{"id":113521,"date":"2017-03-14T12:32:56","date_gmt":"2017-03-14T14:32:56","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=113521"},"modified":"2017-03-14T12:40:00","modified_gmt":"2017-03-14T14:40:00","slug":"poesias-manoel-de-barros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/poesias-manoel-de-barros","title":{"rendered":"Poesias &#8211; Manoel de Barros"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"399\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no item desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"top\" width=\"220\">\n<div align=\"center\"><strong><strong><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#1\">A Namorada <\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#2\">Auto-Retrato Falado<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#3\">Di\u00e1rio de Bugrinha (Excertos)<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#4\">Mundo Pequeno<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#5\">Nos Prim\u00f3rdios<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#6\">O Catador<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#7\">O Guardador de \u00c1guas<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#8\">O Livro Sobre Nada<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#9\">Retrato Quase Apagado em que Se Pode Ver Nada<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#10\">Uma Did\u00e1tica da Inven\u00e7\u00e3o<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#11\">Seis ou Treze Coisas que Aprendi Sozinho<\/a><\/strong><\/strong>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Manoel de Barros<\/h4>\n<h4><a name=\"1\"><\/a>A Namorada<\/h4>\n<p>Havia um muro alto entre nossas casas.<br \/>\nDif\u00edcil de mandar recado para ela.<br \/>\nN\u00e3o havia e-mail.<br \/>\nO pai era uma on\u00e7a.<br \/>\nA gente amarrava o bilhete numa pedra presa por<br \/>\num cord\u00e3o<br \/>\nE pinchava a pedra no quintal da casa dela.<br \/>\nSe a namorada respondesse pela mesma pedra<br \/>\nEra uma gl\u00f3ria!<br \/>\nMas por vezes o bilhete enganchava nos galhos da goiabeira<br \/>\nE ent\u00e3o era agonia.<br \/>\nNo tempo do on\u00e7a era assim.<\/p>\n<h4><a name=\"2\"><\/a>Auto-Retrato Falado<\/h4>\n<p>Venho de um Cuiab\u00e1 de garimpos e de ruelas entortadas.<\/p>\n<p>Meu pai teve uma venda no Beco da Marinha, onde nasci.<\/p>\n<p>Me criei no Pantanal de Corumb\u00e1 entre bichos do ch\u00e3o,<\/p>\n<p>aves, pessoas humildes, \u00e1rvores e rios.<\/p>\n<p>Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar<\/p>\n<p>entre pedras e lagartos.<\/p>\n<p>J\u00e1 publiquei 10 livros de poesia: ao public\u00e1-los me sinto<\/p>\n<p>meio desonrado e fujo para o Pantanal onde sou<\/p>\n<p>aben\u00e7oado a gar\u00e7as.<\/p>\n<p>Me procurei a vida inteira e n\u00e3o me achei \u2014 pelo que<\/p>\n<p>fui salvo.<\/p>\n<p>N\u00e3o estou na sarjeta porque herdei uma fazenda de gado.<\/p>\n<p>Os bois me recriam.<\/p>\n<p>Agora eu sou t\u00e3o ocaso!<\/p>\n<p>Estou na categoria de sofrer do moral porque s\u00f3 fa\u00e7o<\/p>\n<p>coisas in\u00fateis.<\/p>\n<p>No meu morrer tem uma dor de \u00e1rvore.<\/p>\n<h4><a name=\"3\"><\/a>Di\u00e1rio de Bugrinha (Excertos)<\/h4>\n<p><b>1925<\/b><\/p>\n<p><b>22.1<\/b><\/p>\n<p>O nome de um passarinho que vive no cisco \u00e9 jo\u00e3o\u00adningu\u00e9m.<br \/>\nEle parece com Bernardo.<\/p>\n<p><b>23.2<\/b><\/p>\n<p>Lagartixas t\u00eam odor verde.<\/p>\n<p><b>2.3<\/b><\/p>\n<p>Formiga \u00e9 um ser t\u00e3o pequeno que n\u00e3o ag\u00fcenta nem<br \/>\nneblina. Bernardo me ensinou: Para infantilizar formigas \u00e9 s\u00f3<br \/>\npingar um pouquinho de \u00e1gua no cora\u00e7\u00e3o delas. Achei f\u00e1cil.<\/p>\n<p><b>23.2<\/b><\/p>\n<p>Quem ama exerce Deus \u2014 a m\u00e3e disse. Uma a\u00e7ucena me ama.<br \/>\nUma a\u00e7ucena exerce Deus?<\/p>\n<p><b>2.3<\/b><\/p>\n<p>Eu queria crescer pra passarinho&#8230;<\/p>\n<p><b>5.3<\/b><\/p>\n<p>A voz de meu av\u00f4 arfa. Estava com um livro debaixo dos olhos. V\u00f4!