{"id":113506,"date":"2017-03-14T12:10:35","date_gmt":"2017-03-14T14:10:35","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=113506"},"modified":"2017-03-14T12:10:35","modified_gmt":"2017-03-14T14:10:35","slug":"a-igreja-do-diabo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-igreja-do-diabo","title":{"rendered":"A Igreja do Diabo"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p><strong>CAPITULO I &#8211; DE UMA ID\u00c9IA MIR\u00cdFICA<\/strong><\/p>\n<p>Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a id\u00e9ia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem cont\u00ednuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde s\u00e9culos, sem organiza\u00e7\u00e3o, sem regras, sem c\u00e2nones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obs\u00e9quios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que n\u00e3o teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religi\u00f5es, e destru\u00ed-las de uma vez.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, brevi\u00e1rio contra brevi\u00e1rio. Terei a minha missa, com vinho e p\u00e3o \u00e0 farta, as minhas pr\u00e9dicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesi\u00e1stico. O meu credo ser\u00e1 o n\u00facleo universal dos esp\u00edritos, a minha igreja uma tenda de Abra\u00e3o. E depois, enquanto as outras religi\u00f5es se combatem e se dividem, a minha igreja ser\u00e1 \u00fanica; n\u00e3o acharei diante de mim, nem Maom\u00e9, nem Lutero. H\u00e1 muitos modos de afirmar; h\u00e1 s\u00f3 um de negar tudo.<\/p>\n<p>Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabe\u00e7a e estendeu os bra\u00e7os, com um gesto magn\u00edfico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a id\u00e9ia, e desafi\u00e1-lo; levantou os olhos, acesos de \u00f3dio, \u00e1speros de vingan\u00e7a, e disse consigo:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos, \u00e9 tempo. E r\u00e1pido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as prov\u00edncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.<\/p>\n<p><strong>CAPITULO II &#8211; ENTRE DEUS E O DIABO<\/strong><\/p>\n<p>Deus recolhia um anci\u00e3o, quando o Diabo chegou ao c\u00e9u. Os serafins que engrinaldavam o rec\u00e9m-chegado, detiveram-no logo, e o Diabo deixou-se estar \u00e0 entrada com os olhos no Senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Que me queres tu? perguntou este.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do s\u00e9culo e dos s\u00e9culos.<\/p>\n<p>&#8211; Explica-te.<\/p>\n<p>&#8211; Senhor, a explica\u00e7\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas c\u00edtaras e ala\u00fades o recebam com os mais divinos coros&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de do\u00e7ura.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, mas provavelmente \u00e9 dos \u00faltimos que vir\u00e3o ter convosco. N\u00e3o tarda muito que o c\u00e9u fique semelhante a uma casa vazia, por causa do pre\u00e7o, que \u00e9 alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganiza\u00e7\u00e3o, do meu reinado casual e advent\u00edcio. \u00c9 tempo de obter a vit\u00f3ria final e completa. E ent\u00e3o vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me n\u00e3o acuseis de dissimula\u00e7\u00e3o&#8230; Boa id\u00e9ia, n\u00e3o vos parece?<\/p>\n<p>&#8211; Vieste diz\u00ea-la, n\u00e3o legitim\u00e1-la, advertiu o Senhor,<\/p>\n<p>&#8211; Tendes raz\u00e3o, acudiu o Diabo; mas o amor-pr\u00f3prio gosta de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade \u00e9 que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exig\u00eancia&#8230; Senhor, des\u00e7o \u00e0 terra; vou lan\u00e7ar a minha pedra fundamental.<\/p>\n<p>&#8211; Vai<\/p>\n<p>&#8211; Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 preciso; basta que me digas desde j\u00e1 por que motivo, cansado h\u00e1 tanto da tua desorganiza\u00e7\u00e3o, s\u00f3 agora pensaste em fundar uma igreja?