{"id":113588,"date":"2017-03-14T18:15:44","date_gmt":"2017-03-14T20:15:44","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=113588"},"modified":"2017-03-14T18:15:44","modified_gmt":"2017-03-14T20:15:44","slug":"a-pianista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-pianista","title":{"rendered":"A Pianista"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Tinha vinte e dois anos e era professora de piano. Era alta, formosa, morena e modesta.<\/p>\n<p>Fascinava e impunha respeito; mas atrav\u00e9s do recato que ela sabia manter sem cair na afeta\u00e7\u00e3o rid\u00edcula de muitas mulheres, via-se que era uma alma ardente e apaixonada, capaz de atirar-se ao mar, como Safo ou de enterrar-se com o seu amante, como Cle\u00f3patra.<\/p>\n<p>Ensinava piano. Era esse o \u00fanico recurso que tinha para sustentar-se e a sua m\u00e3e, pobre velha a quem os anos e a fadiga de uma vida trabalhosa n\u00e3o permitiam j\u00e1 tomar parte nos labores de sua filha.<\/p>\n<p>Malvina (era o nome da pianista) era estimada onde quer que fosse exercer a sua profiss\u00e3o. A distin\u00e7\u00e3o de suas maneiras, a delicadeza de sua linguagem, a beleza rara e fascinante, e mais do que isso, a boa fama de mulher honesta acima de toda a insinua\u00e7\u00e3o, tinha-lhe granjeado a estima de todas as fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Era admitida nos saraus e jantares de fam\u00edlia, n\u00e3o s\u00f3 como pianista, mas ainda como conviva elegante e simp\u00e1tica, sendo que ela sabia pagar com a mais perfeita distin\u00e7\u00e3o as aten\u00e7\u00f5es de que era objeto.<\/p>\n<p>Nunca se lhe desmentira a estima que em todas as fam\u00edlias encontrava. Essa estima estendia-se at\u00e9 \u00e0 pobre Teresa, sua m\u00e3e, que participava igualmente dos convites que faziam a Malvina.<\/p>\n<p>O pai de Malvina morrera pobre, deixando \u00e0 fam\u00edlia a lembran\u00e7a honrosa de uma vida honrada. Era um pobre advogado sem carta, que, \u00e0 custa de longa pr\u00e1tica, conseguira poder exercer as fun\u00e7\u00f5es da advocacia com tanto sucesso como se houvera cursado os estudos acad\u00eamicos. O mealheiro do pobre homem foi sempre um tonel das Danaides, escoando-se por um lado o que entrava por outro, gra\u00e7as \u00e0s necessidades de honra que o mau destino lhe deparava. Quando pretendia come\u00e7ar a fazer pec\u00falio para garantir o futuro da vi\u00fava e da \u00f3rf\u00e3 que deixasse, deu a alma a Deus.<\/p>\n<p>Tinha, al\u00e9m de Malvina, um filho, principal causa dos danos pecuni\u00e1rios que sofreu; mas esse, mal faleceu o pai, abandonou a fam\u00edlia, e vivia, na \u00e9poca desta narrativa, uma vida de opr\u00f3brio.<\/p>\n<p>Era Malvina o \u00fanico amparo de sua velha m\u00e3e, a quem amava com um amor de adora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>* * * Ora, entre as fam\u00edlias onde Malvina exercia as suas fun\u00e7\u00f5es de pianista, contava-se, em 1850, a fam\u00edlia de Tib\u00e9rio Gon\u00e7alves Valen\u00e7a.<\/p>\n<p>Tenho necessidade de dizer em duas palavras quem era Tib\u00e9rio Gon\u00e7alves Valen\u00e7a para melhor compreens\u00e3o da minha narrativa.<\/p>\n<p>Tib\u00e9rio Gon\u00e7alves Valen\u00e7a nascera com o s\u00e9culo, isto \u00e9, contava na \u00e9poca em que se passam estes acontecimentos, cinq\u00fcenta anos, e na \u00e9poca em que a fam\u00edlia real portuguesa chegou ao Rio de Janeiro, oito anos.<\/p>\n<p>Era filho de Bas\u00edlio Gon\u00e7alves Valen\u00e7a, natural do interior da prov\u00edncia do Rio de Janeiro, homem de certa influ\u00eancia na capital, nos fins do \u00faltimo s\u00e9culo. Tinha exercido, a contento do governo, certos cargos administrativos, em virtude dos quais teve ocasi\u00e3o de praticar com alguns altos funcion\u00e1rios e adquirir por isso duas coisas: a simpatia dos referidos funcion\u00e1rios e uma decidida voca\u00e7\u00e3o para adorar tudo quanto respirava nobreza de duzentos anos para cima.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia real portuguesa chegou ao Rio de Janeiro em 1808. Nessa \u00e9poca Bas\u00edlio Valen\u00e7a estava retirado da vida p\u00fablica, em virtude de v\u00e1rias mol\u00e9stias graves, das quais, todavia, j\u00e1 se achava restabelecido naquela \u00e9poca. Tomou parte ativa na alegria geral e sincera com que o pr\u00edncipe regente foi recebido pela popula\u00e7\u00e3o da cidade, e por uma anomalia que muita gente n\u00e3o compreendeu, admirava menos o representante da real nobreza bragantina do que os diferentes figur\u00f5es que faziam parte da comitiva que acompanhava a monarquia portuguesa.<\/p>\n<p>Tinha queda especial para os estudos nobili\u00e1rios; dispunha de uma mem\u00f3ria prodigiosa e era capaz de repetir sem vacilar todos os graus de ascend\u00eancia fidalga deste ou daquele solar. Quando a ascend\u00eancia se perdia na noite dos tempos, Bas\u00edlio Valen\u00e7a parava a narra\u00e7\u00e3o e dizia com entusiasmo que dali s\u00f3 para onde Deus sabia.<\/p>\n<p>E este entusiasmo era t\u00e3o espont\u00e2neo, e esta admira\u00e7\u00e3o t\u00e3o sincera, que uma vez julgou dever romper as rela\u00e7\u00f5es de amizade com um compadre s\u00f3 porque este lhe objetou que muito longe que fosse certa fidalguia nunca podia ir al\u00e9m de Ad\u00e3o e Eva.<\/p>\n<p>Darei uma prova da admira\u00e7\u00e3o de Bas\u00edlio Valen\u00e7a pelas coisas fidalgas. Para alojar os nobres que acompanhavam o pr\u00edncipe regente foi preciso, por ordem do intendente de pol\u00edcia, que muitos moradores das boas casas as despejassem incontinente. Bas\u00edlio Valen\u00e7a nem esperou que esta ordem lhe fosse comunicada; mal soube das dilig\u00eancias policiais a que se procedia foi de moto pr\u00f3prio oferecer a sua casa, que era das melhores, e mudou-se para outra de muito menor valia e de mesquinho aspecto.<\/p>\n<p>E mais. Muitos dos fidalgos alojados violentamente tarde deixaram as casas. e tarde satisfizeram os alugu\u00e9is respectivos. Bas\u00edlio Valen\u00e7a n\u00e3o s\u00f3 imp\u00f4s a condi\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o se lhe devolveria a casa enquanto fosse necess\u00e1ria, sen\u00e3o que declarou peremptoriamente n\u00e3o aceitar do fidalgo alojado o m\u00ednimo real.<\/p>\n<p>Esta admira\u00e7\u00e3o que se traduziu por fatos era efetivamente sincera, e at\u00e9 morrer nunca Bas\u00edlio deixou de ser o que sempre foi.<\/p>\n<p>Tib\u00e9rio Valen\u00e7a foi educado nestas tradi\u00e7\u00f5es. O pai inspirou-lhe as mesmas id\u00e9ias e as mesmas simpatias. Com elas cresceu, crescendo-lhes entretanto outras id\u00e9ias que o andar do tempo lhe foi inspirando. Imaginou que a longa e tradicional afei\u00e7\u00e3o de sua fam\u00edlia pelas fam\u00edlias afidalgadas dava-lhe um direito de penetrar no c\u00edrculo fechado dos velhos bras\u00f5es, e nesse sentido tratou de educar os filhos e avisar o mundo.<\/p>\n<p>Tib\u00e9rio Valen\u00e7a n\u00e3o era l\u00f3gico neste procedimento. Se n\u00e3o queria admitir em sua fam\u00edlia um indiv\u00edduo que na sua opini\u00e3o estava abaixo dela, como pretendia entrar nas fam\u00edlias nobres de que ele se achava evidentemente muito mais baixo? Isto, que saltava aos olhos de qualquer, n\u00e3o era compreendido por Tib\u00e9rio Valen\u00e7a, a quem a vaidade de ver misturar o sangue vermelho das suas veias com o sangue azul das veias fidalgas era para ele o \u00fanico e exclusivo cuidado.<\/p>\n<p>Finalmente o tempo trouxe as necess\u00e1rias modifica\u00e7\u00f5es \u00e0s pretens\u00f5es nobili\u00e1rias de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a, e em 1850 j\u00e1 n\u00e3o exigia uma linha de av\u00f3s puros e incontest\u00e1veis, exigia simplesmente uma fortuna regular.