{"id":113490,"date":"2017-03-14T11:49:58","date_gmt":"2017-03-14T13:49:58","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=113490"},"modified":"2017-03-14T11:49:58","modified_gmt":"2017-03-14T13:49:58","slug":"a-chave","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-chave","title":{"rendered":"A Chave"},"content":{"rendered":"<h2>Machado de assis<\/h2>\n<p>N\u00e3o sei se lhes diga simplesmente que era de madrugada, ou se comece num tom mais po\u00e9tico: aurora, com seus r\u00f3seos dedos&#8230; A maneira simples \u00e9 o que melhor me conviria a mim, ao leitor, aos banhistas que est\u00e3o agora na Praia do Flamengo \u2014 agora, isto \u00e9, no dia 7 de outubro de 1861, que \u00e9 quando tem princ\u00edpio este caso que lhes vou contar.<\/p>\n<p>Convinha-nos isto; mas h\u00e1 l\u00e1 um certo velho, que me n\u00e3o leria, se eu me limitasse a dizer que vinha nascendo a madrugada, um velho que&#8230; degamos quem era o velho.<\/p>\n<p>Imaginem os leitores um sujeito gordo, n\u00e3o muito gordo \u2014 calvo, de \u00f3culos, tranq\u00fcilo, tardo, meditativo. Tem sessenta anos: nasceu com o s\u00e9culo. Traja asseadamente um vestu\u00e1rio da manh\u00e3; v\u00ea-se que \u00e9 abastado ou exerce algum alto emprego na administra\u00e7\u00e3o. Sa\u00fade de ferro. Disse j\u00e1 que era calvo; equivale a dizer que n\u00e3o usava cabeleira. Incidente sem valor, observar\u00e1 a leitora, que tem pressa. Ao que lhe replico que o incidente \u00e9 grave, muito grave, extraordinariamente grave. A cabeleira devia ser o natural ap\u00eandice da cabe\u00e7a do major Caldas, porque cabeleira traz ele no esp\u00edrito, que tamb\u00e9m \u00e9 calvo.<\/p>\n<p>Calvo \u00e9 o esp\u00edrito. O major Caldas cultivou as letras, desde 1821 at\u00e9 1840 com um ardor verdadeiramente deplor\u00e1vel. Era poeta; compunha versos com presteza, retumbantes, cheios de adjetivos, cada qual mais calvo do que ele tinha de ficar em 1861. A primeira poesia foi dedicada a n\u00e3o sei que outro poeta, e continha em germe todas as odes e glosas que ele havia de produzir. N\u00e3o compreendeu nunca o major Caldas que se pudesse fazer outra cousa que n\u00e3o glosas e odes de toda a casta, pind\u00e1ricas ou horacianas, e tamb\u00e9m id\u00edlios piscat\u00f3ricos, obras perfeitamente leg\u00edtimas na aurora liter\u00e1ria do major. Nunca para ele houve poesia que pudesse competir com a de um Dinis ou Pimentel Maldonado; era a sua cabeleira do esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Ora, \u00e9 certo que o major Caldas, se eu dissesse que era de madrugada, dar-me-ia um muxoxo ou franziria a testa com desd\u00e9m. \u2014 Madrugada! era de madrugada! murmuraria ele. Isto diz a\u00ed qualquer preta: \u2014 &#8220;nhanh\u00e3, era de madrugada&#8230;&#8221; Os jornais n\u00e3o dizem de outro modo; mas numa novela&#8230;<\/p>\n<p>V\u00e1 pois! A aurora, com seus dedos cor-de-rosa, vinha rompendo as cortinas do oriente, quando Marcelina levantou a cortina da barraca. A porta da barraca olhava justamente para o oriente, de modo que n\u00e3o h\u00e1 inverossimilhan\u00e7a em lhes dizer que essas duas auroras se contemplaram por um minuto. Um poeta arc\u00e1dico chegaria a insinuar que a aurora celeste enrubesceu de despeito e raiva. Seria por\u00e9m levar a poesia muito longe.<\/p>\n<p>Deixemos a do c\u00e9u e venhamos \u00e0 da terra. L\u00e1 est\u00e1 ela, \u00e0 porta da barraca com as m\u00e3os cruzadas no peito, como quem tem frio; traja a roupa usual das banhistas, roupa que s\u00f3 d\u00e1 eleg\u00e2ncia a quem j\u00e1 a tiver em subido grau. \u00c9 o nosso caso.<\/p>\n<p>Assim, \u00e0 meia-luz da manh\u00e3 nascente, n\u00e3o sei se poder\u00edamos v\u00ea-la de modo claro. N\u00e3o; \u00e9 imposs\u00edvel. Quem lhe examinaria agora aqueles olhos \u00famidos, como as conchas da praia, aquela boca pequenina, que parece um beijo perp\u00e9tuo? Vede, por\u00e9m, o talhe, a curva amorosa das cadeiras, o trecho de perna que aparece entre a barra da cal\u00e7a de flanela e o tornozelo; digo o tornozelo e n\u00e3o o sapato porque Marcelina n\u00e3o cal\u00e7a sapatos de banho. Costume ou vaidade? Pode ser costume; se for vaidade \u00e9 explic\u00e1vel porque o sapato esconderia e mal os p\u00e9s mais graciosos de todo o Flamengo, um par de p\u00e9s finos, esguios, ligeiros. A cabe\u00e7a tamb\u00e9m n\u00e3o leva coifa; tem os cabelos atados em parte, em parte tran\u00e7ados \u2014 tudo desleixadamente, mas de um desleixo volunt\u00e1rio e casquilho.<\/p>\n<p>Agora, que a luz est\u00e1 mais clara, podemos ver bem a express\u00e3o do rosto, \u00c9 uma express\u00e3o singular de pomba e gato, de mimo e desconfian\u00e7a. H\u00e1 olhares dela que atraem, outros que distanciam \u2014 uns que inundam a gente, como um b\u00e1lsamo, outros que penetram como uma l\u00e2mina. \u00c9 desta \u00faltima maneira que ela olha para um grupo de duas mo\u00e7as, que est\u00e3o \u00e0 porta de outra barraca, a falar com um sujeito.<\/p>\n<p>\u2014 Lambisg\u00f3ias! murmura entre dentes.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9? pergunta o pai de Marcelina, o major Caldas, sentado ao p\u00e9 da barraca, numa cadeira que o moleque lhe leva todas as manh\u00e3s.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9 o qu\u00ea? diz a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Tu falaste alguma cousa.<\/p>\n<p>\u2014 Nada.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1s com frio? \u2014 Algum.<\/p>\n<p>\u2014 Pois olha, a manh\u00e3 est\u00e1 quente.<\/p>\n<p>\u2014 Onde est\u00e1 o Jos\u00e9? O Jos\u00e9 apareceu logo; era o moleque que a acompanhava ao mar. Aparecido o Jos\u00e9, Marcelina caminhou para o mar, com um desgarro de mo\u00e7a bonita e superior. Da outra barraca tinham j\u00e1 sa\u00eddo as duas mo\u00e7as, que lhe mereceram t\u00e3o desdenhosa classifica\u00e7\u00e3o; o rapaz que estava com elas tamb\u00e9m entrara no mar. Outras cabe\u00e7as e bustos surgiram da \u00e1gua, como um grupo de delfins. Da praia alguns olhos, puramente curiosos, se estendiam aos banhistas ou cismavam puramente contemplando o pet\u00e1culo das ondas que se dobravam e desdobravam \u2014 ou, como diria o major Caldas \u2014 as convuls\u00f5es de Anfitrite.