{"id":113369,"date":"2017-03-13T08:50:21","date_gmt":"2017-03-13T10:50:21","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=113369"},"modified":"2017-03-13T08:50:21","modified_gmt":"2017-03-13T10:50:21","slug":"seminario-dos-ratos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/seminario-dos-ratos","title":{"rendered":"Semin\u00e1rio dos Ratos"},"content":{"rendered":"<h4>Lygia Fagundes Telles<\/h4>\n<p>Semin\u00e1rio dos ratos, \u00e9 um conto de Lygia Fagundes Telles, e est\u00e1 tamb\u00e9m presente no livro de mesmo nome. Neste conto a autora tamb\u00e9m rompe com a realidade e com a l\u00f3gica racional.<\/p>\n<h4>Enredo<\/h4>\n<p>Conto em terceira pessoa que apresenta uma alegoria de nossas estruturas pol\u00edtico-burocr\u00e1ticas. Trata-se de ratos, pequenos e temerosos roedores, numa treva dura de m\u00fasculos, guinchos e centenas de olhos luzindo negr\u00edssimos, que invadem e destr\u00f3em uma casa rec\u00e9m restaurada localizada longe da cidade. Ali aconteceria um evento denominado VII Semin\u00e1rio dos Roedores, uma reuni\u00e3o de burocratas, sob a coordena\u00e7\u00e3o do Secret\u00e1rio do Bem-Estar P\u00fablico e Privado, tendo como assessor o Chefe de Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas. O pa\u00eds fict\u00edcio encontra-se atravancado pela burocracia, invertendo-se a propor\u00e7\u00e3o dos roedores em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00famero de homens: cem por um.<\/p>\n<p>O conto aparece em livro hom\u00f4nimo, no ano de 1977, \u00e9poca em que o Brasil se encontrava em um momento hist\u00f3rico de repress\u00e3o pol\u00edtica. No trabalho gr\u00e1fico da capa da primeira edi\u00e7\u00e3o do livro Semin\u00e1rio dos ratos, aparecem dois ratos empunhando estandartes com bandeiras \u00e0 frente de uma figura estilizada \u2013 uma esp\u00e9cie de monstro com coroa, um rei no trono, a ser destronado pelos animais?<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio nome do conto &#8220;Semin\u00e1rio dos ratos&#8221; j\u00e1 causa uma inquieta\u00e7\u00e3o. Um semin\u00e1rio evoca atividade intelectual, local de encontro de estudos, possuindo etimologicamente mesma raiz de semente\/sementeira \u2013 local para germinar novas id\u00e9ias. Tamb\u00e9m traz uma ambig\u00fcidade: semin\u00e1rio no qual se discutir\u00e1 a problem\u00e1tica dos ratos, ou semin\u00e1rio no qual os ratos ser\u00e3o participantes? Essa quest\u00e3o ficar\u00e1 em aberto ao final do conto. A narrativa \u00e9 introduzida atrav\u00e9s de uma ep\u00edgrafe \u2013 versos finais do poema &#8220;Edif\u00edcio Esplendor&#8221; de Carlos Drummond de Andrade (1955) &#8211; da qual j\u00e1 emana um clima de terror, em que os ratos falam, humanizados pelo poeta: Que s\u00e9culo, meu Deus! \u2013 exclamaram os ratos e come\u00e7aram a roer o edif\u00edcio. A imagem evocada por este verso j\u00e1 traz um efeito em si, remetendo \u00e0 hist\u00f3ria de homens sem alma e a constru\u00e7\u00f5es sem sentido, que n\u00e3o vale a pena conservar, condensando uma perplexidade frente a situa\u00e7\u00f5es paradoxais daquele s\u00e9culo surpreendente. O nome &#8220;esplendor&#8221; no t\u00edtulo do poema \u00e9 uma ironia, visto que o edif\u00edcio descrito pelo poeta \u00e9 pura decad\u00eancia.<\/p>\n<p>O espa\u00e7o privilegiado no relato \u00e9 um casar\u00e3o do governo, esp\u00e9cie de casa de campo afastada da cidade, rec\u00e9m-reconstru\u00edda especialmente para a realiza\u00e7\u00e3o do evento. Portanto, o semin\u00e1rio aconteceria em uma casa de ambiente acolhedor, longe de temidos inimigos como insetos ou pequenos roedores, equipada com todo o conforto moderno: piscina de \u00e1gua quente, aeroporto para jatinhos, aparelhos eletr\u00f4nicos de comunica\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de outras comodidades e luxos. A narrativa fant\u00e1stica transcorre neste cen\u00e1rio ins\u00f3lito com protagonistas ambivalentes que carecem de nomes pr\u00f3prios. At\u00e9 mesmo os acontecimentos e seus ind\u00edcios nesta representa\u00e7\u00e3o espacial transmitem uma sensa\u00e7\u00e3o amea\u00e7adora ao leitor. A inten\u00e7\u00e3o pol\u00edtica fica atestada nesta escolha da mans\u00e3o restaurada no campo, evidenciando um plano f\u00edsico\/espacial expandido ao psicol\u00f3gico: distante, por\u00e9m \u00edntimo para quem l\u00e1 est\u00e1. Embora o processo psicologizante seja lento, a total e inevit\u00e1vel destrui\u00e7\u00e3o ao final \u00e9 completamente bem-sucedida.<\/p>\n<p>A primeira personagem apresentada no conto \u00e9 o Chefe das Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas, um jovem de baixa estatura, atarracado, sorriso e olhos extremamente brilhantes, que se ruboriza facilmente e possui m\u00e1 audi\u00e7\u00e3o. Ele pede permiss\u00e3o, atrav\u00e9s de batidas leves na porta para entrar na sala do Secret\u00e1rio do Bem Estar P\u00fablico e Privado, a quem chama de Excel\u00eancia \u2013 homem descorado e fl\u00e1cido, de calva \u00famida e m\u00e3os acetinadas [&#8230;] voz branda, com um leve acento lamurioso. O jovem chefe encontra o secret\u00e1rio com o p\u00e9 direito cal\u00e7ado, e o outro em chinelo de l\u00e3, apoiado em uma almofada, e bebendo um copo de leite. Curiosamente, a personagem do jovem chefe \u00e9 a \u00fanica que sobreviver\u00e1 ao ataque dos ratos, restando ao final da hist\u00f3ria para cont\u00e1-la.