{"id":113537,"date":"2017-03-14T13:19:43","date_gmt":"2017-03-14T15:19:43","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=113537"},"modified":"2017-03-14T13:19:43","modified_gmt":"2017-03-14T15:19:43","slug":"memorias-de-um-sargento-de-milicias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/memorias-de-um-sargento-de-milicias","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias de um Sargento de Mil\u00edcias"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h4>Manuel Ant\u00f4nio de Almeida<\/h4>\n<h4>CAP\u00cdTULO I<\/h4>\n<h2>ORIGEM, NASCIMENTO E BATIZADO<\/h2>\n<p>Era no tempo do rei.<\/p>\n<p>Uma das quatro esquinas que formam as ruas do Ouvidor e da Quitanda, cortando-se mutuamente, chamava-se nesse tempo \u2014 O canto dos meirinhos \u2014; e bem lhe assentava o nome, porque era a\u00ed o lugar de encontro favorito de todos os indiv\u00edduos dessa classe (que gozava ent\u00e3o de n\u00e3o pequena considera\u00e7\u00e3o). Os meirinhos de hoje n\u00e3o s\u00e3o mais do que a sombra caricata dos meirinhos do tempo do rei; esses eram gente tem\u00edvel e temida, respeit\u00e1vel e respeitada; formavam um dos extremos da formid\u00e1vel cadeia judici\u00e1ria que envolvia todo o Rio de Janeiro no tempo em que a demanda era entre n\u00f3s um elemento de vida: o extremo oposto eram os desembargadores. Ora, os extremos se tocam, e estes, tocando-se, fechavam o c\u00edrculo dentro do qual se passavam os terr\u00edveis combates das cita\u00e7\u00f5es, provar\u00e1s, raz\u00f5es principais e finais, e todos esses trejeitos judiciais que se chamava o processo.<\/p>\n<p>Da\u00ed sua influ\u00eancia moral.<\/p>\n<p>Mas tinham ainda outra influ\u00eancia, que \u00e9 justamente a que falta aos de hoje: era a influ\u00eancia que derivava de suas condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas. Os meirinhos de hoje s\u00e3o homens como quaisquer outros; nada t\u00eam de imponentes, nem no seu semblante nem no seu trajar, confundem-se com qualquer procurador, escrevente de cart\u00f3rio ou cont\u00ednuo de reparti\u00e7\u00e3o. Os meirinhos desse belo tempo n\u00e3o, n\u00e3o se confundiam com ningu\u00e9m; eram originais, eram tipos: nos seus semblantes transluzia um certo ar de majestade forense, seus olhares calculados e sagazes significavam chicana. Trajavam sisuda casaca preta, cal\u00e7\u00e3o e meias da mesma cor, sapato afivelado, ao lado esquerdo aristocr\u00e1tico espadim, e na ilharga direita penduravam um c\u00edrculo branco, cuja significa\u00e7\u00e3o ignoramos, e coroavam tudo isto por um grave chap\u00e9u armado. Colocado sob a import\u00e2ncia vantajosa destas condi\u00e7\u00f5es, o meirinho usava e abusava de sua posi\u00e7\u00e3o. Era terr\u00edvel quando, ao voltar uma esquina ou ao sair de manh\u00e3 de sua casa, o cidad\u00e3o esbarrava com uma daquelas solenes figuras, que, desdobrando junto dele uma folha de papel, come\u00e7ava a l\u00ea-la em tom confidencial! Por mais que se fizesse n\u00e3o havia rem\u00e9dio em tais circunst\u00e2ncias sen\u00e3o deixar escapar dos l\u00e1bios o terr\u00edvel \u2014 Dou-me por citado. \u2014 Ningu\u00e9m sabe que significa\u00e7\u00e3o fatal\u00edssima e cruel tinham estas poucas palavras! eram uma senten\u00e7a de peregrina\u00e7\u00e3o eterna que se pronunciava contra si mesmo; queriam dizer que se come\u00e7ava uma longa e afadigosa viagem, cujo termo bem distante era a caixa da Rela\u00e7\u00e3o, e durante a qual se tinha de pagar importe de passagem em um sem-n\u00famero de pontos; o advogado, o procurador, o inquiridor, o escriv\u00e3o, o juiz, inexor\u00e1veis Carontes, estavam \u00e0 porta de m\u00e3o estendida, e ningu\u00e9m passava sem que lhes tivesse deixado, n\u00e3o um \u00f3bolo, por\u00e9m todo o conte\u00fado de suas algibeiras, e at\u00e9 a \u00faltima parcela de sua paci\u00eancia.<\/p>\n<p>Mas voltemos \u00e0 esquina. Quem passasse por a\u00ed em qualquer dia \u00fatil dessa aben\u00e7oada \u00e9poca veria sentado em assentos baixos, ent\u00e3o usados, de couro, e que se denominavam \u2014 cadeiras de campanha \u2014 um grupo mais ou menos numeroso dessa nobre gente conversando pacificamente em tudo sobre que era l\u00edcito conversar: na vida dos fidalgos, nas not\u00edcias do Reino e nas ast\u00facias policiais do Vidigal. Entre os termos que formavam essa equa\u00e7\u00e3o meirinhal pregada na esquina havia uma quantidade constante, era o Leonardo-Pataca. Chamavam assim a uma rotunda e gord\u00edssima personagem de cabelos brancos e car\u00e3o avermelhado, que era o decano da corpora\u00e7\u00e3o, o mais antigo dos meirinhos que viviam nesse tempo. A velhice tinha-o tornado moleir\u00e3o e pachorrento; com sua vagareza atrasava o neg\u00f3cio das partes; n\u00e3o o procuravam; e por isso jamais sa\u00eda da esquina; passava ali os dias sentado na sua cadeira, com as pernas estendidas e o queixo apoiado sobre uma grossa bengala, que depois dos cinq\u00fcenta era a sua infal\u00edvel companhia. Do h\u00e1bito que tinha de queixar-se a todo o instante de que s\u00f3 pagassem por sua cita\u00e7\u00e3o a m\u00f3dica quantia de 320 r\u00e9is, lhe viera o apelido que juntavam ao seu nome.<\/p>\n<p>Sua hist\u00f3ria tem pouca coisa de not\u00e1vel. Fora Leonardo algibebe em Lisboa, sua p\u00e1tria; aborrecera-se por\u00e9m do neg\u00f3cio, e viera ao Brasil. Aqui chegando, n\u00e3o se sabe por prote\u00e7\u00e3o de quem, alcan\u00e7ou o emprego de que o vemos empossado, e que exercia, como dissemos, desde tempos remotos. Mas viera com ele no mesmo navio, n\u00e3o sei fazer o qu\u00ea, uma certa Maria da hortali\u00e7a, quitandeira das pra\u00e7as de Lisboa, saloia rechonchuda e bonitona. O Leonardo, fazendo-se-lhe justi\u00e7a, n\u00e3o era nesse tempo de sua mocidade mal-apessoado, e sobretudo era magan\u00e3o. Ao sair do Tejo, estando a Maria encostada \u00e0 borda do navio, o Leonardo fingiu que passava distra\u00eddo por junto dela, e com o ferrado sapat\u00e3o assentou-lhe uma valente pisadela no p\u00e9 direito. A Maria, como se j\u00e1 esperasse por aquilo, sorriu-se como envergonhada do gracejo, e deu-lhe tamb\u00e9m em ar de disfarce um tremendo belisc\u00e3o nas costas da m\u00e3o esquerda. Era isto uma declara\u00e7\u00e3o em forma, segundo os usos da terra: levaram o resto do dia de namoro cerrado; ao anoitecer passou-se a mesma cena de pisadela e belisc\u00e3o, com a diferen\u00e7a de serem desta vez um pouco mais fortes; e no dia seguinte estavam os dois amantes t\u00e3o extremosos e familiares, que pareciam s\u00ea-lo de muitos anos.<\/p>\n<p>Quando saltaram em terra come\u00e7ou a Maria a sentir certos enojos: foram os dois morar juntos: e da\u00ed a um m\u00eas manifestaram-se claramente os efeitos da pisadela e do belisc\u00e3o; sete meses depois teve a Maria um filho, formid\u00e1vel menino de quase tr\u00eas palmos de comprido, gordo e vermelho, cabeludo, esperneador e chor\u00e3o; o qual, logo depois que nasceu, mamou duas horas seguidas sem largar o peito. E este nascimento \u00e9 certamente de tudo o que temos dito o que mais nos interessa, porque o menino de quem falamos \u00e9 o her\u00f3i desta hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Chegou o dia de batizar-se o rapaz: foi madrinha a parteira; sobre o padrinho houve suas d\u00favidas: o Leonardo queria que fosse o Sr. juiz; por\u00e9m teve de ceder a inst\u00e2ncias da Maria e da comadre, que queriam que fosse o barbeiro de defronte, que afinal foi adotado. J\u00e1 se sabe que houve nesse dia fun\u00e7\u00e3o: os convidados do dono da casa, que eram todos dal\u00e9m-mar, cantavam ao desafio, segundo seus costumes; os convidados da comadre, que eram todos da terra, dan\u00e7avam o fado. O compadre trouxe a rabeca, que \u00e9, como se sabe, o instrumento favorito da gente do of\u00edcio. A princ\u00edpio o Leonardo quis que a festa tivesse ares aristocr\u00e1ticos, e prop\u00f4s que se dan\u00e7asse o minuete da corte. Foi aceita a id\u00e9ia, ainda que houvesse dificuldade em se encontrarem pares. Afinal levantaram-se uma gorda e baixa matrona, mulher de um convidado; uma companheira desta, cuja figura era a mais completa ant\u00edtese da sua; um colega do Leonardo, miudinho, pequenino, e com fuma\u00e7as de gaiato, e o sacrist\u00e3o da S\u00e9, sujeito alto, magro e com pretens\u00f5es de elegante. O compadre foi quem tocou o minuete na rabeca; e o afilhadinho, deitado no colo da Maria, acompanhava cada arcada com um guincho e um esperneio. Isto fez com que o compadre perdesse muitas vezes o compasso, e fosse obrigado a recome\u00e7ar outras tantas.<\/p>\n<p>Depois do minuete foi desaparecendo a cerim\u00f4nia, e a brincadeira aferventou, como se dizia naquele tempo. Chegaram uns rapazes de viola e machete: o Leonardo, instado pelas senhoras, decidiu-se a romper a parte l\u00edrica do divertimento. Sentou-se num tamborete, em um lugar isolado da sala, e tomou uma viola. Fazia um belo efeito c\u00f4mico v\u00ea-lo, em trajes do of\u00edcio, de casaca, cal\u00e7\u00e3o e espadim, acompanhando com um mon\u00f3tono zunzum nas cordas do instrumento o garganteado de uma modinha p\u00e1tria. Foi nas saudades da terra natal que ele achou inspira\u00e7\u00e3o para o seu canto, e isto era natural a um bom portugu\u00eas, que o era ele. A modinha era assim:<\/p>\n<p>Quando estava em minha terra,<\/p>\n<p>Acompanhado ou sozinho,<\/p>\n<p>Cantava de noite e de dia<\/p>\n<p>Ao p\u00e9 dum copo de vinho!<\/p>\n<p>Foi executada com aten\u00e7\u00e3o e aplaudida com entusiasmo; somente quem n\u00e3o pareceu dar-lhe todo o apre\u00e7o foi o pequeno, que obsequiou o pai como obsequiara ao padrinho, marcando-lhe o compasso a guinchos e esperneios. \u00c0 Maria avermelharam-se-lhe os olhos, e suspirou.<\/p>\n<p>O canto do Leonardo foi o derradeiro toque de rebate para esquentar-se a brincadeira, foi o adeus \u00e0s cerim\u00f4nias. Tudo da\u00ed em diante foi burburinho, que depressa passou \u00e0 gritaria, e ainda mais depressa \u00e0 algazarra, e n\u00e3o foi ainda mais adiante porque de vez em quando viam-se passar atrav\u00e9s das r\u00f3tulas da porta e janelas umas certas figuras que denunciavam que o Vidigal andava perto.<\/p>\n<p>A festa acabou tarde; a madrinha foi a \u00faltima que saiu, deitando a b\u00ean\u00e7\u00e3o ao afilhado e pondo-lhe no cinteiro um raminho de arruda.<\/p>\n<h2>TOMO I<\/h2>\n<h4>CAP\u00cdTULO II<\/h4>\n<h2>PRIMEIROS INFORT\u00daNIOS<\/h2>\n<p>Passemos por alto sobre os anos que decorreram desde o nascimento e batizado do nosso memorando, e vamos encontr\u00e1-lo j\u00e1 na idade de 7 anos. Digamos unicamente que durante todo este tempo o menino n\u00e3o desmentiu aquilo que anunciara desde que nasceu: atormentava a vizinhan\u00e7a com um choro sempre em oitava alta; era col\u00e9rico; tinha ojeriza particular \u00e0 madrinha, a quem n\u00e3o podia encarar, e era estranh\u00e3o at\u00e9 n\u00e3o poder mais.<\/p>\n<p>Logo que p\u00f4de andar e falar tornou-se um flagelo; quebrava e rasgava tudo que lhe vinha \u00e0 m\u00e3o. Tinha uma paix\u00e3o decidida pelo chap\u00e9u armado do Leonardo; se este o deixava por esquecimento em algum lugar ao seu alcance, tomava-o imediatamente, espanava com ele todos os m\u00f3veis, punha-lhe dentro tudo que encontrava, esfregava-o em uma parede, e acabava por varrer com ele a casa; at\u00e9 que a Maria, exasperada pelo que aquilo lhe havia custar aos ouvidos, e talvez \u00e0s costas, arrancava-lhe das m\u00e3os a v\u00edtima infeliz. Era, al\u00e9m de traquinas, guloso; quando n\u00e3o traquinava, comia. A Maria n\u00e3o lhe perdoava; trazia-lhe bem maltratada uma regi\u00e3o do corpo; por\u00e9m ele n\u00e3o se emendava, que era tamb\u00e9m teimoso, e as travessuras recome\u00e7avam mal acabava a dor das palmadas.<\/p>\n<p>Assim chegou aos 7 anos.<\/p>\n<p>Afinal de contas a Maria sempre era saloia, e o Leonardo come\u00e7ava a arrepender-se seriamente de tudo que tinha feito por ela e com ela. E tinha raz\u00e3o, porque, digamos depressa e sem mais cerim\u00f4nias, havia ele desde certo tempo concebido fundadas suspeitas de que era atrai\u00e7oado. Havia alguns meses atr\u00e1s tinha notado que um certo sargento passava-lhe muitas vezes pela porta, e enfiava olhares curiosos atrav\u00e9s das r\u00f3tulas: uma ocasi\u00e3o, recolhendo-se, parecera-lhe que o vira encostado \u00e0 janela. Isto por\u00e9m passou sem mais novidade.<\/p>\n<p>Depois come\u00e7ou a estranhar que um certo colega seu o procurasse em casa, para tratar de neg\u00f3cios do oficio, sempre em horas desencontradas: por\u00e9m isto tamb\u00e9m passou em breve. Finalmente aconteceu-lhe por tr\u00eas ou quatro vezes esbarrar-se junto de casa com o capit\u00e3o do navio em que tinha vindo de Lisboa, e isto causou-lhe s\u00e9rios cuidados. Um dia de manh\u00e3 entrou sem ser esperado pela porta adentro; algu\u00e9m que estava na sala abriu precipitadamente a janela, saltou por ela para a rua, e desapareceu.<\/p>\n<p>\u00c0 vista disto nada havia a duvidar: o pobre homem perdeu, como se costuma dizer, as estribeiras; ficou cego de ci\u00fame. Largou apressado sobre um banco uns autos que trazia embaixo do bra\u00e7o, e endireitou para a Maria com os punhos cerrados.<\/p>\n<p>\u2014 Grandess\u00edssima!&#8230;<\/p>\n<p>E a inj\u00faria que ia soltar era t\u00e3o grande que o engasgou&#8230; e p\u00f4s-se a tremer com todo o corpo.<\/p>\n<p>A Maria recuou dois passos e p\u00f4s-se em guarda, pois tamb\u00e9m n\u00e3o era das que se receava com qualquer coisa.<\/p>\n<p>\u2014 Tira-te l\u00e1, \u00f3 Leonardo!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o chames mais pelo meu nome, n\u00e3o chames&#8230; que tranco-te essa boca a socos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Safe-se da\u00ed! Quem lhe mandou p\u00f4r-se aos namoricos comigo a bordo?<\/p>\n<p>Isto exasperou o Leonardo; a lembran\u00e7a do amor aumentou-lhe a dor da trai\u00e7\u00e3o, e o ci\u00fame e a raiva de que se achava possu\u00eddo transbordaram em socos sobre a Maria, que depois de uma tentativa in\u00fatil de resist\u00eancia desatou a correr, a chorar e a gritar:<\/p>\n<p>\u2014 Ai&#8230; ai&#8230; acuda, Sr. compadre&#8230; Sr. compadre!&#8230;<\/p>\n<p>Por\u00e9m o compadre ensaboava nesse momento a cara de um fregu\u00eas, e n\u00e3o podia larg\u00e1-lo. Portanto a Maria pagou caro e por junto todas as contas. Encolheu-se a choramingar em um canto.<\/p>\n<p>O menino assistira a toda essa cena com imperturb\u00e1vel sangue-frio: enquanto a Maria apanhava e o Leonardo esbravejava, este ocupava-se tranq\u00fcilamente em rasgar as folhas dos autos que este tinha largado ao entrar, e em fazer delas uma grande cole\u00e7\u00e3o de cartuchos.<\/p>\n<p>Quando, esmorecida a raiva, o Leonardo p\u00f4de ver alguma coisa mais do que seu ci\u00fame, reparou ent\u00e3o na obra merit\u00f3ria em que se ocupava o pequeno. Enfurece-se de novo: suspendeu o menino pelas orelhas, f\u00ea-lo dar no ar uma meia-volta, ergue o p\u00e9 direito, assenta-lhe em cheio sobre os gl\u00fateos, atirando-o sentado a quatro bra\u00e7as de dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9s filho de uma pisadela e de um belisc\u00e3o; mereces que um pontap\u00e9 te acabe a casta.<\/p>\n<p>O menino suportou tudo com coragem de m\u00e1rtir, apenas abriu ligeiramente a boca quando foi levantado pelas orelhas: mal caiu, ergueu-se, embarafustou pela porta fora, e em tr\u00eas pulos estava dentro da loja do padrinho, e atracando-se-lhe \u00e0s pernas. O padrinho erguia nesse momento por cima da cabe\u00e7a do fregu\u00eas a bacia de barbear que lhe tirara dos queixos: com o choque que sofreu a bacia inclinou-se, e o fregu\u00eas recebeu um batismo de \u00e1gua de sab\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, mestre, esta n\u00e3o est\u00e1 m\u00e1!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Senhor, balbuciou este&#8230; a culpa \u00e9 deste endiabrado&#8230; O que \u00e9 que tens, menino?<\/p>\n<p>O pequeno nada disse; dirigiu apenas os olhos espantados para defronte, apontando com a m\u00e3o tr\u00eamula nessa dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O compadre olhou tamb\u00e9m, aplicou a aten\u00e7\u00e3o, e ouviu ent\u00e3o os solu\u00e7os da Maria.<\/p>\n<p>\u2014 Ham! resmungou; j\u00e1 sei o que h\u00e1 de ser&#8230; eu bem dizia&#8230; ora a\u00ed est\u00e1!&#8230;<\/p>\n<p>E desculpando-se com o fregu\u00eas saiu da loja e foi acudir ao que se passava.<\/p>\n<p>Por estas palavras v\u00ea-se que ele suspeitara alguma coisa; e saiba o leitor que suspeitara a verdade.<\/p>\n<p>Espiar a vida alheia, inquirir dos escravos o que se passava no interior das casas, era naquele tempo coisa t\u00e3o comum e enraizada nos costumes, que ainda hoje, depois de passados tantos anos, restam grandes vest\u00edgios desse belo h\u00e1bito. Sentado pois no fundo da loja, afiando por disfarce os instrumentos do of\u00edcio, o compadre presenciara os passeios do sargento por perto da r\u00f3tula de Leonardo, as visitas extempor\u00e2neas do colega deste, e finalmente os intentos do capit\u00e3o do navio. Por isso contava ele mais dia menos dia com o que acabava de suceder.<\/p>\n<p>Chegando ao outro lado da rua empurrou a r\u00f3tula que o menino ao sair deixara cerrada, e entrou. Dirigiu-se ao Leonardo, que se conservava ainda em posi\u00e7\u00e3o hostil.<\/p>\n<p>\u2014 \u00d3 compadre, disse, voc\u00ea perdeu o ju\u00edzo?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o foi o ju\u00edzo, disse o Leonardo em tom dram\u00e1tico, foi a honra!&#8230;<\/p>\n<p>A Maria, vendo-se protegida pela presen\u00e7a do compadre, cobrou \u00e2nimo, e altanando-se disse em tom de zombaria:<\/p>\n<p>\u2014 Honra!&#8230; honra de meirinho&#8230; ora!<\/p>\n<p>O vulc\u00e3o de despeito que as l\u00e1grimas da Maria tinham apagado um pouco, borbotou de novo com este insulto, que n\u00e3o ofendia s\u00f3 um homem, por\u00e9m uma classe inteira! Inj\u00farias e murros \u00e0 mistura ca\u00edram de novo sobre a Maria das m\u00e3os e da boca de Leonardo. O compadre, que se interpusera, levou alguns por descuido; afastou-se pois a dist\u00e2ncia conveniente, murmurando despeitado por ver frustrados seus esfor\u00e7os de conciliador:<\/p>\n<p>\u2014 Honra de meirinho \u00e9 como fidelidade de saloia.<\/p>\n<p>Enfim serenou a tormenta: a Maria sentou-se a um canto a chorar e a maldizer a hora em que nascera, o dia em que pela primeira vez vira o Leonardo, a pisadela, o belisc\u00e3o com que tinha come\u00e7ado o namoro a bordo, e tudo mais que a dor dos murros lhe trazia \u00e0 cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>O Leonardo, depois de um pouco de calma, teve um momento de exaspera\u00e7\u00e3o; avermelharam-se-lhe os olhos e as faces, cerrou os dentes, meteu as m\u00e3os nos bolsos do cal\u00e7\u00e3o, inchou as bochechas, e p\u00f4s-se a balan\u00e7ar violentamente a perna direita. Depois, como tomando uma resolu\u00e7\u00e3o extrema, juntou as folhas dispersas dos autos que o menino despeda\u00e7ara, enterrou atravessado na cabe\u00e7a o chap\u00e9u armado, agarrou na bengala, e saiu batendo com a r\u00f3tula e exclamando:<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1-se tudo com os diabos!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Vai&#8230; vai&#8230; exclamou a Maria j\u00e1 de novo em seguran\u00e7a, pondo as m\u00e3os nas cadeiras, que o caso n\u00e3o h\u00e1 de ficar assim&#8230; p\u00f4r-me as m\u00e3os!&#8230; ora.., vou com isto \u00e0 justi\u00e7a!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Comadre&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Nada, n\u00e3o atendo, compadre&#8230; vou com isto \u00e0 justi\u00e7a, e apesar de ser ele um meirinha\u00e7o muito velhaco, h\u00e1 de se haver comigo.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 melhor n\u00e3o se meter nisto, comadre&#8230; sempre s\u00e3o neg\u00f3cios com a justi\u00e7a&#8230; o compadre \u00e9 seu oficial, e ela h\u00e1 de punir pelos seus.<\/p>\n<p>As amea\u00e7as da Maria n\u00e3o passavam de bravatas que lhe arrancava o despeito, e portanto com mais quatro raz\u00f5es do compadre cedeu, e foi restitu\u00edda a paz em casa. Houve ent\u00e3o larga confer\u00eancia entre os dois, no fim da qual o compadre saiu dizendo:<\/p>\n<p>\u2014 Ele h\u00e1 de voltar&#8230; aquilo \u00e9 g\u00eanio&#8230; h\u00e1 de passar&#8230; e se n\u00e3o&#8230; o dito est\u00e1 dito; fico com o pequeno.<\/p>\n<p>A Maria mostrou-se satisfeita. Tinha ela suas resolu\u00e7\u00f5es tomadas, ou anteriormente ou naquela ocasi\u00e3o, e por isso na confer\u00eancia que referimos tratara de engodar o compadre e arrancar-lhe a promessa de que no caso de algum desarranjo tomaria a si e cuidaria do filho. Esse desarranjo ela figurara e o compadre acreditara que s\u00f3 partiria de Leonardo; por\u00e9m o leitor vai ver que o pobre homem era condescendente, e que a Maria tinha raz\u00e3o quando falara ironicamente em honra de meirinho.<\/p>\n<p>Toda esta cena que acabamos de descrever passou-se de manh\u00e3. \u00c0 tardinha o Leonardo entrou pela loja do compadre, aflito e triste. O pequeno estremeceu no banco em que se achava sentado, lembrando-se do passeio a\u00e9reo que o pontap\u00e9 de seu pai lhe fizera dar de manh\u00e3. O compadre adiantou-se e disse-lhe com um sorriso conciliador:<\/p>\n<p>\u2014 O passado passado; vamos&#8230; ela est\u00e1 arrependida&#8230; doidices de rapariga&#8230; mas n\u00e3o h\u00e1 de fazer outra&#8230;<\/p>\n<p>O Leonardo n\u00e3o respondeu; p\u00f4s-se a passear pela loja com as m\u00e3os cruzadas para tr\u00e1s e por baixo das abas da casaca; por\u00e9m pelo seu semblante via-se que ele estimara as palavras do compadre, e que seria o primeiro a pronunci\u00e1-las se ele n\u00e3o o precedesse.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos at\u00e9 l\u00e1, disse o compadre, e acabe-se tudo! Coitada!&#8230; ela ficou muito chorosa.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos, disse o Leonardo!&#8230;<\/p>\n<p>Chegando \u00e0 porta de casa fez uma pequena parada como quem tinha tomado a resolu\u00e7\u00e3o de n\u00e3o entrar; mas o que ele queria eram algumas s\u00faplicas do compadre, que pudessem ser ouvidas pela Maria; a fim de faz\u00ea-la acreditar que se ele voltava era arrastado, e n\u00e3o por sua vontade. O compadre percebeu isto, e satisfez o pensamento de Leonardo dizendo:<\/p>\n<p>\u2014 Entre, homem&#8230; basta de crian\u00e7adas&#8230; o passado passado.<\/p>\n<p>Entraram. A sala estava vazia; o Leonardo sentou-se junto de uma mesa, descansou o rosto numa das m\u00e3os, conservando sempre o chap\u00e9u armado atravessado na cabe\u00e7a, o que lhe dava um aspecto entre c\u00f4mico e melanc\u00f3lico.<\/p>\n<p>\u2014 Comadre, disse em voz alta o agente da concilia\u00e7\u00e3o, tudo est\u00e1 acabado; venha c\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m respondeu.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 de estar a\u00ed a chorar metida em algum canto, tornou o compadre.<\/p>\n<p>E come\u00e7ou a procurar por toda a casa.<\/p>\n<p>N\u00e3o era esta mui grande; em pouco percorreu-a toda, e ficou tomado do mais cruel desapontamento por n\u00e3o encontrar a Maria. Voltou portanto \u00e0 sala entre consternado e espantado.<\/p>\n<p>O Leonardo, supondo que ele tinha achado a Maria, e que sem d\u00favida a trazia pela m\u00e3o contrita e humilhada, quis fazer-se de bom: ergueu-se, meteu as m\u00e3os nos bolsos, e p\u00f4s-se de costas para o lugar donde vinha o compadre.<\/p>\n<p>\u2014 \u00d3 compadre, disse este aproximando-se&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Nada, atalhou o Leonardo sem voltar-se&#8230; o dito por n\u00e3o dito&#8230; mudei de resolu\u00e7\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Olhe, homem&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Nada, nada&#8230; est\u00e1 tudo acabado&#8230;<\/p>\n<p>O Leonardo, dizendo isto, ia dando sempre as costas ao compadre, quando se lhe queria p\u00f4r de frente.<\/p>\n<p>\u2014 Homem&#8230; escute&#8230; olhe que a comadre&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o quero saber dela&#8230; est\u00e1 tudo acabado; e j\u00e1 disse&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Foi-se embora&#8230; homem&#8230; foi-se embora, gritou o compadre impacientado.<\/p>\n<p>O Leonardo foi fulminado por estas palavras; voltou-se ent\u00e3o todo tr\u00eamulo. N\u00e3o vendo a Maria desatou a chorar.<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem, disse entre solu\u00e7os, est\u00e1 tudo acabado&#8230; adeus compadre!<\/p>\n<p>\u2014 Mas olhe que o pequeno&#8230; atalhou este.<\/p>\n<p>O Leonardo nada respondeu, e saiu precipitadamente.<\/p>\n<p>O compadre compreendeu tudo: viu que o Leonardo abandonava o filho, uma vez que a m\u00e3e o tinha abandonado, e fez um gesto como quem queria dizer: \u2014 est\u00e1 bom, j\u00e1 agora&#8230; v\u00e1; ficaremos com uma carga \u00e0s costas.<\/p>\n<p>Ao outro dia sabia-se por toda a vizinhan\u00e7a que a mo\u00e7a do Leonardo tinha fugido para Portugal com o capit\u00e3o de um navio que partira na v\u00e9spera de noite.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! disse o compadre com um sorriso maligno, ao saber da not\u00edcia, foram saudades da terra!&#8230;<\/p>\n<p>TOMO I<\/p>\n<h4>CAP\u00cdTULO III<\/h4>\n<h2>DESPEDIDA \u00c0S TRAVESSURAS<\/h2>\n<p>O Leonardo abandonara de uma vez para sempre a casa fatal onde tinha sofrido tamanha infelicidade; nem mesmo passara mais por aquelas alturas; de maneira que o compadre por muito tempo n\u00e3o lhe p\u00f4de p\u00f4r a vista em cima.<\/p>\n<p>O pequeno, enquanto se achou novato em casa do padrinho, portou-se com toda a sisudez e gravidade; apenas por\u00e9m foi tomando mais familiaridade, come\u00e7ou a p\u00f4r as manguinhas de fora. Apesar disto por\u00e9m captou do padrinho maior afei\u00e7\u00e3o, que se foi aumentando de dia em dia, e que em breve chegou ao extremo da amizade cega e apaixonada. At\u00e9 nas pr\u00f3prias travessuras do menino, as mais das vezes malignas, achava o bom do homem muita gra\u00e7a; n\u00e3o havia para ele em todo o bairro rapazinho mais bonito, e n\u00e3o se fartava de contar \u00e0 vizinhan\u00e7a tudo o que ele dizia e fazia; \u00e0s vezes eram verdadeiras a\u00e7\u00f5es de menino malcriado, que ele achava cheio de esp\u00edrito e de viveza; outras vezes eram ditos que denotavam j\u00e1 muita velhacaria para aquela idade, e que ele julgava os mais ing\u00eanuos do mundo.<\/p>\n<p>Era isto natural em um homem de uma vida como a sua; tinha j\u00e1 50 e tantos anos, nunca tinha tido afei\u00e7\u00f5es; passara sempre s\u00f3, isolado; era verdadeiro partid\u00e1rio do mais decidido celibato. Assim \u00e0 primeira afei\u00e7\u00e3o que fora levado a contrair sua alma expandiu-se toda inteira, e seu amor pelo pequeno subiu ao grau de rematada cegueira. Este, aproveitando-se da imunidade em que se achava por tal motivo, fazia tudo quanto lhe vinha \u00e0 cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Umas vezes sentado na loja divertia-se em fazer caretas aos fregueses quando estes se estavam barbeando. Uns enfureciam-se, outros riam sem querer; do que resultava que sa\u00edam muitas vezes com a cara cortada, com grande prazer do menino e descr\u00e9dito do padrinho. Outras vezes escondia em algum canto a mais afiada navalha do padrinho, e o fregu\u00eas levava por muito tempo com a cara cheia de sab\u00e3o mordendo-se de impaci\u00eancia enquanto este a procurava; ele ria-se furtiva e malignamente. N\u00e3o parava em casa coisa alguma por muito tempo inteira; fazia andar tudo numa poeira; pelos quintais atirava pedras aos telhados dos vizinhos; sentado \u00e0 porta da rua, entendia com quem passava e com quem estava pelas janelas, de maneira que ningu\u00e9m por ali gostava dele. O padrinho por\u00e9m n\u00e3o se dava disto, e continuava a querer-lhe sempre muito bem. Gastava \u00e0s vezes as noites em fazer castelos no ar a seu respeito; sonhava-lhe uma grande fortuna e uma elevada posi\u00e7\u00e3o, e tratava de estudar os meios que o levassem a esse fim. Eis aqui pouco mais ou menos o fio dos seus racioc\u00ednios. Pelo of\u00edcio do pai&#8230; (pensava ele) ganha-se, \u00e9 verdade, dinheiro quando se tem jeito, por\u00e9m sempre se h\u00e1 de dizer: \u2014 ora, \u00e9 um meirinho!&#8230; Nada&#8230; por este lado n\u00e3o&#8230; Pelo meu of\u00edcio&#8230; verdade \u00e9 que eu arranjei-me (h\u00e1 neste arranjei-me uma hist\u00f3ria que havemos de contar), por\u00e9m n\u00e3o o quero fazer escravo dos quatro vint\u00e9ns dos fregueses&#8230; Seria talvez bom mand\u00e1-lo ao estudo&#8230; por\u00e9m para que diabo serve o estudo? Verdade \u00e9 que ele parece ter boa mem\u00f3ria, e eu podia mais para diante mand\u00e1-lo a Coimbra&#8230; Sim, \u00e9 verdade&#8230; eu tenho aquelas patacas; estou j\u00e1 velho, n\u00e3o tenho filhos nem outros parentes&#8230; mas tamb\u00e9m que diabo se far\u00e1 ele em Coimbra? licenciado n\u00e3o: \u00e9 mau of\u00edcio; letrado? era bom&#8230; sim, letrado&#8230; mas n\u00e3o; n\u00e3o, tenho zanga a quem me lida com pap\u00e9is e demandas&#8230; Cl\u00e9rigo?&#8230; um senhor cl\u00e9rigo \u00e9 muito bom&#8230; \u00e9 uma coisa muito s\u00e9ria&#8230; ganha-se muito&#8230; pode vir um dia a ser cura. Est\u00e1 dito, h\u00e1 de ser cl\u00e9rigo&#8230; ora, se h\u00e1 de ser: hei de ter ainda o gostinho de o ver dizer missa&#8230; de o ver pregar na S\u00e9, e ent\u00e3o hei de mostrar a toda esta gentalha aqui da vizinhan\u00e7a que n\u00e3o gosta dele que eu tinha muita raz\u00e3o em lhe querer bem. Ele est\u00e1 ainda muito pequeno, mas vou tratar de o ir desasnando aqui mesmo em casa, e quando tiver 12 ou 14 anos h\u00e1 de me entrar para a escola.<\/p>\n<p>Tendo ruminado por muito tempo esta id\u00e9ia, um dia de manh\u00e3 chamou o pequeno e disse-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 Menino, venha c\u00e1, voc\u00ea est\u00e1 ficando um homem (tinha ele 9 anos); \u00e9 preciso que aprenda alguma coisa para vir um dia a ser gente; de segunda-feira em diante (estava em quarta-feira) come\u00e7arei a ensinar-lhe o b\u00ea-a-b\u00e1. Farte-se de travessuras por este resto da semana.<\/p>\n<p>O menino ouviu este discurso com um ar meio admirado, meio desgostoso, e respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o eu n\u00e3o hei de ir mais ao quintal, nem hei de brincar na porta?<\/p>\n<p>\u2014 Aos domingos, quando voltarmos da missa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora, eu n\u00e3o gosto da missa.<\/p>\n<p>O padrinho n\u00e3o gostou da resposta; n\u00e3o era bom an\u00fancio para quem se destinava a ser padre; mas nem por isso perdeu as esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>O menino tomou bem sentido nestas palavras do padrinho: &#8220;Farte-se de travessuras por este resto da semana&#8221;, e acreditou que aquilo era uma licen\u00e7a ampla para fazer tudo quanto de bom e de mau lhe lembrasse durante o tempo que ainda lhe restava de folga. Levou pois todo o dia em uma desenvoltura assustadora; o padrinho foi ach\u00e1-lo por duas ou tr\u00eas vezes a cavalo em cima do muro que dividia o quintal da casa do vizinho, em grande risco de precipitar-se.<\/p>\n<p>Ao anoitecer, estando sentado \u00e0 porta da loja, viu ao longe no princ\u00edpio da rua um acompanhamento alumiado pela luz de lanternas e tochas, e ouviu padres a rezarem; estremeceu de alegria e p\u00f4s-se em p\u00e9 de um salto. Era a via-sacra do Bom Jesus.<\/p>\n<p>H\u00e1 bem pouco tempo que existiam ainda em certas ruas desta cidade cruzes negras pregadas pelas paredes de espa\u00e7o em espa\u00e7o.<\/p>\n<p>\u00c0s quartas-feiras e em outros dias da semana sa\u00eda do Bom Jesus e de outras igrejas uma esp\u00e9cie de prociss\u00e3o composta de alguns padres conduzindo cruzes, irm\u00e3os de algumas irmandades com lanternas, e povo em grande quantidade; os padres rezavam e o povo acompanhava a reza. Em cada cruz parava o acompanhamento, ajoelhavam-se todos, e oravam durante muito tempo. Este ato, que satisfazia a devo\u00e7\u00e3o dos carolas, dava pasto e ocasi\u00e3o a quanta sorte de zombaria e de imoralidade lembrava aos rapazes daquela \u00e9poca, que s\u00e3o os velhos de hoje, e que tanto clamam contra o desrespeito dos mo\u00e7os de agora. Caminhavam eles em charola atr\u00e1s da prociss\u00e3o, interrompendo a cantoria com dit\u00e9rios em voz alta, ora simplesmente engra\u00e7ados, ora pouco decentes; levavam longos fios de barbante, em cuja extremidade iam penduradas grossas bolas de cera. Se ia por ali ao seu alcance algum infeliz, a quem os anos tivessem despido a cabe\u00e7a dos cabelos, colocavam-se em dist\u00e2ncia conveniente, e escondidos por tr\u00e1s de um ou de outro, arremessavam o proj\u00e9til que ia bater em cheio sobre a calva do devoto; puxavam rapidamente o barbante, e ningu\u00e9m podia saber donde tinha partido o golpe. Estas e outras cenas excitavam vozeria e gargalhadas na multid\u00e3o.<\/p>\n<p>Era a isto que naqueles devotos tempos se chamava correr a via-sacra.<\/p>\n<p>O menino, como j\u00e1 dissemos, estremecera de prazer ao ver aproximar-se a prociss\u00e3o. Desceu sorrateiramente a soleira, e sem ser visto pelo padrinho colocou-se unido \u00e0 parede entre as duas portas da loja, levantando-se na ponta dos p\u00e9s para ver mais a seu gosto.<\/p>\n<p>Vinha aproximando-se o acompanhamento, e o menino palpitava de prazer. Chegou mesmo defronte da porta; teve ele ent\u00e3o um pensamento que o fez estremecer; tornou-se a lembrar das palavras do padrinho: &#8220;farte-se de travessuras&#8221;; espiou para dentro da loja, viu-o entretido, deu um salto do lugar onde estava, misturou-se com a multid\u00e3o, e l\u00e1 foi concorrendo com suas gargalhadas e seus gritos para aumentar a vozeria. Era um prazer febril que ele sentia; esqueceu-se de tudo, pulou, saltou, gritou, rezou, cantou, e s\u00f3 n\u00e3o fez daquilo o que n\u00e3o estava em suas for\u00e7as. Fez camaradagem com dois outros meninos do seu tamanho que tamb\u00e9m iam no rancho, e quando deu acordo de si estava de volta com a via-sacra na Igreja do Bom Jesus.<\/p>\n<h2>TOMO I<\/h2>\n<h4>CAP\u00cdTULO IV<\/h4>\n<h2>FORTUNA<\/h2>\n<p>Enquanto o compadre, aflito, procura por toda a parte o menino, sem que ningu\u00e9m possa dar-lhe novas dele, vamos ver o que \u00e9 feito do Leonardo, e em que novas alhadas est\u00e1 agora metido.<\/p>\n<p>L\u00e1 para as bandas do mangue da Cidade Nova havia, ao p\u00e9 de um charco, uma casa coberta de palha da mais feia apar\u00eancia, cuja frente suja e testada enlameada bem denotavam que dentro o asseio n\u00e3o era muito grande. Compunha-se ela de uma pequena sala e um quarto; toda a mob\u00edlia eram dois ou tr\u00eas assentos de paus, algumas esteiras em um canto, e uma enorme caixa de pau, que tinha muitos empregos; era mesa de jantar, cama, guarda-roupa e prateleira. Quase sempre estava essa casa fechada, o que a rodeava de um certo mist\u00e9rio. Esta sinistra morada era habitada por uma personagem talhada pelo molde mais detest\u00e1vel; era um caboclo velho, de cara hedionda e imunda, e coberto de farrapos. Entretanto, para a admira\u00e7\u00e3o do leitor, fique-se sabendo que este homem tinha por of\u00edcio dar fortuna!<\/p>\n<p>Naquele tempo acreditava-se muito nestas coisas, e uma sorte de respeito supersticioso era tributado aos que exerciam semelhante profiss\u00e3o. J\u00e1 se v\u00ea que inesgot\u00e1vel mina n\u00e3o achavam nisso os industriosos!<\/p>\n<p>E n\u00e3o era s\u00f3 a gente do povo que dava cr\u00e9dito \u00e0s feiti\u00e7arias; conta-se que muitas pessoas da alta sociedade de ent\u00e3o iam \u00e0s vezes comprar venturas e felicidades pelo c\u00f4modo pre\u00e7o da pr\u00e1tica de algumas imoralidades e supersti\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Pois ao nosso amigo Leonardo tinha-lhe tamb\u00e9m dado na cabe\u00e7a tomar fortuna, e tinha isso por causa das contrariedades que sofria em uns novos amores que lhe faziam agora andar a cabe\u00e7a \u00e0 roda.<\/p>\n<p>Tratava-se de uma cigana; o Leonardo a vira pouco tempo depois da fuga da Maria, e das cinzas ainda quentes de um amor mal pago nascera outro que tamb\u00e9m n\u00e3o foi a este respeito melhor aquinhoado; mas o homem era rom\u00e2ntico, como se diz hoje, e bab\u00e3o, como se dizia naquele tempo; n\u00e3o podia passar sem uma paix\u00e3ozinha. Como o of\u00edcio rendia, e ele andava sempre apatacado, n\u00e3o lhe fora dif\u00edcil conquistar a posse do adorado objeto; por\u00e9m a fidelidade, a unidade no gozo, que era o que sua alma aspirava, isso n\u00e3o o pudera conseguir: a cigana tinha pouco mais ou menos sido feita no mesmo molde da saloia. Por toda a parte h\u00e1 sargentos, colegas e capit\u00e3es de navios; a rapariga tinha-lhe j\u00e1 feito umas poucas, e acabava tamb\u00e9m por fugir-lhe de casa. Desta vez por\u00e9m, como n\u00e3o eram saudades da p\u00e1tria a causa desta fugida, o Leonardo decidira haver de novo e por todos os meios a posse de sua amada. Encontrou-a com pouco trabalho, e empregando o pranto, as s\u00faplicas, as amea\u00e7as, por\u00e9m tudo embalde, decidiu por isso a buscar com meios sobrenaturais o que os meios humanos lhe n\u00e3o tinham podido dar.<\/p>\n<p>Entregou-se portanto em corpo e alma ao caboclo da casa do mangue, o mais afamado de todos os do of\u00edcio. Tinha-se j\u00e1 sujeitado a uma infinidade de provas, que come\u00e7avam sempre por uma contribui\u00e7\u00e3o pecuni\u00e1ria, e ainda nada havia conseguido; tinha sofrido fumiga\u00e7\u00f5es de ervas sufocantes, tragado beberagens de mui enjoativo sabor; sabia de cor milhares de ora\u00e7\u00f5es misteriosas, que era obrigado a repetir muitas vezes por dia; ia depositar quase todas as noites em lugares determinados quantias e objetos com o fim de chamar em aux\u00edlio, dizia o caboclo, as suas divindades; e apesar de tudo a cigana resistia ao sortil\u00e9gio. Decidiu-se finalmente a sujeitar-se \u00e0 \u00faltima prova, que foi marcada para a meia-noite em ponto na casa que j\u00e1 conhecemos. \u00c0 hora aprazada l\u00e1 se achou o Leonardo; encontrou na porta o nojento nigromante, que n\u00e3o consentiu que ele entrasse do modo em que se achava, e obrigou-o a p\u00f4r-se primeiro em h\u00e1bitos de Ad\u00e3o no para\u00edso, cobriu-o depois com um manto imundo que trazia, e s\u00f3 ent\u00e3o lhe franqueou entrada.<\/p>\n<p>A sala estava com um aparato ridiculamente sinistro, que n\u00e3o nos cansaremos em descrever; entre outras coisas, cuja significa\u00e7\u00e3o s\u00f3 conheciam os iniciados nos mist\u00e9rios do caboclo, havia no meio uma pequena fogueira.<\/p>\n<p>Come\u00e7ando a cerim\u00f4nia o Leonardo foi obrigado a ajoelhar-se em todos os \u00e2ngulos da casa, e recitar as ora\u00e7\u00f5es que j\u00e1 sabia e mais algumas que lhe foram ensinadas na ocasi\u00e3o, depois foi orar junto da fogueira. Neste momento sa\u00edram do quarto tr\u00eas novas figuras, que vieram tomar parte na cerim\u00f4nia, e come\u00e7aram ent\u00e3o, acompanhando-os o supremo sacerdote, uma dan\u00e7a sinistra em roda do Leonardo. De repente sentiram bater levemente na porta da parte de fora, e uma voz descansada dizer:<\/p>\n<p>\u2014 Abra a porta.<\/p>\n<p>\u2014 O Vidigal! disseram todos a um tempo, tomados do maior susto.<\/p>\n<h2>TOMO I<\/h2>\n<h4>CAP\u00cdTULO V<\/h4>\n<h2>O VIDIGAL<\/h2>\n<p>O som daquela voz que dissera &#8220;abra a porta&#8221; lan\u00e7ara entre eles, como dissemos, o espanto e o medo. E n\u00e3o foi sem raz\u00e3o; era ela o an\u00fancio de um grande aperto, de que por certo n\u00e3o poderiam escapar. Nesse tempo ainda n\u00e3o estava organizada a pol\u00edcia da cidade, ou antes estava-o de um modo em harmonia com as tend\u00eancias e id\u00e9ias da \u00e9poca. O major Vidigal era o rei absoluto, o \u00e1rbitro supremo de tudo que dizia respeito a esse ramo de administra\u00e7\u00e3o; era o juiz que julgava e distribu\u00eda a pena, e ao mesmo tempo o guarda que dava ca\u00e7a aos criminosos; nas causas da sua imensa al\u00e7ada n\u00e3o havia testemunhas, nem provas, nem raz\u00f5es, nem processo; ele resumia tudo em si; a sua justi\u00e7a era infal\u00edvel; n\u00e3o havia apela\u00e7\u00e3o das senten\u00e7as que dava, fazia o que queria, e ningu\u00e9m lhe tomava contas. Exercia enfim uma esp\u00e9cie de inquiri\u00e7\u00e3o policial. Entretanto, fa\u00e7amos-lhe justi\u00e7a, dados os descontos necess\u00e1rios \u00e0s id\u00e9ias do tempo, em verdade n\u00e3o abusava ele muito de seu poder, e o empregava em certos casos muito bem empregado.<\/p>\n<p>Era o Vidigal um homem alto, n\u00e3o muito gordo, com ares de moleir\u00e3o; tinha o olhar sempre baixo, os movimentos lentos, e voz descansada e adocicada. Apesar deste aspecto de mansid\u00e3o, n\u00e3o se encontraria por certo homem mais apto para o seu cargo, exercido pelo modo que acabamos de indicar.<\/p>\n<p>Uma companhia ordinariamente de granadeiros, \u00e0s vezes de outros soldados que ele escolhia nos corpos que havia na cidade, armados todos de grossas chibatas, comandada pelo major Vidigal, fazia toda a ronda da cidade de noite, e toda a mais pol\u00edcia de dia. N\u00e3o havia beco nem travessa, rua nem pra\u00e7a, onde n\u00e3o se tivesse passado uma fa\u00e7anha do Sr. major para pilhar um maroto ou dar ca\u00e7a a um vagabundo. A sua sagacidade era proverbial, e por isso s\u00f3 o seu nome incutia grande terror em todos os que n\u00e3o tinham a consci\u00eancia muito pura a respeito de falcatruas.<\/p>\n<p>Se no meio da algazarra de um fado rigoroso, em que a dec\u00eancia e os ouvidos dos vizinhos n\u00e3o eram muito respeitados, ouvia-se dizer &#8220;est\u00e1 a\u00ed o Vidigal&#8221;, mudavam-se repentinamente as cenas; serenava tudo em um momento, e a festa tomava logo um aspecto s\u00e9rio. Quando algum dos patuscos daquele tempo (que n\u00e3o gozava de grande reputa\u00e7\u00e3o de ativo e trabalhador) era surpreendido de noite de capote sobre os ombros e viola a tiracolo, caminhando em busca de s\u00facia, por uma voz branda que lhe dizia simplesmente &#8220;venha c\u00e1; onde vai?&#8221;, o \u00fanico rem\u00e9dio que tinha era fugir, se pudesse, porque com certeza n\u00e3o escapava por outro meio de alguns dias de cadeia, ou pelo menos da Casa da Guarda na S\u00e9; quando n\u00e3o vinha o c\u00f4vado e meio \u00e0s costas, como conseq\u00fc\u00eancia necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>Foi por isso que os nossos m\u00e1gicos e a sua infeliz v\u00edtima puseram-se em debandada mal conheceram pela voz quem se achava com eles. Quiseram escapar-se pelos fundos da casa, por\u00e9m ela estava toda cercada de granadeiros, em cujas m\u00e3os se viam a arma de que acima falamos. A porta abriu-se sem muita resist\u00eancia, e o major Vidigal (porque era com efeito ele) com os seus granadeiros achou-os em flagrante delito de nigromancia: estava ainda acesa a fogueira, e os mais objetos que serviam ao sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! disse ele, por aqui d\u00e1-se fortuna&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sr. major, pelo amor de Deus&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu tinha desejos de ver como era isso; continuem&#8230; sem-cerim\u00f4nia, vamos.<\/p>\n<p>Os infelizes hesitaram um pouco, por\u00e9m vendo que resistir seria in\u00fatil, come\u00e7aram de novo as cerim\u00f4nias, de que os soldados se riam, antevendo talvez qual seria o resultado. O Leonardo estava corrido de vergonha, tanto mais porque o Vidigal o conhecia; e procurava cobrir-se do melhor modo com a sua imunda capa. Ajoelhou-se quase arrastado outra vez no mesmo lugar; e recome\u00e7ou a dan\u00e7a, a que o major assistia de bra\u00e7os cruzados e com ar pachorrento. Quando os sacrificadores, julgando que j\u00e1 tinham dan\u00e7ado suficientemente, tentaram parar, o major disse brandamente:<\/p>\n<p>\u2014 Continuem.<\/p>\n<p>Depois de muito tempo quiseram parar de novo.<\/p>\n<p>\u2014 Continuem, disse outra vez o major.<\/p>\n<p>Continuaram por mais meia hora; passado esse tempo, j\u00e1 muito cansados, tentaram dar fim.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda n\u00e3o; continuem.<\/p>\n<p>Continuaram por tempos esquecidos, j\u00e1 estavam que n\u00e3o podiam de estafados; o nosso Leonardo, ajoelhado ao p\u00e9 da fogueira, quase que se desfazia em suor. Afinal o major deu-se por satisfeito, mandou que parassem, e sem se alterar disse para os soldados, com a sua voz doce e pausada:<\/p>\n<p>\u2014 Toca, granadeiros.<\/p>\n<p>A esta voz todas as chibatas ergueram-se, e ca\u00edram de rijo sobre as costas daquela honesta gente, fizeram-na dan\u00e7ar, e sem querer, ainda por algum tempo.<\/p>\n<p>\u2014 P\u00e1ra, disse o major depois de um bom quarto de hora.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou ent\u00e3o a fazer a cada um, um serm\u00e3o, em que se mostrava muito sentido por ter sido obrigado a chegar \u00e0quele excesso, e que terminava sempre por esta pergunta:<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, voc\u00ea em que se ocupa?<\/p>\n<p>Nenhum deles respondia. O major sorria-se e acrescentava com riso sard\u00f4nico:<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 bom!<\/p>\n<p>Chegou a vez do Leonardo.<\/p>\n<p>\u2014 Pois homem, voc\u00ea, um oficial de justi\u00e7a, que devia dar o exemplo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sr. major, respondeu ele acabrunhado, \u00e9 o diabo daquela rapariga que me obriga a tudo isto; j\u00e1 n\u00e3o sei de que meios use&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea h\u00e1 de ficar curado! Vamos para a casa da guarda.<\/p>\n<p>Com esta \u00faltima decis\u00e3o o Leonardo desesperou. Perdoaria de bom grado as chibatadas que levara, contanto que elas ficassem em segredo; mas ir para a casa da guarda, e dela talvez para a cadeia&#8230; isso \u00e9 que ele n\u00e3o podia tolerar. Rogou ao major que o poupasse; o major foi inflex\u00edvel. Desfez ent\u00e3o a vergonha em pragas \u00e0 maldita cigana que tanto o fazia sofrer.<\/p>\n<p>A casa da guarda era no largo da S\u00e9; era uma esp\u00e9cie de dep\u00f3sito onde se guardavam os presos que se faziam de noite, para se lhes dar depois conveniente destino. J\u00e1 se sabe que os amigos de novidades iam por ali de manh\u00e3 e sabiam com facilidade tudo que se tinha passado na noite antecedente.<\/p>\n<p>A\u00ed esteve o Leonardo o resto da noite e grande parte da manh\u00e3, exposto \u00e0 vistoria dos curiosos.<\/p>\n<p>Por infelicidade sua passou por acaso um colega, e vendo-o entrou para falar-lhe, isto quer dizer que da\u00ed a pouco toda a ilustre corpora\u00e7\u00e3o dos meirinhos da cidade sabia do ocorrido com o Leonardo, e j\u00e1 se preparava para dar-lhe uma solene pateada quando o neg\u00f3cio mudou de aspecto e o Leonardo foi mandado para a cadeia.