{"id":113737,"date":"2017-03-15T18:18:12","date_gmt":"2017-03-15T20:18:12","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=113737"},"modified":"2017-03-15T18:18:12","modified_gmt":"2017-03-15T20:18:12","slug":"a-ultima-receita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-ultima-receita","title":{"rendered":"A \u00daltima Receita"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>A vi\u00fava Lemos adoecera; uns dizem que dos nervos, outros que de saudades do marido.<\/p>\n<p>Fosse o que fosse, a verdade \u00e9 que adoecera, em certa noite de setembro, ao regressar de um baile. Morava ent\u00e3o no Andara\u00ed, em companhia de uma tia surda e devota. A doen\u00e7a n\u00e3o parecia coisa de cuidado; todavia era necess\u00e1rio fazer alguma coisa. Que coisa seria? Na opini\u00e3o da tia um cozimento de alt\u00e9ia e um ros\u00e1rio a n\u00e3o sei que santo do c\u00e9u eram rem\u00e9dios infal\u00edveis. D. Paula (a vi\u00fava) n\u00e3o contestava a efic\u00e1cia dos rem\u00e9dios da tia, mas opinava por um m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Chamou-se um m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Havia justamente na vizinhan\u00e7a um m\u00e9dico, formado de pouco, e recente morador na localidade. Era o dr. Avelar, sujeito de boa presen\u00e7a, assaz elegante e m\u00e9dico feliz. Veio o dr. Avelar na manh\u00e3 seguinte, pouco depois das oito horas. Examinou a doente e reconheceu que a mol\u00e9stia n\u00e3o passava de uma constipa\u00e7\u00e3o grave. Teve entretanto a prud\u00eancia de n\u00e3o dizer o que era, como aquele m\u00e9dico da anedota do bicho no ouvido, anedota que o povo conta, e que eu contaria tamb\u00e9m, se me sobrasse papel.<\/p>\n<p>O dr. Avelar limitou-se a torcer o nariz quando examinou a enferma, e a receitar dois ou tr\u00eas rem\u00e9dios, dos quais s\u00f3 um era \u00fatil; o resto figurava no fundo do quadro.<\/p>\n<p>D. Paula tomou os rem\u00e9dios como quem n\u00e3o queria deixar a vida. Havia raz\u00e3o. Apenas dois anos fora casada, e contava apenas vinte e quatro anos. Havia j\u00e1 treze meses que lhe morrera o marido. Apenas entrara no p\u00f3rtico do matrim\u00f4nio.<\/p>\n<p>A esta circunst\u00e2ncia \u00e9 justo acrescentar mais duas; era bonita e tinha alguma coisa de seu. Tr\u00eas raz\u00f5es para agarrar-se \u00e0 vida como o n\u00e1ufrago a uma t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma \u00fanica raz\u00e3o haveria para que ela aborrecesse o mundo: era se tivesse realmente saudades do marido. Mas n\u00e3o tinha. O casamento fora um arranjo de fam\u00edlia e dele pr\u00f3prio; Paula aceitou o arranjo sem murmurar. Honrou o casamento, mas n\u00e3o deu ao marido nem estima nem amor. Vi\u00fava dois anos depois, e ainda mo\u00e7a, \u00e9 claro que a vida para ela come\u00e7ava apenas. A id\u00e9ia de morrer seria para ela n\u00e3o s\u00f3 a maior de todas as calamidades, mas tamb\u00e9m a mais desastrada de todas as tolices.<\/p>\n<p>N\u00e3o quis morrer nem o caso era de morte.<\/p>\n<p>Os rem\u00e9dios foram tomados pontualmente; o m\u00e9dico mostrou-se ass\u00edduo; dentro de poucos dias, tr\u00eas a quatro, estava restabelecida a interessante enferma.