{"id":113584,"date":"2017-03-14T18:08:01","date_gmt":"2017-03-14T20:08:01","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=113584"},"modified":"2017-03-14T18:08:01","modified_gmt":"2017-03-14T20:08:01","slug":"a-melhor-das-noivas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-melhor-das-noivas","title":{"rendered":"A Melhor das Noivas"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>O sorriso dos velhos \u00e9 porventura uma das coisas mais ador\u00e1veis do mundo. N\u00e3o o era por\u00e9m o de Jo\u00e3o Barbosa no \u00faltimo dia de setembro de 1868, riso alvar e grotesco, riso sem pureza nem dignidade; riso de homem de setenta e tr\u00eas anos que pensa em contrair segundas n\u00fapcias. Nisso pensava aquele velho, ali\u00e1s honesto e bom; disso vivia desde algumas horas antes. Eram oito da noite: ele entrara em casa com o mencionado riso nos l\u00e1bios.<\/p>\n<p>\u2014 Muito alegre vem hoje o senhor! \u2014 Sim? \u2014 Viu passarinho verde? \u2014 Verde n\u00e3o, D. Joana, mas branco, um branco de leite, puro e de encher o olho, como os quitutes que voc\u00ea me manda preparar \u00e0s vezes.<\/p>\n<p>\u2014 Querem ver que \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Isso mesmo, D. Joana.<\/p>\n<p>\u2014 Isso qu\u00ea? Jo\u00e3o Barbosa n\u00e3o respondeu; lambeu os bei\u00e7os, piscou os olhos, e deixou-se cair no canap\u00e9. A luz do candelabro bateu-lhe em cheio no rosto, que parecia uma mistura de Saturno e s\u00e1tiro. Jo\u00e3o Barbosa desabotoou a sobrecasaca e deu sa\u00edda a um suspiro, aparentemente o \u00faltimo que lhe ficara de outros tempos. Era triste v\u00ea-lo; era cruel adivinh\u00e1-lo. D. Joana n\u00e3o o adivinhou.<\/p>\n<p>Esta D. Joana era uma senhora de quarenta e oito anos, rija e maci\u00e7a, que durante dez anos dava ao mundo o espet\u00e1culo de um grande desprezo da opini\u00e3o. Contratada para tomar conta da casa de Jo\u00e3o Barbosa, logo depois de enviuvar, entrou ali em luta com os parentes do velho, que eram dois, os quais fizeram tudo para exclu\u00ed-la sem conseguirem nada. Os dois parentes, os vizinhos, finalmente os conhecidos criam firmemente que D.<\/p>\n<p>Joana aceitara de Jo\u00e3o Barbosa uma posi\u00e7\u00e3o equ\u00edvoca, embora lucrativa. Era cal\u00fania; D.<\/p>\n<p>Joana sabia o que diziam dela, e n\u00e3o arredava p\u00e9. A raz\u00e3o era que, posto n\u00e3o transpusesse uma linha das fronteiras estabelecidas no contrato verbal que precedeu a sua entrada ali, contudo ela esperava ser contemplada nas \u00faltimas disposi\u00e7\u00f5es de Jo\u00e3o Barbosa; e valia a pena, em seu entender, afrontar os ditos do mundo para receber no fim de alguns anos uma d\u00fazia de ap\u00f3lices ou uma casa ou alguma coisa equivalente.<\/p>\n<p>Verdade \u00e9 que o legado, se fosse de certa consist\u00eancia, podia confirmar as suspeitas da sociedade; D. Joana, entretanto, professava a m\u00e1xima extremamente salutar de que o essencial \u00e9 andar-se quente, embora os outros se riam.<\/p>\n<p>Riam-se os outros, mas de c\u00f3lera, e alguns de inveja. Jo\u00e3o Barbosa, antigo magistrado, herdara de seu pai e de um tio quatro ou cinco fazendas, que transferiu a outros, convertendo seus cabedais em t\u00edtulos do governo e v\u00e1rios pr\u00e9dios. F\u00ea-lo logo depois de vi\u00favo, e passou a residir na corte definitivamente. Perdendo um filho que tinha, achou-se quase s\u00f3; quase, porque ainda lhe restavam dois sobrinhos, que o rodeavam de muitas e variadas aten\u00e7\u00f5es; Jo\u00e3o Barbosa suspeitava que os dois sobrinhos estimavam ainda mais as ap\u00f3lices do que a ele e recusou todas as ofertas que lhe faziam para aceitar-lhes casa.<\/p>\n<p>Um dia lembrou-se de inserir nos jornais um an\u00fancio declarando precisar de uma senhora de certa idade, morigerada, que quisesse tomar conta da casa de um homem vi\u00favo. D.<\/p>\n<p>Joana tinha apenas trinta e oito anos; confessou-lhe quarenta e quatro, e tomou posse do cargo. Os sobrinhos, quando souberam disto, apresentaram a Jo\u00e3o Barbosa toda a sorte de considera\u00e7\u00f5es que podem nascer no c\u00e9rebro de herdeiros em ocasi\u00e3o de perigo. O velho ouviu cerca de oito a dez tomos de tais considera\u00e7\u00f5es, mas ateve-se \u00e0 primeira id\u00e9ia, e os sobrinhos n\u00e3o tiveram outro rem\u00e9dio mais que aceitar a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>D. Joana nunca se atrevera a desejar outra coisa mais que ser contemplada no testamento de Jo\u00e3o Barbosa; mas isso desejava-o ardentemente. A melhor das m\u00e3es n\u00e3o tem no cora\u00e7\u00e3o mais soma de ternura do que ela mostrava ter para servir e cuidar do opulento septuagen\u00e1rio. Ela cuidava do caf\u00e9 matinal, escolhia as divers\u00f5es, lia-lhe os jornais, contava-lhe as anedotas do quarteir\u00e3o, tomava-lhe ponto \u00e0s meias, inventava guisados que melhor pudessem ajud\u00e1-lo a carregar a cruz da vida. Conscienciosa e leal, n\u00e3o lhe dava alimenta\u00e7\u00e3o debilitante; pelo contr\u00e1rio punha especial empenho em que lhe n\u00e3o faltasse nunca o fil\u00e9 sang\u00fcento e o bom c\u00e1lice de Porto. Um casal n\u00e3o viveria mais unido.