<\/p>\n<p>O major ficou sentado a ver a filha, com o Jornal do Commercio aberto sobre os joelhos; tinha j\u00e1 luz bastante para ler as not\u00edcias; mas n\u00e3o o fazia nunca antes de voltar a filha do banho. Isto por duas raz\u00f5es. Era a primeira a pr\u00f3pria afei\u00e7\u00e3o de pai; apesar da confian\u00e7a na destreza da filha, receava algum desastre. Era a segunda o gosto que lhe dava contemplar a gra\u00e7a e a habilidade com que Marcelina mergulhava, bracejava ou simplesmente boiava &#8220;como uma n\u00e1iade&#8221;, acrescentava ele se falava disso a algum amigo.<\/p>\n<p>Acresce que o mar naquela manh\u00e3 estava muito mais bravio que de costume; a ressaca era forte; os buracos da praia mais fundos; o medo afastava v\u00e1rios banhistas habituais.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o te demores muito, disse o major, quando a filha entrou; toma cuidado.<\/p>\n<p>Marcelina era destemida; galgou a linha em que se dava a arrebenta\u00e7\u00e3o, e surdiu fora muito naturalmente. O moleque, ali\u00e1s bom nadador, n\u00e3o rematou a fa\u00e7anha com igual placidez; mas galgou tamb\u00e9m e foi surgir ao lado da sinh\u00e1-mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Hoje o bicho n\u00e3o est\u00e1 bom, ponderou um banhista ao lado de Marcelina, um homem maduro, de su\u00ed\u00e7as, ar aposentado.<\/p>\n<p>\u2014 Parece que n\u00e3o, disse a mo\u00e7a; mas para mim \u00e9 o mesmo.<\/p>\n<p>\u2014 O major continua a n\u00e3o gostar d\u2019\u00e1gua salgada? perguntou uma senhora.<\/p>\n<p>\u2014 Diz que \u00e9 militar de terra e n\u00e3o do mar, replicou Marcelina, mas eucreio que papai o que quer \u00e9 ler o Jornal \u00e0 vontade.<\/p>\n<p>\u2014 Podia vir l\u00ea-lo aqui, insinuou um rapaz de bigodes, dando uma grande risada de aplauso a si mesmo.<\/p>\n<p>Marcelina nem olhou para ele; mergulhou diante de uma onda, surdiu fora, com as m\u00e3os sacudiu os cabelos. O sol, que j\u00e1 ent\u00e3o aparecera, alumiava-a nessa ocasi\u00e3o, ao passo que a onda, seguindo para a praia, deixava-lhe todo o busto fora de \u00e1gua. Foi assim que a viu, pela primeira vez, com os cabelos \u00famidos, e a flanela grudada ao busto \u2014 ao mais correto e virginal busto daquelas praias \u2014, foi assim que pela primeira vez a viu o Bastinhos \u2014 o Lu\u00eds Bastinhos \u2014, que acabava de entrar no mar, para tomar o primeiro banho no Flamengo.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO II<\/h2>\n<p>A ocasi\u00e3o \u00e9 a menos pr\u00f3pria para apresentar-lhes o sr. Lu\u00eds Bastinhos; a ocasi\u00e3o e o lugar. O vestu\u00e1rio ent\u00e3o \u00e9 impropri\u00edssimo. Ao v\u00ea-lo agora, a meio-busto, nem se pode dizer que tenha vestu\u00e1rio de nenhuma esp\u00e9cie. Emerge-lhe a parte superior do corpo, boa musculatura, pele alva, mal coberta de alguma penugem. A cabe\u00e7a \u00e9 que n\u00e3o precisa dos arrebiques da civiliza\u00e7\u00e3o para dizer-se bonita. N\u00e3o h\u00e1 cabeleireiro, nem \u00f3leo, nem pente, nem ferro que no-la ponham mais graciosa. Ao contr\u00e1rio, a press\u00e3o fision\u00f4mica de Lu\u00eds Bastinhos acomoda-se melhor a esse desalinho agreste e mar\u00edtimo. Talvez perca, quando se pentear. Quanto ao bigode, fino e curto, os pingos d\u2019\u00e1gua que ora lhe escorrem n\u00e3o chegam a diminu\u00ed-lo; n\u00e3o chegam sequer a ver-se. O bigode persiste como dantes.<\/p>\n<p>N\u00e3o o viu Marcelina, ou n\u00e3o reparou nele. O Lu\u00eds Bastinhos \u00e9 que a viu, e mal p\u00f4de disfar\u00e7ar a admira\u00e7\u00e3o. O major Caldas, se os observasse, era capaz de cas\u00e1-los, s\u00f3 para ter o gosto de dizer que unia uma n\u00e1iade a um trit\u00e3o. Nesse momento a n\u00e1iade repara que o trit\u00e3o tem os olhos fitos nela, e mergulha, depois mergulha outra vez, nada e b\u00f3ia.<\/p>\n<p>Mas o trit\u00e3o \u00e9 teimoso, e n\u00e3o lhe tira os olhos de cima.<\/p>\n<p>&#8220;Que importuno!&#8221; diz ela consigo.<\/p>\n<p>\u2014 Olhem uma onda grande, brada um dos conhecidos de Marcelina.<\/p>\n<p>Todos se puseram em guarda, a onda enrolou alguns, mas passou sem maior dano.<\/p>\n<p>Outra veio e foi recebida com um alarido alegre; enfim veio uma mais forte, e assustou algumas senhoras. Marcelina riu-se delas.<\/p>\n<p>\u2014 Nada, dizia uma; salvemos o p\u00ealo; o mar est\u00e1 ficando zangado.<\/p>\n<p>\u2014 Medrosa! acudiu Marcelina.<\/p>\n<p>\u2014 Pois sim&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Querem ver? continuou a filha do major. Vou mandar embora o moleque.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o fa\u00e7a isso, D. Marcelina, acudiu o banhista de ar aposentado.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o fa\u00e7o outra cousa. Jos\u00e9, vai-te embora.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, nhanh\u00e3&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Vai-te embora! O Jos\u00e9 ainda esteve alguns segundos, sem saber o que fizesse; mas, parece que entre desagradar ao pai ou \u00e0 filha, achou mais arriscado desagradar \u00e0 filha, e caminhou para terra. Os outros banhistas tentaram persuadir \u00e0 mo\u00e7a que devia vir tamb\u00e9m, mas era tempo baldado. Marcelina tinha a obstina\u00e7\u00e3o de um enfant g\u00e2t\u00e9. Lembraram alguns que ela nadava como um peixe, e resistira muita vez ao mar.<\/p>\n<p>\u2014 Mas o mar do Flamengo \u00e9 o diabo, ponderou uma senhora. Os banhistas pouco a pouco foram deixando o mar. Do lado de terra, o major Caldas, de p\u00e9, ouvia impaciente a explica\u00e7\u00e3o do moleque, sem saber se o devolveria \u00e0 \u00e1gua ou se cumpriria a vontade da filha; limitou-se a soltar palavras de enfado.