<\/p>\n<p>As personagens desse conto s\u00e3o nomeadas atrav\u00e9s de suas ocupa\u00e7\u00f5es profissionais e cargos hier\u00e1rquicos, havendo portanto uma focaliza\u00e7\u00e3o proposital nos pap\u00e9is sociais. Tamb\u00e9m nesse primeiro momento, h\u00e1 descri\u00e7\u00e3o pormenorizada do f\u00edsico das personagens j\u00e1 apresentadas, que levam a infer\u00eancias sobre aspectos psicol\u00f3gicos, que permitem conhecer a interioridade.<\/p>\n<p>No caso destas duas personagens, parece que ambos n\u00e3o t\u00eam contato com seus selves, nem com o inconsciente. Elas n\u00e3o se apoderam de si mesmas: n\u00e3o est\u00e1 em contato consigo mesma, mas com sua imagem refletida. As individualidades do chefe e do secret\u00e1rio encontram-se completamente confundidas com o cargo ocupado, resultando num estado de infla\u00e7\u00e3o, num papel social representado, longe da ess\u00eancia de seus n\u00facleos humanos e de suas sensibilidades. A \u00eanfase dada \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o e ao cargo da primeira personagem mostra que se trata do respons\u00e1vel pela coordena\u00e7\u00e3o dos assuntos que dizem respeito ao relacionamento com o p\u00fablico em geral. Em outras palavras, sua fun\u00e7\u00e3o est\u00e1 ligada aos t\u00f3picos referentes \u00e0 m\u00eddia, \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o com o coletivo.<\/p>\n<p>Esta primeira cena do conto j\u00e1 remete a uma dualidade que acentua oposi\u00e7\u00f5es: embora seja o respons\u00e1vel pelo bem-estar coletivo, o secret\u00e1rio sofre de um mal-estar individual, pois tem uma enfermidade que ataca seu p\u00e9 &#8211; a gota &#8211; em cujas crises seu sentido da audi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se agu\u00e7a. Cria-se uma figura contradit\u00f3ria: um secret\u00e1rio do bem-estar que se encontra mal.<\/p>\n<p>A narrativa apresenta a divis\u00e3o da unicidade f\u00edsica e ps\u00edquica desta personagem, que j\u00e1 vem nomeada com esta cis\u00e3o de for\u00e7as antag\u00f4nicas: o p\u00fablico e o privado. Este \u00edndice j\u00e1 pertence ao duplo \u2013 um p\u00e9 esquerdo doente \u2013 que desvela a cis\u00e3o em que se encontra o secret\u00e1rio. Embora aparentemente restrita ao n\u00edvel f\u00edsico, h\u00e1 uma divis\u00e3o da unidade ps\u00edquica tamb\u00e9m. No outro dia ele cal\u00e7ar\u00e1 os sapatos, para aparecer &#8220;uno&#8221; diante do mundo externo. Atrav\u00e9s do discurso, revela-se uma bivocaliza\u00e7\u00e3o, uma rela\u00e7\u00e3o de alteridade, uma intera\u00e7\u00e3o da voz de um eu com a voz de um outro. Este di\u00e1logo que se estabelece entre os dois acontece com um pano de fundo: a crise de artrite que acomete o secret\u00e1rio. A partir deste momento, estabelece-se uma \u00eanfase acentuada nesta parte-sustent\u00e1culo do corpo humano, enfermo na personagem. Ao receber em chinelos seu subordinado \u2013 que, tamb\u00e9m det\u00e9m um cargo de chefia \u2013 ele revela sua intimidade, denunciando sua defici\u00eancia f\u00edsica e tornando-se vulner\u00e1vel. Confessa que far\u00e1 o sacrif\u00edcio de cal\u00e7ar sapatos, porque n\u00e3o deseja apresentar-se assim aos demais convidados. Dessa forma, o secret\u00e1rio encontra-se destitu\u00eddo de um dos s\u00edmbolos de sua autoridade: os sapatos.<\/p>\n<p>No conto, o fato de o secret\u00e1rio estar com a sa\u00fade do p\u00e9 abalada, e n\u00e3o poder se locomover (a n\u00e3o ser de chinelos) nem cal\u00e7ar sapatos, parece significar justamente n\u00e3o poder gozar de sua plena autoridade. \u00c9 uma pessoa fragilizada, com limita\u00e7\u00f5es expostas, cuja &#8220;persona&#8221; n\u00e3o est\u00e1 sintonizada com o exigido, al\u00e9m de beber leite, alimento relacionado com a inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Na continua\u00e7\u00e3o da conversa, o secret\u00e1rio solicita not\u00edcias sobre o coquetel que ocorrera \u00e0 tarde, ao que o Chefe das Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas responde ter sido bem-sucedido, pois havia poucas pessoas, s\u00f3 a c\u00fapula, ficou uma reuni\u00e3o assim aconchegante, \u00edntima, mas muito agrad\u00e1vel. Continua informando em que alas e su\u00edtes est\u00e3o instalados os convidados: o Assessor da Presid\u00eancia da RATESP na ala norte, o Diretor das Classes Conservadoras Armadas e Desarmadas na su\u00edte cinzenta, a Delega\u00e7\u00e3o Americana na ala azul. Complementa dizendo que o crep\u00fasculo est\u00e1 deslumbrante, dando ind\u00edcios do tempo cronol\u00f3gico do conto, que transcorre entre um entardecer e um alvorecer: o ciclo de uma noite completa. A conversa inicia quase \u00e0s seis horas, indicando um momento de passagem, de transi\u00e7\u00e3o entre a luz\/claridade e a noite, quando a consci\u00eancia vai pouco a pouco dando lugar ao mundo da escurid\u00e3o, do inconsciente. Como bem assinala Franz: &#8230;a hora do poente pode ser interpretada como dormir, o apagar-se da consci\u00eancia.