<\/p>\n<p>Quando Jo\u00e3o Barbosa adoecia, D. Joana era tudo; m\u00e3e, esposa, irm\u00e3, enfermeira; \u00e0s vezes era m\u00e9dico. Deus me perdoe! Parece que chegaria a ser padre, se ele viesse repentinamente a carecer do minist\u00e9rio espiritual. O que ela fazia nessas ocasi\u00f5es pediria um volume, e eu disponho de poucas p\u00e1ginas. Pode-se dizer por honra da humanidade que o benef\u00edcio n\u00e3o ca\u00eda em terreno est\u00e9ril. Jo\u00e3o Barbosa agradeceu-lhe os cuidados n\u00e3o s\u00f3 com boas palavras, mas tamb\u00e9m bons vestidos ou boas j\u00f3ias. D. Joana, quando ele lhe apresentava esses agradecimentos palp\u00e1veis, ficava envergonhada e recusava, mas o velho insistia tanto, que era falta de polidez recusar.<\/p>\n<p>Para torn\u00e1-la mais completa e necess\u00e1ria \u00e0 casa, D. Joana n\u00e3o adoecia nunca; n\u00e3o padecia de nervos, nem de enxaqueca, nem de coisa nenhuma; era uma mulher de ferro.<\/p>\n<p>Acordava com a aurora e punha logo os escravos a p\u00e9; inspecionava tudo, ordenava tudo, dirigia tudo. Jo\u00e3o Barbosa n\u00e3o tinha outro cuidado mais que viver. Os dois sobrinhos tentaram alguma vez separar da casa uma mulher que eles temiam pela influ\u00eancia que j\u00e1 tinha e pelo desenlace poss\u00edvel de semelhante situa\u00e7\u00e3o. Iam levar os boatos da rua aos ouvidos do tio.<\/p>\n<p>\u2014 Dizem isso? perguntava este.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, senhor, dizem isso, e n\u00e3o parece bonito, na sua idade, estar exposto a&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A coisa nenhuma, interrompia.<\/p>\n<p>\u2014 Nenhuma! \u2014 Ou a pouca coisa. Dizem que eu nutro certa ordem de afetos por aquela santa mulher! N\u00e3o \u00e9 verdade, mas n\u00e3o seria imposs\u00edvel, e sobretudo n\u00e3o era feio.<\/p>\n<p>Esta era a resposta de Jo\u00e3o Barbosa. Um dos sobrinhos, vendo que nada alcan\u00e7ava, resolvera desligar seus interesses dos do outro, e adotou o plano de aprovar o procedimento do velho, louvando-lhe as virtudes de D. Joana e rodeando-a de seu respeito, que a princ\u00edpio arrastou a pr\u00f3pria caseira. O plano teve algum efeito, porque Jo\u00e3o Barbosa francamente lhe declarou que ele n\u00e3o era t\u00e3o ingrato como o outro.<\/p>\n<p>\u2014 Ingrato, eu? seria um monstro, respondeu o sobrinho Jos\u00e9 com um gesto de indigna\u00e7\u00e3o mal contida.<\/p>\n<p>Tal era a situa\u00e7\u00e3o respectiva entre Jo\u00e3o Barbosa e D. Joana, quando na referida noite de setembro entrou aquele em casa, com cara de quem tinha visto passarinho verde. D.<\/p>\n<p>Joana tinha dito, por brinco: \u2014 Querem ver que \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>Ao que ele respondeu: \u2014 Isso mesmo.<\/p>\n<p>\u2014 Isso mesmo, qu\u00ea? repetiu D. Joana da\u00ed a alguns minutos.<\/p>\n<p>\u2014 Isso que a senhora pensou.<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu n\u00e3o pensei nada \u2014 Pois fez mal, D. Joana.<\/p>\n<p>\u2014 Mas ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 D. Joana, d\u00ea suas ordens para o ch\u00e1 D. Joana obedeceu um pouco magoada. Era a primeira vez que Jo\u00e3o Barbosa lhe negava uma confid\u00eancia. Ao mesmo tempo que isso a magoava, fazia-a suspeitosa; tratava-se talvez de alguma que viria prejudic\u00e1-la.<\/p>\n<p>Servindo o ch\u00e1, depois que Jo\u00e3o Barbosa se despira, apressou-se a caseira, na forma de costume, a encher-lhe a x\u00edcara, a escolher-lhe as fatias mais tenras, a abrir-lhe o guardanapo, com a mesma solicitude de dez anos. Haveria por\u00e9m uma sombra de acanhamento entre ambos, e a palestra foi menos seguida e menos alegre que nas outras noites.<\/p>\n<p>Durante os primeiros dias de outubro, Jo\u00e3o Barbosa trazia o mesmo ar singular, que tanto impressionara a caseira. Ele ria a mi\u00fado, ria para si, ia duas vezes \u00e0 rua, acordava mais cedo, falava de v\u00e1rias altera\u00e7\u00f5es em casa. D. Joana come\u00e7ara a suspeitar a causa verdadeira daquela mudan\u00e7a. Gelou-se-lhe o sangue e o terror se apoderou de seu esp\u00edrito. Duas vezes procurou encaminhar a conversa ao ponto essencial, mas Jo\u00e3o Barbosa andava t\u00e3o fora de si que n\u00e3o ouvia sequer o que ela dizia. Ao cabo de quinze dias, conclu\u00eddo o almo\u00e7o, Jo\u00e3o Barbosa disse-lhe que a acompanhasse ao gabinete.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 agora! pensou ela; vou saber de que se trata.<\/p>\n<p>Passou ao gabinete.<\/p>\n<p>Ali chegando, sentou-se Jo\u00e3o Barbosa e disse a D. Joana que fizesse o mesmo. Era conveniente; as pernas da boa mulher tremiam como varas.<\/p>\n<p>\u2014 Vou dar-lhe a maior prova de estima, disse o septuagen\u00e1rio.<\/p>\n<p>D. Joana curvou-se.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 aqui em casa h\u00e1 dez anos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que me parecem dez meses.<\/p>\n<p>\u2014 Obrigado, D. Joana! H\u00e1 dez anos que eu tive a boa id\u00e9ia de procurar uma pessoa que me tratasse da casa, e a boa fortuna de encontrar na senhora a mais consumada&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Falemos de outra coisa! \u2014 Sou justo; devo ser justo.<\/p>\n<p>\u2014 Adiante.<\/p>\n<p>\u2014 Louvo-lhe a mod\u00e9stia; \u00e9 o belo realce de suas nobres virtudes.<\/p>\n<p>\u2014 Vou-me embora.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o v\u00e1; ou\u00e7a o resto. Est\u00e1 contente comigo? \u2014 Se estou contente! Onde poderia achar-me melhor? O senhor tem sido para mim um pai&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Um pai?&#8230; interrompeu Jo\u00e3o Barbosa fazendo uma careta; falemos de outra coisa.<\/p>\n<p>Saiba D. Joana que n\u00e3o a quero mais deixar.