{"id":113582,"date":"2017-03-14T18:05:37","date_gmt":"2017-03-14T20:05:37","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=113582"},"modified":"2017-03-14T18:05:37","modified_gmt":"2017-03-14T20:05:37","slug":"a-magoa-do-infeliz-cosme","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-magoa-do-infeliz-cosme","title":{"rendered":"A M\u00e1goa do Infeliz Cosme"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de assis<\/h2>\n<p><strong>I<\/strong><\/p>\n<p>Imensa e profunda foi a m\u00e1goa do infeliz Cosme. Depois de tr\u00eas anos de n\u00e3o interrompida ventura, faleceu-lhe a mulher, ainda na flor da idade, e no esplendor das gra\u00e7as com que a dotara a natureza. Uma r\u00e1pida mol\u00e9stia a arrebatou aos carinhos do esposo e \u00e0 admira\u00e7\u00e3o de quantos tiveram a honra e o prazer de praticar com ela. Quinze dias apenas esteve de cama; mas foram quinze s\u00e9culos para o infeliz Cosme. Por c\u00famulo de desgra\u00e7as, expirou longe dos olhos dele; Cosme sa\u00edra para ir buscar a solu\u00e7\u00e3o de um neg\u00f3cio; quando chegou \u00e0 casa achou um cad\u00e1ver.<\/p>\n<p>Dizer a afli\u00e7\u00e3o em que este acontecimento lan\u00e7ou o infeliz Cosme pediria outra pena que n\u00e3o a minha. Cosme chorou logo no primeiro dia todas as suas l\u00e1grimas; no dia seguinte tinha os olhos exaustos e secos. Os seus numerosos amigos contemplavam com tristeza o rosto do infeliz e ao lan\u00e7ar a p\u00e1 de terra sobre o caix\u00e3o j\u00e1 depositado no fundo da cova, mais de um recordou os dias que passara ao p\u00e9 dos dois esposos, t\u00e3o queridos um do outro, t\u00e3o venerados e amados dos seus \u00edntimos.<\/p>\n<p>Cosme n\u00e3o se limitou ao encerramento usual dos sete dias. A dor n\u00e3o \u00e9 costume, dizia ele aos que o iam visitar; sairei daqui quando puder arrastar o resto dos meus dias. Ali ficou durante seis semanas, sem ver a rua nem o c\u00e9u. Os seus empregados iam prestarlhe contas, a que ele, com incr\u00edvel esfor\u00e7o, prestava religiosa aten\u00e7\u00e3o. Cortava o cora\u00e7\u00e3o ver aquele homem ferido no que havia de mais caro para ele, discutir \u00e0s vezes um erro de soma, uma troca de algarismos. Uma l\u00e1grima \u00e0s vezes vinha interromper a opera\u00e7\u00e3o. O vi\u00favo lutava com o homem do dever.<\/p>\n<p>Ao cabo de seis semanas resolveu sair \u00e0 rua o infeliz Cosme.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o estou curado, dizia ele a um compadre; mas \u00e9 preciso obedecer \u00e0s necessidades da vida.<\/p>\n<p>&#8211; Infeliz! exclamou o compadre apertando-o nos bra\u00e7os.<\/p>\n<p><strong>II<\/strong><\/p>\n<p>Na v\u00e9spera de sair foi visit\u00e1-lo um mo\u00e7o de vinte e oito anos, que podia ser seu filho, porque o infeliz Cosme contava quarenta e oito. Cosme conhecera o pai de Oliveira e fora seu companheiro nos bons tempos da mocidade. Oliveira afei\u00e7oou-se ao amigo de seu pai, e freq\u00fcentava-lhe a casa ainda antes do casamento.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe que vou casar? disse um dia Cosme a Oliveira.<\/p>\n<p>&#8211; Sim? Com quem? &#8211; Adivinhe.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o posso.<\/p>\n<p>&#8211; Com D. Carlota.<\/p>\n<p>&#8211; Aquela mo\u00e7a a quem me apresentou ontem no teatro? &#8211; Justo.<\/p>\n<p>&#8211; Dou-lhe meus parab\u00e9ns.<\/p>\n<p>Cosme arregalou os olhos de contente.