<br \/>\no livro est\u00e1 de cabe\u00e7a pra baixo. Estou deslendo.<\/p>\n<p><b>5.6<\/b><\/p>\n<p>O frio se encolheu nos passarinhos. \u00d3 noite congelada de jacintos!<br \/>\nEu estou transida de p\u00e9talas.<\/p>\n<p><b>7.8<\/b><\/p>\n<p>O pai trouxe do campo um filhote de urubu. Ele \u00e9 branco e j\u00e1<br \/>\nfede.<\/p>\n<p><b>12.8<\/b><\/p>\n<p>As gar\u00e7as descem nos brejos que nem brisas. Todas as manh\u00e3s.<\/p>\n<p><b>10.9<\/b><\/p>\n<p>Um sapo feneceu 3 borboletas de uma vez atr\u00e1s de casa. Ele fazia uma<br \/>\nestult\u00edcia?<\/p>\n<p><b>13.9<\/b><\/p>\n<p>A m\u00e3e bateu no Mano Preto. Falou que eu n\u00e3o apanhava porque<br \/>\nn\u00e3o dei motivo. Subi no pico do telhado para dar motivo. Aqui de cima<br \/>\ndo telhado a lua prateava. A m\u00e3e disse que aquilo n\u00e3o era motivo.<\/p>\n<p><b>19.9<\/b><\/p>\n<p>Uma \u00e9gua iniciava meu irm\u00e3o. O pai ralhou com ele. Meu irm\u00e3o<br \/>\nfoi entrando para inseto at\u00e9 desaparecer. Ficou dentro do mato at\u00e9<br \/>\namanh\u00e3.<\/p>\n<p><b>1.1<\/b><\/p>\n<p>O Bernardo fala com pedra, fala com nada, fala com \u00e1rvore. As plantas<br \/>\nquerem o corpo dele para crescer por sobre. Passarinho j\u00e1 faz poleiro<br \/>\nna sua cabe\u00e7a.<\/p>\n<p><b>2.2<\/b><\/p>\n<p>A m\u00e3e disse que Bernardo \u00e9 boc\u00f3. Uma pessoa sem pensa.<\/p>\n<p><b>5.2<\/b><\/p>\n<p>Sem chuvas, j\u00e1 reparei, as andorinhas perdem o poder de voar livres.<\/p>\n<p><b>29.2<\/b><\/p>\n<p>Hoje o Lara morreu picado de cobra. Fizeram seu caix\u00e3o de costaneiras.<br \/>\nMeu av\u00f4 encostou no caix\u00e3o. U\u00e9, eu que morri e quem est\u00e1<br \/>\nno caix\u00e3o \u00e9 o Lara! Meu av\u00f4 enxergava mal.<\/p>\n<p><b>2.1.1926<\/b><\/p>\n<p>Catre-Velho \u00e9 um ser confort\u00e1vel para moscas. Ele nem espanta<br \/>\nalgumas.<\/p>\n<p><b>12.1<\/b><\/p>\n<p>Choveu de noite at\u00e9 encostar em mim. O rio deve estar mais gordo.<br \/>\nEscutei um perfume de sol nas \u00e1guas.<\/p>\n<p><b>1.3<\/b><\/p>\n<p>As \u00e1rvores me come\u00e7am.<\/p>\n<p><b>1.4<\/b><\/p>\n<p>Uma violeta me pensou. Me encostei no azul de sua tarde.<\/p>\n<p><b>10.4<\/b><\/p>\n<p>Os patos prolongam meu olhar&#8230; Quando passam levando a tarde para longe<br \/>\neu acompanho&#8230;<\/p>\n<p><b>21.4<\/b><\/p>\n<p>Pensar que a gente cessa \u00e9 \u00edngreme. Minha alegria ficou sem<br \/>\nvoz.<\/p>\n<p><b>22.4<\/b><\/p>\n<p>Hoje completei 10 anos. Fabriquei um brinquedo com palavras. Minha m\u00e3e<br \/>\ngostou. \u00c9 assim:<\/p>\n<p>De noite o sil\u00eancio estica os l\u00edrios.<\/p>\n<h4><a name=\"4\"><\/a>Mundo Pequeno<\/h4>\n<p><b>I <\/b><\/p>\n<p>O mundo meu \u00e9 pequeno, Senhor.<br \/>\nTem um rio e um pouco de \u00e1rvores.<br \/>\nNossa casa foi feita de costas para o rio.<br \/>\nFormigas recortam roseiras da av\u00f3.<br \/>\nNos fundos do quintal h\u00e1 um menino e suas latas<br \/>\nmaravilhosas.<br \/>\nTodas as coisas deste lugar j\u00e1 est\u00e3o comprometidas<br \/>\ncom aves.<br \/>\nAqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os<br \/>\nbesouros pensam que est\u00e3o no inc\u00eandio.<br \/>\nQuando o rio est\u00e1 come\u00e7ando um peixe,<br \/>\nEle me coisa<br \/>\nEle me r\u00e3<br \/>\nEle me \u00e1rvore.<br \/>\nDe tarde um velho tocar\u00e1 sua flauta para inverter<br \/>\nos ocasos.<\/p>\n<p><b>II<\/b><\/p>\n<p>Conhe\u00e7o de palma os dementes de rio.<br \/>\nFui amigo do Bugre Felisd\u00f4nio, de Ign\u00e1cio Rayzama<br \/>\ne de Rogaciano.<br \/>\nTodos catavam pregos na beira do rio para enfiar<br \/>\nno horizonte.<br \/>\nUm dia encontrei Felisd\u00f4nio comendo papel nas ruas<br \/>\nde Corumb\u00e1.<br \/>\nMe disse que as coisas que n\u00e3o existem s\u00e3o mais<br \/>\nbonitas.