<\/p>\n<p>O Diabo sorriu com certo ar de esc\u00e1rnio e triunfo. Tinha alguma id\u00e9ia cruel no esp\u00edrito, algum reparo picante no alforje da mem\u00f3ria, qualquer coisa que, nesse breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao pr\u00f3prio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 agora conclu\u00ed uma observa\u00e7\u00e3o, come\u00e7ada desde alguns s\u00e9culos, e \u00e9 que as virtudes, filhas do c\u00e9u, s\u00e3o em grande n\u00famero compar\u00e1veis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algod\u00e3o. Ora, eu proponho-me a pux\u00e1-las por essa franja, e traz\u00ea- las todas para minha igreja; atr\u00e1s delas vir\u00e3o as de seda pura&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Velho ret\u00f3rico! murmurou o Senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos p\u00e9s, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo p\u00f3, os len\u00e7os cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devo\u00e7\u00e3o entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, &#8211; a indiferen\u00e7a, ao menos, &#8211; com que esse cavalheiro p\u00f5e em letras p\u00fablicas os benef\u00edcios que liberalmente espalha, &#8211; ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas mat\u00e9rias necess\u00e1rias \u00e0 vida&#8230; Mas n\u00e3o quero parecer que me detenho em coisas mi\u00fadas; n\u00e3o falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas prociss\u00f5es, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda&#8230; Vou a neg\u00f3cios mais altos&#8230;<\/p>\n<p>Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de s\u00faplica, Deus interrompeu o Diabo.<\/p>\n<p>&#8211; Tu \u00e9s vulgar, que \u00e9 o pior que pode acontecer a um esp\u00edrito da tua esp\u00e9cie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas est\u00e1 dito e redito pelos moralistas do mundo. \u00c9 assunto gasto; e se n\u00e3o tens for\u00e7a, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor \u00e9 que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legi\u00f5es mostram no rosto os sinais vivos do t\u00e9dio que lhes d\u00e1s. Esse mesmo anci\u00e3o parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 vos disse que n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufr\u00e1gio, ia salvar-se numa t\u00e1bua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam j\u00e1 com a morte; deu-lhes a t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o e mergulhou na eternidade. Nenhum p\u00fablico: a \u00e1gua e o c\u00e9u por cima. Onde achas a\u00ed a franja de algod\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Senhor, eu sou, como sabeis, o esp\u00edrito que nega.<\/p>\n<p>&#8211; Negas esta morte?<\/p>\n<p>&#8211; Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misantropo, \u00e9 realmente aborrec\u00ea-los&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ret\u00f3rico e sutil! exclamou o Senhor. Vai; vai, funda a tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens&#8230; Mas, vai! vai!<\/p>\n<p>Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe sil\u00eancio; os serafins, a um sinal divino, encheram o c\u00e9u com as harmonias de seus c\u00e2nticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.<\/p>\n<p><strong>CAPITULO III &#8211; A BOA NOVA AOS HOMENS<\/strong><\/p>\n<p>Uma vez na terra, o Diabo n\u00e3o perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula beneditina, como h\u00e1bito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordin\u00e1ria, com uma voz que reboava nas entranhas do s\u00e9culo. Ele prometia aos seus disc\u00edpulos e fi\u00e9is as del\u00edcias da terra, todas as gl\u00f3rias, os deleites mais \u00edntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a no\u00e7\u00e3o que os homens tinham dele e desmentir as hist\u00f3rias que a seu respeito contavam as velhas beatas.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, sou o Diabo, repetia ele; n\u00e3o o Diabo das noites sulf\u00fareas, dos contos son\u00edferos, terror das crian\u00e7as, mas o Diabo verdadeiro e \u00fanico, o pr\u00f3prio g\u00eanio da natureza, a que se deu aquele nome para arred\u00e1-lo do cora\u00e7\u00e3o dos homens. Vede-me gentil a airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos l\u00e1: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um trof\u00e9u e um l\u00e1baro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo&#8230;<\/p>\n<p>Era assim que falava, a princ\u00edpio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multid\u00f5es ao p\u00e9 de si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um esp\u00edrito de nega\u00e7\u00e3o. Isso quanto \u00e0 subst\u00e2ncia, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras c\u00ednica e deslavada.