{"id":113591,"date":"2017-03-14T18:54:14","date_gmt":"2017-03-14T20:54:14","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=113591"},"modified":"2017-03-14T18:54:14","modified_gmt":"2017-03-14T20:54:14","slug":"a-segunda-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-segunda-vida","title":{"rendered":"A Segunda Vida"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de assis<\/h2>\n<p>Monsenhor Caldas interrompeu a narra\u00e7\u00e3o do desconhecido: \u2014 D\u00e1 licen\u00e7a? \u00e9 s\u00f3 um instante. Levantou-se, foi ao interior da casa, chamou o preto velho que o servia, e disse-lhe em voz baixa: \u2014 Jo\u00e3o, vai ali \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de urbanos, fala da minha parte ao comandante, e pede-lhe que venha c\u00e1 com um ou dois homens, para livrar-me de um sujeito doido. Anda, vai depressa.<\/p>\n<p>E, voltando \u00e0 sala: \u2014 Pronto, disse ele; podemos continuar.<\/p>\n<p>\u2014 Como ia dizendo a Vossa Reverend\u00edssima, morri no dia vinte de mar\u00e7o de 1860, \u00e0s cinco horas e quarenta e tr\u00eas minutos da manh\u00e3. Tinha ent\u00e3o sessenta e oito anos de idade. Minha alma voou pelo espa\u00e7o, at\u00e9 perder a terra de vista, deixando muito abaixo a lua, as estrelas e o sol; penetrou finalmente num espa\u00e7o em que n\u00e3o havia mais nada, e era clareado t\u00e3o-somente por uma luz difusa. Continuei a subir, e comecei a ver um pontinho mais luminoso ao longe, muito longe. O ponto cresceu, fez-se sol. Fui por ali dentro, sem arder, porque as almas s\u00e3o incombust\u00edveis. A sua pegou fogo alguma vez? \u2014 N\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00e3o incombust\u00edveis. Fui subindo, subindo; na dist\u00e2ncia de quarenta mil l\u00e9guas, ouvi uma deliciosa m\u00fasica, e logo que cheguei a cinco mil l\u00e9guas, desceu um enxame de almas, que me levaram num palanquim feito de \u00e9ter e plumas. Entrei da\u00ed a pouco no novo sol, que \u00e9 o planeta dos virtuosos da terra. N\u00e3o sou poeta, monsenhor; n\u00e3o ouso descreverlhe as magnific\u00eancias daquela est\u00e2ncia divina. Poeta que fosse, n\u00e3o poderia, usando a linguagem humana, transmitir-lhe a emo\u00e7\u00e3o da grandeza, do deslumbramento, da felicidade, os \u00eaxtases, as melodias, os arrojos de luz e cores, uma coisa indefin\u00edvel e incompreens\u00edvel. S\u00f3 vendo. L\u00e1 dentro \u00e9 que soube que completava mais um milheiro de almas; tal era o motivo das festas extraordin\u00e1rias que me fizeram, e que duraram dois s\u00e9culos, ou, pelas nossas contas, quarenta e oito horas. Afinal, conclu\u00eddas as festas, convidaram-me a tornar \u00e0 terra para cumprir uma vida nova; era o privil\u00e9gio de cada alma que completava um milheiro. Respondi agradecendo e recusando, mas n\u00e3o havia recusar.<\/p>\n<p>Era uma lei eterna. A \u00fanica liberdade que me deram foi a escolha do ve\u00edculo; podia nascer pr\u00edncipe ou condutor de \u00f4nibus. Que fazer? Que faria Vossa Reverend\u00edssima no meu lugar? \u2014 N\u00e3o posso saber; depende&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Tem raz\u00e3o; depende das circunst\u00e2ncias. Mas imagine que as minhas eram tais que n\u00e3o me davam gosto a tornar c\u00e1. Fui v\u00edtima da inexperi\u00eancia, monsenhor, tive uma velhice ruim, por essa raz\u00e3o. Ent\u00e3o lembrou-me que sempre ouvira dizer a meu pai e outras pessoas mais velhas, quando viam algum rapaz: \u2014 &#8220;Quem me dera aquela idade, sabendo o que sei hoje!