama\u00e7\u00f5es que lhe ficavam bem nos seus l\u00e1bios finos e \u00famidos.<\/p>\n<p>Oliveira n\u00e3o viu logo todas estas coisas na noite em que lhe falou; mas n\u00e3o tardou que ela se lhe revelasse assim, desde que come\u00e7ou a freq\u00fcentar a casa dela.<\/p>\n<p>Nisto, era Cec\u00edlia ainda um pouco crian\u00e7a; n\u00e3o sabia dissimular, nem era dif\u00edcil captar-lhe a confian\u00e7a. Mas, atrav\u00e9s das apar\u00eancias de frivolidade e volubilidade, descobria-lhe Oliveira s\u00f3lidas qualidades de cora\u00e7\u00e3o. O contacto redobrou o seu amor. No fim de um m\u00eas, Oliveira parecia perdido por ela.<\/p>\n<p>Magalh\u00e3es continuava a ser o conselheiro de Oliveira e o seu \u00fanico confidente. Um dia, pediu-lhe o namorado que fosse com ele \u00e0 casa de Cec\u00edlia.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho medo, disse Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea? \u2014 Sou capaz: de precipitar tudo, e isso n\u00e3o sei se ser\u00e1 conveniente antes de conhecer bem o terreno. Em qualquer caso, n\u00e3o \u00e9 mau que eu v\u00e1 examinar por mim mesmo as coisas. Irei quando quiseres.<\/p>\n<p>\u2014 Amanh\u00e3? \u2014 Seja amanh\u00e3.<\/p>\n<p>No dia seguinte, Oliveira apresentou Magalh\u00e3es em casa do comendador Vasconcelos.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o meu melhor amigo, disse Oliveira.<\/p>\n<p>Na casa de Vasconcelos, j\u00e1 estimavam o advogado; esta apresenta\u00e7\u00e3o bastava para recomendar Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>V O comendador Vasconcelos era um velho folgaz\u00e3o. Estouvado na mocidade, n\u00e3o o era menos na velhice. O estouvamento na velhice \u00e9, por via de regra, um sen\u00e3o; todavia, o estouvamento de Vasconcelos tinha um toque peculiar, um car\u00e1ter todo seu, por modo que era imposs\u00edvel compreender aquele velho sem aquele estouvamento.<\/p>\n<p>Contava j\u00e1 seus cinq\u00fcenta e oito anos, e andaria l\u00e9pido como um rapaz de vinte anos, se n\u00e3o fosse uma volumosa barriga que, desde os quarenta anos, lhe come\u00e7ara a crescer com grave desdouro das suas gra\u00e7as f\u00edsicas, que as tinha, e sem as quais era duvidoso que a sra. D. Mariana houvesse casado com ele.<\/p>\n<p>D. Mariana, antes de casar, professava um princ\u00edpio seu: o casamento \u00e9 um estado vital\u00edcio; cumpre n\u00e3o precipitar a escolha do noivo. Pelo que, rejeitou tr\u00eas pretendentes que, apesar de suas boas qualidades, tinham um defeito f\u00edsico importante: n\u00e3o eram bonitos. Vasconcelos alcan\u00e7ou o seu Austerlitz onde os outros haviam achado Waterloo.<\/p>\n<p>Salvante a barriga, Vasconcelos era ainda um belo velho, uma ru\u00edna magn\u00edfica. N\u00e3o tinha paix\u00f5es pol\u00edticas: votara alternadamente com os conservadores e os liberais para contentar os amigos que tinha em ambos os partidos. Conciliava as opini\u00f5es sem arriscar as amizades.<\/p>\n<p>Quando a acusavam deste ceticismo pol\u00edtico, respondia com uma frase que, se n\u00e3o discriminava as suas opini\u00f5es, abonava o seu patriotismo: \u2014 Somos todos brasileiros.<\/p>\n<p>Quadrava o g\u00eanio de Magalh\u00e3es com o de Vasconcelos. A intimidade n\u00e3o tardou muito.<\/p>\n<p>J\u00e1 sabemos que o amigo de Oliveira tinha a grande qualidade de se fazer querido com pouco trabalho. Vasconcelos morria por ele; achava-lhe imensa gra\u00e7a e s\u00f3lido ju\u00edzo. D.<\/p>\n<p>Mariana chamava-lhe a alegria da casa; Cec\u00edlia n\u00e3o tinha mais condescendente conversador.<\/p>\n<p>Para os fins de Oliveira era excelente.