{"id":113341,"date":"2017-03-10T18:09:37","date_gmt":"2017-03-10T20:09:37","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=113341"},"modified":"2017-03-10T18:09:37","modified_gmt":"2017-03-10T20:09:37","slug":"a-mao-no-ombro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-mao-no-ombro","title":{"rendered":"A M\u00e3o no Ombro"},"content":{"rendered":"<h4>Lygia Fagundes Telles<\/h4>\n<p>O homem estranhou aquele c\u00e9u verde-cinza com a lua de cera coroada por um fino galho de \u00e1rvore, as folhas se desenhando nas min\u00facias sobre o fundo opaco. Era uma lua ou um sol apagado? Dif\u00edcil saber se estava anoitecendo ou se j\u00e1 era manh\u00e3 no jardim que tinha a luminosidade fosca de uma antiga moeda de cobre. Estranhou o perfume \u00famido de ervas. E o sil\u00eancio cristalizado como num quadro, com um homem (ele pr\u00f3prio) fazendo parte do cen\u00e1rio. Foi andando pela alameda atapetada de folhas cor de brasa mas n\u00e3o era outono. Nem primavera porque faltava \u00e0s flores o h\u00e1lito doce avisando as borboletas, n\u00e3o viu borboletas. Nem p\u00e1ssaros. Abriu a m\u00e3o no tronco da figueira viva mas fria: um tronco sem formigas e sem resina, n\u00e3o sabia por que motivo esperava encontrar a resina vidrada nas gretas, n\u00e3o era ver\u00e3o. Nem inverno, embora a frialdade limosa das pedras o fizesse pensar no sobretudo que deixou no cabide do escrit\u00f3rio. Um jardim fora do tempo mas dentro do meu tempo, pensou.<\/p>\n<p>O h\u00famus que subia do ch\u00e3o impregnava do mesmo torpor da paisagem. Sentiu-se oco, a sensa\u00e7\u00e3o de leveza se misturando ao sentimento inquietante de um ser sem ra\u00edzes: se abrisse as veias n\u00e3o sairia nenhuma gota de sangue, n\u00e3o sairia nada. Apanhou um folha. Mas que jardim era esse? Nunca estivera ali nem sabia como o encontrara. Mas sabia &#8211; e com que for\u00e7a &#8211; que a rotina fora quebrada porque alguma coisa ia acontecer, o qu\u00ea?! Sentiu o cora\u00e7\u00e3o disparar. Habituara-se tanto ao cotidiano sem imprevistos, sem mist\u00e9rio. E agora, a loucura desse jardim atravessado em seu caminho. E com est\u00e1tuas, aquilo n\u00e3o era uma est\u00e1tua?<\/p>\n<p>Aproximou-se da mocinha de m\u00e1rmore arrega\u00e7ando graciosamente o vestido para n\u00e3o molhar nem a saia nem os p\u00e9s descal\u00e7os. Uma mocinha medrosamente f\u00fatil no centro do tanque seco, pisando com cuidado, escolhendo as pedras amontoadas em redor. Mas os p\u00e9s delicados tinham os v\u00e3os dos dedos corro\u00eddos por uma \u00e9poca em que a \u00e1gua chegava at\u00e9 eles. Uma estria negra lhe descia do alto da cabe\u00e7a, deslizava pela face e se perdia ondulante no rego dos seios meio descobertos pelo corpete desatado. Notou que a estria marcara mais profundamente a face, devorando-lhe a asa esquerda do nariz, mas por que a chuva se concentrara s\u00f3 naquele percurso numa obstina\u00e7\u00e3o de goteira? Ficou olhando a cabe\u00e7a encaracolada, os an\u00e9is se despencando na nuca que pedia car\u00edcia. Me d\u00e1 sua m\u00e3o que eu ajudo, ele disse e recuou: um inseto penugento, num enrodilhamento de aranhas, foi saindo de dentro da pequenina orelha.