{"id":113343,"date":"2017-03-10T18:19:22","date_gmt":"2017-03-10T20:19:22","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=113343"},"modified":"2017-03-10T18:19:22","modified_gmt":"2017-03-10T20:19:22","slug":"herbarium","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/herbarium","title":{"rendered":"Herbarium"},"content":{"rendered":"<h4>Lygia Fagundes Telles<\/h4>\n<p>Todas as manh\u00e3s eu pegava o cesto e me embrenhava no bosque, tremendo inteira de paix\u00e3o quando descobria alguma folha rara. Era medrosa mas arriscava p\u00e9s e m\u00e3os por entre espinhos, formigueiros e buracos de bichos (tatu? cobra?) procurando a folha mais dif\u00edcil, aquela que ele examinaria demoradamente: a escolhida ia para o \u00e1lbum de capa preta. Mais tarde, faria parte do herb\u00e1rio, tinha em casa um herb\u00e1rio com quase duas mil esp\u00e9cies de plantas. &#8220;Voc\u00ea j\u00e1 viu um herb\u00e1rio&#8221; &#8211; ele quis saber.<\/p>\n<p>Herbarium, ensinou-me logo no primeiro dia em que chegou ao s\u00edtio. Fiquei repetindo a palavra, herbarium. Herbarium. Disse ainda que gostar de bot\u00e2nica era gostar de latim, quase todo o reino vegetal tinha denomina\u00e7\u00e3o latina. Eu detestava latim mas fui correndo desencavar a gram\u00e1tica cor de tijolo escondida na \u00faltima prateleira da estante, decorei a frase que achei mais f\u00e1cil e na primeira oportunidade apontei para a formiga sa\u00fava subindo na parede: formica bestiola est. Ele ficou me olhando. A formiga \u00e9 um inseto, apressei-me em traduzir. Ent\u00e3o ele riu a risada mais gostosa de toda a temporada. Fiquei rindo tamb\u00e9m, confundida mas contente: ao menos achava alguma gra\u00e7a em mim.<\/p>\n<p>Um vago primo bot\u00e2nico convalescendo de uma vaga doen\u00e7a. Que doen\u00e7a era essa que o fazia cambalear, esverdeado e \u00famido quando subia rapidamente a escada ou quando andava mais tempo pela casa?<\/p>\n<p>Deixei de roer as unhas, para espanto da minha m\u00e3e que j\u00e1 tinha feito amea\u00e7as de cortes de mesada ou proibi\u00e7\u00e3o de festinhas no gr\u00eamio da cidade. Sem resultado. &#8220;Seu eu contar, ningu\u00e9m acredita&#8221; &#8211; disse ela quando viu que eu esfregava para valer a pimenta vermelha nas pontas dos dedos. Fiz minha cara inocente: na v\u00e9spera, ele me advertira que eu podia ser uma mo\u00e7a de m\u00e3os feias, &#8220;ainda n\u00e3o pensou nisso?&#8221; Nunca tinha pensado antes, nunca me importei com as m\u00e3os mas no instante em que ele fez a pergunta comecei a me importar. E se um dia elas fossem rejeitadas como as folhas defeituosas? Ou banais. Deixei de roer unhas e deixei de mentir. Ou mentir menos, mais de uma vez me falou no horror que tinha por tudo quanto cheirava falsidade, escamotea\u00e7\u00e3o. Est\u00e1vamos sentados na varanda. Ele selecionava as folhas ainda pesadas de orvalho quando me perguntou se j\u00e1 tinha ouvido falar em folha persistente. N\u00e3o? Alisava o tenro veludo de uma malva-ma\u00e7\u00e3. A fisionomia ficou branda quando amassou a folha nos dedos e sentiu seu perfume. As folhas persistentes duravam at\u00e9 mesmo tr\u00eas anos mas as cadentes amareleciam e se despregavam ao sopro do primeiro vento. Assim a mentira, folha cadente que podia parecer t\u00e3o brilhante mas de vida breve. Quando o mentiroso olhasse para