<\/p>\n<p>N\u00e3o se descuidou Magalh\u00e3es de sondar o terreno, a ver se podia animar o amigo. Achou o terreno excelente. Falou uma vez \u00e0 mo\u00e7a a respeito do amigo e ouviu-lhe palavras de animadora esperan\u00e7a. Parece-me ser, disse ela, um excelente cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Afirmo que o \u00e9, disse Magalh\u00e3es; conhe\u00e7o-o h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p>Quando Oliveira soube destas palavras, que n\u00e3o eram muita coisa, ficou muito animado.<\/p>\n<p>\u2014 Creio que posso ter esperan\u00e7as, disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Nunca te disse outra coisa, respondeu Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>Magalh\u00e3es nem sempre podia servir aos interesses do amigo, porque Vasconcelos, a quem ca\u00edra em gra\u00e7a, confiscava-o horas inteiras, ou palestrando, ou jogando o gam\u00e3o.<\/p>\n<p>Um dia, Oliveira perguntou ao amigo se era conveniente arriscar uma carta.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda n\u00e3o, deixa-me preparar a coisa.<\/p>\n<p>Oliveira acedeu.<\/p>\n<p>A quem ler estas p\u00e1ginas muito por alto, parecer\u00e1 inveross\u00edmil da parte de Oliveira semelhante necessidade de um cicerone.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>Oliveira nenhuma demonstra\u00e7\u00e3o dera at\u00e9 ali \u00e0 mo\u00e7a, que se conservava ignorante do que se passava dentro dele; e se assim praticava, era por um excesso de timidez, fruto de suas proezas com mulheres de outra classe.<\/p>\n<p>Nada intimida mais a um conquistador de mulheres f\u00e1ceis do que a ignor\u00e2ncia e a inoc\u00eancia de uma donzela de dezessete anos.<\/p>\n<p>Acresce que, se Magalh\u00e3es era de opini\u00e3o que ele n\u00e3o se demorasse em expor os seus sentimentos, j\u00e1 agora pensava que era melhor n\u00e3o arriscar golpe sem certeza do resultado.<\/p>\n<p>A dedica\u00e7\u00e3o de Magalh\u00e3es tamb\u00e9m parecer\u00e1 condescendente aos esp\u00edritos severos. Mas a que se n\u00e3o exp\u00f5e a verdadeira amizade? Na primeira ocasi\u00e3o que se lhe deparou, tratou Magalh\u00e3es de perscrutar o cora\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Era de noite; havia gente em casa. 0liveira estava ausente. Magalh\u00e3es conversava com Cec\u00edlia a respeito de um chap\u00e9u com que uma senhora idosa entrara na sala.<\/p>\n<p>Magalh\u00e3es fazia a respeito do chap\u00e9u mil conjecturas burlescas.<\/p>\n<p>\u2014 Aquele chap\u00e9u, dizia ele, parece-me um ressuscitado. Houve naturalmente alguma epidemia de chap\u00e9us em que morreu aquele, acompanhado de outros seus irm\u00e3os.<\/p>\n<p>Aquele ressuscitou, para vir dizer a este mundo o que \u00e9 o para\u00edso dos chap\u00e9us.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia reprimia uma risada.<\/p>\n<p>Magalh\u00e3es continuava: \u2014 Eu, se fosse aquele chap\u00e9u, pedia uma pens\u00e3o como inv\u00e1lido e como raridade.<\/p>\n<p>Isto era mais burlesco que picante, mais est\u00fardio que engra\u00e7ado; todavia, fazia rir Cec\u00edlia.<\/p>\n<p>Repentinamente, Magalh\u00e3es ficou s\u00e9rio e consultou o rel\u00f3gio.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 se vai embora? perguntou a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, senhora, disse Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>\u2014 Guarde ent\u00e3o o rel\u00f3gio.<\/p>\n<p>\u2014 Admira-me que Oliveira ainda n\u00e3o viesse.<\/p>\n<p>\u2014 Vir\u00e1 mais tarde. Os senhores s\u00e3o muito amigos? \u2014 Muito. Conhecemo-nos desde crian\u00e7as. \u00c9 uma bela alma.