<\/p>\n<p>\u2014 Quem pensa nisso? \u2014 Ningu\u00e9m; mas eu devia diz\u00ea-lo. N\u00e3o a quero deixar, estar\u00e1 a senhora disposta a fazer o mesmo? D. Joana teve uma vertigem, um sonho, um relance do Para\u00edso; ela viu ao longe um padre, um altar, dois noivos, uma escritura, um testamento, uma infinidade de coisas agrad\u00e1veis e quase sublimes.<\/p>\n<p>\u2014 Se estou disposta! exclamou ela. Quem se lembraria de dizer o contr\u00e1rio? Estou disposta a acabar aqui os meus dias; mas devo dizer que a id\u00e9ia de uma alian\u00e7a&#8230; sim&#8230;<\/p>\n<p>este casamento&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O casamento h\u00e1 de fazer-se! interrompeu Jo\u00e3o Barbosa batendo uma palmada no joelho. Parece-lhe mau? \u2014 Oh! n\u00e3o&#8230; mas, seus sobrinhos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Meus sobrinhos s\u00e3o dois capad\u00f3cios, de quem n\u00e3o fa\u00e7o caso.<\/p>\n<p>D. Joana n\u00e3o contestou essa opini\u00e3o de Jo\u00e3o Barbosa, e este, serenado o \u00e2nimo, readquiriu o sorriso de bem-aventuran\u00e7a que, durante as duas \u00faltimas semanas, o distinguia do resto dos mortais. D. Joana n\u00e3o se atrevia a olhar para ele e brincava com as pontas do mantelete que trazia. Correram assim dois ou tr\u00eas minutos.<\/p>\n<p>\u2014 Pois \u00e9 o que lhe digo, continuou Jo\u00e3o Barbosa, o casamento h\u00e1 de fazer-se. Sou maior, n\u00e3o devo satisfa\u00e7\u00e3o a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 L\u00e1 isso \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, ainda que as devesse, poderia eu hesitar \u00e0 vista&#8230; oh! \u00e0 vista da incompar\u00e1vel gra\u00e7a daquela&#8230; v\u00e1 l\u00e1.. de D. Lucinda? Se um condor, segurando D. Joana em suas garras possantes, subisse com ela at\u00e9 perto do sol, de l\u00e1 a despenhasse \u00e0 terra, menor seria a queda do que a que lhe produziu a \u00faltima palavra de Jo\u00e3o Barbosa. A raz\u00e3o da queda n\u00e3o era, na verdade, aceit\u00e1vel, porquanto nem ela at\u00e9 ent\u00e3o sonhara para si a honra de desposar o amo, nem este, nas poucas palavras que lhe dissera antes, lhe fizera crer claramente tal coisa. Mas o dem\u00f4nio da cobi\u00e7a produz maravilhas dessas, e a imagina\u00e7\u00e3o da caseira via as coisas mais longe de que elas podiam ir. Creu um instante que o opulento septuagen\u00e1rio a destinava para sua esposa, e forjou logo um mundo de esperan\u00e7as e realidades que o sopro de uma s\u00f3 palavra dissolveu e dispersou no ar.<\/p>\n<p>\u2014 Lucinda! repetiu ela quando p\u00f4de haver de novo o uso da voz. Quem \u00e9 essa D.<\/p>\n<p>Lucinda? \u2014 Um dos anjos do c\u00e9u enviado pelo Senhor, a fim de fazer a minha felicidade na terra.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 ca\u00e7oando! disse D. Joana atando-se a um fragmento de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Quem dera que fosse ca\u00e7oada! replicou Jo\u00e3o Barbosa. Se tal fosse, continuaria eu a viver tranq\u00fcilo, sem conhecer a suprema ventura, \u00e9 certo, mas tamb\u00e9m sem padecer abalos de cora\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o \u00e9 certo&#8230; \u2014 Cert\u00edssimo.<\/p>\n<p>D. Joana estava p\u00e1lida.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Barbosa continuou: \u2014 N\u00e3o pense que \u00e9 alguma menina de quinze anos; \u00e9 uma senhora feita; tem seus trinta e dois feitos; \u00e9 vi\u00fava; boa fam\u00edlia&#8230;<\/p>\n<p>O paneg\u00edrico da noiva continuou, mas D. Joana j\u00e1 n\u00e3o ouvia nada. posto nunca meditasse em fazer-se mulher de Jo\u00e3o Barbosa via claramente que a resolu\u00e7\u00e3o deste viria prejudic\u00e1la: nada disse e ficou triste. O septuagen\u00e1rio, quando expandiu toda a alma em elogios \u00e0 pessoa que escolhera para ocupar o lugar da esposa morta h\u00e1 t\u00e3o longos anos, reparou na tristeza de D. Joana e apressou-se a anim\u00e1-la.<\/p>\n<p>\u2014 Que tristeza \u00e9 essa, D. Joana? disse ele. Isto n\u00e3o altera nada a sua posi\u00e7\u00e3o. Eu j\u00e1 agora n\u00e3o a deixo; h\u00e1 de ter aqui a sua casa at\u00e9 que Deus a leve para si.<\/p>\n<p>\u2014 Quem sabe? suspirou ela.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Barbosa fez-lhe os seus mais vivos protestos, e tratou de vestir-se para sair. Saiu, e dirigiu-se da Rua da Ajuda, onde morava, para a dos Arcos, onde morava a dama de seus pensamentos, futura esposa e dona de sua casa.<\/p>\n<p>D. Lucinda G&#8230; tinha trinta e quatro anos para trinta e seis, mas parecia ter mais, t\u00e3o severo era o rosto, e t\u00e3o de matrona os modos. Mas a gravidade ocultava um grande trabalho interior, uma luta dos meios que eram escassos, com os desejos, que eram infinitos.<\/p>\n<p>Vi\u00fava desde os vinte e oito anos, de um oficial de marinha, com quem se casara aos dezessete para fazer a vontade aos pais, D. Lucinda n\u00e3o vivera nunca segundo as ambi\u00e7\u00f5es secretas de seu esp\u00edrito. Ela amava a vida suntuosa, e apenas tinha com que passar modestamente; cobi\u00e7ava as grandezas sociais e teve de contentar-se com uma posi\u00e7\u00e3o med\u00edocre. Tinha alguns parentes, cuja posi\u00e7\u00e3o e meios eram iguais aos seus, e n\u00e3o podiam portanto dar-lhe quanto ela desejava. Vivia sem esperan\u00e7a nem consola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um dia, por\u00e9m, surgiu no horizonte a vela salvadora de Jo\u00e3o Barbosa. Apresentado \u00e0 vi\u00fava do oficial de marinha, em uma loja da Rua do Ouvidor, ficou t\u00e3o cativo de suas maneiras e das gra\u00e7as que lhe sobreviviam, t\u00e3o cativo que pediu a honra de travar rela\u00e7\u00f5es mais estreitas. D. Lucinda era mulher, isto \u00e9, adivinhou o que se passara no cora\u00e7\u00e3o do septuagen\u00e1rio, antes mesmo que este desse acordo de si. Uma esperan\u00e7a iluminou o cora\u00e7\u00e3o da vi\u00fava; aceitou-a como um presente do c\u00e9u.