<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio solicita explica\u00e7\u00f5es sobre a cor cinzenta escolhida na su\u00edte do diretor das classes, por sua vez representando tamb\u00e9m uma s\u00edntese de contr\u00e1rios, e o jovem Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas explica os motivos de suas escolhas para distribuir os participantes. Depois indaga se o secret\u00e1rio por acaso n\u00e3o gosta da cor cinza, ao que ele responde com uma associa\u00e7\u00e3o, lembrando tratar-se da cor deles. Rattus alexandrius.<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio os chama pelo nome latino, o que sugere um artif\u00edcio para minimizar a gravidade da situa\u00e7\u00e3o. Aqui \u00e9 trazida uma perspectiva polarizada: norte-sul. Entre as duas, uma zona cinzenta. \u00c9 interessante perceber que o ocupante desta \u00e1rea tem uma responsabilidade contradit\u00f3ria de defender as classes conservadoras com as for\u00e7as armadas e com as for\u00e7as desarmadas. No conto, a cor da su\u00edte que lhe \u00e9 destinada \u2013 cinzenta &#8211; remete a algo que n\u00e3o \u00e9 preto nem branco, mas \u00e0 mescla destas duas cores, como se faltasse uma defini\u00e7\u00e3o na cor e nas for\u00e7as que utiliza.<\/p>\n<p>No prosseguimento da conversa entre ambos, o secret\u00e1rio confessa ter sido contr\u00e1rio \u00e0 indica\u00e7\u00e3o do americano, argumentando que, se os ratos s\u00e3o pertencentes ao pa\u00eds, as solu\u00e7\u00f5es devem ser caseiras, ao que o chefe objeta ser o delegado um t\u00e9cnico em ratos. Fica evidente a posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica contr\u00e1ria \u00e0 interven\u00e7\u00e3o americana no pa\u00eds, principalmente porque na \u00e9poca havia suspeitas de que agentes americanos especializados em repress\u00e3o pol\u00edtica vinham ao Brasil treinar torturadores. O secret\u00e1rio aproveita para indicar ao jovem chefe (que est\u00e1 sendo orientado, pois \u00e9 um candidato em potencial) uma postura de positividade diante dos estrangeiros, devendo esconder o lado negativo dos fatos: mostrar s\u00f3 o lado positivo, s\u00f3 o que pode nos enaltecer. Esconder nossos chinelos. Aqui a personagem exp\u00f5e sua vis\u00e3o de mundo, suas rela\u00e7\u00f5es consigo mesmo e com o mundo externo &#8211; aspectos que s\u00e3o motivo de orgulho e envaidecimento devem ser mostrados, por\u00e9m aspectos da psique individual e coletiva que envergonhem e representam dificuldades n\u00e3o. Em outras palavras: o mundo da sombra deve ser escondido.<\/p>\n<p>No discurso sobre as apar\u00eancias, a personagem relaciona os ratos com os p\u00e9s inchados e com os chinelos. O aspecto que estes tr\u00eas elementos t\u00eam em comum \u00e9 que s\u00e3o todos indesej\u00e1veis para a personagem: o rato, pela amea\u00e7a da invas\u00e3o, epidemia e destrui\u00e7\u00e3o (al\u00e9m de prejudicarem sua gest\u00e3o e p\u00f4r em d\u00favida sua compet\u00eancia de zelar pelo bem-estar coletivo), o p\u00e9 enfermo por denunciar sua defici\u00eancia f\u00edsica, e os chinelos, finalmente, por revelarem um status inferior, uma esp\u00e9cie de destitui\u00e7\u00e3o de seu poder. Tamb\u00e9m n\u00e3o agrada ao secret\u00e1rio saber que o americano \u00e9 um especialista em jornalismo eletr\u00f4nico, solicitando ser informado sobre todas as not\u00edcias veiculadas a esse respeito na imprensa a partir dali. J\u00e1 se encontram no s\u00e9timo semin\u00e1rio e ainda n\u00e3o solucionaram o problema dos roedores, por\u00e9m n\u00e3o desejam ajuda estrangeira. O jovem Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas conta que a primeira cr\u00edtica levantada fora a pr\u00f3pria escolha do local para o semin\u00e1rio \u2013 uma casa de campo isolada -, e a segunda quest\u00e3o se referia aos gastos demasiados para torn\u00e1-la habit\u00e1vel: tem tanto edif\u00edcio em disponibilidade, que as implos\u00f5es at\u00e9 j\u00e1 se multiplicam para corrigir o excesso. E n\u00f3s gastando milh\u00f5es para restaurar esta ru\u00edna&#8230;.