{"id":113598,"date":"2017-03-14T18:58:23","date_gmt":"2017-03-14T20:58:23","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=113598"},"modified":"2017-03-14T18:58:23","modified_gmt":"2017-03-14T20:58:23","slug":"a-senhora-do-galvao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-senhora-do-galvao","title":{"rendered":"A Senhora do Galv\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Come\u00e7aram a rosnar dos amores deste advogado com a vi\u00fava do brigadeiro, quando eles n\u00e3o tinham ainda passado dos primeiros obs\u00e9quios. Assim vai o mundo. Assim se fazem algumas reputa\u00e7\u00f5es m\u00e1s, e, o que parece absurdo, algumas boas. Com efeito, h\u00e1 vidas que s\u00f3 t\u00eam pr\u00f3logo; mas toda a gente fala do grande livro que se lhe segue, e o autor morre com as folhas em branco. No presente caso, as folhas escreveram-se, formando todas um grosso volume de trezentas p\u00e1ginas compactas, sem contar as notas. Estas foram postas no fim, n\u00e3o para esclarecer, mas para recordar os cap\u00edtulos passados; tal \u00e9 o m\u00e9todo nesses livros de colabora\u00e7\u00e3o. Mas a verdade \u00e9 que eles apenas combinavam no plano, quando a mulher do advogado recebeu este bilhete an\u00f4nimo: &#8220;N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que a senhora se deixe embair mais tempo, t\u00e3o escandalosamente, por uma de suas amigas, que se consola da viuvez, seduzindo os maridos alheios, quando bastava conservar os cachos&#8230;&#8221; Que cachos? Maria Ol\u00edmpia n\u00e3o perguntou que cachos eram; eram da vi\u00fava do brigadeiro, que os trazia por gosto, e n\u00e3o por moda. Creio que isto se passou em 1853.<\/p>\n<p>Maria Ol\u00edmpia leu e releu o bilhete; examinou a letra, que lhe pareceu de mulher e disfar\u00e7ada, e percorreu mentalmente a primeira linha das suas amigas, a ver se descobria a autora. N\u00e3o descobriu nada, dobrou o papel e fitou o tapete do ch\u00e3o, caindo-lhe os olhos justamente no ponto do desenho em que dois pombinhos ensinavam um ao outro a maneira de fazer de dois bicos um bico. H\u00e1 dessas ironias do acaso, que d\u00e3o vontade de destruir o universo. Afinal meteu o bilhete no bolso do vestido, e encarou a mucama, que esperava por ela, e que lhe perguntou: \u2014 Nhanh\u00e3 n\u00e3o quer mais ver o xale? Maria Ol\u00edmpia pegou no xale que a mucama lhe dava e foi p\u00f4-lo aos ombros, defronte do espelho. Achou que lhe ficava bem, muito melhor que \u00e0 vi\u00fava. Cotejou as suas gra\u00e7as com as da outra. Nem os olhos nem a boca eram compar\u00e1veis; a vi\u00fava tinha os ombros estreitinhos, a cabe\u00e7a grande, e o andar feio. Era alta; mas que tinha ser alta? E os trinta e cinco anos de idade, mais nove que ela? Enquanto fazia essas reflex\u00f5es, ia compondo, pregando e despregando o xale.<\/p>\n<p>\u2014 Este parece melhor que o outro, aventurou a mucama.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei&#8230; disse a senhora, chegando-se mais para a janela, com os dois nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u2014 Bota o outro, nhanh\u00e3.