&#8221; Lembrou-me isto, e declarei que me era indiferente nascer mendigo ou potentado, com a condi\u00e7\u00e3o de nascer experiente. N\u00e3o imagina o riso universal com que me ouviram. J\u00f3, que ali preside a prov\u00edncia dos pacientes, disse-me que um tal desejo era disparate; mas eu teimei e venci. Da\u00ed a pouco escorreguei no espa\u00e7o: gastei nove meses a atravess\u00e1-lo at\u00e9 cair nos bra\u00e7os de uma ama de leite, e chamei-me Jos\u00e9 Maria. Vossa Reverend\u00edssima \u00e9 Romualdo, n\u00e3o? \u2014 Sim, senhor; Romualdo de Sousa Caldas.<\/p>\n<p>\u2014 Ser\u00e1 parente do padre Sousa Caldas? \u2014 N\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p>\u2014 Bom poeta o padre Caldas. Poesia \u00e9 um dom; eu nunca pude compor uma d\u00e9cima. Mas, vamos ao que importa. Conto-lhe primeiro o que me sucedeu; depois lhe direi o que desejo de Vossa Reverend\u00edssima. Entretanto, se me permitisse ir fumando&#8230;<\/p>\n<p>Monsenhor Caldas fez um gesto de assentimento, sem perder de vista a bengala que Jos\u00e9 Maria conservava atravessada sobre as pernas. Este preparou vagarosamente um cigarro. Era um homem de trinta e poucos anos, p\u00e1lido, com um olhar ora mole e apagado, ora inquieto e centelhante. Apareceu ali, tinha o padre acabado de almo\u00e7ar, e pediu-lhe uma entrevista para neg\u00f3cio grave e urgente. Monsenhor f\u00ea-lo entrar e sentar-se; no fim de dez minutos, viu que estava com um lun\u00e1tico. Perdoava-lhe a incoer\u00eancia das id\u00e9ias ou o assombroso das inven\u00e7\u00f5es; pode ser at\u00e9 que lhe servissem de estudo. Mas o desconhecido teve um assomo de raiva, que meteu medo ao pacato cl\u00e9rigo. Que podiam fazer ele e o preto, ambos velhos, contra qualquer agress\u00e3o de um homem forte e louco? Enquanto esperava o auxilio policial, monsenhor Caldas desfazia-se em sorrisos e assentimentos de cabe\u00e7a, espantava-se com ele, alegrava-se com ele, pol\u00edtica \u00fatil com os loucos, as mulheres e os potentados. Jos\u00e9 Maria acendeu finalmente o cigarro, e continuou: \u2014 Renasci em cinco de janeiro de 1861. N\u00e3o lhe digo nada da nova meninice, porque a\u00ed a experi\u00eancia teve s\u00f3 uma forma instintiva. Mamava pouco; chorava o menos que podia para n\u00e3o apanhar pancada. Comecei a andar tarde, por medo de cair, e da\u00ed me ficou uma tal ou qual fraqueza nas pernas. Correr e rolar, trepar nas \u00e1rvores, saltar pared\u00f5es, trocar murros, coisas t\u00e3o \u00fateis, nada disso fiz, por medo de contus\u00e3o e sangue. Para falar com franqueza, tive uma inf\u00e2ncia aborrecida, e a escola n\u00e3o o foi menos. Chamavam-me tolo e moleir\u00e3o. Realmente, eu vivia fugindo de tudo. Creia que durante esse tempo n\u00e3o escorreguei, mas tamb\u00e9m n\u00e3o corria nunca. Palavra, foi um tempo de aborrecimento; e, comparando as cabe\u00e7as quebradas de outro tempo com o t\u00e9dio de hoje, antes as cabe\u00e7as quebradas. Cresci; fiz-me rapaz, entrei no per\u00edodo dos amores&#8230; N\u00e3o se assuste; serei casto, como a primeira ceia. Vossa Reverend\u00edssima sabe o que \u00e9 uma ceia de rapazes e mulheres? \u2014 Como quer que saiba?