{"id":113495,"date":"2017-03-14T12:06:56","date_gmt":"2017-03-14T14:06:56","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=113495"},"modified":"2017-03-14T12:06:56","modified_gmt":"2017-03-14T14:06:56","slug":"a-heranca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-heranca","title":{"rendered":"A Heran\u00e7a"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Ven\u00e2ncia tinha dois sobrinhos, Em\u00edlio e Marcos; o primeiro de vinte e oito, o segundo de trinta e quatro anos. Marcos era o seu mordomo, esposo, pai, filho, m\u00e9dico e capel\u00e3o. Ele cuidava-lhe da casa e das contas, aturava os seus reumatismos e arrufos, ralhava-lhe \u00e0s vezes, brandamente, obedecia-lhe sem murm\u00fario, cuidava-lhe da sa\u00fade e dava-lhe bons conselhos. Era um rapaz tranq\u00fcilo, medido, geralmente silencioso, pacato, avesso a mulheres, indiferente a teatros, a saraus. N\u00e3o se irritava nunca, n\u00e3o teimava, parecia n\u00e3o ter opini\u00f5es nem simpatias. O \u00fanico sentimento manifesto era a dedica\u00e7\u00e3o a D. Ven\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Em\u00edlio era em muitos pontos o contraste de Marcos, seu irm\u00e3o. Primeiramente, era um d\u00e2ndi, turbulento, fr\u00edvolo, sedento de divers\u00f5es, vivendo na rua e na casa dos outros, dans le monde. Tinha c\u00f3leras, que duravam o tempo das opini\u00f5es; minutos apenas. Era alegre, falador, expansivo, como um namorado de primeira m\u00e3o. Gastava \u00e0s m\u00e3os largas.<\/p>\n<p>Vivia duas horas por dia em casa do alfaiate, uma hora em casa do cabeleireiro, o resto do tempo na Rua do Ouvidor; salvo o tempo em que dormia em casa, que n\u00e3o era a mesma casa de D. Ven\u00e2ncia, e o pouco em que ia visitar a tia. Exteriormente era um elegante; interiormente era um bom rapaz, mas um verdadeiro bom rapaz.<\/p>\n<p>N\u00e3o tinham pai nem m\u00e3e; Marcos era advogado; Em\u00edlio formara-se em medicina. Por um alto sentimento de humanidade, Em\u00edlio n\u00e3o exercia a profiss\u00e3o; o obitu\u00e1rio conservava o termo m\u00e9dio usual. Mas, tendo um e outro herdado alguma coisa dos pais, Em\u00edlio mordia razoavelmente a parte da heran\u00e7a, que ali\u00e1s o irm\u00e3o administrava com muito zelo.<\/p>\n<p>Moravam juntos, mas tinham a casa dividida de maneira que n\u00e3o podiam tolher a liberdade um do outro. \u00c0s vezes passavam-se tr\u00eas ou quatro dias sem se verem; e \u00e9 justo dizer que as saudades primeiro feriam Em\u00edlio do que ao irm\u00e3o. Ao menos era ele quem, depois de larga aus\u00eancia, se assim podemos chamar-lhe, entrava mais cedo para casa a esperar que Marcos viesse da casa de D. Ven\u00e2ncia.<\/p>\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o foste \u00e0 casa de titia? perguntava Marcos, logo que ele dizia estar a esper\u00e1-lo durante muito tempo.<\/p>\n<p>Em\u00edlio erguia os ombros, como rejeitando a id\u00e9ia desse sacrif\u00edcio volunt\u00e1rio. Depois, conversavam, riam um pouco; Em\u00edlio referia anedotas, fumava dois charutos, e s\u00f3 se levantava quando o outro confessava estar a cair de sono. Em\u00edlio, que n\u00e3o dormia antes das tr\u00eas ou quatro, nunca tinha sono; lan\u00e7ava m\u00e3o de um romance franc\u00eas e ia devor\u00e1-lo na cama at\u00e9 a hora habitual. Mas esse fr\u00edvolo tinha ocasi\u00f5es de seriedade; numa doen\u00e7a do irm\u00e3o, velou-lhe longos dias \u00e0 cabeceira, com uma dedica\u00e7\u00e3o verdadeiramente materna. Marcos sabia que ele o amava.