<\/p>\n<p>Tal foi a origem do amor de Jo\u00e3o Barbosa.<\/p>\n<p>R\u00e1pido foi o namoro, se namoro podia haver entre os dois vi\u00favos. Jo\u00e3o Barbosa, apesar de seus cabedais, que o faziam noivo singularmente aceit\u00e1vel, n\u00e3o se atrevia a dizer \u00e0 dama de seus pensamentos tudo o que lhe tumultuava no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ela ajudou-o.<\/p>\n<p>Um dia, achando-se ele embebido a olhar para ela, D. Lucinda perguntou-lhe graciosamente se nunca a tinha visto.<\/p>\n<p>\u2014 Vi-a h\u00e1 muito.<\/p>\n<p>\u2014 Como assim? \u2014 N\u00e3o sei&#8230; balbuciou Jo\u00e3o Barbosa.<\/p>\n<p>D. Lucinda suspirou.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Barbosa suspirou tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>No dia seguinte, a vi\u00fava disse a Jo\u00e3o Barbosa que dentro de pouco tempo se despediria dele. Jo\u00e3o Barbosa pensou cair da cadeira abaixo.<\/p>\n<p>\u2014 Retira-se da corte? \u2014 Vou para o Norte.<\/p>\n<p>\u2014 Tem l\u00e1 parentes? \u2014 Um.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Barbosa refletiu alguns instantes. Ela espreitou a reflex\u00e3o com uma curiosidade de c\u00e3o rafeiro.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o h\u00e1 de ir! exclamou o velho da\u00ed a pouco.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o? \u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Como assim? Jo\u00e3o Barbosa abafou uma pontada reum\u00e1tica, ergueu-se, curvou-se diante de D. Lucinda e pediu-lhe a m\u00e3o. A vi\u00fava n\u00e3o corou; mas, posto esperasse aquilo mesmo, estremeceu de j\u00fabilo.<\/p>\n<p>\u2014 Que me responde? perguntou ele.<\/p>\n<p>\u2014 Recuso.<\/p>\n<p>\u2014 Recusa! \u2014 Oh! com muita dor do meu cora\u00e7\u00e3o, mas recuso! Jo\u00e3o Barbosa tornou a sentar-se; estava p\u00e1lido.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel! disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Mas por qu\u00ea? \u2014 Por que&#8230; por que, infelizmente, o senhor \u00e9 rico.<\/p>\n<p>\u2014 Que tem? \u2014 Seus parentes dir\u00e3o que eu lhe armei uma cilada para enriquecer&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Meus parentes! Dois biltres, que n\u00e3o valem a m\u00ednima aten\u00e7\u00e3o! Que tem que digam isso? \u2014 Tem tudo. Al\u00e9m disso&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que mais? \u2014 Tenho parentes meus, que n\u00e3o h\u00e3o de levar a bem este casamento; dir\u00e3o a mesma coisa, e eu ficarei&#8230; N\u00e3o falemos em semelhante coisa! Jo\u00e3o Barbosa estava aflito e ao mesmo tempo dominado pela eleva\u00e7\u00e3o de sentimentos da interessante vi\u00fava. O que ele ent\u00e3o esperdi\u00e7ou em eloq\u00fc\u00eancia e racioc\u00ednio encheria meia biblioteca; lembrou-lhe tudo: a superioridade de ambos, sua independ\u00eancia, o desprezo que mereciam as opini\u00f5es do mundo, sobretudo as opini\u00f5es dos interessados; finalmente, pintou-lhe o estado de seu cora\u00e7\u00e3o. Este \u00faltimo argumento pareceu enternecer a vi\u00fava.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sou mo\u00e7o, dizia ele, mas a mocidade&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A mocidade n\u00e3o est\u00e1 na certid\u00e3o de batismo, acudiu filosoficamente D. Lucinda, est\u00e1 no sentimento, que \u00e9 tudo; h\u00e1 mo\u00e7os decr\u00e9pitos, e homens maduros eternamente jovens.<\/p>\n<p>\u2014 Isso, isso&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas, h\u00e1 de ceder! Eu lho pe\u00e7o; unamo-nos e deixemos falar os invejosos! D. Lucinda resistiu pouco mais. O casamento foi tratado entre os dois, convencionando-se que se verificaria o mais cedo poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Barbosa era homem digno de apre\u00e7o; n\u00e3o fazia as coisas por metade. Quis arranjar as coisas de modo que os dois sobrinhos nada tivessem do que ele deixasse quando viesse a morrer, se tal desastre tinha de acontecer \u2014 coisa de que o velho n\u00e3o estava muito convencido.<\/p>\n<p>Tal era a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Barbosa fez a visita costumada \u00e0 interessante noiva. Era matinal demais; D.<\/p>\n<p>Lucinda, por\u00e9m, n\u00e3o podia dizer nada que viesse a desagradar a um homem que t\u00e3o galhardamente se mostrava com ela.<\/p>\n<p>A visita nunca ia al\u00e9m de duas horas; era passada em coisas insignificantes, entremeada de suspiros do noivo, e muita faceirice dela.<\/p>\n<p>\u2014 O que me estava reservado nestas alturas! dizia Jo\u00e3o Barbosa ao sair de l\u00e1.<\/p>\n<p>Naquele dia, logo que ele saiu de casa, D. Joana tratou de examinar friamente a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o podia haver pior para ela. Era claro que, embora Jo\u00e3o Barbosa n\u00e3o a despedisse logo, seria compelido a faz\u00ea-lo pela mulher nos primeiros dias do casamento, ou talvez antes. Por outro lado, desde que ele devesse carinhos a algu\u00e9m mais que n\u00e3o a ela somente, sua gratid\u00e3o viria a diminuir muito, e com a gratid\u00e3o o legado prov\u00e1vel.<\/p>\n<p>Era preciso achar um rem\u00e9dio.