<\/p>\n<p><b>IV<\/b><\/p>\n<p>Ca\u00e7ador, nos barrancos, de r\u00e3s entardecidas,<br \/>\nSombra-Boa entardece. Caminha sobre estratos<br \/>\nde um mar extinto. Caminha sobre as conchas<br \/>\ndos carac\u00f3is da terra. Certa vez encontrou uma<br \/>\nvoz sem boca. Era uma voz pequena e azul. N\u00e3o<br \/>\ntinha boca mesmo. &#8220;Sonora voz de uma concha&#8221;,<br \/>\nele disse. Sombra-Boa ainda ouve nestes lugares<br \/>\nconversamentos de gaivotas. E passam navios<br \/>\ncaranguejeiros por ele, carregados de lodo.<br \/>\nSombra-Boa tem hora que entra em pura<br \/>\ndecomposi\u00e7\u00e3o l\u00edrica: &#8220;Aromas de tomilhos dementam<br \/>\ncigarras.&#8221; Conversava em Guat\u00f3, em Portugu\u00eas, e em<br \/>\nP\u00e1ssaro.<br \/>\nMe disse em I\u00edngua-p\u00e1ssaro: &#8220;Anhumas premunem<br \/>\nmulheres gr\u00e1vidas, 3 dias antes do inturgescer&#8221;.<br \/>\nSombra-Boa ainda fala de suas descobertas:<br \/>\n&#8220;Borboletas de franjas amarelas s\u00e3o fascinadas<br \/>\npor dejectos.&#8221; Foi sempre um ente aben\u00e7oado a<br \/>\ngar\u00e7as. Nascera engrandecido de nadezas.<\/p>\n<p><b>VI<\/b><\/p>\n<p>Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas<br \/>\nleituras n\u00e3o era a beleza das frases, mas a doen\u00e7a delas.<br \/>\nComuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito.<br \/>\nEu pensava que fosse um sujeito escaleno.<br \/>\n&#8211; Gostar de fazer defeitos na frase \u00e9 muito saud\u00e1vel, o Padre<br \/>\nme disse.<br \/>\nEle fez um limpamento em meus receios.<br \/>\nO Padre falou ainda: Manoel, isso n\u00e3o \u00e9 doen\u00e7a,<br \/>\npode muito que voc\u00ea carregue para o resto da vida um certo gosto por<br \/>\nnadas&#8230;<br \/>\nE se riu.<br \/>\nVoc\u00ea n\u00e3o \u00e9 de bugre? &#8211; ele continuou.<br \/>\nQue sim, eu respondi.<br \/>\nVeja que bugre s\u00f3 pega por desvios, n\u00e3o anda em estradas &#8211;<br \/>\nPois \u00e9 nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns<br \/>\nmaduros.<br \/>\nH\u00e1 que apenas saber errar bem o seu idioma.<br \/>\nEsse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de<br \/>\ngram\u00e1tica.<\/p>\n<p><b>VI<\/b><\/p>\n<p>Toda vez que encontro uma parede<br \/>\nela me entrega \u00e0s suas lesmas.<br \/>\nN\u00e3o sei se isso \u00e9 uma repeti\u00e7\u00e3o de mim ou das<br \/>\nlesmas.<br \/>\nN\u00e3o sei se isso \u00e9 uma repeti\u00e7\u00e3o das paredes ou<br \/>\nde mim.<br \/>\nEstarei inclu\u00eddo nas lesmas ou nas paredes?<br \/>\nParece que lesma s\u00f3 \u00e9 uma divulga\u00e7\u00e3o de mim.<br \/>\nPenso que dentro de minha casca<br \/>\nn\u00e3o tem um bicho:<br \/>\nTem um sil\u00eancio feroz.<br \/>\nEstico a timidez da minha lesma at\u00e9 gozar na pedra.<\/p>\n<h4><a name=\"5\"><\/a>Nos Prim\u00f3rdios<\/h4>\n<p>Era s\u00f3 \u00e1gua e sol de primeiro este recanto. Meninos cangavam<br \/>\nsapos. Brincavam de primo com prima. Tordo ensinava o brinquedo &#8220;primo<br \/>\ncom prima n\u00e3o faz mal: finca finca&#8221;. N\u00e3o havia instrumento<br \/>\nmusical. Os homens tocavam gado. As coisas ainda inominadas. Como no come\u00e7o<br \/>\ndos tempos.<\/p>\n<p>Logo se fez a piranha. Em seguida os domingos e feriados. Depois os cuiabanos<br \/>\ne os beira-corgos. Por fim o cavalo e o anta batizado.<\/p>\n<p>Nem precisaram dizer crescei e multiplicai. Pois j\u00e1 se faziam filhos<br \/>\ne piadas com muita animosidade.<\/p>\n<p>Conhecimentos vinham por infus\u00e3o pelo faro dos bugres pelos mascates.<\/p>\n<p>O homem havia sido posto ali nos in\u00edcios para campear e hortar. Por\u00e9m<br \/>\ns\u00f3 pensava em lombo de cavalo. De forma que s\u00f3 campeava e n\u00e3o<br \/>\nhortava.<\/p>\n<p>Da\u00ed que campear se fez de prefer\u00eancia por ser atividade livre<br \/>\ne andeja. Enquanto que hortar prendia o ente no cabo da enxada. O que n\u00e3o<br \/>\nera bom.<\/p>\n<p>No come\u00e7o contudo enxada teve seu lugar. Prestava para o pe\u00e3o<br \/>\nencostar-se nela a fim de prover seu cigarrinho de palha. Depois, com o desaparecimento<br \/>\ndo cigarro de palha, constatou-se a inutilidade das enxadas.<\/p>\n<p>\u2014 O homem tinha mais o que n\u00e3o fazer!