<\/p>\n<p>A nhanh\u00e3 obedeceu. Experimentou cinco xales dos dez que ali estavam, em caixas, vindos de uma loja da rua da Ajuda. Concluiu que os dois primeiros eram os melhores; mas aqui surgiu uma complica\u00e7\u00e3o \u2014 m\u00ednima, realmente \u2014 mas t\u00e3o sutil e profunda na solu\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o vacilo em recomend\u00e1-la aos nossos pensadores de 1906. A quest\u00e3o era saber qual dos dois xales escolheria, uma vez que o marido, recente advogado, pedia-lhe que fosse econ\u00f4mica. Contemplava-os alternadamente, e ora preferia um, ora outro. De repente, lembrou-lhe a aleivosia do marido, a necessidade de mortific\u00e1-lo, castig\u00e1-lo, mostrar-lhe que n\u00e3o era peteca de ningu\u00e9m, nem maltrapilha; e, de raiva, comprou ambos os xales.<\/p>\n<p>Ao bater das quatros horas (era a hora do marido) nada de marido. Nem \u00e0s quatro, nem \u00e0s quatro e meia. Maria Ol\u00edmpia imaginava uma por\u00e7\u00e3o de coisas aborrecidas, ia \u00e0 janela, tornava a entrar, temia um desastre ou doen\u00e7a repentina; pensou tamb\u00e9m que fosse uma sess\u00e3o do j\u00fari. Cinco horas, e nada. Os cachos da vi\u00fava tamb\u00e9m negrejavam diante dela, entre a doen\u00e7a e o j\u00fari, com uns tons de azul-ferrete, que era provavelmente a cor do diabo. Realmente era para exaurir a paci\u00eancia de uma mo\u00e7a de vinte e seis anos. Vinte e seis anos; n\u00e3o tinha mais. Era filha de um deputado do tempo da Reg\u00eancia, que a deixou menina; e foi uma tia que a educou com muita distin\u00e7\u00e3o. A tia n\u00e3o a levou muito cedo a bailes e espet\u00e1culos. Era religiosa, conduziu-a primeiro \u00e0 igreja. Maria Ol\u00edmpia tinha a voca\u00e7\u00e3o da vida exterior, e, nas prociss\u00f5es e missas cantadas, gostava principalmente do rumor, da pompa; a devo\u00e7\u00e3o era sincera, t\u00edbia e distra\u00edda. A primeira coisa que ela via na tribuna das igrejas, era a si mesma. Tinha um gosto particular em olhar de cima para baixo, fitar a multid\u00e3o das mulheres ajoelhadas ou sentadas, e os rapazes, que, por baixo do coro ou nas portas laterais, temperavam com atitudes namoradas as cerim\u00f4nias latinas. N\u00e3o entendia os serm\u00f5es; o resto, por\u00e9m, orquestra, canto, flores, luzes, sanefas, ouros, gentes, tudo exercia nela um singular feiti\u00e7o. Magra devo\u00e7\u00e3o, que escasseou ainda mais com o primeiro espet\u00e1culo e o primeiro baile. N\u00e3o alcan\u00e7ou a Candiani, mas ouviu a Ida Edelvira, dan\u00e7ou \u00e0 larga, e ganhou fama de elegante.<\/p>\n<p>Eram cinco horas e meia, quando o Galv\u00e3o chegou. Maria Ol\u00edmpia, que ent\u00e3o passeava na sala, t\u00e3o depressa lhe ouviu os p\u00e9s, fez o que faria qualquer outra senhora na mesma situa\u00e7\u00e3o: pegou de um jornal de modas, e sentou-se, lendo, com um grande ar de pouco caso. Galv\u00e3o entrou ofegante, risonho, cheio de carinhos, perguntando-lhe se estava zangada, e jurando que tinha um motivo para a demora, um motivo que ela havia de agradecer, se soubesse&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 preciso, interrompeu ela friamente.