{"id":113373,"date":"2017-03-13T08:52:45","date_gmt":"2017-03-13T10:52:45","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=113373"},"modified":"2017-03-13T08:52:45","modified_gmt":"2017-03-13T10:52:45","slug":"um-coracao-ardente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/um-coracao-ardente","title":{"rendered":"Um Cora\u00e7\u00e3o Ardente"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h4>Lygia Fagundes Telles<\/h4>\n<p>O velho voltou-se para a janela aberta, que enquadrava um peda\u00e7o do c\u00e9u estrelado. Tinha uma bela voz:<\/p>\n<p>&#8220;&#8230; Mas eu dizia que na minha primeira juventude fui escritor. Pois \u00e9, escritor. Ali\u00e1s, enveredei por todos os g\u00eaneros: poesia, romance, cr\u00f4nica , teatro&#8230; Fiz de tudo. E mais g\u00eaneros houvesse&#8230; Meti-me tamb\u00e9m na pol\u00edtica, cheguei a escrever uma doutrina inteira para o meu partido. Mergulhei ainda na filosofia, \u00f4 Kant, \u00f3 Bergson!&#8230; Achava important\u00edssimo meu distintivo de fil\u00f3sofo, com uma corujinha encolhida em cima de um livro.&#8221;<\/p>\n<p>Calou-se. Havia agora no seu olhar uma express\u00e3o de afetuosa ironia. Zombava de si pr\u00f3prio, mas sem amargor.<\/p>\n<p>&#8220;Eu n\u00e3o sabia que n\u00e3o tinha voca\u00e7\u00e3o nem para pol\u00edtico, nem para fil\u00f3sofo, nem para advogado, n\u00e3o tinha a menor voca\u00e7\u00e3o para nenhuma daquelas carreiras que me fascinavam, essa \u00e9 a verdade. Tinha apenas um cora\u00e7\u00e3o ardente, isto sim. Apenas um cora\u00e7\u00e3o ardente, mais nada.\u201d<\/p>\n<p>&#8220;Meu filho Atos herdou o mesmo cora\u00e7\u00e3o. Devo dizer-lhe que um cora\u00e7\u00e3o assim \u00e9 um bem. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que \u00e9 um bem, mas um bem perigoso, est\u00e1 me compreendendo? T\u00e3o perigoso&#8230; Principalmente na adolesc\u00eancia, logo no come\u00e7o da vida, no t\u00e3o dif\u00edcil come\u00e7o. Meu pobre filho que o diga&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Calou-se apertando fortemente os l\u00e1bios. Eu quis ent\u00e3o romper o sil\u00eancio porque sabia do que aquele sil\u00eancio se carregava, mas n\u00e3o tive for\u00e7as para dizer coisa alguma. O olhar do velho j\u00e1 denunciava as tristes lembran\u00e7as que o assaltavam: qualquer tentativa para afast\u00e1-las resultaria agora in\u00fatil. E seria mesmo cruel.<\/p>\n<p>&#8220;Ele era inteiro um cora\u00e7\u00e3o&#8221;, prosseguiu o velho. &#8220;E foi por saber t\u00e3o bem disto que corri como um louco para casa quando me disseram que Leonor tinha morrido. N\u00e3o, n\u00e3o fui nem pensei sequer em ir ao hospital porque adivinhei que ele n\u00e3o estava mais l\u00e1, devia ter ficado com a noiva at\u00e9 o \u00faltimo momento. Em seguida, devia ter voltado para casa.\u201d<\/p>\n<p>&#8220;Sa\u00ed correndo pela rua afora, acenando para os carros que passavam j\u00e1 ocupados. Chovia, chovia horrivelmente. E eu acenava em v\u00e3o para os carros, tentei mesmo agarrar-me a um deles, &#8216;depressa, depressa, que meu filho vai se matar!&#8217; Corri tanto que quando cheguei, encharcado e exausto, atirei- me quase desfalecido nos degraus da escada. E ali fiquei de bru\u00e7os, a olhar estupidamente uma formiguinha que se infiltrara numa fenda do degrau de pedra. A casa estava quieta. Quieta demais, pensei, erguendo-me de um salto. E precipitei-me aos gritos pela casa adentro, embora soubesse muito bem que ele n\u00e3o podia mais me ouvir, &#8216;filho, n\u00e3o!&#8217;\u201d<\/p>\n<p>O velho fez uma pausa. Acendi um cigarro. Que ao menos o ru\u00eddo do f\u00f3sforo riscado rompesse o sil\u00eancio que se abateu na sala. Fixei o olhar numa rosa do tapete pu\u00eddo. E s\u00f3 quando o velho recome\u00e7ou a falar \u00e9 que tive coragem de encar\u00e1-lo novamente. A imagem do filho, com o peito varado por uma bala, j\u00e1 passara para um plano remoto.