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o lhe parece que fa\u00e7o boa escolha? &#8211; Uma excelente mo\u00e7a: formosa, rica&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Um anjo! Oliveira puxou duas fuma\u00e7as do charuto e observou: &#8211; Mas como arranjou isso? Nunca me falou em tal. Verdade \u00e9 que sempre o conheci discreto; e meu pai costumava dizer que o senhor era uma urna inviol\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8211; Por que motivo andaria eu a bater com a l\u00edngua nos dentes? &#8211; Tem raz\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Este casamento h\u00e1 de dar que falar, porque eu j\u00e1 estou um pouco maduro.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! n\u00e3o parece.<\/p>\n<p>&#8211; Mas estou; c\u00e1 tenho j\u00e1 os meus quarenta e cinco. N\u00e3o os mostro, bem sei; apuro-me no vestir, e n\u00e3o tenho um fio de cabelo branco.<\/p>\n<p>&#8211; E conta ainda um m\u00e9rito mais: \u00e9 experiente.<\/p>\n<p>&#8211; Dois m\u00e9ritos: experiente e sossegado. N\u00e3o estou na idade de andar correndo a viasacra e dando desgosto \u00e0 fam\u00edlia, que \u00e9 o defeito dos rapazes. Parece-lhe ent\u00e3o que seremos felizes? &#8211; Como dois eleitos do c\u00e9u.<\/p>\n<p>Cosme, que ainda n\u00e3o era o infeliz Cosme, esfregou as m\u00e3os de contentamento e manifestou a opini\u00e3o de que o seu jovem amigo era um esp\u00edrito sensato e observador.<\/p>\n<p>Efetuou-se o casamento com assist\u00eancia de Oliveira, que, apesar da mudan\u00e7a de estado do amigo de seu pai, n\u00e3o deixou de lhe freq\u00fcentar a casa. De todos os que l\u00e1 iam era o que tinha maior intimidade. Suas boas qualidades lhe davam jus \u00e0 estima e venera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desgra\u00e7adamente era mo\u00e7o e Carlota era bela. Oliveira, ao cabo de alguns meses, sentiu-se loucamente apaixonado. Era honrado e viu a gravidade da situa\u00e7\u00e3o. Quis evitar o desastre; deixou de freq\u00fcentar a casa de Cosme. Cerca de cinq\u00fcenta dias deixou de l\u00e1 ir, at\u00e9 que o amigo o encontrou e \u00e0 viva for\u00e7a o levou a jantar.<\/p>\n<p>A paix\u00e3o n\u00e3o estava morta nem caminhava para isso; a vista da bela Carlota n\u00e3o fez mais do que converter em inc\u00eandio o que j\u00e1 era braseiro.<\/p>\n<p>Eu desisto de contar as lutas em que andou o cora\u00e7\u00e3o de Oliveira durante todo o tempo que viveu a esposa de Cosme. Evitou ele manifestar nunca \u00e0 formosa dama o que sentia por ela; um dia, por\u00e9m, t\u00e3o patente era o seu amor, que ela claramente lho percebeu.<\/p>\n<p>Uma leve sombra de vaidade fez com que Carlota n\u00e3o descobrisse com maus olhos o amor que inspirara ao rapaz. N\u00e3o tardou, por\u00e9m, que a reflex\u00e3o e o sentimento da honra lhe mostrassem todo o perigo daquela situa\u00e7\u00e3o. Carlota mostrou-se severa com ele, e este recurso fez ainda mais aumentar as disposi\u00e7\u00f5es respeitosas em que se achava Oliveira.<\/p>\n<p>&#8211; Tanto melhor! disse ele consigo.<\/p>\n<p>A exclama\u00e7\u00e3o de Oliveira queria dizer duas coisas. Era, primeiramente, uma homenagem de respeito \u00e0 amada do seu cora\u00e7\u00e3o. Era tamb\u00e9m uma esperan\u00e7a. Oliveira nutria a doce esperan\u00e7a de que Carlota enviuvasse mais cedo do que supunha o marido, e nesse caso podia ele apresentar a sua candidatura, com certeza de que recebia uma mulher provadamente virtuosa.<\/p>\n<p>Os acontecimentos dissiparam todos esse castelos; Carlota foi a primeira a sair deste mundo, e a dor de Oliveira n\u00e3o foi menor que a dor do infeliz Cosme. Nem teve \u00e2nimo de ir ao enterro; foi \u00e0 missa, e a muito custo p\u00f4de reter as l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>Agora que seis semanas haviam decorrido depois da terr\u00edvel cat\u00e1strofe, Oliveira procurou o infeliz vi\u00favo na v\u00e9spera do dia em que este sa\u00eda \u00e0 rua, como eu tive a honra de lhes dizer.