<\/p>\n<p>N\u00e3o amava, entretanto, a tia; se fosse mau, podia detest\u00e1-la; mas se n\u00e3o a detestava, confessava intimamente que ela o aborrecia. Marcos, quando o irm\u00e3o repetia isso, tratava de o reduzir a melhor sentimento; e com t\u00e3o boas raz\u00f5es que Em\u00edlio, n\u00e3o se atrevendo a contest\u00e1-lo e n\u00e3o querendo sair de sua opini\u00e3o, recolhia-se a um eloq\u00fcente sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Ora, D. Ven\u00e2ncia encontrava essa repulsa, talvez pelo excesso mesmo de seu afeto.<\/p>\n<p>Em\u00edlio era o predileto de seus sobrinhos; ela adorava-o. A melhor hora do dia era a que ele lhe destinava a ela. Na aus\u00eancia falava de Em\u00edlio a prop\u00f3sito de qualquer coisa.<\/p>\n<p>Geralmente o rapaz ia \u00e0 casa da tia, entre as duas e tr\u00eas horas; raras vezes \u00e0 noite. Que alegria quando ele entrava! que afagos! que intermin\u00e1veis carinhos! \u2014 Vem c\u00e1, ingrato, senta-te aqui ao p\u00e9 da velha. Como passaste de ontem? \u2014 Bem, respondia Em\u00edlio sorrindo contrafeito.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, arremedava a tia; diz aquilo como se n\u00e3o fosse verdade. E quem sabe mesmo? Tiveste alguma coisa? \u2014 Nada, n\u00e3o tive nada.<\/p>\n<p>\u2014 Pensei.<\/p>\n<p>D. Ven\u00e2ncia tranq\u00fcilizava-se; depois vinha um ros\u00e1rio de perguntas e outro de anedotas.<\/p>\n<p>No meio de umas e outras, se via algum gesto de inc\u00f4modo no sobrinho, interrompia-se para perguntar se estava incomodado, se queria tomar alguma coisa. Mandava fechar as janelas de onde supunha que vinha ar; fazia-o trocar de cadeira, se lhe parecia que a que ele ocupava era menos c\u00f4moda. Esse excesso de cautelas e cuidados fatigavam o mo\u00e7o.<\/p>\n<p>Ele obedecia passivamente, falava pouco, ou o menos que lhe era poss\u00edvel. Quando resolvia sair, tornava-se perfidamente mais alegre e carinhoso, a\u00e7ucarava um cumprimento, punha-lhe mesmo alguma coisa do cora\u00e7\u00e3o, e despedia-se. D. Ven\u00e2ncia, que ficava com essa impress\u00e3o \u00faltima, confirmava-se nos seus sentimentos a respeito de Em\u00edlio, a quem proclamava o primeiro sobrinho deste mundo. Pela sua parte, Em\u00edlio descia as escadas mais aliviado; e no cora\u00e7\u00e3o, l\u00e1 no mais fundo do cora\u00e7\u00e3o, uma voz secreta sussurrava estas palavras cru\u00e9is: \u2014 Quer-me muito bem, mas \u00e9 muito amoladora.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de Marcos era uma troca de pap\u00e9is. A acariciada era ela. D. Ven\u00e2ncia tinha seus momentos de enfado e de zanga, gostava de ralhar, de bater no pr\u00f3ximo. Sua alma era uma fonte de duas bicas, vertia mel por uma e vinagre pela outra. Sabia que o melhor meio de aturar menos, era n\u00e3o imit\u00e1-la. Calava-se, sorria, aprovava tudo, com uma docilidade exemplar. Outra vezes, conforme o assunto e a ocasi\u00e3o, refor\u00e7ava os sentimentos pessimistas da tia, e ralhava, n\u00e3o com igual veem\u00eancia, porque ele estava incapaz de a fingir, mas na conformidade das id\u00e9ias dela. Presente a tudo, n\u00e3o esquecia, no meio de um discurso de D. Ven\u00e2ncia, de lhe acomodar melhor o banquinho dos p\u00e9s.