{"id":113513,"date":"2017-03-14T12:15:11","date_gmt":"2017-03-14T14:15:11","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=113513"},"modified":"2017-03-14T12:15:11","modified_gmt":"2017-03-14T14:15:11","slug":"a-inglesinha-barcelos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-inglesinha-barcelos","title":{"rendered":"A Inglesinha Barcelos"},"content":{"rendered":"<h2>Machado de assis<\/h2>\n<p>Eram trintonas. C\u00e2ndida era casada, Joaninha solteira. Antes deste dia de mar\u00e7o de 1886, viram-se pela primeira vez em 1874, em casa de uma professora de piano. Quase iguais de fei\u00e7\u00f5es, que eram mi\u00fadas, me\u00e3s de estatura, ambas claras, ambas alegres, havia entre elas a diferen\u00e7a dos olhos; os de C\u00e2ndida eram pretos, os de Joaninha azuis.<\/p>\n<p>Esta cor era o encanto da m\u00e3e de Joaninha, vi\u00fava do capit\u00e3o Barcelos, que lhe chamava por isso \u201c. \u2014 Como vai a sua inglesa? perguntavam-lhe as pessoas que a queriam lisonjear. E a boa senhora ria-se d\u2019\u00e1gua, Joaninha n\u00e3o viu morte f\u00edsica nem moral; n\u00e3o achou meio de fugir a este mundo, e contentou-se com ele. Da crise, por\u00e9m, nasceu uma situa\u00e7\u00e3o moral nova. Joaninha conformou-se com o celibato, abriu m\u00e3o de esperan\u00e7as in\u00fateis, compreendeu que estragara a vida por suas pr\u00f3prias m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u2014 Acabou-se a inglesinha Barcelos, disse consigo, resoluta.<\/p>\n<p>E de fato, a transforma\u00e7\u00e3o foi completa. Joaninha recolheu-se a si mesma e n\u00e3o quis saber de namoros. Tal foi a mudan\u00e7a que a pr\u00f3pria m\u00e3e deu por ela, ao cabo de alguns meses. Sup\u00f4s que ningu\u00e9m j\u00e1 aparecia; mas em breve reparou que ela pr\u00f3pria n\u00e3o sa\u00eda \u00e0 porta do castelo para ver se vinha algu\u00e9m. Ficou triste, o desejo de v\u00ea-la casada n\u00e3o chegaria a cumprir-se. N\u00e3o viu rem\u00e9dio pr\u00f3ximo nem remoto; era viver e morrer, e deix\u00e1la neste mundo, entregue aos lances da fortuna.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m mais falou na inglesinha Barcelos. A namoradeira passou de moda. Alguns rapazes ainda lhe deitavam os olhos; a figura da mo\u00e7a n\u00e3o perdera a gra\u00e7a dos dezessete anos, mas nem passava disso, nem ela os animava a mais. Joaninha fez-se devota. Come\u00e7ou a ir \u00e0 igreja mais vezes que dantes; \u00e0 missa ou s\u00f3 orar. A m\u00e3e n\u00e3o lhe negava nada.<\/p>\n<p>\u2014 Talvez pense em pegar-se com Deus, dizia ela consigo; h\u00e1 de ser alguma promessa.<\/p>\n<p>Foi por esse tempo que lhe apareceu um namorado, o \u00fanico que verdadeiramente a amou, e queria despos\u00e1-la; mas tal foi a sorte da mo\u00e7a, ou o seu desazo, que n\u00e3o chegou a falar-lhe nunca. Era um guarda-livros, Ars\u00eanio Caldas, que a encontrou uma vez na igreja de S. Francisco de Paula, onde fora ouvir uma missa de s\u00e9timo dia. Joaninha estava apenas orando. Caldas viu-a ir de altar em altar, ajoelhando-se diante de cada um, e achou-lhe um ar de tristeza que lhe entrou na alma. Os guarda-livros, geralmente, n\u00e3o s\u00e3o romanescos, mas este Caldas era-o, tinha at\u00e9 composto, entre dezesseis e vinte anos, quando era simples ajudante de escrita, alguns versos tristes e lacrimosos, e um breve poema sobre a origem da lua. A lua era uma concha, que perdera a p\u00e9rola, e todos os meses abria-se toda para receber a p\u00e9rola; mas a p\u00e9rola n\u00e3o vinha, porque Deus, que a achara linda, tinha feito dela uma l\u00e1grima. Que l\u00e1grima? A que ela verteu um dia, por n\u00e3o v\u00ea-lo a ele. Que ele e que ela? Ningu\u00e9m; uma dessas paix\u00f5es vagas, que atravessam a adolesc\u00eancia, como ensaios de outras mais fixas e concretas. A concep\u00e7\u00e3o, entretanto, dava id\u00e9ia da alma do rapaz, e a imagina\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o extraordin\u00e1ria, mal se podia crer que vi\u00e7asse entre o di\u00e1rio e a raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Com efeito, este Caldas era sentimental. N\u00e3o era bonito, nem feio, n\u00e3o tinha express\u00e3o.