<\/p>\n<p>&#8220;Atos herdou de mim esse tipo de cora\u00e7\u00e3o. Gente assim ri mais, chora mais, odeia mais, ama mais&#8230; Ama mais, principalmente isto. Ama muito mais. E uma esp\u00e9cie de gente inflam\u00e1vel, que est\u00e1 sempre se queimando e se renovando sem parar. De onde nascem chamas t\u00e3o altas? Muitas vezes n\u00e3o h\u00e1 nenhuma acha de lenha para alimentar o fogo, de onde vem tamanho impulso? Mist\u00e9rio. As pessoas param, fascinadas, em torno desse calor t\u00e3o espont\u00e2neo e inocente, n\u00e3o? T\u00e3o inocente. No entanto, t\u00e3o perigoso, meu Deus. T\u00e3o perigoso.&#8221;<\/p>\n<p>O velho soprou a brasa morti\u00e7a do cigarro de palha. Seu largo rosto bronzeado pareceu-me extraordinariamente rejuvenescido.<\/p>\n<p>&#8220;Como eu entendia bem aquele filho, eu que lhe transmitira o tal cora\u00e7\u00e3o flamejante! Como se parecia comigo! Faltava-lhe, apenas, o meu senso de humor, ele matou-se com vinte anos.\u201d<\/p>\n<p>&#8220;Com vinte anos, eu j\u00e1 terminara tr\u00eas romances, duas pe\u00e7as, um livro de novelas e uma enorme epop\u00e9ia da qual tirei a tal doutrina para o meu partido. Lia Bergson, Nietzsche, Shakespeare&#8230; Citava-os enfaticamente, com ou sem cabimento. E cada livro que lia, achava que era a obra m\u00e1xima, meu guia; meu irm\u00e3o, meu tudo. Isto at\u00e9 ler outro livro. Ent\u00e3o punha de lado o anterior e imediatamente adotava o novo, &#8220;achei o que queria, achei!&#8230;&#8221; T\u00e3o desordenada avalanche de leituras me confundiu a tal ponto, que acabei por me perder e n\u00e3o conseguia mais me encontrar. Os her\u00f3is de meus livros me marcavam tanto, que de cada um ficava um pouco em mim: sorria como Fausto, investia como D. Quixote, sonhava como Romeu&#8230; Tive crises de ang\u00fastia, fiquei completamente atordoado, infeliz. Como \u00e9 que eu era afinal? Senti-me de repente vazio e perplexo, um personagem em absoluta disponibilidade diante do autor. E que autor era esse? Deus? Mas eu acreditava Nele? N\u00e3o acreditava? A vida<br \/>\nme dava n\u00e1useas. Mas n\u00e3o era ainda maior do que a n\u00e1usea o pavor que eu tinha da morte? Que \u00e9 que eu quero? Que \u00e9 que eu fa\u00e7o?! &#8211; ficava a perguntar a mim mesmo at\u00e9 altas horas, a andar de um lado para outro no meu quarto enquanto meu irm\u00e3o protestava no quarto vizinho, &#8216;quer ter a bondade de ao menos tirar os sapatos?&#8217; As perguntas batiam em mim e voltavam e rebatiam como bolas de pingue-pongue numa partida infernal. Assaltava-me, \u00e0s vezes, o desejo de poder, prest\u00edgio e ao mesmo tempo tudo me parecia de uma inutilidade atroz, &#8216;para qu\u00ea? por qu\u00ea?&#8217; Meus amigos, t\u00e3o descabelados quanto eu, vinham somar \u00e0s minhas suas desesperadas d\u00favidas. E em debates que n\u00e3o acabavam nunca, var\u00e1vamos a noite at\u00e9 a madrugada. Deitava-me com a garganta seca, exausto e deprimido, ainda mais perturbado do que antes. Um caos.<\/p>\n<p>&#8220;E eis que, aos poucos, foi-me dominando um desejo feroz de solid\u00e3o. Senti-me o pr\u00f3prio lobo da estepe, incompreendido e s\u00f3 num mundo que j\u00e1 n\u00e3o falava a mesma l\u00edngua que a minha. Abandonei o partido. &#8216;N\u00e3o \u00e9 a doutrina que me decepcionou, mas os homens&#8230;&#8217;, justifiquei no meu discurso de despedida, que por sinal achei uma obra-prima. N\u00e3o acreditava mais nos meus companheiros de partido, naqueles homens que falavam o dia inteiro no bem coletivo, na felicidade do povo, no amor ao pr\u00f3ximo. T\u00e3o idealistas, t\u00e3o puros! E na pr\u00e1tica, n\u00e3o conseguiam dar o mais miser\u00e1vel gr\u00e3ozinho de alegria \u00e0 pr\u00f3pria esposa, ao filho, ao cachorro&#8230; Diziam-se independentes, desapegados das vaidades mundanas. Mas quando eram postos \u00e0 prova&#8230; N\u00e3o era preciso mais do que um convite para uma festa importante, mais do que um aceno para a gl\u00f3ria, n\u00e3o era preciso mais nada para transform\u00e1-los em reles bajuladores. E sua servid\u00e3o era bem do estilo deles: fleum\u00e1tica, orgulhosamente dissimulada e por isso mil vezes pior do que a bajula\u00e7\u00e3o desmascarada. Tomei um nojo quase f\u00edsico do g\u00eanero humano. Por que as palavras n\u00e3o coincidiam nunca com os pensamentos? Por que os pensamentos n\u00e3o coincidiam nunca com as a\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>&#8220;Que farsa, pensei repugnado. Arranquei minhas malas de cima do guarda-roupa. Viajar, ir embora, sumir de qualquer jeito, para qualquer lugar! N\u00e3o seria esta a solu\u00e7\u00e3o? Minha m\u00e3e trouxe-me um bolo com vinte e uma velinhas, eu fazia vinte e um anos. Apaguei as velas de um sopro. E fui falar com meu pai:<\/p>\n<p>&#8220;- Vou abandonar os estudos, pai. Vou-me embora e n\u00e3o voltarei t\u00e3o cedo.