{"id":113586,"date":"2017-03-14T18:10:39","date_gmt":"2017-03-14T20:10:39","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=113586"},"modified":"2017-03-14T18:10:39","modified_gmt":"2017-03-14T20:10:39","slug":"a-mulher-palida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-mulher-palida","title":{"rendered":"A Mulher P\u00e1lida"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de assis<\/h2>\n<p>I Rangeu enfim o \u00faltimo degrau da escada ao peso do vasto corpo do major Bento. O major deteve-se um minuto, respirou \u00e0 larga, como se acabasse de subir, n\u00e3o a escada do sobrinho, mas a de Jac\u00f3, e enfiou pelo corredor adiante.<\/p>\n<p>A casa era na Rua da Miseric\u00f3rdia, uma casa de sobrado cujo locat\u00e1rio sublocara tr\u00eas aposentos a estudantes. O aposento de M\u00e1ximo era ao fundo, \u00e0 esquerda, perto de uma janela que dava para a cozinha de uma casa da rua D. Manuel. Triste lugar, triste aposento, e trist\u00edssimo habitante, a julg\u00e1-lo pelo rosto com que apareceu \u00e0s pancadinhas do major. Este bateu, com efeito, e bateu duas vezes, sem impaci\u00eancia nem sofreguid\u00e3o.<\/p>\n<p>Logo que bateu a segunda vez, ouviu estalar dentro uma cama, e logo um ru\u00eddo de chinelas ao ch\u00e3o, depois um sil\u00eancio curto, enfim, moveu-se a chave e abriu-se a porta.<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9? \u2014 ia dizendo a pessoa que abrira. E logo: \u2014 \u00e9 o tio Bento.<\/p>\n<p>A pessoa era um rapaz de vinte anos, magro, um pouco amarelo, n\u00e3o alto, nem elegante.<\/p>\n<p>Tinha os cabelos despenteados, vestia um chambre velho de ramagens, que foram vistosas no seu tempo, cal\u00e7ava umas chinelas de tapete; tudo asseado e tudo pobre. O aposento condizia com o habitante: era o alinho na mis\u00e9ria. Uma cama, uma pequena mesa, tr\u00eas cadeiras, um lavat\u00f3rio, alguns livros, dois ba\u00fas, e pouco mais.<\/p>\n<p>\u2014 Viva o sr. estudante, disse o major sentando-se na cadeira que o rapaz lhe oferecera.<\/p>\n<p>\u2014 Vosmec\u00ea por aqui, \u00e9 novidade, disse M\u00e1ximo. Vem a passeio ou neg\u00f3cio? \u2014 Nem neg\u00f3cio nem passeio. Venho&#8230;<\/p>\n<p>Hesitou; M\u00e1ximo reparou que ele trazia uma polegada de fumo no chap\u00e9u de palha, um grande chap\u00e9u da ro\u00e7a de onde era o major Bento. O major, como o sobrinho, era de Igua\u00e7u. Reparou nisso, e perguntou assustado se morrera alguma pessoa da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>\u2014 Descanse, disse o major, n\u00e3o morreu nenhum parente de sangue. Morreu teu padrinho.<\/p>\n<p>O golpe foi leve. O padrinho de M\u00e1ximo era um fazendeiro rico e avaro, que nunca jamais dera ao sobrinho um s\u00f3 presente, salvo um cacho de bananas, e ainda assim, porque ele se achava presente na ocasi\u00e3o de chegarem os carros. Tristemente avaro. Sobre avaro, misantropo; vivia consigo, sem parentes \u2014 nem amigos, nem elei\u00e7\u00f5es, nem festas, nem coisa nenhuma. M\u00e1ximo n\u00e3o sentiu muita como\u00e7\u00e3o \u00e0 noticia do \u00f3bito. Chegou a proferir uma palavra de desd\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1 feito, disse ele, no fim de algum tempo de sil\u00eancio, a terra lhe seja leve, como a bolsa que me deixou.<\/p>\n<p>\u2014 Ingrato! bradou o major. Fez-te seu herdeiro universal.<\/p>\n<p>O major proferiu estas palavras estendendo os bra\u00e7os para amparar o sobrinho, na queda que lhe daria a como\u00e7\u00e3o; mas, a seu pesar, viu o sobrinho alegre, ou pouco menos triste do que antes, mas sem nenhum del\u00edrio. Teve um sobressalto, \u00e9 certo, e n\u00e3o disfar\u00e7ou a satisfa\u00e7\u00e3o da noticia. Pudera! Uma heran\u00e7a de seiscentos contos, pelo menos. Mas da\u00ed \u00e0 vertigem, ao estontear que o major previa, a dist\u00e2ncia era enorme. M\u00e1ximo puxou de uma cadeira e sentou-se defronte do tio.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me diga isso! Deveras herdeiro? \u2014 Vim de prop\u00f3sito dar-te a not\u00edcia. Causou espanto a muita gente; o Morais Bicudo, que fez tudo para empalmar-lhe a heran\u00e7a, ficou com uma cara de palmo e meio. Dizia-se muita coisa; uns que a fortuna f\u00eccava para o Morais, outros que para o vig\u00e1rio, etc. At\u00e9 se disse que uma das escravas seria a herdeira da maior parte. Hist\u00f3rias! Morreu o homem, abre-se o testamento, e l\u00ea-se a declara\u00e7\u00e3o de que voc\u00ea \u00e9 o herdeiro universal.