tr\u00e1s, veria no final de tudo uma \u00e1rvore nua. Seca. Mas os verdadeiros, esses teriam uma \u00e1rvore farfalhante, cheia de passarinhos &#8211; e abriu as m\u00e3os para imitar o bater das folhas e asas. Fechei as minhas. Fechei a boca em brasa agora que os tocos das unhas (j\u00e1 crescidas) eram tenta\u00e7\u00e3o e puni\u00e7\u00e3o maior. Podia dizer-lhe que justamente por me achar assim apagada \u00e9 que precisava de me cobrir de mentira como se cobre com um manto fulgurante. Dizer-lhe que diante dele, mais do que diante dos outros, tinha de inventar e fantasiar para obrig\u00e1-lo a se demorar em mim como se demorava agora na verbena &#8211; ser\u00e1 que n\u00e3o percebia essa coisa t\u00e3o simples?<\/p>\n<p>Chegou ao s\u00edtio com suas largas cal\u00e7as de flanela cinza e grosso su\u00e9ter de l\u00e3 tecida em tran\u00e7a, era inverno. E era noite. Minha m\u00e3e tinha queimado incenso (era sexta-feira) e preparou o Quarto do Corcunda, corria na fam\u00edlia a hist\u00f3ria de um corcunda que se perdeu no bosque e minha bisav\u00f3 instalou-o naquele quarto que era o mais quente da casa, n\u00e3o podia haver melhor lugar para um corcunda perdido ou para um primo convalescente.<\/p>\n<p>Convalescente do qu\u00ea? Qual doen\u00e7a tinha ele? Tia Marita, que era alegrinha e gostava de se pintar, respondeu rindo (falava rindo) que nossos chazinhos e bons ares faziam milagres. Tia Clotilde, embutida, reticente, deu aquela sua resposta que servia a qualquer tipo de pergunta: tudo na vida podia se alterar menos o destino tra\u00e7ado na m\u00e3o, ela sabia ler as m\u00e3os. &#8220;Vai dormir feito uma pedra&#8221; &#8211; cochichou tia Marita quando me pediu que lhe levasse o ch\u00e1 de t\u00edlia. Encontrei-o recostado na poltrona, a manta de xadrez cobrindo-lhe as pernas. Aspirou o ch\u00e1. E me olhou: &#8220;Quer ser minha assistente? perguntou soprando a fuma\u00e7a. &#8211; A ins\u00f4nia me pegou pelo p\u00e9, ando t\u00e3o fora de forma, preciso que me ajude. A tarefa \u00e9 colher folhas para minha cole\u00e7\u00e3o, vai juntando o que bem entender que depois seleciono. Por enquanto, n\u00e3o posso mexer muito, ter\u00e1 que ir sozinha&#8221; &#8211; disse e desviou o olhar \u00famido para a folha que boiava na x\u00edcara. Suas m\u00e3os tremiam tanto que a x\u00edcara transbordou no pires. \u00c9 o frio, pensei. Mas continuaram tremendo no dia seguinte que fez sol, amareladas como os esqueletos de ervas que eu catava no bosque e queimava na chama da vela. Mas o que ele tem? perguntei e minha m\u00e3e respondeu que mesmo que soubesse, n\u00e3o diria, fazia parte de um tempo em que doen\u00e7a era assunto \u00edntimo.<\/p>\n<p>Eu mentia sempre, com ou sem motivo. Mentia principalmente \u00e0 tia Marita que era bastante tonta. Menos \u00e0 minha m\u00e3e porque tinha medo de Deus e menos ainda \u00e0 tia Clotilde que era meio feiticeira e sabia ver o avesso das pessoas. Aparecendo a ocasi\u00e3o, eu enveredava por caminhos os mais imprevistos, sem o menor c\u00e1lculo de volta. Tudo ao acaso. Mas aos poucos, diante dele, minha mentira come\u00e7ou a ser dirigida, com um objetivo certo. Seria mais simples, por exemplo, dizer que colhi a b\u00e9tula perto do c\u00f3rrego, onde estava o espinheiro. Mas era preciso fazer render o instante em que se detinha em mim, ocup\u00e1-lo antes de ser posta de lado como as folha sem interesse, amontoadas no cesto. Ent\u00e3o ramificava perigos; exagerava dificuldades, inventava hist\u00f3rias que encompridavam a mentira. At\u00e9 ser decepada com um r\u00e1pido golpe de olhar, n\u00e3o com palavras, mas com o olhar ele fazia a hidra verde rolar emudecida enquanto minha cara se tingia de vermelho o sangue da hidra.