<\/p>\n<p><strong>III<\/strong><\/p>\n<p>Cosme estava assentado diante da escrivaninha examinando melancolicamente alguns pap\u00e9is. Oliveira assomou \u00e0 porta do gabinete. O infeliz vi\u00favo voltou o rosto e encontrou os olhos do amigo. Nenhum deles se moveu; a sombra da mo\u00e7a parecia ter surgido entre ambos. Enfim, o infeliz Cosme levantou-se e atirou-se aos bra\u00e7os do amigo.<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe bem o tempo que eles gastaram nesta magoada e saudosa atitude. Quando se desprenderam, Oliveira enxugou furtivamente uma l\u00e1grima; Cosme levou o len\u00e7o aos olhos.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio, evitaram falar da mo\u00e7a; mas o cora\u00e7\u00e3o trouxe naturalmente aquele assunto de conversa.<\/p>\n<p>Cosme era incans\u00e1vel nos louvores que tecia \u00e0 finada esposa, cuja perda, dizia ele, n\u00e3o era s\u00f3 irrepar\u00e1vel, havia de ser-lhe mortal. Oliveira procurava dar-lhe algumas consola\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! exclamou o infeliz Cosme, para mim n\u00e3o h\u00e1 consola\u00e7\u00f5es. Isto agora j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 viver, \u00e9 vegetar, \u00e9 arrastar o corpo e a alma sobre a terra, at\u00e9 o dia em que Deus se compade\u00e7a de ambos. A dor que eu sinto c\u00e1 dentro \u00e9 um germe da morte; sinto que n\u00e3o posso durar muito tempo. Tanto melhor, meu caro Oliveira, mais depressa irei ter com ela.<\/p>\n<p>Estou muito longe de lhe censurar esse sentimento, observou Oliveira procurando disfar\u00e7ar a como\u00e7\u00e3o. N\u00e3o conheci eu durante tr\u00eas anos o que valia aquela alma? &#8211; Nunca a houve mais ang\u00e9lica! Cosme proferiu estas palavras levantando as m\u00e3os para o teto, com uma express\u00e3o mesclada de admira\u00e7\u00e3o e saudade, que abalaria as pr\u00f3prias cadeiras se tivessem ouvidos. Oliveira concordou plenamente com o ju\u00edzo do amigo.<\/p>\n<p>&#8211; Era efetivamente um anjo, disse ele. Nenhuma mulher teve ainda tantas qualidades juntas.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! meu bom amigo! Se soubesse que satisfa\u00e7\u00e3o me est\u00e1 dando! Neste mundo de interesses e vaidades, ainda h\u00e1 um cora\u00e7\u00e3o puro, que sabe apreciar os dotes do c\u00e9u.<\/p>\n<p>Carlota era isso mesmo que o senhor est\u00e1 dizendo. Era ainda muito mais. A alma dela ningu\u00e9m a conheceu nunca como eu. Que bondade! que ternura! que gra\u00e7a infantil! Al\u00e9m destes dons, que severidade! que singeleza! E, enfim, se passarmos, melhor direi, se descermos a outra ordem de virtudes, que amor da ordem! que amor do trabalho! que economia! O infeliz vi\u00favo levou as m\u00e3os aos olhos e ficou algum tempo acabrunhado ao peso de t\u00e3o doces e amargas recorda\u00e7\u00f5es. Oliveira tamb\u00e9m estava comovido. O que ainda mais o entristecia foi reparar que estava sentado na mesma cadeira em que Carlota costumava passar as noites, a conversar com ele e o marido. Cosme levantou enfim a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Perdoe-me, disse ele, estas fraquezas. S\u00e3o naturais. Eu seria um monstro se n\u00e3o chorasse aquele anjo.<\/p>\n<p>Chorar, naquela ocasi\u00e3o, era uma figura po\u00e9tica. O infeliz Cosme tinha os olhos secos.