<\/p>\n<p>Houve um sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Magalh\u00e3es cravou os olhos na mo\u00e7a, que olhava para o ch\u00e3o, e disse: \u2014 Feliz aquela que o possuir.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a n\u00e3o revelou a menor impress\u00e3o ao ouvir estas palavras de Magalh\u00e3es. Ele repetiu a frase, e ela perguntou se n\u00e3o seriam horas de tomar ch\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 amou, D. Cec\u00edlia? perguntou Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>\u2014 Que pergunta \u00e9 essa? \u2014 \u00c9 uma curiosidade.<\/p>\n<p>\u2014 Nunca amei.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea? \u2014 Sou muito crian\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Crian\u00e7a! Outro sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014 Conhe\u00e7o algu\u00e9m que a ama muito.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia estremeceu e ficou muito corada; n\u00e3o respondeu nem se levantou. Para sair, por\u00e9m, da situa\u00e7\u00e3o em que as palavras de Magalh\u00e3es a deixara, disse rindo: \u2014 Essa pessoa&#8230; quem \u00e9? \u2014 Quer saber o nome? \u2014 Quero. \u00c9 seu amigo? \u2014 \u00c9.<\/p>\n<p>\u2014 Diga o nome.<\/p>\n<p>Outro sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014 Promete n\u00e3o ficar zangada comigo? \u2014 Prometo.<\/p>\n<p>\u2014 Sou eu.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia esperava ouvir outra coisa; esperava ouvir o nome de Oliveira. Qualquer que fosse a sua inoc\u00eancia, havia percebido naqueles \u00faltimos dias que o rapaz tinha queda por ela.<\/p>\n<p>Da parte de Magalh\u00e3es, n\u00e3o esperava semelhante declara\u00e7\u00e3o; todavia, o seu espanto n\u00e3o foi de c\u00f3lera, apenas surpresa.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que ela n\u00e3o amava nenhum deles.<\/p>\n<p>N\u00e3o tendo a mo\u00e7a respondido logo, Magalh\u00e3es disse com um sorriso ben\u00e9volo: \u2014 J\u00e1 sei que ama outro.<\/p>\n<p>\u2014 Que outro? \u2014 Oliveira.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>Era a primeira vez que Magalh\u00e3es apresentava um aspecto grave; penalizada com a id\u00e9ia de que lhe houvesse com o sil\u00eancio causado alguma tristeza, que ela adivinhava, posto que n\u00e3o sentisse, Cec\u00edlia disse ao fim de alguns minutos: \u2014 O senhor est\u00e1 brincando comigo? \u2014 Brincando! disse Magalh\u00e3es. Tudo quanto quiser, menos isso; n\u00e3o se brinca com o amor ou o sofrimento. J\u00e1 lhe disse que a amo; responda-me francamente se posso nutrir alguma esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a n\u00e3o respondia.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o poderei viver ao p\u00e9 da senhora sem uma esperan\u00e7a, embora remota.<\/p>\n<p>O pap\u00e1 \u00e9 quem decide de mim, disse ela desviando a conversa.<\/p>\n<p>\u2014 Pensa que eu sou desses cora\u00e7\u00f5es que se contentam com o consentimento paterno? O que eu desejo possuir primeiro \u00e9 o seu cora\u00e7\u00e3o. Diga-me: posso esperar essa fortuna? \u2014 Talvez, murmurou a menina, levantando-se envergonhada dessa singela palavra.<\/p>\n<p>VI Era a primeira declara\u00e7\u00e3o que Cec\u00edlia ouvia da boca de um homem. N\u00e3o estava preparada para ela. Tudo o que ouvira lhe causara um inexplic\u00e1vel alvoro\u00e7o.<\/p>\n<p>Posto que n\u00e3o amasse nenhum dos dois, apreciava ambos os rapazes, e n\u00e3o seria dif\u00edcil que cedesse ao pedido de um deles e viesse a am\u00e1-lo apaixonadamente.