{"id":113739,"date":"2017-03-15T18:22:56","date_gmt":"2017-03-15T20:22:56","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=113739"},"modified":"2017-03-15T18:22:56","modified_gmt":"2017-03-15T20:22:56","slug":"a-viuva-sobral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-viuva-sobral","title":{"rendered":"A Vi\u00fava Sobral"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p><strong>CAPITULO I<\/strong><\/p>\n<p>\u2014 Explico-me.<\/p>\n<p>\u2014 Mas explica-te refrescando a goela. Queres um sorvete? V\u00e1, dois sorvetes. Traga dois sorvetes&#8230; Refresquemo-nos, que realmente o calor est\u00e1 insuport\u00e1vel. Estiveste em Petr\u00f3polis.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Nem eu.<\/p>\n<p>\u2014 Estive no Pati do Alferes, imagina por qu\u00ea? \u2014 N\u00e3o posso.<\/p>\n<p>\u2014 Vou&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Acaba.<\/p>\n<p>\u2014 Vou casar.<\/p>\n<p>Ces\u00e1rio deixou cair o queixo de assombro, enquanto o Brand\u00e3o saboreava, olhando para ele, o gosto de ter dado uma novidade grossa. Vieram os sorvetes, sem que o primeiro sa\u00edsse da posi\u00e7\u00e3o em que a not\u00edcia o deixou; era evidente que n\u00e3o lhe dava cr\u00e9dito.<\/p>\n<p>\u2014 Casar? repetiu ele afinal, e o Brand\u00e3o respondeu-lhe com a cabe\u00e7a que sim, que ia casar. N\u00e3o, n\u00e3o, \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Estou que o leitor n\u00e3o sente a mesma incredulidade, desde que considera que o casamento \u00e9 a tela da vida, e que toda a gente casa, assim como toda a gente morre. Se alguma coisa o enche de assombro \u00e9 o assombro de Ces\u00e1rio. Tratemos de explic\u00e1-lo em cinco ou seis linhas.<\/p>\n<p>Viviam juntos esses dois rapazes desde os onze anos, e mais intimamente desde os dezesseis. Contavam agora vinte e oito. Um era empregado no com\u00e9rcio, outro da alf\u00e2ndega. Tinham uma parte da vida comum, e comuns os sentimentos. Assim \u00e9 que ambos faziam do casamento a mais deplor\u00e1vel id\u00e9ia, com ostenta\u00e7\u00e3o, com excesso, e para afirm\u00e1-lo, viviam juntos a mesma vida solta. N\u00e3o s\u00f3 entre eles deixara de haver segredo, mas at\u00e9 come\u00e7ava a ser imposs\u00edvel que o houvesse, desde que ambos davam os mesmos passos, de um modo un\u00edssono. Come\u00e7a a entender-se o espanto do Ces\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u2014 D\u00e1-me a tua palavra que n\u00e3o est\u00e1s brincando? \u2014 Conforme.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! \u2014 Quando eu digo que vou casar, n\u00e3o quero dizer que tenho a dama pedida; quero dizer que o namoro est\u00e1 a caminho, e que desta vez \u00e9 s\u00e9rio. Resta adivinhar quem \u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>\u2014 E foste tu mesmo que me levaste l\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Eu? \u2014 \u00c9 a Sobral.<\/p>\n<p>\u2014 A vi\u00fava? \u2014 Sim, a Candinha.<\/p>\n<p>\u2014 Mas&#8230;? Brand\u00e3o contou tudo ao amigo. Cerca de algumas semanas antes, Ces\u00e1rio levara-o \u00e0 casa de um amigo do patr\u00e3o, um Viegas, comerciante tamb\u00e9m, para jogar o voltarete; e ali acharam, pouco antes chegada do Norte, uma recente vi\u00fava, D. Candinha Sobral. A vi\u00fava era bonita, af\u00e1vel, dispondo de uns olhos que os dois concordaram em achar singulares. Os olhos, por\u00e9m, eram o menos. O mais era a reputa\u00e7\u00e3o de mau g\u00eanio que esta mo\u00e7a trazia. Disseram que ela matara o