<\/p>\n<p>&#8220;Meu irm\u00e3o, que era muito parecido com minha m\u00e3e, encarou-me friamente:<\/p>\n<p>&#8220;- Deixe de ser hist\u00e9rico, menino.<\/p>\n<p>&#8220;Meu pai ordenou-lhe que se calasse. E ouviu-me com a maior gravidade.<\/p>\n<p>&#8220;- A gente sempre volta, filho. Espere um pouco, n\u00e3o tome por enquanto nenhuma resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Concordei em esperar. E olhei para minhas m\u00e3os vazias. Se ao menos pudesse agir! Cansara-me dos planos in\u00fateis, das palavras in\u00fateis, dos gestos in\u00fateis&#8230; Fazer alguma coisa de \u00fatil, de nobre, alguma coisa que justificasse minha vida e que at\u00e9 aquele instante n\u00e3o tinha para mim o menor sentido. Mas fazer o qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Amar ao pr\u00f3ximo como a si mesmo&#8217;, fiquei repetindo estupidamente, sem a menor convic\u00e7\u00e3o. Ah, sim, porque era f\u00e1cil dizer, por exemplo, que eu n\u00e3o tinha nenhum preconceito de cor, que era completamente liberal nesse assunto, mas na hora de formar a rodinha dos amigos \u00edntimos, daqueles que poderiam vir a se casar com minhas irm\u00e3s, nessa hora chamei por acaso algum negro para participar dela? Era f\u00e1cil ainda encher a boca de piedade para com os assassinos e as prostitutas, mas o fato de n\u00e3o atirar-lhes pedras significava, por acaso, que um dia chegaria a trat\u00e1-los como irm\u00e3os? Como se fossem eu mesmo? N\u00e3o passo de um ego\u00edsta, conclu\u00ed. Um refinado hip\u00f3crita e ego\u00edsta. Sou capaz de me casar com uma priminha que apresenta todas as caracter\u00edsticas de uma rameira mas jamais me casarei com uma rameira que seja uma santa em potencial. Hip\u00f3crita e ego\u00edsta! Burguesinho ego\u00edsta! &#8211; berrei dando um soco na vidra\u00e7a da janela do meu quarto, enquanto minha m\u00e3e batia aflita na porta, certa de que eu me pegava ali dentro com algu\u00e9m.&#8221;<\/p>\n<p>Sorri silenciosamente. O velho sorriu tamb\u00e9m. Seus olhinhos azuis pareciam agora maiores e mais brilhantes. P\u00f4s-se a preparar novo cigarro. Era agrad\u00e1vel o som da l\u00e2mina do canivete alisando a palha.<\/p>\n<p>&#8220;Tomei-me de tamanha irrita\u00e7\u00e3o por mim mesmo que deixei de fazer a barba s\u00f3 para n\u00e3o topar mais com minha cara no espelho. Foi quando senti uma necessidade urgente de amar, de dedicar-me inteiramente a algu\u00e9m, mas a algu\u00e9m que precisasse de ajuda, de compreens\u00e3o, de amor. Oferecer-me como b\u00f3ia de salva\u00e7\u00e3o ao primeiro que me acenasse. No caso, n\u00e3o foi primeiro, foi primeira. E a bem da verdade devo dizer que ela n\u00e3o fez nenhum aceno: eu \u00e9 que fui bater na sua porta para oferecer-lhe socorro. Seria um amor amargo, cheio de sacrif\u00edcios e ren\u00fancias, mas n\u00e3o era assim o amor que eu procurava? Acho que j\u00e1 disse que meu irm\u00e3o era muito parecido com minha m\u00e3e. Eu sa\u00ed parecido com meu pai que era um homem dos grandes impulsos, dos grandes gestos, das grandes paix\u00f5es. Meu infort\u00fanio parecia-me, at\u00e9 aquele momento, demasiado med\u00edocre: ansiava agora por ser grandemente desgra\u00e7ado, isto \u00e9, amar e ainda por cima escolher mal o objeto do meu amor.<\/p>\n<p>&#8220;Por uma dessas banais ironias, o prost\u00edbulo situava-se no alto da Ladeira da Gl\u00f3ria. Ladeira da Gl\u00f3ria, doze. Lembro- me bem de que era um casar\u00e3o pardo e velho, cheio de ratos que corriam sem nenhuma cerim\u00f4nia pelos corredores e de mulheres que tran\u00e7avam seminuas, com menor cerim\u00f4nia ainda.