<\/p>\n<p>De todo? N\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando o m\u00e9dico voltou no quinto dia, achou-a sentada na sala, envolvida em grande roup\u00e3o, com os p\u00e9s numa almofada, o rosto extremamente p\u00e1lido, e muito mais ainda por causa da pouca luz.<\/p>\n<p>O estado era natural em quem se levantava da cama; mas a viuvinha alegou ainda umas dores de cabe\u00e7a, a que o m\u00e9dico chamou nevralgia, e uns tremores, que foram classificados no cap\u00edtulo dos nervos.<\/p>\n<p>\u2014 Ser\u00e3o graves mol\u00e9stias? perguntou ela.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! n\u00e3o, minha senhora, respondeu Avelar, s\u00e3o achaques aborrecidos, mas n\u00e3o graves, e geralmente pr\u00f3prios de doentes formosas.<\/p>\n<p>Paula sorriu com um ar t\u00e3o triste que fazia duvidar do prazer com que ouviu estas palavras do m\u00e9dico.<\/p>\n<p>\u2014 D\u00e1-me por\u00e9m rem\u00e9dios, n\u00e3o? perguntou ela.<\/p>\n<p>\u2014 Sem d\u00favida.<\/p>\n<p>Avelar receitou efetivamente alguma coisa e prometeu voltar no dia seguinte.<\/p>\n<p>A tia era surda, como sabemos, n\u00e3o ouvia nada da conversa entre os dois. Mas n\u00e3o era tola; come\u00e7ou a reparar que a sobrinha ficava mais doente quando se aproximava a chegada do m\u00e9dico. Al\u00e9m disso nutria d\u00favidas s\u00e9rias acerca da aplica\u00e7\u00e3o exata dos rem\u00e9dios. O certo \u00e9 por\u00e9m que Paula, t\u00e3o amiga de bailes e passeios, parecia realmente doente porque n\u00e3o sa\u00eda de casa.<\/p>\n<p>Notou igualmente a tia que, pouco antes da hora do m\u00e9dico, a sobrinha fazia uma aplica\u00e7\u00e3o mais copiosa de p\u00f3-de-arroz. Paula era morena; ficava muito branca. A meia luz da sala, os xales, o ar m\u00f3rbido tornavam-lhe a palidez extremamente veross\u00edmil.<\/p>\n<p>A tia n\u00e3o parou nesse ponto; foi ainda al\u00e9m. N\u00e3o era m\u00e9dico o Avelar? Naturalmente devia saber se realmente estava enferma a vi\u00fava. Interrogado o m\u00e9dico, asseverou que a vi\u00fava estava muito mal, e prescreveu-lhe o mais absoluto repouso.<\/p>\n<p>Tal era a situa\u00e7\u00e3o da enferma e do facultativo.<\/p>\n<p>Um dia em que este entrou achou-a folheando um livro. Estava com a palidez de costume e o mesmo ar abatido.<\/p>\n<p>\u2014 Como vai a minha doente? disse familiarmente o dr. Avelar.<\/p>\n<p>\u2014 Mal.<\/p>\n<p>\u2014 Mal? \u2014 Horrorosamente mal&#8230; Que lhe parece o pulso? Avelar examinou-lhe o pulso.<\/p>\n<p>\u2014 Regular, disse ele. A tez est\u00e1 um tanto p\u00e1lida, mas os olhos parecem bons&#8230; Houve algum ataque? \u2014 N\u00e3o; mas sinto-me desfalecida.<\/p>\n<p>\u2014 Deu o passeio que lhe aconselhei? \u2014 N\u00e3o tive \u00e2nimo.<\/p>\n<p>\u2014 Fez mal. N\u00e3o passeou e est\u00e1 lendo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Um livro inocente.<\/p>\n<p>\u2014 Inocente? O m\u00e9dico pegou no livro e examinou-lhe a lombada.<\/p>\n<p>\u2014 Um livro diab\u00f3lico! disse ele atirando-o para cima da mesa.