<\/p>\n<p>Levantou-se; foram jantar. Falaram pouco; ela menos que ele, mas em todo o caso, sem parecer magoada. Pode ser que entrasse a duvidar da carta an\u00f4nima; pode ser tamb\u00e9m que os dois xales lhe pesassem na consci\u00eancia. No fim do jantar, Galv\u00e3o explicou a demora; tinha ido, a p\u00e9, ao teatro Provis\u00f3rio, comprar um camarote para essa noite: davam os Lombardos. De l\u00e1, na volta, foi encomendar um carro&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Os Lombardos? interrompeu Maria Ol\u00edmpia.<\/p>\n<p>\u2014 Sim; canta o Laboceta, canta a Jacobson; h\u00e1 bailado. Voc\u00ea nunca ouviu os Lombardos? \u2014 Nunca.<\/p>\n<p>\u2014 E a\u00ed est\u00e1 por que me demorei. Que \u00e9 que voc\u00ea merecia agora? Merecia que eu lhe cortasse a ponta desse narizinho arrebitado&#8230;<\/p>\n<p>Como ele acompanhasse o dito com um gesto, ela recuou a cabe\u00e7a; depois acabou de tomar o caf\u00e9. Tenhamos pena da alma desta mo\u00e7a. Os primeiros acordes dos Lombardos ecoavam nela, enquanto a carta an\u00f4nima lhe trazia uma nota l\u00fagubre, esp\u00e9cie de Requiem.<\/p>\n<p>E por que \u00e9 que a carta n\u00e3o seria uma cal\u00fania? Naturalmente n\u00e3o era outra coisa: alguma inven\u00e7\u00e3o de inimigas, ou para afligi-la, ou para faz\u00ea-los brigar. Era isto mesmo. Entretanto, uma vez que estava avisada, n\u00e3o os perderia de vista. Aqui acudiu-lhe uma id\u00e9ia: consultou o marido se mandaria convidar a vi\u00fava.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, respondeu ele; o carro s\u00f3 tem dois lugares, e eu n\u00e3o hei de ir na bol\u00e9ia.<\/p>\n<p>Maria Ol\u00edmpia sorriu de contente, e levantou-se. H\u00e1 muito tempo que tinha vontade de ouvir os Lombardos. Vamos aos Lombardos! Tr\u00e1, l\u00e1, l\u00e1, l\u00e1&#8230; Meia hora depois foi vestirse.<\/p>\n<p>Galv\u00e3o, quando a viu pronta da\u00ed a pouco, ficou encantado. Minha mulher \u00e9 linda, pensou ele; e fez um gesto para estreit\u00e1-la ao peito; mas a mulher recuou, pedindo-lhe que n\u00e3o a amarrotasse. E, como ele, por umas veleidades de camareiro, pretendeu concertar-lhe a pluma do cabelo, ela disse-lhe enfastiada: \u2014 Deixa, Eduardo! J\u00e1 veio o carro? Entraram no carro e seguiram para o teatro. Quem \u00e9 que estava no camarote cont\u00edguo ao deles? Justamente a vi\u00fava e a m\u00e3e. Esta coincid\u00eancia, filha do acaso, podia fazer crer algum ajuste pr\u00e9vio. Maria Ol\u00edmpia chegou a suspeit\u00e1-lo; mas a sensa\u00e7\u00e3o da entrada n\u00e3o lhe deu tempo de examinar a suspeita. Toda a sala voltara-se para v\u00ea-la, e ela bebeu, a tragos demorados, o leite da admira\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Demais, o marido teve a inspira\u00e7\u00e3o, maquiav\u00e9lica, de lhe dizer ao ouvido: &#8220;Antes a mandasses convidar; ficava-nos devendo o favor.