<\/p>\n<p>Qual? Nisso gastou D. Joana toda a manh\u00e3 sem achar solu\u00e7\u00e3o nenhuma, ao menos solu\u00e7\u00e3o que prestasse. Pensou em v\u00e1rias coisas, todas impratic\u00e1veis ou arriscadas e terr\u00edveis para ela.<\/p>\n<p>Quando Jo\u00e3o Barbosa voltou para casa, \u00e0s tr\u00eas horas da tarde, achou-a triste e calada.<\/p>\n<p>Indagou o que era; ela respondeu com algumas palavras soltas, mas sem clareza, de maneira que ele ficaria na mesma, se n\u00e3o tivesse havido a cena da manh\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 lhe disse, D. Joana, que a senhora n\u00e3o perde nada com a minha nova situa\u00e7\u00e3o. O lugar pertence-lhe.<\/p>\n<p>O olhar de dignidade ofendida que ela lhe lan\u00e7ou foi tal que ele n\u00e3o achou nenhuma r\u00e9plica. Entre si fez um elogio \u00e0 caseira.<\/p>\n<p>\u2014 Tem-me afei\u00e7\u00e3o, coitada! \u00e9 uma alma dotada de muita eleva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>D. Joana n\u00e3o o serviu com menos carinho nesse e no dia seguinte; era a mesma pontualidade e solicitude. A tristeza por\u00e9m era tamb\u00e9m a mesma e isto desconsolava sobremodo o noivo de D. Lucinda, cujo principal desejo era faz\u00ea-las felizes ambas.<\/p>\n<p>O sobrinho Jos\u00e9, que tivera o bom gosto de cortar os la\u00e7os que o prendiam ao outro, desde que viu serem in\u00fateis os esfor\u00e7os para separar D. Joana de casa, n\u00e3o deixava de ali ir a mi\u00fado tomar a b\u00ean\u00e7\u00e3o ao tio e receber alguma coisa de quando em quando.<\/p>\n<p>Acertou de ir alguns dias depois da revela\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Barbosa. N\u00e3o o achou em casa, mas D. Joana estava, e ele em tais circunst\u00e2ncias n\u00e3o deixava de se demorar a louvar o tio, na esperan\u00e7a de que alguma coisa chegasse aos ouvidos deste. Naquele dia notou que D. Joana n\u00e3o tinha a alegria do costume.<\/p>\n<p>Interrogada por ele, D. Joana respondeu: \u2014 N\u00e3o \u00e9 nada&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Alguma coisa h\u00e1 de ser, dar-se-\u00e1 caso que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que meu tio esteja doente? \u2014 Antes fosse isso! \u2014 Que ou\u00e7o? D. Joana mostrou-se arrependida do que dissera e metade do arrependimento era sincero, metade fingido. N\u00e3o tinha grande certeza da discri\u00e7\u00e3o do rapaz; mas via bem para que lado iam seus interesses. Jos\u00e9 tanto insistiu em saber do que se tratava que ela n\u00e3o hesitou em dizer-lhe tudo, debaixo de palavra de honra e no mais inviol\u00e1vel segredo.<\/p>\n<p>\u2014 Ora veja, concluiu ela, se ao saber que essa senhora trata de enganar o nosso bom amigo para haver-lhe a fortuna&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o diga mais, D. Joana! interrompeu Jos\u00e9 fulo de c\u00f3lera.<\/p>\n<p>\u2014 Que vai fazer? \u2014 Verei, verei&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Oh! n\u00e3o me comprometa! \u2014 J\u00e1 lhe disse que n\u00e3o; saberei desfazer a trama da vi\u00fava. Ela veio aqui alguma vez? \u2014 N\u00e3o, mas consta-me que h\u00e1 de vir domingo jantar.<\/p>\n<p>\u2014 Virei tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 Pelo amor de Deus&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Descanse! Jos\u00e9 via o perigo tanto como D. Joana; s\u00f3 n\u00e3o viu que ela lhe contara tudo, para hav\u00ea-lo de seu lado e faz\u00ea-lo trabalhar por desfazer um la\u00e7o quase feito. O medo d\u00e1 \u00e0s vezes coragem, e um dos maiores medos do mundo \u00e9 o de perder uma heran\u00e7a. Jos\u00e9 sentiu-se resoluto a empregar todos os esfor\u00e7os para obstar o casamento do tio.<\/p>\n<p>D. Lucinda foi efetivamente jantar em casa de Jo\u00e3o Barbosa. Este n\u00e3o cabia em si de contente desde que se levantou. Quando D. Joana foi levar-lhe o caf\u00e9 do costume, ele desfez-se em elogios \u00e0 noiva.<\/p>\n<p>\u2014 A senhora vai v\u00ea-la, D. Joana, vai ver o que \u00e9 uma pessoa digna de todos os respeitos e merecedora de uma afei\u00e7\u00e3o nobre e profunda.<\/p>\n<p>\u2014 Quer mais a\u00e7\u00facar? \u2014 N\u00e3o. Que gra\u00e7a! que maneiras, que cora\u00e7\u00e3o! N\u00e3o imagina que tesouro \u00e9 aquela mulher! Confesso que estava longe de suspeitar t\u00e3o raro conjunto de dotes morais.<\/p>\n<p>Imagine&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Olhe que o caf\u00e9 esfria&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o faz mal. Imagine&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Creio que h\u00e1 gente de fora. Vou ver.<\/p>\n<p>D. Joana saiu; Jo\u00e3o Barbosa ficou pensativo.<\/p>\n<p>\u2014 Coitada! A id\u00e9ia de que vai perder a minha estima n\u00e3o a deixa um s\u00f3 instante. In petto n\u00e3o aprova talvez este casamento, mas n\u00e3o se atreveria nunca a diz\u00ea-lo. \u00c9 uma alma extremamente elevada! D. Lucinda apareceu perto das quatro horas. Ia luxuosamente vestida, gra\u00e7as a algumas d\u00edvidas feitas \u00e0 conta dos futuros cabedais. A vantagem daquilo era n\u00e3o parecer que Jo\u00e3o Barbosa a tirava do nada.<\/p>\n<p>Passou-se o jantar sem incidente nenhum; pouco depois de oito horas, D. Lucinda retirouse deixando encantado o noivo. D. Joana, se n\u00e3o fossem as circunst\u00e2ncias apontadas, devia ficar igualmente namorada da vi\u00fava, que a tratou com uma bondade, uma distin\u00e7\u00e3o verdadeiramente ador\u00e1veis. Era talvez c\u00e1lculo; D. Lucinda queria ter por si todos os votos, e sabia que o da boa velha tinha alguma considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto, o sobrinho de Jo\u00e3o Barbosa, que tamb\u00e9m ali jantara, apenas a noiva do tio se retirou para casa foi ter com ele.