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea? \u2014 Livro de poeta, livro para namorados, minha senhora, que \u00e9 uma casta de doentes terr\u00edveis. N\u00e3o se curam eles; ou raramente se curam; mas h\u00e1 pior, que \u00e9 adoecerem os s\u00e3os. Pe\u00e7o-lhe licen\u00e7a para confiscar o livro.<\/p>\n<p>\u2014 Uma distra\u00e7\u00e3o! murmurou Paula com uma do\u00e7ura capaz de vencer um tirano.<\/p>\n<p>Mas o m\u00e9dico mostrou-se firme.<\/p>\n<p>\u2014 Uma pervers\u00e3o, minha senhora! Em ficando boa pode ler se quiser todos os poetas do s\u00e9culo; antes, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Paula ouviu esta palavra com singular, mas disfar\u00e7ada alegria.<\/p>\n<p>\u2014 Parece-lhe ent\u00e3o que estou muito doente? disse ela.<\/p>\n<p>\u2014 Muito, n\u00e3o digo; tem ainda um resto de abalo que s\u00f3 pode desaparecer com o tempo e um regime severo.<\/p>\n<p>\u2014 Severo demais.<\/p>\n<p>\u2014 Mas necess\u00e1rio&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Duas coisas lastimo sobre todas.<\/p>\n<p>\u2014 Quais? \u2014 A pimenta e o caf\u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! \u2014 \u00c9 o que lhe digo. N\u00e3o tomar caf\u00e9 nem pimenta \u00e9 o limite da paci\u00eancia humana. Quinze dias mais deste regime ou desobede\u00e7o ou expiro.<\/p>\n<p>\u2014 Nesse caso, expire, disse Avelar sorrindo.<\/p>\n<p>\u2014 Acha melhor? \u2014 Acho igualmente mau. O remorso, por\u00e9m, ser\u00e1 meu s\u00f3, enquanto que se V. Excia.<\/p>\n<p>desobedecer ter\u00e1 os seus \u00faltimos instantes amargurados por um tardio arrependimento.<\/p>\n<p>Melhor \u00e9 morrer v\u00edtima que culpada.<\/p>\n<p>\u2014 Melhor \u00e9 n\u00e3o morrer nem culpada nem v\u00edtima.<\/p>\n<p>\u2014 Nesse caso n\u00e3o tome pimenta nem caf\u00e9.<\/p>\n<p>A leitora que acaba de ler esta conversa, admirar-se-ia muito se visse a nossa doente nesse mesmo dia ao jantar: teve pimenta \u00e0 farta e bebeu excelente caf\u00e9 no fim. N\u00e3o admira porque era o seu costume. A tia admirava-se com raz\u00e3o de uma doen\u00e7a que consentia tais liberdades; a sobrinha n\u00e3o se explicava cabalmente a este respeito.<\/p>\n<p>Choviam convites de jantares e bailes. A viuvinha recusava-os todos por causa do seu mau estado de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Foi uma verdadeira calamidade.<\/p>\n<p>Entraram a chover as visitas e bilhetes. Muitas pessoas achavam que a doen\u00e7a devia ser interna, muito interna, profundamente interna, visto que lhe n\u00e3o apareciam sinais no rosto.<\/p>\n<p>Os nervos (eternos caluniados!) foram a explica\u00e7\u00e3o que geralmente se deu \u00e0 singular mol\u00e9stia da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Tr\u00eas meses correram assim, sem que a doen\u00e7a de Paula cedesse uma linha aos esfor\u00e7os do m\u00e9dico. Os esfor\u00e7os do m\u00e9dico n\u00e3o podiam ser maiores; de dois em dois dias uma receita. Se a doente se esquecia do seu estado e entrava a falar e a corar como quem tinha sa\u00fade, o m\u00e9dico era o primeiro a lembrar-lhe o perigo, e ela obedecia logo entregando-se \u00e0 mais prudente ina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes zangava-se.