<\/p>\n<p>\u2014 Santa Maria! exclamou de repente o Jos\u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 Que foi? disse o major.<\/p>\n<p>O Jos\u00e9 n\u00e3o lhe respondeu; atirou-se \u00e0 \u00e1gua. O major olhou e n\u00e3o viu a filha.<\/p>\n<p>Efetivamente, a mo\u00e7a, vendo que no mar s\u00f3 ficava o desconhecido, nadou para terra, mas as ondas tinham-se sucedido com freq\u00fc\u00eancia e impetuosidade. No lugar da arrebenta\u00e7\u00e3o foi envolvida por uma; nesse momento \u00e9 que o moleque a viu.<\/p>\n<p>\u2014 Minha filha! bradou o major.<\/p>\n<p>E corria desatinado pela areia, enquanto o moleque conscienciosamente buscava penetrar no mar. Mas era j\u00e1 empresa escabrosa; as ondas estavam altas, fortes e a arrebenta\u00e7\u00e3o terr\u00edvel. Outros banhistas acudiram tamb\u00e9m a salvar a filha do major; mas a dificuldade era s\u00f3 uma para todos. Caldas, ora implorava, ora ordenava ao moleque que lhe restitu\u00edsse a filha. Enfim, Jos\u00e9 conseguiu entrar no mar. Mas j\u00e1 ent\u00e3o lutava ali, junto ao funesto lugar, o desconhecido banhista que tanto aborrecera a filha do major. Este estremeceu de alegria, de esperan\u00e7a, quando viu que algu\u00e9m forcejava por arrancar a mo\u00e7a da morte. Na verdade, o vulto de Marcelina apareceu nos bra\u00e7os do Lu\u00eds Bastinhos; mas uma onda veio e os enrolou a ambos. Nova luta, novo esfor\u00e7o e desta vez definitivo triunfo. Lu\u00eds Bastinhos chegou \u00e0 praia arrastando consigo a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Morta! exclamou o pai correndo a v\u00ea-la.<\/p>\n<p>Examinaram-na.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, desmaiada, apenas.<\/p>\n<p>Com efeito, Marcelina perdera os sentidos, mas n\u00e3o morrera. Deram-lhe os socorros m\u00e9dicos; ela voltou a si. O pai, singelamente alegre, apertou Lu\u00eds Bastinhos ao cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Devo-lhe tudo! disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 A sua felicidade me paga de sobra, tornou o mo\u00e7o.<\/p>\n<p>O major fitou-o alguns instantes; impressionara-o a resposta. Depois apertou-lhe a m\u00e3o e ofereceu-lhe a casa. Lu\u00eds Bastinhos retirou-se antes que Marcelina pudesse v\u00ea-lo.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO III<\/h2>\n<p>Na verdade, se a leitora gosta de lances romanescos, a\u00ed fica um, com todo o valor das antigas novelas, e pode ser tamb\u00e9m que dos dramalh\u00f5es antigos. Nada falta: o mar, o perigo, uma dama que se afoga, um desconhecido que a salva, um pai que passa da extrema afli\u00e7\u00e3o ao mais doce prazer da vida; eis a\u00ed com que marchar cerradamente a cinco atos ma\u00e7udos e sangrentos, rematando tudo com a morte ou a loucura da hero\u00edna.<\/p>\n<p>N\u00e3o temos c\u00e1 nem uma cousa nem outra. A nossa Marcelina n\u00e3o morreu nem morre; douda pode ser que j\u00e1 fosse, mas de uma doidice branda, a doidice das mo\u00e7as em flor.<\/p>\n<p>Ao menos pareceu que tinha alguma cousa disso, quando naquele mesmo dia soube que fora salva pelo desconhecido.<\/p>\n<p>\u2014 Imposs\u00edvel! exclamou.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea? \u2014 Foi ele deveras? \u2014 Pois ent\u00e3o! Salvou-te com perigo da vida pr\u00f3pria; houve um momento, em que eu cuidei que ambos voc\u00eas morriam enrolados na onda.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 a cousa mais natural do mundo, interveio a m\u00e3e; e n\u00e3o sei de que te espantas&#8230;<\/p>\n<p>Marcelina n\u00e3o podia, na verdade, explicar a causa do espanto; ela mesma n\u00e3o a sabia.<\/p>\n<p>Custava-lhe a crer que Lu\u00eds Bastinhos a tivesse salvo, e isso s\u00f3 porque &#8220;embirrara com ele&#8221;. Ao mesmo tempo, pesava-lhe o obs\u00e9quio. N\u00e3o quisera ter morrido; mas era melhor que outro a houvesse arrancado ao mar, n\u00e3o aquele homem, que afinal era um grande metedi\u00e7o. Marcelina esteve inclinada a crer que Lu\u00eds Bastinhos encomendara o desastre para ter ocasi\u00e3o de a servir.<\/p>\n<p>Dous dias depois, Marcelina voltou ao mar, j\u00e1 pacificado dos seus furores de encomenda.<\/p>\n<p>Ao olhar para ele, teve uns \u00edmpetos de Xerxes; f\u00e1-lo-ia castigar, se dispusesse de um bom e grande vergalho. N\u00e3o tendo o vergalho, preferiu flagel\u00e1-lo com os seus pr\u00f3prios bra\u00e7os, e nadou nesse dia mais tempo e mais fora do que era costume, n\u00e3o obstante as recomenda\u00e7\u00f5es do major. Levava naquilo um pouco, ou antes, muito amor-pr\u00f3prio: o desastre envergonhara-a.<\/p>\n<p>O Lu\u00eds Bastinhos, que j\u00e1 l\u00e1 estava no mar, travou conversa\u00e7\u00e3o com a filha do major. Era a segunda vez que se viam, e a primeira que se falavam.<\/p>\n<p>\u2014 Soube que foi o senhor quem me ajudou&#8230; a levantar anteontem, disse Marcelina.<\/p>\n<p>O Lu\u00eds Bastinhos sorriu mentalmente; e ia responder por uma simples afirmativa, quando Marcelina continuou: \u2014 Ajudou, n\u00e3o sei; eu creio que cheguei a perder os sentidos, e o senhor&#8230; sim&#8230; o senhor foi quem me salvou. Permite-me que lhe agrade\u00e7a? concluiu ela, estendendo a m\u00e3o.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Bastinhos estendeu a sua; e ali, entre duas ondas, tocaram-se os dedos do trit\u00e3o e da n\u00e1iade.<\/p>\n<p>\u2014 Hoje o mar est\u00e1 mais manso, disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 A senhora nada bem.<\/p>\n<p>\u2014 Parece-lhe? \u2014 Perfeitamente.<\/p>\n<p>\u2014 Menos mal.<\/p>\n<p>E como para mostrar a sua arte, Marcelina entrou a nadar para fora, deixando Lu\u00eds Bastinhos. Este, por\u00e9m, ou por mostrar que tamb\u00e9m sabia a arte e que era destemido \u2014 ou por n\u00e3o privar a mo\u00e7a de pronto socorro, caso houvesse necessidade \u2014, ou enfim (e este motivo pode ter sido o principal, se n\u00e3o \u00fanico) \u2014 para v\u00ea-la sempre de mais perto \u2014, l\u00e1 foi na mesma esteira; dentro de pouco era uma esp\u00e9cie de aposta entre os dous.