<\/p>\n<p>Sabia-lhe os h\u00e1bitos, e ordenava as coisas de maneira que lhe n\u00e3o faltasse nada. Ele era a Provid\u00eancia de D. Ven\u00e2ncia e o seu p\u00e1ra-raios. De m\u00eas em m\u00eas prestava-lhe contas; e nessas ocasi\u00f5es s\u00f3 uma alma forte podia resistir ao supl\u00edcio. Cada aluguel trazia um discurso; cada obra nova ou conserto produzia objurgat\u00f3ria. Ao cabo, D. Ven\u00e2ncia n\u00e3o ficava com a menor id\u00e9ia das contas, t\u00e3o ocupada estava em desabafar o seu reumatismo; e Marcos, se quisesse afrouxar um pouco a consci\u00eancia, podia dar \u00e0s contas certa elasticidade. N\u00e3o o fazia; era incapaz de o fazer.<\/p>\n<p>Quem dissesse que na dedica\u00e7\u00e3o de Marcos entrava um pouco de interesse, podia dormir com a consci\u00eancia tranq\u00fcila, pois n\u00e3o caluniava ningu\u00e9m. Havia afeto, mas n\u00e3o havia s\u00f3 isso. D. Ven\u00e2ncia possu\u00eda bons pr\u00e9dios, e tinha s\u00f3 tr\u00eas parentes.<\/p>\n<p>O terceiro parente era uma sobrinha, que morava com ela, mo\u00e7a de vinte anos, graciosa, doida por m\u00fasica e confeitos. D. Ven\u00e2ncia tamb\u00e9m a estimava muito, quase tanto como a Em\u00edlio. Meditava at\u00e9 cas\u00e1-la antes de morrer; e s\u00f3 tinha dificuldade em achar um noivo digno da noiva.<\/p>\n<p>Um dia, no meio de uma conversa com Em\u00edlio, aconteceu-lhe dizer: \u2014 Quando te casares, adeus tia Ven\u00e2ncia! Esta palavra foi um raio de luz.<\/p>\n<p>\u2014 Casar! pensou ela, mas por que n\u00e3o com a Eug\u00eania? Nessa noite n\u00e3o cuidou mentalmente de outras coisas. Marcos nunca a vira t\u00e3o taciturna; chegou a supor que ela estivesse zangada com ele. D. Ven\u00e2ncia n\u00e3o disse, durante essa noite, mais de quarenta palavras. Olhava para Eug\u00eania, lembrava-se de Em\u00edlio, e dizia consigo: \u2014 Mas como \u00e9 que n\u00e3o lembrei disso h\u00e1 mais tempo? Nasceram um para o outro. S\u00e3o bonitos, bons, jovens. \u2014 S\u00f3 se ela tiver algum namoro; mas quem seria? No dia seguinte sondou a mo\u00e7a; Eug\u00eania, que n\u00e3o pensava em ningu\u00e9m, disse francamente que trazia o cora\u00e7\u00e3o como lho haviam dado. D. Ven\u00e2ncia exultou; riu-se muito; jantou mais do que de costume. Restava sondar Em\u00edlio no dia seguinte.<\/p>\n<p>Em\u00edlio respondeu a mesma coisa.<\/p>\n<p>\u2014 Deveras! exclamou a tia.<\/p>\n<p>\u2014 Pois ent\u00e3o! \u2014 N\u00e3o gostas de nenhuma mo\u00e7a? n\u00e3o tens nada em vista? \u2014 Nada.<\/p>\n<p>\u2014 Tanto melhor! tanto melhor! Em\u00edlio saiu aturdido e um pouco vexado. A pergunta, a insist\u00eancia, a alegria, tudo aquilo tinha um ar pouco tranq\u00fcilizador para ele.<\/p>\n<p>\u2014 Querer\u00e1 casar comigo? N\u00e3o perdeu muito tempo em conjecturas. D. Ven\u00e2ncia, que, com os seus sessenta anos, receava qualquer surpresa da morte, apressara-se a falar diretamente \u00e0 sobrinha. Era dif\u00edcil; mas D. Ven\u00e2ncia passava por ter um g\u00eanio original, que \u00e9 a coisa mais vantajosa que pode acontecer \u00e0 gente, quando quer passar por cima de certas considerae\u00f5es.<\/p>\n<p>Perguntou diretamente a Eug\u00eania se estimaria casar com Em\u00edlio; Eug\u00eania, que nunca pensara em tal, respondeu que lhe era indiferente.<\/p>\n<p>\u2014 Indiferente s\u00f3? perguntou D. Ven\u00e2ncia.<\/p>\n<p>\u2014 Posso casar.<\/p>\n<p>\u2014 Sem vontade, sem gosto, s\u00f3 por obedecer?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Oh! n\u00e3o! \u2014 Velhaca! Confessa que gostas dele.