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o me atrevo a dizer o que penso destas preocupa\u00e7\u00f5es de um homem que a natureza fizera pai. Indico-as simplesmente. E acrescento que Tib\u00e9rio Valen\u00e7a cuidava destes arranjos dos filhos como cuidava do arranjo de umas f\u00e1bricas que possu\u00eda. Eram para ele a mesma opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ora, apesar de toda a vigil\u00e2ncia, o filho de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a, Tom\u00e1s Valen\u00e7a, n\u00e3o comungou com as id\u00e9ias do pai, nem assinou os seus projetos secretos. Era mo\u00e7o, recebia a influ\u00eancia de outras id\u00e9ias e de outros tempos, e podia receb\u00ea-la em virtude da liberdade plena que gozava e da companhia que escolheu. Elisa Valen\u00e7a, sua irm\u00e3, n\u00e3o estava, talvez, no mesmo caso, e muitas vezes teve de comprimir os impulsos do cora\u00e7\u00e3o para n\u00e3o contrariar as id\u00e9ias acanhadas que Tib\u00e9rio Valen\u00e7a lhe introduzira na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas fossem ambos com as suas id\u00e9ias ou n\u00e3o fossem absolutamente, era o que Tib\u00e9rio Valen\u00e7a n\u00e3o cuidava de saber. Ele tinha a respeito da paternidade umas id\u00e9ias especiais; entendia que estava na sua m\u00e3o regular, n\u00e3o s\u00f3 o futuro, o que era justo, mas ainda o cora\u00e7\u00e3o dos seus filhos. Nisto enganava-se Tib\u00e9rio Valen\u00e7a.<\/p>\n<p>* * * Malvina ensinava piano a Elisa. Ali, como nas outras casas, era estimada e respeitada.<\/p>\n<p>Havia j\u00e1 tr\u00eas meses que contava a filha de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a entre as suas disc\u00edpulas e j\u00e1 a fam\u00edlia Valen\u00e7a prestava-lhe um culto de simpatia e afei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A afei\u00e7\u00e3o de Elisa por ela foi mesmo muito longe. A disc\u00edpula confiava \u00e0 professora os segredos mais \u00edntimos do seu cora\u00e7\u00e3o, e para isso era levada pela confian\u00e7a que lhe inspirava a mocidade e os modos s\u00e9rios de Malvina.<\/p>\n<p>Elisa n\u00e3o tinha m\u00e3e nem irm\u00e3s. A pianista era a \u00fanica pessoa do seu sexo com quem a mo\u00e7a tinha ocasi\u00e3o de conversar mais freq\u00fcentemente.<\/p>\n<p>Assistia \u00e0s li\u00e7\u00f5es de piano o filho de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a. Da conversa ao namoro, do namoro ao amor decidido n\u00e3o mediou muito tempo. Um dia Tom\u00e1s levantou-se da cama com a convic\u00e7\u00e3o de que amava Malvina. A beleza, a castidade da mo\u00e7a obravam este milagre.<\/p>\n<p>Malvina, que at\u00e9 ent\u00e3o se conservara isenta de paix\u00f5es, n\u00e3o p\u00f4de resistir a esta. Amou perdidamente o rapaz.<\/p>\n<p>Elisa entrava no amor de ambos como confidente. Estimava o irm\u00e3o, estimava a professora, e esta estima dupla fez esquecer-lhe por algum tempo os preconceitos inspirados por seu pai.<\/p>\n<p>Mas o amor tem o grande inconveniente de n\u00e3o guardar a discri\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para que os estranhos n\u00e3o percebam. Quando dois olhares andam a falar entre si todo o mundo fica aniquilado para os olhos que os desferem; parece-lhes que t\u00eam o direito e a necessidade de viverem de si e por si.<\/p>\n<p>Ora, um dia em que Tib\u00e9rio Valen\u00e7a voltou mais cedo, e a pianista demorou a li\u00e7\u00e3o at\u00e9 mais tarde, foi obrigado o sisudo pai a assistir aos progressos de sua filha. Tentado pelo que ouviu Elisa tocar, exigiu mais, e mais, e mais, at\u00e9 que veio not\u00edcia de que o jantar estava na mesa. Tib\u00e9rio Valen\u00e7a convidou a mo\u00e7a a jantar, e esta aceitou.<\/p>\n<p>Foi para o fim do jantar que Tib\u00e9rio Valen\u00e7a descobriu os olhares menos indiferentes que se trocavam entre Malvina e Tom\u00e1s.<\/p>\n<p>Apanhando um olhar por acaso n\u00e3o deixou de prestar aten\u00e7\u00e3o mais s\u00e9ria aos outros, e com tanta infelicidade para os dois namorados, que desde ent\u00e3o n\u00e3o perdeu um s\u00f3.<\/p>\n<p>Quando se levantou da mesa era outro homem, ou antes era o mesmo homem, o verdadeiro Tib\u00e9rio, um Tib\u00e9rio indignado e j\u00e1 desonrado s\u00f3 com os preliminares de um amor que existia.<\/p>\n<p>Despediu a mo\u00e7a com alguma incivilidade, e retirando-se para o seu quarto, mandou chamar Tom\u00e1s. Este acudiu pressuroso ao chamado do pai, sem cuidar, nem por sombras, do que se ia tratar.<\/p>\n<p>\u2014 Sente-se, disse Tib\u00e9rio Valen\u00e7a.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s sentou-se.<\/p>\n<p>\u2014 Possuo uma fortuna redonda que pretendo deixar aos meus dois filhos, se eles forem dignos de mim e da minha fortuna. Tenho um nome que, se se n\u00e3o recomenda por uma linha ininterrompida de av\u00f3s preclaros, todavia pertence a um homem que mereceu a confian\u00e7a do rei dos tempos coloniais e foi tratado sempre com distin\u00e7\u00e3o pelos fidalgos do seu tempo. Tudo isto imp\u00f5e aos meus filhos uma discri\u00e7\u00e3o e um respeito de si mesmo, \u00fanica t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o da honra e da fortuna. Creio que me expliquei e me compreendeu.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s estava aturdido. As palavras do pai eram grego para ele. Olhou fixamente para Tib\u00e9rio Valen\u00e7a, e quando este com um gesto de patr\u00edcio romano mandou-o embora, Tom\u00e1s deixou escapar estas palavras em tom humilde e suplicante: \u2014 Explique-se, meu pai; n\u00e3o o compreendo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o compreende? \u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>Os olhos de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a faiscavam. Parecia-lhe que tinha falado claro, n\u00e3o querendo sobretudo falar mais claro, e Tom\u00e1s, sem procurar a oportunidade daquelas observa\u00e7\u00f5es, perguntava-lhe o sentido das suas palavras, no tom da mais sincera surpresa.<\/p>\n<p>Era preciso dar a Tom\u00e1s a explica\u00e7\u00e3o pedida.<\/p>\n<p>Tib\u00e9rio Valen\u00e7a continuou \u2014 As explica\u00e7\u00f5es que lhe tenho a dar s\u00e3o mui resumidas. Quem lhe deu o direito de me andar namorando a filha de um r\u00e1bula? \u2014 N\u00e3o compreendo ainda, disse Tom\u00e1s.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o compreende? \u2014 Quem \u00e9 a filha do r\u00e1bula? \u2014 \u00c9 essa pianista, cuja mod\u00e9stia todos s\u00e3o un\u00e2nimes em celebrar, mas que eu descubro agora ser apenas uma rede que ela arma para apanhar um casamento rico.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s compreendeu enfim de que se tratava. Tudo estava descoberto. N\u00e3o compreendeu nem como nem desde quando, mas compreendeu que o seu amor, t\u00e3o cuidadosamente velado, j\u00e1 n\u00e3o era segredo.<\/p>\n<p>Todavia, ao lado da surpresa que lhe causaram as palavras do pai, sentiu um desgosto pela insinua\u00e7\u00e3o brutal de que vinha acompanhada a explica\u00e7\u00e3o: e, sem responder nada, levantou-se, curvou a cabe\u00e7a e encaminhou-se para a porta.<\/p>\n<p>Tib\u00e9rio Valen\u00e7a f\u00ea-lo parar dizendo: \u2014 Ent\u00e3o que \u00e9 isso? \u2014 Meu pai&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Retirava-se sem mais nem menos? Que me diz em resposta \u00e0s minhas observa\u00e7\u00f5es? Veja l\u00e1. Ou a pianista sem a fortuna, ou a fortuna sem a pianista: \u00e9 escolher. Eu n\u00e3o ajuntei dinheiro nem o criei com tanto trabalho para realizar os projetos atrevidos de uma mulher de pouco mais ou menos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Meu pai, se o que me retivesse na casa paterna fosse simplesmente a fortuna, minha escolha estava feita: o amor de uma mulher honesta bastava-me para amparar minha vida: eu saberei trabalhar por ela. Mas eu sei que acompanhando essa mo\u00e7a perco a afei\u00e7\u00e3o de meu pai, e prefiro perder a mulher a perder o pai: fico.<\/p>\n<p>Esta resposta de Tom\u00e1s desconcertou Tib\u00e9rio Valen\u00e7a. O pobre homem passou a m\u00e3o pela cabe\u00e7a, fechou os olhos, franziu a testa, e depois de dois minutos, disse, levantandose: \u2014 Pois sim, de um ou de outro modo, estimo que fique. Poupo-lhe um arrependimento.<\/p>\n<p>E fez um gesto a Tom\u00e1s para que sa\u00edsse. Tom\u00e1s saiu, de cabe\u00e7a baixa, e dirigiu-se para o seu quarto, onde ficou encerrado at\u00e9 o dia seguinte.<\/p>\n<p>* * * No dia seguinte, na ocasi\u00e3o em que Malvina ia sair para dar as suas li\u00e7\u00f5es, recebeu um bilhete de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a. O pai de Tom\u00e1s dava o ensino de Elisa por acabado e mandava-lhe o saldo de contas.