<\/p>\n<p>M\u00e1ximo ouviu contente. No mais rec\u00f4ndito da consci\u00eancia dele insinuava-se esta reflex\u00e3o \u2014 que a morte do coronel era uma coisa deliciosa, e que nenhuma outra not\u00edcia lhe podia ir mais direta e profunda ao cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Vim dizer isto a voc\u00ea, continuou o major, e trazer um recado de tua m\u00e3e.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9? \u2014 Simplesmente saber se voc\u00ea quer continuar a estudar ou se prefere tomar conta da fazenda.<\/p>\n<p>\u2014 Que lhe parece? \u2014 A mim nada; voc\u00ea \u00e9 que decide.<\/p>\n<p>M\u00e1ximo refletiu um instante.<\/p>\n<p>\u2014 Em todo o caso, n\u00e3o \u00e9 sangria desatada, disse ele; tenho tempo de escolher.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, porque se voc\u00ea quiser estudar d\u00e1-me procura\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o precisa sair daqui.<\/p>\n<p>Agora, se&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Vosmec\u00ea volta hoje mesmo? \u2014 N\u00e3o, volto s\u00e1bado.<\/p>\n<p>\u2014 Pois amanh\u00e3 resolveremos isto.<\/p>\n<p>Levantou-se, atirou a cadeira ao lado, bradando que enfim ia tirar o p\u00e9 do lodo; confessou que o padrinho era um bom homem, apesar de seco e misantropo, e a prova&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Vivam os defuntos! concluiu o estudante.<\/p>\n<p>Foi a um pequeno espelho, mirou-se, consertou os cabelos com as m\u00e3os; depois detevese algum tempo a olhar o soalho. O tom sombrio do rosto dominou logo a alegria da ocasi\u00e3o; e se o major fosse homem sagaz, poderia perceber-lhe nos l\u00e1bios uma leve express\u00e3o de amargura. Mas o major nem era sagaz, nem olhava para ele; olhava para o fumo do chap\u00e9u, e consertava-o; depois despediu-se do estudante.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, disse este; vamos jantar juntos.<\/p>\n<p>O major aceitou. M\u00e1ximo vestiu-se depressa, e, enquanto se vestia, falava das coisas de Igua\u00e7u e da fam\u00edlia. Pela conversa sabemos que a fam\u00edlia \u00e9 pobre, sem influ\u00eancia nem esperan\u00e7a. A m\u00e3e do estudante, irm\u00e3 do major, tinha um pequeno s\u00edtio, que mal lhe dava para comer. O major exercia um emprego subalterno, e nem sequer tinha o gosto de ser verdadeiramente major. Chamavam-lhe assim, porque dois anos antes, em 1854, dissese que ele ia ser nomeado major da Guarda Nacional. Pura inven\u00e7\u00e3o, que muita gente acreditou realidade; e visto que lhe deram desde logo o t\u00edtulo, repararam com ele o esquecimento do governo.<\/p>\n<p>\u2014 Agora, juro-lhe que vosmec\u00ea h\u00e1 de ser major de verdade, dizia-lhe M\u00e1ximo pondo na cabe\u00e7a o chap\u00e9u de p\u00ealo de lebre, depois de o escovar com muita minuciosidade.<\/p>\n<p>\u2014 Homem, voc\u00ea quer que lhe diga? Isto de pol\u00edtica j\u00e1 me n\u00e3o importa. Afinal, \u00e9 tudo o mesmo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas h\u00e1 de ser major.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o digo que n\u00e3o, mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas? \u2014 Enfim, n\u00e3o digo que n\u00e3o.<\/p>\n<p>M\u00e1ximo abriu a porta e sa\u00edram. Ressoaram os passos de ambos no corredor mal alumiado. De um quarto ouviu-se uma cantarola, de outro um mon\u00f3logo, de outro um tossir longo e cansado.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 um asm\u00e1tico, disse o estudante ao tio, que punha o p\u00e9 no primeiro degrau da escada para descer.<\/p>\n<p>\u2014 Diabo de casa t\u00e3o escura, disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Arranjarei outra com luz e jardins, redarg\u00fciu o estudante.<\/p>\n<p>E dando-lhe o bra\u00e7o, desceram \u00e0 rua.<\/p>\n<p>II Naturalmente a leitora notou a impress\u00e3o de tristeza do estudante, no meio da alegria que lhe trouxe o tio Bento. N\u00e3o \u00e9 prov\u00e1vel que um herdeiro, na ocasi\u00e3o em que se lhe anuncia a heran\u00e7a, tenha outros sentimentos que n\u00e3o sejam de regozijo; da\u00ed uma conclus\u00e3o da leitora \u2014 uma suspeita ao menos \u2014 suspeita ou conclus\u00e3o que a leitora ter\u00e1 formulado nestes termos: \u2014 O M\u00e1ximo padece do f\u00edgado.