<\/p>\n<p>Sem rela\u00e7\u00f5es, t\u00edmido, vivia com os livros durante o dia, e \u00e0 noite ia ao teatro ou a algum bilhar ou botequim. Via passar mulheres; no teatro, n\u00e3o deixava de as esperar no sagu\u00e3o; depois ia tomar ch\u00e1, dormia e sonhava com elas. \u00c0s vezes, tentava algum soneto, celebrando os bra\u00e7os de uma, os olhos de outra, chamando-lhes nomes bonitos, deusas, rainhas, anjos, santas, mas ficava nisso.<\/p>\n<p>Contava trinta e um anos, quando sucedeu ver a inglesinha Barcelos na igreja de S.<\/p>\n<p>Francisco. Talvez n\u00e3o fizesse nada, se n\u00e3o fosse a circunst\u00e2ncia j\u00e1 dita de v\u00ea-la rezar a todos os altares. Imaginou logo, n\u00e3o devo\u00e7\u00e3o nem promessa, mas uma alma desesperada e solit\u00e1ria. A situa\u00e7\u00e3o moral, se tal era, parecia-se com a dele; n\u00e3o foi preciso mais para que se inclinasse \u00e0 mo\u00e7a, e a acompanhasse at\u00e9 Catumbi. A vis\u00e3o tornou com ele, sentou-se \u00e0 escrivaninha, aninhou-se entre o deve e o h\u00e1 de haver, como uma rosa ca\u00edda em moita de ervas bravias. N\u00e3o \u00e9 minha esta compara\u00e7\u00e3o; \u00e9 do pr\u00f3prio Caldas, que nessa mesma noite tentou um soneto. A inspira\u00e7\u00e3o n\u00e3o acudiu ao chamado, mas a imagem da mo\u00e7a de Catumbi dormiu com ele e acordou com ele.<\/p>\n<p>Da\u00ed em diante, o pobre Caldas freq\u00fcentou o bairro. Ia e vinha, passava muitas vezes, espreitava a hora em que pudesse ver Joaninha, \u00e0s tardes. Joaninha aparecia \u00e0 janela; mas, al\u00e9m de n\u00e3o ser j\u00e1 t\u00e3o ass\u00eddua como antes, era voluntariamente alheia \u00e0 menor sombra de homem. N\u00e3o fitava nenhum; n\u00e3o dava sequer um desses olhares que n\u00e3o custam nada e n\u00e3o deixam nada. Fizera-se uma esp\u00e9cie de freira leiga.<\/p>\n<p>\u2014 Creio que ela hoje me viu, pensava consigo o guarda-livros, uma tarde, em que ele, como de uso, passara por baixo das janelas, levantando muito a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que ela tinha os olhos na erva que crescia \u00e0 beira da cal\u00e7ada, e o Caldas, que ia passando, naturalmente entrou no campo da vis\u00e3o da mo\u00e7a; mas t\u00e3o depressa ela o viu, levantou os olhos e estendeu-os \u00e0 chamin\u00e9 da casa fronteira. Caldas, por\u00e9m, edificou sobre essa probabilidade um mundo de esperan\u00e7as. Casariam talvez naquele mesmo ano. N\u00e3o, ainda n\u00e3o; faltavam-lhe meios. Um ano depois. At\u00e9 l\u00e1 dar-lhe-iam interesse na casa. A casa era boa e pr\u00f3spera. Vieram c\u00e1lculos de lucro. A contabilidade deu o bra\u00e7o \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o, e disseram muitas coisas bonitas uma \u00e0 outra; algarismos e suspiros trabalharam em comum, tais como se fossem do mesmo oficio.<\/p>\n<p>Mas o olhar n\u00e3o se repetiu naqueles dias pr\u00f3ximos, e o desespero entrou na alma do guarda-livros.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o moral deste agravou-se. Os versos entraram a cair entre as contas, e os dinheiros entrados nos livros da casa mais pareciam sonetos que dinheiro. N\u00e3o \u00e9 que o guarda-livros os escriturasse em verso; mas alternava as inspira\u00e7\u00f5es com os lan\u00e7amentos, e o patr\u00e3o, um dia, foi achar entre duas p\u00e1ginas de um livro um soneto imitado de Bocage. O patr\u00e3o n\u00e3o conhecia esse poeta nem outro, mas conhecia versos e sabia muito bem que n\u00e3o havia entre os seus devedores nenhum L\u00edrio do c\u00e9u, l\u00edrio ca\u00eddo em terra.<\/p>\n<p>Perdoou o caso, mas entrou a observar o empregado. Este, por sua desgra\u00e7a, ia de mal a pior. Um dia, quando menos esperava, disse-lhe o patr\u00e3o que procurasse outra casa. N\u00e3o lhe deu raz\u00f5es; o pobre-diabo, ali\u00e1s t\u00edmido, tinha certo orgulho que lhe n\u00e3o permitiu ficar mais tempo e saiu logo.