marido com desgostos, caprichos, exig\u00eancias; que era um esp\u00edrito absoluto, absorvente, capaz de deitar fogo aos quatro cantos de um imp\u00e9rio para aquecer uma x\u00edcara de ch\u00e1. E, como sempre acontece, ambos acharam que, a despeito das maneiras, lia-se-lhe isso mesmo no rosto; Ces\u00e1rio n\u00e3o gostara de um certo jeito da boca, e o Brand\u00e3o notara-lhe nas narinas o ind\u00edcio da teima e da perversidade. Duas semanas depois tornaram a encontrar-se os tr\u00eas, conversaram, e a opini\u00e3o radicou-se. Eles chegaram mesmo \u00e0 familiaridade da express\u00e3o: \u2014 m\u00e1 r\u00eas, alma de poucos amigos, etc.<\/p>\n<p>Agora entende-se, creio eu, o espanto do amigo Ces\u00e1rio, n\u00e3o menos que o prazer do Brand\u00e3o em dar-lhe a not\u00edcia. Entende-se, portanto, que s\u00f3 come\u00e7assem a tomar os sorvetes para n\u00e3o v\u00ea-los derretidos, sem nenhum deles saber o que estava fazendo.<\/p>\n<p>\u2014 Juro que h\u00e1 quinze dias n\u00e3o era capaz de cuidar nisto, continuava o Brand\u00e3o; mas os dois \u00faltimos encontros, principalmente o de segunda-feira&#8230; N\u00e3o te digo nada&#8230; Creio que acabo casando.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! cr\u00eas! \u2014 \u00c9 um modo de falar, \u00e9 certo que acabo.<\/p>\n<p>Ces\u00e1rio acabou o sorvete, engoliu um c\u00e1lice de cognac, e fitou o amigo, que raspava o copo, amorosamente. Depois fez um cigarro, acendeu-o, puxou duas ou tr\u00eas fuma\u00e7as, e disse ao Brand\u00e3o que ainda esperava v\u00ea-lo recuar; em todo caso, aconselhava-lhe que n\u00e3o publicasse desde j\u00e1 o plano; esperasse algum tempo. Talvez viesse a recuar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, interrompeu Brand\u00e3o com energia.<\/p>\n<p>\u2014 Como, n\u00e3o? \u2014 N\u00e3o recuo.<\/p>\n<p>Ces\u00e1rio levantou os ombros.<\/p>\n<p>\u2014 Achas que fa\u00e7o mal? pergunta o outro.<\/p>\n<p>\u2014 Acho.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea? \u2014 N\u00e3o me perguntes por qu\u00ea.<\/p>\n<p>\u2014 Ao contr\u00e1rio, pergunto e insisto. Op\u00f5es-te por causa de ser casamento.<\/p>\n<p>\u2014 Em primeiro lugar.<\/p>\n<p>Brand\u00e3o sorriu.<\/p>\n<p>\u2014 E por causa da noiva, concluiu ele. J\u00e1 esperava por isso; est\u00e1s ent\u00e3o com a opini\u00e3o que ambos demos logo que ela chegou da prov\u00edncia? Enganas-te. Tamb\u00e9m eu estava; mas mudei&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E depois, continuou Ces\u00e1rio, falo por um pouco de ego\u00edsmo; vou perder-te&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Sim e sim. Ora tu!&#8230; Mas como foi isso? Brand\u00e3o contou os pormenores do neg\u00f3cio; exp\u00f4s minuciosamente todos os seus sentimentos. N\u00e3o a pedira ainda, nem havia tempo para tanto; a pr\u00f3pria resolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o estava formulada. Mas tinha por certo o casamento. Naturalmente, louvou as qualidades da namorada, sem convencer ao amigo, que, ali\u00e1s, entendeu n\u00e3o insistir na opini\u00e3o e guard\u00e1-la consigo.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00e3o simpatias, dizia ele.<\/p>\n<p>Sa\u00edram depois de longo tempo de conversa\u00e7\u00e3o, e separaram-se na esquina. Ces\u00e1rio mal podia crer que o mesmo homem, que antipatizara com a vi\u00fava e dissera dela tantas coisas e t\u00e3o grotescas, quinze dias depois estivesse apaixonado ao ponto de casar. Puro mist\u00e9rio! E resolvia o caso na cabe\u00e7a, e n\u00e3o achava explica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se tratando de um crian\u00e7ola, nem de uma descomunal beleza. Tudo por querer achar, \u00e0 for\u00e7a, uma explica\u00e7\u00e3o; se n\u00e3o a procurasse, dava com ela, que era justamente nenhuma, coisa nenhuma.