<\/p>\n<p>O chefe continua relatando sobre um rep\u00f3rter que criticou a medida do governo e este torna-se alvo do ataque dos dois homens: estou apostando como \u00e9 da esquerda, estou apostando. Ou, ent\u00e3o, amigo dos ratos, diz o secret\u00e1rio. Franz sublinha que a sombra, o que \u00e9 inaceit\u00e1vel para a consci\u00eancia, \u00e9 projetada num oponente, enquanto a pessoa se identifica com uma auto-imagem fict\u00edcia e com o quadro abstrato do mundo oferecido pelo racionalismo cient\u00edfico, algo que provoca uma perda constantemente maior do instinto e, em especial, uma perda do amor ao pr\u00f3ximo, t\u00e3o necess\u00e1rio ao mundo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Entretanto, o jovem chefe salienta a cobran\u00e7a de resultados por parte da m\u00eddia. Acentua que, na favela, as ratazanas \u00e9 que andam de lata d\u2019\u00e1gua na cabe\u00e7a e reafirma ser uma boa id\u00e9ia a reuni\u00e3o se realizar na solid\u00e3o e ar puro da natureza no campo. Nesta primeira afirma\u00e7\u00e3o, percebe-se uma total falta de sensibilidade, empatia, solidariedade e humanidade para com os favelados: tanto faz que sejam as Marias ou as ratazanas que precisem carregar latas d\u2019\u00e1gua na cabe\u00e7a. Esta parte do conto \u00e9 refor\u00e7ada pela cita\u00e7\u00e3o supracitada. Neste momento, o secret\u00e1rio ouve um barulho t\u00e3o esquisito, como se viesse do fundo da terra, subiu depois para o teto&#8230; N\u00e3o ouviu mesmo?, por\u00e9m o jovem rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas nada ouve. O secret\u00e1rio encontra-se t\u00e3o paran\u00f3ico com a quest\u00e3o dos ratos e do semin\u00e1rio, que desconfia da possibilidade de um gravador estar instalado veladamente, talvez da parte do delegado americano. O rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas conta ainda que o assessor de imprensa sofrera um pequeno acidente de tr\u00e2nsito, estando com o bra\u00e7o engessado.<\/p>\n<p>No prosseguimento da conversa, um ato falho do secret\u00e1rio faz confundir bra\u00e7o com perna quebrada. Franz faz ver que os bra\u00e7os s\u00e3o em geral os \u00f3rg\u00e3os de a\u00e7\u00e3o e as pernas nossa postura na realidade. O jovem chefe diz que o assessor de imprensa dar\u00e1 as informa\u00e7\u00f5es pouco a pouco por telefone, mas que vir\u00e3o todos ao final, para o que ele denomina &#8220;uma apoteose&#8221;. A tradu\u00e7\u00e3o do texto latino Finis coronat opus, ou seja, &#8220;o fim coroa a obra&#8221;, evidencia que para ele n\u00e3o importam os meios. Denuncia-se desse modo a falta de princ\u00edpios \u00e9ticos das personagens. O secret\u00e1rio confessa se preocupar com a incomunicabilidade, preferindo que os jornalistas ficassem mais perto, ao que o jovem assessor contra-argumenta que a dist\u00e2ncia e o mist\u00e9rio valorizam mais a situa\u00e7\u00e3o. A preocupa\u00e7\u00e3o da personagem \u00e9 com o mundo externo, com os meios de comunica\u00e7\u00e3o, com as boas not\u00edcias, mesmo que inver\u00eddicas. Entretanto, permanece incomunic\u00e1vel com seu mundo interno, n\u00e3o lhe dando aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio pede inclusive para seu assessor inventar que os ratos j\u00e1 est\u00e3o estrategicamente controlados. Fica evidenciada no di\u00e1logo a manipula\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o, principalmente na vocaliza\u00e7\u00e3o do chefe: [&#8230;] os ratos j\u00e1 se encontram sob controle. Sem detalhes, enfatize apenas isto, que os ratos j\u00e1 est\u00e3o sob inteiro controle. Al\u00e9m disso, aqui s\u00e3o vis\u00edveis os mecanismos da luta pelo poder: o bin\u00f4mio mandante\/poder \u2013 executor\/submiss\u00e3o representa parte de um sistema s\u00f3cio-pol\u00edtico explorador e falso, prevalecendo a atitude de ludibriar.<\/p>\n<p>Novamente, o secret\u00e1rio chama a aten\u00e7\u00e3o para o barulho que aumenta e diminui. Olha a\u00ed, em ondas, como um mar&#8230; Agora parece um vulc\u00e3o respirando, aqui perto e ao mesmo tempo t\u00e3o longe! Est\u00e1 fugindo, olha a\u00ed&#8230;, mas o chefe das rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas continua a n\u00e3o escutar. A compara\u00e7\u00e3o com for\u00e7as poderosas e potencialmente destrutivas da natureza mostram o quanto ele estava apreensivo. O barulho desconhecido e esquisito que persegue o secret\u00e1rio aparece como uma amea\u00e7a severa, como se algo j\u00e1 existente em potencial estivesse por acontecer.<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio afirma que escuta demais, devo ter um ouvido suplementar. T\u00e3o fino. e que \u00e9 o primeiro a ter premoni\u00e7\u00f5es quando coisas anormais acontecem, evocando sua experi\u00eancia na revolu\u00e7\u00e3o de 32 e no golpe de 64. Esta verbaliza\u00e7\u00e3o aponta ind\u00edcios de que a sede do s\u00e9timo semin\u00e1rio \u00e9 o Brasil, ao menos como inspirador do pa\u00eds ficcional do texto. No entanto, o cen\u00e1rio \u00e9 ampliado para a Am\u00e9rica do Sul, com o uso repetido do termo &#8220;bueno&#8221; pelo jovem assessor, em v\u00e1rias de suas vocaliza\u00e7\u00f5es, e o nome da safra do vinho, mais adiante analisado. Respira-se uma atmosfera latina em fun\u00e7\u00e3o disto. Em geral h\u00e1 um tom de trag\u00e9dia, t\u00edpico da simbologia isomorfa das trevas.