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Tinha dezenove anos, continuou Jos\u00e9 Maria, e n\u00e3o imagina o espanto dos meus amigos, quando me declarei pronto a ir a uma tal ceia&#8230; Ningu\u00e9m esperava tal coisa de um rapaz t\u00e3o cauteloso, que fugia de tudo, dos sonos atrasados, dos sonos excessivos, de andar sozinho a horas mortas, que vivia, por assim dizer, \u00e0s apalpadelas. Fui \u00e0 ceia; era no Jardim Bot\u00e2nico, obra espl\u00eandida. Comidas, vinhos, luzes, flores, alegria dos rapazes, os olhos das damas, e, por cima de tudo, um apetite de vinte anos. H\u00e1 de crer que n\u00e3o comi nada? A lembran\u00e7a de tr\u00eas indigest\u00f5es apanhadas quarenta anos antes, na primeira vida, fez-me recuar. Menti dizendo que estava indisposto. Uma das damas veio sentar-se \u00e0 minha direita, para curar-me; outra levantou-se tamb\u00e9m, e veio para a minha esquerda, com o mesmo fim.<\/p>\n<p>Voc\u00ea cura de um lado, eu curo do outro, disseram elas. Eram l\u00e9pidas, frescas, astuciosas, e tinham fama de devorar o cora\u00e7\u00e3o e a vida dos rapazes. Confesso-lhe que fiquei com medo e retra\u00ed-me. Elas fizeram tudo, tudo; mas em v\u00e3o. Vim de l\u00e1 de manh\u00e3, apaixonado por ambas, sem nenhuma delas, e caindo de fome. Que lhe parece? concluiu Jos\u00e9 Maria pondo as m\u00e3os nos joelhos, e arqueando os bra\u00e7os para fora.<\/p>\n<p>\u2014 Com efeito&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o lhe digo mais nada; Vossa Reverend\u00edssima adivinhar\u00e1 o resto. A minha segunda vida \u00e9 assim uma mocidade expansiva e impetuosa, enfreada por uma experi\u00eancia virtual e tradicional. Vivo como Eurico, atado ao pr\u00f3prio cad\u00e1ver&#8230; N\u00e3o, a compara\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 boa. Como lhe parece que vivo? \u2014 Sou pouco imaginoso. Suponho que vive assim como um p\u00e1ssaro, batendo as asas e amarrado pelos p\u00e9s&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Justamente. Pouco imaginoso? Achou a f\u00f3rmula; \u00e9 isso mesmo. Um p\u00e1ssaro, um grande p\u00e1ssaro, batendo as asas, assim&#8230;<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Maria ergueu-se, agitando os bra\u00e7os, \u00e0 maneira de asas. Ao erguer-se, caiu-lhe a bengala no ch\u00e3o; mas ele n\u00e3o deu por ela. Continuou a agitar os bra\u00e7os, em p\u00e9, defronte do padre, e a dizer que era isso mesmo, um p\u00e1ssaro, um grande p\u00e1ssaro&#8230; De cada vez que batia os bra\u00e7os nas coxas, levantava os calcanhares, dando ao corpo uma cad\u00eancia de movimentos, e conservava os p\u00e9s unidos, para mostrar que os tinha amarrados. Monsenhor aprovava de cabe\u00e7a; ao mesmo tempo afiava as orelhas para ver se ouvia passos na escada.<\/p>\n<p>Tudo sil\u00eancio. S\u00f3 lhe chegavam os rumores de fora: \u2014 carros e carro\u00e7as que desciam, quitandeiras apregoando legumes, e um piano da vizinhan\u00e7a. Jos\u00e9 Maria sentou-se finalmente, depois de apanhar a bengala, e continuou nestes termos: \u2014 Um p\u00e1ssaro, um grande p\u00e1ssaro. Para ver quanto \u00e9 feliz a compara\u00e7\u00e3o, basta a aventura que me traz aqui, um caso de consci\u00eancia, uma paix\u00e3o, uma mulher, uma vi\u00fava, D. Clem\u00eancia. Tem vinte e seis anos, uns olhos que n\u00e3o acabam mais, n\u00e3o digo no tamanho, mas na express\u00e3o, e duas pinceladas de bu\u00e7o, que lhe completam a fisionomia. \u00c9 filha de um professor jubilado. Os vestidos pretos ficam-lhe t\u00e3o bem que eu \u00e0s vezes digolhe rindo que ela n\u00e3o enviuvou sen\u00e3o para andar de luto. Ca\u00e7oadas! Conhecemo-nos h\u00e1 um ano, em casa de um fazendeiro de Cantagalo. Sa\u00edmos namorados um do outro. J\u00e1 sei o que me vai perguntar: por que \u00e9 que n\u00e3o nos casamos, sendo ambos livres&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, senhor.