<\/p>\n<p>&#8220;Encontrei-a fazendo as unhas. Na maioria das vezes em que a visitei encontrei-a lidando com seus petrechos de unhas ou ent\u00e3o bordando mi\u00e7angas em alguma roupa, tinha mania com mi\u00e7angas. Se pudesse, creio que at\u00e9 nas cobertas da cama pregaria as tais continhas. E tinha mania com as unhas que eram realmente perfeitas. A cabeleira podia estar em desordem, a pintura do rosto, desfeita, mas as unhas ah, essas deviam estar sempre corret\u00edssimas! Tinha a pele muito branca, com ligeiros vest\u00edgios de sardas e cabelos ruivos, muito curtos e encaracolados. Parecia uma cenourinha. N\u00e3o era bonita, mas quando sorria&#8230; Havia tamanha ternura no seu sorriso, uma ternura assim t\u00e3o espont\u00e2nea, t\u00e3o inocente, que chegava a me comover, &#8216;como pode ser, meu Deus?! Como pode ser?!&#8230;&#8217; Ela voltava para mim os olhinhos redondos como bolinhas de vidro verde: &#8216;Como pode ser o qu\u00ea?&#8217; Ent\u00e3o era eu quem sorria. &#8216;Nada. Nada.&#8217;<\/p>\n<p>&#8220;Chamava-se Sandra, mas quando eu soube que seu nome verdadeiro era Alexandra, Alexandra Ivanova, emocionei-me. Descendia de russos. Vi nela uma personagem de romance e eu mesmo me vi na pele suave d&#8217;o Idiota, t\u00e3o cheio de pureza e de sabedoria, &#8216;que faz voc\u00ea sob este c\u00e9u azul, provavelmente azul?&#8217; Atendendo o telefone, a dona da pens\u00e3o n\u00e3o permitiu, no entanto, que eu encaixasse ali minha cita\u00e7\u00e3o quando informou-me que Sandra n\u00e3o podia vir falar comigo porque estava muito ocupada. Desliguei atirando o fone no gancho:<\/p>\n<p>&#8211; E ainda chama a isso de ocupa\u00e7\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Meu irm\u00e3o, que estava ali ao lado, bateu-me tranq\u00fcilamente no ombro:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea me d\u00e1 a impress\u00e3o de estar o dia todo com a espada desembainhada. N\u00e3o \u00e9 cansativo?<\/p>\n<p>&#8220;Sa\u00ed sem dar resposta. Mais tarde, bem mais tarde acabamos sendo \u00f3timos amigos. Mas naquela \u00e9poca era imposs\u00edvel haver qualquer entendimento entre n\u00f3s.<\/p>\n<p>&#8220;Alexandra tinha vinte e cinco anos e era completamente analfabeta. Mas eu queria uma criatura assim primitiva e xucra, atirada numa pens\u00e3o de \u00faltima classe. Seria preciso ir busc\u00e1-la no fundo, bem l\u00e1 no fundo e traz\u00ea-la aos poucos para a luz, devagarinho, sem nenhuma precipita\u00e7\u00e3o. Era um jogo que exigia paci\u00eancia, sim, e eu n\u00e3o tinha nada de paciente. Mas a experi\u00eancia era fascinante.<\/p>\n<p>&#8220;Tr\u00eas vezes por semana eu ia v\u00ea-la, sempre no fim da tarde, quando o mulherio e os ratos pareciam mais tranq\u00fcilos em suas tocas. Costumava levar-lhe um presentinho, pequeninas coisas de acordo com minha discret\u00edssima mesada: pacotinhos de bombons, len\u00e7os, enfeites de toucador&#8230; Assim que eu chegava ela olhava ansiosamente para minhas m\u00e3os, como crian\u00e7a em dia de anivers\u00e1rio. E recebia, radiante, as insignific\u00e2ncias. &#8216;Alexandra. A-le-xan-dra&#8230;&#8217; eu gostava de repetir lentamente, destacando bem as s\u00edlabas. Nos instantes mais graves da minha doutrina\u00e7\u00e3o, chamava-a dramaticamente pelo nome todo: Alexandra Ivanova. Ela ent\u00e3o desatava a rir.<\/p>\n<p>&#8220;A princ\u00edpio, tive um certo trabalho para explicar-lhe que nossa amizade tinha que ser uma coisa de irm\u00e3o para irm\u00e3. Ofendeu-se um pouco:<\/p>\n<p>&#8220;- Quer dizer que voc\u00ea n\u00e3o quer nada comigo?<\/p>\n<p>&#8220;- Quero, Alexandra. Quero tudo com voc\u00ea. Mas antes, precisamos conversar muito.<\/p>\n<p>&#8220;Ela sorria. Quando sorria, chegava a ficar bonita.<\/p>\n<p>&#8220;- Voc\u00ea \u00e9 complicado.<\/p>\n<p>&#8220;- N\u00e3o, Alexandra, n\u00e3o \u00e9 isso, mas o caso e que h\u00e1 coisas mais importantes na frente, precisamos antes nos entender, nos amar para ent\u00e3o&#8230; Voc\u00ea precisa se preparar para ser minha. Minha para sempre, ouviu bem?<\/p>\n<p>&#8220;- Ouvi. Mas voc\u00ea \u00e9 complicado, sim.