<\/p>\n<p>Aparentemente os companheiros mostraram-se sentidos, por\u00e9m secretamente n\u00e3o deixaram de estimar o contratempo porque o Leonardo era muito afreguesado, e enquanto estava ele preso as partes os procuravam.<\/p>\n<h2>TOMO I<\/h2>\n<h4>CAP\u00cdTULO VI<\/h4>\n<h2>PRIMEIRA NOITE FORA DE CASA<\/h2>\n<p>O compadre, apenas dera por falta do afilhado, viu-se presa da maior afli\u00e7\u00e3o: p\u00f4s em alarma toda a vizinhan\u00e7a, procurou, indagou, mas ningu\u00e9m lhe deu novas nem mandados dele. Lembrou-se ent\u00e3o da via-sacra, e imaginou que o pequeno a teria acompanhado; percorreu todas as ruas por onde passara o acompanhamento, perguntando aflito a quantos encontrava pelo tesouro precioso de suas esperan\u00e7as; chegou sem encontrar vest\u00edgio algum at\u00e9 o Bom Jesus, onde lhe disseram ter visto tr\u00eas meninos que por se portarem endiabradamente na ocasi\u00e3o da entrada da via-sacra o sacrist\u00e3o os correra para fora da igreja.<\/p>\n<p>Foi este o \u00fanico sinal que p\u00f4de colher.<\/p>\n<p>Vagou depois por muito tempo pela rua, e s\u00f3 se recolheu para casa estando j\u00e1 a noite adiantada. Ao chegar \u00e0 porta de casa abriu-se o postigo de uma r\u00f3tula cont\u00edgua, e uma voz de mulher perguntou:<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o vizinho, nada?<\/p>\n<p>\u2014 Nada, vizinha, respondeu o compadre com voz desanimada.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, quando eu lhe digo que aquela crian\u00e7a tem maus bofes&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Vizinha, isto n\u00e3o s\u00e3o coisas que se digam&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Digo-lhe e repito-lhe que tem maus bofes&#8230; Deus permita que n\u00e3o, mas aquilo n\u00e3o tem bom fim&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Oh! senhora, replicou o compadre muito irritado, que tem a senhora com a minha vida e mais das coisas que me pertencem? Meta-se consigo, cuide nos seus bilros e na sua renda, e deixe a vida alheia.<\/p>\n<p>Entrou depois para casa murmurando:<\/p>\n<p>\u2014 Um dia fa\u00e7o aqui uma estralada com esta mulher: \u00e9 sempre isto! parece um agouro!<\/p>\n<p>Toda a noite levou o pobre homem acordado a pensar nos meios de achar o pequeno: e depois de ter formado mil planos, disse consigo:<\/p>\n<p>\u2014 Em \u00faltimo lugar vou ter com o major Vidigal.<\/p>\n<p>E esperou que o dia voltasse para prosseguir em suas pesquisas.<\/p>\n<p>Entretanto vamos satisfazer ao leitor, que h\u00e1 de talvez ter curiosidade de saber onde se meteu o pequeno.<\/p>\n<p>Com os emigrados de Portugal veio tamb\u00e9m para o Brasil a praga dos ciganos. Gente ociosa e de poucos escr\u00fapulos, ganharam eles aqui reputa\u00e7\u00e3o bem merecida dos mais refinados velhacos: ningu\u00e9m que tivesse ju\u00edzo se metia com eles em neg\u00f3cio, porque tinha certeza de levar carolo. A poesia de seus costumes e de suas cren\u00e7as, de que muito se fala, deixaram-na da outra banda do oceano; para c\u00e1 s\u00f3 trouxeram maus h\u00e1bitos, esperteza e velhacaria, e se n\u00e3o, o nosso Leonardo pode dizer alguma coisa a respeito. Viviam em quase completa ociosidade; n\u00e3o tinham noite sem festa. Moravam ordinariamente um pouco arredados das ruas populares, e viviam em plena liberdade. As mulheres trajavam com certo luxo relativo aos seus haveres: usavam muito de rendas e fitas; davam prefer\u00eancia a tudo quanto era encarnado, e nenhuma delas dispensava pelo menos um cord\u00e3o de ouro ao pesco\u00e7o; os homens n\u00e3o tinham outra distin\u00e7\u00e3o mais do que alguns tra\u00e7os fision\u00f4micos particulares que os faziam conhecidos.<\/p>\n<p>Os dois meninos com quem o pequeno fugitivo travara amizade pertenciam a uma fam\u00edlia dessa gente que morava no largo do Rossio, lugar que tinha por isso at\u00e9 algum tempo o nome de campo dos Ciganos. Tinham esses meninos, como dissemos, pouco mais ou menos a mesma idade que ele; por\u00e9m acostumados \u00e0 vida vagabunda, conheciam toda a cidade, e a percorriam s\u00f3s, sem que isso causasse cuidado a seus pais; nunca faltavam a acompanhamento de via-sacra, nem a outra qualquer coisa desse g\u00eanero. Encontrando-se nessa noite, como j\u00e1 sabem os leitores, como o nosso futuro cl\u00e9rigo, a ele se associaram, e o carregaram para casa de seus pais, onde, como de costume, havia festa de ciganos (e este costume ainda hoje se conserva); faziam, dissemos, festa todos os dias, por\u00e9m motivavam-na sempre. Hoje era um batizado, amanh\u00e3 um casamento, agora anos deste, logo anos daquele, festa deste, festa daquele santo. Na noite de que tratamos havia um orat\u00f3rio armado, e festejava-se um santo de sua devo\u00e7\u00e3o; n\u00e3o lhe sabemos o nome.<\/p>\n<p>Pelo caminho o menino teve alguns escr\u00fapulos e quis voltar, por\u00e9m os outros tal pintura lhe fizeram do que ele ia ver se os acompanhasse, que decidiu-se a segui-los at\u00e9 onde quisessem.<\/p>\n<p>Chegaram enfim \u00e0 casa, onde j\u00e1 tinha come\u00e7ado a festa.<\/p>\n<p>Ao lado esquerdo da sala estava o orat\u00f3rio iluminado por algumas pequenas velas de cera, sobre uma mesa coberta com uma toalha branca, servia-lhe de espaldar uma colcha de chita com folhos. Em roda da sala estavam colocados assentos de toda a natureza, bancos, cadeiras, etc., onde se assentavam os convidados. N\u00e3o eram estes em pequeno n\u00famero, eram ciganos e gente do pa\u00eds; traziam toilettes de toda a casta, do sofr\u00edvel para baixo; mostravam-se alegres e dispostos a aproveitarem bem a noite.<\/p>\n<p>Os meninos entraram sem que algu\u00e9m reparasse neles, e foram colocar-se junto do orat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco come\u00e7ou o fado.<\/p>\n<p>Todos sabem o que \u00e9 fado, essa dan\u00e7a t\u00e3o voluptuosa, t\u00e3o variada, que parece filha do mais apurado estudo da arte. Uma simples viola serve melhor do que instrumento algum para o efeito.<\/p>\n<p>O fado tem diversas formas, cada qual mais original. Ora, uma s\u00f3 pessoa, homem ou mulher, dan\u00e7a no meio da casa por algum tempo, fazendo passos os mais dificultosos, tomando as mais airosas posi\u00e7\u00f5es, acompanhando tudo isso com estalos que d\u00e1 com os dedos, e vai depois pouco e pouco aproximando-se de qualquer que lhe agrada; faz-lhe diante algumas nega\u00e7as e viravoltas, e finalmente bate palmas, o que quer dizer que a escolheu para substituir o seu lugar.<\/p>\n<p>Assim corre a roda toda at\u00e9 que todos tenham dan\u00e7ado.<\/p>\n<p>Outras vezes um homem e uma mulher dan\u00e7am juntos; seguindo com a maior certeza o compasso da m\u00fasica, ora acompanham-se a passos lentos, ora apressados, depois repelem-se, depois juntam-se; o homem \u00e0s vezes busca a mulher com passos ligeiros, enquanto ela, fazendo um pequeno movimento com o corpo e com os bra\u00e7os, recua vagarosamente, outras vezes \u00e9 ela quem procura o homem, que recua por seu turno, at\u00e9 que enfim acompanham-se de novo.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m a roda em que dan\u00e7am muitas pessoas, interrompendo certos compassos com palmas e com um sapateado \u00e0s vezes estrondoso e prolongado, \u00e0s vezes mais brando e mais breve, por\u00e9m sempre igual e a um s\u00f3 tempo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m destas h\u00e1 ainda outras formas de que n\u00e3o falamos. A m\u00fasica \u00e9 diferente para cada uma, por\u00e9m sempre tocada em viola. Muitas vezes o tocador canta em certos compassos uma cantiga \u00e0s vezes de pensamento verdadeiramente po\u00e9tico.<\/p>\n<p>Quando o fado come\u00e7a custa a acabar; termina sempre pela madrugada, quando n\u00e3o leva de enfiada dias e noites seguidas e inteiras.<\/p>\n<p>O menino, esquecido de tudo pelo prazer, assistiu \u00e0 festa enquanto p\u00f4de; depois chegou-lhe o sono, e, reunindo-se com os companheiros em um canto, adormeceram todos embalados pela viola e pelo sapateado.<\/p>\n<p>Quando amanheceu acordou sarapantado; chamou um dos companheiros, e pediu que o levasse para casa.<\/p>\n<p>O padrinho ia saindo para come\u00e7ar nas pesquisas quando esbarrou com ele.<\/p>\n<p>\u2014 Menino dos trezentos&#8230; onde te meteste tu?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Fui ver um orat\u00f3rio&#8230; N\u00e3o diz que eu hei de ser padre?!&#8230;<\/p>\n<p>O padrinho olhou-o por muito tempo, e afinal, n\u00e3o podendo resistir ao ar de ingenuidade que ele mostrava, desatou a rir, e levou-o para dentro j\u00e1 completamente apaziguado.<\/p>\n<h2>TOMO I<\/h2>\n<h4>CAP\u00cdTULO VII<\/h4>\n<h2>A COMADRE<\/h2>\n<p>Cumpre-nos agora dizer alguma coisa a respeito de uma personagem que representar\u00e1 no correr desta hist\u00f3ria um importante papel, e que o leitor apenas conhece, porque nela tocamos de passagem no primeiro cap\u00edtulo: \u00e9 a comadre, a parteira que, como dissemos, servira de madrinha ao nosso memorando.<\/p>\n<p>Era a comadre uma mulher baixa, excessivamente gorda, bonachona, ing\u00eanua ou tola at\u00e9 um certo ponto, e fin\u00f3ria at\u00e9 outro; vivia do oficio de parteira, que adotara por curiosidade, e benzia de quebranto; todos a conheciam por muito beata e pela mais desabrida papa-missas da cidade. Era a folhinha mais exata de todas as festas religiosas que aqui se faziam; sabia de cor os dias em que se dizia missa em tal ou tal igreja, como a hora e at\u00e9 o nome do padre; era pontual \u00e0 ladainha, ao ter\u00e7o, \u00e0 novena, ao seten\u00e1rio; n\u00e3o lhe escapava via-sacra, prociss\u00e3o, nem serm\u00e3o; trazia o tempo habilmente distribu\u00eddo e as horas combinadas, de maneira que nunca lhe aconteceu chegar \u00e0 igreja e achar j\u00e1 a missa no altar. De madrugada come\u00e7ava pela missa da Lapa; apenas acabava ia \u00e0 das 8 na S\u00e9, e da\u00ed saindo pilhava ainda a das 9 em Santo Ant\u00f4nio. O seu traje habitual era, como o de todas as mulheres da sua condi\u00e7\u00e3o e esfera, uma saia de lila preta, que se vestia sobre um vestido qualquer, um len\u00e7o branco muito teso e engomado ao pesco\u00e7o, outro na cabe\u00e7a, um ros\u00e1rio pendurado no c\u00f3s da saia, um raminho de arruda atr\u00e1s da orelha, tudo isto coberto por uma cl\u00e1ssica mantilha, junto \u00e0 renda da qual se pregava uma pequena figa de ouro ou de osso. Nos dias d\u00faplices, em vez de len\u00e7o \u00e0 cabe\u00e7a, o cabelo era penteado, e seguro por um enorme pente cravejado de cris\u00f3litas.<\/p>\n<p>Este uso da mantilha era um arremedo do uso espanhol; por\u00e9m a mantilha espanhola, temos ouvido dizer, \u00e9 uma coisa po\u00e9tica que reveste as mulheres de um certo mist\u00e9rio, e que lhes real\u00e7a a beleza; a mantilha das nossas mulheres, n\u00e3o; era a coisa mais prosaica que se pode imaginar, especialmente quando as que as traziam eram baixas e gordas como a comadre. A mais brilhante festa religiosa (que eram as mais freq\u00fcentadas ent\u00e3o) tomava um aspecto l\u00fagubre logo que a igreja se enchia daqueles vultos negros, que se uniam uns aos outros, que se inclinavam cochichando a cada momento.<\/p>\n<p>Mas a mantilha era o traje mais conveniente aos costumes da \u00e9poca; sendo as a\u00e7\u00f5es dos outros o principal cuidado de quase todos, era muito necess\u00e1rio ver sem ser visto. A mantilha para as mulheres estava na raz\u00e3o das r\u00f3tulas para as casas; eram o observat\u00f3rio da vida alheia. Muito agitada e cheia de acidentes era a vida que levava a comadre, de parteira, beata e curandeira de quebranto; n\u00e3o tinha por isso muito tempo de fazer visitas e procurar os conhecidos e amigos. Assim n\u00e3o procurava o Leonardo muitas vezes; havia muito tempo que n\u00e3o sabia not\u00edcia dele, nem da Maria, nem do afilhado, quando um dia na S\u00e9 ouviu entre duas beatas de mantilha a seguinte conversa:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o que lhe digo: a saloiazinha era da pele do tinhoso!<\/p>\n<p>\u2014 E parecia uma santinha&#8230; e o Leonardo o que lhe fez?<\/p>\n<p>\u2014 Ora, desancou-a de murros, e foi o que fez com que ela abalasse mais depressa com o capit\u00e3o&#8230; pois olhe, n\u00e3o teve raz\u00e3o; o Leonardo \u00e9 um rapag\u00e3o; ganhava boas patacas, e tratava dela como de uma senhora!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E o filho&#8230; que assim mesmo pequeno era um malcriad\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O padrinho tomou conta dele; quer-lhe um bem extraordin\u00e1rio&#8230; est\u00e1 maluco o coitado do homem, diz que o menino h\u00e1 de por for\u00e7a ser padre&#8230; mas qual padre, se ele \u00e9 um endiabrado!&#8230;<\/p>\n<p>Nesta ocasi\u00e3o levantava-se a Deus, e as duas beatas interromperam a conversa para bater nos peitos.<\/p>\n<p>Era uma delas a vizinha do compadre, que prognosticava mau fim ao menino, e com quem ele prometera fazer uma estralada: a outra era uma das que tinham estado na fun\u00e7\u00e3o do batizado.<\/p>\n<p>A comadre, apenas ouviu isso, foi procurar o compadre; n\u00e3o se pense por\u00e9m que a levara a isso outro interesse que n\u00e3o fosse a curiosidade, queria saber o caso com todos os menores detalhes; isso lhe dava longa mat\u00e9ria para a conversa na igreja, e para entreter as parturientes que se confiavam aos seus cuidados. Entrou pela loja do barbeiro; e apenas o avistou foi-lhe dizendo:<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, com que a tal comadre pregou-nos o mono? Veja o que s\u00e3o doidices; fazer aquilo ao Leonardo, um homem que n\u00e3o \u00e9 mal-arranjado&#8230; filho do Reino&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Apertaram-lhe as saudades da terra, disse o compadre com sorriso maligno.<\/p>\n<p>\u2014 Apertada se veja ela entre as unhas do tinhoso! Olhem que joiazinha&#8230; E voc\u00ea, mestre, ficou com a carga \u00e0s costas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Carga, n\u00e3o&#8230; eu quero-lhe bem, ele \u00e9 sossegadinho&#8230;<\/p>\n<p>Come\u00e7ou ent\u00e3o um interrogat\u00f3rio minucioso acerca do que tinha sucedido em casa do Leonardo; e os dois, compadre e comadre, desabafaram a seu gosto. Depois o compadre narrou, mesmo sem ser interrogado, todas as gentilezas do afilhado, e contou suas inten\u00e7\u00f5es a respeito dele. A comadre n\u00e3o concordou com elas (o que nada agradou ao compadre), n\u00e3o via o menino com jeito para padre; achava melhor met\u00ea-lo na Concei\u00e7\u00e3o a aprender um of\u00edcio. O compadre por\u00e9m persistiu em seus intentos, que tinha muita esperan\u00e7a de ver realizados. Afinal a comadre retirou-se.<\/p>\n<p>Pelo caminho foi repetindo o que acabara de saber a quanto conhecido encontrou, sem escrupulizar muito em acrescentar mais uma ou outra circunst\u00e2ncia com que carregava as cores do quadro.<\/p>\n<p>Entretanto o compadre aplicava-se a trabalhar na realiza\u00e7\u00e3o de seus intentos, e come\u00e7ou por ensinar o ABC ao menino; por\u00e9m, por primeira contrariedade, este empacou no F, e nada o fazia passar adiante.<\/p>\n<p>A comadre continuou a aparecer da\u00ed em diante por um motivo que mais tarde se saber\u00e1.<\/p>\n<p>Por agora vamos continuar a contar o que era feito do Leonardo.<\/p>\n<h3>TOMO I<\/h3>\n<h4>CAP\u00cdTULO VIII<\/h4>\n<h2>O P\u00c1TIO DOS BICHOS<\/h2>\n<p>Ainda hoje existe no sagu\u00e3o do pa\u00e7o imperial, que no tempo em que se passou esta nossa hist\u00f3ria se chamava Pal\u00e1cio del-rei, uma saleta ou quarto que os gaiatos e o povo com eles denominavam o P\u00e1tio dos Bichos. Este apelido lhe fora dado em conseq\u00fc\u00eancia do fim para que ele ent\u00e3o servia: passavam ali todos os dias do ano tr\u00eas ou quatro oficiais superiores, velhos, incapazes para a guerra e in\u00fateis na paz, que o rei tinha a seu servi\u00e7o n\u00e3o sabemos se com mais alguma vantagem de soldo, ou se s\u00f3 com mais a honra de serem empregados no real servi\u00e7o. Bem poucas vezes havia ocasi\u00e3o de serem eles chamados por ordem real para qualquer coisa, e todo o tempo passavam em santo \u00f3cio, ora mudos e silenciosos, ora conversando sobre coisas do seu tempo, e censurando as do que com raz\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o supunham do seu, porque nenhum deles era menor de 60 anos. \u00c0s vezes acontecia adormecerem todos ao mesmo tempo, e ent\u00e3o com a resson\u00e2ncia de suas respira\u00e7\u00f5es passando pelos narizes atabacados, entoavam um quarteto, peda\u00e7o impag\u00e1vel, que os oficiais e soldados que estavam de guarda, criados e mais pessoas que passavam, vinham apreciar \u00e0 porta. Eram os pobres homens muitas vezes v\u00edtimas de ca\u00e7oadas que naquele tempo de poucas preocupa\u00e7\u00f5es eram o objeto de estudo de muita gente.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes qualquer que os pilhava dormindo chegava \u00e0 porta e gritava:<\/p>\n<p>\u2014 Sr. tenente-coronel, el-rei procura por V. S.\u00aa<\/p>\n<p>Qualquer deles acordava espantado, tomava o chap\u00e9u armado, punha o talim, acontecendo \u00e0s vezes com a pressa ficar o chap\u00e9u torto ou a espada do lado direito, e l\u00e1 corria a ter com el-rei.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c0s vossas ordens, real senhor, dizia ainda bocejando.<\/p>\n<p>O rei, que percebia o neg\u00f3cio, desatava a rir e o mandava embora.<\/p>\n<p>Quando chegava o pobre homem abaixo, ia cada um dos que por ali se achavam indagar, o mais seriamente que era poss\u00edvel, qual tinha sido o objeto do chamado del-rei.<\/p>\n<p>Faziam-lhes destas e doutras, mas da\u00ed a pouco deixavam-se eles enganar de novo.<\/p>\n<p>Vamos fazer o leitor tomar conhecimento com um desses ativos militares, que entra tamb\u00e9m na nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Era velho como seus companheiros, por\u00e9m decerto por ele n\u00e3o \u00e9 que tinha vindo ao quarto o apelido que lhe davam: suas fei\u00e7\u00f5es quebradas pela idade tinham ainda certa regularidade de contorno que bem denotava que seu tempo de rapaz n\u00e3o fora a respeito de beleza mal favorecido; de seus cabelos que o tempo levara restavam apenas orlando-lhe as t\u00eamporas e a nuca alguns an\u00e9is crespos e prateados; sua calva era nobre e imponente. Fora valente; ganhara por seus feitos as dragonas de tenente-coronel; era filho de Portugal, e acompanhara el-rei na sua vinda ao Brasil.<\/p>\n<p>Estas qualidades por\u00e9m n\u00e3o lhe serviam de salvaguarda, e sofria como os outros as ca\u00e7oadas dos gaiatos.<\/p>\n<p>Assim um dia que uma mulher de mantilha o foi procurar, e se p\u00f4s com ele a conversar por algum tempo em particular, passavam uns e outros e escarravam junto da porta, ou deixavam escapar uma ou outra chala\u00e7a an\u00e1loga.<\/p>\n<p>\u2014 Amores velhos nunca se esquecem, dizia um.<\/p>\n<p>\u2014 Bravo! gosto do bom gosto, dizia outro.<\/p>\n<p>A mulher de mantilha \u00e9 nossa conhecida, porque nem mais nem menos \u00e9 a comadre; e o neg\u00f3cio que a\u00ed a levou tamb\u00e9m nos interessa, pois que se trata da soltura do pobre Leonardo. Ou\u00e7a portanto o leitor a conversa dos dois.<\/p>\n<p>\u2014 Sr. tenente-coronel, disse a comadre ao chegar, venho me valer de V. S.\u00aa: meu compadre Leonardo est\u00e1 na cadeia.<\/p>\n<p>\u2014 O Leonardo?! mas ent\u00e3o por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Ora! maluquices!<\/p>\n<p>E chegando-se ao ouvido do velho, contou-lhe a comadre baixinho a causa da pris\u00e3o do Leonardo.<\/p>\n<p>O velho desatou a rir.<\/p>\n<p>\u2014 Bem pregado!&#8230; disse.<\/p>\n<p>\u2014 Agora eu queria que V. S.\u00aa fizesse o favor de falar por ele ao Sr. major Vidigal, que foi quem o prendeu&#8230; coitado do homem: \u00e9 uma vergonha; mas tamb\u00e9m ele n\u00e3o se emenda!<\/p>\n<p>E prosseguindo, a comadre contou muito em segredo, como j\u00e1 o tinha feito a todos os seus conhecidos, toda a hist\u00f3ria dos infelizes amores do Leonardo com a Maria, todas as diabruras do menino que ela deixara e de que o padrinho tomara conta: passou depois a relatar todo o ocorrido com a cigana, e voltou de novo \u00e0 hist\u00f3ria da pris\u00e3o, que contou e recontou vinte vezes, sem lhe escapar a mais pequenina circunst\u00e2ncia. No fim tornou a fazer o seu pedido, a que o velho prometeu satisfazer, e ent\u00e3o saiu ela recebendo no sagu\u00e3o muitos cumprimentos e sorrisos maliciosos. Na porta por onde saiu estava encostado um cadete que lhe disse:<\/p>\n<p>\u2014 Estimo que fosse feliz; no dia do batizado n\u00e3o se esque\u00e7a da gente.<\/p>\n<p>\u2014 Arrenego! foi a \u00fanica resposta que ela deu, e passou.<\/p>\n<p>Como o velho tenente-coronel conhecia a comadre e o Leonardo, e por que se interessava por ele, o leitor saber\u00e1 mais para diante.<\/p>\n<p>Esse conhecimento era antigo, e o Leonardo apenas se achou na cadeia, lembrou-se da prote\u00e7\u00e3o que o velho lhe podia prestar em semelhante aperto; mandou por um colega chamar a comadre, e a encarregou da miss\u00e3o de ir ter com ele, miss\u00e3o que ela aceitou de bom grado, e que desempenhou, segundo vimos, satisfatoriamente.<\/p>\n<p>O velho, apenas a comadre saiu, tomou o chap\u00e9u armado, p\u00f4s a espada \u00e0 cinta e saiu, depois de ter contado aos companheiros o que sucede a quem vai tomar fortuna. Um deles, que era cr\u00e9dulo at\u00e9 ao entusiasmo a respeito de feiti\u00e7arias, ficou muito indignado com o caso, e prometeu tamb\u00e9m empenhar-se pelo Leonardo.<\/p>\n<p>J\u00e1 v\u00ea pois o leitor que o neg\u00f3cio n\u00e3o estava mal parado, e em breve saber\u00e1 o resultado de tudo isto.<\/p>\n<h3>TOMO I<\/h3>\n<h4>CAP\u00cdTULO IX<\/h4>\n<h2>O \u2014 ARRANJEI-ME \u2014 DO COMPADRE<\/h2>\n<p>Os leitores estar\u00e3o lembrados do que o compadre dissera quando estava a fazer castelos no ar a respeito do afilhado, e pensando em dar-lhe o mesmo oficio que exercia, isto \u00e9, daquele arranjei-me, cuja explica\u00e7\u00e3o prometemos dar. Vamos agora cumprir a promessa.<\/p>\n<p>Se algu\u00e9m perguntasse ao compadre por seus pais, por seus parentes, por seu nascimento, nada saberia responder, porque nada sabia a respeito. Tudo de que se recordava de sua hist\u00f3ria reduzia-se a bem pouco. Quando chegara \u00e0 idade de dar acordo da vida, achou-se em casa de um barbeiro que dele cuidava, por\u00e9m que nunca lhe disse se era ou n\u00e3o seu pai ou seu parente, nem t\u00e3o pouco o motivo por que tratava da sua pessoa. Tamb\u00e9m nunca isso lhe dera cuidado, nem lhe veio \u00e0 curiosidade indag\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Esse homem ensinara-lhe o of\u00edcio, e por inaudito milagre tamb\u00e9m a ler e a escrever. Enquanto foi aprendiz passou em casa do seu&#8230; mestre, em falta de outro nome, uma vida que por um lado se parecia com a do f\u00e2mulo, por outro com a do filho, por outro com a do agregado, e que afinal n\u00e3o era sen\u00e3o vida de enjeitado, que o leitor sem d\u00favida j\u00e1 adivinhou que ele o era. A troco disso dava-lhe o mestre sustento e morada, e pagava-se do que por ele tinha j\u00e1 feito.<\/p>\n<p>Quando passou de menino a rapaz, e chegou a saber barbear e sangrar sofrivelmente, foi obrigado a manter-se \u00e0 sua custa e a pagar a morada com os ganchos que fazia, porque o produto do mais trabalho pertencia ainda ao mestre. Sujeitou-se a isso. Por\u00e9m queriam ainda mais: exigiam que continuasse a empregar-se no servi\u00e7o dom\u00e9stico. Lavrou-lhe ent\u00e3o n\u2019alma um arrepio de dignidade: j\u00e1 era oficial, e n\u00e3o queria rebaixar o seu oficio. Virou mareta; fez-se duro, e safou-se de casa sem escr\u00fapulos nem remorsos, pois bem sabia que estavam saldas as contas de parte a parte. Tinham-no criado; ele tinha servido. Tamb\u00e9m n\u00e3o encontrou grande resist\u00eancia \u00e0 sua delibera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Apenas passou o primeiro \u00edmpeto e teve tempo de reflexionar, quase que come\u00e7ou a arrepender-se por n\u00e3o saber qual o meio de achar arranjo. Viu-se na rua, sem saber para onde ir, tendo por \u00fanica fortuna uma bacia de barbear embaixo do bra\u00e7o, um par de navalhas e outro de lancetas na algibeira. Verdade \u00e9 que quem tinha consigo estes trastes estava com as armas e uniforme do of\u00edcio; por\u00e9m isso n\u00e3o bastava; o pobre rapaz estava em apertos.<\/p>\n<p>Passou a primeira noite em casa de um colega, e no dia seguinte ao amanhecer, tomando os seus apetrechos, saiu em busca de que fazer para aquele dia, e de destino para os mais que se iam seguir.<\/p>\n<p>Achou ambas as coisas; uma trouxe a outra.<\/p>\n<p>No Largo do Pa\u00e7o um marujo que estava sentado em uma pedra junto ao mar chamou-o para que lhe fizesse a barba: m\u00e3os \u00e0 obra, que j\u00e1 naquele dia n\u00e3o morria de fome.<\/p>\n<p>Todo o barbeiro \u00e9 tagarela, e principalmente quando tem pouco que fazer; come\u00e7ou portanto a puxar conversa com o fregu\u00eas. Foi a sua salva\u00e7\u00e3o e fortuna.<\/p>\n<p>O navio a que o marujo pertencia viajava para a Costa e ocupava-se no com\u00e9rcio de negros; era um dos comboios que traziam fornecimento para o Valongo, e estava pronto a largar.<\/p>\n<p>\u2014 \u00d3 mestre! disse o marujo no meio da conversa, voc\u00ea tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 sangrador?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, eu tamb\u00e9m sangro&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois olhe, voc\u00ea estava bem bom, se quisesse ir conosco&#8230; para curar a gente a bordo; morre-se ali que \u00e9 uma praga.<\/p>\n<p>\u2014 Homem, eu da cirurgia n\u00e3o entendo muito&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois j\u00e1 n\u00e3o disse que sabe tamb\u00e9m sangrar?<\/p>\n<p>\u2014 Sim&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o j\u00e1 sabe at\u00e9 demais.<\/p>\n<p>No dia seguinte saiu o nosso homem pela barra fora: a fortuna tinha-lhe dado o meio, cumpria sab\u00ea-lo aproveitar; de oficial de barbeiro dava um salto mortal a m\u00e9dico de navio negreiro; restava unicamente saber fazer render a nova posi\u00e7\u00e3o. Isso ficou por sua conta.<\/p>\n<p>Por um feliz acaso logo nos primeiros dias de viagem adoeceram dois marinheiros; chamou-se o m\u00e9dico; ele fez tudo o que sabia&#8230; sangrou os doentes, e em pouco tempo estavam bons, perfeitos. Com isto ganhou imensa reputa\u00e7\u00e3o, e come\u00e7ou a ser estimado.<\/p>\n<p>Chegaram com feliz viagem ao seu destino; tomaram o seu carregamento de gente, e voltaram para o Rio. Gra\u00e7as \u00e0 lanceta do nosso homem, nem um s\u00f3 negro morreu, o que muito contribuiu para aumentar-lhe a s\u00f3lida reputa\u00e7\u00e3o de entendedor do riscado.<\/p>\n<p>Poucos dias antes de chegar ao Rio o capit\u00e3o do navio adoeceu; a princ\u00edpio nem ele nem algu\u00e9m teve a menor d\u00favida de que ficaria bom logo depois da primeira sangria; por\u00e9m repentinamente o neg\u00f3cio complicou-se, e nem com a terceira e quarta se p\u00f4de conseguir coisa alguma. No fim do quarto dia convenceram-se todos e o pr\u00f3prio doente capit\u00e3o de que estava chegada a sua hora. Nem por isso por\u00e9m inculparam o nosso homem.<\/p>\n<p>\u2014 Ali n\u00e3o h\u00e1 sangria que o salve, diziam; chegou a sua vez de dar \u00e0 costa&#8230; h\u00e1 de ir.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o teve de fazer suas \u00faltimas disposi\u00e7\u00f5es, e, como dissemos, tendo o m\u00e9dico granjeado grande amizade e confian\u00e7a, foi escolhido para desempenh\u00e1-las.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o chamou-o \u00e0 parte, e em segredo lhe fez entrega de uma cinta de couro e uma caixa de pau pejadas de um bom par de doblas em ouro e prata, pedindo que fielmente as fosse entregar, apenas chegasse \u00e0 terra, a uma filha sua, cuja morada lhe indicou. Al\u00e9m deste dinheiro encarregou-o tamb\u00e9m de receber a soldada daquela viagem e lhe dar o mesmo destino. Eram estas suas \u00fanicas e \u00faltimas vontades que o encarregava de cumprir, declarando-lhe que l\u00e1 do outro mundo o espiaria para ver como cuidava disso.<\/p>\n<p>Poucas horas depois expirou.<\/p>\n<p>Desse dia em diante nenhum s\u00f3 doente escapou mais, porque o m\u00e9dico j\u00e1 n\u00e3o sangrava tanto; andava preocupado, distra\u00eddo, e assim levou at\u00e9 chegar \u00e0 terra.<\/p>\n<p>Apenas saltou, declarou que n\u00e3o se tinha dado bem, e que n\u00e3o embarcaria mais.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s ordens do capit\u00e3o&#8230; hist\u00f3rias; quem \u00e9 que lhe havia de vir tomar contas disso? Ningu\u00e9m viu o que se passou; de nada se sabia. Os \u00fanicos que podiam ter desconfiado e fazer alguma coisa eram os marinheiros; por\u00e9m estes partiram em breve de novo para a Costa.<\/p>\n<p>O compadre decidiu-se a instituir-se herdeiro do capit\u00e3o, e assim o fez.<\/p>\n<p>Eis aqui como se explica o arranjei-me, e como se explicam muitos outros que v\u00e3o a\u00ed pelo mundo.<\/p>\n<h3>TOMO I<\/h3>\n<h4>CAP\u00cdTULO X<\/h4>\n<h2>EXPLICA\u00c7\u00d5ES<\/h2>\n<p>O velho tenente-coronel, apesar de virtuoso e bom, n\u00e3o deixava de ter na consci\u00eancia um sofr\u00edvel par de pecados, desses que se chamam da carne, e que n\u00e3o h\u00e3o de ser levados em conta, n\u00e3o de hoje, que a idade o tornara inofensivo, por\u00e9m do tempo da sua mocidade: o resultado de um deles fora um filho que deixara em Lisboa, fruto de um derradeiro amor que tivera aos 36 anos. Por castigo em nada havia ele sa\u00eddo ao pai, e nem os conselhos, nem os cuidados e nem o exemplo deste puderam encaminh\u00e1-lo por boa vereda. Aos 20 anos, tendo sentado pra\u00e7a, era um cadete desordeiro, jogador e o mais insubordinado do seu regimento. Bastantes vergonhas custara ao pobre pai, que cuidadoso procurava sempre por todos os meios encobrir-lhe os defeitos e remediar as gentilezas que fazia, j\u00e1 pagando por ele d\u00edvidas de jogo, j\u00e1 atabafando-lhe as desordens e curando com ouro as brechas que ele fazia na cabe\u00e7a de seus advers\u00e1rios. Houve por\u00e9m uma que as circunst\u00e2ncias e mesmo a natureza do caso n\u00e3o permitiram que tivesse rem\u00e9dio. Poucos dias antes de embarcar para o Brasil em companhia del-rei, estando o infeliz pai em preparativos de viagem, viu entrar-lhe pela porta adentro uma mulher velha, baixa, gorda, vermelha, vestida, segundo o costume das mulheres da baixa classe do pa\u00eds, com uma saia de ganga azul por cima de um vestido de chita, um len\u00e7o branco dobrado triangularmente posto sobre a cabe\u00e7a e preso embaixo do queixo, e uns grossos sapat\u00f5es nos p\u00e9s. Parecia presa de grande agita\u00e7\u00e3o e de raiva: seus olhos pequenos e azuis faiscavam de dentro das \u00f3rbitas afundadas pela idade, suas faces estavam rubras e reluzentes, seus l\u00e1bios franzinos e franzidos apertavam-se violentamente um contra o outro como prendendo uma torrente de inj\u00farias, e tornando mais sens\u00edvel ainda seu queixo pontudo e um pouco revirado.<\/p>\n<p>Apenas se achou ela em frente do capit\u00e3o (era este o posto que tinha nesse tempo o velho) foi-se chegando para ele com ar resoluto e enfurecido. O capit\u00e3o recuou instintivamente um passo.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! Sr. capit\u00e3o, disse ela por fim pondo as m\u00e3os nas cadeiras, chegando a boca muito perto do rosto dele e abanando raivosa a cabe\u00e7a: olhe que isto assim n\u00e3o vai direito; faz-me andar a cabe\u00e7a \u00e0 roda&#8230; p\u00f5e-me os miolos a ferver&#8230; e eu estouro&#8230; j\u00e1 viu!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas o que h\u00e1 ent\u00e3o, mulher?&#8230; Eu n\u00e3o lhe conhe\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o quero c\u00e1 saber de nada&#8230; J\u00e1 lhe disse que isto n\u00e3o vai bem&#8230; e eu estouro&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas por qu\u00ea?&#8230; o que \u00e9 que tem?&#8230; \u00c9 preciso que voc\u00ea diga&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenho nada que dizer&#8230; Estouro, j\u00e1 lhe disse, Sr. capit\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois estoure com trezentos diabos! mas ao menos diga pelo que \u00e9 que estoura.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenho nada que dizer&#8230; j\u00e1 lhe disse&#8230; isto p\u00f5e a cabe\u00e7a da gente como uma cebola podre, n\u00e3o tem lugar nenhum&#8230; Ir-me por l\u00e1 com ares de santarr\u00e3o comprar frutas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Quem, mulher de Deus? Voc\u00ea n\u00e3o se explicar\u00e1?<\/p>\n<p>\u2014 Qual explicar, nem meio explicar! Pois ent\u00e3o por ser c\u00e1 a gente uma mulher velha, que j\u00e1 perdeu os achegos ao mundo, e ela uma pobre rapariga tola e bisbilhoteira, com vontade de saber de tudo, vir-me c\u00e1 a mim pregar o mono na bochecha, e a ela em lugar ainda mais melindroso&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas quem \u00e9 que pregou monos a voc\u00ea mais a ela? e quem \u00e9 ela?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Faz-se de novo! continuou a mulher exasperando-se; pois o Sr. capit\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o tinha consentido no casamento?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que casamento? com quem?<\/p>\n<p>\u2014 Ai, ai, ai, que c\u00e1 me anda a cabe\u00e7a como uma nora solta&#8230; Pois o Sr. capit\u00e3o n\u00e3o sabe que tem um filho?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, sei, respondeu este come\u00e7ando a descobrir o mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>\u2014 E n\u00e3o sabe que ele \u00e9 um peda\u00e7o de um mariola!&#8230;<\/p>\n<p>A isto o capit\u00e3o podia, por\u00e9m n\u00e3o se animou a responder afirmativamente, e perguntou somente:<\/p>\n<p>\u2014 E que mais?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E n\u00e3o sabe tamb\u00e9m que eu tenho uma filha que trouxe do Lumiar, a Mariazinha?<\/p>\n<p>\u2014 Como, se eu nem a conhe\u00e7o?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois \u00e9 uma rapariga muito capaz&#8230; e o diabo do tal cadete do seu filho andou por l\u00e1 a entender com ela muito tempo: namoro para c\u00e1, namoro para l\u00e1, presentes daqui, promessas dacol\u00e1&#8230; e afinal de contas&#8230; br\u00e1s!&#8230; E ent\u00e3o que lhe parece?<\/p>\n<p>O capit\u00e3o foi \u00e0s nuvens.<\/p>\n<p>\u2014 At\u00e9 lhe prometeu casamento, dizendo que o Sr. capit\u00e3o consentia&#8230; Ora eu bem sei que ela tamb\u00e9m teve sua culpa&#8230; mas eu desculpo isso, porque tamb\u00e9m j\u00e1 fui rapariga&#8230; e sei que quando come\u00e7a c\u00e1 o diabo no corpo, adeus! Mas isto p\u00f5e a gente tonta, porque&#8230; enfim a rapariga podia vir a fazer fortuna.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o tinha compreendido tudo, e por mais algumas explica\u00e7\u00f5es que se seguiram viu-se reduzido ao maior aperto. Desta vez a diabrura do rapaz era irremedi\u00e1vel. A mulher tinha toda a raz\u00e3o; por\u00e9m casar seu filho com a filha de uma colareja&#8230; isso n\u00e3o poderia ser; al\u00e9m de que nada tinha que deixar ao filho, e s\u00f3 com o soldo de cadete n\u00e3o poderia sustentar mulher e casa, restando al\u00e9m disso a d\u00favida se ele estaria ou n\u00e3o pelos autos&#8230;<\/p>\n<p>Despediu a velha, n\u00e3o sem lhe prometer que providenciaria sobre o caso.<\/p>\n<p>\u2014 Olhe, veja l\u00e1, disse ela ao sair; se o neg\u00f3cio n\u00e3o se arranja, eu estouro!&#8230;<\/p>\n<p>O pobre homem ficou nos apuros; foi ter com a ofendida, e procurou, oferecendo-lhe alguma coisa para seu dote, obter que ela se calasse, e que desistisse de suas pretens\u00f5es; esta quis a princ\u00edpio recusar, por\u00e9m a m\u00e3e aconselhou-a que aceitasse, sem d\u00favida com medo de estourar. Deste modo ficou o caso um pouco remediado, posto que a consci\u00eancia do capit\u00e3o, que era de homem de honra, n\u00e3o ficara de modo algum satisfeita. O tempo por\u00e9m n\u00e3o dava lugar a mais; era chegado o momento de acompanhar a el-rei, e ele partiu deixando o filho recomendado a quantos amigos tinha. Decorreram os anos, e quando menos esperava soube ele que se achava no Rio de Janeiro em companhia do Leonardo a tal Mariazinha, que ent\u00e3o j\u00e1 era a Maria que os leitores bem conhecem. Procurou fazer o que pudesse por ela para satisfazer todos os seus escr\u00fapulos de pai honrado, por\u00e9m quis faz\u00ea-lo ocultamente. Foi ter com a comadre, a quem j\u00e1 conhecia, e a encarregou de o avisar apenas sentisse que a Maria sofria qualquer necessidade. Nunca por\u00e9m teve ocasi\u00e3o de exercer a sua boa vontade diretamente para com ela. Apenas tinha feito ao Leonardo um pequeno favor em ocasi\u00e3o em que este se achava embara\u00e7ado por causa de uma irregularidade em uns autos que se lhe atribu\u00eda, e que a comadre o aconselhou de procur\u00e1-lo mesmo sem o conhecer, a t\u00edtulo de que era muito bom homem e amigo de servir a todos.<\/p>\n<p>Eis aqui por que o Leonardo se dirigiu no seu segundo apuro ao velho tenente-coronel por interm\u00e9dio da comadre, e por que este prometeu empenhar-se por ele, o que com efeito tratou de cumprir.<\/p>\n<p>Como dissemos, apenas a comadre saiu, saiu ele tamb\u00e9m, e foi tratar de p\u00f4r o Leonardo na rua. Dirigiu-se primeiro \u00e0 cadeia para colher do pr\u00f3prio Leonardo todas as informa\u00e7\u00f5es, e ent\u00e3o p\u00f4de ver que as que lhe tinha dado a comadre eram exat\u00edssimas, e que ela n\u00e3o deixara escapar a menor circunst\u00e2ncia. O Leonardo repetiu e confessou tudo o que ele j\u00e1 sabia, corrido de embara\u00e7o e de vergonha; e ao despedir-se o velho:<\/p>\n<p>\u2014 Sr. tenente-coronel, disse-lhe ele, V.S.\u00aa j\u00e1 me livrou de uma que n\u00e3o era culpa minha; livre-me desta tamb\u00e9m&#8230; olhe que est\u00e1 comprometida a minha honra&#8230;<\/p>\n<p>O Leonardo esquecia-se da teoria da Maria.<\/p>\n<p>\u2014 A honra n\u00e3o, respondeu o velho, o que est\u00e1 comprometido \u00e9 o seu ju\u00edzo: h\u00e3o de dizer (e eu sou o primeiro) que voc\u00ea est\u00e1 doido.<\/p>\n<p>\u2014 Fugi de uma saloia e fui cair numa cigana&#8230; tem raz\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>O velho saiu sorrindo-se. Da\u00ed dirigiu-se \u00e0 casa de um seu amigo, fidalgo de valimento, para dele obter a soltura do Leonardo. Morava ele em uma das ruas mais estreitas da cidade, em um sobrado de sacada de r\u00f3tulas de pau com pequenos postigos que se abriam \u00e0s furtadelas, sem que ningu\u00e9m de fora pudesse ver quem a eles chegava.<\/p>\n<p>A poeira amontoada nos cord\u00f5es da r\u00f3tula e as paredes encardidas pelo tempo davam \u00e0 casa um aspecto triste no exterior; quanto ao interior, andava pelo mesmo conseguinte. A sala era pequena e baixa; a mob\u00edlia que a guarnecia era toda de jacarand\u00e1 e feita no gosto antigo; todas as pe\u00e7as eram enormes e pesadas; as cadeiras e o canap\u00e9, de p\u00e9s arcados e espaldares alt\u00edssimos, tinham os assentos de couro, que era a moda da transi\u00e7\u00e3o entre o estofo e a palhinha. Quem quiser ter id\u00e9ia exata destes m\u00f3veis procure no consist\u00f3rio de alguma irmandade antiga, onde temos visto alguns deles.<\/p>\n<p>As paredes eram ornadas por uma d\u00fazia de quadros, ou antes de caixas de vidro que deixavam ver em seu interior paisagens e flores feitas de conchinhas de todas as cores, que n\u00e3o eram totalmente feios, por\u00e9m que n\u00e3o tinham decerto o subido valor que se lhes dava naquele tempo. \u00c0 direita da sala havia sobre uma mesa um enorme orat\u00f3rio no mesmo gosto da mob\u00edlia.<\/p>\n<p>Havia finalmente em um canto uma palma benta, destas que se distribuem no domingo de ramos; e se o leitor agora supuser tudo isto coberto por uma densa camada de poeira, ter\u00e1 id\u00e9ia perfeita do lugar em que foi recebido o velho tenente-coronel, que era pouco mais ou menos semelhante em todas as casas ricas de ent\u00e3o, e por isso nos demoramos em descrev\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Sem se fazer esperar muito, apareceu o dono da casa: era um homem j\u00e1 velho e de cara um pouco ingrata; vinha de tamancos, sem meias, em mangas de camisa, com um capote de l\u00e3 xadrez sobre os ombros, caixa de rap\u00e9 e len\u00e7o encarnado na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Em poucas palavras o velho exp\u00f4s-lhe o caso e lhe pediu que fosse falar a el-rei em favor de Leonardo.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio op\u00f4s ele algumas d\u00favidas, dizendo:<\/p>\n<p>\u2014 Homem, pois eu hei de ir a pal\u00e1cio por causa de um meirinho? El-rei h\u00e1 de rir-se do meu afilhado.<\/p>\n<p>Afinal, por\u00e9m, teve de ceder a inst\u00e2ncias da amizade, e prometeu tudo. O velho saiu satisfeito e foi levar a nova ao Leonardo, que pulou de contente. Poucos dias depois chegou a ordem de soltura, e ele foi posto na rua. Acreditara que tinha acabado de passar pelo pior dos supl\u00edcios, por\u00e9m insuport\u00e1veis torturas come\u00e7aram para ele no dia em que saiu da cadeia: a mofa, o esc\u00e1rnio, o riso dos companheiros seguiu-o por muitos dias, incessante e martirizador.<\/p>\n<h3>TOMO I<\/h3>\n<h4>CAP\u00cdTULO XI<\/h4>\n<h2>PROGRESSO E ATRASO<\/h2>\n<p>Dadas as explica\u00e7\u00f5es do cap\u00edtulo precedente, voltemos ao nosso memorando, de quem por um pouco nos esquecemos. Apressemo-nos a dar ao leitor uma boa not\u00edcia: o menino desempacara do F, e j\u00e1 se achava no P, onde por uma infelicidade empacou de novo. O padrinho anda content\u00edssimo com este progresso, e v\u00ea clarear-se o horizonte de suas esperan\u00e7as; declara positivamente que nunca viu menino de melhor mem\u00f3ria do que o afilhado, e cada li\u00e7\u00e3o que este d\u00e1 sabida de quatro em quatro dias pelo menos \u00e9 para ele um triunfo. H\u00e1 por\u00e9m uma coisa que o entristece no meio de tudo: o menino tem para a reza, e em geral para tudo quanto diz respeito \u00e0 religi\u00e3o, uma avers\u00e3o decidida; n\u00e3o \u00e9 capaz de fazer o pelo-sinal da esquerda para a direita, f\u00e1-lo sempre da direita para a esquerda, e n\u00e3o foi poss\u00edvel ao padrinho, apesar de toda a paci\u00eancia e boa vontade, faz\u00ea-lo repetir de cor sem errar ao menos a metade do padre-nosso; em vez de dizer &#8220;venha a n\u00f3s o vosso reino&#8221; diz sempre &#8220;venha a n\u00f3s o p\u00e3o nosso&#8221;. Ir \u00e0 missa ou ao serm\u00e3o \u00e9 para ele o maior de todos os supl\u00edcios, isto faz que o padrinho desespere \u00e0s vezes, e at\u00e9 chegue a concordar com a comadre em que o menino n\u00e3o tem jeito para cl\u00e9rigo; por\u00e9m s\u00e3o nuvens passageiras; sempre h\u00e1 isto ou aquilo que faz renascer todas as esperan\u00e7as, e o homem caminha animado na sua obra.<\/p>\n<p>O que ele por\u00e9m esperava n\u00e3o esperavam todos, e ningu\u00e9m via no menino sen\u00e3o um futuro peralta da primeira grandeza; quem mais contava com isso era a vizinha do barbeiro, aquela a quem ele chamava o agouro do pequeno. Era a tal vizinha uma dessas mulheres que se chamam de faca e calhau, valentona, presun\u00e7osa, e que se gabava de n\u00e3o ter papas na l\u00edngua: era vi\u00fava, e importunava a todo o mundo com as virtudes do seu defunto. Serrazina e amiga de contrariar, n\u00e3o perdia ocasi\u00e3o de desmentir o vizinho em suas esperan\u00e7as a respeito do afilhado, declarando que n\u00e3o lhe via jeito para coisa nenhuma, que n\u00e3o queria para coisa que lhe pertencesse o fim que ele havia ter, e que quando ele crescesse o melhor rem\u00e9dio era dar-lhe com os ossos a bordo de um navio ou p\u00f4r-lhe o c\u00f4vado e meio \u00e0s costas. O barbeiro desesperava com isso; por muito tempo conseguiu conter-se, por\u00e9m um dia n\u00e3o p\u00f4de mais, e disparatou com a sujeita. Chegando por acaso \u00e0 porta da loja, a vizinha que estava \u00e0 janela disse-lhe em tom de zombaria:<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, vizinho, como vai o seu reverendo?<\/p>\n<p>Um velho que morava defronte, e que tamb\u00e9m se achava \u00e0 janela, desatou a rir com a pergunta.<\/p>\n<p>O compadre foi \u00e0s nuvens, avermelhou-se-lhe a calva, franziu a testa, por\u00e9m fez que n\u00e3o tinha ouvido. A vizinha p\u00f4s-se tamb\u00e9m a rir, percebendo o cavaco, e acrescentou:<\/p>\n<p>\u2014 Padre amigo do fado&#8230; tem que ver&#8230; Quando vai ele outra vez \u00e0 casa dos ciganos?&#8230;<\/p>\n<p>O velho defronte redobrou a risada. A vizinha continuou:<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o ele j\u00e1 encarrilha o padre-nosso?<\/p>\n<p>O compadre exasperou-se completamente; e, estudando uma inj\u00faria bem grande para responder, disse afinal:<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1&#8230; j\u00e1&#8230; senhora intrometida com a vida alheia&#8230; j\u00e1 sabe o padre-nosso, e eu o fa\u00e7o rezar todas as noites um pelo seu defunto marido que est\u00e1 a esta hora dando coices no inferno!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Hein?&#8230; o que \u00e9 que voc\u00ea diz, senhor raspa-barbas? voc\u00ea mete terceiros na conversa? disse a vizinha encrespando-se; olhe que esse de quem voc\u00ea fala nunca foi sangrador, nem viveu de aparas de cabelos&#8230; N\u00e3o se meta comigo que hei de lhe dizer das \u00faltimas e p\u00f4r-lhe os podres na rua&#8230; Coices no inferno!!! ora d\u00e1-se? um santo homem&#8230; Coices no inferno&#8230; Pois agora saiba, porque eu c\u00e1 n\u00e3o tenho papas na l\u00edngua, que o tal seu afilhado das d\u00fazias \u00e9 um peda\u00e7o de um malcriad\u00e3o muito grande, que h\u00e1 de desonrar as barbas de quem o criou&#8230; E n\u00e3o tem que ver, porque ele \u00e9 de m\u00e1 ra\u00e7a&#8230; j\u00e1 ouviu? n\u00e3o se meta comigo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E voc\u00ea, respondeu o compadre enquanto a vizinha tomava f\u00f4lego, por que se mete com o que n\u00e3o \u00e9 da sua reparti\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Ela prosseguiu:<\/p>\n<p>\u2014 Hei de me meter; n\u00e3o \u00e9 da sua conta, nem venha c\u00e1 dar regras, que eu n\u00e3o preciso de voc\u00ea&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas o que tem voc\u00ea que entender com uma crian\u00e7a inocente que nunca lhe fez mal?