<\/p>\n<p>&#8211; Nem j\u00e1 l\u00e1grimas tenho, continuou ele traduzindo em prosa o que acabava de dizer. As l\u00e1grimas ao menos s\u00e3o um desabafo; mas este sentir interior, esta tempestade que n\u00e3o rompe, mas que se concentra no cora\u00e7\u00e3o, isto \u00e9 pior que tudo.<\/p>\n<p>&#8211; Tem raz\u00e3o, disse Oliveira, deve ser assim, e \u00e9 natural que seja. N\u00e3o me tenha entretanto por um consolador banal; \u00e9 necess\u00e1rio, n\u00e3o digo esquec\u00ea-la, que seria imposs\u00edvel, mas voltar-se para a vida, que \u00e9 uma necessidade.<\/p>\n<p>Cosme esteve algum tempo calado.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 tenho dito isso mesmo, respondeu ele, e sinto que assim acontecer\u00e1 mais cedo ou mais tarde. Vida \u00e9 que nunca hei de ter; daqui at\u00e9 a morte \u00e9 apenas um vegetar. Mas, enfim, isso mesmo \u00e9 preciso&#8230;<\/p>\n<p>Oliveira continuou a dizer-lhe algumas palavras de consola\u00e7\u00e3o, que o infeliz Cosme ouvia distra\u00eddo, com os olhos ora no teto, ora nos pap\u00e9is que tinha diante de si. Oliveira, entretanto, precisava tamb\u00e9m de quem o consolasse, e n\u00e3o p\u00f4de falar muito tempo sem comover-se a si pr\u00f3prio. Seguiu-se um curto sil\u00eancio, que o infeliz Cosme foi o primeiro a romper.<\/p>\n<p>&#8211; Sou rico, disse ele, ou antes, corre que o sou. Mas de que me servem os bens? A riqueza n\u00e3o me substitui o tesouro que perdi. Mais ainda; essa riqueza ainda aumenta a minha saudade, porque parte dela foi Carlota que ma trouxe. Bem sabe que eu a receberia com um vestido de chita&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora! disse Oliveira levantando os ombros.<\/p>\n<p>&#8211; Bem sei que me faz justi\u00e7a; mas h\u00e1 invejosos ou caluniadores para quem estes sentimentos s\u00e3o apenas m\u00e1scaras de interesse. Lastimo essas almas. Esses cora\u00e7\u00f5es s\u00e3o podres.<\/p>\n<p>Oliveira concordou plenamente com a opini\u00e3o do infeliz Cosme.<\/p>\n<p>O vi\u00favo continuou: &#8211; Demais, ainda que eu fosse um homem de interesse, a minha boa Carlota devia tornarme um amigo. Nunca vi mais nobre desinteresse que o dela. Alguns dias antes de morrer quis fazer testamento. Baldei todos os esfor\u00e7os para impedi-la; ela foi mais forte do que eu. Tive de ceder. Nesse testamento constituiu-me ela seu herdeiro universal. Ah! eu daria toda a heran\u00e7a por uma semana mais de exist\u00eancia para ela. Uma semana? que digo? por uma hora mais! IV Os dois amigos foram interrompidos por um escravo que trazia uma carta. Cosme leu a carta e perguntou: &#8211; Esse homem est\u00e1 a\u00ed? &#8211; Est\u00e1 na sala.<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 vou.<\/p>\n<p>O escravo saiu.<\/p>\n<p>&#8211; Veja, senhor! N\u00e3o se pode durante uma hora falar ao cora\u00e7\u00e3o; a prosa da vida a\u00ed vem.<\/p>\n<p>Permite-me? &#8211; Pois n\u00e3o.<\/p>\n<p>Cosme saiu e foi \u00e0 sala; Oliveira ficou s\u00f3 no gabinete, onde tudo lhe recordava os tempos de outrora. Estava ainda ao p\u00e9 da escrivaninha o banquinho onde Carlota pousava os p\u00e9s; Oliveira teve \u00edmpetos de beij\u00e1-lo. Tudo ali, at\u00e9 as gravuras de que Carlota gostava tanto, tudo ali parecia ter impressa a viva imagem da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>No meio das reflex\u00f5es foi interrompido pelo infeliz Cosme.<\/p>\n<p>&#8211; Perd\u00e3o! disse este, venho buscar uma coisa; volto j\u00e1.<\/p>\n<p>Cosme abriu uma gaveta, tirou de dentro algumas caixas de j\u00f3ias, e saiu. Oliveira teve curiosidade de saber para que fim o vi\u00favo levava as j\u00f3ias, mas ele n\u00e3o lhe deu tempo de o interrogar.