<\/p>\n<p>&#8220;Mais facilmente do que eu esperava ela acomodou-se logo \u00e0quele novo tipo de relacionamento. Era de natureza mansa, indolente. Recebia-me com seu sorriso af\u00e1vel, desfazia o pacotinho, interessava-se alguns instantes pela novidade do presente e em seguida punha-se a lidar com suas eternas mi\u00e7angas. Bordava mi\u00e7angas verdes numa blusa preta. Antes que eu me fosse, acendia a espiriteira, preparava o ch\u00e1 e me oferecia uma x\u00edcara com umas bolachas que tirava de uma lata com uma borboleta de purpurina na tampa.<\/p>\n<p>&#8220;- Acho que voc\u00ea \u00e9 padre &#8211; disse-me certa vez.<\/p>\n<p>&#8220;Achei gra\u00e7a e respondi-lhe que estava muito longe de ser isso. N\u00e3o obstante, ela ainda me olhava com um sorrisinho interior:<\/p>\n<p>&#8220;- Acho que voc\u00ea \u00e9 padre, sim.<\/p>\n<p>&#8220;Mostrei-lhe ent\u00e3o o absurdo daquela suspeita mas at\u00e9 hoje desconfio que Alexandra n\u00e3o se convenceu nada com a minha negativa. E se n\u00e3o voltou a tocar no assunto, foi porque sua natural indol\u00eancia a impedia de pensar mais de dois minutos sobre qualquer problema. Dissimulava ceder logo aos primeiros argumentos por simples pregui\u00e7a de discutir.<\/p>\n<p>&#8220;- Voc\u00ea fala t\u00e3o bem &#8211; ela me dizia de vez em quando, para me animar. &#8211; Fale mais.<\/p>\n<p>&#8220;Com a dolorosa impress\u00e3o de que minhas palavras borboleteavam em redor de sua cabe\u00e7a e se iam em seguida pela janela afora, redobrava meus esfor\u00e7os, tentando seduzi- la com temas nos quais ela parecia se interessar mais: Deus, amor, morte&#8230; Ela fazia pequenos sinais afirmativos com a cabe\u00e7a enquanto ia bordando seu labirinto de contas. Quando eu me calava, pedia:<\/p>\n<p>&#8220;- Fale mais.<\/p>\n<p>&#8220;E da\u00ed por diante s\u00f3 abria a boca para cortar nos dentes o fio de linha da agulha.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c0s vezes, eu tentava me convencer de que havia naquele sil\u00eancio de Alexandra profundidades insond\u00e1veis, mist\u00e9rios, sei l\u00e1!&#8230; Sempre achara um encanto especial\u00edssimo nas mulheres silenciosas. Agora tinha na minha frente uma que quase n\u00e3o falava. E ent\u00e3o? N\u00e3o era isso que eu queria? N\u00e3o era mesmo um amor dif\u00edcil aquele que eu buscara? H\u00e1 vinte e cinco anos, praticamente h\u00e1 vinte e cinco anos ela estava naquela vida. A bem dizer, nascera ali. Vinte e cinco anos de mentiras, v\u00edcios, deprava\u00e7\u00f5es. N\u00e3o seria mesmo com meia d\u00fazia de palavras que eu iria remover toda aquela tradi\u00e7\u00e3o de horror.<\/p>\n<p>&#8220;Pedia-lhe o fim das suas tardes, nada mais do que o fim das suas tardes, \u00e0 espera sempre de que espontaneamente ela fosse abrindo m\u00e3o tamb\u00e9m de suas noites de com\u00e9rcio infernal. Mas n\u00e3o. Alexandra me ouvia muito atenta, retocava o esmalte de alguma unha, lidava com suas mi\u00e7angas, oferecia- me ch\u00e1 com bolachas e assim que eu sa\u00eda, recome\u00e7ava com naturalidade sua vida de sempre. Minha exaspera\u00e7\u00e3o chegou ao m\u00e1ximo quando descobri que ela estava longe de se considerar infeliz.<\/p>\n<p>&#8220;- Mas Alexandra, ser\u00e1 poss\u00edvel que voc\u00ea est\u00e1 contente aqui?<br \/>\n&#8211; perguntei-lhe certa tarde.<\/p>\n<p>&#8211; Estou contente, sim. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8220;Emudeci. Eu tinha justamente acabado de lhe falar sobre um pensionato de mo\u00e7as transviadas, para onde pretendia lev\u00e1- la. Diante do seu desinteresse pelo meu plano, fiz-lhe a pergunta cuja resposta me deixou perplexo.<\/p>\n<p>&#8220;- Alexandra Ivanova, voc\u00ea est\u00e1 vivendo no inferno! N\u00e3o v\u00ea que voc\u00ea est\u00e1 vivendo no inferno?!<\/p>\n<p>&#8220;Ela lan\u00e7ou em redor um olhar assustado:<\/p>\n<p>&#8220;- Mas que inferno?<\/p>\n<p>&#8220;Olhei tamb\u00e9m em torno: o usino de feltro azul, sentado no meio das almofadas em cima da cama, a mesa de toalete cheia de potes de creme e de pequeninos bibel\u00f4s, o guarda-roupa com malas e caixas cuidadosamente empilhadas no topo, o coelho felpudo em cima da cadeira, a mesinha coberta com uma toalha que devia ter 4 sido a saia de um vestido ramado&#8230; Num canto da mesa, duas x\u00edcaras, um bule, a lata de bolachas e o a\u00e7ucareiro com rocinhas douradas, presente meu. Todo o quarto tinha o mesmo ar indolente da sua dona.