<\/p>\n<p>Malvina n\u00e3o compreendeu esta despedida t\u00e3o positiva e t\u00e3o humilhante. A que podia atribu\u00ed-la? Em v\u00e3o indagou se a mem\u00f3ria lhe apresentava um fato que pudesse justificar ou explicar o bilhete, e n\u00e3o achou.<\/p>\n<p>Resolveu ir \u00e0 casa de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a e ouvir da pr\u00f3pria boca dele as causas que faziam dispensar t\u00e3o bruscamente as suas li\u00e7\u00f5es \u00e0 menina Elisa.<\/p>\n<p>Tib\u00e9rio Valen\u00e7a n\u00e3o estava em casa. Estava s\u00f3 Elisa. Tom\u00e1s estava, mas encerrara-se no quarto, de onde s\u00f3 sa\u00edra \u00e0 hora do almo\u00e7o por inst\u00e2ncias do pai.<\/p>\n<p>Elisa recebeu a pianista com certa frieza que bem se via ser estudada. O cora\u00e7\u00e3o pedialhe outra coisa.<\/p>\n<p>\u00c0 primeira reclama\u00e7\u00e3o de Malvina acerca do estranho bilhete que recebera, Elisa respondeu que n\u00e3o sabia. Mas t\u00e3o mal fingiu a ignor\u00e2ncia, t\u00e3o dif\u00edcil e doloroso lhe foi a resposta, que Malvina, compreendendo que alguma coisa havia no fundo com que n\u00e3o queria contrari\u00e1-la, pediu positivamente a Elisa que o dissesse, prometendo nada referir.<\/p>\n<p>Elisa disse \u00e0 pianista que o amor de Tom\u00e1s por ela estava descoberto, e que o pai levava a mal esse amor, tendo lan\u00e7ado m\u00e3o do meio da despedida para afast\u00e1-la da casa e da conviv\u00eancia de Tom\u00e1s.<\/p>\n<p>Malvina, que amava sincera e apaixonadamente o irm\u00e3o de Elisa, chorou ao ouvir esta not\u00edcia.<\/p>\n<p>Mas as l\u00e1grimas que faziam? O ato estava consumado; a despedida estava feita; s\u00f3 havia uma coisa a fazer: sair e n\u00e3o p\u00f4r mais os p\u00e9s na casa de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a.<\/p>\n<p>Foi o que Malvina resolveu fazer.<\/p>\n<p>Levantou-se e despediu-se de Elisa.<\/p>\n<p>Esta, que, apesar de tudo, tinha um fundo de afei\u00e7\u00e3o pela pianista, perguntou-lhe se n\u00e3o ficava mal com ela.<\/p>\n<p>\u2014 Mal por qu\u00ea? perguntou a pianista. N\u00e3o, n\u00e3o fico.<\/p>\n<p>E saiu enxugando as l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>* * * Estava desfeita a situa\u00e7\u00e3o que podia continuar a avassalar o cora\u00e7\u00e3o de Tom\u00e1s. O pai n\u00e3o parou, e procedeu, no ponto de vista em que se colocava, com uma l\u00f3gica cruel.<\/p>\n<p>Tratou primeiramente de afastar o filho da corte por alguns meses, de maneira que a a\u00e7\u00e3o do tempo pudesse apagar no cora\u00e7\u00e3o e na mem\u00f3ria do rapaz o amor e a imagem de Malvina.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 isto, dizia consigo Tib\u00e9rio Valen\u00e7a, n\u00e3o h\u00e1 outro meio. Longe esquece-lhe tudo. A tal pianista n\u00e3o \u00e9 l\u00e1 essas belezas que impressionem muito.<\/p>\n<p>O narrador protesta contra esta \u00faltima reflex\u00e3o de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a, que, de certo, na idade que contava, j\u00e1 se esquecera dos predicados da beleza e dos milagres da simpatia que fazem amar \u00e0s feias. E at\u00e9 quando as feias se fazem amar, \u00e9 sempre doida e perdidamente, diz La Bruy\u00e8re, porque foi de certo por filtros poderosos e v\u00ednculos desconhecidos que elas souberam atrair e prender.<\/p>\n<p>Tib\u00e9rio Valen\u00e7a n\u00e3o admitia a hip\u00f3tese de amar a uma feia, nem de amar muito tempo uma bonita. Era desta nega\u00e7\u00e3o que ele partia, como homem sensual e positivo que era.<\/p>\n<p>Resolveu, portanto, mandar o filho para fora, e comunicou-lhe o projeto oito dias depois das cenas que acima narrei.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s recebeu a not\u00edcia com aparente indiferen\u00e7a. O pai ia armado de obje\u00e7\u00f5es para responder \u00e0s que lhe dispensasse o rapaz, e ficou muito admirado quando este curvou-se submisso \u00e0 ordem de partir.<\/p>\n<p>Entretanto aproveitou a ocasi\u00e3o para usar de alguma cordura e generosidade.<\/p>\n<p>\u2014 Fazes gosto em ir? perguntou-lhe.<\/p>\n<p>\u2014 Fa\u00e7o, meu pai, foi a resposta de Tom\u00e1s.<\/p>\n<p>Era \u00e0 Bahia que devia ir o filho de Tib\u00e9rio.<\/p>\n<p>Desde o dia desta confer\u00eancia Tom\u00e1s mostrou-se mais e mais triste, sem todavia manifestar a ningu\u00e9m com que sentimento recebera a not\u00edcia de deixar o Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s e Malvina s\u00f3 se tinham encontrado duas vezes depois do dia em que esta foi despedida da casa de Tib\u00e9rio. A primeira foi \u00e0 porta da casa dela. Tom\u00e1s passava na ocasi\u00e3o em que Malvina ia entrar. Falaram-se. N\u00e3o era preciso nenhum deles perguntar se sentiam saudades com a aus\u00eancia e a separa\u00e7\u00e3o. O ar de ambos dizia tudo. Tom\u00e1s, \u00e0s interroga\u00e7\u00f5es de Malvina, disse que passava ali sempre, e sempre via as janelas fechadas. Cuidou um dia que ela estivesse doente.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o estive doente: \u00e9 preciso que nos esque\u00e7amos um do outro. Se eu n\u00e3o puder, seja&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu? interrompeu Tom\u00e1s.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 preciso, respondeu a pianista suspirando.<\/p>\n<p>\u2014 Nunca, disse Tom\u00e1s.<\/p>\n<p>A segunda vez que se viram foi em casa de um amigo cuja irm\u00e3 recebia li\u00e7\u00f5es de Malvina. Estava l\u00e1 o mo\u00e7o na ocasi\u00e3o em que a pianista entrou. Malvina pretextou doen\u00e7a, e disse que s\u00f3 para n\u00e3o ser esperada em v\u00e3o tinha ido l\u00e1. Depois do que, retirouse.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s resolveu ir despedir-se de Malvina. Seus esfor\u00e7os, por\u00e9m, foram in\u00fateis. Em casa sempre lhe diziam que ela tinha sa\u00eddo, e as janelas constantemente fechadas pareciam as portas do t\u00famulo do amor dos dois.<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera de partir Tom\u00e1s convenceu-se de que era imposs\u00edvel despedir-se da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Desistiu de procur\u00e1-la e resolveu-se, com m\u00e1goa, a sair do Rio de Janeiro sem dar-lhe o adeus de despedida.<\/p>\n<p>\u2014 Nobre mo\u00e7a! dizia ele consigo; n\u00e3o quer que do nosso encontro resulte atear-se o amor que me prende a ela.<\/p>\n<p>Enfim Tom\u00e1s partiu.<\/p>\n<p>Tib\u00e9rio deu-lhe todas as cartas e ordens necess\u00e1rias para que nada lhe faltasse na Bahia, e soltou do peito um suspiro de consola\u00e7\u00e3o quando o filho saiu \u00e0 barra.<\/p>\n<p>* * * Malvina soube da partida de Tom\u00e1s logo no dia seguinte. Chorou amargamente. Por que sairia? Ela acreditou que dois motivos seriam: ou resolu\u00e7\u00e3o corajosa para esquecer um amor que lhe trouxera o desgosto do pai; ou uma intima\u00e7\u00e3o cruel do pai. De um ou outro modo Malvina, estimava esta separa\u00e7\u00e3o. Se ela n\u00e3o esquecia o rapaz, tinha esperan\u00e7as de que o rapaz a esquecesse, e ent\u00e3o n\u00e3o sofria com esse amor que s\u00f3 podia trazer desgra\u00e7as ao filho de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a.<\/p>\n<p>Este nobre pensamento denota claramente o car\u00e1ter elevado e desinteressado e o amor profundo e corajoso da pianista. Tanto bastava para que ela merecesse casar com o rapaz.<\/p>\n<p>Quanto a Tom\u00e1s, partiu com o cora\u00e7\u00e3o apertado e o \u00e2nimo abatido. \u00c0 \u00faltima hora foi que ele sentiu quanto amava a mo\u00e7a e como nesta separa\u00e7\u00e3o lhe sangrava o cora\u00e7\u00e3o. Mas devia partir. Afogou a dor em l\u00e1grimas e partiu.<\/p>\n<p>* * * Correram dois meses.<\/p>\n<p>Durante os primeiros dias de sua resid\u00eancia na Bahia, Tom\u00e1s sentiu as grandes saudades do grande amor que nutria por Malvina. Fez-se-lhe em torno maior solid\u00e3o ainda que a que j\u00e1 tinha. Parecia-lhe que ia morrer naquele desterro, sem a luz e o calor que lhe dava vida. Estando, por assim dizer, a dois passos do Rio de Janeiro, afigurava-se-lhe achar-se no cabo do mundo, longe, eternamente longe, infinitamente longe de Malvina.