<\/p>\n<p>&#8220;Agora voc\u00ea vai me contar direito como foi: &#8211; ele pedia tranq\u00fcilamente, tocando na minha cabe\u00e7a. Seu olhar transparente. Reto. Queria a verdade. E a verdade era t\u00e3o sem atrativos como a folha da roseira, expliquei-lhe isso mesmo, acho a verdade t\u00e3o banal como esta folha. Ele me deu a lupa e abriu a folha na palma da m\u00e3o: &#8220;Veja ent\u00e3o de perto.&#8221; N\u00e3o olhei a folha, que me importava a folha? mas sua pele ligeiramente \u00famida, branca como papel com seu misterioso emaranhado de linhas, estourando aqui e ali em estrelas. Fui percorrendo as cristas e depress\u00f5es, onde era o come\u00e7o? Ou o fim? Demorei a lupa num terreno de linhas t\u00e3o disciplinadas que por elas devia passar o arado, ih! vontade de deitar minha cabe\u00e7a nesse ch\u00e3o. Afastei a folha, queria ver apenas os caminhos. O que significa este cruzamento, perguntei e ele me puxou o cabelo: &#8220;Tamb\u00e9m voc\u00ea, menina?!&#8221;<\/p>\n<p>Nas cartas do baralho, tia Clotilde j\u00e1 lhe desvendara o passado e o presente. &#8220;E mais desvendaria&#8221; &#8211; acrescentou ele guardando a lupa no bolso do avental banco, \u00e0s vezes vestia o avental. O que ela previu? Ora, tanta coisa. De mais importante, s\u00f3 isso, que no fim da semana viria uma amiga busc\u00e1-lo, uma mo\u00e7a muito bonita, podia ver at\u00e9 a cor do seu vestido de corte antiquado, verde-musgo. Os cabelos eram compridos, com reflexos de cobre, t\u00e3o forte o reflexo na palma da m\u00e3o!<\/p>\n<p>Uma formiga vermelha entrou na greta do lajedo e l\u00e1 se foi com seu peda\u00e7o de folha, veleiro desarvorado soprado pelo vento. Soprei eu tamb\u00e9m, a formiga \u00e9 um inseto! gritei, as pernas flexionadas, pendentes os bra\u00e7os para diante e para tr\u00e1s no movimento do macaco, hi hi ! hu hu! \u00e9 um inseto! um inseto! repeti rolando no ch\u00e3o. Ele ria e procurava me levantar, voc\u00ea se machuca, menina, cuidado! Fugi para o campo, os olhos desvairados de pimenta e sal, sal na boca, n\u00e3o, n\u00e3o vinha ningu\u00e9m, tudo loucura, uma louca varrida essa tia, inven\u00e7\u00e3o dela, inven\u00e7\u00e3o pura, como podia? At\u00e9 a cor do vestido, verde-musgo? E os cabelos, uma louca, t\u00e3o louca como a irm\u00e3 de cara pintada feito uma palha\u00e7a, rindo e tecendo seus tapetinhos, centenas de tapetinhos pela casa, na cozinha, na privada, duas loucas! Lavei os olhos cegos de dor, lavei a boca pesada de l\u00e1grimas, os \u00faltimos fiapos de unha me queimando a l\u00edngua, n\u00e3o! N\u00e3o. N\u00e3o existia ningu\u00e9m de cabelo de cobre que no fim da semana ia aparecer para busc\u00e1-lo, ele n\u00e3o ia embora nunca mais, NUNCA MAIS! repeti e minha m\u00e3e que viera me chamar para o almo\u00e7o acabou se divertindo com a cara de dem\u00f4nio que fiz, disfar\u00e7ava o medo fazendo caras de medo. E as pessoas se distra\u00edam com essas caras e n\u00e3o pensavam mais em mim.