<\/p>\n<p>&#8220;- Para que um lugar seja o inferno, est\u00e1 claro que n\u00e3o \u00e9 preciso a presen\u00e7a do fogo &#8211; comecei fracamente. Toquei-lhe no ombro. &#8211; O inferno pode estar a\u00ed.<\/p>\n<p>&#8220;Ela riu. Em seguida, ajoelhou-se, p\u00f4s a cabe\u00e7a no meu colo e ali ficou como um bichinho humilde e terno. Tomei-a entre os bra\u00e7os. Beijei-a. E descobri de repente que a amava como um louco, &#8216;Alexandra, Alexandra, eu te adoro! Te adoro!&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Naquela tarde, quando a deixei fui como um tonto pela rua afora, a cabe\u00e7a estalando, os olhos cheios de l\u00e1grimas, &#8216;Alexandra, eu te amo&#8230;&#8217; Crispei desesperadamente as m\u00e3os ao me lembrar de que dentro em pouco, de que naquele instante mesmo talvez um outro&#8230; &#8216;Vou me casar com ela&#8217;, resolvi ao entrar em casa. Minha fam\u00edlia tinha que aceitar, todos tinham que aceitar aquele amor capaz de mover sol e estrelas, &#8216;1&#8217;amor che muove il sole e l&#8217;altre stelle&#8217;&#8230; Mas nem Dante nem eu sab\u00edamos que era mais f\u00e1cil mover a Via- L\u00e1ctea do que mover minha pequena Alexandra da Ladeira da Gl\u00f3ria para o Pensionato Bom Caminho.<\/p>\n<p>&#8220;Uma tarde, nossa \u00faltima tarde, encontrei-a arredia, preocupada. Hesitou um pouco, mas acabou me dizendo que a dona da pens\u00e3o n\u00e3o queria mais saber das minhas visitas.<br \/>\nPerguntei-lhe o motivo.<\/p>\n<p>&#8220;- Ela acha que voc\u00ea quer me tirar daqui para me explorar noutro lugar.<\/p>\n<p>&#8220;Fiquei sem poder falar durante alguns minutos, tamanha c\u00f3lera se apossou de mim.<\/p>\n<p>&#8220;- Mas Alexandra&#8230; &#8211; comecei, completamente tr\u00eamulo. Dei um murro na mesa. &#8211; Chega! Amanh\u00e3 mesmo voc\u00ea vai para o pensionato, est\u00e1 me entendendo? J\u00e1 arranjei tudo, voc\u00ea ficar\u00e1 l\u00e1 durante algum tempo, aprendendo a ler, a rezar, a ter boas maneiras&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Alexandra arrumava sua caixinha de mi\u00e7angas. Sem levantar a cabe\u00e7a, interrompeu-me com certa impaci\u00eancia:<\/p>\n<p>&#8220;- Mas eu j\u00e1 disse que n\u00e3o quero sair daqui.<\/p>\n<p>&#8220;- O qu\u00ea?!<\/p>\n<p>&#8220;- Eu j\u00e1 disse que n\u00e3o quero sair daqui, logo no come\u00e7o eu disse isso, lembra? Sair daqui, n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Respirei profundamente para readquirir a calma, como aprendera num m\u00e9todo de respira\u00e7\u00e3o iogue.<\/p>\n<p>&#8220;- Ser\u00e1 poss\u00edvel, Alexandra Ivanova, ser\u00e1 poss\u00edvel que voc\u00ea tamb\u00e9m est\u00e1 pensando que&#8230; &#8211; comecei num fio de voz e nem tive for\u00e7as para terminar.<\/p>\n<p>&#8220;- Pois se eu soubesse que voc\u00ea est\u00e1 querendo me agenciar, iria at\u00e9 de muito bom grado, o que n\u00e3o quero \u00e9 essa hist\u00f3ria de pensionato. Pensionato, n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Escancarei a janela que dava para o quintal da casa. Lembro- me de que havia ali uma mulher loura com uma toalha nos ombros, secando os cabelos ao sol. Acendi um cigarro. Minha m\u00e3o tremia tanto que mal consegui levar o cigarro \u00e0 boca.<\/p>\n<p>&#8220;- Alexandra, voc\u00ea precisa ficar algum tempo num lugar direito, decente, antes de&#8230; de nos casarmos. J\u00e1 conversamos tanto sobre tudo isso, ficou assentado que voc\u00ea iria, j\u00e1 conversamos tanto a esse respeito! Ser\u00e1 poss\u00edvel?&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Ela pousou em mim os olhos redondos. E falou. Foi a primeira e a \u00faltima vez que a ouvi falar tanto assim.<\/p>\n<p>&#8220;- N\u00e3o conversamos nada. Foi s\u00f3 voc\u00ea que abriu a boca, eu escutava, escutava, mas n\u00e3o disse que queria ir, disse?