<\/p>\n<p>Deixou cair a folha seca, enfurnou as m\u00e3os nos bolsos e seguiu pisando com a mesma prud\u00eancia da est\u00e1tua. Contornou o tufo de beg\u00f4nias, e vacilou entre os dois ciprestes (mas o que significava essa est\u00e1tua?) e enveredou por uma alameda que lhe pareceu menos sombria. Um jardim inocente. E inquietante como o jogo de quebra-cabe\u00e7a que o pai gostava de jogar com ele: no caprichoso desenho de um bosque estava o ca\u00e7ador escondido, tinha que ach\u00e1-lo depressa para n\u00e3o perder a partida, vamos, filho, procura nas nuvens, na \u00e1rvore, n\u00e3o est\u00e1 ele enfolhado naquele ramo? No ch\u00e3o, veja no ch\u00e3o, n\u00e3o forma um bon\u00e9 a curva ali do regato?<\/p>\n<p>Est\u00e1 na escada, ele respondeu. Esse ca\u00e7ador singularmente familiar que viria por detr\u00e1s, na dire\u00e7\u00e3o do banco de pedra onde ia se sentar, logo ali adiante tinha um banco. Para n\u00e3o me surpreender desprevenido (detestava surpresas) discretamente ele dar\u00e1 algum sinal antes de pousar a m\u00e3o no meu ombro. Ent\u00e3o eu me viro para ver. Estacou. A revela\u00e7\u00e3o o fez cambalear, esva\u00eddo numa vertigem: agora joelhos no ch\u00e3o. Seria como uma folha tombando em seu ombro mas se olhasse para tr\u00e1s, se atendesse o chamado. Foi endireitando o corpo. Passou as m\u00e3os nos cabelos. Sentia-se observado pelo jardim, julgado at\u00e9 pela roseira de rosas mi\u00fadas sorrindo reticente logo adiante. Envergonhou-se. Meu Deus, murmurou num tom de quem pede desculpas por ter entrado em p\u00e2nico assim com essa facilidade, meu Deus, que papel miser\u00e1vel, e se for um amigo? Simplesmente um amigo? Come\u00e7ou a assobiar e as primeiras notas da melodia o transportaram ao menino antigo com sua roupa de Senhor dos Passos na prociss\u00e3o da Sexta-feira Santa. O Cristo cresceu no esquife de vidro, oscilando suspenso sobre as cabe\u00e7as, me levanta, m\u00e3e, quero ver! Mas continuava alto demais tanto na prociss\u00e3o como depois, l\u00e1 na igreja, deposto no estrado de panos roxos, fora do esquife para o beija-m\u00e3o. O remorso velando as caras. O medo atrofiando a marcha dos p\u00e9s t\u00edmidos atr\u00e1s do Filho de Deus, o que nos espera se at\u00e9 Ele?!&#8230; A vontade de que o pesadelo passasse logo e amanhecesse s\u00e1bado, ressuscitar no s\u00e1bado! Mas a hora ainda era a da banda de batas pretas. Das tochas. Dos tur\u00edbulos atirados para os lados, vupt! vupt! at\u00e9 o extremo das correntes. Falta muito, m\u00e3e? A vontade de evas\u00e3o de tudo quanto era grave e profundo certamente vinha dessa noite: os planos de fuga na primeira esquina, desvencilhar-se da coroa de falsos espinhos, da capa vermelha, fugir do Morto t\u00e3o divino, mas morto~A prociss\u00e3o seguiu por ruas determinadas, era f\u00e1cil se desviar dela, descobriu mais tarde. O que continuava dif\u00edcil era fugir de si mesmo. No fundo secreto, fonte de ansiedade, era sempre noite &#8211; os espinhos verdadeiros lhe espetando a carne, \u00f4! por que n\u00e3o amanhece? Quero amanhecer!