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Tenho muito, porque n\u00e3o me deixa parar os telhados com pedras, faz-me caretas quando me v\u00ea na janela, e trata-me como se eu fosse alguma saloia ou mulher de barbeiro&#8230; Digo-lhe e repito-lhe&#8230; aquilo tem maus bofes, e n\u00e3o h\u00e1 de ter bom fim&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 bom, senhora, respondeu o compadre que tinha bom g\u00eanio, e que s\u00f3 fora levado \u00e0quele excesso pelo amor do afilhado; basta de rezingas, olhe a vizinhan\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, tomara a vizinhan\u00e7a ver-se livre do tal diabo&#8230;<\/p>\n<p>O menino chegou nessa ocasi\u00e3o \u00e0 porta, e pondo-se na ponta dos p\u00e9s, esticando o pesco\u00e7o, e abanando-o como a vizinha e imitando-lhe a voz, repetiu:<\/p>\n<p>\u2014 Ver-se livre do tal diabo&#8230;<\/p>\n<p>O compadre achou tanta gra\u00e7a, que se deu por vingado, e desatou a rir por seu turno.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! disse a vizinha, agradece a boa vontade, meu diabo em figura de menino; tu n\u00e3o tens a culpa; a culpa tem quem te d\u00e1 ousadias.<\/p>\n<p>\u2014 A culpa tem quem te d\u00e1 ousadias&#8230; repetiu o menino arremedando.<\/p>\n<p>O compadre ria-se a perder.<\/p>\n<p>A vizinha desesperada bateu com o postigo e recolheu-se, por\u00e9m por muito tempo falou em voz alta, de maneira que toda a vizinhan\u00e7a ouvia, dizendo quanto improp\u00e9rio lhe veio \u00e0 cabe\u00e7a contra o barbeiro e o menino.<\/p>\n<p>\u2014 O pequeno encheu-me as medidas, disse este consigo, vingou-me desta; agora falta-me aquele velho de defronte que tamb\u00e9m a acompanhou na risota; mas n\u00e3o faltar\u00e1 ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>Esqueceu-nos dizer que o barbeiro, apesar de ter sabido, pouco se importara com a pris\u00e3o do Leonardo, e, referindo-se \u00e0 causa da infelicidade deste, dissera apenas:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 bem feito, para ele n\u00e3o se deixar arrastar para toda a parte agarrado em quanto rabo-de-saia lhe aparece.<\/p>\n<p>Nem foi \u00e0 cadeia visit\u00e1-lo, nem levar-lhe o filho para tomar a b\u00ean\u00e7\u00e3o, o que a comadre muito reprovou quando soube.<\/p>\n<p>O velho tenente-coronel, depois de ter posto na rua o Leonardo, informado miudamente, como sabe o leitor, pela comadre do destino da Maria, decidiu tomar o menino sob sua prote\u00e7\u00e3o, e acreditou que, se conseguisse felicit\u00e1-lo, lavaria seu filho do pecado de ter desonrado a Maria. Por interm\u00e9dio da comadre mandou oferecer ao compadre seu pr\u00e9stimo em favor do pequeno, mandou-lhe propor at\u00e9 que o deixasse ir para a sua companhia. O compadre por\u00e9m n\u00e3o esteve por isso de modo nenhum, e at\u00e9 se prometeu aceitar para qualquer outra coisa a prote\u00e7\u00e3o do tenente-coronel foi a inst\u00e2ncias da comadre.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o quero, dizia ele, que me roubem o gosto de t\u00ea-lo feito gente; comecei a minha obra, hei de acab\u00e1-la.<\/p>\n<p>\u2014 Homem, retorquira-lhe a comadre, voc\u00ea faz mal; olhe que o velho \u00e9 homem de representa\u00e7\u00e3o; veja como ele com duas voltas e meia p\u00f4s o Leonardo na rua.<\/p>\n<p>\u2014 Nada, n\u00e3o hei de dar o gostinho aqui a esta s\u00facia da vizinhan\u00e7a; hei de eu mesmo fazer a coisa por minhas m\u00e3os. L\u00e1 se o tenente-coronel quiser fazer alguma coisa por ele, aceito; mas quanto a tir\u00e1-lo da minha companhia, isso nunca. Agora j\u00e1 \u00e9 birra; hei de levar a minha avante.<\/p>\n<h3>TOMO I<\/h3>\n<h4>CAP\u00cdTULO XII<\/h4>\n<h2>ENTRADA PARA A ESCOLA<\/h2>\n<p>\u00c9 mister agora passar em sil\u00eancio sobre alguns anos da vida do nosso memorando para n\u00e3o cansar o leitor repetindo a hist\u00f3ria de mil travessuras de menino no g\u00eanero das que j\u00e1 se conhecem; foram diabruras de todo o tamanho que exasperaram a vizinha, desgostaram a comadre, mas que n\u00e3o alteraram em coisa alguma a amizade do barbeiro pelo afilhado: cada vez esta aumentava, se era poss\u00edvel, tornava-se mais cega. Com ele cresciam as esperan\u00e7as do belo futuro com que o compadre sonhava para o pequeno, e tanto mais que durante este tempo fizera este alguns progressos: lia soletrado sofrivelmente, e por inaudito triunfo da paci\u00eancia do compadre aprendera a ajudar missa. A primeira vez que ele conseguiu praticar com dec\u00eancia e exatid\u00e3o semelhante ato, o padrinho exultou; foi um dia de orgulho e de prazer: era o primeiro passo no caminho para que ele o destinava.<\/p>\n<p>\u2014 E dizem que n\u00e3o tem jeito para padre, pensou consigo; ora acertei o alvo, dei-lhe com a balda. Ele nasceu mesmo para aquilo, h\u00e1 de ser um cl\u00e9rigo de truz. Vou tratar de met\u00ea-lo na escola, e depois&#8230; toca.<\/p>\n<p>Com efeito foi cuidar nisso e falar ao mestre para receber o pequeno; morava este em uma casa da rua da Vala, pequena e escura.<\/p>\n<p>Foi o barbeiro recebido na sala, que era mobiliada por quatro ou cinco longos bancos de pinho sujos j\u00e1 pelo uso, uma mesa pequena que pertencia ao mestre, e outra maior onde escreviam os disc\u00edpulos, toda cheia de pequenos buracos para os tinteiros; nas paredes e no teto havia penduradas uma por\u00e7\u00e3o enorme de gaiolas de todos os tamanhos e feitios, dentro das quais pulavam e cantavam passarinhos de diversas qualidades: era a paix\u00e3o predileta do pedagogo.<\/p>\n<p>Era este um homem todo em propor\u00e7\u00f5es infinitesimais, baixinho, magrinho, de carinha estreita e chupada, excessivamente calvo; usava de \u00f3culos, tinha pretens\u00f5es de latinista, e dava bolos nos disc\u00edpulos por d\u00e1 c\u00e1 aquela palha. Por isso era um dos mais acreditados da cidade. O barbeiro entrou acompanhado pelo afilhado, que ficou um pouco escabriado \u00e0 vista do aspecto da escola, que nunca tinha imaginado. Era em um s\u00e1bado; os bancos estavam cheios de meninos, vestidos quase todos de jaqueta ou robiss\u00f5es de lila, cal\u00e7as de brim escuro e uma enorme pasta de couro ou papel\u00e3o pendurada por um cordel a tiracolo: chegaram os dois exatamente na hora da tabuada cantada. Era uma esp\u00e9cie de ladainha de n\u00fameros que se usava ent\u00e3o nos col\u00e9gios, cantada todos os s\u00e1bados em uma esp\u00e9cie de cantoch\u00e3o mon\u00f3tono e insuport\u00e1vel, mas de que os meninos gostavam muito.<\/p>\n<p>As vozes dos meninos, juntas ao canto dos passarinhos, faziam uma algazarra de doer os ouvidos; o mestre, acostumado \u00e0quilo, escutava impass\u00edvel, com uma enorme palmat\u00f3ria na m\u00e3o, e o menor erro que algum dos disc\u00edpulos cometia n\u00e3o lhe escapava no meio de todo o barulho; fazia parar o canto, chamava o infeliz, emendava cantando o erro cometido, e cascava-lhe pelo menos seis puxados bolos. Era o regente da orquestra ensinando a marcar o compasso. O compadre exp\u00f4s, no meio do ru\u00eddo, o objeto de sua visita, e apresentou o pequeno ao mestre.<\/p>\n<p>\u2014 Tem muito boa mem\u00f3ria; soletra j\u00e1 alguma coisa, n\u00e3o lhe h\u00e1 de dar muito trabalho, disse com orgulho.<\/p>\n<p>\u2014 E se mo quiser dar, tenho aqui o rem\u00e9dio; santa f\u00e9rula! disse o mestre brandindo a palmat\u00f3ria.<\/p>\n<p>O compadre sorriu-se, querendo dar a entender que tinha percebido o latim.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade: faz santos at\u00e9 \u00e0s feras, disse traduzindo.<\/p>\n<p>O mestre sorriu-se da tradu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Mas espero que n\u00e3o h\u00e1 de ser necess\u00e1ria, acrescentou o compadre.<\/p>\n<p>O menino percebeu o que tudo isto queria dizer, e mostrou n\u00e3o gostar muito.<\/p>\n<p>\u2014 Segunda-feira c\u00e1 vem, e pe\u00e7o-lhe que n\u00e3o o poupe, disse por fim o compadre despedindo-se. Procurou pelo menino e j\u00e1 o viu na porta da rua prestes a sair, pois que ali n\u00e3o se julgava muito bem.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, menino, sai sem tomar a b\u00ean\u00e7\u00e3o do mestre?&#8230;<\/p>\n<p>O menino voltou constrangido, tomou de longe a b\u00ean\u00e7\u00e3o, e sa\u00edram ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Na segunda-feira voltou o menino armado com a sua competente pasta a tiracolo, a sua lousa de escrever e o seu tinteiro de chifre; o padrinho o acompanhou at\u00e9 a porta. Logo nesse dia portou-se de tal maneira que o mestre n\u00e3o se p\u00f4de dispensar de lhe dar quatro bolos, o que lhe fez perder toda a folia com que entrara: declarou desde esse instante guerra viva \u00e0 escola. Ao meio-dia veio o padrinho busc\u00e1-lo, e a primeira not\u00edcia que ele lhe deu foi que n\u00e3o voltaria no dia seguinte, nem mesmo aquela tarde.<\/p>\n<p>\u2014 Mas voc\u00ea n\u00e3o sabe que \u00e9 preciso aprender?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o \u00e9 preciso apanhar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois voc\u00ea j\u00e1 apanhou?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o foi nada, n\u00e3o, senhor; foi porque entornei o tinteiro na cal\u00e7a de um menino que estava ao p\u00e9 de mim; o mestre ralhou comigo, e eu comecei a rir muito&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois voc\u00ea vai-se rir quando o mestre ralha&#8230;<\/p>\n<p>A comadre, apenas soube do que havia sucedido, foi procurar o Leonardo, e come\u00e7ou em um longo serm\u00e3o a querer persuad\u00ed-lo que tinha dado um passo errado.<\/p>\n<p>\u2014 Pois, compadre, disse-lhe ela, voc\u00ea n\u00e3o se emendou ainda!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Qual, hist\u00f3ria, eu sou doido por estas coisas.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, homem, voc\u00ea n\u00e3o se tem dado bem nem com as saloias nem com as ciganas; para que antes n\u00e3o procura uma filha c\u00e1 da terra?&#8230;<\/p>\n<p>A comadre tinha uma sobrinha que vivia em sua companhia, e que lhe pesava sofrivelmente sobre as costas; desde h\u00e1 muito nutria por isso uma id\u00e9ia de que o leitor mais tarde ter\u00e1 conhecimento quando ela se realizar, ou antes disso, se a perceber pelas palavras da comadre.<\/p>\n<p>\u2014 Nada, n\u00e3o gosto dessa gente&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tem raz\u00e3o; h\u00e1 por a\u00ed muita rapariga capaz; \u00e9 verdade que o que elas querem \u00e9 o toma l\u00e1, d\u00e1 c\u00e1 debaixo do arco-cruzeiro&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 por isso mesmo que eu n\u00e3o gosto.<\/p>\n<p>Depois de algumas outras tentativas a comadre retirou-se um pouco contrariada, mas n\u00e3o de todo desanimada; ela contava com a cigana para ajud\u00e1-la a realizar o seu plano, e o leitor ver\u00e1 para diante que tinha nisso raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Quanto ao nosso ex-sacrist\u00e3o, continuava ainda a estar sem destino, o que sobremaneira incomodava ao compadre, mas que nem por isso o desanimava. Coimbra era a sua id\u00e9ia fixa, e nada lha arrancava da cabe\u00e7a. At\u00e9 o pr\u00f3prio velho tenente-coronel j\u00e1 lhe tinha ido pessoalmente falar por solicita\u00e7\u00f5es da comadre, por\u00e9m nada conseguira. Exasperado com essa obstina\u00e7\u00e3o deixara o neg\u00f3cio de parte, e n\u00e3o se importara mais com coisa alguma.<\/p>\n<h3>TOMO I<\/h3>\n<h4>CAP\u00cdTULO XVII<\/h4>\n<h2>D. MARIA<\/h2>\n<p>Um dia de prociss\u00e3o foi sempre nesta cidade um dia de grande festa, de lufa-lufa, de movimento e de agita\u00e7\u00e3o; e se ainda \u00e9 hoje o que os nossos leitores bem sabem, na \u00e9poca em que viveram as personagens desta hist\u00f3ria a coisa subia de ponto; enchiam-se as ruas de povo, especialmente de mulheres de mantilha; armavam-se as casas, penduravam-se \u00e0s janelas magn\u00edficas colchas de seda, de damasco de todas as cores, e armavam-se coretos em quase todos os cantos. \u00c9 quase tudo o que ainda hoje se pratica, por\u00e9m em muito maior escala e grandeza, porque era feito por f\u00e9, como dizem as velhas desse bom tempo, por\u00e9m n\u00f3s diremos, porque era feito por moda: era tanto do tom enfeitar as janelas e portas em dias de prociss\u00e3o, ou concorrer de qualquer outro modo para o brilhantismo das festividades religiosas, como ter um vestido de mangas de presunto, ou trazer \u00e0 cabe\u00e7a um formid\u00e1vel trepa-moleque de dois palmos de altura.<\/p>\n<p>Nesse tempo as prociss\u00f5es eram multiplicadas, e cada qual buscava ser mais rica e ostentar maior luxo: as da quaresma eram de uma pompa extraordin\u00e1ria, especialmente quando el-rei se dignava acompanh\u00e1-las, obrigando toda a corte a fazer outro tanto: a que primava por\u00e9m entre todas era a chamada prociss\u00e3o dos ourives. Ningu\u00e9m ficava em casa no dia em que ela sa\u00eda, ou na rua ou nas casas dos conhecidos e amigos que tinham a ventura de morar em lugar por onde ela passasse, achavam todos meio de v\u00ea-la. Alguns haviam t\u00e3o devotos, que n\u00e3o se contentavam vendo-a uma s\u00f3 vez; andavam de casa deste para a casa daquele, desta rua para aquela, at\u00e9 conseguir v\u00ea-la desfilar de princ\u00edpio a fim duas, quatro e seis vezes, sem o que n\u00e3o se davam por satisfeitos. A causa principal de tudo isto era, supomos n\u00f3s, al\u00e9m talvez de outras, o levar esta prociss\u00e3o uma coisa que n\u00e3o tinha nenhuma das outras: o leitor h\u00e1 de ach\u00e1-la sem d\u00favida extravagante e rid\u00edcula; outro tanto nos acontece, mas temos obriga\u00e7\u00e3o de referi-la. Queremos falar de um grande rancho chamado das \u2014 Baianas, \u2014 que caminhava adiante da prociss\u00e3o, atraindo mais ou tanto como os santos, os andores, os emblemas sagrados, os olhares dos devotos; era formado esse rancho por um grande n\u00famero de negras vestidas \u00e0 moda da prov\u00edncia da Bahia, donde lhe vinha o nome, e que dan\u00e7avam nos intervalos dos Deo-gratias uma dan\u00e7a l\u00e1 a seu capricho. Para falarmos a verdade, a coisa era curiosa: e se n\u00e3o a empregassem como primeira parte de uma prociss\u00e3o religiosa, certamente seria mais desculp\u00e1vel. Todos conhecem o modo por que se vestem as negras da Bahia; \u00e9 um dos modos de trajar mais bonito que temos visto, n\u00e3o aconselhamos por\u00e9m que ningu\u00e9m o adote; um pa\u00eds em que todas as mulheres usassem desse traje, especialmente se fosse desses aben\u00e7oados em que elas s\u00e3o alvas e formosas, seria uma terra de perdi\u00e7\u00e3o e de pecados. Procuremos descrev\u00ea-lo.<\/p>\n<p>As chamadas Baianas n\u00e3o usavam de vestido; traziam somente umas poucas de saias presas \u00e0 cintura, e que chegavam pouco abaixo do meio da perna, todas elas ornadas de magn\u00edficas rendas; da cintura para cima apenas traziam uma fin\u00edssima camisa, cuja gola e mangas eram tamb\u00e9m ornadas de renda; ao pesco\u00e7o punham um cord\u00e3o de ouro ou um colar de corais, os mais pobres eram de mi\u00e7angas; ornavam a cabe\u00e7a com uma esp\u00e9cie de turbante a que davam o nome de trunfas, formado por um grande len\u00e7o branco muito teso e engomado; cal\u00e7avam umas chinelinhas de salto alto, e t\u00e3o pequenas, que apenas continham os dedos dos p\u00e9s, ficando de fora todo o calcanhar; e al\u00e9m de tudo isto envolviam-se graciosamente em uma capa de pano preto, deixando de fora os bra\u00e7os ornados de argolas de metal simulando pulseiras.<\/p>\n<p>Poucos dias depois dos \u00faltimos acontecimentos narrados nos cap\u00edtulos antecedentes, chegou o dia da prociss\u00e3o dos ourives. Os nossos costumes nesse tempo a respeito de franqueza e hospitalidade n\u00e3o eram l\u00e1 muito louv\u00e1veis; nesse dia por\u00e9m sofriam uma exce\u00e7\u00e3o, e, como dissemos, as portas daqueles que moravam nas ruas por onde passava a prociss\u00e3o se abriam a todos os amigos e conhecidos. Em virtude disso aconteceu que se achassem reunidos em casa de uma certa D. Maria o compadre acompanhado do afilhado (ricamente vestido nesse dia com o seu robiss\u00e3o de duraque preto e o seu bon\u00e9 de p\u00ealo de lontra), a comadre e a vizinha dos maus agouros.<\/p>\n<p>D. Maria era uma mulher velha, muito gorda; devia ter sido muito formosa no seu tempo, por\u00e9m dessa formosura s\u00f3 lhe restavam o rosado das faces e alvura dos dentes; trajava nesse dia o seu vestido branco de cintura muito curta e mangas de presunto, o seu len\u00e7o tamb\u00e9m branco e muito engomado ao pesco\u00e7o; estava penteada de bugres, que eram dois grossos cachos ca\u00eddos sobre as frontes; o amarrado do cabelo era feito na coroa da cabe\u00e7a, de maneira que simulava um penacho. D. Maria tinha bom cora\u00e7\u00e3o, era benfazeja, devota e amiga dos pobres, por\u00e9m em compensa\u00e7\u00e3o destas virtudes tinha um dos piores v\u00edcios daquele tempo e daqueles costumes: era a mania das demandas. Como era rica, D. Maria alimentava este v\u00edcio largamente; as suas demandas eram o alimento da sua vida; acordada pensava nelas, dormindo sonhava com elas; raras vezes conversava em outra coisa, e apenas achava uma tangente ca\u00eda logo no assunto predileto; pelo longo h\u00e1bito que tinha da mat\u00e9ria, entendia do riscado a palmo, e n\u00e3o havia procurador que a enganasse; sabia todos aqueles termos jur\u00eddicos e toda a marcha do processo de modo tal, que ningu\u00e9m lhe levava nisso a palma. Essa mania chegava nela \u00e0 impertin\u00eancia, e aborrecia desesperadamente a quem a ouvia, falando nos \u00faltimos provar\u00e1s que lhe tinha feito o seu letrado nos autos da sua demanda de terras, nas raz\u00f5es finais que se tinham apresentado na a\u00e7\u00e3o que intentava contra um dos testamenteiros de seu pai, no depoimento das testemunhas no seu processo por causa da venda das suas casas, na cita\u00e7\u00e3o que mandara fazer a um seu inquilino que lhe havia passado um cr\u00e9dito de 20 doblas e que agora negava a d\u00edvida, e em mil outras coisas deste g\u00eanero.<\/p>\n<p>Apenas entrara o compadre, de quem era antiga amiga, e a quem n\u00e3o via h\u00e1 muito tempo, come\u00e7ou logo D. Maria por dar-lhe parte que aquela antiga demanda com o testamenteiro de seu pai ainda n\u00e3o estava acabada, e por a\u00ed ia j\u00e1 prosseguindo conforme seu costume, quando o compadre lhe apresentou o afilhado, e come\u00e7ou tamb\u00e9m a contar a sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou ele pela origem do pequeno; remontou \u00e0 pisadela e ao belisc\u00e3o com que a Maria e o Leonardo tinham come\u00e7ado o seu namoro na viagem de Lisboa ao Rio de Janeiro, o que fez dar a D. Maria boas risadas. Passou em seguida \u00e0 festa do batizado, que descreveu detalhadamente. At\u00e9 aqui era o drama risonho e feliz; veio depois a trag\u00e9dia; contou todas aquelas hist\u00f3rias da perf\u00eddia da Maria, dos ci\u00fames do Leonardo e da briga final, cujo resultado trouxera o pequeno \u00e0s suas m\u00e3os.<\/p>\n<p>D. Maria ouviu tudo com a maior aten\u00e7\u00e3o, e s\u00f3 interrompia ao compadre de vez em quando para lan\u00e7ar uma praga \u00e0 Maria, manifestar compaix\u00e3o pelo Leonardo, e dar alguma risada pelas travessuras do pequeno. Quando a conversa estava nesta altura, a vizinha dos maus agouros, que tamb\u00e9m j\u00e1 se achava presente, por\u00e9m que at\u00e9 ali estivera distra\u00edda, chegou-se para intervir na conversa, j\u00e1 se sabe, contra o pequeno. Referiu ent\u00e3o alguma das suas gra\u00e7olas, acrescentando sempre no fim de cada per\u00edodo e dirigindo-se ao compadre:<\/p>\n<p>\u2014 O vizinho, por mais bem que lhe queira, n\u00e3o poder\u00e1 negar isto&#8230;<\/p>\n<p>O compadre, que no meio de tudo tinha sempre pintado a hist\u00f3ria do menino com cores muito favor\u00e1veis, n\u00e3o cessando de gabar a sua mansid\u00e3o, boa \u00edndole, e dourando sempre as suas diabruras com o t\u00edtulo de inoc\u00eancias, ingenuidades ou coisas de crian\u00e7a, come\u00e7ou a dar o cavaco com o desmentido que lhe dava a vizinha, que ao contr\u00e1rio dele pintava tudo com cores negras. A comadre interveio tamb\u00e9m nessa ocasi\u00e3o, por\u00e9m conservando uma posi\u00e7\u00e3o duvidosa: ora era da opini\u00e3o do compadre, ora da opini\u00e3o da vizinha.<\/p>\n<p>D. Maria, que morria por conversa, e sobretudo por novidades, tomava o maior interesse na hist\u00f3ria, e ningu\u00e9m se lembrava de que vez alguma tivesse ela esquecido por tanto tempo suas demandas.<\/p>\n<p>O pequeno, sentado em um canto, ouvia tudo em sil\u00eancio observador. O compadre mal se podia conter, em respeito a D. Maria, com as invectivas da vizinha; esta, julgando-se segura na roda em que estava, desabafava largamente contra o menino. Finalmente terminou dirigindo-se a D. Maria, e dizendo na sua frase do costume:<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, senhora, \u00e9 o que eu digo ou n\u00e3o? Tem maus bofes&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Maus bofes, atalhou o compadre j\u00e1 com a calva muito vermelha, maus bofes? ora esta&#8230;<\/p>\n<p>O pequeno lan\u00e7ou do seu lugar \u00e0 vizinha um olhar fulminante, e que queria pouco mais ou menos dizer:<\/p>\n<p>\u2014 Deixa estar que esta n\u00e3o fica sem troco.<\/p>\n<p>D. Maria, vendo que o compadre come\u00e7ava a exasperar-se, fez-se medianeira, e disse dirigindo-se \u00e0 vizinha:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea tem-lhe raiva demais; realmente a fun\u00e7\u00e3o da cera na mantilha \u00e9 para dar o cavaco, por\u00e9m, bem diz o mestre: qual \u00e9 a crian\u00e7a que n\u00e3o faz travessuras? Isto tudo h\u00e1 de passar com a idade.<\/p>\n<p>Dirigindo-se depois ao pequeno.<\/p>\n<p>\u2014 Venha c\u00e1, Sr. travesso, disse-lhe com bondade, venha defender-se do que aqui est\u00e3o dizendo a seu respeito.<\/p>\n<p>O menino chegou-se com um ar entre vexado e capado\u00e7al, colocou-se em p\u00e9 entre a madrinha e a vizinha.<\/p>\n<p>D. Maria fez-lhe ent\u00e3o algumas perguntas, a que ele respondeu com prontid\u00e3o, por\u00e9m com mau modo. A vizinha n\u00e3o se julgou muito em seguran\u00e7a com t\u00e3o bom vizinho a seu lado, e foi querendo levantar-se. O menino, percebendo isto, n\u00e3o quis perder ocasi\u00e3o de fazer o quer que fosse de maligno contra ela; estendeu a ponta do p\u00e9, e pisou-lhe com toda a for\u00e7a na barra da saia preta que ela conservava tendo tirado a mantilha. A vizinha, vendo-lhe o gesto, sem entender bem o que era, percebeu que ele preparava alguma, e quis levantar-se rapidamente: l\u00e1 se foram alguns quatro palmos da barra da saia.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! disse o menino fingindo-se espantado&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Valha-te, Deus, menino! disse a comadre.<\/p>\n<p>A vizinha contemplava a sua saia rota, dizendo para os circunstantes:<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o \u00e9 o que eu digo, ou n\u00e3o? Tem maus bofes!&#8230;<\/p>\n<p>O compadre sorria-se disfar\u00e7adamente vendo a vingan\u00e7a que o menino tomava do que a vizinha acabava de dizer.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, disse afinal D. Maria com ar de quem n\u00e3o estava muito certa no que dizia, ele estava descuidado, n\u00e3o foi por querer&#8230;<\/p>\n<p>O menino foi sentar-se, e a conversa prosseguiu.<\/p>\n<p>Chegou-se ao ponto do destino que o padrinho queria dar ao afilhado, e, segundo era costume, come\u00e7ou logo grande diverg\u00eancia entre o compadre e a comadre; esta n\u00e3o falava sen\u00e3o na Concei\u00e7\u00e3o, e aquele n\u00e3o falava sen\u00e3o em Coimbra.<\/p>\n<p>D. Maria, solicitada a dar a sua opini\u00e3o, disse:<\/p>\n<p>\u2014 Pois olhem, se fosse comigo, eu havia de p\u00f4-lo em um cart\u00f3rio, e havia de fazer dele um bom procurador de causas.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! n\u00e3o, respondeu o compadre; perdoe-me, Sra. D. Maria, perdoe-me se lhe ofendo com isso, mas eu tenho uma birra dos diabos com as tais demandas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois olhe, n\u00e3o tem raz\u00e3o, elas d\u00e3o-me que fazer, mas eu j\u00e1 estou acostumada. Por exemplo, aquela demanda das terras, isto tem sido um nunca acabar; os herdeiros do meu compadre Jo\u00e3o Bernardo, que ainda n\u00e3o estavam habilitados em ju\u00edzo, mandaram-me aqui citar&#8230;<\/p>\n<p>E por a\u00ed continuava, sem que ningu\u00e9m soubesse onde pararia, quando felizmente teve de interromper-se porque a prociss\u00e3o se aproximava, e todos correram \u00e0s janelas.<\/p>\n<p>Isto deu fim \u00e0 conversa, come\u00e7ou a desfilar a prociss\u00e3o, que realmente fazia bonito efeito, sobretudo vista da casa de D. Maria, que era, e t\u00ednhamos esquecido esta circunst\u00e2ncia, na mesma rua dos Ourives: as luzes das tochas refletidas nos gal\u00f5es das arma\u00e7\u00f5es das portas e nas tabuletas cheias de ouro e prata em obra, com que os ourives nesse dia costumavam ornar os intervalos de suas casas, tinham um aspecto de muita riqueza e luxo, ainda que de mau gosto. De tudo que levava a prociss\u00e3o, o que mais mereceu as honras do agrado dos devotos foi o rancho das Baianas que o leitor j\u00e1 conhece, e o sacrif\u00edcio de Abra\u00e3o, que ia representado ao vivo.<\/p>\n<p>Caminhava adiante um menino com um feixe de lenha aos ombros, representando Isaac: logo atr\u00e1s dele um latag\u00e3o vestido com um traje extravagante, com uma enorme espada de pau suspensa sobre a cabe\u00e7a do menino; era Abra\u00e3o; um pouco mais atr\u00e1s um anjo, suspendendo o furibundo gl\u00e1dio por uma fita de 3 ou 4 varas de comprimento.<\/p>\n<p>Terminada a prociss\u00e3o, retiravam-se os convidados.<\/p>\n<p>Ao sair o compadre com o pequeno, D. Maria chegou-se a ele, e disse-lhe significativamente:<\/p>\n<p>\u2014 Apare\u00e7a, que temos que conversar a respeito do pequeno&#8230;<\/p>\n<p>J\u00e1 se v\u00ea que o menino n\u00e3o era dos mais infelizes, pois que, se tinha inimigos, achava tamb\u00e9m protetores por toda a parte. Para diante os leitores ver\u00e3o o papel que D. Maria representar\u00e1 nesta hist\u00f3ria.<\/p>\n<h3>TOMO I<\/h3>\n<h4>CAP\u00cdTULO XVIII<\/h4>\n<h2>AMORES<\/h2>\n<p>Os leitores devem j\u00e1 estar fatigados de hist\u00f3rias de travessuras de crian\u00e7a; j\u00e1 conhecem suficientemente o que foi o nosso memorando em sua meninice, as esperan\u00e7as que deu, e o futuro que prometeu. Agora vamos saltar por cima de alguns anos, e vamos ver realizadas algumas dessas esperan\u00e7as. Agora come\u00e7am hist\u00f3rias, se n\u00e3o mais importantes, pelo menos um pouco mais sisudas.<\/p>\n<p>Como sempre acontece a quem tem muito onde escolher, o pequeno, a quem o padrinho queria fazer cl\u00e9rigo mandando-o a Coimbra, a quem a madrinha queria fazer artista metendo-o na Concei\u00e7\u00e3o, a quem D. Maria queria fazer r\u00e1bula arranjando-o em algum cart\u00f3rio, e a quem enfim cada conhecido ou amigo queria dar um destino que julgava mais conveniente \u00e0s inclina\u00e7\u00f5es que nele descobria, o pequeno, dizemos, tendo tantas coisas boas, escolheu a pior poss\u00edvel: nem foi para Coimbra, nem para a Concei\u00e7\u00e3o, nem para cart\u00f3rio algum; n\u00e3o fez nenhuma destas coisas, nem tamb\u00e9m outra qualquer: constituiu-se um completo vadio, vadio-mestre, vadio-tipo.<\/p>\n<p>O padrinho desesperava com isso vinte vezes em cada dia por ver frustrado o seu belo sonho, por\u00e9m n\u00e3o se animava mais a contrariar o afilhado, e deixava-o ir \u00e0 sua vontade.<\/p>\n<p>A comadre tinha conseguido o seu fim, pelo que diz respeito \u00e0 sobrinha; tanto fizera, que o Leonardo, pilhando a cigana em nova infidelidade, resolveu-se&#8230; e arranjou-se&#8230; Dessa \u00e9poca come\u00e7ou ele a viver sossegado: o vento da idade come\u00e7ava a apagar-lhe as flamas de ternura.<\/p>\n<p>D. Maria envelhecera sofrivelmente, por\u00e9m n\u00e3o perdera de modo nenhum a sua mania favorita das demandas: a \u00faltima que tivera foi talvez a mais desculp\u00e1vel, a mais razo\u00e1vel de todas. Teve por causa a tutoria de uma sua sobrinha que ficara \u00f3rf\u00e3 por morte de um seu irm\u00e3o. Este irm\u00e3o tinha um compadre que n\u00e3o gozava de boa reputa\u00e7\u00e3o: ora, tendo a \u00f3rf\u00e3 ficado senhora de alguns mil cruzados que deixara seu pai, ainda que este n\u00e3o tivesse feito testamento, por ser ela filha \u00fanica e leg\u00edtima, o compadre apresentou-se pretendendo ser seu tutor.<\/p>\n<p>D. Maria, percebendo o caso, apresentou-se tamb\u00e9m, e afinal venceu: foi nomeada tutora, e veio-lhe a sobrinha para casa: ela estimou isso, tanto mais que a sua idade j\u00e1 a fazia precisar, ainda n\u00e3o de um apoio, por\u00e9m de uma companhia.<\/p>\n<p>As mais personagens continuaram no mesmo estado.<\/p>\n<p>Daqui em diante trataremos o nosso memorando pelo seu nome de batismo: n\u00e3o nos ocorre se j\u00e1 dissemos que ele tinha o nome do pai; mas se o n\u00e3o dissemos, fique agora dito. E para que se possa saber quando falamos do pai e quando do filho, daremos a este o nome de Leonardo, e acrescentaremos o apelido de pataca, j\u00e1 muito vulgarizado nesse tempo, quando quisermos tratar daquele.<\/p>\n<p>Leonardo havia pois chegado \u00e0 \u00e9poca em que os rapazes come\u00e7am a notar que o seu cora\u00e7\u00e3o palpita mais forte e mais apressado, em certas ocasi\u00f5es, quando se encontra com certa pessoa, com quem, sem saber por que, se sonha umas poucas de noites seguidas, e cujo nome se acode continuamente a fazer c\u00f3cegas nos l\u00e1bios.<\/p>\n<p>J\u00e1 dissemos que D. Maria tinha agora em casa sua sobrinha: o compadre, como a pr\u00f3pria D. Maria lhe pedira, continuou a visit\u00e1-la, e nessas visitas passavam longo tempo em conversas particulares. Leonardo acompanhava sempre o seu padrinho e fazia diabruras pela casa enquanto estava em idade disso, e depois que lhes perdeu o gosto, sentava-se em um canto e dormia de aborrecimento.<\/p>\n<p>Disso resultou que detestava profundamente as visitas, e que s\u00f3 se sujeitava a elas obrigado pelo padrinho.<\/p>\n<p>Em uma das \u00faltimas vezes que foram \u00e0 casa de D. Maria, esta, assim que os viu entrar, dirigiu-se ao compadre e disse-lhe muito contente:<\/p>\n<p>\u2014 Ora, afinal venci a minha campanha&#8230; veio ontem para o meu poder a menina&#8230; O tal velhaco do compadre de meu irm\u00e3o n\u00e3o levou a sua avante.<\/p>\n<p>\u2014 Muitos parab\u00e9ns, muitos parab\u00e9ns! respondeu o compadre.<\/p>\n<p>Leonardo deu pouca aten\u00e7\u00e3o a isso; h\u00e1 muito tempo que ouvia falar da tal sobrinha; sentou-se a um canto, e come\u00e7ou a bocejar como de costume.<\/p>\n<p>Depois de mais algumas palavras trocadas entre os dois, D. Maria chamou por sua sobrinha, e esta apareceu. Leonardo lan\u00e7ou-lhe os olhos, e a custo conteve o riso. Era a sobrinha de D. Maria j\u00e1 muito desenvolvida, por\u00e9m que, tendo perdido as gra\u00e7as de menina, ainda n\u00e3o tinha adquirido a beleza de mo\u00e7a: era alta, magra, p\u00e1lida: andava com o queixo enterrado no peito, trazia as p\u00e1lpebras sempre baixas, e olhava a furto; tinha os bra\u00e7os finos e compridos; o cabelo, cortado, dava-lhe apenas at\u00e9 o pesco\u00e7o, e como andava mal penteada e trazia a cabe\u00e7a sempre baixa, uma grande por\u00e7\u00e3o lhe ca\u00eda sobre a testa e olhos, como uma viseira. Trajava nesse dia um vestido de chita roxa muito comprido, quase sem roda, e de cintura muito curta; tinha ao pesco\u00e7o um len\u00e7o encarnado de Alcoba\u00e7a.<\/p>\n<p>Por mais que o compadre a questionasse, apenas murmurou algumas frases inintelig\u00edveis com voz rouca e sumida. Mal a deixaram livre, desapareceu sem olhar para ningu\u00e9m. Vendo-a ir-se, Leonardo tornou a rir-se interiormente.<\/p>\n<p>Quando se retiraram, riu-se ele pelo caminho \u00e0 sua vontade. O padrinho indagou a causa da sua hilaridade; respondeu-lhe que n\u00e3o se podia lembrar da menina sem rir-se.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o lembras-te dela muito a mi\u00fado, porque muito a mi\u00fado te ris.<\/p>\n<p>Leonardo viu que esta observa\u00e7\u00e3o era verdadeira.<\/p>\n<p>Durante alguns dias umas poucas de vezes falou na sobrinha da D. Maria; e apenas o padrinho lhe anunciou que teriam de fazer a visita do costume, sem saber por que, pulou de contente, e, ao contr\u00e1rio dos outros dias, foi o primeiro a vestir-se e dar-se por pronto.<\/p>\n<p>Sa\u00edram e encaminharam-se para o seu destino.<\/p>\n<h3>TOMO I<\/h3>\n<h4>CAP\u00cdTULO XIX<\/h4>\n<h2>DOMINGO DO ESP\u00cdRITO SANTO<\/h2>\n<p>Era esse dia domingo do Esp\u00edrito Santo. Como todos sabem, a festa do Esp\u00edrito Santo \u00e9 uma das festas prediletas do povo fluminense. Hoje mesmo que se v\u00e3o perdendo certos h\u00e1bitos, uns bons, outros maus, ainda essa festa \u00e9 motivo de grande agita\u00e7\u00e3o; longe por\u00e9m est\u00e1 o que agora se passa daquilo que se passava nos tempos a que temos feito remontar os leitores. A festa n\u00e3o come\u00e7ava no domingo marcado pela folhinha, come\u00e7ava muito antes, nove dias cremos, para que tivesse lugar as novenas. O primeiro an\u00fancio da festa eram as Folias. Aquele que escreve estas Mem\u00f3rias ainda em sua inf\u00e2ncia teve ocasi\u00e3o de ver as Folias, por\u00e9m foi j\u00e1 no seu \u00faltimo grau de decad\u00eancia, e tanto que s\u00f3 as crian\u00e7as como ele lhe davam aten\u00e7\u00e3o e achavam nelas prazer; os mais, se delas se ocupavam, era unicamente para lamentar a diferen\u00e7a que faziam das primitivas. O que dantes se passava, bem-encarado, n\u00e3o estava muito longe de merecer censura; por\u00e9m era costume, e ningu\u00e9m v\u00e1 l\u00e1 dizer a alguma velha desse tempo que aquilo devia ser por for\u00e7a muito feio, porque leva uma risada na cara, e ouve uma tremenda fil\u00edpica contra as nossas festas de hoje.<\/p>\n<p>Entretanto digamos sempre o que eram as Folias desse tempo, apesar de que os leitores o saber\u00e3o pouco mais ou menos. Durante os 9 dias que precediam ao Esp\u00edrito Santo, ou mesmo n\u00e3o sabemos se antes disso, sa\u00eda pelas ruas da cidade um rancho de meninos, todos de 9 a 11 anos, caprichosamente vestidos \u00e0 pastora: sapatos de cor-de-rosa, meias brancas, cal\u00e7\u00e3o da cor do sapato, faixas \u00e0 cintura, camisa branca de longos e ca\u00eddos colarinhos, chap\u00e9us de palha de abas largas, ou forrados de seda, tudo isto enfeitado com grinaldas de flores, e com uma quantidade prodigiosa de la\u00e7os de fita encarnada. Cada um destes meninos levava um instrumento pastoril em que tocavam, pandeiro, machete e tamboril. Caminhavam formando um quadrado, no meio do qual ia o chamado imperador do Divino, acompanhados por uma m\u00fasica de barbeiros, e precedidos e cercados por uma chusma de irm\u00e3os de opa levando bandeiras encarnadas e outros emblemas, os quais tiravam esmolas enquanto eles cantavam e tocavam.<\/p>\n<p>O imperador, como dissemos, ia no meio: ordinariamente era um menino mais pequeno que os outros, vestido de casaca de veludo verde, cal\u00e7\u00e3o de igual fazenda e cor, meias de seda, sapatos afivelados, chap\u00e9u de pasta, e um enorme e rutilante emblema do Esp\u00edrito Santo ao peito: caminhava pausadamente e com ar grave.<\/p>\n<p>Confessem os leitores se n\u00e3o era coisa deveras extravagante ver-se um imperador vestido de veludo e seda, percorrendo as ruas cercado por um rancho de pastores, ao toque de pandeiro e machete. Entretanto, apenas se ouvia ao longe a fanhosa m\u00fasica dos barbeiros, tudo corria \u00e0 janela para ver passar a Folia: os irm\u00e3os aproveitavam-se do ensejo, e iam colhendo esmolas de porta em porta.<\/p>\n<p>Enquanto caminhava o rancho, tocava a m\u00fasica de barbeiros; quando parava, os pastores, acompanhando-se com seus instrumentos, cantavam; as cantigas eram pouco mais ou menos no g\u00eanero e estilo desta:<br \/>\nO Divino Esp\u00edrito Santo<\/p>\n<p>\u00c9 um grande foli\u00e3o,<\/p>\n<p>Amigo de muita carne,<\/p>\n<p>Muito vinho e muito p\u00e3o.<\/p>\n<p>Eis a\u00ed o que era a Folia, eis a\u00ed o que o compadre e o afilhado encontraram no caminho.<\/p>\n<p>A este epis\u00f3dio da Folia seguiam-se outros de que vamos em breve dar conta aos leitores. Por agora por\u00e9m voltemos aos nossos visitantes.<\/p>\n<p>Chegaram eles \u00e0 casa de D. Maria, e acharam ainda todos \u00e0 janela, porque acabava de passar a Folia. D. Maria recebeu-os com a sua costumada amabilidade. Leonardo ao entrar lan\u00e7ou logo os olhos para a sobrinha de D. Maria; por\u00e9m, sem saber por que, n\u00e3o teve desta vez mais vontade de rir-se; entretanto a menina continuava a ser feia e esquisita; nesse dia estava ainda pior do que nos outros. D. Maria tinha tido pretens\u00f5es de asse\u00e1-la; vestira-lhe um vestido branco muito curto, pusera-lhe um len\u00e7o de seda encarnado ao pesco\u00e7o, e penteara-a de bugres. Por isso, agora que tendo ela tirado a costumada viseira de cabelos, lhe podemos ver o rosto, digamos, em abono da verdade, que se estava nesse dia mais esquisita quanto ao todo, podia-se-lhe notar que n\u00e3o era t\u00e3o feia de cara como a princ\u00edpio pareceu.<\/p>\n<p>O caso foi que o Leonardo come\u00e7ou a olhar para ela sem mais vontade de rir-se; olhou uma, duas, tr\u00eas, quatro, muitas vezes enfim, sem que nunca satisfizesse ao que ele interiormente chamava curiosidade de apreciar aquela figura.<\/p>\n<p>A menina por sua parte continuava no seu inalter\u00e1vel sil\u00eancio e concentra\u00e7\u00e3o, de olhos baixos e queixo no peito. Entretanto quem tivesse h\u00e1bito de observador fino poderia ter visto algum levantar de p\u00e1lpebras r\u00e1pido, e algum olhar fugaz dirigido para o lado do Leonardo.<\/p>\n<p>D. Maria e o compadre conversaram segundo o seu costume.<\/p>\n<p>Na ocasi\u00e3o da sa\u00edda, D. Maria, dirigindo-se ao compadre, disse-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 Olhe, escute: n\u00f3s hoje vamos ao Campo ver o fogo, bem pod\u00edamos ir todos juntos; que diz?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, pod\u00edamos, respondeu o compadre: eu tinha de ir s\u00f3 com o meu rapaz; mas uma vez que me oferece, iremos todos juntos. E leva a senhora a sua menina, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 Oh! levo, coitada; ela nunca viu o fogo; no tempo do pai nunca sa\u00eda&#8230;<\/p>\n<p>Sem pensar, o Leonardo estremeceu de contente: pareceu-lhe que desse modo teria mais ocasi\u00e3o de satisfazer a sua curiosidade. A menina nem se mexeu; pareceu-lhe aquilo absolutamente indiferente.<\/p>\n<p>\u2014 Pois ent\u00e3o estamos ajustados, acrescentou o compadre, e \u00e0 noite c\u00e1 as viremos buscar.<\/p>\n<p>E sa\u00edram.<\/p>\n<h3>TOMO I<\/h3>\n<h4>CAP\u00cdTULO XX<\/h4>\n<h2>O FOGO NO CAMPO<\/h2>\n<p>\u00c0 hora determinada vieram os dois, padrinho e afilhado, buscar D. Maria e sua fam\u00edlia, segundo haviam tratado: era pouco depois de ave-maria, e j\u00e1 se encontrava pelas ruas grande multid\u00e3o de fam\u00edlias, de ranchos de pessoas que se dirigiam uns para o Campo e outros para a Lapa, onde, como \u00e9 sabido, tamb\u00e9m se festejava o Divino. Leonardo caminhava parecendo completamente alheio ao que se passava em roda dele; trope\u00e7ava e abalroava nos que encontrava; uma id\u00e9ia \u00fanica ro\u00eda-lhe o miolo; se lhe perguntassem que id\u00e9ia era essa, talvez mesmo o n\u00e3o soubesse dizer. Chegaram enfim mais depressa do que supusera o barbeiro, porque o Leonardo parecia naquela noite ter asas nos p\u00e9s, t\u00e3o rapidamente caminhara e obrigara o padrinho a caminhar com ele.<\/p>\n<p>D. Maria estava j\u00e1 pronta e os esperava com algumas outras pessoas com quem tamb\u00e9m tratara ir de companhia, e em um momento puseram-se a caminho. Formavam todos um grande rancho acompanhado por n\u00e3o pequeno n\u00famero de negras e negrinhas escravas e crias de D. Maria, que levavam cestos com comida e esteiras. D. Maria deu o bra\u00e7o ao compadre, e o mesmo fizeram as outras senhoras aos demais cavalheiros. Por gracejo D. Maria fez com que o Leonardo desse o bra\u00e7o a sua sobrinha; ele aceitou a incumb\u00eancia com gosto, mas n\u00e3o sem ficar alguma coisa atrapalhado, e deu na pobre menina alguns encontr\u00f5es, embara\u00e7ado por n\u00e3o saber se lhe daria a esquerda ou a direita; finalmente acertou, e deu-lhe a esquerda, ficando ele do lado da parede. Ofereceu-lhe o bra\u00e7o, por\u00e9m Luizinha (tratemo-la desde j\u00e1 por seu nome) pareceu n\u00e3o entender o oferecimento ou n\u00e3o dar f\u00e9 dele. Contentou-se pois o Leonardo em caminhar ao seu lado.<\/p>\n<p>Assim chegaram ao Campo, que estava cheio de gente. Nesse tempo ainda se n\u00e3o usavam as barracas de bonecos, de sortes, de raridades e de teatros, como hoje: usavam-se apenas algumas que serviam de casas de pasto. Depois de passarem por diante delas, D. Maria e a sua gente se dirigiram para o Imp\u00e9rio. Luizinha estava at\u00f4nita no meio de todo aquele movimento, diante daquele espet\u00e1culo que via pela primeira vez, pois era verdade o que dissera D. Maria: no tempo de seu pai raras ou nenhumas vezes sa\u00eda de casa. Assim, sem o saber, parava algumas vezes embasbacada a olhar para qualquer coisa, e o Leonardo muitas vezes via-se for\u00e7ado a puxar-lhe pelo bra\u00e7o para obrig\u00e1-la a prosseguir.<\/p>\n<p>Chegaram ao Imp\u00e9rio, que era nesse tempo quase defronte da igreja de Sant\u2019Ana, no lugar agora ocupado por uma das extremidades do quartel de Fuzileiros. Todos sabem o que \u00e9 o Imp\u00e9rio, e por isso o n\u00e3o descreveremos. L\u00e1 estava na sua cadeira o imperador, que o leitor j\u00e1 viu passeando pela rua no meio de seus foli\u00f5es. Luizinha, vendo-o, p\u00f4s-se nas pontas dos p\u00e9s, esticou o pesco\u00e7o, e encarou-o por muito tempo est\u00e1tica e absorta. O Leonardo vendo isto sentiu um n\u00e3o sei qu\u00ea por dentro contra o menino que atra\u00eda a aten\u00e7\u00e3o de Luizinha, e passou-lhe pela mente o desejo louco de voltar atr\u00e1s 6 ou 7 anos de sua exist\u00eancia, e ser tamb\u00e9m imperador do Divino.<\/p>\n<p>Nas escadas do Imp\u00e9rio fazia-se leil\u00e3o como ainda hoje, divertindo-se muito o povo ali apinhado com as gra\u00e7olas pesadas do pregoeiro. Estiveram a\u00ed algum tempo entretidos os nossos conhecidos, e foram depois procurar no meio do Campo um lugar onde pudessem fazer alto para cear e ver o fogo. Acharam-no, n\u00e3o sem alguma dificuldade, pois que muitas outras fam\u00edlias se haviam adiantado e tomado as melhores posi\u00e7\u00f5es. Grande parte do Campo estava j\u00e1 coberta daqueles ranchos sentados em esteiras, ceando, conversando, cantando modinhas ao som de guitarra e viola. Fazia gosto passear por entre eles, e ouvir aqui a anedota que contava um conviva de bom gosto, ali a modinha cantada naquele tom apaixonadamente po\u00e9tico que faz uma das nossas raras originalidades, apreciar aquele movimento e anima\u00e7\u00e3o que geralmente reinavam. Era essa a parte (permitam-nos a express\u00e3o) verdadeiramente divertida do divertimento.<\/p>\n<p>Os nossos conhecidos sentaram-se com os outros em roda de suas esteiras, e come\u00e7aram a cear. Leonardo, apesar das emo\u00e7\u00f5es novas que experimentava desde certo tempo, e principalmente naquela noite, nem por isso perdeu o apetite, e esqueceu-se por algum tempo de sua companheira para cuidar unicamente do seu prato. No melhor da ceia foram interrompidos pelo ronco de um foguete que subia: era o fogo que come\u00e7ava. Luizinha estremeceu, ergueu a cabe\u00e7a, e pela primeira vez deixou ouvir sua voz, exclamando extasiada ao ver cair as l\u00e1grimas inflamadas do foguete que aclaravam todo o Campo:<\/p>\n<p>\u2014 Olhe, olhe, olhe!&#8230;<\/p>\n<p>Alguns dos circunstantes desataram a rir; o Leonardo deu o cavaco com aquelas risadas, e as achou muito fora de tempo. Felizmente Luizinha estava por tal maneira extasiada, que n\u00e3o deu aten\u00e7\u00e3o a coisa alguma, e enquanto duraram os foguetes n\u00e3o tirou os olhos do c\u00e9u.<\/p>\n<p>Aos foguetes seguiram-se, como sabem os leitores, as rodas. Nessa ocasi\u00e3o o \u00eaxtase da menina passou a frenesi; aplaudia com entusiasmo, erguia o pesco\u00e7o por cima das cabe\u00e7as da multid\u00e3o, tinha desejos de ter duas ou tr\u00eas varas de comprido para ver tudo a seu gosto. Sem saber como, unia-se ao Leonardo, firmava-se com as m\u00e3os sobre os seus ombros para se poder sustentar mais tempo nas pontas dos p\u00e9s, falava-lhe e comunicava-lhe a sua admira\u00e7\u00e3o! O contentamento acabou por familiariz\u00e1-la completamente com ele. Quando se atacou a lua, a sua admira\u00e7\u00e3o foi t\u00e3o grande que, querendo firmar-se nos ombros de Leonardo, deu-lhe quase um abra\u00e7o pelas costas. O Leonardo estremeceu por dentro, e pediu ao c\u00e9u que a lua fosse eterna; virando o rosto, viu sobre seus ombros aquela cabe\u00e7a de menina iluminada pelo clar\u00e3o p\u00e1lido do misto que ardia, e ficou tamb\u00e9m por sua vez extasiado; pareceu-lhe ent\u00e3o o rosto mais lindo que jamais vira, e admirou-se profundamente de que tivesse podido alguma vez rir-se dela e ach\u00e1-la feia.<\/p>\n<p>Acabado o fogo, tudo se p\u00f4s em andamento, levantaram-se as esteiras, espalhou-se o povo. D. Maria e sua gente puseram-se tamb\u00e9m em marcha para casa, guardando a mesma disposi\u00e7\u00e3o com que tinham vindo. Desta vez por\u00e9m Luizinha e Leonardo, n\u00e3o \u00e9 dizer que vieram de bra\u00e7o, como este \u00faltimo tinha querido quando foram para o Campo, foram mais adiante do que isso, vieram de m\u00e3os dadas muito familiar e ingenuamente. Este ingenuamente n\u00e3o sabemos se se poder\u00e1 com raz\u00e3o aplicar ao Leonardo. Conversaram por todo o caminho como se fossem dois conhecidos muito antigos, dois irm\u00e3os de inf\u00e2ncia, e t\u00e3o distra\u00eddos iam que passaram \u00e0 porta da casa sem parar, e j\u00e1 estavam muito adiante quando os sios de D. Maria os fizeram voltar. A despedida foi alegre para todos e trist\u00edssima para os dois. Entretanto, como sempre que se despedia, o compadre prometeu voltar, e isso serviu de algum al\u00edvio, especialmente ao Leonardo, que tomara tudo o que se acabava de passar mais em grosso.<\/p>\n<h3>TOMO I<\/h3>\n<h4>CAP\u00cdTULO XXI<\/h4>\n<h2>CONTRARIEDADES<\/h2>\n<p>Cremos, pelo que temos referido, que para nenhum dos leitores ser\u00e1 ainda duvidoso que chegara ao Leonardo a hora de pagar o tributo de que ningu\u00e9m escapa neste mundo, ainda que para alguns seja ele f\u00e1cil e leve, e para outros pesado e custoso: o rapaz amava. \u00c9 escusado dizer a quem.