<\/p>\n<p>O correspondente de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a, previamente informado por este, procurou todos os meios de distrair o esp\u00edrito de Tom\u00e1s. Tudo foi em v\u00e3o. Tom\u00e1s olhava para tudo com indiferen\u00e7a, isto mesmo quando lhe era dado olhar, porque quase sempre passava os dias encerrado em casa, recusando toda a esp\u00e9cie de distra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta m\u00e1goa t\u00e3o profunda tinha eco em Malvina. A pianista sentia do mesmo modo a aus\u00eancia de Tom\u00e1s; n\u00e3o \u00e9 que tivesse ocasi\u00e3o ou procurasse v\u00ea-lo, na \u00e9poca em que se achava na corte, mas \u00e9 que, separados pelo mar, parecia que estavam separados pela morte, e que nunca mais tinham de ver-se.<\/p>\n<p>Ora, Malvina desejava ver Tom\u00e1s amando outra, estimado pelo pai, mas queria v\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Este amor de Malvina, que se apascentava com a felicidade da outra, e s\u00f3 com a vista do objeto amado, este amor n\u00e3o diminuiu, cresceu na aus\u00eancia, e cresceu muito. A mo\u00e7a nem j\u00e1 podia conter as suas l\u00e1grimas; vertia-as insensivelmente todos os dias.<\/p>\n<p>* * * Um dia Tom\u00e1s recebeu uma carta de seu pai participando-lhe que Elisa se ia casar com um jovem deputado. Tib\u00e9rio Valen\u00e7a fazia do futuro genro a pintura mais lisonjeira. Era a todos os respeitos um homem distinto e digno da estima de Elisa.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s aproveitou a ocasi\u00e3o, e na resposta que deu a essa carta apresentou a Tib\u00e9rio Valen\u00e7a a id\u00e9ia de faz\u00ea-lo voltar para assistir ao casamento de sua irm\u00e3. E procurou lembrar isto no tom mais indiferente e frio deste mundo.<\/p>\n<p>Tib\u00e9rio Valen\u00e7a quis responder positivamente que n\u00e3o; mas, for\u00e7ado a dar minuciosamente as raz\u00f5es da negativa, e n\u00e3o querendo tocar no assunto, tomou a resolu\u00e7\u00e3o de n\u00e3o responder sen\u00e3o depois de conclu\u00eddo o casamento, a fim de lhe tirar o pretexto de novo pedido da mesma natureza.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s estranhou o sil\u00eancio do pai. N\u00e3o escreveu outra carta pela raz\u00e3o de que a insist\u00eancia f\u00e1-lo-ia desconfiar. Demais, o sil\u00eancio de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a, que ao princ\u00edpio lhe pareceu estranho, tinha uma explica\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria e natural. Essa explica\u00e7\u00e3o foi a verdadeira causa do sil\u00eancio. Tom\u00e1s compreendeu e calou-se.<\/p>\n<p>Mas, passados os dois meses, nas v\u00e9speras do casamento de Elisa, apareceu Tom\u00e1s no Rio de Janeiro. Sa\u00edra da Bahia inopinadamente, sem que o correspondente de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a pudesse obstar.<\/p>\n<p>Chegando ao Rio de Janeiro foi o seu primeiro cuidado ir \u00e0 casa de Malvina.<\/p>\n<p>Naturalmente n\u00e3o lhe podiam negar a entrada, visto n\u00e3o haver ordem neste sentido por saber-se que ele estava na Bahia.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s, que dificilmente se pudera conter nas saudades que sentiu por Malvina, chegara ao estado de lhe ser imposs\u00edvel continuar ausente. Procurou iludir a vigil\u00e2ncia do correspondente de seu pai, e na primeira ocasi\u00e3o p\u00f4s em execu\u00e7\u00e3o o projeto concebido.<\/p>\n<p>Durante a viagem, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que se aproximava do porto desejado, expandia-se o cora\u00e7\u00e3o do rapaz e nasciam-lhe \u00e2nsias cada vez maiores de p\u00f4r o p\u00e9 em terra.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 disse, a primeira casa a que Tom\u00e1s se dirigiu foi a de Malvina. O f\u00e2mulo disse que esta se achava em casa, e Tom\u00e1s entrou. Quando a pianista soube que Tom\u00e1s estava na sala soltou um grito de alegria, manifesta\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea do cora\u00e7\u00e3o, e correu ao encontro dele.<\/p>\n<p>O encontro foi como devia ser o de dois cora\u00e7\u00f5es que se amam e que tornam a ver-se depois de longa aus\u00eancia. Pouco disseram, na santa efus\u00e3o das almas, que falavam em sil\u00eancio e se comunicavam por esses meios simp\u00e1ticos e secretos do amor.<\/p>\n<p>Depois, vieram as indaga\u00e7\u00f5es sobre as saudades de cada um. Era aquela a primeira vez que tinham ocasi\u00e3o de dizerem francamente o que sentiam um pelo outro.<\/p>\n<p>A pergunta natural de Malvina foi esta: \u2014 Abrandou-se a crueldade de seu pai? \u2014 N\u00e3o, respondeu Tom\u00e1s.<\/p>\n<p>\u2014 Como, n\u00e3o? \u2014 N\u00e3o. Vim sem ele saber.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! \u2014 N\u00e3o podia mais estar naquele desterro. Era necessidade para o cora\u00e7\u00e3o e para a vida&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Oh! fez mal&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Fiz o que devia.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, seu pai&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Meu pai ralhar\u00e1 comigo; mas paci\u00eancia; acho-me disposto a afrontar tudo. Depois de consumado o fato, meu pai \u00e9 sempre pai, e nos perdoar\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Oh! nunca! \u2014 Como, nunca? Recusa ser minha mulher? \u2014 Essa seria a minha felicidade; mas quisera s\u00ea-lo com honra.<\/p>\n<p>&#8211; Que mais honra? \u2014 Um casamento clandestino n\u00e3o nos ficaria bem. Se ambos f\u00f4ssemos pobres ou ricos, sim; mas a desigualdade das nossas fortunas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Oh! n\u00e3o fa\u00e7as essa considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 essencial.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o digas isso&#8230; H\u00e1 de ser minha mulher ante Deus e ante os homens. Que valem as fortunas neste caso? Uma coisa nos iguala: \u00e9 a nobreza moral, \u00e9 o amor que nos liga. N\u00e3o entremos nessas miser\u00e1veis considera\u00e7\u00f5es do c\u00e1lculo e do ego\u00edsmo. Sim? \u2014 Isto \u00e9 o fogo da paix\u00e3o&#8230; Dir\u00e1s sempre o mesmo? \u2014 Oh! sempre! Tom\u00e1s ajoelhou aos p\u00e9s de Malvina. Tomou-lhe as m\u00e3os entre as dele e beijou-as com beijos de ternura&#8230;<\/p>\n<p>Teresa entrou na sala, justamente na ocasi\u00e3o em que Tom\u00e1s se levantava. Uns minutos antes que fosse encontraria aquele quadro de amor.<\/p>\n<p>Malvina apresentou Tom\u00e1s a sua m\u00e3e. Parece que Teresa j\u00e1 alguma coisa sabia dos amores da filha. Na conversa com Tom\u00e1s deixou escapar palavras equ\u00edvocas que deram lugar a que o filho de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a expusesse \u00e0 velha os seus projetos e os seus amores.<\/p>\n<p>As obje\u00e7\u00f5es da velha foram id\u00eanticas \u00e0s da filha. Tamb\u00e9m ela via na situa\u00e7\u00e3o esquerda do rapaz em rela\u00e7\u00e3o ao pai uma raz\u00e3o de impossibilidade para o casamento.<\/p>\n<p>Desta primeira entrevista saiu Tom\u00e1s, alegre por ver Malvina, triste pela singular oposi\u00e7\u00e3o de Malvina e de Teresa.<\/p>\n<p>* * * Em casa de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a faziam-se preparativos para o casamento de Elisa.<\/p>\n<p>O noivo era um jovem deputado de prov\u00edncia, se do Norte ou do Sul, n\u00e3o sei, mas deputado cujo talento supria os anos de pr\u00e1tica, e que come\u00e7ava a influir na situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Acrescia que era dono de uma boa fortuna pela recente morte do pai.<\/p>\n<p>Tais considera\u00e7\u00f5es decidiram Tib\u00e9rio Valen\u00e7a. Ter por genro um homem abastado, gozando de uma certa posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, talvez ministro dentro de pouco tempo, era um partido de grande valor. Neste ponto a alegria de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a era leg\u00edtima. E como os noivos se amavam deveras, condi\u00e7\u00e3o que Tib\u00e9rio Valen\u00e7a dispensaria se necess\u00e1rio fosse, esta uni\u00e3o tornou-se aos olhos de todos uma uni\u00e3o natural e prop\u00edcia.<\/p>\n<p>A alegria de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a n\u00e3o podia ser maior. Tudo lhe corria \u00e0s mil maravilhas.<\/p>\n<p>Casava a filha ao sabor dos seus desejos, e tinha longe o filho desnaturado, que talvez aquela hora j\u00e1 come\u00e7asse a arrepender-se das veleidades amorosas que tivera.