<\/p>\n<p>Engano! O M\u00e1ximo n\u00e3o padece do f\u00edgado; goza at\u00e9 uma sa\u00fade de ferro. A causa secreta da tristeza s\u00fabita do M\u00e1ximo, por mais inveross\u00edmil que pare\u00e7a, \u00e9 esta: \u2014 O rapaz amava uma galante mo\u00e7a de dezoito anos, moradora na Rua dos Arcos, e amava sem ventura.<\/p>\n<p>Desde dois meses fora apresentado em casa do sr. Alc\u00e2ntara, \u00e0 Rua dos Arcos. Era o pai de Eul\u00e1lia, que \u00e9 a mo\u00e7a em quest\u00e3o. O sr. Alc\u00e2ntara n\u00e3o era rico, exercia um emprego mediano no Tesouro, e vivia com certa economia e discri\u00e7\u00e3o; era ainda casado e tinha s\u00f3 duas filhas, a Eul\u00e1lia, e outra, que n\u00e3o passava de sete anos. Era um bom homem, muito inteligente, que se afei\u00e7oou desde logo ao M\u00e1ximo, e que, se o consultassem, n\u00e3o diria outra coisa sen\u00e3o que o aceitava para genro.<\/p>\n<p>Tal n\u00e3o era a opini\u00e3o de Eul\u00e1lia. Gostava de conversar com ele \u2014 n\u00e3o muito \u2014, ouvia-lhe as gra\u00e7as, porque ele era gracioso, tinha repentes felizes; mas s\u00f3 isso. No dia em que o nosso M\u00e1ximo se atreveu a interrogar os olhos de Eul\u00e1lia, esta n\u00e3o lhe respondeu coisa nenhuma, antes sup\u00f4s que fora engano seu. Da segunda vez n\u00e3o havia d\u00favida; era positivo que o rapaz gostava dela e a interrogava. Eul\u00e1lia n\u00e3o pode ter-se que n\u00e3o comentasse o gesto do rapaz, no dia seguinte, com umas primas.<\/p>\n<p>\u2014 Ora vejam! \u2014 Mas que tem? aventurou uma das primas.<\/p>\n<p>\u2014 Que tem? N\u00e3o gosto dele; parece que \u00e9 raz\u00e3o bastante. Realmente, h\u00e1 pessoas a quem n\u00e3o se pode dar um pouco de confian\u00e7a. S\u00f3 porque conversou um pouco comigo j\u00e1 pensa que \u00e9 motivo para cair de namoro. Ora n\u00e3o v\u00ea! Quando no dia seguinte, M\u00e1ximo chegou \u00e0 casa do sr. Alc\u00e2ntara, foi recebido com frieza; entendeu que n\u00e3o era correspondido, mas nem por isso desanimou. Sua opini\u00e3o \u00e9 que as mulheres n\u00e3o eram mais duras do que as pedras, e entretanto a persist\u00eancia da \u00e1gua vencia as pedras. Al\u00e9m deste ponto de doutrina, havia uma raz\u00e3o mais forte: ele amava deveras. Cada dia vinha fortalecer a paix\u00e3o do mo\u00e7o, a ponto de lhe parecer inadmiss\u00edvel outra coisa que n\u00e3o fosse o casamento, e pr\u00f3ximo; n\u00e3o sabia como seria pr\u00f3ximo o casamento de um estudante sem dinheiro com uma dama, que o desdenhava; mas o desejo ocupa-se t\u00e3o pouco das coisas imposs\u00edveis! Eul\u00e1lia, honra lhe seja, tratou de desenganar as esperan\u00e7as do estudante, por todos os modos, com o gesto e com a palavra; falava-lhe pouco, e \u00e0s vezes mal. N\u00e3o olhava para ele, ou olhava de relance, sem demora nem express\u00e3o. N\u00e3o aplaudia, como outrora, os versos que ele ia ler em casa do pai, menos ainda lhe pedia que recitasse outros, como as primas; estas sempre se lembravam de um Devaneio, um Suspiro ao luar, Teus olhos, Ela, Minha vida por um olhar, e outros pecados de igual peso, que o leitor pode comprar hoje por seiscentos r\u00e9is, em brochura, na rua de S. Jos\u00e9 n\u00ba&#8230;., ou por trezentos r\u00e9is, sem o frontisp\u00edcio. Eul\u00e1lia ouvia todas as belas estrofes compostas especialmente para ela, como se fossem uma p\u00e1gina de S. Tom\u00e1s de Aquino.<\/p>\n<p>\u2014 Vou arriscar uma carta, disse um dia o rapaz, ao fechar a porta do quarto, da rua da Miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Efetivamente entregou-lhe uma carta alguns dias depois, \u00e0 sa\u00edda, quando ela j\u00e1 n\u00e3o podia recus\u00e1-la. Saiu precipitadamente; Eul\u00e1lia ficou com o papel na m\u00e3o, mas devolveu-lho no dia seguinte.<\/p>\n<p>Apesar desta recusa e de todas as outras, M\u00e1ximo conservava a esperan\u00e7a de triunfar enfim da resist\u00eancia de Eul\u00e1lia, e n\u00e3o a conservava sen\u00e3o porque a paix\u00e3o era verdadeira e forte, nutrida de si mesma, e irritada por um sentimento de amor pr\u00f3prio ofendido. O orgulho do rapaz sentia-se humilhado, e, para perdoar, exigia a completa obedi\u00eancia.