<\/p>\n<p>Como \u00e9 que a sobrinha de D. Maria, que a princ\u00edpio tanto desafiara a sua hilaridade por esquisita e feia, lhe viera depois a inspirar amor, \u00e9 isso segredo do cora\u00e7\u00e3o do rapaz que nos n\u00e3o \u00e9 dado penetrar: o fato \u00e9 que ele a amava, e isto nos basta. Conv\u00e9m lembrar que se pela sorte de um pai se pode augurar a de um filho, o Leonardo em mat\u00e9ria de amor n\u00e3o prometia decerto grande fortuna. E com efeito, logo depois da noite do fogo no Campo, em que as coisas come\u00e7avam a tomar vulto, principiou a roda a desandar-lhe em quase todos os sentidos. Luizinha, uma vez extinto o entusiasmo, que, suscitado pelas emo\u00e7\u00f5es que experimentara na noite do fogo, a acordara da sua apatia, voltara de novo ao seu antigo estado: e, como de tudo esquecida, na primeira visita que o barbeiro e o Leonardo fizeram a D. Maria depois desses acontecimentos, nem para este \u00faltimo levantara os olhos; conservara-se de cabe\u00e7a baixa e olhos no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Ora, para quem, como o Leonardo, levara depois daquela feliz noite a construir esses castelos de extravagante arquitetura com que sonhamos nos dias felizes do primeiro amor, isso foi j\u00e1 uma contrariedade sem nome; quando se viu assim tratado quase desatou a chorar; s\u00f3 o conteve o receio de n\u00e3o poder depois justificar o seu pranto com qualquer pretexto. A este primeiro movimento sucedeu-lhe um momento de calma, e depois cresceu-lhe por dentro uma chama de raiva, e esteve a ponto de chegar-se para a menina, desenterrar-lhe o queixo do peito, e cham\u00e1-la quatro ou cinco vezes de est\u00fardia e feia. Afinal cismou um pouco e murmurou um \u2014 que me importa! \u2014 que pretendia ser desprezo, e que n\u00e3o era sen\u00e3o despeito.<\/p>\n<p>\u00c0 primeira visita depois da noite do fogo seguiram-se muitas outras em que as coisas se passaram pouco mais ou menos do mesmo modo.<\/p>\n<p>Um novo sucesso veio por\u00e9m um dia dar outra cor e andamento aos sucessos; foi o encontro dos dois, padrinho e afilhado, em casa de D. Maria com uma personagem estranha a ambos. Era um conhecido de D. Maria que havia h\u00e1 pouco chegado de uma viagem \u00e0 Bahia. Figure o leitor um homenzinho nascido em dias de maio, de pouco mais ou menos 35 anos de idade, magro, narigudo, de olhar vivo e penetrante, vestido de cal\u00e7\u00e3o e meias pretas, sapatos de fivela, capote e chap\u00e9u armado, e ter\u00e1 id\u00e9ia do f\u00edsico do Sr. Jos\u00e9 Manuel, o rec\u00e9m-chegado. Quanto ao moral, se os sinais f\u00edsicos n\u00e3o falham, quem olhasse para a cara do Sr. Jos\u00e9 Manuel assinava-lhe logo um lugar distinto na fam\u00edlia dos velhacos de quilate. E quem tal fizesse n\u00e3o se enganava de modo algum; o homem era o que parecia ser. Se tinha alguma virtude, era a de n\u00e3o enganar pela cara. Entre todas as suas qualidades possu\u00eda uma que infelizmente caracterizava naquele tempo, e talvez que ainda hoje, positiva e claramente o fluminense, era a maledic\u00eancia. Jos\u00e9 Manuel era uma cr\u00f4nica viva, por\u00e9m cr\u00f4nica escandalosa, n\u00e3o s\u00f3 de todos os seus conhecidos e amigos, e das fam\u00edlias destes, mas ainda dos conhecidos e amigos dos seus amigos e conhecidos e de suas fam\u00edlias. Debaixo do mais f\u00fatil pretexto tomava a palavra, e enfiava um discurso de duas horas sobre a vida de fulano ou de beltrano.<\/p>\n<p>Por exemplo, conversando-se sobre qualquer objeto acontecia falar-se em D. Francisca Brites.<\/p>\n<p>\u2014 Conheci muito D. Francisca Brites, atalhava imediatamente o incans\u00e1vel falador; era mulher de Jo\u00e3o Brites, filho bastardo do capit\u00e3o Sanches; em tempo de casada diziam suas coisas dela, e a culpa tinha Pedro d\u2019Aguiar, sujeito que n\u00e3o gozava de boa nota, principalmente depois que se meteu a\u00ed n\u2019alhada de um testamento falso que atribu\u00edram ao Louren\u00e7o da Cunha, que, em abono da verdade, era bem capaz disso, pois n\u00e3o era sujeito de m\u00e3os limpas. Foi at\u00e9 ele quem furtou de casa a filha de D. \u00darsula, que foi mo\u00e7a de Francisco Borges, a quem deixou para seguir a Pedro Antunes, que por sinal lhe deu bem m\u00e1 vida.<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m ela n\u00e3o devia esperar outra coisa dele, porque homem que se atreveu a fazer o que ele fez a tr\u00eas filhas que tinha, \u00e9 capaz de tudo. Chegou a p\u00f4r pela porta fora com um pau as pobres mo\u00e7as depois de as ter espancado desapiedadamente. Entretanto uma delas foi bem feliz: achou a\u00ed um capit\u00e3o de navio que tratou dela; as outras n\u00e3o, coitadas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Infelizes por qu\u00ea? acudia por acaso algum dos circunstantes; elas casaram&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Casaram, sim, \u00e9 verdade, retorquia ele tomando novo f\u00f4lego, por\u00e9m com que marido? Um tomava moafas de todo o tamanho, o outro gastou tudo quanto tinha no jogo. Conheci-os a ambos muito bem&#8230;<\/p>\n<p>E por a\u00ed prosseguia e internava-se a perder de vista pela gera\u00e7\u00e3o toda dos dois maridos, e era capaz de gastar nesse trabalho horas inteiras.<\/p>\n<p>Desde o primeiro dia que o padrinho e o afilhado se encontraram com Jos\u00e9 Manuel em casa de D. Maria, nenhum dos dois lhe ficou por certo querendo muito bem, e este n\u00e3o querer bem foi crescendo de dia em dia, especialmente pela parte do Leonardo. E o caso \u00e9 que ele tinha raz\u00e3o; foi o instinto que o avisou de que ali havia um inimigo. T\u00e3o exagerados eram os afagos de Jos\u00e9 Manuel para com D. Maria, e tanto repartia ele esses afagos com Luizinha, que bem claro se deixou ver que havia neles fim oculto. Afinal o neg\u00f3cio aclarou-se. D. Maria era, como dissemos, rica e velha; n\u00e3o tinha outro herdeiro sen\u00e3o sua sobrinha; se morresse D. Maria, Luizinha ficaria arranjada, e, como era muito crian\u00e7a e mostrava ser muito simples, era uma esposa conveniente a qualquer esperto que se achasse, como Jos\u00e9 Manuel, em disponibilidade; este pois fazia a corte \u00e0 velha com inten\u00e7\u00f5es na sobrinha. Quando Leonardo, esclarecido pela sagacidade do padrinho, entrou no conhecimento destas coisas, ficou fora de si, e a id\u00e9ia mais pac\u00edfica que teve foi que podia mui bem, quando fosse visitar D. Maria, munir-se de uma das navalhas mais afiadas de seu padrinho, e na primeira ocasi\u00e3o oportuna fazer de um s\u00f3 golpe em dois o pesco\u00e7o de Jos\u00e9 Manuel. Por\u00e9m teve de aplacar-se e ceder \u00e0s admoesta\u00e7\u00f5es do padrinho, que sabia de todos os seus sentimentos, e que os aprovava.<\/p>\n<h3>TOMO I<\/h3>\n<h4>CAP\u00cdTULO XXII<\/h4>\n<h2>ALIAN\u00c7A<\/h2>\n<p>Se Leonardo se afligira do modo que acabamos de ver pelo contratempo que lhe sobreviera com o aparecimento e com as disposi\u00e7\u00f5es de Jos\u00e9 Manuel, o padrinho n\u00e3o se incomodava menos com isso: vendo que o afilhado se fazia homem, e tendo decididamente abortado aquele seu gigantesco plano de mand\u00e1-lo a Coimbra, enxergava na sobrinha de D. Maria um meio de vida excelente para o seu rapaz. Verdade \u00e9 que se lembrava de que D. Maria podia com muito justa raz\u00e3o, se as coisas continuassem do mesmo modo, quando chegasse o momento do desfecho das coisas, recusar sua sobrinha a um rapaz que n\u00e3o se ocupava em coisa alguma, e que n\u00e3o tinha futuro. Por este motivo muitas vezes instava com o afilhado para que ensaiasse na cara de algum fregu\u00eas tolo entrar no of\u00edcio; por\u00e9m este recusava-se obstinadamente. A comadre, quando alguma vez aparecia por casa do barbeiro, n\u00e3o cessava de insistir no seu antigo projeto de fazer o rapaz entrar para a Concei\u00e7\u00e3o. Uma ocasi\u00e3o em que nisso falou diante dele, custou-lhe a hist\u00f3ria uma forte sarabanda: o rapaz tomara gosto \u00e0 vida de vadio, e por princ\u00edpio algum queria deix\u00e1-la. E se em outras ocasi\u00f5es estava ele desse humor, agora depois dos \u00faltimos acontecimentos, quando o amor e o ci\u00fame lhe ocupavam a alma, n\u00e3o queria ouvir falar em semelhantes coisas; acreditava que a sua melhor ocupa\u00e7\u00e3o devia consistir em dar cabo do rival que se lhe antepusera.<\/p>\n<p>No meio de tudo isto pior era que Jos\u00e9 Manuel parecia adiantar-se cada vez mais; astuto como era, insinuava-se destramente no \u00e2nimo de D. Maria, e a cativava com aten\u00e7\u00f5es de toda a sorte. O compadre come\u00e7ou a banzar sobre o caso, e um dia veio-lhe uma id\u00e9ia: era preciso p\u00f4r a comadre ao corrente do que se passava, e interess\u00e1-la no neg\u00f3cio; ela era bem capaz, se quisesse, de arcar com Jos\u00e9 Manuel, e p\u00f4-lo fora de combate; gozava boa fama de ter jeito para essas coisas. Com efeito mandou chamar a comadre e exp\u00f4s-lhe tudo.<\/p>\n<p>\u2014 Sim! respondeu ela ao ouvir a narra\u00e7\u00e3o; o caso \u00e9 este? pois est\u00e1 de cor o tal sujeito: hei de mostrar-lhe para quanto presto. J\u00e1 hoje mesmo vou visitar a D. Maria.<\/p>\n<p>Mal sabia Jos\u00e9 Manuel que tormenta se levantava contra ele. H\u00e1 muito percebera ele que Leonardo e seu padrinho o n\u00e3o podiam tragar, e mesmo que tinham segundas ten\u00e7\u00f5es a respeito de Luizinha, por\u00e9m nunca lhe passara pela mente que seria mister lutar com eles. Em breve teve de ver que se enganava. A comadre foi, como prometera, \u00e0 casa de D. Maria, e achando l\u00e1 Jos\u00e9 Manuel procurou fazer-se ostensivamente muito sua camarada, ainda que baixinho, e de vez em quando soltava perto de D. Maria algumas indiretas contra ele.<\/p>\n<p>Quando Jos\u00e9 Manuel acabava de contar uma hist\u00f3ria com todos os detalhes costumados sobre a vida deste ou daquele, a comadre murmurava, por exemplo:<\/p>\n<p>\u2014 Que l\u00edngua! safa&#8230;<\/p>\n<p>E com estas e outras ia pondo em relevo, sem parecer que tinha tal inten\u00e7\u00e3o, o car\u00e1ter do advers\u00e1rio.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da qualidade de maldizente, Jos\u00e9 Manuel mentia com um descaro como raras vezes se encontra. D. Maria, amiga de novidades, e al\u00e9m disso muito cr\u00e9dula, comungava perfeitamente quanta peta lhe queria ele embutir. Uma das suas hist\u00f3rias mais comuns era a que ele intitulava \u2014 O naufr\u00e1gio dos potes. \u2014 Acontecera-lhe na sua \u00faltima viagem \u00e0 Bahia, e ele a contava pelo modo seguinte:<\/p>\n<p>&#8220;Est\u00e1vamos quase a chegar ao ancoradouro; viajava ao lado do meu navio um enorme peru carregado unicamente de potes. De repente arma-se um temporal, que parecia vir o mundo abaixo; o vento era t\u00e3o forte, que do mar, apesar da escurid\u00e3o, viam-se contradan\u00e7ar no espa\u00e7o as telhas arrancadas da cidade alta. Afinal quando j\u00e1 parecia tudo sossegado e come\u00e7ava a limpar o tempo, veio uma onda t\u00e3o forte e em tal dire\u00e7\u00e3o, que as duas embarca\u00e7\u00f5es esbarraram com toda a for\u00e7a uma contra a outra. J\u00e1 muito maltratadas pelo temporal que acabavam de suportar, n\u00e3o puderam mais resistir, e abriram-se ambas de meio a meio: o navio vazou toda a sua carga e passageiros, e o peru toda a sua carrega\u00e7\u00e3o de potes; ficou o mar coalhado deles, em t\u00e3o grande quantidade os havia! Os marinheiros e outros passageiros trataram de agarrar-se a t\u00e1buas, caix\u00f5es e outros objetos para se salvarem; por\u00e9m o \u00fanico que se escapou fui eu, e isso devo \u00e0 feliz lembran\u00e7a que tive; do peda\u00e7o do navio em que tinha ficado dei um salto sobre o pote que boiava mais perto. Com o meu peso o pote mergulhou, e enchendo-se d\u2019\u00e1gua desapareceu debaixo de meus p\u00e9s; por\u00e9m isto n\u00e3o teve lugar antes que eu, percebendo o que ia acontecer, n\u00e3o saltasse imediatamente deste pote para outro. A este outro e a todos os mais aconteceu a mesma coisa, por\u00e9m servi-me do mesmo meio, e assim, como a for\u00e7a das ondas os impelia para a praia, vim de pote em pote at\u00e9 \u00e0 terra sem o menor acidente!&#8221;<\/p>\n<p>Como esta, contava Jos\u00e9 Manuel milhares de hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m isso um tema de que se serviu a comadre para o desconceituar no \u00e2nimo de D. Maria, sempre, \u00e9 verdade, muito sorrateiramente.<\/p>\n<p>Veremos quais foram os resultados que alcan\u00e7aram o compadre e o Leonardo com a alian\u00e7a formada com a comadre contra o concorrente \u00e0 Luizinha.<\/p>\n<h3>TOMO I<\/h3>\n<h4>CAP\u00cdTULO XXIII<\/h4>\n<h2>DECLARA\u00c7\u00c3O<\/h2>\n<p>Enquanto a comadre dispunha seu plano de ataque contra Jos\u00e9 Manuel, Leonardo ardia em ci\u00fames, em raiva, e nada havia que o consolasse em seu desespero, nem mesmo as promessas de bom resultado que lhe faziam o padrinho e a madrinha. O pobre rapaz via sempre diante de si a detest\u00e1vel figura de seu rival a desconcertar-lhe todos os planos, a desvanecer-lhe todas as esperan\u00e7as. Nas horas de sossego entregava-se \u00e0s vezes \u00e0 constru\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria de magn\u00edficos castelos, castelos de nuvens, \u00e9 verdade, por\u00e9m que lhe pareciam por instantes os mais s\u00f3lidos do mundo; de repente surdia-lhe de um canto o terr\u00edvel Jos\u00e9 Manuel com as bochechas inchadas; e soprando sobre a constru\u00e7\u00e3o, a arrasava num volver d\u2019olhos.<\/p>\n<p>Entretanto o que havia de not\u00e1vel \u00e9 que Luizinha, causa de tantas tormentas, ignorava tudo, e a tudo continuava indiferente. Leonardo veio a entender, depois de muito meditar, que isto constitu\u00eda um dos principais defeitos de sua posi\u00e7\u00e3o; se a comadre e o compadre conseguissem derrotar a Jos\u00e9 Manuel, e p\u00f4-lo em estado de n\u00e3o poder mais entrar em combate, quem poderia dizer que o triunfo era completo? N\u00e3o havia ainda uma segunda campanha a dar contra a indiferen\u00e7a de Luizinha? Daqui concluiu ele que era mister ir j\u00e1 rompendo fogo por esse lado; e como lhe pareceu o de mais import\u00e2ncia, n\u00e3o quis confiar a nenhum dos aliados o seu ataque, e decidiu-se a d\u00e1-lo em pessoa. Devia come\u00e7ar, como o sabe de cor e salteado a maioria dos leitores, que \u00e9 sem d\u00favida nenhuma muito entendida na mat\u00e9ria, por uma declara\u00e7\u00e3o em forma.<\/p>\n<p>Mas em amor, assim como em tudo, a primeira sa\u00edda \u00e9 o mais dif\u00edcil. Todas as vezes que esta id\u00e9ia vinha \u00e0 cabe\u00e7a do pobre rapaz, passava-lhe uma nuvem escura por diante dos olhos e banhava-se-lhe o corpo em suor. Muitas semanas levou a compor, a estudar o que havia de dizer a Luizinha quando aparecesse o momento decisivo. Achava com facilidade milhares de id\u00e9ias brilhantes; por\u00e9m mal tinha assentado em que diria isto ou aquilo, e j\u00e1 isto e aquilo lhe n\u00e3o parecia bom. Por v\u00e1rias vezes tivera ocasi\u00e3o favor\u00e1vel para desempenhar a sua tarefa, pois estivera a s\u00f3s com Luizinha; por\u00e9m nessas ocasi\u00f5es nada havia que pudesse vencer um tremor de pernas que se apoderava dele, e que n\u00e3o lhe permitia levantar-se do lugar onde estava, e um engasgo que lhe sobrevinha, e que o impedia de articular uma s\u00f3 palavra. Enfim, depois de muitas lutas consigo mesmo para vencer o acanhamento, tomou um dia a resolu\u00e7\u00e3o de acabar com o medo, e dizer-lhe a primeira coisa que lhe viesse \u00e0 boca.<\/p>\n<p>Luizinha estava no v\u00e3o de uma janela a espiar para a rua pela r\u00f3tula; Leonardo aproximou-se tremendo, p\u00e9 ante p\u00e9, parou e ficou im\u00f3vel como uma est\u00e1tua atr\u00e1s dela, que, entretida para fora, de nada tinha dado f\u00e9. Esteve assim por longo tempo calculando se devia falar em p\u00e9 ou se devia ajoelhar-se. Depois fez um movimento como se quisesse tocar no ombro de Luizinha, mas retirou depressa a m\u00e3o. Pareceu-lhe que por a\u00ed n\u00e3o ia bem; quis antes puxar-lhe pelo vestido, e ia j\u00e1 levantando a m\u00e3o quando tamb\u00e9m se arrependeu. Durante todos estes movimentos o pobre rapaz suava a n\u00e3o poder mais. Enfim, um incidente veio tir\u00e1-lo da dificuldade. Ouvindo passos no corredor, entendeu que algu\u00e9m se aproximava, e tomado de terror por se ver apanhado naquela posi\u00e7\u00e3o, deu repentinamente dois passos para tr\u00e1s, e soltou um \u2014 ah! \u2014 muito engasgado. Luizinha, voltando-se, deu com ele diante de si, e recuando espremeu-se de costas contra a r\u00f3tula; veio-lhe tamb\u00e9m outro \u2014 ah! \u2014 por\u00e9m n\u00e3o lhe passou da garganta, e conseguiu apenas fazer uma careta.<\/p>\n<p>A bulha dos passos cessou sem que ningu\u00e9m chegasse \u00e0 sala; os dois levaram algum tempo naquela mesma posi\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que o Leonardo, por um supremo esfor\u00e7o, rompeu o sil\u00eancio, e com voz tr\u00eamula e em tom o mais sem gra\u00e7a que se possa imaginar perguntou desenxabidamente:<\/p>\n<p>\u2014 A senhora&#8230; sabe&#8230; uma coisa?<\/p>\n<p>E riu-se com uma risada for\u00e7ada, p\u00e1lida e tola.<\/p>\n<p>Luizinha n\u00e3o respondeu. Ele repetiu no mesmo tom:<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o&#8230; a senhora&#8230; sabe ou&#8230; n\u00e3o sabe?<\/p>\n<p>E tornou a rir-se do mesmo modo. Luizinha conservou-se muda.<\/p>\n<p>\u2014 A senhora bem sabe&#8230; \u00e9 porque n\u00e3o quer dizer&#8230;<\/p>\n<p>Nada de resposta.<\/p>\n<p>\u2014 Se a senhora n\u00e3o ficasse zangada&#8230; eu dizia&#8230;<\/p>\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 bom&#8230; eu digo sempre&#8230; mas a senhora fica ou n\u00e3o fica zangada?<\/p>\n<p>Luizinha fez um gesto de quem estava impacientada.<\/p>\n<p>\u2014 Pois ent\u00e3o eu digo&#8230; a senhora n\u00e3o sabe&#8230; eu&#8230; eu lhe quero&#8230; muito bem.<\/p>\n<p>Luizinha fez-se cor de uma cereja; e fazendo meia-volta \u00e0 direita, foi dando as costas ao Leonardo e caminhando pelo corredor. Era tempo, pois algu\u00e9m se aproximava.<\/p>\n<p>Leonardo viu-a ir-se, um pouco estupefato pela resposta que ela lhe dera, por\u00e9m n\u00e3o de todo descontente: seu olhar de amante percebera que o que se acabava de passar n\u00e3o tinha sido totalmente desagrad\u00e1vel a Luizinha.<\/p>\n<p>Quando ela desapareceu, soltou o rapaz um suspiro de desabafo e assentou-se, pois se achava t\u00e3o fatigado como se tivesse acabado de lutar bra\u00e7o a bra\u00e7o com um gigante.<\/p>\n<h3>TOMO II<\/h3>\n<h4>CAP\u00cdTULO I<\/h4>\n<h2>A COMADRE EM EXERC\u00cdCIO<\/h2>\n<p>Os leitores devem estar lembrados de que o nosso antigo conhecido, de quem por algum tempo nos temos esquecido, o Leonardo-Pataca, apertara-se em la\u00e7os amorosos com a filha da comadre, e que com ela vivia em santa e honesta paz. Pois este viver santo e honesto deu em tempo oportuno o seu resultado. Chiquinha (era este o nome da filha da comadre), achou-se de esperan\u00e7as e pronta a dar \u00e0 luz. J\u00e1 v\u00eaem os leitores que a ra\u00e7a dos Leonardos n\u00e3o se h\u00e1 de extinguir com facilidade. Leonardo-Pataca n\u00e3o perdia por modo algum aqueles h\u00e1bitos de ternura com que sempre o conhecemos, e nas atuais circunst\u00e2ncias, quando ele via \u00e0s portas da vida um fruto do seu derradeiro amor, crescia-lhe n\u2019alma aquela violenta chama do costume; o pobre homem ardia todo por dentro e por fora, e desfazia-se em carinhos para com sua companheira.<\/p>\n<p>Chegou finalmente o dia de aparecer o desejado resultado: ao amanhecer manifestara os primeiros sintomas. Leonardo levantou logo uma poeira em casa: andava de dentro para fora pretendendo fazer mil coisas, e sem fazer coisa alguma, atrapalhado e tonto. Mandou chamar a comadre, que pronta acudiu ao chamado, e come\u00e7aram-se a arranjar os preparativos. Talvez alguns leitores tenham id\u00e9ia do mundo infinito de arranjos que naquele tempo se punha em giro em semelhantes ocasi\u00f5es. A primeira coisa a que o Leonardo-Pataca providenciou foi a que se mandassem dar as nove badaladas no sino grande da S\u00e9. Esta pr\u00e1tica s\u00f3 costumava ter lugar quando a parturiente se achava em perigo, por\u00e9m ele quis prevenir tudo a tempos e a horas. Mandou-se depois pedir \u00e0 vizinha, pois por um descuido imperdo\u00e1vel n\u00e3o havia em casa, um ramo de palha benta; a comadre trouxe um par de bentinhos da Senhora do Monte do Carmo que tinham grande reputa\u00e7\u00e3o de milagrosos, e o lan\u00e7ou ao pesco\u00e7o da Chiquinha. P\u00f4s a palha benta ao lado da cabeceira; na sala improvisou-se um orat\u00f3rio com uma toalha, um copo com arruda e uma imagem de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o de lou\u00e7a, enfeitada com cord\u00f5es de ouro. Chiquinha, para nada esquecer das regras estabelecidas, amarrou \u00e0 cabe\u00e7a um len\u00e7o branco, meteu-se embaixo dos len\u00e7\u00f3is, e come\u00e7ou a rezar ao santo de sua devo\u00e7\u00e3o. A comadre assentou-se aos p\u00e9s da cama em uma banquinha, e desunhava tamb\u00e9m em um grande ros\u00e1rio, observando entretanto a Chiquinha, e interrompendo-se a cada instante para dar ordens ao Leonardo-Pataca, e responder ao que fora do quarto se dizia.<\/p>\n<p>Leonardo-Pataca, depois de tudo arranjado, quando viu que a \u00fanica coisa que restava era esperar a natureza, como dizia a comadre, p\u00f4s-se em menores, quero dizer, despiu os cal\u00e7\u00f5es e o colete, ficou em ceroulas e chinelas, amarrou \u00e0 cabe\u00e7a, segundo um antigo costume, um len\u00e7o encarnado, e p\u00f4s-se a passear na sala de um lado para outro, com uma cara de fazer d\u00f3: parecia que era ele e n\u00e3o Chiquinha quem se achava com dores de parto. De vez em quando parava \u00e0 porta do quarto que se achava cerrada, lan\u00e7ava para dentro um olhar de curiosidade e medo, e abanando a cabe\u00e7a murmurava:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sirvo para isto&#8230; estas coisas n\u00e3o se d\u00e3o com o meu g\u00eanio&#8230; Estou a tremer como se fosse o neg\u00f3cio comigo&#8230;<\/p>\n<p>E realmente a cada gemido forte que partia do quarto o homem estremecia e fazia-se de mil cores.<\/p>\n<p>Dentro do quarto a comadre exortava a padecente, pouco mais ou menos nestes termos:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o vos fa\u00e7ais de crian\u00e7a, menina&#8230; isso n\u00e3o \u00e9 nada&#8230; \u00e9 um pau por um olho&#8230; N\u00e3o tarda a\u00ed um Bendito, e estais j\u00e1 livre. Estas coisas na minha m\u00e3o andam depressa. Verdade seja que \u00e9 o primeiro, e isto causa seu medo, mas n\u00e3o \u00e9 coisa que valha estares agora t\u00e3o desanimada; \u00e9 preciso tamb\u00e9m ajudar a natureza. &#8220;Faze da tua parte que eu te ajudarei!&#8221; S\u00e3o palavras de Jesus Cristo.<\/p>\n<p>A padecente estava por\u00e9m a morrer de susto: nem se moveu \u00e0 exorta\u00e7\u00e3o da comadre. Entretanto o tempo ia passando, e a pobre rapariga a sofrer; j\u00e1 lhe tinha a comadre arranjado de um modo diverso os bentinhos no peito, j\u00e1 tinha inclinado mais sobre a cama a palma benta, e ainda nada de novo. O Leonardo-Pataca come\u00e7ava a impacientar-se; de vez em quando chegava \u00e0 porta do quarto, e perguntava com voz esmorecida:<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Compadre, respondia a comadre, j\u00e1 lhe disse que n\u00e3o \u00e9 bom a quem est\u00e1 neste estado estar ouvindo voz de homem: esteja calado e espere l\u00e1.<\/p>\n<p>Continuava o tempo a passar: a comadre saiu do quarto e veio acender uma nova vela benta a Nossa Senhora, e depois de uma breve ora\u00e7\u00e3o voltou ao seu posto. Tirou ent\u00e3o do bolso da saia uma fita azul comprida e passou-a em roda da cintura da Chiquinha; era uma medida de Nossa Senhora do Parto. Depois disse com ar de triunfo:<\/p>\n<p>\u2014 Ora, agora vamos a ver, porque isto j\u00e1 n\u00e3o vai do meu agrado&#8230; Mas a culpa tamb\u00e9m \u00e9 sua, menina, j\u00e1 lhe disse que \u00e9 preciso ajudar a natureza. Passou-se ainda algum tempo. De repente a comadre gritou para fora:<\/p>\n<p>\u2014 \u00d3 compadre, d\u00ea c\u00e1 l\u00e1 uma garrafa&#8230;<\/p>\n<p>O Leonardo-Pataca obedeceu prontamente. Ouviu-se ent\u00e3o dentro do quarto o som que produziria uma boca humana a soprar com toda a for\u00e7a dentro de alguma coisa. Era Chiquinha que por ordem da comadre soprava a morrer de cansa\u00e7o dentro da garrafa que esta mandara vir.<\/p>\n<p>\u2014 Com for\u00e7a, menina, com bem for\u00e7a, e Nossa Senhora n\u00e3o desampara os fi\u00e9is. \u00c2nimo, \u00e2nimo; isto o mais que sucede \u00e9 uma vez por ano. Desde que nossa m\u00e3e Eva comeu aquela maldita fruta ficamos n\u00f3s sujeitas a isto. &#8220;Eu multiplicarei os trabalhos de teu parto.&#8221; S\u00e3o palavras de Jesus Cristo!<\/p>\n<p>J\u00e1 se v\u00ea que a comadre era forte em hist\u00f3ria sagrada.<\/p>\n<p>Ao Leonardo-Pataca tremiam-lhe c\u00e1 fora tanto as pernas, que n\u00e3o pudera mais continuar no passeio, e achava-se sentado a um canto com os dedos nos ouvidos.<\/p>\n<p>\u2014 Soprai, menina, continuava sempre dentro a comadre, soprai com Nossa Senhora, soprai com S. Jo\u00e3o Batista, soprai com os Ap\u00f3stolos Pedro e Paulo, soprai com os anjos e serafins da Corte Celeste, com todos os santos do para\u00edso, soprai com o Padre, com o Filho e com o Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>Houve finalmente um instante de sil\u00eancio, que foi interrompido pelo choro de uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, l\u00e1 vai o mau tempo, exclamou a comadre; bem dizia eu que isto n\u00e3o era mais do que um pau por um olho&#8230; Ah! Sr. compadre, chegue, que \u00e9 agora a sua vez, venha ver a sua pequerrucha&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 uma pequerrucha!&#8230; exclamou o Leonardo-Pataca fora de si; ora, isto \u00e9 de bom agouro, porque com o outro que saiu macho n\u00e3o fui feliz.<\/p>\n<p>Recendeu ent\u00e3o pela casa um agrad\u00e1vel cheiro de alfazema; a comadre veio \u00e0 sala, apagou as velas que estavam acesas a Nossa Senhora; foi depois desatar a fita da cintura da Chiquinha e tirar-lhe do pesco\u00e7o os bentinhos.<\/p>\n<p>A rec\u00e9m-nascida, enfraldada, encueirada, encinteirada, entoucada e com um molho de figas e meias-luas, signos de Salom\u00e3o e outros preservativos de maus-olhados presos ao cinteiro, passava das m\u00e3os de Chiquinha para as do Leonardo-Pataca, que n\u00e3o cabia em si de contentamento; era uma formosa criancinha, em tudo o oposto de seu irm\u00e3o paterno o nosso amigo Leonardo, mansa e risonha.<\/p>\n<p>O Leonardo-Pataca recorreu imediatamente \u00e0 folhinha para ver que nome trazia a menina; por\u00e9m como este lhe n\u00e3o agradasse, travou logo com Chiquinha uma quest\u00e3o a respeito do nome que se lhe devia dar.<\/p>\n<p>A comadre aproveitou-se disso para dar conta dos \u00faltimos arranjos, e depois envergou a mantilha e saiu para acudir a outras necessitadas.<\/p>\n<h3>TOMO II<\/h3>\n<h2>CAP\u00cdTULO II<\/h2>\n<h2>TRAMA<\/h2>\n<p>Como esta cena que acabamos de pintar tinha a comadre muitas outras todos os dias, porque era uma das parteiras mais procuradas da cidade; gozava grande reputa\u00e7\u00e3o de muito entendida, e ainda nos casos mais graves era sempre a escolhida com os seus milagrosos bentinhos, a palma benta, a medida de Nossa Senhora, a garrafa soprada, e com a invoca\u00e7\u00e3o de todas as legi\u00f5es de santos, de serafins e de anjos livrava-se ela dos maiores apertos. E ningu\u00e9m lhe fosse dar regras, que as n\u00e3o ouvia, nem do f\u00edsico-mor, se nisso se metesse: era s\u00f3 olhar para uma mulher de esperan\u00e7as, e dizia-lhe logo sem grande trabalho o sexo, o tamanho do filho que trazia nas entranhas, e com uma pontualidade miraculosa o dia e hora em que teria de ver-se desembara\u00e7ada; at\u00e9 \u00e0s vezes, por certos sinais que s\u00f3 ela conhecia, chegava a dizer qual seria o g\u00eanio e as inclina\u00e7\u00f5es do ente que ia ver \u00e0 luz. J\u00e1 se v\u00ea que esta vida era trabalhosa e demandava s\u00e9rios cuidados; por\u00e9m a comadre dispunha de uma grande soma de atividade; e, apesar de gastar muito tempo nos deveres do of\u00edcio e na igreja, sempre lhe sobrara algum para empregar em outras coisas. Como dissemos, ela havia tomado a peito a causa dos amores de Leonardo com Luizinha, e jurara p\u00f4r Jos\u00e9 Manuel, o novo candidato, fora da chapa.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou pois a ocupar o seu tempo dispon\u00edvel nesse grave neg\u00f3cio, e movia uma intriga surd\u00edssima e constante contra o rival de seu afilhado. Gozando da intimidade e do cr\u00e9dito de D. Maria, n\u00e3o perdia junto dela ocasi\u00e3o de desconceituar Jos\u00e9 Manuel, o que era-lhe tanto mais f\u00e1cil quanto ele prestava-se a isso, e D. Maria, de esp\u00edrito demandista e chicaneiro, dava o cavaco por um mexerico. Eis aqui uma das que ela armou ao advers\u00e1rio.<\/p>\n<p>Todos sabem nesta cidade onde \u00e9 o Orat\u00f3rio de Pedra; mas o que todos talvez n\u00e3o saibam \u00e9 para que serviu ele em outros tempos. Sem d\u00favida naquele orat\u00f3rio havia a imagem de algum santo, e o povo devoto ia ali rezar? Exatamente. Mas por que \u00e9 que hoje n\u00e3o continua essa pr\u00e1tica, por que apenas se conserva sobre a parede aquela esp\u00e9cie de guarita de pedra, sem imagem alguma, sem luz \u00e0 noite, e diante da qual passam todos irreverentemente sem tirar o chap\u00e9u e curvar o joelho? Primeiro que tudo extinguiu-se isso pela raz\u00e3o por que se extinguiram muitas coisas boas daquele bom tempo; come\u00e7aram todos a aborrecer-se de ach\u00e1-las boas, e acabaram com elas. Depois houve a respeito do Orat\u00f3rio de Pedra muito boas raz\u00f5es policiais para que ele deixasse de ser o que era.<\/p>\n<p>O leitor, que sem d\u00favida sabe muito bem de quanto eram nossos pais crentes, devotos e tementes a Deus, se admirar\u00e1 talvez de ler que houve raz\u00f5es policiais para a extin\u00e7\u00e3o de um orat\u00f3rio. Entretanto \u00e9 isso uma verdade, e se fosse ainda vivo o nosso amigo Vidigal, de quem j\u00e1 tivemos ocasi\u00e3o de falar em alguns cap\u00edtulos desta historieta, poderia dizer quanto garoto pilhou em flagrante delito, ali mesmo aos p\u00e9s do orat\u00f3rio, ajoelhado, contrito e beato.<\/p>\n<p>Quando passava a via-sacra e que se acendia a l\u00e2mpada do orat\u00f3rio, o pai de fam\u00edlia que morava ali pelas vizinhan\u00e7as tomava o capote, chamava toda a gente de casa, filhos, filhas, escravos e crias, e iam fazer ora\u00e7\u00e3o ajoelhando-se entre o povo diante do orat\u00f3rio. Mas se acontecia que o incauto devoto se esquecia da filha mais velha que se ajoelhava um pouco mais atr\u00e1s e embebido em suas ora\u00e7\u00f5es n\u00e3o estava alerta, sucedia-lhe \u00e0s vezes voltar para casa com a fam\u00edlia dizimada: a menina aproveitava-se do ensejo, e sorrateiramente escapava-se em companhia de um devoto que se ajoelhara ali perto, embrulhado no seu capote, e que ainda h\u00e1 dois minutos todos tinham visto entregue fervorosamente a suas s\u00faplicas a Deus.<\/p>\n<p>Aquilo era a execu\u00e7\u00e3o do plano concertado na v\u00e9spera ao cair de ave-marias, atrav\u00e9s dos postigos da r\u00f3tula. Outras vezes, quando estavam todos os circunstantes entregues \u00e0 devo\u00e7\u00e3o, e que a ladainha entoada a compasso enchia aquele circuito de contri\u00e7\u00e3o, ouvia-se um grito agudo e doloroso que interrompia o hino; corriam todos para o lugar donde partira, e achavam um homem estendido no ch\u00e3o com uma ou duas facadas.<\/p>\n<p>N\u00e3o levamos ainda em conta as inocentes ca\u00e7oadas que a todo o instante faziam os gaiatos. Eis aqui pois por que, al\u00e9m de outros motivos, dissemos que tinham havido raz\u00f5es policiais para que se acabasse com as piedosas pr\u00e1ticas do Orat\u00f3rio de Pedra.<\/p>\n<p>No tempo em que se passavam as cenas que temos narrado, ainda o Orat\u00f3rio de Pedra estava no galarim. Um ou dois dias depois do nascimento do segundo filho de Leonardo-Pataca correu pela cidade a not\u00edcia de um grande esc\u00e2ndalo que se passara nesse lugar cl\u00e1ssico dos esc\u00e2ndalos: uma mo\u00e7a, que vivia em companhia de sua m\u00e3e, velha, rica e devota, indo com ela rezar junto ao Orat\u00f3rio, na ocasi\u00e3o da passagem da via-sacra, fugira, tendo levado consigo um p\u00e9 de meia preta contendo uma boa por\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as de ouro. Falava-se muito no caso, n\u00e3o porque fosse naquele tempo coisa de estranhar-se, mas porque havia um mist\u00e9rio no sucesso: ningu\u00e9m sabia com quem tinha fugido a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>D. Maria, como todos, estava ansiosa por ver deslindada a quest\u00e3o, quando lhe apareceu em casa a comadre que a vinha visitar.<\/p>\n<p>D. Maria estava sentada na sua banquinha, tendo diante de si uma enorme almofada de renda carregada com seis ou sete d\u00fazias de bilros, e esmerava-se em fazer um largo pegamento. A seu lado, sentada em uma esteira, cercada por uma por\u00e7\u00e3o de negrinhas, crias de D. Maria, estava Luizinha tamb\u00e9m ocupada em fazer renda.<\/p>\n<p>Quando a comadre entrou, D. Maria largou imediatamente a almofada do colo, tirou do nariz e p\u00f4s na testa um par de \u00f3culos de aros de prata com que trabalhava, e come\u00e7ou logo por tocar no caso que a preocupava. A comadre fez sinal que mandasse retirar Luizinha e as mais crian\u00e7as; e a conversa caminhou livremente.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o que me diz, senhora, da desgra\u00e7a da pobre velha? Criar a gente uma rapariga com todo o carinho, e no fim ter aquela recompensa!&#8230; no meu tempo n\u00e3o se viam coisas destas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que quer, senhora? respondeu a comadre; pois foi ali, nas barbas de todos. N\u00e3o havia um instante que ela havia chegado com a velha, e que se tinham todas duas ajoelhado ao p\u00e9 de mim&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ao p\u00e9 da comadre? Pois a comadre estava l\u00e1?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Estava&#8230; que antes n\u00e3o estivesse&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas o diabo, senhora, acrescentou D. Maria, \u00e9 ningu\u00e9m saber quem foi o maldito que fugiu com ela&#8230;<\/p>\n<p>A comadre interrompeu, dando uma risadinha sard\u00f4nica.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho perguntado a todos, e ningu\u00e9m sabe dizer-me.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 porque todos estavam cegos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Como?<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o o estava eu, por mal de meus pecados, que antes estivesse&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois viu e sabe com quem foi&#8230; disse D. Maria, remexendo-se de prazer em cima da banquinha.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia de poder saber de uma novidade que todos ignoravam encheu-a de contentamento.<\/p>\n<p>\u2014 Mas ent\u00e3o quem foi, vamos; quero saber quem foi o ladr\u00e3o da mo\u00e7a e do dinheiro&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 S\u00f3 lhe direi, respondeu a comadre depois de alguma hesita\u00e7\u00e3o, se me prometerdes guardar todo o segredo, que o caso \u00e9 muito s\u00e9rio.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, bem sabe que eu&#8230; \u00e9 o mesmo que cair num po\u00e7o.<\/p>\n<p>Apesar de estarem s\u00f3s, a comadre inclinou-se ao ouvido de D. Maria, e disse-lhe o mais baixinho que p\u00f4de:<\/p>\n<p>\u2014 Foi o nosso grande camarada&#8230; a boa pe\u00e7a do Jos\u00e9 Manuel&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O que \u00e9 que diz, comadre?<\/p>\n<p>\u2014 Vi, respondeu esta, arregalando com dois dedos os olhos, com estes que a terra h\u00e1 de comer&#8230; Se eles estavam ao p\u00e9 de mim&#8230;<\/p>\n<p>D. Maria ficou por algum tempo muda de estupefa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3>TOMO II<\/h3>\n<h2>CAP\u00cdTULO III<\/h2>\n<h2>DERROTA<\/h2>\n<p>Aquelas \u00faltimas palavras da comadre produziram sobre D. Maria o efeito de um raio: a velha remexeu-se na banquinha, tomada do maior desapontamento.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, comadre, exclamou depois da primeira emo\u00e7\u00e3o, esta n\u00e3o lembra ao diabo&#8230; por isso eu sigo a regra antiga de me n\u00e3o fiar em coisa que traz cal\u00e7\u00f5es&#8230; Safa&#8230; que esta p\u00f4s-me sal na moleira.<\/p>\n<p>A comadre, vendo estas boas disposi\u00e7\u00f5es, aproveitava-se delas para fazer melhor o seu papel, e respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 Pois tamb\u00e9m o que se havia de esperar de um sujeito como aquele?&#8230; um homem que n\u00e3o abre a boca que n\u00e3o minta&#8230; que tem uma l\u00edngua de L\u00facifer?&#8230; Quem contasse com aquilo era mesmo para se perder.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, senhora; nunca vi mentiroso, nem maldizente maior&#8230;<\/p>\n<p>Nunca D. Maria at\u00e9 ent\u00e3o tinha encontrado em Jos\u00e9 Manuel as qualidades que agora descobria tanto em relevo.<\/p>\n<p>\u2014 Se eu fosse parente da rapariga havia p\u00f4r uma demanda ao tal diabo que o havia ensinar&#8230; Por isso \u00e9 que ele me n\u00e3o aparecia por c\u00e1 h\u00e1 tanto tempo&#8230; andava cuidando nos seus arranjos.<\/p>\n<p>Mal tinha D. Maria acabado de pronunciar estas \u00faltimas palavras quando se ouviu bater \u00e0 porta, e a voz de Jos\u00e9 Manuel pedir licen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 A\u00ed est\u00e1 ele&#8230; segredo&#8230; n\u00e3o quero que se saiba que fui eu, disse a comadre apressada.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, respondeu D. Maria, eu c\u00e1 para isso sou boa.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Manuel entrou. D. Maria, que n\u00e3o costumava guardar o que sentia, recebeu-o friamente; a comadre por\u00e9m fez-lhe um rasgado cumprimento.<\/p>\n<p>\u2014 Seja bem aparecido, disse, bons olhos o vejam.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho andado a\u00ed ocupado com alguns arranjos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Arranjos&#8230; disse D. Maria trocando com a comadre um olhar significativo.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Manuel, inocente em tudo, ficou pasmo, sem entender o que queria aquilo dizer; entretanto, segundo o costume, n\u00e3o perdeu ocasi\u00e3o de armar uma peta.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, uns arranjos, acrescentou; houve um neg\u00f3cio muito s\u00e9rio em que estive metido, e que me ia dando bem que fazer; sinto n\u00e3o lhe poder contar, porque \u00e9 segredo.<\/p>\n<p>A comadre fez um gesto, como quem queria dizer \u2014 a\u00ed vem uma peta; D. Maria, por\u00e9m, que estava preocupada pela conversa que h\u00e1 pouco tivera, entendeu que Jos\u00e9 Manuel se referia ao roubo da mo\u00e7a; e abanando a cabe\u00e7a, disse por entre os dentes:<\/p>\n<p>\u2014 Hum&#8230; entendo&#8230;<\/p>\n<p>A comadre estremeceu temendo que D. Maria n\u00e3o desse com a l\u00edngua nos dentes, e que a quest\u00e3o do roubo da mo\u00e7a tivesse de ser averiguada em sua presen\u00e7a; porque nesse caso seria ela apanhada em flagrante mentira, e estava tudo perdido. Come\u00e7ou portanto a provocar a Jos\u00e9 Manuel a que declarasse qual era o neg\u00f3cio s\u00e9rio em que estivera metido; contava com algumas das petas continuadas, e assim se desviaria a conversa do ponto que ela n\u00e3o queria ver tratado em sua presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Deixemo-la nesse empenho lutar com as nega\u00e7as e fingidos mist\u00e9rios de Jos\u00e9 Manuel.<\/p>\n<p>Desde o dia em que Leonardo fizera a sua declara\u00e7\u00e3o amorosa, uma mudan\u00e7a not\u00e1vel se come\u00e7ou a operar em Luizinha, a cada hora se tornava mais sens\u00edvel a diferen\u00e7a tanto do seu f\u00edsico como do seu moral. Seus contornos come\u00e7avam a arredondar-se; seus bra\u00e7os, at\u00e9 ali finos e sempre ca\u00eddos, engrossavam-se e tornavam-se mais \u00e1geis; suas faces magras e p\u00e1lidas, enchiam-se e tomavam essa cor que s\u00f3 sabe ter o rosto da mulher em certa \u00e9poca da vida; a cabe\u00e7a, que trazia habitualmente baixa, erguia-se agora graciosamente; os olhos, at\u00e9 aqui amortecidos, come\u00e7avam a despedir lampejos brilhantes; falava, movia-se, agitava-se.<\/p>\n<p>A ordem de suas id\u00e9ias alterava-se tamb\u00e9m; o seu mundo interior, at\u00e9 ent\u00e3o acanhado, estreito, escuro, despovoado, come\u00e7ava a alargar os horizontes, a iluminar-se, a povoar-se de milh\u00f5es de imagens, ora amenas, ora melanc\u00f3licas, sempre por\u00e9m belas.<\/p>\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o indiferente ao que se passava em torno de si, parecia agora participar da vida, de tudo que a cercava; gastava horas inteiras a contemplar o c\u00e9u, como se s\u00f3 agora tivesse reparado que ele era azul e belo, que o sol o iluminava de dia, que se recamava de estrelas \u00e0 noite.<\/p>\n<p>Tudo isto dava em resultado, pelo que diz respeito ao nosso amigo Leonardo, um aumento consider\u00e1vel de amor; tamb\u00e9m ele foi o primeiro que deu f\u00e9 daquelas mudan\u00e7as em Luizinha. Entretanto, apesar de lhe crescer o amor nem por isso lhe nasciam mais esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>Depois da declara\u00e7\u00e3o n\u00e3o se tinha adiantado nem mais uma polegada, e a \u00fanica coisa talvez que o alentava era um certo rubor que s\u00fabito subia \u00e0s faces de Luizinha quando acontecia (raras vezes) que se encontrassem os olhos dela com os seus. A soma total destas adi\u00e7\u00f5es era uma raiva que lhe crescia n\u2019alma, aumentando todos os dias de intensidade contra Jos\u00e9 Manuel, a quem em seus c\u00e1lculos atribu\u00eda todo o seu atraso.<\/p>\n<p>Dadas estas explica\u00e7\u00f5es, voltemos a dar conta do resto da cena que deixamos suspensa.<\/p>\n<p>\u00c0 for\u00e7a de inst\u00e2ncias a comadre conseguiu que Jos\u00e9 Manuel referisse qual o neg\u00f3cio de alto segredo em que se tinha achado envolvido.<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem, disse ele finalmente, se prometem toda a discri\u00e7\u00e3o, contarei.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, nem tem que recomendar isso.<\/p>\n<p>Com as nega\u00e7as e mist\u00e9rios que tinha guardado at\u00e9 ent\u00e3o, Jos\u00e9 Manuel n\u00e3o fizera mais do que ganhar tempo para imaginar a mentira que havia de pregar: a comadre contava com isso.<\/p>\n<p>Ele come\u00e7ou:<\/p>\n<p>\u2014 Saibam vm.c\u00eas que fui um destes dias chamado a pal\u00e1cio&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ui! exclamou a comadre.<\/p>\n<p>\u2014 A\u00ed est\u00e1 o resultado, disse D. Maria; mas n\u00e3o se pagam na outra vida, \u00e9 mesmo nesta.<\/p>\n<p>\u2014 Resultado de qu\u00ea? perguntou Jos\u00e9 Manuel surpreendido.<\/p>\n<p>\u2014 De nada; continue.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Manuel enfiou ent\u00e3o tomando por tema aquelas primeiras palavras que lhe tinham vindo \u00e0 boca, uma mentira muito sem sabor, que n\u00f3s poupamos aos leitores. N\u00e3o foram por\u00e9m satisfeitas as vistas da comadre, que queria desviar a conversa do furto da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Terminada a hist\u00f3ria, Jos\u00e9 Manuel come\u00e7ou a instar com D. Maria para que lhe desse explica\u00e7\u00e3o das palavras duvidosas que h\u00e1 pouco havia dito a seu respeito. A comadre, assim que viu o neg\u00f3cio neste p\u00e9, foi tratando de retirar-se, depois de trocar com D. Maria um olhar que queria dizer: \u2014 n\u00e3o me comprometa.<\/p>\n<p>D. Maria a princ\u00edpio quis sustentar o segredo; afinal n\u00e3o se p\u00f4de conter, e soltou contra Jos\u00e9 Manuel uma grande alicantina, dizendo que toda a cidade estava cheia do horroroso esc\u00e2ndalo que ele acabava de cometer roubando uma filha-fam\u00edlia.<\/p>\n<p>O homem foi \u00e0s nuvens, e jurou e trejurou que estava inocente em tudo aquilo. Nada por\u00e9m lhe valeu.<\/p>\n<p>D. Maria foi inflex\u00edvel.<\/p>\n<p>Protestou de novo que se ela fosse parenta da mo\u00e7a o Sr. Jos\u00e9 Manuel se havia de ver em cal\u00e7as pardas com o neg\u00f3cio; e terminou por dar-lhe a entender que ele era um homem muito perigoso para ser admitido em uma casa de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Manuel saiu completamente corrido e cismando em quem poderia ter sido o autor de semelhante intriga.<\/p>\n<p>Quanto a D. Maria, ficou muito satisfeita, pois, tendo no seu car\u00e1ter um grande fundo de honestidade, julgava ter feito uma boa a\u00e7\u00e3o rompendo com Jos\u00e9 Manuel, que ficara com efeito, como o calculara a comadre, perdendo muito no seu conceito.<\/p>\n<h3>TOMO II<\/h3>\n<h2>CAP\u00cdTULO IV<\/h2>\n<h2>O MESTRE-DE-REZA<\/h2>\n<p>Tudo que ultimamente se passara em casa de D. Maria havia posto a andar \u00e0 roda a cabe\u00e7a de Jos\u00e9 Manuel; conheceu que tinha ali inimigo, fosse quem fosse, pois que aquilo n\u00e3o passava certamente de intriga que lhe tinham armado. Restava-lhe por\u00e9m saber quem seria esse inimigo; e por mais que desse voltas ao miolo n\u00e3o atinava com ele. Pelo g\u00eanero da intriga conheceu que a causa do que lhe faziam era seguramente a sua pretens\u00e3o a respeito de Luizinha, que sem d\u00favida tinha sido percebida; come\u00e7ou a suspeitar que tinha de haver-se com um rival. Na roda que freq\u00fcentava a casa de D. Maria ningu\u00e9m via que lhe parecesse poder estar nesse caso: passou-lhe muitas vezes pela lembran\u00e7a o mo\u00e7o Leonardo; por\u00e9m achava-o incapaz de se meter nessas coisas.<\/p>\n<p>Assim s\u00e3o os velhacos!! Quantas vezes est\u00e3o tocando o inimigo com as m\u00e3os, e n\u00e3o o v\u00eaem, e n\u00e3o o sentem!<\/p>\n<p>Partisse por\u00e9m donde partisse o golpe que o ferira, o caso \u00e9 que fora dado certeiro, e a duas m\u00e3os.<\/p>\n<p>D. Maria, extremosa em suas afei\u00e7\u00f5es, como em seus \u00f3dios, consentiria com imensa dificuldade na reabilita\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Manuel; entretanto ele n\u00e3o esfriou por isso, e p\u00f4s m\u00e3os \u00e0 obra. Por uma singularidade, assim como Leonardo tinha achado na comadre uma protetora \u00e0 sua causa, tamb\u00e9m Jos\u00e9 Manuel achou um procurador para a sua.<\/p>\n<p>Vamos j\u00e1 dizer aos leitores quem era o procurador de Jos\u00e9 Manuel.<\/p>\n<p>Havia no tempo em que se passam estas cenas institui\u00e7\u00f5es muito curiosas no Rio de Janeiro; algumas eram not\u00e1veis por seu fim, outras por seus meios. Entre essas uma havia de que ainda em nossa inf\u00e2ncia tivemos ocasi\u00e3o de ver alguns destro\u00e7os, era a institui\u00e7\u00e3o dos mestres-de-reza.<\/p>\n<p>O mestre-de-reza era t\u00e3o acatado e venerado naquele tempo como o pr\u00f3prio mestre de escola; al\u00e9m do respeito ordinariamente tributado aos preceptores, dava-se uma circunst\u00e2ncia muito not\u00e1vel, e vem a ser que os mestres-de-reza eram sempre velhos e cegos. N\u00e3o eram em grande n\u00famero, por isso mesmo viviam portanto em grande atividade, e ganhavam sofrivelmente. Andavam pelas casas a ensinar a rezar aos filhos, crias e escravos de ambos os sexos.