<\/p>\n<p>Preparava-se enxoval, faziam-se convites, compravam-se mil coisas necess\u00e1rias \u00e0 casa do pai e \u00e0 da filha, e tudo esperava ansioso o dia aprazado para o casamento de Elisa.<\/p>\n<p>Ora, no meio dessa satisfa\u00e7\u00e3o plena e geral, caiu subitamente como um raio o filho desterrado, conviva que se n\u00e3o contara para a festa.<\/p>\n<p>A alegria de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a ficou assim um tanto aguada. Apesar de tudo n\u00e3o quis romper absolutamente com o filho, e, sinceramente ou n\u00e3o, o primeiro que falou a Tom\u00e1s n\u00e3o foi o algoz, foi o pai.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s disse que viera para assistir ao casamento da irm\u00e3 e conhecer o cunhado.<\/p>\n<p>Apesar desta declara\u00e7\u00e3o Tib\u00e9rio Valen\u00e7a determinou sondar o esp\u00edrito do filho no cap\u00edtulo dos amores. Guardou-se para o dia seguinte.<\/p>\n<p>E no dia seguinte, logo depois do almo\u00e7o, Tib\u00e9rio Valen\u00e7a deu familiarmente o bra\u00e7o ao filho e levou-o para uma sala retirada. A\u00ed, depois de faz\u00ea-lo sentar, perguntou-lhe se o casamento, se outro motivo o trouxera t\u00e3o inopinadamente ao Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s hesitou.<\/p>\n<p>\u2014 Fala, disse o pai, fala com franqueza.<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem, vim por dois motivos: pelo casamento e por outro&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O outro \u00e9 o mesmo? \u2014 Quer franqueza, meu pai? \u2014 Exijo.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 bem. Lavo as m\u00e3os. Casa-te, consinto; mas nada mais ter\u00e1s de mim. Nada, ouviste? E dizendo isto Tib\u00e9rio Valen\u00e7a saiu.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s ficou pensativo.<\/p>\n<p>Era um consentimento aquilo. Mas de que natureza? Tib\u00e9rio Valen\u00e7a dizia que, em se casando, o filho n\u00e3o esperasse nada do pai. Que n\u00e3o esperasse os bens da fortuna, pouco ou nada era para Tom\u00e1s. Mas aquele nada estendia-se a tudo, talvez \u00e0 prote\u00e7\u00e3o paterna, talvez ao amor paterno. Esta considera\u00e7\u00e3o de que perderia a afei\u00e7\u00e3o do pai calava muito no esp\u00edrito do filho.<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a nunca abandonou os homens. Tom\u00e1s concebeu a esperan\u00e7a de convencer o pai com o andar dos tempos.<\/p>\n<p>Entretanto, passaram-se os dias e concluiu-se o casamento da filha de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a.<\/p>\n<p>No dia do casamento, como nos outros, Tib\u00e9rio Valen\u00e7a tratou o filho com uma sequid\u00e3o nada paternal. Tom\u00e1s sentia-se por isso, mas a vista de Malvina, a cuja casa ia regularmente tr\u00eas vezes por semana, dissipava as afli\u00e7\u00f5es para dar-lhe novas esperan\u00e7as, e novos desejos de completar a ventura que procurava.<\/p>\n<p>O casamento de Elisa coincidiu com a retirada do deputado para a prov\u00edncia natal. A mulher acompanhou o marido, e, a inst\u00e2ncias do pai, ficou convencionado que no ano seguinte viriam estabelecer-se definitivamente no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>O tratamento de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a Tom\u00e1s continuou a ser o mesmo: frio e reservado. Em v\u00e3o procurava o mo\u00e7o um ensejo para tocar de frente a quest\u00e3o e trazer o pai a sentimentos mais compassivos; o pai esquivava-se sempre.<\/p>\n<p>Mas se era assim por um lado, por outro os desejos leg\u00edtimos do amor de Tom\u00e1s por Malvina cresciam mais e mais, dia por dia. A luta que se dava no cora\u00e7\u00e3o de Tom\u00e1s, entre o amor de Malvina e o respeito aos desejos de seu pai, foi fraqueando, cabendo o triunfo ao amor. Os esfor\u00e7os do mo\u00e7o eram in\u00fateis, e finalmente um dia chegou em que foi-lhe necess\u00e1rio decidir entre as determina\u00e7\u00f5es do pai e o amor pela pianista.<\/p>\n<p>E a pianista? Essa era mulher e amava perdidamente o filho de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a. Tamb\u00e9m uma luta interna se dava no esp\u00edrito dela, mas \u00e0 for\u00e7a do amor que alimentava ligavam-se as inst\u00e2ncias continuadas de Tom\u00e1s. Este objetava-lhe que, uma vez casados, a clem\u00eancia do pai reapareceria, e tudo se terminaria em bem. Tal estado de coisas prolongou-se at\u00e9 um dia em que n\u00e3o foi mais poss\u00edvel a ambos recuar. Sentiram que a exist\u00eancia dependia do casamento.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s encarregou-se de falar a Tib\u00e9rio. Era o ultimatum.<\/p>\n<p>Uma noite em que Tib\u00e9rio Valen\u00e7a pareceu mais alegre que de ordin\u00e1rio, Tom\u00e1s deu um passo afoitamente para a quest\u00e3o, dizendo-lhe que, depois de v\u00e3os esfor\u00e7os, reconhecera que a paz da sua exist\u00eancia dependia do casamento com Malvina.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o casas-te? perguntou Tib\u00e9rio Valen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Venho pedir-lhe&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 disse o que devias esperar de mim se desses semelhante passo. N\u00e3o passar\u00e1s por ignorante. Casa-te; mas quando te arrependeres ou a necessidade te bater \u00e0 porta, escusas de voltar o rosto para teu pai. Sup\u00f5e que ele est\u00e1 pobre e nada te pode dar.<\/p>\n<p>Esta resposta de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a agradou em parte a Tom\u00e1s. N\u00e3o entrava nas palavras do pai a considera\u00e7\u00e3o do afeto que lhe negaria, mas o aux\u00edlio que lhe n\u00e3o havia de prestar em caso de necessidade. Ora, este auxilio era o que Tom\u00e1s dispensava, uma vez que se pudesse unir a Malvina. Contava com algum dinheiro que possu\u00eda e tinha esperan\u00e7as de arranjar dentro de pouco tempo um emprego p\u00fablico.<\/p>\n<p>N\u00e3o deu outra resposta a Tib\u00e9rio Valen\u00e7a sen\u00e3o a de que estava determinado a realizar o casamento.<\/p>\n<p>Diga-se em honra de Tom\u00e1s, n\u00e3o foi sem algum remorso que ele tomou uma determina\u00e7\u00e3o que parecia contrariar os desejos e os sentimentos do pai. \u00c9 certo que a linguagem deste exclu\u00eda toda a considera\u00e7\u00e3o de ordem moral para valer-se de uns preconceitos miser\u00e1veis, mas ao filho n\u00e3o competia, de certo, apreci\u00e1-los e julg\u00e1-los.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s hesitou mesmo depois da entrevista com Tib\u00e9rio Valen\u00e7a, mas a presen\u00e7a de Malvina, a cuja casa foi logo, dissipou todos os receios e p\u00f4s termo a todas as hesita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O casamento efetuou-se pouco tempo depois, sem comparecimento do pai, nem de parente algum de Tom\u00e1s.<\/p>\n<p>* * * O fim do ano de 1850 n\u00e3o trouxe incidente algum \u00e0 situa\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia Valen\u00e7a.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s e Malvina viviam no gozo da mais deliciosa felicidade. Unidos depois de tanto trope\u00e7o e hesita\u00e7\u00e3o, entraram na est\u00e2ncia da bem-aventuran\u00e7a conjugal coroados de mirto e de rosas. Eram mo\u00e7os e ardentes; amavam-se no mesmo grau; tinham chorado saudades e aus\u00eancias. Que melhores condi\u00e7\u00f5es para que aquelas duas almas, no momento do cons\u00f3rcio legal, achassem uma ternura elevada e celeste, e se confundissem no \u00f3sculo santo do casamento? Todas as luas-de-mel se parecem. A diferen\u00e7a est\u00e1 na dura\u00e7\u00e3o. Dizem que a lua-de-mel n\u00e3o pode ser perp\u00e9tua, e para desmentir este ponto n\u00e3o tenho o direito da experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Todavia, creio que a asser\u00e7\u00e3o \u00e9 arriscada demais. Que a intensidade do amor do primeiro tempo diminua com a a\u00e7\u00e3o do mesmo tempo, isso creio: \u00e9 da pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Mas essa diminui\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 de certo tamanha como se afigura a muitos, se o amor subsiste \u00e0 lua-de-mel, menos intenso \u00e9 verdade, mas ainda bastante claro para dar luz ao lar dom\u00e9stico.<\/p>\n<p>A lua-de-mel de Tom\u00e1s e Malvina tinha certo car\u00e1ter de perpetuidade.