<\/p>\n<p><strong>CAPITULO II<\/strong><\/p>\n<p>Emendemos o Brand\u00e3o. Contou ele que os dois \u00faltimos encontros com a vi\u00fava, aqui na corte, \u00e9 que lhe deram a sensa\u00e7\u00e3o do amor; mas a verdade pura \u00e9 que a sensa\u00e7\u00e3o s\u00f3 o tomou inteiramente no Pati do Alferes, de onde ele acaba de chegar. Antes disso, podia ficar um pouco lisonjeado das maneiras dela, e ter mesmo alguns pensamentos; mas o que se chama sensa\u00e7\u00e3o amorosa n\u00e3o a teve antes. Foi ali que ele mudou de opini\u00e3o a respeito dela, e se deixou cair nas gra\u00e7as de uma dama, que diziam ter matado o marido com desgostos.<\/p>\n<p>A vi\u00fava Sobral n\u00e3o tinha menos de vinte e sete anos nem mais de trinta; ponhamos vinte e oito. J\u00e1 vimos o que eram os olhos; \u2014 podiam ser singulares, como eles diziam, mas eram tamb\u00e9m bonitos. Vimos ainda um certo jeito da boca, mal aceito ao Ces\u00e1rio, enquanto as narinas o eram ao Brand\u00e3o, que achou nelas o ind\u00edcio da teima e da perversidade. Resta mostrar a estatura, que era muito elegante, e as m\u00e3os, que nunca estavam paradas. No baile n\u00e3o lhe notou o Brand\u00e3o esta \u00faltima circunst\u00e2ncia; mas no Pati do Alferes, na casa da prima, familiarmente e a gosto, achou que ela movia as m\u00e3os sempre, sempre, sempre. S\u00f3 n\u00e3o atinou com a causa, se era uma necessidade, um sestro, ou uma inten\u00e7\u00e3o de mostr\u00e1-las, por serem lindas.<\/p>\n<p>No terceiro dia, come\u00e7ou o Brand\u00e3o a perguntar onde estava a maldade do g\u00eanio de D.<\/p>\n<p>Candinha. N\u00e3o achava nada que pudesse dar ind\u00edcio dela; via-a alegre, dada, conversada, ouvindo as coisas com muita paci\u00eancia, e contando anedotas do Norte com muita gra\u00e7a. No quarto dia, os olhos de ambos andaram juntos, n\u00e3o se sabendo unicamente se foram os dele que procuraram os dela, ou vice-versa; mas andaram juntos.<\/p>\n<p>De noite, na cama, o Brand\u00e3o jurava a si mesmo que era tudo cal\u00fania, e que a vi\u00fava tinha mais de anjo que de diabo. Dormiu tarde e mal. Sonhou que um anjo vinha ter com ele e lhe pedia para trepar ao c\u00e9u; trazia a cara da vi\u00fava. Ele aceitou o convite; a meio caminho, o anjo pegou das asas e cravou-as na cabe\u00e7a, \u00e0 laia de pontas, e carregou-o para o inferno. Brand\u00e3o acordou transpirando muito. De manh\u00e3, perguntou a si mesmo: \u2014 Ser\u00e1 um aviso? Evitou os olhos dela, durante as primeiras horas do dia; ela, que o percebeu, recolheu-se ao quarto e n\u00e3o apareceu antes do jantar. Brand\u00e3o estava desesperado, e deu todos os sinais que podiam exprimir o arrependimento e a s\u00faplica do perd\u00e3o. D. Candinha, que era uma perfei\u00e7\u00e3o, n\u00e3o fez caso dele at\u00e9 \u00e0 sobremesa; \u00e0 sobremesa come\u00e7ou a mostrar que podia perdoar, mas ainda assim o resto do dia n\u00e3o foi como o anterior. Brand\u00e3o deu-se a todos os diabos. Chamou-se rid\u00edculo. Um sonho? Quem diabo acredita em sonhos? No dia seguinte tratou de recuperar o perdido, que n\u00e3o era muito, como vimos, t\u00e3osomente alguns olhares; alcan\u00e7ou-o para a noite. No outro estavam as coisas restabelecidas. Ele lembrou-se ent\u00e3o que, durante as horas de frieza, notara nela o mau jeito da boca, o tal, o que lhe dava ind\u00edcio da perversidade da vi\u00fava; mas t\u00e3o depressa o lembrou, como rejeitou a observa\u00e7\u00e3o. Antes era um aviso, passara a ser uma oportunidade.