<\/p>\n<p>Imagine-se, portanto, o que seriam as noites dele, no quartinho da rua da Miseric\u00f3rdia, ap\u00f3s os desd\u00e9ns de cada dia.<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera do dia em que o major Bento veio de Igua\u00e7u comunicar ao sobrinho a morte e a heran\u00e7a do padrinho, M\u00e1ximo reuniu todas as for\u00e7as e deu batalha campal. Vestiu nesse dia um palet\u00f3 \u00e0 moda, umas cal\u00e7as talhadas por m\u00e3o de mestre, deu-se ao luxo de um cabeleireiro, retesou o princ\u00edpio de um bigode mal espesso, coligiu nos olhos toda a soma da eletricidade que tinha no organismo, e foi para a Rua dos Arcos. Um colega de ano, confidente dos primeiros dias do namoro, costumava a fazer do nome da rua uma triste aproxima\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e militar. \u2014 Quando sais tu da ponte d\u2019Arcole? \u2014 Esta chufa sem gra\u00e7a nem miseric\u00f3rdia do\u00eda ao pobre sobrinho do major Bento, como se fosse uma punhalada, mas n\u00e3o o dizia, para n\u00e3o confessar tudo; apesar das primeiras confid\u00eancias, M\u00e1ximo era um solit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Foi; declarou-se formalmente, Eul\u00e1lia recusou formalmente, mas sem desd\u00e9m, apenas fria. M\u00e1ximo voltou para casa abatido e passou uma noite de todos os diabos. H\u00e1 fortes raz\u00f5es para crer que n\u00e3o almo\u00e7ou nesse dia, al\u00e9m de tr\u00eas ou quatro x\u00edcaras de caf\u00e9. Caf\u00e9 e cigarros. M\u00e1ximo fumou uma quantidade incr\u00edvel de cigarros. Os vendedores de tabaco certamente contam com as paix\u00f5es infelizes, as esperas de entrevistas, e outras hip\u00f3teses em que o cigarro \u00e9 confidente obrigado.<\/p>\n<p>Tal era, em resumo, a vida anterior de M\u00e1ximo, e tal foi a causa da tristeza com que p\u00f4de resistir \u00e0s alegrias de uma heran\u00e7a inesperada \u2014 e duas vezes inesperada, pois n\u00e3o contava com a morte, e menos ainda com o testamento do padrinho.<\/p>\n<p>\u2014 Vivam os defuntos! Esta exclama\u00e7\u00e3o, com que recebera a not\u00edcia do major Bento, n\u00e3o trazia o alvoro\u00e7o pr\u00f3prio de um herdeiro; a nota era for\u00e7ada demais.<\/p>\n<p>O major Bento n\u00e3o soube nada daquela paix\u00e3o secreta. Ao jantar, via-o de quando em quando ficar calado e sombrio, com os olhos fitos na mesa, a fazer bolas de miolo de p\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Tu tens alguma coisa, M\u00e1ximo? perguntava-lhe.<\/p>\n<p>M\u00e1ximo estremecia, e procurava sorrir um pouco.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenho nada.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1s assim&#8230; um pouco&#8230; pensativo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ah! \u00e9 a li\u00e7\u00e3o de amanh\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 Homem, isto de estudos n\u00e3o deve ir ao ponto de fazer adoecer a gente. Livro faz a cara amarela. Voc\u00ea precisa de distrair-se, n\u00e3o ficar metido naquele buraco da Rua da Miseric\u00f3rdia, sem ar nem luz, agarrado aos livros&#8230;<\/p>\n<p>M\u00e1ximo aproveitava estes serm\u00f5es do tio, e voava outra vez \u00e0 Rua dos Arcos, isto \u00e9, \u00e0s bolas de miolo de p\u00e3o e aos olhos fitos na mesa. Num desses esquecimentos, e enquanto o tio despia uma costeleta de porco, M\u00e1ximo disse em voz alta: \u2014 Justo.<\/p>\n<p>\u2014 O que \u00e9? perguntou o major.<\/p>\n<p>\u2014 Nada.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 falando s\u00f3, rapaz? Hum? aqui h\u00e1 coisa. H\u00e3o de ver as italianas do teatro.<\/p>\n<p>M\u00e1ximo sorriu, e n\u00e3o explicou ao tio por que motivo lhe sa\u00edra aquela palavra da boca, uma palavra seca, nua, vaga, suscept\u00edvel de mil aplica\u00e7\u00f5es. Era um ju\u00edzo? uma resolu\u00e7\u00e3o? III M\u00e1ximo teve uma id\u00e9ia singular: experimentar se Eul\u00e1lia, rebelde ao estudante pobre, n\u00e3o o seria ao herdeiro rico. Nessa mesma noite foi \u00e0 Rua dos Arcos. Ao entrar, disse-lhe o sr.<\/p>\n<p>Alc\u00e2ntara: \u2014 Chega a prop\u00f3sito; temos aqui umas mo\u00e7as que ainda n\u00e3o ouviram o Suspiro ao luar.