{"id":113349,"date":"2017-03-10T18:44:19","date_gmt":"2017-03-10T20:44:19","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=113349"},"modified":"2017-03-10T18:44:19","modified_gmt":"2017-03-10T20:44:19","slug":"o-moco-do-saxofone","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-moco-do-saxofone","title":{"rendered":"O Mo\u00e7o do Saxofone"},"content":{"rendered":"<h4>Lygia Fagundes Telles<\/h4>\n<p>Eu era chofer de caminh\u00e3o e ganhava uma nota alta com um cara que fazia contrabando. At\u00e9 hoje n\u00e3o entendo direito por que fui parar na pens\u00e3o da tal madame, uma polaca que quando mo\u00e7a fazia a vida e depois que ficou velha inventou de abrir aquele frege-mosca. Foi o que me contou o James, um tipo que engolia giletes e que foi o meu companheiro de mesa nos dias em que trancei por l\u00e1. Tinha os pensionistas e tinha os volantes, uma corja que entrava e sa\u00eda palitando os dentes, coisa que nunca suportei na minha frente. Teve at\u00e9 uma vez uma dona que mandei andar s\u00f3 porque no nosso primeiro encontro, depois de comer um sandu\u00edche, enfiou um palit\u00e3o entre os dentes e ficou de boca arreganhada de tal jeito que eu podia ver at\u00e9 o que o palito ia cavucando. Bom, mas eu dizia que no tal frege-mosca eu era volante. A comida, uma bela porcaria e como se n\u00e3o bastasse ter que engolir aquelas lavagens, tinha ainda os malditos an\u00f5es se enroscando nas pernas da gente. E tinha a m\u00fasica do saxofone.<\/p>\n<p>N\u00e3o que n\u00e3o gostasse de m\u00fasica, sempre gostei de ouvir tudo quanto \u00e9 charanga no meu r\u00e1dio de pilha de noite na estrada, enquanto vou dando conta do recado. Mas aquele saxofone era mesmo de entortar qualquer um. Tocava bem, n\u00e3o discuto. O que me punha doente era o jeito, um jeito assim triste como o diabo, acho que nunca mais vou ouvir ningu\u00e9m tocar saxofone como aquele cara tocava.<\/p>\n<p>O que \u00e9 isso? eu perguntei ao tipo das giletes. Era o meu primeiro dia de pens\u00e3o e ainda n\u00e3o sabia de nada. Apontei para o teto que parecia de papel\u00e3o, t\u00e3o forte chegava a m\u00fasica at\u00e9 nossa mesa. Quem \u00e9 que est\u00e1 tocando?<\/p>\n<p>\u00c9 o mo\u00e7o do saxofone.<\/p>\n<p>Mastiguei mais devagar. J\u00e1 tinha ouvido antes saxofone, mas aquele da pens\u00e3o eu n\u00e3o podia mesmo reconhecer nem aqui nem na China.<\/p>\n<p>E o quarto dele fica aqui em cima?<\/p>\n<p>James meteu uma batata inteira na boca. Sacudiu a cabe\u00e7a e abriu mais a boca que fumegava como um vulc\u00e3o com a batata quente l\u00e1 no fundo. Soprou um bocado de tempo a fuma\u00e7a antes de responder.<\/p>\n<p>Aqui em cima.<\/p>\n<p>Bom camarada esse James. Trabalhava numa feira de divers\u00f5es, mas como j\u00e1 estivesse ficando velho, queria ver se firmava num neg\u00f3cio de bilhetes. Esperei que ele desse cabo da batata, enquanto ia enchendo meu garfo.<\/p>\n<p>\u00c9 uma m\u00fasica desgra\u00e7ada de triste fui dizendo.<\/p>\n<p>A mulher engana ele at\u00e9 com o periquito respondeu James, passando o miolo de p\u00e3o no fundo do prato para aproveitar o molho. O pobre fica o dia inteiro trancado, ensaiando. N\u00e3o desce nem para comer. Enquanto isso, a cabra se deita com tudo quanto \u00e9 crist\u00e3o que aparece.<\/p>\n<p>Deitou com voc\u00ea?