<\/p>\n<p>Sentou-se no banco verde de musgo, tudo em redor mais quieto e mais \u00famido agora que chegara ao \u00e2mago do jardim. Correu as pontas dos dedos no musgo e achou-o sens\u00edvel como se lhe brotasse da pr\u00f3pria boca. Examinou as unhas. E abaixou-se para tirar a teia de aranha que se colara despeda\u00e7ada \u00e0 bainha da cal\u00e7a: o trapezista de malha branca (foi na estr\u00e9ia do circo?) despencou do trap\u00e9zio l\u00e1 em cima, varou a rede e se estatelou no picadeiro. A tia tapou-lhe depressa os olhos, n\u00e3o olha, querido! mas por entre os dedos enluvados viu o corpo se debater sob a rede que foi arrastada na queda. As contros\u00f5es se espa\u00e7aram at\u00e9 a imobilidade, s\u00f3 a perna de inseto vibrando ainda. Quando a tia o carregou para fora do circo, o p\u00e9 em ponta escapava pela rede estra\u00e7alhada num \u00faltimo estremecimento. Olhou para o pr\u00f3prio p\u00e9 adormecido, tentou mov\u00ea-lo. Mas a dorm\u00eancia j\u00e1 subia at\u00e9 o joelho. Solid\u00e1rio, o bra\u00e7o esquerdo adormeceu em seguida, um pobre bra\u00e7o de chumbo, pensou enternecido com a lembran\u00e7a de quando aprendera que alquimia era transformar metais vis em ouro, o chumbo era vil? Com a m\u00e3o direita, recolheu o bra\u00e7o que pendia, avulso. Bondosamente colocou-o sobre os joelhos: j\u00e1 n\u00e3o podia fugir. E fugir para onde se tudo naquele jardim parecia dar na escada? Por ela viria o ca\u00e7ador de bon\u00e9, eterno habitante de um jardim eterno, s\u00f3 ele mortal. A exce\u00e7\u00e3o. E se cheguei at\u00e9 aqui \u00e9 porque vou morrer. J\u00e1? horrorizou-se olhando para os lados mas evitando olhar para tr\u00e1s. A vertigem o fez fechar de novo os olhos. Equilibrou-se tentando se agarrar ao banco, n\u00e3o quero! gritou. Agora n\u00e3o, meu Deus, espera um pouco, ainda n\u00e3o estou preparado! Calou-se, ouvindo os passos que desciam tranq\u00fcilamente a escada. Mais t\u00eanue do que a brisa um sopro pareceu reavivar a alameda. Agora est\u00e1 nas minhas costas, ele pensou e sentiu o bra\u00e7o se estender na dire\u00e7\u00e3o do seu ombro. Ouviu a m\u00e3o ir baixando numa crispa\u00e7\u00e3o de quem (familiar e contudo cerimonioso) d\u00e1 um sinal, sou eu. O toque manso. Preciso acordar, ordenou se contraindo inteiro, isto \u00e9 apenas um sonho! Preciso acordar! acordar. Acordar, ficou repetindo. Abriu os olhos.<\/p>\n<p>Demorou um pouco para reconhecer o travesseiro que apertava contra o peito. Limpou a baba morna que lhe escorria pelo queixo e puxou o cobertor at\u00e9 os ombros. Que sonho! Murmurou abrindo e fechando a m\u00e3o esquerda, formigante, pesada. Estendeu a perna e quis contar-lhe o sonho do jardim com a morte vindo por detr\u00e1s: sonhei que ia morrer. Mas ela podia gracejar, a novidade n\u00e3o seria sonhar o contr\u00e1rio? Viou-se para a parede. N\u00e3o queria nenhum tipo de resposta do g\u00eanero bem humorado, como era irritante quando ela exibia seu humor. Gostava de se divertir \u00e0 custa dos outros mas se encrespava quando se divertiam \u00e0 sua custa. Massageou o bra\u00e7o dolorido e deu uma vaga resposta quando ela lhe perguntou que gravata queria usar, estava um dia lindo. Era dia ou noite no jardim? Tantas vezes pensara na morte dos outros, entrara mesmo na intimidade de algumas dessas mortes e jamais imaginou que pudesse lhe acontecer o mesmo, jamais. Um dia, quem sabe? Um dia l\u00e1 longe, mas t\u00e3o longe que a vista n\u00e3o alcan\u00e7ava essa lonjura, ele pr\u00f3prio se perdendo na poeira de uma velhice remota, dilu\u00eddo no esquecimento. No nada. E agora, nem cinq\u00fcenta anos. Examinou o bra\u00e7o. Os dedos. Levantou-se molemente, vestiu o chambre, n\u00e3o era estranho? Isso de n\u00e3o ter pensado em