<\/p>\n<p>Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substitu\u00eddas por outras, que eram as naturais e leg\u00edtimas. A soberba, a lux\u00faria, a pregui\u00e7a foram reabilitadas, e assim tamb\u00e9m a avareza, que declarou n\u00e3o ser mais do que a m\u00e3e da economia, com a diferen\u00e7a que a m\u00e3e era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na exist\u00eancia de Homero; sem o furor de Aquiles, n\u00e3o haveria a Il\u00edada: &#8220;Musa, canta a c\u00f3lera de Aquiles, filho de Peleu&#8221;&#8230; O mesmo disse da gula, que produziu as melhores p\u00e1ginas de Rabelais, e muitos bons versos do Hissope; virtude t\u00e3o superior, que ningu\u00e9m se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas raz\u00f5es de ordem liter\u00e1ria ou hist\u00f3rica, para s\u00f3 mostrar o valor intr\u00ednseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande c\u00f3pia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, express\u00e3o metaf\u00f3rica, pela vinha do Diabo, locu\u00e7\u00e3o direta e verdadeira, pois n\u00e3o faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto \u00e0 inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao pr\u00f3prio talento.<\/p>\n<p>As turbas corriam atr\u00e1s dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloq\u00fc\u00eancia, toda a nova ordem de coisas, trocando a no\u00e7\u00e3o delas, fazendo amar as perversas e detestar as s\u00e3s.<\/p>\n<p>Nada mais curioso, por exemplo, do que a defini\u00e7\u00e3o que ele dava da fraude. Chamava-lhe o bra\u00e7o esquerdo do homem; o bra\u00e7o direito era a for\u00e7a; e conclu\u00eda: muitos homens s\u00e3o canhotos, eis tudo. Ora, ele n\u00e3o exigia que todos fossem canhotos; n\u00e3o era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que n\u00e3o fossem nada. A demonstra\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casu\u00edsta do tempo chegou a confessar que era um monumento de l\u00f3gica. A venalidade, disse o Diabo, era o exerc\u00edcio de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chap\u00e9u, coisas que s\u00e3o tuas por uma raz\u00e3o jur\u00eddica e legal, mas que, em todo caso, est\u00e3o fora de ti, como \u00e9 que n\u00e3o podes vender a tua opini\u00e3o, o teu voto, a tua palavra, a tua f\u00e9, coisas que s\u00e3o mais do que tuas, porque s\u00e3o a tua pr\u00f3pria consci\u00eancia, isto \u00e9, tu mesmo? Neg\u00e1-lo \u00e9 cair no obscuro e no contradit\u00f3rio. Pois n\u00e3o h\u00e1 mulheres que vendem os cabelos? n\u00e3o pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem an\u00eamico? e o sangue e os cabelos, partes f\u00edsicas, ter\u00e3o um privil\u00e9gio que se nega ao car\u00e1ter, \u00e0 por\u00e7\u00e3o moral do homem? Demonstrando assim o princ\u00edpio, o Diabo n\u00e3o se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuni\u00e1ria; depois, mostrou ainda que, \u00e0 vista do preconceito social, conviria dissimular o exerc\u00edcio de um direito t\u00e3o leg\u00edtimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto \u00e9, merecer duplicadamente. E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Est\u00e1 claro que combateu o perd\u00e3o das inj\u00farias e outras m\u00e1ximas de brandura e cordialidade. N\u00e3o proibiu formalmente a cal\u00fania gratuita, mas induziu a exerc\u00ea-la mediante retribui\u00e7\u00e3o, ou pecuni\u00e1ria, ou de outra esp\u00e9cie; nos casos, por\u00e9m, em que ela fosse uma expans\u00e3o imperiosa da for\u00e7a imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum sal\u00e1rio, pois equivalia a fazer pagar a transpira\u00e7\u00e3o. Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos poss\u00edveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a \u00fanica exce\u00e7\u00e3o do interesse. Mas essa mesma exce\u00e7\u00e3o foi logo eliminada, pela considera\u00e7\u00e3o de que o interesse, convertendo o respeito em simples adula\u00e7\u00e3o, era este o sentimento aplicado e n\u00e3o aquele.<\/p>\n<p>Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do pr\u00f3ximo era um obst\u00e1culo grave \u00e0 nova institui\u00e7\u00e3o. Ele mostrou que essa regra era uma simples inven\u00e7\u00e3o de parasitas e negociantes insolv\u00e1veis; n\u00e3o se devia dar ao pr\u00f3ximo sen\u00e3o indiferen\u00e7a; em alguns casos, \u00f3dio ou desprezo. Chegou mesmo \u00e0 demonstra\u00e7\u00e3o de que a no\u00e7\u00e3o de pr\u00f3ximo era errada, e citava esta frase de um padre de N\u00e1poles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo reg\u00edmen: &#8220;Leve a breca o pr\u00f3ximo! N\u00e3o h\u00e1 pr\u00f3ximo!