<\/p>\n<p>M\u00e1ximo n\u00e3o se fez de rogado; era poeta; supunha-se grande poeta; em todo caso recitava bem, com certas inflex\u00f5es langorosas, umas quedas da voz e uns olhos cheios de morte e de vida. Abotoou o palet\u00f3 com uma inten\u00e7\u00e3o chateaubri\u00e2nica mas o palet\u00f3 recusou-se a inten\u00e7\u00f5es estrangeiras e liter\u00e1rias. Era um prosaico palet\u00f3 nacional, da Rua do Hosp\u00edcio n\u00ba&#8230; A m\u00e3o ao peito corrigiu um pouco a rebeldia do vestu\u00e1rio; e esta circunst\u00e2ncia persuadiu a uma das mo\u00e7as de fora que o jovem estudante n\u00e3o era t\u00e3o desprez\u00edvel como lhe havia dito Eul\u00e1lia. E foi assim que os versos come\u00e7aram a brotar-lhe da boca \u2014 a adejar-lhe, que \u00e9 melhor verbo para o nosso caso.<\/p>\n<p>\u2014 Bravo! bravo! diziam os ouvintes, a cada estrofe.<\/p>\n<p>Depois do Suspiro ao luar, veio o Devaneio, obra nebulosa e deliciosa ao mesmo tempo, e ainda o Colo de neve, at\u00e9 que o M\u00e1ximo anunciou uns versos in\u00e9ditos, compostos de fresco, poucos minutos antes de sair de casa. Imaginem! Todos os ouvidos afiaram-se para t\u00e3o gulosa especiaria liter\u00e1ria. E quando ele anunciou que a nova poesia denominava-se Uma cabana e teu amor \u2014 houve um geral murm\u00fario de admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>M\u00e1ximo preparou-se; tornou a inserir a m\u00e3o entre o colete e o palet\u00f3, e fitou os olhos em Eul\u00e1lia.<\/p>\n<p>\u2014 Forte tolo! disse a mo\u00e7a consigo.<\/p>\n<p>Geralmente, quando uma mulher tem de um homem a id\u00e9ia que Eul\u00e1lia acabava de formular \u2014 est\u00e1 prestes a mand\u00e1-lo embora de uma vez ou a ador\u00e1-lo em todo o resto da vida. Um moralista dizia que as mulheres s\u00e3o extremas: ou melhores ou piores do que os homens. Extremas s\u00e3o, e da\u00ed o meu conceito. A nossa Eul\u00e1lia estava no \u00faltimo fio da toler\u00e2ncia; um pouco mais, e o M\u00e1ximo ia receber as derradeiras despedidas. Naquela noite mais do que nunca, pareceu-lhe insuport\u00e1vel o estudante. A insist\u00eancia do olhar \u2014 ele, que era t\u00edmido \u2014, o ar de soberania, certa consci\u00eancia de si mesmo, que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o mostrara, tudo o condenou de uma vez.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos, vamos, disseram os curiosos ao poeta.<\/p>\n<p>\u2014 Uma cabana e teu amor, repetiu M\u00e1ximo.<\/p>\n<p>E come\u00e7ou a recitar os versos. Essa composi\u00e7\u00e3o intencional dizia que ele, poeta, era pobre, muito pobre, mais pobre do que as aves do c\u00e9u; mas que \u00e0 sombra de uma cabana, ao p\u00e9 dela, seria o mais feliz e mais opulento homem do mundo. As \u00faltimas estrofes \u2014 juro que n\u00e3o as cito sen\u00e3o por ser fiel \u00e0 narra\u00e7\u00e3o \u2014 as estrofes derradeiras eram assim: Que me importa n\u00e3o tragas brilhantes, Refulgindo no teu colo nu? Tens nos olhos as j\u00f3ias vibrantes, E a mais n\u00edtida p\u00e9rola \u00e9s tu.<\/p>\n<p>Pobre sou, pobre quero ajoelhado, Como um c\u00e3o amoroso, a teus p\u00e9s, Viver s\u00f3 de sentir-me adorado, E adorar-te, meu anjo, que o \u00e9s! O efeito destes versos foi estrondoso. O sr. Alc\u00e2ntara, que suava no Tesouro todos os dias para evitar a cabana e o almo\u00e7o, um tanto parco, celebrado nos versos do estudante, aplaudiu entusiasticamente os desejos deste, notou a melodia do ritmo, a do\u00e7ura da frase, etc&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Oh! muito bonito! muito bonito! exclamava ele, e repetia entusiasmado: Pobre sou, pobre quero ajoelhado, Como um c\u00e3o amoroso a teus p\u00e9s, Amoroso a teus p\u00e9s&#8230; Que mais? Amoroso a teus p\u00e9s, e&#8230; Ah! sim: Viver s\u00f3 de sentir-me adorado, E adorar-te, meu anjo, que o \u00e9s! Note-se \u2014 e este rasgo mostrar\u00e1 a for\u00e7a de car\u00e1ter de Eul\u00e1lia \u2014, note-se que Eul\u00e1lia achou os versos bonitos, e ach\u00e1-los-ia deliciosos, se os pudesse ouvir com orelhas simp\u00e1ticas. Achou-os bonitos, mas n\u00e3o os aplaudiu.