<\/p>\n<p>* * * No princ\u00edpio do ano de 1851 adoeceu Tib\u00e9rio Valen\u00e7a.<\/p>\n<p>Foi ao princ\u00edpio mol\u00e9stia passageira, em apar\u00eancia ao menos; mas surgiram complica\u00e7\u00f5es novas, e ao cabo de quinze dias declarou-se Tib\u00e9rio Valen\u00e7a gravemente enfermo.<\/p>\n<p>Um excelente m\u00e9dico, que era de muito tempo o m\u00e9dico da casa, come\u00e7ou a trat\u00e1-lo no meio dos maiores cuidados. N\u00e3o hesitou, no fim de alguns dias, em declarar que nutria receios pela vida do doente.<\/p>\n<p>Apenas soube da mol\u00e9stia do pai, Tom\u00e1s foi visit\u00e1-lo. Era a terceira vez, depois do casamento. Nas duas primeiras Tib\u00e9rio Valen\u00e7a tratou-o com tal frieza e reserva que Tom\u00e1s julgou dever deixar que o tempo, rem\u00e9dio a tudo, modificasse um tanto os sentimentos do pai.<\/p>\n<p>Mas agora o caso era diferente. Tratava-se de uma mol\u00e9stia grave e do perigo de vida de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a. Tudo desaparecera diante deste dever.<\/p>\n<p>Quando Tib\u00e9rio Valen\u00e7a viu Tom\u00e1s ao p\u00e9 do leito de dor em que jazia manifestou certa express\u00e3o que era sinceramente de pai. Tom\u00e1s chegou-se a ele e beijou-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p>Tib\u00e9rio mostrou-se satisfeito com esta visita do filho.<\/p>\n<p>Os dias correram e a mol\u00e9stia de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a, em vez de diminuir, lavrava e come\u00e7ava a destruir-lhe a vida. Houve consultas de facultativos. Tom\u00e1s indagou deles sobre o estado real de seu pai, e a resposta que teve foi que se n\u00e3o era desesperado, era ao menos grav\u00edssimo.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s p\u00f4s em atividade tudo quanto podia tornar \u00e0 vida o autor dos seus dias.<\/p>\n<p>Dias e dias passava junto do leito do velho, muitas vezes sem comer e sem dormir.<\/p>\n<p>Um dia, em que voltava para casa, ap\u00f3s longas horas de ins\u00f4nia, veio Malvina saindo-lhe ao encontro e abra\u00e7\u00e1-lo, como de costume, mas com ar de ter alguma coisa a pedir-lhe.<\/p>\n<p>Com efeito, depois de abra\u00e7\u00e1-lo, e indagar do estado de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a, pediu-lhe que desejava ir, poucas horas que fossem, cuidar como enfermeira do sogro.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s acedeu a esse pedido.<\/p>\n<p>No dia seguinte Tom\u00e1s disse ao pai quais eram os desejos de Malvina. Tib\u00e9rio Valen\u00e7a ouviu com sinais de satisfa\u00e7\u00e3o as palavras do filho, e, depois de este concluir, respondeulhe que aceitava contente a oferta dos servi\u00e7os da nora.<\/p>\n<p>Malvina foi no mesmo dia come\u00e7ar os seus servi\u00e7os de enfermeira.<\/p>\n<p>Tudo em casa mudou como por encanto.<\/p>\n<p>A doce e discreta influ\u00eancia da mulher deu nova dire\u00e7\u00e3o aos arranjos necess\u00e1rios \u00e0 casa e \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o dos medicamentos.<\/p>\n<p>Tinha crescido a gravidade da mol\u00e9stia de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a. Era uma febre que o trazia constantemente, ou delirante, ou sonolento.<\/p>\n<p>Por isso durante os primeiros dias da estada de Malvina em casa do doente, este de nada p\u00f4de saber.<\/p>\n<p>Foi s\u00f3 depois que a for\u00e7a da ci\u00eancia conseguiu restituir a Tib\u00e9rio Valen\u00e7a as esperan\u00e7as de vida e alguma tranq\u00fcilidade, que o pai de Tom\u00e1s descobriu a presen\u00e7a da nova enfermeira.<\/p>\n<p>Em tais circunst\u00e2ncias os preconceitos s\u00f3 dominam os esp\u00edritos inteiramente pervertidos.<\/p>\n<p>Tib\u00e9rio Valen\u00e7a, apesar da exagera\u00e7\u00e3o dos seus sentimentos, n\u00e3o estava ainda no caso.<\/p>\n<p>Acolheu a nora com um sorriso de benevol\u00eancia e de gratid\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Muito obrigado, disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 melhor? \u2014 Estou.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda bem.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 muitos dias que est\u00e1 aqui? \u2014 H\u00e1 alguns.<\/p>\n<p>\u2014 Nada sei do que se tem passado. Parece que acordo de um longo sono. Que tive eu? \u2014 Del\u00edrios e constantes sonol\u00eancias.<\/p>\n<p>\u2014 Sim? \u2014 \u00c9 verdade.<\/p>\n<p>\u2014 Mas estou melhor, estou salvo? \u2014 Est\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Dizem os m\u00e9dicos? \u2014 Dizem e v\u00ea-se logo.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! gra\u00e7as a Deus.<\/p>\n<p>Tib\u00e9rio Valen\u00e7a respirou como um homem que aprecia a vida no grau m\u00e1ximo. Depois, acrescentou: \u2014 Ora, quanto trabalho teve comigo!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Nenhum&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Como nenhum? \u2014 Era preciso haver algu\u00e9m que dirigisse a casa. Bem sabe que as mulheres s\u00e3o essencialmente donas de casa. N\u00e3o quero encarecer o que fiz; eu pouco fiz, fi-lo por dever. Mas quero ser leal declarando qual foi o pensamento que me trouxe aqui.<\/p>\n<p>\u2014 A senhora tem bom cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s entrou neste momento.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! meu pai! disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Adeus, Tom\u00e1s.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 melhor? Estou. Sinto e dizem os m\u00e9dicos que estou melhor.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1, sim.<\/p>\n<p>\u2014 Estava a agradecer \u00e0 tua mulher&#8230;<\/p>\n<p>Malvina acudiu logo: \u2014 Deixemos isso para depois.<\/p>\n<p>Desde o dia em que Tib\u00e9rio Valen\u00e7a teve este di\u00e1logo com a nora e o filho a cura foi-se operando gradualmente. No fim de um m\u00eas entrou Tib\u00e9rio Valen\u00e7a em convalescen\u00e7a.<\/p>\n<p>Estava excessivamente magro e fraco. S\u00f3 podia andar apoiado a uma bengala e ao ombro de um criado. Tom\u00e1s substituiu muitas vezes o criado a chamado do pr\u00f3prio pai.<\/p>\n<p>Neste \u00ednterim foi Tom\u00e1s contemplado na pretens\u00e3o que tinha a um emprego p\u00fablico.<\/p>\n<p>Progrediu a convalescen\u00e7a do velho, e os facultativos aconselharam uma mudan\u00e7a para o campo.<\/p>\n<p>Faziam-se os preparativos da mudan\u00e7a quando Tom\u00e1s e Malvina anunciaram a Tib\u00e9rio Valen\u00e7a que, dispensando-se agora os seus cuidados, e devendo Tom\u00e1s entrar no exerc\u00edcio do emprego que obtivera, tornava-se necess\u00e1ria a separa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o n\u00e3o me acompanham? perguntou o velho.<\/p>\n<p>Ambos repetiram as raz\u00f5es que tinham, procurando do melhor modo n\u00e3o ofender a suscetibilidade do pai e do enfermo.<\/p>\n<p>Pai e enfermo cederam \u00e0s raz\u00f5es e efetuou-se a separa\u00e7\u00e3o no meio dos protestos reiterados de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a que agradecia d\u2019alma os servi\u00e7os que os dois lhe haviam prestado.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s e Malvina seguiram para casa, e o convalescente partiu para o campo.<\/p>\n<p>* * * A convalescen\u00e7a de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a n\u00e3o teve incidente algum.<\/p>\n<p>No fim de quarenta dias estava pronto para outra, como se diz popularmente, e o velho com toda a criadagem voltou para a cidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o fiz men\u00e7\u00e3o de visita alguma da parte dos parentes de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a durante a mol\u00e9stia deste, n\u00e3o porque eles n\u00e3o tivessem visitado o parente enfermo, mas porque essas visitas n\u00e3o trazem circunst\u00e2ncia alguma nova no caso.<\/p>\n<p>Todavia pede a fidelidade hist\u00f3rica que eu as mencione agora. Os parentes, \u00faltimos que restavam \u00e0 fam\u00edlia Valen\u00e7a, reduziam-se a dois velhos primos, uma prima e um sobrinho, filho desta. Estas criaturas foram algum tanto ass\u00edduas durante o perigo da mol\u00e9stia, mas escassearam as visitas desde que tiveram ci\u00eancia de que a vida de Tib\u00e9rio n\u00e3o corria risco.