<\/p>\n<p>Foi muito soberano mesmo no come\u00e7o dos tempos este cortado. Burro<br \/>\nn\u00e3o entrava em seus pastos. S\u00f3 porque burro n\u00e3o pega<br \/>\nperto.* Por\u00e9m j\u00e1 hoje h\u00e1 quem trate os burros como cavalo.<br \/>\nO que \u00e9 uma distin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>*Burro n\u00e3o pega perto \u00e9 express\u00e3o pantaneira. Nas lides<br \/>\nde campear o pantaneiro usa o cavalo, que \u00e9 veloz e alcan\u00e7a<br \/>\na r\u00eas desgarrada rapidamente. O cavalo pega perto. Mas o burro, n\u00e3o<br \/>\nsendo veloz, alcan\u00e7a longe a r\u00eas desgarrada. Por isso se diz<br \/>\nque o burro n\u00e3o pega perto. (N. do A.)<\/p>\n<h4><a name=\"6\"><\/a>O Catador<\/h4>\n<p class=\"imagem\"><img decoding=\"async\" title=\"Poesias - Manoel de Barros\" src=\"imagens\/catador.jpg\" alt=\"Poesias - Manoel de Barros\" \/><\/p>\n<p>Um homem catava pregos no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Sempre os encontrava deitados de comprido, ou de lado, ou de joelhos no<br \/>\nch\u00e3o.<\/p>\n<p>Nunca de ponta.<\/p>\n<p>Assim eles n\u00e3o furam mais &#8211; o homem pensava.<\/p>\n<p>Eles n\u00e3o exercem mais a fun\u00e7\u00e3o de pregar.<\/p>\n<p>S\u00e3o patrim\u00f4nios in\u00fateis da humanidade.<\/p>\n<p>Ganharam o privil\u00e9gio do abandono.<\/p>\n<p>O homem passava o dia inteiro nessa fun\u00e7\u00e3o de catar pregos<br \/>\nenferrujados.<\/p>\n<p>Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.<\/p>\n<p>Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.<\/p>\n<p>Catar coisas in\u00fateis garante a soberania do Ser.<\/p>\n<p>Garante a soberania de Ser mais do que Ter.<\/p>\n<h4><a name=\"7\"><\/a>O Guardador de \u00c1guas<\/h4>\n<p><b>I <\/b><\/p>\n<p>O aparelho de ser in\u00fatil estava jogado no ch\u00e3o, quase<br \/>\ncoberto de limos &#8211;<br \/>\nEntram coaxos por ele dentro.<br \/>\nCrescem jacintos sobre palavras.<br \/>\n(O rio funciona atr\u00e1s de um jacinto.)<br \/>\nCorrem \u00e1guas agradecidas sobre latas&#8230;<br \/>\nO som do novil\u00fanio sobre as latas ser\u00e1 plano.<br \/>\nE o cheiro azul do escaravelho, t\u00e1til.<br \/>\nDe pulo em pulo um ente abeira as pedras.<br \/>\nTem um cago de ave no chap\u00e9u.<br \/>\nSeria um idiota de estrada?<br \/>\nUrubus se ajoelham pra ele.<br \/>\nLuar tem gula de seus trapos.<\/p>\n<p><b>II <\/b><\/p>\n<p>Esse \u00e9 Bernardo. Bernardo da Mata. Apresento.<br \/>\nEle faz encurtamento de \u00e1guas.<br \/>\nApanha um pouco de rio com as m\u00e3os e espreme nos vidros<br \/>\nAt\u00e9 que as \u00e1guas se ajoelhem<br \/>\nDo tamanho de uma lagarta nos vidros.<\/p>\n<p>No falar com as \u00e1guas r\u00e1s o<br \/>\nexercitam.<br \/>\nTentou encolher o horizonte<br \/>\nNo olho de um inseto &#8211; e obteve!<br \/>\nPrende o sil\u00eancio com fivela.<br \/>\nAt\u00e9 os caranguejos querem ele para ch\u00e3o.<br \/>\nViu as formigas carreando na estrada 2 pernas de ocaso<br \/>\npara dentro de um oco&#8230; E deixou.<br \/>\nEssas formigas pensavam em seu olho.<br \/>\n\u00c9 homem percorrido de exist\u00eancias.<br \/>\nEst\u00e3o favor\u00e1veis a ele os camale\u00f5es.<br \/>\nEspraiado na tarde &#8211;<br \/>\nComo a foz de um rio &#8211; Bernardo se inventa&#8230;<br \/>\nLugarejos cobertos de limo o imitam.<br \/>\nPassarinhos aveludam seus cantos quando o v\u00eaem.<\/p>\n<p><b>V <\/b><\/p>\n<p>Eles enverdam jia nas auroras.<br \/>\nS\u00e3o viventes de ermo. Sujeitos<br \/>\nQue magnificam moscas &#8211; e que oram<br \/>\nDevante uma prociss\u00e3o de formigas&#8230;<br \/>\nS\u00e3o vezeiros de brenhas e gravanhas.<br \/>\nS\u00e3o donos de nadif\u00fandios.<br \/>\n(Nadif\u00fandio \u00e9 lugar em que nadas<br \/>\nLugar em que osso de ovo<br \/>\nE em que latas com vermes emprenhados na boca.<br \/>\nPor\u00e9m.<br \/>\nO nada destes nadif\u00fandios n\u00e3o alude ao infinito menor<br \/>\nde ningu\u00e9m.<br \/>\nNem ao N\u00e9ant de Sartre.<br \/>\nE nem mesmo ao que dizem os dicion\u00e1rios:<\/p>\n<p>coisa que n\u00e3o existe.