<\/p>\n<p>O jovem assessor lan\u00e7a um olhar suspeitoso sobre uma imagem de bronze: aqui aparece, sob a forma de uma estatueta \u2013 da justi\u00e7a \u2013 uma figura feminina no conto: tem os olhos vendados, empunha a espada e a balan\u00e7a. Desta, um dos pratos est\u00e1 empoeirado, novamente numa alus\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de injusti\u00e7as em que vive o pa\u00eds. A balan\u00e7a \u00e9 o elemento mais evidenciado da imagem, como se estivesse em primeiro plano. Atrav\u00e9s dessa alegoria, h\u00e1 como um convite para refletir sobre as diferentes polaridades que se evidenciam, j\u00e1 que se trata de um instrumento que serve para medir e pesar o equil\u00edbrio de duas for\u00e7as que se colocam em pratos opostos: bem estar x mal estar, p\u00e9 sadio x doente, ratos x governo, mans\u00e3o x ru\u00edna.<\/p>\n<p>Os dualismos apontados acabam por sintetizar uma confronta\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica entre homens e animais, entre racionalidade e irracionalidade. A espada \u00e9 o s\u00edmbolo por excel\u00eancia do regime diurno e das estruturas esquizomorfas. A arma pode representar a repara\u00e7\u00e3o e o equil\u00edbrio entre o bem e o mal. No tecido do conto, a imagem da espada nas m\u00e3os da justi\u00e7a adquire sentido de separa\u00e7\u00e3o do mal. Neste conto, a correspond\u00eancia das situa\u00e7\u00f5es e personagens apresentadas corrobora uma significa\u00e7\u00e3o dualista, atrav\u00e9s do uso de ant\u00edteses pela escritora.<\/p>\n<p>Somente ent\u00e3o o secret\u00e1rio faz men\u00e7\u00e3o ao p\u00e9 enfermo, usando o termo &#8220;gota&#8221; pela primeira vez na narrativa.<\/p>\n<p>E o jovem assessor de imediato canta Pode ser a gota d\u2019\u00e1gua! Pode ser a gota d\u2019\u00e1gua!, estribilho da can\u00e7\u00e3o popular do compositor Chico Buarque de Holanda, na \u00e9poca um cr\u00edtico dos fatos pol\u00edticos do pa\u00eds. A associa\u00e7\u00e3o musical do chefe parece n\u00e3o agradar ao secret\u00e1rio. O jovem chefe defende-se, dizendo ser uma m\u00fasica cantada pelo povo, ao que o secret\u00e1rio aproveita a deixa para declarar que s\u00f3 se fala em povo e no entanto o povo n\u00e3o passa de uma abstra\u00e7\u00e3o [&#8230;] que se transforma em realidade quando os ratos come\u00e7am a expulsar os favelados de suas casas. Ou roer os p\u00e9s das crian\u00e7as da periferia. O secret\u00e1rio complementa que quando a &#8220;imprensa marrom&#8221; come\u00e7a a explorar o fato, a\u00ed &#8220;o povo passa a existir&#8221;.<\/p>\n<p>Na afirma\u00e7\u00e3o de que o povo n\u00e3o existe enquanto realidade, o secret\u00e1rio parece ser um secret\u00e1rio mais para privado do que para p\u00fablico, por\u00e9m \u00e9 for\u00e7ado a reconhecer o povo quando suas mazelas e infort\u00fanios aparecem nos jornais, expostos em manchetes, o que muito abomina.<\/p>\n<p>Na rede de intertextualidade do Semin\u00e1rio dos ratos, a alus\u00e3o \u00e0 can\u00e7\u00e3o &#8220;Gota d\u2019\u00e1gua&#8221; completa uma s\u00e9rie de refer\u00eancias presentes no conto a poetas brasileiros: Carlos Drummond de Andrade, Chico Buarque de Holanda, Vin\u00edcius de Moraes, presentes no texto. Poder\u00edamos contar ainda com a presen\u00e7a da letra de &#8220;Lata d\u2019\u00e1gua&#8221;, m\u00fasica de carnaval tipicamente brasileira. \u00c9 como se a narrativa quisesse enfatizar as coisas boas do pa\u00eds, em contraponto com a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica vigente.<\/p>\n<p>Outra teia intertextual poss\u00edvel \u00e9 o conto de fadas O flautista de Hamelin: a personagem-t\u00edtulo livra a popula\u00e7\u00e3o da peste dos ratos apenas com sua m\u00fasica. A condu\u00e7\u00e3o\/expuls\u00e3o dos ratos para longe \u00e9 um contraponto ao texto de Lygia, que, por sua vez, trata da chegada de ratos.<\/p>\n<p>\u00d3rg\u00e3os p\u00fablicos como RATESP \u2013 numa clara refer\u00eancia aos ratos e \u00e0 cidade de S\u00e3o Paulo \u2013 parecem n\u00e3o alcan\u00e7ar nenhum resultado contra os ratos que se multiplicam em uma cidade sem gatos exterminadores. O secret\u00e1rio lembra tamb\u00e9m que no Egito Antigo, resolveram esse problema aumentando o n\u00famero de gatos, ao que o assessor responde que aqui o povo j\u00e1 comera todos os gatos, ouvi dizer que dava um \u00f3timo cozido!, em uma resposta claramente ir\u00f4nica, aludindo ao fato de que o povo estaria esfaimado a ponto de comer carne de gato.<\/p>\n<p>Com o escurecer, o jovem rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas recorda que o jantar ser\u00e1 \u00e0s oito horas, e a mesa estar\u00e1 decorada com a cor local: orqu\u00eddeas, frutas, abacaxi, lagostas, vinho chileno. O preparo cuidadoso e apar\u00eancia requintada do alimento n\u00e3o o afastar\u00e1 de ao final tornar-se comida dos animais. Aqui aparece outro fio intertextual \u2013 com a pol\u00edtica de outro pa\u00eds da Am\u00e9rica do Sul, o Chile &#8211; pois na narra\u00e7\u00e3o o nome da safra do vinho \u00e9 Pinochet, refer\u00eancia expl\u00edcita ao ditador na \u00e9poca da publica\u00e7\u00e3o do conto, recentemente julgado por seus atos.