<\/p>\n<p>\u201c para usar a express\u00e3o do sr. Alc\u00e2ntara, querendo dizer que se dan\u00e7ou um pouco. \u2014 Armemos uma brincadeira, bradara ele. Uma das mo\u00e7as foi para o piano, as outras e os rapazes dan\u00e7aram. M\u00e1ximo alcan\u00e7ou uma quadrilha de Eul\u00e1lia; no fim da terceira figura disse-lhe baixinho: \u2014 Pobre sou, pobre quero ajoelhado&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9 pobre n\u00e3o tem v\u00edcios, respondeu a mo\u00e7a rindo, com um pouco de ferocidade nos olhos e no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>M\u00e1ximo enfiou. N\u00e3o me amar\u00e1 nunca, pensou ele. Ao ch\u00e1, restabelecido do golpe, e fortemente mordido do despeito, lembrou-se de dar a a\u00e7\u00e3o definitiva, que era noticiar a heran\u00e7a. Tudo isso era t\u00e3o infantil, t\u00e3o adoidado, que a l\u00edngua entorpeceu-se-lhe no melhor momento, e a noticia n\u00e3o lhe saiu da boca. Foi s\u00f3 ent\u00e3o que ele pensou na singularidade duma not\u00edcia daquelas, em plena ceia de estranhos, depois de uma quadrilha e alguns versos. Esse plano, afagado durante a tarde e a noite, que lhe parecia um prod\u00edgio de habilidade, e talvez o fosse deveras, esse plano apareceu-lhe agora pela face obscura, e achou-o rid\u00edculo. Minto: achou-o ousado apenas. As visitas come\u00e7aram a despedir-se, e ele foi obrigado a despedir-se tamb\u00e9m. Na rua, arrependeu-se, chamou-se covarde, tolo, maricas, todos os nomes feios que um car\u00e1ter fraco d\u00e1 a si mesmo, quando perde uma a\u00e7\u00e3o. No dia seguinte meteu-se a caminho para Igua\u00e7u.<\/p>\n<p>Seis ou sete semanas depois, tornado de Igua\u00e7u, a not\u00edcia da heran\u00e7a era p\u00fablica. A primeira pessoa que o visitou foi o sr. Alc\u00e2ntara, e for\u00e7a \u00e9 dizer que a pena com que lhe apareceu era sincera. Ele o aceitara ainda pobre; \u00e9 que deveras o estimava.<\/p>\n<p>\u2014 Agora continua os seus estudos, n\u00e3o \u00e9? perguntou ele.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei, disse o rapaz; pode ser que n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Como assim? \u2014 Estou com id\u00e9ias de ir estudar na Europa, na Alemanha, por exemplo; em todo o caso, n\u00e3o irei este ano. Estou mo\u00e7o, n\u00e3o preciso ganhar a vida, posso esperar.<\/p>\n<p>O sr. Alc\u00e2ntara deu a not\u00edcia \u00e0 fam\u00edlia. Um irm\u00e3o de Eul\u00e1lia n\u00e3o se teve que n\u00e3o lan\u00e7asse em rosto \u00e0 irm\u00e3 os seus desd\u00e9ns, e sobretudo a crueldade com que os manifestara.<\/p>\n<p>\u2014 Mas se n\u00e3o gosto dele, e agora? dizia a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>E dizia isso arrebitando o nariz, e com um jeito de ombros, seco, frio, enfarado, amofinado.<\/p>\n<p>\u2014 Ao menos confesse que \u00e9 um mo\u00e7o de talento, insistiu o irm\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o digo que n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 De muito talento.<\/p>\n<p>\u2014 Creio que sim.<\/p>\n<p>\u2014 Se \u00e9! Que bonitos versos que ele faz! E depois n\u00e3o \u00e9 feio. Voc\u00ea dir\u00e1 que o M\u00e1ximo \u00e9 um rapaz feio? \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o digo.<\/p>\n<p>Uma prima, casada, teve para Eul\u00e1lia os mesmos reparos. A essa confessou Eul\u00e1lia que o M\u00e1ximo nunca se declarara deveras, embora lhe mandasse algumas cartas. \u2014 Podia ser ca\u00e7oada de estudante disse ela.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o creio.<\/p>\n<p>\u2014 Podia.<\/p>\n<p>Eul\u00e1lia \u2014 e aqui come\u00e7a a explicar-se o t\u00edtulo deste conto \u2014 Eul\u00e1lia era de um moreno p\u00e1lido. Ou doen\u00e7a, ou melancolia, ou p\u00f3-de-arroz, come\u00e7ou a ficar mais p\u00e1lida depois da heran\u00e7a do Igua\u00e7u. De maneira que, quando o estudante l\u00e1 voltou um m\u00eas depois, admirou-se de a ver, e de certa maneira sentiu-se mais ferido. A palidez de Eul\u00e1lia tinhalhe dado uns trinta versos; porque ele, rom\u00e2ntico acabado, do grupo clor\u00f3tico, amava as mulheres pela falta de sangue e de carnes. Eul\u00e1lia realizara um sonho; ao voltar de Igua\u00e7u o sonho era simplesmente divino.<\/p>\n<p>Isto acabaria aqui mesmo, se M\u00e1ximo n\u00e3o fosse, al\u00e9m de rom\u00e2ntico, dotado de uma delicadeza e de um amor-pr\u00f3prio extraordin\u00e1rios. Essa era a outra fei\u00e7\u00e3o principal dele, a que me d\u00e1 esta novelita; porque se tal n\u00e3o fora&#8230; Mas eu n\u00e3o quero usurpar a a\u00e7\u00e3o do cap\u00edtulo seguinte.