<\/p>\n<p>Dos dois rapazes, o que mais depressa conseguiria vencer, dado o caso que se declarassem ao mesmo tempo, era sem d\u00favida Magalh\u00e3es, cujo esp\u00edrito galhofeiro e presen\u00e7a insinuante deviam influir mais no esp\u00edrito da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Minutos depois da cena narrada no cap\u00edtulo anterior, j\u00e1 os olhos de Cec\u00edlia procuravam os de Magalh\u00e3es, mas rapidamente, sem se demorar neles; todos os sintomas de um cora\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se demorar\u00e1 em ceder.<\/p>\n<p>Magalh\u00e3es tinha a vantagem de conservar todo o sangue frio no meio da situa\u00e7\u00e3o que se lhe apresentava, e isso era excelente para n\u00e3o descobrir aos olhos estranhos o segredo que ele tinha interesse em conservar.<\/p>\n<p>Pouco depois, entrou Oliveira. Magalh\u00e3es deu-se pressa em o chamar de parte.<\/p>\n<p>\u2014 Que h\u00e1? perguntou Oliveira.<\/p>\n<p>\u2014 Boas not\u00edcias.<\/p>\n<p>\u2014 Falaste-lhe? \u2014 Positivamente n\u00e3o; mas encaminhei o neg\u00f3cio de maneira que talvez em poucos dias tenha a tua situa\u00e7\u00e3o mudado completamente.<\/p>\n<p>\u2014 Mas que houve? \u2014 Falei-lhe de amores; ela pareceu indiferente a essas id\u00e9ias; disse-lhe ent\u00e3o gracejando que a amava&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Tu? \u2014 Sim. De que te admiras? \u2014 E que disse ela? \u2014 Riu-se. Ent\u00e3o perguntei-lhe velhacamente se amava algu\u00e9m. E ela a isto respondeu que n\u00e3o, mas por modo que me parecia uma afirmativa. Deixa o caso por minha conta.<\/p>\n<p>Amanh\u00e3, desfa\u00e7o a meada; digo-lhe que eu estava brincando&#8230; Mas paremos aqui, que a\u00ed vem o comendador.<\/p>\n<p>Efetivamente, Vasconcelos chegara \u00e0 janela onde os dois estavam. Uma das manias de Vasconcelos era comentar durante o dia todas as not\u00edcias que os jornais publicavam de manh\u00e3. Os jornais daquele dia falavam de um casal encontrado morto num quarto da casa em que residia. Vasconcelos desejava saber se os dois amigos optavam pelo suic\u00eddio, circunst\u00e2ncia esta que o levaria a adotar a hip\u00f3tese do assass\u00ednio.<\/p>\n<p>Foi esta conversa uma completa divers\u00e3o ao assunto amoroso, e Magalh\u00e3es aproveitou o debate entre Oliveira e Vasconcelos para ir conversar com Cec\u00edlia.<\/p>\n<p>Falaram de coisas indiferentes, mas Cec\u00edlia estava menos expansiva; Magalh\u00e3es sup\u00f4s a princ\u00edpio que fosse um sintoma de esquivan\u00e7a; n\u00e3o era. Bem o notou ele quando, ao sair, Cec\u00edlia correspondeu energicamente ao seu apertado aperto de m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Pensas que serei feliz, Magalh\u00e3es? perguntou Oliveira apenas se acharam na rua.<\/p>\n<p>\u2014 Penso.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o imaginas que dia passei hoje.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o hei de imaginar! \u2014 Olha, nunca pensei que esta paix\u00e3o pudesse dominar tanto a minha vida.<\/p>\n<p>Magalh\u00e3es animou o rapaz, que o convidou a cear, n\u00e3o porque o amor lhe deixasse largo campo \u00e0s exig\u00eancias do est\u00f4mago, sen\u00e3o porque havia jantado pouco.<\/p>\n<p>Eu pe\u00e7o perd\u00e3o aos meus leitores, se entro nestas explica\u00e7\u00f5es a respeito da comida.<\/p>\n<p>Quer-se um her\u00f3i rom\u00e2ntico, acima das necessidades vulgares da vida humana; mas n\u00e3o posso deixar de as mencionar, n\u00e3o por sistema, mas por ser fiel \u00e0 hist\u00f3ria que estou contando.<\/p>\n<p>A ceia foi alegre, porque Magalh\u00e3es e a tristeza eram incompat\u00edveis. Oliveira, apesar de tudo, comeu pouco, Magalh\u00e3es largamente. Entendia que lhe cumpria pagar a ceia; mas o amigo n\u00e3o consentiu nisso.