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, homem de Deus! \u00e9 essa justamente a mat\u00e9ria da minha aventura. Somos livres, gostamos um do outro, e n\u00e3o nos casamos: tal \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o tenebrosa que venho expor a Vossa Reverend\u00edssima, e que a sua teologia ou o que quer que seja, explicar\u00e1, se puder. Voltamos para a Corte namorados. Clem\u00eancia morava com o velho pai, e um irm\u00e3o empregado no com\u00e9rcio; relacionei-me com ambos, e comecei a freq\u00fcentar a casa, em Matacavalos. Olhos, apertos de m\u00e3o, palavras soltas, outras ligadas, uma frase, duas frases, e est\u00e1vamos amados e confessados. Uma noite, no patamar da escada, trocamos o primeiro beijo&#8230; Perdoe estas coisas, monsenhor; fa\u00e7a de conta que me est\u00e1 ouvindo de confiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Nem eu lhe digo isto sen\u00e3o para acrescentar que sa\u00ed dali tonto, desvairado, com a imagem de Clem\u00eancia na cabe\u00e7a e o sabor do beijo na boca. Errei cerca de duas horas, planeando uma vida \u00fanica; determinei pedir-lhe a m\u00e3o no fim da semana, e casar da\u00ed a um m\u00eas.<\/p>\n<p>Cheguei \u00e0s derradeiras min\u00facias, cheguei a redigir e ornar de cabe\u00e7a as cartas de participa\u00e7\u00e3o. Entrei em casa depois de meia-noite, e toda essa fantasmagoria voou, como as muta\u00e7\u00f5es \u00e0 vista nas antigas pe\u00e7as de teatro. Veja se adivinha como.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o alcan\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Considerei, no momento de despir o colete, que o amor podia acabar depressa; tem-se visto algumas vezes. Ao descal\u00e7ar as botas, lembrou-me coisa pior: \u2014 podia ficar o fastio. Conclu\u00ed a toilette de dormir, acendi um cigarro, e, reclinado no canap\u00e9, pensei que o costume, a conviv\u00eancia, podia salvar tudo; mas, logo depois adverti que as duas \u00edndoles podiam ser incompat\u00edveis; e que fazer com duas \u00edndoles incompat\u00edveis e insepar\u00e1veis? Mas, enfim, dei de barato tudo isso, porque a paix\u00e3o era grande, violenta; considerei-me casado, com uma linda criancinha&#8230; Uma? duas, seis, oito; podiam vir oito, podiam vir dez; algumas aleijadas. Tamb\u00e9m podia vir uma crise, duas crises, falta de dinheiro, pen\u00faria, doen\u00e7as; podia vir alguma dessas afei\u00e7\u00f5es esp\u00farias que perturbam a paz dom\u00e9stica&#8230;<\/p>\n<p>Considerei tudo e conclu\u00ed que o melhor era n\u00e3o casar. O que n\u00e3o lhe posso contar \u00e9 o meu desespero; faltam-me express\u00f5es para lhe pintar o que padeci nessa noite&#8230; Deixa-me fumar outro cigarro? N\u00e3o esperou resposta, fez o cigarro, e acendeu-o. Monsenhor n\u00e3o podia deixar de admirar-lhe a bela cabe\u00e7a, no meio do desalinho pr\u00f3prio do estado; ao mesmo tempo notou que ele falava em termos polidos, e, que apesar dos rompantes m\u00f3rbidos, tinha maneiras.