<br \/>\nO nada destes nadif\u00fandios existe e se escreve com letra<br \/>\nmin\u00fascula.)<br \/>\nSe trata de um trastal.<br \/>\nAqui pardais descascam larvas.<br \/>\nV\u00ea-se um rel\u00f3gio com o tempo enferrujado dentro.<br \/>\nE uma concha com olho de osso que chora.<br \/>\nAqui, o luar desova&#8230;<br \/>\nInsetos umedecem couros<br \/>\nE sapos batem palmas compridas&#8230;<br \/>\nAqui, as palavras se esgar\u00e7am de lodo.<\/p>\n<p><b>VIII<\/b><\/p>\n<p>Idiotas de estradas gostam de urinar em morrinhos de<br \/>\nformigas. Apreciam de ver as formigas correndo de<br \/>\num canto para o outro, maluquinhas, sem cal\u00e7as, como<br \/>\ncrian\u00e7as. Dizem eles que est\u00e3o infantilizando as<br \/>\nformigas. Pode ser.<\/p>\n<p><b>XX<\/b><\/p>\n<p>Com 100 anos de esc\u00f3ria uma lata aprende a rezar.<br \/>\nCom 100 anos de escombros um sapo vira \u00e1rvore e cresce<br \/>\npor cima das pedras at\u00e9 dar leite.<br \/>\nInsetos levam mais de 100 anos para uma folha s\u00ea-los.<br \/>\nUma pedra de arroio leva mais de 100 anos para ter murm\u00farios.<br \/>\nEm seixal de cor seca estrelas pousam despidas.<br \/>\nMariposas que pousam em osso de porco preferem melhor<br \/>\nas cores tortas.<br \/>\nCom menos de 3 meses mosquitos completam a sua<br \/>\neternidade.<br \/>\nUm ente enfermo de \u00e1rvore, com menos de 100 anos, perde<br \/>\no contorno das folhas.<br \/>\nAranha com olho de estame no lodo se despedra.<br \/>\nQuando chove nos bra\u00e7os da formiga o horizonte diminui.<br \/>\nOs cardos que vivem nos pedrou\u00e7os t\u00eam a mesma sintaxe<br \/>\nque os escorpi\u00f5es de areia.<br \/>\nA jia, quando chove, tinge de azul o seu coaxo.<br \/>\nLagartos empernam as pedras de prefer\u00eancia no inverno.<br \/>\nO v\u00f4o do jaburu \u00e9 mais encorpado do que o v\u00f4o das horas.<br \/>\nBesouro s\u00f3 entra em amavios se encontra a f\u00eamea dele<br \/>\nvagando por esc\u00f3rias&#8230;<br \/>\nA 15 metros do arco-\u00edris o sol \u00e9 cheiroso.<br \/>\nCarac\u00f3is n\u00e3o aplicam saliva em vidros; mas, nos brejos,<br \/>\nse embutem at\u00e9 o latejo.<br \/>\nNas brisas vem sempre um sil\u00eancio de gar\u00e7as.<br \/>\nMais alto que o escuro \u00e9 o rumor dos peixes.<br \/>\nUma \u00e1rvore bem gorjeada, com poucos segundos, passa a<br \/>\nfazer parte dos p\u00e1ssaros que a gorjeiam.<br \/>\nQuando a r\u00e3 de cor palha est\u00e1 para ter &#8211; ela espicha os<br \/>\nolhinhos para Deus.<br \/>\nDe cada 20 calangos, enlanguescidos por estrelas, 15 perdem<br \/>\no rumo das grotas.<br \/>\nTodas estas informa\u00e7\u00f5es t\u00eam uma soberba desimport\u00e2ncia<br \/>\ncient\u00edfica &#8211; como andar de costas.<\/p>\n<h4><a name=\"8\"><\/a>O Livro Sobre Nada<\/h4>\n<p>Com peda\u00e7os de mim eu monto um ser at\u00f4nito.<\/p>\n<p>Tudo que n\u00e3o invento \u00e9 falso.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas maneiras s\u00e9rias de n\u00e3o dizer nada, mas s\u00f3<br \/>\na poesia \u00e9 verdadeira.<\/p>\n<p>N\u00e3o pode haver aus\u00eancia de boca nas palavras: nenhuma fique<br \/>\ndesamparada do ser que a revelou.<\/p>\n<p>\u00c9 mais f\u00e1cil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.<\/p>\n<p>Sempre que desejo contar alguma coisa, n\u00e3o fa\u00e7o nada; mas se<br \/>\nn\u00e3o desejo contar nada, fa\u00e7o poesia.<\/p>\n<p>Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>A in\u00e9rcia \u00e9 o meu ato principal.<\/p>\n<p>H\u00e1 hist\u00f3rias t\u00e3o verdadeiras que \u00e0s vezes parece<br \/>\nque s\u00e3o inventadas.<\/p>\n<p>O artista \u00e9 um erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.<\/p>\n<p>A terapia liter\u00e1ria consiste em desarrumar a linguagem a ponto que<br \/>\nela expresse nossos mais fundos desejos.<\/p>\n<p>Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.<\/p>\n<p>Por pudor sou impuro.<\/p>\n<p>N\u00e3o preciso do fim para chegar.<\/p>\n<p>De tudo haveria de ficar para n\u00f3s um sentimento long\u00ednquo de<br \/>\ncoisa esquecida na terra \u2014 Como um l\u00e1pis numa pen\u00ednsula.