<\/p>\n<p>Em suma, voltou no princ\u00edpio da seguinte semana, inteiramente namorado, posto sem nenhuma declara\u00e7\u00e3o de parte a parte. Ela pareceu-lhe ficar saudosa. Brand\u00e3o chegou a lembrar-se que a m\u00e3o dela, \u00e0 despedida, estava um pouco tr\u00eamula; mas, como a dele tamb\u00e9m tremia, n\u00e3o se pode afirmar nada.<\/p>\n<p>S\u00f3 isto. N\u00e3o havia mais do que isto, no dia em que ele referiu ao Ces\u00e1rio que ia casar.<\/p>\n<p>Que n\u00e3o pensava sen\u00e3o no casamento, era verdade. D. Candinha voltou para a corte da\u00ed a duas semanas, e ele estava ansioso por v\u00ea-la, para lhe dizer tudo, tudo, e pedi-la, e lev\u00e1-la \u00e0 igreja. Chegou a pensar no padrinho: seria o inspetor da alf\u00e2ndega.<\/p>\n<p>Na alf\u00e2ndega, notaram-lhe os companheiros um certo ar distra\u00eddo, e \u00e0s vezes, superior; mas ele n\u00e3o disse nada a ningu\u00e9m. Ces\u00e1rio era o confidente \u00fanico, e antes n\u00e3o fosse \u00fanico; ele procurava-o todos os dias para lhe falar da mesma coisa, com as mesmas palavras, e inflex\u00f5es. Um dia, dois dias, tr\u00eas dias, v\u00e1; mas sete, mas quinze, mas todos! Ces\u00e1rio confessava-lhe, rindo, que era demais.<\/p>\n<p>\u2014 Realmente, Brand\u00e3o, tu est\u00e1s que pareces um namorado de vinte anos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O amor nunca \u00e9 mais velho, redarg\u00fciu o outro; e, depois de fazer um cigarro, puxar duas fuma\u00e7as, e deix\u00e1-lo apagar, continuava a repeti\u00e7\u00e3o das mesmas coisas e palavras, com as mesm\u00edssimas inflex\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>CAPITULO III<\/strong><\/p>\n<p>Vamos e venhamos: a vi\u00fava gostava um pouco do Brand\u00e3o; n\u00e3o digo muito, digo um pouco, e talvez muito pouco. N\u00e3o lhe parecia grande coisa, mas sempre era mais que nada. Ele fazia-lhe amiudadas visitas e olhava muito para ela; mas, como era t\u00edmido, n\u00e3o lhe dizia nada, n\u00e3o chegava a planear uma linha.<\/p>\n<p>\u2014 Em que ponto vamos, em suma? Perguntava-lhe o Ces\u00e1rio um dia, fatigado de s\u00f3 ouvir entusiasmos.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos devagar.<\/p>\n<p>\u2014 Devagar? \u2014 Mas com seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Um dia recebeu Ces\u00e1rio um convite da vi\u00fava para l\u00e1 ir a uma reuni\u00e3o familiar: era lembran\u00e7a do Brand\u00e3o, que foi ter com ele e pediu-lhe instantemente que n\u00e3o faltasse.<\/p>\n<p>Ces\u00e1rio sacrificou o teatro nessa noite, e foi. A reuni\u00e3o esteve melhor do que ele esperava; divertiu-se muito. Na rua disse ele ao amigo: \u2014 Agora, se me permites franqueza, vou chamar-te um nome feio.<\/p>\n<p>\u2014 Chama.<\/p>\n<p>\u2014 Tu \u00e9s um palerma.<\/p>\n<p>\u2014 Viste como ela olhava para mim? \u2014 Vi, sim, e por isso mesmo \u00e9 que acho que est\u00e1s botando dinheiro \u00e0 rua. Pois uma pessoa assim disposta&#8230; Realmente \u00e9s um bobo.<\/p>\n<p>Brand\u00e3o tirou o chap\u00e9u e co\u00e7ou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Para falar a verdade, eu mesmo j\u00e1 tenho dito essas coisas, mas n\u00e3o sei que acho em mim, acanho-me, n\u00e3o me atrevo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Justamente; um palerma.