<\/p>\n<p>Convalescente, Tib\u00e9rio Valen\u00e7a n\u00e3o recebeu uma s\u00f3 visita desses parentes. O \u00fanico que o visitou algumas vezes foi Tom\u00e1s, mas sem a mulher.<\/p>\n<p>Estando completamente restabelecido e tendo voltado \u00e0 cidade, a vida da fam\u00edlia continuou a mesma que anteriormente \u00e0 mol\u00e9stia.<\/p>\n<p>Esta circunst\u00e2ncia foi observada por Tib\u00e9rio Valen\u00e7a. Apesar da sincera gratid\u00e3o com que ele acolheu a nora apenas tornara a si, Tib\u00e9rio Valen\u00e7a n\u00e3o p\u00f4de afugentar do esp\u00edrito um pensamento desonroso para a mulher do seu filho. Dava o desconto necess\u00e1rio \u00e0s qualidades morais de Malvina, mas interiormente acreditava que o procedimento dela n\u00e3o fosse isento de c\u00e1lculo.<\/p>\n<p>Este pensamento era l\u00f3gico no esp\u00edrito de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a. No fundo do enfermo agradecido havia o homem calculista, o pai interesseiro, que olhava tudo pelo prisma estreito e falso do interesse e do c\u00e1lculo, e a quem parecia que n\u00e3o se podia fazer uma boa a\u00e7\u00e3o sem laivos de inten\u00e7\u00f5es menos confess\u00e1veis.<\/p>\n<p>Menos confess\u00e1veis \u00e9 par\u00e1frase do narrador; no fundo, Tib\u00e9rio Valen\u00e7a admitia como leg\u00edtimo o c\u00e1lculo dos dois filhos.<\/p>\n<p>Tib\u00e9rio Valen\u00e7a imaginava que Tom\u00e1s e Malvina, procedendo como procederam, tinham tido mais de um motivo que os determinasse. N\u00e3o eram s\u00f3, no esp\u00edrito de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a, o amor e a dedica\u00e7\u00e3o filial; era ainda um meio de ver se lhe abrandavam os rancores, se lhe armavam \u00e0 fortuna.<\/p>\n<p>Nesta convic\u00e7\u00e3o estava, e com ela esperava a continua\u00e7\u00e3o dos cuidados oficiosos de Malvina. Imagine-se qual n\u00e3o foi a surpresa do velho, vendo que cessada a causa das visitas dos dois, causa real que ele tinha por aparente, nenhum deles apresentou o mesmo procedimento anterior. A confirma\u00e7\u00e3o seria se, pilhada a aberta, Malvina aproveitasse para fazer da sua presen\u00e7a em casa de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a uma necessidade.<\/p>\n<p>Isto pensava o pai de Tom\u00e1s, e pensava, neste caso, com acerto.<\/p>\n<p>* * * Correram dias e dias, e a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o mudou.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s lembrara uma vez a necessidade de visitar com Malvina a casa paterna. Malvina, por\u00e9m, recusou, e quando as inst\u00e2ncias de Tom\u00e1s a obrigaram a uma declara\u00e7\u00e3o mais perempt\u00f3ria, declarou ela positivamente que a continua\u00e7\u00e3o das suas visitas poderia parecer a Tib\u00e9rio Valen\u00e7a uma pretens\u00e3o ao esquecimento do passado e aos conchegos do futuro.<\/p>\n<p>\u2014 Melhor \u00e9, disse ela, n\u00e3o irmos; antes passemos por descuidados que por \u00e1vidos ao dinheiro de teu pai.<\/p>\n<p>\u2014 Meu pai n\u00e3o pensar\u00e1 isso, disse Tom\u00e1s.<\/p>\n<p>\u2014 Pode pensar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Creio que n\u00e3o&#8230; Meu pai est\u00e1 mudado: \u00e9 outro. Ele j\u00e1 te reconhece; n\u00e3o te far\u00e1 injusti\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 bom, veremos depois.<\/p>\n<p>E depois desta conversa nunca mais se falou nisso, sendo que Tom\u00e1s n\u00e3o encontrou na resist\u00eancia de Malvina sen\u00e3o um motivo mais para am\u00e1-la e respeit\u00e1-la.<\/p>\n<p>* * * Tib\u00e9rio Valen\u00e7a, desenganado a respeito da expectativa em que estava, resolveu ir um dia em pessoa visitar a nora.<\/p>\n<p>Era isto nem mais nem menos o reconhecimento solene de um casamento que desaprovara. Esta considera\u00e7\u00e3o, t\u00e3o intuitiva em si, n\u00e3o se apresentou ao esp\u00edrito de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a.<\/p>\n<p>Malvina estava s\u00f3 quando \u00e0 porta parou o carro de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a.<\/p>\n<p>Esta visita inesperada causou-lhe verdadeira surpresa.<\/p>\n<p>Tib\u00e9rio Valen\u00e7a entrou com um sorriso nos l\u00e1bios, sintoma de bonan\u00e7a do esp\u00edrito, que n\u00e3o escapou \u00e0 ex-professora de piano.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me querem ir ver, venho eu v\u00ea-los. Onde est\u00e1 meu filho? \u2014 Na reparti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Quando volta? \u2014 \u00c0s tr\u00eas e meia.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 n\u00e3o posso v\u00ea-lo. H\u00e1 muitos dias que ele n\u00e3o vai. Quanto \u00e0 senhora, creio que decididamente nunca mais l\u00e1 volta&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenho podido&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea? \u2014 Ora, isso n\u00e3o se pergunta a uma dona-de-casa.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o tem muito que fazer?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Muito.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! mas nem meia hora pode dispensar? E que tanto trabalho \u00e9 esse? Malvina sorriu-se.<\/p>\n<p>\u2014 Como lhe hei de explicar? H\u00e1 tanta coisa mi\u00fada, tanto trabalho que n\u00e3o aparece, enfim coisas de casa. E se nem sempre estou ocupada, estou muitas vezes preocupada, e outras simplesmente cansada&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Creio que um bocadinho mais de vontade&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Falta de vontade? N\u00e3o creia nisso&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 ao menos o que parece.<\/p>\n<p>Houve um momento de sil\u00eancio. Malvina, para mudar o rumo da conversa\u00e7\u00e3o, perguntou a Tib\u00e9rio como se achava e se n\u00e3o tinha receios da reca\u00edda.<\/p>\n<p>Tib\u00e9rio Valen\u00e7a respondeu, com ar de preocupa\u00e7\u00e3o, que se achava bom e que n\u00e3o tinha receios de nada, antes se achava esperan\u00e7ado de gozar ainda longa vida e boa sa\u00fade.<\/p>\n<p>\u2014 Tanto melhor, disse Malvina.<\/p>\n<p>Tib\u00e9rio Valen\u00e7a, sempre que Malvina se distra\u00eda, corria os olhos em redor da sala para examinar o valor dos m\u00f3veis e avaliar por eles a posi\u00e7\u00e3o do filho.<\/p>\n<p>Os m\u00f3veis eram singelos e sem essa profus\u00e3o e multiplicidade dos m\u00f3veis das salas abastadas. O ch\u00e3o tinha um palmo de palhinha ou uma fibra de tapete. O que se destacava era um rico piano, presente de alguns disc\u00edpulos, feito a Malvina no dia em que esta se casou.<\/p>\n<p>Tib\u00e9rio Valen\u00e7a, contemplando a mod\u00e9stia dos m\u00f3veis da casa de seu filho, era levado a uma compara\u00e7\u00e3o for\u00e7ada entre eles e os de sua casa, onde o luxo e o gosto davam as m\u00e3os.<\/p>\n<p>Depois deste exame minucioso, interrompido pela conversa\u00e7\u00e3o que continuava sempre, Tib\u00e9rio Valen\u00e7a deixou cair um olhar sobre uma pequena mesa ao p\u00e9 da qual se achava Malvina.<\/p>\n<p>Sobre essa mesa estavam umas roupas de crian\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Cose para fora? perguntou Tib\u00e9rio Valen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, por que pergunta? \u2014 Vejo ali aquela roupa&#8230;<\/p>\n<p>Malvina olhou para o lugar indicado pelo sogro.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! disse ela.<\/p>\n<p>\u2014 Que roupa \u00e9 aquela? \u2014 \u00c9 de meu filho.<\/p>\n<p>\u2014 De seu filho? \u2014 Ou filha; n\u00e3o sei.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! Tib\u00e9rio Valen\u00e7a olhou fixamente para Malvina, e quis falar. Mas causou-lhe tal impress\u00e3o a serenidade daquela mulher cuja fam\u00edlia se ia aumentar e que olhava t\u00e3o impavidamente para o futuro, que a voz se lhe embargou e n\u00e3o p\u00f4de pronunciar palavra.<\/p>\n<p>\u2014 Efetivamente, pensava ele, aqui h\u00e1 alguma coisa especial, alguma for\u00e7a sobre-humana que sustenta estas almas. Ser\u00e1 isto o amor? Tib\u00e9rio Valen\u00e7a dirigiu algumas palavras \u00e0 nora e saiu deixando lembran\u00e7as para o filho e instando para que ambos fossem visit\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Poucos dias depois da cena que acabamos de contar chegaram ao Rio de Janeiro Elisa e seu marido.<\/p>\n<p>Vinham estabelecer-se definitivamente na corte.