<\/p>\n<p>Do lugar onde estou j\u00e1 fui embora.<\/p>\n<h4><a name=\"9\"><\/a>Retrato Quase Apagado em que Se Pode Ver Nada<\/h4>\n<p><b>I<\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o tenho bens de acontecimentos.<br \/>\nO que n\u00e3o sei fazer desconto nas palavras.<br \/>\nEntesouro frases. Por exemplo:<br \/>\n&#8211; Imagens s\u00e3o palavras que nos faltaram.<br \/>\n&#8211; Poesia \u00e9 a ocupa\u00e7\u00e3o da palavra pela Imagem.<br \/>\n&#8211; Poesia \u00e9 a ocupa\u00e7\u00e3o da Imagem pelo Ser.<br \/>\nAi frases de pensar!<br \/>\nPensar \u00e9 uma pedreira. Estou sendo.<br \/>\nMe acho em peti\u00e7\u00e3o de lata (frase encontrada no lixo)<br \/>\nConcluindo: h\u00e1 pessoas que se comp\u00f5em de atos, ru\u00eddos,<br \/>\nretratos.<br \/>\nOutras de palavras.<br \/>\nPoetas e tontos se comp\u00f5em com palavras.<\/p>\n<p><b>II<\/b><\/p>\n<p>Todos os caminhos &#8211; nenhum caminho<br \/>\nMuitos caminhos &#8211; nenhum caminho<br \/>\nNenhum caminho &#8211; a maldi\u00e7\u00e3o dos poetas.<\/p>\n<p><b>III<\/b><\/p>\n<p>Chove torto no v\u00e3o das \u00e1rvores.<br \/>\nChove nos p\u00e1ssaros e nas pedras.<br \/>\nO rio ficou de p\u00e9 e me olha pelos vidros.<br \/>\nAlcan\u00e7o com as m\u00e3os o cheiro dos telhados.<br \/>\nCrian\u00e7as fugindo das \u00e1guas<br \/>\nSe esconderam na casa.<\/p>\n<p>Baratas passeiam nas formas de bolo&#8230;<\/p>\n<p>A casa tem um dono em letras.<\/p>\n<p>Agora ele est\u00e1 pensando &#8211;<\/p>\n<p>no sil\u00eancio I\u00edquido<br \/>\ncom que as \u00e1guas escurecem as pedras&#8230;<\/p>\n<p>Um tordo avisou que \u00e9 mar\u00e7o.<\/p>\n<p><b>IV<\/b><\/p>\n<p>Alfama \u00e9 uma palavra escura e de olhos baixos.<br \/>\nEla pode ser o germe de uma apagada exist\u00eancia.<br \/>\nS\u00f3 trolhas e andarilhos poder\u00e3o ach\u00e1-la.<br \/>\nPalavras t\u00eam espessuras v\u00e1rias: vou-lhes ao nu, ao<br \/>\nf\u00f3ssil, ao ouro que trazem da boca do ch\u00e3o.<br \/>\nAndei nas pedras negras de Alfama.<br \/>\nErrante e preso por uma fonte rec\u00f4ndita.<br \/>\nSob aqueles sobrados sujos vi os arcanos com flor!<\/p>\n<p><b>V<\/b><\/p>\n<p>Escrever nem uma coisa Nem outra &#8211;<br \/>\nA fim de dizer todas<br \/>\nOu, pelo menos, nenhumas.<br \/>\nAssim,<br \/>\nAo poeta faz bem<br \/>\nDesexplicar &#8211;<br \/>\nTanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.<\/p>\n<p><b>VI<\/b><\/p>\n<p>No que o homem se torne coisal,<br \/>\ncorrompem-se nele os veios comuns do entendimento.<br \/>\nUm subtexto se aloja.<br \/>\nInstala-se uma agramaticalidade quase insana,<br \/>\nque empoema o sentido das palavras.<br \/>\nAflora uma linguagem de defloramentos, um inauguramento de falas<br \/>\nCoisa t\u00e3o velha como andar a p\u00e9<br \/>\nEsses vareios do dizer.<\/p>\n<p><b>VII<\/b><\/p>\n<p>O sentido normal das palavras n\u00e3o faz bem ao poema.<br \/>\nH\u00e1 que se dar um gosto incasto aos termos.<br \/>\nHaver com eles um relacionamento voluptuoso.<br \/>\nTalvez corromp\u00ea-los at\u00e9 a quimera.<br \/>\nEscurecer as rela\u00e7\u00f5es entre os termos em vez de aclar\u00e1-los.<br \/>\nN\u00e3o existir mais rei nem reg\u00eancias.<br \/>\nUma certa lux\u00faria com a liberdade conv\u00e9m.<\/p>\n<p><b>VII<\/b><\/p>\n<p>Nas Metamorfoses, em 240 f\u00e1bulas,<br \/>\nOv\u00eddio mostra seres humanos transformados<br \/>\nem pedras vegetais bichos coisas<br \/>\nUm novo est\u00e1gio seria que os entes j\u00e1 transformados<br \/>\nfalassem um dialeto coisal, larval,<br \/>\npedral, etc.<br \/>\nNasceria uma linguagem madruguenta, ad\u00e2mica, ed\u00eanica, inaugural<\/p>\n<p>&#8211; Que os poetas aprenderiam &#8211;<br \/>\ndesde que voltassem \u00e0s crian\u00e7as que foram<br \/>\n\u00e0s r\u00e3s que foram<br \/>\n\u00e0s pedras que foram.<br \/>\nPara voltar \u00e0 inf\u00e2ncia, os poetas precisariam tamb\u00e9m de<br \/>\nreaprender a errar<br \/>\na l\u00edngua.