<\/p>\n<p>\u2014 Olha, Magalh\u00e3es, disse Oliveira ao despedir-se dele. A minha felicidade est\u00e1 nas tuas m\u00e3os; \u00e9s capaz de dar conta dela? \u2014 N\u00e3o se devem prometer coisas tais; o que eu te afirmo \u00e9 que n\u00e3o pouparei esfor\u00e7os.<\/p>\n<p>\u2014 E pensas que serei feliz? \u2014 Quantas vezes queres que to diga? \u2014 Adeus.<\/p>\n<p>\u2014 Adeus.<\/p>\n<p>No dia seguinte, Oliveira mandou dizer a Magalh\u00e3es que estava um pouco incomodado.<\/p>\n<p>Magalh\u00e3es foi visit\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Achou-o de cama.<\/p>\n<p>\u2014 Estou com alguma febre, disse o advogado; dize isto mesmo ao comendador, a quem eu prometi de ir l\u00e1 hoje.<\/p>\n<p>Magalh\u00e3es cumpriu o pedido.<\/p>\n<p>Era a ocasi\u00e3o de se manifestar a dedica\u00e7\u00e3o de Magalh\u00e3es. N\u00e3o faltou este mo\u00e7o a t\u00e3o sagrado dever. Passava com Oliveira a tarde e as noites e s\u00f3 se separava dele para ir, \u00e0s vezes, \u00e0 casa de Vasconcelos, que era isso mesmo o que Oliveira lhe pedia.<\/p>\n<p>\u2014 Fala-lhe sempre de mim, dizia Oliveira.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o fa\u00e7o outra coisa.<\/p>\n<p>E assim era. Magalh\u00e3es n\u00e3o cessava de dizer que vinha ou ia para casa de Oliveira, cuja doen\u00e7a ia tomando um aspecto grave.<\/p>\n<p>\u2014 Que amigo! murmurava consigo D. Mariana.<\/p>\n<p>\u2014 O senhor \u00e9 um bom cora\u00e7\u00e3o, dizia Vasconcelos apertando as m\u00e3os de Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>\u2014 O sr. Oliveira deve querer-lhe muito, dizia Cec\u00edlia.<\/p>\n<p>\u2014 Como a um irm\u00e3o.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a de Oliveira era grave; durante todo o tempo que durou, n\u00e3o se desmentiu nunca a dedica\u00e7\u00e3o de Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>Oliveira admirava-o. Via que o benef\u00edcio que lhe fizera n\u00e3o ca\u00edra em m\u00e1 terra. Grande foi a sua alegria quando, ao come\u00e7ar a convalescen\u00e7a, Magalh\u00e3es lhe pediu duzentos milr\u00e9is, com promessa de os pagar no fim do m\u00eas.<\/p>\n<p>\u2014 Quanto quiseres, meu amigo. Tira-os ali da secret\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u2014 Acredita que isto me vexa imensamente, disse Magalh\u00e3es, metendo na algibeira duas notas de cem mil-r\u00e9is. Nunca te pedi dinheiro; agora, menos que nunca, devia pedir-to.<\/p>\n<p>Oliveira compreendeu o pensamento do amigo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sejas tolo; a nossa bolsa \u00e9 comum.<\/p>\n<p>\u2014 Oxal\u00e1 que esse belo princ\u00edpio possa ser realizado literalmente, disse Magalh\u00e3es rindo.<\/p>\n<p>Oliveira n\u00e3o lhe falou nesse dia a respeito de Cec\u00edlia. Foi o pr\u00f3prio Magalh\u00e3es que encetou a respeito dela uma conversa.<\/p>\n<p>\u2014 Queres ouvir uma coisa? disse ele. Apenas sa\u00edres, manda-lhe uma carta.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea? Cr\u00eas que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Creio que \u00e9 a hora do golpe.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00f3 para a semana poderei sair.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o importa, vir\u00e1 a tempo.<\/p>\n<p>Para compreender bem a situa\u00e7\u00e3o singular em que se achavam estes personagens todos, \u00e9 mister transcrever aqui as palavras com que nessa mesma noite se despediram Magalh\u00e3es e Cec\u00edlia \u00e0 janela da casa desta: \u2014 At\u00e9 amanh\u00e3, disse Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>\u2014 Vir\u00e1s cedo? \u2014 Venho \u00e0s 8 horas.