<\/p>\n<p>\u2014 Todos os senhores s\u00e3o uns b\u00e1rbaros, dizia ela.<\/p>\n<p>\u2014 Uns b\u00e1rbaros&#8230; necess\u00e1rios, respondia Avelar sorrindo.<\/p>\n<p>E acrescentava: \u2014 Eu n\u00e3o direi o que s\u00e3o as doentes.<\/p>\n<p>\u2014 Diga sempre.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o digo.<\/p>\n<p>\u2014 Caprichosas? \u2014 Mais.<\/p>\n<p>\u2014 Rebeldes? \u2014 Menos.<\/p>\n<p>\u2014 Impertinentes? \u2014 Sim. Algumas s\u00e3o impertinentes e am\u00e1veis.<\/p>\n<p>\u2014 Como eu.<\/p>\n<p>\u2014 Naturalmente.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 o esperava, dizia a vi\u00fava Lemos sorrindo. Sabe por que raz\u00e3o lhe perd\u00f4o tudo? \u00c9 porque \u00e9 m\u00e9dico. Um m\u00e9dico tem carta branca para gracejar conosco; isso mesmo nos d\u00e1 sa\u00fade.<\/p>\n<p>Neste ponto levantou-se.<\/p>\n<p>\u2014 Parece-me at\u00e9 que j\u00e1 estou melhor.<\/p>\n<p>\u2014 Parece e est\u00e1&#8230; quero dizer, est\u00e1 muito mal.<\/p>\n<p>\u2014 Muito mal? \u2014 N\u00e3o, muito mal, n\u00e3o; n\u00e3o est\u00e1 boa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Meteu-me um susto! Seria realmente zombar do leitor o explicar-lhe que a doente e o m\u00e9dico estavam a pender um para o outro; que a doente sofria tanto como o Corcovado, e que o m\u00e9dico conhecia cabalmente a sua perfeita sa\u00fade. Gostavam um do outro sem se atreverem a dizer a verdade, simplesmente pelo receio de se enganarem. O meio de se falarem todos os dias era aquele.<\/p>\n<p>Mas gostavam eles j\u00e1 antes da fatal constipa\u00e7\u00e3o do baile? N\u00e3o. At\u00e9 ent\u00e3o ignoravam a exist\u00eancia um do outro. A doen\u00e7a favoreceu o encontro; o encontro o cora\u00e7\u00e3o; o cora\u00e7\u00e3o favorecia desde logo o casamento, se tivessem caminhado em linha reta, em vez dos rodeios em que andavam.<\/p>\n<p>Quando Paula ficou boa da constipa\u00e7\u00e3o adoeceu do cora\u00e7\u00e3o; n\u00e3o tendo outro recurso fingiu-se doente. O m\u00e9dico, que pela sua parte desejava isso mesmo, exagerou ainda as inven\u00e7\u00f5es da suposta enferma.<\/p>\n<p>A tia, sendo surda, assistia inutilmente aos di\u00e1logos da doente com o m\u00e9dico. Um dia escreveu a este pedindo-lhe que apressasse a cura da sobrinha. Avelar desconfiou da carta a princ\u00edpio. Seria uma despedida? Podia ser pelo menos uma desconfian\u00e7a.<\/p>\n<p>Respondeu que a mol\u00e9stia de D. Paula era aparentemente insignificante, mas podia tornar-se grave sem um regime severo, que ele lhe recomendava sempre.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o, entretanto, prolongava-se. A doente estava cansada da doen\u00e7a, e o m\u00e9dico da medicina. Ambos eles come\u00e7aram a desconfiar que n\u00e3o eram mal aceitos. O neg\u00f3cio entretanto n\u00e3o caminhava muito.<\/p>\n<p>Um dia Avelar entrou triste em casa da vi\u00fava.<\/p>\n<p>\u2014 Jesus! exclamou sorrindo a vi\u00fava; ningu\u00e9m dir\u00e1 que \u00e9 o m\u00e9dico. Parece o doente.<\/p>\n<p>\u2014 Doente de l\u00e1stima, disse Avelar abanando a cabe\u00e7a; por outros termos, \u00e9 a l\u00e1stima que me d\u00e1 este ar enfermo.