{"id":113351,"date":"2017-03-10T18:58:16","date_gmt":"2017-03-10T20:58:16","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=113351"},"modified":"2017-03-10T18:58:16","modified_gmt":"2017-03-10T20:58:16","slug":"que-se-chama-solidao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/que-se-chama-solidao","title":{"rendered":"Que Se Chama Solid\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h4>Lygia Fagundes Telles<\/h4>\n<p>Ch\u00e3o da inf\u00e2ncia. Algumas lembran\u00e7as me parecem fixadas nesse ch\u00e3o movedi\u00e7o, as minhas pajens. Minha m\u00e3e fazendo seus c\u00e1lculos na ponta do l\u00e1pis ou mexendo o tacho de goiabada ou ao piano; tocando suas valsas. E tia Laura, a vi\u00fava eterna que foi morar na nossa casa e que repetia que meu pai era um homem inst\u00e1vel. Eu n\u00e3o sabia o que queria dizer inst\u00e1vel mas sabia que ele gostava de fumar charutos e gostava de jogar. A tia um dia explicou, esse tipo de homem n\u00e3o consegue parar muito tempo no mesmo lugar e por isso estava sempre sendo removido de uma cidade para outra como promotor. Ou delegado. Ent\u00e3o minha m\u00e3e fazia os tais c\u00e1lculos de futuro, dava aquele suspiro e ia tocar piano. E depois, arrumar as malas.<\/p>\n<p>\u2014 Escutei que a gente vai se mudar outra vez, vai mesmo? perguntou minha pajem Maricota. Est\u00e1vamos no quintal chupando os gomos de cana que ela ia descascando. N\u00e3o respondi e ela fez outra pergunta: Sua tia vive falando que agora \u00e9 tarde porque a In\u00eas \u00e9 morta, quem \u00e9 essa tal de In\u00eas?<\/p>\n<p>Sacudi a cabe\u00e7a, n\u00e3o sabia. Voc\u00ea \u00e9 burra, Maricota resmungou cuspinhando o baga\u00e7o. Fiquei olhando meu p\u00e9 amarrado com uma tira de pano, tinha sempre um p\u00e9 machucado (corte, espinho) onde ela pingava tintura de iodo (ai, ai!) e depois amarrava aquele pano. No outro p\u00e9, a sand\u00e1lia pesada de lama. Essa pajem era uma \u00f3rf\u00e3 que minha m\u00e3e recolhera, tive sempre uma pajem que me dava banho, me penteava (papelotes nas festas) e me contava hist\u00f3rias at\u00e9 que chegasse o tempo da escola. Maricota era preta e magra, a carapinha repartida em trancinhas com uma fita amarrada na ponta de cada trancinha. N\u00e3o sei da In\u00eas mas sei do seu namorado, tive vontade de responder. Ele tem fei\u00e7\u00e3o de cavalo e \u00e9 trapezista no circo do le\u00e3o desdentado. Estava sabendo tamb\u00e9m que quando ela ia encontrar o trapezista, soltava as trancinhas e escovava o cabelo at\u00e9 v\u00ea-lo abrir-se em leque como um sol negro. Fiquei quieta. Tinha prociss\u00e3o no s\u00e1bado e era bom lembrar que eu ia de anjo com asas de penas brancas (meu primeiro impulso de soberba) enquanto que as asas dos outros anjos eram de papel crepom.<\/p>\n<p>\u2014 Corta mais cana, pedi e ela levantou-se enfurecida: Pensa que sou sua escrava, pensa? A escravid\u00e3o j\u00e1 acabou!, ficou resmungando enquanto come\u00e7ou a procurar em redor, estava sempre procurando alguma coisa e eu sa\u00eda atr\u00e1s procurando tamb\u00e9m, a diferen\u00e7a \u00e9 que ela sabia o que estava procurando, uma manga madura? Jabuticaba? Eu j\u00e1 tinha perguntado ao meu pai o que era isso, escravid\u00e3o. Mas ele soprou a fuma\u00e7a para o c\u00e9u (dessa vez fumava um cigarro de palha) e come\u00e7ou a recitar uma poesia que falava num navio cheio de negros presos em correntes e que ficavam chamando por Deus. Deus, eu repeti quando ele parou de recitar. Fiz que sim com a cabe\u00e7a e fui saindo, Agora j\u00e1 sei.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00e1bado tem prociss\u00e3o, eu lembrei. Vai me fazer papelote?<\/p>\n<p>\u2014 Vamos ver, ela disse enquanto juntava os baga\u00e7os da cana no avental. Foi at\u00e9 a lata de lixo. E de repente riu sacudindo o avental: Depressa, at\u00e9 a casa da Juana Louca, quem chegar por \u00faltimo vira um sapo! Eram as pazes. Levantei-me e sa\u00ed correndo atr\u00e1s dela, sabia que ia perder mas ainda assim apostava.