&#8221; Qualquer suspeita cairia diante desta palavra. Contudo, ela cuidou de os n\u00e3o perder de vista \u2014 e renovou a resolu\u00e7\u00e3o de cinco em cinco minutos, durante meia hora, at\u00e9 que, n\u00e3o podendo fixar a aten\u00e7\u00e3o, deixou-a andar. L\u00e1 vai ela, inquieta, vai direito ao clar\u00e3o das luzes, ao esplendor dos vestu\u00e1rios, um pouco \u00e0 \u00f3pera, como pedindo a todas as coisas alguma sensa\u00e7\u00e3o deleitosa em que se espreguice uma alma fria e pessoal. E volta depois \u00e0 pr\u00f3pria dona, ao seu leque, \u00e0s suas luvas, aos adornos do vestido, realmente magn\u00edficos. Nos intervalos, conversando com a vi\u00fava, Maria Ol\u00edmpia tinha a voz e os gestos do costume, sem c\u00e1lculo, sem esfor\u00e7o, sem ressentimento, esquecida da carta.<\/p>\n<p>Justamente nos intervalos \u00e9 que o marido, com uma discri\u00e7\u00e3o rara entre os filhos dos homens, ia para os corredores ou para o sagu\u00e3o pedir not\u00edcias do minist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Juntas sa\u00edram do camarote, no fim, e atravessaram os corredores. A mod\u00e9stia com que a vi\u00fava trajava podia real\u00e7ar a magnific\u00eancia da amiga. As fei\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, n\u00e3o eram o que esta afirmou, quando ensaiava os xales de manh\u00e3. N\u00e3o, senhor; eram engra\u00e7adas, e tinham um certo pico original. Os ombros proporcionais e bonitos. N\u00e3o contava trinta e cinco anos, mas trinta e um; nasceu em 1822, na v\u00e9spera da independ\u00eancia, tanto que o pai, por brincadeira, entrou a cham\u00e1-la Ipiranga, e ficou-lhe esta alcunha entre as amigas.<\/p>\n<p>Demais, l\u00e1 estava em Santa Rita o assentamento de batismo.<\/p>\n<p>Uma semana depois, recebeu Maria Ol\u00edmpia outra carta an\u00f4nima. Era mais longa e expl\u00edcita. Vieram outras, uma por semana, durante tr\u00eas meses. Maria Ol\u00edmpia leu as primeiras com algum aborrecimento; as seguintes foram calejando a sensibilidade. N\u00e3o havia d\u00favida que o marido demorava-se fora, muitas vezes, ao contr\u00e1rio do que fazia dantes, ou sa\u00eda \u00e0 noite e regressava tarde; mas, segundo dizia, gastava o tempo no Wallerstein ou no Bernardo, em palestras pol\u00edticas. E isto era verdade, uma verdade de cinco a dez minutos, o tempo necess\u00e1rio para recolher alguma anedota ou novidade, que pudesse repetir em casa, \u00e0 laia de documento. Dali seguia para o largo de S\u00e3o Francisco, e metia-se no \u00f4nibus.<\/p>\n<p>Tudo era verdade. E, contudo, ela continuava a n\u00e3o crer nas cartas. Ultimamente, n\u00e3o se dava mais ao trabalho de as refutar consigo; lia-as uma s\u00f3 vez, e rasgava-as. Com o tempo foram surgindo alguns ind\u00edcios menos vagos, pouco a pouco, ao modo do aparecimento da terra aos navegantes; mas este Colombo teimava em n\u00e3o crer na Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>Negava o que via; n\u00e3o podendo neg\u00e1-lo, interpretava-o; depois recordava algum caso de alucina\u00e7\u00e3o, uma anedota de apar\u00eancias ilus\u00f3rias, e nesse travesseiro c\u00f4modo e mole punha a cabe\u00e7a e dormia. J\u00e1 ent\u00e3o, prosperando-lhe o escrit\u00f3rio, dava o Galv\u00e3o partidas e jantares, iam a bailes, teatros, corridas de cavalos. Maria Ol\u00edmpia vivia alegre, radiante; come\u00e7ava a ser um dos nomes da moda. E andava muita vez com a vi\u00fava, a despeito das cartas, a tal ponto que uma destas lhe dizia: &#8220;Parece que \u00e9 melhor n\u00e3o escrever mais, uma vez que a senhora se regala numa combor\u00e7aria de mau gosto.