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o faltes.<\/p>\n<p>\u2014 Queres que te jure? \u2014 N\u00e3o precisa; adeus.<\/p>\n<p>VII Quando entrou a semana seguinte, j\u00e1 na v\u00e9spera do dia em que Oliveira se dispunha a sair e visitar o comendador, recebeu uma carta de Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>Leu-a com pasmo: Meu querido amigo, dizia Magalh\u00e3es; desde ontem tenho a cabe\u00e7a fora de mim.<\/p>\n<p>Aconteceu-me a maior desgra\u00e7a que podia cair sobre n\u00f3s. Com m\u00e1goa e vergonha to anuncio, meu prezad\u00edssimo amigo, a quem tanto devo.<\/p>\n<p>Prepara o teu cora\u00e7\u00e3o para receber o golpe que j\u00e1 me feriu, e por muito que ele te fa\u00e7a sofrer, n\u00e3o sofrer\u00e1s mais do que eu j\u00e1 sofri&#8230;<\/p>\n<p>Saltaram duas l\u00e1grimas dos olhos de Oliveira.<\/p>\n<p>Adivinhava mais ou menos o que seria. Cobrou for\u00e7as e continuou a leitura: Descobri, meu querido amigo, que Cec\u00edlia (como direi?), que Cec\u00edlia me ama! N\u00e3o imaginas como me fulminou esta not\u00edcia. Que ela n\u00e3o te amasse, como ambos desej\u00e1vamos, era j\u00e1 doloroso; mas que se lembrasse de consagrar os seus afetos ao \u00faltimo homem que ousaria opor-se ao seu cora\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma ironia da fatalidade. N\u00e3o te contarei meu procedimento; facilmente o adivinhar\u00e1s. Prometi n\u00e3o voltar l\u00e1 mais.<\/p>\n<p>Queria ir eu mesmo comunicar-te isto; mas n\u00e3o ouso contemplar a tua dor, nem te quero dar o espet\u00e1culo da minha.<\/p>\n<p>Adeus, Oliveira. Se a fatalidade ainda consentir que nos vejamos (imposs\u00edvel!), at\u00e9 um dia; se n\u00e3o&#8230; Adeus! Adivinha o leitor o golpe que esta carta descarregou no cora\u00e7\u00e3o de Oliveira. Mas \u00e9 nas grandes crises que o esp\u00edrito do homem se mostra grande. A dor do apaixonado superada pela dor do amigo. O final da carta de Magalh\u00e3es aludia vagamente a um suic\u00eddio; Oliveira deu-se pressa em ir impedir esse ato de nobre abnega\u00e7\u00e3o. Demais, que cora\u00e7\u00e3o tinha ele, a quem confiasse todos os seus desesperos? Vestiu-se apressadamente e correu \u00e0 casa de Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>Disseram-lhe que n\u00e3o estava em casa.<\/p>\n<p>Oliveira ia subindo: \u2014 Perd\u00e3o, disse o criado; eu tenho ordem de n\u00e3o deixar subir ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 Raz\u00e3o demais para eu subir, respondeu Oliveira, afastando o criado.<\/p>\n<p>\u2014 Mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Trata-se de uma grande desgra\u00e7a! E subiu apressadamente a escada.<\/p>\n<p>Na sala, n\u00e3o havia ningu\u00e9m. Oliveira entrou afoitamente no gabinete. Achou Magalh\u00e3es sentado \u00e0 secret\u00e1ria inutilizando alguns pap\u00e9is.<\/p>\n<p>Perto dele, havia um copo com um l\u00edquido vermelho.<\/p>\n<p>\u2014 Oliveira! exclamou ele, quando o viu entrar.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, Oliveira, que vem salvar a tua vida, e dizer-te quanto \u00e9s grande! \u2014 Salvar-me a vida? murmurou Magalh\u00e3es; quem te disse que eu?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Tu, na tua carta, respondeu Oliveira. Veneno! continuou ele, vendo o copo. Oh! nunca! E despejou o copo na escarradeira.<\/p>\n<p>Magalh\u00e3es parecia at\u00f4nito.