<\/p>\n<p>Nem era preciso.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Cosme veio dizer-lho cerca de dez minutos depois.<\/p>\n<p>&#8211; Meu amigo, disse ele, isto \u00e9 insuport\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8211; Que h\u00e1? &#8211; L\u00e1 se foi parte da minha exist\u00eancia. As j\u00f3ias de minha mulher&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o p\u00f4de acabar; caiu sobre uma cadeira e p\u00f4s a cabe\u00e7a nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Oliveira respeitou aquela explos\u00e3o de dor, que ele n\u00e3o compreendia. Ao cabo de algum tempo, Cosme levantou a cabe\u00e7a; tinha os olhos vermelhos. Esteve ainda alguns segundos calado. Enfim: &#8211; O homem a quem fui falar veio buscar as j\u00f3ias de minha mulher. Obede\u00e7o a uma expressa vontade dela.<\/p>\n<p>&#8211; Vontade dela? &#8211; Um capricho, talvez, mas um capricho digno do seu cora\u00e7\u00e3o. Carlota pediu-me que n\u00e3o me tornasse a casar. Era in\u00fatil o pedido, porque depois de ter perdido aquele anjo, \u00e9 claro que eu n\u00e3o tornaria ligar a minha exist\u00eancia \u00e0 de nenhuma outra mulher.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! decerto! &#8211; Todavia, exigiu que lho jurasse. Jurei. N\u00e3o se contentou com isso.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o? &#8211; &#8220;Tu n\u00e3o sabes o que pode acontecer no futuro, disse-me ela; quem sabe se o destino n\u00e3o te obrigar\u00e1 a esquecer este juramento que me fizeste? Exijo uma coisa mais, exijo que vendas as minhas j\u00f3ias, a fim de que outra mulher n\u00e3o as ponha sobre si&#8221;.<\/p>\n<p>O infeliz Cosme terminou esta revela\u00e7\u00e3o com um suspiro. Oliveira estava interiormente dominado por um sentimento de inveja. N\u00e3o era inveja somente, eram tamb\u00e9m ci\u00fames.<\/p>\n<p>Pobre Oliveira! era completa a sua desgra\u00e7a! A mulher que ele amava tanto se desfazia em provas de amor com o marido na hora solene em que se despedia da terra.<\/p>\n<p>Estas reflex\u00f5es fazia o triste namorado, enquanto o infeliz Cosme, todo entregue \u00e0 doce imagem da esposa extinta, interrompia o sil\u00eancio com suspiros que vinham diretamente do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Vendi as j\u00f3ias, disse Cosme depois de algum tempo de medita\u00e7\u00e3o, e o senhor pode avaliar a m\u00e1goa com que me desfiz delas. Bem v\u00ea que foi ainda uma prova de amor que dei \u00e0 minha Carlota. Todavia, exigi profundo sil\u00eancio do joalheiro e o mesmo exijo do senhor&#8230; Sabe por qu\u00ea? Oliveira fez sinal que n\u00e3o entendia.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 porque eu n\u00e3o vou contar a todos a cena que se passou unicamente entre mim e ela.<\/p>\n<p>Achariam rid\u00edculo, alguns nem lhe dariam cr\u00e9dito. De maneira, que eu n\u00e3o poderia escapar \u00e0 reputa\u00e7\u00e3o de avaro e mau homem, que nem uma doce lembran\u00e7a sabia guardar da mulher que o amou.<\/p>\n<p>&#8211; Tem raz\u00e3o.<\/p>\n<p>O infeliz Cosme tirou melancolicamente o len\u00e7o da algibeira, assoou-se e prosseguiu: &#8211; Mas teria raz\u00e3o o mundo, ainda quando aquele anjo me n\u00e3o houvesse pedido o sacrif\u00edcio que acabo de fazer? Vale mais uma lembran\u00e7a representada por pedras de valor do que a lembran\u00e7a representada na saudade que fica no cora\u00e7\u00e3o? Com franqueza, eu detesto esse materialismo, esse aniquilamento da alma, em proveito de coisas passageiras e est\u00e9reis. Bem fraco deve ser o amor que precisa de objetos palp\u00e1veis e sobretudo