<\/p>\n<p>Eug\u00eania n\u00e3o se lembrara disso; mas respondeu com um sorriso e baixou os olhos, gesto que podia dizer muita coisa e nada. D. Ven\u00e2ncia interpretou-o como uma afirmativa, talvez porque ela preferia a afirmativa. Quanto a Eug\u00eania, ficou abalada com a proposta da tia, mas n\u00e3o lhe durou muito o abalo; foi tocar m\u00fasica. De tarde pensou outra vez na conversa que tivera, come\u00e7ou a lembrar-se de Em\u00edlio, foi ver o retrato dele que havia no \u00e1lbum. Realmente, entrou a parecer-lhe que gostava do mo\u00e7o. A tia, que o dizia, \u00e9 porque o percebera. Que admira? Um rapaz bonito, elegante, distinto. Era isso; devia am\u00e1-lo; devia casar com ele.<\/p>\n<p>Em\u00edlio foi menos f\u00e1cil de contentar-se. Quando a tia lhe deu a entender que havia uma pessoa que o amava, teve um sobressalto; quando lhe disse que era uma mo\u00e7a, teve outro. C\u00e9us! um romance! A imagina\u00e7\u00e3o de Em\u00edlio construiu logo vinte cap\u00edtulos, cada qual mais cheio de luas e mios\u00f3tis. Enfim, soube que se tratava de Eug\u00eania. A noiva n\u00e3o era de desprezar; mas tinha o defeito de ser um santo de casa.<\/p>\n<p>\u2014 E escusas de fazer essa cara, disse D. Ven\u00e2ncia; eu j\u00e1 percebi que gostas dela.<\/p>\n<p>\u2014 Eu? \u2014 N\u00e3o; hei de ser eu.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, titia&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Deixa-te de partes! J\u00e1 percebi. N\u00e3o me zango; pelo contr\u00e1rio, aprovo e at\u00e9 desejo.<\/p>\n<p>Em\u00edlio quis recusar de uma s\u00f3 vez; mas era dif\u00edcil; tomou a resolu\u00e7\u00e3o de contemporizar.<\/p>\n<p>D. Ven\u00e2ncia, a muito custo, concedeu-lhe oito dias.<\/p>\n<p>\u2014 Oito dias! exclamou o sobrinho.<\/p>\n<p>\u2014 Em menos tempo fez Deus o mundo, redarg\u00fciu D. Ven\u00e2ncia sentenciosamente.<\/p>\n<p>Em\u00edlio sentiu que a coisa era um pouco dura de roer assim feita \u00e0s pressas. Comunicou suas impress\u00f5es ao irm\u00e3o. Marcos aprovou a tia.<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m tu? \u2014 Tamb\u00e9m. A Eug\u00eania \u00e9 bonita, gosta de ti; titia faz gosto. Que mais queres? \u2014 Mas \u00e9 que nunca pensei em semelhante coisa.<\/p>\n<p>\u2014 Pois pensa agora. Em oito dias pensar\u00e1s nela e talvez acabes por gostar&#8230; Acabas com certeza.<\/p>\n<p>\u2014 Que ma\u00e7ada! \u2014 N\u00e3o acho.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 porque n\u00e3o \u00e9 contigo.<\/p>\n<p>\u2014 Se fosse era a mesma coisa.<\/p>\n<p>\u2014 Casavas? \u2014 No fim de oito dias.<\/p>\n<p>\u2014 Admiro-te. Custa-me a crer que um homem se case, assim como faz uma viagem a Vassouras.<\/p>\n<p>\u2014 O casamento \u00e9 uma viagem a Vassouras; n\u00e3o custa mais nem menos.<\/p>\n<p>Marcos disse ainda outras coisas mais, no sentido de animar o irm\u00e3o. Ele aprovava o casamento, n\u00e3o s\u00f3 porque Eug\u00eania merecia, como porque era muito melhor que tudo ficasse em casa.<\/p>\n<p>N\u00e3o interrompeu Em\u00edlio as suas visitas cotidianas; mas os dias passavam-se e ele n\u00e3o se sentia mais disposto ao casamento. No s\u00e9timo dia, despediu-se da tia e da prima, com uma cara l\u00fagubre.<\/p>\n<p>\u2014 Qual! dizia Eug\u00eania; ele n\u00e3o casa comigo.<\/p>\n<p>No oitavo dia, D. Ven\u00e2ncia recebeu uma carta de Em\u00edlio, pedindo-lhe muitos perd\u00f5es, fazendo-lhe car\u00edcias sem fim, mas acabando por uma negativa franca.