<\/p>\n<p>\u2014 Marcelina, disse-lhe o pai, quando ela voltou a terra, voc\u00ea hoje foi mais longe do que nunca. N\u00e3o quero isso, ouviu? Marcelina levantou os ombros, mas obedeceu ao pai, cujo tom nessa ocasi\u00e3o era desusadamente r\u00edspido. No dia seguinte, n\u00e3o foi t\u00e3o longe a nadar; a conversar, por\u00e9m, foi muito mais longe do que na v\u00e9spera. Ela confessou ao Lu\u00eds Bastinhos, ambos com a \u00e1gua at\u00e9 o pesco\u00e7o, confessou que gostava muito de caf\u00e9 com leite, que tinha vinte e um1 anos, que possu\u00eda reminisc\u00eancias do Tamberlick, e que o banho do mar seria excelente, se n\u00e3o a obrigassem a acordar cedo.<\/p>\n<p>\u2014 Deita-se tarde, n\u00e3o \u00e9? perguntou o Lu\u00eds Bastinhos.<\/p>\n<p>\u2014 Perto de meia-noite.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! dorme pouco! \u2014 Muito pouco.<\/p>\n<p>\u2014 De dia dorme? \u2014 \u00c0s vezes.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Bastinhos confessou, pela sua parte, que se deitava cedo, muito cedo, desde que estava a banhos de mar.<\/p>\n<p>\u2014 Mas quando for ao teatro? \u2014 Nunca vou ao teatro.<\/p>\n<p>\u2014 Pois eu gosto muito.<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m eu; mas enquanto estiver a banhos&#8230;<\/p>\n<p>Foi neste ponto que entraram as reminisc\u00eancias do Tamberlick, que Marcelina ouviu, quando crian\u00e7a; e da\u00ed ao Jo\u00e3o Caetano, e do Jo\u00e3o Caetano a n\u00e3o sei que outras reminisc\u00eancias, que a um e a outro fez esquecer a higiene e a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO IV<\/h2>\n<p>Saiamos do mar que \u00e9 tempo. A leitora pode desconfiar que o intento do autor \u00e9 fazer um conto mar\u00edtimo, a ponto de casar os dous her\u00f3is nos pr\u00f3prios &#8220;pa\u00e7os de Anfitrite&#8221;, como diria o major Caldas. N\u00e3o; saiamos do mar. J\u00e1 tens muita \u00e1gua, boa Marcelina. Too much of water hast thou, poor Ophelia! A diferen\u00e7a \u00e9 que a pobre Of\u00e9lia l\u00e1 ficou, ao passo que tu sais s\u00e3 e salva, com a roupa de banho pegada ao corpo, um corpo grego, por Deus! e entras na barraca, e se alguma cousa ouves, n\u00e3o s\u00e3o as l\u00e1grimas dos teus, s\u00e3o os resmungos do major. Saiamos do mar.<\/p>\n<p>Um m\u00eas depois do \u00faltimo banho a que o leitor assistiu, j\u00e1 o Lu\u00eds Bastinhos freq\u00fcentava a casa do major Caldas. O major afei\u00e7oara-se-lhe deveras depois que ele lhe salvara a filha. Indagou quem era; soube que estava empregado numa reparti\u00e7\u00e3o de Marinha, que seu pai, j\u00e1 agora morto, fora capit\u00e3o-de-fragata e figurara na guerra contra Rosas. Soube mais que era mo\u00e7o bem reputado e decente. Tudo isto real\u00e7ou a a\u00e7\u00e3o generosa e corajosa de Lu\u00eds Bastinhos, e a intimidade come\u00e7ou, sem oposi\u00e7\u00e3o da parte de Marcelina, que antes contribuiu parA chave, com as suas melhores maneiras.<\/p>\n<p>Um m\u00eas era de sobra para arraigar no cora\u00e7\u00e3o de Lu\u00eds Bastinhos a planta do amor que havia germinado entre duas vagas do Flamengo. A planta cresceu, copou, bracejou ramos a um e outro lado, tomou o cora\u00e7\u00e3o todo do rapaz, que n\u00e3o se lembrava jamais de haver gostado tanto de uma mo\u00e7a. Era o que ele dizia a um amigo de inf\u00e2ncia, seu atual confidente.<\/p>\n<p>\u2014 E ela? disse-lhe o amigo.<\/p>\n<p>\u2014 Ela&#8230; n\u00e3o sei.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sabes? \u2014 N\u00e3o; creio que n\u00e3o gosta de mim, isto \u00e9, n\u00e3o digo que se aborre\u00e7a comigo; trata-me muito bem, ri muito, mas n\u00e3o gosta&#8230; entendes? \u2014 N\u00e3o te d\u00e1 corda em suma, concluiu o Pimentel, que assim se chamava o amigo confidente. J\u00e1 lhe disseste alguma cousa? \u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o lhe falas? \u2014 Tenho receio&#8230; Ela pode zangar-se e fico obrigado a n\u00e3o voltar l\u00e1 ou a freq\u00fcentar menos, e isso para mim seria o diabo.<\/p>\n<p>O Pimentel era uma esp\u00e9cie de fil\u00f3sofo pr\u00e1tico, incapaz de suspirar dous minutos pela mais bela mulher do mundo, e menos ainda de compreender uma paix\u00e3o como a do Lu\u00eds Bastinhos. Sorriu, estendeu-lhe a m\u00e3o em despedida, mas o Lu\u00eds Bastinhos n\u00e3o consentiu na separa\u00e7\u00e3o. Puxou-o, deu-lhe o bra\u00e7o, levou-o a um caf\u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 Mas que diabo queres tu que te fa\u00e7a? perguntou o Pimentel sentando-se \u00e0 mesa com ele.<\/p>\n<p>\u2014 Que me aconselhes.<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea? \u2014 N\u00e3o sei o qu\u00ea, mas dize-me alguma cousa, replicou o namorado. Talvez convenha falar ao pai; que te parece? \u2014 Sem saber se ela gosta de ti? \u2014 Na verdade era imprud\u00eancia, concordou o outro, co\u00e7ando o queixo com a ponta do dedo \u00edndice; mas talvez goste&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Porque, eu te digo, ela n\u00e3o me trata mal; ao contr\u00e1rio, \u00e0s vezes tem uns modos, umas cousas&#8230; mas n\u00e3o sei&#8230; O major esse gosta de mim.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! \u2014 Gosta.<\/p>\n<p>\u2014 Pois a\u00ed tens, casa-te com o major.<\/p>\n<p>\u2014 Falemos s\u00e9rio.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00e9rio? repetiu o Pimentel debru\u00e7ando-se sobre a mesa e encarando o outro. Aqui vai o mais s\u00e9rio que h\u00e1 no mundo; tu \u00e9s um&#8230; digo? \u2014 Dize.<\/p>\n<p>\u2014 Tu \u00e9s um bolas.<\/p>\n<p>Repetiam-se essas cenas regularmente, uma ou duas vezes, por semana. No fim delas o Lu\u00eds Bastinhos prometia duas cousas a si mesmo: n\u00e3o dizermais nada ao Pimentel e ir fazer imediatamente a sua confiss\u00e3o a Marcelina; poucos dias depois ia confessar ao Pimentel que ainda n\u00e3o dissera nada a Marcelina. E o Pimentel abanava a cabe\u00e7a e repetia o estribilho: \u2014 Tu \u00e9s um bolas.