&#8221; Que era combor\u00e7aria? Maria Ol\u00edmpia quis pergunt\u00e1-lo ao marido, mas esqueceu o termo, e n\u00e3o pensou mais nisso.<\/p>\n<p>Entretanto, constou ao marido que a mulher recebia cartas pelo correio. Cartas de quem? Esta not\u00edcia foi um golpe duro e inesperado. Galv\u00e3o examinou de mem\u00f3ria as pessoas que lhe freq\u00fcentavam a casa, as que podiam encontr\u00e1-la em teatros ou bailes, e achou muitas figuras veross\u00edmeis. Em verdade, n\u00e3o lhe faltavam adoradores.<\/p>\n<p>\u2014 Cartas de quem? repetia ele mordendo o bei\u00e7o e franzindo a testa.<\/p>\n<p>Durante sete dias passou uma vida inquieta e aborrecida, espiando a mulher e gastando em casa grande parte do tempo. No oitavo dia, veio uma carta.<\/p>\n<p>\u2014 Para mim? disse ele vivamente.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o; \u00e9 para mim, respondeu Maria Ol\u00edmpia, lendo o sobrescrito; parece letra de Mariana ou de Lulu Fontoura&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o queria l\u00ea-la; mas o marido disse que a lesse; podia ser alguma not\u00edcia grave.<\/p>\n<p>Maria Ol\u00edmpia leu a carta e dobrou-a, sorrindo; ia guard\u00e1-la, quando o marido desejou ver o que era.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea sorriu, disse ele gracejando; h\u00e1 de ser algum epigrama comigo.<\/p>\n<p>\u2014 Qual! \u00e9 um neg\u00f3cio de moldes.<\/p>\n<p>\u2014 Mas deixa ver.<\/p>\n<p>\u2014 Para qu\u00ea, Eduardo? \u2014 Que tem? Voc\u00ea, que n\u00e3o quer mostrar, por algum motivo h\u00e1 de ser. D\u00ea c\u00e1.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o sorria; tinha a voz tr\u00eamula. Ela ainda recusou a carta, uma, duas, tr\u00eas vezes.<\/p>\n<p>Teve mesmo id\u00e9ia de rasg\u00e1-la, mas era pior, e n\u00e3o conseguiria faz\u00ea-lo at\u00e9 o fim. Realmente, era uma situa\u00e7\u00e3o original. Quando ela viu que n\u00e3o tinha rem\u00e9dio, determinou ceder. Que melhor ocasi\u00e3o para ler no rosto dele a express\u00e3o da verdade? A carta era das mais expl\u00edcitas; falava da vi\u00fava em termos crus. Maria Ol\u00edmpia entregou-lha.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o queria mostrar esta, disse-lhe ela primeiro, como n\u00e3o mostrei outras que tenho recebido e botado fora; s\u00e3o tolices, intrigas, que andam fazendo para&#8230; Leia, leia a carta.<\/p>\n<p>Galv\u00e3o abriu a carta e deitou-lhe os olhos \u00e1vidos. Ela enterrou a cabe\u00e7a na cintura, para ver de perto a franja do vestido. N\u00e3o o viu empalidecer. Quando ele, depois de alguns minutos, proferiu duas ou tr\u00eas palavras, tinha j\u00e1 a fisionomia composta e um esbo\u00e7o de sorriso. Mas a mulher, que o n\u00e3o adivinhava, respondeu ainda de cabe\u00e7a baixa; s\u00f3 a levantou da\u00ed a tr\u00eas ou quatro minutos, e n\u00e3o para fit\u00e1-lo de uma vez, mas aos peda\u00e7os, como se temesse descobrir-lhe nos olhos a confirma\u00e7\u00e3o do an\u00f4nimo. Vendo-lhe, ao contr\u00e1rio, um sorriso, achou que era o da inoc\u00eancia, e falou de outra coisa.