<\/p>\n<p>\u00c9 meio magricela para o meu gosto, mas \u00e9 bonita. E novinha. Ent\u00e3o entrei com meu jogo, compreende? Mas j\u00e1 vi que n\u00e3o dou sorte com mulher, torcem logo o nariz quando ficam sabendo que engulo gilete, acho que ficam com medo de se cortar&#8230;<\/p>\n<p>Tive vontade de rir tamb\u00e9m, mas justo nesse instante o saxofone come\u00e7ou a tocar de um jeito abafado, sem f\u00f4lego como uma boca querendo gritar, mas com uma m\u00e3o tapando, os sons espremidos saindo por entre os dedos. Ent\u00e3o me lembrei da mo\u00e7a que recolhi uma noite no meu caminh\u00e3o. Saiu para ter o filho na vila, mas n\u00e3o ag\u00fcentou e caiu ali mesmo na estrada, rolando feito bicho. Arrumei ela na carroceria e corri como um louco para chegar o quanto antes, apavorado com a id\u00e9ia do filho nascer no caminho e desandar a uivar que nem a m\u00e3e. No fim, para n\u00e3o me aporrinhar mais, ela abafava os gritos na lona, mas juro que seria melhor que abrisse a boca no mundo, aquela coisa de sufocar os gritos j\u00e1 estava me endoidando. Pomba, n\u00e3o desejo ao inimigo aquele quarto de hora.<\/p>\n<p>Parece gente pedindo socorro eu disse, enchendo meu copo de cerveja. Ser\u00e1 que ele n\u00e3o tem uma m\u00fasica mais alegre?<\/p>\n<p>James encolheu o ombro.<\/p>\n<p>Chifre d\u00f3i.<\/p>\n<p>Nesse primeiro dia fiquei sabendo ainda que o mo\u00e7o do saxofone tocava num bar, voltava s\u00f3 de madrugada. Dormia em quarto separado da mulher.<\/p>\n<p>&#8211; Mas por qu\u00ea? perguntei, bebendo mais depressa para acabar logo e me mandar dali. A verdade \u00e9 que n\u00e3o tinha nada com isso, nunca fui de me meter na vida de ningu\u00e9m, mas era melhor ouvir o tro-l\u00f3-l\u00f3 do James do que o saxofone.<\/p>\n<p>Uma mulher como ela tem que ter seu quarto explicou James, tirando um palito do paliteiro. E depois, vai ver que ela reclama do saxofone.<\/p>\n<p>E os outros n\u00e3o reclamam?<\/p>\n<p>A gente j\u00e1 se acostumou.<\/p>\n<p>Perguntei onde era o reservado e levantei-me antes que James come\u00e7asse a escarafunchar os dent\u00f5es que lhe restavam. Quando subi a escada de caracol, dei com um an\u00e3o que vinha descendo. Um an\u00e3o, pensei. Assim que sa\u00ed do reservado dei com ele no corredor, mas agora estava com uma roupa diferente. Mudou de roupa, pensei meio espantado, porque tinha sido r\u00e1pido demais. E j\u00e1 descia a escada quando ele passou de novo na minha frente, mas j\u00e1 com outra roupa. Fiquei meio tonto. Mas que raio de an\u00e3o \u00e9 esse que muda de roupa de dois em dois minutos? Entendi depois, n\u00e3o era um s\u00f3, mas uma trempe deles, milhares de an\u00f5es louros e de cabelo repartidinho do lado.<\/p>\n<p>Pode me dizer de onde vem tanto an\u00e3o? perguntei \u00e0 madame, e ela riu.<\/p>\n<p>Todos artistas, minha pens\u00e3o \u00e9 quase s\u00f3 de artistas&#8230;<\/p>\n<p>Fiquei vendo com que cuidado o copeiro come\u00e7ou a empilhar almofadas nas cadeiras para que eles se sentassem. Comida ruim, an\u00e3o e saxofone. An\u00e3o me enche e j\u00e1 tinha resolvido pagar e sumir quando ela apareceu. Veio por detr\u00e1s, palavra que havia espa\u00e7o para passar um batalh\u00e3o, mas ela deu um jeito de esbarrar em mim.<\/p>\n<p>Licen\u00e7a?<\/p>\n<p>N\u00e3o precisei perguntar para saber que aquela era a mulher do mo\u00e7o do saxofone. Nessa altura o saxofone j\u00e1 tinha parado. Fiquei olhando. Era magra, sim, mas tinha as ancas redondas e um andar muito bem bolado. O vestido vermelho n\u00e3o podia ser mais curto. Abancou-se sozinha numa mesa e de olhos baixos come\u00e7ou a descascar o p\u00e3o com a ponta da unha vermelha. De repente riu e apareceu uma covinha no queixo. Pomba, que tive vontade de ir l\u00e1, agarrar ela pelo queixo e saber por que estava rindo. Fiquei rindo junto.<\/p>\n<p>A que horas \u00e9 a janta? perguntei para a madame, enquanto pagava.