{"id":113371,"date":"2017-03-13T08:51:33","date_gmt":"2017-03-13T10:51:33","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=113371"},"modified":"2017-03-13T08:51:33","modified_gmt":"2017-03-13T10:51:33","slug":"suicidio-na-granja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/suicidio-na-granja","title":{"rendered":"Suic\u00eddio na Granja"},"content":{"rendered":"<h4>Lygia Fagundes Telles<\/h4>\n<p>Alguns se justificam e se despedem atrav\u00e9s de cartas, telefonemas ou pequenos gestos avisos que podem ser mascarados pedidos de socorro. Mas h\u00e1 outros que se v\u00e3o no mais absoluto sil\u00eancio. Ele n\u00e3o deixou nem ao menos um bilhete?, fica perguntando a fam\u00edlia, a amante, o amigo, o vizinho e principalmente o cachorro que interroga com um olhar ainda mais interrogativo do que o olhar humano, E ele?!<\/p>\n<p>Suic\u00eddio por justa causa e sem causa alguma e a\u00ed estaria o que podemos chamar de voca\u00e7\u00e3o, a simples vontade de atender ao chamado que vem l\u00e1 das profundezas e se instala e prevalece. Pois n\u00e3o existe a voca\u00e7\u00e3o para o piano, para o futebol, para o teatro. Ai!&#8230; para a pol\u00edtica. Com a mesma for\u00e7a (evitei a palavra paix\u00e3o) a voca\u00e7\u00e3o para a morte. Quando justificada pode virar uma conforma\u00e7\u00e3o, Tinha os seus motivos! diz o pr\u00f3ximo bem informado. Mas e aquele suic\u00eddio que (aparentemente) n\u00e3o tem nenhuma explica\u00e7\u00e3o? A morte obscura, que segue veredas indevass\u00e1veis na sua breve ou longa trajet\u00f3ria.<\/p>\n<p>Pela primeira vez ouvi a palavra suic\u00eddio quando ainda morava naquela antiga ch\u00e1cara que tinha um pequeno pomar e um jardim s\u00f3 de roseiras. Ficava perto de um vilarejo cortado por um rio de \u00e1guas pardacentas, o nome do vilarejo vai ficar no fundo desse rio. Onde tamb\u00e9m ficou o Coronel Mota, um fazendeiro velho (todos me pareciam velhos) que andava sempre de terno branco, engomado. Botinas pretas, chap\u00e9u de abas largas e aquela bengala grossa com a qual matava cobras. Fui correndo dar a not\u00edcia ao meu pai, O Coronel encheu o bolso com pedras e se pinchou com roupa e tudo no rio! Meu pai fez parar a cadeira de balan\u00e7o, acendeu um charuto e ficou me olhando. Quem disse isso? Tomei o f\u00f4lego: Me contaram no recreio. Diz que ele desceu do cavalo, amarrou o cavalo na porteira e foi entrando no rio e enchendo o bolso com pedra, tinha l\u00e1 um pescador que sabia nadar, nadou e n\u00e3o viu mais nem sinal dele.<\/p>\n<p>Meu pai baixou a cabe\u00e7a e soltou a baforada de fuma\u00e7a no ladrilho: Que loucura. No ano passado ele j\u00e1 tinha tentado com uma espingarda que falhou, que loucura! Era um crist\u00e3o e um crist\u00e3o n\u00e3o se suicida, ele n\u00e3o podia fazer isso, acrescentou com impaci\u00eancia. Entregou-me o anel vermelho-dourado do charuto. N\u00e3o podia fazer isso!