fugir do jardim. Voltou-se para a janela e estendeu a m\u00e3o para o Sol. Pensei, \u00e9 claro, mas a perna desatarraxada e o bra\u00e7o advertindo que n\u00e3o podia escapar porque todos os caminhos iam dar na escada, que n\u00e3o havia nada a fazer sen\u00e3o ficar ali no banco, esperando o chamado que viria por detr\u00e1s, de uma delicadeza implac\u00e1vel. E ent\u00e3o? Perguntou-lhe a mulher. Assustou-se. Ent\u00e3o o qu\u00ea?! Ela passava creme na cara, fiscalizando-o atrav\u00e9s do espelho, mas ele n\u00e3o ia fazer sua gin\u00e1stica? Hoje n\u00e3o, disse massageando de leve a nuca, chega de gin\u00e1stica. Chega tamb\u00e9m de banho? ela perguntou enquando dava tapinhas no queixo. Ele cal\u00e7ou os chinelos: se n\u00e3o estivesse t\u00e3o cansado, poderia odi\u00e1-la. E como desafina! (agora ela cantarolava), nunca teve bom ouvido, a boz at\u00e9 que \u00e9 agrad\u00e1vel mas se n\u00e3o tem bom ouvido&#8230; Parou no meio do quarto: o inseto saindo do ouvido da est\u00e1tua n\u00e3o seria um sinal? S\u00f3 o inseto se movimentando no jardim parado. O inseto e a morte. Apanhou o ma\u00e7o de cigarro mas deixou-o, hoje fumaria menos. Abriu os bra\u00e7os: esse dolorimento na gaiola do peito era real ou mem\u00f3ria do sonho?<\/p>\n<p>Tive um sonho, ele disse passando por detr\u00e1s da mulher e tocando-lhe o ombro. Ela afetou curiosidade no leve arquear das sobrancelhas, um sonho? e recome\u00e7ou a espalhar o creme em torno dos olhos, preocupada demais com a pr\u00f3pria beleza para pensar em qualquer coisa que n\u00e3o tivesse liga\u00e7\u00e3o com essa beleza. Que j\u00e1 est\u00e1 perdendo o vi\u00e7o, ele resmungou ao entrar no banheiro. Examinou-se no espelho: estava mais magro ou essa imagem era apenas um eco multiplicador do jardim?<\/p>\n<p>Cumpriu a rotina da manh\u00e3 com uma curiosidade comovida, atento aos menores gestos, os gestos que sempre repetiu automaticamente e que agora analisava, fragmentando-os em c\u00e2mera lenta, como se fosse a primeira vez que abria uma torneira. Podia tamb\u00e9m ser a \u00faltima. Fechou-a, mas que sentimento era esse? Despedia-se e estava chegando. Ligou o aparelho de barbear, examinou-o atrav\u00e9s do espelho e num movimento caricioso aproximou-o da face: n\u00e3o sabia que amava assim a vida. Essa vida da qual falava com tamanho sarcasmo, com tamanho desprezo. Acho que ainda n\u00e3o estou preparado, foi o que tentei dizer, n\u00e3o estou preparado. Seria uma morte repentina, coisa do cora\u00e7\u00e3o &#8211; mas n\u00e3o \u00e9 o que eu detesto? O imprevisto, a mudan\u00e7a dos planos. Enxugou-se com indulgente ironia: exatamente isso era o que todos diziam. Os que iam morrer. E nunca pensaram sequer em se preparar, at\u00e9 o av\u00f4 velh\u00edssimo, quase cem anos e alarmado com a chegada do padre, mas est\u00e1 na hora? J\u00e1?<\/p>\n<p>Tomou o caf\u00e9 em goles mi\u00fados, como era gostoso o primeiro caf\u00e9. A manteiga se derretendo no p\u00e3o aquecido. O perfume das ma\u00e7\u00e3s de prazeres. Baixou o olhar para a mesa posta: os pequeninos objetos. Ao entregar-lhe o jornal, a mulher lembrou que tinham dois compromissos para a noite, um coquetel e um jantar, e se emend\u00e1ssemos? Ela sugeriu. Sim, emendar, ele disse. Mas n\u00e3o era o que faziam durante anos e anos, sem interrup\u00e7\u00e3o? O brilhante fio