<\/p>\n<p>D. Ven\u00e2ncia ficou desconsolada; tinha feito nascer esperan\u00e7as no cora\u00e7\u00e3o da sobrinha, e n\u00e3o as podia realizar de nenhuma maneira. Chegou a ter um movimento de c\u00f3lera contra o rapaz, mas arrependeu-se dele at\u00e9 morrer. Um sobrinho t\u00e3o am\u00e1vel! que recusava com t\u00e3o bons modos! Era pena que n\u00e3o aceitasse, mas se ele n\u00e3o amava, podia ela obrig\u00e1-lo ao casamento? Suas reflex\u00f5es foram essas, tanto \u00e0 sobrinha, que ali\u00e1s n\u00e3o chorou, posto ficasse um pouco triste, como ao sobrinho Marcos, que s\u00f3 tarde soubera da recusa do irm\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Aquilo \u00e9 uma cabe\u00e7a de vento! disse ele.<\/p>\n<p>D. Ven\u00e2ncia defendeu-o, como confessou que se acostumara \u00e0 id\u00e9ia de deixar Eug\u00eania casada e bem casada. Enfim n\u00e3o se pode for\u00e7ar os cora\u00e7\u00f5es. Isso mesmo repetiu ela quando Em\u00edlio a foi ver da\u00ed a dias, um tanto envergonhado da recusa. Em\u00edlio, que esperava ach\u00e1-la no mais agudo de seus reumatismos, achou-a risonha como de costume.<\/p>\n<p>Mas a recusa de Em\u00edlio n\u00e3o foi aceita t\u00e3o filosoficamente pelo irm\u00e3o. Marcos n\u00e3o achara a recusa, nem bonita nem prudente. Era um erro e uma tolice. Eug\u00eania era uma noiva digna at\u00e9 de um sacrif\u00edcio. Sim; tinha qualidades not\u00e1veis. Marcos atentou nelas. Viu que efetivamente a mo\u00e7a n\u00e3o valia o modo por que o irm\u00e3o a tratara. A resigna\u00e7\u00e3o com que aceitava a recusa era na verdade digna de respeito. Marcos simpatizou com esse proceder. N\u00e3o menos lhe doeu a dor da tia, que n\u00e3o alcan\u00e7ava realizar o desejo de deixar Eug\u00eania entregue a um bom marido.<\/p>\n<p>\u2014 Que bom marido n\u00e3o podia ser ele? Marcos seguiu esta id\u00e9ia com alma, com afinco, com desejo de acertar. Sua solicitude dividiu-se entre Eug\u00eania e D. Ven\u00e2ncia \u2014 o que era servir a D. Ven\u00e2ncia. Um dia entestou com o assunto&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Titia, disse ele, oferecendo-lhe torradinhas, eu desejava pedir-lhe um conselho.<\/p>\n<p>\u2014 Tu? Pois tu pedes conselhos, Marcos?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c0s vezes, redarg\u00fciu ele sorrindo.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9? \u2014 Se a prima Eug\u00eania me aceitasse por marido, a senhora aprovava o casamento? D. Ven\u00e2ncia olhou para Eug\u00eania espantada, Eug\u00eania, n\u00e3o menos espantada do que ela, olhou para o primo. Este olhava para ambas.<\/p>\n<p>\u2014 Aprovava? repetiu ele.<\/p>\n<p>\u2014 Que dizes? disse a tia voltando-se para a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Farei o que titia quiser, respondeu Eug\u00eania olhando para o ch\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 O que eu quiser, n\u00e3o, tornou D. Ven\u00e2ncia; mas confesso que aprovo, se for do teu gosto.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9? perguntou Marcos.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei, murmurou a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>A tia cortou a dificuldade dizendo que ela podia responder da\u00ed a quatro, seis ou oito dias.<\/p>\n<p>\u2014 Quinze ou trinta, acudiu Marcos; um ou mais meses. Meu desejo \u00e9 que fosse logo, mas n\u00e3o desejo surpreender seu cora\u00e7\u00e3o; prefiro que escolha com tranq\u00fcilidade. \u00c9 assim que nossa boa tia deseja tamb\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>D. Ven\u00e2ncia aprovou as palavras de Marcos, e deu \u00e0 sobrinha dois meses. Eug\u00eania n\u00e3o disse sim nem n\u00e3o; mas no fim daquela semana declarou \u00e0 tia que estava pronta a receber o primo por esposo.