<\/p>\n<p>O ru\u00eddo retorna de forma bem mais forte: agora o rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas identifica-o, levantando-se de um salto. Aparece a satisfa\u00e7\u00e3o do secret\u00e1rio ao ver confirmadas suas intui\u00e7\u00f5es, por\u00e9m ele mal imagina que esta satisfa\u00e7\u00e3o logo ir\u00e1 tamb\u00e9m por sua vez inverter-se, pois \u00e9 a confirma\u00e7\u00e3o de um barulho prenunciador da cat\u00e1strofe que logo a seguir se abater\u00e1 sobre o casar\u00e3o, o ru\u00eddo surdo da invas\u00e3o dos ratos que se articula. Novamente compara com vulc\u00e3o ou bomba, e o jovem assessor sai apavorado murmurando: N\u00e3o se preocupe, n\u00e3o h\u00e1 de ser nada, com licen\u00e7a, volto logo. Meu Deus, zona vulc\u00e2nica?!&#8230;.<\/p>\n<p>No corredor, ele encontra-se com Miss Gl\u00f3ria, secret\u00e1ria da delega\u00e7\u00e3o americana, a \u00fanica personagem feminina do conto, com quem conversa rapidamente em ingl\u00eas, praticando seu aprendizado de idiomas. Parece haver uma ironia tamb\u00e9m no nome, pois contrariamente \u00e0 gl\u00f3ria esperada, o semin\u00e1rio parece fadado ao fracasso. Ela tem um papel secund\u00e1rio no semin\u00e1rio, que aparece como um evento de poder eminentemente masculino. O chefe encontra-se em seguida com o diretor das classes conservadoras armadas e desarmadas, vestido com um roup\u00e3o de veludo verde e encolheu-se para lhe dar passagem, fez uma mesura, \u2018Excel\u00eancia\u2019 e quis prosseguir mas teve a passagem barrada pela montanha veludosa, e ainda lhe admoesta sobre o ru\u00eddo e o cheiro. Informa-lhe que os telefones est\u00e3o mudos (no pa\u00eds os meios de comunica\u00e7\u00e3o estavam sob censura), o que o surpreende. A compara\u00e7\u00e3o que a escritora faz com uma montanha veludosa, em correspond\u00eancia ao chambre de veludo verde, neste contexto, alude \u00e0 cor do conservadorismo e do poder. Trata-se de cor muito utilizada pela escritora, j\u00e1 referido em outros contos. O uso desta cor na obra da escritora \u00e9 t\u00e3o not\u00e1vel, que mereceu an\u00e1lise de F\u00e1bio Lucas no ensaio Mist\u00e9rio e magia: contos de Lygia Fagundes Telles.<\/p>\n<p>Neste momento surge a personagem do cozinheiro-chefe, que anuncia a rebeli\u00e3o dos animais, aparece correndo pelo sagu\u00e3o \u2013 sem gorro e de avental rasgado \u2013 com m\u00e3os sujas de suco de tomate que limpa no peito, a cor vermelha em clara alus\u00e3o a sangue, revolu\u00e7\u00e3o, esquerda \u2013 dizendo aos gritos que acontecera algo horr\u00edvel: Pela alma de minha m\u00e3e, quase morri de susto quando entrou aquela nuvem pela porta, pela janela, pelo teto, s\u00f3 faltou me levar e mais a Euclides! &#8211; os ratos haviam comido tudo, s\u00f3 se salvara a geladeira. Relata, como o secret\u00e1rio, que o barulho fora percebido antes, feito um veio d\u2019\u00e1gua subterr\u00e2neo. Depois havia sido um apavoramento, um espanto com aquela invas\u00e3o desproposital e aterrorizante em meio aos preparativos para o semin\u00e1rio. O estranhamento que causa a invas\u00e3o dos ratos dentro desta atmosfera \u00e9 abrupta, apesar dos ind\u00edcios, pois n\u00e3o existe uma explica\u00e7\u00e3o l\u00f3gica da desmesura dos ataques. A viol\u00eancia do ocorrido, de uma certa forma, reflete aspectos &#8220;monstruosos&#8221; dentro do homem, e que tamb\u00e9m d\u00e1 a medida de como a sociedade se constitui. Aqui, o fato fant\u00e1stico instala-se no \u00e2mago do real, confundindo os par\u00e2metros racionais e provocando uma ruptura da ordem do cotidiano. A n\u00e3o resolu\u00e7\u00e3o da narrativa e o sistema metaf\u00f3rico fazem da narra\u00e7\u00e3o, um drama e da leitura, um exerc\u00edcio conflitual.<\/p>\n<p>No conto, a compara\u00e7\u00e3o com nuvem traz uma alus\u00e3o ao coletivo de gafanhotos, pois os ratos do conto agiram feito uma nuvem destes insetos, praga que tudo destr\u00f3i. O cozinheiro-chefe conta que ao tentar defender a comida um rato ficou de p\u00e9 na pata traseira e me enfrentou feito um homem. Pela alma de minha m\u00e3e, doutor, me representou um homem vestido de rato!. O v\u00ednculo entre o terror e o duplo aparece de modo exemplar aqui, pois h\u00e1 converg\u00eancia de ambos na figura do animal. A narra\u00e7\u00e3o promove invers\u00f5es caracter\u00edsticas de narrativas fant\u00e1sticas, no sentido de humanizar os ratos. Trata-se do relato de um atributo humano de intimida\u00e7\u00e3o, amea\u00e7a, arrog\u00e2ncia e enfrentamento. E tamb\u00e9m busca animalizar as personagens, atrav\u00e9s do uso expressivo de verbos, como farejar e rosnar, para assim conferir atributos animais, relacionados com a postura de pessoas.