mundano era desenrolado infinitamente, dia ap\u00f3s dia, sim, emendaremos, repetiu. E afastou o jornal: mais importante do que todos os jornais do mundo era agora o raio de sol entrando pela janela at\u00e9 respassar as uvas do prato. Colheu um bago cor de mel e pensou que se houvesse uma abelha no jardim do sonho, ao menos uma abelha, podia ter esperan\u00e7a. Olhou para a mulher que passava gel\u00e9ia de laranja na torrada, uma gota amarelo-ouro escorrendo-lhe pelo dedo e ela rindo e lambendo o dedo, h\u00e1 quanto tempo tinha acabado o amor? Ficara esse jogo. Essa acomodada representa\u00e7\u00e3o j\u00e1 em decad\u00eancia por desfastio, pregui\u00e7a. Estendeu a m\u00e3o para acariciar-lhe a cabe\u00e7a, que pena, disse. Ela voltou-se, pena por qu\u00ea? Ele demorou o olhar nos seus cabelos encaracolados, como os da est\u00e1tua: uma pena aquele inseto, disse. E a perna ficar met\u00e1lica na metamorfose final, n\u00e3o se importe, estou delirando. Serviu-se de mais caf\u00e9. Mas estremceu quando ela lhe perguntou se por acaso n\u00e3o estava atrasado.<\/p>\n<p>\u00faltimo? Beijou o filho de uniforme azul, entretido em arrumar a pasta do col\u00e9gio, exatamente como fizera na v\u00e9spera. Como se n\u00e3o souvesse que naquela manh\u00e3 (ou noite?) o pai quase olhara a morte nos olhos. Mais um pouco e dou de cara com ela, segredou ao menino que n\u00e3o ouviu, conversava com o copeiro. Se n\u00e3o acordo antes, disse num tom forte e a mulher se debru\u00e7ou na jenala para avisar ao motorista que tirasse o carro. Vestiu o palet\u00f3: podia dizer o que quisesse, ningu\u00e9m se interessava. E por acaso eu me interesso pelo que dizem ou fazem? Afagou o cachorro que veio saud\u00e1-lo com uma alegria t\u00e3o cheia de saudade que se comoveu, n\u00e3o era extraordin\u00e1rio? A mulher, o filho, os empregados &#8211; todos continuavam imperme\u00e1veis, s\u00f3 o cachorro pressentira o perigo com seu faro vision\u00e1rio. Acendeu o cigarro, atento \u00e0 chama do palito queimando at\u00e9 o fim. Vagamente, de algum c\u00f4modo da casa, veio a voz do locutor de r\u00e1dio na previs\u00e3o do tempo. Quando se levantou, a mulher e o filho j\u00e1 tinham sa\u00eddo. Ficou olhando o caf\u00e9 esfriando no fundo da x\u00edcara. O beijo que lhe deram foi t\u00e3o autom\u00e1tico que nem sequer se lembrava de ter sido beijado. Telefone para o senhor, o copeiro veio avisar. Encarou-o: h\u00e1 mais de tr\u00eas anos aquele homem trabalhava ali ao lado e quase nada sabia sobre ele. Baixou a cabe\u00e7a, fez um gesto de quem se recusa e se desculpa. Tanta pressa nas rela\u00e7\u00f5es dentro de casa. L\u00e1 fora, um empres\u00e1rio de sucesso casado com uma mulher na moda. A outra fora igualmente ambiciosa mas n\u00e3o tinha charme e era preciso charme para investir nas festas, nas roupas. Investir no corpo, a gente tem que se preparar como se todos os dias tivesse um encontro de amor, ela repetiu mais de uma vez, olha a\u00ed, n\u00e3o me distraio, nenhum sinal de barriga! A distra\u00e7\u00e3o era de outro g\u00eanero. O doce distraimento de quem tem a vida pela frente, mas n\u00e3o tenho? Deixou cair o cigarro dentro da x\u00edcara: agora, n\u00e3o mais. O sonho interrompera o fluxo da sua vida no corte do jardim. O incr\u00edvel sonho fluindo t\u00e3o natural apesar da escada com seus degraus esburacados de t\u00e3o gastos. Apesar dos passos do ca\u00e7ador embutido, pisando na areia da mal\u00edcia fina at\u00e9 o toque no ombro: vamos?