<\/p>\n<p>\u2014 L\u00e1stima de qu\u00ea? \u2014 De V. Excia.<\/p>\n<p>\u2014 De mim? \u2014 \u00c9 verdade.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a riu-se consigo mesma; todavia esperou a explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Houve um sil\u00eancio.<\/p>\n<p>No fim dele: \u2014 Sabe, disse o m\u00e9dico, sabe que est\u00e1 muito mal? \u2014 Eu? Avelar fez um gesto afirmativo.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 o sabia, suspirou a doente.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o digo que tudo esteja perdido, continuou o m\u00e9dico, mas nada se perde em prevenir.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Coragem! \u2014 Fale.<\/p>\n<p>\u2014 Mande chamar o padre.<\/p>\n<p>\u2014 Aconselha-me a confiss\u00e3o? \u2014 \u00c9 indispens\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u2014 Perderam-se todas as esperan\u00e7as? \u2014 Todas. Confiss\u00e3o e banhos.<\/p>\n<p>A vi\u00fava soltou uma risada.<\/p>\n<p>\u2014 E banhos? \u2014 Banhos de igreja.<\/p>\n<p>Outra risada.<\/p>\n<p>\u2014 Aconselha-me ent\u00e3o o casamento.<\/p>\n<p>\u2014 Justo.<\/p>\n<p>\u2014 Imagino que est\u00e1 gracejando.<\/p>\n<p>\u2014 Estou falando muito s\u00e9rio. O rem\u00e9dio n\u00e3o \u00e9 novo nem desprez\u00edvel. Todas as semanas l\u00e1 v\u00e3o muitos enfermos, e d\u00e3o-se bem alguns deles. \u00c9 um espec\u00edfico inventado desde muitos s\u00e9culos e que provavelmente s\u00f3 acabar\u00e1 no \u00faltimo dia do mundo. Pela minha parte nada mais tenho que fazer.<\/p>\n<p>Quando a viuvinha menos esperava, Avelar levantou-se e saiu. Falava s\u00e9rio ou gracejava? Dois dias se passaram sem que o m\u00e9dico voltasse. A doente estava triste; a tia aflita; houve id\u00e9ia de mandar chamar outro m\u00e9dico. Recusou-a a doente.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o s\u00f3 um m\u00e9dico acertou com a tua mol\u00e9stia? \u2014 Talvez.<\/p>\n<p>No fim de tr\u00eas dias recebeu a vi\u00fava Lemos uma carta do m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Abriu-a.<\/p>\n<p>Dizia assim: \u00c9 absolutamente imposs\u00edvel esconder por mais tempo o que sinto por V. Excia. Amo-a.<\/p>\n<p>Sua mol\u00e9stia precisa de uma \u00faltima receita, verdadeiro rem\u00e9dio para quem ama \u2014 sim, porque V. Excia. tamb\u00e9m me ama. Que raz\u00e3o obrigaria a neg\u00e1-lo? Se a sua resposta for afirmativa haver\u00e1 mais dois entes felizes neste mundo.<\/p>\n<p>Se negativa&#8230;<\/p>\n<p>Adeus! A carta foi lida com explos\u00e3o de entusiasmo; o m\u00e9dico foi chamado a toda a pressa, para receber e dar sa\u00fade. Casaram-se os dois da\u00ed a quarenta dias.<\/p>\n<p>Tal \u00e9 a hist\u00f3ria da \u00daltima receita.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis A vi\u00fava Lemos adoecera; uns dizem que dos nervos, outros que de saudades do marido. Fosse o que fosse, a verdade \u00e9 que adoecera, em certa noite de setembro, ao regressar de um baile. Morava ent\u00e3o no Andara\u00ed, em companhia de uma tia surda e devota. 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