<\/p>\n<p>O mestre-de-reza n\u00e3o tinha traje especial: vestia-se como todos, e s\u00f3 o que o distinguia era ver-se-lhe constantemente fora de um dos bolsos o cabo de uma tremenda palmat\u00f3ria, de que andava armado, comp\u00eandio \u00fanico por onde ensinava a seus disc\u00edpulos.<\/p>\n<p>Assim que entravam para a li\u00e7\u00e3o reunia em um semic\u00edrculo diante de si todos os disc\u00edpulos; puxava do bolso a tremenda f\u00e9rula, colocava-a no ch\u00e3o, encostada \u00e0 cadeira onde se achava sentado, e come\u00e7ava o trabalho.<\/p>\n<p>Fazia o mestre em voz alta o pelo-sinal, pausada e vagarosamente, no que o acompanhavam em coro todos os disc\u00edpulos. Quanto a fazerem os sinais era ele quase sempre logrado, como facilmente se concebe, por\u00e9m pelo que toca \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o das palavras, t\u00e3o pr\u00e1tico estava, que, por maior que fosse o n\u00famero dos disc\u00edpulos, percebia no meio do coro que havia faltado esta ou aquela voz, quando algu\u00e9m se atrevia a deixar-se ficar calado. Suspendia-se ent\u00e3o imediatamente o trabalho, e o culpado era obsequiado com uma remessa de bolos, que de modo nenhum desmentiam a reputa\u00e7\u00e3o de que goza a pancada de cego. Feito isto, recome\u00e7ava o trabalho, voltando-se sempre ao princ\u00edpio de cada vez que havia um erro ou falta. Acabado o pelo-sinal, que, com as diversas interrup\u00e7\u00f5es que ordinariamente tinha, gastava boa meia hora, repetia o mestre sozinho sempre e em voz alta e compassada a ora\u00e7\u00e3o que lhe aprazia; repetiam depois o mesmo os disc\u00edpulos do primeiro ao \u00faltimo, de um modo que nem era falado nem cantado; j\u00e1 se sabe, interrompidos a cada erro pela competente remessa de bolos. Depois de uma ora\u00e7\u00e3o seguia-se outra, e assim por diante, at\u00e9 terminar a li\u00e7\u00e3o pela ladainha cantada.<\/p>\n<p>Ao sair recebia o mestre uma pequena esp\u00f3rtula do dono da casa.<\/p>\n<p>D. Maria, tendo em sua casa um n\u00famero n\u00e3o pequeno de crias, n\u00e3o se dispensava de ter, como todos que estavam em suas circunst\u00e2ncias, o seu mestre-de-reza. Era este um cego muito afamado pelo seu excessivo rigor para com os disc\u00edpulos, e por conseq\u00fc\u00eancia um dos mais procurados; nesse tempo exigia-se antes de tudo essa qualidade. Tinha tamb\u00e9m outro m\u00e9rito: corria a seu respeito a fama de bom arranjador de casamentos.<\/p>\n<p>Eis a\u00ed o procurador de Jos\u00e9 Manuel.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Manuel j\u00e1 antes o tinha posto de m\u00e3o, e agora que se viu em perigo recorreu a ele; exp\u00f4s-lhe o caso, comunicou-lhe suas inten\u00e7\u00f5es, e pediu-lhe a sua coopera\u00e7\u00e3o. Fez-lhe sentir sobretudo que havia um rival a combater, e muito tem\u00edvel, pois que n\u00e3o era conhecido. O velho come\u00e7ou ent\u00e3o a tomar as mais minuciosas informa\u00e7\u00f5es, e depois de calcular por algum tempo disse:<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 sei com quem me tenho que haver&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o com quem \u00e9?&#8230; acudiu Jos\u00e9 Manuel apressado.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1 descansado, n\u00e3o se importe com o resto.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, homem, olhe que \u00e9 preciso muito cuidado; porque, quem quer que \u00e9, \u00e9 fino como os trezentos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora qual&#8230; hist\u00f3rias&#8230; desses arranjos entendo eu dormindo, e vejo nisso, sendo cego, melhor do que muitos com seus olhos perfeitos.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 uma coisa que me p\u00f5e \u00e0 roda o miolo n\u00e3o poder descobrir quem se intromete nos meus neg\u00f3cios&#8230; olhe que a tal entrega do furto da mo\u00e7a foi de mestre.<\/p>\n<p>\u2014 Eu tamb\u00e9m sou mestre, e veremos quem ensina melhor.<\/p>\n<p>Ficaram os dois nisto; e o cego p\u00f4s m\u00e3os \u00e0 obra.<\/p>\n<p>Devemos prevenir o leitor que a causa em semelhantes m\u00e3os, se n\u00e3o se podia dizer decididamente ganha, pelo menos ficava arriscada; e o que vale \u00e9 que do outro lado estava a comadre.<\/p>\n<p>O velho come\u00e7ou o seu trabalho em regra: logo na primeira noite que foi dar li\u00e7\u00e3o \u00e0 casa de D. Maria come\u00e7ou por fazer cair a conversa a respeito do roubo da mo\u00e7a, e deu a entender que sabia do caso e conhecia perfeitamente quem tinha sido o autor dele. D. Maria disse tamb\u00e9m que sabia quem era, e que at\u00e9 o conhecia muito. O velho sorriu-se, deixando apenas escapar em tom de d\u00favida um significativo \u2014 Qual&#8230; \u2014 D. Maria franziu o sobrolho, levantou os \u00f3culos e exclamou:<\/p>\n<p>\u2014 Pois ent\u00e3o pensa que eu ando atrasada nestas coisas?&#8230; Ora deixe-se&#8230; Sei quem foi, e sei muito e muito bem. \u00c9 um peda\u00e7o de mariola com cara de sonso, que s\u00f3 me h\u00e1 de morar em casa se eu algum dia for carcereira.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 isso tudo, mas a Sra. D. Maria n\u00e3o conhece o homem, digo-lhe eu, que tamb\u00e9m ando ao fato deste neg\u00f3cio todo.<\/p>\n<p>\u2014 Bem sei, bem sei&#8230; mas olhe que eu tamb\u00e9m soube de parte muito certa&#8230; e n\u00e3o h\u00e1 nada mais f\u00e1cil do que ver quem est\u00e1 enganado&#8230; Diga l\u00e1 o senhor quem foi.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! n\u00e3o! isso nunca, exclamou apressadamente o velho pondo-se em p\u00e9; nada, eu c\u00e1 n\u00e3o quebro segredo de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>D. Maria remexeu-se toda de afli\u00e7\u00e3o; e por mais que instasse nada p\u00f4de arrancar do velho, que, para fazer melhor o seu papel, se foi logo retirando, dando assim a entender que queria cortar a conversa naquele ponto.<\/p>\n<p>Quando mais n\u00e3o tivesse conseguido, o velho tinha ao menos lan\u00e7ado a d\u00favida no esp\u00edrito de D. Maria a respeito do fato, que era para ela a pedra e esc\u00e2ndalo contra Jos\u00e9 Manuel.<\/p>\n<h3>TOMO II<\/h3>\n<h2>CAP\u00cdTULO V<\/h2>\n<h2>TRANSTORNO<\/h2>\n<p>Enquanto todas estas coisas se passavam, um triste sucesso, e da mais alta import\u00e2ncia, veio alterar a vida de Leonardo, ou transtorn\u00e1-la mesmo: o compadre caiu gravemente enfermo. A princ\u00edpio a mol\u00e9stia pareceu coisa de pouca monta, e a comadre, que foi a primeira chamada, pretendeu que todo o inc\u00f4modo desapareceria dentro de dois dias, tomando o doente alguns banhos de alecrim. Nada por\u00e9m se conseguiu com a receita; o mal continuou. Recorreram ent\u00e3o a um botic\u00e1rio conhecido da comadre, que juntara ao seu mister, n\u00e3o sabemos se com permiss\u00e3o das leis ou sem ela, o mister de m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Era um velho, filho do Porto, que aqui se viera estabelecer h\u00e1 muitos anos, e que ajuntara no oficio boas patacas. Apenas chegou e viu o doente declarou que em poucos dias o poria de p\u00e9; bastava que ele tomasse umas p\u00edlulas que lhe ia mandar da sua botica: eram um santo rem\u00e9dio, segundo dizia, mas custavam um bocadinho caro, por\u00e9m valia a vida de um homem. A comadre quando ouviu falar em p\u00edlulas franziu a testa.<\/p>\n<p>\u2014 Pirolas, disse consigo; ent\u00e3o o neg\u00f3cio \u00e9 s\u00e9rio; e eu, que tenho m\u00e1-f\u00e9 com pirolas; ainda n\u00e3o vi uma s\u00f3 pessoa que as tomasse que escapasse.<\/p>\n<p>E avermelharam-se-lhe imediatamente os olhos.<\/p>\n<p>O botic\u00e1rio retirou-se levando consigo o Leonardo, que trouxe as p\u00edlulas. A comadre, olhando para elas, abanou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, disse, eu pensei que ele lhe mandasse dar alguns banhos; c\u00e1 por mim com alecrim havia de p\u00f4-lo bom.<\/p>\n<p>A comadre tinha raz\u00e3o at\u00e9 certo ponto, pois que no fim de tr\u00eas dias, depois de feitos todos os preparos religiosos, o compadre deu a alma a Deus.<\/p>\n<p>D. Maria tinha sido chamada nesse mesmo dia, e compareceu com Luizinha e com todo o seu batalh\u00e3o de crias; tinham vindo tamb\u00e9m algumas outras pessoas da vizinhan\u00e7a.<\/p>\n<p>Estavam todos sentados em um grande canap\u00e9, na varanda, e conversavam muito entretidos sobre os objetos mais diversos; algumas achavam mesmo na conversa\u00e7\u00e3o motivo para boas risadas; de repente abriu-se a porta do quarto, e a comadre saiu de dentro com o len\u00e7o nos olhos, solu\u00e7ando desabridamente e repetindo em altos gritos:<\/p>\n<p>\u2014 Bem dizia eu que tinha pouca f\u00e9 nas pirolas; est\u00e1 para ser o primeiro que eu as veja tomar e que escape&#8230; Coitado do compadre&#8230; t\u00e3o boa criatura&#8230; nunca me constou que fizesse mal a ningu\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>Estas palavras da comadre foram o sinal de rebate dado \u00e0 dor dos que se achavam presentes; desatou tudo a chorar, e cada qual o mais alto que podia. O Leonardo sofreu um grande choque, e no meio do seu atordoamento encolheu-se em cima do canap\u00e9 com a cabe\u00e7a sobre os joelhos, chegando-se, naturalmente sem o querer, porque a dor o perturbava, o mais perto poss\u00edvel de Luizinha. Continuaram as mais no seu coro de pranto dirigido pela comadre; mas n\u00e3o se contentavam s\u00f3 com o pranto, soltavam tamb\u00e9m algumas vezes exclama\u00e7\u00f5es em honra do defunto.<\/p>\n<p>\u2014 Sempre foi muito bom vizinho, nunca tive esc\u00e2ndalos dele, dizia uma.<\/p>\n<p>Era a vizinha que augurava mau fim ao Leonardo, e com quem o compadre brigara por este motivo umas poucas de vezes.<\/p>\n<p>\u2014 Boa alma, dizia D. Maria, boa alma; havia de ser como ele quem quisesse ter boa alma.<\/p>\n<p>\u2014 Eu que lidei com ele, dizia a comadre, \u00e9 que sei o que ele valia; era uma alma de santo num corpo de pecador.<\/p>\n<p>\u2014 Bom amigo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E muito temente a Deus&#8230;<\/p>\n<p>Prolongada esta cena por algum tempo, despediram-se algumas pessoas, outras ficaram ainda. Foi serenando o pranto, e da\u00ed a pouco D. Maria, enxugando ainda os olhos, explicava detalhadamente a uma outra senhora que se achava junto dela a hist\u00f3ria geneal\u00f3gica de cada uma de suas crias que se achavam presentes.<\/p>\n<p>Finalmente retiraram-se todos, exceto D. Maria, a sua gente e a comadre, que estava desde que o compadre adoecera tomando conta da casa.<\/p>\n<p>Aproximou-se a noite; acenderam-se velas junto do defunto; fizeram-se todos os mais arranjos do costume.<\/p>\n<p>D. Maria e a comadre come\u00e7aram a conversar, por\u00e9m baixinho.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, senhora, principiou D. Maria, este homem n\u00e3o havia morrer assim sem ter feito seu testamento; pois ele n\u00e3o havia de querer deixar no mundo o afilhado ao desamparo para os ausentes se gozarem do que a ele lhe custou tanto trabalho.<\/p>\n<p>\u2014 A mim, respondeu a comadre, nunca me falou em semelhante coisa; mas enfim, como isso s\u00e3o l\u00e1 neg\u00f3cios de segredo&#8230; talvez.<\/p>\n<p>\u2014 Seria bom procurar-se; talvez em alguma gaveta por a\u00ed se ache; \u00e9 imposs\u00edvel que o defunto n\u00e3o dispusesse sua vida; bem vezes lhe aconselhei eu semelhante coisa.<\/p>\n<p>\u2014 Tem raz\u00e3o, D. Maria, eu acho tamb\u00e9m que deve haver alguma coisa.<\/p>\n<p>E foram as duas tratar de procurar o testamento nas gavetas de uma grande c\u00f4moda que havia no quarto do defunto. Enquanto nisso se ocupavam, Luizinha e Leonardo conversavam, ou antes cochichavam, como se diz vulgarmente. O que eles se diziam n\u00e3o posso diz\u00ea-lo ao leitor, porque o n\u00e3o sei; sem d\u00favida a rapariga consolava o rapaz da perda que acabava de sofrer na pessoa do seu amado padrinho.<\/p>\n<p>Finalmente as duas acharam com efeito um testamento, e ficaram com isso muito satisfeitas.<\/p>\n<p>Voltaram \u00e0 varanda e surpreenderam os dois no melhor da sua conversa. A comadre vendo-os sorriu-se, e D. Maria, fazendo sem d\u00favida a respeito do que estavam eles falando o mesmo ju\u00edzo que n\u00f3s, disse enternecida:<\/p>\n<p>\u2014 Ela tem muito bom cora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2014 E o dele n\u00e3o \u00e9 pior, respondeu a comadre.<\/p>\n<p>E acrescentou com inten\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 Estava um bom casal.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! senhora, disse D. Maria com ingenuidade, deixe a menina, que ainda \u00e9 muito cedo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m n\u00e3o digo j\u00e1, mas a seu tempo.<\/p>\n<p>D. Maria sorriu-se com um sorriso de que a comadre n\u00e3o desgostou. Mudaram de conversa.<\/p>\n<p>Passou-se a noite; no outro dia saiu o enterro com todas as formalidades do estilo. Depois disso tratou-se de resolver uma importante quest\u00e3o: para a companhia de quem iria o Leonardo? A abertura do testamento feita nesse mesmo dia resolveu a quest\u00e3o. O compadre havia institu\u00eddo a Leonardo por seu universal herdeiro. A comadre informou de semelhante coisa ao Leonardo-Pataca, e este apresentou-se para tomar conta de seu filho. N\u00e3o pareceu o rapaz muito satisfeito com a gra\u00e7a: n\u00e3o sei como veio-lhe \u00e0 id\u00e9ia aquele terr\u00edvel pontap\u00e9 que o fizera fugir de casa; al\u00e9m disso rar\u00edssimas vezes vira depois disso a seu pai, e estava completamente desacostumado dele. N\u00e3o havia por\u00e9m outro rem\u00e9dio; foi preciso obedecer e acompanh\u00e1-lo para casa, onde encontrou sua pequena irm\u00e3, e quem a pusera no mundo.<\/p>\n<p>O Leonardo-Pataca come\u00e7ou a cuidar no testamento como homem entendido na mat\u00e9ria, e em pouco tempo deu volta a tudo aquilo.<\/p>\n<p>Cumpre notar que, se em vida do compadre corriam boatos que pareciam exagerados a respeito do que ele possu\u00eda, quando morreu p\u00f4de ver-se que esses boatos tinham ainda ficado muito aqu\u00e9m da verdade, pois deixara ele um bom par de mil cruzados em esp\u00e9cie. Entregues alguns legados de pouca monta, etc. tudo o mais veio a cair nas m\u00e3os do Leonardo-Pataca como heran\u00e7a de seu filho.<\/p>\n<p>Nos primeiros dias tudo foram flores por casa de Leonardo-Pataca, ainda que, para falar a verdade, desde a primeira vista n\u00e3o simpatizara muito o mo\u00e7o Leonardo com a cara do objeto dos novos e \u00faltimos cuidados de seu pai.<\/p>\n<p>A comadre assentou que devia substituir ao compadre no amor pelo afilhado, e determinou-se a vir morar com ele em casa de Leonardo-Pataca; assim ficava tamb\u00e9m reunida \u00e0 sua filha, e \u00e0 sua neta. O Leonardo-Pataca, que era condescendente, esteve pelo caso, e reuniu-se desse modo \u00e0 fam\u00edlia toda.<\/p>\n<p>Tudo foram flores a princ\u00edpio, como dissemos; o mo\u00e7o Leonardo e a comadre continuaram as suas visitas por casa de D. Maria; e digamo-lo j\u00e1, o rapaz e a rapariga iam pondo as mangas de fora; verdade seja que Jos\u00e9 Manuel trabalhava ajudado do seu cego mestre-de-reza, e n\u00e3o perdia tamb\u00e9m as esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>Pouco tempo durou o sossego em casa de Leonardo-Pataca; Chiquinha (tal era o nome da filha da comadre) come\u00e7ou a embirrar com o seu filho adotivo; este que, como dissemos, n\u00e3o simpatizara muito com ela, come\u00e7ou uma balb\u00fardia de todos os pecados. Todos os dias travavam-se por qualquer ponta, e l\u00e1 ia tudo pelos ares. O Leonardo-Pataca e a comadre faziam o papel de conciliadores, mas os dois eram ambos altanad\u00edssimos, e muitas vezes o conciliador sa\u00eda mal servido, porque aquele a quem n\u00e3o dava raz\u00e3o se revoltava contra ele. Se era por exemplo a comadre, e dava raz\u00e3o a Leonardo, acudia a filha queixando-se de que sua m\u00e3e a abandonava para tomar o partido do afilhado: se pelo contr\u00e1rio dava raz\u00e3o a Chiquinha, acudia o Leonardo queixando-se de que desgra\u00e7ado era o filho sem m\u00e3e, pois nunca achava quem lhe desse raz\u00e3o. Outro tanto acontecia ao Leonardo-Pataca quando se metia a apaziguar os dois.<\/p>\n<p>Os neg\u00f3cios assim iam mal, pois mais dia menos dia haveria grande barulho em casa.<\/p>\n<h3>TOMO II<\/h3>\n<h2>CAP\u00cdTULO VI<\/h2>\n<h2>PIOR TRANSTORNO<\/h2>\n<p>Um dia o Leonardo recolhera-se para casa muito mortificado, pois que tendo ido visitar D. Maria estivera com ela longo tempo sem que Luizinha lhe tivesse aparecido; de maneira que lhe fora for\u00e7oso no fim de algumas horas retirar-se sem v\u00ea-la. Quem j\u00e1 teve um namoro, por menos s\u00e9rio que seja, e que levou um logro destes; quem se viu obrigado a aturar por muito tempo a conversa\u00e7\u00e3o de uma velha, tendo de concordar com ela em tudo e por tudo para n\u00e3o incorrer-lhe no desagrado, s\u00f3 com o fim de trocar com algu\u00e9m um olhar r\u00e1pido, um sorriso disfar\u00e7ado ou outra coisa assim, e que por fim de contas nem isso mesmo conseguiu, h\u00e1 de concordar que o Leonardo tinha toda a raz\u00e3o de estar ardendo com o que lhe sucedera, e o desculparia de qualquer arrebatamento que na ocasi\u00e3o o acometesse. H\u00e1 esp\u00edritos por\u00e9m de tal maneira serrazinas, que se divertem em aumentar a irrita\u00e7\u00e3o alheia, e que quanto mais enfiado pilham um infeliz, tanto mais gostam de atirar-lhe alfinetadas.<\/p>\n<p>Chiquinha, a amante de Leonardo-Pataca, era de um g\u00eanio assim; e depois que moravam todos juntos, n\u00e3o perdia uma s\u00f3 dessas ocasi\u00f5es em virtude da antipatia que tinha ao rapaz, para fustigar de l\u00edngua ao pobre Leonardo. Este, de um g\u00eanio col\u00e9rico e pouco acostumado a ser contrariado, ia \u00e0s nuvens com semelhante coisa; e, se em ocasi\u00f5es ordin\u00e1rias em que estava de bom humor eram constantes as brigas em casa, calcule-se o que n\u00e3o faria nas ocasi\u00f5es como naquela a que nos referimos, que estivesse cheio de raz\u00f5es, e ent\u00e3o por que motivo! Vendo Chiquinha entrar o Leonardo pela porta adentro de cara amarrada e sem dar \u2014 Deus te salve \u2014 a ningu\u00e9m, sorriu-se com malignidade e concertou a garganta, dizendo entre dentes:<\/p>\n<p>\u2014 Melhor cara traga o dia de amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Leonardo, que percebera o que aquilo queria dizer, fez um gesto arrebatado sentando-se em uma cadeira, por\u00e9m com tanta infelicidade, que atirou ao ch\u00e3o uma almofada de renda que se achava junto dele: com a queda rebentaram-se os fios, e uma por\u00e7\u00e3o de bilros rolou pela casa. Por maior infelicidade ainda a almofada era de Chiquinha, e Chiquinha tinha grandes ci\u00fames pela sua almofada. Levantou-se ela do seu lugar j\u00e1 fervendo de raiva; p\u00f4s as m\u00e3os nas cadeiras, e, balan\u00e7ando a cabe\u00e7a \u00e0 medida que falava, exclamou:<\/p>\n<p>\u2014 Ora, d\u00e1-se um desaforo de tamanha grandeza?&#8230; vir da rua com os seus azeites, todo esfogueteado, e de prop\u00f3sito, e muito de prop\u00f3sito, fazer-me o que est\u00e3o vendo, s\u00f3 para me desfeitear, como se fosse aqui um dono de casa que pudesse desfeitear a qualquer sem qu\u00ea nem para qu\u00ea!&#8230;<\/p>\n<p>Leonardo ouviu tudo sem interromper, procurando sopear a raiva; e enquanto Chiquinha tomava f\u00f4lego, respondeu com voz tr\u00eamula e entrecortada:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se meta com a minha vida, porque eu tamb\u00e9m n\u00e3o me importo com a sua; se estou com os azeites&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ah! bom c\u00f4vado e meio! atalhou Chiquinha, ah! bordo da nau!&#8230; ah! major Vidigal!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 lhe disse&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Qual j\u00e1 lhe disse, nem meio j\u00e1 lhe disse!&#8230; namorado sem ventura&#8230;<\/p>\n<p>Estas palavras fizeram o efeito de uma fa\u00edsca em um barril de p\u00f3lvora. Avan\u00e7ou o Leonardo para Chiquinha com os punhos cerrados e espumando de c\u00f3lera.<\/p>\n<p>\u2014 Se me diz mais meia palavra&#8230; perco-lhe o respeito&#8230; eu nunca lhe dei confian\u00e7a; e apesar de ser a senhora l\u00e1 o quer que \u00e9 de meu pai&#8230; perco-lhe o respeito&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea sempre mostra que tem ra\u00e7a de saloio, disse Chiquinha empertigando-se e sem recuar um passo.<\/p>\n<p>O Leonardo-Pataca, que estava no interior da casa, acudiu apressado ao barulho, e veio achar os dois ainda em atitude hostil; vendo o filho quase n\u00e3o quase a desfeitear o adorado objeto de seus derradeiros afetos, n\u00e3o trepidou em desbaratar com ele.<\/p>\n<p>\u2014 Peda\u00e7o de mariola&#8230; pensas que isto aqui \u00e9 como a casa de teu padrinho donde sa\u00edste&#8230; quero aqui muito respeito a todos&#8230; do contr\u00e1rio&#8230; se j\u00e1 uma vez te dei um pontap\u00e9 que te fiz andar muitos anos por fora, dou-te agora outro que te ponha longe daqui para sempre&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Nunca pensei, interrompeu Chiquinha dirigindo-se ao Leonardo-Pataca, querendo afear mais o caso; nunca pensei que na sua companhia se viesse a sofrer semelhante coisa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o fa\u00e7as caso, menina, isto \u00e9 um peda\u00e7o de mariola a quem hei de ensinar; por causa de ningu\u00e9m dou-lhe eu uma rodada, se n\u00e3o por tua causa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Por causa dela!&#8230; atalhou o rapaz; tinha que ver! h\u00e1 de lhe dar bom pago; t\u00e3o bom como a cigana&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas nunca lhe hei de dar, acudiu Chiquinha enfurecida com este insulto; nunca lhe hei de dar o que lhe deu tua m\u00e3e&#8230;<\/p>\n<p>Com isto o Leonardo-Pataca desacoro\u00e7oou completamente; que dil\u00favio de amargas recorda\u00e7\u00f5es n\u00e3o fizeram t\u00e3o poucas palavras cair sobre sua cabe\u00e7a!<\/p>\n<p>\u2014 Espera, maltrapilho, espera que te ensino, exclamou vermelho de c\u00f3lera; espera que te ensino&#8230;<\/p>\n<p>E entrando repentinamente no quarto da sala, saiu de l\u00e1 armado com o espadim do uniforme, e investiu para o filho. Conv\u00e9m dizer que o espadim ia embainhado.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se ponha a perder por minha causa, exclamou Chiquinha agarrando-o pela camisola de chita com que ele estava vestido.<\/p>\n<p>Era in\u00fatil por\u00e9m o medo de Chiquinha, porque o rapaz, vendo que o neg\u00f3cio ia-se tornando feio, tendo-lhe ficado um terror instintivo do pai depois daquele pontap\u00e9 que nunca lhe sa\u00edra da mem\u00f3ria, tinha-se posto ao fresco na rua, fechando a r\u00f3tula sobre si.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! maroto, disse ainda o Leonardo-Pataca, que te havia desancar&#8230;<\/p>\n<p>O Leonardo que fugia por um lado e a comadre que entrava por outro, pois estivera ausente durante toda a cena. Apenas foi largando a mantilha e viu os dois atores que tinham ficado em cena ainda nas posi\u00e7\u00f5es do \u00faltimo quadro, tratou de indagar qual fora o drama que se acabava de representar.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, foi uma das costumadas do afilhado dos seus amores, respondeu Chiquinha, ainda n\u00e3o sossegada.<\/p>\n<p>\u2014 Por\u00e9m ia-lhe saindo caro desta vez, acudiu Leonardo-Pataca.<\/p>\n<p>\u2014 Pois deveras, atalhou a comadre indignada; pois deveras o compadre estava armado de espada para dar no rapaz?<\/p>\n<p>\u2014 Ol\u00e1! que levava t\u00e3o duro como osso!<\/p>\n<p>\u2014 Mas ent\u00e3o por qu\u00ea? quantas mortes fez ele de uma vez? onde \u00e9 que p\u00f4s fogo na casa? Triste coisa \u00e9 um filho sem m\u00e3e!&#8230; Aposto que se eu c\u00e1 estivesse nada havia de suceder?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, respondeu Chiquinha, porque logo havia de tomar as dores por ele, segundo \u00e9 seu costume. A\u00ed est\u00e1; muitos filhos t\u00eam m\u00e3e, e entretanto elas servem-lhes para isto: tomam as dores por outros, e deixam-nos de banda.<\/p>\n<p>\u2014 Qual! hist\u00f3rias! \u00e9 que tudo leva seu bocado de mau caminho.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! senhora! atalhou Leonardo-Pataca, se isto vai assim, n\u00e3o h\u00e1 um momento de sossego nesta casa; acabada uma, come\u00e7a outra; o que n\u00e3o h\u00e1 de dizer esta vizinhan\u00e7a? Olhem que isto aqui \u00e9 casa de um Oficial de Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Mas enfim, disse a comadre, onde est\u00e1 o rapaz? onde \u00e9 que o enterraram?<\/p>\n<p>\u2014 Saiu por ali desencabrestado, e tomara que c\u00e1 n\u00e3o volte.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, est\u00e1 bonito! Oh! mas isto n\u00e3o pode ser assim; correrem com o rapaz de casa para fora!&#8230; Ele n\u00e3o \u00e9 nenhum desgra\u00e7ado, pois sempre tem o que lhe deixou seu padrinho.<\/p>\n<p>\u2014 Essas e outras \u00e9 que o puseram a perder.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, metam-lhe fuma\u00e7a de rico na cabe\u00e7a, e h\u00e3o de ver no que d\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Coitado, disse lamentando a comadre, aquele nasceu com m\u00e1 sina.<\/p>\n<p>E, tomando de novo a mantilha, saiu com as l\u00e1grimas nos olhos em procura de Leonardo.<\/p>\n<p>Ao sair escoravam-na \u00e0 janela tr\u00eas ou quatro vizinhas.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, o que \u00e9 que fizeram ao mo\u00e7o?<\/p>\n<p>\u2014 Que foi isso, Sra. comadre?<\/p>\n<p>\u2014 Ele passou por aqui pondo dez l\u00e9guas por hora.<\/p>\n<p>\u2014 Deixe-me, deixe-me, respondeu a comadre, que isto n\u00e3o acaba bem.<\/p>\n<h3>TOMO II<\/h3>\n<h2>CAP\u00cdTULO VII<\/h2>\n<h2>REM\u00c9DIO AOS MALES<\/h2>\n<p>O pobre rapaz sa\u00edra, como dissemos, pela porta fora, e caminhando apressadamente olhava de vez em quando para tr\u00e1s, pois julgava ver ainda enristado contra si o espadim com que o pai o amea\u00e7ara, que parecia com ele querer acabar a obra que com um pontap\u00e9 come\u00e7ara. Andou a bom andar por largo tempo, e foi dar consigo l\u00e1 para as bandas dos Cajueiros: cansado, ofegante, sentou-se sobre umas pedras, e quem o visse com ar tristonho e pensativo julgaria talvez que ele cismava na sua posi\u00e7\u00e3o e no caminho que havia tomar. Pois enganava-se redondamente quem tal julgasse: pensava em coisa muito mais agrad\u00e1vel; pensava em Luizinha. Pensando nela n\u00e3o podia, \u00e9 verdade, abster-se de ver surgir diante dos olhos o terr\u00edvel Jos\u00e9 Manuel; e isto explicava certos movimentos de impaci\u00eancia que de vez em quando se lhe podiam observar. Tinha gasto largo tempo nesta medita\u00e7\u00e3o, quando foi repentinamente acordado por umas poucas de gargalhadas partidas detr\u00e1s de umas moitas vizinhas. Estremeceu da cabe\u00e7a aos p\u00e9s; pareceu-lhe que lhe tinham lido os pensamentos que lhe passavam pela mente e que se riam dele. Voltou-se, nada viu; guiado por um rumor que ouvia, come\u00e7ou a procurar, e sem grande trabalho viu, atr\u00e1s de umas moitas um pouco altas, uns poucos de rapazes e raparigas, que, assentados em uma esteira entre os restos de um jantar, debru\u00e7avam-se curiosos sobre dois parceiros, que, com um baralho de cartas amarrotado e sujo, desencabe\u00e7avam uma intrincada partida de bisca! As gargalhadas que ouvira h\u00e1 pouco tinham sido a conseq\u00fc\u00eancia de um capote que um deles acabava de levar. \u00c0 vista daqueles restos de um jantar, que, se n\u00e3o parecia ter sido abundante, fez-lhe lembrar que sa\u00edra de casa na ocasi\u00e3o de p\u00f4r-se a mesa, deu-lhe ent\u00e3o o est\u00f4mago umas formid\u00e1veis badaladas. Tentou entretanto voltar, porque n\u00e3o se queria meter em festa alheia, quando, levantando um dos jogadores a cabe\u00e7a, conheceu nele um seu antigo camarada, o menino que fora sacrist\u00e3o da S\u00e9. Ainda que apesar disso se quisesse retirar, j\u00e1 era tarde, porque com o movimento que fizera, o jogador, dando com ele, o havia tamb\u00e9m conhecido.<\/p>\n<p>\u2014 Ol\u00e1 Leonardo! por que cargas-d\u2019\u00e1gua vieste parar a estas alturas? Pensei que te tinha j\u00e1 o diabo lambido os ossos, pois depois daquele maldito dia em que nos vimos em pancas por causa do mestre-de-cerim\u00f4nias, nunca mais te pus a vista em cima.<\/p>\n<p>Leonardo chegou-se ao rancho, e trocados os cumprimentos com o seu antigo camarada foi convidado a servir-se de alguma coisa do que ainda havia. Quis fazer cerim\u00f4nia, mas n\u00e3o estava em circunst\u00e2ncias disso: uma das mo\u00e7as serviu-o, e, enquanto continuava a bisca, comeu ele a barrete fora.<\/p>\n<p>\u2014 Escorropicha essa garrafa que a\u00ed resta, disse-lhe o amigo, e v\u00ea se o vinho tem o mesmo gosto daquele que em outro tempo escorropich\u00e1vamos juntos das galhetas da S\u00e9, com desespero de meu pai e furor do mestre-de-cerim\u00f4nias .<\/p>\n<p>Quando Leonardo acabou de comer, acabaram tamb\u00e9m os dois parceiros de jogar; chamou ent\u00e3o o amigo \u00e0 parte, e perguntou-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o que gente \u00e9 esta com que te achas aqui de s\u00facia?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 minha gente.<\/p>\n<p>\u2014 Tua gente?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, pois n\u00e3o v\u00eas aquela mo\u00e7a morena que ali est\u00e1?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, e ent\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Ora!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois tu casaste?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o&#8230; mas que tem isso?<\/p>\n<p>\u2014 Ah!&#8230; est\u00e1s de mo\u00e7a!<\/p>\n<p>\u2014 E tu?<\/p>\n<p>\u2014 Eu&#8230; ora, nem te digo&#8230; morreu meu padrinho.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, ouvi dizer.<\/p>\n<p>\u2014 Fui para a casa de meu pai&#8230; e, de repente, hoje mesmo, brigo l\u00e1 com a cuja dele; ele corre de espada atr\u00e1s de mim, e eu safo-me. Parei ali adiante, e as gargalhadas que voc\u00eas aqui davam&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sei do resto&#8230; E agora tu n\u00e3o tens para onde ir?<\/p>\n<p>\u2014 Homem, eu ia ver&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ver o qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Ver por a\u00ed&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Por a\u00ed, por onde?<\/p>\n<p>\u2014 Nem mesmo eu sei&#8230;<\/p>\n<p>E desataram os dois a rir. Quando temos apenas 18 a 20 anos sobre os ombros, o que \u00e9 um peso ainda muito leve, desprezamos o passado, rimo-nos do presente, e entregamo-nos descuidados a essa confian\u00e7a cega no dia de amanh\u00e3, que \u00e9 o melhor apan\u00e1gio da mocidade.<\/p>\n<p>\u2014 Sabes que mais? continuou o amigo do Leonardo, vem conosco, e n\u00e3o te h\u00e1s de arrepender.<\/p>\n<p>\u2014 Mas com voc\u00eas, para onde?<\/p>\n<p>\u2014 Para onde? Sem d\u00favida algum partido melhor tens a escolher? queres fazer cerim\u00f4nias?<\/p>\n<p>Come\u00e7ava a cair a noite.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos levantar a s\u00facia, minha gente, disse um dos convivas.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, vamos.<\/p>\n<p>\u2014 Nada, inda n\u00e3o: Vidinha vai cantar uma modinha.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, sim, uma modinha primeiro; aquela: Se os meus suspiros pudessem.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, essa n\u00e3o, cante antes aquela: Quando as gl\u00f3rias que eu gozei.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos l\u00e1, decidam, respondeu uma voz de mo\u00e7a aflautada e l\u00e2nguida.<\/p>\n<p>Vidinha era uma mulatinha de 18 a 20 anos, de altura regular, ombros largos, peito alteado, cintura fina e p\u00e9s pequeninos; tinha os olhos muito pretos e muito vivos, os l\u00e1bios grossos e \u00famidos, os dentes alv\u00edssimos, a fala era um pouco descansada, doce e afinada.<\/p>\n<p>Cada frase que proferia era interrompida com uma risada prolongada e sonora, e com um certo ca\u00eddo de cabe\u00e7a para tr\u00e1s, talvez gracioso se n\u00e3o tivesse muito de afetado.<\/p>\n<p>Assentou-se finalmente que ela cantaria a modinha: Se os meus suspiros pudessem.<\/p>\n<p>Tomou Vidinha uma viola, e cantou acompanhando-se em uma toada ins\u00edpida hoje, por\u00e9m de grande aceita\u00e7\u00e3o naquele tempo, o seguinte:<\/p>\n<p>Se os meus suspiros pudessem<\/p>\n<p>Aos teus ouvidos chegar,<\/p>\n<p>Verias que uma paix\u00e3o<\/p>\n<p>Tem poder de assassinar.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o de zelos<\/p>\n<p>Os meus queixumes,<\/p>\n<p>Nem de ci\u00fame<\/p>\n<p>Abrasador;<\/p>\n<p>S\u00e3o das saudades<\/p>\n<p>Que me atormentam<\/p>\n<p>Na dura aus\u00eancia<\/p>\n<p>De meu amor.<\/p>\n<p>O Leonardo, que talvez hereditariamente tinha queda para aquelas coisas, ouviu boquiaberto a modinha, e tal impress\u00e3o lhe causou, que depois disso nunca mais tirou os olhos de cima da cantora. A modinha foi aplaudida como cumpria. Levantaram-se ent\u00e3o, arrumaram tudo o que tinham levado em cestos, e puseram-se a caminho, acompanhando o Leonardo o farrancho.<\/p>\n<h3>TOMO II<\/h3>\n<h2>CAP\u00cdTULO VIII<\/h2>\n<h2>NOVOS AMORES<\/h2>\n<p>Chegaram todos depois de longo caminhar, e quando j\u00e1 brilhava nos c\u00e9us um desses luares magn\u00edficos que s\u00f3 fazem no Rio de Janeiro, a uma casa da rua da Vala. Naqueles tempos uma noite de luar era muito aproveitada, ningu\u00e9m ficava em casa; os que n\u00e3o sa\u00edam a passeio sentavam-se em esteiras \u00e0s portas, e ali passavam longas horas em descantes, em ceias, em conversas, muitos dormiam a noite inteira ao relento.<\/p>\n<p>Como os nossos conhecidos j\u00e1 tinham dado um grande passeio, adotaram o expediente das esteiras \u00e0 porta, e continuaram assim pela noite em diante a s\u00facia em que haviam gasto o dia, pois aquilo que Leonardo vira nos Cajueiros, e em que tamb\u00e9m tomara parte, era o final de uma patuscada que havia come\u00e7ado ao amanhecer, de uma dessas romarias consagradas ao prazer, que eram ent\u00e3o t\u00e3o comuns e t\u00e3o estimadas.<\/p>\n<p>Agora devemos dar ao leitor conhecimento da nova gente, no meio da qual se acha o nosso Leonardo. Se n\u00f3s pud\u00e9ssemos socorrer aqui do amigo Jos\u00e9 Manuel, sem d\u00favida nos desfolharia ele toda a \u00e1rvore geneal\u00f3gica dessa fam\u00edlia a quem o amigo do Leonardo chamava a sua gente: por\u00e9m contentem-se os leitores com o presente sem indagar o passado. Saibam pois que a fam\u00edlia era composta de duas irm\u00e3s, ambas vi\u00favas, ou que pelo menos diziam s\u00ea-lo, uma com tr\u00eas filhos e outra com tr\u00eas filhas; passando qualquer das duas dos seus quarenta e tantos; ambas gordas e excessivamente parecidas. Os tr\u00eas filhos da primeira eram tr\u00eas formid\u00e1veis rapag\u00f5es de 20 anos para cima, empregados todos no Trem; as tr\u00eas filhas da segunda eram tr\u00eas raparigas desempenadas, or\u00e7ando pela mesma idade dos primos, e bonitas cada uma no seu g\u00eanero. Uma delas j\u00e1 os leitores conhecem; \u00e9 Vidinha, a cantora de modinhas; era solteira como uma de suas irm\u00e3s; a \u00faltima era tamb\u00e9m solteira, por\u00e9m n\u00e3o como estas duas. O amigo do Leonardo que explique o que isso quer dizer, e explicando dar\u00e1 tamb\u00e9m a conhecer o que era ele pr\u00f3prio na fam\u00edlia. Os mais que se achavam presentes eram pela maior parte vizinhos que se reuniam para aquelas s\u00facias, que eram tradicionais na fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Quando chegaram \u00e0 casa, o amigo do Leonardo tomou as duas velhas de parte, e come\u00e7ou a conversar com elas, sem d\u00favida a respeito do Leonardo, pois que o olhavam todos tr\u00eas durante a conversa; e mesmo quem tivesse o ouvido atilado teria escutado \u00e0s velhas estas palavras:<\/p>\n<p>\u2014 Coitado do mo\u00e7o!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora, vejam que pai de m\u00e1s entranhas!&#8230;<\/p>\n<p>Outro qualquer que tivesse mais idade, ou antes, falando claro, mais ju\u00edzo e outra educa\u00e7\u00e3o, envergonhar-se-ia talvez muito de achar-se na posi\u00e7\u00e3o em que se achava o Leonardo, por\u00e9m ele nem nisso pensava, e o que \u00e9 mais, nem mais pensava naquilo que at\u00e9 ent\u00e3o lhe n\u00e3o sa\u00eda da cabe\u00e7a, isto \u00e9, em Luizinha de um lado e Jos\u00e9 Manuel do outro: agora n\u00e3o via sen\u00e3o os olhos negros e brilhantes, e os alvos dentes de Vidinha; n\u00e3o ouvia sen\u00e3o o eco da modinha que ela cantara. Estava pois embebido num \u00eaxtase contemplativo.<\/p>\n<p>No mais pensaria quando lhe restasse tempo.<\/p>\n<p>Mal se haviam todos sentado em uma larga esteira junto \u00e0 soleira da porta sobre a cal\u00e7ada, o Leonardo prop\u00f4s logo que se cantasse uma nova modinha.<\/p>\n<p>\u2014 Qual&#8230; respondeu Vidinha acompanhando este qual da sua costumada risada; estou j\u00e1 t\u00e3o cansada&#8230; que nem posso!<\/p>\n<p>\u2014 Ora&#8230; ora&#8230; disseram umas poucas de vezes. Al\u00e9m do costume das risadas tinha Vidinha um outro, e era o de come\u00e7ar sempre tudo que tinha a dizer por um qual muito acentuado; respondeu ainda portanto:<\/p>\n<p>\u2014 Qual&#8230; pois se eu tamb\u00e9m j\u00e1 cantei tudo que sabia. Qual, meu Deus! nem eu posso mais!<\/p>\n<p>\u2014 Ainda n\u00e3o cantou a minha favorita, disse um dos presentes.<\/p>\n<p>\u2014 Nem a minha, disse outro.<\/p>\n<p>\u2014 Eu tamb\u00e9m, acrescentou outro, ainda n\u00e3o lhe pedi aquela c\u00e1 do peito.<\/p>\n<p>\u2014 Qual, meu Deus! onde \u00e9 que isto vai parar!<\/p>\n<p>\u2014 Ora, mana, n\u00e3o se fa\u00e7a de boa.<\/p>\n<p>\u2014 Ai, criatura, disse uma das velhas, quereis que vos reze um responso para cantardes uma modinha?<\/p>\n<p>Leonardo, vendo a sua causa advogada por tantas vozes, conservou-se calado. Tentados mais alguns meios, e feitas mais algumas nega\u00e7as, Vidinha decidiu-se, e tomando a viola cantou, segundo a indica\u00e7\u00e3o de uma das velhas, o seguinte:<\/p>\n<p>Duros ferros me prenderam<\/p>\n<p>No momento de te ver;<\/p>\n<p>Agora quero quebr\u00e1-los,<\/p>\n<p>\u00c9 tarde n\u00e3o pode ser.<\/p>\n<p>Este \u00faltimo passo acabou de desorientar completamente o Leonardo: ainda bem n\u00e3o tinham expirado as \u00faltimas notas do canto, e j\u00e1, passando-lhe r\u00e1pido pela mente um turbilh\u00e3o de id\u00e9ias, admirava-se ele de como \u00e9 que havia podido inclinar-se por um s\u00f3 instante a Luizinha, menina sensaborona e esquisita, quando haviam no mundo mulheres como Vidinha.<\/p>\n<p>Decididamente estava apaixonado por esta \u00faltima.<\/p>\n<p>O leitor n\u00e3o se deve admirar disto, pois n\u00e3o temos cessado de repetir-lhe que o Leonardo herdara de seu pai aquela grande c\u00f3pia de fluido amoroso que era a sua principal caracter\u00edstica. Com esta heran\u00e7a parece por\u00e9m que tinha ele tido tamb\u00e9m uma outra, e era a de lhe sobrevir sempre uma contrariedade em casos semelhantes. Jos\u00e9 Manuel fora o primeiro; vejamos agora qual era, ou antes quem era a segunda.<\/p>\n<p>Se o leitor pensou no que h\u00e1 pouco dissemos, isto \u00e9, que naquela fam\u00edlia haviam tr\u00eas primos e tr\u00eas primas, e se agora acrescentarmos que moravam todos juntos, deve ter cismado alguma coisa a respeito. Tr\u00eas primos e tr\u00eas primas, morando na mesma casa, todos mo\u00e7os&#8230; n\u00e3o h\u00e1 nada mais natural; um primo para cada prima, e est\u00e1 tudo arranjado. Cumpre por\u00e9m ainda observar que o amigo do Leonardo tomara conta de uma das primas, e que deste modo vinha a haver tr\u00eas primos para duas primas, isto \u00e9, o excesso de um primo. \u00c0 vista disto o neg\u00f3cio j\u00e1 se torna mais complicado. Pois para encurtar raz\u00e3o, saiba-se que haviam dois primos pretendentes a uma s\u00f3 prima, e essa era Vidinha, a mais bonita de todas; saiba-se mais que um era atendido e outro desprezado: logo, o amigo Leonardo ter\u00e1 desta vez de lutar com duas contrariedades em vez de uma.<\/p>\n<p>Mas por ora de nada sabia ele, e entregava-se tranq\u00fcilo \u00e0s suas emo\u00e7\u00f5es sem se lembrar do que qualquer se lembraria, que entre primos e primas h\u00e1 assim um certo direito m\u00fatuo em neg\u00f3cio de amor, que muito prejudica a qualquer pretendente externo.<\/p>\n<p>Gastaram grande parte da noite ali sentados, e trataram de recolher-se j\u00e1 muito tarde.<\/p>\n<p>O amigo do Leonardo, a quem daqui em diante trataremos pelo seu pr\u00f3prio nome de Tomaz com o apelido \u2014 da S\u00e9 \u2014 ambos herdados de seu pai, declarou que o seu amigo ficava ali por aquela noite, por j\u00e1 ser muito tarde; quis assim poupar-lhe um vexame, e mostrou nisto ser bom amigo.<\/p>\n<p>Agora que o nosso Leonardo est\u00e1 instalado em quartel seguro, vamos ocupar-nos de alguma coisa de importante que hav\u00edamos deixado suspensa.<\/p>\n<h3>TOMO II<\/h3>\n<h2>CAP\u00cdTULO IX<\/h2>\n<h2>JOS\u00c9 MANUEL TRIUNFA<\/h2>\n<p>A comadre correra toda a cidade, e em parte alguma encontrara o Leonardo; enquanto cansava-se assim a procur\u00e1-lo, estava ele tranq\u00fcilo e descansado mirando-se nos olhos de Vidinha, regalando-se a ouvir modinhas, como sabem os leitores, sem se lembrar do que ia pelo mundo.<\/p>\n<p>A pobre mulher, depois de muito cansada, foi ter \u00e0 casa de D. Maria. Era j\u00e1 noite fechada.<\/p>\n<p>Quando ela entrava sa\u00eda o mestre-de-reza que acabava de dar a sua li\u00e7\u00e3o \u00e0s crias de casa. A comadre h\u00e1 algum tempo que andava desconfiada do mestre-de-reza; combinando o que por a\u00ed se dizia do seu cr\u00e9dito com certas coisas que tivera ocasi\u00e3o de presenciar, estava quase a concluir que era ele emiss\u00e1rio de Jos\u00e9 Manuel junto \u00e0 corte de D. Maria. N\u00e3o gostou portanto do encontro, e doeu-lhe o cabelo v\u00ea-lo sair \u00e0quela hora, pois que de ordin\u00e1rio as li\u00e7\u00f5es n\u00e3o se demoravam at\u00e9 t\u00e3o tarde; e para met\u00ea-lo \u00e0 bulha disse-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 A li\u00e7\u00e3o hoje foi comprida, devoto&#8230; as raparigas parece que gostam mais da cambetice do que da reza.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, respondeu o velho com sua voz fanhosa, elas n\u00e3o v\u00e3o mal, empacam em alguns lugares, mas sempre v\u00e3o indo; bem sabe tamb\u00e9m que sempre trago comigo o santo rem\u00e9dio.<\/p>\n<p>E afagou o cabo da palmat\u00f3ria com que sempre andava armado.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! ent\u00e3o esteve o devoto de conversa; gosta tamb\u00e9m de dar \u00e0 l\u00edngua&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o desgosto; mas tamb\u00e9m n\u00e3o digo sen\u00e3o aquilo que sei, isto \u00e9, aquilo que ou\u00e7o; os outros gastam o seu tempo a ver e a ouvir; eu, como n\u00e3o posso sen\u00e3o ouvir, emprego a falar o que os mais empregam a ver; falo, e falo muito; mas que quer se me sobra tempo para isso; e demais, bem sabe que n\u00e3o \u00e9 trabalho que canse. Meus pais eram Algarves, e eu n\u00e3o quero desmentir a minha paternidade.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o j\u00e1 sei que hoje desenterraram-se mortos e enterraram-se vivos; pois eu n\u00e3o posso fazer outro tanto, porque vou aqui muito e muito zangada de minha vida. Se o devoto, como \u00e9 homem que muito gira por toda esta cidade, souber por a\u00ed not\u00edcias de meu afilhado Leonardo, queira vir dar-me parte, pois saiu-nos ele hoje de casa l\u00e1 por causa de umas hist\u00f3rias, e n\u00e3o sei por onde andar\u00e1 dando com os ossos.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, isto fica por minha conta; n\u00e3o h\u00e1 nada mais f\u00e1cil do que dar com ele.<\/p>\n<p>E aqui terminou esta conversa que tinha lugar na porta da rua, e com a qual n\u00e3o ficara a comadre muito contente. D. Maria, que ouvira tudo, veio ao encontro da comadre, e foi-lhe logo dizendo antes de lhe dar tempo de tirar a mantilha:<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o j\u00e1 o rapaz n\u00e3o est\u00e1 em casa? Senhora, aquilo \u00e9 g\u00eanio, nasceu com ele, e com ele h\u00e1 de ir \u00e0 sepultura. Bem me diziam o que ele era, e apesar do seu ar sonso nunca lhe fiz f\u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 Adeus, que me est\u00e1 a senhora a p\u00f4r culpas em quem n\u00e3o as tem; o rapaz desta vez tem toda a raz\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora, hist\u00f3rias da vida; isso diz voc\u00ea porque o estima como se fosse sua m\u00e3e; mas v\u00e1 com esta que eu lhe digo: os rapazes de agora andam de cabe\u00e7a levantada&#8230; Mas o defunto padrinho \u2014 Deus lhe fale n\u2019alma \u2014 foi o pr\u00f3prio que teve culpa de tudo isso com aquelas fuma\u00e7as de Coimbra que lhe meteu na cabe\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas, senhora de Deus, se o bruto do pai at\u00e9 chegou a corr\u00ea-lo de espada na m\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que tal n\u00e3o faria ele! mas que tinha isso? o pai n\u00e3o o havia esquartejar&#8230; por certo, que eu bem lhe conhe\u00e7o o g\u00eanio; aquilo era raiva, e havia de passar; devia ele sujeitar-se&#8230; sempre \u00e9 seu pai.<\/p>\n<p>\u2014 Com a Virgem Santa! pois se tudo isso foi por uma coisa de nada, por causa de uma almofada de renda&#8230; Isto \u00e9 coisa em que se creia?!&#8230; E agora para onde \u00e9 que h\u00e1 de ir aquele coitado?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 de estar por a\u00ed metido em algum fado de ciganos; n\u00e3o se lembra do que ele fez quando o padrinho era vivo?<\/p>\n<p>\u2014 Ora, crian\u00e7adas&#8230; para que falar nisso?<\/p>\n<p>Este di\u00e1logo ia continuando intermin\u00e1vel sobre o mesmo assunto, quando D. Maria, mudando repentinamente de conversa, disse \u00e0 comadre:<\/p>\n<p>\u2014 Ora, \u00e9 verdade, sente-se para c\u00e1 que temos contas que ajustar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Contas!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E muito compridas, come\u00e7o por dizer, acrescentou D. Maria, que n\u00e3o parecia estar nesta ocasi\u00e3o de muito bom humor; come\u00e7o por dizer-lhe mesmo na bochecha que quando for \u00e0 confiss\u00e3o este ano trate de desobrigar-se de um grande pecado que cometeu.<\/p>\n<p>\u2014 E eu que j\u00e1 n\u00e3o tenho poucos: mas ent\u00e3o o que \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 um aleive, senhora, um aleive muito grande que levantou a pessoa que tal n\u00e3o merecia.