<\/p>\n<p>\u2014 Meu tio, disse Jos\u00e9, reparei hoje uma coisa.<\/p>\n<p>\u2014 Que foi? \u2014 Reparei que se o senhor n\u00e3o tiver conta em si \u00e9 capaz de ser emba\u00e7ado.<\/p>\n<p>\u2014 Emba\u00e7ado? \u2014 Nada menos.<\/p>\n<p>\u2014 Explica-te.<\/p>\n<p>\u2014 Dou-lhe not\u00edcia de que a senhora que hoje aqui esteve tem id\u00e9ias a seu respeito.<\/p>\n<p>\u2014 Id\u00e9ias? Explica-te mais claramente.<\/p>\n<p>\u2014 Pretende despos\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u2014 E ent\u00e3o? \u2014 Ent\u00e3o, \u00e9 que o senhor \u00e9 o quinto rica\u00e7o, a quem ela lan\u00e7a, a rede. Os primeiros quatro perceberam a tempo o sentimento de especula\u00e7\u00e3o pura, e n\u00e3o ca\u00edram. Eu previno-o disso, para que n\u00e3o se deixar levar pelo conto da sereia, e se ela lhe falar em alguma coisa&#8230;<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Barbosa que j\u00e1 estava vermelho de c\u00f3lera, n\u00e3o se p\u00f4de conter; cortou-lhe a palavra intimando-o a que sa\u00edsse. O rapaz disse que obedecia, mas n\u00e3o interrompeu as reflex\u00f5es: inventou o que p\u00f4de, deitou cores sombrias ao quadro, de maneira que saiu deixando o veneno no cora\u00e7\u00e3o do pobre velho.<\/p>\n<p>Era dif\u00edcil que algumas palavras tivessem o cond\u00e3o de desviar o namorado do plano que assentara; mas \u00e9 certo que foi esse o ponto de partida de uma longa hesita\u00e7\u00e3o. Jo\u00e3o Barbosa vociferou contra o sobrinho, mas, passado o primeiro acesso, refletiu um pouco no que lhe acabava de ouvir e concluiu que seria realmente triste, se ele tivesse raz\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Felizmente, \u00e9 um caluniador! concluiu ele.<\/p>\n<p>D. Joana soube da conversa havida entre Jo\u00e3o Barbosa e o sobrinho, e aprovou a id\u00e9ia deste; era necess\u00e1rio voltar \u00e0 carga; e Jos\u00e9 n\u00e3o se descuidou disso.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Barbosa confiou \u00e0 caseira as perplexidades que o sobrinho buscava lan\u00e7ar em seu cora\u00e7\u00e3o, \u2014 Acho que ele tem raz\u00e3o, disse ela.<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m tu? \u2014 Tamb\u00e9m eu, e se o digo \u00e9 porque o posso dizer, visto que desde hoje estou desligada desta casa.<\/p>\n<p>D. Joana disse isto levando o len\u00e7o aos olhos, o que partiu o cora\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Barbosa em mil peda\u00e7os; tratou de a consolar e inquiriu a causa de semelhante resolu\u00e7\u00e3o. D.<\/p>\n<p>Joana recusou explicar; afinal estas palavras sa\u00edram de sua boca tr\u00eamula e comovida: \u2014 \u00c9 que&#8230; tamb\u00e9m eu tenho cora\u00e7\u00e3o! Dizer isto e fugir foi a mesma coisa. Jo\u00e3o Barbosa ficou a olhar para o ar, depois dirigiu os olhos a um espelho, perguntando-lhe se efetivamente n\u00e3o era explic\u00e1vel aquela declara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Era.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Barbosa mandou-a chamar. Veio D. Joana e arrependida de ter ido t\u00e3o longe, tratou de explicar o que acabava de dizer. A explica\u00e7\u00e3o era f\u00e1cil; repetiu que tinha cora\u00e7\u00e3o, como o sobrinho de Jo\u00e3o Barbosa, e n\u00e3o podia, como o outro, v\u00ea-lo entregar-se a uma aventureira.<\/p>\n<p>\u2014 Era isso? \u2014 \u00c9 duro de o dizer, mas cumpri o que devia; compreendo por\u00e9m que n\u00e3o posso continuar nesta casa.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Barbosa procurou apaziguar-lhe os escr\u00fapulos; e D. Joana deixou-se vencer, ficando.<\/p>\n<p>Entretanto, o noivo sentia-se um tanto perplexo e triste. Cogitou, murmurou, vestiu-se e saiu.<\/p>\n<p>Na primeira ocasi\u00e3o em que se encontrou com D. Lucinda, esta, vendo-o triste, perguntou-lhe se eram inc\u00f4modos dom\u00e9sticos.<\/p>\n<p>\u2014 Talvez, resmungou ele.<\/p>\n<p>\u2014 Adivinho.<\/p>\n<p>\u2014 Sim? \u2014 Alguma que lhe fez a caseira que o senhor l\u00e1 tem? \u2014 Por que sup\u00f5e isso? D. Lucinda n\u00e3o respondeu logo; Jo\u00e3o Barbosa insistiu.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o simpatizo com aquela cara.<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o \u00e9 m\u00e1 mulher.<\/p>\n<p>\u2014 De apar\u00eancia, talvez.<\/p>\n<p>\u2014 Parece-lhe ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Nada; digo que bem pode ser alguma intrigante&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Oh! \u2014 Mera suposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Se a conhecesse havia de lhe fazer justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Barbosa n\u00e3o recebeu impunemente esta alfinetada. Se efetivamente D. Joana n\u00e3o passasse de uma intrigante? Era dif\u00edcil sup\u00f4-lo ao ver a cara com que ela o recebeu na volta. N\u00e3o a podia haver mais afetuosa. Contudo, Jo\u00e3o Barbosa p\u00f4s-se em guarda; conv\u00e9m dizer, em honra de seus afetos dom\u00e9sticos, que n\u00e3o o fez sem tristeza e amargura.<\/p>\n<p>\u2014 Que tem o senhor que est\u00e1 t\u00e3o macamb\u00fazio? perguntou D. Joana com a mais doce voz que possu\u00eda.<\/p>\n<p>\u2014 Nada, D. Joana.