<\/p>\n<p>Enfiei o anel no dedo, mas era t\u00e3o largo que precisei fechar a m\u00e3o para ret\u00ea-lo. Mimoso veio correndo assustado. Tinha uma coisa escura na boca e espirrava, o focinho sujo de terra. Vai saindo, vai saindo!, ordenei fazendo com que voltasse pelo mesmo caminho, a conversa agora era s\u00e9ria. Mas pai, por que ele se matou, por qu\u00ea?! fiquei perguntando. Meu pai olhou o charuto que tirou da boca. Soprou de leve a brasa: Muitos se matam por amor mesmo. Mas tem outros motivos, tantos motivos, uma doen\u00e7a sem rem\u00e9dio. Ou uma d\u00edvida. Ou uma tristeza sem fim, \u00e0s vezes come\u00e7a a tristeza l\u00e1 dentro e a dor na gaiola do peito \u00e9 maior ainda do que a dor na carne. Se a pessoa \u00e9 delicada, n\u00e3o ag\u00fcenta e acaba indo embora! Vai embora, ele repetiu e levantou-se de repente, a cara fechada, era o sinal: quando mudava de posi\u00e7\u00e3o a gente j\u00e1 sabia que ele queria mudar de assunto. Deu uma larga passada na varanda e apoiou-se na grade de ferro como se quisesse examinar melhor a borboleta voejando em redor de uma rosa. Voltou-se r\u00e1pido, olhando para os lados. E abriu os bra\u00e7os, o charuto preso entre os dedos: Se matam at\u00e9 sem motivo nenhum, um mist\u00e9rio, nenhum motivo! repetiu e foi saindo da varanda. Entrou na sala. Corri atr\u00e1s. Quem se mata vai pro inferno, pai? Ele apagou o charuto no cinzeiro e voltou-se para me dar o pirulito que eu tinha esquecido em cima da mesa. O gesto me animou, avancei mais confiante: E bicho, bicho tamb\u00e9m se mata? Tirando o len\u00e7o do bolso ele limpou devagar as pontas dos dedos: Bicho, n\u00e3o, s\u00f3 gente.<\/p>\n<p>S\u00f3 gente? eu perguntei a mim mesma muitos e muitos anos depois, quando passava as f\u00e9rias de dezembro numa fazenda. Atr\u00e1s da casa-grande tinha uma granja e nessa granja encontrei dois amigos insepar\u00e1veis, um galo branco e um ganso tamb\u00e9m branco mas com suaves pinceladas cinzentas nas asas. Uma estranha amizade, pensei ao v\u00ea-los por ali, sempre juntos. Uma estranh\u00edssima amizade. Mas n\u00e3o \u00e9 a minha inten\u00e7\u00e3o abordar agora problemas de psicologia animal, queria contar apenas o que vi. E o que vi foi isso, dois amigos t\u00e3o pr\u00f3ximos, t\u00e3o apaixonados, ah! como conversavam em seus longos passeios, como se entendiam na secreta linguagem de perguntas e respostas, o di\u00e1logo. Com os intervalos de reflex\u00e3o. E alguma pol\u00eamica mas com humor, n\u00e3o surpreendi naquela tarde o galo rindo? Pois \u00e9, o galo. Esse perguntava com maior freq\u00fc\u00eancia, a interroga\u00e7\u00e3o acesa nos r\u00e1pidos movimentos que fazia com a cabe\u00e7a para baixo, e para os lados, E ent\u00e3o? O ganso respondia com certa cautela, parecia mais calmo, mais contido quando abaixava o bico meditativo, quase repetindo os movimentos da cabe\u00e7a do outro mas numa aura de maior serenidade. Juntos, defendiam-se contra os ataques, n\u00e3o \u00e9 preciso lembrar que na granja travavam-se as mesmas pequenas guerrilhas da cidade logo adiante, a competi\u00e7\u00e3o. A intriga. A vaidade e a luta pelo poder, que luta! Essa \u00e2nsia voraz que ati\u00e7ava os grupos, acesa a vontade de ocupar um espa\u00e7o maior, de excluir o concorrente, \u00e9poca de elei\u00e7\u00f5es? E os dois amigos sempre juntos. Atentos. Eu os observava enquanto trocavam pequenos gestos (gestos?) de generosidade nos seus infind\u00e1veis passeios pelo terreiro, Hum! olha aqui esta minhoca, sirva-se \u00e0 vontade, vamos, \u00e9 sua! dizia o galo a recuar assim de banda, a crista encrespada quase sangrando no auge da emo\u00e7\u00e3o. E