<\/p>\n<p>A comadre n\u00e3o precisou de mais nada para conhecer onde \u00e9 que tudo aquilo ia parar; o aleive mais moderno de que a acusava a sua consci\u00eancia bem sabia ela qual era. Come\u00e7ou a ver tudo claro como o dia; viu Jos\u00e9 Manuel justificado completamente aos olhos de D. Maria a respeito da hist\u00f3ria do roubo da mo\u00e7a no Orat\u00f3rio de Pedra, e viu tamb\u00e9m como medianeiro dessa justifica\u00e7\u00e3o o cego mestre-de-reza. Ficou pois visivelmente incomodada; volvia-se de um para outro lado, como se estivesse cheia de espinhos a banquinha em que estava sentada, e teve um forte acesso de tosse quando D. Maria acabou de pronunciar aquelas \u00faltimas palavras.<\/p>\n<p>\u2014 Tudo quanto me disse a respeito de Jos\u00e9 Manuel naquela hist\u00f3ria do roubo da mo\u00e7a, continuou D. Maria fazendo-se vermelha, o que era nela mau sinal, \u00e9 falso, e muito falso. Sei isto de parte muito certa&#8230;<\/p>\n<p>Novo acesso de tosse acometeu a comadre.<\/p>\n<p>\u2014 Pois olhe, prosseguiu D. Maria, tinha eu dado todo o cr\u00e9dito, tanto que havia rompido por um excesso com o pobre do homem, mas n\u00e3o caio noutra; esta me serviu de emenda.<\/p>\n<p>A comadre viu que o vento se lhe ia tornando absolutamente contr\u00e1rio; compreendeu que D. Maria estava muito bem informada, e que in\u00fatil seria qualquer sustenta\u00e7\u00e3o que pretendesse fazer de tudo quanto havia avan\u00e7ado; isso s\u00f3 serviria para agravar-lhe a posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Forjou pois repentinamente um novo plano e disse:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me d\u00e1 nada de novo, senhora; sei muito bem de tudo; o homem est\u00e1 nesse neg\u00f3cio como Pilatos no Credo.<\/p>\n<p>\u2014 Mas lembre-se que me havia dito que tinha visto com seus pr\u00f3prios olhos.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! senhora, era o diabo por ele; nunca vi coisa assim t\u00e3o parecida. Outro dia por\u00e9m soube de tudo, e agora estou arrependida.<\/p>\n<p>\u2014 Mandei por isso chamar o pobre homem, continuou D. Maria, que, de ofendido que estava com o modo por que eu o tratava, custou muito a vir, e abri-me aqui com ele.<\/p>\n<p>E uma coisa lhe digo, \u00e9 que a comadre n\u00e3o est\u00e1 bem no neg\u00f3cio; ele exp\u00f4s-me certas coisas&#8230; a que eu enfim n\u00e3o quis dar cr\u00e9dito.<\/p>\n<p>\u2014 Pois ent\u00e3o a senhora lhe disse que eu \u00e9 que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o fui eu quem lhe disse; ele j\u00e1 o sabia, e n\u00e3o era poss\u00edvel negar-lho. Foi ent\u00e3o que ele me quis abrir os olhos sobre outros pontos&#8230;<\/p>\n<p>A comadre, que via todo o caldo entornado naqueles outros pontos, tratava de desviar a conversa\u00e7\u00e3o, fazendo que n\u00e3o dera aten\u00e7\u00e3o a essas \u00faltimas palavras.<\/p>\n<p>\u2014 Mas ent\u00e3o, perguntou, por quem foi que soube como tinha sido o neg\u00f3cio? quero ver se combina c\u00e1 com o que sei.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda h\u00e1 pouco acabou de sair daqui quem me p\u00f4s o neg\u00f3cio todo em pratos limpos.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! disse a comadre.<\/p>\n<p>E mordeu os bei\u00e7os, fazendo um gesto que queria dizer: &#8220;nunca me enganei&#8221;!<\/p>\n<p>D. Maria prosseguiu contando \u00e0 comadre, que, tendo falado em semelhante neg\u00f3cio ao mestre-de-reza, ele lhe havia negado tudo quanto esta lhe dissera a respeito de Jos\u00e9 Manuel; que muito tempo lutara com o velho para que lhe dissesse o que sabia a respeito e em que fundava a denega\u00e7\u00e3o que fazia; que, finalmente, depois de grande resist\u00eancia, lhe tinha ele trazido \u00e0 casa, mesmo no dia antecedente, o pai da mo\u00e7a, que tudo confessara, declarando at\u00e9 o nome da pessoa com quem se achava sua filha, que ele j\u00e1 conhecia, e com quem tinha feito as pazes.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 exatamente o que eu sabia, disse a comadre no fim da narra\u00e7\u00e3o; foi tudo assim mesmo. Veja, senhora, a que est\u00e1 sujeita a gente nesta vida: a levantar falsos aos mais.<\/p>\n<p>Agora informemos ao leitor que tudo que se acabava de passar tinha sido com efeito obra do mestre-de-reza. Pouco a pouco se tinha instru\u00eddo do que se passava em casa de D. Maria a respeito do seu cliente Jos\u00e9 Manuel; tinha conseguido saber quem havia armado a intriga; indagou tamb\u00e9m o que se passava em casa de Leonardo-Pataca; e como l\u00e1 se falava um pouco alto a respeito das pretens\u00f5es de Leonardo, combinando umas coisas com outras, chegaram \u00e0 conclus\u00e3o cert\u00edssima daquilo que com efeito se passara.<\/p>\n<p>D. Maria pareceu dar cr\u00e9dito ao arrependimento da comadre, e come\u00e7ou-lhe a aplacar o humor um pouco desabrido em que se achava.<\/p>\n<p>Voltaram \u00e0 quest\u00e3o da sa\u00edda do Leonardo de casa, e desta vez j\u00e1 D. Maria n\u00e3o se mostrou t\u00e3o inflex\u00edvel para com o rapaz. Entretanto \u00e0 comadre n\u00e3o lhe sa\u00edram da cabe\u00e7a aquelas palavras de D. Maria: abriu-me os olhos sobre outros pontos; e depois que viu D. Maria mais apaziguada, tentou chamar de novo a conversa para esse ponto, e como que pedir explica\u00e7\u00f5es. Ela previa a significa\u00e7\u00e3o daquelas palavras, sem d\u00favida nenhuma que se referiam \u00e0s suas pretens\u00f5es ou \u00e0s de seu afilhado sobre Luizinha, por\u00e9m queria saber as cores com que esse neg\u00f3cio tinha sido pintado a D. Maria por Jos\u00e9 Manuel.<\/p>\n<p>Isso foi-lhe por\u00e9m fatal, porque soube (o que lhe n\u00e3o foi nada agrad\u00e1vel) que o neg\u00f3cio estava muito mal parado a respeito do seu afilhado, e pelo contr\u00e1rio muito adiantado a favor do seu advers\u00e1rio. D. Maria, depois de declarar que Jos\u00e9 Manuel se tinha queixado da comadre, atribuindo-lhe tudo que se havia passado, que n\u00e3o era mais do que uma intriga urdida com o fim de o apartar de sua casa, porque tinham sobre ele ca\u00eddo suspeitas, que confessava justas, acrescentou finalmente que Jos\u00e9 Manuel, completamente justificado, gra\u00e7as \u00e0 interven\u00e7\u00e3o do mestre-de-reza, acabara por lhe dar a entender alguma coisa a respeito de Luizinha, o que D. Maria confessou n\u00e3o lhe ter sido totalmente desagrad\u00e1vel, porque enfim, segundo alegava, Jos\u00e9 Manuel era um homem sisudo e de ju\u00edzo, tinha corrido mundo, e n\u00e3o era nenhuma crian\u00e7ola (esta palavra doeu \u00e0 comadre) que n\u00e3o fosse capaz de tratar bem de uma mo\u00e7a. A comadre descoro\u00e7oou completamente com estas \u00faltimas declara\u00e7\u00f5es; por\u00e9m o que fazer na ocasi\u00e3o? Ela mesma tinha h\u00e1 pouco confessado o risco em que se est\u00e1 a cada momento de ser injusto com o pr\u00f3ximo, e n\u00e3o podia sem risco aventurar, pelo menos naquela ocasi\u00e3o, alguma coisa contra Jos\u00e9 Manuel, tanto mais que t\u00e3o mal se havia sa\u00eddo da primeira intriga que armara. Contentou-se pois com repetir uma observa\u00e7\u00e3o que D. Maria mesma lhe havia feito h\u00e1 pouco tempo, e disse, referindo-se a Luizinha:<\/p>\n<p>\u2014 Gente, pois aquela crian\u00e7a j\u00e1 est\u00e1 para essas!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, respondeu D. Maria, est\u00e1 ainda verdezinha, mas tamb\u00e9m isso n\u00e3o \u00e9 sangria desatada.<\/p>\n<p>A comadre respirou, pois viu que ainda havia tempo a ganhar.<\/p>\n<h3>TOMO II<\/h3>\n<h2>CAP\u00cdTULO X<\/h2>\n<h2>O AGREGADO<\/h2>\n<p>Passaram-se assim algumas semanas: Leonardo, depois de acabadas todas as cerim\u00f4nias, foi declarado agregado \u00e0 casa de Tomaz da S\u00e9, e a\u00ed continuou convenientemente arranjado. Ningu\u00e9m se admire da facilidade com que se faziam semelhantes coisas; no tempo em que se passavam os fatos que vamos narrando, nada havia mais comum do que ter cada casa um, dois, e \u00e0s vezes mais agregados.<\/p>\n<p>Em certas casas os agregados eram muito \u00fateis, porque a fam\u00edlia tirava grande proveito de seus servi\u00e7os, e j\u00e1 tivemos ocasi\u00e3o de dar exemplo disso quando contamos a hist\u00f3ria do finado padrinho de Leonardo; outras vezes por\u00e9m, e estas eram em maior n\u00famero, o agregado, refinado vadio, era uma verdadeira parasita que se prendia \u00e0 \u00e1rvore familiar, que lhe participava da seiva sem ajud\u00e1-la a dar os frutos, e o que \u00e9 mais ainda, chegava mesmo a dar cabo dela. E o caso \u00e9 que, apesar de tudo, se na primeira hip\u00f3tese o esmagavam com o peso de mil exig\u00eancias, se lhe batiam a cada passo com os favores na cara, se o filho mais velho da casa, por exemplo, o tomava por seu divertimento, e \u00e0 menor e mais justa queixa saltavam-lhe os pais em cima tomando o partido de seu filho, no segundo aturavam quanto desconcerto havia com paci\u00eancia de m\u00e1rtir, o agregado tornava-se quase rei em casa, punha, dispunha, castigava os escravos, ralhava com os filhos, intervinha enfim nos mais particulares neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>Em qual dos dois casos estava ou viria estar em breve o nosso amigo Leonardo? O leitor que o decida pelo que se vai passar.<\/p>\n<p>Principiemos por declarar que as duas velhas irm\u00e3s tinham concebido desde o primeiro momento uma decidida simpatia por ele, e era esse o \u00fanico ponto por onde o podemos julgar um pouco feliz: se a cada passo encontrava contrariedades e antipatias, tamb\u00e9m lhe n\u00e3o faltavam por contrabalan\u00e7o simpatias e favores. Isto j\u00e1 era meio caminho andado para qualquer projeto que ele formasse, qualquer inten\u00e7\u00e3o que tivesse ou desejo que se lhe despertasse. Mas note-se que para n\u00e3o falhar a lei das compensa\u00e7\u00f5es, que pesava constantemente sobre ele, logo o projeto, a inten\u00e7\u00e3o e desejo que teve sucedeu ser a respeito de uma coisa que j\u00e1 tinha despertado igual projeto, inten\u00e7\u00e3o e desejo em duas outras pessoas, o que equivale a dizer-se, como j\u00e1 o fizemos, que tinha ele de lutar com duas dificuldades.<\/p>\n<p>Vidinha era uma rapariga que tinha tanto de bonita como de movedi\u00e7a e leve: um soprozinho, por brando que fosse, a fazia voar, outro de igual natureza a fazia revoar, e voava e revoava na dire\u00e7\u00e3o de quantos sopros por ela passassem; isto quer dizer, em linguagem ch\u00e3 e despida dos trejeitos da ret\u00f3rica, que ela era uma formid\u00e1vel namoradeira, como hoje se diz, para n\u00e3o dizer lambeta, como se dizia naquele tempo. Portanto n\u00e3o foram de modo algum mal recebidas as primeiras finezas do Leonardo, que desta vez se tornou muito mais desembara\u00e7ado, quer porque j\u00e1 o neg\u00f3cio com Luizinha o tivesse desasnado, quer porque agora fosse a paix\u00e3o mais forte, embora esta \u00faltima hip\u00f3tese v\u00e1 de encontro \u00e0 opini\u00e3o dos ultra-rom\u00e2nticos, que p\u00f5em todos os bofes pela boca pelo tal \u2014 primeiro amor: \u2014 no exemplo que nos d\u00e1 o Leonardo, aprendam o quanto ele tem de duradouro. Se um dos primos de Vidinha, que dissemos ser o atendido naquela ocasi\u00e3o, teve motivo para levantar-se contra o Leonardo como seu rival, o outro primo, que dissemos ser o desatendido, teve dobrada raz\u00e3o para isso, porque al\u00e9m do irm\u00e3o apresentava-se o Leonardo como segundo concorrente, e o furor de quem se defende contra dois \u00e9, ou deve ser sem d\u00favida, muito maior do que o de quem se defende contra um. Declarou-se portanto, desde que come\u00e7aram a aparecer os sintomas do quer que fosse entre Vidinha e o nosso h\u00f3spede, guerra de dois contra um, ou de um contra dois. A princ\u00edpio foi ela surda e muda; era guerra de olhares, de gestos, de desfeitas, de m\u00e1s caras, de maus modos de uns para com os outros; depois, seguindo o adiantamento do Leonardo, passou a dit\u00e9rios, a chasques, a remoques. Um dia finalmente desandou em descompostura cerrada, em amea\u00e7as do tamanho da torre de Babel, e foi causa disto ter um dos primos pilhado o feliz Leonardo em flagrante gozo de uma prim\u00edcia amorosa, um abra\u00e7o que no quintal trocava ele com Vidinha.<\/p>\n<p>\u2014 A\u00ed est\u00e1, minha tia, dissera enfurecido o rapaz dirigindo-se \u00e0 m\u00e3e de Vidinha; a\u00ed est\u00e1 o lucro que se tira de meter-se para dentro de casa um par de pernas que n\u00e3o pertence \u00e0 fam\u00edlia&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Onde \u00e9, onde \u00e9 que est\u00e1 pegando fogo? disse a velha em tom de esc\u00e1rnio, supondo ser alguma asneira do rapaz, que era em tudo muito exagerado.<\/p>\n<p>\u2014 Fogo, replicou este; se ali pegar fogo n\u00e3o haver\u00e1 \u00e1gua que o apague&#8230; e olhe o que lhe digo, se n\u00e3o est\u00e1 pegando fogo&#8230; est\u00e1-se ajuntando lenha para isso.<\/p>\n<p>Vidinha, que vinha chegando nessa ocasi\u00e3o, tomou a palavra e falou durante meia hora sem interrup\u00e7\u00e3o, soltando contra os dois primos (pois que o outro j\u00e1 tinha tamb\u00e9m intervindo) uma tremenda catilin\u00e1ria em que a palavra \u2014 qual \u2014 foi repetida enorme n\u00famero de vezes. Leonardo teve tamb\u00e9m de defender-se, e falou pelos cotovelos. As duas velhas acompanharam os quatro seguidas das outras duas mo\u00e7as, que metiam tamb\u00e9m de vez em quando a sua colherada.<\/p>\n<p>Seria in\u00fatil a tentativa de querermos repetir as palavras textuais de cada um dos faladores; isso seria coisa pouco mais ou menos semelhante a querer contar-se numa tempestade os pingos de chuva que caem. S\u00f3 quem j\u00e1 teve ocasi\u00e3o de assistir pode bem avaliar o que era e talvez ainda \u00e9 uma dessas brigas no interior de uma fam\u00edlia. Todos falam a um tempo, esfor\u00e7ando-se cada um por falar mais alto do que todos os outros; ningu\u00e9m parece atender as desculpas que se apresentam, nem as recrimina\u00e7\u00f5es que se fazem, e entretanto de minuto em minuto cada qual tomando mais calor, se julga dobradamente ofendido; as juras se cruzam, as amea\u00e7as se chocam; n\u00e3o fica no dicion\u00e1rio termozinho de escolha que n\u00e3o saia \u00e0 frente; umas quest\u00f5es trazem outras, estas ainda outras; recorre-se \u00e0s ofensas passadas, presentes e futuras para fazer-se carga aos advers\u00e1rios. Tudo enfim se diz, e nada se consegue; a briga dura muitas horas, ao termo dos quais os contendores, fatigatis sed non saciatis, abandonam o campo, ficando mais encarni\u00e7ados uns contra os outros do que o estavam a princ\u00edpio. E se por acaso, tocando j\u00e1 em retirada, algum ousa ainda soltar uma derradeira impreca\u00e7\u00e3o, pega de novo a coisa, e dura ainda bom peda\u00e7o. As mais das vezes fica tudo em palavras.<\/p>\n<p>Desta vez por\u00e9m n\u00e3o sucedeu assim: um dos primos, que era esquentadete, avan\u00e7ou para o Leonardo depois de lhe ter mandado, como batedor, uma grande inj\u00faria, e deu-lhe dois safan\u00f5es, agarrando-o pela gola da camisa. Leonardo, que neste mundo s\u00f3 tinha medo do pai, reagiu contra o agressor; as duas velhas e Vidinha, tentando apart\u00e1-los, n\u00e3o faziam mais do que romper-lhes a roupa e aumentar-lhes a raiva; as demais pessoas ocupavam-se em bater nas paredes e chamar os vizinhos. Lutaram os dois por algum tempo sem que disso resultasse acidente grave para nenhum deles, e afinal apartaram-se. Leonardo, apenas se viu livre do seu advers\u00e1rio, foi querendo p\u00f4r-se no andar da rua: pesava sobre o infeliz desde crian\u00e7a uma esp\u00e9cie de sina de Judeu Errante. As velhas, que em todo o barulho tinham tomado o partido dele, n\u00e3o consentiram por\u00e9m nisso; alegaram que estavam em sua casa, e podiam mandar como quisessem. Leonardo insistiu apesar disso e apesar dos rogos de Vidinha; por\u00e9m no momento em que tentava abrir a porta da rua, entrou por ela a comadre.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, gra\u00e7as que o encontro, senhor doido de pedras&#8230;<\/p>\n<p>O Leonardo recuou dois passos: naquele momento, assim como lhe aconteceu desde que saiu de casa de seu pai, nem lhe passava pela id\u00e9ia que tivesse no mundo uma madrinha, um pai, ou qualquer parente que fosse. Houve em todos um movimento de admira\u00e7\u00e3o e curiosidade, pois ningu\u00e9m na casa conhecia a comadre.<\/p>\n<p>Tantas coisas havia feito a boa mulher, que afinal soubera do ninho a que se acolhera o afilhado, e imediatamente para l\u00e1 se dirigira. Tendo entrado e dito aquelas primeiras palavras, queria logo depois seguir com uma grande exorta\u00e7\u00e3o ao sobrinho, quando, tendo visto as duas velhas, assentou que era melhor dirigir-se a elas em primeiro lugar. Com efeito dirigiu-se, e entraram as tr\u00eas em confer\u00eancia.<\/p>\n<h3>TOMO II<\/h3>\n<h2>CAP\u00cdTULO XI<\/h2>\n<h2>MALSINA\u00c7\u00c3O<\/h2>\n<p>As tr\u00eas velhas conversaram por largo tempo, n\u00e3o porque muitas coisas se tivessem a dizer a respeito do que se acabava de passar, por\u00e9m porque a comadre, remontando ao mais remoto passado, entendera que para dizer que muito se interessava pela volta do afilhado para casa era mister contar desde sua origem a vida inteira deste, de sua m\u00e3e, de seu pai, e a sua pr\u00f3pria, que fora mais comprida de todas, e porque as duas velhas entenderam que para dizerem que o Leonardo estava ali muito bem, e que n\u00e3o consentiriam que ele sa\u00edsse, entenderam ser preciso fazer o que havia feito a comadre \u2014 contar a sua vida e de toda a fam\u00edlia desde as eras primitivas. \u2014 Ora, como todas essas hist\u00f3rias contadas de parte a parte eram cheias de epis\u00f3dios, j\u00e1 sentimentais, j\u00e1 tocantes, j\u00e1 alegres, aconteceu que entre muita gargalhada correram tamb\u00e9m algumas l\u00e1grimas durante a conversa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 nada que mais sirva para fazer nascer e firmar a amizade, e mesmo a intimidade, do que seja o riso e as l\u00e1grimas: aqueles que se riram, e principalmente aqueles que uma vez choraram juntos, t\u00eam muita facilidade em fazerem-se amigos. Com efeito, no fim da conversa, as tr\u00eas velhas estimavam-se mutuamente de uma maneira incr\u00edvel.<\/p>\n<p>Se esta facilidade de expans\u00e3o n\u00e3o fosse acompanhada da grande dificuldade de rompimentos e de intrigas, seria uma das grandes virtudes daquele tempo. Por\u00e9m as simpatias que se criavam em uma hora de conversa transformavam-se em \u00f3dio num minuto de desaven\u00e7a.<\/p>\n<p>Enquanto as velhas conversavam, os contendores acalmaram-se, passou a tormenta, e se tudo n\u00e3o ficou logo acabado, ficou pelo menos esquecido por algum tempo. Leonardo achava-se j\u00e1 disposto a atender \u00e0s s\u00faplicas de Vidinha e das outras mo\u00e7as que o n\u00e3o queriam por modo algum fora de casa: os dois rivais derrotados pareciam resignar-se.<\/p>\n<p>Quando terminou a confer\u00eancia das tr\u00eas, a comadre entendeu que era chegado o momento de come\u00e7ar a prega\u00e7\u00e3o ao Leonardo, e come\u00e7ou nestes termos:<\/p>\n<p>\u2014 Rapaz dos trezentos demos, valham-te os serafins&#8230; tu tens nessa cabe\u00e7a pedras em vez de miolos; o sol n\u00e3o cobre criatura mais renegada do que tu. \u00c9s um viramundo; andas feito um valdevinos, sem eira nem beira nem ramo de figueira, sem of\u00edcio nem benef\u00edcio, sendo pesado a todos nesta vida&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Se \u00e9 c\u00e1 conosco que fala, acudiu uma das velhas, deixe-o estar aonde est\u00e1 que est\u00e1 muito bem.<\/p>\n<p>\u2014 Qual! senhora, pois se vem levantar poeira na casa alheia! \u00e9 um galo de brigas.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, isso \u00e9 l\u00e1 coisa entre rapazes e raparigas; deix\u00e1-los que eles se arranjar\u00e3o, redarg\u00fciu a velha.<\/p>\n<p>Ingenuidade infantil das velhas daquele tempo!<\/p>\n<p>A comadre ia prosseguir; por\u00e9m sendo a cada passo interrompida, tomou por seu barato dar a coisa por finda. Retirou-se, ficando convencionado que Leonardo permaneceria onde estava.<\/p>\n<p>Vidinha ficou content\u00edssima com semelhante resultado; os primos por\u00e9m fizeram m\u00e1 cara, porque tal n\u00e3o esperavam. Desde que viram que tudo ia continuar no mesmo p\u00e9, renasceu-lhes o despeito. Atiraram algumas indiretas, com as quais ia tudo pegando fogo novamente; por\u00e9m contiveram-se ainda; um deles chamou o outro em particular, e come\u00e7aram por seu turno a conferenciar, por\u00e9m em segredo. N\u00e3o havia nada mais natural: o inimigo era comum, juntavam-se para atac\u00e1-lo; depois que ele fosse derrotado, a quest\u00e3o se decidiria ent\u00e3o entre os dois.<\/p>\n<p>Depois desta \u00faltima confer\u00eancia serenou tudo definitivamente; cada qual recolheu-se a seu posto, e passaram-se muitos dias em santa paz. Durante esses dias mais se estreitaram os la\u00e7os entre o Leonardo e Vidinha. \u00c9 sempre assim que sucede: quereis que nos liguemos estreitamente a uma coisa? Fazei-nos sofrer por ela. Os dois tinham sofrido um pelo outro, e era isto uma forte raz\u00e3o para se amarem cada vez mais.<\/p>\n<p>A comadre vinha regularmente ver o afilhado e visitar suas novas amigas.<\/p>\n<p>Tudo parecia enfim nos seus eixos naturais; por\u00e9m os dois primos tramavam, e tramavam largamente. Ningu\u00e9m entretanto atinava com o que seria.<\/p>\n<p>Leonardo passava vida completa de vadio, metido em casa todo o santo dia, sem lhe dar o menor abalo o que se passava l\u00e1 fora pelo mundo. O seu mundo consistia unicamente nos olhos, nos sorrisos e nos requebros de Vidinha.<\/p>\n<p>Um dia forjaram uma patuscada semelhante \u00e0 que dera origem ao conhecimento do Leonardo com a fam\u00edlia. Deviam sair de madrugada da cidade e passarem fora o dia. Preparou-se tudo: cestos de comida, esteiras e mais arranjos. Vidinha mandou encordoar de novo sua viola; avisaram-se os convivas do costume.<\/p>\n<p>\u00c0 hora aprazada partiram.<\/p>\n<p>Quem estivesse menos distra\u00eddo pelo prazer da patuscada do que estava qualquer dos suciantes, notaria que os dois primos deixavam-se de vez em quando ficar atr\u00e1s, e cochichavam como se tramassem uma conspira\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m por\u00e9m dera aten\u00e7\u00e3o a semelhante coisa.<\/p>\n<p>Chegaram ao lugar determinado ao romper do dia. Apenas come\u00e7avam a preparar-se para o almo\u00e7o, viram surdir, ningu\u00e9m soube bem de onde, a figura alta, magra, severa e sarc\u00e1stica do nosso c\u00e9lebre major Vidigal. Correu por todos um sinal de pouco contentamento, exceto pelos primos, que trocaram entre si um olhar de intelig\u00eancia e triunfo.<\/p>\n<p>Os olhos de Vidinha dirigiram-se instintivamente para Leonardo.<\/p>\n<p>O major Vidigal deixou passar o primeiro momento de surpresa, e depois, sorrindo-se, disse, como costumava, com sua voz descansada:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenham medo de mim, que n\u00e3o sou nenhum papa-crian\u00e7as, nem eu venho desmanchar prazeres de ningu\u00e9m. Quero s\u00f3 saber quem \u00e9 aqui o amigo Leonardo.<\/p>\n<p>Vidinha fez logo cara de choro. Leonardo levantou-se sem saber como, e disse todo tr\u00eamulo:<\/p>\n<p>\u2014 Sou eu&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora vejam, respondeu o Vidigal em tom de mofa, eu n\u00e3o sabia!&#8230; Pois, meus amigos, n\u00e3o se assustem que o caso n\u00e3o foi para tanto: um s\u00facio de menos numa patuscada n\u00e3o faz falta nenhuma. Este amigo vai conosco. Se ele puder, voltar\u00e1 em breve&#8230; mas creio que j\u00e1 n\u00e3o chegar\u00e1 a tempo para acabar a patuscada.<\/p>\n<p>\u2014 Qual, meu Deus! mas por que \u00e9 ent\u00e3o isto? que mal \u00e9 que ele fez?<\/p>\n<p>\u2014 Ele n\u00e3o fez nem faz nada; mas \u00e9 mesmo por n\u00e3o fazer nada que isto lhe sucede. Leva, granadeiro.<\/p>\n<p>E um dos granadeiros com que viera o major acompanhado foi tratando de conduzir o Leonardo.<\/p>\n<p>O Vidigal seguiu-os tranq\u00fcilamente, sem alterar o passo, e dizendo polidamente:<\/p>\n<p>\u2014 Adeus, minha gente.<\/p>\n<p>Vidinha desatou a chorar, exclamando:<\/p>\n<p>\u2014 Foi malsina\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2014 Foi malsina\u00e7\u00e3o! repetiram todos, menos os dois primos.<\/p>\n<p>A s\u00facia levantou-se.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XII<\/h2>\n<h2>TRIUNFO COMPLETO DE JOS\u00c9 MANUEL<\/h2>\n<p>Era um s\u00e1bado de tarde; em casa de D. Maria havia um lufa-lufa imenso; andavam as crias e mais escravos de dentro para fora; espanava-se a sala; arrumavam-se as cadeiras; corria-se, falava-se, gritava-se.<\/p>\n<p>A dona da casa trajava, fora do ordin\u00e1rio, um rico vestido de cassa bordado de prata, de corpinho muito curto e mangas de um volume enorme. Seja dito de passagem que a prata do bordado estava j\u00e1 mareada, e o mais do vestido um pouco encardido. Trazia ainda D. Maria um penteado de desmedida altura, um formid\u00e1vel par de rodelas de cris\u00f3litas nas orelhas, e dez ou doze an\u00e9is de diversos tamanhos e feitios nos dedos.<\/p>\n<p>Luizinha trajava tamb\u00e9m um vestido que qualquer menos entendido na mat\u00e9ria desconfiaria que era filho leg\u00edtimo do de sua tia; trazia um toucado de plumas brancas na cabe\u00e7a e um ros\u00e1rio de ouro de contas mui grossas na cintura.<\/p>\n<p>Acabavam de sair as duas assim preparadas do quarto de vestir, quando se sentiu rodar uma carruagem e parar na porta da casa. Luizinha estremeceu; D. Maria levou o len\u00e7o aos olhos, e tirou-o em pouco tempo molhado de l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 a\u00ed a carruagem, gritou uma das crias que estava de sentinela \u00e0 janela.<\/p>\n<p>A carruagem era um formid\u00e1vel, um monstruoso maquinismo de couro, balan\u00e7ando-se pesadamente sobre quatro desmesuradas rodas. N\u00e3o parecia coisa muito nova; e com mais 10 anos de vida poderia muito bem entrar no n\u00famero dos restos infelizes do terremoto, de que fala o poeta.<\/p>\n<p>Mal tinha este trem parado \u00e0 porta, sentiu-se o rodar de outro que veio parar junto dele. O que dissemos a respeito dos vestidos de D. Maria e sua sobrinha pode perfeitamente aplicar-se aos dois trens; o segundo parecia filho leg\u00edtimo do primeiro.<\/p>\n<p>Do \u00faltimo que chegara apeou-se Jos\u00e9 Manuel, e entrou em casa de D. Maria, que o veio receber \u00e0 porta.<\/p>\n<p>\u00c9 in\u00fatil observar que a vizinhan\u00e7a estava toda \u00e0 janela, e via todo aquele movimento com olhos regalados pela mais desabrida curiosidade.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Manuel trajava casaca de seda preta, cal\u00e7\u00f5es da mesma fazenda e cor; trazia meias tamb\u00e9m pretas e sapatos de entrada baixa, ornados com enormes fivelas de prata, espadim e chap\u00e9u de pasta.<\/p>\n<p>Acompanhavam-o dois amigos vestidos pelo mesmo teor.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Manuel estava com um ar entre compungido e triunfante, e desfazia-se em mesuras \u00e0 D. Maria.<\/p>\n<p>Depois de tudo isto quer ainda o leitor que lhe declaremos que a sobrinha de D. Maria casava-se naquela tarde com Jos\u00e9 Manuel?<\/p>\n<p>Chegou o momento da partida. Luizinha, conduzida por D. Maria, que lhe ia servir de madrinha, embarcou num dos destro\u00e7os da arca de No\u00e9, a que chamamos carruagem; Jos\u00e9 Manuel, acompanhado por quem lhe ia servir de padrinho, fez outro tanto, e partiram depressa para a igreja. Fizeram bem em partir depressa, porque se se demorassem alguns minutos, corriam o risco de serem devorados pelos olhos dos vizinhos.<\/p>\n<p>Apenas cessou a bulha das carruagens, come\u00e7aram estes \u00faltimos em conversa renhida, de que damos aqui uma pequena amostra.<\/p>\n<p>\u2014 Senhora, dizia uma sujeita que morava junto de D. Maria para outra que morava defronte, o tal noivo poder\u00e1 ser coisa boa, mas n\u00e3o dou nada pela cara dele.<\/p>\n<p>\u2014 E a noiva?&#8230; respondia a outra; arrenego tamb\u00e9m da lambisg\u00f3ia&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E o filho do Leonardo ficou vendo estrelas?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Por for\u00e7a: venceu este porque \u00e9 um fin\u00f3rio de conta.<\/p>\n<p>\u2014 Se a velha deixar tudo \u00e0 sobrinha, n\u00e3o \u00e9 mau arranjo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Decerto. Pois n\u00e3o sabe que o seu defunto marido era um homem que viajava para a \u00cdndia?<\/p>\n<p>Neste tom continuaram at\u00e9 a volta das carruagens.<\/p>\n<p>Agora demos ao leitor algumas explica\u00e7\u00f5es a respeito do triunfo de Jos\u00e9 Manuel.<\/p>\n<p>Depois das boas obras do mestre-de-reza, de que os leitores j\u00e1 foram informados, Jos\u00e9 Manuel reabilitara-se completamente junto a D. Maria; tornara a freq\u00fcentar a casa, e foi pouco a pouco pondo barro \u00e0 sua parede. Um sucesso inesperado veio ajud\u00e1-lo com a maior efic\u00e1cia. O testamenteiro do finado irm\u00e3o de D. Maria, do pai de Luizinha, que j\u00e1 tinha tido com D. Maria, como talvez n\u00e3o estejam esquecidos os leitores, uma demanda por causa desta \u00faltima, surdiu de repente com uma nova prebenda relativa a uma pontinha de testamento, e D. Maria teve de entrar de novo com ele em uma luta judici\u00e1ria. Isto coincidiu com a morte inesperada do procurador de D. Maria. Jos\u00e9 Manuel ofereceu-se para cuidar da causa; e com tanto jeito arranjou tudo, que, em muito pouco tempo, coisa que procurador nenhum teria feito, venceu a demanda em favor de D. Maria.<\/p>\n<p>Ora, os leitores h\u00e3o de estar lembrados da mania que tinha D. Maria por uma demandazinha; atirava-se a ela com vontade, e tal era o empenho que empregava na mais insignificante quest\u00e3o judici\u00e1ria, que em tais casos parecia ter em jogo sua vida. Daqui se poder\u00e1 concluir a satisfa\u00e7\u00e3o que teria ela no dia em que se achava vencedora, e como se n\u00e3o julgaria obrigada a quem lhe proporcionasse a vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Manuel aproveitou-se disto; e no dia em que veio ler a D. Maria a senten\u00e7a final que resolvia a pend\u00eancia em seu favor, pediu-lhe a m\u00e3o da sobrinha, a qual lhe foi prometida sem grandes escr\u00fapulos.<\/p>\n<p>Luizinha estava nesta ocasi\u00e3o em um daqueles per\u00edodos de abatimento que se costumam produzir nos mo\u00e7os, e principalmente nas mo\u00e7as que ainda marcham por aquela estrada florida que leva dos 13 aos 25 anos, quando as oprime o isolamento.<\/p>\n<p>Ora, como sabem todos os que me l\u00eaem, o Leonardo tinha abandonado Luizinha; ela aceitou portanto indiferentemente a proposta de sua tia.<\/p>\n<h3>TOMO II<\/h3>\n<h2>CAP\u00cdTULO XIII<\/h2>\n<h2>ESCAPULA<\/h2>\n<p>Deixemos aos noivos o gozo tranq\u00fcilo da sua lua-de-mel; deixemos D. Maria desfazer-se em carinhos e conselhos \u00e0 sua sobrinha, que os recebia indiferentemente, e em aten\u00e7\u00f5es para com Jos\u00e9 Manuel, cuja cabe\u00e7a se tinha tornado repentinamente uma aritm\u00e9tica completa, toda algarismos, toda c\u00e1lculos, toda multiplica\u00e7\u00f5es; e voltemos a saber o que foi feito do Leonardo, a quem deixamos na ocasi\u00e3o em que fora arrancado pelo Vidigal dos bra\u00e7os do amor e da folia.<\/p>\n<p>O Vidigal tinha-o posto diante de si, ao lado de um granadeiro, e marchava poucos passos atr\u00e1s. Enquanto caminhavam o granadeiro pretendeu dar-lhe conversa; mas ele a nada respondia, parecendo absorto em grave cogita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quem estivesse muito atento havia de notar que algumas vezes o Leonardo parecia, ainda que muito ligeiramente, apressar o passo, que outras vezes o retardava, que seu olhar e sua cabe\u00e7a se voltavam de vez em quando, quase imperceptivelmente, para a esquerda ou para a direita. O Vidigal, a quem nada disto escapava, achava em todas estas ocasi\u00f5es pretextos para dar sinais de si; tossia, pisava mais forte, arrastava no ch\u00e3o o chap\u00e9u-de-sol que sempre trazia na m\u00e3o, como quem queria dizer ao Leonardo, respondendo aos seus pensamentos \u00edntimos:<\/p>\n<p>\u2014 Cuidado! eu aqui estou. \u2014 E o Leonardo entendia tudo aquilo \u00e0s mil maravilhas; contra\u00eda os l\u00e1bios de raiva e de impaci\u00eancia. Entretanto nem por isso abandonava a sua id\u00e9ia: queria fugir. Desconfiava que ia para a Casa da Guarda, e pedia interiormente aos seus deuses que alongassem de muitas l\u00e9guas as ruas que tinha de percorrer. Quando via de longe uma esquina dizia consigo: \u2014 \u00c9 agora; quebro por ali fora, e bato pernas. \u2014 Por\u00e9m ao chegar perto da esquina, o Vidigal achava alguma coisa que dizer ao granadeiro, e passava-se a esquina. Se lhe aparecia \u00e0 direita ou \u00e0 esquerda um corredor aberto, pensava consigo: \u2014 Embarafusto por ali adentro, e sumo-me. \u2014 Mas no momento em que ia tomar a \u00faltima decis\u00e3o, parecia-lhe sentir a m\u00e3o do Vidigal que o agarrava pela gola da jaqueta, e esfriava. N\u00e3o eram os granadeiros que lhe metiam medo; nunca em todos os planos de fugir que lhe passavam naquela ocasi\u00e3o pela cabe\u00e7a contou uma s\u00f3 vez com eles; mas o Vidigal, o cruel major, era a quantidade constante de seus c\u00e1lculos.<\/p>\n<p>O pobre rapaz, durante aqueles combates \u00edntimos, suava mais do que no dia em que fez a primeira declara\u00e7\u00e3o de amor a Luizinha. S\u00f3 havia na sua vida um transe a que assemelhava, aquele em que ent\u00e3o se achava, era o que se havia passado, quando crian\u00e7a, naquele meio segundo que levara a percorrer o espa\u00e7o nas asas do tremendo pontap\u00e9 que lhe dera seu pai.<\/p>\n<p>Repentinamente uma circunst\u00e2ncia veio favorec\u00ea-lo. N\u00e3o sabemos por que causa ouviu-se um grande alarido na rua: gritos, assovios e carreiras. O Leonardo teve uma esp\u00e9cie de vertigem: zuniram-lhe os ouvidos, escureceram-se-lhe os olhos, e&#8230; dando um encontr\u00e3o no granadeiro que estava perto dele, desatou a correr. O Vidigal deu um salto, e estendeu o bra\u00e7o para o agarrar; mas apenas ro\u00e7ou-lhe com a ponta dos dedos pelas costas. O rapaz tinha calculado bem: o Vidigal distraiu-se com o ru\u00eddo que se fizera na rua, e aproveitou a ocasi\u00e3o. O Vidigal e os granadeiros soltaram-se imediatamente em seu alcance: o Leonardo embarafustou pelo primeiro corredor que achou aberto; os seus perseguidores entraram incontinenti atr\u00e1s dele, e subiram em tropel o primeiro lance da escada. Apenas o haviam dobrado, e subiam o segundo, abriram-se as cortinas de uma cadeirinha que se achava na entrada, e pela qual tinham eles passado, sai dela Leonardo, e de um pulo ganha a rua. Ao entrar, tendo dado com aquele ref\u00fagio, metera-se dentro; os granadeiros e o Vidigal n\u00e3o haviam reparado em tal com a precipita\u00e7\u00e3o com que entraram, e isso lhe valeu.<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel descrever o que sentiu o Leonardo quando por entre as cortinas da cadeirinha viu-os passar e subir a escada. Foi uma r\u00e1pida alternativa de frio e de calor, de tremor e de imobilidade, de medo e de coragem; veio-lhe outra vez \u00e0 lembran\u00e7a o pontap\u00e9 paterno: era o termo constante de compara\u00e7\u00e3o para todos os seus sofrimentos.<\/p>\n<p>Enquanto o Vidigal e os granadeiros varejavam a casa em que haviam entrado, Leonardo punha-se longe, e em quatro pulos achava-se em casa de Vidinha, que o recebeu com um abra\u00e7o, exclamando:<\/p>\n<p>\u2014 Qual! a\u00ed est\u00e1 ele!<\/p>\n<p>Um raio de alegria iluminou todos os semblantes, menos o dos dois irm\u00e3os rivais, que ficaram horrivelmente desapontados. As duas velhas tiraram da cabe\u00e7a a mantilha que j\u00e1 haviam tomado para dar provid\u00eancias sobre o caso. A presen\u00e7a do Leonardo foi uma aura benfazeja que espalhou as nuvens de uma grossa tormenta, que, tendo come\u00e7ado a roncar quando Leonardo foi preso com aquelas palavras \u2014 foi malsina\u00e7\u00e3o \u2014 viera desabar de todo em casa, e prometia durar muito tempo.<\/p>\n<p>Vidinha, tendo a princ\u00edpio trocado com os primos algumas indiretas a respeito da pris\u00e3o de Leonardo, julgara conveniente deixar-se de panos quentes, e fora direito a eles, como se diz, com quatro pedras na m\u00e3o, atribuindo-lhes o que acabava de suceder.<\/p>\n<p>Eles denegaram, e travaram-se com ela de raz\u00f5es. A princ\u00edpio as duas velhas estavam ambas da parte de Vidinha, por\u00e9m, tendo esta atirado tr\u00eas ou quatro ditos fortes demais aos primos, a tia ofendeu-se, e tomou o partido dos dois filhos: a outra velha, m\u00e3e de Vidinha, protesta contra a parcialidade de sua irm\u00e3, e refor\u00e7a ainda mais, acompanhada dos que restavam, o partido de Vidinha. Divididos e extremados assim os dois campos, com terr\u00edveis campe\u00f5es de lado a lado, f\u00e1cil \u00e9 prever-se o que teria sucedido se o Leonardo n\u00e3o viesse t\u00e3o a tempo para acalmar tudo.<\/p>\n<p>Tomado pelo prazer de ver-se livre, nem teve ele tempo de fazer recrimina\u00e7\u00f5es aos seus inimigos: j\u00e1 sabia com certeza quem fora a causa do que acabava de sofrer, pois que o tinha percebido pela conversa que com ele tentara travar o granadeiro.<\/p>\n<p>O major Vidigal fora \u00e0s nuvens com o caso: nunca um s\u00f3 garoto, a quem uma vez tivesse posto a m\u00e3o, lhe havia podido escapar; e entretanto aquele lhe viera p\u00f4r sal na moleira; ofend\u00ea-lo em sua vaidade de bom comandante de pol\u00edcia, e degrad\u00e1-lo diante dos granadeiros. Quem pregava ao major Vidigal um logro, fosse qual fosse a sua natureza, ficava-lhe sob a prote\u00e7\u00e3o, e tinha-o consigo em todas as ocasi\u00f5es. Se o Leonardo n\u00e3o tivesse fugido, e arranjasse depois a soltura por qualquer meio, o Vidigal era at\u00e9 capaz, por fim de contas, de ser seu amigo; mas tendo-o deixado mal, tinha-o por seu inimigo irreconcili\u00e1vel enquanto n\u00e3o lhe desse desforra completa.<\/p>\n<p>J\u00e1 se v\u00ea pois que as fortunas do Leonardo redundavam-lhe sempre em mal: era realmente um mal naquele tempo ter por inimigo o major Vidigal, principalmente quando se tinha, como o Leonardo, uma vida t\u00e3o regular e t\u00e3o l\u00edcita.<\/p>\n<p>Veremos agora o que se passou na casa em que entrara o Vidigal com os granadeiros em procura do Leonardo.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XIV<\/h2>\n<h2>O VIDIGAL DESAPONTADO<\/h2>\n<p>O major Vidigal, vendo-se logrado, deu urros; e, como j\u00e1 fizemos sentir aos leitores, prometeu a si mesmo tomar s\u00e9ria vingan\u00e7a do Leonardo.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, dizia ele consigo, gastar meu tempo nesta vida, gastar os meus miolos a pensar nos meios de dar ca\u00e7a a quanto vagabundo gira por esta cidade, conseguir, \u00e0 custa de muitos dias de fadiga, de muitas noites passadas sem pregar olho, de muita carreira, de muito trabalho, fazer-me temido, respeitado por aqueles que a ningu\u00e9m temem e respeitam, os vadios e peraltas; e agora no fim de contas vir um mequetrefezinho p\u00f4r-me sal na moleira, envergonhar-me diante destes soldados e de toda esta gente! Agora, n\u00e3o h\u00e1 garoto por a\u00ed que, sabendo disto, n\u00e3o se esteja a rir de mim, e n\u00e3o conte j\u00e1 com a possibilidade de me pregar um segundo mono como este!&#8230;<\/p>\n<p>O major tinha raz\u00e3o: riam-se com efeito dele; e os primeiros que o faziam eram os granadeiros. Apesar de que, escravos da disciplina, empregavam os mais sinceros esfor\u00e7os para coadjuv\u00e1-lo; e apesar tamb\u00e9m de que revertia para eles alguma gl\u00f3ria das fa\u00e7anhas do major, n\u00e3o puderam entretanto deixar de achar gra\u00e7a no que acabava de suceder, pois conheciam a presun\u00e7\u00e3o do Vidigal, e repararam na cara desapontada com que ele havia ficado. Depois, apenas o major p\u00f4s p\u00e9 fora da soleira da casa onde lhe tinha escapado Leonardo, uma multid\u00e3o imensa que tudo havia presenciado desatou a rir estrondosamente.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, Sr. major, dizia-lhe um dos da turba, desta vez<\/p>\n<p>Passarinho foi-se embora,<\/p>\n<p>Deixou-me as penas na m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Sr. major, dizia outro, procure nos bolsos.<\/p>\n<p>\u2014 Dentro da barretina emendava outro.<\/p>\n<p>\u2014 Atr\u00e1s da porta, replicava aquele.<\/p>\n<p>E um coro de risadas acompanhava cada um destes conselhos.<\/p>\n<p>\u2014 L\u00e1 est\u00e1 o bicho dentro da cadeirinha! gritou um repentinamente.<\/p>\n<p>\u2014 O Vidigal, como que instintivamente, correu \u00e0 cadeirinha e abriu-lhe as cortinas.<\/p>\n<p>Nessa ocasi\u00e3o as risadas foram hom\u00e9ricas: o major compreendeu ent\u00e3o qual fora o meio por que lhe escapara o Leonardo, e soltou um \u2014 ah! \u2014 prolongad\u00edssimo. Enfim retirou-se acabrunhado, e ruminando projetos para sua reabilita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Se aqueles rapazes da Concei\u00e7\u00e3o, dizia consigo o Vidigal, que me foram levar a nota do tal malandro, me tivessem avisado que ele era desta laia, eu n\u00e3o teria passado por esta imensa vergonha.<\/p>\n<p>Por estas palavras v\u00eaem os leitores que as imputa\u00e7\u00f5es da Vidinha contra os primos tinham mais que muito fundamento. Com efeito, o que se acabava de passar n\u00e3o era sen\u00e3o o resultado do ajuste que no dia da grande briga, por aquele motivo que o leitor bem sabe, haviam feito os dois rivais: tinham eles malsinado ao Leonardo. Foram ter com o Vidigal, e sem precisar mentir armaram ao Leonardo uma cama muito bem-feita: era um homem sem of\u00edcio nem benef\u00edcio, vivendo \u00e0 custa alheia, enchendo de pernas a casa de duas mulheres velhas, a quem n\u00e3o tinha aproveitado a experi\u00eancia, e, o que \u00e9 mais, roubando aos primos o amor de sua prima.<\/p>\n<p>O Vidigal regalara os olhos ouvindo a narra\u00e7\u00e3o, e ficara muito agradecido aos dois rapazes pela nova que lhe levaram: era mais um pend\u00e3o que ia juntar aos louros de suas fa\u00e7anhas policiais. A primeira tentativa custou-lhe por\u00e9m bem caro.<\/p>\n<p>Eis aqui pouco mais ou menos as reflex\u00f5es em que o major ia engolfado: \u2014 Nada lhe seria mais agrad\u00e1vel do que dia mais dia menos, quando ningu\u00e9m pensasse em tal, acompanhado de uma escolta de granadeiros, dirigir-se \u00e0 casa das duas velhas, cerc\u00e1-la, e pilhar o Leonardo sem que lhe pudesse escapar. Isto por\u00e9m repugnava ao seu orgulho ofendido. Muitas vezes se tinha, \u00e9 verdade, servido desse meio, por\u00e9m fora isso para poder pilhar a capad\u00f3cios de longa data, tidos e havidos como tais, e velhos no of\u00edcio. N\u00e3o queria pois servir-se do mesmo meio para agarrar um recruta no of\u00edcio, que ainda agora come\u00e7ava. Nada, tal n\u00e3o fazia; n\u00e3o havia fazer cerco, e o que \u00e9 mais, n\u00e3o queria de modo algum o adjut\u00f3rio dos granadeiros; jurava a si mesmo que ele sozinho, sem o apoio de ningu\u00e9m, havia de p\u00f4r a m\u00e3o no Leonardo.<\/p>\n<p>Ia o Vidigal entrando na casa da guarda, para onde se dirigia, depois da derrota, quando se sentiu repentinamente agarrado pelas pernas, e viu a seus p\u00e9s uma mulher de mantilha, que chorava, solu\u00e7ando muito, com o len\u00e7o no rosto.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9 isto, senhora? Deixe-me. Ora, isto hoje \u00e9 dia de m\u00e1 sina.<\/p>\n<p>Continuaram os solu\u00e7os por \u00fanica resposta.<\/p>\n<p>\u2014 Senhora, deixa-me ou n\u00e3o as pernas? Eu n\u00e3o gosto de carpideiras&#8230; entende?<\/p>\n<p>Solu\u00e7os ainda.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, n\u00e3o est\u00e1 m\u00e1 esta&#8230; Se lhe morreu algu\u00e9m, v\u00e1 chorar na cama, que \u00e9 lugar quente.<\/p>\n<p>Redobrou o pranto.<\/p>\n<p>\u2014 Valham-me trezentos diabos!&#8230; Quando \u00e9 que isto ter\u00e1 fim?&#8230; Esta mulher acaba por atirar-me no ch\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Estava j\u00e1 muita gente junta na porta.<\/p>\n<p>Passado finalmente um pouco de tempo em sil\u00eancio, quando j\u00e1 o major estava disposto a empregar alguma medida de rigor para ver-se livre da carpideira, esta ergueu a cabe\u00e7a, e tirando o len\u00e7o da cara exclamou entre l\u00e1grimas:<\/p>\n<p>\u2014 Sr. major, solte, solte por quem \u00e9 meu afilhado, solte, solte o pobre rapaz; ele \u00e9 um doido, \u00e9 verdade, mas&#8230;<\/p>\n<p>E os solu\u00e7os lhe embargaram muito a prop\u00f3sito a voz.<\/p>\n<p>Era a comadre que, tendo sabido da pris\u00e3o do afilhado, viera fazer em seu favor aquela choradeira, ignorando que ele se tivesse evadido. A cena produziu o efeito esperado. Os granadeiros, de cada vez que a comadre dizia \u2014 solte, solte \u2014 desatavam a rir; tendo por boca pequena explicado tudo aos demais circunstantes, estes os acompanhavam.<\/p>\n<p>O major tomou tudo aquilo como um esc\u00e1rnio que o g\u00eanio da vadia\u00e7\u00e3o e do garotismo lhe fazia: era mister que ele, para ver-se livre da comadre, que n\u00e3o lhe largava os joelhos, declarasse por sua pr\u00f3pria boca, diante de toda aquela gente, que o Leonardo havia fugido! Declarou-o, e fugiu de todos aqueles olhares, em cada um dos quais via um insulto.<\/p>\n<p>A comadre apenas ouviu a declara\u00e7\u00e3o, tratou de retirar-se, e n\u00e3o p\u00f4de tamb\u00e9m deixar de achar gra\u00e7a no caso.<\/p>\n<h3>TOMO II<\/h3>\n<h2>CAP\u00cdTULO XV<\/h2>\n<h2>CALDO ENTORNADO<\/h2>\n<p>A comadre, tendo deixado o major entregue \u00e0 sua vergonha, dirigira-se imediatamente para a casa onde se achava Leonardo para felicit\u00e1-lo e contar-lhe o desespero em que a sua fuga tinha posto o Vidigal. O Leonardo contava com isso, e n\u00e3o se admirou; Vidinha por\u00e9m e as duas velhas, por entre muita praga e esconjuro, deram grandes risadas \u00e0 custa do major. A comadre, segundo seu costume, aproveitou o ensejo, e depois que se aborreceu de falar no major desenrolou um serm\u00e3o ao Leonardo, no qual, algumas exagera\u00e7\u00f5es de parte, havia grande fundo de justi\u00e7a; e tanto que at\u00e9 a pr\u00f3pria Vidinha chegou a dar-lhe inteira raz\u00e3o quanto a alguns trechos. O tema do serm\u00e3o foi a necessidade de buscar o Leonardo uma ocupa\u00e7\u00e3o, de abandonar a vida que levava, gostosa sim, por\u00e9m sujeita a emerg\u00eancias tais como a que acabava de dar-se. A san\u00e7\u00e3o de todas as leis que a pregadora impunha ao seu ouvinte eram as garras do Vidigal.<\/p>\n<p>\u2014 Haveis de afinal cair-lhe nas unhas, dizia ela no fim de cada per\u00edodo; e ent\u00e3o o c\u00f4vado e meio te cair\u00e1 tamb\u00e9m nas costas.<\/p>\n<p>Esta id\u00e9ia do c\u00f4vado e meio fez brecha no esp\u00edrito do Leonardo: ser soldado era naquele tempo, e ainda hoje talvez, a pior coisa que podia suceder a um homem. Prometeu pois sinceramente emendar-se e tratar de ver um arranjo em que estivesse ao abrigo de qualquer capricho policial do terr\u00edvel major. Achar por\u00e9m ocupa\u00e7\u00e3o para quem nunca cuidou nela at\u00e9 certa idade, e assim de p\u00e9 para m\u00e3o, n\u00e3o era das coisas mais f\u00e1ceis.