<\/p>\n<p>IV \u2014 Quem \u00e9 pobre n\u00e3o tem v\u00edcios. Esta frase ainda ressoava aos ouvidos de M\u00e1ximo, quando j\u00e1 a p\u00e1lida Eul\u00e1lia mostrava-se outra para com ele \u2014 outra cara, outras maneiras, e at\u00e9 outro cora\u00e7\u00e3o. Agora, por\u00e9m, era ele que desdenhava. Em v\u00e3o a filha do sr.<\/p>\n<p>Alc\u00e2ntara, para resgatar o tempo perdido e as justas m\u00e1goas, requebrava os olhos at\u00e9 onde eles podiam ir sem desdouro nem inc\u00f4modo, sorria, fazia o diabo; mas, como n\u00e3o fazia a \u00fanica a\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, que era apagar literalmente o passado, n\u00e3o adiantava uma linha; a situa\u00e7\u00e3o era a mesma.<\/p>\n<p>M\u00e1ximo deixou de freq\u00fcentar a casa algumas semanas depois da volta de Igua\u00e7u, e Eul\u00e1lia voltou as esperan\u00e7as para outro ponto menos nebuloso. N\u00e3o nego que as noivas come\u00e7aram a chover sobre o recente herdeiro, porque negaria a verdade conhecida por tal; n\u00e3o foi chuva, foi tempestade, foi um tuf\u00e3o de noivas, qual mais bela, qual mais prenda da, qual mais disposta a faz\u00ea-lo o mais feliz dos homens. Um antigo companheiro da Escola de Medicina apresentou-o a uma irm\u00e3, realmente galante, D. Felismina. O nome \u00e9 que era feio; mas que \u00e9 um nome? What is a name? como diz a flor dos Capuletos.<\/p>\n<p>\u2014 D. Felismina tem um defeito, disse M\u00e1ximo a uma prima dela, um defeito capital; D.<\/p>\n<p>Felismina n\u00e3o \u00e9 p\u00e1lida, muito p\u00e1lida.<\/p>\n<p>Esta palavra foi um convite \u00e0s p\u00e1lidas. Quem se sentia bastante p\u00e1lida afiava os olhos contra o peito do ex-estudante, que em certo momento achou-se uma esp\u00e9cie de hospital de convalescentes. A que se seguiu logo foi uma D. Rosinha, criatura linda como os amores.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o podes negar que D. Rosinha \u00e9 p\u00e1lida, dizia-lhe um amigo.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, mas n\u00e3o \u00e9 ainda bem p\u00e1lida, quero outra mais p\u00e1lida.<\/p>\n<p>D. Am\u00e9lia, com quem se encontrou um dia no Passeio P\u00fablico, devia realizar o sonho ou o capricho de M\u00e1ximo; era dif\u00edcil ser mais p\u00e1lida. Era filha de um m\u00e9dico, e uma das belezas do tempo. M\u00e1ximo foi apresentado por um parente, e dentro de poucos dias freq\u00fcentava a casa. Am\u00e9lia apaixonou-se logo por ele, n\u00e3o era dif\u00edcil \u2014 j\u00e1 n\u00e3o digo por ser abastado \u2014, mas por ser realmente belo. Quanto ao rapaz, ningu\u00e9m podia saber se ele deveras gostava da mo\u00e7a, ningu\u00e9m lhe ouvia coisa nenhuma. Falava com ela, louvava-lhe os olhos, as m\u00e3os, a boca, as maneiras, e chegou a dizer que a achava muito p\u00e1lida, e nada mais.<\/p>\n<p>\u2014 Ande l\u00e1, disse-lhe enfim um amigo, desta vez creio que encontraste a palidez mestra.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda n\u00e3o, tornou M\u00e1ximo; D. Am\u00e9lia \u00e9 p\u00e1lida, mas eu procuro outra mulher mais p\u00e1lida.<\/p>\n<p>\u2014 Imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel. Quem pode dizer que \u00e9 imposs\u00edvel uma coisa ou outra? N\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel; ando atr\u00e1s da mulher mais p\u00e1lida do universo; estou mo\u00e7o, posso esper\u00e1-la.<\/p>\n<p>Um m\u00e9dico, das rela\u00e7\u00f5es do ex-estudante, come\u00e7ou a desconfiar que ele tivesse algum transtorno, perturba\u00e7\u00e3o, qualquer coisa que n\u00e3o fosse a integridade mental; mas, comunicando essa suspeita a algu\u00e9m, achou a maior resist\u00eancia em crer-lha.<\/p>\n<p>\u2014 Qual doido! respondeu a pessoa. Essa hist\u00f3ria de mulheres p\u00e1lidas \u00e9 ainda o despeito que lhe ficou da primeira, e um pouco de fantasia de poeta. Deixe passar mais uns meses, e v\u00ea-lo-emos coradinho como uma pitanga.<\/p>\n<p>Passaram-se quatro meses; apareceu uma Justina, vi\u00fava, que tratou de apoderar-se logo do cora\u00e7\u00e3o do rapaz, o que lhe custaria tanto menos, quanto que era talvez a criatura mais p\u00e1lida do universo. N\u00e3o s\u00f3 p\u00e1lida de si mesma, como p\u00e1lida tamb\u00e9m pelo contraste das roupas de luto. M\u00e1ximo n\u00e3o encobriu a forte impress\u00e3o que a dama lhe deixou. Era uma senhora de vinte e um a vinte e dois anos, alta, fina, de um talhe elegante e esbelto, e umas fei\u00e7\u00f5es de gravura. P\u00e1lida, mas sobretudo p\u00e1lida.