valiosos, para n\u00e3o ser esquecido. A verdadeira j\u00f3ia, meu amigo, \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Oliveira respondeu a esta teoria do infeliz Cosme com um desses gestos que n\u00e3o afirmam nem negam, e que exprimem o estado duvidoso do esp\u00edrito. Efetivamente, o mancebo estava perplexo ao ouvir as palavras do vi\u00favo. Era claro para ele que a saudade existe no cora\u00e7\u00e3o, sem necessidade de recorda\u00e7\u00f5es externas, mas n\u00e3o admitia de todo que o uso de guardar alguma lembran\u00e7a das pessoas mortas fosse um materialismo, como dizia o infeliz Cosme.<\/p>\n<p>Estas mesmas d\u00favidas exp\u00f4s ele ao amigo, depois de alguns minutos de sil\u00eancio, e foram ouvidas com um sorriso ben\u00e9volo da parte deste.<\/p>\n<p>&#8211; O que o senhor diz \u00e9 exato, observou Cosme, se atendermos unicamente \u00e0 raz\u00e3o; mas t\u00e3o entranhado se acha o sentimento no cora\u00e7\u00e3o do homem, que eu vendi tudo, menos uma coisa. Quis que, ao menos isso, me ficasse at\u00e9 a morte; t\u00e3o certo \u00e9 que o cora\u00e7\u00e3o tem seus motivos e argumentos especiais&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! sem d\u00favida! disse Oliveira. Metade das coisas deste mundo s\u00e3o regidas pelo sentimento. Em v\u00e3o procuramos furtar-nos a ele&#8230; Ele \u00e9 mais forte do que os nossos d\u00e9beis racioc\u00ednios.<\/p>\n<p>Cosme fez uma leve inclina\u00e7\u00e3o de cabe\u00e7a, e ia metendo a m\u00e3o na algibeira do palet\u00f3, para tirar a j\u00f3ia aludida, quando um escravo veio anunciar que o jantar estava na mesa.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos jantar, disse Cosme; \u00e0 mesa lhe mostrarei o que \u00e9.<\/p>\n<p>V Sa\u00edram do gabinete para a sala de jantar. A sala de jantar ainda mais entristeceu o amigo do infeliz Cosme. Tantas vezes jantara ali em companhia dela, tantas contemplara ali os seus olhos, tantas ouvira as suas palavras! O jantar era farto, como de costume. Cosme deixou-se cair numa cadeira, enquanto Oliveira tomava assento ao p\u00e9 dele. Um criado serviu a sopa, que o infeliz vi\u00favo comeu apressadamente, n\u00e3o sem observar ao amigo, que era a primeira vez que realmente tinha vontade de comer.<\/p>\n<p>N\u00e3o era dif\u00edcil de crer que assim devia de ser ap\u00f3s seis semanas de quase total abstin\u00eancia, ao ver a celeridade com que o infeliz Cosme varria os pratos que lhe punham diante dele.<\/p>\n<p>Terminada a sobremesa, Cosme ordenou que o caf\u00e9 fosse levado ao gabinete, onde Oliveira teve ocasi\u00e3o de ver a j\u00f3ia que a saudade de Cosme impedira de ser vendida como as outras.<\/p>\n<p>Era um alfinete de esmeralda perfeito; mas a perfei\u00e7\u00e3o da obra n\u00e3o era o que lhe dava todo o valor, como observou o infeliz Cosme.<\/p>\n<p>Oliveira n\u00e3o p\u00f4de reter um grito de surpresa.<\/p>\n<p>&#8211; O que \u00e9? perguntou o dono da casa.<\/p>\n<p>&#8211; Nada.<\/p>\n<p>&#8211; Nada? &#8211; Uma lembran\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Diga o que \u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; Esse alfinete quis eu comprar, no ano passado, em casa de Farani. N\u00e3o foi l\u00e1 que o comprou? &#8211; Foi.<\/p>\n<p>&#8211; Que singularidade! &#8211; Singularidade? &#8211; Sim; eu quis compr\u00e1-lo justamente para dar \u00e0 minha irm\u00e3 no dia em que fazia anos.<\/p>\n<p>Disseram-me que estava vendido. Era ao senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Era a mim. N\u00e3o me custou barato; mas que me importava isso, se era para ela? Oliveira continuou a examinar o alfinete. De repente exclamou.