<\/p>\n<p>Quem diabo podia ser esse homem? Jos\u00e9 Maria continuou a hist\u00f3ria, dizendo que deixou de ir \u00e0 casa de Clem\u00eancia, durante seis dias, mas n\u00e3o resistiu \u00e0s cartas e \u00e0s l\u00e1grimas. No fim de uma semana correu para l\u00e1, e confessou-lhe tudo, tudo. Ela ouviu-o com muito interesse, e quis saber o que era preciso para acabar com tantas cismas, que prova de amor queria que ela lhe desse. \u2014 A resposta de Jos\u00e9 Maria foi uma pergunta.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 disposta a fazer-me um grande sacrif\u00edcio? disse-lhe eu. Clem\u00eancia jurou que sim. &#8220;Pois bem, rompa com tudo, fam\u00edlia e sociedade; venha morar comigo; casamo-nos depois desse noviciado.&#8221; Compreendo que Vossa Reverend\u00edssima arregale os olhos. Os dela encheram-se de l\u00e1grimas; mas, apesar de humilhada, aceitou tudo. Vamos; confesse que sou um monstro.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, senhor&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Como n\u00e3o? Sou um monstro. Clem\u00eancia veio para minha casa, e n\u00e3o imagina as festas com que a recebi. &#8220;Deixo tudo, disse-me ela; voc\u00ea \u00e9 para mim o universo.&#8221; Eu beijeilhe os p\u00e9s, beijei-lhe os tac\u00f5es dos sapatos. N\u00e3o imagina o meu contentamento. No dia seguinte, recebi uma carta tarjada de preto; era a not\u00edcia da morte de um tio meu, em Santana do Livramento, deixando-me vinte mil contos. Fiquei fulminado. &#8220;Entendo, disse a Clem\u00eancia, voc\u00ea sacrificou tudo, porque tinha not\u00edcia da heran\u00e7a.&#8221; Desta vez, Clem\u00eancia n\u00e3o chorou, pegou em si e saiu. Fui atr\u00e1s dela, envergonhado, pedi-lhe perd\u00e3o; ela resistiu.<\/p>\n<p>Um dia, dois dias, tr\u00eas dias, foi tudo v\u00e3o; Clem\u00eancia n\u00e3o cedia nada, n\u00e3o falava sequer.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o declarei-lhe que me mataria; comprei um rev\u00f3lver, fui ter com ela, e apresentei-lho: \u00e9 este.<\/p>\n<p>Monsenhor Caldas empalideceu. Jos\u00e9 Maria mostrou-lhe o rev\u00f3lver, durante alguns segundos, tornou a met\u00ea-lo na algibeira, e continuou: \u2014 Cheguei a dar um tiro. Ela, assustada, desarmou-me e perdoou-me. Ajustamos precipitar o casamento, e, pela minha parte, impus uma condi\u00e7\u00e3o: doar os vinte mil contos \u00e0 Biblioteca Nacional. Clem\u00eancia atirou-se-me aos bra\u00e7os, e aprovou-me com um beijo. Dei os vinte mil contos. H\u00e1 de ter lido nos jornais&#8230; Tr\u00eas semanas depois casamo-nos. Vossa Reverend\u00edssima respira como quem chegou ao fim. Qual! Agora \u00e9 que chegamos ao tr\u00e1gico. O que posso fazer \u00e9 abreviar umas particularidades e suprimir outras; restrinjo-me a Clem\u00eancia. N\u00e3o lhe falo de outras emo\u00e7\u00f5es truncadas, que s\u00e3o todas as minhas, abortos de prazer, planos que se esgar\u00e7am no ar, nem das ilus\u00f5es de saia rota, nem do tal p\u00e1ssaro&#8230;<\/p>\n<p>pl\u00e1s&#8230; pl\u00e1s&#8230; pl\u00e1s&#8230;<\/p>\n<p>E, de um salto, Jos\u00e9 Maria ficou outra vez de p\u00e9, agitando os bra\u00e7os, e dando ao corpo uma cad\u00eancia. Monsenhor Caldas come\u00e7ou a suar frio. No fim de alguns segundos, Jos\u00e9 Maria parou, sentou-se, e reatou a narra\u00e7\u00e3o, agora mais difusa, mais derramada, evidentemente mais delirante. Contava os sustos em que vivia, desgostos e desconfian\u00e7as.