<\/p>\n<p>Andaram ainda alguns minutos calados.<\/p>\n<p>\u2014 E n\u00e3o te parece espl\u00eandida? perguntou o Brand\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, isso n\u00e3o; mais bonita do que a princ\u00edpio, \u00e9 verdade; fez-me melhor impress\u00e3o; espl\u00eandida \u00e9 demais.<\/p>\n<p>Quinze dias depois, viu-a o Ces\u00e1rio em casa de terceiro, e pareceu-lhe que ainda era melhor. Da\u00ed come\u00e7ou a freq\u00fcentar a casa, a pretexto de acompanhar o outro, e ajud\u00e1-lo, mas realmente porque come\u00e7ava a olh\u00e1-la com olhos menos desinteressados. J\u00e1 aturava com paci\u00eancia as longas confiss\u00f5es do amigo; chegava mesmo a procur\u00e1-las.<\/p>\n<p>D. Candinha percebeu, em pouco tempo, que em vez de um, tinha dois adoradores. N\u00e3o era motivo de p\u00f4r luto ou deitar fogo \u00e0 casa; parece mesmo que era caso de vestir galas; e a rigor, se alguma falha havia, era que eles fossem dois, e n\u00e3o tr\u00eas ou quatro. Para conservar os dois, D. Candinha usou de um velho processo: dividindo com o segundo as esperan\u00e7as do primeiro, e ambos ficavam entusiasmados. Verdade \u00e9 que o Ces\u00e1rio, posto n\u00e3o fosse t\u00e3o valente, como dizia, era muito mais que o Brand\u00e3o. De maneira que, ao cabo de algumas d\u00fazias de olhares, apertou-lhe a m\u00e3o com muito calor. Ela n\u00e3o a apertou de igual modo, mas tamb\u00e9m n\u00e3o se deu por zangada, nem por achada.<\/p>\n<p>Continuou a olhar para ele. Mentalmente, comparava-os: Um dia o Brand\u00e3o descobriu um olhar trocado entre o amigo e a vi\u00fava. Naturalmente ficou desconsolado, mas n\u00e3o disse nada; esperou. Da\u00ed a dias notou mais dois olhares, e passou mal a noite, dormiu tarde e mal; sonhou que matara ao amigo. Teve a ingenuidade de cont\u00e1-lo a este, que riu muito, e disse-lhe que fosse tomar ju\u00edzo.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea tem coisas! Pois bem; somos concordes nisto: \u2014 deixo de voltar \u00e0 casa dela&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Isso nunca! \u2014 Ent\u00e3o que queres? \u2014 Quero que me digas, francamente, se gostas dela, e se voc\u00eas se namoram.<\/p>\n<p>Ces\u00e1rio declarou-lhe que era uma simples fantasia dele, e continuou a namorar a vi\u00fava, e o Brand\u00e3o tamb\u00e9m, e ela aos dois, todos com a maior unanimidade.<\/p>\n<p>Naturalmente as desconfian\u00e7as reviveram, e assim as explica\u00e7\u00f5es, e come\u00e7aram os azedumes e as brigas. Uma noite, ceando os dois, de volta da casa dela, estiveram a ponto de brigar formalmente. Mais tarde separaram-se por dias; mas como o Ces\u00e1rio teve de ir a Minas, o outro reconciliou-se com ele \u00e0 volta, e dessa vez n\u00e3o instou para que tornasse a freq\u00fcentar a casa da vi\u00fava. Esta \u00e9 que lhe mandou convite para outra reuni\u00e3o; e tal foi o princ\u00edpio de novas contendas.<\/p>\n<p>As a\u00e7\u00f5es de ambos continuavam no mesmo p\u00e9. A vi\u00fava distribu\u00eda as finezas com igualdade prodigiosa, e o Ces\u00e1rio come\u00e7ava a achar que a complac\u00eancia para com o outro era longa demais.