<\/p>\n<p>\u2014 Eia! disse Oliveira; d\u00e1 c\u00e1 um abra\u00e7o! Este amor infeliz foi ainda um lance de felicidade, porque conheci bem que cora\u00e7\u00e3o de ouro \u00e9 esse que te bate no peito.<\/p>\n<p>Magalh\u00e3es estava de p\u00e9; ca\u00edram nos bra\u00e7os um do outro. O abra\u00e7o comoveu Oliveira, que s\u00f3 ent\u00e3o deu largas \u00e0 sua dor. O amigo consolou-o como p\u00f4de.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, disse Oliveira, tu que foste causa indireta da minha desgra\u00e7a, deves ser agora o rem\u00e9dio que me h\u00e1 de curar. S\u00ea eternamente meu amigo.<\/p>\n<p>Magalh\u00e3es suspirou.<\/p>\n<p>\u2014 Eternamente! disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Sim.<\/p>\n<p>\u2014 Minha vida \u00e9 curta, Oliveira; eu devo morrer; se n\u00e3o for hoje, s\u00ea-lo-\u00e1 amanh\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 Mas isso \u00e9 uma loucura.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9: eu n\u00e3o te disse tudo na carta. Falei-te do amor que Cec\u00edlia me tem; n\u00e3o te falei do amor que lhe tenho eu, amor que me nasceu sem eu pensar. Brinquei com fogo; queimei-me.<\/p>\n<p>Oliveira curvou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Houve um longo sil\u00eancio entre os dois amigos.<\/p>\n<p>Ao cabo de um longo quarto de hora, Oliveira ergueu os olhos vermelhos de l\u00e1grimas e disse a Magalh\u00e3es, estendendo-lhe a m\u00e3o: \u2014 S\u00ea feliz, que o mereces; n\u00e3o tens culpa disto. Procedeste honradamente; compreendo que era dif\u00edcil estar ao p\u00e9 dela sem sentir o fogo da paix\u00e3o. Casa com Cec\u00edlia, pois que se amam, e fica certo de que serei sempre o mesmo amigo.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! tu \u00e9s imenso! Magalh\u00e3es n\u00e3o ajuntou nenhum substantivo a este adjetivo. N\u00e3o nos \u00e9 dado perscrutar o seu pensamento interior. Ca\u00edram os dois amigos nos bra\u00e7os um do outro com grandes exclama\u00e7\u00f5es e protestos.<\/p>\n<p>Uma hora depois de ali haver entrado, sa\u00eda Oliveira triste mas consolado.<\/p>\n<p>\u2014 Perdi um amor, dizia ele consigo, mas ganhei um verdadeiro amigo, que j\u00e1 o era antes.<\/p>\n<p>Magalh\u00e3es veio logo atr\u00e1s dele.<\/p>\n<p>\u2014 Oliveira, disse ele, passaremos o dia juntos; receio que fa\u00e7as alguma loucura.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! o que me ampara nesta queda \u00e9s tu.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o importa; passaremos o dia juntos.<\/p>\n<p>Assim aconteceu.<\/p>\n<p>Neste dia, n\u00e3o foi Magalh\u00e3es \u00e0 casa do comendador.<\/p>\n<p>No dia seguinte, apenas l\u00e1 apareceu, disse-lhe Cec\u00edlia: \u2014 Estou zangada contigo; por que n\u00e3o vieste ontem? \u2014 Tive de sair da cidade em servi\u00e7o p\u00fablico e por l\u00e1 fiquei a noite.<\/p>\n<p>\u2014 Como passaste? \u2014 Bem.<\/p>\n<p>Seis semanas depois uniam eles os seus destinos. Oliveira n\u00e3o compareceu \u00e0 festa com grande admira\u00e7\u00e3o de Vasconcelos e de D. Mariana, que n\u00e3o compreendiam essa indiferen\u00e7a da parte de um amigo.<\/p>\n<p>Nunca houve a menor sombra de d\u00favida entre Magalh\u00e3es e Oliveira.<\/p>\n<p>Foram amigos at\u00e9 \u00e0 morte, posto que Oliveira n\u00e3o frequentasse a casa de Magalh\u00e3es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis I Havia representa\u00e7\u00e3o no Gin\u00e1sio. A pe\u00e7a da moda era ent\u00e3o a c\u00e9lebre Dama das cam\u00e9lias. A casa estava cheia. No fim do quarto ato come\u00e7ou a chover um pouco; do meio do quinto ato em diante, a chuva redobrou de viol\u00eancia. 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