<\/p>\n<p>Quando n\u00e3o aparecia nada melhor a gente ia at\u00e9 o campo para colher flores que Maricota enfeixava num ramo e, com cara de santa, oferecia \u00e0 Madrinha, chamava minha m\u00e3e de Madrinha. \u00c0s vezes, ela desenhava com carv\u00e3o no muro as partes dos meninos e mostrava, \u00c9 isto que fica no meio das pernas, est\u00e1 vendo? \u00c9 isto! Mas logo passava um trapo no muro e fazia a amea\u00e7a, Se voc\u00ea contar voc\u00ea me paga!<\/p>\n<p>Depois do jantar era a hora das hist\u00f3rias fant\u00e1sticas. Na escada que dava para a horta, instalavam-se as crian\u00e7as com a cachorrada, eram tantos os cachorros que a gente n\u00e3o sabia que nome dar ao filhote da \u00faltima ninhada da Keite, acabou sendo chamado de Hominho, era um macho. Foi nessa \u00e9poca que apareceu a Fil\u00f3, uma gata meio doida que acabou amamentando os cachorrinhos porque a Keite estava com crise e rejeitou todos. Cachorro tamb\u00e9m tem crise, avisou tia Laura olhando pensativa para a Keite que dava mordidas no filhote que vinha procurar suas tetas.<\/p>\n<p>As hist\u00f3rias apavorantes das noites na escada. Eu fechava os olhos-ouvidos nos piores peda\u00e7os e o pior de todos era mesmo aquele, quando os ossos da alma penada iam caindo diante do viajante que se abrigou no casar\u00e3o abandonado. Noite de tempestade, vinha o vento uivante e apagava a vela e a alma penada amea\u00e7ando cair, Eu caio! Eu caio! \u2014 gemia a Maricota com a voz fanhosa das caveiras. Pode cair! ordenava o valente viajante olhando para o teto. Ent\u00e3o ca\u00eda um p\u00e9 ou uma perna descarnada, ossos cadentes pulando e se buscando no ch\u00e3o at\u00e9 formar o esqueleto. Em redor, a cachorrada latindo, Quer parar com isso? gritava a Maricota sacudindo e jogando longe o cachorro mais exaltado. Nessas horas sempre aparecia um dos grandes na janela (tia Laura, tio Garibaldi?) para impor o respeito.<\/p>\n<p>Quando Maricota fugiu com o trapezista eu chorei tanto que minha m\u00e3e ficou preocupada: Menina mais ingrata aquela! Acho cachorro muito melhor do que gente, ela disse ao meu pai enquanto ia arrancando os carrapichos do p\u00ealo do Volpi que j\u00e1 chegava gemendo, ele sofria com anteced\u00eancia a dor da retirada de carrapichos e bernes.<\/p>\n<p>A pajem seguinte tamb\u00e9m era \u00f3rf\u00e3 mas branca. Falava pouco e tamb\u00e9m n\u00e3o sabia ler mas ouvi minha m\u00e3e prometer (como prometeu \u00e0 outra), Eu vou te ensinar. Chamava-se Leoc\u00e1dia. Quando minha m\u00e3e tocava piano ela parava de fazer o que estava fazendo e vinha escutar: Madrinha, por favor, toca &#8220;O sonho de Lili&#8221;!<\/p>\n<p>Leoc\u00e1dia n\u00e3o sabia contar hist\u00f3rias mas sabia cantar, aprendi com ela a cantiga de roda que cantarolava enquanto lavava roupa:<\/p>\n<p>Nesta rua nesta rua tem um bosque<br \/>\nQue se chama que se chama Solid\u00e3o.<br \/>\nDentro dele dentro dele mora um Anjo<br \/>\nQue roubou que roubou meu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Menina afinada, tem voz de soprano, disse tia Laura batendo com o leque na mesa, estava sempre se abanando com o leque. Soprano, soprano! fiquei repetindo e correndo em redor de Leoc\u00e1dia que ria aquele riso de dentes fortes e perguntava o que era soprano e eu tamb\u00e9m n\u00e3o sabia mas gostava das palavras desconhecidas, Soprano, soprano!<\/p>\n<p>\u2014 Vem brincar, Leoc\u00e1dia! eu chamava e ela ria e dava um adeusinho, Depois eu vou! Fiquei sondando, e o namorado? Da Maricota eu descobri tudo mas dessa n\u00e3o descobri nada.<\/p>\n<p>Mor\u00e1vamos agora em Apia\u00ed, depois da mudan\u00e7a t\u00e3o comprida, com o piano no gemente carro-de-boi. Isso sem falar nos vasos de plantas e na cachorrada que veio no caminh\u00e3o com a Leoc\u00e1dia e mais a Cust\u00f3dia, uma cozinheira meio velha que mascava fumo e sabia fazer o peru de Natal. Meu pai, a tia e minha m\u00e3e comigo no colo, todos amontados no tal fordeco meio escangalhado que meu pai ganhou numa rifa. Com o carcereiro guiando, era o \u00fanico que sabia guiar.