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1! exclamou a tia, referindo-se \u00e0 curteza do prazo da resposta.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1! respondeu Eug\u00eania, referindo-se \u00e0 data do casamento.<\/p>\n<p>E D. Ven\u00e2ncia, que o percebeu pelo tom, riu-se muito e deu a not\u00edcia ao sobrinho. O casamento efetuou-se dai a um m\u00eas. As testemunhas foram D. Ven\u00e2ncia, Em\u00edlio e um amigo da casa. O irm\u00e3o do noivo parecia satisfeito com o resultado.<\/p>\n<p>\u2014 Ao menos, dizia ele consigo, ficamos todos satisfeitos.<\/p>\n<p>Marcos ficou morando em casa, de modo que nem retirava a companhia de Eug\u00eania nem a sua. D. Ven\u00e2ncia tinha assim uma vantagem mais.<\/p>\n<p>\u2014 Agora o que \u00e9 preciso \u00e9 casar o Em\u00edlio, dizia ela.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea? perguntava Em\u00edlio.<\/p>\n<p>\u2014 Porque \u00e9 preciso. Meteu-se-me isso na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Em\u00edlio n\u00e3o ficou mais amigo da casa depois do casamento. Continuava a l\u00e1 ir o menos que podia. Com os anos, D. Ven\u00e2ncia ia ficando de uma ternura mais dif\u00edcil de suportar, pensava ele. Para compensar a aus\u00eancia de Em\u00edlio, tinha ela o zelo e a companhia de Eug\u00eania e Marcos. Este era ainda o seu mestre e guia.<\/p>\n<p>Um dia adoeceu deveras a sra. D. Ven\u00e2ncia; esteve um m\u00eas de cama, durante o qual os dois sobrinhos casados n\u00e3o lhe sa\u00edram da cabeceira. Em\u00edlio ia v\u00ea-la, mas s\u00f3 fez quarto a \u00faltima noite, quando ela ficara delirante. Antes disso ia v\u00ea-la, e sa\u00eda de l\u00e1 muito contra a vontade dela.<\/p>\n<p>\u2014 Onde est\u00e1 o Em\u00edlio? perguntava de quando em quando.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 vem, diziam-lhe os outros.<\/p>\n<p>O rem\u00e9dio que Em\u00edlio lhe dava era bebido sem hesita\u00e7\u00e3o. Sorria at\u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 Pobre Em\u00edlio! vais perder tua tia.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o diga isso. Ainda vamos dan\u00e7ar uma valsa.<\/p>\n<p>\u2014 No outro mundo, pode ser.<\/p>\n<p>A mol\u00e9stia agravou-se; os m\u00e9dicos desenganaram a fam\u00edlia. Mas antes do del\u00edrio, sua \u00faltima palavra foi ainda uma lembran\u00e7a a Em\u00edlio; e quem a ouviu foi Marcos que cabeceava de sono. Se quase n\u00e3o dormia! Em\u00edlio n\u00e3o estava presente quando ela expirou. Morreu, enfim, sem nada dizer de suas disposi\u00e7\u00f5es testament\u00e1rias. N\u00e3o era preciso; todos sabiam que ela tinha o testamento em poder de um velho amigo de seu marido.<\/p>\n<p>D. Ven\u00e2ncia nomeou Em\u00edlio seu herdeiro universal. Aos outros sobrinhos deixou um razo\u00e1vel legado. Marcos contava com uma divis\u00e3o, em partes iguais, pelos tr\u00eas.<\/p>\n<p>Enganara-se, e filosofou muito sobre o caso. Que havia feito o irm\u00e3o para merecer tamanha distin\u00e7\u00e3o? Nada; deixara-se amar apenas. D. Ven\u00e2ncia era a imagem da<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Ven\u00e2ncia tinha dois sobrinhos, Em\u00edlio e Marcos; o primeiro de vinte e oito, o segundo de trinta e quatro anos. Marcos era o seu mordomo, esposo, pai, filho, m\u00e9dico e capel\u00e3o. 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