<\/p>\n<p>Homens com atitudes de ratos e ratos com posturas de homens: a animalidade associada \u00e0 irracionalidade humana. \u00c0s vezes o duplo vinga-se ele pr\u00f3prio. Considera-se essa id\u00e9ia aplic\u00e1vel a esse duplo corporificado pelos animais (sobrenatural, espectral) que se vinga dos homens destruindo o pr\u00f3prio semin\u00e1rio. Nesse caso do conto, os &#8220;outros&#8221; eram os ratos, incluindo o fato de que davam uma impress\u00e3o de humanizados. A trama do conto \u00e9 bastante \u00f3bvia, por suas implica\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-pol\u00edticas, mas nem por isto perde o car\u00e1ter sobrenatural. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas sobre a exist\u00eancia e o car\u00e1ter antropom\u00f3rfico dos ratos, tamb\u00e9m considerando o alegorismo desse conto. A presen\u00e7a da alegoria, por considerar significados externos ao texto, impediria a rea\u00e7\u00e3o de hesita\u00e7\u00e3o do leitor, que para ele \u00e9 a caracter\u00edstica principal do texto fant\u00e1stico. Acredita-se que a alegoria de cunho pol\u00edtico n\u00e3o prejudica nem descaracteriza o sobrenatural nesse conto.<\/p>\n<p>O jovem assessor preocupa-se com as apar\u00eancias, pedindo que o cozinheiro-chefe fale baixo, n\u00e3o fa\u00e7a alarde sobre os acontecimentos. A cozinha \u00e9, no conto, o local por onde inicia a invas\u00e3o dos roedores.<\/p>\n<p>Como \u00e9 sugerido desde o t\u00edtulo do conto, os agentes instauradores da estranheza s\u00e3o os ratos, s\u00edmbolos teriomorfos, uma vez que se constituem respons\u00e1veis pela invas\u00e3o, tomando conta do espa\u00e7o f\u00edsico conhecido, e pela destrui\u00e7\u00e3o do local. Convertem-se no centro das preocupa\u00e7\u00f5es das personagens e, depois, no ponto deflagrador do p\u00e2nico. Os atributos desses animais significam o poder destruidor do tempo, possuindo uma grande resist\u00eancia ao exterm\u00ednio. Ratos s\u00e3o considerados animais esfomeados, prol\u00edficos e noturnos, aparecendo como criaturas tem\u00edveis, at\u00e9 infernal. No conto, os ratos s\u00e3o totalmente subversivos, no sentido de corroerem a ordem e estabelecerem o caos e o terror.<\/p>\n<p>Na seq\u00fc\u00eancia do conto, o jovem chefe tenta que o cozinheiro volte \u00e0 cozinha, por\u00e9m este mostra que a gravidade da situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 sendo compreendida pelo jovem: nenhum carro est\u00e1 funcionando [&#8230;] Os fios foram comidos, comeram tamb\u00e9m os fios, ir embora s\u00f3 se for a p\u00e9, doutor. Foram retirados todos os s\u00edmbolos que remetem \u00e0 acessibilidade e \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o com o mundo exterior, e agora, sem subterf\u00fagios externos para se salvarem, somente restam suas pr\u00f3prias for\u00e7as e recursos. Os ratos devastaram toda a infra-estrutura do VII Semin\u00e1rio de Roedores. O rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas com olhar silencioso foi acompanhando um chinelo de debrum de pel\u00facia que passou a alguns passos do avental embolado no tapete: o chinelo deslizava, a sola voltada para cima, r\u00e1pido como se tivesse rodinhas ou fosse puxado por algum fio invis\u00edvel.<\/p>\n<p>Esta imagem \u00e9 d\u00fabia, n\u00e3o se sabe se o secret\u00e1rio est\u00e1 sendo arrastado junto com o chinelo ou se o chinelo \u00e9 o que resta do corpo devorado; voltemos \u00e0 sua premoni\u00e7\u00e3o: o p\u00e9 fora ro\u00eddo por ratos como o das crian\u00e7as pobres? De qualquer forma, o destaque \u00e9 dado para o chinelo, justamente aquilo que fora desprezado pela personagem: era tudo o que restara de si.<\/p>\n<p>Nesse momento a casa \u00e9 sacudida em seus alicerces por algo que parece uma avalanche e as luzes se apagam. Invas\u00e3o total. O texto compara a irrup\u00e7\u00e3o dos animais aos milhares, brotando do nada e de todos os lugares, a uma erup\u00e7\u00e3o vulc\u00e2nica, incontrol\u00e1vel. A pr\u00f3pria narrativa vai avisando que foi a \u00faltima coisa que viu, porque nesse instante a casa foi sacudida nos seus alicerces. As luzes se apagaram. Ent\u00e3o deu-se a invas\u00e3o, espessa como se um saco de pedras borrachosas tivesse sido despejado em cima do telhado e agora saltasse por todos os lados numa treva dura de m\u00fasculos, guinchos e centenas de olhos luzindo negr\u00edssimos.<\/p>\n<p>Do ataque rapid\u00edssimo dos roedores, salva-se somente o chefe das rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, que se refugia entrincheirando-se na geladeira: arrancou as prateleiras que foi encontrando na escurid\u00e3o, jogou a lataria para o ar, esgrimou com uma garrafa contra dois olhinhos que j\u00e1 corriam no vasilhame de verduras, expulsou-os e, num salto, pulou l\u00e1 dentro, mantendo-a aberta com um dedo na porta para respirar, logo em seguida substituindo-o pela ponta da gravata. No in\u00edcio do conto, a gravata representa o status, o prest\u00edgio, o mundo das apar\u00eancias. J\u00e1 no final, aparece como s\u00edmbolo de sobreviv\u00eancia. H\u00e1 aqui, portanto, uma transforma\u00e7\u00e3o de um s\u00edmbolo em fun\u00e7\u00e3o das amea\u00e7as e do perigo que se apresentaram \u00e0 personagem, modificando o contexto. E ainda pode-se apontar mais uma invers\u00e3o: as pessoas fogem espavoridas enquanto os ratos se instalam, e o chefe das rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas esconde-se na cozinha (dep\u00f3sito de mantimentos) como se fosse um rato.