<br \/>\nDisse por acaso que queria mudar de vida? Pois ent\u00e3o. Gosto daqui, pronto. Mania que voc\u00eas t\u00eam de querer me baldear, foi a mesma coisa com aquelas tr\u00eas velhas da Comiss\u00e3o Pr\u00f3 n\u00e3o- sei-mais-o-qu\u00ea. Ficaram uma hora inteira falando. Depois escreveram meu nome numa ficha e ficaram de voltar na manh\u00e3 seguinte. Gra\u00e7as a Deus n\u00e3o apareceram nunca mais. Agora vem voc\u00ea&#8230; Por que \u00e9 que voc\u00ea complica tanto as coisas?<br \/>\nPrimeiro, aquela hist\u00f3ria de ficarmos que nem dois irm\u00e3os, agora que tudo ia t\u00e3o bem, tinha que me inventar essa bobagem do pensionato. Por que \u00e9 que voc\u00ea complica tudo?<\/p>\n<p>&#8220;Fiquei aturdido.<\/p>\n<p>&#8220;- Quer dizer que voc\u00ea n\u00e3o me ama.<\/p>\n<p>&#8220;- Amo, sim. Amo &#8211; repetiu brandamente. &#8211; Mas estamos t\u00e3o bem assim, n\u00e3o estamos? Al\u00e9m do mais, voc\u00ea pode amanh\u00e3 mudar de id\u00e9ia, me deixar. E meu futuro est\u00e1 aqui.<\/p>\n<p>&#8220;Aproximei-me dela. Comecei por arrancar-lhe das m\u00e3os os pacotinhos de mi\u00e7angas e atirei-os longe. Em seguida, agarrei-a pelos cabelos e esmurrei-a tanto, mas tanto, que quase quebrei minha m\u00e3o. Ela p\u00f4s-se a gritar e s\u00f3 se calou no instante em que a joguei com um safan\u00e3o sobre a cama.<br \/>\nDisse-lhe ent\u00e3o as coisas mais duras, mais cru\u00e9is. Ela enrolou-se nas cobertas, como um bichinho apavorado, escondendo o rosto que sangrava. E n\u00e3o me respondeu.<\/p>\n<p>&#8220;Um arrependimento brutal apertou meu cora\u00e7\u00e3o. Tive vontade de me golpear na cara. E suplicar-lhe, de joelhos, que me perdoasse. Mas continuei inflex\u00edvel:<\/p>\n<p>&#8220;- Devia era te matar.<\/p>\n<p>&#8220;Ela ergueu a cabe\u00e7a. E como percebesse que eu n\u00e3o cogitava mais de agredi-la e muito menos de mat\u00e1-la, levantou-se, lavou o rosto na bacia e choramingando, choramingando, p\u00f4s- se a catar as mi\u00e7angas que eu espalhara pelo ch\u00e3o. Parecia mais preocupada com as mi\u00e7angas do que com o pr\u00f3prio rosto que j\u00e1 come\u00e7ava a inchar. Em nenhum momento me insultou, como seria natural que fizesse. No fundo, tinha por mim um extraordin\u00e1rio respeito, o que me leva at\u00e9 hoje a crer que jamais ela tirou da cabe\u00e7a aquela suspeita de ser eu um padre disfar\u00e7ado.<\/p>\n<p>&#8220;Apanhei a capa e o C\u00f3digo Civil que ca\u00edra do meu bolso Tinha vontade de morrer.<\/p>\n<p>&#8220;- Voc\u00ea vem amanh\u00e3? perguntou-me ainda de c\u00f3coras, as m\u00e3os cheias de continhas vermelhas.<\/p>\n<p>&#8220;Confesso que at\u00e9 hoje n\u00e3o sei bem que resposta ela queria ouvir. Desci a escada. E s\u00f3 ent\u00e3o compreendi o motivo pelo qual ningu\u00e9m ouvira os gritos de Alexandra: o rebuli\u00e7o na casa era total. O mulherio gesticulava, falava, chorava, tran\u00e7ando de um lado para outro como um punhado de baratas em chapa quente de fog\u00e3o. Vi que o tumulto se irradiava de um quarto no fundo do corredor. As portas do quarto estavam escancaradas.<\/p>\n<p>&#8220;Entrei. Estendida na cama, coberta com um len\u00e7ol, estava uma mo\u00e7a morta. Na mesinha ao lado, uma garrafa de guaran\u00e1 e a lata aberta de formicida. No ch\u00e3o, os cacos de um copo.<\/p>\n<p>&#8220;Desviei da morta o olhar indiferente. Suic\u00eddio. E da\u00ed?<br \/>\nPodia haver fecho mais digno para aquela vida enxovalhada?<\/p>\n<p>&#8220;Sentada na cama, uma mulher chorava sentidamente, assoando- se na toalha que tinha nos ombros: era a mesma mulher que eu vira no quintal, secando os cabelos. Tr\u00eas outras mulheres revolviam estabanadamente as gavetas da c\u00f4moda.<\/p>\n<p>&#8220;Fiquei a olhar a cena com a maior indiferen\u00e7a. Era essa mesma a vida e a morte que ela escolhera, n\u00e3o era? E ent\u00e3o? Por que a surpresa? O esc\u00e2ndalo?&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Acendi um cigarro e encostei-me ao batente da porta. Tamanho desinteresse acabou por irritar a mulher da toalha nos ombros e que parecia a mais ligada \u00e0 morta. Voltou-se para mim:<\/p>\n<p>&#8220;E voc\u00ea a\u00ed, com essa cara&#8230; Est\u00e1 se divertindo, est\u00e1?