&#8221; A \u00fanica hip\u00f3tese em que ele permitia amar ao pr\u00f3ximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa esp\u00e9cie de amor tinha a particularidade de n\u00e3o ser outra coisa mais do que o amor do indiv\u00edduo a si mesmo. E como alguns disc\u00edpulos achassem que uma tal explica\u00e7\u00e3o, por metaf\u00edsica, escapava \u00e0 compreens\u00e3o das turbas, o Diabo recorreu a um ap\u00f3logo: &#8211; Cem pessoas tomam a\u00e7\u00f5es de um banco, para as opera\u00e7\u00f5es comuns; mas cada acionista n\u00e3o cuida realmente sen\u00e3o nos seus dividendos: \u00e9 o que acontece aos ad\u00falteros. Este ap\u00f3logo foi inclu\u00eddo no livro da sabedoria.<\/p>\n<p><strong>CAPITULO IV &#8211; FRANJAS E FRANJAS<\/strong><\/p>\n<p>A previs\u00e3o do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava em franja de algod\u00e3o, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa \u00e0s urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atr\u00e1s foram chegando as outras, e o tempo aben\u00e7oou a institui\u00e7\u00e3o. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; n\u00e3o havia uma regi\u00e3o do globo que n\u00e3o a conhecesse, uma l\u00edngua que n\u00e3o a traduzisse, uma ra\u00e7a que n\u00e3o a amasse. O Diabo al\u00e7ou brados de triunfo.<\/p>\n<p>Um dia, por\u00e9m, longos anos depois, notou o Diabo que muitos dos seus fi\u00e9is, \u00e0s escondidas, praticavam as antigas virtudes. N\u00e3o as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, \u00e0s ocultas. Certos glut\u00f5es recolhiam-se a comer frugalmente tr\u00eas ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito cat\u00f3lico; muitos avaros davam esmolas, \u00e0 noite, ou nas ruas mal povoadas; v\u00e1rios dilapidadores do er\u00e1rio restitu\u00edam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o cora\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam emba\u00e7ando os outros.<\/p>\n<p>A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram at\u00e9 incompreens\u00edveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma gera\u00e7\u00e3o inteira, e, com o produto das drogas socorria os filhos das v\u00edtimas. No Cairo achou um perfeito ladr\u00e3o de camelos, que tapava a cara para ir \u00e0s mesquitas. O Diabo deu com ele \u00e0 entrada de uma, lan\u00e7ou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogomano; roubou-o, com efeito, \u00e0 vista do Diabo e foi d\u00e1-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Al\u00e1. O manuscrito beneditino cita muitas outra descobertas extraordin\u00e1rias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores ap\u00f3stolos era um calabr\u00eas, var\u00e3o de cinq\u00fcenta anos, insigne falsificador de documentos, que possu\u00eda uma bela casa na campanha romana, telas, est\u00e1tuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meter-se na cama para n\u00e3o confessar que estava s\u00e3o. Pois esse homem, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o furtava ao jogo, como ainda dava gratifica\u00e7\u00f5es aos criados. Tendo angariado a amizade de um c\u00f4nego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solit\u00e1ria; e, conquanto n\u00e3o lhe desvendasse nenhuma das suas a\u00e7\u00f5es secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. O Diabo mal p\u00f4de crer tamanha aleivosia. Mas n\u00e3o havia duvidar; o caso era verdadeiro.<\/p>\n<p>N\u00e3o se deteve um instante. O pasmo n\u00e3o lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espet\u00e1culo presente alguma coisa an\u00e1loga ao passado. Voou de novo ao c\u00e9u, tr\u00eamulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de t\u00e3o singular fen\u00f4meno. Deus ouviu-o com infinita complac\u00eancia; n\u00e3o o interrompeu, n\u00e3o o repreendeu, n\u00e3o triunfou, sequer, daquela agonia sat\u00e2nica. P\u00f4s os olhos nele, e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algod\u00e3o t\u00eam agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algod\u00e3o. Que queres tu? \u00c9 a eterna contradi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis CAPITULO I &#8211; DE UMA ID\u00c9IA MIR\u00cdFICA Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a id\u00e9ia de fundar uma igreja. 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