<\/p>\n<p>A primeira visita foi para o pai, de cuja mol\u00e9stia tinham sabido na prov\u00edncia.<\/p>\n<p>Tib\u00e9rio Valen\u00e7a recebeu-os com grande alvoro\u00e7o. Beijou a filha, abra\u00e7ou o genro, com uma alegria infantil.<\/p>\n<p>* * * Nesse dia houve em casa grande jantar, para o qual n\u00e3o se convidou ningu\u00e9m al\u00e9m dos que habitualmente freq\u00fcentavam a casa.<\/p>\n<p>O marido de Elisa, antes de p\u00f4r casa, devia ficar em casa do sogro, e quando comunicou este projeto a Tib\u00e9rio Valen\u00e7a, este acrescentou que n\u00e3o se iriam mesmo sem aceitar um baile.<\/p>\n<p>O aditamento foi aceito.<\/p>\n<p>O baile foi marcado para o s\u00e1bado pr\u00f3ximo, isto \u00e9, exatamente oito dias depois.<\/p>\n<p>Tib\u00e9rio Valen\u00e7a estava content\u00edssimo.<\/p>\n<p>Tudo andou logo na maior az\u00e1fama. Tib\u00e9rio Valen\u00e7a queria provar com o esplendor da festa o grau de estima em que tinha a filha e o genro.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o filha e genro, genro e filha, tais foram os dois p\u00f3los em que volteava a imagina\u00e7\u00e3o de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a.<\/p>\n<p>Enfim o dia de s\u00e1bado chegou.<\/p>\n<p>\u00c0 tarde houve um jantar dado a alguns poucos amigos, os mais \u00edntimos, mas jantar espl\u00eandido, porque Tib\u00e9rio Valen\u00e7a n\u00e3o quis que um s\u00f3 ponto da festa desdissesse do resto.<\/p>\n<p>Entre os convidados para o jantar veio um que informou o dono da casa de que outro convidado n\u00e3o vinha, por ter grande soma de trabalho a dirigir.<\/p>\n<p>Era exatamente um dos mais \u00edntimos e melhores convivas.<\/p>\n<p>Tib\u00e9rio Valen\u00e7a n\u00e3o se deu por convencido com o recado, e resolveu escrever-lhe uma carta exigindo a presen\u00e7a dele no jantar e no baile.<\/p>\n<p>Em virtude disto foi ao gabinete, abriu a gaveta, tirou papel e escreveu uma carta que mandou incontinenti.<\/p>\n<p>Mas, no momento de guardar de novo o papel que tirara da gaveta, reparou que entre duas folhas se resvalara uma cartinha por letra de Tom\u00e1s.<\/p>\n<p>Estava aberta. Era uma carta, j\u00e1 antiga, que Tib\u00e9rio Valen\u00e7a recebera e atirara para dentro da gaveta. Foi a carta em que Tom\u00e1s participava ao pai o dia do seu casamento com Malvina.<\/p>\n<p>Essa carta, que em mil outras ocasi\u00f5es lhe estivera debaixo dos olhos sem maior como\u00e7\u00e3o, desta vez n\u00e3o deixou de impression\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Abriu a carta e leu-a. Era de reda\u00e7\u00e3o humilde e afetuosa.<\/p>\n<p>Veio \u00e0 mente de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a a visita que fizera \u00e0 mulher de Tom\u00e1s.<\/p>\n<p>O quadro da vida modesta e pobre daquele jovem casal apresentou-se-lhe de novo aos olhos. Comparou esse quadro mesquinho com o quadro espl\u00eandido que apresentava a casa dele, onde um jantar e um baile iam reunir amigos e parentes.<\/p>\n<p>Depois viu a doce resigna\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a que vivia contente no meio da parcim\u00f4nia, s\u00f3 porque tinha o amor e a felicidade do marido. Esta resigna\u00e7\u00e3o afigurou-se-lhe um exemplo raro, tanto lhe parecia imposs\u00edvel sacrificar o gozo e o sup\u00e9rfluo \u00e0s santas afei\u00e7\u00f5es do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Enfim o neto que lhe aparecia no horizonte, e para o qual Malvina j\u00e1 confeccionava o enxoval, tomou mais viva e decisiva ainda a impress\u00e3o de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a.<\/p>\n<p>Uma esp\u00e9cie de remorso fez-lhe doer a consci\u00eancia. A nobre mo\u00e7a, a quem ele tratara t\u00e3o desabridamente, o filho, para quem ele fora um pai t\u00e3o cruel, tinham cuidado com verdadeiro carinho o mesmo homem de quem receberam a ofensa e o desagrado.<\/p>\n<p>Tib\u00e9rio Valen\u00e7a refletia tudo isto passeando no gabinete. Dali ouvia o rumor dos f\u00e2mulos que preparavam o lauto jantar. Enquanto ele e os seus amigos e parentes iam apreciar os mais delicados manjares, que comeriam naquele dia Malvina e Tom\u00e1s? Tib\u00e9rio Valen\u00e7a estremeceu diante desta pergunta que lhe fazia a consci\u00eancia. Aqueles dois filhos que ele expelira t\u00e3o desamorosamente e que com tanta generosidade lhe haviam pago n\u00e3o tinham naquele dia nem a mil\u00e9sima parte do sup\u00e9rfluo da casa paterna. Mas esse pouco que tivessem era, com certeza, comido em paz, na branda e doce alegria do lar dom\u00e9stico.<\/p>\n<p>As id\u00e9ias dolorosas que assaltaram o esp\u00edrito de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a fizeram com que ele esquecesse inteiramente os convivas que se achavam nas salas.<\/p>\n<p>Isto que se operava em Tib\u00e9rio Valen\u00e7a era uma nesga da natureza, ainda n\u00e3o tocada pelos preconceitos, e bem assim o remorso de uma a\u00e7\u00e3o m\u00e1 que havia cometido.<\/p>\n<p>Isto e mais a influ\u00eancia da felicidade de que atualmente era objeto Tib\u00e9rio Valen\u00e7a produziram o melhor resultado. O pai de Tom\u00e1s tomou uma resolu\u00e7\u00e3o definitiva; mandou aprontar o carro e saiu.<\/p>\n<p>Foi direito \u00e0 casa de Tom\u00e1s.<\/p>\n<p>Este sabia da grande festa que se preparava em casa do pai para celebrar a chegada de Elisa e seu marido.<\/p>\n<p>Assim que a entrada de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a em casa de Tom\u00e1s causou a este grande expecta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Por aqui, meu pai? \u2014 \u00c9 verdade. Passei, entrei.<\/p>\n<p>\u2014 Como est\u00e1 a mana? \u2014 Est\u00e1 boa. Ainda n\u00e3o foste v\u00ea-la? \u2014 Contava ir amanh\u00e3, que \u00e9 dia livre.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, se eu lhes propusesse uma coisa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ordene, meu pai.<\/p>\n<p>Tib\u00e9rio Valen\u00e7a dirigiu-se a Malvina e tomou-lhe as m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u2014 Escute, disse ele. Vejo que h\u00e1 na sua alma grande nobreza, e se nem a riqueza, nem os antepassados ilustram o seu nome, vejo que resgata estas faltas por outras virtudes.<\/p>\n<p>Abrace-me como pai.<\/p>\n<p>Tib\u00e9rio, Malvina e Tom\u00e1s abra\u00e7aram-se em um s\u00f3 grupo.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 preciso, acrescentou o pai, que v\u00e3o hoje l\u00e1 a casa. E j\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1? perguntou Malvina.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1.<\/p>\n<p>Da\u00ed a meia hora apeavam os tr\u00eas \u00e0 porta da casa de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a.<\/p>\n<p>O pai arrependido apresentava aos amigos e aos parentes, aqueles dois filhos que t\u00e3o cruelmente quisera excluir da comunh\u00e3o da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Este ato de Tib\u00e9rio Valen\u00e7a veio a tempo de reparar o mal, e assegurar a paz futura dos seus velhos anos. A conduta generosa e honrada de Tom\u00e1s e de Malvina valeram esta repara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Isto prova que a natureza pode comover a natureza, e que uma boa a\u00e7\u00e3o tem a faculdade muitas vezes de destruir o preconceito e restabelecer a verdade do dever.<\/p>\n<p>N\u00e3o pare\u00e7a improv\u00e1vel ou violenta esta mudan\u00e7a no esp\u00edrito de Tib\u00e9rio. As circunst\u00e2ncias favoreceram essa mudan\u00e7a, para a qual o principal motivo foi a resigna\u00e7\u00e3o de Malvina e de Tom\u00e1s.<\/p>\n<p>Fibra paternal, mais desvencilhada, naquele dia, dos liames de uma considera\u00e7\u00e3o social mal entendida, p\u00f4de palpitar livremente e mostrar em Tib\u00e9rio Valen\u00e7a um fundo melhor do que as suas apar\u00eancias cru\u00e9is. Tanto \u00e9 verdade que, se a educa\u00e7\u00e3o modifica a natureza, a natureza pode em suas exig\u00eancias mais absolutas readquirir os seus direitos e manifestar a sua for\u00e7a.<\/p>\n<p>Com a declara\u00e7\u00e3o de que foram sempre felizes os her\u00f3is deste conto deita-se-lhe um ponto final.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Tinha vinte e dois anos e era professora de piano. Era alta, formosa, morena e modesta. 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