<\/p>\n<p>Apia\u00ed e a escola das freirinhas. Quando nessa tarde voltei da escola, encontrei todo mundo de olho arregalado e falando baixo. No quintal, os cachorros se engalfinhando. Por que a Leoc\u00e1dia n\u00e3o foi me buscar? E cad\u00ea minha m\u00e3e? Tia Laura baixou a cabe\u00e7a, cruzou o xale no peito, fechou o leque e foi saindo meio de lado, andava desse jeito quando aconteciam coisas. Fechou-se no quarto. Cust\u00f3dia soprou o braseiro do fog\u00e3o e avisou que ia estourar pipoca. A Leoc\u00e1dia fugiu?, perguntei. Ela come\u00e7ou a debulhar o milho, Isso n\u00e3o \u00e9 conversa de crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o entrou minha m\u00e3e. Fez um sinal para a Cust\u00f3dia, sinal que eu conhecia (depois a gente se fala), acariciou minha cabe\u00e7a e foi para o quarto de tia Laura. Disfarcei com o prato de pipoca na m\u00e3o, banzei um pouco e fui escutar detr\u00e1s da porta da tia. Contei que meu marido estava viajando (era a voz da minha m\u00e3e) e que a gente n\u00e3o sabe lidar com isso. Uma trag\u00e9dia, Laura, uma trag\u00e9dia! Ent\u00e3o o m\u00e9dico disse (minha m\u00e3e parou para se assoar) que ela pode ficar na enfermaria at\u00e9 o fim, vai morrer, Laura! Enfiou a agulha de tric\u00f4 l\u00e1 no fundo, meu Deus!&#8230; &#8211; A voz sumiu e logo voltou mais forte: Gr\u00e1vida de quatro meses e eu sem desconfiar de nada, era gordinha e agora engordou mais, foi o que pensei. Hoje ela me reconheceu e fez aquela carinha alegre, \u00d4! Madrinha. Era t\u00e3o inteligente, queria tanto aprender a ler, queria at\u00e9 aprender m\u00fasica. Tia Laura demorou para falar: Agora \u00e9 tarde!, gemeu. Mas n\u00e3o tocou na In\u00eas.<\/p>\n<p>Em dezembro tinha quermesse. Minha m\u00e3e e tia Laura foram na frente porque eram as barraqueiras, eu iria mais tarde com a Cust\u00f3dia que ficou preparando o peru. Quando passei pelo jasmineiro no quintal (anoitecia) vi o vulto esbranqui\u00e7ado por entre os galhos. Parei. A cara \u00famida de Leoc\u00e1dia abriu-se num sorriso.<\/p>\n<p>\u2014 A quermesse, Leoc\u00e1dia! Vamos?, eu convidei e ela recuou um pouco.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso ir, eu estou morta.<\/p>\n<p>Keite apareceu de repente e come\u00e7ou com aquele latido desesperado. Antes que viessem os outros, tomei-a no colo, Fica quieta, quieta! ordenei baixinho na sua orelha. E o latido virou um gemido de sofrimento. Quieta! Aquela \u00e9 a Leoc\u00e1dia, voc\u00ea n\u00e3o se lembra da Leoc\u00e1dia? Comecei a tremer. \u00c9 a Leoc\u00e1dia! repeti e apertei a Keite contra o peito e ela tamb\u00e9m tremia. Soltei-a: Pode ir mas n\u00e3o chame os outros, escutou isso?<\/p>\n<p>Keite saiu correndo e desapareceu no fundo do quintal. Quando olhei na dire\u00e7\u00e3o do jasmineiro n\u00e3o vi mais nada, s\u00f3 a folhagem com as florinhas brancas no feitio de estrelas.<\/p>\n<p>Entrei na cozinha. Que cara \u00e9 essa? estranhou a Cust\u00f3dia. Encolhi os ombros e ajudei a embrulhar o peru no papel-manteiga. Vamos depressa que a gente est\u00e1 atrasada, ela resmungou me pegando pelo bra\u00e7o. Parou um pouco para me examinar melhor.<\/p>\n<p>\u2014 Mas o que aconteceu, voc\u00ea est\u00e1 chorando? Enxuguei a cara na barra da saia.<\/p>\n<p>\u2014 Me deu uma pontada no dente.<\/p>\n<p>\u2014 Foi naquele que o dentista chumbou? Quer a Cera do Doutor Lustosa?<\/p>\n<p>\u2014 Deu s\u00f3 uma pontada, j\u00e1 parou de doer.<\/p>\n<p>\u2014 Pegue o meu len\u00e7o, ela disse abrindo a sacola. Ofereceu-me o len\u00e7o de algod\u00e3o branco, bem dobrado. Na cal\u00e7ada deserta ela ainda parou um pouco para prender a fivela no cabelo. O peru era meio velho mas acho que ficou bom.<\/p>\n<p>Enxuguei os olhos com raiva e cruzei os bra\u00e7os contra o peito, outra vez o tremor? Fomos andando lado a lado e em sil\u00eancio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lygia Fagundes Telles Ch\u00e3o da inf\u00e2ncia. 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