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO V<\/h2>\n<p>Um dia assentou Lu\u00eds Bastinhos que era vergonha dilatar por mais tempo a declara\u00e7\u00e3o de seus afetos; urgia clarear a situa\u00e7\u00e3o. Ou era amado ou n\u00e3o; no primeiro caso, o sil\u00eancio era tolice; no segundo a tolice era a assiduidade. Tal foi a reflex\u00e3o do namorado; tal foi a sua resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A ocasi\u00e3o era na verdade prop\u00edcia. O pai ia passar a noite fora; a mo\u00e7a ficara com uma tia surda e sonolenta. Era o sol de Austerlitz; o nosso Bonaparte preparou a sua melhor t\u00e1tica. A fortuna deu-lhe at\u00e9 um grande auxiliar na pr\u00f3pria mo\u00e7a, que estava triste; a tristeza podia dispor o cora\u00e7\u00e3o a sentimentos ben\u00e9volos, principalmente quando outro cora\u00e7\u00e3o lhe dissesse que n\u00e3o duvidava beber na mesma ta\u00e7a da melancolia. Esta foi a primeira reflex\u00e3o de Lu\u00eds Bastinhos; a segunda foi diferente.<\/p>\n<p>\u2014 Por que estar\u00e1 ela triste? perguntou ele a si mesmo.<\/p>\n<p>E eis o dente do ci\u00fame a trincar-lhe o cora\u00e7\u00e3o, e o sangue a esfriar-lhe nas veias, e uma nuvem a cobrir-lhe os olhos. N\u00e3o era para menos o caso. Ningu\u00e9m adivinharia nessa mo\u00e7a quieta e sombria, sentada a um canto do sof\u00e1, a ler as p\u00e1ginas de um romance, ningu\u00e9m adivinharia nela a borboleta \u00e1gil e vol\u00favel de todos os dias. Alguma cousa devia ser; talvez a mordesse algum besouro. E esse besouro n\u00e3o era decerto o Lu\u00eds Bastinhos; foi o que este pensou e foi o que o entristeceu.<\/p>\n<p>Marcelina ergueu os ombros.<\/p>\n<p>\u2014 Alguma cousa que a incomoda, continuou ele.<\/p>\n<p>Um sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o? \u2014 Talvez.<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem, disse Lu\u00eds Bastinhos com calor e animado por aquela meia confid\u00eancia; pois bem, diga-me tudo, eu saberei ouvi-la e terei palavras de consola\u00e7\u00e3o para as suas dores.<\/p>\n<p>Marcelina olhou um pouco espantada para ele, mas a tristeza dominou outra vez e deixou-se estar calada alguns instantes: finalmente p\u00f4s-lhe a m\u00e3o no bra\u00e7o, e disse que lhe agradecia muito o interesse que mostrava, mas que o motivo de tristeza era-o s\u00f3 parA chave e n\u00e3o valia a pena cont\u00e1-lo. Como Lu\u00eds Bastinhos teimasse para saber o que era, contou a mo\u00e7a que lhe morrera, nessa manh\u00e3, o mico.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Bastinhos respirou \u00e0 larga. Um mico! um simples mico! Era pueril o objeto, mas para quem o esperava terr\u00edvel, antes assim. Ele entregou-se depois a toda a sorte de considera\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias do caso, disse-lhe que n\u00e3o valia o bicho a pureza dos belos olhos da mo\u00e7a; e da\u00ed a escorregar uma insinua\u00e7\u00e3o de amor era um quase nada. Ia a faz\u00ea-lo: chegou o major.<\/p>\n<p>Oito dias depois houve em casa do major um sarau \u2014 &#8220;uma brincadeira&#8221; como disse o pr\u00f3prio major. Lu\u00eds Bastinhos foi; estava por\u00e9m arrufado com a mo\u00e7a: deixou-se ficar a um canto; n\u00e3o se falaram durante a noite inteira.<\/p>\n<p>\u2014 Marcelina, disse-lhe no dia seguinte o pai; acho que tratas \u00e0s vezes mal o Bastinhos.<\/p>\n<p>Um homem que te salvou da morte.<\/p>\n<p>\u2014 Que morte? \u2014 Da morte na Praia do Flamengo.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, papai, se a gente fosse a morrer de amores por todas as pessoas que nos salvam da morte&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas quem te fala nisso? digo que o tratas mal \u00e0s vezes&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c0s vezes, \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2014 Mas por qu\u00ea? ele parece-me um bom rapaz.<\/p>\n<p>Nada mais lhe respondendo a filha, entrou o major a bater com a ponta do p\u00e9 no ch\u00e3o, um pouco enfadado. Um pouco? talvez muito. Marcelina destru\u00eda-lhe as esperan\u00e7as, reduzia-lhe a nada o projeto que ele acalentava desde algum tempo, \u2014 que era casar os dous; \u2014 cas\u00e1-los ou uni-los pelos &#8220;doces la\u00e7os do himeneu&#8221;, que todas foram as suas pr\u00f3prias express\u00f5es mentais. E vai a mo\u00e7a e destr\u00f3i-lho. O major sentia-se velho, podia morrer, e quisera deixar a filha casada e bem casada. Onde achar melhor marido que o Lu\u00eds Bastinhos? \u2014 Uma p\u00e9rola, dizia ele a si mesmo.<\/p>\n<p>E enquanto ele ia forjando e desforjando esses projetos, Marcelina suspirava consigo mesma, e sem saber por que; mas suspirava. Tamb\u00e9m esta pensava na conveni\u00eancia de casar e casar bem; mas nenhum homem lhe abrira deveras o cora\u00e7\u00e3o. Quem sabe se a fechadura n\u00e3o servia a nenhumA chave? Quem teria a verdadeirA chave do cora\u00e7\u00e3o de Marcelina? Ela chegou a supor que fosse um bacharel da vizinhan\u00e7a, mas esse casou dentro de algum tempo; depois desconfiara que A chave estivesse em poder de um oficial de Marinha. Erro: o oficial n\u00e3o traziA chave consigo. Assim andou de ilus\u00e3o em ilus\u00e3o, e chegou \u00e0 mesma tristeza do pai. Era f\u00e1cil acabar com ela: era casar com o Bastinhos.<\/p>\n<p>Mas se o Bastinhos, o circunspecto, o melanc\u00f3lico, o taciturno Bastinhos n\u00e3o tinha A chave! Equivalia a receb\u00ea-lo \u00e0 porta sem lhe dar entrada no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO VI<\/h2>\n<p>Cerca de m\u00eas e meio depois fazia anos o major, que, animado pelo sarau precedente, quis comemorar com outro aquele dia. &#8220;Outra brincadeira, mas desta vez rija&#8221;, foram os pr\u00f3prios termos em que ele anunciou o caso ao Lu\u00eds Bastinhos, alguns dias antes.