<br \/>\nVoc\u00eas, homens, s\u00e3o todos uns cachorros, uns grandess\u00edssimos cachorros, isso \u00e9 o que voc\u00eas s\u00e3o! Por causa de voc\u00eas \u00e9 que a pobrezinha se matou. S\u00f3 dezoito anos, uma crian\u00e7a ainda!<\/p>\n<p>&#8220;- Crian\u00e7a que gostava deste brinquedo, hem? &#8211; perguntei lan\u00e7ando um olhar em redor. E tive que me abaixar em seguida para fugir do sapato que ela me atirou.<\/p>\n<p>&#8220;- Seu sujo! Ainda fala assim, o sujo! Saiba que Ded\u00ea era muito direitinha, uma menina muito direitinha. Todos os dias vinha se queixar para mim, que n\u00e3o ag\u00fcentava mais, que tinha horror disto, que n\u00e3o via a hora de ir embora, &#8216;quero minha m\u00e3e, quero minha m\u00e3e!&#8217; ela me pediu chorando tanto que n\u00e3o ag\u00fcentei e chorei junto com ela tamb\u00e9m. &#8211; A mulher fez uma pausa para assoar-se furiosamente na toalha. &#8211; Quantas vezes ela me disse que queria viver uma vida igual \u00e0 de qualquer mo\u00e7a por a\u00ed, com sua casa, seu marido, seus filhos&#8230; Caiu aqui, mas ficou esperando que algum dia viesse um homem bom que a levasse&#8230; Mas voc\u00eas s\u00e3o todos uns bandidos. Quem pensou em dar a m\u00e3o para ela? Quem?<\/p>\n<p>&#8220;Pela primeira vez olhei realmente a morta. Tinha no rosto fino uma beleza fr\u00e1gil. Deixei cair o cigarro.<\/p>\n<p>&#8220;- Ela esperou ent\u00e3o que algu\u00e9m viesse?<\/p>\n<p>&#8220;- Esperou, esperou. Mas de repente perdeu as for\u00e7as, foi isso&#8230; Bem que ela me disse ainda ontem que n\u00e3o ia ag\u00fcentar mais, bem que ela disse! Mas a gente diz tanta coisa, eu n\u00e3o acreditei&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Afastei-me para deixar passar os homens da policia. Inclinaram-se sobre a suicida. Agora eu s\u00f3 podia ver o delicado contorno dos seus p\u00e9s sob o len\u00e7ol.<\/p>\n<p>&#8220;Fui saindo do quarto. Mas ent\u00e3o? Ent\u00e3o&#8230; Toquei na ma\u00e7aneta negra da porta: era ali que eu devia ter batido, era ali, tudo n\u00e3o passara de um pequeno equ\u00edvoco. Um simples equ\u00edvoco de porta. Alguns metros menos e&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;A tarde estava luminosa e calma. Cruzei os bra\u00e7os. Mas n\u00e3o era mesmo incr\u00edvel? Coisa mais desconcertante, mais est\u00fapida&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Sentei-me na cal\u00e7ada, com os p\u00e9s na sarjeta. E de repente comecei a rir. E ri tanto, mas tanto, que um homem que passava, ao me ver rindo t\u00e3o gostosamente, nu-se tamb\u00e9m. Ah vida louca, completamente louca, mas de uma loucura l\u00facida, cheia de nexo nos seus encontros e desencontros, nos seus acasos e imprevistos! Falsa demente, t\u00e3o ingenuazinha e t\u00e3o astuta na sua falta de l\u00f3gica, cheia de misterioso sentido na sua confus\u00e3o t\u00e3o calculada, t\u00e3o trai\u00e7oeiramente calculada. Uma beleza a vida!<\/p>\n<p>&#8220;Baixei o olhar para a sarjeta: entre duas pedras tortuosas, uma pequenina flor apontava sua cabecinha vermelha. Parecia- se com Alexandra. Toquei-lhe na corola tenra. E senti os olhos \u00famidos. &#8211; Minha florzinha tonta &#8211; disse-lhe num sussurro &#8211; voc\u00ea \u00e9 t\u00e3o mais importante do que todos os livros, t\u00e3o mais importante&#8230; Voc\u00ea est\u00e1 viva, minha querida. E que extraordin\u00e1ria experi\u00eancia \u00e9 viver!<\/p>\n<p>&#8220;Ergui-me de cara voltada para o sol. Aproximei-me de uma \u00e1rvore. Abracei-a. E quando encostei a face no seu tronco rugoso, foi com se tivesse encostado a face na face de Deus.&#8221;<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.ufpel.edu.br<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lygia Fagundes Telles O velho voltou-se para a janela aberta, que enquadrava um peda\u00e7o do c\u00e9u estrelado. Tinha uma bela voz: &#8220;&#8230; Mas eu dizia que na minha primeira juventude fui escritor. Pois \u00e9, escritor. Ali\u00e1s, enveredei por todos os g\u00eaneros: poesia, romance, cr\u00f4nica , teatro&#8230; Fiz de tudo. 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