<\/p>\n<p>Aqui tem-se o in\u00edcio do segundo bloco. Em flashback, avisa-se ao leitor que, ap\u00f3s os acontecimentos daquele dia, houve um inqu\u00e9rito \u2013 medida obscura que ocorria no panorama do pa\u00eds naquela \u00e9poca. \u00c9 a \u00fanica coisa que o narrador conta de concreto ap\u00f3s os fatos. O elemento invasor, portanto, conseguiu exterminar o semin\u00e1rio.<\/p>\n<p>A estada do jovem chefe no interior da geladeira parece ter se constitu\u00eddo em um ritual de passagem, at\u00e9 mesmo um cerimonial, pois de um certo modo ele n\u00e3o renasceu? Afinal, somente ele sobreviveu e regressou ao social para relatar, tendo ficado privado de seus sentidos, que ficaram enregelados durante um tempo. A personagem, buscando ref\u00fagio na geladeira, tenta sobreviver e se salvar.<\/p>\n<p>Aqui o narrador suspende a hist\u00f3ria. Este final \u00e9 amb\u00edguo, talvez em uma alus\u00e3o aos ratos se reunindo para realizar o VII Semin\u00e1rio dos Roedores, deliberando e decidindo o destino do pa\u00eds em lugar dos homens dizimados&#8230; Ap\u00f3s a ilumina\u00e7\u00e3o do casar\u00e3o, inicia-se uma nova era, governada pelo mundo das sombras, com os ratos assumindo o poder.<\/p>\n<p>Todo o conto \u00e9 filtrado por indicativos do fant\u00e1stico, tendo seus limites no aleg\u00f3rico. Predomina a invers\u00e3o e os animais corporificam o duplo. O clima permanente \u00e9 o medo apavorante de algo que se desconhece \u2013 e principalmente, que n\u00e3o se controla. E sob esta capa do fant\u00e1stico, Lygia comp\u00f4s um conto denunciador da situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o menos terrificante em que vivia o pa\u00eds, abordando uma tem\u00e1tica sobre as complexas rela\u00e7\u00f5es entre o bem e o mal-estar coletivo e pessoal. O atributo sobrenatural \u2013 a hesita\u00e7\u00e3o experimentada por um ser que s\u00f3 conhece as leis naturais, face a um acontecimento aparentemente sobrenatural, aparece neste conto, fazendo o leitor hesitar ao realizar a interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta narrativa de Lygia \u00e9 outro exemplo da literatura como duplo, ou seja, o pr\u00f3prio conto como um todo \u00e9 uma duplicidade de uma situa\u00e7\u00e3o real. Uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de um pa\u00eds, as for\u00e7as militares que nele operavam, praticamente toda sua doen\u00e7a social personificadas nas personagens que se desdobram, os ratos como imagem de um povo faminto de liberdade e justi\u00e7a que refletem (se duplicam) no conto liter\u00e1rio. O ep\u00edlogo do conto prova a exist\u00eancia do povo, sob forma de ratos rebelados, que mostra sua revolta e vingan\u00e7a, ao contr\u00e1rio da cren\u00e7a do secret\u00e1rio, de que ele n\u00e3o existiria. Neste conto, na luta entre os homens do poder e os ratos (os duplos &#8211; representantes do fantasm\u00e1tico), os vencedores s\u00e3o aparentemente estes \u00faltimos, que conseguem aniquilar com o VII Semin\u00e1rio. Por\u00e9m, o final amb\u00edguo (com a ilumina\u00e7\u00e3o da mans\u00e3o) e a sobreviv\u00eancia do Chefe das Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas podem encaminhar a outras possibilidades de interpreta\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, a d\u00favida se instala: se os ratos haviam ro\u00eddo a instala\u00e7\u00e3o el\u00e9trica, de onde provinha a ilumina\u00e7\u00e3o? Mais um enigma proposto pelo fant\u00e1stico.<\/p>\n<p>Este conto, por se tratar de uma tem\u00e1tica social, disting\u00fce-se dos demais e traz um diferencial. Uma praga sobrenatural de ratos: eis a fantasia de Lygia Fagundes Telles para dizer de sua indigna\u00e7\u00e3o com a situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e com a censura instalada. Os ratos aqui aparecem como elementos que subvertem a ordem estabelecida. A ironia, o humor negro e o sentido cr\u00edtico perpassam as linhas dessa hist\u00f3ria sat\u00edrica, sem abandonar o sentido de uma invas\u00e3o sobrenatural dos animais. A invers\u00e3o de pap\u00e9is realizada entre os animais e os homens apresenta-se como a principal caracter\u00edstica do fant\u00e1stico e do duplo nesse tenso universo representado no conto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lygia Fagundes Telles Semin\u00e1rio dos ratos, \u00e9 um conto de Lygia Fagundes Telles, e est\u00e1 tamb\u00e9m presente no livro de mesmo nome. Neste conto a autora tamb\u00e9m rompe com a realidade e com a l\u00f3gica racional. Enredo Conto em terceira pessoa que apresenta uma alegoria de nossas estruturas pol\u00edtico-burocr\u00e1ticas. 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