<\/p>\n<p>Pode-se dizer e acreditar que a filha do major n\u00e3o teve outro pensamento desde que o pai lho comunicou tamb\u00e9m. Come\u00e7ou por encomendar um rico vestido, elegeu costureira, adotou corte, coligiu adornos, presidiu a toda essa grande obra dom\u00e9stica. J\u00f3ias, flores, fitas, leques, rendas, tudo lhe passou pelas m\u00e3os, e pela mem\u00f3ria e pelos sonhos. Sim, a primeira quadrilha foi dan\u00e7ada em sonhos, com um belo cavalheiro h\u00fangaro, vestido \u00e0 moda nacional, c\u00f3pia de uma gravura da Ilustra\u00e7\u00e3o Francesa, que ela vira de manh\u00e3.<\/p>\n<p>Acordada, lastimou sinceramente que n\u00e3o fosse poss\u00edvel ao pai encomendar, de envolta com os perus da ceia, um ou dous cavalheiros h\u00fangaros \u2014 entre outros motivos porque eram valsadores intermin\u00e1veis. E depois t\u00e3o bonitos! \u2014 Sabem que eu pretendo dan\u00e7ar no dia 20? disse o major uma noite, em casa.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea? retorquiu-lhe um amigo velho.<\/p>\n<p>\u2014 Eu.<\/p>\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o? assentiu timidamente o Lu\u00eds Bastinhos.<\/p>\n<p>\u2014 Justamente, continuou o major voltando-se para o salvador da filha. E o senhor h\u00e1 de ser o meu vis-\u00e0-vis&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu? \u2014 N\u00e3o dan\u00e7a? \u2014 Um pouco, retorquiu modestamente o mo\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Pois h\u00e1 de ser o meu vis-\u00e0-vis.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Bastinhos curvou-se como quem obedece a uma opress\u00e3o; com a flexibilidade passiva do fatalismo. Se era necess\u00e1rio dan\u00e7ar, ele o faria, porque dan\u00e7ava como poucos, e obedecer ao velho era uma maneira de amar a mo\u00e7a. Ai dele! Marcelina olhouo com tamanho desprezo, que se ele lhe apanha o olhar, n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel que de uma vez para sempre ali deixasse de p\u00f4r os p\u00e9s. Mas n\u00e3o o viu; continuou a arred\u00e1-los dali bem poucas vezes.<\/p>\n<p>Os convites foram profusamente espalhados. O major Caldas fez o invent\u00e1rio de todas as suas rela\u00e7\u00f5es, antigas e modernas, e n\u00e3o quis que nenhum camar\u00e3o lhe escapasse pelas malhas: lan\u00e7ou uma rede fina e instante. Se ele n\u00e3o pensava em outra cousa o velho major! Era feliz; sentia-se poupado da adversidade, quando muitos outros companheiros vira cair, uns mortos, outros extenuados somente. A comemora\u00e7\u00e3o de seu anivers\u00e1rio tinha, portanto, uma significa\u00e7\u00e3o mui alta e especial; e foi isso mesmo o que ele disse \u00e0 filha e aos demais parentes.<\/p>\n<p>O Pimentel, que tamb\u00e9m fora convidado, sugeriu a Lu\u00eds Bastinhos a id\u00e9ia de dar um presente de anos ao major.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 pensei nisso, retorquiu o amigo; mas n\u00e3o sei o que lhe d\u00ea.<\/p>\n<p>\u2014 Eu te digo.<\/p>\n<p>\u2014 Dize.<\/p>\n<p>\u2014 D\u00e1-lhe um genro.<\/p>\n<p>\u2014 Um genro? \u2014 Sim, um noivo \u00e0 filha; declara o teu amor e pede-a. Ver\u00e1s que, de todas as d\u00e1divas desse dia, essa ser\u00e1 a melhor.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Bastinhos bateu palmas ao conselho do Pimentel.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 isso mesmo, disse ele; eu andava com a id\u00e9ia em alguma j\u00f3ia, mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas a melhor j\u00f3ia \u00e9s tu mesmo, concluiu o Pimentel.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o digo tanto.<\/p>\n<p>\u2014 Mas pensas.<\/p>\n<p>\u2014 Pimentel! \u2014 E eu n\u00e3o penso outra cousa. Olha, se eu tivesse intimidade na casa, h\u00e1 muito tempo que estarias amarrado \u00e0 pequena. Pode ser que ela n\u00e3o goste de ti; mas tamb\u00e9m \u00e9 dif\u00edcil a uma mo\u00e7a alegre e travessa gostar de um casmurro, como tu \u2014 que te sentas, defronte dela, com um ar solene e dram\u00e1tico, a dizer em todos os teus gestos: minha senhora, fui eu que a salvei da morte; deve rigorosamente entregar-me a sua vida&#8230; Ela pensa decerto que est\u00e1s fazendo um calembour de mau gosto e fecha-te a porta&#8230;<\/p>\n<p>Lu\u00eds Bastinhos esteve calado alguns instantes.<\/p>\n<p>\u2014 Perd\u00f4o-te tudo, a troco do conselho que me deste; vou oferecer um genro ao major.<\/p>\n<p>Dessa vez, como de todas as outras, a promessa era maior do que a realidade; ele l\u00e1 foi, l\u00e1 tornou, nada fez. Iniciou duas ou tr\u00eas vezes uma declara\u00e7\u00e3o; chegou a entornar um ou dous olhares de amor, que n\u00e3o pareceram de todo feios \u00e0 pequena; e, porque ela sorriu, ele desconfiou e desesperou. Qual! pensava consigo o rapaz; ela ama a outro com certeza.<\/p>\n<p>Veio enfim o dia, o grande dia. O major deu um pequeno jantar, em que figurou Lu\u00eds Bastinhos; de noite reuniu uma parte dos convidados, porque nem todos l\u00e1 puderam ir, e fizeram bem; a casa n\u00e3o dava para tanto. Ainda assim era muita gente reunida, muita e brilhante, e alegre, como alegre parecia e deveras estava o major. N\u00e3o se disse nem se dir\u00e1 dos brindes do major, \u00e0 mesa do jantar; n\u00e3o podem inserir-se aqui todas as recorda\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas do velho poeta de outros anos; seria n\u00e3o acabar mais. A \u00fanica cousa que verdadeiramente se pode dizer \u00e9 que o major declarou, \u00e0 sobremesa, ser esse o dia mais venturoso de todos os seus longos anos, entre outros motivos, porque tinha gosto de ver ao p\u00e9 de si o jovem salvador da filha.<\/p>\n<p>\u2014 Que id\u00e9ia! murmurou a filha; e deu um impercept\u00edvel muxoxo. Lu\u00eds Bastinhos aproveitou o ensejo. &#8220;Magn\u00edfico, disse ele consigo; depois do caf\u00e9, pe\u00e7o-lhe duas palavras em particular, e logo depois a filha.&#8221; Assim fez; tomado o caf\u00e9, pediu ao major uns cinco minutos de aten\u00e7\u00e3o. Caldas, um pouco vermelho de como\u00e7\u00e3o e de champagne, declarou-lhe que at\u00e9 lhe daria cinco mil minutos, se tantos fossem precisos.