o ganso mais tranq\u00fcilo (um fidalgo) afastando-se todo cerimonioso, pisando nas titicas como se pisasse em flores, Sirva-se voc\u00ea primeiro, agora \u00e9 a sua vez! E se punham t\u00e3o hesitantes que algum frango insolente, arvorado a juiz, acabava se metendo no meio e numa corrida desenfreada levava no bico o manjar. Mas nem o ganso com seus olhinhos redondamente superiores nem o galo flamante nenhum dos dois parecia dar maior aten\u00e7\u00e3o ao furto. Alheios aos bens terreirais, desligados das mesquinharias de uma concorr\u00eancia desleal, prosseguiam o passeio no mesmo ritmo, nem vagaroso nem apressado, mas digno, ora, minhocas!<\/p>\n<p>Grandes amigos, hem?, comentei certa manh\u00e3 com o granjeiro que concordou tirando o chap\u00e9u e rindo, Eles comem aqui na minha m\u00e3o!<\/p>\n<p>Foi quando achei que ambos mereciam um nome assim de acordo com suas nobres figuras, e ao ganso, com aquele andar de pensador, as brancas m\u00e3os de penas cruzadas nas costas, dei o nome de Plat\u00e3o. Ao galo, mais questionador e mais exaltado como todo disc\u00edpulo, eu dei o nome de Arist\u00f3teles.<\/p>\n<p>At\u00e9 que um dia (tamb\u00e9m entre os bichos, um dia) houve o grande jantar na fazenda e do qual n\u00e3o participei. Ainda bem. Quando voltei vi apenas o galo Arist\u00f3teles a vagar sozinho e completamente desarvorado, os olhinhos suplicantes na interroga\u00e7\u00e3o, o bico entreaberto na ansiedade da busca, Onde, onde?!&#8230; Aproximei-me e ele me reconheceu. Cravou em mim um olhar desesperado, Mas onde ele est\u00e1?! Fiz apenas um aceno ou cheguei a dizer-lhe que esperasse um pouco enquanto ia perguntar ao granjeiro: Mas e aquele ganso, o amigo do galo?!<\/p>\n<p>Para que prosseguir, de que valem os detalhes? Chegou um cozinheiro l\u00e1 de fora, veio ajudar na festa, come\u00e7ou a contar o granjeiro gaguejando de emo\u00e7\u00e3o. Eu tinha sa\u00eddo, fui aqui na casa da minha irm\u00e3, n\u00e3o demorei muito mas esse tal de cozinheiro ficou apavorado com medo de atrasar o jantar e nem me esperou, escolheu o que quis e na escolha, acabou levando o coitado, cruzes!&#8230; Agora esse da\u00ed ficou sozinho e procurando o outro feito tonto, s\u00f3 falta falar esse galo, n\u00e3o come nem bebe, s\u00f3 fica andando nessa agonia! Mesmo quando canta de manh\u00e3zinha me representa que est\u00e1 rouco de tanto chorar.<\/p>\n<p>Foi o banquete de Plat\u00e3o, pensei meio nauseada com o miser\u00e1vel trocadilho. Deixei de ir \u00e0 granja, era insuport\u00e1vel ver aquele galo definhando na busca obstinada, a crista murcha, o olhar esvaziado. E o bico, aquele bico t\u00e3o tagarela agora p\u00e1lido, cerrado. Mais alguns dias e foi encontrado morto ao lado do tanque onde o companheiro costumava se banhar. No livro do poeta Maiak\u00f3vski (matou-se com um tiro) h\u00e1 um verso que serve de epit\u00e1fio para o galo branco: Comigo viu-se doida a anatomia \/ sou todo um cora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lygia Fagundes Telles Alguns se justificam e se despedem atrav\u00e9s de cartas, telefonemas ou pequenos gestos avisos que podem ser mascarados pedidos de socorro. Mas h\u00e1 outros que se v\u00e3o no mais absoluto sil\u00eancio. 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