<\/p>\n<p>Nisto apareceu no horizonte uma pequenina mancha branca; era algum navio que se aproximava com as velas abertas. Era navio e de alto bordo; \u2014 um vi\u00favo, m\u00e9dico, ainda conservado, que entrou a cortejar a vi\u00fava. Chamava-se Jo\u00e3o Lopes. J\u00e1 ent\u00e3o o Ces\u00e1rio tinha arriscado uma carta, e mesmo duas, sem obter resposta. A vi\u00fava foi passar alguns dias fora, depois da segunda; quando voltou, recebeu terceira, em que o Ces\u00e1rio lhe dizia as coisas mais ternas e s\u00faplices. Esta carta deu-lha em m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Espero que me n\u00e3o conservar\u00e1 mais tempo na incerteza em que vivo. Pe\u00e7o-lhe que releia as minhas cartas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o as li.<\/p>\n<p>\u2014 Nenhuma? \u2014 Quatro palavras da primeira apenas. Imaginei o resto e imaginei a segunda.<\/p>\n<p>Ces\u00e1rio refletiu alguns instantes: depois disse com muita discri\u00e7\u00e3o: \u2014 Bem; n\u00e3o lhe pergunto os motivos, porque sei que me h\u00e3o de desenganar; mas eu n\u00e3o quero ser desenganado. Pe\u00e7o-lhe uma s\u00f3 coisa.<\/p>\n<p>\u2014 Pe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Pe\u00e7o-lhe que leia esta terceira carta, disse ele, tirando a carta do bolso; aqui est\u00e1 tudo o que estava nas outras.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o&#8230; n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Perd\u00e3o; pedi-lhe isto, \u00e9 um favor \u00faltimo; juro que n\u00e3o tornarei mais.<\/p>\n<p>D. Candinha continuou a recusar; ele deixou a carta no dunkerque, cumprimentou-a e saiu. A vi\u00fava n\u00e3o desgostou de ver a obstina\u00e7\u00e3o do rapaz, teve curiosidade de ler o papel, e achou que o podia fazer sem perigo. N\u00e3o transcrevo nada, por que eram as mesmas coisas de todas as cartas de igual g\u00eanero. D. Candinha resolveu dar-lhe resposta igual \u00e0 das primeiras, que era nenhuma.<\/p>\n<p>Ces\u00e1rio teve o desengano verbal, tr\u00eas dias depois, e atribuiu-o ao Brand\u00e3o. Este aproveitou a circunst\u00e2ncia de achar-se s\u00f3 para dar a batalha decisiva. \u00c9 assim que ele chamava a todas as escaramu\u00e7as. Escreveu-lhe uma carta a que ela respondeu deste modo: Devolvo o bilhete que me entregou ontem, por engano, e desculpe se li as primeiras palavras; afian\u00e7o-lhe que n\u00e3o vi o resto.<\/p>\n<p>O pobre-diabo quase teve uma congest\u00e3o. Meteu-se na cama tr\u00eas dias, e levantou-se resolvido a voltar l\u00e1; mas a vi\u00fava tornara a sair da cidade Quatro meses depois casava ela com o m\u00e9dico. Quanto ao Brand\u00e3o e o Ces\u00e1rio, que estavam j\u00e1 brigados, nunca mais se falaram; criaram \u00f3dio um ao outro, \u00f3dio implac\u00e1vel e mortal. O triste \u00e9 que ambos come\u00e7aram por n\u00e3o gostar da mesma mulher, como o leitor sabe, se se lembra do que leu.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis CAPITULO I \u2014 Explico-me. \u2014 Mas explica-te refrescando a goela. Queres um sorvete? V\u00e1, dois sorvetes. Traga dois sorvetes&#8230; Refresquemo-nos, que realmente o calor est\u00e1 insuport\u00e1vel. Estiveste em Petr\u00f3polis. \u2014 N\u00e3o. \u2014 Nem eu. \u2014 Estive no Pati do Alferes, imagina por qu\u00ea? \u2014 N\u00e3o posso. \u2014 Vou&#8230; \u2014 Acaba. \u2014 Vou [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-113739","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>A Vi\u00fava Sobral , Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, A Vi\u00fava Sobral<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"A Vi\u00fava Sobral , Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, A Vi\u00fava Sobral Machado de Assis\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, 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