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Bastinhos sorriu lisonjeado a essa deslocada insinua\u00e7\u00e3o; e, entrando no gabinete particular do major, foi sem mais pre\u00e2mbulo ao fim da entrevista; pediu-lhe a filha em casamento. O major quis resguardar um pouco a dignidade paterna; mas era imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Sua alegria foi uma explos\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Minha filha! bradou ele; mas&#8230; minha filha&#8230; ora essa&#8230; pois n\u00e3o!&#8230; Minha filha! E abria os bra\u00e7os e apertava com eles o jovem candidato, que, um pouco admirado do pr\u00f3prio atrevimento, chegou a perder o uso da voz. Mas a voz era, ali\u00e1s, in\u00fatil, ao menos durante o primeiro quarto de hora, em que s\u00f3 falou o ambiciado sogro, com uma volubilidade sem limites. Cansou enfim, mas de um modo cruel.<\/p>\n<p>\u2014 Velhacos! disse ele; com que ent\u00e3o&#8230; amam-se \u00e0s escondidas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu? \u2014 Pois quem? \u2014 Pe\u00e7o-lhe perd\u00e3o, disse Lu\u00eds Bastinhos; mas n\u00e3o sei&#8230; n\u00e3o tenho certeza&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Qu\u00ea! n\u00e3o se correspondem?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me tenho atrevido&#8230;<\/p>\n<p>O major abanou a cabe\u00e7a com certo ar de irrita\u00e7\u00e3o e l\u00e1stima; pegou-lhe das m\u00e3os e fitouo durante alguns segundos.<\/p>\n<p>\u2014 Tu \u00e9s afinal de contas um pandorga, sim, um pandorga \u2014 disse ele, largando-lhe as m\u00e3os.<\/p>\n<p>Mas o gosto de os ver casados era tal, e tal a alegria daquele dia de anos, que o major sentiu a l\u00e1stima converter-se em entusiasmo, a irrita\u00e7\u00e3o em gosto, e tudo acabou em boas promessas.<\/p>\n<p>\u2014 Pois digo-te, que te h\u00e1s de casar, concluiu ele; Marcelina \u00e9 um anjo, tu outro, eu outro; tudo indica que nos devemos ligar por la\u00e7os mais doces do que as simples rela\u00e7\u00f5es da vida. Juro-te que ser\u00e1s o pai de meus netos&#8230;<\/p>\n<p>Jurava mal o major, porque da\u00ed a meia hora, quando ele chamou a filha ao gabinete, e lhe comunicou o pedido, recebeu desta a mais formal recusa; e por que insistisse em querer conced\u00ea-la ao rapaz, disse-lhe a mo\u00e7a que despediria o pretendente em plena sala, se lhe falassem mais em semelhante absurdo. Caldas que conhecia a filha n\u00e3o disse mais nada. Quando o pretendente lhe perguntou, da\u00ed a pouco, se devia considerar-se feliz, ele usou um expediente assaz enigm\u00e1tico: piscou-lhe o olho. Lu\u00eds Bastinhos ficou radiante; ergueu-se \u00e0s nuvens nas asas da felicidade.<\/p>\n<p>Durou pouco a felicidade; Marcelina n\u00e3o correspondia \u00e0s promessas do major. Tr\u00eas ou quatro vezes chegara-se A chave Lu\u00eds Bastinhos, com uma frase piegas na ponta da l\u00edngua, e vira-se obrigado a engoli-la outra vez, porque a recep\u00e7\u00e3o de Marcelina n\u00e3o animava mais. Irritado, foi sentar-se ao canto de uma janela, com os olhos na lua, que estava espl\u00eandida \u2014 uma verdadeira nesga de romantismo. Ali fez mil projetos tr\u00e1gicos, o suic\u00eddio, o assassinato, o inc\u00eandio, a revolu\u00e7\u00e3o, a conflagra\u00e7\u00e3o dos elementos; ali jurou que se vingaria de um modo exemplar. Como ent\u00e3o soprasse uma brisa fresca, e ele a recebesse em primeira m\u00e3o, \u00e0 janela, acalmaram-se-lhe as id\u00e9ias f\u00fanebres e sang\u00fc\u00edneas, e apenas lhe ficou um desejo de vingan\u00e7a de sala. Qual? N\u00e3o sabia qual fosse; mas trouxe-lha enfim uma sobrinha do major.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o dan\u00e7a? perguntou ela a Lu\u00eds Bastinhos.<\/p>\n<p>\u2014 Eu? \u2014 O senhor.<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o, minha senhora.<\/p>\n<p>Levantou-se e deu-lhe o bra\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 De maneira que, disse ela, j\u00e1 agora s\u00e3o as mo\u00e7as que tiram os homens para dan\u00e7ar? \u2014 Oh! n\u00e3o! protestou ele. As mo\u00e7as apenas ordenam aos homens o que devem fazer; e o homem que est\u00e1 no seu papel obedece sem discrepar.<\/p>\n<p>\u2014 Mesmo sem vontade? perguntou a prima de Marcelina.<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9 que neste mundo pode n\u00e3o ter vontade de obedecer a uma dama? disse Lu\u00eds Bastinhos com o seu ar mais piegas.<\/p>\n<p>Estava em pleno madrigal; iriam longe, porque a mo\u00e7a era das que saboreiam esse g\u00eanero de palestra. Entretanto, tinham dado o bra\u00e7o, e passeavam ao longo da sala, \u00e0 espera da valsa, que se ia tocar. Deu sinal a valsa, os pares sa\u00edram, e come\u00e7ou o turbilh\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o tardou muito que a sobrinha do major compreendesse que estava abra\u00e7ada a um valsista em\u00e9rito, a um verdadeiro modelo de valsistas. Que delicadeza! que seguran\u00e7a! que acerto de passos! Ela, que tamb\u00e9m valsava com muita regularidade e gra\u00e7a, entregou-se toda ao parceiro. E ei-los unidos, a voltearem rapidamente, leves como duas plumas, sem perder um compasso, sem discrepar uma linha. Pouco a pouco, esvaziandose a arena, iam sendo os dous objeto exclusivo da aten\u00e7\u00e3o de todos. N\u00e3o tardou que ficassem s\u00f3s; e foi ent\u00e3o que o sucesso se formou decisivo e lisonjeiro. Eles giravam e sentiam que eram o alvo da admira\u00e7\u00e3o geral; e ao senti-lo, criavam for\u00e7as novas, e n\u00e3o cediam o campo a nenhum outro. Pararam com a m\u00fasica \u2014 Quer tomar alguma cousa? perguntou Lu\u00eds Bastinhos com a mais adocicada de suas entona\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a aceitou um pouco de \u00e1gua; e enquanto andavam elogiavam um ao outro, com o maior calor do mundo. Nenhum desses elogios, por\u00e9m, chegou ao do major, quando da\u00ed a pouco encontrou Lu\u00eds Bastinhos.