<\/p>\n<p>Entretanto o zelo da comadre p\u00f4s-se em atividade, e poucos dias depois entrou ela muito contente, e veio participar ao Leonardo que lhe tinha achado um excelente arranjo que o habilitava, segundo pensava, a um grande futuro, e o punha perfeitamente a coberto das iras do Vidigal; era o arranjo de servidor na ucharia real. Deixando de parte o substantivo ucharia, e atendendo s\u00f3 ao adjetivo real, todos os interessados e o pr\u00f3prio Leonardo regalaram os olhos com o achado da comadre. Empregado da casa real?! oh! isso n\u00e3o era coisa que se recusasse; e ent\u00e3o empregado na ucharia! essa mina inesgot\u00e1vel, t\u00e3o farta e t\u00e3o rica!&#8230; A proposta da comadre foi aceita sem uma s\u00f3 reflex\u00e3o contra, da parte de quem quer que fosse.<\/p>\n<p>Como a comadre pudera arranjar semelhante coisa para o afilhado, \u00e9 isso que pouco nos deve importar.<\/p>\n<p>Dentro de poucos dias achou-se o Leonardo instalado no seu posto, muito cheio e contente de si.<\/p>\n<p>O major, que o n\u00e3o perdia de vista, soube-lhe dos passos, e mordeu os bei\u00e7os de raiva quando o viu t\u00e3o bem aquartelado; s\u00f3 deixando a vida que levava podia o Leonardo cortar ao major pretextos para p\u00f4r-lhe a unha mais dia menos dia.<\/p>\n<p>\u2014 Se ele se emenda?! dizia pesaroso o major; se ele se emenda perco eu a minha vingan\u00e7a&#8230; Mas&#8230; (e esta esperan\u00e7a o alentava) ele n\u00e3o tem cara de quem nasceu para emendas.<\/p>\n<p>O major tinha raz\u00e3o: o Leonardo n\u00e3o parecia ter nascido para emendas. Durante os primeiros tempos de servi\u00e7o tudo correu \u00e0s mil maravilhas; s\u00f3 algum mal-intencionado poderia notar em casa de Vidinha uma certa fartura desusada na despensa; mas isso n\u00e3o era coisa em que algu\u00e9m fizesse conta.<\/p>\n<p>O Leonardo por\u00e9m parece que recebera de seu pai a fatalidade de lhe provirem sempre os infort\u00fanios dos devaneios do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dentro do p\u00e1tio da ucharia morava um toma-largura em companhia de uma mo\u00e7a que lhe cuidava da casa; a mo\u00e7a era bonita, e o toma-largura um machacaz talhado pelo molde mais grotesco; a mo\u00e7a fazia pena a quem a via nas m\u00e3os de tal possuidor.<\/p>\n<p>O Leonardo, cujo cora\u00e7\u00e3o era compadecido, teve, como todos, pena da mo\u00e7a; e apressemo-nos a dizer, era t\u00e3o sincero esse sentimento que n\u00e3o p\u00f4de deixar de despertar tamb\u00e9m a mais sincera gratid\u00e3o ao objeto dele. Quem pagou o resultado da pena de um e da gratid\u00e3o da outra foi o toma-largura.<\/p>\n<p>Vidinha l\u00e1 por casa come\u00e7ou a estranhar a assiduidade do novo empregado na sua reparti\u00e7\u00e3o, e a notar o quer que fosse de esmorecimento de sua parte para com ela.<\/p>\n<p>Um dia o toma-largura tinha sa\u00eddo em servi\u00e7o; ningu\u00e9m esperava por ele t\u00e3o cedo: eram 11 horas da manh\u00e3. O Leonardo, por um daqueles milhares de escaninhos que existem na ucharia, tinha ido ter \u00e0 casa do toma-largura. Ningu\u00e9m por\u00e9m pense que era para maus fins. Pelo contr\u00e1rio era para o fim muito louv\u00e1vel de levar \u00e0 pobre mo\u00e7a uma tigela de caldo do que h\u00e1 pouco fora mandado a el-rei&#8230; Obs\u00e9quio de empregado da ucharia. N\u00e3o h\u00e1 aqui nada de censur\u00e1vel. Seria entretanto muito digno de censura que quem recebia tal obs\u00e9quio n\u00e3o o procurasse pagar com um extremo de civilidade: a mo\u00e7a convidou pois ao Leonardo para ajud\u00e1-la a tomar o caldo. E que grosseiro seria ele se n\u00e3o aceitasse t\u00e3o belo oferecimento? Aceitou.<\/p>\n<p>De repente sente-se abrir uma porta: a mo\u00e7a, que tinha na m\u00e3o a tigela, estremece, e o caldo entorna-se.<\/p>\n<p>O toma-largura, que acabava de chegar inesperadamente, fora a causa de tudo isto. O Leonardo correu precipitadamente pelo caminho mais curto que encontrou; sem d\u00favida em busca de outro caldo, uma vez que o primeiro se tinha entornado. O toma-largura corre-lhe tamb\u00e9m ao alcance, sem d\u00favida para pedir-lhe que trouxesse desta vez quantidade que chegasse para um terceiro.<\/p>\n<p>O caso foi que da\u00ed a pouco ouviu-se l\u00e1 por dentro barulho de pratos quebrados, de m\u00f3veis atirados ao ch\u00e3o, gritos, alarido; viu-se depois o Leonardo atravessar o p\u00e1tio da ucharia \u00e0 carreira, e o toma-largura voltar com os gal\u00f5es da farda arrancados, e esta com uma aba de menos.<\/p>\n<p>No dia seguinte o Leonardo foi despedido da ucharia.<\/p>\n<h3>TOMO II<\/h3>\n<h2>CAP\u00cdTULO XVI<\/h2>\n<h2>CI\u00daMES<\/h2>\n<p>No dia seguinte j\u00e1 o Vidigal sabia de cor e salteado tudo quanto havia sucedido ao Leonardo, e p\u00f4s-se alerta, pois que a ocasi\u00e3o era oportuna.<\/p>\n<p>O Leonardo entrara para a ucharia com o p\u00e9 esquerdo: a tormenta por que havia passado nada foi em compara\u00e7\u00e3o da que lhe caiu nas costas, quando em casa se soube da causa verdadeira de sua sa\u00edda.<\/p>\n<p>\u00c9 uma grande desgra\u00e7a n\u00e3o corresponder \u00e0 mulher a quem amamos aos nossos afetos; por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m pequena desventura o cairmos nas m\u00e3os de uma mulher a quem deu na cabe\u00e7a querer-nos bem deveras. O Leonardo podia dar a prova desta \u00faltima verdade. Vidinha era ciumenta at\u00e9 n\u00e3o poder mais: ora, as mulheres t\u00eam uma infinidade de maneiras de manifestar este sentimento. A umas d\u00e1-lhe para chorar em um canto, e choram a\u00ed em ar de gra\u00e7a dil\u00favios de l\u00e1grimas: isto \u00e9 muito c\u00f4modo para quem as tem de sofrer. Outras recorrem \u00e0s repres\u00e1lias, e nesse caso desbancam incontinenti a quem quer que seja: esta maneira \u00e9 seguramente muito agrad\u00e1vel para elas pr\u00f3prias. Outras n\u00e3o usam da mais leve repres\u00e1lia, n\u00e3o espremem uma l\u00e1grima, mas assim por um espa\u00e7o de oito ou quinze dias, desde que desponta a aurora, at\u00e9 que cai a noite, resmungam um calend\u00e1rio de lamenta\u00e7\u00f5es, em que entram seu pai, sua m\u00e3e, seus parentes e amigos, seu compadre, sua comadre, seu dote, seus filhos e filhas, e tudo por a\u00ed al\u00e9m; isso sem cessar um s\u00f3 instante, sem um segundo de descanso: de maneira a deixar na cabe\u00e7a do m\u00edsero que a escuta uma assuada eterna, capaz de fazer amolecer um c\u00e9rebro de pedra. Outras entendem que devem afetar desprezo e pouco-caso: essas tornam-se divertidas, e faz gosto v\u00ea-las. Outras enfim deixam-se tomar de um furor desabrido e irreprim\u00edvel; praguejam, blasfemam, quebram os trastes, rompem a roupa, espancam os escravos e filhos, descomp\u00f5em os vizinhos: esta \u00e9 a pior de todas as manifesta\u00e7\u00f5es, a mais desesperadora, a menos econ\u00f4mica, e tamb\u00e9m a mais infrut\u00edfera. Vidinha era do n\u00famero destas \u00faltimas.<\/p>\n<p>Apenas pois, como h\u00e1 pouco diz\u00edamos, se verificou a verdadeira causa da sa\u00edda do Leonardo, desabou um temporal que s\u00f3 ter\u00e1 semelhante no que h\u00e1 de preceder ao aniquilamento do globo. Depois de gritar, chorar, maldizer, blasfemar, amea\u00e7ar, rasgar, quebrar, destruir, Vidinha parou um instante, concentrou-se, meditou, e depois, como tomando uma grande resolu\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 Minha m\u00e3e, disse dirigindo-se a uma das velhas, quero a sua mantilha&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Filha de Deus, acudiu a velha, que desatino \u00e9 esse? onde \u00e9 que ides agora de mantilha?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu c\u00e1 sei onde vou&#8230; quero a sua mantilha&#8230; tenho dito&#8230; quero a sua mantilha&#8230;<\/p>\n<p>Foram todos reunindo-se em roda de Vidinha, surpreendidos por aquela resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Leonardo estava sentado, ou antes encolhido a seu canto, quedo e silencioso.<\/p>\n<p>\u2014 Quero a sua mantilha, minha m\u00e3e; quero, e quero&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas para onde ides, rapariga?&#8230; Ora, meu Deus!&#8230; isso foi coisa que vos fizeram&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Quero ir \u00e0 ucharia&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Jesus!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Quero ir&#8230; que me importa que seja a casa do rei?&#8230; Hei de ir&#8230; hei de procurar o tal toma-largura&#8230; quero fazer-lhe c\u00e1 duas perguntas&#8230; e, ou o Menino Jesus n\u00e3o \u00e9 filho da Virgem, ou na tal ucharia n\u00e3o fica hoje coisa sobre coisa.<\/p>\n<p>\u2014 Que loucura, rapariga&#8230; que desatino!&#8230;<\/p>\n<p>Os dois primos riam-se interiormente do que se estava passando.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 coisa mais eminentemente prosaica do que uma mulher quando se enfurece. Tudo quanto em Vidinha havia de requebro, de languidez, de voluptuosidade tinha desaparecido; estava feia, e at\u00e9 repugnante.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m houve que a pudesse desviar do seu prop\u00f3sito: ela foi tomando a mantilha e dispondo-se a sair; rogos, choros, nada a p\u00f4de conter.<\/p>\n<p>O Leonardo viu que o caso estava malparado, e, tendo estado at\u00e9 ent\u00e3o calado, decidiu-se tamb\u00e9m a pedir a Vidinha que n\u00e3o sa\u00edsse. Foi, como se costuma dizer, pior a emenda que o soneto.<\/p>\n<p>\u2014 Qual!&#8230; responde Vidinha&#8230; essa agora \u00e9 que havia de ser bonita&#8230; Qual! pois eu n\u00e3o hei de sair?&#8230; Tinha que ver&#8230; ent\u00e3o por pedido do senhor? Ora, qual&#8230;<\/p>\n<p>E foi saindo.<\/p>\n<p>Come\u00e7ava a anoitecer.<\/p>\n<p>A gente de casa ficou toda na maior afli\u00e7\u00e3o; ningu\u00e9m sabia o que se havia de fazer. O Leonardo tomou a resolu\u00e7\u00e3o de acompanhar Vidinha a ver se a detinha em caminho.<\/p>\n<p>Vidinha caminhava t\u00e3o depressa que a princ\u00edpio o Leonardo quase que a perdia de vista; finalmente conseguiu alcan\u00e7\u00e1-la, e come\u00e7ou a pedir-lhe que voltasse, fazendo as maiores promessas de comedir-se dali em diante, e de lhe n\u00e3o dar mais motivos de desgosto. Vidinha por\u00e9m a nada atendia, e caminhava sempre. O Leonardo recorreu a amea\u00e7as; Vidinha redobrou os passos: voltou de novo a rogativas; Vidinha caminhava sempre.<\/p>\n<p>J\u00e1 estavam no largo do Pa\u00e7o: Vidinha, quase a correr, deixou o Leonardo umas poucas de bra\u00e7as atr\u00e1s de si, entrou muito adiante dele pelo port\u00e3o da ucharia adentro, e desapareceu. O Leonardo parou um instante a resolver-se se entraria tamb\u00e9m ou n\u00e3o. Finalmente decidiu-se a entrar. No momento em que ia transpondo a soleira do port\u00e3o, voltou repentinamente, e ia disparando uma carreira: uma m\u00e3o magra, mas vigorosa, o deteve agarrando-o pela gola da jaqueta: era a m\u00e3o do major Vidigal, com quem ele havia esbarrado ao querer entrar, e de quem pretendia fugir. Vendo que lhe seria in\u00fatil qualquer tentativa, porque ali perto havia guarda, o Leonardo resignou-se. O major olhou para ele soltando uma risadinha maligna, e disse-lhe apenas muito pausada e descansadamente:<\/p>\n<p>\u2014 Ora, vamos&#8230;<\/p>\n<p>O Leonardo entendeu bem a significa\u00e7\u00e3o daquelas duas palavras, e caminhou, ao lado do major, na dire\u00e7\u00e3o que este lhe indicava.<\/p>\n<h3>TOMO II<\/h3>\n<h2>CAP\u00cdTULO XVII<\/h2>\n<h2>FOGO DE PALHA<\/h2>\n<p>Deixemos o Leonardo seguindo seu destino acompanhado do major Vidigal, e vamos ver o que se passou na ucharia depois de sua pris\u00e3o. Vidinha indagou aqui, indagou ali, e l\u00e1 entrou como um raio pela casa do toma-largura. A mo\u00e7a do caldo, achando-se nessa ocasi\u00e3o descuidada, sofreu um grande susto com a chegada de Vidinha, que, conhecendo por instinto ser aquela a causa de seus males, foi largando a mantilha sobre uma cadeira e investindo para ela.<\/p>\n<p>\u2014 Venho aqui, disse, para lhe dizer mesmo na cara que vm.c\u00ea \u00e9 uma criatura sem sentimentos&#8230;<\/p>\n<p>A mo\u00e7a, n\u00e3o podendo atinar com a significa\u00e7\u00e3o daquilo, ficou pasma e sem saber o que havia de responder.<\/p>\n<p>Vidinha prosseguiu:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tem sentimentos, digo-lho, e ningu\u00e9m me h\u00e1 de desdizer.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos ver que diabo de hist\u00f3ria \u00e9 esta, bradou uma voz de estentor.<\/p>\n<p>Era o toma-largura que, achando-se em casa naquela ocasi\u00e3o, e tendo ouvido as duas primeiras ap\u00f3strofes de Vidinha, chegava para dar f\u00e9 do que se passava.<\/p>\n<p>Por mais arrogante que fosse a voz do toma-largura, e por mais amea\u00e7adora que fosse a sua figura quase herc\u00falea, Vidinha n\u00e3o recuou um passo, n\u00e3o desfez uma ruga da testa, antes pareceu mostrar que a sua presen\u00e7a ali favorecia suas inten\u00e7\u00f5es; tanto que dirigindo-se a ele o foi logo apostrofando tamb\u00e9m pela seguinte maneira:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 vm.c\u00ea um homem que eu n\u00e3o sei para que traz barbas nessa cara&#8230;<\/p>\n<p>A surpresa, e mesmo tamb\u00e9m a figura de Vidinha, descomposta pela raiva, desarmaram-no um pouco; e respondeu mais mansamente:<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, menina, veio aqui s\u00f3 para dizer coisas assim t\u00e3o bonitas? Quem a trouxe c\u00e1?<\/p>\n<p>\u2014 Ora, quem me havia de trazer? respondeu Vidinha em tom de mofa, lan\u00e7ando para a terceira personagem desta cena um olhar significativo; ora, quem me havia de trazer?&#8230; Qual!&#8230; eu vim s\u00f3 ver se podia tomar um caldo!&#8230;<\/p>\n<p>A mo\u00e7a do toma-largura empalideceu, este regalou os olhos, e abanou com a cabe\u00e7a como quem dizia \u2014 entendo, \u2014 e quis ficar imediatamente muito zangado com a recorda\u00e7\u00e3o daquele fato, que a humildade de sua companheira, e talvez mesmo o seu humor, tinha feito esquecer. Vidinha por\u00e9m para dizer aquelas \u00faltimas palavras tinha serenado um pouco o seu semblante, e ganhara muito em seus encantos desfigurados at\u00e9 ent\u00e3o pela raiva; al\u00e9m disso, ao pronunciar o \u2014 qual \u2014 do costume, descerrara um ligeiro sorriso, deixando ver seus magn\u00edficos dentes.<\/p>\n<p>O toma-largura parecia pertencer talvez \u00e0 fam\u00edlia dos Leonardos; enterneceu-se imediatamente, e n\u00e3o teve \u00e2nimo sen\u00e3o de sorrir-se e responder em tom desconcertado:<\/p>\n<p>\u2014 Ora!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora, replicou Vidinha; e ent\u00e3o, ele n\u00e3o diz \u2014 ora? \u2014 Qual! \u00e9 preciso n\u00e3o ter pinga de vergonha: estas duas criaturas nasceram uma para a outra: Deus os fez e o Diabo os ajuntou; uma toma caldo e o outro diz \u2014 ora&#8230;<\/p>\n<p>E foi tomando a mantilha e tratando de sair.<\/p>\n<p>Dera tudo em fogo de palha. Ela tinha esperado achar respostas en\u00e9rgicas \u00e0s suas invectivas, e neste pressuposto concertara mil planos de ataques, de defesa, de gritaria, de pancadas, de pris\u00f5es, etc. Nada disto por\u00e9m tinha sucedido, e sem saber por que, ela mesma se sentia um pouco aliviada, quase at\u00e9 mesmo satisfeita. Deu mais rajadas aos dois; explicou quem era, mas n\u00e3o disse o que queria. Afinal, sem nada ter feito saiu dizendo:<\/p>\n<p>\u2014 Ah! pensavam que a coisa havia de ficar assim? Disse-lhes poucas, por\u00e9m boas&#8230;<\/p>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o da mulher \u00e9 assim; parece feito de palha, incendeia-se com facilidade, produz muita fuma\u00e7a, mas em cinco minutos \u00e9 tudo cinza que o mais leve sopro espalha e desvanece.<\/p>\n<p>O toma-largura, apenas a viu sair, em vez de prorromper numa matinada contra sua companheira, como ela o esperava, p\u00e1lida e tr\u00eamula, mostrou-se at\u00e9 tranq\u00fcilo, pretextou um afazer, e saiu tamb\u00e9m imediatamente. Andava-lhe na cabe\u00e7a um plano cuja realiza\u00e7\u00e3o faria, como se costuma dizer, cair a sopa no mel. Vidinha tinha-o encantado; o Leonardo o havia ofendido; conquistar ainda que fosse uma diminuta parcela do amor da Vidinha, seria ao mesmo tempo vingar-se do Leonardo e alcan\u00e7ar o triunfo de um desejo. Por mais imposs\u00edvel que lhe parecesse o neg\u00f3cio, nem por isso esmoreceu; era tenaz e paciente.<\/p>\n<p>Chegando ao port\u00e3o da ucharia indagou da sentinela a dire\u00e7\u00e3o que Vidinha tinha tomado, seguiu por ela, e em breve alcan\u00e7ou-a: acompanhou-a de longe para saber-lhe da morada, e viu-a entrar em casa.<\/p>\n<h3>TOMO II<\/h3>\n<h2>CAP\u00cdTULO XVIII<\/h2>\n<h2>REPRES\u00c1LIAS<\/h2>\n<p>Quando Vidinha chegou \u00e0 casa achou ainda toda a fam\u00edlia no maior susto e confus\u00e3o pelo desatino que ela acabava de praticar: as duas velhas, ao v\u00ea-la entrar, lan\u00e7aram-se-lhe ao pesco\u00e7o, e cobriram-na de abra\u00e7os, de beijos e de l\u00e1grimas. Ela estava ainda por\u00e9m sob a influ\u00eancia das emo\u00e7\u00f5es violentas por que acabava de passar, e n\u00e3o p\u00f4de corresponder \u00e0quelas provas de amizade; atirou-se sobre uma banquinha, e levou algum tempo calada, sem dar a menor resposta \u00e0s mil perguntas que lhe eram dirigidas. Esse sil\u00eancio mais aumentava a ansiedade da fam\u00edlia: finalmente resolveu-se ela a romp\u00ea-lo, exclamando:<\/p>\n<p>\u2014 Pensavam que o caso havia de ficar assim? enganaram-se&#8230; Qual!&#8230; eu quero que fiquem sabendo para quanto presto&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, rapariga, foste fazer alguma asneira&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Asneira&#8230; qual&#8230; fiz o que faz qualquer mulher que tem sangue na guelra&#8230; E agora venha ele para c\u00e1, que temos ainda contas a ajustar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, e ele que ainda n\u00e3o veio&#8230; j\u00e1 tinha tempo de chegar, pois partiu logo no vosso alcance&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade&#8230; acrescentou Vidinha com certo susto; na tal cova da ucharia n\u00e3o entrou ele; e quando de l\u00e1 sa\u00ed n\u00e3o o vi mais&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o lhe v\u00e1 ter sucedido alguma coisa!&#8230; O major o jurou!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O major!&#8230; repetiram todas com os sinais do mais vis\u00edvel susto.<\/p>\n<p>E levantou-se de novo em casa a confus\u00e3o, porque, como os leitores ter\u00e3o visto, apesar dos dissabores que o Leonardo causava \u00e0quela fam\u00edlia, todos ali, exceto os dois primos rivais, queriam-lhe muito e muito bem. Falar a qualquer dos dois primos para que o fossem procurar, era coisa de que ningu\u00e9m se lembrava, t\u00e3o certos estavam que eles se haviam recusar. Tiveram pois de esperar que chegasse da rua o antigo sacrist\u00e3o da S\u00e9 para darem as provid\u00eancias precisas.<\/p>\n<p>Os leitores ter\u00e3o talvez estranhado que em tudo quanto se tem passado em casa da fam\u00edlia de Vidinha n\u00e3o tenhamos falado nesta \u00faltima personagem; temo-lo feito de prop\u00f3sito, para dar assim a entender que em nada disso tem ele tomado parte alguma.<\/p>\n<p>Causa remota e primordial de todos estes acontecimentos, pois foi em conseq\u00fc\u00eancia de sua amizade que o Leonardo se juntou \u00e0 fam\u00edlia, por muito feliz se tem dado em que n\u00e3o tenham ca\u00eddo sobre ele inculpa\u00e7\u00f5es de que com dificuldade se poderia defender; homem de tato, conservara uma posi\u00e7\u00e3o absolutamente neutral em todas aquelas lutas. Eis aqui pois qual a causa do nosso sil\u00eancio sobre ele.<\/p>\n<p>Infelizmente naquela noite recolheu-se mais tarde que de costume, e quando chegou j\u00e1 n\u00e3o era tempo de fazer coisa alguma. Toda a fam\u00edlia passou a noite na maior ansiedade, desvanecidas de certa hora em diante as esperan\u00e7as de ver chegar o Leonardo a cada momento. Ningu\u00e9m duvidava mais que alguma coisa tivesse sucedido ao Leonardo, e nos quadros medonhos que cada qual imaginava, a figura do major Vidigal aparecia sempre em primeiro plano; ningu\u00e9m tamb\u00e9m duvidava que no quer que fosse que houvesse sucedido ao Leonardo, o major teria por for\u00e7a parte ativa e importante, sen\u00e3o principal.<\/p>\n<p>Assim, ao amanhecer do dia seguinte o primeiro lugar onde mandaram saber dele foi na Casa da Guarda. Mas, com surpresa geral, ele n\u00e3o se achava nela, nem sabiam not\u00edcias suas; procurou-se em diversos outros pontos, e nada de novo, nem novas nem mandados. Por lembran\u00e7a de Vidinha foram procurar a comadre, e informaram-na de todo o ocorrido: a pobre mulher, que tudo ignorava, p\u00f4s as m\u00e3os na cabe\u00e7a:<\/p>\n<p>\u2014 Aquele rapaz nasceu em mau dia, disse ela, ou ent\u00e3o aquilo \u00e9 coisa que lhe fizeram; do contr\u00e1rio n\u00e3o pode ser&#8230;<\/p>\n<p>E p\u00f4s-se logo a caminho a procurar o afilhado.<\/p>\n<p>Na comadre estavam fundadas toda as esperan\u00e7as; ningu\u00e9m duvidava que apenas ela se pusesse na rua prontamente se saberia o destino do Leonardo. Enganaram-se todos, porque nem a pr\u00f3pria comadre foi capaz de dar com ele, por t\u00e3o bom caminho o tinha levado o major. Passaram muitos dias na mais completa ignor\u00e2ncia a respeito do seu fim; e come\u00e7aram desde ent\u00e3o a aparecer suspeitas de que ele pr\u00f3prio teria talvez interesse em ocultar-se, e de que era essa a causa por que ainda o n\u00e3o haviam descoberto. Estas suspeitas tomaram vulto, e uma certa indigna\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a aparecer em toda a fam\u00edlia contra semelhante proceder. A indigna\u00e7\u00e3o cresceu e tomou repentinamente propor\u00e7\u00f5es de \u00f3dio intenso, at\u00e9 da parte das pr\u00f3prias duas velhas.<\/p>\n<p>Realmente, a ser verdade o que pensavam, n\u00e3o haveria ingratid\u00e3o mais negra do que a do Leonardo para com aquela que t\u00e3o benignamente o acolhera. Nas invectivas a cada momento dirigidas contra ele, Vidinha tomava sempre o primeiro lugar, e tinha raz\u00e3o para isso; al\u00e9m de ter contra ele as raz\u00f5es que tinham todos os outros, tinha ainda o despeito do amor ofendido. Em certos cora\u00e7\u00f5es o amor \u00e9 assim, tudo quanto tem de terno, de dedicado, de fiel, desaparece depois de certas provas, e transforma-se num incur\u00e1vel \u00f3dio.<\/p>\n<p>Uma coisa singular notara a Vidinha desde que fora \u00e0 ucharia, e \u00e9 que n\u00e3o se passava depois disto um s\u00f3 dia em que ela n\u00e3o visse pelo menos duas vezes o toma-largura. Tinha-o ela mostrado \u00e0 fam\u00edlia, e j\u00e1 todos o conheciam. A princ\u00edpio isso incomodou-a, e tanto mais que ele n\u00e3o passava uma s\u00f3 vez que lhe n\u00e3o tirasse o chap\u00e9u com ar risonho: parecia-lhe semelhante coisa uma prova de desabrida falta de vergonha. Mais tarde come\u00e7ou a suspeitar que aquela passagem constante e aqueles cumprimentos deviam por for\u00e7a ter alguma explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Aconteceu que uma das velhas, a m\u00e3e de Vidinha, confessasse n\u00e3o ter achado o toma-largura mal-apessoado, e esta id\u00e9ia passou a toda a fam\u00edlia. Um dia uma das velhas achando-se na janela com Vidinha, na ocasi\u00e3o em que passava o toma-largura, disse entre dentes, e como que indiferentemente:<\/p>\n<p>\u2014 Se fosse comigo, bem sabia eu c\u00e1 o que havia de fazer&#8230;<\/p>\n<p>Vidinha, se bem que n\u00e3o pedisse explica\u00e7\u00e3o daquele dito, n\u00e3o deixou contudo de dar-lhe aten\u00e7\u00e3o e de cismar nele por algum tempo.<\/p>\n<p>No dia seguinte a mesma velha chamou-a para a janela \u00e0 hora do dia antecedente; e o toma-largura passou como sempre, e fez o seu cumprimento. A velha disse nessa ocasi\u00e3o, como completando o seu pensamento da v\u00e9spera:<\/p>\n<p>\u2014 Ora, eu pregava um mono ao tal Leonardo&#8230; e ent\u00e3o este que era bem pregado, por ser ao mesmo tempo aos dois, a ele e a ela.<\/p>\n<p>Lendo na intimidade do pensamento da velha, com a nossa liberdade de contador de hist\u00f3rias, diremos ao leitor, que o n\u00e3o tiver adivinhado, que aquele \u2014 ela \u2014 referia-se \u00e0 mo\u00e7a do caldo.<\/p>\n<p>Dada esta explica\u00e7\u00e3o, os menos perspicazes entender\u00e3o sem d\u00favida em que consistia o mono que a velha pregaria ao Leonardo.<\/p>\n<p>Vidinha, que nada tinha de pouco inteligente, compreendeu tudo \u00e0s mil maravilhas, e com tanto mais facilidade, digamo-lo aos leitores, quanto talvez que o pensamento da velha correspondesse a seus pr\u00f3prios pensamentos. Repetiram-se depois disto mais algumas indiretas da parte da velha, e Vidinha chegou finalmente a explica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Pouparemos aos leitores certos detalhes, e diremos que o resultado de tudo aquilo foi ver-se, poucos dias depois, o toma-largura em casa de Vidinha fazendo uma visita \u00e0 fam\u00edlia!!&#8230;<\/p>\n<p>As visitas continuaram, e pela vizinhan\u00e7a come\u00e7ou a ouvir-se um rumor que tinha tanto de mal\u00e9volo como de verdadeiro.<\/p>\n<p>Estavam as coisas neste p\u00e9. A paz tinha sido restitu\u00edda \u00e0 fam\u00edlia. N\u00e3o sei quem prop\u00f4s que se solenizasse o restabelecimento do sossego e as novas venturas com uma s\u00facia para fora da cidade. Efetuou-se semelhante pensamento. Por uma singularidade escolheram para lugar da patuscada os \u2014 Cajueiros, \u2014 onde a fam\u00edlia tinha feito conhecimento com o Leonardo.<\/p>\n<p>O toma-largura fora convidado, nem podia deixar de s\u00ea-lo, porque era ele um dos motivos da festa. Infelizmente por\u00e9m tinha ele um defeito: no estado ordin\u00e1rio costumava beber sofrivelmente; quando tinha algum motivo de alegria costumava dobrar a dose, e quando isto sucedia dava-lhe para valent\u00e3o e desordeiro. Disto resultou que no meio da s\u00facia, na ocasi\u00e3o de jantar, deu-se por ofendido, n\u00e3o sabemos por que, e come\u00e7ou por agarrar nas pontas da esteira que servia de mesa, e fazer voar sobre a cabe\u00e7a dos convivas pratos, garrafas, copos e tudo o mais. Os dois primos quiseram cont\u00ea-lo, mas n\u00e3o o conseguiram: Vidinha chorava, as velhas se maldiziam; uns tentavam restabelecer a paz, e outros aumentavam a desordem. Reinava por conseq\u00fc\u00eancia uma algazarra infernal.<\/p>\n<p>Quando menos o esperavam, viu-se surdir dentre as moitas o major Vidigal fechando um c\u00edrculo de granadeiros que partiam de sua esquerda e de sua direita, e que encerravam toda a s\u00facia.<\/p>\n<p>\u2014 Segura aquele homem, granadeiro, disse o major a um dos seus soldados, apontando para o toma-largura que se achava em p\u00e9 cambaleando, tendo numa m\u00e3o um balaio em que viera a farinha, e na outra uma garrafa com que amea\u00e7ava os circunstantes.<\/p>\n<p>\u00c0 ordem do major o granadeiro hesitou: toda a fam\u00edlia, reunindo-se em um grupo, soltou um grito de espanto apontando para o soldado.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o! replicou o major vendo aquela hesita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O granadeiro deu um passo para o toma-largura.<\/p>\n<p>\u2014 Devagar com a lou\u00e7a, camarada, bradou este; lembre-se que ainda n\u00e3o ajustamos contas a respeito daquele caldo&#8230;<\/p>\n<p>O toma-largura acabava de reconhecer no granadeiro o nosso amigo Leonardo, como toda a fam\u00edlia o tinha reconhecido apenas ele apareceu.<\/p>\n<p>Era com efeito ele<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XIX<\/h2>\n<h2>O GRANADEIRO<\/h2>\n<p>Estavam pois as contas ajustadas completamente entre o Leonardo e o toma-largura; haviam-se vingado um do outro: o \u00faltimo golpe na luta competira ao Leonardo: ele aben\u00e7oou o acaso, e mesmo o major Vidigal, por lhe ter fornecido ocasi\u00e3o de ir arrancar dos l\u00e1bios de seu rival a ta\u00e7a da ventura. At\u00e9 quase que estimou que lhe tivessem sentado pra\u00e7a; e bem dissemos n\u00f3s que para ele n\u00e3o havia fortuna que n\u00e3o se transformasse em desdita, e desdita de que lhe n\u00e3o resultasse fortuna.<\/p>\n<p>O toma-largura, como dissemos, fora levado pelo Leonardo; e os leitores, familiarizados com o destino que tinham todos os prisioneiros do major Vidigal, adivinham j\u00e1 que lhe indicaram o caminho da Casa da Guarda no largo da S\u00e9. O estado em que ele se achava n\u00e3o permitiu por\u00e9m que o levassem at\u00e9 l\u00e1. Os vapores que do est\u00f4mago lhe tinham subido \u00e0 cabe\u00e7a foram-se pouco a pouco condensando, e em meio do caminho pesavam-lhe sobre o c\u00e9rebro vinte arrobas; a cabe\u00e7a, n\u00e3o se podendo manter, abandonou-se ao tronco, que, achando o peso excessivo, quis apelar para as pernas; estas por\u00e9m n\u00e3o eram mais fortes, e, curvando-se tr\u00eamulas e bambas, deram com o valent\u00e3o de ainda h\u00e1 pouco estirado na cal\u00e7ada. Os soldados n\u00e3o o puderam levantar, porque era, como dissemos a princ\u00edpio, de uma corpul\u00eancia colossal. Foi mister pois abandonar a presa: o major n\u00e3o teve grande dificuldade nisso, primeiro, pelo trabalho que daria qualquer outra resolu\u00e7\u00e3o, segundo, porque se bem que da \u00faltima classe, sempre era o toma-largura gente da casa real, e nesse tempo tal qualidade trazia consigo n\u00e3o pequenas imunidades.<\/p>\n<p>O Leonardo tentou ainda alguns meios para que lhe n\u00e3o escapasse assim sem resultado mais estrondoso a primeira presa que fazia, pois era isto de mau agouro para o seu futuro militar; mas tamb\u00e9m sua mais bela vingan\u00e7a estava tomada.<\/p>\n<p>Ficou pois o toma-largura abandonado na cal\u00e7ada.<\/p>\n<p>Satisfa\u00e7amos agora em poucas palavras a curiosidade que t\u00eam sem d\u00favida os leitores de saber o como chegara o Leonardo \u00e0 posi\u00e7\u00e3o em que se achava. Agarrado pelo major na porta da ucharia, como se sabe, fora por ele em pessoa conduzido a lugar seguro, donde s\u00f3 sa\u00edra para sentar pra\u00e7a no Regimento Novo. Todos os batalh\u00f5es que havia na cidade tinham uma companhia de granadeiros, e, havendo uma vaga na companhia do Regimento Novo, fora o Leonardo escolhido para preench\u00ea-la. Sabendo disto o major, reclamou-o para seu servi\u00e7o (porque era dessas companhias de granadeiros que se tiravam soldados para o servi\u00e7o policial), pois, como homem experimentado naquelas coisas, pressentira que ele lhe seria um valioso auxiliar. At\u00e9 um certo ponto o major n\u00e3o se enganou. Com efeito o Leonardo, sendo naturalmente astuto, e tendo at\u00e9 ali vivido numa rica escola de vadia\u00e7\u00e3o e peraltismo, deveria conhecer todas as manhas do of\u00edcio. Havia por\u00e9m uma circunst\u00e2ncia que o impedia de prestar bons servi\u00e7os, e era que com ele pr\u00f3prio, com suas pr\u00f3prias fa\u00e7anhas, tinha muitas vezes o major de gastar o tempo que lhe era preciso para o demais. O poder dos h\u00e1bitos adquiridos era nele tal, que nem mesmo o rigor da disciplina lhe servia de barreira.<\/p>\n<p>Contemos a primeira diabrura que lhe lembrou praticar depois que vestiu farda, e que foi tanto mais sens\u00edvel quanto a princ\u00edpio se mostrara um soldado por tal maneira sisudo que ia quase adquirindo reputa\u00e7\u00e3o de r\u00edgido.<\/p>\n<p>Os gaiatos e suciantes da cidade, a quem o major Vidigal dava constantemente ca\u00e7a, lembraram-se de imortalizar as suas fa\u00e7anhas por qualquer meio, e inventaram um fado com o seguinte estribilho nas cantigas:<\/p>\n<p>Papai l\u00eal\u00ea, seculorum.<\/p>\n<p>Nesse fado a personagem principal representava o major, que, figurado morto, vinha estender-se amortalhado no meio da sala; as demais personagens cantavam-lhe em roda cantigas alusivas, que terminavam todas pelo estribilho que acima indicamos.<\/p>\n<p>O major, que disto soubera, andava em busca de uma ocasi\u00e3o oportuna para tirar desforra de semelhante gracejo, que dava a entender qual era, a seu respeito, o desejo dos que o tinham inventado. Teve um dia den\u00fancia que numa casa do morro da Concei\u00e7\u00e3o se preparava para essa noite um rigoroso \u2014 Papai l\u00eal\u00ea, \u2014 e disp\u00f4s as coisas para pilhar os da roda em flagrante.<\/p>\n<p>\u00c0 hora oportuna mandou dois ou tr\u00eas granadeiros adiante, cada um por sua vez, para examinar o que havia, tendo combinado primeiramente um sinal positivo e outro negativo para indicarem uns aos outros se havia ou n\u00e3o ocasi\u00e3o e motivo de dar o assalto: estes sinais o granadeiro que devia aproximar-se mais da casa comunicaria ao que lhe ficasse imediato; este passaria adiante, o outro faria o mesmo at\u00e9 chegar ao lugar em que estava o major; era um verdadeiro sistema de sentinelas avan\u00e7adas, como se se tratasse de uma grande campanha. No caso de ser dado o sinal positivo, marchariam todos vagarosamente, e se reuniriam para o assalto; dado o sinal negativo, dispersar-se-iam em sil\u00eancio, porque um dos maiores caprichos do major era nunca mostrar que havia sido logrado. Ao Leonardo coube a incumb\u00eancia de ser a vedeta mais pr\u00f3xima ao inimigo, e de dar o primeiro sinal. Marchou pois adiante, e os companheiros postaram-se \u00e0 espera. Esperaram por longo tempo, e cansaram de esperar; finalmente, quando j\u00e1 se iam dispondo a contravir as ordens e abandonar o posto para procurar o Leonardo, ouviram tr\u00eas vezes seguidas um longo assovio, que era o sinal negativo convencionado. Em virtude disto dispersaram-se exasperados, e foram depois reunir-se ao major embaixo da ladeira, no lugar que d\u00e1 para a entrada do Aljube. A\u00ed reunidos, esperaram muito tempo pelo Leonardo sem que ele aparecesse. O major principiou a cismar com o caso; de novo e repentinamente deu ordem de subir o morro. Subiram com efeito, e, marchando desta vez o major adiante, foram ter \u00e0 casa indicada. Com surpresa de todos, apenas se foram aproximando viram luzes e ouviram o zunzum das violas e a toada das cantigas. Fervia dentro o fado rigoroso. Sem necessitar grandes precau\u00e7\u00f5es, porque todos pareciam entregues \u00e0 maior seguran\u00e7a, cercou o major a casa, e apanhou tudo, como se costuma dizer, com a boca na botija. Estava-se exatamente no ponto solene da cerim\u00f4nia.<\/p>\n<p>Achava-se a personagem que representava o Papai amortalhado em um len\u00e7ol, com a cabe\u00e7a coberta, deitado no ch\u00e3o, e a chusma em roda a cantar e a dan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Quando o major bateu, e foi entrando, acompanhado da sua gente, ficou tudo gelado de medo: o sujeito que se achava amortalhado teve um grande estreme\u00e7\u00e3o e ficou depois im\u00f3vel, como se fosse de pedra, representando com mais propriedade do que talvez desejasse o papel de morto. Segundo seu costume, o major fez continuar por um pouco a brincadeira em sua presen\u00e7a. Depois come\u00e7ou a indaga\u00e7\u00e3o das ocupa\u00e7\u00f5es de cada um, e, conforme o que colhia, os foi mandando embora, ou pondo de parte, para lhes dar melhor destino. Durante toda esta cena, que levou seu tempo, o amortalhado deixou-se ficar im\u00f3vel, na mesma posi\u00e7\u00e3o, com a cabe\u00e7a coberta. Corrida toda a roda, disse-lhe o major:<\/p>\n<p>\u2014 Ol\u00e1, camarada da mortalha, ent\u00e3o deveras voc\u00ea quer que o levem da\u00ed para a cova?<\/p>\n<p>Nem um movimento em resposta.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! est\u00e1 morto; perdeu a fala; \u00e9 natural.<\/p>\n<p>Sil\u00eancio profundo.<\/p>\n<p>O major fez sinal a um dos granadeiros, que tocou no sujeito com a ponta do camar\u00e3o: nem assim por\u00e9m ele sequer moveu-se. A um novo sinal do major o granadeiro desandou-lhe uma tremenda lambada. Ressuscitou com isso o morto, e p\u00f4s-se de um salto em p\u00e9. Procurou por\u00e9m evadir-se por uma janela, conservando sempre a cabe\u00e7a coberta: os granadeiros seguraram-no, e o major disse-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 Homem, voc\u00ea por estar morto n\u00e3o tenha tanta pressa de ir para o inferno: fale primeiro com a gente.<\/p>\n<p>E tirando-lhe o pano da cara acrescentou:<\/p>\n<p>\u2014 Ora, vamos ver a cara do defunto&#8230;<\/p>\n<p>Um grito de espanto, acompanhado de uma gargalhada estrondosa dos granadeiros, interrompeu o major. Descoberta a cara do morto, reconheceu-se ser ele o nosso amigo Leonardo!&#8230;<\/p>\n<h3>TOMO II<\/h3>\n<h2>CAP\u00cdTULO XX<\/h2>\n<h2>NOVAS DIABRURAS<\/h2>\n<p>N\u00e3o sabemos se valeu ao Leonardo ser aquela a primeira ocasi\u00e3o em que incorria em castigo, tendo at\u00e9 ent\u00e3o guardado a mais rigorosa observ\u00e2ncia de todos os seus deveres, ou se a mesma aud\u00e1cia do fato lhe granjeara mais as simpatias do major; o caso foi que al\u00e9m das risadas, dos remoques dos camaradas e dos transes da meia hora que estivera amortalhado, nada mais lhe sucedeu, com espanto de todos, e principalmente dele mesmo: o major dera daquele modo uma grande prova de desusada benevol\u00eancia. Andou pois o Leonardo por alguns dias cabisbaixo e pensativo, como esmagado ao peso de grandes remorsos; os camaradas tiravam daquilo um partido imenso para meterem-no \u00e0 bulha, e n\u00e3o o deixavam parar um s\u00f3 instante sossegado na companhia.<\/p>\n<p>\u2014 Ele ainda n\u00e3o est\u00e1 bem ressuscitado, dizia um passando-lhe por perto.<\/p>\n<p>\u2014 Qual! dizia outro, ele j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 deste mundo.<\/p>\n<p>\u2014 Papai l\u00eal\u00ea, seculorum, entoavam outros em coro.<\/p>\n<p>A nenhuma destas coisas dava ele a menor resposta, e tinha nisso bom aviso, porque desse modo poupava aos desapiedados camaradas tema para novos remoques. Passados aqueles transes tudo foi esquecido, e as coisas entraram de novo em seus eixos ordin\u00e1rios.<\/p>\n<p>Um dia o major anunciou que tinha uma grande e importante dilig\u00eancia a fazer.<\/p>\n<p>Havia um endiabrado patusco que era o tipo perfeito dos capad\u00f3cios daquele tempo, sobre quem h\u00e1 muitos meses andava o major de olhos abertos, sem que entretanto tivesse achado ocasi\u00e3o de pilh\u00e1-lo: sujeitinho cuja ocupa\u00e7\u00e3o era uma indecifr\u00e1vel adivinha\u00e7\u00e3o para muita gente, sempre andava entretanto mais ou menos apatacado: tudo quanto ele possu\u00eda de maior valor era um capote em que andava constantemente embu\u00e7ado, e uma viola que jamais deixava. Gozava reputa\u00e7\u00e3o de homem muito divertido, e n\u00e3o havia festa de qualquer g\u00eanero para a qual n\u00e3o fosse convidado. Em satisfazer a esses convites gastava todo o seu tempo. Ordinariamente amanhecia numa s\u00facia que come\u00e7ara na v\u00e9spera, uns anos, por exemplo; ao sair da\u00ed ia para um jantar de batizado; \u00e0 noite tinha uma ceia de casamento. A fama que tinha de homem divertido, e que lhe proporcionava t\u00e3o belos meios de passar o tempo, devia-a a certas habilidades, e principalmente a uma na qual n\u00e3o tinha rival. Tocava viola e cantava muito bem modinhas, dan\u00e7ava o fado com grande perfei\u00e7\u00e3o, falava l\u00edngua de negro, e nela cantava admiravelmente, fingia-se aleijado de qualquer parte do corpo com muita naturalidade, arremedava perfeitamente a fala dos meninos da ro\u00e7a, sabia milhares de adivinha\u00e7\u00f5es, e finalmente, \u2014 eis aqui o seu mais raro talento, \u2014 sabia com rara perfei\u00e7\u00e3o fazer uma variedade infinita de caretas que ningu\u00e9m era capaz de imitar. Era por conseq\u00fc\u00eancia as del\u00edcias das espirituosas sociedades em que se achava. Quem dava uma s\u00facia em sua casa, e queria ter grande roda e boa companhia, bastava somente anunciar aos convidados que o Teot\u00f4nio (era este o seu nome) se acharia presente.<\/p>\n<p>Agora quanto \u00e0 sua ocupa\u00e7\u00e3o ou meio de vida, que para muitos era, como dissemos, impenetr\u00e1vel segredo, o major Vidigal tanto fez que a descobriu: em dias designados da semana reunia-se no s\u00f3t\u00e3o onde ele morava certo n\u00famero de pessoas que levavam at\u00e9 alta noite a\u00ed metidas: Teot\u00f4nio era o banqueiro de uma roda de jogo.<\/p>\n<p>Nesta conformidade andava o major a querer pilh\u00e1-lo em flagrante; e, como tentava isso desde muito sem que o pudesse conseguir, por ser sempre iludida a sua vigil\u00e2ncia pela troca constante que faziam os da roda dos seus dias de reuni\u00e3o, resolveu p\u00f4r a m\u00e3o no Teot\u00f4nio na primeira ocasi\u00e3o, e servir-se depois dele para a captura dos outros companheiros.<\/p>\n<p>Como os leitores estar\u00e3o lembrados, o Leonardo-velho, isto \u00e9, o Leonardo-Pataca, vivia com a filha da comadre; dela tinha um descendente, a cujo nascimento n\u00f3s os fizemos assistir. Pois, apesar de haver j\u00e1 passado algum tempo, a crian\u00e7a ainda n\u00e3o estava batizada. O Leonardo-Pataca, a inst\u00e2ncias da comadre, que muito se afligia com aquela demora, determinou finalmente o dia que ela se devia fazer crist\u00e3. Segundo os h\u00e1bitos imut\u00e1veis, havia s\u00facia por essa ocasi\u00e3o; e, segundo a moda, foi o Teot\u00f4nio convidado. O major soubera de tudo, e era exatamente a\u00ed que o esperava, e tinha determinado pilh\u00e1-lo. Para isso dera aos seus soldados o aviso de que acima falamos.<\/p>\n<p>Era m\u00e1 sina do major ter sempre de andar desmanchando prazeres alheios; e infelicidade para n\u00f3s que escrevemos estas linhas estar caindo na monotonia de repetir quase sempre as mesmas cenas com ligeiras variantes: a fidelidade por\u00e9m com que acompanhamos a \u00e9poca, da qual pretendemos esbo\u00e7ar uma parte dos costumes, a isso nos obriga.<\/p>\n<p>\u00c0 hora ajustada chegou o major \u00e0 casa do Leonardo-Pataca; como n\u00e3o havia o menor motivo para viol\u00eancias, porque tudo corria na mais perfeita paz, o major entrou sozinho, com pr\u00e9via permiss\u00e3o do Leonardo-Pataca, e assistiu ao divertimento. Quando ele chegou estava exatamente Teot\u00f4nio em cena com as suas habilidades. Tendo esgotado j\u00e1 todas elas, ia recorrer \u00e0 \u00faltima, que era a das caretas. \u00c9 preciso notar que ele n\u00e3o sabia s\u00f3 fazer caretas a capricho, sabia-as tamb\u00e9m fazer imitando, pouco mais ou menos, esta ou aquela cara conhecida: era isso o que fazia morrer de riso aos circunstantes.<\/p>\n<p>Estavam todos sentados, e o Teot\u00f4nio em p\u00e9 no meio da sala olhava para um, e apresentava uma cara de velho; virava-se repentinamente para outro, e apresentava uma cara de tolo a rir-se asnaticamente; e assim por muito tempo mostrando de cada vez um tipo novo. Finalmente, tendo j\u00e1 esgotado toda a sua arte, correu a um canto, colocou-se numa posi\u00e7\u00e3o que pudesse ser visto por todos ao mesmo tempo, e apresentou a sua \u00faltima careta. Todos desataram a rir estrondosamente apontando para o major.<\/p>\n<p>Acabava de imitar com muita semelhan\u00e7a a cara comprida e chupada do Vidigal.<\/p>\n<p>O major mordeu os bei\u00e7os percebendo a ca\u00e7oada do Teot\u00f4nio; e se j\u00e1 tinha boas ten\u00e7\u00f5es a seu respeito, ainda as formou melhor naquela ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>As risadas continuaram por muito tempo; e ele, n\u00e3o podendo afront\u00e1-las impass\u00edvel, e n\u00e3o havendo, como j\u00e1 fizemos sentir, motivo justo para um rompimento, achou mais conveniente retirar-se, e pondo-se em posi\u00e7\u00e3o conveniente, esperar que a s\u00facia se debandasse, para ent\u00e3o convidar o Teot\u00f4nio a ir fazer algumas caretas aos granadeiros na Casa da Guarda.<\/p>\n<p>Saiu pois completamente corrido.<\/p>\n<p>Encontrando os seus granadeiros que tinham ficado a pouca dist\u00e2ncia, dirigiu-se ao Leonardo, e fez-lhe sentir que, querendo a todo o custo naquela noite segurar o Teot\u00f4nio, temia que os de casa desconfiassem disso e lhe dessem escapula por qualquer meio; era-lhe pois mister uma pessoa que o fosse vigiar de perto sem que despertasse suspeitas: essa pessoa devia ser o Leonardo.<\/p>\n<p>\u2014 Sou malvisto em casa de meu pai, replicou este \u00e0 proposta do major.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 hoje um bom dia de concilia\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Talvez n\u00e3o queiram receber-me&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E sua madrinha que l\u00e1 se acha?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas a filha que \u00e9 uma v\u00edbora contra mim?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 V\u00edbora ou n\u00e3o, h\u00e1 de ir; que quando manda a disciplina&#8230; N\u00e3o quero que aquele valdevinos ande tomando impunemente a minha cara para original de caretas.<\/p>\n<p>Os granadeiros, que conheciam o Teot\u00f4nio e lhe sabiam da habilidade, compreenderam logo o que tinha sucedido por aquele dito do major, e desataram por seu turno a rir. O Leonardo, por aquele apelo \u00e0 disciplina, com a qual n\u00e3o se achava em muito bom p\u00e9 de rela\u00e7\u00f5es desde a noite do papai-l\u00eal\u00ea, venceu todas as dificuldades e repugn\u00e2ncia que manifestara no desempenho da miss\u00e3o de que o encarregara o major, e p\u00f4s-se a caminho para a casa de seu pai.<\/p>\n<p>Chegou e bateu: assim que de dentro lhe perceberam as cores da farda e barretina houve um grito de medo, e por um movimento que parecia combinado (o major tinha raz\u00e3o!) foram repentinamente apagadas todas as velas da sala, e come\u00e7ou a reinar uma confus\u00e3o tal que parecia haver-se travado uma luta entre todos.<\/p>\n<p>O Leonardo viu nisso uma primeira contrariedade, por\u00e9m n\u00e3o deixou de achar gra\u00e7a no susto que causara. Resolveu ent\u00e3o falar da parte de fora para tranq\u00fcilizar os medrosos.<\/p>\n<p>\u2014 Bom modo de ser recebido um filho em casa de seu pai! Para quarta-feira de trevas s\u00f3 lhe faltam as matracas&#8230;<\/p>\n<p>A comadre, que ouvira e reconhecera a voz do afilhado, desatou a rir exclamando:<\/p>\n<p>\u2014 Vejam que logro! \u00e9 o Leonardo; tragam as velas, gente: n\u00e3o h\u00e1 novidade, que o cabo da guarda \u00e9 nosso compadre.<\/p>\n<p>\u2014 Aquele brejeiro, resmoneou o Leonardo-velho, sempre h\u00e1 de andar a fazer das suas: vejam que susto causou a toda essa gente&#8230; \u00d3 amigo Teot\u00f4nio, des\u00e7a, que n\u00e3o h\u00e1 novidade&#8230;<\/p>\n<p>\u00c0 luz da primeira vela que traziam viu-se descer por uma porta o Teot\u00f4nio do forro do quarto da sala onde se havia escondido.<\/p>\n<p>Apenas p\u00f4s o p\u00e9 em terra fez logo uma careta de medo, por tal forma expressiva, que houve em todos uma tremenda explos\u00e3o de hilaridade. Come\u00e7ou a surdir gente de diversos cantos da casa, e em presen\u00e7a do Leonardo recome\u00e7ou a folia.