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! &#8211; Que \u00e9? &#8211; Lembra-me ainda outra circunst\u00e2ncia, disse Oliveira. Eu j\u00e1 sabia que este alfinete tinha sido comprado pelo senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Disse-lho ela? &#8211; N\u00e3o, minha irm\u00e3. Um dia em que aqui estivemos, minha irm\u00e3 viu este alfinete no peito de D. Carlota, e gabou-o muito. Ela disse-lhe ent\u00e3o que o senhor lho dera um dia em que foram \u00e0 Rua dos Ourives, e ela ficara encantada com esta j\u00f3ia&#8230; Se soubesse como eu praguejei nessa ocasi\u00e3o contra o senhor! &#8211; N\u00e3o lhe parece muito bonito? &#8211; Oh! lind\u00edssimo! &#8211; Ambos n\u00f3s gost\u00e1vamos muito dele. Pobre Carlota! Nem por isso deixava de amar a simplicidade. A simplicidade era o seu principal dote; este alfinete, de que tanto gostava, s\u00f3 o p\u00f4s duas vezes, creio eu. Um dia altercamos por causa disso; mas, j\u00e1 se v\u00ea, alterca\u00e7\u00e3o de namorados. Eu disse-lhe que era melhor n\u00e3o comprar j\u00f3ias, se ela as n\u00e3o havia de trazer, e acrescentei, brincando, que me daria muito gosto, se mostrasse que tinha bens de fortuna. Gracejos, gracejos, que ela ouvia a rir e acab\u00e1vamos ambos alegres&#8230; Pobre Carlota! Durante este tempo, Oliveira contemplava e admirava o alfinete, com o cora\u00e7\u00e3o palpitante, como se tivesse ali um peda\u00e7o do corpo que se fora. Cosme olhava atentamente para ele. Seus olhos faiscavam \u00e0s vezes; outras vezes pareciam apagados e sombrios. Seriam ci\u00fames p\u00f3stumos? O cora\u00e7\u00e3o do vi\u00favo adivinharia o amor culpado, ainda que respeitoso, do amigo? Oliveira surpreendeu o olhar do infeliz Cosme e prontamente lhe entregou o alfinete.<\/p>\n<p>&#8211; Ela queria muito \u00e0 sua irm\u00e3, disse o desventurado vi\u00favo depois de alguns instantes de sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! muito! &#8211; Convers\u00e1vamos muita vez a respeito dela&#8230; Tinham a mesma idade, penso eu? &#8211; D. Carlota era mais mo\u00e7a dois meses.<\/p>\n<p>&#8211; Pode-se dizer que era a mesma idade. \u00c0s vezes pareciam-se duas crian\u00e7as. Quantas vezes ralhei graciosamente com ambas; riam-se e zombavam de mim. Se soubesse com que satisfa\u00e7\u00e3o as via brincar! Nem por isso era Carlota menos grave, e sua irm\u00e3, tamb\u00e9m, quando convinha que o fossem.<\/p>\n<p>O infeliz Cosme continuou assim a elogiar ainda uma vez os dotes da finada esposa, com a diferen\u00e7a que, desta vez, acompanhava o discurso com movimentos r\u00e1pidos do alfinete que tinha na m\u00e3o. Um raio de sol poente vinha brincar na pedra preciosa, de onde Oliveira quase n\u00e3o podia arrancar os olhos. Com o movimento que lhe dava a m\u00e3o de Cosme, parecia a Oliveira que o alfinete era uma coisa viva, e que parte da alma de Carlota ali brincava e sorria para ele.<\/p>\n<p>O infeliz Cosme interrompeu os louvores que fazia \u00e0 amada do seu cora\u00e7\u00e3o e olhou tamb\u00e9m para o alfinete.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 realmente bonito! disse ele.<\/p>\n<p>Oliveira olhava para o alfinete, mas via mais do que ele, via a mo\u00e7a; n\u00e3o admira pois que respondesse maquinalmente: &#8211; Oh! divino! &#8211; \u00c9 pena que tenha este defeito&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vale nada, acudiu Oliveira.