<\/p>\n<p>Quando lhe entreguei a folha de hera com formato de cora\u00e7\u00e3o (um cora\u00e7\u00e3o de nervuras trementes se abrindo em leque at\u00e9 as bordas verde-azuladas) ele beijou a folha e levou-a ao peito. Espetou-a na malha do su\u00e9ter: &#8220;Esta vai ser guardada aqui.&#8221; Mas n\u00e3o me olhou nem mesmo quando eu sa\u00ed trope\u00e7ando no cesto. Corri at\u00e9 a figueira, posto de observa\u00e7\u00e3o onde podia ver sem ser vista. Atrav\u00e9s do rendilhada de ferro do corrim\u00e3o da escada, ele me pareceu menos p\u00e1lido. A pele mais seca e mais firme a m\u00e3o que segurava a lupa sobre a l\u00e2mina do espinho-do-brejo. Estava se recuperando, n\u00e3o estava? Abracei o tronco da figueira e pela primeira vez senti que abra\u00e7ava Deus.<\/p>\n<p>No s\u00e1bado, levantei mais cedo. O sol forcejava a n\u00e9voa, o dia seria azul quando ele conseguisse romp\u00ea-la. &#8220;Aonde voc\u00ea vai com esse vestido de maria-mijona? &#8211; perguntou minha m\u00e3e me dando a x\u00edcara de caf\u00e9 com leite. Por que desmanchou a barra?&#8221; Desviei sua aten\u00e7\u00e3o para a cobra que disse ter visto no terreiro, toda preta com listras vermelhas, seria um coral? Quando ela correu com a tia para ver, peguei o cesto e entrei no bosque, como explicar-lhe? Que descera todas as barras das saias para esconder minhas pernas finas, cheias de marcas de picadas de mosquitos. Numa alegria desatinada fui colhendo as folhas, mordi goiabas verdes, atirei pedras nas \u00e1rvores, espantando os passarinhos que cochichavam seus sonhos, me machucando de contente por entre a galharia. Corria at\u00e9 o c\u00f3rrego. Alcancei uma borboleta e, prendendo-a pelas pontas das asas, deixei-a na corola de uma flor, te solto no meio do mel! gritei-lhe. O que vou receber em troca? Quando perdi o f\u00f4lego, tombei de costas nas ervas do ch\u00e3o. Fiquei rindo para o c\u00e9u de n\u00e9voa atr\u00e1s da malha apertada dos ramos. Virei de bru\u00e7os e esmigalhei nos dedos os cogumelos t\u00e3o macios que minha boca come\u00e7ou a se encher d\u2019\u00e1gua. Fui avan\u00e7ando de rastros at\u00e9 o pequeno vale de sombra debaixo da pedra. Ali era mais frio e maiores os cogumelos pingando um l\u00edquido viscoso dos seus chap\u00e9us inchados. Salvei uma abelinha das mand\u00edbulas de uma aranha, permiti que sa\u00fava-gigante arrebatasse a aranha e a levasse na cabe\u00e7a como uma trouxa de roupa esperneando mas recuei quando apareceu o besouro de l\u00e1bio leporino. Por um instante me vi refletida em seus olhos facetados. Fez meia-volta e se escondeu no fundo da fresta. Levantei a pedra: o besouro tinha desaparecido mas no tufo raso vi uma folha que nunca encontrara antes, \u00fanica. Solit\u00e1ria. Mas que folha era aquela? Tinha a forma aguda de uma foice, o verde do dorso com pintas vermelhas irregulares como pingos de sangue. Uma pequena foice ensang\u00fcentada foi no que se transformou o besouro? Escondi a folha no bolso, pe\u00e7a principal de um jogo confuso. Essa eu n\u00e3o juntaria \u00e0s outras folhas, essa tinha que ficar comigo, segredo que n\u00e3o podia ser visto. Nem tocado. Tia Clotilde previa os destinos mas eu podia modific\u00e1-los, assim, assim! e desfiz na sola do sapato o cupim que se armava debaixo da amendoeira. Fui andando solene porque no bolso onde levara o amor levava agora a morte.