<br \/>\nMas esse \u00e9 um convite \u00e0 ignor\u00e2ncia? A enfiar o idioma<br \/>\nnos mosquitos?<br \/>\nSeria uma dem\u00eancia peregrina.<\/p>\n<p><b>IX<\/b><\/p>\n<p>Eu sou o medo da lucidez<br \/>\nChoveu na palavra onde eu estava.<br \/>\nEu via a natureza como quem a veste.<br \/>\nEu me fechava com espumas.<br \/>\nFormigas ves\u00favias dormiam por baixo de trampas.<br \/>\nPeguei umas id\u00e9ias com as m\u00e3os &#8211; como a peixes.<br \/>\nNem era muito que eu me arrumasse por versos.<br \/>\nAquele arame do horizonte<br \/>\nQue separava o morro do c\u00e9u estava rubro.<br \/>\nUm rengo estacionou entre duas frases.<br \/>\nUma descor<br \/>\nQuase uma ila\u00e7\u00e3o do branco.<br \/>\nTinha um palor atormentado a hora.<br \/>\nO pato dejetava liquidamente ali.<\/p>\n<h4><a name=\"10\"><\/a>Uma Did\u00e1tica da Inven\u00e7\u00e3o<\/h4>\n<p><b>I<\/b><\/p>\n<p><b>Para apalpar as intimidades do mundo \u00e9 preciso saber:<\/b><\/p>\n<p><b>a)<\/b> Que o esplendor da manh\u00e3 n\u00e3o se abre com faca<br \/>\n<b>b) <\/b>0 modo como as violetas preparam o dia para morrer<br \/>\n<b>c)<\/b> Por que \u00e9 que as borboletas de tarjas vermelhas t\u00eam<br \/>\ndevo\u00e7\u00e3o por t\u00famulos<br \/>\n<b>d) <\/b>Se o homem que toca de tarde sua exist\u00eancia num fagote, tem<br \/>\nsalva\u00e7\u00e3o<br \/>\n<b>e) <\/b>Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega mais ternura que um<br \/>\nrio que flui entre 2 lagartos<br \/>\n<b>f)<\/b> Como pegar na voz de um peixe<b><br \/>\ng)<\/b> Qual o lado da noite que umedece primeiro.<br \/>\nEtc.<br \/>\netc.<br \/>\netc.<\/p>\n<p>Desaprender 8 horas por dia ensina os princ\u00edpios.<\/p>\n<p><b>IV <\/b><\/p>\n<p>No Tratado das Grandezas do \u00cdnfimo estava<br \/>\nescrito:<br \/>\nPoesia \u00e9 quando a tarde est\u00e1 competente para<br \/>\nD\u00e1lias.<br \/>\n\u00c9 quando<br \/>\nAo lado de um pardal o dia dorme antes.<br \/>\nQuando o homem faz sua primeira lagartixa<br \/>\n\u00c9 quando um trevo assume a noite<br \/>\nE um sapo engole as auroras<\/p>\n<p><b>IX <\/b><\/p>\n<p>Para entrar em estado de \u00e1rvore \u00e9 preciso<br \/>\npartir de um torpor animal de lagarto \u00e0s<br \/>\n3 horas da tarde, no m\u00eas de agosto.<br \/>\nEm 2 anos a in\u00e9rcia e o mato v\u00e3o crescer<br \/>\nem nossa boca.<br \/>\nSofreremos alguma decomposi\u00e7\u00e3o l\u00edrica at\u00e9<br \/>\no mato sair na voz.<\/p>\n<p>Hoje eu desenho o cheiro das \u00e1rvores.<\/p>\n<p><b>IX<\/b><\/p>\n<p>O rio que fazia uma volta atr\u00e1s de nossa casa<br \/>\nera a imagem de um vidro mole que fazia uma<br \/>\nvolta atr\u00e1s de casa.<br \/>\nPassou um homem depois e disse: Essa volta<br \/>\nque o rio faz por tr\u00e1s de sua casa se chama<br \/>\nenseada.<br \/>\nN\u00e3o era mais a imagem de uma cobra de vidro<br \/>\nque fazia uma volta atr\u00e1s de casa.<br \/>\nEra uma enseada.<br \/>\nAcho que o nome empobreceu a imagem.<\/p>\n<h4><a name=\"11\"><\/a>Seis ou Treze Coisas que Aprendi Sozinho<\/h4>\n<p><b>1<\/b><\/p>\n<p>Gravata de urubu n\u00e3o tem cor.<br \/>\nFincando na sombra um prego ermo, ele nasce.<br \/>\nLuar em cima de casa exorta cachorro.<br \/>\nEm perna de mosca salobra as \u00e1guas se cristalizam.<br \/>\nBesouros n\u00e3o ocupam asas para andar sobre fezes.<br \/>\nPoeta &amp;eaceacute; um ente que lambe as palavras e depois se alucina.<br \/>\nNo osso da fala dos loucos t\u00eam l\u00edrios.<\/p>\n<p><b>3<\/b><\/p>\n<p>Tem 4 teorias de \u00e1rvore que eu conhe\u00e7o.<br \/>\nPrimeira: que arbusto de monturo ag\u00fcenta mais formiga.<br \/>\nSegunda: que uma planta de borra produz frutos ardentes.<br \/>\nTerceira: nas plantas que vingam por rachaduras lavra um poder mais l\u00fabrico<br \/>\nde antros.<br \/>\nQuarta: que h\u00e1 nas \u00e1rvores avulsas uma assimila\u00e7\u00e3o<br \/>\nmaior de horizontes.<\/p>\n<p><b>7<\/b><\/p>\n<p>Uma chuva \u00e9 \u00edntima<br \/>\nSe o homem a v\u00ea de uma parede umedecida de moscas;<br \/>\nSe aparecem besouros nas folhagens;<br \/>\nSe as lagartixas se fixam nos espelhos;<br \/>\nSe as cigarras se perdem de amor pelas \u00e1rvores;<br \/>\nE o escuro se umede\u00e7a em nosso corpo.