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 mau poeta, nem guarda-livros relaxado que n\u00e3o possa amar deveras; nem ruins versos tiraram jamais a sinceridade de um sentimento ou o fizeram menos forte. A paix\u00e3o deste pobre mo\u00e7o desculpar\u00e1 os seus desazos comerciais e po\u00e9ticos. Ela o levou por descaminhos inesperados; f\u00ea-lo passar crises trist\u00edssimas. Tarde achou um mau emprego.<\/p>\n<p>A necessidade f\u00ea-lo menos ass\u00edduo em Catumbi. Os empr\u00e9stimos eram poucos e escassos; por muito que ele cortasse a comida (morava com um amigo, por favor), n\u00e3o lhe davam sempre para os colarinhos imaculados, nem as cal\u00e7as s\u00e3o eternas. Mas essas aus\u00eancias longas n\u00e3o tiveram o cond\u00e3o de abafar ou atenuar um sentimento que, por outro lado, n\u00e3o era alimentado pela mo\u00e7a; novo emprego melhorou um tanto a situa\u00e7\u00e3o do namorado. Voltou a ir l\u00e1 mais vezes. Era fim do ver\u00e3o, as tardes tendiam a diminuir, e pouco tempo lhe restaria delas para dar um pulo a Catumbi. Com o inverno cessaram os passeios; Caldas desforrava-se aos domingos.<\/p>\n<p>N\u00e3o me pergunteis se tentou escrever a Joaninha; tentou, mas as cartas ficavam-lhe na algibeira; eram depois reduzidas a verso, para suprir as lacunas da inspira\u00e7\u00e3o. Recorreu aos bilhetes misteriosos, nos jornais, com alus\u00f5es \u00e0 mo\u00e7a de Catumbi, marcando dia e hora em que ela o veria passar. Joaninha parece que n\u00e3o lia jornais, ou n\u00e3o dava com os bilhetes. Um dia, por acaso, sucedeu ach\u00e1-la \u00e0 janela. Sucedeu tamb\u00e9m que ela sustentasse o olhar dele. Eram velhos costumes, jeitos de outro tempo, que os olhos n\u00e3o haviam perdido; a verdade \u00e9 que ela n\u00e3o o viu. A ilus\u00e3o, por\u00e9m, foi imensa, e o pobre Caldas achou naquele movimento inconsciente da mo\u00e7a uma ades\u00e3o, um convite, um perd\u00e3o, quando menos, e do perd\u00e3o \u00e0 cumplicidade bem podia n\u00e3o ir mais que um passo.<\/p>\n<p>Assim correram dias e dias, semanas e semanas. No fim do ano, Caldas achou a porta fechada. Cuidou que ela se houvesse mudado e indagou pela vizinhan\u00e7a. Soube que n\u00e3o; uma pessoa de amizade ou ainda parenta, levara a fam\u00edlia para um s\u00edtio no interior.<\/p>\n<p>\u2014 Por muito tempo? \u2014 Foram passar o ver\u00e3o.<\/p>\n<p>Caldas esperou que o ver\u00e3o acabasse. O ver\u00e3o n\u00e3o andou mais depressa que de costume; quando come\u00e7ou o outono, Caldas foi um dia ao bairro e achou a porta aberta.<\/p>\n<p>N\u00e3o viu a mo\u00e7a, e achou esquisito que n\u00e3o regressava de l\u00e1, como antes, comido de desespero. P\u00f4de ir ao teatro, p\u00f4de ir cear. Entrando em casa, recapitulou os longos meses de paix\u00e3o n\u00e3o correspondida, pensou nas fomes passadas para poder atar uma gravata nova, chegou a recordar alguma coisa parecida com l\u00e1grimas. Foram porventura os seus melhores versos. Vexou-se desses, como j\u00e1 se vexara dos outros. Quis voltar a Catumbi, no domingo pr\u00f3ximo, mas a hist\u00f3ria n\u00e3o guardou a causa que impediu esse projeto. S\u00f3 guardou que ele tornou a ir ao teatro e a cear.<\/p>\n<p>Um m\u00eas depois, como passasse pela Rua da Quitanda, viu paradas duas senhoras, diante de uma loja de fazendas. Era a inglesinha Barcelos e a m\u00e3e. Caldas chegou a parar um pouco adiante; n\u00e3o sentiu o alvoro\u00e7o antigo, mas gostou de v\u00ea-la. Joaninha e a m\u00e3e entraram na loja; ele passou pela porta, olhou sem parar e foi adiante. Tinha de estar na pra\u00e7a \u00e0s duas horas e faltavam cinco minutos. Joaninha n\u00e3o suspeitou sequer que ali passara o \u00fanico homem a quem n\u00e3o correspondeu, e o \u00fanico que verdadeiramente a amou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de assis Eram trintonas. C\u00e2ndida era casada, Joaninha solteira. Antes deste dia de mar\u00e7o de 1886, viram-se pela primeira vez em 1874, em casa de uma professora de piano. 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