<\/p>\n<p>Tia Marita veio ao meu encontro, mais aflita e gaguejante do que de costume. Antes de falar come\u00e7ou a rir: &#8220;Acho que vamos perder nosso bot\u00e2nico, sabe quem chegou? A amiga, a mesma mo\u00e7a que Clotilde viu na m\u00e3o dele, lembra? Os dois v\u00e3o embora no trem da tarde, ela e linda como os amores, bem que Clotilde viu uma mo\u00e7a igualzinha, estou toda arrepiada, olha a\u00ed, me perguntou como a mana adivinha uma coisa dessas!&#8221;<\/p>\n<p>Deixei na escada os sapatos pesados de barro. Larguei o cesto. Tia Marita me enla\u00e7ou pela cintura enquanto se esfor\u00e7ava para lembrar o nome da rec\u00e9m-chegada, um nome de flor, como era mesmo? Fez uma pausa para estranhar minha cara branca, e esse branco de repente? Respondi que voltara correndo, a boca estava seca e o cora\u00e7\u00e3o fazia um tuntum t\u00e3o alto, ela n\u00e3o estava ouvindo? Encostou o ouvido no meu peito e riu sacudindo inteira, quando tinha minha idade pensa que tamb\u00e9m n\u00e3o vivia assim aos pulos?<\/p>\n<p>Fui me aproximando da janela. Atrav\u00e9s do vidro (poderoso como a lupa) vi os dois. Ela sentada com o \u00e1lbum provis\u00f3rio de folhas no colo. Ele, de p\u00e9 e um pouco atr\u00e1s da cadeira, acariciando-lhe o pesco\u00e7o e seu olhar era o mesmo que tinha para as folhas escolhidas, a mesma leveza de dedos indo e vindo no veludo da malva-ma\u00e7\u00e3. O vestido n\u00e3o era verde mas os cabelos soltos tinham o reflexo de cobre que transparecera na m\u00e3o. Quando me viu, veio at\u00e9 a varanda no seu andar calmo. Mas vacilou quando disse que esse era nosso \u00faltimo cesto, por acaso n\u00e3o tinham me avisado? O chamado era urgente, teriam que voltar nessa tarde. Sentia perder t\u00e3o devotada ajudadora mas um dia, quem sabe?&#8230; Precisaria perguntar \u00e0 tia Clotilde em que linha do destino aconteciam os reencontros.<\/p>\n<p>Estendi-lhe o cesto mas ao inv\u00e9s de segurar o cesto, segurou meu pulso: eu estava escondendo alguma coisa, n\u00e3o estava? O que estava escondendo, o qu\u00ea? Tentei me livrar fugindo para os lados, aos arrancos, n\u00e3o estou escondendo nada, me larga! Ele me soltou mas continuou ali, de p\u00e9, sem tirar os olhos de mim. Encolhi quando me tocou no bra\u00e7o: &#8220;E o nosso trato de s\u00f3 dizer a verdade? Hem? Esqueceu nosso trato?&#8221; &#8211; perguntou baixinho.<\/p>\n<p>Enfiei a m\u00e3o no bolso e apertei a folha, intacta a umidade pegajosa da ponta aguda, onde se concentravam as n\u00f3doas. Ele esperava. Eu quis ent\u00e3o arrancar a toalha de croch\u00ea da mesinha, cobrir com ela a cabe\u00e7a e fazer micagens, hi hi! hu hu! at\u00e9 v\u00ea-lo rir pelos buracos da malha, quis pular da escada e sair correndo em ziguezague at\u00e9 o c\u00f3rrego, me vi atirando a foice na \u00e1gua, que sumisse na correnteza! Fui levantando a cabe\u00e7a. Ele continuava esperando, e ent\u00e3o? No fundo da sala, a mo\u00e7a tamb\u00e9m esperava numa n\u00e9voa de ouro, tinha rompido o sol. Encarei-o pela \u00faltima vez, sem remorso, quer mesmo? Entreguei-lhe a folha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lygia Fagundes Telles Todas as manh\u00e3s eu pegava o cesto e me embrenhava no bosque, tremendo inteira de paix\u00e3o quando descobria alguma folha rara. 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