<\/p>\n<p><b>9<\/b><\/p>\n<p>Em passar sua vag\u00ednula sobre as pobres coisas do ch\u00e3o, a<br \/>\nlesma deixa risquinhos l\u00edquidos&#8230;<br \/>\nA lesma influi muito em meu desejo de gosmar sobre as<br \/>\npalavras<br \/>\nNeste coito com letras!<br \/>\nNa \u00e1spera secura de uma pedra a lesma esfrega-se<br \/>\nNa avidez de deserto que \u00e9 a vida de uma pedra a lesma<br \/>\nescorre. . .<br \/>\nEla fode a pedra.<br \/>\nEla precisa desse deserto para viver.<\/p>\n<p><b>11<\/b><\/p>\n<p>Que a palavra parede n\u00e3o seja s\u00edmbolo<br \/>\nde obst\u00e1culos \u00e0 liberdade<br \/>\nnem de desejos reprimidos<br \/>\nnem de proibi\u00e7\u00f5es na inf\u00e2ncia,<br \/>\netc. (essas coisas que acham os<br \/>\nreveladores de arcanos mentais)<br \/>\nN\u00e3o.<br \/>\nParede que me seduz \u00e9 de tijolo, adobe<br \/>\npreposto ao abdomen de uma casa.<br \/>\nEu tenho um gosto rasteiro de<br \/>\nir por reentr\u00e2ncias<br \/>\nbaixar em rachaduras de paredes<br \/>\npor frinchas, por gretas &#8211; com lasc\u00edvia de hera.<br \/>\nSobre o tijolo ser um l\u00e1bio cego.<br \/>\nTal um verme que iluminasse.<\/p>\n<p><b>12<\/b><\/p>\n<p>Seu Fran\u00e7a n\u00e3o presta pra nada &#8211;<br \/>\nS\u00f3 pra tocar viol\u00e3o.<br \/>\nDe beber \u00e1gua no chap\u00e9u as formigas j\u00e1 sabem quem ele<br \/>\n\u00e9.<br \/>\nN\u00e3o presta pra nada.<br \/>\nMesmo que dizer:<br \/>\n&#8211; Povo que gosta de resto de sopa \u00e9 mosca.<br \/>\nDisse que precisa de n\u00e3o ser ningu\u00e9m toda vida.<br \/>\nDe ser o nada desenvolvido.<br \/>\nE disse que o artista tem origem nesse ato suicida.<\/p>\n<p><b>13<\/b><\/p>\n<p>Lugar em que h\u00e1 decad\u00eancia.<br \/>\nEm que as casas come\u00e7am a morrer e s\u00e3o habitadas por<br \/>\nmorcegos.<br \/>\nEm que os capins lhes entram, aos homens, casas portas<br \/>\na dentro.<br \/>\nEm que os capins lhes subam pernas acima, seres a<br \/>\ndentro.<br \/>\nLuares encontrar\u00e3o s\u00f3 pedras mendigos cachorros.<br \/>\nTerrenos sitiados pelo abandono, apropriados \u00e0 indig\u00eancia.<br \/>\nOnde os homens ter\u00e3o a for\u00e7a da indig\u00eancia.<br \/>\nE as ru\u00ednas dar\u00e3o frutos<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique nos links abaixo para navegar no item desejado: A Namorada Auto-Retrato Falado Di\u00e1rio de Bugrinha (Excertos) Mundo Pequeno Nos Prim\u00f3rdios O Catador O Guardador de \u00c1guas O Livro Sobre Nada Retrato Quase Apagado em que Se Pode Ver Nada Uma Did\u00e1tica da Inven\u00e7\u00e3o Seis ou Treze Coisas que Aprendi Sozinho&nbsp; &nbsp; Manoel de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-113521","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Poesias - Manoel de Barros, Obras Poesias - Manoel de Barros<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Poesias - Manoel de Barros, Obras, A Namorada, Auto-Retrato Falado, Di\u00e1rio de Bugrinha, Literatura, Poesias - Manoel de Barros\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Poesias - Manoel de Barros, Obras Poesias - Manoel de Barros\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Poesias - Manoel de Barros, Obras, A Namorada, Auto-Retrato Falado, Di\u00e1rio de Bugrinha, Literatura, Poesias - Manoel de Barros\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/poesias-manoel-de-barros\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-03-14T14:32:56+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2017-03-14T14:40:00+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"20 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/poesias-manoel-de-barros#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/poesias-manoel-de-barros\"},\"author\":{\"name\":\"Fabiane Breda\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"headline\":\"Poesias &#8211; 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