<\/p>\n<p>E da\u00ed a pouco: \u2014 Diga-me; seja franca. Algu\u00e9m a incumbiu de me dizer aquilo a respeito da senhora que&#8230;<\/p>\n<p>D. Joana tremeu de indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Pois imagina que eu seria capaz de fazer-me instrumento&#8230; Oh! \u00e9 demais! O len\u00e7o correu aos olhos e provavelmente encheu-se de l\u00e1grimas. Jo\u00e3o Barbosa n\u00e3o podia ver chorar uma mulher que o servia t\u00e3o bem h\u00e1 tanto tempo. Consolou-a como p\u00f4de, mas o golpe (dizia ela) fora profundo. Isto foi dito t\u00e3o de dentro, e com t\u00e3o amarga voz, que Jo\u00e3o Barbosa n\u00e3o p\u00f4de esquivar-se a esta reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Esta mulher ama-me! Desde que, pela segunda vez, se lhe metia esta suspeita pelos olhos, seus sentimentos em rela\u00e7\u00e3o a D. Joana eram de compaix\u00e3o e simpatia. Ningu\u00e9m pode odiar a pessoa que o ama silenciosamente e sem esperan\u00e7a. O bom velho sentia-se lisonjeado da vegeta\u00e7\u00e3o amorosa que seus olhos faziam brotar dos cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Da\u00ed em diante come\u00e7ou uma luta entre as duas mulheres de que eram campo e objeto o cora\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Barbosa. Uma tratava de demolir a influ\u00eancia da outra; os dois interesses esgrimiam com todas as armas que tinham \u00e0 m\u00e3o.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Barbosa era um joguete entre ambas \u2014 uma esp\u00e9cie de bola de borracha que uma atirava \u00e0s m\u00e3os da outra, e que esta de novo lan\u00e7ava \u00e0s da primeira. Quando estava com Lucinda suspeitava de Joana; quando com Joana suspeitava de Lucinda. Seu esp\u00edrito, debilitado pelos anos, n\u00e3o tinha consist\u00eancia nem dire\u00e7\u00e3o; uma palavra o dirigia ao sul, outra o encaminhava ao norte.<\/p>\n<p>A esta situa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 de si complicada, vieram juntar-se algumas circunst\u00e2ncias desfavor\u00e1veis a D. Lucinda. O sobrinho Jos\u00e9 n\u00e3o cessava as suas insinua\u00e7\u00f5es; ao mesmo tempo os parentes da interessante vi\u00fava entraram a rodear o velho, com tal sofreguid\u00e3o, que, apesar de sua boa vontade, este desconfiou seriamente das inten\u00e7\u00f5es da noiva. Nisto sobreveio um ataque de reumatismo. Obrigado a n\u00e3o sair de casa, era a D. Joana que cabia desta vez exclusivamente a dire\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito de Jo\u00e3o Barbosa. D.<\/p>\n<p>Lucinda foi visit\u00e1-lo algumas vezes; mas o papel principal n\u00e3o era seu.<\/p>\n<p>A caseira n\u00e3o se poupou a esfor\u00e7os para readquirir a antiga influ\u00eancia; o velho rica\u00e7o saboreou de novo as del\u00edcias da dedica\u00e7\u00e3o de outro tempo. Ela o tratava, amimava e conversava; lia-lhe os jornais, contava-lhe a vida dos vizinhos entremeada de velhas anedotas adequadas \u00e0 narra\u00e7\u00e3o. A dist\u00e2ncia e a aus\u00eancia eram dois dissolventes poderosos do amor decr\u00e9pito de Jo\u00e3o Barbosa.<\/p>\n<p>Logo que ele melhorou um pouco foi \u00e0 casa de D. Lucinda. A vi\u00fava o recebeu com polidez, mas sem a solicitude a que o acostumara. Sucedendo a mesma coisa outra vez, Jo\u00e3o Barbosa sentiu que, pela sua parte, tamb\u00e9m o primitivo afeto esfriara um pouco.<\/p>\n<p>D. Lucinda contava agu\u00e7ar-lhe o afeto e o desejo mostrando-se fria e reservada; sucedeu o contr\u00e1rio. Quando quis resgatar o que perdera, era um pouco tarde; contudo n\u00e3o desanimou.<\/p>\n<p>Entretanto, Jo\u00e3o Barbosa voltara \u00e0 casa, onde a figura de D. Joana lhe pareceu a mais ideal de todas as esposas.<\/p>\n<p>\u2014 Como \u00e9 que n\u00e3o me lembrei h\u00e1 mais tempo de casar com esta mulher? pensou ele.<\/p>\n<p>N\u00e3o fez a pergunta em voz alta; mas D. Joana pressentiu num olhar de Jo\u00e3o Barbosa que aquela id\u00e9ia alvorecia em seu generoso esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Barbosa voltou a concentrar-se em casa. D. Lucinda, ap\u00f3s os primeiros dias, derramou o cora\u00e7\u00e3o em longas cartas que eram pontualmente entregues em casa de Jo\u00e3o Barbosa, e que este lia em presen\u00e7a de D. Joana, posto fosse em voz baixa. Jo\u00e3o Barbosa, logo \u00e0 segunda, quis ir reatar o v\u00ednculo roto; mas o outro v\u00ednculo que o prendia \u00e0 caseira era j\u00e1 forte e a id\u00e9ia foi posta de lado. D. Joana achou enfim meio de subtrair as cartas.<\/p>\n<p>Um dia, Jo\u00e3o Barbosa chamou D. Joana a uma confer\u00eancia particular.<\/p>\n<p>\u2014 D. Joana, chamei-a para lhe dizer uma coisa grave.<\/p>\n<p>\u2014 Diga.<\/p>\n<p>\u2014 Quero fazer a sua felicidade.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 n\u00e3o a faz h\u00e1 tanto tempo? \u2014 Quero faz\u00ea-la de modo mais positivo e duradouro.<\/p>\n<p>\u2014 Como? \u2014 A sociedade n\u00e3o cr\u00ea, talvez, na pureza de nossa afei\u00e7\u00e3o; confirmemos a suspeita da sociedade.<\/p>\n<p>\u2014 Senhor! exclamou D. Joana com um gesto de indigna\u00e7\u00e3o t\u00e3o nobre qu\u00e3o simulado.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me entendeu, D. Joana, ofere\u00e7o-lhe a minha m\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Um acesso de asma, porque ele tamb\u00e9m padecia de asma, veio interromper a conversa no ponto mais interessante. Jo\u00e3o Barbosa gastou alguns minutos sem falar nem ouvir.<\/p>\n<p>Quando o acesso passou, sua felicidade, ou antes a de ambos, estava prometida de parte a parte. Ficava assentado um novo casamento.