<\/p>\n<p>Algumas pessoas n\u00e3o deixaram de estranhar e recear a presen\u00e7a do Leonardo naquela ocasi\u00e3o e naqueles trajes logo depois da sa\u00edda do major; por\u00e9m a comadre a todos tranq\u00fcilizou, dizendo que, tendo ele obtido licen\u00e7a no quartel, por n\u00e3o estar de servi\u00e7o naquele dia, viera assistir ao batizado de sua irm\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 Ele \u00e9 meio doido, repetia ela a todos, mas \u00e9 muito amoroso, e nunca se esquece da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Leonardo confirmava esses protestos da comadre, e ia entretanto tomando parte na brincadeira, uma vez que contra as suas esperan\u00e7as todos o haviam recebido bem em casa. \u00c0 propor\u00e7\u00e3o que se ia esquentando no prazer do fado e das cantigas come\u00e7ou o Leonardo a sentir remorsos pelo papel de judas que ali estava representando: quando olhava para o Teot\u00f4nio, que desde que entrara lhe havia feito dar t\u00e3o boas risadas, pungia-lhe o cora\u00e7\u00e3o lembrando-se que ele pr\u00f3prio o havia de entregar ao major. N\u00e3o poucas vezes lhe passou pela cabe\u00e7a dar-lhe escapula avisando-o, por\u00e9m a disciplina, o papai-l\u00eal\u00ea, vinham-lhe \u00e0 id\u00e9ia, e hesitava.<\/p>\n<p>Enquanto era assaltado por estes pensamentos, olhava repetidas vezes para o Teot\u00f4nio.<\/p>\n<p>Este, que nada tinha de tolo, desconfiou da coisa; n\u00e3o sabemos por que instinto leu o que pensava o Leonardo, e p\u00f4s-se em guarda.<\/p>\n<p>O Leonardo tomou repentinamente sua resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, adeus disciplina, disse consigo; hei de dar escapula ao homem, seja l\u00e1 como for.<\/p>\n<p>E do lugar em que estava acrescentou alto:<\/p>\n<p>\u2014 Ah! Sr. Teot\u00f4nio, quer saber uma coisa? Pois se puser o p\u00e9 daquela porta para fora, o major p\u00f5e-lhe a unha, que para isso est\u00e1 ele \u00e0 sua espera, e para aqui me mandou&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00d3 diabo! exclamaram todos.<\/p>\n<p>\u2014 Mas nada de sustos; tudo se h\u00e1 de arranjar, que tenho eu boa vontade disto.<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o te comprometas, rapaz, acrescentou a comadre ao ouvido do Leonardo; olha que o major n\u00e3o \u00e9 de gra\u00e7as, e da\u00ed te pode vir mal.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, tenho pena dele s\u00f3 por aquelas caretas.<\/p>\n<p>Juntaram-se ent\u00e3o os dois, Leonardo e Teot\u00f4nio, e juntos concertaram o seu plano de modo que este escapasse ao major, e que aquele n\u00e3o ficasse comprometido.<\/p>\n<p>Estava j\u00e1 a noite muito adiantada, ordenaram os dois que sa\u00edssem ao mesmo tempo muitos convidados, e o Leonardo, partindo adiante deles, foi correndo ter com o major.<\/p>\n<p>\u2014 A\u00ed vem o bicho, Sr. major.<\/p>\n<p>\u2014 Cerca, cerca! disse o major.<\/p>\n<p>E cada um se dividiu para seu lado.<\/p>\n<p>O major colou-se \u00e0 porta de um corredor, e p\u00f4s-se de olho alerta.<\/p>\n<p>Veio-se aproximando ao major um vulto assobiando tranq\u00fcilamente o estribilho de uma modinha. Quando se achou em pequena dist\u00e2ncia o major deu um salto donde estava e segurou-o.<\/p>\n<p>Um ai franzino se fez ouvir, acompanhado de um:<\/p>\n<p>\u2014 Me largue! Que \u00e9 isto?<\/p>\n<p>O major prestou aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tendo reconhecido a voz do Teot\u00f4nio, e viu que tinha segurado num pobre corcunda, aleijado, ainda em cima, da perna direita e do bra\u00e7o esquerdo.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, v\u00e1-se para o inferno, disse o major; suma-se daqui. Tamb\u00e9m n\u00e3o sei o que andam fazendo a estas horas pelas ruas estas figuras.<\/p>\n<p>O aleijado safou-se apressadamente livre do susto, e l\u00e1 foi continuando a assobiar o seu estribilho.<\/p>\n<p>Fez-se depois disto o mais profundo sil\u00eancio, e o major n\u00e3o viu mais passar sen\u00e3o os convidados da patuscada, n\u00e3o vendo entre eles o Teot\u00f4nio.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ardeu com o caso; e reunindo os granadeiros disse para Leonardo:<\/p>\n<p>\u2014 Ele n\u00e3o saiu&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Saiu, replicou este; at\u00e9 de jaqueta branca e chap\u00e9u de palha: eu o vi tomar ali para a porta onde estava o Sr. major.<\/p>\n<p>\u2014 De jaqueta branca e chap\u00e9u de palha? perguntou o major.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, senhor, e de cal\u00e7a preta: n\u00e3o o peguei porque logo vi que n\u00e3o havia de escapar ao Sr. major.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! patife, patife, resmungou: destas nunca levei&#8230; Era o corcunda, o aleijado&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ele sabe fazer muito bem de corcunda e de aleijado, disse um dos granadeiros; j\u00e1 o vi uma vez fazer isso, que era mesmo tal e qual&#8230;<\/p>\n<p>Era com efeito o Teot\u00f4nio o aleijado que o major tinha segurado.<\/p>\n<p>O Leonardo ria-se \u00e0s furtadelas do logro que levara o major.<\/p>\n<p>N\u00e3o tardou por\u00e9m muito tempo que lhe n\u00e3o amargasse aquele prazer, vindo o major a saber que tudo aquilo se fizera de combina\u00e7\u00e3o com ele.<\/p>\n<h3>TOMO II<\/h3>\n<h2>CAP\u00cdTULO XXI<\/h2>\n<h2>DESCOBERTA<\/h2>\n<p>\u00c9 muito antigo dizer-se que h\u00e1 uma coisa ainda pior do que um inimigo, e \u00e9 um mau amigo. Um dos convidados do Leonardo-Pataca dizia-se muito amigo do Teot\u00f4nio, e pelo empenho que o Leonardo mostrara em livr\u00e1-lo das garras do major, protestara desde logo repartir com ele parte dessa amizade, sem que nenhum dos dois ficasse prejudicado. Poucos instantes depois desse protesto deu logo a primeira prova de que estava disposto a cumpri-lo.<\/p>\n<p>Enquanto se passavam as cenas que acabamos de descrever tinha amanhecido: o major e sua gente punham-se em retirada: ainda se achavam por\u00e9m nas imedia\u00e7\u00f5es do lugar onde se havia feito a tentativa para prender o Teot\u00f4nio, quando o tal amigo a que nos referimos, que fora um dos \u00faltimos a retirar-se, encontrando a patrulha, e vendo que o Teot\u00f4nio n\u00e3o ia no meio dela, concluiu que os planos haviam surtido bem, e que o major ficara desta vez logrado. Teve por isso um acesso de alegria; e esquecendo a presen\u00e7a do major, correu ao Leonardo, abra\u00e7ou-o, exclamando com arrebatado \u00edmpeto:<\/p>\n<p>\u2014 Bravo! como esta n\u00e3o fazes duas em toda a tua vida; foi limpa; ele h\u00e1 de ficar-te obrigado para sempre, e eu com ele, porque sou seu amigo e teu tamb\u00e9m!<\/p>\n<p>O Leonardo ficou est\u00e1tico diante de semelhante imprud\u00eancia. O major, que ia cabisbaixo pensando no logro que acabara de levar, voltou-se repentinamente: a palavra ele, proferida pelo terr\u00edvel amigo, abriu luz a seus olhos. O Leonardo foi tirado do torpor em que se achava pela voz do major a dizer-lhe compassadamente:<\/p>\n<p>\u2014 Recolha-se preso ao quartel.<\/p>\n<p>A esta senten\u00e7a o Leonardo ergueu do fundo d\u2019alma tudo quanto havia a\u00ed de despeito, de rancor, e lan\u00e7ou um olhar sobre o imprudente que a havia provocado, e que ainda muito senhor de si apertava-lhe desapiedadamente a m\u00e3o, que parecia n\u00e3o estar disposto a largar t\u00e3o cedo.<\/p>\n<p>Deixemos agora o Leonardo, v\u00edtima de sua dedica\u00e7\u00e3o, caminhar preso para o quartel, e passemos a outras coisas. H\u00e1 muito tempo que n\u00e3o falamos em D. Maria e na sua gente. Saibam os leitores que, passada a lua-de-mel, em que tudo foram rosas, o nosso Jos\u00e9 Manuel pusera, como se costuma dizer, as mangas de fora, e tais coisas fez, que em poucos meses estava tudo em guerra aberta: tinha-se ele com sua mulher Luizinha mudado de casa de D. Maria, e por causa de dote vai, dote vem, heran\u00e7a daqui, heran\u00e7a dali, havia-lhe D. Maria proposto uma a\u00e7\u00e3o por tal sorte complicada, que era de desconfiar que n\u00e3o bastassem para ver-lhe o fim os dias que restavam de vida \u00e0 pobre velha.<\/p>\n<p>Tinha-se Jos\u00e9 Manuel tornado para Luizinha um verdadeiro marido-drag\u00e3o, desses que s\u00f3 aquele tempo os conta t\u00e3o perfeitos, que eram um supl\u00edcio constante para as mulheres. Depois que se havia mudado de casa de D. Maria, nunca mais Luizinha vira o ar da rua sen\u00e3o \u00e0s furtadelas, pelas frestas da r\u00f3tula: ent\u00e3o chorava ela aquela liberdade de que gozava outrora; aqueles passeios e aquelas palestras \u00e0 porta em noite de luar; aqueles domingos de missa na S\u00e9, ao lado de sua tia com o seu rancho de crioulinhas atr\u00e1s; as visitas que recebiam, e o Leonardo de quem tinha saudades, e tudo aquilo enfim a que n\u00e3o dava nesse tempo muito apre\u00e7o, mas que agora lhe parecia t\u00e3o belo e t\u00e3o agrad\u00e1vel. Tendo-se casado com Jos\u00e9 Manuel, para seguir a vontade de D. Maria, votava a seu marido uma enorme indiferen\u00e7a, que \u00e9 talvez o pior de todos os \u00f3dios.<\/p>\n<p>Pois a vida de Luizinha, depois de casada, representava com fidelidade a vida do maior n\u00famero das mo\u00e7as que ent\u00e3o se casavam: era por isso que as Vidinhas n\u00e3o eram raras, e que poucas fam\u00edlias havia que n\u00e3o tivessem a lamentar um desgostozinho no g\u00eanero do que sofreu aquela pobre fam\u00edlia, que, indo ao Orat\u00f3rio de Pedra, viera dizimada para casa, e cuja hist\u00f3ria serviu de tema \u00e0s intrigas da comadre, quando quis p\u00f4r a Jos\u00e9 Manuel fora do lance.<\/p>\n<p>Ora, \u00e9 claro que tendo D. Maria ficado um pouco s\u00e9ria com a comadre por causa de toda aquela intriga que precedera ao casamento de Jos\u00e9 Manuel com sua sobrinha, agora, que estava com este de candeias \u00e0s avessas, se reatasse o la\u00e7o da amizade que por um pouco afrouxara: sucedia assim com efeito.<\/p>\n<p>Um dia as duas encontraram-se na missa, tornaram-se a falar; as desgra\u00e7as do Leonardo, que fizeram tema a essa conversa\u00e7\u00e3o, enterneceram a D. Maria, que por seu turno tamb\u00e9m referiu \u00e0 comadre tudo quanto sucedia agora \u00e0 pobre Luizinha.<\/p>\n<p>\u2014 A\u00ed, senhora! dizia a comadre referindo-se a Jos\u00e9 Manuel, parece que me roncava c\u00e1 o quer que seja quando via aquele maldito; arrenego do homem que \u00e9 um valdevinos \u00e0s direitas. Aquilo h\u00e1 de levar a pobre menina \u00e0 sepultura. Coitada! bem-criada e malfadada.<\/p>\n<p>\u2014 Nunca pensei, criatura, nunca pensei que sucedesse tal&#8230; Mas aquilo como era fin\u00f3rio! que palavrinhas doces! que santidade aquela! Agora, senhora, agora sou eu capaz de acreditar na hist\u00f3ria da mo\u00e7a furtada no Orat\u00f3rio de Pedra: ele tem bofes para tal&#8230; Mas hei de me ver vingada, oh! se hei de! t\u00e3o certo como estar eu aqui: os desembargadores l\u00e1 est\u00e3o, que me h\u00e3o de dar esse gosto: espero isso em Deus.<\/p>\n<p>Desta conversa, e do mais que se seguiu, nasceu a concilia\u00e7\u00e3o das duas.<\/p>\n<p>Quando certas amizades s\u00e3o uma vez interrompidas, tendo mesmo sofrido um leve estremecimento, \u00e9 dif\u00edcil que voltem depois ao estado primitivo; com outras amizades acontece por\u00e9m o inverso; os estremecimentos aproveitam, porque \u00e9 f\u00e1cil a volta da paz, e parece que depois disto se tornam mais estreitas. A amizade que existia entre D. Maria e a comadre era deste \u00faltimo g\u00eanero. Portanto depois daquela conversa na missa, n\u00e3o s\u00f3 voltaram as rela\u00e7\u00f5es entre as duas ao seu primitivo estado, como se tornaram mais que nunca s\u00f3lidas. Da\u00ed em diante n\u00e3o houve um s\u00f3 segredo entre as duas que n\u00e3o fosse mutuamente comunicado, e elas fizeram pacto de se ajudarem reciprocamente para dar rem\u00e9dio, uma aos males da sobrinha, outra \u00e0s diabruras do afilhado.<\/p>\n<p>O Leonardo, como dissemos, achava-se preso; fizera disso ciente \u00e0 madrinha, que se p\u00f4s logo em alvoroto, n\u00e3o s\u00f3 pelo fato em si, como pelo generoso motivo que o havia ocasionado. O primeiro passo pois que tiveram a dar as duas, D. Maria e a comadre, em virtude do seu pacto, foi tratar de alcan\u00e7ar a soltura do Leonardo, e livr\u00e1-lo do mais que (sabe Deus) lhe estaria preparado.<\/p>\n<p>Vamos ver como se houveram em semelhante empenho.<\/p>\n<h3>TOMO II<\/h3>\n<h2>CAP\u00cdTULO XXII<\/h2>\n<h2>EMPENHOS<\/h2>\n<p>O primeiro passo que deu a comadre foi dirigir-se \u00e0 casa do major a interceder pelo Leonardo; o major por\u00e9m mostrou-se inflex\u00edvel: o caso era grave, j\u00e1 n\u00e3o era o primeiro; a disciplina n\u00e3o podia ser impunemente ofendida mais de uma vez; o castigo devia ser infal\u00edvel e grande. A comadre, que fora cheia de boas esperan\u00e7as, soube pelo major o que ignorava, o que nem mesmo supunha: o Leonardo n\u00e3o s\u00f3 ficaria por mais tempo preso, como teria de ser chibatado&#8230; A pobre mulher, apenas lhe declarou isto o major, caiu de joelhos, chorou, lamentou-se; tudo por\u00e9m debalde. Saiu desesperada, e com a mantilha ca\u00edda, toda em desalinho, correu, voou \u00e0 casa da D. Maria. Ao v\u00ea-la entrar naquele estado, D. Maria ergueu-se de sua banquinha, e largou a almofada da renda.<\/p>\n<p>\u2014 Que tendes, criatura? que tendes? exclamou. Santo Cristo! o que \u00e9? Falai!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ai, Sra. D. Maria do meu cora\u00e7\u00e3o! que desgra\u00e7a! respondeu a comadre: que m\u00e1 sina de rapaz&#8230; Ora, veja o que me sucede por ter feito uma boa a\u00e7\u00e3o!&#8230; E eu que sofro e que sinto como se fosse meu filho&#8230;<\/p>\n<p>E os solu\u00e7os a sufocaram.<\/p>\n<p>\u2014 Fale, senhora, replicou D. Maria; fale, que me p\u00f5e numa afli\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Vai apanhar, D. Maria&#8230; vai apanhar de chibata&#8230; ele&#8230; o Leonardo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Meu Deus, pobre rapaz: ora vejam tudo em que deu; \u00e9 sina, coitado! aquele rapaz n\u00e3o nasceu em bom dia; n\u00e3o, comadre; isso sou eu capaz de jurar pela salva\u00e7\u00e3o da minha alma&#8230; Mas n\u00e3o falou com o major? Que lhe disse ele?<\/p>\n<p>\u2014 Duro como uma pedra, senhora; a nada se moveu: pedi-lhe pelas Cinco Chagas, pela Senhora Sant\u00edssima&#8230; tudo embalde, tudo em v\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 bom, n\u00e3o se aflija, comadre; ainda h\u00e1 um meio que eu penso que n\u00e3o h\u00e1 de falhar: vamos \u00e0 casa dela, que por l\u00e1 \u00e9 caminho certo; ela d\u00e1-se muito comigo, h\u00e1 de pedir pelo mo\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 me tinha lembrado disso; mas na tribula\u00e7\u00e3o em que vinha tornou-me a esquecer; se com ela n\u00e3o se arranjar alguma coisa&#8230; est\u00e1 tudo perdido.<\/p>\n<p>Os leitores est\u00e3o j\u00e1 curiosos por saber quem \u00e9 ela, e t\u00eam raz\u00e3o; vamos j\u00e1 satisfaz\u00ea-los. O major era pecador antigo, e no seu tempo fora daqueles de quem se diz que n\u00e3o deram o seu quinh\u00e3o ao vig\u00e1rio: restava-lhe ainda hoje alguma coisa que \u00e0s vezes lhe recordava o passado: essa alguma coisa era a Maria-Regalada que morava na Prainha. Maria-Regalada fora no seu tempo uma mocetona de truz, como vulgarmente se diz: era de um g\u00eanio sobremaneira folgaz\u00e3o, vivia em cont\u00ednua alegria, ria-se de tudo, e de cada vez que se ria fazia-o por muito tempo e com muito gosto: da\u00ed \u00e9 que vinha o apelido \u2014 regalada \u2014 que haviam juntado ao seu nome.<\/p>\n<p>Isto de apelidos, era no tempo desta hist\u00f3ria uma coisa muito comum; n\u00e3o estranhem pois os leitores que muitas das personagens que aqui figuram tenham esse ap\u00eandice ao seu nome.<\/p>\n<p>Dizem todos, e os poetas juram e trejuram, que o verdadeiro amor \u00e9 o primeiro; temos estudado a mat\u00e9ria, e acreditamos hoje que n\u00e3o h\u00e1 que fiar em poetas: chegamos por nossas investiga\u00e7\u00f5es \u00e0 conclus\u00e3o de que o verdadeiro amor, ou s\u00e3o todos ou \u00e9 um s\u00f3, e neste caso n\u00e3o \u00e9 o primeiro, \u00e9 o \u00faltimo. O \u00faltimo \u00e9 que \u00e9 o verdadeiro, porque \u00e9 o \u00fanico que n\u00e3o muda. As leitoras que n\u00e3o concordarem com esta doutrina conven\u00e7am-me do contr\u00e1rio, se s\u00e3o disso capazes.<\/p>\n<p>Isto tudo vem para dizermos que Maria-Regalada tinha um verdadeiro amor ao major Vidigal; o major pagava-lho na mesma moeda. Ora, D. Maria era uma das camaradas mais do cora\u00e7\u00e3o de Maria-Regalada. Eis a\u00ed por que falando dela D. Maria e a comadre se mostraram t\u00e3o esperan\u00e7adas a respeito da sorte do Leonardo.<\/p>\n<p>J\u00e1 naquele tempo (e dizem que \u00e9 defeito do nosso) o empenho, o compadresco eram uma mola real de todo o movimento social.<\/p>\n<p>\u2014 Vai mandar aprontar a cadeirinha, disse D. Maria a uma de suas escravas.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos, senhora, vamos que isto s\u00e3o os meus pecados velhos.<\/p>\n<p>D. Maria aprontou-se, meteu-se na sua cadeirinha; a comadre tomou a mantilha, e partiram para a Prainha.<\/p>\n<p>Maria-Regalada recebeu-as com uma boa risada.<\/p>\n<p>\u2014 Que milagre de Santa Engr\u00e1cia! que fortuna! que alegr\u00e3o! O que a traz por aqui? Isto \u00e9 grande novidade!<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 novidade, sim, respondeu D. Maria, por\u00e9m triste novidade.<\/p>\n<p>Com as honras do estilo, que n\u00e3o eram muitas naquele tempo, foi a comadre apresentada, porque n\u00e3o era conhecida de Maria-Regalada. Primeiro D. Maria, depois a comadre, contaram, cada uma por sua parte, a hist\u00f3ria do Leonardo com todos os detalhes, e depois de in\u00fameros rodeios, que puseram a arder a paci\u00eancia da ouvinte, e quase a fizeram morrer de curiosidade, chegaram finalmente ao ponto importante, ao motivo que ali as levara: queriam nada menos do que a soltura e perd\u00e3o do Leonardo, e contavam para alcan\u00e7ar semelhante coisa com a influ\u00eancia da Maria-Regalada sobre o major.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, disse esta tomando um ar de mod\u00e9stia, eu j\u00e1 n\u00e3o presto para nada&#8230; isso era bom noutro tempo&#8230; agora&#8230; o major&#8230; as coisas est\u00e3o mudadas, D. Maria&#8230; depois que ele se meteu na pol\u00edcia&#8230; nem mais nem ontem&#8230; quem sabe o que por l\u00e1 vai!&#8230; Mas enfim, D. Maria, eu n\u00e3o sei dizer que n\u00e3o, tenho o cora\u00e7\u00e3o assim, e sempre o tive&#8230; no meu tempo muita gente se aproveitou disto&#8230; Eu farei o que puder; vou falar-lhe&#8230; talvez que ele me queira atender&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 de atender, h\u00e1 de, respondeu a comadre; ele j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o velho que se tenha esquecido de todo do tempo de dantes.<\/p>\n<p>\u2014 Veremos, veremos. A Sra. comadre sabe l\u00e1 o que s\u00e3o homens?!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Diga-me a mim&#8230; se sei!&#8230; acudiu esta prontamente.<\/p>\n<p>\u2014 Mas ent\u00e3o, atalhou D. Maria, o neg\u00f3cio requer toda a pressa, porque de um instante para outro podem chegar a farda ao corpo do pobre rapaz, e depois nem Santo Ant\u00f4nio a tira.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o h\u00e1 de haver novidade; ainda havemos chegar a tempo, com a gra\u00e7a de Deus. Para maior seguran\u00e7a vamos todas tr\u00eas daqui \u00e0 casa do major, e cada uma por nosso lado faremos tudo para livrar o mo\u00e7o.<\/p>\n<p>Maria-Regalada vestiu-se \u00e0 pressa, tomou a sua mantilha, e ao lado da cadeirinha em que ia D. Maria partiram para a casa do major.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XXIII<\/h2>\n<h2>AS TR\u00caS EM COMISS\u00c3O<\/h2>\n<p>Partiram pois as tr\u00eas para a casa do major, que morava ent\u00e3o na rua da Miseric\u00f3rdia, uma das mais antigas da cidade. O major recebeu-as de rodaque de chita e tamancos, n\u00e3o tendo a princ\u00edpio suposto o quilate da visita; apenas por\u00e9m reconheceu as tr\u00eas, correu apressado \u00e0 camarinha vizinha, e envergou o mais depressa que p\u00f4de a farda; como o tempo urgia, e era uma incivilidade deixar s\u00f3s as senhoras, n\u00e3o completou o uniforme, e voltou de novo \u00e0 sala de farda, cal\u00e7as de enfiar, tamancos, e um len\u00e7o de Alcoba\u00e7a sobre o ombro, segundo seu uso. A comadre, ao v\u00ea-lo assim, apesar da afli\u00e7\u00e3o em que se achava, mal p\u00f4de conter uma risada que lhe veio aos l\u00e1bios. Os cumprimentos da recep\u00e7\u00e3o passaram sem novidade. Na atropela\u00e7\u00e3o em que entrara o major, a comadre enxergou logo um bom agouro para o resultado do seu neg\u00f3cio. Acrescia ainda em seu favor que o major guardava na sua velhice doces recorda\u00e7\u00f5es da mocidade, e apenas se via cercado por mulheres, se n\u00e3o era um lugar p\u00fablico e em circunst\u00e2ncias em que a disciplina pudesse ficar lesada, tornava-se um bab\u00e3o, como s\u00f3 se poderia encontrar segundo no velho Leonardo. Se estas lhe davam ent\u00e3o no fraco, se lhe faziam um elogio, se lhe faziam uma car\u00edcia por mais estupidamente fingida que fosse, arrancavam dele tudo quanto queriam; ele pr\u00f3prio espontaneamente se oferecia para o que podiam desejar, e ainda em cima ficava muito obrigado. Contudo, posto que a comadre soubesse j\u00e1 desta circunst\u00e2ncia com antecipa\u00e7\u00e3o, ou o pressentisse pelas apar\u00eancias, a gravidade do neg\u00f3cio de que se tratava era tal, que nem isso bastou para tranq\u00fciliz\u00e1-la. Disp\u00f4s-se para o ataque, ajudada por suas companheiras, que, apesar de mais estranhas \u00e0 sorte do Leonardo, nem por isso se ligavam menos \u00e0 sua causa. Houve um momento de perplexidade para decidir-se quem seria o orador da comiss\u00e3o. O major percebeu isto, e teve um lampejo de orgulho por ver assim tr\u00eas mulheres confundidas e atrapalhadas diante de sua alta pessoa; fez um movimento como para anim\u00e1-las, arrastando sem querer os tamancos.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! de tamancos e farda n\u00e3o est\u00e1 m\u00e1&#8230; Senhoras donas, coisas de velho; no meu tempo n\u00e3o fazia eu destas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 D. Maria que o diga, acudiu logo a comadre referindo-se a Maria-Regalada, e querendo fazer brecha fosse por onde fosse: mas n\u00e3o importa; o neg\u00f3cio \u00e9 outro&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, Sr. major, o bom tempo j\u00e1 l\u00e1 foi.<\/p>\n<p>\u2014 E Deus perdoe a quem dele tem saudades, retorquiu o major rindo-se com um riso rugoso de velha sensualidade&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, sim, tornou a Maria-Regalada; mas deixe essas coisas todas para logo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ai criatura, acudiu D. Maria, que at\u00e9 ent\u00e3o estivera calada, cansada talvez do n\u00famero prodigioso de mesuras que fizera ao entrar; deixai cada um lembrar-se do seu tempo, isto consola; eu c\u00e1 gosto bem quando acho&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 como eu, respondeu o major; em se me tocando c\u00e1 nas feridas antigas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois \u00e9 mesmo por me lembrar destas feridas antigas, atalhou a Maria-Regalada, que venho aqui com estas senhoras donas, que o Sr. major bem conhece; e se n\u00e3o foram elas c\u00e1 n\u00e3o viera, pois o neg\u00f3cio \u00e9 s\u00e9rio&#8230;<\/p>\n<p>A comadre achou a ocasi\u00e3o bem apanhada, e fez com a cabe\u00e7a um sinal de aprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos l\u00e1 ver o que \u00e9 o tal neg\u00f3cio s\u00e9rio, respondeu o major atinando, pela presen\u00e7a da comadre, pouco mais ou menos com o que era, e pelo que fez um sinal duvidoso com a cabe\u00e7a, ou para fazer-se de bom, ou porque realmente n\u00e3o quisesse abrir largas esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>A interlocutora prosseguiu:<\/p>\n<p>\u2014 O seu granadeiro Leonardo \u00e9 um bom rapaz.<\/p>\n<p>O major arqueou franzindo as sobrancelhas, e repuxou os bei\u00e7os, como quem n\u00e3o concordava in totum com aquilo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me comece j\u00e1 com coisas, Sr. major. Pois \u00e9, sim, senhor, muito bom rapaz, e n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para ser castigado, por causa de uma coisa nenhuma que fez&#8230; Isso n\u00e3o \u00e9 raz\u00e3o, n\u00e3o, senhor, para se mandar tocar de chibata um mo\u00e7o que n\u00e3o \u00e9 nenhum valdevinos; pois o Sr. major bem sabe que o padrinho quando morreu deixou-lhe alguma coisa, que bem lhe podia estar j\u00e1 nas m\u00e3os, e ele por isso livre da maldita farda, a quem sempre tive zanga (menos de uma que bem se sabe), se o pai que tem&#8230; mas deixemos o pai que n\u00e3o vem nada ao caso&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 sei de tudo, j\u00e1 sei de tudo, atalhou o major.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda n\u00e3o Sr. major, observou a comadre, ainda n\u00e3o sabe do melhor, e \u00e9 que o que ele praticou naquela ocasi\u00e3o quase que n\u00e3o estava nas suas m\u00e3os. Bem sabe que um filho na casa de seu pai&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas um filho quando \u00e9 soldado, retorquiu o major com toda a gravidade disciplinar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Nem por isso deixa de ser filho, tornou D. Maria.<\/p>\n<p>\u2014 Bem sei, mas a lei?<\/p>\n<p>\u2014 Ora, a lei&#8230; o que \u00e9 a lei, se o Sr. major quiser?<\/p>\n<p>O major sorriu-se com c\u00e2ndida mod\u00e9stia. A discuss\u00e3o foi-se assim animando; por\u00e9m o major nada de ceder, at\u00e9 pelo contr\u00e1rio parecia mais inflex\u00edvel do que nunca; chegou mesmo a p\u00f4r-se em p\u00e9 e a falar muito exaltadamente contra o atentado do Leonardo, e a necessidade de um severo castigo. Era engra\u00e7ado v\u00ea-lo no bonito uniforme que indicamos, de p\u00e9, fazendo um serm\u00e3o sobre a disciplina, diante daquelas tr\u00eas ouvintes t\u00e3o incr\u00e9dulas que resistiam aos mais fortes argumentos.<\/p>\n<p>Ainda por\u00e9m n\u00e3o tinham as tr\u00eas esgotado contra ele o seu \u00faltimo recurso; puseram-no pois em a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando mais influ\u00eddo estava o major, as tr\u00eas, a um s\u00f3 tempo, e como de combina\u00e7\u00e3o, desataram a chorar&#8230; O major parou&#8230; encarou-as um instante: seu semblante foi-se visivelmente enternecendo, enrugando, e por fim desatou tamb\u00e9m a chorar de enternecido. Apenas as tr\u00eas se aperceberam deste triunfo carregaram sobre o inimigo. Foi ent\u00e3o uma algazarra, uma choradeira sem nome, capaz de mover as pedras.<\/p>\n<p>O major de enternecido foi passando a atordoado, e como que ficou envergonhado das l\u00e1grimas que lhe corriam pelas faces: enxugou-as, e procurou reassumir toda a sua antiga gravidade.<\/p>\n<p>\u2014 Nada, disse desembara\u00e7ando-se das tr\u00eas, e passeando a passos largos pela sala; nada: que haviam dizer de mim se me vissem aqui nestas choramingas de crian\u00e7a? Eu, o major, o Vidigal, a chorar no meio de tr\u00eas mulheres!&#8230; Senhoras donas, o caso \u00e9 grave, e n\u00e3o lhe vejo rem\u00e9dio; o exemplo, a disciplina, as leis militares&#8230; nada, n\u00e3o pode ser&#8230;<\/p>\n<p>E deu as costas \u00e0s tr\u00eas, continuando a passear e a fazer ressoar com for\u00e7a os tamancos no assoalho.<\/p>\n<p>Maria-Regalada disse baixo \u00e0s duas, em cujos semblantes j\u00e1 nem transluzia o mais pequeno vislumbre de esperan\u00e7a:<\/p>\n<p>\u2014 Ainda n\u00e3o est\u00e1 tudo perdido&#8230;<\/p>\n<p>E dirigindo-se ao major acrescentou:<\/p>\n<p>\u2014 Bem, Sr. major; \u00e1guas passadas n\u00e3o movem moinho&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Qual passadas, senhora dona! mas bem v\u00ea que o caso \u00e9 grave&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Seja l\u00e1 o que for, sinto ter perdido meus passos, e n\u00e3o servir a quem desejava; verdade seja que eu j\u00e1 contava com isso, e tamb\u00e9m n\u00e3o prometi&#8230; Mas em \u00faltimo lugar quero sempre dizer-lhe uma coisa, mas h\u00e1 de ser em particular&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Vamos l\u00e1, estou pronto.<\/p>\n<p>Quem tivesse alguma perspic\u00e1cia conheceria, n\u00e3o com grande facilidade, que o major estava h\u00e1 muito tempo disposto a ceder, por\u00e9m que queria fazer-se rogado.<\/p>\n<p>Maria-Regalada levou ent\u00e3o o major para um canto da sala, e disse-lhe ao ouvido algumas palavras. O major, desanuviou o rosto, remexeu-se todo, co\u00e7ou a cabe\u00e7a, balan\u00e7ou com as pernas, mordeu os bei\u00e7os.<\/p>\n<p>\u2014 Ora esta! disse em voz baixa \u00e0 sua interlocutora; pois era preciso falar nisto? Enfim&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora, gra\u00e7as que se lhe acabaram os sestros, respondeu Maria-Regalada em voz alta.<\/p>\n<p>\u2014 Sim?!&#8230; exclamaram as duas sorrindo de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Eu bem dizia que o Sr. major tinha bom cora\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu nunca duvidei, apesar de tudo&#8230; mas agora, o passado, passado; o caso era grave, como ele dizia, e foi um favor!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, D. Maria? Quem foi rei sempre teve majestade&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Majestade&#8230; qual! isso j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 para mim&#8230;<\/p>\n<p>O major atalhou esta explos\u00e3o de gratid\u00e3o que levava visos de ir longe.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e3o de ficar ainda mais contentes comigo&#8230; n\u00e3o lhes digo por qu\u00ea, mas ver\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Esta agora \u00e9 que \u00e9 grande; veremos o que ser\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 sei: \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 de ser por for\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Estou quase adivinhando.<\/p>\n<p>\u2014 Sabem que mais? atalhou o major; s\u00e3o horas de uma dilig\u00eancia a que n\u00e3o posso faltar&#8230; O rapaz est\u00e1 livre de tudo; contanto que, acrescentou dirigindo-se a Maria-Regalada, o dito, dito&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu nunca faltei \u00e0 minha palavra, replicou esta.<\/p>\n<p>Retiraram-se as tr\u00eas cheias do maior contentamento, e o major saiu depois tamb\u00e9m para cumprir a sua promessa.<\/p>\n<h3>TOMO II<\/h3>\n<h2>CAP\u00cdTULO XXIV<\/h2>\n<h2>A MORTE \u00c9 JUIZ<\/h2>\n<p>D. Maria dirigiu-se imediatamente para casa na sua cadeirinha. Ao chegar notou grande rumor e alvoro\u00e7o, e tratou logo de indagar a causa. Um escravo de sua sobrinha a esperava com uma carta. Apenas a leu, D. Maria, n\u00e3o diremos que se entristeceu, por\u00e9m mostrou-se muito atrapalhada.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o entrem com a cadeirinha; esperem l\u00e1, que torno a sair.<\/p>\n<p>E com efeito meteu-se de novo nela, e mandou que seguissem para casa de sua sobrinha.<\/p>\n<p>O caso era o seguinte: Jos\u00e9 Manuel entrara para casa em bra\u00e7os, tendo sido acometido na rua de um violento ataque apopl\u00e9tico ao voltar do cart\u00f3rio, onde tivera uma grave contesta\u00e7\u00e3o com o procurador de D. Maria, por causa da demanda que entretinham. Luizinha, a coitada, vendo-se naqueles apuros, sem saber o que fizesse, despachara logo portador para casa de sua tia.<\/p>\n<p>D. Maria apenas entrou mandou chamar o licenciado, que depois de examinar o doente declarou que era caso perdido. Fizeram-se entretanto algumas aplica\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o tiveram resultado algum.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1s vi\u00fava, menina, disse D. Maria alguma coisa compungida com a declara\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Luizinha p\u00f4s-se a chorar, mas como choraria por qualquer vivente, porque tinha cora\u00e7\u00e3o terno.<\/p>\n<p>Estavam presentes algumas pessoas da vizinhan\u00e7a, e uma delas disse baixinho \u00e0 outra, vendo o pranto de Luizinha:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o s\u00e3o l\u00e1grimas de vi\u00fava&#8230;<\/p>\n<p>E n\u00e3o eram, n\u00f3s j\u00e1 o dissemos: o mundo faz disso as mais das vezes um crime. E os antecedentes? Porventura ante seu cora\u00e7\u00e3o fora Jos\u00e9 Manuel marido de Luizinha? Nunca o fora sen\u00e3o ante as conveni\u00eancias, e para as conveni\u00eancias aquelas l\u00e1grimas bastavam. Nem o m\u00e9dico nem D. Maria se haviam enganado: \u00e0 noitinha Jos\u00e9 Manuel expirou.<\/p>\n<p>No dia seguinte fizeram-se os preparativos para o enterro. A comadre, informada de tudo, compareceu pesarosa a prestar seus bons of\u00edcios, suas consola\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O enterro saiu acompanhado pela gente da amizade: os escravos da casa fizeram uma algazarra tremenda. A vizinhan\u00e7a p\u00f4s-se toda \u00e0 janela, e tudo foi analisado, desde as argolas e gal\u00f5es do caix\u00e3o at\u00e9 o n\u00famero e qualidades dos convidados; e sobre cada um desses pontos apareceram tr\u00eas ou quatro opini\u00f5es diversas.<\/p>\n<p>Naqueles tempos ainda se n\u00e3o usavam os discursos f\u00fanebres, nem os necrol\u00f3gios, que hoje andam tanto em voga; escapamos pois de mais essa. Jos\u00e9 Manuel dorme em paz no seu derradeiro jazigo.<\/p>\n<p>Como havia prometido a comadre, algu\u00e9m chegou quase ao anoitecer. Era o Leonardo. Quando ele entrou na sala D. Maria n\u00e3o p\u00f4de conter um grito de surpresa.<\/p>\n<p>Vinha em completo uniforme de sargento da companhia de granadeiros!<\/p>\n<p>\u2014 Como! olhem o major. E ent\u00e3o?!<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, senhora dona, respondeu o Leonardo; a ele tudo devo.<\/p>\n<p>Foi aquilo objeto de geral espanto. Ficariam todos muito contentes com a simples soltura do Leonardo; e n\u00e3o s\u00f3 ele aparecia solto e livre, como at\u00e9 elevado ao posto de sargento, o que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 no ex\u00e9rcito pouca coisa.<\/p>\n<p>O Leonardo come\u00e7ou a procurar com os olhos alguma coisa ou algu\u00e9m que tinha curiosidade de ver; deu com o que procurava: era Luizinha. H\u00e1 muito que os dois se n\u00e3o viam; n\u00e3o puderam pois ocultar o embara\u00e7o de que se acharam tomados. E foi tanto maior essa emo\u00e7\u00e3o, que ambos ficaram surpreendidos um do outro. Luizinha achou Leonardo um guapo rapag\u00e3o de bigodes e su\u00ed\u00e7a; elegante at\u00e9 onde pode s\u00ea-lo, um soldado de granadeiros, com o seu uniforme de sargento bem assente. Leonardo achou Luizinha uma mo\u00e7a espigada, airosa mesmo, olhos e cabelos pretos, tendo perdido todo aquele acanhamento f\u00edsico de outrora. Al\u00e9m disso seus olhos, avermelhados pelas l\u00e1grimas, seu rosto empalidecido, se n\u00e3o verdadeiramente pelos desgostos daquele dia, seguramente pelos antecedentes, tinham nessa ocasi\u00e3o um toque de beleza melanc\u00f3lica, que em regra geral n\u00e3o devia prender muito a aten\u00e7\u00e3o de um sargento de granadeiros, mas que enterneceu ao sargento Leonardo, que, apesar de tudo, n\u00e3o era um sargento como qualquer. E tanto assim, que durante a cena muda que se passou, quando os dois deram com os olhos um no outro, passaram rapidamente pelo pensamento do Leonardo os lances de sua vida de outrora, e, remontando de fato em fato, chegou \u00e0quela rid\u00edcula mas ing\u00eanua cena da sua declara\u00e7\u00e3o de amor a Luizinha. Pareceu-lhe que tinha ent\u00e3o escolhido mal a ocasi\u00e3o, e que agora isso teria um lugar muito mais acertado.<\/p>\n<p>A comadre, que dava uma perspicaz aten\u00e7\u00e3o a tudo o que se passava, como que leu na alma do afilhado aqueles pensamentos todos; fez um gesto quase impercept\u00edvel de alegria: raiava-lhe na mente alguma id\u00e9ia luminosa. Come\u00e7ou ent\u00e3o a retra\u00e7ar um antigo plano em cuja execu\u00e7\u00e3o por muito tempo trabalhava, e cujas probabilidades de \u00eaxito lhe haviam reaparecido no que se acabava de passar.<\/p>\n<p>Passada a primeira emo\u00e7\u00e3o, Luizinha ergueu-se e fez ao Leonardo um acanhado cumprimento: este correspondeu-lhe com alguma coisa entre cumprimento paisano e contin\u00eancia militar.<\/p>\n<p>A comadre rompeu depois disto a conversa, procurando entreter D. Maria, e deixar os dois entregues a si.<\/p>\n<p>\u2014 Diga-me, disse ela dirigindo-se a D. Maria, e aquela sua demanda com o defunto?<\/p>\n<p>\u2014 A morte foi desta vez juiz. Ele n\u00e3o tem herdeiros; era s\u00f3 no mundo&#8230; Eu n\u00e3o levei a minha avante, \u00e9 verdade, porque enfim n\u00e3o posso dizer que venci; mas tamb\u00e9m n\u00e3o perdi. Agora sim, tenho muito gosto de entregar tudo \u00e0 menina, mas n\u00e3o queria que me levassem as coisas se, n\u00e3o por minha muito livre vontade.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 bem; o passado j\u00e1 l\u00e1 vai: Deus \u00e9 assim, escreve direito por linhas tortas.<\/p>\n<p>E por a\u00ed adiante empenharam-se na sua conversa. Os dois, depois de algum tempo de sil\u00eancio, como j\u00e1 se tinham retirado todas as visitas, foram pouco e pouco, de palavra em palavra, travando di\u00e1logo, e conversavam no fim de algum tempo t\u00e3o empenhadamente como a comadre e D. Maria, com a diferen\u00e7a que a conversa daquelas duas era alta, desembara\u00e7ada; a deles baixa e reservada.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nada que interrompida mais depressa se reate do que seja a familiaridade em que o cora\u00e7\u00e3o \u00e9 interessado. N\u00e3o se estranhe pois que Luizinha e Leonardo a ela se entregassem.<\/p>\n<p>E querem ver uma singularidade que \u00e0s vezes se repete? Depois que se fizera mo\u00e7a, e que tomara estado, nunca Luizinha tinha tido momentos de t\u00e3o verdadeiro prazer como os que ali estava gozando naquela conversa, num dia de luto, quando acabava de sair o caix\u00e3o que levara \u00e0 sepultura aquele que devia ter feito a sua felicidade. O Leonardo tamb\u00e9m por sua vez, nunca, no meio de todas as vicissitudes de sua vida extravagante, tinha tido instantes que t\u00e3o r\u00e1pidos lhe corressem do que aqueles em que via o objeto de seus primeiros amores sob o peso do infort\u00fanio em um dia de pranto.<\/p>\n<p>Pois parece que estas mesmas circunst\u00e2ncias reavivaram o passado: a comadre folgava l\u00e1 no seu lugar com tudo aquilo, e, parecendo prestar toda a aten\u00e7\u00e3o a D. Maria, n\u00e3o perdia uma s\u00f3 circunst\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Finalmente chegou a hora da retirada, n\u00e3o da comadre, que se ofereceu para fazer companhia \u00e0 vi\u00fava, por\u00e9m de Leonardo, a quem esperava o major, porque era dia de servi\u00e7o, e apenas tinha ele obtido licen\u00e7a para cumprir o duplo dever de dar os p\u00easames a D. Maria, e agradecer o interesse que por ele havia tomado, fazendo por interm\u00e9dio de Maria-Regalada que o major n\u00e3o s\u00f3 lhe alcan\u00e7asse perd\u00e3o do castigo que lhe era destinado, como tamb\u00e9m o acesso de posto que repentinamente tivera.<\/p>\n<p>Luizinha involuntariamente estendeu \u00e0 despedida a m\u00e3o ao Leonardo, que lha apertou com for\u00e7a.<\/p>\n<p>Ora, isto naquele tempo era bastante para dar que falar ao mundo inteiro!<\/p>\n<h3>TOMO II<\/h3>\n<h2>CAP\u00cdTULO XXV<\/h2>\n<h2>CONCLUS\u00c3O FELIZ<\/h2>\n<p>A comadre passou com a vi\u00fava e sua tia quase todo o tempo do nojo, e acompanhou-as \u00e0 missa do s\u00e9timo dia. O Leonardo compareceu tamb\u00e9m nessa ocasi\u00e3o, e levou a fam\u00edlia \u00e0 casa depois de acabado o sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>Aquele aperto de m\u00e3o que no dia do enterro de seu marido Luizinha dera ao Leonardo n\u00e3o ca\u00edra no ch\u00e3o a D. Maria, assim como tamb\u00e9m lhe n\u00e3o escaparam muitos outros fatos consecutivos a esse.<\/p>\n<p>O caso \u00e9 que n\u00e3o lhe parecia extravagante certa id\u00e9ia que lhe andava na mente.<\/p>\n<p>Muitas vezes, ao cair de ave-maria, quando a boa da velha se sentava a rezar na sua banquinha em um canto da sala, entre um padre-nosso e uma ave-maria do seu bendito ros\u00e1rio, vinha-lhe \u00e0 id\u00e9ia casar de novo a fresca viuvinha, que corria o risco de ficar de um momento para outro desamparada num mundo em que maridos, como Jos\u00e9 Manuel, n\u00e3o s\u00e3o dif\u00edceis de aparecer, especialmente a uma viuvinha apatacada.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo que lhe vinha esta id\u00e9ia lembrava-se do Leonardo, que amara a sua sobrinha no tempo da crian\u00e7ada, e que era, apesar de extravagante, um bom mo\u00e7o, n\u00e3o de todo desarranjado, gra\u00e7as \u00e0 benevol\u00eancia do padrinho barbeiro.<\/p>\n<p>Verdade \u00e9 que se n\u00e3o sabiam bem as contas que seu pai havia feito a esse respeito; mas como era coisa que constava de verba testament\u00e1ria, D. Maria nada via de mais f\u00e1cil do que propor uma demanda, cujo resultado n\u00e3o seria duvidoso.<\/p>\n<p>Havia por\u00e9m no meio de tudo uma circunst\u00e2ncia que lhe desconsertava os planos. O Leonardo era soldado. Ora, soldado, naquele tempo, era coisa de meter medo.<\/p>\n<p>Quando D. Maria chegava a este ponto de suas medita\u00e7\u00f5es, abandonava-as, e continuava o seu ros\u00e1rio.<\/p>\n<p>A comadre fazia quase exatamente os mesmos c\u00e1lculos por sua parte, e tamb\u00e9m s\u00f3 esta \u00fanica dificuldade se antolhava \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de seus planos.<\/p>\n<p>Enquanto estas duas pensavam, os outros dois obravam.<\/p>\n<p>Luizinha e Leonardo haviam reatado o antigo namoro; e quem quiser ver coisa de andar depressa \u00e9 ver namoro de vi\u00fava.<\/p>\n<p>Na primeira ocasi\u00e3o Leonardo quis recorrer a uma nova declara\u00e7\u00e3o; Luizinha por\u00e9m fez o processo sum\u00e1rio, aceitando a declara\u00e7\u00e3o de h\u00e1 tantos anos.<\/p>\n<p>Sem que os vissem, viam-se os dois muitas vezes, e dispunham seus neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>Infelizmente ocorria-lhes a mesma dificuldade: um sargento de linha n\u00e3o podia casar. Havia talvez um meio muito simples de tudo remediar. Antes de tudo, por\u00e9m, os dois amavam-se sinceramente; e a id\u00e9ia de uma uni\u00e3o ileg\u00edtima lhes repugnava.<\/p>\n<p>O amor os inspirava bem.<\/p>\n<p>Esse meio de que falamos, essa caricatura da fam\u00edlia, ent\u00e3o muito em moda, \u00e9 seguramente uma das causas que produziu o triste estado moral da nossa sociedade.<\/p>\n<p>S\u00f3 essa dificuldade demorava os dois. Entretanto o Leonardo achou um dia o salvat\u00e9rio, e veio comunicar a Luizinha o meio que tudo remediava: podia ficar ele sendo soldado e casar, dando baixa na tropa de linha, e passando-se no mesmo posto para as Mil\u00edcias.<\/p>\n<p>A dificuldade, por\u00e9m, estava ainda em arranjar-se essa baixa e essa passagem: Luizinha encarregou-se de vencer esse embara\u00e7o.<\/p>\n<p>Um dia em que estava sua tia a rezar no seu ros\u00e1rio, justamente num daqueles intervalos de padre-nosso a ave-maria de que acima falamos, Luizinha chegou a ela, e comunicou-lhe com confian\u00e7a tudo que havia, fazendo preceder sua narra\u00e7\u00e3o da seguinte declara\u00e7\u00e3o, que cortava a quest\u00e3o pela raiz:<\/p>\n<p>\u2014 Para lhe obedecer e fazer-lhe o gosto casei-me uma vez, e n\u00e3o fui feliz; quero ver agora se acerto melhor, fazendo por mim mesma nova escolha.<\/p>\n<p>Em breve, por\u00e9m, conheceu que fora in\u00fatil sua precau\u00e7\u00e3o, porque D. Maria confessou que de h\u00e1 muito ruminava aquele mesmo plano.<\/p>\n<p>Combinaram-se pois as duas.<\/p>\n<p>A bondade do major inspirava-lhes muita confian\u00e7a, e lembraram-se por isso de recorrer a ele de novo.<\/p>\n<p>Foram ter com Maria-Regalada, que mesmo na v\u00e9spera lhes tinha mandado dar parte que se mudara da Prainha, e oferecia-lhes sua nova morada.<\/p>\n<p>A comadre, de tudo inteirada, fez parte da comiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando entraram em casa de Maria-Regalada, a primeira pessoa que lhes apareceu foi o major Vidigal, e, o que \u00e9 mais, o major Vidigal, em h\u00e1bitos menores, de rodaque e tamancos.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! disse a comadre em tom malicioso, apenas apareceu a Maria-Regalada, pelo que vejo isto por aqui vai bem&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se lembra, respondeu Maria-Regalada, daquele segredo com que obtive o perd\u00e3o do mo\u00e7o? Pois era isto!&#8230;<\/p>\n<p>A Maria-Regalada tinha por muito tempo resistido aos desejos ardentes que nutria o major de que ela viesse definitivamente morar em sua companhia. N\u00e3o atribu\u00edmos esta resist\u00eancia sen\u00e3o a capricho, para n\u00e3o fazermos mau ju\u00edzo de ningu\u00e9m; o caso \u00e9 que o major punha naquilo o maior empenho; teria l\u00e1 suas raz\u00f5es.<\/p>\n<p>O segredo que a Maria-Regalada dissera ao ouvido do major no dia em que fora, acompanhada por D. Maria e a comadre, pedir pelo Leonardo, foi a promessa de que, se fosse servida, cumpriria o gosto do major.<\/p>\n<p>Est\u00e1 pois explicada a benevol\u00eancia deste para com o Leonardo, que fora ao ponto de n\u00e3o s\u00f3 disfar\u00e7ar e obter perd\u00e3o de todas as suas faltas, como de alcan\u00e7ar-lhe aquele r\u00e1pido acesso de posto.<\/p>\n<p>Fica tamb\u00e9m explicada a presen\u00e7a do major em casa da Maria-Regalada.<\/p>\n<p>Depois disto entraram todos em confer\u00eancia. O major desta vez achou o pedido muito justo, em conseq\u00fc\u00eancia do fim que se tinha em vista. Com a sua influ\u00eancia tudo alcan\u00e7ou; e em uma semana entregou ao Leonardo dois pap\u00e9is: \u2014 um era a sua baixa de tropa de linha; outro, sua nomea\u00e7\u00e3o de Sargento de Mil\u00edcias.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disto recebeu o Leonardo ao mesmo tempo carta de seu pai, na qual o chamava para fazer-lhe entrega do que lhe deixara seu padrinho, que se achava religiosamente intacto.<\/p>\n<p>Passado o tempo indispens\u00e1vel do luto, o Leonardo, em uniforme de Sargento de Mil\u00edcias, recebeu-se na S\u00e9 com Luizinha, assistindo \u00e0 cerim\u00f4nia a fam\u00edlia em peso.<\/p>\n<p>Daqui em diante aparece o reverso da medalha. Seguiu-se a morte de D. Maria, a do Leonardo-Pataca, e uma enfiada de acontecimentos tristes que pouparemos aos leitores, fazendo aqui ponto final.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuel Ant\u00f4nio de Almeida CAP\u00cdTULO I ORIGEM, NASCIMENTO E BATIZADO Era no tempo do rei. 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