<\/p>\n<p>Vai das sete \u00e0s nove. Meus pensionistas fixos costumam comer \u00e0s oito avisou ela, dobrando o dinheiro e olhando com um olhar acostumado para a dona de vermelho. O senhor gostou da comida?<\/p>\n<p>Voltei \u00e0s oito em ponto. O tal James j\u00e1 mastigava seu bife. Na sala havia ainda um velhote de barbicha, que era professor parece que de m\u00e1gica e o an\u00e3o de roupa xadrez. Mas ela n\u00e3o tinha chegado. Animei-me um pouco quando veio um prato de past\u00e9is, tenho loucura por past\u00e9is. James come\u00e7ou a falar ent\u00e3o de uma briga no parque de divers\u00f5es, mas eu estava de olho na porta. Vi quando ela entrou conversando baixinho com um cara de bigode ruivo. Subiram a escada como dois gatos pisando macio. N\u00e3o demorou nada e o raio do saxofone desandou a tocar.<\/p>\n<p>Sim senhor eu disse e James pensou que eu estivesse falando na tal briga.<\/p>\n<p>O pior \u00e9 que eu estava de porre, mal pude me defender!<\/p>\n<p>Mordi um pastel que tinha dentro mais fuma\u00e7a do que outra coisa. Examinei os outros past\u00e9is para descobrir se havia algum com mais recheio.<\/p>\n<p>Toca bem esse condenado. Quer dizer que ele n\u00e3o vem comer nunca?<\/p>\n<p>James demorou para entender do que eu estava falando. Fez uma careta. Decerto preferia o assunto do parque.<\/p>\n<p>Come no quarto, vai ver que tem vergonha da gente resmungou ele, tirando um palito. Fico com pena, mas \u00e0s vezes me d\u00e1 raiva, corno besta. Um outro j\u00e1 tinha acabado com a vida dela!<\/p>\n<p>Agora a m\u00fasica alcan\u00e7ava um agudo t\u00e3o agudo que me doeu o ouvido. De novo pensei na mo\u00e7a ganindo de dor na carroceria, pedindo ajuda n\u00e3o sei mais para quem.<\/p>\n<p>N\u00e3o topo isso, pomba.<\/p>\n<p>Isso o qu\u00ea?<\/p>\n<p>Cruzei o talher. A m\u00fasica no m\u00e1ximo, os dois no m\u00e1ximo trancados no quarto e eu ali vendo o calhorda do James palitar os dentes. Tive ganas de atirar no teto o prato de goiabada com queijo e me mandar para longe de toda aquela chatea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O caf\u00e9 \u00e9 fresco? perguntei ao mulatinho que j\u00e1 limpava o oleado da mesa com um pano encardido como a cara dele.<\/p>\n<p>Feito agora.<\/p>\n<p>Pela cara vi que era mentira.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso, tomo na esquina.<\/p>\n<p>A m\u00fasica parou. Paguei, guardei o troco e olhei reto para aporta, porque tive o pressentimento que ela ia aparecer. E apareceu mesmo com o aninho de gata de telhado, o cabelo solto nas costas e o vestidinho amarelo mais curto ainda do que o vermelho. O tipo de bigode passou em seguida, abotoando o palet\u00f3. Cumprimentou a madame, fez ar de quem tinha muito o que fazer e foi para a rua.<\/p>\n<p>Sim senhor!<\/p>\n<p>Sim senhor o qu\u00ea? perguntou James.<\/p>\n<p>Quando ela entra no quarto com um tipo, ele come\u00e7a a tocar, mas assim que ela aparece, ele p\u00e1ra. J\u00e1 reparou? Basta ela se enfurnar e ele j\u00e1 come\u00e7a.<\/p>\n<p>James pediu outra cerveja. Olhou para o teto.<\/p>\n<p>Mulher \u00e9 o diabo&#8230;<\/p>\n<p>Levantei-me e quando passei junto da mesa dela, atrasei o passo. Ent\u00e3o ela deixou cair o guardanapo. Quando me abaixei, agradeceu, de olhos baixos.<\/p>\n<p>Ora, n\u00e3o precisava se incomodar&#8230;<\/p>\n<p>Risquei o f\u00f3sforo para acender-lhe o cigarro. Senti forte seu perfume.<\/p>\n<p>Amanh\u00e3? perguntei, oferecendo-lhe os f\u00f3sforos. \u00c0s sete, est\u00e1 bem?<\/p>\n<p>\u00c9 a porta que fica do lado da escada, \u00e0 direita de quem sobe.