<\/p>\n<p>Entrou no carro, ligou o contato. O p\u00e9 esquerdo resvalou para o lado, recusando-se a obedecer. Repetiu o comando com mais energia e o p\u00e9 resistindo. Tentou mais vezes. N\u00e3o perder a calma, n\u00e3o se afobar, foi repetindo enquanto desligava a chave. Fechou o vidro. O sil\u00eancio. A quietude. De onde vinha esse perfume de ervas \u00famidas? Descansou no assento as m\u00e3os desinteressadas. A paisagem foi se aproximando numa aura de cobre velho, estava clareando ou escurecia? Levantou a cabe\u00e7a para o c\u00e9u esverdinhado, com a lua de calva exposta, coroada de folhas. Vacilou na alameda bordejada pela folhagem escura, mas o que \u00e9 isso, estou no jardim? De novo? E agora, acordado, espantou-se, examinando a gravata que ela escolhera para esse dia. Tocou na figueira, sim, outra vez a figueira. Enveredou pela alameda: um pouco mais e chegaria ao tanque seco. A mo\u00e7a dos p\u00e9s cariados ainda estava em suspenso, sem se decidir, com medo de molhar os p\u00e9s. Como ele mesmo, tanto cuidado em n\u00e3o se comprometer nunca, em n\u00e3o assumir a n\u00e3o ser as superf\u00edcies. Uma vela para Deus, outra para o Diabo. Sorriu das pr\u00f3prias m\u00e3os abertas, se oferecendo. Passei a vida asism, pensou, mergulhando-as nos bolsos num desesperado impulso de aprofundamento. Afastou-se antes que o inseto fofo irrompesse de dentro da pequenina orelha, n\u00e3o era absurdo? Isso da realidade imitar o sonho num jogo onde a mem\u00f3ria se sujeitava ao planificado. Planificado por quem? Assobiou e o Cristo da prociss\u00e3o foi se esbo\u00e7ando no esquife indevass\u00e1vel, t\u00e3o alto. A m\u00e3e enrolou-0 depressa no xale, a roupa do Senhor dos Passos era leve e tinha esfriado, est\u00e1 com frio, filho? Tudo se passava mais r\u00e1pido ou era apenas impress\u00e3o? A marcha funeral se precipitou em meio das tochas e correntes soprando fuma\u00e7a e brasa. E se eu tivesse mais uma chance? gritou. Tarde porque o Cristo j\u00e1 ia longe.<\/p>\n<p>O banco no centro do jardim. Afastou a teia despeda\u00e7ada e entre os dedos musgosos como o banco, vislumbrou o corpo do antigo trapezista enredado nos fios da rede, s\u00f3 a perna viva. Fez-lhe um afago e a perna n\u00e3o reagiu. Sentiu o bra\u00e7o tombar, met\u00e1lico, como era a alquimia? Se n\u00e3o fosse o chumbo derretido que lhe atingia o peito, sairia rodopiando pela alameda, descobri! Descobri. A alegria era quase insuport\u00e1vel: da primeira vez, escapei acordando. Agora, vou escapar dormindo. N\u00e3o era simples? Recostou a cabe\u00e7a no espaldar do banco, mas n\u00e3o era sutil? Enganar assim a morte saindo pela porta do sono. Preciso dormir, murmurou fechando os olhos. Por entre a sonol\u00eancia verde-cinza viu que retomava o sonho no ponto exato em que fora interrompido. A escada. Os passos. Sentiu o ombro tocado de leve. Voltou-se.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lygia Fagundes Telles O homem estranhou aquele c\u00e9u verde-cinza com a lua de cera coroada por um fino galho de \u00e1rvore, as folhas se desenhando nas min\u00facias sobre o fundo opaco. Era uma lua ou um sol apagado? 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