<\/p>\n<p>\u2014 Pois voc\u00ea estava com isso guardado! disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Isso qu\u00ea? \u2014 Isso&#8230; esse talento que Deus concedeu a poucos&#8230; a bem raros. Sim, senhor; pode crer que \u00e9 o rei da minha festa.<\/p>\n<p>E apertou-lhe muito as m\u00e3os, piscando o olho. Lu\u00eds Bastinhos tinha j\u00e1 perdido toda a f\u00e9 naquele jeito peculiar do major; recebeu-o com frieza. O sucesso entretanto fora grande; ele o sentiu nos olhares sorrateiros dos outros rapazes, nos gestos de desd\u00e9m que eles faziam; foi a consagra\u00e7\u00e3o \u00faltima.<\/p>\n<p>\u2014 Com que ent\u00e3o, s\u00f3 minha prima \u00e9 que mereceu uma valsa! Lu\u00eds Bastinhos estremeceu, ao ouvir esta palavra; voltou-se; deu com os olhos em Marcelina. A mo\u00e7a repetiu o dito, batendo-lhe com o leque no bra\u00e7o. Ele murmurou algumas palavras, que a hist\u00f3ria n\u00e3o conservou, ali\u00e1s deviam ser not\u00e1veis, porque ele ficou vermelho como uma pitanga. Essa cor ainda se tornou mais viva, quando a mo\u00e7a, enfiando-lhe o bra\u00e7o, disse resolutamente: \u2014 Vamos a esta valsa&#8230;<\/p>\n<p>Tremia o rapaz de como\u00e7\u00e3o; pareceu-lhe ver nos olhos da mo\u00e7a todas as promessas da bem-aventuran\u00e7a; entrou a compreender os piscados do major.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o? disse Marcelina.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos.<\/p>\n<p>\u2014 Ou est\u00e1 cansado? \u2014 Eu? que id\u00e9ia. N\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o estou cansado.<\/p>\n<p>A outra valsa fora um primor; esta foi classificada entre os milagres. Os amadores confessaram francamente que nunca tinham visto um valsador como Lu\u00eds Bastinhos. Era o imposs\u00edvel realizado; seria a pura arte dos arcanjos, se os arcanjos valsassem. Os mais invejosos tiveram de ceder alguma cousa \u00e0 opini\u00e3o da sala. O major chegou \u00e0s raias do del\u00edrio.<\/p>\n<p>\u2014 Que me dizem a este rapaz? bradou ele a uma roda de senhoras. Ele faz tudo: nada como um peixe e valsa como um pi\u00e3o. Salvou-me a filha para valsar com ela.<\/p>\n<p>Marcelina n\u00e3o ouviu estas palavras do pai, ou perdoou-lhas. Estava toda entregue \u00e0 admira\u00e7\u00e3o. Lu\u00eds Bastinhos era at\u00e9 ali o melhor valsista que encontrara. Ela tinha vaidade e reputa\u00e7\u00e3o de valsar bem; e achar um parceiro de tal for\u00e7a era a maior fortuna que podia acontecer a uma valsista. Disse-lho ela mesma, n\u00e3o sei se com a boca, se com os olhos, e ele epetiu-lhe a mesma id\u00e9ia, e foram ratificar da\u00ed a pouco as suas impress\u00f5es numa segunda valsa. Foi outro e maior sucesso.<\/p>\n<p>Parece que Marcelina valsou ainda uma vez com Lu\u00eds Bastinhos, mas em sonhos, uma valsa intermin\u00e1vel, numa plan\u00edcie, ao som de uma orquestra de diabos azuis e invis\u00edveis.<\/p>\n<p>Foi assim que ela referiu o sonho, no dia seguinte, ao pai.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 sei, disse este; esses diabos azuis e invis\u00edveis deviam ser dous.<\/p>\n<p>\u2014 Dous? \u2014 Um padre e um sacrist\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora, papai! E foi um protesto t\u00e3o gracioso, que o Lu\u00eds Bastinhos, se o ouvisse e visse, mui provavelmente pediria repeti\u00e7\u00e3o. Mas nem viu nem soube dele. De noite, indo l\u00e1, recebeu novos louvores, falaram do baile da v\u00e9spera. O major confessou que era o melhor baile do ano; e dizendo-lhe a mesma cousa o Lu\u00eds Bastinhos, declarou o major que o salvador da filha reunia o bom gosto ao talento coreogr\u00e1fico.<\/p>\n<p>\u2014 Mas por que n\u00e3o d\u00e1 outra brincadeira, um pouco mais familiar? disse o Lu\u00eds Bastinhos.<\/p>\n<p>O major piscou o olho e adotou a id\u00e9ia. Marcelina exigiu de Lu\u00eds Bastinhos que dan\u00e7asse com ela a primeira valsa.<\/p>\n<p>\u2014 Todas, disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Todas? \u2014 Juro-lhe que todas.<\/p>\n<p>Marcelina abaixou os olhos e lembrou-se dos diabos azuis e invis\u00edveis. eio a noite da &#8220;brincadeira&#8221;, e Lu\u00eds Bastinhos cumpriu a promessa; valsaram ambos todas as valsas. Era quase um esc\u00e2ndalo. A convic\u00e7\u00e3o geral \u00e9 que o casamento estava pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Alguns dias depois, o major deu com os dous numa sala, ao p\u00e9 de uma mesa, a folhearem um livro \u2014 um livro ou as m\u00e3os, porque as m\u00e3os de um e de outro estavam sobre o livro, juntas, e apertadas. Parece que tamb\u00e9m folheavam os olhos, com tanta aten\u00e7\u00e3o que n\u00e3o viram o major. O major quis sair, mas preferiu precipitar a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o que \u00e9 isso? Est\u00e3o valsando sem m\u00fasica? Estremeceram os dous e coraram muito, mas o major piscou o olho, e saiu. Lu\u00eds Bastinhos aproveitou a circunst\u00e2ncia para dizer \u00e0 mo\u00e7a que o casamento era a verdadeira valsa social; id\u00e9ia que ela aprovou e comunicou ao pai.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, disse este, a melhor Terps\u00edcore \u00e9 Himeneu.<\/p>\n<p>Celebrou-se o casamento da\u00ed a dous meses. O Pimentel, que serviu de padrinho ao noivo, disse-lhe na igreja, que em certos casos era melhor valsar que nadar, e que a verdadeirA chave do cora\u00e7\u00e3o de Marcelina n\u00e3o era a gratid\u00e3o mas a coreografia. Lu\u00eds Bastinhos abanou a cabe\u00e7a sorrindo; o major, supondo que eles o elogiavam em voz baixa, piscou o olho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de assis N\u00e3o sei se lhes diga simplesmente que era de madrugada, ou se comece num tom mais po\u00e9tico: aurora, com seus r\u00f3seos dedos&#8230; A maneira simples \u00e9 o que melhor me conviria a mim, ao leitor, aos banhistas que est\u00e3o agora na Praia do Flamengo \u2014 agora, isto \u00e9, no dia 7 de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-113490","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ 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