<\/p>\n<p>Sa\u00ed em seguida, fingindo n\u00e3o ver a carinha safada de um dos an\u00f5es que estava ali por perto e zarpei no meu caminh\u00e3o antes que a madame viesse me perguntar se eu estava gostando da comida. No dia seguinte cheguei \u00e0s sete em ponto, chovia potes e eu tinha que viajar a noite inteira. O mulatinho j\u00e1 amontoava nas cadeiras as almofadas para os an\u00f5es. Subi a escada sem fazer barulho, me preparando para explicar que ia ao reservado, se por acaso aparecesse algu\u00e9m. Mas ningu\u00e9m apareceu. Na primeira porta, aquela \u00e0 direita da escada, bati de leve e fui entrando. N\u00e3o sei quanto tempo fiquei parado no meio do quarto: ali estava um mo\u00e7o segurando um saxofone. Estava sentado numa cadeira, em mangas de camisa, me olhando sem dizer uma palavra. N\u00e3o parecia nem espantado nem nada, s\u00f3 me olhava.<\/p>\n<p>Desculpe, me enganei de quarto eu disse, com uma voz que at\u00e9 hoje n\u00e3o sei onde fui buscar.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o apertou o saxofone contra o peito cavado.<\/p>\n<p>E na porta adiante disse ele baixinho, indicando com a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Procurei os cigarros s\u00f3 para fazer alguma coisa. Que situa\u00e7\u00e3o, pomba. Se pudesse, agarrava aquela dona pelo cabelo, a est\u00fapida. Ofereci-lhe cigarro.<\/p>\n<p>Est\u00e1 servido?<\/p>\n<p>Obrigado, n\u00e3o posso fumar.<\/p>\n<p>Fui recuando de costas. E de repente n\u00e3o ag\u00fcentei. Se ele tivesse feito qualquer gesto, dito qualquer coisa, eu ainda me segurava, mas aquela bruta calma me fez perder as tramontanas.<\/p>\n<p>E voc\u00ea aceita tudo isso assim quieto? N\u00e3o reage? Por que n\u00e3o lhe d\u00e1 uma boa sova, n\u00e3o lhe chuta com mala e tudo no meio da rua? Se fosse comigo, pomba, eu j\u00e1 tinha rachado ela pelo meio! Me desculpe estar me metendo, mas quer dizer que voc\u00ea n\u00e3o faz nada?<\/p>\n<p>Eu toco saxofone.<\/p>\n<p>Fiquei olhando primeiro para a cara dele, que parecia feita de gesso de t\u00e3o branca. Depois olhei para o saxofone. Ele corria os dedos compridos pelos bot\u00f5es, de baixo para cima, de cima para baixo, bem devagar, esperando que eu sa\u00edsse para come\u00e7ar a tocar. Limpou com um len\u00e7o o bocal do instrumento, antes de come\u00e7ar com os malditos uivos.<\/p>\n<p>Bati a porta. Ent\u00e3o a porta do lado se abriu bem de mansinho, cheguei a ver a m\u00e3o dela segurando a ma\u00e7aneta para que o vento n\u00e3o abrisse demais. Fiquei ainda um instante parado, sem saber mesmo o que fazer, juro que n\u00e3o tomei logo a decis\u00e3o, ela esperando e eu parado feito besta, ent\u00e3o, Cristo-Rei!? E ent\u00e3o? Foi quando come\u00e7ou bem devagarinho a m\u00fasica do saxofone. Fiquei broxa na hora, pomba. Desci a escada aos pulos. Na rua, tropecei num dos an\u00f5es metido num imperme\u00e1vel, desviei de outro, que j\u00e1 vinha vindo atr\u00e1s e me enfurnei no caminh\u00e3o. Escurid\u00e3o e chuva. Quando dei a partida, o saxofone j\u00e1 subia num agudo que n\u00e3o chegava nunca ao fim. Minha vontade de fugir era tamanha que o caminh\u00e3o saiu meio desembestado, num arranco.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lygia Fagundes Telles Eu era chofer de caminh\u00e3o e ganhava uma nota alta com um cara que fazia contrabando. At\u00e9 hoje n\u00e3o entendo direito por que fui parar na pens\u00e3o da tal madame, uma polaca que quando mo\u00e7a fazia a vida e depois que ficou velha inventou de abrir aquele frege-mosca. 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