<\/p>\n<p>Redobraram as cautelas do marido; parece tamb\u00e9m que ele n\u00e3o p\u00f4de esquivar-se a um tal ou qual sentimento de admira\u00e7\u00e3o para com a mulher. Pela sua parte, a vi\u00fava, tendo not\u00edcia das cartas, sentiu-se envergonhada; mas reagiu depressa, e requintou de maneiras afetuosas com a amiga.<\/p>\n<p>Na segunda ou terceira semana de agosto, Galv\u00e3o fez-se s\u00f3cio do Cassino Fluminense. Era um dos sonhos da mulher. A seis de setembro fazia anos a vi\u00fava, como sabemos. Na v\u00e9spera, foi Maria Ol\u00edmpia (com a tia que chegara de fora) comprar-lhe um mimo: era uso entre elas. Comprou-lhe um anel. Viu na mesma casa uma j\u00f3ia engra\u00e7ada, uma meia lua de diamantes para o cabelo, emblema de Diana, que lhe iria muito bem sobre a testa. De Maom\u00e9 que fosse; todo o emblema de diamantes \u00e9 crist\u00e3o. Maria Ol\u00edmpia pensou naturalmente na primeira noite do Cassino; e a tia, vendo-lhe o desejo, quis comprar a j\u00f3ia, mas era tarde, estava vendida.<\/p>\n<p>Veio a noite do baile. Maria Ol\u00edmpia subiu comovida as escadas do Cassino.<\/p>\n<p>Pessoas que a conheceram naquele tempo, dizem que o que ela achava na vida exterior, era a sensa\u00e7\u00e3o de uma grande car\u00edcia p\u00fablica, a dist\u00e2ncia; era a sua maneira de ser amada.<\/p>\n<p>Entrando no Cassino, ia recolher nova c\u00f3pia de admira\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o se enganou, porque elas vieram, e de fina casta.<\/p>\n<p>Foi pelas dez horas e meia que a vi\u00fava ali apareceu. Estava realmente bela, trajada a primor, tendo na cabe\u00e7a a meia lua de diamantes. Ficava-lhe bem o diabo da j\u00f3ia, com as duas pontas para cima, emergindo do cabelo negro. Toda a gente admirou sempre a vi\u00fava naquele sal\u00e3o. Tinha muitas amigas, mais ou menos \u00edntimas, n\u00e3o poucos adoradores, e possu\u00eda um g\u00eanero de esp\u00edrito que espertava com as grandes luzes. Certo secret\u00e1rio de lega\u00e7\u00e3o n\u00e3o cessava de a recomendar aos diplomatas novos: &#8220;Causez avec Mme. Tavares; c&#8217;est adorable!&#8221; Assim era nas outras noites; assim foi nesta.<\/p>\n<p>\u2014 Hoje quase n\u00e3o tenho tido tempo de estar com voc\u00ea, disse ela a Maria Ol\u00edmpia, perto de meia-noite.<\/p>\n<p>\u2014 Naturalmente, disse a outra abrindo e fechando o leque; e, depois de umedecer os l\u00e1bios, como para chamar a eles todo o veneno que tinha no cora\u00e7\u00e3o: \u2014 Ipiranga, voc\u00ea est\u00e1 hoje uma vi\u00fava deliciosa&#8230; Vem seduzir mais algum marido? A vi\u00fava empalideceu, e n\u00e3o p\u00f4de dizer nada. Maria Ol\u00edmpia acrescentou, com os olhos, alguma coisa que a humilhasse bem, que lhe respingasse lama no triunfo. J\u00e1 no resto da noite falaram pouco; tr\u00eas dias depois romperam para nunca mais.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Come\u00e7aram a rosnar dos amores deste advogado com a vi\u00fava do brigadeiro, quando eles n\u00e3o tinham ainda passado dos primeiros obs\u00e9quios. Assim vai o mundo. Assim se fazem algumas reputa\u00e7\u00f5es m\u00e1s, e, o que parece absurdo, algumas boas. 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