<\/p>\n<p>N\u00e3o podia comer um figo \u00e0s dentadas, como outrora; o receio do bicho diminu\u00eda-lhe o sabor. N\u00e3o cria nas caras alegres da gente que ia pela rua: preocupa\u00e7\u00f5es, desejos, \u00f3dios, tristezas, outras coisas, iam dissimuladas por umas tr\u00eas quartas partes delas. Vivia a temer um filho cego ou surdo-mudo, ou tuberculoso, ou assassino, etc. N\u00e3o conseguia dar um jantar que n\u00e3o ficasse triste logo depois da sopa, pela id\u00e9ia de que uma palavra sua, um gesto da mulher, qualquer falta de servi\u00e7o podia sugerir o epigrama digestivo, na rua, debaixo de um lampi\u00e3o. A experi\u00eancia dera-lhe o terror de ser empulhado. Confessava ao padre que, realmente, n\u00e3o tinha at\u00e9 agora lucrado nada; ao contr\u00e1rio, perdera at\u00e9, porque fora levado ao sangue&#8230; Ia contar-lhe o caso do sangue. Na v\u00e9spera, deitara-se cedo, e sonhou&#8230; Com quem pensava o padre que ele sonhou? \u2014 N\u00e3o atino&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sonhei que o Diabo lia-me o Evangelho. Chegando ao ponto em que Jesus fala dos l\u00edrios do campo, o Diabo colheu alguns e deu-mos. &#8220;Toma, disse-me ele; s\u00e3o os l\u00edrios da Escritura; segundo ouviste, nem Salom\u00e3o em toda a pompa, pode ombrear com eles.<\/p>\n<p>Salom\u00e3o \u00e9 a sapi\u00eancia. E sabes o que s\u00e3o estes l\u00edrios, Jos\u00e9? S\u00e3o os teus vinte anos.&#8221; Fitei-os encantado; eram lindos como n\u00e3o imagina. O Diabo pegou deles, cheirou-os e disse-me que os cheirasse tamb\u00e9m. N\u00e3o lhe digo nada; no momento de os chegar ao nariz, vi sair de dentro um r\u00e9ptil fedorento e torpe, dei um grito, e arrojei para longe as flores. Ent\u00e3o, o Diabo, escancarando uma formid\u00e1vel gargalhada: &#8220;Jos\u00e9 Maria, s\u00e3o os teus vinte anos.&#8221; Era uma gargalhada assim: \u2014 c\u00e1, c\u00e1, c\u00e1, c\u00e1, c\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Maria ria \u00e0 solta, ria de um modo estridente e diab\u00f3lico. De repente, parou; levantou-se, e contou que, t\u00e3o depressa abriu os olhos, como viu a mulher diante dele aflita e desgrenhada. Os olhos de Clem\u00eancia eram doces, mas ele disse-lhe que os olhos doces tamb\u00e9m fazem mal. Ela arrojou-se-lhe aos p\u00e9s&#8230; Neste ponto a fisionomia de Jos\u00e9 Maria estava t\u00e3o transtornada que o padre, tamb\u00e9m de p\u00e9, come\u00e7ou a recuar, tr\u00eamulo e p\u00e1lido.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o, miser\u00e1vel! n\u00e3o! tu n\u00e3o me fugir\u00e1s!&#8221; bradava Jos\u00e9 Maria investindo para ele. Tinha os olhos esbugalhados, as t\u00eamporas latejantes; o padre ia recuando&#8230; recuando&#8230; Pela escada acima ouvia-se um rumor de espadas e de p\u00e9s.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de assis Monsenhor Caldas interrompeu a narra\u00e7\u00e3o do desconhecido: \u2014 D\u00e1 licen\u00e7a? \u00e9 s\u00f3 um instante. Levantou-se, foi ao interior da casa, chamou o preto velho que o servia, e disse-lhe em voz baixa: \u2014 Jo\u00e3o, vai ali \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de urbanos, fala da minha parte ao comandante, e pede-lhe que venha c\u00e1 com [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-113591","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>A Segunda Vida, Conto A Segunda Vida<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"A Segunda Vida, Conto, Machado de Assis, Obra Liter\u00e1ria, Literatura, A Segunda Vida\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, 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