<\/p>\n<p>Ao fim de quinze dias o M\u00e1ximo freq\u00fcentava a casa com uma pontualidade de alma ferida, os parentes de Justina trataram de escolher as prendas nupciais, os amigos de M\u00e1ximo anunciaram o casamento pr\u00f3ximo, as outras candidatas retiraram-se. No melhor da festa, quando se imaginava que ele ia pedi-la, M\u00e1ximo afastou-se da casa. Um amigo lan\u00e7ou-lhe em rosto t\u00e3o singular procedimento.<\/p>\n<p>\u2014 Qual? disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Dar esperan\u00e7as a uma senhora t\u00e3o distinta&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o dei esperan\u00e7as a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 Mas enfim n\u00e3o podes negar que \u00e9 bonita? \u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Que te ama? \u2014 N\u00e3o digo que n\u00e3o, mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Creio que tamb\u00e9m gostas dela&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pode ser que sim.<\/p>\n<p>\u2014 Pois ent\u00e3o? \u2014 N\u00e3o \u00e9 bem p\u00e1lida; eu quero a mulher mais p\u00e1lida do universo.<\/p>\n<p>Como estes fatos se reproduzissem, a id\u00e9ia de que M\u00e1ximo estava doido foi passando de um em um, e dentro em pouco era opini\u00e3o. O tempo parecia confirmar a suspeita. A condi\u00e7\u00e3o da palidez que ele exigia da noiva, tomou-se p\u00fablica. Sobre a causa da monomania disse-se que era Eul\u00e1lia, uma mo\u00e7a da Rua dos Arcos, mas acrescentou-se que ele ficara assim porque o pai da mo\u00e7a recusara o seu consentimento, quando ele era pobre; e dizia-se mais que Eul\u00e1lia tamb\u00e9m estava doida. Lendas, lendas. A verdade \u00e9 que nem por isso deixava de aparecer uma ou outra pretendente ao cora\u00e7\u00e3o de M\u00e1ximo; mas ele recusava-as todas, asseverando que a mais p\u00e1lida ainda n\u00e3o havia aparecido.<\/p>\n<p>M\u00e1ximo padecia do cora\u00e7\u00e3o. A mol\u00e9stia agravou-se rapidamente; e foi ent\u00e3o que duas ou tr\u00eas candidatas mais intr\u00e9pidas resolveram-se a queimar todos os cartuchos para conquistar esse mesmo cora\u00e7\u00e3o, embora doente, ou parce que&#8230; Mas, em v\u00e3o! M\u00e1ximo achou-as muito p\u00e1lidas, mas ainda menos p\u00e1lidas do que seria a mulher mais p\u00e1lida do universo.<\/p>\n<p>Vieram os parentes de Igua\u00e7u; o tio major prop\u00f4s uma viagem \u00e0 Europa; ele por\u00e9m recusou. \u2014 Para mim, disse ele, \u00e9 claro que acharei a mulher mais p\u00e1lida do mundo, mesmo sem sair do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas semanas, uma vizinha dele, em Andara\u00ed, mo\u00e7a t\u00edsica, e p\u00e1lida como as t\u00edsicas, prop\u00f4s-lhe rindo, de um riso triste, que se casassem, porque ele n\u00e3o acharia mulher mais p\u00e1lida.<\/p>\n<p>\u2014 Acho, acho; mas se n\u00e3o achar, caso com a senhora.<\/p>\n<p>A vizinha morreu da\u00ed a duas semanas; M\u00e1ximo levou-a ao cemit\u00e9rio.<\/p>\n<p>M\u00eas e meio depois, uma tarde, antes de jantar, estando o pobre rapaz a escrever uma carta para o interior, foi acometido de uma congest\u00e3o pulmonar, e caiu. Antes de cair teve tempo de murmurar.<\/p>\n<p>\u2014 P\u00e1lida&#8230; p\u00e1lida&#8230;<\/p>\n<p>Uns pensavam que ele se referia \u00e0 morte, como a noiva mais p\u00e1lida, que ia enfim desposar, outros, acreditaram que eram saudades da dama t\u00edsica, outros que de Eul\u00e1lia, etc&#8230; Alguns cr\u00eaem simplesmente que ele estava doido; e esta opini\u00e3o, posto que menos rom\u00e2ntica, \u00e9 talvez a mais verdadeira. Em todo caso, foi assim que ele morreu, pedindo uma p\u00e1lida, e abra\u00e7ando-se \u00e0 p\u00e1lida morte. Pallida mors, etc.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de assis I Rangeu enfim o \u00faltimo degrau da escada ao peso do vasto corpo do major Bento. O major deteve-se um minuto, respirou \u00e0 larga, como se acabasse de subir, n\u00e3o a escada do sobrinho, mas a de Jac\u00f3, e enfiou pelo corredor adiante. 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