<\/p>\n<p>A conversa prosseguiu ainda algum tempo a respeito do alfinete e das virtudes da finada Carlota. A noite veio interromper essas doces efus\u00f5es do cora\u00e7\u00e3o de ambos. Cosme anunciou que provavelmente sa\u00eda no dia seguinte para recome\u00e7ar a lida, mas j\u00e1 sem o \u00e2nimo que tivera nos tr\u00eas anos anteriores.<\/p>\n<p>&#8211; Todos n\u00f3s, disse ele, ainda os que n\u00e3o somos poetas, precisamos de uma musa.<\/p>\n<p>Separaram-se pouco depois.<\/p>\n<p>O infeliz Cosme n\u00e3o quis que o amigo fosse sem levar uma lembran\u00e7a da pessoa a quem tanto estimara, e que o prezava deveras.<\/p>\n<p>&#8211; Tome l\u00e1, disse o infeliz Cosme, tome esta flor de grinalda com que ela se casou; leve esta outra para sua irm\u00e3.<\/p>\n<p>Oliveira quis beijar as m\u00e3os do amigo. Cosme recebeu-o nos bra\u00e7os.<\/p>\n<p>&#8211; Nenhuma lembran\u00e7a dei ainda a ningu\u00e9m, observou o vi\u00favo depois de o apertar nos bra\u00e7os; nem sei se algu\u00e9m receber\u00e1 tanto, como estas que lhe acabo de dar. Eu sei distinguir os grandes amigos dos amigos comuns.<\/p>\n<p>VI Oliveira saiu da casa de Cosme com a alegria de um homem que acabasse de tirar a sorte grande. De quando em quando tirava as duas flores secas, quase desfeitas, metidas numa caixinha, e olhava para elas e tinha \u00edmpetos de as beijar.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! posso faz\u00ea-lo! exclamava ele consigo. N\u00e3o me punge nenhum remorso. Saudades, sim, e muitas, mas respeitosas como foi o meu amor.<\/p>\n<p>Depois: &#8211; Infeliz Cosme! Como ele a ama! Que cora\u00e7\u00e3o de ouro! Para aquele homem j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 gozos na terra. Ainda que n\u00e3o fosse seu amigo de longo tempo, a afei\u00e7\u00e3o que ele ainda hoje tem \u00e0 sua pobre esposa era bastante para que o adorasse. Bem haja o c\u00e9u que me poupou um remorso! No meio destas e outras reflex\u00f5es Oliveira chegou \u00e0 casa. Ent\u00e3o beijou \u00e0 vontade as flores da grinalda de Carlota, e acaso verteu sobre elas uma l\u00e1grima; depois do qu\u00ea, foi levar \u00e0 irm\u00e3 a flor que lhe pertencia.<\/p>\n<p>Nessa noite teve sonhos de ouro.<\/p>\n<p>No dia seguinte estava a almo\u00e7ar quando recebeu uma carta de Cosme. Abriu-a com a sofreguid\u00e3o pr\u00f3pria de quem se achava ligado \u00e0quele homem por tantos la\u00e7os.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vem s\u00f3 a carta, disse o escravo.<\/p>\n<p>&#8211; Que h\u00e1 mais? &#8211; Esta caixinha.<\/p>\n<p>Oliveira leu a carta.<\/p>\n<p>A carta dizia: Meu bom e leal amigo, Vi ontem o entusiasmo que lhe causou o alfinete que desejava dar \u00e0 sua irm\u00e3 e que eu tive a fortuna de comprar primeiro.<\/p>\n<p>Tanta afei\u00e7\u00e3o lhe devo que n\u00e3o posso nem quero priv\u00e1-lo do prazer de oferecer essa j\u00f3ia \u00e0 sua interessante irm\u00e3.<\/p>\n<p>Apesar das circunst\u00e2ncias em que ela se acha nas minhas m\u00e3os, refleti, e entendi que devo obedecer aos desejo de Carlota.<\/p>\n<p>Cedo-lhe a j\u00f3ia, n\u00e3o pelo custo, mas com dez por cento de diferen\u00e7a. N\u00e3o v\u00e1 imaginar que lhe fa\u00e7o um obs\u00e9quio: o abatimento \u00e9 justo.<\/p>\n<p>Seu infeliz amigo Cosme.<\/p>\n<p>Oliveira leu a carta tr\u00eas ou quatro vezes. H\u00e1 fundadas raz\u00f5es para crer que n\u00e3o almo\u00e7ou nesse dia.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de assis I Imensa e profunda foi a m\u00e1goa do infeliz Cosme. Depois de tr\u00eas anos de n\u00e3o interrompida ventura, faleceu-lhe a mulher, ainda na flor da idade, e no esplendor das gra\u00e7as com que a dotara a natureza. 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