<\/p>\n<p>D. Joana n\u00e3o contava com semelhante desenlace, e aben\u00e7oou a vi\u00fava que, pretendendo casar com o velho, sugeriu-lhe a id\u00e9ia de fazer o mesmo e a encaminhou \u00e0quele resultado. O sobrinho Jos\u00e9 \u00e9 que estava longe de crer que havia trabalhado simplesmente para a caseira; tentou ainda impedir a realiza\u00e7\u00e3o do plano do tio, mas este \u00e0s primeiras palavras f\u00ea-lo desanimar.<\/p>\n<p>\u2014 Desta vez, n\u00e3o cedo! respondeu ele; conhe\u00e7o as virtudes de D. Joana, e sei que pratico um ato digno de louvor.<\/p>\n<p>\u2014 Mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Se continuas, pagas-me! Jos\u00e9 recuou e n\u00e3o teve outro rem\u00e9dio mais que aceitar os fato consumados. O pobre septuagen\u00e1rio treslia evidentemente.<\/p>\n<p>D. Joana tratou de apressar o casamento, receosa de que, ou algumas das v\u00e1rias mol\u00e9stias de Jo\u00e3o Barbosa, ou a pr\u00f3pria velhice desse cabo dele, antes de arranjadas as coisas. Um tabeli\u00e3o foi chamado, e tratou, por ordem do noivo, de preparar o futuro de D.<\/p>\n<p>Joana.<\/p>\n<p>Dizia o noivo: \u2014 Se eu n\u00e3o tiver filhos, desejo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Descanse, descanse, respondeu o tabeli\u00e3o.<\/p>\n<p>A not\u00edcia desta resolu\u00e7\u00e3o e dos atos subseq\u00fcentes chegou aos ouvidos de D. Lucinda, que mal p\u00f4de crer neles.<\/p>\n<p>\u2014 Compreendo que me fugisse; eram intrigas daquela&#8230; daquela criada! exclamou ela.<\/p>\n<p>Depois ficou desesperada; interpelou o destino, deu ao diabo todos os seus infort\u00fanios.<\/p>\n<p>\u2014 Tudo perdido! tudo perdido! dizia ela com uma voz arrancada \u00e0s entranhas.<\/p>\n<p>Nem D. Joana nem Jo\u00e3o Barbosa a podiam ouvir. Eles viviam como dois namorados jovens, embebidos no futuro. Jo\u00e3o Barbosa planeava mandar construir uma casa monumental em algum dos arrabaldes onde passaria o resto de seus dias. Conversavam das divis\u00f5es que a casa devia ter, da mob\u00edlia que lhe convinha, da ch\u00e1cara, e do jantar com que deviam inaugurar a resid\u00eancia nova.<\/p>\n<p>\u2014 Quero tamb\u00e9m um baile! dizia Jo\u00e3o Barbosa.<\/p>\n<p>\u2014 Para qu\u00ea? Um jantar basta.<\/p>\n<p>\u2014 Nada! H\u00e1 de haver grande jantar e grande baile; \u00e9 mais estrondoso. Demais, quero apresentar-te \u00e0 sociedade como minha mulher, e fazer-te dan\u00e7ar com algum adido de lega\u00e7\u00e3o. Sabes dan\u00e7ar? \u2014 Sei.<\/p>\n<p>\u2014 Pois ent\u00e3o! Jantar e baile.<\/p>\n<p>Marcou-se o dia de ano bom para celebra\u00e7\u00e3o do casamento.<\/p>\n<p>\u2014 Come\u00e7aremos um ano feliz, disseram ambos.<\/p>\n<p>Faltavam ainda dez dias, e D. Joana estava impaciente. O sobrinho Jos\u00e9, alguns dias arrufado, fez as pazes com a futura tia. O outro aproveitou o ensejo de vir pedir o perd\u00e3o do tio; deu-lhe os parab\u00e9ns e recebeu a b\u00ean\u00e7\u00e3o. J\u00e1 agora n\u00e3o havia rem\u00e9dio sen\u00e3o aceitar de boa cara o mal inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Os dias aproximaram-se com uma lentid\u00e3o mortal; nunca D. Joana os vira mais compridos. Os ponteiros do rel\u00f3gio pareciam padecer de reumatismo; o sol devia ter por for\u00e7a as pernas inchadas. As noites pareciam-se com as da eternidade.<\/p>\n<p>Durante a \u00faltima semana Jo\u00e3o Barbosa n\u00e3o saiu de casa; todo ele era pouco para contemplar a pr\u00f3xima companheira de seus destinos. Enfim raiou a aurora cobi\u00e7ada.<\/p>\n<p>D. Joana n\u00e3o dormia um minuto sequer, tanto lhe trabalhava o esp\u00edrito.<\/p>\n<p>O casamento devia ser feito sem estrondo, e foi uma das vit\u00f3rias de D. Joana, porque o noivo falava em um grande jantar e meio mundo de convidados. A noiva teve prud\u00eancia; n\u00e3o queria expor-se e exp\u00f4-lo a coment\u00e1rios. Conseguira mais; o casamento devia ser celebrado em casa, num orat\u00f3rio preparado de prop\u00f3sito. Pessoas de fora, al\u00e9m dos sobrinhos, havia duas senhoras (uma das quais era madrinha) e tr\u00eas cavalheiros, todos eles e elas maiores de cinq\u00fcenta.<\/p>\n<p>D. Joana fez sua apari\u00e7\u00e3o na sala alguns minutos antes da hora marcada para celebra\u00e7\u00e3o do matrim\u00f4nio. Vestia com severidade e simplicidade.<\/p>\n<p>Tardando o noivo, ela mesma o foi buscar.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Barbosa estava no gabinete j\u00e1 pronto, sentado ao p\u00e9 de uma mesa, com uma das m\u00e3os cal\u00e7adas.<\/p>\n<p>Quando D. Joana entrou deu com os olhos no grande espelho que ficava defronte e que reproduzia a figura de Jo\u00e3o Barbosa; este estava de costas para ela. Jo\u00e3o Barbosa fitavaa rindo, um riso de bem-aventuran\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o! disse D. Joana.<\/p>\n<p>Ele continuava a sorrir e a fit\u00e1-la; ela aproximou-se, rodeou a mesa, olhou-o de frente.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos ou n\u00e3o? Jo\u00e3o Barbosa continuava a sorrir e a fit\u00e1-la. Ela aproximou-se e recuou espavorida.<\/p>\n<p>A morte o tomara; era a melhor das noivas.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis O sorriso dos velhos \u00e9 porventura uma das coisas mais ador\u00e1veis do mundo. N\u00e3o o era por\u00e9m o de Jo\u00e3o Barbosa no \u00faltimo dia de setembro de 1868, riso alvar e grotesco, riso sem pureza nem dignidade; riso de homem de setenta e tr\u00eas anos que pensa em contrair segundas n\u00fapcias. 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